Você está na página 1de 111

DEZEMBRO 2012 ANO XXI NÚMERO 44

g g
COORDENAÇÃO EDITORIAL
Adriano Beiras (Instituto Noos)

EDITORES ASSOCIADOS
Helena Maffei Cruz (Instituto Familiae)
Marilene Grandesso (Interfaci/NUFAC-PUC-SP)

EDITORAS ANTERIORES
Gladis Brun (1991/1996)
Rosana Rapizo (1997/2005)

SUPERVISÃO EDITORIAL
Instituto Noos

PRODUTOR EXECUTIVO
Carlos Eduardo Zuma

PRODUÇÃO EDITORIAL
Anna Carla Ferreira

PROJETO GRÁFICO E CAPA


Amanda Simões

DIAGRAMAÇÃO
Ilustrarte Design e Produção Editorial

CONSELHO EDITORIAL
Azair Vicente/Instituto Familiae/Ribeirão Preto
Carla Guanaes Lorenzi/USP/SP
Eloisa Vidal Rosas/RJ
Emerson F. Rasera/UFU/MG As opiniões emitidas nos artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores.
Harlene Anderson/Taos Institute/EUA
Jorge Bergallo/Instituto Noos/RJ NOVA PERSPECTIVA SISTÊMICA é uma publicação quadrimestral do Instituto Noos, do
Marcelo Pakman/EUA Instituto Familiae e do Interfaci com distribuição dirigida. Registro: INPI 816634556
Rosa Maria S. Macedo/PUC/SP
Sallyann Roth/Family Institute of Cambridge/EUA Acesse o nosso site: www.revistanps.com.br
Saul Fuks/Fundación Moïru/Argentina
A revista Nova Perspectiva Sistêmica está indexada pelo Clase e pelo Latindex e tem
conceito B3 na Qualis.

PARECERISTAS AD HOC Liana Fortunato Costa/UnB/DF Rafael Diehl/UFPE/PE


Adriana Bellodi Costa César/Familiae/SP Mariana Gonçalves Boeckel/Faccat/RS Regina Jardim/PUC-Rio/RJ
Aimorá Losso Laus Veras Marianne Ramos Feijó/PUC-SP/Cogeae/ Renata Orlandi/UFFS
Azair Vicente/Familiae/SP FAMERP/FTSA Rita Flores Müller/Margens/UFSC
Carla Guanaes Lorenzi/USP/SP Marisa Lopes da Rocha/UERJ/RJ Roberta de Alencar Rodrigues
Cecília Cruz Villares/UNIFESP/SP Maristela Moraes/Instituto Papai/PE Rosa Maria S. Macedo/PUC-SP/SP
Celia Passos/ISA-ADRS/RJ Miriam Schenker/Uerj/RJ Roseli Righetti/Instituto Familiae/SP
Cibele Motta/UFSC Mônica Corrêa Meyer/ATF/RJ Solange Diuana/ATF/RJ
Emerson F. Rasera/UFU/MG Murilo dos Santos Moscheta/UEM/PR
Leonora Corsini/UFRJ/RJ Neyde Bittencourt de Araújo/Familiae/SP

Instituto Noos Instituto Familiae Interfaci


Rua Álvares Borgerth, 27 • Botafogo Rua Agisse, 56 • Parque das Bandeiras Avenida Rouxinol, 55 • conjunto 1111
Rio de Janeiro • RJ • Tel.: (21) 2197-1500 São Paulo • SP • Tel./Fax: (11) 3037-7652 Moema • São Paulo • SP
www.noos.org.br • editora@noos.org.br www.familiae.com.br • familiae@familiae.com.br www.interfaci.com.br
SUMÁRIO

5 EDITORIAL
Adriano Beiras

9 PERFORMANCE E IDENTIDADE: APONTAMENTOS PARA UMA APRECIAÇÃO


ESTÉTICO-RELACIONAL DO DESENVOLVIMENTO
PERFORMANCE AND IDENTITY: NOTES FOR AN AESTHETIC-RELATIONAL APPRAISAL OF
DEVELOPMENT
Murilo dos Santos Moscheta

21 GÊNERO, CULTURA E REDE SOCIAL: A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA


DESIGUALDADE DE GÊNERO POR MEIO DA LINGUAGEM
GENDER, CULTURE AND SOCIAL NET: THE SOCIAL CONSTRUCTION OF GENDER INEQUALITY BY
THE LANGUAGE.
Marianne Feijó e Rosa Macedo

35 O PROCESSO DE TRANSMISSÃO INTERGERACIONAL E A VIOLÊNCIA NO


CASAL
THE PROCESS OF INTERGENERATIONAL TRANSMISSION AND MARITAL VIOLENCE
Natalia Pinheiro Scantamburlo, Carmen Leontina Ojeda Ocampo Moré e
Maria Aparecida Crepaldi

49 COM LICENÇA, POSSO ENTRAR?


EXCUSE-ME, CAN I COME IN?
Paula Ayub

61 PIPA DA VIDA: PRÁTICAS NARRATIVAS CONECTANDO OS JOVENS PARA A


VIDA
THE KITE OF LIFE: PRACTICES NARRATIVES CONNECTING YOUNG TO LIFE
Marisol Lurdes de Andrade Seidl e Gislaine Oliveira Baptista

71 MEDIAÇÃO PARA IDOSOS EM SITUAÇÃO DE RISCO: TRABALHO


REALIZADO NO MINISTÉRIO PÚBLICO
MEDIATION IN ELDERLY PATIENS AT RISK: WORK DONE IN PUBLIC PROSECUTION
Alessandra Negrão Elias Martins, Maria Gabriela Mantaut Leifert e Mônica
Lodder de Oliveira Pereira

81 FAMÍLIA MONOPARENTAL MASCULINA: O COTIDIANO E SUAS


VICISSITUDES
SINGLE PARENT MALE FAMILY: THE EVERYDAY AND ITS VICISSITUDES
Juliana Ried e Andréia Chagas Pereira

94 Ecos • A ESCUTA DO TERAPEUTA


Eloisa Elena C. Carneiro

96 Família e Comunidade em Foco • ENTREVISTA COM DIVINA DOS SANTOS


Helena Maffei Cruz

100 Conversando com a mídia •“E O PALHAÇO, O QUE É?”


Marie Ubirayara Kichise Pedra, Marina Lima Duarte Moreira e Roberta dos
Reis Góes

103 O QUE MAIS VOCÊ DESEJA?


Eliana Maria Moreira

105 Estante de Livros • MAPAS DA PRÁTICA NARRATIVA


Marilene Grandesso
EDITORIAL 5

É
com alegria que fechamos o ano com muitos avanços, aprendizados e cres-
cimentos. Aceitamos grandes desafios, que nos cobram continuidade e nos
dão ânimo para seguir. E claro, agradecemos imensamente a você, leitor ou
leitora, que faz a revista acontecer e que é o foco de nosso olhar, da construção
conjunta de uma revista especializada, no contexto nacional, em construcionismo
social, nas práticas sistêmicas, comunitárias e de terapia de família e de casal.
A edição 44 finaliza o ano com interessantes reflexões teórico-críticas e profis-
sionais, relatos de experiência e pesquisa. Os três primeiros artigos desta edição
contemplam reflexões teóricas e críticas em diferentes temas. Para começar, te-
mos o artigo de Murilo dos Santos Moscheta intitulado Performance e Identidade:
apontamentos para uma apreciação estético-relacional do desenvolvimento. Escrito
a partir de articulações com as experiências do autor, como pessoa, terapeuta
e professor, e referenciais poéticos e teóricos, busca promover uma apreciação
ético-estética da vida em seu curso, desenvolvendo o tema da identidade e das
teorias de desenvolvimento, e o caráter performático da identidade. Visa trazer
à discussão um viés estético do desenvolvimento, onde se articulam noções de
criação, de processo e também de improvisação.
O segundo texto desta edição, Gênero, cultura e rede social: a construção social da
desigualdade de gênero por meio da linguagem, escrito por Marianne Feijó e Rosa
Macedo, ������������������������������������������������������������������
é ����������������������������������������������������������������
um convite �����������������������������������������������������
à ���������������������������������������������������
reflexão sobre a linguagem como um mecanismo de ma-
nutenção das desigualdades de gênero. As autoras apontam, portanto, a possibili-
dade de mudança de padrões relacionais desiguais, atentas a questões culturais e
da mídia. Dirigem a reflexão ao trabalho clínico com família e casais. É um tema
necessário e pertinente para nossas práticas clínicas e desafios contemporâneos.
Na sequência, temos o texto O processo de transmissão intergeracional e a violên-
cia no casal, escrito por Natalia Scantamburlo, Carmen Moré e Maria Aparecida
Crepaldi. Trata-se de uma revisão teórica que discute e problematiza o reconhe-
cimento do processo da transmissão intergeracional da violência e os modelos
explicativos da violência no casal heterossexual, alertando sobre os efeitos de uma
leitura linear, determinista, dicotomizada ou fragmentada em uma problemática
de grande complexidade.
Nosso segundo bloco de artigos contempla variadas experiências práticas na clí-
nica, no âmbito privado e institucional. Primeiramente apresentamos o texto de
Paula Ayub, Com licença, posso entrar?, no qual a autora busca realizar uma reflexão
teórico-prática sobre atendimentos domiciliares a pessoas com dificuldades no de-
senvolvimento e na aquisição de linguagem verbal, tomando por base práticas co-
6 NPS 44 | Dezembro 2012
laborativas. O segundo texto, Pipa da vida: práticas narrativas conectando os jovens
para a vida, de Marisol Lurdes de Andrade Seidl, relata a experiência de ações em
psicologia comunitária com um grupo de adolescentes em situação de risco social,
por meio de práticas narrativas. A intervenção é realizada a partir da metodologia
“Pipa da vida”. A experiência produz uma reconexão desses adolescentes com suas
famílias de origem, produzindo o fortalecimento de alianças intergeracionais.
Finalizando este bloco de experiências práticas, apresentamos o artigo Me-
diação para idosos em situação de risco: trabalho realizado no ministério público,
escrito por Alessandra Martins, Maria Gabriela Leifert e�����������������������
Mônica ���������������
Pereira. As au-
toras apresentam uma experiência inovadora desenvolvida no Ministério Públi-
co de São Paulo: um projeto de mediação transformativa para famílias de idosos
em situações de risco. Como resultado, depois de um ano de trabalho no projeto,
perceberam a mudança relacional dos familiares, o fortalecimento de laços e a
capacitação na resolução de diferenças.
Por último, apresentamos um texto de pesquisa empírica de estudo de caso,
intitulado Família monoparental masculina: o cotidiano e suas vicissitudes, escrito
por Juliana Ried e Andréia Pereira. As autoras trazem reflexões sobre configura-
ções familiares na contemporaneidade por meio de um estudo de caso de uma
família monoparental masculina no sul do Brasil, dando visibilidade à����������
�����������
experiên-
cia destes sujeitos, suas vivências cotidianas e particularidades.
A seção Ecos foi escrita por Eloisa Elena C. Carneiro, que revisita dois artigos
de nossa edição anterior, o primeiro sobre um programa de assistência familiar
em um hospital-dia psiquiátrico e o segundo sobre supervisão de equipes em
centros de referência de assistência social. Por meio da leitura desses textos, ela
produziu reflexões sobre a escuta do terapeuta e sobre encontros de saberes, que
nos convidam a uma releitura desses escritos e avançam no diálogo que pro-
põem ao leitor e à leitora.
Na seção Família e comunidade em foco, nossa coeditora, Helena Maffei
Cruz, realiza uma entrevista com a psicóloga Divina dos Santos sobre o pre-
miado projeto chamado “Encontro de Gerações”, realizado em Caraguatatuba,
São Paulo. Este projeto consiste em trocas de correspondências entre crianças e
idosos, que promovem um processo de mudança de atitudes e construção de va-
lores éticos. Essa iniciativa nos chamou a atenção, provocando o desejo de com-
partilhar esta rica experiência, tão em sintonia com nossas práticas sistêmicas,
narrativas e comunitárias e os pressupostos teóricos do construcionismo social
com os leitores e leitoras da revista.
Na seção Conversando com a mídia, Marie Pedra, Marina Moreira e Roberta
Góes nos trazem o filme O palhaço, com importantes reflexões sobre a identi-
dade, as raízes familiares e os legados que constituem o que nos tornamos como
sujeitos. Um filme que nos conecta �������������������������������������������
���������������������������������������������
nossa prática clínica e nos ajuda a compre-
ender a temática. Em adicional, nesta edição, trazemos também a reflexão de
Eliana Maria Moreira sobre a película O que eu mais desejo?. É um filme que nos
remete ao trabalho com crianças em nossas práticas clínicas. Segundo nos conta
Eliana, é uma obra cinematográfica cuja narrativa gira em torno de crianças e
sua forma de pensar, de agir e de sentir o mundo. Relata a história de dois irmãos
separados após o divórcio dos pais. Ambos os filmes nos desafiam e dialogam
com nosso trabalho clínico, promovendo ideias, saberes e experiências.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 5-7, dez. 2012.


Por fim, na seção Estante de livros, temos a participação de Marilene Grandes-
EDITORIAL 7
so, nossa coeditora, que gentilmente nos traz a resenha de um dos livros mais im-
portantes de Michael White, Mapas da prática narrativa, recentemente traduzido
para a língua portuguesa. Um livro que sintetiza alguns dos principais ensina-
mentos do autor. Segundo Grandesso, as principais áreas para o desenvolvimento
de práticas narrativas estão descritas minuciosamente, e há relatos sobre a prática
clínica do autor.
Assim fechamos o ano, não sem antes agradecer a todas as nossas colaborado-
ras e colaboradores que, juntos, permitiram a construção de mais um ano de edi-
ções de nossa revista, seja através de artigos, seções ou revisões ad hoc, ou ainda
com ideias, críticas e sugestões que nos ajudaram a avançar, crescer e enfrentar
novos desafios. Em nome de toda a equipe editorial, muito obrigado! Boa leitura
a todos e todas!

Adriano Beiras

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 5-7, dez. 2012.


ARTIGO

PERFORMANCE E IDENTIDADE: APONTAMENTOS


PARA UMA APRECIAÇÃO ESTÉTICO-RELACIONAL
DO DESENVOLVIMENTO

PERFORMANCE AND IDENTITY: NOTES FOR AN AESTHETIC-RELATIONAL


APPRAISAL OF DEVELOPMENT

RESUMO: A Psicologia, enquanto projeto científico ABSTRACT: Psychology, as a modern scien- MURILO DOS SANTOS
que emerge na modernidade, produziu um conjunto tific project, produced a set of theories about MOSCHETA
de teorias sobre desenvolvimento que valorizaram a development that has exalted the idea of Professor adjunto do
ideia de indivíduo e identidade. Neste texto, discuto identity and individuals. In this text, I discuss departamento de psicologia
algumas possibilidades de considerar a identidade some possibilities to consider identity from a da Universidade Estadual de
a partir da contribuição de autores pós-modernos. postmodern perspective. In order to do that, I Maringá.
Para isso, retomo as contribuições de Lois Holzman recover Lois Holzman’s contribution – as she
que articula a teoria da atividade de Lev Vygotsky e articulates Lev Vygotsky’s activity theory and
a dialética marxista na construção de um modelo marxist dialectics – toward the construction
de desenvolvimento que rompe com a noção de um of a development model that avoids the notion
sujeito que evolui a partir e ao redor de uma iden- of a individual subject who evolves from and
tidade. A proposta pós-moderna de compreensão around an identity. In this direction, this text
do desenvolvimento transgride a separação ciên- elaborates some possibilities to consider deve-
cia/arte e assume o caráter performático da identi- lopment in an aesthetic framework articulating
dade. Neste sentido, o texto busca refletir sobre al- it with concepts such as creation, process and
gumas possibilidades de pensar o desenvolvimento improvisation.
por um viés estético, articulando-o com as noções
de criação, processo e improvisação. KEYWORDS: postmodern, identity, development,
performance, psychology.
PALAVRAS-CHAVE: pós-modernidade, identida-
de, desenvolvimento, performance, psicologia.

Tudo se finge primeiro, germina autêntico é depois. Recebido em 30/07/2012.


João Guimarães Rosa, Tutaméia Aprovado em 28/08/2012.

Afirmar que a vida é um movimento não é nenhuma novidade. Contudo, a ob-


viedade da afirmação não a torna menos fácil de ser esquecida. Se é evidente que a
vida se desenrola em um fluxo contínuo, é também verdade que tendemos a falar
dela como se fosse estável e estanque. E o modo como falamos não apenas descre-
ve, mas circunscreve determinadas formas de vida. Neste texto, pretendo articular
experiências pessoais (como pessoa, terapeuta e professor), referências poéticas e
aportes teóricos com o objetivo de contribuir com a construção de uma apreciação
ético-estética da vida em seu processo. Parece-me que esta tarefa é necessária em
face de certa tendência contemporânea em falar da vida como produto, mercadoria
ou aquisição. A meu ver, este modo de tratar a vida como um percurso acumulativo
promove prejuízos, estreita possibilida- de Karl Marx e da filosofia da lingua-
10 NPS 44 | Dezembro 2012
des e constrói zonas de discriminação e gem de Ludwig Wittgenstein ������
(Holz-
exclusão. man, 2009, 1999; Holzman & Mendez,
As considerações que apresento aqui 2003; Goldberg & Newman, 1996).
são desenvolvimentos de uma confe- O diálogo com estes autores se deu
rência que fiz em 2010 para alunos de justamente porque eles se dedicam à
um curso de psicologia em ocasião das exploração daquilo que a psicologia
comemorações do dia do psicólogo. técnica e conceitualmente denominou
Provocativamente, entitulei esta confe- de “desenvolvimento”, e que eu, no iní-
rência de “psicólogo ou artista?” na ten- cio deste texto, vagamente chamei de
tativa de motivar os alunos a refletirem “movimento da vida”.
sobre o equívoco desta distinção e os
riscos decorrentes da separação entre
ciência e arte. Propus, naquela ocasião, DESENVOLVIMENTO E IDENTIDADE
que a identidade profissional de psicó-
logo era mais que um produto deriva- Afirmei anteriormente que o mo-
do das formalidades de uma formação vimento da vida parece tão evidente
universitária, e sim, uma composição quanto nossa facilidade em tratá-la
artesanal, inventiva e incompleta. Con- em termos de estabilidade. Gostaria de
videi-os, portanto, a abraçar o proces- desenvolver mais esta ideia por meio
so de criar as ferramentas profissionais de uma ilustração. Logo que retornei
que, ilusoriamente, talvez pensassem ao Brasil, após um ano distante, parte
que poderiam simplesmente assimilar de minha rotina consistia em reencon-
ao longo do curso universitário. Ao trar pessoas com as quais me impor-
avançar na discussão que iniciei na- tava e que, de alguma forma, partici-
quela conferência, e ao elaborá-la em pavam de minha vida. Encontrei-me,
texto para esta revista, tentei ampliar o por exemplo, com uma amiga que me
conjunto de meus interlocutores ima- contou sobre seus planos de aposen-
ginários, considerando que aquilo que tar-se nos próximos anos. Outra ami-
escrevo pode ser útil e inspirador para ga falou-me sobre sua transição para
aqueles que já passaram pelo umbral uma nova cidade, na qual ela iniciaria
identitário da formação universitária, sua carreira como funcionária pública.
tais como terapeutas, professores e as- Há não mais que dois meses, morre-
sistentes sociais. Contudo, reconheço ra o marido de uma colega que, entre
que o estilo e o tom de minha redação lágrimas, me falava das suas dificul-
ainda ecoam, de modo mais específico, dades em viver o luto. Enlutada esta-
as tensões e angústias bastante comuns va também minha vizinha, tentando
aos meus alunos em vésperas de for- recompor a vida após uma dramática
matura. separação. Meu segundo sobrinho ha-
Nas articulações que faço a seguir, via nascido, no mesmo dia em que o
foram-me especialmente úteis as con- senhor aposentado que passava as tar-
tribuições de autores construcionis- des na calçada da minha rua havia sido
tas sociais e, especificamente, de Lois internado em alguma UTI. De um ou-
Holzman e Fred Newman. Holzman e tro hospital, telefonou-me uma amiga
Newman têm investido em uma com- que desejava dar-me boas vindas. Ela
preensão do desenvolvimento huma- aguardava o início de sua primeira ses-
no que integra aportes da teoria da são de quimioterapia para o tratamen-
atividade de Lev Vygotsky, da dialética to do Lúpus recém-descoberto.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


Eu revia pessoas queridas ao mes- desenvolvimento está em acompanhar Performance e Identidade:
apontamentos para uma 11
mo tempo em que, novamente, despe- as mudanças ao longo do ciclo vital, os apreciação...
dia-me delas. Eu estava preparando- métodos de estudos longitudinais são Murilo dos Santos Moscheta

-me para retornar à cidade que havia os mais utilizados. Como é comum a
deixado havia 11 anos. Para muitos outras áreas de estudos psicológicos,
de meus amigos, as razões pessoais e multiplicam-se as teorias que funda-
profissionais de minha mudança não mentam as propostas de compreensão
soavam convincentes. Para eles, eu dos diversos autores, variando segun-
não podia deixar a vida ‘“estável” que do suas preferências pela discussão
arduamente havia construído naque- dos aspectos histórico-culturais, men-
la cidade ao longo dos anos. Eu me tais, comportamentais e insconcientes.
perguntava, onde é que estava o es- Contudo, parece comum às diversas
tável de que eles falavam? Pois para abordagens a tendência em discutir o
onde quer que olhasse, o que via era desenvolvimento a partir de uma di-
a vida em seu movimento de nascer, visão fundamental entre interior e ex-
morrer, trabalhar, mudar de emprego, terior, correspondente à divisão inato/
aposentar, separar, adoecer, chegar e adquirido e sujeito/sociedade ������
(Holz-
partir. A estabilidade é uma ilusão que man, 1999). E na medida em que estas
nasce da quietude. Logo, a vida vem diferentes abordagens buscam com-
nos chacoalhar dentro de seus vagões preender as mudanças ao longo do de-
e nos lembrar que o trem não estava senvolvimento em uma linha coerente
parado, estava apenas marchando em e evolutiva, é também comum que elas
trecho sereno. “A vida é assim”, diz produzam a noção de um sujeito coe-
Guimarães Rosa (2001/1956, p. 244), so e estável. Estuda-se a mudança para
“esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, entender o que permanece – investi-
sossega e depois desinquieta. O que ela gam-se rupturas para que se estabe-
quer da gente é coragem”. leçam relações. Na diversidade destas
De modo geral, desenvolvimento é teorias, sedimenta-se um suposto su-
o termo que a psicologia utiliza para jeito. Esse sujeito percorre o tempo da
descrever as mudanças nas variáveis existência – de seu nascimento a sua
afetivas, cognitivas, sociais e bioló- morte – e de cada crise, fase ou estágio
gicas relacionadas ao ciclo vital de que atravessa retira um saldo que se
uma pessoa (Mota, 2005). Trata-se acumula, um sobre outro, no depósito
de um campo de investigação dedica- que chamará de identidade.
do à compreensão dos processos que Legado da tradição científica mo-
permitem que as pessoas se tornem derna, a identidade é um conceito re-
quem elas são. Para aqueles preocu- corrente na psicologia. Muitas teorias
pados com a as funções cognitivas, psicológicas compartilham o pressu-
trata-se de investigar quando e como posto de que o desenvolvimento orga-
uma criança desenvolve a capacidade niza e é organizado ao redor de uma
de pensar em termos abstratos, por identidade que progride na medida
exemplo. Para os mais interessados em em que o indivíduo avança em uma
entender as mudanças nas variáveis certa direção. Em geral, essa direção
sociais, trata-se de tentar compreender é única e delimita também uma úni-
como estabelecemos as noções de cer- ca identidade. Desde o Iluminismo, a
to, errado e ajustado que pautam nos- ideia de identidade coincide com a no-
sas relações com os outros. Uma vez ção de indivíduo, como entidade inde-
que o interesse dos pesquisadores do pendente, racional e consciente. Nesta

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


concepção de identidade, pressupõe- XX ampliaram imensamente nossas
12 NPS 44 | Dezembro 2012
-se um núcleo interior que se modifi- possibilidades de contatos sociais. As
ca ao longo do desenvolvimento, mas redes sociais se expandiram a ponto de
que também permanece idêntico em saturação. O sujeito contemporâneo se
alguns aspectos (de onde deriva-se a conecta imediatamente com aqueles
palavra identidade). que vivem a seu redor e mediatamente
A partir das considerações da so- com outras pessoas que podem estar
ciologia, a noção de sujeito conforme em qualquer lugar do mundo. Televi-
delimitada pelo Iluminismo foi recon- são, internet, telefone e outras formas
siderada, passando a incluir o caráter de comunicação transpuseram o iso-
relacional da identidade (Hall, 2006). lamento geográfico e colocaram em
Diferente do sujeito do Iluminismo, contato pessoas e culturas que nunca
o sujeito sociológico é constituído na antes haviam se aproximado. Ao mes-
interação com a sociedade, no fluxo mo tempo em que eu escrevo estas
de trocas entre o mundo interno e ex- linhas em meu computador portátil,
terno. Embora diferente, a concepção por exemplo, noto que meu programa
de sujeito sociológico mantém tanto de e-mail acusa o recebimento de mais
a divisão entre interno e externo en- uma mensagem (provavelmente de um
quanto campos distintos quanto a amigo que mora a 600km de distân-
noção de singularidade identitária, cia). Quando terminar este parágrafo,
presentes na concepção iluminista. posso checar as atualizações que meus
Estas duas divisões seriam desafiadas amigos “postaram” na rede social vir-
na pós-modernidade. tual na qual participamos, contando o
O sujeito pós-moderno é, para que acontece em Nova York, Amster-
Hall (2006), aquele que não tem uma dam, Nepal, Nigéria, Uganda, Suíça etc.
identidade essencial ou permanente. No fim do dia, quando desligar o com-
É o sujeito que participa de diferentes putador e for correr no parque, poderei
sistemas culturais e que assume, em ainda manter-me conectado por meio
cada um deles, contornos identitários do meu telefone celular que a cada 15
diversos em conformidade com as minutos vibra com a chegada de mais
formas como é representado e inter- uma mensagem. É essa imersão em
pretado nesses diferentes contextos. A um universo de constante interlocução
identidade é histórica (em oposição à que desafiará não apenas o isolamento
biológica), transitória (em oposição à geográfico que outrora cincunscreveu
estável e acumulativa), contextual (em condições de pertencimento local, mas
oposição à individual) e contraditória também a possibilidade de definição
(em oposição à coerente e unifica- de uma identidade (um eu, ou um
da). Paradoxalmente, o que identifica self) descolada das tramas sociais que
o sujeito pós-moderno é justamente a atravessam.
sua impossibilidade de identificação a O conceito de identidade pode ser
partir de categorias estáveis, essenciais então formulado como uma conquista
e universais. discursiva, ou seja, a noção de que nos-
A mudança no modo como entende- sa história se dá com uma certa linea-
mos desenvolvimento e identidade tem ridade decorre da produção de uma
sido analisada como uma decorrência narrativa que empresta à vida uma
dos avanços tecnológicos do último sé- dada organização. Ao narrarmos nos-
culo. Para Gergen (1991), as inovações sa resposta à pergunta “quem sou eu?”,
tecnológicas que surgiram no século produzimos um enredo que obedece a

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


regras de temporalidade e causalida- tor joga com construções linguísticas Performance e Identidade:
apontamentos para uma 13
de. Editamos aquilo que não combina para produzir beleza na reativação da apreciação...
com a história: somem os becos, os polissemia das palavras, a importância Murilo dos Santos Moscheta

atalhos, as ruas sem-saída, as hesita- do texto científico está na capacida-


ções, as vagueações em círculos... Fica de de o cientista usar as palavras para
apenas uma história passada a limpo. E produzir um relato coerente e preciso
é desta história editada que derivamos acerca daquilo que investiga. Por isso,
a ilusão de uma única personagem. Na antes que os psicólogos se dessem con-
pós-modernidade, a identidade pode ta, a partir da crítica pós-moderna,
ser vista como personagem. da impossibilidade do “conhece-te a
Assim, a metáfora utilizada para ti mesmo” ensimesmado, os artistas
falar de identidade na pós-moderni- já reconheciam (e produziam a partir
dade tem sido emprestada do campo daí) a fragmentação e transitoriedade
das artes cênicas. Não há neste uso, da identidade. Artistas ficaram menos
contudo, o tom moralizante que cos- preocupados com a veracidade de sua
tumeiramente acompanha a ideia de produção do que os psicólogos com a
uma personagem, como se por trás da exatidão de suas teorias. Artistas assu-
máscara da representação, se escon- miram, portanto, a tarefa de construir
desse o autêntico autor e ator. Como experiências humanas, enquanto psi-
detalharei a seguir, o sujeito coincide, cólogos ainda buscavam explicá-las
e não antecede a performance de sua de modo inequívoco e supostamente
personagem. E é apenas esta perfor- “verdadeiro”.
mance que ele/ela terá para chamar de Neste sentido, pode-se dizer que,
eu. Na pós-modernidade, as metáforas para o teatro, a pessoa do ator tem
do teatro têm inspirado algumas for- menos importância que a construção
mulações no campo da psicologia que performática de sua personagem. Para
abrem a possibilidade de refletirmos a psicologia, contudo, o sentido parece
sobre desenvolvimento e identidade ser inverso: ainda procura-se a pessoa
enquanto arte. real que se esconde por trás de suas
máscaras, a identidade individual que
se constrói no interior de um sujeito
IDENTIDADE COMO PERFORMANCE singular, do verdadeiro self, do autên-
tico e saudável eu.
O campo das artes cênicas (e das É na pós-modernidade que a sepa-
artes em geral) parece ter assumido, ração arte/ciência começa a ser desfei-
muito antes da psicologia, os desafios ta. O trabalho de Lois Holzman, Fred
propostos pela pós-modernidade. A Newman e demais pesquisadores que
distinção entre arte e ciência operada compõem o East Side Institute em
na modernidade outorgou à primeira Nova York toma o teatro como mode-
liberdades que o rigor cartesiano res- lo para sua teoria de desenvolvimento
tringiu à segunda. De acordo com esta psicológico. Fundamentada na teoria
separação, é tarefa da ciência empe- da atividade de Lev Vigosky, Holzman
nhar-se em produzir descrições verda- define desenvolvimento como o pro-
deiras da realidade, enquanto as artes cesso de tornarmo-nos o que somos,
devem produzir representações este- por meio da performance daquilo que
ticamente interessantes da vida (Law, ainda não somos (Holzman, 2009).
2004). Se o valor de um poema, por Para aqueles que não estão fami-
exemplo, está na maneira como o au- liarizados com a proposta teórica de

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


Vygotsky, vale a pena apresentar uma É uma nova ontologia que pode acabar
14 NPS 44 | Dezembro 2012
ilustração. Como o bebê aprende a fa- com a necessidade de paradigmas. Esta
lar? O bebê balbucia alguns sons. Os posição radical contra o paradigmatismo
adultos ao redor completam o sentido (e epistemologia, explicação e conheci-
daqueles sons: “você quer água!” “é o mento) tem sido nosso foco de interesse,
cachorro!” “a mamãe”. Objetivamente, na medida em que queremos que outros
o bebê não está falando nada. Ele não se interessem pela criação de novas “for-
conhece nem domina os signos que mas de olhar” sintetizadas em “novas
compõem a linguagem. No entan- maneiras de ser” (Holzman, 2009, p. 3).
to, os adultos se relacionam com ele
“como se” fosse um ser falante. Neste Holzman critica o mentalismo e o
sentido, o bebê é um “ator” que faz privilégio da cognição presente na for-
a performance da fala – fala que ele mulação de um paradigma. Para ela,
desconhece. Os adultos (atores co- ao construir um paradigma, estamos
adjuvantes segundo esta metáfora) criando uma articulação conceitual
completam e dão suporte à perfor- que informaria nosso entendimento
mance do bebê. Quando escutamos do mundo. Neste sentido, paradigmas
o bebê dizer: ããe, ããe, dizemos: “Ah, são ferramentas utilizadas para um de-
você quer a mamãe!” Não conheço terminado resultado. Para Holzman, a
ninguém que diga: “Vou ficar aqui teoria da atividade oferece um modelo
olhando para você até que aprenda a dialético segundo o qual a ferramenta
dizer corretamente o que quer!” Nes- e seu resultado são criados juntos. Nas
te sentido, os adultos não se relacio- atividades que os bebês desenvolvem
nam apenas com aquilo que o bebê é, conjuntamente com seus cuidadores, o
eles incluem aquilo que o bebê está se processo de aprendizagem e o produto
tornando. Por meio de sua desajeita- da aprendizagem são criados ao mes-
da performance de um ser-falante, o mo tempo. Não se trata de uma aplica-
bebê torna-se um ser-falante. Ele não ção de um método para a obtenção de
aprende a falar primeiro para depois um resultado, mas da criação do méto-
começar a falar. Ele se torna o que do e seu resultado conjuntamente.
é, por meio da performance daquilo É neste sentido que a performan-
que ainda não é. A este campo rela- ce ganhará destaque como unidade
cional de desenvolvimento Vygotsky de criação/compreensão que nos au-
chamou de Zona de Desenvolvimen- xiliaria a superar diversos dualismos
to Proximal. impregnados nas teorias psicológicas:
Embora diretamente ligada à pro- biologia/cultura, comportamento/
posta teórica de Vygotsky, a teoria de consciência, pensamento/fala, apren-
Holzman e Newman avança sobretu- dizado/desenvolvimento, indivíduo/
do na aproximação da psicologia com sociedade. Holzman reconhece que a
a arte. Para Holzman, sua proposta discussão sobre as possibilidades de
não oferece um novo paradigma para superação de dualismos tem estado
se entender o desenvolvimento, tal presente no trabalho de vários pesqui-
qual parece ser a apropriação mais co- sadores e psicólogos que se inspiram
mum daqueles que estudam a obra de em Vygostky. Contudo, a separação
Vygotsky, mas assume que a teoria da entre emoção e cognição tem sido um
atividade cria um método radical, que campo relativamente negligenciado.
prescinde de um paradigma. Como No campo da prática psicoterapêu-
afirma a autora: tica, é provável que muitos terapeutas

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


desconheçam as possibilidades de ar- linear que define estágios pelos quais Performance e Identidade:
apontamentos para uma 15
ticulação da teoria de Vygotsky com um indivíduo deve passar (como, por apreciação...
a psicoterapia, com exceção daqueles exemplo, na teoria de Piaget ou mes- Murilo dos Santos Moscheta

que por alguma razão conhecem o mo no delineamento dos estágios


trabalho de John Shotter ou Michael de desenvolvimento psicossexual de
White. As propostas psicoterapêuticas Freud), Vygotsky permitirá conceituá-
seguem privilegiando ora o comporta- -lo como o movimento de criar zonas
mento, ora os conflitos inconscientes, relacionais nas quais “somos” e “nos
ora a modificação de condutas, ora tornamos”. Ao invés de pensar em es-
a introspecção. O dualismo que cria tágios do desenvolvimento, passamos
unidades de análise (ou tratamento) a pensar em estágios para o desenvol-
distintas promove a separação entre vimento.
produto e processo e, assim, operam Identidade passa a ser o conjunto
de modo alienante. É dessa forma que das performances que sustentamos
as proposições de Marx serão retoma- na vida. Não existe aqui nenhuma so-
das por Holzman e Newman em seu bredeterminação, seja da contingência
sentido revolucionário (Holzman, adaptativa do comportamento, das
1999)*. Para eles, uma psicologia e predisposições biológicas ou das for-
uma psicoterapia informada pela te- ças inconscientes. Retomando a ilus-
oria da atividade teria como objetivo tração que apresentei anteriormente,
auxiliar as pessoas a se relacionarem posso dizer que o espanto de alguns
consigo e com o mundo de modo des- de meus amigos diante de minha de-
-alienado e, portanto, transformador. cisão de mudar de cidade era fruto da
A mudança “de-si” não se daria sem percepção de que esta mudança não se
a mudança das condições sociais, his- encaixava na narrativa linear que eu
tóricas e relacionais nas quais alguém construíra com eles sobre minha vida
vive. Desenvolver-se emocionalmente até então. Era uma ruptura em relação
e criar o ambiente para novas emoções àquilo que eu era naquele conjunto de
são a mesma tarefa (Camargo-Borges, relações. Contudo, a mudança que eu
2011). Na metáfora de Vygotsky, a promovia sutentava-se em um con-
ferramenta e seu resultado são diale- junto de outras relações e era uma
ticamente criados ao mesmo tempo. tentativa de criar um contexto no qual
Como descreve Holzman: eu pudesse, justamente, tornar-me al-
guém que eu ainda não era. Enquanto
Vygotsky entendeu o desenvolvimen- meus amigos se relacionavam com o
to humano como dialético, contínuo e que eu era e deixaria de ser, eu pro-
permanentemente emergente a partir curava criar as condições para ser um
da atividade coletiva definida histórica- outro.
sócio-culturalmente. Na linguagem con-
temporânea, nós, os humanos, criamos
nosso desenvolvimento; ele não acontece A IDENTIDADE COMO PERFORMANCE E
para nós. A evidência? Nossa capacidade SUAS POSSIBILIDADES
* Para uma introdução
para a dialética: da infância à velhice nós mais detalhada sobre as
somos “quem-somos” e ao mesmo tempo A descrição da identidade como proposições de Lois Holzman
um conjunto de performances ense- e Fred Newman no campo das
“quem-não-somos” (2006, pp. 7-8).
psicoterapias, o leitor pode
ja uma abertura para possibilidades recorrer ao texto Terapia Social:
Assim, ao invés de conceber o de- e para esperança. É um convite a nos Desenvolvimento Humano e
Mudança Social, de Camargo-
senvolvimento como um percurso relacionarmos conosco e com os ou- Borges (2011).

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


tros de modo dialético e revolucioná- ideal. Mais importante que a escolha
16 NPS 44 | Dezembro 2012
rio. Note-se que, muitas vezes, tende- que fizessem, era a forma como se re-
mos a nos relacionar com as pessoas, lacionavam com ela. A escolha de uma
com nossas escolhas, com a vida como abordagem terapêutica – e talvez toda
se fossem, e esquecemos de incluir a as escolhas que fazemos – é um ponto
percepção daquilo que estão se tor- de partida e não um destino progra-
nando. E aquilo que estamos nos tor- mado. Escolhemos de onde começa-
nando é, muitas vezes, o aspecto mais mos (e estamos sempre no começo,
importante daquilo que somos. Em até mesmo quando chegamos ao fim),
um relacionamento, por exemplo, as mas não podemos prever onde chega-
pessoas dizem: meu marido é, minha remos. Decidimos para onde vamos e
mulher é, eu sou... Definimos o ou- chegamos, geralmente, em algum ou-
tro e a nós mesmos, excluindo aquilo tro lugar.
que estamos nos tornando. Que pos- Na expressão poética de Cecília
sibilidades se abrem para nós quando Meireles, a vida é um desenho:
nos perguntamos: quem estamos nos
tornando nessa relação? Ou como eu Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua me-
posso responder a meu companheiro mória.
de modo a participar daquilo que ele Construirás os labirintos impermanentes
está se tornando? que sucessivamente habitarás.
Retomando minha experiência Todos os dias estarás refazendo o teu de-
como professor, recordo que, às vés- senho.
peras da formatura, meus alunos se Não te fatigues logo. Tens trabalho para
apresentavam nas supervisões de es- toda a vida.
tágio com alto nível de angústia. Eles E nem para o teu sepulcro terás a medida
se perguntavam e se debatiam com a certa (2002, pp. 45).
escolha de que tipo de psicólogo eles
seriam. E eles falavam como se hou- O perigo de nos relacionarmos com
vesse um cardápio a partir do qual as escolhas como se fossem pontos de
eles pudessem escolher. Para aqueles chegada, e não de partida, é deixarmos
que desejavam exercer a psicologia de nos ver como autores da história
clínica, a escolha era bem estreita: se- que estamos construindo e perder-
guiriam uma perspectiva psicanalítica mos a perspectiva criativa. Na “lógica
ou comportamental, pois eram estes da chegada”, as escolhas ganham um
dois campos que a faculdade lhes per- caráter definitivo. Viram produtos na
mitia conhecer por meio dos estágios prateleira da existência. O tempo e o
profissionalizantes. Este era o estreito percurso do eu-atual até o eu-desejado
horizonte de suas possíveis escolhas. fica encurtado e ignorado. Quando o
Muito estreito. Lembro-me de respon- destino passa a valer mais que o traje-
der a eles que a escolha que fizessem to, a viagem perde a graça – ela é ape-
seria um ponto de partida, não de nas tempo e espaço que nos separa de
chegada. Meus alunos sofriam porque nosso desejo. Todo horizonte fica re-
entendiam que a abordagem que esco- duzido a este grão de sonho.
lhessem determinaria o tipo de tera- Isto que chamo da “lógica da chega-
peuta que eles seriam. Pensavam que da” ou “lógica da partida” pode ser des-
esta escolha determinava um caminho crito como a diferença entre produto e
que deveriam percorrer, sem erros, até processo. A limitação que vejo nas teo-
chegarem ao seu destino: o terapeuta rias que definem identidade como algo

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


único, razoavelmente estável e linear, é consumir, consumir e consumir... e su- Performance e Identidade:
apontamentos para uma 17
fazer a identidade parecer um produ- mir” (Beiras, 2008, p. 66). Ela constrói apreciação...
to. Na leitura de Holzman (2009, 1999; um modo específico de nos relacio- Murilo dos Santos Moscheta

Holzman & Mendez, 2003), quando narmos no qual o produto da relação


perdemos a dimensão do processo e conta mais que o processo de constru-
nos relacionamos apenas na dimensão ção e transformação dos laços.
dos produtos, estamos alienados. Em minha experiência como tera-
Processo, produto e alienação são peuta, conheci muitos pacientes, ho-
termos usados por Karl Marx em sua mens e mulheres, alienados, tentando
análise da formação da sociedade mo- consumir, comprar uma terapia que
derna capitalista. O trabalhador alie- lhes desse uma outra identidade. Como
nado é aquele que não se reconhece professor, conheci muitos alunos alie-
naquilo que produz, porque não mais nados. Alunos que compravam um
participa de todo o processo de pro- curso que, depois de cinco anos, lhes
dução. Ele aperta parafusos em uma conferiria o direito a uma nova iden-
linha de montagem, mas não partici- tidade: a de psicólogo. Alguns eram
pa da confecção de um televisor (por maus alunos. A eles pouco importa-
exemplo). Ele não sabe fazer um tele- va o que acontecia entre o primeiro e
visor – ninguém no chão da fábrica o o quinto anos do curso. Eles estavam
sabe. Ele aperta parafusos o dia todo olhando apenas para o produto “psicó-
em troca de um salário que, no fim do logo-diploma” ao qual teriam direito
mês, quem sabe, vai permitir que ele após pagar as cinco prestações anuais
compre um televisor. O homem alie- de “ser-estudante”. Mas outros alunos
nado é o homem consumidor. alienados eram bons alunos. Liam,
A descrição marxista da alienação estudavam e cumpriam diligentemen-
tem inspirado muitos teóricos, den- te suas obrigações como estudantes.
tre eles o próprio Vygotsky, Holzman Pensavam que assim pagavam suas
e Bauman. Em sua leitura da contem- cinco prestações e que no final seriam
poraneidade, Bauman apresenta-nos a possuidores de uma nova identidade.
ideia de modernidade líquida, carac- Digo alienados porque, para eles, ser
terizada pela dissolução e fluidez das psicólogo era fruto de um “cumprir-
tradições e valores universais. O modo -de-tarefas”. Abdicavam de sua pos-
de vida dessa nova sociedade é marca- sibilidade criativa e submetiam-se ao
do pela instabilidade dos laços afetivos, consumo de uma certificação. Poucos
pela procura intensa de prazer e satis- alunos se relacionaram com o curso
fação imediatos, pela supervalorização de psicologia como um processo de
do consumo e pela transformação do criação daquilo que um dia eles pode-
consumidor em mercadoria (Bauman, riam chamar de “psicólogo”. Alienação
2001, 2008). A alienação é necessária é a crença na existência de um produto
para a manutenção do alto consumo independente de seu processo, como
que sustenta o capitalismo contempo- se fosse possível adquirir aquilo que só
râneo. Ela se constrói a partir da cren- pode existir se for criado.
ça no indivíduo (seus desejos e seus A lógica do consumo é tão sedutora
direitos de ter seus desejos satisfeitos) que tem sido tomada de empréstimo
e na possibilidade de satisfação instan- em variadas dimensões da nossa vida.
tânea. Ela é a marca distintiva de um No terreno dos relacionamentos afe-
“contexto que nos impulsiona a desejar tivos, sexuais e conjugais, a lógica de
cada vez mais, gozar e gozar e gozar (...) consumo pode justificar um desin-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


vestimento na construção de laços, refugiamos na criação de nossa pró-
18 NPS 44 | Dezembro 2012
responsabilidades e projetos coletivos. pria história individualizada, uma his-
No campo político, ela constrói passi- tória que não nos ampara porque não
vidade e desengajamento. O voto dos transcende a nós mesmos.
eleitores, por exemplo, pode ser visto Assumir a identidade como conjun-
como a moeda que compra um “pro- to de performances significa reconhe-
duto-candidato”. Depois das eleições cer que “somos” e que “nos tornamos”
nós, no máximo, reclamamos que o ao mesmo tempo. Enfatiza-se, assim,
produto não correspondeu à propa- a atividade de criar aquilo que somos
ganda. Se política fosse processo, meu por meio da construção de contextos
voto seria o início da criação de uma relacionais (zonas de desenvolvimento
relação com o candidato. No progra- proximal, como diria Vygotsky) que
ma eleitoral gratuito que assisti recen- deem suporte às performances que
temente, não vi nenhum candidato me desejamos criar (Holzman, 2009). Em
convidar para criar algo com eles. To- seu aspecto mais radical, significa as-
dos se apresentavam como produtos sumir que a transformação pessoal só
desejáveis (ou indesejáveis) e me pe- ocorre por meio de um engajamento
diam para adquiri-los. E suas promes- na transformação coletiva.
sas tinham o intuito de me apaziguar:
“Tudo o que você precisa fazer é votar POR UMA PSICOLOGIA PÓS-
em mim. Depois, deixe comigo que eu IDENTITÁRIA
cuido de você!” A lógica que reduz po-
lítica ao ato de votar nos aliena do pro- Sem dúvida, tomar a identidade
cesso histórico. Não fazemos história, como produto e relacionar-se com ela
compramos, com nosso voto, homens a partir de um viés consumista e alie-
e mulheres que a farão para e por nós. nado é um efeito de diversos discursos
Em geral, como já não mais acredi- e dispositivos sócio-econômico-polí-
tamos na história que eles escreverão, ticos. Na trama dessas forças, emerge
ficamos aprisionados dentro de um uma cultura do consumo que rever-
terrível discurso de desesperança e bera, se multiplica e se consolida em
isolamento. O mundo nos é apresen- diversos campos de saber e poder. No
tado como um mundo sem futuro: campo da saúde, por exemplo, nota-se
previsões apocalípticas sobre o destino cada vez mais um modo de produzir
do planeta, descrença na capacidade cuidado baseado na queixa localizada,
humana de transformação e super- na oferta de serviços à ela circunscri-
valorização da destrutividade. Essa tos, reforçando uma ultra-especiali-
descrença, que é sobretudo uma des- zação que fragmenta e reduz pessoas
crença na humanidade, demanda um a corpos, corpos a órgãos, órgãos a
desinvestimento no universo político patologias. Valoriza-se a intervenção
e social. Vamos nos encolhendo, uma precisa, indolor, rápida e curativa, ain-
vez que já não nos vemos capazes de da que possibilidades menos invasivas
lidar e intervir na miséria ao nosso re- estejam disponíveis. Medicalizam-se
dor. Nosso horizonte de sonhos e pro- corpos e controlam-se emoções. Para
jetos vão ficando cada vez mais indi- cada dor, uma pílula, para cada neces-
viduais, autocentrados, solitários. Sem sidade, uma prescrição.
esperança de que possamos participar O discurso psicológico também tem
como criadores de uma história coleti- contribuído com a produção da cultu-
va (essa história política e social), nos ra do consumo alienante. A alienação

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


é promovida pelas psicoterapias por paração moderna entre ciência e arte. Performance e Identidade:
apontamentos para uma 19
meio de sua excessiva ênfase no indi- Em primeiro lugar, a procura pelo apreciação...
víduo, no descobrir-se, aperfeiçoar- entendimento seria substituída pelo Murilo dos Santos Moscheta

-se, amadurecer-se, como se a resposta engajamento criativo. O saber-sobre


para nossas insatisfações estivessem abriria espaço para um fazer-com.
todas nesse movimento de imersão em Criar espaços para “tornar-se” seria
si mesmo. Mas até que ponto alguém mais importante que investigar o “ser”.
pode se desenvolver antes de esbarrar Em segundo lugar, produziríamos um
nos limites do contexto em que vive, modo de vida menos comprometido
e de cujo desenvolvimento ele/ela não com a estabilidade, com os “pontos de
tem se ocupado? A psicologia que alie- chegada” ou com os produtos. Por isso,
na é aquela que favorece o desligamento um modo de vida mais permeável ao
entre sujeito e o universo social no qual improviso.
ele vive. É aquela que desencoraja o su- Improvisação tem sido um bom ter-
jeito a se ver como agente de uma his- mo para descrever o modo de traba-
tória maior que diz respeito a ele e a hu- lho de meus dois irmãos, um, artista
manidade da qual ele faz parte. É aquela plástico e o outro, diretor de teatro.
que promete que a mudança acontece Quando começam um trabalho, eles
apenas quando nos afundamos em nós partem de uma ideia e iniciam uma
mesmos e às custas de mais e mais con- exploração que evolui em resposta às
sumo de terapia. A terapia que aliena é possibilidades que emergem pelo ca-
aquela que, ao prometer transformação minho – seja do traço do lápis sobre
pessoal, não cultiva o desejo e o poten- o papel, seja do desenho do corpo no
cial do paciente de transformar tam- palco. São imagens que se formam nas
bém o mundo a seu redor. respostas do lápis, movimentos que se
Assumir a dimensão performática, e delineam no jogo do corpo, ferramen-
não essencial, da identidade no campo tas que se constroem com seus resul-
das psicoterapias leva-nos a produzir tados, pensamentos que se completam
uma prática que não se limita a inter- nas palavras. Ao término, chegam a
vir sobre os indivíduos desajustados, um resultado que não foi e nem deve-
confirmando por complementarieda- ria ter sido antecipado.
de o ajustamento de todos os demais. No teatro, o improviso tem a função
A terapia seria uma tentativa de criar de manter o jogo cênico em andamen-
campos de desenvolvimento emocio- to. Imagine que um ator esqueça sua
nal nos quais os participantes são de- fala e, diante do silêncio e espera de seu
safiados a serem aquilo que ainda não coadjuvante, improvise uma nova fala.
são. O foco não está na descoberta de Bons atores não interrompem o outro
quem o paciente é, mas na criação co- e dizem: “Olha, tá errado, não era bem
letiva das condições que darão suporte isso que você deveria dizer!” Como
para novas performances, a partir das também a mãe não corrige o balbucio
quais ele/ela irá se reinventar. O poten- de seu bebê. Ao contrário, o improviso
cial criativo e sua constante abertura de um demanda que o outro também
como processo são acionados como improvise “em resposta”, de modo a dar
uma saída para a alienação (Camargo- ao novo um lugar legítimo na cena e
-Borges, 2011). no desenvolvimento do enredo. A regra
Ao aproximar-se do teatro, a psi- básica dos jogos de improvisação pa-
cologia pode retomar uma dimensão rece ser: não existe erro, tudo é aceito
que ficou desprivilegiada desde a se- como contribuição, qualquer contri-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


buição é uma resposta àquilo que foi mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge
20 NPS 44 | Dezembro 2012
colocado em cena anteriormente. Zahar.
Do ponto de vista psicológico, este Beiras, A. (2008). Família, conjugali-
modelo ajuda-nos a pensar na prática dade e utopias: reflexões sobre um
terapêutica como um jogo de impro- mundo hipermoderno. Nova Pers-
visação no qual o menos importante é pectiva Sistêmica, 32, 65-72.
acertar, procurar a verdade ou corrigir Camargo-Borges, C. (2011). Terapia
equívocos e o mais importante passa social: desenvolvimento humano e
a ser a construção de performances mudança social. Arquivos Brasileiros
específicas, a compreensão de suas de Psicologia, 62(3), 48-58.
implicações e repercussões na possibi- Gergen, K. (1991). The saturated self :
lidade de que aquela relação avance. A dilemmas of identity in contempo-
terapia afasta-se assim de sua vocação rary life. New York: Basic Books.
ortopédica e assume um caráter estéti- Goldberg, P., & Newman, F. (1996). Per-
co. Para isso, assim como no improvi- formance of a Lifetime: A Practical-
so cênico, os participantes precisam se Philosophical Guide to the Joyous
engajar naquela relação, deixando em Life. New York: Castillo Interna-
segundo plano o texto ou a teoria. Não tional.
se trata de apresentar-se como se é, Hall, S. (2006). A identidade cultural
afirmando uma identidade individual, na pós-modernidade. São Paulo:
mas de produzir respostas que façam DP&A.
sentido naquela interação, valorizan- Holzman, L. (2006). Activating post-
do a dimensão relacional que delimita modernism. Theory & Psychology,
quem somos. Neste sentido, eu falo de 16(1), 109–123.
uma psicologia que avança em busca Holzman, L. (2009). Vygotsky at work
de superar compreensões individualis- and play. New York: Routledge.
tas e teorias identitárias. Holzman, L. (1999). Performing Psy-
E, para além da psicologia e das psi- chology: A Postmodern Culture of the
coterapias, eu falo da possibilidade de Mind. New York: Routledge.
assumir a dimensão artística, criativa e Holzman, L., & Mendez, R. (Eds.).
estética do viver. Falo da possibilidade (2003). Psychological Investigations:
de narrarmos nossas vidas para além A Clinician’s Guide to Social Thera-
da linearidade e coerência que muitas py. New York: Routledge.
vezes nos constrangem. Falo em apre- Law, J. (2004). After Method: Mess in
ciar o processo quando o produto for Social Science Research. New York:
valorizado, cultivar o trajeto quando Routledge.
houver pressa pela chegada, celebrar Meireles, C. (2002). Os melhores poe-
as possibilidades que vibram e latejam mas de Cecília Meireles. São Paulo:
por trás da aparente monotonia de Global.
nossas repetidas performances. Mota, M.E. (2005). Psicologia do de-
senvolvimento: uma perspecti-
va histórica. Temas em Psicologia,
REFERÊNCIAS 13(2), 105–111.
Rosa, J.G. (2001). Grande sertão: vere-
Bauman, Z. (2001). Modernidade líqui- das. Rio de Janeiro: Editora Nova
da. Rio de Janeiro: Zahar. Fronteira.
Bauman, Z. (2008). Vida para consu-
mo: a transformação das pessoas em

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 9-20, dez. 2012.


ARTIGO

GÊNERO, CULTURA E REDE SOCIAL: A CONSTRUÇÃO


SOCIAL DA DESIGUALDADE DE GÊNERO POR MEIO DA
LINGUAGEM*

GENDER, CULTURE AND SOCIAL NETWORK: THE SOCIAL CONSTRUCTION


OF GENDER INEQUALITY BY THE LANGUAGE

RESUMO: Baseado na visão sistêmico-cibernética- ABSTRACT: Based on systemic-cybernetic-new MARIANNE FEIJÓ


-novo paradigmática e no construcionismo social, paradigm vision and social constructionism, the Coordenadora do projeto
o presente artigo é um convite à reflexão sobre a paper is an invitation to reflect on the importance de mediação de conflitos
importância da linguagem na manutenção e na of language in the maintenance and the possibili- da fundação Gol de Letra,
possibilidade de mudança de padrões relacionais ty of changing unequal relational patterns, main- professora assistente, doutora
desiguais entre pessoas, principalmente ligados ly related to issues of gender. Studies on lan- da Unesp-Bauru, professora
às questões de gênero. Estudos sobre a linguagem guage and verbal behavior of women and men, e supervisora dos cursos de
e sobre o comportamento verbal das mulheres e besides their representation in the media, are mediação da PUC-SP/Cogeae,
dos homens, além das representações destes na examples to illustrate the need advocated here, Terapia Familiar e Intervenção
mídia, servem de exemplos para evidenciar a ne- to changing patterns of inequality guided by gen- Sistêmica da PUC-SP, Famerp,
cessidade aqui defendida de mudança nos padrões der differences that influence and are influenced FTSA e Unifesp.
de desigualdade pautados em diferenças de gêne- by the culture, conveyed in our social network.
ro, que influenciam e sofrem influência da cultura, This paper is a contribution for the clinical work ROSA MARIA STEFANINI
transmitida em nossas redes sociais, marcando with families and couples, from the perspective DE MACEDO
posições privilegiadas segundo a tipificação sexual of the current behaviors, based on refrains spre- Psicólogo, profª titular do
na sociedade. Este artigo é uma contribuição para ad by the media which became popular, since it Programa de Estudos Pós-
o trabalho clínico com famílias e casais, do ponto is based on clinical and nonclinical observations graduados em Psicologia
de vista dos comportamentos correntes baseados about human relationships and its representation Clínica da PUC-SP, líder
em bordões veiculados pela mídia que se tornam in the media and artistic productions. do Núcleo de Família e
populares, uma vez que se baseia em observações Comunidade da Anpepp.
de situações clínicas e não clínicas sobre relações KEYWORDS: gender, culture, social network, lan-
humanas e sobre a representação destas na mídia e guage.
nas produções artísticas.

Recebido em 11/07/2012.
PALAVRAS-CHAVE: gênero, cultura, rede social,
linguagem. Aprovado em 28/08/2012.

INTRODUÇÃO

Assumindo o posicionamento sistêmico-cibernético novoparadigmático (Esteves


de Vasconcelos, 2004) de que somos seres em relação e de que nossa identidade,
assim como nossos padrões de comportamento, é construída socialmente (Sluzki,
1997), não é possível desvincular as questões de gênero da cultura e da rede que são * Parte desse trabalho foi
apresentada no Congresso
o contexto desta construção. Internacional “Valores
As desigualdades de posições quanto ao gênero entre homens e mulheres resul- Universais e o Futuro da
Sociedade” em setembro de
taram do deslocamento das diferenças biológicas entre os sexos para diferenças de 2001 no SESC/ São Paulo. Foi
posições na sociedade. Com base nas diferenças biológicas, padrões de comporta- feita versão revista e ampliada
no II Simpósio de Sexualidade
mentos típicos foram transmitidos a homens e mulheres, porém as desigualdades na Família em maio de 2007,
resultaram das diferenças de oportunidades que geraram as questões de domi- UNIFESP/São Paulo.
nação e poder do sexo masculino e de zam nossa posição sobre a construção
22 NPS 44 | Dezembro 2012
subordinação do sexo feminino (Ma- de significados. Para Falicov, cultura
cedo, 2006; 2007; Soares et al., 2011; “são visões de mundo compartilhadas
Vieira, 2012). e comportamentos adaptáveis
Tais questões podem ser mais bem derivados da localização simultânea
observadas do ponto de vista de gêne- em vários contextos” (1988, p. 336).
ro, que se refere ao status cultural do Geertz (1973, p. 5), citando Weber,
que vem a ser masculino ou femini- apresenta a definição de cultura que,
no, distinto do status biológico como a nosso ver, complementa a anterior:
macho ou fêmea (Greenglas, 1982). “Uma rede de significados tecida pelo
Em termos de comportamento, o que próprio homem.”
interessa é saber que masculinidade e Atividade eminentemente relacional,
feminilidade são construídos social- a construção do significado do que é ser
mente, são histórica, relacional e cul- homem ou mulher se dá socialmente
turalmente determinados (Abundis, na linguagem. Portanto, a forma como
2007; Greenglas, 1982; García, 2000; são vivenciadas a masculinidade e a
Macedo, 2007; Vieira, 2012). feminilidade depende de significados
Gênero é uma forma de estrutura- atribuídos por nós e por aqueles que
ção de práticas sociais e, como tal, im- nos rodeiam, ou seja, nossas redes so-
plica variações de tempo e lugar, além ciais (Feijó & Macedo, 2012).
de ser vinculado à etnicidade e nível
socioeconômico.
Passando para o nível microssocial, COMPORTAMENTO VERBAL E
ao articularmos vida pessoal e estru- DESIGUALDADE ENTRE GÊNEROS
turas sociais podemos perceber como
as relações de gênero permeiam todos Os trabalhos sobre o papel da lin-
os aspectos da vida cotidiana: grupos guagem e as diferenças no compor-
sociais de que fazemos parte, portanto tamento verbal das mulheres e dos
redes a que pertencemos, lugares que homens em diversos países e culturas,
frequentamos, a qualidade e a quan- como os de Albisher e Forel (1991), de
tidade dos contextos significativos na Mead (1969) e de Dias (2005), retra-
formação de valores, crenças, constru- taram como o que falamos e como fa-
ção de padrões de comportamento, sua lamos reforça algo que se mantém ou
manutenção ou mudança. Todos eles pode impulsionar uma mudança, já
são sujeitos a qualificações de gênero. que a realidade é construída por seres
Ao ressaltar a função constitutiva em relação, ideia básica do construcio-
da cultura na definição da identidade nismo social, como apontamos ante-
de gênero, bem como sua caracterís- riormente (Freedman & Combs, 1996;
tica estritamente relacional, atenção Grandesso, 2000).
especial deve ser dada à linguagem, As relações de poder, a hierar-
por meio da qual significamos o mun- quia, ficam evidentes na linguagem
do, segundo o construcionismo social da maior parte das culturas e línguas
(McNamee, 2008; Grandesso, 2000; ameríndias, africanas e asiáticas, mar-
Gergen, 1994). cando claramente uma diferenciação
A noção de cultura abrange tanta baseada no sexo do locutor. No Japão,
diversidade, que é difícil abarcar todos por exemplo, diferenças entre o ta-
os seus significados em uma única de- manho das expressões utilizadas pe-
finição. Escolhemos duas que, a nosso los homens e mulheres, bem como a
ver,�����������������������������������
são bastante abrangentes����������
e enfati- forma de falar dependendo do locutor,

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


mostram claramente a posição sub- pressões culturais, bem como alguns Gênero, cultura e rede social
aspectos da linguagem utilizada por 23
missa reservada às mulheres indepen- Marianne Feijó e Rosa Maria
Stefanini de Macedo
dente de sua condição social. homens e mulheres no Brasil nas últi-
Estudos antropológicos em algu- mas duas décadas como indicativo do
mas comunidades de língua Gros Ven- status cultural da postura feminina e
tre (Flannery, 1946) mostravam que as masculina, portanto de gênero como
mulheres usavam palavras “mais mo- categoria social, ressaltando alguns as-
destas” e se usassem alguns termos ex- pectos importantes para a reflexão dos
clusivos dos homens eram considera- profissionais das áreas de saúde, so-
das “mulheres masculinas”. Da mesma cial e da educação, no intuito de abrir
forma, um estrangeiro poderia passar o diálogo sobre os novos modelos de
por “efeminado” ao trocar certas pala- feminino e masculino. Pretendemos
vras ou falar com menos segurança. alcançar tal objetivo utilizando o crité-
Esse é um exemplo que se aplica ao rio de analise da linguagem de acordo
Brasil atual, onde, guardando as dife- com a visão dos estudos antropolin-
renças de tempo e lugar, às mulheres guísticos, isto é, de acordo com o sexo
ainda cabe o estereótipo de delicadas e do locutor, não com a definição de
gentis; espera-se que sua linguagem re- gênero do ponto de vista linguístico,
flita essa condição, diferentemente dos portanto com foco no já mencionado
homens de quem a sociedade tolera e ponto de vista social.
até estimula um modo mais grosseiro A importância de citar esses estudos
de falar. Prova disso é a estranheza que é a evidê����������������������������
ncia das diferenças masculi-
causa em muitos ambientes homens no/feminino marcadas na estrutura
gentis, delicados, que evitam termos da linguagem mais claramente detec-
de baixo calão na linguagem corrente, t�������������������������������������
�����������������������������������
veis nessas culturas. Os estudos ci-
a quem são atribuídos adjetivos pe- tados não se referem às linguagens da
jorativos, como “bichas”, “viadinhos”, cultura europeia da qual deriva nossa
“boiola”, “boneca”, “biba”, entre outros. tradiç�������������������������������
ão linguí����������������������
stica, por������������
����������
m, como sa-
As desigualdades socioeconômi- bemos, nessas línguas as variações lé-
cas também são visíveis pelo uso da xicas decorrem de acordo com o inter-
língua. Trudgill (1991) falou de sexo locutor, a quem se fala, e do que se fala.
e prestígio linguístico, estudando Desse modo, falas masculinas e femi-
os fenômenos linguísticos ligados à ninas são marcadas basicamente pe-
estratificação social, idade e sexo. los códigos de gênero como categoria
Tanto para Trudgill como para Hou- social, isto é, como se espera que fale
debine (1991), foram apontadas dife- uma menina ou um menino, de acor-
renças entre homens e mulheres nas do com seu nível social e educacional.
interrupções e no uso de perguntas e
de formas de criar abertura para expor
seu ponto de vista. Concluíram, em EXPRESSÕES CULTURAIS: UM RETRATO
um desses estudos, que o uso da língua DE NOSSO TEMPO NO QUE SE REFERE
segue uma hierarquia que parece esta- ÀS QUESTÕES DE GÊNERO
belecer uma sequência da maneira que  
segue: o homem poderoso, a mulher, Como sabemos, as expressões cul-
o homem subordinado e a criança, se- turais (arte, música, literatura) têm
gundo a ordem de importância social. um enorme peso no retrato de nosso
A partir dessas considerações, este tempo e são muito úteis para estudar
artigo, em formato de ensaio teórico, questões que se referem às relações de
pretende discutir determinadas ex- gênero, sobretudo na linguagem.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


No Brasil, a mídia, a moda, a música (inferiores), contribuindo para a ma-
24 NPS 44 | Dezembro 2012
e a literatura nos dão uma boa ideia de nutenção do status quo, que implica
como padrões de comportamento di- transformar uma diferença inegável
ferentes e antagônicos convivem lado em posições desiguais.
a lado, no que se refere aos papéis e à A mudança de papel da mulher na
posição dos homens e das mulheres na sociedade brasileira e, principalmente,
sociedade, na medida em que são res- sua entrada no mercado de trabalho
ponsáveis pela criação e divulgação de trouxeram alterações significativas,
expressões que vão caindo no domínio uma vez que, do ponto de vista sistê-
público e sendo empregadas geralmen- mico, ao se alterar a posição da mulher,
te sem muita crítica pela população. a do homem também sofre alterações,
Apesar de a mulher vir ganhando apesar das suas resistências. Ainda as-
espaço no mercado de trabalho, ocu- sim, apesar do discurso sobre igualda-
pando posições vistas como mascu- de de direitos e divisão de tarefas, na
linas, e de os homens virem partici- prática, constatamos que estas ainda
pando mais no ambiente doméstico, não atingiram um nível igualitário de
compartilhando tarefas consideradas fato. Muitas mulheres trabalham em
até então próprias da mãe, mulher e dupla jornada, assumindo a maior
“dona-de-casa”, esta mudança ainda parte das tarefas domésticas, mesmo
é abordada de forma pejorativa em que também respondam pelo sustento
muitos grupos sociais, em algumas ex- financeiro da família (Macedo, 2007;
pressões culturais e mesmo em comer- Vieira, 2012).
ciais na veiculação de propagandas nos De qualquer forma, todas as con-
diversos meios midiáticos, indicando quistas das mulheres nos últimos
a convivência de padrões conflitantes tempos, a possibilidade de saída do
que oscilam entre o arcaico e o moder- ambiente doméstico, a melhora na
no, a família tradicional idealizada, de possibilidade de divisão de papéis, as
organização patriarcal com regras se- mudanças tecnológicas, as exigências
xualmente tipificadas para a educação cada vez maiores no ambiente de tra-
dos filhos, e as novas configurações balho, geraram uma situação comple-
familiares, um pouco mais igualitárias xa. Cada vez mais os casais necessitam
desse ponto de vista (Abundis, 2007; criar um padrão de relacionamento
Figueira, 1987; Cerveny, 2011). que seja compatível com esta deman-
Acreditamos que assim como as da (Horta & Feijó, 2007; Feijó, 2007).
produções culturais, alguns de nós, A rede social, aquelas pessoas que
profissionais da área de saúde, tam- nos são mais significativas, têm papel
bém oscilamos entre uma postura de importante na validação desta nova
formadores de novas opiniões sobre identidade. Aí entram as característi-
modelos e costumes e uma postura cas dessa rede, que, de maneira geral,
que reforça padrões tradicionais. tende a ser mais distante ultimamente;
Além disso, concordamos com Mar- há distância geográfica e pouco tem-
tin e Mahoney (1996) que é preciso po para contato (Sluzki, 1997; Feijó,
estar atentos ao “mito da igualdade”, 2006), especialmente nas cidades gran-
que nos leva enganosamente a igno- des. Como já dizia Medina (1974), se
rar a consideração das diferenças se- esta teia é frouxa, há ambiguidade face
xuais em nosso trabalho, e, com isso, à validação de nosso mundo e de nos-
desconsiderar a desigualdade social sas identidades. Na medida em que o
entre homens (superiores) e mulheres contato face a face rareia, tanto pelas

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


dificuldades impostas pela vida nas vida de solteira, sexualmente ativa, Gênero, cultura e rede social
25
grandes cidades, como pela exiguida- sem assumir maiores compromissos Marianne Feijó e Rosa Maria
Stefanini de Macedo
de do tempo para atividades de lazer, familiares, ainda persiste; já para o ho-
nosso contato com o mundo vai sendo mem, ser sustentado é um problema,
em grande parte proporcionado pela uma vez que ainda cabe a ele garantir
tecnologia que põe ao nosso alcance o equilíbrio financeiro, prover a casa,
uma série de meios, não só para nos segundo os padrões de gênero cons-
informar como para nos distrair. truídos como valores masculinos e in-
A música, a propaganda, as novelas corporados firmemente na formação
e a televisão, entre outros meios, to- de sua identidade de homem, na con-
mam um espaço significativo na vida cepção de sua autoimagem, autoesti-
das pessoas, não só retratando seus ma e autoconfiança como “sexo forte”,
padrões de relacionamento, mas tam- detentor do poder.
bém exercendo influência sobre eles, Essas observações mostram como
pois, como diz Morin (2006) em sua as questões de gênero constantemente
teorização do paradigma da complexi- vêm à tona, ora reforçando um padrão
dade, somos ao mesmo tempo produ- de desigualdade polarizado no qual a
zidos pela e produtores da sociedade, mulher ocupa sempre a menor posição,
ou ainda, conforme Motta e Ciurana ora apontando para mudanças já alcan-
(2002), a cultura que nos produz ao çadas ou em andamento, criando ten-
mesmo tempo é produzida por nós. sões entre homens e mulheres, às vezes
Por estarmos plenamente de acor- implícitas, e, em outras, explícitas.
do com tais afirmações, justifica-se a
importância de ressaltarmos o que e
como vem sendo falado (mostrado, A TELEVISÃO COMO PROPAGADORA DE
significado) sobre o que é ser homem e PADRÕES RELACIONAIS DESIGUAIS
ser mulher na nossa sociedade no sen-
tido de masculino e feminino. A mídia, principalmente a propa-
Ainda existem muitas contradi- ganda que é estruturada a partir dos
ções, tensões e impasses relacionais, desejos dos consumidores, cada vez
que estão diretamente relacionados mais retrata homens exercendo papéis
ao contexto social em que vivemos e que eram tidos como femininos na
que construímos. Um bom exemplo sociedade brasileira (cuidar de bebê,
de dicotomia em relação à rede so- arrumar a casa, expor os sentimentos)
cial é a situação de muitas mulheres para muito acertadamente alcançar o
jovens, que, atualmente, têm o maior grande número de mulheres que tra-
apoio de sua família para alcançar au- balham; por outro lado, veiculam tam-
tonomia por meio de suporte material bém situações domésticas com uma
e psicológico para obter um elevado divisão tradicional de papéis (mulhe-
nível nos estudos, e que, no entanto, res donas de casa, cuidando das refei-
passam a sofrer pressões e restrições ções da família, das roupas do mari-
desta mesma família quando querem do; a conhecida “família margarina”)
viver com independência, saindo da como exemplo de família feliz, além de
casa paterna. Há uma dupla mensa- sátiras sobre o homem dominado pela
gem de que a mulher tem que estudar, mulher moderna, alvo de chacotas do
e ser independente, mas nem tanto, grupo masculino (machão).
pois a expectativa de que precisa se ca- Medrado et al. (1997) estudou a re-
sar, constituir família e não levar uma presentação social da masculinidade

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


na propaganda televisiva brasileira no co em geral, resultando na aparição da
26 NPS 44 | Dezembro 2012
horário nobre da emissora Globo no mesma em capas de revista de notícias
primeiro semestre de 1996 e levantou, e em caderno de jornais, ambos de re-
entre outros aspectos, que a imensa percussão nacional. Outro personagem
maioria dos comerciais é narrada por que se tornou bastante popular, imita-
homens, pois, segundo os autores, do e admirado, mas também ridiculari-
isto dá mais credibilidade ao produto. zado, era um homem jovem com orien-
Além disso, usam mais homens em co- tação homossexual, que trabalhava
merciais de produtos mais caros e rela- como serviçal, submisso à sua patroa,
cionados a contextos não-domésticos. preso a padrões estéticos e ao valor do
Como se não bastasse, 87,4% dos per- status conferido pelos bens materiais,
sonagens são homens e mulheres bran- que se expressava de maneira efemi-
cos. No entanto, produtos domésticos e nada estereotipada, e cheia de trejeitos,
relacionados a lazer e a status masculi- recebendo agressões verbais e ameaças
no usam como apresentadores mulhe- constantes da patroa, lembrando mais
res mais famosas pela beleza, glamour a figura de um “bobo da corte”.
e apelo “sexy”, o máximo do feminino! A dona da casa, bastante precon-
Os homossexuais vêm sendo mais ceituosa e classista, maltratava não só
retratados na mídia ultimamente, o este funcionário, que era uma espécie
que poderia ser sinal de redução de de mordomo e assistente pessoal, mas
preconceito, mas, infelizmente, depen- também o motorista e a cozinheira/
dendo de como são representados nas arrumadeira. Além disso, escondia ser
novelas, por exemplo, a discriminação filha de uma empregada doméstica,
por parte da população pode até au- pois isto “mancharia o seu passado”,
mentar. e mantinha relações sexuais com um
Ainda é comum apresentá-los com homem de menor poder aquisitivo, a
comportamentos exagerados e estereo- quem “mandava chamar quando que-
tipados em personagens mais propen- ria”. Autoritária e mau caráter, valia-se
sos a ser ridicularizados pelo seu com- de sua condição material para impor
portamento, vinculado à sua orientação suas vontades e caprichos aludindo
homossexual. Em 2012, o contraste claramente a uma ideia de que o di-
entre novos e antigos padrões e visões nheiro tudo compra.
sobre o homem e a mulher hetero e ho- As relações entre personagens da
mossexual apareceu no imenso sucesso telenovela acima referida retratam de
feito por dois personagens da novela forma estereotipada, mas não muito
das 21 horas, horário nobre, da referida distante da real, as desigualdades pau-
emissora. Uma mulher, mãe, separa- tadas em diferenças enfatizadas neste
da, realiza profissionalmente consertos artigo.
hidráulicos e elétricos em residências, No que se refere aos estereótipos da
sendo tratada por um nome masculi- relação homem-mulher na TV, na dé-
no; apresenta autoridade na educação cada de 1990, a “Tiazinha”, um ícone
dos filhos e expressa constantemente sadomasoquista, fez grande sucesso
seus valores (honestidade, respeito ao usando máscara, chicote e lingeries
próximo, solidariedade) em palavras e minúsculas para depilar os homens
ações, reforçando o valor de uma con- que errassem as perguntas em um pro-
figuração de família comum em nosso grama de auditório. Já a “Feiticeira”,
tempo (chefiada pela mulher). Tal per- criada no mesmo programa, era uma
sonagem foi muito elogiada pelo públi- loira escultural, vestida de odalisca, se-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


minua, com o rosto coberto pelo véu, de maior poder aquisitivo, tais este- Gênero, cultura e rede social
27
que dançava e quase se encostava nos reótipos não aparecem de forma tão Marianne Feijó e Rosa Maria
Stefanini de Macedo
homens, se insinuando aos que cum- arraigada e explícita, sendo muitas ve-
prissem as tarefas determinadas pelo zes questionados; o que não impediu
jogo do programa. Atualmente, no um músico respeitado (Frejat), de um
lugar dessas figuras, temos a “Mulher conjunto com grande prestígio, com-
Samambaia” e a “Mulher Melancia”, por a música: “Homem não Chora.’’
explorando seus corpos com a função O movimento funk, que explodiu
de atrair audiência. São mais exemplos no Brasil nas duas últimas décadas,
da contribuição da mídia na manuten- iniciou-se nos bailes de periferia, onde
ção e no reforço de padrões desiguais a violência era constante. Atualmente,
de relação. no entanto, estas festas atraem público
de todas as classes sociais, quer para
um programa extravagante, quer para
A DESIGUALDADE RETRATADA PELA se divertir. O que parece estar mais
MÚSICA exacerbado hoje em dia nesses bailes,
atraindo tanta gente, é o apelo sexual
Na música, há também indícios de e sensual, como apontou Fernanda
mudanças de padrões convivendo com Schmidt (2007) no site da Folha de
preconceitos e estereótipos. Alguns S. Paulo. Os hits propagaram termos
conjuntos que vêm fazendo sucesso e como “popozuda”, que seria o mesmo
que tocam músicas apontadas como as que “bunduda”, mas com o sentido
mais ouvidas em determinadas rádios de gostosa, poderosa; “cachorra”, que,
exploram a imagem da mulher domi- na gíria construída nas comunidades
nada e subordinada ao homem e/ou funkeiras, tem um sentido negativo:
do homem dominado pela sedução, “sua cachorra!” – mulher que trapa-
pelo lado erótico, “sexy” e superficial ceia, engana, faz mal para alguém. Por
da mulher, seu corpo, suas formas, sua outro lado, é comum usar o termo
beleza. cachorro, como coitado: “tratado(a)
Muitas letras de samba, pagode e como um cachorro”. Isso dá um sen-
músicas regionalistas retratam tais es- tido duplo para a gíria referida: a mu-
tereótipos construídos em torno das lher cachorra é aquela que se insinua,
questões de gênero, ressaltando as ex- domina, usa o homem (se aproveita de
pectativas de que o homem seja o pro- sua condição material), mas ao mes-
vedor financeiro e que a mulher seja mo tempo é usada por ele sexualmen-
sempre sensível, dependa dele, seja te. Depois do “Bonde do Tigrão” que
bela, cuide da comida e da casa. Este é valorizou a mulher do baile, as “prepa-
o caso das letras das músicas: “Mulher radas” que desfrutavam o prazer com
Chorona” e “Nóis Não Vive Sem Muié” maridos que se “esquentavam” com
(Teodoro e Sampaio), “Ratatuia” (Zeca elas, enquanto as esposas ficavam em
Pagodinho). Há também “Você Não casa esquentando a marmita para eles,
Passa de uma Mulher” (Martinho da veio o sucesso da Popozuda, e, em se-
Vila) e “É Disso que o Velho Gosta” guida, a música da Eguinha Pocotó,
(Os Serranos), música gaúcha antiga conhecida por meninas de diferentes
que também se ouve muito em outras idades e níveis socioeconômicos, que
regiões do país. rebolavam ao som de uma letra que
Nas letras de MPB e de Rock, mais falava da mulher e de sua posição de
ouvidas nas rádios dirigidas às classes forma pejorativa; outras vieram de-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


pois desta, com o mesmo apelo. Atual- financeira. Numa delas, a mulher gla-
28 NPS 44 | Dezembro 2012
mente, fazem sucesso músicas que dei- morosa, poderosa, balança gostoso
xam clara a ética das relações baseadas requebrando até o chão, é a rainha do
no uso da sexualidade expressa pelo funk, na música “Glamorosa” de MC
desejo expl�������������������������
�����������������������
cito do homem e pela ma- Marcinho.
nipulação desse desejo com um jogo
de sedução e oferta da mulher: “Ai se
eu te pego”; “Ai, ai, ai, ai, ai, ai... assim DE RAINHA DO LAR A RAINHA DO BAILE
você mata o papai”; “Eu quero tchu, eu FUNK?
quero tcha...”, todas acompanhadas de
gestual que deixa muito claro do que O antropólogo Hermano Viana,
se está falando. Enfim, apesar das inú- que estuda a cultura brasileira, assim
meras diferenças entre as letras e os se manifestou sobre a “Cultura popo-
conjuntos de músicas funk, a criação zuda” em um dos jornais mais impor-
dos mesmos com tal apelo continua tantes de São Paulo: “Pós-feministas,
crescendo. Há um movimento apa- as meninas do funk carioca só são sub-
rentemente menos radical quanto a missas quando querem: loucas por sta-
essa postura na mídia brasileira e em tus perdem a linha por motos, celular e
muitos bailes funk, mas determinados roupas (apud Palomino, 2001).”
conjuntos ainda contribuem para a O termo “perdem a linha” também
manutenção dos padrões de domina- vem de uma das músicas funk e, no
ção e de poder entre homens e mulhe- nosso entender, está relacionado a um
res e entre classes com base justamente ditado que os homens antigamente
nessa linguagem erotizante eivada de usavam muito, mas ainda hoje se ouve
malícia e duplos sentidos. Mais ainda, por aí: “A única mulher que andou na
tais músicas frequentemente retratam linha o trem matou”, retratando uma
o valor que é dado aos bens mate- posição machista, na qual não se pode
riais – motos, carros, roupas de grifes confiar na fidelidade da mulher. No
caras, além do culto ao corpo ressal- entanto, no código machista parece
tado por mulheres de barriga de fora que a linha é outra: o homem sair com
e calças muito justas, que ressaltam as outras mulheres é da sua “natureza”.
formas do corpo feminino, e homens Tanta naturalidade parece estar anco-
fortes de camisa semiaberta exibindo rada ainda na herança do código cul-
a musculatura. Uma delas, tocada nos tural de antanho, ligado à vigilância da
bailes citados, se chama “Chapeuzinho virgindade feminina. Nessa tradição,
Mercenária”, fazendo referência à per- a mulher era rapidamente classificada
sonagem da história infantil na qual, como “puta” se fizesse sexo antes do
como se sabe, uma menina ingênua casamento, o que hoje não faz mais
vai levar doces para a Vovozinha e é sentido. Dada a liberalidade dos costu-
comida pelo Lobo Mau. A música traz mes hoje em dia com relação à sexua-
uma conotação da mulher que se deixa lidade, a mulher que usa o sexo não
“comer” (sentido sexual) pelo homem, profissionalmente apenas para “se dar
mas que no fundo está de olho no que bem” é, no máximo, uma “periguete”.
ele tem a oferecer financeiramente. Um sério problema quanto à natu-
Em outras�����������������������
músicas���������������
, são as mulhe- ralização desse vocabulário e do senti-
res que assumem o poder e que de- do que ele tem em termos da relação
vem cuidar para que o homem não entre os sexos é o fato de essas músicas
as domine, utilizando a sua condição serem utilizadas largamente nas festi-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


nhas de crianças e púberes, inclusive assumir um papel masculino, de do- Gênero, cultura e rede social
29
pelos animadores e hostess como co- minação, para sair do papel de domi- Marianne Feijó e Rosa Maria
Stefanini de Macedo
reografia grupal para divertir a turma. nada?
São repetidas muito frequentemente De nosso ponto de vista, o paradoxo
sem a compreensão exata do seu sig- está justamente em manter o jogo do-
nificado (pelas crianças menores), ou minante/dominado.
então com a malícia que já desponta Nesse sentido, a metáfora que gri-
por meio do interesse erótico dos pú- tam nestes bailes nos é útil: “Tá do-
beres e adolescentes, passando a ser minado! Tá tudo dominado!” Os pa-
usadas no vocabulário corrente, em drões de desigualdade, de violência e
blogs e outros sites de relacionamento. de dominação são mantidos, mesmo
Não se dão conta de que, ao reproduzir que aparentemente invertidos, difi-
tais expressões sem crítica, estão con- cultando a construção de modelos de
tribuindo com a construção de um pa- relacionamento que permitam o cres-
drão de relações chulo e desrespeitoso, cimento, a liberdade e a dignidade,
sem a necessidade de compromisso, de tanto do homem quanto da mulher. A
que só se darão conta bem mais tarde, nossa sociedade continua a disseminar
quando estiverem em busca do “amor a violência, implícita e explícita, como
verdadeiro”. se vê na mídia impressa, na TV e nos
A autora do referido artigo da Folha espaços públicos. “Cachorra”, como se
de S. Paulo, a colunista Erika Palomino, diz no sul do país sobre uma situação
cita Hermano Vianna (2001), que cha- constrangedora, sem saída, é a nossa
mou a atenção para algo muito sério: condição relacional em meio a tantos
“Na linha de frente, essas meninas que estereótipos e confusões, onde se sabe
se autodenominam ‘cachorras’ insta- mais competir e se defender do que
lam um novo modelo feminino. É uma “apaziguar’’, que é o título de outra
‘nova mulher’ em cena, pós-feminista, música de uma dupla regional, que faz
criada vendo Xuxa na TV, que não tem sucesso nas rádios (Bruno e Marrone).
medo de homem nenhum, que não é Outros grupos que tocam bastante
nem um pouco submissa: ela decide nas rádios nos dias atuais retratam a
quando, como, onde e com quem quer importância dada à beleza da mulher
fazer sexo (‘quebrar barraco’) e ain- e ao poder econômico do homem. É
da humilha o cara de ‘pau molão’.” A o caso dos dois sucessos interpretados
nosso ver, é um tanto paradoxal falar por Caju e Castanha e de um terceiro
assim dessa “nova mulher”, justamente cantado por Teodoro e Sampaio, res-
porque nossa postura enfatiza a neces- pectivamente: “A mulher feia e a mu-
sidade de pensar o feminino além dos lher bonita”; “O poder que a bunda
atributos tradicionalmente forjados tem” e o já citado neste texto, “Mulher
desde os tempos imemoriais: a arte de Chorona”. São letras que estouram nas
seduzir. Criar novos modelos de rela- paradas de sucesso, falando do poder
cionamento sim, porém com papéis da mulher bonita, do poder da bun-
menos desiguais, onde nem o homem da feminina e da mulher que chora
nem a mulher exerçam o poder sobre por tudo, reforçando o estereótipo da
o outro, isto é, sem implicar submissão mulher frágil, sensível, indecisa e das
de uma das partes é o ideal pretendido relações entre homem e mulher pau-
desde o início das lutas feministas. tadas em dinheiro e troca de favores
Será que a mulher precisa assumir sexuais. Mesmo considerando os di-
uma condição radicalmente oposta, ferentes conjuntos e estilos musicais

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


ouvidos por grupos sociais diferentes Os estudos já citados sobre o com-
30 NPS 44 | Dezembro 2012
em diferentes proporções e por meios portamento verbal em diversos paí-
midiáticos diversificados (TV, Rádio, ses e culturas mostram que também
IPod, Internet entre outros), a disse- e principalmente nesta área existem
minação de tais padrões de desigual- fortes contradições (Albischer & Forel,
dade relacionados a poder nas relações 1991; Galli de Paratesi, 1991). Dentre
de gênero atinge todas as camadas da muitos exemplos trazidos pelos auto-
população. Poucos são os meios de res, o uso pelas mulheres italianas de
comunicação, programas de televisão exclamações como “foder” e “trepar”
ou de rádio que propõem discussões no sentido de vencer, “ferrar” alguém,
sobre tais padrões ou representações, mostram como, com expressões se-
apresentando tal situação de modo a manticamente inadequadas, a mulher
propiciar reflexão sobre o valor de re- adotou a linguagem que conota o ato
lações mais equitativas no que se refere sexual como agressão, como uma vitó-
ao assunto.  ria para quem é “ativo” e humilhante
Como foi colocado anteriormente, para quem se deixa penetrar. Isto tam-
tem-se criado, na música, persona- bém ocorre atualmente no Brasil, com
gens com mulheres que oscilam en- a mesma conotação.
tre a dominação e a subordinação de Então, como os autores colocaram,
acordo com certos atributos. Como na as italianas e as brasileiras apropria-
música cantada por Caju e Castanha: ram-se da bandeira e da propaganda,
“Dizem que a mulher feia, quando ela de quem tem uma ideia do ato sexual
é ciumenta, se o seu marido é bonito como fonte de poder ou de prazer ape-
e ela não lhe sustenta, quando ela sai nas para os homens. Poder����������
��������
amos pen-
com ele dá coice que nem jumento... a sar como Bourdieu e Wacquant (1992)
mulher bonita tem um olhar atraente, que os mecanismos de resistência po-
tem o cheiro de maçã, tem um sorri- dem ser alienantes e a submissão pode
so inocente... E com isso ela conse- ser libertadora? Talvez para as jovens
gue amansar qualquer valente.” Estes das periferias esse seja o resultado da
modelos, ao mesmo tempo em que identificação com o dominador. No
parecem colocar a mulher no poder, entanto, ���������������������������
ao se disseminarem para ou-
retomam a imagem do homem pode- tros grupos sociais, tornam-se mais
roso, que submete e que, portanto, tem um veículo de propagação de uma
direito à mulher bonita, ao seu corpo pseudossubmissão feminina, como es-
escultural como fonte de prazer. tratégia para “levar vantagem”, isto é,
conseguir benefícios pelo uso do sexo,
A CONTRIBUIÇÃO DA LINGUAGEM jogo perigoso sujeito a más interpreta-
NA CONSTRUÇÃO SOCIAL DE NOVOS ções e duplas mensagens que, no final
PADRÕES DE RELACIONAMENTO das contas, não contribui para tirar
o significado das relações de gênero
Além da mídia e das produções baseadas em domínio, cuja moeda é a
artísticas atuais, as mudanças na força da sedução, da sexualidade e dos
forma de falar, principalmente das bens materiais entre os contendores.
mulheres, que hoje usam termos tabu O homem “fodido” é bom, podero-
antigamente exclusivos dos homens, so, forte e a mulher “fodida” é a mu-
têm relevância na expressão do que se lher que não tem medo. Mas tanto a
pensa e de como se age em relação às um quanto a outro pode ser atribuído
questões de gênero. o adjetivo no sentido de “ferrado”, hu-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


milhado, que perdeu. Ambos utilizam tentam padrões e construções, inclu- Gênero, cultura e rede social
31
atualmente este vocabulário. sive relacionadas à nossa identidade e Marianne Feijó e Rosa Maria
Stefanini de Macedo
Voltando à música como expressão a identidade dos demais, deixar de re-
dos tempos atuais, temos o exemplo de forçar os padrões que ainda reduzem
“Eu já fui de você”, que cantada rapi- as possibilidades de relacionamento
damente dá o sentido de “fodi” você. cooperativo e que favorecem práticas
“Foda-se”, dane-se, também é utili- violentas, exploradoras e desiguais.
zado por homens e mulheres, no sen- Enxergar as dinâmicas de poder, o
tido de “não me importo,” ou “que se sistema mais amplo, a cultura consu-
vire”, “que se estrepe”. mista, materialista, ávida por prazer
Já os termos “gostoso” e “gostosa” imediato, amplifica o cenário e o con-
atualmente são utilizados pelos dois texto da construção desses padrões e
sexos sem que marque uma conotação nos ajuda a entender as atuais tentati-
de submissão ou de poder, referindo- vas de alcançar relacionamentos mais
-se ao corpo, ao prazer sexual tanto equitativos, mesmo que inicialmente
de um quanto de outro, bem como as de forma exacerbada, onde o poder
expressões “ele é um tesão”, “ela é um apenas muda ou parece mudar de
tesão” ou “é tesuda”. mãos.
Contrastando com os exemplos Para isso, podemos iniciar questio-
dados, os homens brasileiros dizem nando e não repetindo o que se fala e
“dei uma foda”, e as brasileiras dizem, como se fala, uma vez que isso se pro-
na maioria das vezes, “fizemos amor”, paga e o sistema gira no mesmo eixo
“transamos”. Algumas já se apropria- sem sair do lugar.
ram de termos como “trepamos”. Mas É preciso, porém, considerar que a
quando a mulher se apropria da forma linguagem traz consigo significados,
de falar e de vestir, antes assumida pe- e é sinal de pertencimento e de iden-
los homens numa sociedade machista, tificação com um grupo ou geração.
troca de posição, assume o controle e Talvez esta geração esteja expressando,
domina? Ou dá um tiro no próprio pé? mesmo através dos exageros e apelos
Cada vez mais se fala, nas socieda- sexuais, a dificuldade de sair de pa-
des ocidentais, no aumento da busca drões rígidos sem cair na repetição
de relações pautadas em amor, carinho pelo oposto. Para não se sentirem sub-
e compromisso, dada a dificuldade de missas, as mulheres estariam tentando
consegui-las. Será que experimentar mostrar o controle, o poder.
tanta competição, poder e controle do
sexo oposto tem resultado em novas
buscas? CONSIDERAÇÕES FINAIS
Será que aquilo que as pessoas as-
sistem na TV ainda é o que querem Apesar da convivência de pontos de
para si no âmbito privado? Ou esta- vista diferentes e falas que reforçam a
mos chegando a uma era em que a es- questão da desigualdade relacionada
pontaneidade na relação entre os sexos a gênero, estamos assistindo a uma
poderá ser vivenciada de forma mais flexibilização, embora cheia de pa-
igualitária? Não igual. Igualitária! radoxos. Pensamos que essa posição
Devemos, porém, enquanto pro- pós-feminista citada pela articulista
fissionais, e parte das nossas redes, as indica sim uma mudança na balan-
quais se entrelaçam com as redes de ça do poder entre os gêneros, porém
muitas outras pessoas, redes que sus- com a polarização invertida, manten-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


do assim o desequilíbrio da mesma. É de fundamental importância que
32 NPS 44 | Dezembro 2012
É preciso não esquecer que as ações homens e mulheres, pais, mães, edu-
não são o que define a realidade, mas cadores, terapeutas, pesquisadores e
sim o significado a elas atribuído e outros profissionais tenham uma clara
que estes são eivados de valores que consciência de suas posições nas rela-
subsidiam, motivam as ações. Pen- ções de gênero para que possam agir
sar uma nova ética nas relações de de acordo, com crítica, sabendo do que
gênero vai muito além de inverter precisam e o que sentem. Devem refle-
as posições de quem domina quem, tir, portanto, se concordam com uma
pois, em última an����������������
��������������
lise, quem apa- posição tradicional de divisão de pa-
rentemente domina decidindo como péis, com a subordinação da mulher,
e com quem usar seu poder de sedu- se estão numa posição de discutir essa
ção e de dar prazer, não deixa de estar divisão e subordinação, ou se já se en-
dominada pelo poder do dinheiro ou contram em um nível de construção
pelas facilidades que ele proporciona de uma posição mais equilibrada, sem
em troca. Portanto, todo dominador polarização, com plena consciência
também em algum sentido é domi- das diferenças, porém com senso de
nado, é a lógica do relacionamento. equidade, capacidade de cooperação,
Daí a necessidade de buscar menos que demanda flexibilidade, respeito
polarização, menos desequilíbrio entre as partes, negociação clara, ex-
nessa balança, pois isso impede qual- plícita sobre desejos e possibilidades
quer negociação na direção de maior de cada um, e sobre como se comple-
igualdade e equidade. mentarem para alcançá-los.
Não é possível, porém, esperar Para isso, faz-se necessária uma
uma unicidade, já que em cada con- ampla discussão pública e a educação
texto as mudanças ocorrerão de for- é ponto crucial deste processo. Livros
mas diversas. infantis que retratem homens e mu-
O que concluímos é que a divisão lheres com diferentes formas de viver e
rígida de papéis de gênero não tem de se expressar, educadores conscientes
mais sentido na sociedade atual pelas das necessidades de valorizar diferenças
conquistas das mulheres a novas posi- sem desigualdade, pais exercitando um
ções e as inevitáveis mudanças na si- novo modelo de relacionamento. Isso
tuação dos homens daí consequentes. pode trazer (possivelmente para a nova
Parece, no entanto, que esse linguajar geração) a condição de incluir um leque
agressivo, depreciativo e desqualifica- mais amplo de escolhas na construção
dor reservado ao feminino, à mulher da identidade dos que estão por vir. Aí
como objeto de manipulação mascu- devemos lembrar que caberá aos mais
lina, tem o significado de uma resis- velhos legitimar estas novas formas de
tência masculina para�����������������
não pe����������
rder a su- relacionar-se, já que serão parte impor-
premacia. Ao inverter posições como tante da rede social dos jovens adultos e
fazem certos grupos de mulheres, das crianças de amanhã.
apropriando-se de tais expressões, elas Possivelmente teremos a chance de
se confirmam como coisa, como ob- dar a eles o que buscamos e raramen-
jeto, em uma comunicação de duplo te encontramos em nossas famílias
sentido, além de reforçar e propagar de origem: a coragem e a ousadia de
tais significados. questionar o status quo político, social,
Como mudar esta situação? econômico, doméstico e religioso.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


REFERÊNCIAS ing and Supervision. New York: Gênero, cultura e rede social
Guilford Press. Marianne Feijó e Rosa Maria 33
Stefanini de Macedo
Abundis, P. (2007).  Construcción de Flannery, R. (1946). Men’s and wom-
la identidad femenina en pro- an’s speech in Gros Ventre. Interna-
gramas de belleza radiofónicos. tional Journal of American Linguis-
Nueva época, 7, 77-99. Recupera- tics, 12, 133-35.
do em 24 abril, 2012, de http:// Freedman, J., & Combs, G. (1996). Nar-
redalyc.uaemex.mx/redalyc/ rative therapy: the social construction
html/346/34600703/34600703.html of preferred realities. New York: WW
Albischer, V., & Forel, C. (1991). Falas Norton.
masculinas? Falas femininas? Sexo e Galli de Paratesi, N. (1991). As palavras
linguagem. São Paulo: Brasiliense tabus e a mulher. In V. Albischer
Bordieu, P., & Wacquant, L. (2008). An & C. Forel. Falas masculinas, falas
invitation to reflexive sociology. femininas? Sexo e Linguagem. São
In S.H.S. Borelli & J. Freire Filho Paulo: Brasiliense.
(Orgs.). Culturas juvenis no século García, M.P. (2000). Como hablan las
XXI. São Paulo: Educ. mujeres. Madrid: Arco libros.
Cerveny, C. (2011). A família como mo- Geertz, C. ( 1973). The interpretation of
delo. São Paulo: Livro Pleno. cultures. New York: Basic Books.
Dias, L. (2005). Homem e mulher: es- Gergen, K. (1994). Realities and re-
tratégias linguísticas diferentes? Ca- lationships: soundings in social
dernos do NNFL, IX (17). construction. Cambridge: Harvard
Esteves de Vasconcelos, M.J. (2004). University Press.
Pensamento sistêmico novo-para- Greenglas, E. (1982). A world of dif-
digmático: novo-paradigmático por ference: gender roles in perspective.
quê? Família e comunidade/Núcleo Toronto: Wiley.
Hondebine, A. (1991). Na pista do ima-
de Família e Comunidade do Pro-
ginário linguístico. In V. Albischer
grama de Estudos Pós-graduados
& C. Forel. Falas masculinas? Falas
em Psicologia Clínica da PUC-SP.
femininas? Sexo e linguagem. São
São Paulo: Via Lettera.
Paulo: Brasiliense.
Figueira, S. (1987). Uma nova família?
Horta, A.L., & Feijó, M. (2007). Sexuali-
Rio de Janeiro: Zahar.
dade na família. São Paulo: Expres-
Feijó, M. (2012). Família e projetos so-
são e Arte Editora.
ciais voltados para jovens: impacto
Macedo, R.M. (2007). Sexualidade e
e participação. Estudos em psicolo-
Gênero. In A.L. Horta, & M. Feijó.
gia, 29(2).
Sexualidade na família. São Paulo:
_______. (2007). Práticas sistêmicas
Expressão e Arte Editora.
com casais e famílias com dificul-
____________. (2006). Família e g�� ê-
dades sexuais. In A.L. Horta & M. nero. In C. Cerveny (org.) Família
Feijó. Sexualidade na família. São e... São Paulo: Casa do Psicólogo.
Paulo: Expressão e Arte Editora. McNamee, S. (2008). Um estudo socio-
_______ (2006). Família e rede social. construcionista da expertise tera-
In C. Cerveny (Org.). Família e… pêutica. Nova Perspectiva Sistêmica,
São Paulo: Casa do Psicólogo. XVI(31), 34-43.
Falicov, C.J (1988). Learning to think Martin, C., & Mahoney, A. (1996). Gender
culturally. In H.A. Liddle, D.C. dilemmas and myth in the construc-
Breunlin, & R.C. Schwartz (eds.). tion of marital bargains: issues for
Handbook of Family Therapy Train- marital therapy. Family Process, 35.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


Mead, M. (1969). Sexo e temperamento. de http://cinema.uol.com.br/ult-
34 NPS 44 | Dezembro 2012
São Paulo: Perspectiva. not/2005/12/15/ult26u20447.jhtm.
Medina, C. (1974). Família e mudança. Sluzki, C. (1997). A rede social na prá-
Rio de Janeiro: Vozes. tica sistêmica. São Paulo: Casa do
Medrado, B. (1997). A masculinidade Psicólogo.
na mídia televisiva brasileira. Traba- Soares, M., Feijó, M.R., & Valério, N.I.
lho apresentado no XXVI Congres- et al. (2011). O apoio da rede social
so Interamericano de Psicologia, a transexuais femininas. Paideia,
São Paulo. 21(48), 83-92.
Morin, E., Castro, G., & Carvalho, E. Turdgill, P. (1991). Sexo e prestígio lin-
(2006). Ensaios de complexidade. guístico. In V. Albischer & C. Forel.
Porto Alegre: Sulina. Falas masculinas? Falas femininas?
Motta, R., & Ciurana, E. (2002). A cultu- Sexo e linguagem. São Paulo: Brasi-
ra da complexidade e a complexida- liense.
de da cultura. Margem, 16, 171-173. Vieira, D. (2012). Adolescência, gênero
Palomino, E. (2001). Cultura popozu- e uso de substâncias. In E. Silva & D.
da. Folha de São Paulo, 4. Michelli. Adolescência, uso e abuso
Schmidt, F. Documentário “Sou feia de drogas: uma visão integrativa. São
mas tô na moda” mapeia o funk ca- Paulo: FAP/UNIFESP.
rioca. Recuperado em 27 abril, 2007,

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 21-34, dez. 2012.


ARTIGO

O PROCESSO DE TRANSMISSÃO INTERGERACIONAL E


A VIOLÊNCIA NO CASAL

THE PROCESS OF INTERGENERATIONAL TRANSMISSION AND MARITAL


VIOLENCE

RESUMO: O fenômeno da violência no casal ABSTRACT: The phenomenon of violence in the NATALIA PINHEIRO
sustenta-se em uma triangulação de diferentes couple is sustained in a triangulation of different SCANTAMBURLO
dimensões que se afetam recursivamente: a re- dimensions that affect themselves recursively: Psicóloga, terapeuta
lacional, a histórico-geracional e a sociocultural. the relational, the historical-generational and the relacional sistêmica,
O objetivo deste artigo é problematizar o reco- socio-cultural. The aim of this paper is to discuss especialista em Saúde da
nhecimento do processo da transmissão interge- the recognition of intergenerational transmission Familia e Comunidade,
racional e os modelos explicativos da violência process and the explanatory models of violence mestranda do Programa de
no casal heterossexual. A metodologia utilizada in heterosexual couple. The methodology used Pós-Graduação em Psicologia
foi de revisão teórica, sustentada em cinco eixos was theoretical review that claimed five axes of – Laboratório de Psicologia da
de análise. No exame dos modelos teórico-epis- analysis. In the analysis of theoretical and epis- Saúde, Família e Comunidade.
temológicos, observam-se diferentes posiciona- temological models are observed different posi- Universidade Federal de Santa
mentos frente à explicação da violência no casal, tions forward the explanation of violence between Catarina.
sendo a transmissão intergeracional o ponto de the couple, however, the intergenerational trans- nataliap.scatamburlo@gmail.
intersecção entre eles. Advoga-se para o perigo mission is considered the point of intersection com
de uma leitura linear ou determinista da transmis- between them. This article calls attention to the
são intergeracional da violência, assim como por danger of a linear or deterministic reading of the
um necessário reconhecimento da multidetermi- intergenerational transmission of violence, as well CARMEN LEONTINA
nação de fatores, que se afetam mutuamente na as recognition of the need for a multiplicity of fac-
OJEDA OCAMPO MORÉ
perpetuação do fenômeno na história relacional tors that affect each other in perpetuating the re-
do casal. lational phenomenon in the history of the couple. Profa. Dra. em Psicologia
Clínica – Programa de Pós-
Graduação em Psicologia
PALAVRAS-CHAVE: violência familiar, transmis- KEYWORDS: family violence, intergenerational Departamento de Psicologia
são intergeracional, violência no casal. transmission, marital violence. – Laboratório de Psicologia da
Saúde, Família e Comunidade.
Universidade Federal de Santa
Catarina.
INTRODUÇÃO

O fenômeno da violência vem sendo discutido e problematizado nos diferentes MARIA APARECIDA
âmbitos da produção do conhecimento, evidenciando um consenso em torno do CREPALDI
Profa. Dra. em Saúde
reconhecimento da violência como um dos principais problemas mundiais de saú- Mental – Programa de Pós-
de (Melo, 2010; Minayo, 2007; Ministério da Saúde, 2005; Organização Pan Ame- Graduação em Psicologia
ricana de Saúde, 2003; Organização Mundial de Saúde, 2002; Ministério da Saúde, – Departamento de Psicologia
– Laboratório de Psicologia da
2002,). Entre suas consequências, observam-se as implicações sociais e de saúde Saúde, Família e Comunidade.
que ameaçam o desenvolvimento humano, afetam a qualidade de vida dos indiví- Universidade Federal de Santa
duos e desgastam o tecido social (OMS, 2002). Catarina.
Associado a isso, é importante trazer à tona uma reflexão necessária sobre o po-
sicionamento do profissional frente à violência. Entende-se que o posicionamento
do mesmo ancorado em uma visão tradicional ou linear valoriza a crença de que
se separando o mundo em partes encontrar-se-ão elementos simples, ou seja, a
Recebido em 01/06/2012.
substância essencial para a compreensão do todo. Essa crença baseia-se no pressu-
Aprovado em 09/08/2012.
posto de que o mundo é estável e que cos no sentido de desconstruir leituras
36 NPS 44 | Dezembro 2012
os fenômenos são determinados e re- dicotomizadas ou fragmentadoras do
versíveis podendo ser previstos e con- fenômeno. Dessa forma, utilizou-se a
trolados. Além disso, existe a exigência metodologia de revisão teórica que se
da neutralidade para se chegar objeti- sustentou em cinco eixos de análise: a)
vamente ao conhecimento verdadeiro a contribuição dos estudos intergera-
sobre o mundo (Vasconcelos, 2002). cionais sistêmicos; b) os modelos ex-
Esse posicionamento linear tem re- plicativos do processo da violência no
percussões diretas no processo de in- casal heterossexual; c) os estudos na-
visibilidade ou visibilidade da violên- cionais e internacionais sobre a trans-
cia na prática profissional, pois, ao se missão intergeracional da violência, e
valorizar as partes, o profissional pode d) os pontos de consenso e a diferen-
não identificar a emergência de arma- ça sobre a utilização do conceito de
dilhas, que, por sua vez, pode sustentar transmissão intergeracional nos mo-
uma escuta fragmentada do fenômeno delos que sustentam o trabalho com a
em questão. Considera-se que a pre- violência conjugal.
sença dessa visão na prática profissio- Ao se evidenciar o conceito de
nal torna invisível a complexidade do transmissão geracional constataram-
fenômeno, o qual se configura numa -se dois termos comumente utilizados
diversidade de elementos que se afe- na definição desse fenômeno: interge-
tam recursivamente, dando lugar a racional e o transgeracional. Optou-se
uma dinâmica e a uma configuração pela reflexão em torno do conceito de
singulares na trama das relações hu- transmissão intergeracional, tanto por
manas. congregar a maioria dos estudos anali-
Indo ao encontro da perspectiva sados, como por entender que o fenô-
epistemológica da complexidade pro- meno da violência no casal implica um
posta por Morin (2005), compreende- trabalho que recai sobre as interações,
-se que, na multideterminação de um que ocorrem entre os membros do sis-
processo fenomênico, os elementos se tema familiar em tempo presente.
conectam entre si, e que, por sua vez, De acordo com Boszormenyi-
constituem o tecido de acontecimen- -Nagy (1978), o conceito de trans-
tos, ações, interações e retroações. missão intergeracional é definido
Dessa forma, pensar sobre a complexi- como o intercâmbio relacional entre
dade do fenômeno da violência requer as gerações, mediante o diálogo ati-
do profissional uma clareza com rela- vo entre elas. Wagner (2005) define
ção às inter-relações desses elementos, o termo como aquilo que é passado
principalmente os contextualizados de uma geração à outra, e relaciona-
nos sistemas envolvidos. Nessa leitura, -o com a noção de reciprocidade em
o indivíduo passa a ser compreendido detrimento da noção de permanên-
com base em sua inserção na trama re- cia. Correa (2000), baseado em uma
lacional à luz dos seus contextos histó- perspectiva psicanalítica, refere-se ao
rico e sociais. espaço de metabolização do material
O objetivo deste artigo é problema- psíquico transmitido pela geração
tizar o reconhecimento do processo mais próxima e que, transformado,
da transmissão intergeracional e os passará à seguinte.
modelos explicativos da violência no Observa-se que o termo interge-
casal heterossexual. Propõe-se uma racional é utilizado naqueles estudos
discussão inicial com subsídios teóri- nacionais e internacionais cuja ênfase

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


do fenômeno estudado recai sobre as meno (Böing, Crepaldi, & Moré, 2008; O processo de transmissão
intergeracional e a violência... 37
interações entre as gerações: avôs-pais, Andolfi, 1996).
Natalia P. Scantamburlo,Carmen Leontina
pais-filhos, avôs-filhos e entre pares De acordo com Osório (2002), a O. O. Moré e Maria Aparecida Crepaldi

(Cui, Durtschi, Donnellan, Lorenz, & família desenvolve funções diversifi-


Conger, 2010; Weber, Selig, Bernardin, cadas de transmissão de valores éti-
& Salvador, 2006; Kwong, Bartholo- cos, estéticos, religiosos e culturais,
mew, Henderson, & Trinke, 2003; Stith baseados nos objetivos de preservar,
et al., 2000). nutrir e proteger a descendência e
fornecer aos seus membros condições
para a aquisição de suas identidades
CONTRIBUIÇÃO DOS ESTUDOS pessoais. Segundo o autor, a família é
INTERGERACIONAIS SISTÊMICOS considerada como uma unidade gru-
pal, na qual se desenvolvem três tipos
A principal contribuição dos estu- de relações pessoais – aliança, filiação
dos geracionais refere-se ao entendi- e consanguinidade.
mento dos mecanismos de perpetua- Cada sistema familiar apresenta
ção dos padrões relacionais ao longo uma história complexa e singular ca-
das gerações nos sistemas familiares racterizada pela intersecção de his-
(Wagner, 2005; Vasconcelos, 2007; tórias individuais, de experiências
Penso, Costa, & Ribeiro, 2008). De compartilhadas e de vínculos inter-
acordo com a produção teórica sistê- geracionais (Andolfi, 2003). A manu-
mica, os pioneiros nos estudos sobre tenção da identidade da família e a
a Terapia Familiar (Bowen, Boszor- coesão entre seus membros dependem
menyi-Nagy e Framo) também foram da perpetuação de crenças, valores,
denominados de terapeutas geracio- padrões relacionais de cada história
nais haja vista a importância dos con- compartilhada (Andolfi, 2003; Wag-
ceitos propostos por estes autores nes- ner, 2005). Nesse sentido, a transmis-
sa temática (Elkäim, 1998). são da identidade e o sentimento de
Esses precursores evidenciaram que pertencimento são aspectos importan-
o fenômeno transgeracional era man- tes, que caracterizam a coesão familiar
tido por forças emocionais profundas e o desenvolvimento de seus membros
ao longo das gerações, e, somente por (Penso et al., 2008).
meio da compreensão das relações da Por intermédio dessas relações, são
família nuclear no contexto de suas desenvolvidos vínculos de afeto, de
famílias extensas, era possível identi- pertencimento, de compromissos, que,
ficar o fluxo emocional e os padrões juntamente com as crenças, os valores
relacionais presentes das gerações pre- e as normas adotados pela família, for-
cedentes (Vasconcelos, 2007). Para a mam uma trama de lealdades familia-
identificação desses fluxos e padrões res (Aun, 2007). Boszormenyi-Nagy
relacionais, Bowen (1989) propôs (1978) define a lealdade familiar como
considerar pelo menos três gerações uma estruturação relacional baseada
como a unidade mínima para uma em níveis profundos ético-relacionais
análise relacional. Essa amplitude de vida. O autor ressalta a responsa-
em apreender as relações no sistema bilidade recíproca, que liga as pessoas,
familiar representa o início de uma como uma genuína preocupação pela
importante mudança epistemológica necessidade do outro. Cada família
por considerar a interdependência e apresenta seu modo peculiar de equilí-
a complexidade envolvida nesse fenô- brio relacional, estabelecido pela equi-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


dade nas relações, o que proporciona jugalidade exige esforços constantes
38 NPS 44 | Dezembro 2012
o amadurecimento emocional de seus de mudança e adaptação, sendo que o
membros (Boszormenyi-Nagy, 1978). conflito entre autonomia e pertenci-
Em toda família observa-se a no- mento está presente em todo esse pro-
ção de justiça familiar, que, segundo cesso (Carter & MacGoldrich, 2001;
Boszormenyi-Nagy (1978), evidencia Whitaker, 1995; Narciso & Ribeiro,
o movimento constante de negociação 2009).
afetiva de direitos, deveres, obrigações e Quando o nível de indiferenciação
méritos. Segundo o autor, esse processo da família de origem é alto, a relação
é comparado à metáfora de um livro de de casal pode ser configurada por uma
contas onde são anotadas as contabili- fusão emocional excessiva, ocasionan-
dades das relações familiares realizadas do conflito conjugal, perda da identi-
ao longo da história da família. Assim, dade individual e perturbação emo-
algumas dívidas relacionais ou o direi- cional (Bowen, 1998). Por sua vez,
to de crédito são herdados por algumas constatam-se padrões interacionais
pessoas das gerações anteriores. transmitidos ao longo das gerações,
Essa herança recebida das gerações que podem ser geradores de sofri-
anteriores e que será repassada para mento. Dessa forma, quanto maior a
outras gerações fica mais evidente na indiferenciação nas relações permea-
etapa do ciclo de vida do casal, pois das por violência na família de ori-
as relações estabelecidas na conjuga- gem, maior a probabilidade que essas
lidade caracterizam-se como o ponto interações sejam repetidas em outras
de encontro entre aquilo que já foi relações.
transmitido e o que, por sua vez, será No contexto das discussões da trans-
transmitido à nova família (Andolfi, missão intergeracional na perspectiva
2003). O conceito de conjugalidade é sistêmica, evidencia-se a ampliação
entendido pela união de duas pessoas do foco do indivíduo para as relações
que, por meio de seus elos geracio- familiares, ao longo das gerações, e as
nais, estabelecem uma matriz conjugal temáticas como segredos, mitos, valo-
(Feres-Carneiro & Ziviani, 2009), a res e crenças familiares, que sustentam
qual poderá ser vivenciada por inter- o processo da transmissão, sobretudo,
médio do casamento ou de algum tipo em relação à violência. Dessa forma,
de união em determinado período de ressalta-se o início de uma reflexão
suas vidas (Mossman, Wagner, & Fé- epistemológica sobre a contextualiza-
res-Carneiro, 2006). ção e a ampliação do conhecimento
De acordo com Bowen (1998), a psicológico, com importantes implica-
formação de um casal constitui-se pela ções na prática clínica e de investiga-
união de duas pessoas que trazem ní- ção (Böing et al., 2008).
veis de diferenciação em relação à sua
família de origem. A escolha do parcei-
ro ocorre, sobretudo, com base nesse MODELOS EXPLICATIVOS DO
nível de diferenciação (autonomia) PROCESSO DE VIOLÊNCIA CONJUGAL
ou indiferenciação (pertencimento
excessivo) da massa de ego familiar, Observa-se no campo da produção
o que resulta na união de pessoas que científica uma produção teórica con-
compartilham os mesmos níveis de sistente sobre o tema de violência con-
intensidade emocional. Dessa forma, a jugal entre casais heterossexuais. De
transição do ciclo de vida para a con- acordo com Oliveira e Gomes (2011),

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


constata-se o predomínio de um con- amostras clínicas e as evidências su- O processo de transmissão
intergeracional e a violência... 39
junto de modelos explicativos da vio- gerem que ocorre uma maior vitimi-
Natalia P. Scantamburlo,Carmen Leontina
lência conjugal utilizados tanto para zação do sexo feminino em relação ao O. O. Moré e Maria Aparecida Crepaldi

a compreensão do fenômeno, como masculino. A população costuma ser


para a sustentação das intervenções na selecionada nos serviços especializa-
prática clínica, sendo que as diferenças dos que atendem vítimas de violên-
entre os modelos referem-se às inter- cia e, em sua maioria, o delineamento
pretações e ao posicionamento teórico configura-se por ser qualitativo.
sobre as causas da violência. Por sua Entre os estudos sobre a perspectiva
vez, também se encontram diferenças de gênero, observam-se correntes teó-
quanto ao delineamento utilizado nas ricas, que se diferenciam da concepção
pesquisas e aos participantes seleciona- a priori de quem é agressor e vítima
dos nesses estudos (Olsen et al., 2010). nas relações que envolvem violência
Entre os modelos explicativos, (Falcke & Féres Carneiro, 2011; Santos
encontra-se o da violência contra a & Moré, 2011a; Santos & Moré, 2011b;
mulher ou violência de gênero, o qual Cantera, 2004). De acordo com Can-
assenta sua análise com base no reco- tera (2004), quando se tem o marco
nhecimento de um comportamento explicativo da violência, baseado no
violento do homem contra sua parcei- enfoque dicotômico (homem/mu-
ra, no contexto de um relacionamen- lher), resulta invisível a violência que
to íntimo (OMS, 2002; Brancalhone, algumas mulheres praticam contra os
Fogo, & Willians, 2004). Nessa pers- homens, como também a violência
pectiva teórica, os papéis do homem/ nas relações homossexuais (Cantera,
marido como agressor e da mulher/ 2007).
esposa como vítima são definidos a Outro modelo explicativo da vio-
priori, afirmando que essa divisão de lência aponta para a co-ocorrência
papéis tem origem na organização so- de perpetrar e receber a violência. De
cial patriarcal (Cantera, 2007). Os re- acordo com Olsen et al. (2010), es-
sultados dessas pesquisas nos ajudam ses estudos caracterizam-se por uma
a compreender como ocorre a dinâmi- amostra populacional e, em sua maio-
ca conjugal nas relações em que o ho- ria, apresentam delineamento quanti-
mem/marido exerce violência contra a tativo. Os achados apontam que quan-
mulher/esposa. do a violência conjugal é relatada na
Esse enfoque compreende a violên- relação, observa-se uma reciprocidade
cia no casal não como um fenômeno entre os atos violentos reportados pelo
derivado da natureza sexual das rela- casal (Kwong, Bartholomew, & Dut-
ções entre homem e mulher, mas como ton, 1999; O’Keefe, 1997; Gray & Fo-
um processo histórico produzido e re- shee, 1997).
produzido pelas estruturas sociais de Fundamentado nessa perspectiva,
dominação alimentadas pela ideologia ao se discutir o processo de violência,
patriarcal (Cantera, 2004). De acordo considera-se o processo interacional,
com Cantera (2004), o enfoque de gê- que não pode ser concebido como
nero tem o mérito inquestionável de uma construção individual, mas sim
descrever e compreender o processo como uma trama relacional na qual
de vítimas, que ainda estão presas em todas as partes envolvidas se afetam re-
uma espiral de violência. cursivamente (Santos & Moré, 2011a).
De acordo com Olsen et al. (2010), Dessa forma, a fronteira entre agres-
os estudos de gênero apresentam sor e agredido é de difícil demarcação

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


entre os envolvidos. Assim, a tomada na sua própria coesão interna. O mo-
40 NPS 44 | Dezembro 2012
da posição, produto desse processo de delo sistêmico estabelece a relação de
construção, dependerá diretamente do codependência do processo de violên-
contexto histórico, geracional e social cia no sistema familiar, ou seja, a vio-
em que a situação de agressão ocorre lência no contexto conjugal influencia
(Santos & Moré, 2011a; Moré & Can- todas as pessoas do sistema familiar, e
tera, 2010). o foco de estudo, portanto, é colocado
Ao compreendermos a violência a nas interações entre todos os envolvi-
partir da perspectiva relacional, Ol- dos daquela família (Schmidt, Schnei-
sen et al. (2010) ressaltam a impor- der, & Crepaldi, 2011).
tância de se identificar a magnitude, Considera-se que a perspectiva sis-
a frequência e a duração da exposição têmica avança na proposta teórico-
à violência nas relações de casal. Pois, -metodológica com relação ao proces-
grupos que experienciam episódios es- so da violência, pois, ao considerar a
porádicos de violência se diferenciam família como um sistema aberto e em
dos grupos que vivenciam episódios constantes trocas com outros sistemas,
de violência de forma cotidiana. Nes- reconhecem-se os diferentes contextos
se sentido, Bolze, Schmidt, Crepaldi e que influenciam recursivamente para
Vieira (2011) diferenciam o conceito produzir o fenômeno. Dessa forma,
de conflito conjugal e violência con- ao enfocar as interconexões do su-
jugal, sendo o conflito inerente a toda jeito com os diferentes contextos dos
relação humana, podendo resultar em quais participa (do macrossocial ao
novas oportunidades e transforma- microssocial), a fase do ciclo de vida
ções relacionais aos envolvidos. Por e o aspecto geracional na definição do
outro lado, a violência seria uma ma- processo da violência no sistema fami-
neira de lidar com os conflitos, poden- liar concebe-se um foco ampliado de
do ser adotada ou não pelos casais. análise do fenômeno (Bronfenbren-
No marco do modelo explicativo ner, 2004; Bronfenbrenner & Morris,
da perspectiva relacional sistêmica, a 1998). Por sua vez, os aspectos relacio-
violência conjugal pode ser entendida nados à comunicação, assim como, os
como ideia de processo, de contexto e elos de recursividade estabelecidos en-
do embate relacional e comunicacio- tre os membros da família são aspectos
nal entre os integrantes da família. As- que também contribuem na contex-
sim, a violência no contexto da família tualização das relações estabelecidas
se sustenta baseada em um processo (Böing et al., 2008; Aun, Vasconcellos,
de construção, que se ancora no jogo & Coelho, 2005; Grandesso, 2000).
relacional e comunicacional entre to- Cabe destacar que abordar o fenô-
dos os membros ao longo do tempo, meno da violência conjugal na pers-
estabelecendo uma dinâmica pecu- pectiva relacional sistêmica implica a
liar. Essa perspectiva de compreensão corresponsabilização no processo de
do processo de violência coaduna-se construção da situação de violência
com Almeida (2009) quando esse au- por parte de todos os envolvidos. De
tor afirma que o maltrato, entendido acordo com Cunha, Roza, Matta, Sto-
como uma forma de violência, assu- ckler, Alegre e Santos (2011), um ato
me um valor comunicacional o qual de violência exige um autor e uma
tem que ser conhecido e transformado vítima, mas o processo pelo qual
para que o sistema possa evoluir ma- aquele ato tornou-se possível tem a
turativamente sem se sentir ameaçado participação de todos que fazem par-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


te daquele contexto. Dessa forma, não tendem a ser transmitidas pela família O processo de transmissão
intergeracional e a violência... 41
se tira a responsabilidade concreta do de origem, sendo o abuso psicológi-
Natalia P. Scantamburlo,Carmen Leontina
agressor frente à violência, devendo o co considerado um dos aspectos es- O. O. Moré e Maria Aparecida Crepaldi

autor ser responsabilizado legalmente senciais na dinâmica das relações que


respondendo por seus atos e a vítima envolvem violência. Além disso, Slep
deve ser cuidada e protegida. A contri- e O’leary (2005) demonstraram que,
buição da perspectiva relacional dian- quando existe a violência conjugal, há
te do fenômeno violência refere-se à uma alta probabilidade da co-ocorrên-
possibilidade de um espaço de reflexão cia da violência contra a criança, tanto
sobre o processo e sobre a dinâmica re- praticada pelo pai quanto pela mãe.
lacional que tornou o ato possível para Kwong et al. (2003) e Stith et al.
que se evitem possíveis reincidências e (2000) justificam seus achados da
a cristalizações de papéis (Cunha et al., transmissão intergeracional da vio-
2011). lência com base na perspectiva da
teoria da aprendizagem social (Ban-
dura, 1977), cujas opções de respostas
TRANSMISSÃO INTERGERACIONAL violentas são aprendidas por meio da
DA VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DA observação ou vivência desse com-
INVESTIGAÇÃO portamento. Assim, a criança observa
como os adultos de sua família lidam
Os estudos sobre a transmissão dos com as situações e como suas escolhas
padrões de violência têm sustentado a comportamentais resultam em deter-
hipótese de que há fatores da família minados desfechos. Quando adultas,
de origem, que podem ser conside- suas opções de resposta a determina-
rados como preditores da ocorrência das situações serão influenciadas pelas
da violência nas gerações futuras. En- situações semelhantes que foram ob-
tre esses estudos destacam-se aque- servadas na relação com seus cuidado-
les que evidenciam que a violência res (Stith et al., 2000).
na família de origem tem associação Nessa mesma perspectiva, alguns
com a violência nas relações conjugais pesquisadores têm demonstrado que
da geração seguinte (Cui et al., 2010; nem todas as crianças que vivem em
Malik, Sorenson, & Aneshensel, 1997; situações de violência em sua família
O’Leary, Malone, & Tyree, 1994). de origem tornam-se abusivas em seus
Mediante um estudo longitudinal, relacionamentos conjugais (Harris
Cui et al. (2010) demonstraram que os & Dersch, 2001; O´Keefe & Treister,
sujeitos que foram expostos a altos ní- 1998; McCloskey & Lichter, 2003). Es-
veis de violência na família de origem ses estudos sugerem que a violência na
repetem esse processo interacional em família de origem apresenta-se como
sua relação conjugal. Além disso, essas um dos fatores de risco, que pode se
pessoas escolhem como suas parceiras tornar preditor de violência nas rela-
mulheres que também compartilham ções futuras.
um padrão de interação similar. Em seu estudo, Harris e Dersch
De acordo com Kwong et al. (2003), (2001) entrevistaram homens que
nas relações conjugais nas quais ocor- sofreram violência em sua família de
rem violência há uma alta correlação origem, mas não a utilizavam em suas
entre a co-ocorrência de violência físi- relações conjugais. Os achados apon-
ca e violência psicológica. Segundo es- tam que essas pessoas tinham fortes
tes autores, essas duas formas de abuso crenças contra o uso da violência e as

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


compreendiam como prejudiciais em compreensão da violência evidenciam
42 NPS 44 | Dezembro 2012
suas relações íntimas. Além disso, os um ponto em comum com o conceito
participantes também atribuíam seu da transmissão intergeracional. Con-
comportamento não violento ao rela- sidera-se necessária a problematiza-
cionamento com pessoas significativas ção dessa intersecção entre violência
em sua vida, fora do contexto da famí- e transmissão intergeracional, prin-
lia de origem. cipalmente, em relação à presença de
Esses achados ampliam a dimen- pontos cegos, que podem levar a não
são da transmissão intergeracional, ao identificação da violência na práti-
considerarem aspectos fora do contex- ca profissional e à sustentação de um
to familiar como possíveis fatores de modelo determinista e linear de causa-
proteção, relativizando, assim, o as- -efeito. Nesse sentido, ressalta-se a im-
pecto linear da transmissão da violên- portância de se refletir sobre o posicio-
cia no contexto de família de origem. namento teórico-epistemológico do
Indo ao encontro desses dados, Olsen profissional em relação ao fenômeno.
et al. (2010) ressaltam que a relação Ancorados nos resultados das pes-
entre os pares, sobretudo na infância quisas sobre o processo da violência
e adolescência, pode ser preditora de constata-se que as diferenças entre o
risco ou de resiliência em relação ao modelo de gênero e o modelo relacio-
comportamento violento. nal ocorrem principalmente pelo mé-
Nesse sentido, as tendências atuais todo de seleção da amostra utilizada
dos estudos empíricos sobre a trans- (Olsen et al., 2010). Considerando o
missão intergeracional da violência modelo de gênero, a seleção da popu-
têm ressaltado as interconexões de di- lação para esses estudos configuram-
ferentes ecologias no desenvolvimento -se por amostras clínicas o que evi-
dos sujeitos, como fatores que influen- denciam o padrão de perpetração de
ciam o comportamento de perpetrar e violência que ocorre do homem em
receber a violência em relacionamen- relação à mulher. Quanto ao modelo
tos românticos futuros. Assim, o po- relacional, a seleção da população re-
sicionamento teórico-metodológico fere-se a amostras populacionais o que,
desses estudos passa a considerar as de modo geral, evidencia que as taxas
influências do microssistema e suas de perpetração da violência entre os
conexões, como também os aspectos casais ocorrem de forma bidirecional,
do contexto macrossocial como a cul- ou seja, há agressões de ambos os lados.
tura, as influências históricas, políticas É importante destacar que exis-
e religiosas, como parte da constelação tem resultados de pesquisa como de
de fatores determinantes dessa trans- Straus, Gelles e Steinmetz (1980) que
missão (Olsen et al., 2010). correlacionam o processo da violência
e a transmissão intergeracional atra-
vés de um posicionamento vertical e
PONTOS DE CONSENSO E determinista por não considerarem
DIFERENÇAS SOBRE A TRANSMISSÃO a complexidade dos mecanismos de
INTERGERACIONAL NOS MODELOS perpetuação do fenômeno (Olsen et
EXPLICATIVOS DA VIOLÊNCIA al., 2010). Esse estudo contribuiu so-
bremaneira com a identificação e a no-
De acordo com o exposto, observa- meação do fenômeno, porém estabele-
-se que o modelo de gênero e o mo- ceu uma relação direta e linear entre o
delo relacional apresentados sobre a fato de que, se alguém testemunhar a

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


violência na família de origem, poderá Dessa forma, ao ampliar o foco das O processo de transmissão
intergeracional e a violência... 43
tornar-se violento nas próximas rela- relações familiares, compreende-se do
Natalia P. Scantamburlo,Carmen Leontina
ções com a nova família. profissional uma postura ética e de O. O. Moré e Maria Aparecida Crepaldi

Assim, ressalta-se a armadilha de respeito em relação às crenças daquela


considerar que todo aquele que expe- família. Isso não significa ser coniven-
riencia a violência irá sempre abusar, te ou negligente em relação à violên-
não tendo outra possibilidade senão cia, mas estar internamente disponível
perpetuar esse comportamento. Trata- para compreender seus mitos e valores
-se de um posicionamento que des- transgeracionais, assim como as liga-
considera os diferentes fatores e con- ções de lealdade e afeto que vêm sendo
textos, os quais influenciam e podem transmitidas de geração em geração.
modificar a multiderminação do pro- Assim, quando a violência está pre-
cesso de violência. sente nas relações conjugais é necessá-
A perspectiva do pensamento sis- rio avaliar todo o sistema de relações
têmico auxilia a pensar e a ampliar a familiares (Schmidt et al., 2011; Koller
compreensão do conceito de trans- & Antoni, 2004) e contextualizá-las,
missão, com base no reconhecimento ressaltando as potencialidades e recur-
do princípio da instabilidade aplicado sos encontrados nesses sistemas (Moré
aos sistemas familiares. Dessa forma, & Cantera, 2010). Os fatores potencial-
a violência como fenômeno pode ser mente de proteção nos vários níveis
processada por alguns dos elementos ecológicos também são importantes
do sistema familiar, ficando uma mar- para a garantia do desenvolvimento de
gem livre, que provoca a instabilidade cada membro do sistema familiar, mes-
da trama relacional em todo o siste- mo nas relações que envolvam violên-
ma (Von Foster, 1996). Por sua vez, o cia. Isso deixa em evidência a impor-
pensamento sistêmico considera a cir- tância do suporte institucional e social
cularidade e a recursividade das con- nos diferentes níveis ecológicos, assim
figurações relacionais como fatores como a importância da rede social sig-
que influenciam a perpetuação desse nificativa, sendo que os estudos dessa
processo. última temática ainda são incipientes
Além disso, a perspectiva sistêmica quando relacionados à temática da vio-
propõe a mudança de uma “visão ne- lência (Moré & Cantera, 2010).
gativa”, na qual o mundo familiar tem
como figura principal os desajustes e
fracassos para uma perspectiva que CONSIDERAÇÕES FINAIS
foca, compreende e fortalece os re-
cursos e o sucesso do grupo familiar Na intervenção psicológica com fa-
(Böing et al., 2008). Dessa forma, a mílias que apresentam sofrimento em
família aparece como a principal fonte decorrência do processo da violência,
de recursos para produzir mudanças a utilização da noção de transmissão
frente ao processo da violência (Moré intergeracional tem se constituído um
& Cantera, 2010). Indo ao encontro aliado para a qualificação da escuta, no
desse modelo, Bronfebrenner (2004) sentido de gerar possibilidades de um
propõe a interconexão de diferentes entendimento ampliado e contextuali-
sistemas ecológicos e a ampliação do zado do fenômeno baseado na história
foco como recurso para a contextua- geracional da família.
lização desse fenômeno nos sistemas É importante refletir e/ou assumir
familiares. que a violência é prejudicial e danosa

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


em quaisquer que sejam as suas di- A contribuição deste artigo visa re-
44 NPS 44 | Dezembro 2012
ferentes formas, quais sejam, física, fletir sobre a possibilidade de um po-
psicológica, sexual, entre outras. As- sicionamento do profissional frente
sim, coaduna-se com as afirmações a um modelo integrador, que possa
de Stelko-Pereira e Willians (2010) o incluir contribuições do modelo de
fato de que não cabe juízo de valor em gênero e do modelo relacional, assim
relação à intensidade e ao tipo de vio- como o processo de transmissão in-
lência, pois a violência como fenôme- tergeracional baseado numa ótica re-
no sempre gera consequências físicas, lacional, contextualizada e ampliada,
relacionais e emocionais negativas. que valoriza, sobretudo, os recursos
Dessa forma, entende-se que a postura potenciais do sistema familiar.
diante desse fenômeno é de um esfor- Considerando esse posicionamento,
ço constante de torná-lo visível, assim cabe destacar que a violência se susten-
como de intervir independentemente ta em um processo de coparticipação
de qual modalidade se apresente. entre todos os membros da família. Ao
Os modelos explicativos da violên- assumir essa postura, o profissional
cia oferecem diferentes possibilidades não responsabiliza somente um indi-
de entendimento, considerando-se a víduo sobre a violência na família, mas
complexidade do fenômeno. Tanto o se propõe a uma leitura de como os
modelo de gênero como o relacional elementos envolvidos nesse processo
oferecem potencialidades. Os riscos participam de forma a coconstruírem
referem-se a ambos os modelos ao relações de violência no sistema fami-
assumir-se um posicionamento frag- liar. Dessa forma, pode-se promover a
mentado e equivocado frente a um reflexão sobre mudanças necessárias
fenômeno tão complexo. Nesse senti- de cada um dos elementos envolvidos
do, é importante questionar-se quais para que a violência não se perpetue.
elementos desses modelos favorecem
a identificação do processo da violên-
cia nas famílias e instrumentalizam os REFERÊNCIAS
profissionais para uma escuta sensível
em relação ao fenômeno em todas as Alarcão, M. (2000). (Des)equilíbrios
suas dimensões, e, sobretudo, no que familiares. Coimbra: Quarteto Edi-
concerne à violência psicológica, pois tora.
esta é a mais difícil de ser identificada. Almeida, M.V. (2009). Violência con-
Da mesma forma, dependendo do jugal e álcool: (in)existência de uma
posicionamento teórico-epistemológi- relação causal? (Dissertação de Mes-
co adotado pelo profissional ou pes- trado) em Medicina legal e Ciências
quisador sobre a transmissão interge- forenses. Universidade de Coimbra,
racional pode-se assumir o risco de Portugal.
uma visão determinista e fragmentada Andolfi, M. (1996). A linguagem do en-
sobre o fenômeno. Esta postura não contro terapêutico. Porto Alegre: Ar-
visualiza a possibilidade de a família tes Médicas.
ter recursos de mudanças e de cons- Andolfi, M. (2003). Manual de Psicología
trução de interações, nem possibilida- Relacional: La dimensión familiar.
des alternativas de interação conjugal, Colombia: La Sillueta Ediciones.
Aun, J. G. (2007). A transmissão trans-
pois os padrões estão encerrados em
geracional da contabilidade fami-
um ciclo perpétuo de transmissão.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


liar. In J.G. Aun et al. (Ed.) Aten- retical models of human develop- O processo de transmissão
intergeracional e a violência... 45
dimento sistêmico de família e redes ment. New York: John Wiley & Sons.
Natalia P. Scantamburlo,Carmen Leontina
sociais, II: o processo de atendimento Cantera, L. (2004). Más allá del gêne- O. O. Moré e Maria Aparecida Crepaldi

sistêmico. Belo Horizonte: Ophicina ro: nuevos enfoques de “nuevas”


de arte & prosa. dimensiones y direcciones de la vio-
Aun, J.G., Vasconcelos, M.J.E., & Coe- lencia en la pareja. Athenea Digital:
lho, S.V. (2005). Atendimento sis- Revista de Pensamiento e Investigaci-
têmico de família e redes sociais. I: ón Social, 6.
Fundamentos teóricos e epistemoló- Cantera, L. (2007). Violência no casal:
gicos. Belo Horizonte: Ophicina de um enfoque além do gênero. Porto
arte & prosa. Alegre: Dom Quixote.
Bandura, A. (1977). Social learning the- Carter, B., & MacGoldrick, G. (2001). As
ory. Oxford: Prentice-Hall. mudanças no ciclo de vida: uma es-
Böing, E., Crepaldi, M. A., & Moré, C. L. trutura para a terapia familiar. Por-
O. O. (2008). Pesquisa com famílias: to Alegre: Artmed.
aspectos teórico-metodológicos. Carvalho-Barreto, A., Bucher-Malus-
Paidéia, 18(40), 251-266. chke, J.S.N.F, Almeida, P.C., & De-
Bolze, S., Schmit, B., Crepaldi, M. A., & Souza, E. (2009). Desenvolvimento
Vieira, M. (2011) Conflito conjugal: humano e violência de gênero: uma
uma revisão da produção científica integração bioecológica. Revista: re-
brasileira. Pensando famílias, 15(2), flexão e crítica, 22(1), 86-92.
51-69. Correa, O.B.R. (2000). Os avatares da
Borzormenyi-Nagy, I. (1978). Visión transmissão psíquica geracional. São
dialectica de la terapia familiar in- Paulo: Escuta.
tergeneracional: terapia familiar. Cui, M., Durtschi, J., Donnellan, M.B,
Buenos Aires: Ace. Lorenz, F.O., & Conger, R.D. (2010).
Bowen, M. (1989). La terapia familiar Intergenerational Transmission of
em la práctica clínica. Bilbao: Des- Relationship Aggression: A Pro-
clee de Bouwer. spective Longitudinal Study. Jour-
Bowen, M. (1998). De la família al indi- nal of Family Psychology, 24(6), 688-
viduo: la diferenciación del sí mismo 697.
em el sistema familiar. Buenos Aires: Cunha, R.B.B., Roza, M.L.A., Matta,
Paidós. M.C., Stockler, M.C., Alegre, M., &
Brancalhone, P. G., Fogo, J. C., & Willia- Santos, S. (2011). O autor de vio-
ms, L. C. A. (2004). ���������������
Crianças expos- lência incluído no atendimento de
tas à violência conjugal: avaliação terapia de família: desconstruindo
do desempenho acadêmico. Psico- papéis, reconstruindo mundos.
logia: Teoria e Pesquisa, 20(2), 113- Nova Perspectiva Sistêmica, XX(41).
117. Elkäim, M. (1998) Panorama das tera-
Bronfenbrenner, U. (2004). Making hu- pias familiares. São Paulo: Summus.
man Beings Human: Bioecological Falcke, D. & Feres-Carneiro, T. (2011).
Perspectives on Human Develop- Reflexões sobre a violência conju-
mental. Thousand Oaks: Sage. gal: diferentes contextos, múltiplas
Bronfenbrenner, U., & Morris, P. (1998). expressões. In A. Wagner et al. (Ed.).
The ecology of developmental pro- Desafios psicossociais da família con-
cesses. In M. Lerner et al. (Ed.), temporânea: pesquisas e reflexões.
Handbook of child psychology: theo- Porto Alegre: Artmed.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


Feres-Carneiro, T. & Ziviani, C. (2009). Mccloskey, L.A., & Lichter, E.L. (2003).
46 NPS 44 | Dezembro 2012
Conjugalidades contemporâneas: The contribution of marital vio-
um estudo sobre os múltiplos ar- lence to Adolescent aggression
ranjos conjugais da atualidade. In T. across different relationships. Jour-
�����
F. Carneiro et al. (Ed.). Casal e fa- nal of Interpersonal Violence, 18,
mília: permanências e rupturas. São 390-412.
Paulo: Casa do Psicólogo. Melo, E.M. (2010). Podemos preve-
Grandesso, M. (2000). Sobre a recons- nir a violência. Brasília: Organi-
trução do significado: Uma análise zação Pan-Americana da Saúde.
epistemológica e hermenêutica da Recuperado em 24 agosto, 2011,
prática clínica. São Paulo: Casa do de http://portal.saude.gov.br/por-
Psicólogo. tal/.../podemos_prevenir_violen-
Gray, H.M., & Foshee, V. A. (1997). cia_03_12_2010.pdf.
Adolescent dating violence: Differ- Minayo, M.C.S. (2007). A inclusão da
ences between one-sided and mutu- violência na agenda da saúde: tra-
ally violent profiles. Journal of Inter- jetória histórica. Ciência & Saúde
personal Violence, 12, 126-141. Coletiva, 11.
Harris, S.M., & Dersch, C. A. (2001). Ministério da Saúde. (2002). Violên-
‘’I’m Just Not Like that’’: Investigat- cia intrafamiliar: orientações para
ing the Intergenerational Cycle of a prática em serviço. Recuperado
Violence. The Family Journal, 9(3), em 24 agosto, 2011, de http://bvs-
250-258. ms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/
Koller, S.H., & Antoni, C. (2004). ����
Vio- cd05_19.pdf.
lência intrafamiliar: uma visão eco- Ministério da Saúde. (2005). Impacto
lógica. In S. H. Koller (Ed.). Ecologia da violência na saúde dos brasileiros.
do desenvolvimento humano: pesqui- Recuperado em 24 agosto, 2011, de
sa e intervenção no Brasil. São Paulo: http://www.bvsms.saude.gov.br/
Casa do Psicólogo. bvs/publicacoes/impacto_violencia.
Kwong, M.J., Bartholomew, K., & Dutton, pdf.
D.G. (1999). Gender differences in Moré, C. L. O. O., & Cantera, L. (2010).
patterns of relationship violence in La violencia contra la mujer y la
Alberta. Canadian Journal of Behav- práctica profesional: la perspecti-
ioral Science, 31, 150-160. va de la familia, redes de apoyo
Kwong, M.J., Bartholomew, K., Hender- e interdisciplinariedad. Trabalho
son, A.J.Z., & Trinke, S. (2003) The completo. Anais do Congreso de In-
intergenerational transmission of tervención para el Estudio de la
relationship violence. Journal of Violencia Contra las Mujeres. Se-
family psychology, 17(3), 288-301. villa, ES, España, 1.
Lisboa, A.V., Féres-Carneiro, T., & Ja- Morin, E. (2005). Introdução ao pensa-
blonski, B. (2007). Transmissão in- mento complexo. Porto Alegre: Suli-
tergeracional da cultura: um estudo na.
sobre uma família mineira. Psicolo- Mosmann, C., Wagner, A., & Féres-
gia em Estudo, 12(1), 51-59. -Carneiro, T. (2006). Qualidade con-
Malik, S., Sorenson, S.B., & Aneshensel, jugal: mapeando conceitos. Paidéia,
C. S. (1997). Community and Dating 16(35), 315-325.
Violence Among Adolescents: Perpe- Narciso, I., & Ribeiro, M.T. (2009).
tration and Victimization. Journal of Olhares sobre a conjugalidade. Lis-
Adolescent Health, 21, 291−302. boa: Coisas de ler.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


Narvaz, M. (2002). Abusos sexuais e Organização Pan Americana de Saú- O processo de transmissão
intergeracional e a violência... 47
violências de gênero. In M.R. Nunes de [OPAS] (2003). Repercussão da
Natalia P. Scantamburlo,Carmen Leontina
(Ed.). Os direitos humanos das me- violência na saúde das populações O. O. Moré e Maria Aparecida Crepaldi

ninas e das mulheres: enfoques fe- Americanas. Recuperado em 04 se-


ministas. Porto Alegre: Assembléia tembro, 2011, de http://www.paho.
legislativa do Rio Grande do Sul. org/portuguese/gov/cd/cd44-fr-p.
Narvaz, M. & Koller, S. H. (2004). Famí-
����� pdf.
lias, violências e gêneros: desvelando Osório, L.C. (2002) Casais e famílias:
a trama da transmissão transgeracio- uma visão contemporânea. Porto
nal da violência de gênero. In M. Strey Alegre: Artmed.
et al. (Ed). Violência, gênero e políticas Papp, P. (2002). Casais em perigo: novas
públicas. Porto Alegre: Edipucrs. diretrizes para terapeutas. Porto Ale-
Nichols, M.P. & Schwartz, R.C. (1998). gre: Artmed.
Terapia familiar: conceitos e méto- Penso, M.A., Costa, L.F., & Ribeiro,
dos. Porto Alegre: Artes Médicas. M.A. (2008) Aspectos teóricos da
O’Keefe, M. (1997). Predictors of dat- transmissão transgeracional do
ing violence among high school genograma. In M. A. Penso et al.
students. Journal of Interpersonal (Eds.). A transmissão geracional em
Violence, 12, 546−568. diferentes contextos: da pesquisa à
O’Keefe, M. & Treister, L. (1998). Vic- intervenção. São Paulo: Summus.
tims of dating violence among high Ravazzola, M.C. (2005). Historias infa-
school students. Violence Against mes: los maltratos em las relaciones.
Women, 4, 195−223. Buenos Aires: Paidós.
O’Leary, K. D., Malone, J., & Tyree, A. Santos, A. C. W., & Moré, C. L. O. O.
(1994). Physical aggression in early (2011a). Repercussão da violência
marriage: Prerelationship and re- na mulher e suas formas de enfren-
lationship effects. Journal of Con- tamento. Paidéia, 21(49), 227-235.
sulting and Clinical Psychology, 62, Santos, A. C. W., & Moré, C. L. O. O.
594-602. (2011b). Impacto da Violência no
Oliveira, K. L. C. & Gomes, R. (2011). Sistema Familiar de Mulheres Víti-
Homens e violência conjugal: uma mas de Agressão. Ciência e profissão,
análise de estudos brasileiros. Re- 31(2), 220-235.
vista ciência e saúde coletiva, 16(5), Schmidt, B., Schneider, D.R., & Cre-
2401-2413. paldi, M. A. (2011). Abordagem da
Olsen, J.P., Parra, G.R., & Bennett, S.A. violência familiar pelos serviços de
(2010). Predicting violence in ro- saúde: contribuições do pensamen-
mantic relationships during adoles- to sistêmico. Psico, 42(3), 321-329.
cence and emerging adulthood: A Silva, M. A; Falbo Neto, G.H., & Ca-
critical review of the mechanisms by bral Filho, J. E. (2009). Maus-tratos
which familial and peer influences na infância de mulheres vítimas
operate. Clinical Psychology Review, de violência. Psicologia em Estudo,
30, 411–422. 14(1), 121-127.
Organização Mundial de Saúde [OMS] Slep, A. M., & O’Leary, S.G. (2005). Par-
(2002). Relatório mundial sobre vio- ent and partner violence in families
lência e saúde. Genebra: Organização with young children: Rates, pat-
Mundial de Saúde. Recuperado em terns, and connections. Journal of
24 agosto, 2011, de http://www.opas. Consulting and Clinical Psychology,
org.br/cedoc/hpp/ml03/0329.pdf. 73, 435-444.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


Stelko-Pereira, A.C., & Williams, L. C. em terapia familiar. In J.G. Aun et
48 NPS 44 | Dezembro 2012
A. (2010). ������������������������
Sobre o conceito de vio- al. (eds). Atendimento sistêmico de
lência: distinções necessárias. In família e redes sociais. (Vol II): O
L.C.A. Williams et al. (Eds) Aspectos processo de atendimento sistêmico.
Psicológicos da Violência: Pesquisa e Belo Horizonte: Ophicina de arte &
Intervenção Cognitivo-Comporta- prosa.
mental. Campinas: ESETEC. Von Foster, H. (1996). Las semillas de la
Stith, S. M., Rosen, K. H., Middleton, cibernetica: obras escogidas. España:
K. A., Busch, A. L., Lundeberg, K., & Gedisa.
Carlton, R. P. (2000). The Intergen- Wagner, A. (2005). Como se perpetua a
erational Transmission of Spouse família?: a transmissão dos modelos
Abuse: A Meta-Analysis. Journal of familiares. Porto Alegre: Edipucrs.
Marriage and the Family, 62, 640– Weber, L.N.D., Selig, G., Bernardi,
654. M.G., & Salvador, A.P.V. (2006).
Straus, M. A., Gelles, R. J., & Steinmetz, Continuidade dos estilos parentais
S. K. (1980). Behind Closed Doors: através das gerações: transmissão
Violence in the American Family. intergeracional de estilos parentais.
New York: Anchor. Paidéia, 16(35).
Tolan, P., Gorman-Smith, D., & Henry, D. Whitaker, A. (1995) Dançando com a
(2006) Family violence. Annual Re- família: uma abordagem simbólico-
view Psychology, 57, 557–83. -experiencial. Porto Alegre: Artes
Vasconcelos, M. J. E. (2007). Panorama Médicas, 1990.
das abordagens transgeracionais

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 35-48, dez. 2012.


ARTIGO

COM LICENÇA, POSSO ENTRAR?

EXCUSE ME, CAN I COME IN?

RESUMO: Este artigo propõe uma reflexão práti- ABSTRACT: This article proposes a reflection PAULA AYUB
co-teórica sobre uma abordagem de atendimento on the practical-theoretical approach on how Psicóloga, terapeuta de
nas residências dos clientes baseada nas Práti- to care clients in an office visit, in their homes família e diretora do Centro de
cas Colaborativas. É uma forma de atendimento based on the Collaborative Practice. It is a form Convivência Movimento.
para pessoas com dificuldades importantes no of care for people with major difficulties in de-
desenvolvimento, ainda sem aquisição de lingua- velopment even without verbal language acqui-
gem verbal, que envolve o atendimento domiciliar sition involving the home care itself, as well as
em si, além de discussões sobre a compreensão discussions on an understanding of nonverbal
de uma comunicação não-verbal. communication.

PALAVRAS-CHAVES: práticas colaborativas, KEYWORDS: collaborative practices, home care/


atendimento domiciliar, comunicação não verbal. office visit, non-verbal communication.

“The body works without the mind’s noticing it” Recebido em 10/07/2012.
“O corpo trabalha sem que a mente perceba.”* Aprovado em 21/08/2012.
Tom Andersen (Shotter, 1999)

Neste artigo apresento o trabalho que venho desenvolvendo desde 1987 com
pessoas com os chamados transtornos invasivos do desenvolvimento, com foco na
criação de contextos facilitadores para a construção de uma relação colaborativa.
Em outro artigo (Ayub, 2007), descrevi como, em minha trajetória pessoal, espe-
cializei-me em “ouvir com os olhos”. Essa habilidade levou-me nos anos 1984-1989,
ainda na faculdade, ao trabalho com crianças, jovens e adultos com Transtornos
Geralmente Diagnosticados pela Primeira Vez na Infância ou Adolescência, mais
particularmente dentro do espectro autista (Wing, 1997). Dentro da descrição do
DSM IV (1995), os Transtornos Geralmente Diagnosticados pela Primeira Vez na
Infância ou Adolescência abarcam cerca de nove, entre eles os do espectro autista,
ou Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID), englobando Rett, Asperger,
* Tradução da autora.
Autista, Transtorno Desintegrativo da Infância e Transtorno Invasivo do Desenvol- ** É uma expressão que foi usada
vimento Sem Outra Especificação. Com algumas diferenças em termos de classifi- pela primeira vez por Anna O.,
cação, eixos e características descritas, o CID 10 denomina o transtorno que engloba como ficou conhecida a paciente
de Breuer de um relato de que,
o autismo como Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD). Falando mais es- através da hipnose, podia falar
pecificamente sobre o autismo, opto por trabalhar com a descrição de Lorna Wing de lembranças esquecidas e
livrar-se de sintomas histéricos.
(1997): prejuízos na imaginação, socialização e comunicação. Freud adotou a expressão pela
A aparente ausência ou prejuízo na comunicação, igualada à linguagem funcio- primeira vez na Segunda Lição
de Psicanálise pronunciada em
nal, aquela que usamos para conseguir algo ou comunicar algo a alguém, segundo 1909 na Clark University em
os manuais diagnósticos, me sugeria uma ausência total de compreensão de parte Massachusetts. A expressão
de nós, terapeutas, que, na época, buscávamos a “cura pela palavra”**, interpreta- tornou-se um sinônimo para
psicoterapias realizadas através
da dentro dos consultórios orientados pela psicanálise lacaniana. de conversação.
Os modelos disponíveis para pensar formar e informar sobre o autismo.
50 NPS 44 | Dezembro 2012
eram a psicanálise, o behaviorismo e A psiquiatria infantil no Brasil ainda
a psiquiatria. A palavra, o comporta- rascunhava suas primeiras páginas
mento e o fármaco, todos em busca de sobre o autismo, como retratou As-
um retorno de crianças com autismo sumpção (1995) em seu livro.
aos comportamentos esperados para Meu primeiro contato com crianças
suas respectivas idades. A psicanáli- com autismo deu-se ainda na faculda-
se buscava um porquê com autores de e um fato em especial me levou a
como Francis Tustin (1975) e Marga- pensar sobre a comunicação que ten-
reth Mahler (1983), baseada em princí- távamos estabelecer com elas. Estáva-
pios da realidade conhecida, a nossa, e, mos em um passeio pelo shopping e,
como diziam os próprios psicanalistas, ao passar por outras crianças com um
a neurótica. A psiquiatria buscava um sorvete na mão, o garoto que eu acom-
“encaixe” com doenças já conhecidas, a panhava tentou pegar o sorvete, o que
psicose, por exemplo. Dentro da abor- impedi imediatamente e, na mesma
dagem do comportamento, Eric Scho- velocidade, recebi uma enorme mor-
pler, na década de 1960, fundou o pro- dida no pescoço.
grama TEACCH na Carolina do Norte, Naquele momento, passado o susto,
EUA, difundido pelo mundo e aplicado minha leitura automática foi “quero
até os dias de hoje, inclusive no Brasil. sorvete”, entretanto o ato da criança
TEACCH – Treatment and Education me foi explicado como um comporta-
of autistic and comunication handi- mento “bizarro dos autistas”, a hetero-
capped children – é uma abordagem agressividade.
comportamental com apoio na psico- Que mundo é este?, perguntava-me
linguística, que tem como objetivo fa- constantemente. Seria a heteroagressi-
cilitar a aprendizagem da pessoa com vidade uma simples expressão de um
autismo a partir do arranjo ambien- quadro clínico? Aquele garoto não
tal, ensino estruturado e comunica- queria me comunicar nada? Como
ção alternativa. Eric Schopler é autor compreender aquele evento?
de diversos livros sobre o tema, sendo O significado da palavra compre-
Autism: A Reappraisal of Concepts and ensão vem sendo palco para discus-
Treatment (1978), um dos mais busca- sões e reflexões. Compreendo a partir
dos, e escrito em parceria com Michael de quê? Do manual psiquiátrico, que
Rutter, importante psiquiatra e pesqui- carrega em si um saber acadêmico e
sador inglês sobre autismo. legitimado por uma determinada co-
Na década de 1980/90, muitos munidade, ou parto de minhas im-
eventos apoiados por associações pressões, do meu saber que me co-
como a AMA, ABRA (Associação necta àquela pessoa? Não acredito que
Brasileira de Autismo) oficializaram haja um único, ou acredito que a com-
as discussões acerca do autismo e preensão parta tanto do intérprete,
um grupo de estudos e pesquisas foi quanto do participante da cena vivida
formado em um deles, em Brasília, e, cada qual se baseia em sua própria
(1990) o GEPAPI – Grupo de Estudos tradição histórica para dar significado,
e Pesquisa sobre o Autismo e Psicose interpretação, compreensão ao que vi-
Infantil. Nomes brilhantes de nossa veu. Ainda, como nos argumenta Tom
academia (Camargo, Rosenberg, Sal- Andersen (2004), nossa compreensão
le, Schwartzman, Assunpção Jr. e Li- também está diretamente relaciona-
ppi). formavam o grupo que buscava da ao que vemos e ouvimos e, ao que

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


“escolhemos” para ver e ouvir: “Não para um modo de conhecer o mundo
Com licença, posso entrar? 51
vemos aquilo que não buscamos e não que eu ainda não conhecia. Minha pri- Paula Ayub
ouvimos aquilo que não prestamos meira tentativa foi a casa das crianças,
atenção.” pois, pensei que se eu adentrasse o in-
De acordo com o que acredito ser comum isto poderia ser mais produ-
compreensão, tomo o que Tom An- tivo, já que o interesse em conhecer
dersen (2004) escreveu como círculo “aquele mundo” era meu.
hermenêutico. “conceito geralmente Orientava-me por uma compreen-
relacionado a Martin Heidegger e Hans são que me estimulava a buscar o
Georg Gadamer” para oferecer em meu novo: “Pessoalmente acho mais com-
trabalho “uma nova nuance” onde já pensador sair do fluxo convencional e ir
havia um pré-conhecimento sobre si e para as margens (Andersen, 2004).”
sobre o outro. Entendo o círculo her- E foi assim que eu disse pela primei-
menêutico como aquilo que aprende- ra vez: Com licença, posso entrar?
mos da vida e que conhecemos dela e
que nossas compreensões partem dos
conceitos que formamos no decorrer ENTRANDO
deste nosso aprendizado. Portanto,
julgava precisar de algo mais para co- Normalmente, um consultório é
nhecer aquelas crianças. Atendê-las montado de acordo com o gosto do
em contextos conhecidos por mim e, profissional, mais ou menos “neutro”,
carregados de pré-concepções minhas, com ou sem fotos de família, livros,
poderia me ajudar, mas não tinha cer- brinquedos, enfim, móveis e instru-
teza sobre se poderia ajudar as crian- mentos de trabalho que remetem ao
ças. Na época, havia dois tipos mais co- seu modo de estar no mundo. Esse ar-
nhecidos de contextos, os consultórios ranjo fala do profissional e oferece aos
(médicos e de outras especialidades- clientes/pacientes aquilo que julgamos
psicológicos, fisioterapeutas, fonoau- importante para nosso trabalho e que
diólogos, terapeutas ocupacionais) e julgamos que nos auxilia a conhecer as
as escolas que, mesmo “especiais”, re- pessoas que se colocam à nossa frente.
produziam o modelo tradicional, com Tudo passa pelo nosso julgamento e
carteiras, mesas e atividades dirigidas. pela nossa percepção de colaboração.
Não me sentia confortável em ne- Para aqueles que entram, penso que seja
nhum dos contextos conhecidos. Pelo um mundo totalmente desconhecido.
histórico das crianças descrito pelos Sair do meu lugar de conforto, meu
pais, os consultórios eram ambientes consultório, é um movimento de bus-
de estresse para os pequenos, sempre ca de compreensão, um exercício lite-
solicitados a fazer coisas para uma ava- ral do que penso que compreendi nas
liação do “quadro” muito mais do que palavras de Shotter (2006) em seu ar-
para serem conhecidos. E as escolas tigo sobre a comunicação “Vygotsky,
davam às crianças o que as descrições Bakhtin, Goethe: Consciousness as
do quadro que apresentavam diziam Con-scientia, as Witnessable Knowing
que elas se negavam a fazer, isto é, Along with Others”:
comportar-se dentro de diretrizes pré-
-concebidas como normais. Virando-nos para fora, para outros, em
Acreditava que necessitava de um vez de para dentro, para nossas próprias
ambiente distinto, de algo que pudes- supostas operações internas, encontra-
se me oferecer uma porta de entrada mos aspectos das nossas relações com os

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


outros ao nosso redor que são cruciais as que não conversam falando, seus sig-
52 NPS 44 | Dezembro 2012
para nos tornarmos mais conscientes nificados de mundo permanecem em
(mais con-scientia) em nossas relações seus contextos distantes da minha reali-
com eles (2006, p. 13). dade. Para mim, pensar em significados
compartilhados com estas pessoas seria
Embora “minha casa” esteja sempre oferecer os meus significados apenas e
aberta a receber quem desejar entrar, não os compartilhar. Seria como se não
procuro pela compreensão de onde estivesse aberta a receber o que o outro
“moram” os interesses, os sonhos, os conhecesse do mundo para dividir co-
porta-retratos, os brinquedos das pes- migo, já que a fala não está lá para dia-
soas que me procuram. Meu olhar e logar sobre os significados. Por exem-
meu ouvido entram em uma busca plo, há pessoas que comem o feijão em
incessante por compreensão, por que- cima do arroz e outras que comem o
rer me responder: quem é esta pessoa? feijão ao lado do arroz e, outras comem
Como poderei colaborar, em que po- por baixo e há as que não comem ar-
derei colaborar? roz. Se uma criança não tem indepen-
Shotter (2007) relata que Tom An- dência para servir-se, ou se está em um
dersen disse uma frase sobre ele mes- restaurante e o prato vem pronto, como
mo que o deixou e o deixa intrigado: vamos dividir este significado? Mudan-
“a wanderer and a worrier”* (p. 2) . Tal ças como estas podem gerar comporta-
expressão de como Tom se sentia diante mentos inesperados e “agressivos”. Estas
de seu trabalho também em mim causa pequenas informações são de extrema
impacto. Um impacto de identificação importância para que uma relação de
de alguém que busca compreender a confiança, respeito e real compreensão
qualquer custo àqueles que me procu- se consolide.
ram para algum tipo de ajuda, inclu- Também me sinto uma worrier, uma
sive, buscando com os olhos do outro, ocupada mentalmente dos diversos
mesmo que tal desafio possa ser impos- mundos que visito, buscando incan-
sível, pois também creio nas palavras savelmente não utilizar meu mundo,
de Bakhtin (Holt, 2003) de que cada meus significados, nem fazer rápidas
pessoa ocupa um lugar único para ver conclusões sobre as distintas histórias
o que vê. E que embora tente expres- que pretendo conhecer.
sões diversas e quase assertivas, não Ainda, se cada um ocupa um lugar
poderá oferecer a exata impressão do único para ver o que vê, acredito que
que realmente vê. No entanto, acredito quanto mais próxima possa estar destes
que quanto mais próxima eu possa es- lugares, mais próxima estaria de uma
tar das pessoas que me procuram para compreensão do que o outro vê, ou
conversar, mais próxima de seus uni- melhor, de como o outro vive o que vê.
versos, mais facilmente possa encontrar Para tanto, me utilizo das palavras
conexões que me ofereçam compreen- de Bakhtin (apud Curran & Takata,
* “Andarilho e preocupado”
– tradução da autora. Aqui sões mais a partir do outro do que de 2004): “Como hei de dizer qualquer
tomo a liberdade de colocar minhas próprias pré-concepções. coisa quando o Outro pode respon-
“mentalmente ocupado”, no lugar
de “preocupado”, já que o sufixo
Em muitas outras palavras, meu tra- der.”** Ele vê essa possibilidade dentro
pré implica em anterioridade, balho se dá de fato como uma andari- de uma perspectiva inter-relacional
previsão, o que, no meu lha, buscando os contextos onde habi-
entender, não revela um tipo de
de justiça e legitimidade entre o Eu e
pensamento de Tom Andersen. tam significados que as conversações o Outro, onde um afeta o que o outro
** “How shall I say anything comuns, em linguagem verbal, não po- poderá dizer e onde esta interação po-
when the Other can answer” –
tradução da autora. derão oferecer. Eu converso com pesso- derá afetar a comunidade.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


Meu primeiro trabalho dentro da resposta, é meu modo de encontrar
Com licença, posso entrar? 53
casa do cliente veio como um presen- uma possibilidade dialógica entre Eu e Paula Ayub
te. Um entusiasta psiquiatra infantil o Outro e nos afetarmos mutuamen-
me propôs que fosse até uma pacien- te. A família é nosso ponto de partida
te sua que não saía de casa, pois, na para a construção de significados do
rua, rasgava as roupas e sua família que nos rodeia fornecendo a bagagem
não sabia o que fazer para evitar tal inicial que permite partirmos para um
comportamento. As conversas entre espaço maior, a comunidade como um
mim e o psiquiatra buscavam, en- todo. Minha resposta foi: “Quando
tre discussões e reflexões, atendimen- podemos começar?”
tos para pessoas com autismo que pu- Ao me encontrar com B* pela pri-
dessem ampliar nossas compreensões meira vez, vi uma jovem tímida e com
acerca dos comportamentos descritos uma fala frágil, que, além de um tom
na literatura. Parti do estudo sobre de voz extremamente baixo, repetia
acompanhamento terapêutico, mas as ultimas palavras que ouvia, o que,
sabíamos que haveria uma diferença segundo a descrição psiquiátrica, era
de postura, pois o acompanhamento apenas ecolalia, uma característica do
nasceu como uma prática baseada na quadro, mas sem significado. Encon-
psicanálise. Assim nasceu meu artigo trei-me com uma jovem que pareceu
sobre atendimento domiciliar (Ayub, gostar da experiência de ter uma pes-
1996), uma revisão bibliográfica so- soa em casa para brincar. Lentamente,
bre o acompanhamento terapêutico e nosso brincar foi abrindo portas para
os possíveis caminhos para uma nova novos jogos e novos significados e aqui
prática. O artigo em questão percorre cabe ressaltar que:
os caminhos que levaram o auxiliar
psiquiátrico à atuação como acompa- Quando damos à linguagem um lugar
nhante terapêutico, saindo das clínicas central em nossas construções teóricas
psiquiátricas durante o Movimento da ou atividades práticas, estamos ali-
Antipsiquiatria nas décadas de 1950 e nhados com a formulação de “sistemas
1960. Sobre o atendimento domiciliar, humanos como sistemas geradores de
apenas um breve comentário sobre linguagem e significado” (Anderson &
um trabalho similar ao do acompa- Goolishian, 1988). O cuidado a observar
nhante terapêutico de atendimento a é o de não reificar “a linguagem” nesse
indivíduos com transtornos e/ou de- sentido a expressão “geradores de...” é de
ficiências, oferecendo um “Programa” grande utilidade para não perdermos de
individualizado e levando-se em conta vista o caráter processual da produção de
o pedido da família. significados que ocorre quando dois in-
Como a proposta sobre o atendi- terlocutores se comunicam (Cruz, 2009,
mento na residência havia sido do psi- p. 136).
quiatra, a família me contatou já com
o pedido pronto: “Você pode fazer os Gosto da expressão “produção de
atendimentos aqui em casa?” significados”, pois é o que acredito que
Como converso com pessoas que faço quando trabalho com pessoas que
não “conversam”, meus olhos são meus não usam a linguagem verbal. Quando
ouvidos. A casa do cliente/paciente é o B repetia o que eu dizia, eu repetia no- * Nos casos citados neste
texto, foram tomadas as devidas
mundo em que ele vive e se relaciona vamente e ela sorria. Falávamos pouco medidas éticas de anonimato e
diariamente. O trabalho do corpo em e, quando falávamos, eram repetições cuidados com as informações
pessoais ou privadas dos/as
linguagem é minha possibilidade de de repetições. Eu buscava sempre re- pacientes.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


presentar, de alguma forma, estas re- de uma camiseta nova, toda branca.
54 NPS 44 | Dezembro 2012
petições. Se, por exemplo, eu dizia Para este trabalho, toda a família se
vamos beber água e ela dizia: água. Eu uniu. Todos cortavam suas etiquetas
dizia: água e, antes de beber, mostra- e, quando eram diferentes e bonitas,
va a ela a água da pia, do chuveiro, da vinham animados colocar no pote de
mangueira do jardim, da geladeira, do etiquetas de B. Ela passou a colecionar
filtro, da chuva, da piscina e de onde etiquetas de roupas. Depois disso, não
mais houvesse água. Então dizia, estou precisavam mais de mim para passear
com sede, quero BEBER água. Neste ou para conversar com B. Sua comu-
encontro, se me lembro bem, a água nidade, sua família, passou a realizar o
foi nosso significado em construção. processo de construção de significados
Demos água para as plantas, conhece- com ela e pudemos seguir nossos ca-
mos as diferentes temperaturas que a minhos em separado.
água pode ter, nos sujamos e nos lim- O “Não Saber”, conceito introduzi-
pamos com a água e assim por diante. do por Harlene Anderson e Goolishian
A mãe relatava que quando ela tomava (1988), da forma como entendo, não
banho repetia: água! Então começa- passa pelo “esquecer” o que se sabe,
mos a construir BANHO. pelo “fingir” que nada sei, mas sim,
A construção que julguei mais sig- profunda e genuinamente pela crença
nificativa foi acerca do rasgar as rou- de que o que sei não supera o que não
pas na rua. Quando B ia sair de casa, sei sobre o que o outro sabe de si.
sua mãe pedia que trocassem sua rou- Na minha maleta de atendimentos,
pa. As camisetas largas e os moletons carrego a lição do tempo. Não há per-
davam lugar a roupas mais ajustadas gunta que não tenha uma resposta se
ao seu corpo. Costumávamos passear o Outro é legitimado em uma conver-
pelos arredores de sua casa. Ao iniciar- sação, leve o tempo que necessitar, ela
mos a caminhada, ela começava a co- virá. Segundo Sylvia London (2012),
çar o pescoço e, sem que pudesse fazer em visita a São Paulo para ministrar
qualquer coisa, lá estava o colarinho uma aula, “O tempo manda!”, sim, o
da blusa em suas mãos. Na terceira ou tempo manda, mas quem manda no
quarta vez em que íamos sair, resolvi tempo do outro, não somos nós tera-
olhar o colarinho, vi uma etiqueta “en- peutas. Acredito que seja importante
gomada”, dura e perguntei se poderia que tenhamos tempo para o Outro.
cortá-la. A mãe disse que sim. Volta- Outra lição importante: um signi-
mos do passeio com o colarinho na ficado não se encerra naquilo que co-
roupa. Percebi que, além de construir nhecemos dele; em conversação, o que
significados, poderíamos ressignificar o Outro conhece pode fazer surgir algo
significados estabelecidos pelos outros desconhecido para nós. O fato de ser-
para as comunicações não-verbais de mos terapeutas não nos dá o poder de
B; deixamos de dizer que B rasgava as construir significados apenas conhe-
roupas para dizer que B não gostava de cidos por nós. Somos descobridores
etiquetas duras nas roupas. Com um também.
pouco mais de tempo, descobrimos As vivências com B e outros tantos
que B GOSTAVA muito de algumas companheiros de trabalho foram me
etiquetas e QUERIA VÊ-LAS. Foi um dando confiança no processo de conhe-
re-ressignificado. Nosso trabalho foi cimento e construção de significados a
cortar todas as etiquetas de todas as partir de contextos onde o tempo que
roupas e costurá-las do lado de fora manda é o tempo do Outro. Continuei

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


na trajetória indo ao encontro deles em Em Conversação, linguagem e pos-
Com licença, posso entrar? 55
seus universos e criando um contexto sibilidades (2009), Harlene Anderson Paula Ayub
em minha clínica que pudesse aparen- discorre sobre conceitos de não saber,
tar uma casa qualquer, com coisas de incertezas, humildade, promovendo
todas as casas, onde as pessoas pudes- em contextos de conversação uma at-
sem identificar algo que fosse compatí- mosfera respeitosa com o outro e com
vel com seus significados. sua história. Levando significados às
Meu trabalho ao longo dos anos foi palavras, aquelas palavras davam no-
sendo guiado por alguns valores pes- mes ao que sentia e achava que fazia.
soais e por autores que revelavam em Quando recebo uma ligação com
suas teorias o que eu acreditava ser o um pedido para atendimento, procu-
pilar da ética: o respeito pelo outro. ro explicar como faço este processo.
Watslavick (1999) me deu meu pri- Ofereço a possibilidade de recebê-los
meiro pressuposto: “A impossibilidade em minha clínica, e também me vejo
de não comunicar” (p. 45). Em seu tex- tendo que descrevê-la, pois não é um
to sobre comunicação digital e analó- espaço comum. E depois, com muita
gica, me fica a imagem de que há sig- humildade, me convido a ser recebida
nificados que não podem ser trazidos em suas casas. Primeiro pergunto de
às palavras, elas são formas, corpos de onde veio o encaminhamento, pois,
linguagem. na maioria das situações, os “encami-
Tom Andersen (2000) com sua nhadores” já explicam que faço um
invejável conexão com o outro, em trabalho nas residências e nas escolas.
“Levando significados às palavras”, Mas, mesmo assim, procuro deixar as
me mostrou que movimentos po- pessoas muito à vontade para dizerem
dem ter significados e que podem ser o que realmente querem e o que não
transformados em palavras. Foi como querem. Se a pessoa não está certa de
aprender a andar e saber que aquilo que deseja minha visita, este encontro
era andar. pode ser extremamente desconfortável
Maturana (1999), como legítimo para ambos. Minha veste colaborativa
outro nas minhas conversações, me precisa ser usada desde este primeiro
trouxe o Outro por inteiro, princi- contato, é a partir daqui que começa-
palmente quando ele nos oferece a mos a nos conhecer. Embora a prática
oportunidade de compreender um colaborativa tenha um significado mais
comportamento de agressividade, sem amplo, percorrendo nossa forma de ser
aparente razão ou motivo, como uma no mundo, sinto que quando inicio um
resposta a negação do Outro, ou do processo de conhecimento, um foco de
pedido do Outro em uma comunica- luz ilumina aquele espaço unicamente,
ção não-verbal. Ela vem como uma tornando o restante do meu cenário
resposta ao desrespeito, como uma mais escuro. É como se o mundo que
mordida no pescoço quando não ouço conheço deixasse de ter sua luz e passo
um pedido para tomar sorvete. a querer enxergar o mundo do outro.
Algum tempo se passou desde que Sylvia London (2012) foi questiona-
iniciei esta colcha de retalhos, tempo da pelos alunos do curso II Certificado
que me trouxe às práticas colabora- Internacional de Práticas Colaborativas
tivas, como relatei em outro artigo em São Paulo acerca de sua paciência
(Ayub, 2012), pois finalmente me em relação ao perguntar e não pergun-
sentia podendo dar um nome ao que tar quando estava realizando uma en-
acredito que faça. trevista e respondeu: “Fiz esta pergunta

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


para Harlene quando a via atender e ela Ser recebida na casa de alguém, por
56 NPS 44 | Dezembro 2012
me disse: “Isto não é paciência, é curio- sugestão de terceiros, que está preci-
sidade.” Sim, curiosidade, o que me sando de ajuda pode gerar em quem
motiva a conhecer o outro pelo Outro me recebe desconfiança, desconforto,
e não por mim. A paciência, segundo insegurança e um sentimento seme-
ela, passa pelo sacrifício, como se es- lhante ao descrito como paranoia, ou
tivéssemos dando algo de nós para o seja, o de sentir-se vigiado e avaliado
outro. A curiosidade me faz querer co- todo o tempo.
nhecer, me faz querer estar com o ou- Quando uma família diz sim, já
tro. Creio que entendo essa curiosidade procurei de todas as formas nas con-
como algo que não tem um fim no meu versações telefônicas dissolver qual-
interesse, mas como algo que me faça quer forma de questionamentos que
poder conhecer o que não conheço. pudesse levá-la a acreditar que minha
Quando pergunto se a pessoa está visita irá julgar, avaliar e resolver/con-
disposta a me receber em sua casa, sertar problemas.
preciso que ela saiba que não me feri- O sim equivale a um compromisso
rá se disser não e que os encontros não mútuo, a um início de construção de
objetivam nenhum tipo de julgamen- confiabilidade entre mim e a família.
to. Não faço meus atendimentos para Acredito que o primeiro e maior passo
checar a vida privada de meus clientes, seja o da família, aceitando receber em
nem para dizer que tal comportamento casa uma pessoa desconhecida e que
acontece porque os pais fazem tais coi- estará lá para interagir com seu bem
sas de errado. Não tenho a pretensão de mais precioso, seu filho.
consertar nada, mas de compreender. Segundo Anderson (2009), a posi-
Estes primeiros contatos são de ex- ção do não saber, a que difere do ex-
trema importância para mim, então pert, que trata do conteúdo das rela-
prefiro estar bem concentrada e ocu- ções e do processo terapêutico, oferece
pada deles. Normalmente pergunto em si uma relação de confiança. A visita
se posso ligar de volta no final do dia, domiciliar deve evidenciar um interes-
momento em que termino meus aten- se pela pessoa e não pela patologia ou
dimentos para que minha atenção es- características que possam compor um
teja 100% voltada a esta ligação. Já per- quadro sindrômico. Muitos pais me
di alguns clientes neste ponto. Algumas relatam a dificuldade que possuem em
mães, pois na maioria das vezes são as conversar com experts, pois estão sem-
mães que me procuram, querem ape- pre sendo colocados como pessoas que
nas marcar um horário e ponto final, colaboram para a manutenção de cer-
elas ainda não conhecem minha neces- tos comportamentos: “Vocês precisam
sidade de conversar. Elas retornam ao colocar limites, esta criança tem tudo o
“encaminhador” e dizem que sou mui- que quer sem pedir, vocês fazem tudo
to difícil para marcar uma hora. Com por ele”, e assim por diante. Quando
as mães com as quais consigo uma co- me perguntam se eu acho que os ex-
nexão, já temos um compromisso fir- perts estão errados, pergunto: “Como
mado ao desligar o telefone. você se sentiu quando ouviu isto?”
Naturalmente, a primeira entrevista
na casa é permeada por perguntas que
QUEM RECEBEMOS EM CASA? julgo como “testes”, ou seja, as mães
(na maioria das entrevistas são apenas
Quando uma família diz sim à mi- as mães que participam) querem se
nha visita, ela diz sim ao trabalho. certificar de que não terão seus “erros”

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


apontados a cada instante. E relaxam o de maior importância para nossos
Com licença, posso entrar? 57
profundamente quando se dão con- fazeres colaborativos. Esta postura de Paula Ayub
ta de que minha presença está ligada coerência nos remete a nossas crenças.
diretamente ao processo de compre- Só posso falar daquilo que acredito
ensão e de descobertas de potencia- verdadeiramente para que possa man-
lidades, habilidades e competências ter minhas ações e reações coerentes
de seus filhos. Procuro colher várias ao que demonstro. Construir um laço
informações sobre o que as crianças de confiança requer autenticidade, re-
gostam e não gostam, o que fazem sem quer um olhar interno constante para
ajuda, como circulam pela casa e de- nos colocar em sintonia conosco e o
limito minha própria circulação; há que de mim está com o outro.
locais em que não me permito entrar,
como o quarto do casal, por acreditar
que a intimidade da família é algo a COMO RECEBEMOS: A HOSPITALIDADE
não ser incluído no processo, salvo se
esta assim o determinar. Meus limites Quando estamos em nossos consul-
físicos, geográficos, são declarações tórios, podemos preparar uma recep-
concretas de que não adentrarei em ção de acordo com nossas possibili-
temas para os quais não fui chamada. dades para que o outro possa se sentir
Quando uma primeira entrevista foi confortável e bem recebido.
bem delimitada, o pai surge para que o Acredito, porém, que a hospitalidade
conheça juntamente com o filho. vá além do que podemos reconhecer no
Shotter (2012) em seu livro “Witt- senso comum como educação. Receber,
genstein in Practice” aborda o tema da no sentido de abrir-se ao outro, é dar,
conversação pela fala, demonstração, é oferecer também. Podemos fazer isto
sentimentos e gestos nas teorias de concretamente, oferecendo café, água,
Wittgenstein e Vygotsky, nos lembran- um lenço de papel, deixando nossas
do que não devemos nos ater apenas salas iluminadas, limpas... Mas acredi-
àquilo que passa em nossas mentes, to que nosso real papel como anfitriões
enquanto em conversação, mas tam- seja em nossas salas internas, nas sa-
bém em como sentimos, nos apresen- las que se abrem para receber o outro,
tamos e demonstramos daquilo que para ouvi-lo, aceitá-lo e encontrarmos
estamos pensando: “Agora podemos formas de colaborar para que siga seu
dizer que o que ‘mostramos’ em cada crescimento pessoal em comum acordo
jogo de linguagem é um modo de fazer com suas competências.
sentido em ação de cada um (e de nós Além disso, Sylvia London (2009),
mesmos), ‘em’ nossas ações (p. 87)”.* em seu artigo “Guides for Collabora-
Ou seja, nossas conversações, mais ting”, nos fala sobre tradução como
do que falas compromissadas, devem uma outra dimensão da hospitalida-
apresentar coerência entre o que pen- de. Trabalhando com grupos de vários
samos, sentimos, agimos, apresenta- países, com línguas diversas, a tradu-
mos e demonstramos. Ele ainda nos ção vem como uma forma de rece-
* “Now we could say that what
lembra de que nossas respostas cor- ber, ocupando-se da compreensão do we ‘show’ in each language
porais não são meramente reações a outro. “Nós temos pessoas que falam game, is a certain way of making
situações imediatas, elas são conexões muitas línguas diferentes”** (p. 5), ela sense of each other’s (and our
own) actions, ‘in’ our actions.” –
muito complexas que estão relacio- diz, e acredito que eu possa incluir Tradução da autora.
nadas ao passado, presente e futuro. que tenho pessoas que falam e usam **“We have people who speaks
many diferente languages”–
Acredito que este trecho do artigo seja linguagens muito diferentes, por isso a Tradução da autora.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


tradução se faz tão importante e tam- rologista há um ano com suspeita de
58 NPS 44 | Dezembro 2012
bém parte de minha hospitalidade. Se autismo e eu o atendo pelo mesmo pe-
sei que uma criança gosta do jogo dos ríodo. Características bem clássicas do
Angry Birds no iPad, levo o álbum de quadro eram perceptíveis em G: não
figurinhas para colecionarmos e co- mantinha contato ocular, não atendia
larmos juntos. Abro uma porta para a quando chamado, não abraçava, não
diferença utilizando outro instrumen- dava tchau, não aceitava regras, não
to, mas recebo o conteúdo como meio batia palmas, rotineiro, ritualista, não
de comunicação. Gosto de pensar que reconhecia o que era aprender, não fa-
traduzo interesses e os ofereço nova- lava, não fazia amigos, não reconhecia
mente em formas diversas propondo as pessoas mais íntimas como impor-
uma ampliação de repertório. tantes. Até o final de 2011 estava se de-
A hospitalidade passeia pela dis- senvolvendo bem, balbuciando alguns
ponibilidade, pela via de dar de si ao fonemas, aceitando novas brincadei-
outro. Quando compramos caixas de ras, reagindo ao que recebia como
lenço de papel, pó de café, xícaras de- possibilidades de aprendizado. No
coradas, estamos doando nosso tem- início de 2012, fui chamada na esco-
po, afeto ao outro, dedicando minu- la pela direção. Uma professora nova
tos de nossas vidas pessoais ao outro, iria acompanhá-lo e a direção estava
deixando que ele se misture ao nosso preocupada. Coloquei-me a disposi-
cotidiano. E, acredito, isto chega aos ção e sugerimos um tutor para acom-
nossos clientes. panhá-lo em sala e colaborar com a
Minha hospitalidade segue comigo professora. Hoje reconheço que a pré-
em formas de sacolas cheias de brin- -ocupação da diretora tinha uma ra-
quedos. Cada criança tem sua sacola zão já conhecida por ela que, por não
com jogos, livros, atividades que estão ter dividido conosco, levou a família a
diretamente ligadas aos seus gostos e retirar G da escola. Ele passou a ensi-
interesses. Recebo abraços agradecidos mesmar-se mais, retornou a um lugar
ao abrirem as sacolas e seus olhinhos onde não parecia demonstrar que es-
brilham com as surpresas que veem. E tivesse interessado ao que se passava
não importa se já abriram aquela mes- à sua volta e passou a chutar e bater.
ma sacola inúmeras vezes, eles checam Nas sessões, via um sofrimento muito
se cada um dos brinquedos está lá, grande em G, parecia-me um garoto
guardado para eles. assustado, me dizendo que “nada disso
Com a invenção dos tablets, minha vale a pena”. Não entendíamos como
vida ficou bem mais leve, posso garan- uma mudança tão repentina e brusca
tir, mas mesmo assim muitos brinque- poderia estar acontecendo. Os relatos
dos são levados para a construção de da escola feitos pelo tutor denuncia-
novos caminhos, para abertura de no- vam uma significante desqualificação
vas possibilidades e para que saibam de G em relação ao grupo. O tipo de
que estão comigo durante a semana desqualificação que se faz tão rotinei-
que nos separa. ramente, sem intenção, quando im-
pomos um rótulo a alguém: “Ele não
consegue”, “Ele é terrível”, “Ele não
O QUE APRENDEMOS? aprende”. Nas sessões, ele tirava os ani-
maizinhos dos caminhões com jaulas e
G completou 4 anos recentemente. colava bonecos. Quando chegamos ao
Ele está em avaliação com um neu- “Ele é agressivo”, a família decidiu pela

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


saída dele da escola. Na nova escola, a O que já foi descrito como “mi-
Com licença, posso entrar? 59
professora nos perguntou, o que é es- croscópicos desvios positivos, que, não Paula Ayub
perado de nós? Respondi com muita provocando rupturas, podem permitir
satisfação diante de uma pergunta tão as tão desejadas mudanças de segunda
conhecida: “Que ele seja aceito!” ordem em todo o sistema (...) (Cruz,
Recentemente, G pegou meu iPad e 2000, p. 25)”, eu traduziria coloquial-
procurou o jogo que está acostumado mente assim: se sua medida de “ade-
a brincar. Pedi a ele que esperasse um quadamente incomum” é uma colher
pouco e propus outro, com a mesma de sopa de novidade, experimente co-
lógica, mas com personagens dife- meçar com uma colherinha de café.
rentes. Ele aceitou, pensou, demorou,
conseguiu! Quando finalizou, olhou
direto para mim, abriu um largo sor- REFERÊNCIAS
riso e bateu palmas. Ele estava sentado
no colo de sua mãe... Três dias depois American Psychiatric Association.
ele foi ao neurologista como vem fa- (1995). DSM IV – manual diagnós-
zendo de tempos em tempos, e a res- tico e estatístico de transtornos men-
posta foi: “Ele deve falar em 6 a 8 meses tais. Porto Alegre: Artes Médicas.
e seu diagnóstico continua em aberto. Andersen, T. (1991). Processos reflexi-
Ele agora vive feliz assim?” vos. Rio de Janeiro: Noos.
É claro que não foi o iPad ou o jogo Andersen, T. (2000). Encontro: tra-
novo, ou nem mesmo a mudança da zendo significados às palavras, em
escola que trouxeram novos ares ao conversa com famílias com pessoas
nosso G, mas o processo como um com autismo no Centro de Con-
todo nos oferecendo possibilidades vivência Movimento, São Paulo,
de mudança, de aceitação, de riscos, 2000.
de segurança e confiabilidade. Traba- Andersen, T. (2004). A linguagem não é
lhamos em rede, em conexões e jogos inocente. Nova Perspectiva Sistêmi-
de linguagem, buscando a compreen- ca, 23, 19-26.
são de cada individuo como único e Anderson, H. (2009). Conversação, lin-
importante dentro de nossas comu- guagem e possibilidades: um enfoque
nidades. pós-moderno da terapia. Roca: São
O que pretendi ser uma contribui- Paulo.
ção aos leitores e leitoras que traba- Assumpção, F.B. (1995). Psiquiatria in-
lham com situações semelhantes vem fantil brasileira: um esboço histórico.
de uma adaptação do “adequada- São Paulo: Lemos.
mente incomum” de Tom Andersen Ayub, P. (1996). Do amigo qualifica-
(1991). Só sabemos se nossa interven- do ao acompanhante terapêutico.
ção foi desse tipo a posteriori. Crian- Infanto – Revista de Neuropsiquia-
ças e adultos falantes expressam rapi- tria da Infância e da Adolescência,
damente por palavras ou expressões IV(2).
faciais o grau de interesse, desprazer, Ayub, P. (2007). Olhos para ouvir: um
temor ou indiferença à novidade ofe- processo de reconhecimento da ex-
recida. As crianças ou jovens com pressão. Nova Perspectiva Sistêmica,
quem aprendi esse caminho podem XV(29), pp. 82-93.
assinalar como receberam o “adequa- Ayub, P. (2012). O tempo de quem
damente incomum” com fortes rea- se ama. In H.M. Cruz (Org.). Me
ções corporais. aprende. Roca: São Paulo.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


Camargo, W., Rosenberg, R., Salle, E., Maturana, H. (1999). A ontologia da
60 NPS 44 | Dezembro 2012
Schwartzman, J.S., Assunpção Jr., F.B., realidade. Belo Horizonte: Editora
Lippi, J.R. da S. (1995). Psicofarmaco- UFMG, 1999.
terapia: mesa redonda. Infanto – Re- Rutter, M., & Schopler, E. (1978). Au-
vista de Neuropsiquiatria da Infância tism: a reappraisal of concepts and
e da Adolescência, 3(3), pp. 11-18. treatment. New York: Plenum Press.
CID-10. (2008). Classificação Estatísti- Shotter, J. (1999). Living moments
ca Internacional de Doenças e Pro- in dialogical exchanges. Human
blemas Relacionados à Saúde. Déci- Systems, 9, pp.81-93.
ma Revisão. Versão 2008. Shotter, J. (2006). Vygotsky, Bakhtin,
Cruz, H.M. (2000). Papai, mamãe, Goethe: consciousness and the dyna-
você... E eu?. In H.M. Cruz (org). As mics of voice. [Paper] Department
histórias da história deste livro. São of Communication, University of
Paulo: Casa do Psicólogo. California at San Diego. Recupe-
Cruz, H.M. (2009). Do ato à fala: cenas rado em 25 julho, 2012, de http://
dos próximos capítulos. Pensando pubpages.unh.edu/~jds/SanDiego.
famílias, 13(2), pp. 131-143. htm
Curran, J., & Takata, R.S. (2012). Answe- Shotter, J. (2007). Not to forget Tom
rability: definition. Recuperado em Andersen’s way of being Tom An-
13 de julho, 2012, de http://www. dersen: the importance of what
csudh.edu/dearhabermas/answera- “just happens” to us. Human Sys-
bility03.htm tems: The Journal of Systemic Con-
Freud, S. (1969). Segunda lição de psi- sultation & Management, 18, 8-27.
canálise. Rio de Janeiro: Imago. Recuperado em 13 julho, 2012, de
Holt, R. (2012). Bakhtin’s dimensions http://www.johnshotter.com/pa-
of language and the analysis of con- pers/Shotter%20Tom_Andersen.
versation. Recuperado em 13 julho pdf
de 2012 de http://www2.comm.niu. Shotter, J. (2012). Wittgenstein in Prac-
edu/faculty/rholt/eoc/CVbakhtin- tice. Chagring Falls, Ohio: Taos
Dimensions.pdf Institute Publications/WorldShare
London, S. (2009). Guides for Colla- Books.
borating. International Journal of Tustin, F. (1975). Autismo e psicose in-
Collaborative Practice, 1(1), pp. 1-8. fantil. Rio de Janeiro: Imago
London, S. (2012). Aula ministrada no Watzlawick, P., Weakland, J., & Fish, R.
II Certificado Internacional de Prá- (1999). Mudança: princípios de for-
ticas Colaborativas, Interfaci, São mação e resolução de problemas. São
Paulo. Paulo: Cultrix.
Mahler, M. (1983). As psicoses infantis e Wing, L. (1997). The autistic spectrum:
outros estudos. São Paulo: Artes Mé- a guide for parents and professionals.
dicas. London: Robinson.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44 p. 49-60, dez. 2012.


ARTIGO

PIPA DA VIDA: PRÁTICAS NARRATIVAS CONECTANDO


OS JOVENS PARA A VIDA

THE KITE OF LIFE: PRACTICES NARRATIVES CONNECTING YOUNG TO LIFE

RESUMO: Este artigo tem como objetivo relatar ABSTRACT: The purpose of this paper is to report MARISOL LURDES DE
ações da psicologia comunitária junto a um gru- actions of community psychology with a group of ANDRADE SEIDL
po de adolescentes em situação de risco social, adolescents at social risk, in particular, poverty. Mestre em psicologia
em especial, a pobreza. Era nossa intenção a Was our intention promoting actions of empower- clínica (Unisinos),
promoção de ações de empoderamento dos jo- ment of young people about future to life through especialista em Terapia
vens em relação ao futuro para a vida, através da narrative practice. For this we used methodology of de Família e de casal.
prática narrativa. Para isso utilizamos a metodo- the “Kite of Life”, which sought to reconnect these Coordenadora do serviço
logia da “Pipa da Vida”, a qual buscou reconectar adolescents with their families of origin, strengthe- de Psicologia da Horta
esses adolescentes com as famílias de origem, ning intergenerational alliances. We observed that Comunitária Joanna de
fortalecendo as alianças intergeracionais. Os va- the actions of empowerment proposed through Angelis/RS
lores, habilidades e sonhos compartilhados no the technical reconnected with their young fami-
grupo revelaram o legado intergeracional de suas lies and among their own generation. The values,
famílias de origem, um reconhecimento de suas skills and dreams shared in the group revealed the
GISLAINE OLIVEIRA
identidades e de seu protagonismo como um ser intergenerational legacy of their families of origin,
BAPTISTA
social. Entre os valores geracionais compartilha- recognition of their identities and their role as a so-
dos o que se mostrou mais significativo para os cial being. Among the generational values shared Graduanda do curso de
jovens foi a amizade. O testemunho dos mem- what was more significant for young people was psicologia da Universidade
bros sobre histórias ricamente vivenciadas sobre the friendship. The testimony of the members ri- Feevale/RS.
amizade reforçou o reconhecimento deste valor e chly experienced stories about friendship reinfor-
o sentido que tem para a vida dos jovens na co- ced the recognition of this that has value and the
munidade. Portanto, ações sociais que buscam a meaning to the lives of young people in the com-
promoção do protagonismo social de jovens em munity. Therefore, social actions that seek promo-
situação de risco precisam levar em conta suas ting social involvement of young in risk situation
características, seus legados multigeracionais, need take into account their characteristics, their
além do contexto em que vivem. Desta forma, as multigenerational legacies, beyond the context in
competências individuais poderão ser promovi- which they live. This way, the individual competen- Recebido em 19/02/2012.
das, enriquecidas, mas mantendo viva a história cies can be promoted, enriched, but keeping alive Aprovado em 20/08/2012.
pessoal de cada protagonista, facilitando assim the personal history of each protagonist, facilitating
a reautoria. the reauthoring.

PALAVRAS-CHAVE: prática narrativa, risco so- KEYWORDS: narrative practice, social risk, inter-
cial, aliança intergeracional, reautoria. generational alliance, reauthoring.

Promover o protagonismo social das comunidades em situação de risco tem se


constituído um desafio para os profissionais que atuam na área social. Geralmen-
te, as práticas apresentam um viés com foco no problema e na doença, sob uma
ótica tradicional do modelo do déficit, hoje consideradas limitadas e pobres por
restringir o entendimento sobre os processos do desenvolvimento humano. Em
contrapartida, práticas pós-modernas apoiadas pelo movimento construcionista
social preconizam o empoderamento do protagonismo familiar e comunitário, por
meio de ações colaborativas no enfrentamento dos problemas e em práticas que
reconheçam os valores e os potenciais das famílias e das comunidades na busca de
soluções para as dificuldades e adver- moldam as respostas, geralmente satu-
62 NPS 44 | Dezembro 2012
sidades da vida (McNamee & Gergen, radas de problemas.
1998; Lietz, 2006). Dessa forma, a narrativa não é ape-
O discurso do Construcionismo nas um modo de representação, mas
Social entende o sujeito como ser rela- um modo específico de construção e
cional, permeado pela pluralidade de constituição da realidade, como Bru-
suas vivências em contextos sociais e a ner (1991) apontou. A fim de estudar
singularidade de suas construções nar- esse modo de construção, é necessário
rativas (McNamee & Gergen, 1998). examinar como as pessoas dão senti-
White e Epston (1990) consideram as do às suas experiências. E elas o fazem
construções narrativas resultado da narrando-as. Portanto, a narrativa
forma como as pessoas falam, perce- funciona como um modelo flexível,
bem e experienciam o mundo em que que opera como forma de mediação
vivem e, deste modo, criam histórias extremamente mutável entre o indi-
sobre suas vidas e sua identidade. víduo e o padrão cultural. Dessa for-
Caminhando na direção do reco- ma, as narrativas são ao mesmo tem-
nhecimento das histórias de vida dos po modelos relacionais e modelos de
indivíduos, famílias e comunidades, a identidade, preenchendo a condição
terapia narrativa entende as pessoas humana com abertura e plasticidade
como peritas em suas próprias vidas, (Brockmeier & Harré, 2003).
ou seja, elas têm competências, ap- Segundo McNamee e Gergen
tidões, crenças e valores, que ajudam (1998, p. 38), “as realidades narrati-
reduzir a influência dos problemas no vas construídas socialmente conferem
seu dia a dia (Morgan, 2007). sentido e organização à experiência
Segundo Jill Freedman e Gene individual”. De forma que compre-
Combs, os terapeutas narrativos estão endemos e vivemos nossas vidas por
interessados em trabalhar com pessoas meio de histórias, que consistem em
para obter e aumentar as histórias que eventos em sequência através do tem-
não sustentam ou não suportam os po e de acordo com um enredo. As
problemas. À medida que as pessoas histórias se dão dentro de um con-
começam a habitar e viver histórias texto, no qual atribuímos significados
alternativas, os resultados vão além aos eventos. Os contextos se referem
da resolução das dificuldades. Dentro ao gênero, classe social, raça, cultura e
delas, as pessoas produzem novas des- preferência sexual. Assim, as crenças,
crições de si mesmas, novas possibili- as ideias e as práticas da cultura na
dades para relacionamentos e novos qual vivemos têm uma grande impor-
futuros (1996, p. 16). tância com relação aos significados
Seguindo nesta ótica narrativa, o que damos aos contextos nas quais
trabalho com comunidades que vivem as histórias de vida foram formadas
em situação de risco social exige um (McNamee & Gergen, 1998).
olhar mais amplo para as adversidades A Terapia Narrativa (White & Eps-
e desafios aos quais respondem. A uti- ton,1990) oferece recursos muito enri-
lização de abordagens que realmente quecedores para a re-escritura da his-
se insiram nos contextos de vida das tória dos adolescentes em sofrimento
comunidades a fim de conhecer o sig- psíquico e social de forma crítica e re-
nificado de suas experiências oferece flexiva, e, ao reescrever suas habilida-
a possibilidade de compreensão das des e competências, revisitar traumas
experiências vividas e de como elas e riscos cotidianos, protegidos, entre-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


tanto, por “ilhas de segurança” de suas utilizadas como recurso de empodera-
Pipa da Vida: práticas 63
próprias histórias de vida. mento dos jovens em relação ao futu- narrativas conectando...
Marisol L.. de A. Seidl e Gislaine O. Baptista
As práticas narrativas têm um ro. Para isso utilizamos a metodologia
cunho sociopolítico voltado para liber- da Pipa da Vida, a qual buscou reco-
tar as pessoas de descrições de identi- nectar esses adolescentes com as famí-
dade estreitas focadas nos problemas, lias de origem, fortalecendo as alianças
contribuindo para a construção dos intergeracionais.
processos de cidadania e identidade Esta ferramenta, segundo Denbo-
popular, respeitando a cultura, crenças, rough (2010), é uma forma de reconec-
etnias e as histórias singulares de vida tar as alianças transgeracionais através
das comunidades. Práticas libertadoras do resgate das habilidades, valores e
de estigmas sociais e voltadas para o sonhos. O exercício que utiliza a metá-
fortalecimento e reconhecimento dos fora citada anteriormente é constituído
valores das comunidades locais são es- por cinco etapas as quais foram adapta-
senciais na construção de uma socieda- das pelas autoras.
de pós-moderna e atuante. 1ª etapa – desenhar a pipa, escrever
Portanto, comunidades que vivem os sonhos, habilidades, valores e as his-
em situação de pobreza e sofrimento tórias referentes a si próprios e às pes-
podem se beneficiar de um trabalho soas significativas em sua vida.
que contribua de forma colaborativa 2ª etapa – os ventos que atrapa-
para a mudança e para as novas traje- lham a pipa, como metáfora para
tórias de sucesso destas comunidades, as dificuldades vividas pelos jovens.
mas, sobretudo, respeitando sua sin- O coordenador convida os jovens a
gularidade. compartilharem seus desenhos, co-
Dessa forma, o objetivo deste traba- locando-os na parede e comentando
lho foi desenvolver ações da psicologia sobre os ventos/problemas que atra-
comunitária junto a um grupo de ado- palham suas vidas.
lescentes em situação de risco social, 3ª etapa – cada jovem escreve uma
em especial, a pobreza. Visando a pro- carta para alguém especial contando
moção de ações de empoderamento como foi fazer a pipa da vida, falando
dos jovens em relação ao futuro para sobre suas habilidades, valores e so-
a vida, utilizamos a técnica da Pipa da nhos (adaptado da prática da árvore
Vida (Denborough, 2010), a qual bus- da vida para este trabalho com o ob-
cou reconectar esses adolescentes com jetivo de aumentar a conexão com a
as famílias de origem, fortalecendo as família).
alianças transgeracionais pelo resgate 4º etapa – os pais são convidados
das histórias de habilidades, valores e para uma conversa a respeito da car-
sonhos. ta recebida, momento este em que as
alianças intergeracionais serão reco-
nectadas entre pais e filhos, reconhe-
MÉTODO: DELINEAMENTO cendo os ensinamentos que foram
herdados e como os filhos levam para
O trabalho buscou desenvolver a vida esta herança geracional (adapta-
ações da psicologia comunitária jun- do da prática da árvore da vida).
to a um grupo de adolescentes em si- 5º etapa – as pipas são confeccio-
tuação de risco social, em especial, a nadas e empinadas, experienciando
pobreza. As práticas narrativas foram um momento lúdico, prazeroso e ri-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


tualístico. Na visão de White (2007), à comunidade. Em seu trabalho comu-
64 NPS 44 | Dezembro 2012
as práticas narrativas constituem-se nitário, a instituição entende o sujeito
em andaimes através dos quais o tera- enquanto cidadão construtor de sua
peuta colabora na re-escritura da vida própria história, por meio de uma vi-
das pessoas. Portanto, a Pipa da Vida são dialética da realidade e do seu papel
é um instrumento que proporciona no mundo. As práticas narrativas vêm
ações que visam a promoção da alian- complementar a filosofia construcio-
ça intergeracional de uma família, e nista da instituição, levando em conta
também alianças geracionais entre os as ideias e as práticas da cultura na qual
jovens de uma comunidade. vivemos.
Foram realizados cinco encontros
nos quais foi desenvolvida a técnica
PARTICIPANTES da Pipa da Vida. As entrevistas foram
gravadas e transcritas para posterior
Este trabalho foi desenvolvido com análise. Os procedimentos utilizados
cinco jovens de 10 a 12 anos que parti- para este trabalho com os adolescentes
cipam de projetos sociais realizados por estavam de acordo com as resoluções
uma ONG na região de Porto Alegre, 196 do Conselho Nacional de Saúde
que vivem em situação de risco social, e a 016/2000 do Conselho Federal de
em especial, a pobreza. A instituição Psicologia, como a entrega do termo
frequentada por esses jovens iniciou-se de compromisso livre esclarecido que
em 1990. Desde então, ela vem estimu- foi entregue em duas vias aos respon-
lando crianças, adolescentes e jovens a sáveis, as quais foram assinadas. No
desenvolverem seus potenciais, estimu- termo ficam assegurados o direito ao
lando a paz, o respeito por si, pelo pró- anonimato e a confidencialidade dos
ximo e pelo meio ambiente. A referida participantes.
ONG também contempla um espaço
onde funciona uma clínica de saúde, na
qual profissionais prestam seus serviços RESULTADOS E DISCUSSÕES

PIPA DA VIDA

SONHOS
Sonhos
Sonho
Sonho realizado
realizado no Sonho a ser a ser
Sonho
ano passado
ano passado realizado este
realizado
ano este ano

VALORES
Valores HABILIDADES
Habilidade

Histórias dos
Histórias Histórias
Histórias das
Valores
dos dasHabilidades
Valores Habilidade
sss

PESSOAS
Pessoas
IMPORTANTES
importantes

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


Convidam-se os adolescentes a de- pessoas da sua rede social. Elas tam-
Pipa da Vida: práticas 65
senharem uma pipa no papel, onde bém refletirão sobre o que estes eventos narrativas conectando...
primeiro, em uma das pontas da pipa, dizem sobre as qualidades de relaciona- Marisol L.. de A. Seidl e Gislaine O. Baptista

pretende-se, segundo Denborough mentos particulares. Assim, a paisagem


(2010), que os adolescentes pensem em de identidade ou significados (habili-
suas esperanças, sonhos e desejos que dades, valores, intenções, sonhos) tem a
gostariam de realizar e assim possam ver com as interpretações que são feitas
ver que direção suas vidas estão to- através da reflexão sobre estes eventos
mando. Uma característica dos jovens que estão se abrindo através das paisa-
quando estão escrevendo é comparti- gens de ação (eventos e ações através do
lhar verbalmente com os colegas. “O tempo).
meu sonho é ser médica para ajudar Após terem resgatados os valo-
as pessoas.” Em continuação, os ado- res e as habilidades, convidam-se os
lescentes resgatam suas habilidades e adolescentes a contarem histórias de
competências. “Uma das minhas habi- como esses valores e competências
lidades que mais gosto é fazer poesias, ajudam em suas vidas e com quem
e escrevo muito bem”, diz a pequena aprenderam e como aprenderam. Até
garota de doze anos. A coordenadora neste momento, a ferramenta utiliza
do grupo faz perguntas para facilitar recursos que White (2007) denomina
os discernimentos dos jovens em rela- de “cenário de ação” e que envolve in-
ção às suas histórias de vida. “E como vestigar eventos e ações significativas
descobriu que essa era uma de suas na vida da pessoa, ou seja, sua vida
habilidades”, pergunta-lhe a terapeuta. pregressa e atual. “Meus pais estavam
“Quando fiz uma poesia para minha quase se separando, aí pedi para eles
mãe, ela me elogiou um monte...” que não se separassem porque eles se
Conforme Ncazelo (2006), quando amam e existe muito amor entre eles...”
se fala em habilidade, não se pensa em Conforme Morgan (2007), a paisagem
coisas óbvias, são procuradas as habi- de ação é constituída de experiências
lidades mais sutis, anunciando o que de eventos que são ligados em sequên-
é importante apreciar na vida. Quan- cia através do tempo e de acordo com
do se chega nesta parte da técnica, já enredos específicos se constituindo na
se está no território de identidade história de vida do sujeito.
da pessoa, assim definido por White Também a técnica em análise utili-
(2007). No território de identidade, za-se do recurso de re-associar ou re-
relacionam as implicações que a histó- -membrar (se reconectar com pessoas
ria alternativa tem em termos de com- significativas) através do que o adoles-
preensão da identidade. Aqui os ado- cente aciona na sua “rede social” e que
lescentes são convidados a refletirem Michael White denomina “Clube de
sobre sua própria natureza pessoal e Vida” (Russel, 2007). Os adolescentes
relacional. têm a oportunidade de pensar nas pes-
Voltando à metáfora em estudo, os soas importantes da sua vida, aquelas
adolescentes também falaram sobre os que mais lhes ensinaram (eles podem
valores que levam para a sua vida. “Um citar pessoas que já morreram). Con-
valor que eu aprendi é o amor, pois forme Sluzki (1997), a rede social pes-
quem tem amor tem tudo.” Segundo soal constitui-se daqueles seres com os
Morgan (2007), à medida que falam de quais o sujeito interage, troca sinais e
suas habilidades e valores, refletem so- sente-se significado. Constitui-se esta
bre o caráter, motivos, desejos, de várias rede de familiares, amigos, conheci-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


dos e companheiros, que contribuem como responder a essas dificuldades?
66 NPS 44 | Dezembro 2012
através de um processo dinâmico e “É preciso ter coragem, fé, amizades,
interativo na construção de identida- amor, carinho compreensão para en-
de do indivíduo, ao longo do tempo frentar os ventos da vida.” E, aos pou-
e espaço, num constante construir e cos, as vozes, frágeis e tímidas, se tor-
reconstruir. Um dos relatos que foram nam fortes e decididas a falar.
dados foi: “A minha mãe sempre foi a Ncazelo (2006) assevera que este
pessoa que foi a minha referência, mas momento revela-se um bom ponto
depois que ela morreu, agora é a mi- de entrada para começar a explorar
nha tia.” Segundo Russel, os membros os riscos. Os jovens, metaforicamente
deste “Clube de Vida” podem mudar nomeados como “pipas”, passam a no-
de posição e status ao longo da vida mear as dificuldades que experimen-
das pessoas. Aquelas a quem as pesso- tam na vida. Como se está fazendo um
as dão mais importância com certeza exercício, os adolescentes começam
influenciam mais a construção de sua a externalizar seus problemas. Nestas
identidade (Russel, 2007). conversas de externalização, o grupo
Dando continuidade à técnica da é estimulado a narrar as adversidades
“Pipa da Vida”, sugere-se para os ado- que os jovens enfrentam na vida. Nes-
lescentes após terminarem de desenhar tas conversações, os indivíduos são
e escrever, que compartilhem com os convidados a falarem no coletivo e não
demais colegas a sua pipa, recontando se colocarem pessoalmente, pois é uma
suas histórias. É o momento de expor forma de proteção, como uma ilha de
sua pipa tomada de lembranças, so- segurança.
nhos e desejos. As pipas são colocadas O objetivo das conversações de ex-
na parede e cada jovem apresenta a sua ternalização é permitir que as pessoas
para os demais. A coordenadora do percebam que elas e o problema não
grupo faz perguntas externalizadoras são a mesma coisa. A externaliza-
sobre os sonhos, habilidades e valores ção localiza os problemas não dentro
e como foram aprendidos. Também dos indivíduos, mas como produto
através das conversas de remembrança, da cultura e da história. Problemas
os jovens se reconectam com as pesso- são compreendidos como socialmen-
as mais significativas de suas vidas ao te construídos e criados ao longo do
recontarem histórias de aprendizagens tempo (Russell & Carey, 2007). Ainda
desses valores, habilidades e sonhos. no dizer de Morgan (2007), a pessoa,
Na etapa dois da ferramenta em ao narrar sua história, seleciona fatos e
debate, aborda-se: “O que atrapalha acontecimentos que interpretam e dão
a pipa de subir”, pergunta-lhes a te- significado à sua vida.
rapeuta? “O vento...” Após eles terem Segundo Elkäim (1998), as inter-
falado, os adolescentes são convidados pretações que a pessoa faz e os signi-
a pensarem na pipa como sendo a vida ficados que dá e como os explica, re-
dos jovens, e então se questiona sobre velam a “dominância” de certo enredo
quais seriam as dificuldades e ventos na sua vida. Segundo Nichols (2007),
que os jovens teriam que enfrentar. o terapeuta, por meio de uma série de
“Brigas, desemprego, separações, ciú- perguntas, colabora para que os ado-
mes, drogas...” Também lhes pergun- lescentes separem-se da velha história,
ta a terapeuta: E o que é preciso fazer saturada do problema que desejam
para enfrentar? E quais os efeitos que resolver. Isso se torna possível porque,
os ventos causam em suas vidas? E agora, os jovens já reconhecem seus

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


recursos (aptidões, competências, mumente e resolver mais eficazmente
Pipa da Vida: práticas 67
ações, desejos, conquistas), bem como conflitos. Embora conflitos ocorram narrativas conectando...
estão amparados pelo seu “Clube de frequentemente, estes são resolvidos Marisol L.. de A. Seidl e Gislaine O. Baptista

Vida”. “Quem pode contar histórias por amigos de maneira a aumentar a


de alguém que enfrentou os ventos probabilidade de continuação do re-
da vida”, pergunta-lhe a terapeuta? “A lacionamento. Há também diferenças
minha tia precisou fazer uma cirurgia notáveis de gênero nas qualidades das
e a família estava com muito medo, amizades de meninas e meninos. A
mas eu rezei e tive fé e ela conseguiu amizade desempenha um papel sig-
ficar boa, mas ela também acreditou nificativo no desenvolvimento social,
que ficaria boa.” Depois de a menina fornecendo às crianças ambientes e
ter narrado sua história, os demais contextos em que possam aprender
participantes também compartilha- sobre si mesmas, seus pares e o mun-
ram suas histórias. “Eu era muito bri- do ao seu redor (Rubin et al., 2005).
guenta e depois que conquistei ami- Na 3ª parte, essas lições e aprendi-
gos e tenho mais amizades, agora sou zados, segundo Ncazelo (2006), pe-
muito calma.” dem uma celebração. São quase um
Ainda segundo Morgan (2007), con- convite para celebrar a vida, a história
versas de remembrança (re-membrar secundária, as esperanças, as habi-
ou re-associar) possibilitam enriquecer lidades que foram descobertas, des-
as histórias secundárias e mais do que vendadas, que os jovens vivenciaram
isto, acentua Russel (2007), permitem durante todo esse exercício. Então, os
ao terapeuta que outras pessoas e valo- adolescentes são convidados a escre-
res significativos possam se associar na verem uma carta aos pais ou a alguém
descrição de novas histórias preferidas. especial. Segundo Morgan (2007),
Conforme mencionado nos recortes dentro das práticas narrativas, as
terapêuticos, ficou evidenciado que cartas são usadas em uma variedade
um dos valores importantes para esses de maneiras para ajudar as famílias.
adolescente é a amizade. Como recorte terapêutico, uma ado-
Rubin et al. (2005) apresentam lescente, com 12 anos, escreveu: “Hoje
uma revisão das principais caracte- fizemos uma coisa muito legal, a pipa
rísticas das amizades na infância. Se- da vida onde falamos sobre nossas
gundo os autores, a maioria das crian- habilidades e valores aprendidos com
ças tem pelo menos um amigo. Estas todos vocês que fazem parte da mi-
fazem amizades com outras crianças nha família e quero dizer que vocês
que são semelhantes em característi- me ensinaram tudo o que sei, por isso
cas e comportamentos. As concepções agradeço a vocês.”
de amizade avançam do concreto para Na 4ª etapa, os pais são convidados
o abstrato com a idade, o que se re- a participarem de um encontro para
flete em seus comportamentos com conversar sobre suas impressões, após
os amigos. Com a idade, as crianças terem recebido a carta dos filhos. É um
demonstram mais estabilidade nas momento de reconexão das famílias
relações de amizade que mantêm com seus valores intergeracionais, ao
mais altruísmo recíproco e mais co- perceberem que o legado familiar vai
nhecimento pessoal íntimo. As crian- ser continuado na nova geração. Se-
ças em processo de fazer amigos têm gundo Denborough (2010), no encon-
mais probabilidade de se comunicar tro com os pais podem ser trabalhados
claramente, se autorrevelar mais co- vários princípios chave da construção

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


das alianças intergeracionais. Alguns soas dignas e crescer na vida.
68 NPS 44 | Dezembro 2012
que se destacaram foram: partilhar Aprendemos o que devemos fazer quando
habilidades e outras implicações posi- valorizamos a vida.
tivas; “ela é muito esforçada, inteligen- Quem valoriza o amor e a amizade são
te, gosta de participar das coisas”, diz pessoas que amam sem interesse.
uma das mães das adolescentes. Outra E esse amor vai muito além das aparên-
mãe, também fala sobre sua filha, “A. cias.
é muito inteligente, participativa, ela Pois através desses valores que nós seres
gosta das atividades que pedem para humanos, somos mais unidos
ela fazer”. E não se esquecendo de proteger aqueles
Outro princípio que se destacou foi que amam,
traçar a linha da história das contribui- dando-lhe carinho, respeito e atenção.
ções mútuas, e descrever ricamente as E juntos construindo aos poucos coisas
ações dos propósitos comuns. Assim, novas.
ambas as mães que estavam na reunião São os valores que nos dizem o que é bom.
trouxeram falas sobre como sua educa- Os valores nos ensinam a não roubar e
ção e os ensinamentos foram passados matar.
de geração para geração e se faziam Mas parece que nem todo mundo aprende.
presentes. “É bom saber que o que meu Pois quando utilizamos esses valores,
pai me ensinou, eu passei para ela”. Eles nos ajudam a enfrentar as dificulda-
Recorte de outra mãe: “Estou feliz em des que se encontra nos caminhos.
saber que ela utiliza na vida dela aqui- Valores como a fé e a educação, que nun-
lo que ensinei como o respeito, amor, ca sai de moda
educação”; “[...] tudo o que ensinei a Que estejam presentes nos nossos atos e
minha filha foi a minha mãe que me ninguém nos tire.
passou porque ela sempre me ensinou Valores são como dente, nasce cada dia
tudo, e me corrigia quando fazia algu- um.
ma coisa errada ”. Por isso precisamos construir um mundo
Os adolescentes presentes nessa melhor e mais feliz.
reunião puderam ouvir o que suas
mães falavam sobre eles. Segundo Este documento coletivo tem o
White (1997), esse momento é cha- significado de compartilhamento de
mado de cerimônia de definição, uma identidade entre os jovens e também
oportunidade de alguém ser visto e re- proporciona uma contribuição para
conhecido pelas testemunhas externas outros jovens da comunidade (este do-
(por suas habilidades, valores, sonhos cumento circulará entre outros grupos
e esperanças). de jovens da instituição e também nos
No mesmo dia os adolescentes le- espaços da rede social a qual a ONG é
ram um poema de sua própria auto- interligada). Este documento revela as
ria, baseado nos valores que emergi- histórias preferidas e alternativas dos
ram durante a realização da técnica da jovens desta comunidade contribuin-
“Pipa da Vida”. do para novas possibilidades (a carta é
uma adaptação de outras práticas nar-
Guiando nossos passos rativas coletivas).
Na 5ª e última etapa, cada criança
É através dos valores que sabemos o que é confecciona sua pipa, escreve um so-
certo, justo e bom. nho a ser realizado e a solta para que o
Sem os valores não conseguimos ser pes- vento leve essa mensagem.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


CONSIDERAÇÕES FINAIS BRUNER, J. S. (1991). The narrative
Pipa da Vida: práticas 69
construction of reality. Critical In- narrativas conectando...
Neste artigo, os valores, habilidades quiry, 17, pp. 1-21. Marisol L.. de A. Seidl e Gislaine O. Baptista

e sonhos compartilhados no grupo RUSSELL, S., & CAREY, M. (2007). Te-


revelaram o legado intergeracional de rapia narrativa: respondendo às suas
suas famílias de origem, um reconhe- perguntas. Porto Alegre: Centro de
cimento de suas identidades e de seu Estudos e Práticas Narrativas.
protagonismo como seres sociais. Dar DENBOROUGH, D. (2010). Kite of Life:
visibilidade ao uso da técnica Pipa da From intergenerational conflict to
Vida como uma ferramenta conversa- intergenerational alliance. Adelaide:
cional produtora de conexão entre jo- Dulwich Centre Publications.
vens e suas famílias, bem como entre ELKAIM, M. (1998). Panorama das tera-
esses e seus pares se se mostrou uma pias familiares. São Paulo: Summus
ação positiva de empoderamento co- Editorial.
munitário. FREEDMAN, J., & COMBS, G. (1996).
Ações sociais que buscam a pro- The social construction of preferred
moção do protagonismo social de realities. New York: Norton.
jovens em situação de risco precisam LIETZ, C.A. (2006). Covering Stories
levar em conta suas características, of Family Resilience: A Mixed Me-
seus legados multigeracionais, além thods Study of Resilient Families.
do contexto em que vivem. Desta
Families in Society: The Journal of
forma, as competências individuais
Contemporary Social Services, 88,
poderão ser promovidas, enrique-
pp. 147-155.
cidas, mas mantendo viva a história
MCNAMEE, S., & GERGEN, K.J. (1998).
pessoal de cada um, facilitando assim
A terapia como construção social.
a reautoria. Dessa forma, as histórias
Porto Alegre: Artes Médicas.
alternativas dão suporte para os ado-
MORGAN, A. (2007). O que é terapia
lescentes prosseguirem suas vidas,
narrativa?: uma introdução de fácil
tomarem iniciativas que estejam em
leitura. Porto Alegre: Centro de Es-
harmonia com o que valorizam e com
o que querem para suas vidas. Permi- tudos e Práticas Narrativas.
MURRAY, M. (2004). Narrative
��������������
Psy-
tem ainda conectá-los com as pessoas
e personagens que são importantes chology. In J. A. Smith (Org). Quali-
para elas, bem como com aspectos da tative psychology. London: Sage
sua cultura. Ao responder aos riscos Publications.
sociais, dores, frustrações, discrimina- NCAZELO, N., & DENBOROUGH, D.
ção e pobreza, estas jovens vidas rees- (2006). Tree of Life. Adelaide: Dul-
crevem o sentido da vida, que, por sua wich Centre Publications.
vez, pode ter um efeito restaurador NICHOLS, M. P., SCHWARTZ, R. C. (2007).
em seu futuro. Terapia familiar: conceitos e métodos.
(7ª ed.) Porto Alegre: Artmed.
RUBIN, K.H., COPLAN, R., CHEN, X.,
REFERÊNCIAS BUSKIRK, A., & WOJSLAWOWICZ, J.C.
(2005). Peer relationships in child-
BROCKMEIER, J., & HARRÉ, R. (2003). hood. In M. Bornstein & M. Lamb
Narrativa: problemas e promessas de (Orgs.). Developmental psychology:
um paradigma alternativo. Psicologia. an advanced textbook (pp. 469-512).
Reflexão e Crítica, 16, pp. 525-535. Hillsdale, NJ: Erlbaum.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


SLUZKI, C. E. (1997). A rede social na prá- WHITE, M., & EPSTON, D. (1990). Nar-
70 NPS 44 | Dezembro 2012
tica sistêmica: alternativas terapêuti- rative Means to Therapeutic Ends.
cas. São Paulo: Casa do Psicólogo. New York: Norton.
WHITE, M. (1997). Narratives of
Therapists’Lives. Adelaide: Dulwich
Centre Publications.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 61-70, dez. 2012.


ARTIGO

MEDIAÇÃO PARA IDOSOS EM SITUAÇÃO DE RISCO:


TRABALHO REALIZADO NO MINISTÉRIO PÚBLICO
MEDIATION IN ELDERLY PATIENS AT RISK: WORK DONE IN
PUBLIC PROSECUTION

RESUMO: Este artigo apresenta o trabalho que foi ABSTRACT: This article presents the work that ALESSANDRA NEGRÃO
desenvolvido junto ao Ministério Público do Estado was developed with the Public Prosecutor of ELIAS MARTINS
de São Paulo no Foro Regional de Santo Amaro, Santo Amaro. Through the initiative of the Pro- Advogada, especialista em
São Paulo, SP. Pela iniciativa das Promotoras de secutor, in 2011 is created the Transformative Direito Civil e Processual
Justiça, em 2011 é criado o Projeto de Mediação Mediation Project which aims to provide media- Civil, mediadora e
Transformativa que visa disponibilizar mediação tion services for families with elderly people at conciliadora.
para famílias com idosos em situação de risco, risk, either by abandonment or neglect of basic
seja por abandono ou negligência de cuidados bá- care. The Transformative Mediation The Reflecti- MARIA GABRIELA
sicos. A Mediação Transformativa Reflexiva é um ve Transformative Mediation is a conversational
MANTAUT LEIFERT
processo conversacional onde o mediador auxilia process where the mediator helps the parties to
as partes a encontrarem consensualmente solu- find consensus satisfactory solutions to their Psicóloga, mestre em
ções satisfatórias para seus impasses, e também predicaments, and also aims to promote the psicologia social pela USP,
terapeuta de casal e família,
tem como finalidade favorecer a transformação das transformation of the people involved in the dis-
terapeuta Intercultural,
pessoas envolvidas na disputa. A Mediação tem pute. Mediation is voluntary, format with up to
mediadora.
um caráter voluntário, com formato de até 5 en- 5 meetings and is presented as an attempt to
contros e se apresenta como uma tentativa de dar give the resolutions of family members involved
às resoluções dos familiares envolvidos no conflito in the conflict more able to understand their di- MÔNICA LODDER DE
mais condições de compreender e trabalhar suas fferences and work in a space of listening and OLIVEIRA PEREIRA
diferenças em um espaço de escuta e diálogo. dialogue. After a year of Project found that the Promotora de Justiça Cível
Após um ano de Projeto constatamos que os com- combined intervention that arises with the me- em Santo Amaro, São Paulo
binados que surgem com a intervenção da media- diation has greater condition to sustain over time Capital, com atribuição na
ção têm maior condição de se sustentar ao longo because the solutions were built collaboratively área da Família e do Idoso.
do tempo na medida em que as soluções encon- by all involved. In some cases we observed a fa-
tradas foram construídas colaborativamente por to- mily of relational change towards strengthening
dos os envolvidos. Em alguns casos observamos their ties and training thereof in resolving their
uma mudança relacional dos familiares no sentido differences.
do fortalecimento de seus laços e a capacitação
dos mesmos para a resolução de suas diferenças. KEYWORDS: mediation, family, risk, elderly, go-
PALAVRAS-CHAVES: mediação, família, idoso, vernment.
risco, Ministério Público.

O Projeto de Mediação Para Idosos é pioneiro na cidade de São Paulo e acontece Recebido em 21/07/2012.
desde 01 de abril de 2011, pela iniciativa das Promotoras de Justiça Cíveis no Foro Aprovado em 30/08/2012.
Regional de Santo Amaro, em São Paulo, as doutoras Mônica Lodder de Oliveira
dos Santos Pereira e Isabella Ripolli Martins, que, dentre suas várias atribuições,
atendem idosos em situações de risco. As promotoras de justiça, a partir do curso
teórico de mediação de conflito, vislumbraram a possibilidade de serem passíveis
de Mediação as pessoas envolvidas nos procedimentos administrativos instaurados
na Promotoria de Justiça que possuam idosos em risco. Dessa forma, foi desenvol-
vido o Projeto de Mediação na Promotoria de Santo Amaro e foram convidadas a
participar mediadoras do Instituto de soais, como vestir-se, ir ao banheiro,
72 NPS 44 | Dezembro 2012
Mediação Transformativa que se inte- alimentar-se e tomar remédios.
ressassem pelo tema. Nesta conjuntura, da necessidade de
cuidados à pessoa idosa, foi criado o
Estatuto do Idoso, Lei nº 10.741 de 02
O IDOSO NA ATUALIDADE de outubro de 2003 que veio assegurar
às pessoas com 60 anos ou mais uma
Os países desenvolvidos tornaram- melhor qualidade de vida, com garan-
-se ricos para depois envelhecer, já os tia de seu bem-estar, a fim de respeitar
países em desenvolvimento estão tor- seus direitos básicos de sobrevivência
nando-se velhos antes de enriquecer e de uma vida digna. Por outro lado,
(Arcuri, 2004-2006). Nas últimas dé- sabemos da dificuldade de muitas fa-
cadas o segmento de pessoas que mais mílias brasileiras cuidarem de seus
cresce no Brasil é o de pessoas idosas. idosos, seja por falta de condições
O último censo do IBGE de 2010 cons- materiais, desavenças entre familiares
tatou uma diminuição na proporção ou negligência. É nesse contexto que
de jovens e um aumento na de idosos: o projeto de mediação para idosos foi
a população com 65 anos ou mais, que criado.
era de 4,8% em 1991, passou a 5,9% Como Promotoras de Justiça, as
em 2000 e chegou a 7,4% em 2010. doutoras Mônica e Isabella cuidam da
Nos últimos anos, muitas mudanças proteção e valorização do idoso, rece-
ocorreram em nosso país e em nossa bem notícias de irregularidades ou re-
cultura. Famílias cada vez menores, clamações de qualquer natureza relati-
devido ao maior controle da natali- va a idosos, e promovem as apurações
dade, os adultos (pai e mãe) inseridos cabíveis e as soluções adequadas. No
no mercado de trabalho para suprir entanto, verificam que na quase tota-
demandas de subsistência e consumo, lidade dos procedimentos o que leva o
as crianças nas escolas ou creches. Esta idoso a procurar o Ministério Público
é a nova realidade da vida cotidiana resulta de conflitos familiares. Perce-
das grandes metrópoles, uma tendên- beram então, os benefícios da media-
cia a ser mantida e ampliada. Com os ção face à necessidade de uma melhor
avanços da ciência, principalmente da comunicação na família.
medicina, na busca pela qualidade de Nessas reclamações, há risco de
vida, estamos progredindo mais e mais abandono físico e/ou moral do idoso,
na expectativa de vida. Segundo dados que não é assistido adequadamente
do IBGE em 2005, a expectativa média pelos familiares. Dessa forma, são en-
do brasileiro é de 71,9 anos, portanto caminhadas à Mediação situações em
a sociedade tem que se adaptar a esta que o idoso:
nova realidade. • fica o dia todo sozinho e tem a
Segundo Arcuri (2004-2006), es- saúde debilitada;
tudos revelam que cerca de 40% dos • tem alta hospitalar e a família não
indivíduos com 65 anos ou mais pre- o retira;
cisam de algum tipo de ajuda para • não possui condições de alimenta-
realizar pelo menos alguma tarefa diá- ção e higiene adequadas;
ria, como fazer compras, cuidar das • não é levado ao médico;
finanças, preparar refeições ou limpar • não tem os cuidados de medicação
a casa, 10% requerem auxílio para re- prescritos;
alizar tarefas básicas de cuidados pes- • não é visitado pelos filhos.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


MEDIAÇÃO COMO MEIO CONSENSUAL ciário amparar os cidadãos de modo Mediação para idosos em
situação de risco... 73
DE RESOLUÇÃO DE CONFLITO: UM mais abrangente, para além da solu-
Alessandra N. E. Martins, Maria Gabriela
ENFOQUE SISTÊMICO ção dos conflitos, e oferecer serviços M. Leifert e Mônica L. De Oliveira Pereira
de cidadania, como obtenção de cer-
O conflito é entendido em nossa tidões e orientações jurídicas. Ressal-
cultura como algo que nos remete a ta, ainda, que na função “primordial”
um paradigma ganha/perde, ou seja, dos serviços processuais, cabe ao ju-
a partir de uma lógica linear e deter- diciário também oferecer os meios
minista. Esta forma de lidar com a consensuais, como a mediação e a
diferença empobrece o espectro de conciliação. Neste paralelo de ampliar
soluções possíveis na medida em que a forma de trabalhar o conflito, foi
dificulta a relação entre as pessoas tan- fundamentado o projeto no Ministé-
to do ponto de vista afetivo/relacional rio Público para que a mediação fosse
quanto econômico/social. Capacitar as possível com idosos em risco.
pessoas em meios consensuais de reso- A mediação surge a partir da multi-
lução de conflito prevê a responsabili- disciplinaridade, ou seja, o mediador,
zação dos mesmos na criação e conse- ao se capacitar, já possui uma profissão
quente resolução da disputa, levando de origem, que pode ser; advogado,
em conta as singularidades de cada um psicólogo, assistente social, médico,
e favorecendo a negociação para que a jornalista, entre outros. Esses diversos
solução promova uma situação de ga- olhares enriquecem o trabalho pro-
nha/ganha (Schnitman 2000-2008). porcionando uma contribuição di-
Neste sentido, as soluções para a dis- ferenciada aos diálogos travados nos
puta nascem a partir de um consenso, encontros.
com a construção de “lugares” sociais
legítimos para os participantes, onde
se reconhecem as singularidades de NOSSO PERCURSO
cada um no conflito, a possibilidade de
ganhar conjuntamente, e de construir A mediação proposta pelo projeto é
soluções comuns para resolver colabo- transformativa reflexiva, tendo como
rativamente o litígio apresentado. finalidade modificar as relações das
Entendemos que, a partir desta me- pessoas envolvidas no conflito, bus-
todologia, o conflito pode se transfor- cando soluções satisfatórias para as
mar em uma possibilidade de desen- questões trazidas por elas. Trabalha
volvimento e crescimento, através da com foco determinado, delimitando
necessidade de explorar saídas criati- claramente o problema a ser tratado
vas motivadas pela compreensão ativa sem pretender atingir outras proble-
das diferenças entre as partes. Na me- máticas que porventura emergirem no
dida em que os elementos do conflito decorrer do processo. O mediador tem
emergem no diálogo, este pode e deve como função facilitar o diálogo por
ser a nossa principal opção para traba- meio de perguntas, ampliando a com-
lhar as realidades divergentes. preensão do conflito e possibilitando
Segundo Watanabe (2011), a par- que os envolvidos possam expressar
tir da Resolução 125/10 do Conselho seus diferentes pontos de vista (Ramos
Nacional da Justiça, o princípio do & Salem, 2011).
acesso à justiça passou a ter um sen- Bush e Folger, precursores do modelo
tido amplo de “acesso à ordem jurídica transformativo reflexivo, definem a me-
justa”, afirmando que cabe ao judi- diação como um processo que permite

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


que as pessoas em conflito ajam com O sistema entrevistador (mediado-
74 NPS 44 | Dezembro 2012
maior grau de determinação e responsi- res de campo) é visto como um siste-
vidade em relação aos outros, ao mesmo ma autônomo que define ele próprio
tempo em que exploram soluções para o que deve ser conversado e de que
questões específicas (apud Suares, 2008). forma deve ser feito, sem nunca dar
Enfatizam o empoderamento e o “reco- instruções ou sugestões sobre como
nhecimento da legitimidade do outro” agir. Para Tom Andersen, as perguntas
durante os encontros de mediação, no adequadamente incomuns constituem
intuito de favorecer a transformação uma grande contribuição para um
das pessoas no que se refere a seus re- sistema paralisado. Ao oferecer novas
lacionamentos interpessoais. O acordo é compreensões sobre o problema tra-
uma possibilidade a ser buscada, mas a zido, os ouvintes são mobilizados a
ênfase é na mudança relacional. olhar sua dificuldade desde outro lu-
Ao trabalhar com estas famílias gar. Segundo este autor: “Só podemos
dentro desta perspectiva, procuramos dar uma colaboração útil se a conver-
ampliar as suas narrativas, descongelá- sa instigar a nossa curiosidade. Como
-las no sentido de favorecer um en- tudo na vida, a curiosidade é uma co-
tendimento que proporcione, a partir laboradora da maior importância para
da construção de novos significados, a evolução” (Andersen, 1991, p. 67).
o cuidado e apoio a todos os envol- Dentro desta linha de trabalho,
vidos. Deste modo, ao promover aco- não temos a pretensão de orientar ou
lhimento a estes relacionamentos des- encaminhar soluções para o conflito
gastados, buscamos através da reflexão apresentado, elas nascem de forma
conjunta saídas para aquelas situações conjunta nos diálogos travados entre
enrijecidas pelo tempo. os mediados, mediadores e equipe
reflexiva. Partimos de uma realidade
comum para tantas famílias, a difi-
UTILIZAÇÃO DA EQUIPE REFLEXIVA NA culdade de inclusão e cuidados dos
PRÁTICA DA MEDIAÇÃO idosos.

Em nosso trabalho, utilizamos a


equipe reflexiva, pois acreditamos ser O TRABALHO E SUA PRÁTICA: QUEM
este um formato que possibilita a am- SÃO OS MEDIADOS E QUAIS OS
pliação da escuta e favorece na dinâmi- CONFLITOS
ca dos encontros. A equipe reflexiva é
uma prática idealizada por Tom Ander- A Mediação para Idosos ocorre em
sen (1991), que possui como formato um contexto familiar, os mediados
um sistema entrevistador (mediado- em geral são: idoso (a) e filhos (as). O
res de campo) e um sistema de escu- idoso é convidado à mediação quando
ta (equipe reflexiva). Os membros da apresenta condições físicas e psíquicas
equipe reflexiva desenvolvem “diálogos de saúde para estar presente. Quando
internos”, ou seja, refletem sobre aquilo não tem condições, o que ocorre na
que ouviram do campo e quando falam maioria dos atendimentos, a Mediação
o fazem entre si e não para os media- acontece em nome do idoso ou com
dos. A equipe reflexiva está orientada a quem pode estar presente: familiares,
lançar perguntas no final de suas consi- conviventes e cuidadores.
derações, as quais, por sua vez, podem Os conflitos familiares são intensos,
ou não ser respondidas pelos mediados. em geral envolvem situações nas quais:

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


• nenhum dos parentes cuida do aos mediados já na pré-mediação. Ou Mediação para idosos em
situação de risco... 75
idoso, ou apenas um dos filhos seja, após comparecerem ao primei-
Alessandra N. E. Martins, Maria Gabriela
cuida, e é sobrecarregado nesses ro encontro sabem, todos que ali es- M. Leifert e Mônica L. De Oliveira Pereira
cuidados; tão pelo idoso e para o idoso, e ficam
• não há divisão dos recursos finan- cientes da condição periclitante.
ceiros para a manutenção do idoso; A questão do sigilo da mediação é
• há conflito no que se refere: respeitada no que se refere ao conteú-
– à utilização do benefício do ido- do dos encontros, sendo apenas co-
so, ou de quem o administra; municado aos Promotores de Justiça
– ao revezamento nos cuidados e como o idoso se encontra devido à
companhia ao idoso; situação de risco. Essa comunicação é
– à necessidade de uma cuidado- autorizada na Resolução 125/2010 do
ra, divisão das despesas ou inter- Conselho Nacional de Justiça; no ane-
nação do idoso. xo III referente ao Código de Ética de
Conciliadores e Mediadores Judiciais,
Muitas famílias têm escassos recur- no artigo 1º, parágrafo 1º que trata
sos financeiros e o Poder Público não da Confidencialidade e reza: “Confi-
dispõe de vagas suficientes em unida- dencialidade – Dever de manter sigilo
des de longa permanência. sobre todas as informações obtidas na
sessão, salvo autorização expressa das
partes, violação à ordem pública ou às
QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA leis vigentes... (grifo nosso).” Com au-
MEDIAÇÃO? torização dos mediados, e por estarem
os idosos em risco, os Promotores de
O principal objetivo é restabelecer Justiça que acompanham o Procedi-
ou ampliar a comunicação entre o ido- mento terão ciência durante a media-
so e seus familiares e por conseguinte ção de como se encontra o idoso e os
melhorar a convivência dessas pesso- cuidados em relação a ele. Os media-
as proporcionando ao idoso a elimi- dos são avisados previamente do risco
nação ou atenuação do risco em que e autorizam por escrito a comunicação
se encontra, buscando uma situação em relação ao idoso. Há, dessa forma,
mais confortável para todos. A partir um equilíbrio entre o sigilo, vida e dig-
da mediação, acreditamos possibilitar nidade humana.
uma relação mais saudável entre ido-
sos e familiares de modo que, ao sur-
girem novos conflitos, consigam resol- DINÂMICA DOS ENCONTROS DE
vê-los pelo diálogo e cooperação, não MEDIAÇÃO
sendo mais preciso recorrer ao Poder
Público. A Mediação Transformativa Refle-
As comunicações que chegam à xiva é utilizada em situações de con-
Promotoria de Justiça são feitas por flito nas quais as relações interpessoais
familiares, companheiros, vizinhos, possuem continuidade no tempo,
terceiros, pelo próprio idoso, por as- como as relações familiares. Neste sen-
sistentes sociais, hospitais ou Unida- tido a nossa intenção não é somente
des Básicas de Saúde. Esta mediação buscar o acordo, mas também traba-
tem uma característica diferenciada, lhar as relações entre as pessoas. Ini-
pois parte de um risco (abandono ciamos utilizando a fala de abertura,
físico ou moral) que é comunicado para explicar o formato dos encontros,

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


explicitar que não somos juízes e que algo, são fundamentais para manter
76 NPS 44 | Dezembro 2012
se porventura chegarem a alguma so- um clima de harmonia ao logo dos en-
lução será algo construído por eles nos contros. De modo geral, são muitos os
encontros. Na fala de abertura comen- mediados e não é incomum que estes
tamos sobre a comunicação respeitosa familiares estejam com relações in-
entre as partes, a voluntariedade do terrompidas há tempos e apresentem
processo e a confidencialidade. motivações conflitantes, inclusive com
Os mediados (idoso e seus convi- sentimentos de hostilidades e mágoas
ventes) são convidados a participar acumuladas.
de até cinco encontros, podendo ter Nos primeiros encontros, os fami-
mais um ou dois de acompanhamen- liares relatam apenas os conflitos e as
to. A mediação tem como cerne a dificuldades que encontram de cuidar
voluntariedade. Dessa forma, o con- do idoso. Durante o percurso, cria-se
vite é uma oportunidade para que as um clima de acolhimento e respei-
famílias ampliem o diálogo, porém, to promovido pela fala de abertura,
como envolve um contexto de risco, a partir das técnicas de escuta e das
o procedimento legal não é encerra- perguntas circulares. Nas técnicas de
do com a Mediação. Os Promotores escuta, o mediador procura manter-
de Justiça continuam normalmente -se atento ao diálogo dos mediados
com o procedimento administrativo não para responder, mas para tentar
no qual houve a reclamação do idoso compreender e explorar os sentidos e
com todo o seu trabalho regular: vi- significados que estão sendo construí-
sitas domiciliares por assistentes so- dos naquele encontro. As perguntas
ciais, depoimentos das partes, entre circulares também têm a intenção de
outros. esclarecimento e construção de novos
São trabalhados nos encontros o significados, elas tratam das pessoas,
empoderamento e a autodetermina- daquilo que elas pensam, sentem e fa-
ção dos mediados. Entendemos por zem, e promovem a empatia, ou seja, a
empoderamento o protagonismo do possibilidade de se colocar no lugar do
mediado nas possíveis soluções encon- outro. Por exemplo: O que você sente
tradas para o impasse. Dessa forma, quando ele fala isto? O que você pen-
tanto o idoso fica fortalecido a falar de sa daquilo que ele diz? (Suares, 2008).
si, como os mediados a terem a mesma Deste modo, a partir destas estratégias
oportunidade. Na autodeterminação, de comunicação começam a surgir
os mediados sentem-se capazes para ao longo das reuniões reflexões sobre
fazer planos de futuro e se apropriar maneiras alternativas de cuidados e
de suas vontades e determinações. convivência com o idoso, bem como
Como mediadores, desenvolvemos as diferenças relacionais vão sendo
algumas estratégias para que haja trabalhadas.
uma verdadeira mediação em grupo, Em muitos casos, o idoso tem um
ou seja, uma pergunta única sem- número expressivo de filhos e todos
pre é feita para todo o grupo. Para as comparecem. Muitas vezes há compa-
perguntas mais específicas dirigidas recimento de outros familiares além
a apenas um dos mediados, todos os dos convidados, sempre é perguntado
demais são convidados a opinar. A fala aos que foram convidados se concor-
respeitosa e o uso de pranchetas para dam com a permanência dos demais.
anotações pessoais, a fim de não inter- A mediação torna-se coletiva, e um
romper aquele que está comunicando encontro pode ter vários presentes, o

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


que requer dos mediadores, além do ma em uma tentativa de preservar Mediação para idosos em
situação de risco... 77
acolhimento, muita atenção na distri- o vínculo relacional e tratar do
Alessandra N. E. Martins, Maria Gabriela
buição do tempo, para que todos par- problema focal a ser resolvido; M. Leifert e Mônica L. De Oliveira Pereira
ticipem. • focar nos interesses e não nas po-
Desde o início dos atendimentos, sições: posições são as falas ex-
nos surpreendemos com a adesão dos pressas, aquilo que é dito como
mediados. Não deixamos nenhum sendo o problema. O grande de-
mediado sem atendimento, se compa- safio do mediador é ir além, ter
recer, será ouvido. Muitas vezes, um sensibilidade para explorar quais
filho vem a um encontro em nome os interesses e necessidades, ou
dos irmãos, se compromete a relatar seja, o que está por trás dessas
aos demais o que foi tratado. No en- posições. Exemplo: Eu não quero
contro seguinte, equilibramos a escu- vender a casa (posição). Devemos
ta dos que não compareceram, pois investigar quais os interesses ou
não é possível fazer um novo “caucus” necessidades estão por trás dessa
com todos, devido ao número expres- posição. A partir daí buscar alter-
sivo de mediados. nativas para atender as necessi-
Chamamos caucus aos encontros dades e, ao mesmo tempo, cola-
privados dos mediadores com cada borativamente, encontrar saídas
mediado. Esses encontros podem para o impasse.
acontecer após a decisão de todos os • gerar opções, a busca pelos pon-
envolvidos de participar da mediação tos comuns. A mediação não ca-
e, a qualquer tempo, no curso da me- minha pelos impasses, mas por
diação. A decisão sobre a utilização tudo que compartilham, ou seja,
ou não dessa ferramenta caberá aos o mediador deve, através das
mediadores ou quando for solicitada perguntas, esmiuçar o problema
por, pelo menos um mediado (Gros- trazido para elencar os pontos
man & Mandelbaum, 2011). comuns e os recursos observa-
Nesta etapa inicial dos relatos, al- dos. Conotar positivamente as
gumas perguntas são fundamentais, potencialidades da família e seus
tais como: Qual é o problema para esforços em compor saídas, bem
você? O que espera da mediação? No como auxiliar na construção de
que você está disposto a contribuir alternativas que atendam a todos
para superar o conflito? Estas pergun- ou à maioria.
tas nos ajudam a mapear o problema • usar critérios objetivos como base
trazido e delinear possíveis pontos para as soluções: o mediador deve
em comum que serão trabalhados na se expressar como “agente de rea-
etapa seguinte. lidade”, ou seja, os mediados tra-
O próximo passo é a construção da zem as soluções para o impasse
agenda. Nesse momento, as técnicas que vivem, mas essas alternativas
de negociação de Harvard podem ser necessitam ser possíveis de se con-
muito úteis, como veremos a seguir: cretizarem, dentro da realidade do
• separar as pessoas do problema: “as contexto de cada um.
pessoas são mais importantes que
o problema”. Ajudar os mediados No contexto da Mediação Para
a “despersonalizar o problema”, ou Idosos, temos como premissas a se-
seja, separar as pessoas do proble- rem contempladas: a necessidade de

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


preservar o vínculo das pessoas, focar partes, ou se, a qualquer momento, a
78 NPS 44 | Dezembro 2012
no problema trazido, em especial no parte sentiu a necessidade de ser ouvi-
contexto familiar do idoso, mapear os da em separado (caucus).
interesses, as resistências encontradas, Em muitos casos, observamos que
o conflito apresentado e quais familia- as ferramentas da mediação nos dão a
res estão em maior ou menor dificul- possibilidade de promover um resga-
dade de comunicação. Buscar pontos te de toda uma vida, pois realmente é
comuns, trabalhando com a família criado um espaço, uma oportunidade
no sentido de avaliar o que todos acre- de comunicação com escuta e diálogo.
ditam que deva acontecer para que o
idoso saia do risco em que se encontra.
Nos critérios objetivos, quais soluções REFLEXÕES  DAS PROMOTORAS DE
trazidas pelos mediados são possíveis JUSTIÇA IDEALIZADORAS DO PROJETO
de acontecer, ou seja, possuem um
efeito prático. A ideia de aplicar a mediação nos
A mediação se encerra com o fecha- procedimentos administrativos de
mento do processo, etapa que pode re- idosos nasceu a partir do curso de
sultar em um acordo ou termo de en- mediação realizado na Escola Pau-
tendimento, elaborado pelos e para os lista do Ministério Público em 2010
mediados. Neste contexto dos idosos, e em razão da constatação de que
este termo tem a particularidade de muitos estavam em situação de aban-
conter a menção ao risco, pois, a partir dono em razão de desentendimentos
deste, ocorreu a mediação. familiares.
O acordo ou termo de entendimen-  Após várias reuniões e com a precio-
to é redigido contendo todos os “com- sa e fundamental ajuda das mediado-
binados”, ou seja, todas as vontades dos ras, colocamos em prática o sonho, e a
que dele participam. É um breve relato realidade mostrou ser a mediação per-
que traduz se a comunicação entre as feitamente possível e instrumento útil e
partes foi ampliada ou não e quais os eficaz na solução dos conflitos familia-
combinados dos cuidados ao idoso. O res que acarretavam o abandono do ser
acordo é lido e redigido com todas as humano, já em idade avançada, frágil
proposições que foram contempladas e, muitas vezes, dependente de outrem
pelo processo de mediação com a fina- para a realização das necessidades mais
lidade de conferir as decisões e atribui- básicas de higiene e alimentação.
ções na qual todos se comprometem. A mediação, pelo diálogo, possibi-
Esse documento (acordo ou termo de litou o estreitamento dos laços afeti-
entendimento) é levado à Promotora vos entre irmãos e entre pais e filhos,
de Justiça responsável pelo procedi- laços esses muitas vezes desgastados
mento, que pode validar as decisões em razão de mágoas do passado. A
dos mediados, conferindo novamente mediação possibilitou a reorganiza-
as proposições, dando, a partir daí, um ção da família, o resgate da verdadeira
caráter legal pela homologação. entidade familiar e da autoestima do
Mesmo com uma dinâmica de eta- idoso, agora valorizado. Hoje, após
pas, cada encontro de mediação é um ano, vemos que a mediação tem
único. O mediador deve estar sempre surtido efeito, mas notamos que ainda
atento e, se necessário, retomar algu- há muito a percorrer para que o idoso
ma etapa anterior, por exemplo, se ain- possa envelhecer com a dignidade que
da há necessidade de mais escuta das merece.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


CONSIDERAÇÕES FINAIS MEDIADORES PARTICIPANTES DO Mediação para idosos em
79
PROJETO DE MEDIAÇÃO PARA IDOSOS situação de risco...
Alessandra N. E. Martins, Maria Gabriela
Entendemos que há a necessidade E MULTIDISCIPLINARIDADE M. Leifert e Mônica L. De Oliveira Pereira
de o Poder Público ter outro olhar para
a terceira idade. O Estatuto do Idoso Alessandra Negrão Elias Martins,
foi criado em 2003, portanto as preo- advogada, Aloma Ribeiro Felizardo,
cupações com o bem-estar do idoso educadora, Ana Luísa Almeida Prado
são recentes. Torna-se necessário mui- de Andrade Coutinho, publicitária, te-
to mais. É notória a dificuldade que rapeuta familiar (em formação), Dina
eles têm em se manter com o benefício Rosa Duarte de Freitas, advogada, He-
previdenciário, sendo que às vezes não loísa Maria Desgualdo, advogada, João
o possuem. Igualmente, é insuficiente, Roberto Moris, jornalista e tradutor,
a disponibilidade para internações em Karin Zerwes Kansong, linguista, e
Unidades de Longa Permanência. Maria Gabriela Mantaut Leifert, psi-
A mediação surge neste contex- cóloga e terapeuta familiar.
to como um dos caminhos possíveis
dentro do Ministério Publico a fim de
atender e dar voz às demandas de cui- REFERÊNCIAS
dados de nossos idosos. No sentido de
promover uma singela ação para co- Andersen, T. (1991). Processos reflexi-
locar em prática os desígnios de nossa vos. Rio de Janeiro: Noos.
legislação em prol da cidadania. Arcuri, I. G. (2004). Memória corporal:
Na atualidade, como observa Groe- o simbolismo do corpo na trajetória
ninga (2012), ocorre uma aproxima- da vida. São Paulo: Vetor Editora.
ção do poder público e privado na IBGE (2001) Portal do envelhecimento.
conjunção de interesses comuns. Com Recuperado em 11 junho, 2012, de
a crescente ampliação dos meios de http://www.censo2010.ibge.gov.br/
comunicação, a mediação interdisci- resultados_do_censo2010.php.
plinar representa uma revolução como Groeninga, G. C. (2012). Relações In-
poderoso meio de conscientização, terdisciplinares – Não à indiferença.
empoderando e trabalhando na pre- IBDFAN – Boletim Informativo, 9.
Grosman, C. F., Mandelban, H. G. (org)
venção dos mecanismos de exclusão e
cronificação das vulnerabilidades. (2010). Mediação no judiciário, teo-
Construir com as famílias alterna- ria na prática e prática na teoria. São
tivas viáveis para ampliar e favorecer Paulo: Primavera Editorial.
Mediativa. (2009). Mediação Abor-
a comunicação entre seus membros
dagem Transformativa Reflexiva.
nos parece uma forma eficaz de con-
Apostila do curso Mediação Trans-
solidar os acordos que são construí-
formativa Reflexiva. São Paulo: Me-
dos dentro de um clima de respeito e
diativa
entendimento.
Ramos, M. e Salem, E. (2011). Mediação:
Este trabalho vem consolidar a
um caso clínico. In M. L. Dias, & G.
aplicação de práticas colaborativas
Castanho. Terapia Familiar com Ado-
para resolução de conflito como es-
lescentes. São Paulo: Rocca (prelo).
tratégia útil e eficaz na promoção de
Resolução 125/2010 do Conselho Na-
justiça social daqueles que se encon-
cional de Justiça. Recuperado em
tram em situação de vulnerabilidade,
11 junho, 2012, de http://www.cnj.
construindo caminhos para uma cul-
jus.br/atos-administrativos/atos-da-
tura da paz.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


-presidencia/323-resolucoes/12243- Watanabe, K. Política Pública do Poder
80 NPS 44 | Dezembro 2012
-resolucao-no-125-de-29- Judiciário Nacional para tratamento
Suares, M. (2008). Mediación: Con- adequado dos conflitos de interesses.
ducción de disputas, comunicación Recuperado em 21 julho, 2012, de
y técnicas. Buenos Aires–Barcelona http://www.tjsp.jus.br/Download/
–México: Paidós. Conciliacao/Nucleo/ParecerDesKa-
Schnitman, D. F. (2000). Nuevos para- zuoWatanabe.pdf
digmas en resolución de conflictos.
Perspectivas y Prácticas. Buenos Ai-
res: Granica.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 71-80, dez. 2012.


ARTIGO

FAMÍLIA MONOPARENTAL MASCULINA:


O COTIDIANO E SUAS VICISSITUDES

SINGLE PARENT MALE FAMILY: THE EVERYDAY AND ITS VICISSITUDES

RESUMO: A partir da terapia familiar sistêmica ABSTRACT: From the systemic family therapy JULIANA RIED
e da terapia colaborativa, sob os referenciais da and the collaborative therapy, under the referen- Mestrado em psicologia,
pós-modernidade, propõe-se problematizar famí- ces of the post-modernity, this paper proposes UFSC, Movimento – Clínica
lias na contemporaneidade. Atualmente, com as to discuss the family(s) in the contemporaneity. e Escola de Psicologia
diversas configurações de família, novas compre- Currently, with different configurations of family, Sistêmica.
ensões acerca dos modos de se viver em família new understandings about the ways to live into
se fazem pertinentes, de modo que o terapeuta family are relevant, thus, the family therapist must ANDRÉIA CHAGAS
familiar precisa estar atento às especificidades be alert of the specifics of each family. From birth PEREIRA
de cada família. Desde o nascimento, todo su- every subject is inserted into a relational network
Mestranda em psicologia,
jeito está inserido em uma rede relacional na qual that builds your understanding of family beaconed
UFSC, Movimento – Clínica
constrói a sua compreensão de família balizada by social and cultural context and norms that re-
e Escola de Psicologia
pelo contexto sociocultural e normas que regulam gulate an ideal of family. Through the case study of
Sistêmica.
um ideal de família. Por meio de um estudo de a single-parent male family, is brought to the dis-
caso de uma família monoparental masculina, se cussion how a father and his son live and manage
traz à discussão como um pai e seu filho con- their everyday activities.
vivem e administram suas atividades cotidianas.
KEYWORDS: family therapy, single-parent male
PALAVRAS-CHAVE: terapia familiar, família mo- families, paternity.
noparental masculina, paternidade.

Para além do tradicional modelo da família burguesa, sustentada pelo modelo pa- Recebido em 14/03/2012.
triarcal de pai provedor, mãe e filho/a(s), há diversas configurações familiares situa- Aprovado em 28/08/2012.
das na contemporaneidade. Entre essas, encontram-se as famílias monoparentais
que, segundo Wall e Lobo (1999, p. 123), se definem como “um núcleo familiar
onde vive um pai ou uma mãe sós (sem cônjuge) com um ou vários filhos sol-
teiros”. Conforme Hintz (2001, p. 15), as famílias monoparentais “são decorrentes
de divórcios ou separações, onde um dos pais assume o cuidado dos filhos e o
outro não é ativo na parentalidade, ou famílias onde um dos pais é solteiro e o
outro nunca assumiu a parentalidade”. Neste estudo, direcionamos a atenção para
a família monoparental masculina, que vem aumentando gradativamente, embora
não venha sendo pesquisada com a mesma incidência, uma vez que estudos sobre
a monoparentalidade feminina ocorrem com mais expressividade. Dessa maneira,
ao abordarmos esse tema, o interesse se volta para a família enquanto espaço de
laços de convívio, no qual os sujeitos se constituem imbricados nas diversas confi-
gurações de família que se enunciam e nos diferentes contextos socioeconômicos
e culturais em que vivem. Para Henriques, Féres-Carneiro e Magalhães (2006, p.
328), o sistema familiar está em “constante interação com o contexto social atual,
recolocando a noção da família como um espaço privilegiado”. E de que família
falamos? Há diversas possibilidades de ser família em meio a inúmeras configura-
ções que se organizam e regulam o seu rações de família, são citadas por Szy-
82 NPS 44 | Dezembro 2012
modo de viver em família. É com a manski (1995): famílias divorciadas,
proposta de incitar reflexões e proble- recasadas, monoparentais, casais sem
matizar o tema, que adotamos teóricos filhos, casais homossexuais, sendo uma
pós-modernos da terapia familiar para conquista para estes casais a possibili-
tecer a discussão. dade de adoção que gradativamente
ganha espaço social e jurídico. A repro-
dução através de meios tecnológicos,
AS RELAÇÕES FAMILIARES E A como a fertilização in vitro e banco de
TERAPIA FAMILIAR sêmen, também viabilizam a parenta-
lidade e constituição de famílias que
É frente ao cenário de mudanças escapam ao modelo tradicional. Para
e da pluralidade de famílias que des- Ponciano e Féres-Carneiro (2003), as
ponta a necessidade de o terapeuta mudanças impostas pelas novas tecno-
de família se posicionar “de modos logias de reprodução, ainda que possi-
diferentes em relação à configuração bilitem novas transformações, mantêm
familiar, constituindo o contexto da a necessidade da participação da famí-
intervenção terapêutica em estreita re- lia como um grupo social que tem a
lação com as transformações históri- função de cuidar de um ser dependente
co-sociais” (Ponciano & Féres-Carnei- biológica e psicologicamente.
ro, 2003, p. 64). Podemos mencionar Atualmente, essas mudanças estão
o movimento feminista a partir dos presentes no dia a dia das pessoas em
anos 1970 como uma das principais suas relações sociais, frequentemente
fontes de questionamentos e trans- convivemos com os novos modelos
formações sociais (Ponciano & Féres- de família, sejam as recasadas, mono-
-Carneiro, 2003). parentais, homoafetivas, entre outras.
Compreendemos que a família do Essa realidade cria novas situações
momento histórico atual tem sido sociais, que não eram vividas há al-
atravessada pela priorização do com- gumas décadas, como, por exemplo,
promisso afetivo. Os vínculos afetivos a presença de dois homens enquanto
que se estabelecem nas relações forta- cuidadores de uma mesma criança em
lecem as famílias na busca por diversos uma reunião escolar, sendo um, o pai
arranjos familiares, que ultrapassam as da criança, e o outro, o atual compa-
conformações tradicionais, de consan- nheiro da mãe da criança. Ou ainda,
guinidade e heterossexualidade. Para dois homens sendo cuidadores e “pais”
Ried (2011), a família contemporânea de uma criança que pode ser filho/a
está em movimento de reestruturação da união heterossexual anterior de um
dos modos de vida frente às transfor- dos homens.
mações e demandas desse tempo. A paternidade, segundo Fein (apud
Sendo assim, hoje temos muitas for- Dantas, Jablonski, & Féres-Carneiro,
mas de constituir uma família, o que 2004), apresenta três perspectivas di-
gera modelos diferentes do tradicional- ferentes: a tradicional, na qual o pai
mente conhecido, um pai, uma mãe e ocupa o papel de provedor, oferecendo
alguns filhos. Os novos arranjos fami- suporte emocional a mãe, exercendo
liares têm suas peculiaridades e a sua o modelo de poder e autoridade para
história de constituição que devem ser os filhos; a moderna, em que o papel
conhecidas, respeitadas e legitimadas do pai está relacionado ao desenvolvi-
nas relações sociais. Dentre as configu- mento moral, escolar e emocional dos

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


filhos; a emergente, onde o homem é Para os terapeutas da época, havia difi- Família monoparental masculina:
o cotidiano e suas vicissitudes 83
considerado psicologicamente capaz culdade de compreender as famílias de
Juliana Ried, Andréia Chagas Pereira
de participar ativamente dos cuida- forma diferente do modelo tradicional,
dos e criação dos filhos. No caso das sendo inclusive compreendidas como
famílias monoparentais masculinas, patológicas. Estas autoras pontuam que
podemos perceber uma família pós- “a posição do especialista vê-se assim
-moderna na qual o homem assume transformada tanto quanto as relações
integralmente os cuidados pelos filhos, familiares, não exigindo mais uma te-
precisando organizar sua rotina e rede oria específica para uma intervenção
de apoio para oferecer os cuidados, terapêutica específica” (Ponciano &
proteção e afeto que as crianças neces- Féres-Carneiro, 2003, p. 75).
sitam. Para Vaitsman (1994, p.19), “o Atualmente, alguns profissionais da
que caracteriza a família e o casamen- terapia familiar enfatizam posturas co-
to numa situação pós-moderna é jus- laborativas. Autores como Harlene An-
tamente a inexistência de um modelo derson, Harry Goolishian e Lynn Hoff-
dominante, seja no que diz respeito às man contribuem para uma postura que
práticas, seja enquanto um discurso amplia as possibilidades do terapeuta
normatizador das práticas”. Nesse sen- acerca da compreensão das narrativas
tido, na pós-modernidade coloca-se da família. Nesse sentido, Anderson e
em questão modelos e práticas deter- Goolishian (1993) entendem a terapia
minantes, e abre-se espaço para a plu- como uma conversação, um diálogo
ralidade, para a diferença, pela busca intersubjetivo. Com as ideias advindas
da legitimidade. do construtivismo e construcionismo
Para o Conselho Federal de Psicolo- social é ultrapassada a noção estru-
gia (2010), a partir dos marcos legais tural que a terapia familiar propunha
que orientam a atuação de psicólogos inicialmente. E o terapeuta familiar
em Varas de Família, “a noção de famí- sistêmico assume uma nova postura, se
lia é plural, uma vez que se percebe a deixando conduzir pelo conhecimento
constituição de distintas configurações e experiência de seus clientes (Ander-
familiares”. Para alguns o termo enti- son & Goolishian, 1993).
dade familiar estaria mais de acordo Dessa maneira, transforma-se o
com a realidade observada no século saber especializado em experiência
XXI. Realidade esta composta por di- compartilhada, através da linguagem
versos arranjos familiares como: “Fa- e conversação entre o terapeuta e seus
mílias formadas pelo casamento, por “clientes” (Ponciano & Féres-Carnei-
uniões estáveis, famílias recompostas, ro, 2003). Torna-se possível ampliar a
famílias homoafetivas etc. (Conselho compreensão de família(s) por parte
Federal de Psicologia, 2010, p. 31).” do terapeuta, além de se fortalecer o
Segundo Ponciano e Féres-Carneiro respeito às diferenças e às plurais con-
(2003), durante os anos 1960 e 1970 figurações de família, ultrapassando
quando as situações de recasamento e noções estruturais e modelos ideais.
de casais homossexuais passaram a se Sendo assim, é legítimo todo e qual-
tornar “visíveis”, a família nuclear cen- quer arranjo familiar que traga satisfa-
trada no casal heterossexual e criação ção e bem-estar entre seus integrantes.
dos filhos passa a ser questionada com Para Ponciano e Féres-Carneiro
a “Terapia de Família Feminista”, em (2003, p. 63), neste momento da pós-
que a ligação entre os membros fami- -modernidade, a ideia da diversidade de
liares poderia ter outras compreensões. famílias e a ausência de um único parâ-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


metro é que tendem a pautar a compre- homem levando o bebê sozinho ao pe-
84 NPS 44 | Dezembro 2012
ensão de família. Para as autoras, ainda diatra, dois casais assistindo juntos o
permanece a percepção da família de- campeonato de futebol do filho, duas
terminada por valores que pautam as mulheres mães de uma mesma crian-
relações como: “O sentimento de amor, ça, dois irmãos (um negro e um bran-
a realização pessoal na convivência com co) passeando juntos, o namoro entre
o outro significativo, e, por consequên- dois adolescentes que moram na mes-
cia, a formação da identidade humana ma casa, mas não são irmãos biológi-
por meio da filiação e da transmissão cos, são algumas das situações que po-
intergeracional” (Ponciano & Féres- dem gerar estranhamento ou dúvidas
-Carneiro, 2003, p. 63). Nesse sentido, sobre como lidar com essas realidades.
salientam que a ideia de proteção e afe- Para Wendt e Crepaldi (2008),
to a ser oferecida pela família permane- mapear as relações é condição essen-
ce, ainda que os papéis familiares não cial para a consecução do estudo e
continuem os mesmos e outras formas pesquisa da família, sendo de funda-
de cuidado surjam. mental importância buscar conhecer
Ao focalizarmos a monoparentalida- e compreender a complexidade das
de, configuração na qual o pai ou a mãe relações que esse grupo social encer-
assume, sozinho, a responsabilidade e ra. Zamberlam (2001) afirma que as
o cuidado dos filhos, focaliza-se a or- “novas” configurações familiares pas-
ganização do cotidiano de uma família sam a evidenciar uma multiplicidade
monoparental masculina, bem como a de subsistemas e uma pluralidade de
convivência entre pai e filho, buscamos arranjos familiares que se superpõem,
conhecer suas vicissitudes e situações e demarcam mudanças estruturais da
desafiadoras com as quais essa família família brasileira nos dias de hoje. Es-
se depara, de modo a promover a vi- sas questões requerem discussão, pois,
sibilidade dessa configuração familiar. ainda que haja uma gradativa compre-
No momento presente, famílias que ensão social e aumento dos estudos
permaneciam no limiar do certo ou do sobre famílias não normativas, a fa-
errado (famílias monoparentais mas- mília monoparental masculina é uma
culinas e femininas, famílias homoafe- das quais também requer garantia de
tivas e famílias recasadas) passam a ser direitos e legitimidade. Dessa forma, a
gradativamente visibilizadas e naturali- partir das vivências trazidas por uma
zadas nos contextos sociais. Entretanto, família monoparental, levantamos as
no dia a dia e na convivência social des- seguintes questões: Como é para um
sas famílias, existem muitas resistências pai se deparar “única e exclusivamen-
a serem vencidas. te” com os cuidados de seus filhos em
Em nossa sociedade ainda são muito uma sociedade fundada por um mo-
comuns reações de estranhamento em delo patriarcal e sexista?
relação aos novos arranjos familiares,
o que pode gerar situações de cons-
trangimento tanto para os membros MÉTODO
dessas famílias, quanto para aqueles
que pouco convivem com esses novos Trata-se de um estudo exploratório,
modelos. Um homem andando sozi- qualitativo, com o objetivo de descre-
nho com um bebê de colo, uma mãe ver as vivências de uma família mo-
loira com um filho negro, um homem noparental masculina a partir de um
levando uma menina ao banheiro, um estudo de caso. Para isso, foi realizada

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


uma entrevista com um pai monopa- vivência da monoparentalidade mas- Família monoparental masculina:
o cotidiano e suas vicissitudes 85
rental, contatado por meio de indica- culina, trazendo uma análise das nar-
Juliana Ried, Andréia Chagas Pereira
ção da rede profissional das autoras. Os rativas do pai sob a perspectiva sistê-
critérios para escolha do participante mica da terapia familiar pós-moderna.
foram: residir com pelo menos um dos
filhos, sendo o cuidador e responsável
principal por este há mais de 1 ano. FAMÍLIA MONOPARENTAL MASCULINA:
O participante é um pai monopa- CONTEXTUALIZAÇÃO DO CASO
rental de 43 anos, militar, que, após o
término de sua relação conjugal, obte- O pai entrevistado, oriundo de uma
ve a guarda permanente do filho mais família com pouco estudo e grandes
velho (17 anos), configurando a mo- limitações financeiras, mudou aos 14
noparentalidade, e a guarda compar- anos de um município do interior para
tilhada do filho menor (9 anos) que a capital de outro estado com o irmão
continuou morando com a mãe. mais velho. Com a conclusão do en-
Foi realizada uma entrevista indi- sino superior, ascendeu em suas con-
vidual, previamente agendada com o quistas gradativamente, ao passar em
participante, em uma sala de reunião concurso público para seguir carreira
no local de trabalho, com duração militar. Com isso, alcançou estabilida-
aproximada de duas horas, tendo sido de profissional e financeira, casando-se
gravada e posteriormente transcrita. A e constituindo família. Quando o filho
entrevista foi balizada por um roteiro mais velho estava com 12 anos, ocor-
semiestruturado com cinco questões reu a ruptura do núcleo familiar com
abertas, relativas à compreensão de a separação conjugal, devido ao alto
família e à percepção da sua família grau de conflito entre o casal, envol-
atual, à configuração da família de vendo violência psicológica e física. O
origem, à trajetória até a monoparen- processo de separação conjugal se deu
talidade, à organização da rotina da em meio a grandes situações de confli-
família na realização das atividades to e agressão que, em alguns momen-
implicadas com o cuidado, à rede de tos, envolveram os filhos também. Essa
pessoas envolvidas no cotidiano da situação fez com que o pai se deparasse
família e enfrentamentos. O parti- com a necessidade de resgatar o cuida-
cipante foi devidamente esclarecido do e bem-estar dos filhos e de si.
sobre os procedimentos da pesquisa, Desde então, assumiu firmemente a
consentindo com a utilização das in- paternidade e a busca pela guarda dos
formações a título de estudo por meio filhos, demonstrando o desejo e a pre-
do Termo de Consentimento Livre ocupação em garantir o bem-estar e a
e Esclarecido, sendo preservado seu segurança deles. De certa forma, agiu
anonimato, de modo a atender os pro- da mesma forma que seus pais, pois,
cedimentos éticos. conforme sua narrativa, seus pais sem-
O roteiro de entrevista baseado no pre buscaram assegurar o bem-estar
estudo de Ried (2011) foi devidamen- dele e de seus irmãos, mesmo em meio
te aprovado pelo Comitê de Ética em às dificuldades financeiras que sua fa-
Pesquisa com Seres Humanos da Uni- mília de origem vivia.
versidade Federal de Santa Catarina. Sobre a trajetória de sua família até
Desse modo, as informações obtidas a monoparentalidade, ele relatou que a
pela entrevista foram analisadas e ade- separação do casal foi necessária, “[...]
quadas a este estudo, que focaliza a a família que até então existia estava

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


doente” e sua intenção era “arrumar” maior, pois passava por acompanha-
86 NPS 44 | Dezembro 2012
o problema da família, que enfrentava mento psiquiátrico e psicológico no
situações de violência, para, com isso, enfrentamento de tentativa de suicí-
buscar o seu bem-estar e de seus filhos. dio, ficando em internação hospita-
lar durante um mês. Conforme Lenzi
[...] Então, houve a necessidade de se (2011), momentos de oportunidade e
separar e configurar um novo estilo de desafios trazidos por um dos membros
vida, né? E aí, quando eu me separei, eu da família podem auxiliar os familia-
não me separei porque vislumbrei outra res a reverem os recursos que têm em-
pessoa, ou porque enxergava a possibili- pregado em suas relações e vivências,
dade de outra mulher ou coisa do gêne- gerando, assim, um período de transi-
ro. Então, eu me separei para, já com a ção que pode resultar em novos papéis
intenção, de arrumar isso, arrumar esse e funções na família.
problema da família anterior, né, violên- Logo que se separaram, o filho mais
cia etc. velho pediu para morar com o pai. “Eu
entrei com o processo em 2006 (...), ele
Segundo o pai, a dinâmica familiar foi morar comigo. Aí, eu saí de casa,
estava com o seu funcionamento “ado- deixei tudo pra ela e tal e fui embora.
ecido” e os filhos precisavam ser cuida- Aí ele falou: ‘Pai, eu quero morar com
dos. Sob a perspectiva pós-moderna da o senhor!’.”
Terapia Familiar, compreendemos que Para o pai se iniciava uma longa
nas narrativas construídas nessa famí- caminhada até conseguir a guarda do
lia havia muitas vozes que não favore- filho. E segui-la com o suporte da te-
ciam para o entendimento entre seus rapia familiar através da conversação
integrantes, pelo contrário, ocasiona- dialógica, terapêutica e colaborativa
vam frequentes desentendimentos en- foi uma oportunidade para a cocons-
tre o casal e entre pais e filhos. Como, trução de novas narrativas e significa-
por exemplo, a comunicação agressiva dos, que contribuíram para que emer-
entre o casal que resultava em brigas e gissem novas formas de lidar com as
as queixas da ex-esposa de que o filho mudanças que foram surgindo a partir
mais velho “não fazia nada”. Por estar das situações e desafios da atual con-
trabalhando e não ver o que acontecia figuração familiar. Nesse sentido, a
em casa, o pai acabava ficando contra terapia colaborativa, como bem situa
o filho. No entanto, soube, mais tarde, Grandesso (2008, p.11) ao destacar o
que a mãe mandava o filho fazer “as trabalho de Anderson e Goolishian,
coisas” e ia assistir televisão, conforme Tom Andersen e Pegg Penn, “organiza-
relatou. “Aí eu vi, a gente estava errado, -se como uma prática de parceria na
eu estava errado, ela estava errada.” conversação entre terapeuta e clientes,
Para o pai, a mãe não daria conta de em que a ênfase se dá nos processos
cuidar dos dois filhos, pois não saberia reflexivos e na abertura das palavras
gerenciar. Um exemplo trazido por ele para os significados por elas constru-
foi o seguinte: no princípio, quando ídos, além do processo de questiona-
os dois meninos ainda estavam sob a mento como contexto generativo em
guarda dela, a mulher com frequência relação à mudança”.
pedia que ele interviesse em situações Com o acompanhamento terapêu-
corriqueiras de desavenças entre os tico, o pai foi criando novas formas
irmãos. Nesse período, seu filho mais de lidar com as situações de violência
velho precisava de uma atenção ainda vivenciadas com a ex-esposa, conse-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


guindo proteger os filhos das dificul- Seu filho mais velho estava se encami- Família monoparental masculina:
o cotidiano e suas vicissitudes 87
dades da relação conjugal e, ao mesmo nhando nos estudos e, em breve, faria
Juliana Ried, Andréia Chagas Pereira
tempo, estabelecer novas aberturas de 18 anos. Ao falar sobre a família atual,
diálogo com os filhos. Assim, ao de- o pai refere-se ao “pai sozinho (...) eu
senvolver uma escuta diferenciada e tenho dois meninos, a minha família é
disponível às dificuldades e emoções essa (...)”.
vividas pelo filho mais velho, pôde ir
demonstrando também seus senti- (...) eu e os filhos estamos bem, vamos
mentos e angústias para a construção dizer, gostando da situação, estamos bem
de uma nova forma de ser pai e cuida- inseridos nos papéis ali, né? Eu moro com
dor. Com o tempo, foi estabelecendo o A., então a gente se relaciona ali, escola
com o filho uma relação de proteção e e tal, sai junto, vai no cinema de vez em
carinho, o que permitiu o surgimento quando. Então até atividades né... nor-
de novos significados e razão de viver mais. Eu vou levar ele no jiu-jítsu. E o B.
para os dois. também, quando tá comigo lá, normal,
tem a caminha dele lá, tal. Uma vida
normal que eu considero em família, né...
ORGANIZAÇÃO COTIDIANA DA FAMÍLIA
MONOPARENTAL Conforme Cerveny & Berthoud
(2002), a maneira como os membros
A partir da percepção trazida pelo familiares se relacionam confere indí-
pai, atenuado o período de caos vi- cios da dinâmica da família. De modo
venciado, construíram-se momentos que a dinâmica familiar se estabelece a
de desafios, alegrias, aprendizados partir de como os membros da famí-
contínuos entre o pai e os filhos, além lia se relacionam, de como estabele-
da superação gradativa dos conflitos cem e mantêm vínculos, como lidam
e desentendimentos vivenciados. Foi com problemas e conflitos, bem como
com a separação que o pai passou a os rituais que cultivam, a qualidade
construir uma nova dinâmica de vida, das regras familiares, a definição de
investindo na demonstração de afeto, sua hierarquia e o delineamento dos
no cuidado e na atenção aos filhos, que papéis que cada membro da família
se sobrepôs gradativamente aos com- assume. Por meio de suas narrati-
portamentos agressivos, distanciando vas, percebemos todo o seu esforço
o cenário de violência intrafamiliar. em “acertar” na educação de seus fi-
Com a monoparentalidade, o pai pas- lhos, assumindo uma postura de pai e
sa a administrar sua vida com a de seus aprendiz diante das situações. Ou seja,
filhos, buscando o fortalecimento des- ao mesmo tempo em que se preocupa
sa relação. A vivência da guarda com- em estabelecer regras, cobrar dos fi-
partilhada do filho mais novo também lhos responsabilidades, de acordo com
foi mencionada frequentemente pelo suas idades, e educá-los a partir de
pai, porém, o enfoque deste estudo é seus valores e crenças, também busca
voltado para a monoparentalidade. estabelecer uma escuta compreensiva
Ao se referir à percepção que tem aos pedidos dos filhos, incentivando o
de sua família, afirmou que “antiga- compartilhar de emoções e vivências.
mente era problemática”, mas que, no Demonstrando, assim, que não é o de-
momento, estava numa fase estável, e tentor da verdade ou tem a resposta
que, ressaltou, os filhos e eles estavam para tudo, mas que sua prioridade é
lidando bem com essa configuração. aprender com os filhos a viver em uma

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


casa com respeito e harmonia. Dessa precisavam muito. Me concentrei neles,
88 NPS 44 | Dezembro 2012
forma, os aprendizados foram mútuos melhor coisa que eu fiz. Eu não vejo no
e as exigências atenuadas. futuro né... talvez eu fique com outra pes-
No caso da vida profissional, ao soa, né... Mas eu sempre vou analisar a
escolher cuidar dos filhos, o pai, em questão das crianças.
certa medida, deixou-se em segundo
plano, abdicando, devido às circuns- Em relação à rotina familiar, o pai
tâncias, de oportunidades de interes- precisava administrar a organização
se profissional e afetivo. E ainda que da casa, sendo este um momento no
tenha resgatado o cuidado de si e de qual encontrava dificuldades, pois
seus interesses, conquistando uma na- precisava mobilizar o(s) filho(s) e
morada, ainda assim manteve os filhos chamá-lo(s) para a faxina. Conforme
como prioridade. relatou, procurava negociar o que cada
um faria, e organizavam a casa juntos.
Houve um prejuízo grande no serviço, Comentou que hoje o filho mais velho
né... cursos... eu deixei de fazer, deixei já cuida de suas próprias coisas sem
de fazer missões importantes, né... En- que ele precise mandar fazer, embora,
tão, houve... vamos dizer assim, de eu em alguns momentos, precise chamar
deixar de me projetar no serviço, deixar a atenção dele. “Ele lava a roupa dele,
de crescer mais em termos de reconheci- né... dobra a roupa dele, se vira sozi-
mento até por conta dessa situação, até nho, não precisa ficar mandando fazer
de cuidar do A. e depois a guarda com- as coisas. Muitas coisas ainda tem que
partilhada. ficar em cima, a louça da pia, aquelas
coisas de adolescente, né... esqueci-
Passou a ver a possibilidade de viver mento (...)”. Por determinado período,
para as suas demandas só depois de também contou com a ajuda de uma
os filhos estarem crescidos. Segundo empregada doméstica.
Brun (2001), as principais dificuldades Devido ao convívio cotidiano entre
em torno de um único genitor são o o filho mais velho e o pai, este passou a
peso das tarefas e a superposição de observar com maior atenção o jeito de
funções. Dessa forma, é compreensível ser de seu filho, buscando compreen-
que pais e mães que ficam como únicos der o porquê de ele ter se recolhido e
responsáveis pelo desenvolvimento de se calado progressivamente até o mo-
um filho precisem abdicar de desejos mento em que adoeceu e precisou de
e projetos para suprir as demandas intervenção médica.
das crianças e dos adolescentes. Nes-
se caso, o pai seguiu administrando e (...) a mãe reclamava que ele não fazia
preservando alguns de seus interesses, nada (...) quando a gente morava junto.
como o curso de francês que fazia, o Só que ela botava ele pra fazer as coisas e
relacionamento com sua namorada, ela ia assistir televisão. Bom, aí não dá!
que, em alguns momentos, ficava fra- Só que eu estava trabalhando, eu não es-
gilizado; além da busca pela ascensão tava lá vendo, acabei ficando contra ele,
profissional. achando que ele não estava fazendo.

[...] quando me separei, não me enxerga- As coalizões que se estabeleceram


va com outra pessoa, eu caminhei nisso, agravaram ainda mais a relação entre
pra ficar sozinho, pra cuidar das crian- os integrantes da família. O pai rela-
ças e tal. Me concentrei neles, porque eles tou que enfrentou algumas tensões

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


para educar o filho, quando passaram Conforme Grandesso (2000, p. 39), “a Família monoparental masculina:
o cotidiano e suas vicissitudes 89
a morar juntos. Segundo o pai, o ra- linguagem e a conversação com o ou-
Juliana Ried, Andréia Chagas Pereira
paz estava num movimento de revolta, tro e consigo mesmo oferecem a con-
não queria estudar e estava agressivo. dição para que os novos significados
Passou a se envolver em brigas na es- possam ser ancorados em narrativas
cola e, para o pai, isso era um reflexo organizadoras da experiência e con-
da violência que presenciou entre os figuradoras de novas autobiografias”.
pais, “a gente brigava na frente deles, Isto ocorreu entre mãe e filho, pois, ao
então era o que ele ia manifestar”. retomarem a conversação entre cartas,
Após a separação, viveu um perío- puderam resgatar o que existia de pre-
do de dificuldades, conforme relatou, cioso na relação deles.
“ele enxergava o pai que estudou e tal, Além das atividades domésticas que
se matou de estudar e tal, pra chegar o pai administrava com o filho, também
onde chegou. Então, ele não via fu- eram organizadas as atividades sociais,
turo, tava morando numa casinha de afetivas e educacionais. Estava atento
dois cômodos, super quente, que não ao horário em que o filho deveria acor-
tinha um carro, não tinha nada”. Fren- dar para estudar e melhorar suas notas,
te à situação, buscou contorná-la por por exemplo, chamando sua atenção
conversas, psicoterapia, incentivando e “cortando” alguma coisa até que as
seu filho nos estudos, acompanhando notas melhorassem, por exemplo, per-
as oscilações e também negociando as mitindo que o computador fosse usado
possibilidades dele melhorar. apenas aos finais de semana. Enquanto
Com a “nova” configuração da fa- o pai trabalhava, o filho ficava em casa
mília, no caso a monoparental, pai e fi- pela manhã e estudava à tarde, prati-
lho tiveram a oportunidade de conhe- cando jiu-jítsu duas vezes na semana,
cer um ao outro sem intermediário, enquanto o pai fazia aula de francês.
possibilitando novas conversações e a Colocar o filho em um esporte de luta
ressignificação da relação e da própria marcial foi a forma que encontrou para
família. Pois, após ficar um tempo bri- que seu filho pudesse trabalhar a agres-
gado com a mãe, o pai incentivou o fi- sividade que vinha aparecendo no con-
lho a resgatar o contato. “Ele ficou [...] texto escolar. Sobre o cotidiano dele e
uns três anos sem falar com a mãe.” do filho diz: “A gente se vê de noite ali,
Estimulava o contato mãe e filho, fa- de manhã e final de semana, a gente fica
lando para ele “[...] relacione-se com junto e tal (...). Final de semana, nor-
ela, observe a sua mãe, veja como ela malmente eu cozinho (...). Às vezes, eu
é, interaja com ela, fale pra ela o que faço churrasquinho com meus irmãos,
te incomoda. Interaja com ela, vai lá”. às vezes, vou nos meus irmãos comer, é
Com o estímulo oferecido pelo pai e bem tranquilo.”
pelo acompanhamento terapêutico, o Para Dantas, Jablonski e Féres Car-
filho passou a ter contato com a mãe neiro (2004), na relação com os filhos
por cartas, até que foi coconstruída a e na participação nas atividades do-
possibilidade de ele ter um encontro mésticas, o homem tem a oportuni-
com a mãe junto da terapeuta, no qual dade de reviver experiências do seu
foram abordadas questões que tinham ambiente familiar de origem. Com-
gerado mágoas entre eles e pensadas preendem “o exercício da paternidade,
novas possibilidades para a aproxima- incluindo cuidados corporais e neces-
ção dos dois fora do contexto terapêu- sidades afetivas dos filhos” como um
tico, o que foi ocorrendo aos poucos. “caminho para a construção de um

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


novo homem”, uma vez que o mode- Sobre as dificuldades que o pai en-
90 NPS 44 | Dezembro 2012
lo tradicional de masculinidade trazia frentou, namorar foi uma delas: “Pra
a dificuldade de expressar afeto e ter- quem se propõe a cuidar das crianças,
nura. Para os autores, “hoje assiste-se eu já enxerguei isso antes ao observar
a uma proximidade do contato, in- algumas outras pessoas, porque há
centivando a demonstração de afeto e uma certa dificuldade de ter uma vida
a participação ativa, durante o cresci- social, namorar e tal, se abre mão de
mento das crianças (Dantas, Jablonski algumas coisas.” Segundo ele, seu ob-
& Féres-Carneiro, 2004, p. 347)”. Em jetivo era administrar as dificuldades
consonância com as autoras, Trindade que surgissem e conciliar sua atenção
(1991) afirma que o envolvimento pa- ao filho com sua vida afetiva e social
terno na criação dos filhos/as é muito com sua namorada. Na medida do
maior que antigamente. E o homem possível, a rede social é que poderia
de hoje passa a reivindicar seu espaço, auxiliá-lo em algumas situações, no
seu reconhecimento e sua importância entanto nem sempre era fácil deixar o
na família em outros âmbitos, além de filho em companhia de alguém de con-
provedor tradicional. fiança, ou até mesmo sozinho em casa.
Segundo Ried (2011, p. 60), o modo
de ser e fazer de pais monoparentais,
REDE DE APOIO E ENFRENTAMENTOS “embora se balize pelo tradicional mo-
DO COTIDIANO delo de família, ousa outros modos de
estar no mundo e se relacionar com
Para esse pai, a relação com a rede seus filhos/as e sua rede”.
familiar e de amigos era de grande im- Enfatizou o enfrentamento com o
portância, exemplificado por poder qual se deparou com o sistema jurí-
contar com os irmãos e conviver no dico no tocante à busca pela guarda
almoço de final de semana. Segundo dos filhos, criticando-o. Percebeu que
Giongo (2001, p. 56), nas redes sociais o “padrão” é a guarda ser concedida a
é possível reconhecer fontes potenciais mãe, o que dificultou que a obtivesse.
de recursos para além da resolução do Outro aspecto que dificultou foi o fato
problema da família, “buscando a sa- de não ter uma companheira/cônjuge
tisfação das necessidades afetivas, in- ou uma união estável. O que mais uma
formativas e materiais”. vez privilegia implicitamente a presen-
Entretanto, também mencionou ça da mulher no tocante à guarda de
que, em muitos momentos, sentiu-se filhos.
sozinho para lidar com seu filho quan-
do, por exemplo, precisava que alguém (...) a juíza concedeu porque é o padrão.
ficasse com ele para viajar a trabalho, Que eu acho errado, mas tudo bem, está
ter vida social, namorar, entre outros. na lei né...! O padrão é, em princípio, vai
ficar com a mãe. Aí o pai tem que provar
[...] essa minha parte de cultivar as que a mãe é horrível. Se ele não conseguir
amizades, né... sempre tentar respeitar provar que a mãe é horrível ele não ga-
as pessoas, isso me ajudou, me ajudou nha a guarda, né...
a cuidar deles sozinho praticamente.
Faltou apoio algumas vezes, faltou em No seu caso, apenas quatro anos de-
diversas e diversas vezes. Pô, quero sair, pois de entrar com o pedido de guarda
eu quero namorar, não dá, não dá, sinto é que conseguiu a guarda do filho mais
muito, né... velho em definitivo, embora já estives-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


sem morando juntos. Neste período, Nesse sentido, a rede social desse Família monoparental masculina:
o cotidiano e suas vicissitudes 91
ele e o rapaz, que desde o princípio pai incluiu as terapeutas que, confor-
Juliana Ried, Andréia Chagas Pereira
queria ficar com o pai, enfrentaram me mencionou, contribuíram muito
tensões e muitos desentendimentos durante o período conflituoso vivido,
com a mãe. Para Ried (2011, p. 52), “o auxiliando no resgate do bem-estar
pai precisa travar um embate com o da família, que se (re)configurou, e
judiciário e com a sociedade para vali- de seus integrantes. A família passou
dar outra verdade possível, a sua”. por um processo de mudança, e, em
O preconceito foi outro enfrenta- meio às dificuldades enfrentadas, teve
mento com o qual se deparou, a estra- a possibilidade de (re)construir uma
nheza que as pessoas demonstravam outra forma de se configurar família,
para compreender que o pai também com novas narrativas e significações,
pode lidar com questões relativas aos pelas conversações coconstruídas ao
cuidados dos filhos com qualidade. longo da experiência vivida, aliadas
ao processo terapêutico. O diálogo
(...) a dificuldade é essa, de discrimina- e a escuta entre pai e filho foram se
ção mesmo, discriminação pura. Pura respaldando no afeto, no respeito, na
discriminação. (...) Aí ela olhou pra compreensão, e em novos limites co-
mim com desdém sabe, como se fosse o construídos no convívio diário. Para
fim do mundo o pai cuidar das crianças. Anderson (2009, p. 171), a linguagem
Então, tem dificuldades de discrimina- constitui “a maneira primordial pela
ção. Pouco apoio, pouco reconhecimen- qual construímos nossas realidades,
to, vamos dizer assim, né... dos pais que nossos mundos, nossas observações
cuidam dos filhos. Pouco apoio da so- e nossos entendimentos, por meio de
ciedade. (...) É o que eu sinto(...), você ações com outros”.
vai conseguir uma vaga na creche, se for
uma mulher lá, mãe monoparental (...),
ela vai conseguir. Se for um pai mono- REFLEXÕES FINAIS
parental, vai ter que se virar pra conse-
guir. (...) Vai ser muito mais difícil, na Com este estudo, problematizou-
sociedade que a gente tá. Essas dificul- -se a compreensão de família(s) na
dades eu tive (...). contemporaneidade que extrapola
as noções normatizadas e os padrões
Para o pai, lidar sozinho com algu- até então vigentes. Entendemos que,
mas situações mostrou-se complicado, independentemente da configuração
além de sentir a falta de alguém para familiar, pais e mães, homens e mulhe-
conversar, para poder contar com a res podem assumir e assumem, em di-
ajuda e compartilhar suas dúvidas e ferentes contextos, os mesmos fazeres
apreensões. E, para ele, não se tratava e funções, muito embora a figura do
necessariamente de uma figura femi- pai ainda precise abarcar seu espaço e
nina, mas de alguém que pudesse di- legitimidade na sociedade quando fica
zer se algo estava ou não errado. “Uma na posição de cuidadora. Assim como
pessoa ali, não digo nem figura femi- muitas mães que trabalham e cuidam
nina, uma pessoa ali pra falar e ajudar, dos filhos em suas duplas jornadas já
né... seria bem melhor, bem melhor. conquistaram este espaço, pais tam-
Até pra me dizer no que eu estou erra- bém podem fazê-lo. Para Ried (2011),
do também, né... Daí a necessidade de os pais monoparentais que persistem
manter os tratamentos psicológicos.” em ficar com seus filho/as enfrentam

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


eventualidades cotidianas e driblam pecialista da sua história. Lenzi (2011)
92 NPS 44 | Dezembro 2012
cada uma, independentemente de te- afirma: “Como terapeutas de família,
rem êxito ou não, em uma caminhada precisamos integrar esta pluralida-
pela busca da visibilidade social e re- de de modelos (de famílias) em nos-
conhecimento. Nesse sentido, ao tra- sas conversações com nossos clientes,
zermos uma compreensão ampliada para não corrermos o risco de sofrer a
acerca das famílias, buscamos contri- dominação de um modelo idealizado.”
buir para com aquelas que requerem Pois, como também situa a autora, é
maior visibilidade, reconhecimento e preciso observar que o modelo nuclear
respeito. continua presente, assim como a du-
Pelo caso da família monoparental pla moral, e a contradição de crenças
masculina apresentado, foi possível, ambivalentes que co-habitam mundos
mais do que conhecer como essa famí- internos de homens e mulheres.
lia se organiza, refletir, sob a perspectiva Por meio dos relatos trazidos pelo
da terapia familiar, sobre os movimen- pai, é possível perceber que, ao assumir
tos que pai e filho desenvolveram para a responsabilidade pelo seu filho mais
estabelecer uma relação de cumplici- velho, conduziu a sua história com de-
dade e crescimento para vivenciar os dicação, superações e aprendizados,
desafios e demandas oriundos da nova tornando-se efetivamente “especialista”
configuração familiar estabelecida. Pai da mesma. Ao recorrer à psicoterapia
e filho tiveram a oportunidade de um para si e para seus filhos, pôde aprimo-
“novo” convívio, de se (re)conhecerem rar o convívio e ampliar compreensões
na parceria frente às adversidades e de suas vivências, potencializando sua
resgatar o amor e o cuidado da/na re- vida e sua família. Nesse sentido, é evi-
lação parental. A mudança ocorrida na denciada a importância de os terapeu-
família a partir do momento em que tas de família construírem um olhar
ocorreu a separação conjugal do casal ampliado para a pluralidade de famílias
foi um marco de fim e (re)começo. Pois e suas histórias. Dessa forma, intenta-
a família tradicional deixa de ser, e se mos aumentar a visibilidade das con-
configura a monoparentalidade de um figurações de família que extrapolam
lado, e, neste caso, também há a guarda o modelo tradicional, acreditando que
compartilhada de outro. toda família que assegura o bem-estar
A família monoparental em es- de seus integrantes, independentemen-
tudo trouxe-nos a confirmação de te de sua configuração, é legítima.
que é possível construir um convívio
familiar entre pai e filho com quali-
dade, ainda que em meio a diversos REFERÊNCIAS
enfrentamentos. Todo o esforço e as
renúncias do pai em alguns momentos Anderson, H. (2009). Conversação, lin-
foram gratificados após alguns anos, guagem e possibilidades: um enfoque
quando seu filho se mostrou saudável, pós-moderno da terapia. Tradução
com os estudos encaminhados e pró- de Mônica Giglio Armando. São
ximo à maioridade. Paulo: Roca, 2009.
No tocante à prática do terapeuta Anderson, H., & Goolishian, H. (1993).
familiar sistêmico, algumas reflexões O cliente é o especialista: uma abor-
ganham relevância, uma vez que na dagem para a terapia a partir de
pós-modernidade o terapeuta não é o uma posição de não saber. Nova
único que sabe, pois o cliente é o es- Perspectiva Sistêmica, 2 (3), 8-24.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


Brun, G. (2001). Bem-me-quer, mal- cologia Sistêmica – Movimento – Família monoparental masculina:
o cotidiano e suas vicissitudes 93
-me-quer: retratos do divórcio. Rio Instituto de Formação Sistêmica de
Juliana Ried, Andréia Chagas Pereira
de Janeiro: Record. Florianópolis). Florianópolis: Mo-
Cerveny, C.M.O., & Berthoud, C.M. vimento.
(2002). Visitando a família ao lon- Ponciano, E.L.T., & Féres-Carneiro, T.
go do ciclo vital. São Paulo: Casa do (2003). Modelos de família e in-
Psicólogo. tervenção terapêutica. Interações,
Conselho Federal de Psicologia - CFP 8(16), 57-80.
(2010). Referências técnicas para Ried, J. (2011). Configurações familia-
atuação do psicólogo em varas de fa- res contemporâneas: significações de
mília. (1ª ed.). Brasília: CFP. famílias monoparentais masculinas.
Constituição Federal do Brasil. (1988). (Dissertação de Mestrado.) Progra-
Recuperado em 17 novembro, ma de Pós-Graduação em Psicolo-
2011, de http://www.senado.gov. gia do Departamento de Psicologia
br/sf/legislacao/const/con1988/ da Universidade Federal de Santa
CON1988_15.04.2004/index.hm. Catarina.
Dantas, C., Jablonski, B., & Féres-Car- Szymanski, H. (1995). Teorias e “te-
neiro, T. (2004). Paternidade: consi- orias” de família. In M. do C.B. de
derações sobre a relação pais-filhos Carvalho. A família contemporânea
após a separação conjugal. Paidéia, em debate (pp. 23-27). São Paulo:
14(29), 347-357. Cortez, EDUC.
Giongo, C.D. (2001). A perspectiva de Trindade, Z.A. (1991). As representa-
rede social na terapia familiar. Pen- ções sociais da paternidade e da ma-
sando famílias, 3, 56-62. ternidade: implicações no processo
Grandesso, M. (2000). Sobre a recons- de aconselhamento genético. (Tese
trução do significado: uma análise de Doutorado). Instituto de Psico-
epistemológica e hermenêutica da logia da Universidade de São Paulo.
prática clínica. São Paulo: Casa do Vaitsman, J. (1994). Flexíveis e plurais:
Psicólogo. identidade, casamento e família em
Grandesso, M. (2008). Desenvolvimen- circunstâncias pós-modernas. Rio de
tos em terapia familiar: das teorias Janeiro: Rocco.
às práticas e das práticas às teorias. Wall, K., & Lobo, C. (1999). Famílias
In L.C. Osório, M. e P. do Valle. monoparentais em Portugal. Análi-
(Orgs.). Manual de terapia familiar. se Social, 35 (150), 123-145.
Porto Alegre: Artmed. Wendt, N.C., & Crepaldi, M.A. (2008).
Hintz, H.C. (2001). Novos tempos, A utilização do genograma como
novas famílias? Da modernidade a instrumento de coleta de dados na
pós-modernidade. Pensando Famí- pesquisa qualitativa. Psicol. Reflex.
lias, 3, 8-19. Crit., 21(2), 302-310.
Lenzi, T. (2011). A noção de família.
(Apostila da Clínica Escola de Psi-

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 81-93, dez. 2012.


A ESCUTA DO TERAPEUTA
ECOS

D
ELOISA ELENA C. ois artigos – “A construção de um programa de assistência familiar em um Hos-
CARNEIRO pital-Dia Psiquiátrico: desafios e potencialidades” e “Três saberes a serviço das
Pedagoga, terapeuta de famílias: uma discussão sobre a supervisão das equipes dos Centros de Referên-
família e casal, sócia cia de Assistência Social” – produziram em mim uma reflexão semelhante sobre como
colaboradora do Instituto
Familiae, SP a escuta do terapeuta fica mais aguçada, refinada, a partir de discursos em que mais de
lelecc@hotmail um saber se encontram.
Faço aqui uso das palavras dos próprios autores dos trabalhos citados para confir-
mar minhas práticas e crenças num ideal que negocia, compactua com a vida.
Essa escuta requer flexibilidade, sensibilidade e capacidade de resposta, além de
criatividade para fazer aquilo que a ocasião exige em cada momento. Requer prio-
rização do “foco relacional e não individual na análise da produção de sentidos, em
que se destacam a noção de ação-conjunta, e a relação dos enunciados entre si, e
deles com outras vozes e discursos sociais, presentes em uma conversa [...] as relações
construídas entre interlocutores e entre outros discursos sociais, a partir do qual uma
determinada significação emerge como uma verdade situada” (Guanaes, 2012, p. 59).
Nos dois serviços descritos, além dos psicólogos, a inclusão de vozes médicas
(e afins), religiosas, de assistentes sociais, de técnicos de nível médio e até de um
economista levaram ao reconhecimento de uma melhor produtividade àquilo a que
as duas equipes se dispuseram. Nos dois casos, foram práticas inovadoras em insti-
tuições públicas que vêm passando por mudanças que valorizam uma ação integrada
e a promoção de uma “busca ativa” (Guanaes, 2012, p. 75).
A verdade que pode ser construída em conversas que sejam reflexivas, criativas e
úteis. A contextualização social, histórica e cultural com as particularidades de cada
interação legitima algumas descrições enquanto exclui outras. Buscamos somar es-
forços para a construção de um fazer conjunto e colaborativo, valorizando diferenças
e ampliando recursos e ferramentas de trabalho. O fazer conjunto oferece um espaço
de compartilhamento das dificuldades encontradas e dos impactos vividos, aumen-
tando a capacidade da equipe de ajudar a pessoa em sofrimento. (Guanaes, 2012).
As pessoas criam regras às suas necessidades e interesses. “Nesse caminho, desafios e
potencialidades se cruzam fazendo deste um trabalho instigante, provocador” (Gua-
naes, 2012, p. 71) e com um ganho não planejado.
Minha experiência clínica mostra que, nas relações estáveis, a diferença está sem-
pre presente e que esse olhar beneficia intensamente e transforma o trabalho de pro-
fissionais competentes em instituições de referência. Eles nos mostraram como foi
transformar um lugar de “verdades” (discursos sobre e profissional especialista) num
espaço de conversa que fizesse sentido no contexto. Equipes interdisciplinares pro-
movem um espaço de trocas, favorecendo o surgimento de diálogos transformadores
sobre a dinâmica familiar e como se dá a produção de sentidos e possibilidade de
mudanças. À medida que vão se somando outras visões, outras perspectivas, surgem
novas e criativas opções. A equipe passa a ser um recurso que contribui tanto com a
família como com a própria equipe (Guanaes, 2012).
Utilizando-se jogos de linguagem dentro de normas compartilhadas, confirma-
ram seus ganhos: “Um recurso importante que nos é oferecido é a compreensão da
linguagem em seu caráter performático. Ao descrevermos o mundo e as pessoas de
determinados modos, construímos determinadas realidades. Percebemos que as pa-
lavras não têm um sentido em si mesmas; é no seu contexto de uso que garante o seu ECOS 95
significado (Guanaes, 2012, p. 67).”
No mundo contemporâneo tudo é modificado e reconstruído o tempo todo.
Quanto mais vemos nossa sociedade pautada por mudanças éticas, sociopolíticas
e culturais, mais ouvimos descrições como: “O jogo de interesses é o que une as
pessoas.” Mais ou menos... São afirmações que causam um enorme mal-estar. Nas
vozes dos terapeutas de família estão palavras que descrevem os ganhos de incluir
novas vozes e olhares em suas convivências. A ausência de uma visão única nos ajuda
a rever conceitos e posicionamentos, além de diminuir o problema da relação saber/
poder. Promover uma ação articulada em prol de resultados mais efetivos para os
cidadãos é o nosso foco.
Que bom encontrar outras vozes para diferentes diálogos, pois isso nos permite
renovar a visão do mundo.

REFERÊNCIAS

Guanaes, C. et al. (2012). A construção de um programa de assistência familiar em


um hospital-dia psiquiátrico: desafios e potencialidades. Nova Perspectiva Sistêmi-
ca, XXI(43), 54-72.
Pereira, C.P.G., Coelho, R.P.S., & Hirata, R.M. (2012). Três saberes a serviço das famí-
lias: uma discussão sobre a supervisão das equipes dos centros de referência de
assistência social. Nova Perspectiva Sistêmica, XXI(43), 73-83.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 94-95, dez. 2012.


FAMÍLIA E COMUNIDADE
ENTREVISTA COM DIVINA DOS SANTOS
EM FOCO

E
HELENA MAFFEI sta seção da Nova Perspectiva Sistêmica procura trazer para os leitores temas rele-
CRUZ vantes das áreas de saúde, educação e desenvolvimento social. Neste número, en-
Psicóloga, mestre em trevistamos a psicóloga Divina de Fátima dos Santos, pedagoga, psicóloga, mestre
psicologia clínica, sócia em gerontologia e doutoranda em psicologia clínica na PUC-SP.
fundadora e docente do
Instituto Familiae, SP.
O trabalho desenvolvido por Divina foi premiado na II Mostra Estadual de Práti-
cas Inovadoras em Psicologia, realizada em dezembro de 2011, pelo Conselho Regio-
nal de Psicologia e divulgado no jornal do CRP, edição 172.
O projeto “Encontro de Gerações”, desenvolvido em Caraguatatuba, utiliza a troca
de correspondência entre crianças e idosos para desencadear um processo de mudan-
ça de atitudes e de construção de valores éticos.
A troca de correspondência, algo aparentemente simples, gerou envolvimento tan-
to das professoras das crianças, Eliana Aparecida Oliveira, Tânia Espírito Santo e Ka-
tia Aparecida Viana, que acompanharam os alunos na produção das cartas, como das
famílias dos participantes. Embora não fosse o objetivo do projeto, o interesse em es-
crever cartas fez com que muitas crianças tomassem consciência de suas dificuldades
com a escrita e evoluíssem bastante motivadas pelas tarefas do projeto.
O acompanhamento dos idosos foi feito por Divina em encontros semanais no
Centro de Convivência da Melhor Idade – CREMI. Conversando com cada um deles
sobre os significados da troca de correspondência, ela verificou como a concepção
que tinham sobre as crianças mudava para alguns, enquanto, em outros casos, o ido-
so, após o encerramento do projeto, manifestava a vontade de ajudar a criança com
quem havia se correspondido em alguma situação de vulnerabilidade.

Helena Maffei Cruz (NPS): Como foi o caminho para escolher a psicologia como
profissão?
Divina dos Santos (DS): Antes de estudar psicologia, eu me graduei em pedagogia.
Acredito que foi um processo natural, pois a interdisciplinaridade, de certa forma,
sempre fez parte da minha vida: no meu caso, ambas as graduações se complemen-
tam e auxiliam na atuação profissional cuja caminhada sempre se manteve em duas
frentes, tanto como educadora quanto como psicóloga, e em distintos locais e com
pessoas de diferentes idades.

NPS: O que lhe causou mais interesse durante a graduação?


DS: Foram diversas coisas. Vale lembrar que muitas de minhas descobertas ocorreram na
faculdade em ambos os cursos. Passei a maior parte da infância vivendo em um sítio loca-
lizado numa cidade pequena no interior do Estado de São Paulo, de modo que as pessoas
que estavam à minha volta tinham pouca escolaridade. Tive, porém, a sorte de, em meu
caminho, encontrar grandes professores verdadeiramente comprometidos com o ensinar,
e me encantei com muita coisa que estudei e li durante a graduação, na qual também
tive amigos entusiasmados e que muito me influenciaram ao longo da vida. Além disso,
sempre fui bastante interessada por tudo que fiz e faço até hoje. A paixão me move. Al-
gumas disciplinas que fizeram diferença em minha vida foram filosofia e sociologia, por
ampliarem minha visão sobre o mundo e me ajudarem a compreender minha realidade.
E a antropologia, que me fez entrar em contato com minhas raízes e entender a miscige-
nação do povo de nosso país, valorizando-o e respeitando-o nas suas diferenças. Também FAMÍLIA E 97
COMUNIDADE EM FOCO
as várias disciplinas da psicologia, do psicodrama e da psicopedagogia me tornaram mais
humana e sensível. Aos poucos, fui amadurecendo e percebendo as diversidades, dificul-
dades e complexidades do nosso povo ao longo da minha formação, e depois fui perce-
bendo que somos fruto da cultura, da história, do tempo e das oportunidades a nós ofe-
recidas, entre tantas outras coisas. Assim, comecei a me interessar verdadeiramente pelas
pessoas, suas alegrias, suas tristezas, suas maneiras de viver e se relacionar com o mundo.

NPS: Como foram seus caminhos profissionais?


DS: Tive a oportunidade de trabalhar com diferentes coisas ao longo da vida. Iniciei
meu caminho profissional na área de Recursos Humanos em grandes empresas. De-
pois, aos poucos, fui direcionada para a área da educação e da psicologia.
Por um longo tempo, prestei atendimento �����������������������������������
à comunidade�����������������������
, como psicóloga e pes-
quisadora, nas clínicas-escolas da PUC, da USP e da SOPSP (Sociedade de Psico-
drama de São Paulo), enquanto me aprimorava por meio de diferentes cursos de
extensão. Desde minha formação em psicologia e em psicopedagogia, também venho
trabalhando em consultório particular. Como professora e psicopedagoga, trabalhei
com alfabetização no curso de EJA (Educação de Jovens e Adultos) durante muito
tempo, com crianças que apresentavam dificuldade de leitura e de escrita nas escolas
municipais em convênio com a PUC-SP. Esses trabalhos me fizeram crescer tanto
como educadora quanto como psicóloga, no sentido de compreender melhor o ser
humano com suas limitações, desejos, perseveranças e em relação à superação de de-
safios nos inúmeros obstáculos existentes na vida de cada um, começando pela fome.

NPS: O que a levou à gerontologia?


DS: Passei boa parte da infância com minha avó e acredito que nossa convivência favo-
receu minha admiração, fascínio e interesse em ouvir suas histórias de vida, não apenas
as dela, como também a de todas as pessoas idosas que tive a oportunidade de conhecer.
Lembre-se de que, quando eu era criança, não existia Internet nem Google. Naquela
época, os velhos eram os únicos detentores do saber e eram valorizados por isso.
Tive a experiência de cuidar de meu pai, que sofreu da doença de Alzheimer, vindo
a falecer aos 78 anos, período no qual pensei muito sobre a impotência e os limites
do ser humano. Sofri e aprendi muito com sua doença e morte. De certa forma, essa
experiência também despertou meu interesse em saber mais sobre o processo de en-
velhecimento, suas limitações e peculiaridade positivas. Penso que todos esses fatores
de ordem pessoal, somados ao fato de eu ter trabalhado como professora de EJA na
rede SESI–SP (Serviço Social da Indústria), me direcionaram para a Gerontologia.
Quando fui professora de alfabetização de jovens e adultos, a convivência em sala
de aula com alunos de idades avançadas, mas cheios de esperanças e desejos por no-
vas conquistas, possibilitou-me experimentar uma vivacidade que me surpreendia
nas jornadas de trabalho. Na sala de aula na qual atuava como professora, ocorria, a
cada noite, uma troca de energia que é difícil de explicar. Aquilo me fazia sentir reno-
vada e estimulada a correr atrás dos meus sonhos, visto que alguns alunos idosos, até
mesmo septuagenários, estavam ali, na minha frente, buscando um sonho que ficou
adormecido no tempo, mas não esquecido: o de se alfabetizarem e de se tornarem
leitores e poderem desvendar o mundo pelas letras.
Eu ficava curiosa em saber mais sobre aqueles alunos tão especiais e que, naqueles
momentos, encontravam uma possibilidade de transformarem suas esperanças em

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 96-99, dez. 2012.


realidade. Fui tomando consciência de minha responsabilidade, pois eles deposita-
98 NPS 44 | Dezembro 2012
vam em mim a possibilidade de concretização de seus sonhos. Embora muito simples,
humildes e iletrados, traziam em suas bagagens muitos ensinamentos, experiências
de vida e desejos de continuar conquistando as coisas que o mundo contemporâneo
oferece, bem como aquelas que não tiveram oportunidade de vivenciar e de aprender
quando eram mais jovens. Por isso, digo que minha caminhada para a gerontologia
foi bastante influenciada por essa experiência docente.

NPS: Como surgiu o projeto “Encontro de Gerações”?


DS: Em verdade, o projeto surgiu inicialmente como um trabalho pedagógico para
a EJA: eu queria estimular meus alunos a escrever e melhorar suas narrativas, já que
uma das funções de um alfabetizador é ensinar as regras correspondentes básicas e
despertar nos alunos o interesse tanto pela leitura quanto pela escrita. Como sabe-
mos, escrever cartas é um excelente recurso pedagógico muito utilizado em escolas.
Em geral, meus alunos eram inseguros, tinham medo de escrever e eu precisava en-
contrar uma forma de estimulá-los e fazê-los superar seus temores, além de tornar o
processo de escrita prazeroso para eles. Então convidei outras professoras na escola
na qual trabalhava para fazer esse processo de troca de cartas com os alunos (no caso,
crianças em processo de escolarização, que estivessem no mesmo nível de aprendiza-
gem, para que, de fato, pudessem compreender e ajudar uns aos outros na aquisição
e superação das dificuldades da escrita.
No início, os alunos adultos mais velhos ficaram desconfiados da proposta, e mui-
tos se recusaram a participar do projeto. Eles não acreditavam que crianças tão pe-
quenas fossem capazes de compreendê-los. Além disso, a autoestima deles era tão
baixa que não acreditavam que suas histórias de vida pudessem ser interessantes para
alguém, principalmente para uma criança. Para motivá-los a participar, exibimos na
escola dois filmes importantes, seguidos de debates com os alunos:“Central do Brasil”
e“Narradores de Javé”. Após esse trabalho de sensibilização, o medo de não serem
aceitos por seus correspondentes foi superado aos poucos. As crianças já tiveram
reação diferente e se encantaram com a ideia de poder escrever para estudantes mais
velhos. Assim iniciamos o projeto que, pouco a pouco ganhou força e transformou-se
em grande sucesso. A princípio, as cartas eram tímidas, com poucas palavras, mas à
medida que o tempo foi passando e novas cartas foram trocadas, eles começaram a
se soltar. Quando vi a emoção deles no momento de receber, ler e responder as cartas
recebidas, notei que essa proposta de trabalho continha muito mais que um simples
projeto pedagógico de melhora da escrita. Estava havendo uma grande “transfor-
mação” e muito aprendizado para todos os envolvidos. Os dados e resultados des-
se trabalho estão na minha dissertação, defendida e aprovada na PUC-SP em 2010,
intitulada:“Relações intergeracionais: palavras que estimulam.”
Atualmente resido em Ubatuba onde, para dar continuidade aos meus estudos de
doutoramento, procurei alguns gestores na área de educação e no CREMI (Centro
de Referência da Melhor Idade) de Caraguatatuba-SP. Propus o projeto “Encontro de
Gerações” às citadas instituições, explicando que este envolvia uma pesquisa de pós-
-graduação, mas também apresentava alguns benefícios inerentes às suas finalidades.
Tive sorte, fui muito bem acolhida e os responsáveis me deram todo apoio. Também
encontrei algumas professoras interessadas em participar. Daí iniciamos um traba-
lho-piloto em 2010 para avaliar a reação dos participantes, e, como tudo correu bem,
o “Projeto Encontro de Gerações” continua ativo até hoje. Participam dele os idosos
do CREMI e as crianças dos 4º e 5º anos do ensino fundamental do município.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 96-99, dez. 2012.


Esse é um trabalho que envolve muita gente, por isso é preciso ter muito cuida-
do. Afinal, lidamos com os sentimentos e as emoções dos participantes, que, muitas FAMÍLIA E 99
COMUNIDADE EM FOCO
vezes, colocam todo um sonho naquele papel e na pessoa com quem se está intera-
gindo. Além disso, há uma logística que precisa ser muito bem planejada, pois, além
das crianças e dos idosos, este trabalho reflete diretamente em toda a comunidade
escolar e em seus familiares. As professoras trabalham com as crianças, a mim cabe a
responsabilidade de trabalhar com os idosos.
Cabe destacar, que sem o apoio das autoridades locais, dos gestores das escolas, das
professoras e dos pais dos participantes no projeto e dos funcionários das instituições
envolvidas, esse trabalho seria impossível. Eu, que coordeno toda essa logística, sou
muito grata a todos que confiam em mim e apoiam essa iniciativa, cujo inestimável
suporte tem sido importante para o sucesso de nosso projeto.

NPS: Quem foram seus parceiros teóricos nessa caminhada?


DS: Devo acrescentar que tive uma grande mestra na minha vida, minha avó Roberta,
como já disse, grande companheira e responsável por muito do que sou hoje, que, já
analisando alguns aspectos da minha formação profissional, me ensinou muitas coisas
que não se encontram em livros. Também tive inúmeros e preciosos companheiros
teóricos, autores que revolucionaram minha forma de pensar, para citar apenas alguns:
Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Pablo Neruda, José Saramago, Jacob Levy Moreno, Carl
Gustav Jung, Sigmund Freud, Edgar Morin, Rosa Cukie, Sergio Perazzo, Ivani Fazenda.
Claro que nunca poderia me esquecer do apoio que meu marido, também professor,
vem prestando ao meu trabalho.

NPS: Quais pressupostos estão presentes na sua prática?


DS: A longevidade é um fato concreto em nosso país, então precisamos aprender a
envelhecer. O projeto em pauta permite essa reflexão. De modo geral, infelizmente, a
sociedade despreza o velho e tudo que ele representa. Mas é preciso encarar a velhice
sob outro prisma, pois todos envelheceremos e, se desejamos ser respeitados na velhi-
ce, devemos aprender a respeitar os velhos de hoje, um preceito elementar da boa edu-
cação. No processo de troca de cartas, as crianças têm a possibilidade de aprender com
uma pessoa idosa e, em geral, diferente do seu meio familiar; com isso, ela termina por
tender a ser mais respeitosa com os idosos. Já os idosos têm a possibilidade de passar
seus conhecimentos de mundo e suas experiências de vida a alguém interessado em
suas histórias, melhorando, com isso, sua autoestima e sua qualidade de vida. Outro
dado concreto é que as crianças podem estar solitárias e os idosos geralmente estão, e a
possibilidade de trocar cartas elimina o sentimento de solidão de certa forma. E, para
as crianças, esta superação da solidão, bem como a interação com alguém com uma
experiência acumulada, pode se refletir na superação de um possível fracasso escolar.

NPS: O que mais você gostaria de contar para a nossa revista?


DS: Pessoalmente, eu acredito no ser humano e na vida, penso que vale a pena lutar
por um mundo melhor, mais respeitoso e mais justo. O projeto “Encontro de Gera-
ções”, realizado por meio de cartas, me fez ver que a idade não importa, sempre temos
muito a ensinar e a aprender e necessitamos estar abertos para ver e compreender os
outros, independentemente de sua faixa etária. Este trabalho pode ser reaplicado e
multiplicado em diferentes escolas, sempre com respeito e seriedade, a fim de serem
atingidos seus sadios objetivos.
Acesse http://divinamultiply.blogspot.com.br.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 96-99, dez. 2012.


“E O PALHAÇO, O QUE É?”
CONVERSANDO
COM A MÍDIA

MARIE UBIRAYARA A questão da identidade (do quem sou eu?) é sempre uma questão aberta, cujas respostas dependem
KICHISE PEDRA das posições assumidas por um ou por outro nestas práticas discursivas, e das histórias através das
Psicóloga clínica, quais damos sentidos a nossas vidas e a dos outros
psicoterapeuta de família DAVIES & HARRÉ, 1999 apud GUANAES & JAPUR, 2003.*
e casal formada pelo
Instituto Humanitas de

O
Pesquisa e Intervenção
em Sistemas Humanos – filme O Palhaço (2011), dirigido por Selton Mello, retrata com grande sensibili-
Salvador/BA dade as nuances que compõem a história do circo Esperança. Benjamin (Selton
kichise.marie@gmail. Mello) vive o palhaço Pangaré e é filho de Valdemar (Paulo José), que se divide
com
entre os papéis do palhaço Puro Sangue e de dono do circo. A história do longa-metra-
MARINA LIMA gem se baseia no paradoxo alegria versus tristeza, encarnado pelo personagem Benja-
DUARTE MOREIRA min que, mesmo tendo como profissão fazer as pessoas sorrirem, vive angustiado em
Psicóloga clínica, busca de sua constituição identitária.
psicoterapeuta de família A pergunta “Quem é você?” marca o filme. Tal questionamento pode surgir em
e casal formada pelo
Instituto Humanitas de momentos distintos da história do sujeito, referindo-se a uma reflexão sobre a vida
Pesquisa e Intervenção e sobre como esta é vivida. As perguntas advindas dessas reflexões impulsionam a
em Sistemas Humanos – busca pela identidade histórica pessoal.
Salvador/BA
Durante todo o longa-metragem, ventiladores aparecem como uma metáfora do
ldm.marina@gmail.com
tempo e do movimento, ou seja, como aquilo que podemos fazer com a nossa vida,
ROBERTA DOS REIS o grau de paralisia que impomos a ela ou no sentido de eterna possibilidade de mu-
GÓES dança. O tempo é um conceito difícil por não ser único, isto é, o tempo que rege a
Psicóloga clínica, vida não é o mesmo que regula as horas. Nem todos os aspectos da nossa existência
psicoterapeuta de família compartilham o mesmo horário que a rotina de trabalho nos impõe, ou seja, o tem-
e casal formada pelo
Instituto Humanitas de po da realidade externa difere dos tempos das realidades internas de cada indivíduo.
Pesquisa e Intervenção Como visto no filme, Benjamin ficou parado em sua condição existencial de palhaço
em Sistemas Humanos – por um longo período, cumprindo um mandato familiar de fazer os outros rirem,
Salvador/BA
reproduzindo a atividade de seu pai. Entretanto, inquieto com esta posição na vida,
robertagoes1@hotmail.
com a personagem entra em crise identitária que resultará na sua saída da comunidade
circense.
O longa segue uma linha cronológica regular com introdução, conflito e desfecho.
A linha do tempo como realidade externa é marcada no decorrer das constantes via-
gens do Circo Esperança, orientando os fatos que ocorrem a cada parada. Porém, é
possível verificar os diferentes tempos de Benjamin, bem como suas significações pela
linguagem, marcada por falas repetidas e desejo expressado pelo ventilador. Para o
palhaço, este objeto, símbolo de movimento, revela sua decisão de buscar novos ares
e seu desejo de experimentar a vida sob outra perspectiva, na busca pela sua cons-
trução identitária. O tempo de Benjamin se dissocia do tempo das viagens, e a sua
* GUANAES, C., & JAPUR,
M. Construcionismo social trajetória passa, desde então, a seguir para além das estradas de barro.
e metapsicologia: um Esse tempo também pode ser percebido quando introduzimos ideias sobre a cons-
diálogo sobre o conceito
de Self. Psicologia: Teoria
trução de nossas identidades. O tempo cronológico, histórico e cultural influencia
e Pesquisa, 19 (2), 2003. a maneira como analisamos e percebemos esta construção. Contemporaneamente,
Recuperado em agosto, muitos compreendem que o sujeito se constrói e se desenvolve como produção de
2010, de www.scielo.br/
scielo. trocas discursivas, geradas pela forma como as pessoas descrevem-se a si mesmas e
são descritas pelos outros em suas conversações, convidando-nos a uma multiplici-
dade de versões de realidades situadas histórica e socialmente. Se observarmos bem CONVERSANDO COM A 101
MÍDIA
o longa-metragem vemos que os companheiros de circo de Benjamin servem como
coautores deste senso de self do palhaço, pois eles falam (não somente pela forma
verbal) sobre as percepções que têm do mesmo. Seguindo estas reflexões, abrem-se
outras possibilidades: a de ser vários e de estar sempre em construção, demonstran-
do, assim como o ventilador, o movimento da vida.
Tendo como base as ideias construcionistas para ilustrar estas reflexões, perce-
bemos que a crise de identidade vivida por Benjamin pode ser um subproduto de-
corrente de um sentimento de não pertencimento à comunidade circense. Em tal
sentimento de pertencimento, estão envolvidas trocas linguísticas que favorecem a
delimitação do “eu” e dos outros, distinguindo a si mesmo e o sistema a que pertence.
Em muitos momentos do filme, podemos perceber que Benjamin tem dúvidas sobre
se seu papel de palhaço é uma escolha própria, dotada de autonomia ou se segue um
mandato familiar, reproduzindo a profissão de seu pai, o palhaço Puro Sangue.
Nesse sentido, podemos pensar também na existência de um sentimento de lealda-
de que, em alguns momentos, possa paralisar Benjamin. Entendendo-se por lealdade
códigos familiares ou sociais configurados a partir de expectativas compartilhadas,
muitas vezes sem registros, mas contadas através das gerações. Tais códigos dão ao
sujeito um senso de identidade cultural, tendo como fundamento a preservação do
grupo. Podemos inferir que a angústia vivida por Benjamin talvez tenha sido oriunda
da dificuldade de manter-se investido nos códigos culturais de sua comunidade, na
medida em que a sua busca por autonomia poderia ser entendida pelos demais mem-
bros do circo como ingratidão e/ou ameaças às crenças da comunidade circense, aqui
entendida como mais uma possibilidade de arranjo familiar. Entretanto, podemos
perceber que Benjamin é autorizado por seu pai a ir em busca de seu desejo e auto-
nomia, sendo, assim, protegido de suplementações reprovativas, quando Valdemar
anuncia: “Filho, na vida, devemos fazer aquilo que gostamos e sabemos...”
A partir desse momento, mesmo angustiado com o sentimento de não perten-
cimento, Benjamin, sentindo-se autorizado, decide deixar o circo em busca de um
emprego e de seu RG, seguindo para a cidade de Passos. Nessa cidade, ele encontra
sustento em uma loja de eletrodomésticos, vendendo ventiladores, onde consegue
conduzir uma vida minimamente estável. Com o RG em mãos, a rotina do persona-
gem é exibida em silêncio e, após o encontro com alguns colegas de trabalho numa
mesa de bar onde anedotas são contadas, Benjamin revive seu lugar no mundo, con-
juntamente às cenas do circo, e decide retornar ao grupo.
Com isso, o movimento de Benjamin passa a ser o de tentar preencher as lacunas
deixadas pelas experiências vividas em sua família circense. A fim de ilustrar estas
lacunas, podemos nos remeter a um dos questionamentos recorrentes de Benjamin:
“Eu faço o povo rir, mas quem vai me fazer rir?” Desta forma, as novas experiências
vividas pelo personagem permitem que ele reescreva sua história, produzindo no-
vos significados que começam a dar sentido a forma como ele vê a si mesmo e ao
mundo. No seu retorno para o grupo, é possível perceber que o que o deixa irra-
diante e o faz sorrir é o dom de fazer as outras pessoas sorrirem. Vale ressaltar que
as trocas decorrentes das experiências vividas fora do circo auxiliaram Benjamin
a ressignificar sua história e papel no mundo quando, pela primeira vez, ele pôde
estar no lugar de quem assistia uma comédia como, por exemplo, na cena com
seus colegas de trabalho. Deste modo, ao viver situações diferentes das habituais,

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 100-104, dez. 2012.


Benjamin pôde construir novos relatos sobre si mesmo, modificando, reescrevendo,
102 NPS 44 | Dezembro 2012 através de novos discursos, sua noção de self.
A “volta para casa” revela a maturidade do personagem no longa, pois o mesmo
volta às origens diferente de como saiu, levando consigo seus objetos desejados e
conquistados com grande esforço: o ventilador e sua identidade, representada no
filme como seu RG.
Ademais, podemos interpretar que a personagem de Guilhermina (Larissa Mano-
ela) tem, na experiência vivida por Benjamin, a possibilidade de viver seu processo
de construção da identidade de maneira facilitada, uma vez que ele se tornou um
“inovador” no sistema familiar e que o seu movimento de ganho de autonomia e
constituição identitária foi assimilado e adotado pela comunidade circense. Diante
dessa situação, ao acompanhar, enquanto audiência, parte do processo de busca da
identidade de Benjamin, Guilhermina passa a ter maior liberdade para viver a sua
própria busca de senso de self sem passar por tantos conflitos como o seu modelo
precedente. Fazendo referência ao que foi explicitado anteriormente, o que Benja-
min trouxe à comunidade como “inovador” passa a ser parte integrante e natural no
funcionamento deste grupo, o que nos faz pensar que as dificuldades de Guilhermina
podem ser de outras ordens ou que sejam amenizadas pelo apoio do grupo, na medi-
da em que as mudanças advindas do processo de Benjamin possuem conotação posi-
tiva. E, assim, esta personagem pode representar no filme a contínua busca por uma
constituição identitária, uma vez que, para o construcionismo social, nunca estamos
totalmente formados, mas sempre estamos na constante possibilidade do devir, do
vir a ser. Podemos pensar, com isso, que somos um “museu de grandes novidades”.
O que carregamos da nossa história nos dá um sentido de unicidade e continuidade,
sempre havendo espaços para o novo.
A cena final mostra o retorno de Benjamin ao circo. Em pleno espetáculo, ele sur-
preende o palhaço Puro Sangue, que faz o seguinte questionamento se utilizando do
humor como parte do show:
– O que você está fazendo aqui?
Pangaré, então, anuncia:
– O gato bebe leite, o rato come queijo e... EU SOU PALHAÇO!
Esta cena emblemática é acompanhada com emoção pelos outros membros do cir-
co, pois todos sabem que ela registra a consciência de Benjamin quanto ao seu papel e
lugar no mundo. Pode-se entender, através desta cena, que a constituição identitária
foi legitimada por seu pai e pela comunidade circense, principal grupo de trocas de
Benjamin, que se torna o “respeitável público” do maior espetáculo da vida: a autono-
mia conquistada, revertida em uma identidade que registra quem somos, ainda que
nunca estejamos “prontos”.
O gato bebe leite, o rato come queijo... E você?

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 100-104, dez. 2012.


O QUE VOCÊ MAIS DESEJA? CONVERSANDO
COM A MÍDIA

Q
uando escrevo sobre algum assunto, começo a perguntar para várias pessoas o ELIANA MARIA
que acham, o que pensam sobre... como é para cada um o tema, vou dialogan- MOREIRA
do, como gosto de fazer, com a maior diversidade possível de pessoas, ou seja, Psicóloga e
converso com jovens, crianças, pessoas mais velhas que eu, feirantes, professores, ta- terapeuta de família
casal e indivíduo.
xistas, qualquer um que seja bom proseador e esteja interessado no assunto em ques-
Coordenadora
tão. Entabulamos, então, aquela conversa que se puxa sem pressa e se vai construindo educacional da Ponto
devagar, ouvindo, reformulando a ideia inicial, me espantando, aprendendo... de Partida Escola de
“O que você mais deseja?”, foi a pergunta que disparei à queima-roupa, dessa vez Educação Infantil.
Facilitadora de
para crianças. processos grupais e
O que eu mais desejo é o título de um filme dirigido por Hirokazu Kore-Eda, que supervisora clínica.
se passa na ilha japonesa de Kyushu. Antes de tudo, é um filme sobre crianças e sua
forma de pensar, agir e sentir o mundo. Conta a história de dois irmãos que são sepa-
rados após o divórcio dos pais.
O mais velho, Koishi (12 anos), mora com a mãe na casa dos avós maternos, locali-
zada no sul da ilha Kagoshima, em uma área campestre perto do preocupante vulcão
Sakurajima. O mais novo, Ryunosuke, mora com o pai guitarrista no norte da ilha,
região moderna e industrializada. A casa do mais velho é mais movimentada, já que
os avós moram com ele e a mãe, e, na do mais novo, moram apenas o pai e ele.
A rotina de ambos os irmãos é muito semelhante, pois passam o dia na escola, ten-
do aulas pela manhã, comendo os lanches e almoço feitos em casa, fazendo natação à
tarde, e voltando para casa no final do dia.
No filme, também é mostrada a história de outras crianças com diversas vivências
familiares, como a de uma menina que vive apenas com a mãe.
Apesar de as histórias das famílias serem diferentes, as escolas são iguais, com
crianças andando, correndo, nas salas de aula, no refeitório, horários para entrar e
sair, e barulho. As crianças são autônomas, vão e vêm da escola sozinhas, fazem seus
deveres e preparam a comida que levam todos os dias.
Os irmãos têm um plano para juntar novamente seus pais, cuidam para que ne-
nhum dos dois namore ou se interesse por outras pessoas. Querem a família reunida
mais uma vez, mesmo tendo lembranças das brigas e agressões entre o casal. Também
se lembram dos bons momentos vividos em família, conversam pelo telefone muitas
vezes, sentem saudades um do outro, põem as notícias em dia. A mãe chora quando
fala com o filho menor e há uma cena na qual o pai conversa com o filho mais velho.
Os adultos trabalham muito.
Cada um faz o que precisa fazer, é como se aos adultos coubesse o difícil, o obri-
gatório, e às crianças coubesse viver a vida, sonhar, sorrir. Há uma avó que dança,
mas a maioria dos adultos perdeu o brilho. O dia a dia dos pais passa a impressão de
que a vida é um rol de obrigações sem direito a intervalo. Porém, já fomos crianças e
sabemos que a infância não é só alegria, ela tem suas agruras.
É desse tempo que se lembram os professores da escola do mais velho quando o apoiam
(...também cresci sem meu pai... se precisar de algo, conte comigo...) e a professora que
sabe que eles não estão doentes quando fingem uma febre para poder sair da escola.
O filme se desenrola em torno de uma descoberta que o irmão mais velho faz na es-
cola: se um pedido for feito no momento exato em que dois trens se encontram, ele será
atendido. Então Koishi começa a montar um plano para encontrar o irmão mais novo
104 NPS 44 | Dezembro 2012 para que vejam os trens e tenham finalmente os desejos realizados. Forma-se uma grande
rede de solidariedade entre os amigos para ajudá-los a conseguir este feito, cada um em
sua cidade, mas ligados pelos mesmos desejos, que são escritos em uma bandeira branca.
O desejo do mais velho é que o vulcão entre em erupção para que a família seja
obrigada a se reunir novamente na cidade, o mais novo quer que a carreira do pai
decole, o amigo pede que seu pequeno cão doente não morra, uma menina quer ser
bailarina e assim tudo isso é escrito em uma bandeira branca que eles carregam para
colocar no exato momento do encontro dos trens.
Crianças em ação, planos em andamento.
Em uma linda cena do filme, um policial desconfia do grupo de crianças sozinhas
e elas seguem até uma casa onde mora um casal e se dizem netos deles. Nessa cena,
a mulher prontamente concorda com essa afirmação e faz com que entrem na casa,
alimentando-os e colocando todos para dormir para que no dia seguinte possam
seguir viagem rumo aos trens e aos desejos diversos de cada um.
Colocar à prova, concretizar, agir para chegar onde se quer com os meios disponí-
veis no momento.
Coisa de criança? Só a elas é dada essa possibilidade? Ou só elas são capazes de
tamanha ousadia?
Barulho de trens se aproximando, bandeira na mão, corações disparados, o ca-
chorro dentro da bolsa, tudo lá, a sorte lançada... os trens se encontram...
Nessa hora, para mim a melhor parte, os olhos confiantes e brilhantes, eu pensei:
“Quando perdemos isso? Quando nossas esperanças se vão? Elas se vão? Ou se
transformam?”
O mais velho abre mão de seu pedido inicial, da explosão do vulcão, pensando nas
consequências disso para o mundo e para as outras pessoas. É um momento forte no
qual troca seu desejo mágico por um mais realista.
Ao mesmo tempo, quando abrem a bolsa constatam que o cachorro que levavam
está mais duro e mais gelado que no dia anterior e o desejo de ressurreição é transfor-
mado em um enterro num lugar próximo, para continuarem juntos.
Ao chegar em casa e receber a notícia de que a banda de seu pai havia sido convi-
dada para cantar no rádio, o caçula abre seu melhor e maior sorriso e diz: “Eu sabia
disso.” Sua infância ganha mais um tempo de vida.
Eles se vão e a bandeira continua lá... mágica, tremulando sozinha.
E aí... respondeu a pergunta inicial?
Na minha pesquisa, apurei que as crianças (com idade até 7 anos) desejam: ser
super-heróis, maiores, adultas, mágico, médico, bailarinas, atores, animais selvagens,
pássaros, saber ler e escrever e mais uma infinidade de desejos. Coisas de criança?
Os adultos desejam ter: aposentadoria, casa na praia, casamento, carro, filhos na
universidade, casa própria, saúde, desejos de ter. Segurança? Coisas de adulto?
Gosto de pensar na vida como uma sucessão de fases que vivenciamos, cada um de
uma maneira muito particular e única, na direção de uma aprendizagem diária e de
um se desenvolver sempre.
Penso que cada uma delas tem sua magia e seu desafio.
O que eu mais desejo é ter um significado para o viver, ser aquela que não se aco-
moda, ao contrário, se espanta com o existir e com esse “não tem jeito” que é ser gente.
Tomara tenhamos uma bandeira branca tremulando ao vento com muitos desejos
renovados a cada tempo.
Tomara tenhamos presente, a cada fase, a criança que um dia fomos.
Tomara!

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 100-104, dez. 2012.


MAPAS DA PRÁTICA NARRATIVA
ESTANTE DE LIVROS

Resenha do livro: White, Michael. Mapas da prática narrativa. São Paulo: Pacartes, 2012.

O
riginalmente publicado em 2007, este livro, que acaba de ser traduzido para o MARILENE
português, vem como um grande presente para aqueles que já se interessam ou GRANDESSO
que desejam conhecer as práticas narrativas. Um ano antes de sua prematura INTERFACI - Instituto
de Terapia; Família,
morte, talvez por alguma inspiração divina, Michael White revisitou seu trabalho e os comunidade, casal
caminhos percorridos nos mais de 20 anos a serviço da re-escritura de histórias prefe- e indivíduo, NUFAC
ridas de dignidade e reautoria, deixando-nos como testamento e herança viva o Mapas – Núcleo de Família
e Comunidade da
da prática narrativa. Sabemos que os mapas não são o território, mas, certamente, PUC-SP
aquele que segui-los vai descobrir que poderá chegar a horizontes preferidos e deslum-
brantes, percorridos com a criatividade e as idiossincrasias de cada viajante envolvido
na realização de um trabalho sério, cuidadoso e instigador, tendo como mentora a
sempre presença de Michael White.
Este livro inspira e emociona. Desde a sua primeira página na qual há uma dedica-
tória para sua mãe a quem atribui as qualidades de amorosa, generosa e incansável na
sua intenção de que seus filhos tivessem oportunidades que a ela não haviam estado
disponíveis. E, curiosamente, conforme vamos mergulhando na sua leitura, podemos ter
a mesma impressão em relação a Michael: sua generosidade, sua dedicação em descrever
minuciosamente, ilustrar com histórias reais de terapias que realizou, refletir sobre e
oferecer para cada terapeuta dos mais diversos territórios, “uma bússola e uma legenda
para navegar pelos domínios da práticas narrativas”, conforme Jill Freedman se refere ao
apresentar este livro. Como o próprio Michael nos diz, estes mapas foram construídos ao
longo dos anos, atendendo aos inúmeros pedidos das pessoas para que tornasse transpa-
rentes os processos terapêuticos que desenvolveu. Mais do que compartilhar seus álbuns
de fotografias dos cenários exóticos que percorreu durante sua vida de terapeuta criativo
e competente, Michael nos convida a nos aventurarmos nas nossas próprias viagens com
aqueles que nos procuram trazidos pelos seus dilemas, preocupações e problemas.
A metáfora dos mapas para seu trabalho nasceu da importância que os mapas
geográficos tiveram para expandir seus horizontes, indo além dos limites de seu res-
trito mundo de infância. Permitiram-lhe sonhar com outros mundos, com paisagens
exuberantes, deslumbrantes e inimagináveis nos limites do que lhe era conhecido e
familiar. O mais fascinante de seguir os mapas narrativos de Michael, conforme o en-
tendo, é que, no que se refere às práticas narrativas, estes mapas nos convidam a em-
barcar numa viagem que paradoxalmente nos envolve numa jornada cujas rotas e o
destino não são previsíveis no início do caminho. Mas, qualquer que seja ele, Michael
nos apresenta nos relatos das histórias vividas com as pessoas que o acompanharam
nas suas viagens que as estradas do mundo da experiência nos surpreendem sempre
com paisagens deslumbrantes, que abrem novas maneiras de se encontrar com signi-
ficados preferidos para a própria vida. Michael ressalta que, assim como toda viagem
tem uma diversidade de rotas possíveis, as conversações nos contextos de terapia têm
seus caminhos imprevisíveis, conforme se aventuram por territórios negligenciados
pelas narrativas dominantes sobre a vida e as experiências.
As principais áreas para desenvolver uma prática narrativa estão minuciosamente
descritas neste livro com ilustrações de histórias que Michael viveu com pessoas que
o procuraram. Servindo de porta de entrada para aquele que ingressa no mundo das
106 NPS 44 | Dezembro 2012 práticas narrativas, este livro também convida o já familiarizado com a abordagem a
ir além, ousando e improvisando conforme libera sua espontaneidade. Organizado a
partir das diferentes possibilidades de estar em relação com pessoas em contextos de
terapia, cada prática é descrita nos seus propósitos e passos para orientar o terapeuta
na sua jornada do conhecido e familiar para o possível de conhecer no mundo da vida.
Assim, são apresentados os diferentes mapas, cada um deles oferecendo subsídios
para conversações possíveis com propósitos específicos:
• conversações de externalização – deixando muito claro não se tratar de uma téc-
nica, Michael ressalta a importância dessas conversações para libertar a pessoa do
efeito definidor do self oriundo das tecnologias de poder que constroem histórias
de identidade limitadas;
• conversações de reautoria, que, tecendo os fios entre os cenários da ação e da
identidade, convidam a revisitar os contextos da vida vivida e os significados
preferidos no campo de valores, aprendizados, propósitos e compreensões inten-
cionais, na construção de histórias mais ricas e libertadoras;
• conversações de remembrança, apoiadas na importância de ressaltar as contri-
buições dos outros significativos nas histórias de valor que cada pessoa tem;
• a prática das cerimônias de definição, inspirada no trabalho da antropóloga Bar-
bara Myerhoff, ressaltando a importância das audiências como legitimadoras de
versões preferidas de histórias de identidade;
• o envolvimento de testemunhas externas como parte dos processos reflexivos de
outros significativos na construção de histórias mais ricas;
• as conversações que ressaltam acontecimentos singulares, convidando o terapeu-
ta a despertar sua sensibilidade para a poética do encontro terapêutico;
• as conversações que constroem andaimes, uma forma criativa de entretecer teo-
ria e prática, inspirada nas ideias de Vygotsky, ressaltando a importância do outro
na formação de novos conceitos e destaque para valores preferidos.

Os capítulos que apresentam cada uma dessas práticas nos permitem conhecer
alguns dos interlocutores de Michael White nas descobertas e sistematização de sua
prática, os fundamentos de sua abordagem pós-estruturalista, sua visão não essencia-
lista de self e a compreensão do processo de terapia como um caminho construído,
tendo no centro a pessoa do cliente numa jornada sempre instigante por mundos
imprevisíveis e surpreendentes. A presença de Bateson, Foucault, Derrida, Bruner,
Vygostky, Barbara Myerhoff, Clifford Geertz e Gaston Bachelard no trabalho de Mi-
chael White ressalta sua compreensão da prática terapêutica como transversal aos
territórios disciplinares e engajada no tempo e história. Uma terapia sem fronteiras,
transitando desde os espaços clínicos tradicionais dos consultórios até as mais sin-
gulares comunidades com suas distintas culturas. As práticas narrativas que Michael
White nos ajudou a construir e nos estimula a desenvolver respondem às demandas
de nossos tempos e os dilemas que elas nos apresentam. Ao cruzar a linha de chegada
ao final das 319 páginas deste livro, acredito que o leitor terá o desejo de iniciar de
novo a jornada. A cada vez que leio este livro, desde que foi publicado em inglês, des-
cubro como são incríveis os caminhos da vida e quantas oportunidades estão ali para
cada pessoa, reconhecidas suas competências e legitimados seus direitos enquanto
um ser humano vivente. Nos manguezais da existência, as conversações sugeridas pe-
los mapas narrativos permitem-nos ressaltar os nutrientes que surgem e crescem no

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 105-107, dez. 2012.


encontro das águas dos rios da experiência e dos mares de possibilidades. O resultado
dessa prática convida o terapeuta a manter acesa a chama da esperança e deixar-se ESTANTE DE LIVROS 107
conduzir pela crença de que a vida vale a pena e suas possibilidades estão sempre
presentes e que embarcar nessa viagem, seguindo esses mapas, conduz a cenários
surpreendentes.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 44, p. 105-107, dez. 2012.


NORMAS PARA A PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS

A revista Nova Perspectiva Sistêmica publica, além de trabalhos na área de terapia de


família, artigos que versem sobre práticas sistêmicas em contextos amplos, comuni-
dades, redes sociais, grupos e outros temas relacionados ao construcionismo social.
Ela é dirigida a profissionais e estudantes das áreas de psicologia, serviços sociais,
direito, psiquiatria e a quaisquer outras carreiras e atividades que abordem a teoria
sistêmica. Seu conteúdo é produzido por especialistas. Sua preocupação com a seleção
de temas e autores garante a qualidade e a credibilidade deste que é um dos mais im-
portantes veículos voltados à prática sistêmica no Brasil.
Para colaborar com revista NPS, mande seu trabalho para avaliação do nosso Con-
selho Editorial. Os textos podem ser enviados nos seguintes formatos:

• Artigos
• Estante de livros: resenha de livros publicados sobre temas relevantes para a linha
editorial da revista.
• Conversando com a mídia: comentários, reflexões ou ensaios sobre temas presentes
em todos os tipos de mídia: cinema, televisão, internet, literatura etc.
• Ecos: comentários e reflexões suscitados por artigos publicados em uma edição
anterior.
• Família e comunidade em foco: relatos de experiências ou entrevistas que tenham
conexões diretas com as práticas sistêmicas nos diversos contextos.

Os artigos destinados à publicação devem obedecer aos seguintes requisitos:

1. O texto deve ter o máximo de 15 páginas, com espaçamento simples, em fonte


Times New Roman, corpo 12 e deve ser enviado em formato RTF.
2. As ilustrações contidas nos artigos (quando for o caso) não devem exceder ¼ do
espaço do texto. As figuras, imagens e tabelas deverão ser enviadas em formato .JPG
ou .TIF, no modo de cor grayscale (tons de cinza), em alta resolução (maior ou igual a
300 dpi).
3. O(s) artigo(s) deve(m) incluir título (em português e em inglês), nome(s)
do(s) autor(es), qualificação do(s) mesmo(s), nome da instituição a que está(ão)
vinculado(s), cidade, país e e-mail.
4. Os artigos devem conter um resumo de aproximadamente 100 palavras e a indica-
ção de palavras-­chave (ambos em português e em inglês).
5. As referências devem seguir as normas da APA. Citações ao longo do texto devem
respeitar o seguinte padrão: sobrenome do autor e ano da publicacão (Russo, 1997).
6. Após a publicação, o artigo passa a ser propriedade da revista. A reprodução em
outro veículo deverá conter referência ao nome e ao número da revista.
7. A revista aceita a divulgação do artigo em outra publicação, desde que informada
previamente. Tudo que implique ação legal é de responsabilidade exclusiva do autor.
8. A revista aceita divulgar artigos que já tenham sido publicados anteriormente
desde que sejam informados a data e o periódico em que foi publicado.
9. O artigo não deve infringir nenhuma norma ética, sobretudo a de proteger a
identidade de pacientes mencionados em relatos clínicos.
10. A aprovação de artigos é subordinada à apreciação de pareceristas e membros do
Comitê Editorial.
APRECIAÇÃO DOS TEXTOS
• Os textos apresentados serão submetidos à apreciação de pareceristas, que poderão
aprová-los diretamente para publicação, aprová-los mediante alterações sugeridas
ou recusá-los.
• Após aprovados, os textos serão revisados, diagramados e publicados.
• Os originais, mesmo quando não publicados, não serão devolvidos.
• Cada artigo publicado dá ao(s) autor(es) o direito a receber um (01) exemplar da
revista.
• Os conceitos e afirmações expressos nos artigos são de inteira responsabilidade
do(s) autor(es).

Para submeter seu artigo, envie uma cópia por e-mail: editora@noos.org.br

EXEMPLO DE REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Livro:
Toffler, A. (1994). O choque do futuro (5a ed.). Rio de Janeiro: Record.

Parte de livro:
Tanguy, L. (1997). Competências e integração social na empresa. In: F. Ropé & L.
Tanguy (Orgs.). Saberes e competências: o uso de tais noções na escola e na empresa.
Campinas, SP: Papirus.

Parte de publicação periódica:


Watson, M. W. (1994). Vector autoregressions and cointegration. In: R. F. Engle & D.
L. McFadden (Ed.). Handbook of Econometrics (Vol. 4, Chap. 47, pp. 2843-2915).
Amsterdam: Elsevier.

Monografia, dissertação ou tese:


Nogueira, E. E. S. (2000). Identidade organizacional – um estudo de caso do siste-
ma aduaneiro brasileiro. Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Paraná,
Curitiba, PR, Brasil.

Informações retiradas da internet:


Famá, R., & Melher, S. (1999). Estrutura de capital na América Latina: existiria uma
correlação com o lucro das empresas? Recuperado em 15 abril, 2004, de http://www.
fia.com.br/labfin/ pesquisa/artigos/arquivos/1.pdf

Anais:
Ayres, K. (2000, setembro). Tecno-stress: um estudo em operadores de caixa de su-
permercado. Anais do Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Administração, Florianópolis, SC, Brasil, 24.
MISSÃO DA REVISTA NOVA PERSPECTIVA SISTÊMICA

Divulgar informações e conhecimentos sobre as teorias e práticas


sociais sistêmicas, narrativas e relacionais e as inovações dialógicas de-
correntes dessas raízes, contribuindo para a formação de profissionais
das ciências humanas, sociais e da saúde e o aperfeiçoamento de suas
práxis, colaborando para um aumento do bem-estar da população bra-
sileira por eles assistida.

A Nova Perspectiva Sistêmica foi a primeira revista especializada em


Terapia de Família a ser publicada em português. Desde 1991, convivem
na revista mestres brasileiros e estrangeiros que influenciaram nossa
forma de pensar e trabalhar, além de autores menos conhecidos que pu-
deram, a partir da publicação de seus trabalhos, iniciar sua participação
na comunidade de terapeutas de família.
A revista é produzida por uma parceria entre o Instituto Noos, do Rio
de Janeiro, o Instituto Familiae e o Interfaci – ambos de São Paulo.
Essas três instituições de referência buscam ampliar a linha editorial
para incluir cada vez mais ações ligadas a comunidades, grupos e redes
sociais.

Desde 2011, a revista NPS está indexada pelo Clase e pelo Sistema
Latindex. Desde 2012, está classificada no extrato B3 da Qualis.