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Lourenço Filho: Educação e Pesquisa

O documento discute a evolução histórica da estatística e sua importância para a educação. Em três frases: (1) A estatística surgiu antes de existir a ciência, com registros numéricos realizados por diversas civilizações antigas; (2) No século XVIII, a estatística passou a ser vista como método para analisar e interpretar dados sobre Estados e sociedades; (3) O autor defende que a estatística contribui para grandes transformações na política e organização educacional, permitindo avaliar o apro

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Lourenço Filho: Educação e Pesquisa

O documento discute a evolução histórica da estatística e sua importância para a educação. Em três frases: (1) A estatística surgiu antes de existir a ciência, com registros numéricos realizados por diversas civilizações antigas; (2) No século XVIII, a estatística passou a ser vista como método para analisar e interpretar dados sobre Estados e sociedades; (3) O autor defende que a estatística contribui para grandes transformações na política e organização educacional, permitindo avaliar o apro

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SEGUNDA

EDIÇÃO

Estatística e educação*
Lourenço Filho

C omenta a evolução da
estatística como apresentação de
A circunstância de vossa atenção ser
ocupada, neste momento, por um educa-
Palavras-Chave: estatísticas;
registro estatístico escolar;
abordagem histórica.
registros numéricos e como dor de ofício, ao invés de o ser por um
especialista em estatística, tem uma expli-
método. Analisa a educação cação clara e simples. São tantos, tão nu-
como fenômeno coletivo e como merosos e ponderáveis os subsídios que
método de produção de a educação reclama de vossa atividade,
rendimento ou técnica que a exposição deles, por um estatístico,
particularizada. Sustenta que o poderia ser acoimada de exagerada. O
uso da estatística contribui para educador, ao contrário, está livre de
suspeição. Fala desembaraçado. Não lhe
grandes transformações na será dado, é certo, trazer a esta assem-
política e na organização da bléia de doutos nenhuma novidade. Mas
educação, e que permite poderá ele, ao menos, prestar um singelo
determinar como os indivíduos se depoimento, que valerá afinal como uma
aproveitam dos métodos e apagada mas sincera homenagem da par-
te dos educadores brasileiros, ao esclare-
processos educativos,
cido espírito que norteia os trabalhos do
proporcionando a possibilidade Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís-
de medida objetiva do trabalho tica, que ora aqui nos reúne.
educativo. Conclui que não se Muitos são os educadores que acom-
deve pensar que todos os panham a vossa grande obra de tenaci-
problemas educacionais sejam dade e patriotismo, convictos de que, de
seus resultados, cada dia mais preciosos,
de natureza técnica e que a educação nacional auferirá incontáveis
possam ser resolvidos no benefícios. Até a que ponto irão eles, mes-
domínio do quantitativo, mas a mo os mais céticos hão de concluir, ao
R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998
estatística pode e deve servir para cabo das considerações e da exposição
o esclarecimento de muitos dos fatos, que iremos fazer, tendo em vis-
problemas e para a proposição ta a observação, de já longos anos, no tra-
to do ensino e da administração escolar
de novas questões. brasileira.

A estatística

Para o efeito deste pequeno ensaio, * Conferência pronunciada no


“Curso de Informações”, pro-
convém que tomemos os termos “educa- movido pelo Instituto Brasilei-
ção” e “estatística” no mais largo sentido ro de Geografia e Estatística
que possam ter, deixando de parte a (IBGE). Publicada original-
mente na Revista Brasileira de
conceituação de caráter restritivo, que um Estudos Pedagógicos (RBEP),
e outro também admitem. v. 11, n. 31, nov./dez., 1947.

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Para o vocábulo “estatística” duas apli- seus processos. Heleno Politano tinha pu-
cações correntes existem: uma, a de signi- blicado, quase um século antes, o
ficar a simples apresentação de registros Microscopium Statisticum quo status
numéricos, de coisas ou de pessoas, na- imperii Romano-Germanici representatur,
quilo que interessem à vida do Estado; ou- trabalho no qual ficou demonstrado que
tra, no sentido de processo lógico ou mé- não poderia haver política sem a discrimi-
todo, com que esses mesmos resultados nação quantitativa dos problemas da po-
possam ser analisados e interpretados e, pulação e da riqueza.
já agora, não só no domínio dos fatos que De modo que, ao fazer imprimir, em
interessem ao Estado, mas no de todo e 1770, a sua notável obra “Elementos da
qualquer conhecimento humano. Erudição Universal”, seria natural que Von
As duas significações coexistem e re- Bielfeld caracterizasse a estatística como
sultam do próprio desenvolvimento histó- “a ciência que nos ensina qual a organi-
rico da matéria. Já se levantavam estatísti- zação política dos modernos estados, no
cas, antes de existir “a” estatística. Neste mundo conhecido”, alterando assim um
domínio, como nos demais, os fatos pre- pouco a noção primitivamente assentada
cederam à teoria. Antes que Achenwall ti- por Achenwall, que se contentava em di-
vesse criado o nome, aí nos meados do zer que a estatística seria “o conhecimen-
século XVIII, muito antes mesmo, já os chi- to aprofundado da situação (status) de
neses, egípcios, hebreus e romanos reali- cada Estado”.
zavam o censo e procediam ao levanta- Deve-se notar que, só desde então, é
mento das terras cultiváveis. Não é à falta que se teria generalizado o emprego do
de outro título que o quarto livro de Moisés, étimo da estatística, status, no sentido de
no Velho Testamento, se chamou “Núme- “estado político” ou “nação”. No folheto
ros”. E que a instituição da estatística é di- de apresentação da Royal Statistical
vina surpreende-se neste texto tão claro Society, estabelecida em 1834, a estatísti-
dos versículos iniciais do livro referido: ca passa a ser definida como “a ciência
Falou mais Jeová a Moisés no deserto
de verificar e coligir os fatos que possam
de Sinai, na Tenda do ajuntamento, no ser calculados para ilustrar o estado atual
primeiro dia do mês segundo, no segun- e futuro das sociedades”. Cournot, algum
do ano de sua saída da terra de Egito, tempo depois, escrevia: “Entende-se prin-
dizendo: cipalmente, por estatística, como o indica
“2. Tomai a quantia de toda a congrega- a etimologia da palavra, o conjunto de fa-
ção dos filhos de Israel, segundo suas tos que se originam da aglomeração dos
gerações, segundo a casa de seus pais, homens em sociedades políticas”.
no número dos nomes de todo macho, Mas essa etimologia, digamo-lo ago-
cabeça por cabeça. ra, é discutida. Liesse, por exemplo, levan-
3. De idade de vinte anos e arriba todos
ta a dúvida: status, de Estado, estatuto po-
os que saem à guerra em Israel: a estes
contareis segundo seus exércitos, tu e lítico, ou status de situação, estádio?...
Aarão”. Eichoff, por sua vez, a ambos contesta. O
(...) étimo teria provindo do grego statizien, que
17. Então tomaram Moisés e Aarão estes significa estabelecer, verificar, comparar.
varões, que foram declarados por seus Deu, no latim, statuere; no alemão, sttaten;
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nomes. no inglês, to stay...
18. E ajuntaram toda a congregação ao Deixemos a solução da dúvida para
primeiro dia do mês segundo, e declara- aqueles, dentre vós, mais versados em ori-
ram sua descendência segundo suas fa- gens lingüísticas. O que parece certo é que
mílias, segundo a casa de seus pais, no
o Estado, organização política, teria cria-
número dos nomes dos vinte anos e arri-
ba, cabeça por cabeça. do a necessidade de contar e avaliar os
(...) homens e as coisas. É não menos certo
46. Todos os contados pois foram seiscen- que essa necessidade teria criado a ou-
tos e três mil quinhentos e cinqüenta... tra, a de estabelecer relações entre os pró-
prios dados obtidos, para permitir ação
Verifica-se que o nome proposto por menos arbitrária, na arte do governo dos
Achenwall viria consagrar uma realidade, povos. Se o Estado criou a estatística, esta,
que as necessidades de organização dos por sua vez, cada dia apresenta maiores e
grupos humanos haviam feito surgir, de há melhores elementos para a sua reconstru-
muito, e que a prática teria apurado nos ção e redireção. Não será exagerado di-
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zer-se que a estatística tenha criado, as- vários ramos do saber. De fato, aquele “s”
sim, por sua vez, o Estado moderno, que representa uma distinção, assim como que
procura, no estudo da dependência dos uma comenda ou título de nobreza. Diz-se
fenômenos coletivos, que só os números e se escreve “music” e “rhetoric”, sem “s”.
podem exprimir a sua mais legítima fonte Deve-se, no entanto, dizer e escrever, mais
de inspiração. solidamente, “physics”, “mathematics”,
Que a idéia de estatística e política se “statistics”...
tornou generalizada, confirmam os dicio- Para a constituição dessa estatística, no
nários comuns. Abramos um deles, o Novo sentido de instrumento lógico, método de
Dicionário Português, de Francisco de análise e interpretação, aplicado à desco-
Almeida, e lá encontraremos, no verbete berta de relações entre os fenômenos, o
próprio: “Estatística – ciência que examina caminho histórico devia ser muito diverso
a situação real e efetiva de um Estado, em do das altas preocupações da política.
suas relações comerciais, industriais e ge- Grandes criações têm tido origens em pro-
ográficas”. Tomemos a outro, mais recen- blemas modestos e, a dos princípios em
te, o Dicionário Ilustrado, de J. Seguier. A que devesse depois repousar a estatística,
conceituação, que aí aparece, é a mesma. teria sido uma dessas.
A definição é boa. Apenas nos faz Todos conheceis o episódio, mas vale
lembrar aquela outra, que apresentava o a pena repeti-lo. Um jogador apaixonado,
caranguejo como um peixe de escamas o cavaleiro de Meré, entendeu de subme-
vermelhas, dotado do hábito de andar ter, em 1654, a Blaise Pascal, – o ilustre ma-
para trás... Nesta, como se vê, há apenas temático-filósofo, inventor da máquina de
três defeitos: o caranguejo não é peixe, calcular e autor das admiráveis Lettres
não tem escamas vermelhas, nem o hábi- Provinciales – uma das dificuldades do jogo
to de andar para trás. O resto está certo. conhecido pelo nome de “probleme des
Com a definição dos dicionários comuns, partis”. A questão se resumia em saber, uma
ocorre quase o mesmo: a estatística não vez interrompido o jogo, como distribuir
é uma ciência, não cuida apenas do Es- eqüitativamente o montante que estivesse
tado, nem se limita a conhecer, nele, a si- sobre a mesa. Pascal pôs-se a trabalhar,
tuação do momento. estudando as probabilidades de cada par-
Porque, de outra forma, não haveria ceiro. Pierre de Fermat a ele se associou
a outra acepção, a que aludimos de iní- nesse estudo. E, em breve, toda uma teo-
cio, e na qual reconhecemos a estatística ria do cálculo de probabilidades estava de-
como uma metodologia geral, comum a senvolvida e popularizada...
todos os ramos do saber. De posse des- É certo que houve precursores. Citam-
se método, pretendemos ordenar a pró- se os estudos de Galileu e de Bacon. Mas a
pria observação dos fatos, descrevê-los acreditar em Charles Gourand, “antes de
e interpretá-los, no domínio dos fatos so- Pascal o probabilismo não constituía uma
ciais, como no de outros quaisquer. disciplina matemática, não tendo princípios
A distinção ressalta, quando usamos explícitos nem nomenclatura precisa”. De-
o vocábulo no singular ou no plural. Não pois, Huygens, Laplace, Jean de Witt,
é o mesmo dizer-se “as estatísticas brasi- Halley... Por fim, a Ars Conjectandi de
leiras” e “a estatística brasileira”. Observai Jacques Bernoulli, escrita ainda no século
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que, em inglês, há duas palavras distin- XVII, mas só publicada em 1713, isto é, oito
tas, para cada coisa: statistics, que é sin- anos depois de sua morte. No século XVIII,
gular, significa a compilação sistemática toda uma plêiade de grandes inteligências
dos dados, ou no uso de fatos ou amos- vieram a preocupar-se com o assunto: de
tras, para inferências de ordem geral; Moivre, Buffon, D´Alembert, Condorcet,
statistics, que é plural, significa a apresen- Euler, Lagrange, Poisson, Gauss, Courjot...
tação de tabelas, pelas quais se represen- Criava-se, então, a estocástica – “con-
tem as condições de um grupo social, ou junto de princípios para aplicação do cál-
as de qualquer grupo de fatos, que inte- culo de probabilidades aos números reco-
ressem a determinado assunto ou maté- lhidos pela estatística, de modo a provar a
ria (Webster). Se as duas palavras, tanto existência de leis resultantes de causas per-
a do singular como a do plural, se escre- manentes e regulares, cuja ação pudesse
vem com “s” final, a culpa não é, positiva- estar combinada com a das causas fortui-
mente, da língua inglesa. É da própria dig- tas”. Mas o nome não logrou fortuna. O pró-
nidade que a estatística assumiu entre os prio Cournot escrevia: “A palavra estatísti-

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ca terá uma acepção mais vasta. Enten- Tobias Moscoso e Fernando Silveira. Em
demos por ela o método de recolher e or- 1932, instala-se, no Instituto de Educação
denar fatos numerosos, de toda a espé- do Distrito Federal, a cadeira de “estatísti-
cie, de modo a permitir relações numéri- ca aplicada à educação”, entregue à com-
cas sensivelmente independentes das petência do professor J. P. Fontenelle. No
anomalias do acaso...” ano seguinte, cria-se idêntica disciplina no
A previsão era acertada. A estatística Instituto de Educação, de São Paulo,
continuava a ser a descrição quantitativa regida pelo professor Milton Rodrigues.
sistemática dos fatos, mas dela emergia A modesta questão do “jeu des partis”
também uma metodologia que, em breve, criava uma nova atitude de pensamento
penetrava todo o domínio da biologia e, científico. E, de tal forma que, hoje, se po-
depois, mesmo o das ciências físicas. derá repetir o que escrevia David Hume,
Com a apresentação tabular, facilitava- em 1777: “Tome você qualquer livro, e per-
se e generalizava-se a noção de “freqüên- mita-nos perguntar: Contém ele qualquer
cia”, ao redor de um valor central; a obser- raciocínio com base em quantidade ou
vação de freqüência acarretava a de “vari- número? Não?! Não contém ele raciocí-
abilidade” dos fenômenos, permitindo, no nio com base em experiência ou realida-
terreno biológico, a hierarquização dos fa- de? Não?! Então, atire-o ao fogo. Não en-
tos, por sua expressão numérica, senão já cerrará senão falácia ou ilusão”...
a medida. Publicando a sua famosa obra
Hereditary Genius, em 1869, Galton expu-
nha o problema da herança em termos de A educação
estatística. Trinta anos depois, precisamente
em 1899, Scripture aplica os mesmos pro- Também em educação? Poderíeis per-
cessos para os estudos da psicologia, apre- guntar agora. Veremos que também em
sentando tabelas e análises numéricas re- educação, desde que a consideremos no
ferentes a crianças tidas como de alta inte- terreno dos fatos, não no das doutrinas.
ligência, de inteligência média e deficien- Estas, na maioria dos casos, misturam às
tes. realidades os próprios ideais de que se
Quase simultaneamente com os estu- nutrem e, daí, alimentarem o conflito de
dos de Galton, os ingleses John Dalton e concepções as mais diversas.
James Clark Maxwell, e o austríaco Ludwig No terreno dos fatos, que é aquele
Boltzmann reformam a concepção de onde cabe o pensamento de Hume, a edu-
termodinâmica clássica, com a noção de cação pode ser apreciada em dois planos:
probabilidade, como princípio de explica- no plano social e no plano individual. O
ção, na física teórica. As novas teorias vi- caráter dominante lhe advém do primeiro.
nham revolucionar o pensamento científi- A educação é, antes de tudo, um fato de
co. O mundo deixava de ser estático. A re- ação coletiva, pois que resulta da influên-
percussão sobre a teoria da própria causa- cia da comunidade sobre as novas gera-
lidade física não se fez esperar... ções. É certo que podemos apreciar os
R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998
No campo biológico, o desenvolvi- seus efeitos num só e determinado indiví-
mento do método estatístico havia de se duo. Nem por isso, o caráter social desa-
dar também rapidamente. Em 1901, fun- parece. O fenômeno passa a ser aprecia-
damentava-se, em Londres, a “Biome- do, em plano favorável à análise dos mei-
trika”, publicação exclusivamente destina- os, métodos ou processos, numa atuação
da a recolher os estudos dos problemas individual próxima, mas que só chega a ter
da vida, sob o ponto de vista estatístico. verdadeiro significado quando comparada,
E daí, invadiu o método o domínio espe- nos seus efeitos, às influências sociais mais
cífico da educação. O primeiro curso de amplas.
estatística aplicada a esses assuntos foi Podemos dizer, por isso que, objetiva-
dado por Edward Lee Thorndike, na mente considerada, a educação é uma
Columbia University, de Nova Iorque, em ação coletiva, enquanto considerada na
1903. integridade de seus meios e fins; e ação
No Brasil, inauguram-se, em 1926, os individual, no que toca a aplicação particu-
primeiros cursos de estatística aplicada à larizada de métodos ou processos, dos mei-
saúde pública, com Jansen de Melo, os intencionais que o homem experimen-
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ta, ou adota para o desenvolvimento, adap-
tação e aperfeiçoamento do indivíduo.
As doutrinas pedagógicas contendem
entre si, na exaltação do individual ou do
coletivo, o que acarreta a consideração,
ora predominante dos fins, ora dos meios.
Mas, para o efeito especial das relações
que procuraremos traçar, entre a estatísti-
ca e a educação, a diversidade dessas
opiniões não nos pode interessar. Elas as-
sinalam que existem fins e meios na edu-
cação, e isto nos bastará.
Que há uma realidade, a que chama-
mos “educação”, é irrecusável. De um pon-
to de vista amplo, ela se apresenta como
atuação de umas gerações sobre outras,
base da continuidade e do desenvolvimen- mo nível de conduta social ou moral, que
to social; de um ponto de vista particular, exige dos adolescentes ou dos adultos.
meramente técnico, como a ação de cer- As categorias discretas passam, as-
tos meios, para certos resultados e que, sim, a ser contínuas; e as qualidades po-
um a um, podem ser observados. Esta úl- dem, legitimamente, traduzir-se em quan-
tima é a educação sistemática. tidades, em número. Toda a educação sis-
Mas, tanto de um, como de outro des- temática pode ser apresentada como um
ses pontos de vista, a educação deve ser rendimento. Esse rendimento permite ob-
encarada como um rendimento – ação cer- servação, graduação, medida. Tudo que
ta para efeito certo – podendo ser caracte- existe, como observou alguém, existe em
rizada em séries quantitativas ou, afinal, certa quantidade, e pode, por isso, ser
numéricas. medido. Os mais altos valores humanos
Prevemos uma objeção. Dir-se-á que, admitem comparação, subordinação, hie-
para os fins meramente instrutivos ou de rarquia. Ou admitiremos séries contínuas
transmissão da cultura literária e científica, de suas expressões, que poderão ser
sim. Não para os objetivos cívicos, morais, verificadas no indivíduo, confrontando com
estéticos, aqueles que sejam do domínio o grupo, como rendimento, ou só teremos
dos valores chamados “absolutos”. Como para orientação no trabalho educativo o
aplicar a noção de quantidade a valores tais arbítrio e a fantasia...
como bondade, honradez, espírito de soli-
dariedade, patriotismo?...
A objeção é apenas aparente. Ou ad- O problema em equação
mitimos que a conquista desses valores ple-
namente se realizem no educando, ou os Talvez tenhamos precipitado algumas
teremos negado de todo. Se se realizam, considerações de ordem técnica. Não im-
poderemos concebê-los, embora ainda em porta. Por elas aludimos a todos os termos
termos de qualidade, como séries progres- do problema, que agora pode ser posto
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sivas. Teremos, assim, categorias discretas. em equação.


Indicados os valores dessas “qualidades”, Por estatística, como vimos, há de en-
como os estamos chamando, no eixo das tender-se tanto o resultado de contagem,
abcissas, e distribuídos os indivíduos, que cadastro, recenseamento, – a expressão
ocupem cada intervalo, segundo diferentes tabular de observações ordenadas, – como
atributos, um de cada vez, veremos que, o método de interpretação que a esses
sem dificuldade, a série qualitativa se re- mesmos resultados se possam aplicar pela
solverá numa série quantitativa. No caso dos elaboração matemática.
valores morais, tudo o mais sendo constan- Por educação, significamos tanto o fe-
te, e ordenadas as freqüências pela idade nômeno geral da influência de umas gera-
dos indivíduos, veremos que os famosos ções sobre outras, no seu aspecto mais
valores absolutos se resolvem numa série amplo, como o fato particular da ação de
temporal e, portanto, de quantidade. O pró- métodos ou processos, sobre um só e
prio senso comum não pede aos infantes, mesmo indivíduo, observado em seu ren-
ou aos meninos, que apresentem o mes- dimento, dentro de prazo determinado.

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Temos, assim, a rigor, não só dois ter- descrição e na sua caracterização, depois
mos, mas quatro, pelo desdobramento dos na sua interpretação. E, se dessa interpre-
que, inicialmente, tivemos em vista: tação, resultar a conclusão de interdepen-
a) estatística, como apresentação or- dência dos fatos, a estatística passa a for-
denada de fatos, conjunto de realidades a necer também os elementos de mais sa-
ser descrita ou apreciada como um todo; dia e justa direção dos grupos sociais ou
b) estatística, como método de análi- dos povos.
se e interpretação; Não pretendemos chegar a dizer que
c) educação, como fenômeno coletivo; estatística e política possam confundir-se.
Mas o estudo da influência da percepção
d) educação, como método de pro-
quantitativa dos fenômenos sociais nas
duzir um rendimento, ou técnica particu-
modernas tendências do Estado, ainda por
larizada.
fazer-se, demonstrará, sem dúvida, que
Como todo esquema, este é artificial.
uma e outra não podem mais desconhe-
Não há, na realidade, separação linear en-
cer-se.
tre os vários termos em que ele se desdo-
Em qualquer que seja o sistema polí-
bra. O método de interpretação estatística
tico, cuida hoje o Estado da educação, e
não teria objeto sem o material a ser inter-
nesse trabalho, há de ser servido pelas in-
pretado; e, esse material, para atender aos
formações numéricas. A própria estatísti-
fins de interpretação, pode e deve ser co-
ca tem demonstrado que a educação não
lhido, segundo um plano assentado. Por
deve ser compreendida como um direito,
sua vez, não há educação de massa sem
ou um dever do Estado, mas como função
a educação de numerosos indivíduos, e a
necessária ao grupo social para a sua es-
educação particular, em cada um destes,
tabilidade e desenvolvimento. As relações
é julgada, afinal de contas, pelas expres-
sões de educação média dos vários gru- de dependência entre fatos da educação
pos. Contudo, o esquema previsto pode e da economia, da educação e da ordem
servir a maior clareza da exposição, razão e segurança, da educação e do trabalho
por que o adotamos. são tão patentes, à luz dos dados estatísti-
cos, que neles se encontra a base para
esforço de racionalização, dantes desco-
nhecido.
A educação, um fenômeno de Admite-se hoje, com efeito, uma edu-
massa cação planejada, organizada, executada e
Como fenômeno coletivo, ou de mas- controlada no sentido dos fins sociais. A
sa, a educação só pode ser observada, planificação significa a relação entre um
descrita e definida, com os recursos da es- status presente e o status desejado e possí-
tatística. As novas gerações se concreti- vel ou, pelo menos, pensando como pos-
zam numa população, em que reconhe- sível. A organização deve servir à execu-
cemos atributos próprios, que tem uma ção, que propicie ou acelere a passagem
distribuição geográfica e que se discrimi- de um para outro estádio. A fase final de
na em grupos caracterizados segundo a verificação, ou controle, não é senão a con-
idade, o sexo, a raça, a cor. ferência daquilo que foi obtido, em face do
A observação e a condução dos fe- que se pretendia obter. Como atender a
esses diferentes passos sem o esclareci- R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998
nômenos gerais de massa cabem ao Es-
tado, e a educação não foge à regra, es- mento da quantidade a servir, da quanti-
pecialmente no Estado de base nacional, dade a trabalhar, da quantidade a verificar?
constituído e definido no decorrer do sé- É evidente que, como fenômeno políti-
culo passado. Por isso mesmo, nas formas co e, portanto, fenômeno de massa, a edu-
políticas modernas, a função da estatísti- cação só apresenta os seus verdadeiros
ca, historicamente nascida, como vimos, delineamentos, a sua marcha de execução
das necessidades e tendências do Esta- e os seus resultados, pela estatística.
do, agora se apresenta como fundamen- Dir-se-á que, nesta caracterização, há
tal na percepção dos fenômenos tipica- uma compreensão excessivamente mecâ-
mente coletivos. nica ou material. Dir-se-á que se supõe a
Todo problema político se apresenta organização, o governo e o aperfeiçoamen-
em sua origem, como um problema de to dos povos de maneira tão rígida como o
massa. Portanto, como um problema a que da produção fabril... Nesta, concede-se que
a estatística deve servir, primeiro, na sua haja uma padronização rigorosa, uma es-

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colha de matéria-prima sempre idêntica e oso pretender demonstrar a importância de
a aplicação de processos determinados e um serviço de estatística, perfeitamente or-
invariáveis... Mas, na educação?! Causa ganizado, em relação às coisas do ensino.
horror pensar na formação de homens “em Se, em qualquer outro ramo da administra-
série”, se a eles, na verdade, pudesse ca- ção, o cotejo e a interpretação de dados
ber o nome de homens... Uma educação numéricos oferecem subsídio de valor, para
planejada, à vista da estatística, não seria conveniente estudo do desenvolvimento e
a negação das mais altas tendências de reorganização dos serviços – no que
vida, da influência dos próprios bens da concerne ao trabalho das escolas, esses
cultura, que age e reage sobre os agrupa- dados se reputam de todo em todo impres-
mentos humanos, num sentido de liberda- cindíveis, não já para o estudo de reformas
de e de aperfeiçoamento?... mas para o equilíbrio do próprio sistema
Não confundamos as coisas. Pode- em vigor. Os diversos órgãos escolares têm
mos admitir uma educação em plano e que constituir, se deles quisermos trabalho
uma educação de plano. Uma, para ser- produtivo, um aparelho flexível, em cons-
vir àquele sentido de liberdade e de aper- tante reajustamento. Bastará atentar no ca-
feiçoamento, a que se aludiu; outra, para ráter de extensão, no espaço, e de conti-
atender às exigências de um Estado des- nuidade, no tempo, – característico do tra-
pótico. Negar a esta, como o negamos, balho escolar – e a exercer-se, ademais,
não será negar àquela, em que só se pede sobre clientela necessariamente móvel,
que os esforços de direção do grupo so- para que se tenha de reconhecer, como in-
cial sejam servidos por meios racionais. dispensável, a base numérica, ponto de
Na comparação do grupo social e da apoio para qualquer providência de boa
produção fabril, que a tanta gente horrori- administração”.
za, há, porém, um equívoco fácil de desfa- Aí atacávamos, de maneira sucinta, o
zer-se. A rígida padronização fabril, que problema, confrontando os dois primeiros ter-
lhes serve de argumento, é, na verdade, mos do esquema estatístico – resultado =
mais ilusória que real. Não permanecem educação – fenômeno de massa. E a com-
as fábricas que continuem a produzir os provação do que afirmávamos dava-a a pró-
tipos de 1890, os de 1900, os de 1910; e, pria história do ensino paulista. Em 1920, sen-
em relação a certas utilidades, mesmo os do diretor de Instrução Pública o Dr. A. de
de 1930... Ainda na produção material, Sampaio Dória, procedeu-se ao levantamen-
admite-se a flexibilidade e a pronta adap- to da população escolar de todo o Estado. O
tabilidade do aparelho que produz às exi- censo apurou o total de 656.114 crianças de
gências do consumo, criadas pelas novas 6 a 12 anos. Das de 7 a 12, 74% não sabiam
necessidades e possibilidades de vida. As ler; 275 mil freqüentavam escolas; 370 mil não
grandes indústrias não apenas fabricam, o faziam, isto é, cerca de 64%.
mas investigam, e analisam, e readaptam A leitura dos documentos oficiais, an-
constantemente a sua produção. Para isso, teriores a essa época, e posteriores a ela,
servem-se ainda e sempre dos recursos demonstra, sem sombra de dúvida, que a
da estatística, únicos pelos quais podem simples apuração numérica, que então se
organizar uma produção em plano, como fez, não só veio permitir numerosas provi-
o Estado pode estabelecer um sistema de dências relativas à melhor localização de
R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998

educação, que sirva às tendências e ne- escolas – mas, o que mais importa, em re-
cessidades reais do povo, numa concep- lação ao que vimos afirmando aqui – havia
ção de permanente reconstrução. de dar novos rumos à política educacional
De fato, se as realidades variam e, em do Estado.
relação a elas, deve variar o rendimento O movimento pró-ensino rural nasceu
educativo, por que meios se deverão ve- daí. Pela Lei 1.750, de dezembro de 1920,
rificar as variações do plano existente, se- de uma só vez, criaram-se duas mil esco-
não à vista dos recursos estatísticos? las rurais, a serem distribuídas de acordo
Não seria preciso mais para demons- com os resultados do censo então levanta-
trar que a educação, considerada como do. Que essa política foi acertada, e que
um fenômeno de massa, só pode ser or- está produzindo benéficos efeitos, é ainda
ganizada com esses recursos. Escreven- a própria estatística – “expressão de resul-
do a introdução do volume Estatística Es- tados” – que nos afirma. A taxa de crianças
colar do Estado de São Paulo, referente de 6 a 12 anos, que em 1920 não sabiam
ao ano de 1930, observamos: “Seria oci- ler, se exprimia no percento 74. A taxa de

67
crianças de idade de 7 a 13 anos, em igual-
dade de condições, verificada pelo recen-
seamento de 1934, se exprime na casa dos
36%. Não freqüentavam escolas, em 1920, No entretanto, foi realizado, com exatidão
64% das crianças em idade escolar. Não e presteza. Seu primeiro resultado foi de
as freqüentavam, em 1934, apenas cerca prodigioso efeito moral. Uma reforma de
de 38%. O percento de analfabetos des- ensino é uma reforma de costumes, que
ce, em 14 anos, de 74 para 36. A freqüên- não pode ser feita por um homem só, ou
cia se eleva de 36% para 62%. só pelos jovens. Era necessário acordar o
Simples resultado do crescimento povo! E isso se deu: levantou, por toda a
econômico natural do Estado? Tais fato- parte, o nível do interesse pelo ensino, in-
res deverão ser levados em linha de con- corporou à psicologia popular alguma coi-
ta, por certo, para explicação da “rapidez sa de novo e de salutar. Fez, por si, meta-
de da reforma. Elevou rapidamente a ma-
de evolução”, apenas. Se, no entanto, pro-
trícula nas escolas, porque muitos pais to-
curamos apurar se outras circunscrições maram o recenseamento como matrícula
políticas elevaram, no mesmo período, a compulsória. Acordou as corporações mu-
potência de seu aparelho de educação, na nicipais, que, aterradas com as cifras de
mesma proporção do crescimento econô- analfabetos que lhes foram postas diante
mico, verificaremos que não. E por que dos olhos, criaram numerosas escolas pri-
não?... Porque o resultado de educação márias. Mas, não foi só. Em vista da exis-
de um povo não é apenas expressão do tência de uma só escola normal no Esta-
que produza economicamente. É resulta- do, funcionando em Fortaleza, a metade
do também de uma política. Quando essa das escolas primárias do Estado tem es-
política se esclarece, pela estatística, como tado sempre localizada numa pequena
é patente no caso de São Paulo, os resul- faixa de território cearense. Ajudada pelo
favoritismo político, essa tendência havia
tados, transcorrido pouco mais de um de-
tomado proporções assustadoras. Mas os
cênio, atestam o que podem os números dados do cadastro impuseram uma revi-
sobre a ação dos homens – isto é, o que são da localização das escolas, que foi co-
podem as realidades expressas em rela- rajosamente iniciada e prossegue sem em-
ções tangíveis e suscetíveis de aplicação. baraços.
Diríeis que é um exemplo isolado e ex-
cepcional, num Estado rico. Pois tomemos Por estes comentários se verifica que
um Estado em condições bem diversas, o uma nova política de educação resultou
Ceará. Em 1922, procedeu-se aí também a como efeito do recenseamento escolar. Em
um recenseamento ou cadastro escolar. fins de 1923, isto é, dois anos depois a taxa
A matrícula encontrada, em fins de de crianças sem escolas descia de 88%
1921, era de 19.360 alunos, para uma po- para 78%. A matrícula se havia elevado de
pulação escolar de 161.572 crianças de 6 19 mil para 36 mil. Em 1928, estimada a
a 12 anos. Isto é, freqüentavam escolas população escolar em cerca de 180 mil cri-
12%. Não as freqüentavam 88%. anças, à vista dos dados demográficos (e
No Almanaque do Ceará, estatístico, não mais em 161 mil, que era o de 1922),
administrativo, mercantil, industrial e literá- verifica-se que a taxa de crianças sem es-
rio, para o ano de 1924, consta, à página colas havia recuado do percento 88 para
o de 70. R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998
370, este trecho de um estudo do Sr.
Newton Craveiro, inspetor escolar: Tomamos esse período, não só por-
que tivemos dele dados à mão, como
Empreendeu-se o serviço que se veio cha- porque, pelo confronto da estatística ge-
mar de Cadastro Escolar. Em um balanço ral de todo o país, verifica-se que o cres-
geral da situação: 1) o recenseamento de cimento global se deu em proporção
todas as crianças do Estado, de 6 a 12 muito mais reduzida. Outros fatores teri-
anos; 2) a inscrição de auxílios possíveis am agido, certamente, para o aumento
das prefeituras e particulares à localização
de potência do aparelho de educação do
de escolas já existentes, ou novas; 3) ba-
lanço do material escolar existente, e de Ceará. Mas o que parece indiscutível é
que não havia arrolamento; 4) uma que os recursos da estatística permitiram
enquete entre chefes de família, sobre ho- inaugurar uma nova política educacional,
rários, regime de férias e outras questões de efeitos salutares.
de caráter local. O trabalho era enorme e, Outro exemplo de recenseamento es-
na sua realização, poucos acreditavam. colar, que ofereceu bases para grandes

68
transformações de política e de organiza- res, seria o arcabouço amplo a que se
ção, pode ser apontado, ainda, no que deve subordinar a localização de qualquer
foi realizado em 1927, nesta capital, sen- edifício escolar da cidade.
do diretor da Instrução Pública o Dr. Trata-se aí, evidentemente, de um pro-
Fernando de Azevedo. Nesse ano, a po- blema específico das grandes cidades, no
pulação infantil do Distrito Federal era de tocante à organização escolar. O problema
114 mil crianças, e a matrícula, nas esco- não envolvia, para solução, apenas o estu-
las, de 66 mil, isto é, 58% da população do do status presente, mas exigia, como
em idade escolar, de 7 a 12 anos. foi feito, o cálculo de previsão. Julgamos,
Em 1934, aquela população podia ser no entanto, que poderia ser aqui citado, por-
estimada em 142 mil crianças, conforme que, de início, exigia encarar a educação,
os cálculos realizados pelo Dr. J. P. como problema de massa.
Fontenelle e baseados nos dados de nas- Ainda no mesmo relatório, o Dr. Anísio
cimentos e óbitos ocorridos no período Teixeira esboça um estudo do financiamen-
em apreço. A matrícula subira a 110 mil, to da educação pública, sempre, necessa-
recuando assim o percento de crianças riamente, com o apoio de dados da esta-
fora das escolas de 42 para 23. tística.
Dos dados do recenseamento aludi- Os exemplos, até agora citados, são de
do, como das estimativas progressivas, re- ordem local ou regional. Poderíamos aludir,
alizadas cada ano pela Divisão de Esta- agora, a um formoso estudo de caráter na-
tística e Obrigatoriedade Escolar, serviu- cional e que todos conheceis, por certo, tal
se o Dr. Anísio Teixeira, quando diretor do o interesse que, a todos nós, a sua leitura e
Departamento de Educação, para provi- reflexão oferecem. Referimo-nos ao livro “O
dências de grande melhoria nos serviços que dizem os números sobre o ensino pri-
do ensino. Dessas providências, deseja- mário”, de nosso preclaro mestre, Dr. Teixeira
mos salientar apenas uma, apoiada em de Freitas. E que pode ser reputado, sem
dados estatísticos e permitindo, por ela, exagero, dos mais perfeitos estudos do gê-
larga previsão. É a que se refere ao Plano nero, já realizados em qualquer país, em
Regulador das Construções Escolares. idênticas condições do nosso.
Diz ele próprio, à página 196 de seu rela- É pela estatística, e tão-somente por
tório publicado em 1935: ela, encarando os problemas de massa,
que o Dr. Teixeira de Freitas nos demons-
Depois de laboriosos estudos estatísti-
tra que a impressão de relativo desenvolvi-
cos – chegamos à conclusão que só po-
dem ser postos em dúvida como inferio-
mento da educação popular, nos últimos
res à realidade, em relação à população anos, é menos justificada do que possa
escolar do Rio de Janeiro, sua distribui- parecer a um exame superficial dos fatos.
ção e seu crescimento. Por esses estu- Esse trabalho demonstra que o nosso apa-
dos se verifica que a população escolar relhamento de educação primária, sobre
de 6 a 12 anos, pelos cálculos mínimos ser deficiente, para as necessidades da po-
de previsão, será em 1942, de 320 mil. pulação escolar, o que não surpreende a
Temos, pois 29.160 alunos; desses pré- ninguém – é também muito mais ineficiente,
dios só podiam ser conservados, como quanto à sua produção, do que vulgarmen-
R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998

se achavam, 12, com uma capacidade te se imagina.


para 10.240 alunos. Depois de feitas to- Em 1932, tínhamos apenas uma uni-
das as ampliações, reformas e recons- dade escolar para cada 325 km². Uma só
truções dos prédios existentes, chega- escola para cada 1.421 habitantes. Para
remos a possuir 41, com capacidade cada 100 alunos, de matrícula geral, ape-
para 42 mil alunos. Tornava-se necessá- nas 69, freqüentes. Para cada 100 freqüen-
ria a construção de 74 prédios novos tes, apenas 47 aprovados. E, o que mais
para abrigarem a população escolar de impressiona ainda: para cada centena de
156 mil alunos, etc... alunos aprovados, apenas oito chegavam
ao fim do curso. A queda da matrícula, do
E conclui, mais adiante: 1º ano para os demais do curso, apresen-
Esse plano, baseado na distribuição e ta-se como alarmante. Do 1º para o 2º, re-
tendências de crescimento da popula- duz-se a menos de metade. Do 1º para o
ção do Rio de Janeiro e, no princípio, 3º, a um quinto... A taxa geral de reprova-
geralmente adotado, por mais econômi- ções traz-nos o mesmo sobressalto. Ape-
co, das grandes concentrações escola- nas 35% dos alunos freqüentes logram
69
aprovação do 1º para o 2º ano; menos de comarcas e das cidades e vilas delas, que
50%, do 2º para o 3º, ou do 3º para o 4º... podem constituir uns centros, nos quais
De par com a deficiência, a ineficiência os meninos e estudantes das povoações
comprovada. E, como muito bem esclare- circunvizinhas possam ir instruir-se...
ce o prezado mestre, estes últimos dados Estatística, como se vê, em séries es-
denunciam dois fenômenos de maior gra- paciais, ou geográficas, para boa adminis-
vidade: “perda de substância”, denuncia- tração. Mas previa-se também a verifica-
da pela queda de matrícula, de ano a ano, ção do trabalho das escolas, pois que, no
e “baixa tensão vital”, demonstrada pela mesmo alvará, se lê pouco adiante:
taxa ínfima das aprovações. III – que todos os sobreditos professores
O livro, a que nos referimos, é um pre- subordinados à mesa sejam obrigados a
cioso documento do valor da estatística mandarem a ela, no fim de cada ano leti-
para exame não só da realidade presente, vo, as relações de todos a cada um dos
como das tendências profundas que a po- seus respectivos discípulos, dando conta
dem explicar. E permite, como o faz o Dr. dos progressos e morigeração deles...
Teixeira de Freitas, nos capítulos finais do Em maio de 1823, é agora a Assem-
livro, traçar um plano de correção, isto é, bléia Geral Constituinte e Legislativa que
uma nova política, de que deverá decorrer se manifesta:
uma nova organização escolar. A Assembléia Geral Constituinte e
Com relação ao âmbito nacional, po- Legislativa do Brasil manda participar ao
deríamos fazer menção ainda aos traba- governo que precisa, para o acerto de
lhos de Frota Pessoa, de Júlio Nogueira, providências relativas à instrução públi-
de Deodato e Buchler, e de Osvaldo Orico, ca, que lhe sejam transmitidas as conve-
apresentados à Academia Brasileira de Le- nientes informações sobre as escolas e
estabelecimentos literários que há nesta
tras, sobre o melhor modo de divulgar o
Corte e em todas as províncias deste
ensino primário no país (Prêmio Francis- Império. O que V. Exª (o pedido era diri-
co Alves). Todos não desdenham o valor gido ao Ministro do Império) levará ao co-
das cifras. Mas se debatem no esforço de nhecimento de S. M. o Imperador.
encontrá-las, pois que foram compostos Na memória apresentada, no mesmo
antes de 1932, ou seja, antes do Convê- ano, à Assembléia, pelo deputado Martim
nio Interestadual de Estatísticas Escolares. Francisco, traçando o programa dos estu-
Até esse ano, a comprovação do va- dos de 2º grau, pede ele que “o ensino
lor da estatística, no que diga respeito ao das matemáticas seja também aplicado
planejamento e organização da educação, aos cálculos de aritmética política, espe-
pode ser feita pela negativa. Não será exa- cialmente da estatística...” (textual).
gero dizer-se que a despreocupação dos Mas a situação da falta de dados nu-
problemas de ensino primário, até essa méricos ainda assim devia persistir. Dis-
época, como obra nacional, se deve, na cutindo-se, três anos mais tarde, um pla-
maior parte, à falta de levantamentos es- no de reforma de ensino apresentado pela
tatísticos periódicos, que viessem atestar Comissão de Instrução, o deputado
o andamento excessivamente vagaroso do Ferreira de Melo responde a objeções de
desenvolvimento geral dos sistemas esco- seu colega Cunha Barbosa, dizendo:
lares estaduais.
R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998
“Uma das dificuldades que teve a comis-
Não que a necessidade da estatística são para organizar o projeto foi fixar uma
não viesse sendo sentida, de muito. Já no base que servisse para as escolas. Sem
alvará de 6 de novembro de 1772, sobre a estatística do Império, com uma popula-
reforma do ensino elementar, escrevia-se: ção derramada pela sua superfície, como
...sendo para a consideração de todo o fincar uma base por freqüência?”
referido, formado, debaixo de minhas re- Vamos adiante. Anexo ao relatório do
ais ordens, pelos corógrafos peritos que, ministro do Império, no ano de 1855, figu-
para este efeito nomeei, um Plano e Cál- ra o relatório do Inspetor Geral da Instru-
culo geral e particular de todas e cada
ção Pública, o Conselheiro Eusébio de
uma das Comarcas dos meus reinos e
do número de habitantes delas, que por Queiroz Coutinho Matoso da Câmara. E
um regular e prudente arbítrio podem há neste documento, o seguinte trecho ex-
gozar o benefício das escolas menores, pressivo:
com os sobreditos respeitos; e sendo ... é conveniente que um estudo compa-
pelo sobredito Plano regulado o número rativo nos venha demonstrar com fatos
de mestres necessários em cada uma das positivos e documentos irrecusáveis
70
quais os resultados obtidos... Há uma permitam julgar de fases de adaptação
grande vantagem das Províncias conhe- crescente ao meio social, ou aos comple-
cerem o que se tem feito nas outras e no xos de cultura.
Município da Corte, sobre a Instrução. Para que os efeitos de processos
Infelizmente, os dados remetidos pelos educativos, quaisquer que sejam, possam
presidentes não satisfazem o pensamen-
ser apreciados, faz-se mister caracterizar o
to da reforma de 1854. No nosso país
ainda não se compreendeu bem o papel
indivíduo, objetivamente, em relação ao atri-
da estatística e poucos sabem das suas buto, sobre o qual se presume que o pro-
condições e exigências. cesso educação vá influir. Por outras pala-
vras, faz-se necessário medir esse atributo.
Em 1861, o mesmo Inspetor faz re- Em período posterior, repetir-se-á a medi-
clamação idêntica. E o Ministro José An- da, nas mesmas condições, tendo-se, por
tônio Saraiva o secunda, com veemência: diferença o rendimento que a ação educa-
Não tem sido até hoje possível, apesar tiva deve ter produzido, deduzidas as dife-
das recomendações reiteradas do gover- renças que possam ocorrer por simples de-
no, habilitar-se a Inspetoria Geral da Ins- senvolvimento natural.
trução Primária e Secundária da Corte Para exemplificar. Podem certos pro-
com as informações precisas para a or- cessos de educação física concorrer para
ganização de uma estatística exata do a elevação da estatura humana? Se as me-
estudo destes ramos do ensino em todo didas se procedem em período de cresci-
o Império, como preceitua o regulamen- mento natural (infância ou adolescência)
to de 1854. Os esclarecimentos que de-
será necessário levar em conta esse fator.
vem ser remetidos das Províncias dei-
Só a diferença, que exceder das normas
xam muitas vezes de ser enviados, ou
não o são a tempo de poderem servir do crescimento natural, deverá ser licita-
para o fim a que se destinam. mente atribuída aos exercícios físicos con-
siderados.
Seria longo citar outros relatórios. A Como, porém, fixar as normas de cres-
queixa deveria atravessar o Império e al- cimento, idade a idade? A isso responde o
cançar a República... E a ausência de es- método estatístico, que consiste em deter-
tatística da educação explica, sem dúvi- minação do número, maior ou menor, de
da, muitos dos defeitos de nosso ensino. vezes que se repete cada qualidade dife-
Defeitos de política, defeitos de organiza- rente de coisa, ou cada qualidade diferen-
ção, ausência de controle. te de atributos de coisas. Obtidas as fre-
Problema de massa, a educação po- qüências em amostra suficiente, ressaltam
pular só se exprime, como realidade, em a condição típica de todo o grupo, traduzida
números. Tudo o mais, como já dizia David por um valor central representativo, o grau
Hume, pode ser levado à conta de falácia de diversidade dos indivíduos e o grau de
e de ilusão... simetria da distribuição dos indivíduos em
relação ao valor central típico.
Podemos, pois, em relação a um edu-
A educação, como técnica cando considerado, obtidas as normas de
sua idade, de sua classe, de seu grupo, en-
Resta-nos confrontar agora os dois fim, concluir, de modo objetivo quanto à sua
termos restantes, em que subdividimos as classificação. Podemos medi-lo, em relação
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relações possíveis entre a estatística e a ao atributo em apreço, inicialmente, para


educação. Isto é, educação, como técni- um diagnóstico; algum tempo depois, para
ca particularizada, e estatística encarada a verificação dos efeitos do processo
especialmente como fundamento das me- educativo, de que se tenha lançado mão.
didas biológicas, psicológicas e educaci- No caso de desenvolvimento físico, a
onais, para análise e pesquisas de natu- que aludimos, são notáveis os trabalhos do
reza mais delicada, na intimidade mesma Ministério da Educação do Japão, pelos
do processo educativo. quais se verifica que, realmente, conside-
A educação tem de ser encarada aí, radas todas as normas de crescimento na-
num primeiro aspecto, pelos seus efei- tural, os exercícios físicos têm elevado a es-
tos, como um rendimento ou produção. tatura dos japoneses, na adolescência e na
Esse rendimento será verificado pelas idade adulta.
variações de desenvolvimento do indi- O que foi dito em relação a um atributo
víduo (desenvolvimento físico, por exem- de tão fácil percepção – a estatura total –
plo), ou pelas variações de conduta que pode ser dito para todos os demais que
71
possam caracterizar um grupo, e o indiví- feito, neste particular, entre nós, seja a dos
duo dentro desse grupo: nível mental, ati- testes para a verificação da maturidade ne-
tudes ou capacidades especiais, nível de cessária à aprendizagem da leitura e es-
conhecimentos, de sociabilidade, de ca- crita.
pacidade artística, cívica, mesmo moral. Conforme uma experiência realizada
A respeito de cada um, a estatística em São Paulo, no ano de 1931, e depois
fornece à educação, antes de tudo, meios repetida aqui no Rio, como em outras ca-
de diagnóstico, normas para classificação pitais brasileiras, é possível reunir, em gru-
do material humano que recebe. Submeti- pos mais ou menos homogêneos, crian-
dos numerosos indivíduos a um mesmo ças que apresentem capacidade para rá-
método ou processo educativo, pelas di- pida aprendizagem da leitura, ou não.
ferenças de rendimento que viermos a ob- Com a aplicação de pequeninas provas,
servar nesse grupo, poderemos, com o que consomem dez minutos, em média,
mesmo auxílio da estatística, determinar para cada criança, pode-se determinar o
depois como os indivíduos se aproveita- que se convencionou o grau de maturida-
ram dele e em que grau aproveitaram. Isto de para essa aprendizagem. Tais provas
é, temos a possibilidade de medida objeti- foram aferidas estatisticamente, antes de
va do trabalho educativo, e conseqüente- seu emprego generalizado, e os resulta-
mente, da avaliação do próprio valor dos dos da seleção, traduzidos em maior ou
métodos em uso. menor rendimento dos diferentes grupos,
Pode-se estabelecer, com a aplicação foram também comprovados estatistica-
de normas de verificação ulterior ao traba- mente.
lho, um critério verdadeiramente técnico, Uma publicação resume essa investi-
quanto ao rendimento escolar. É essa gação, razão por que nos dispensamos
consciência técnica, em particular, que a de maiores considerações sobre o caso.
estatística vem trazer à intimidade do va- No entanto, queremos ainda salientar que,
lor didático. Sem ela, o professor poderá estatisticamente, se provou que a aplica-
ter uma atitude sentimental idealista, mes- ção do processo de seleção e agrupamen-
mo exaltada, em relação ao seu trabalho. to dos alunos produziu uma economia bas-
Mas, com essa atitude já não nos satisfa- tante sensível, traduzida na melhoria da
zemos mais em educação. O professor taxa de promoção. De fato, nos três anos
deve hoje também saber medir, saber ve- anteriores, nas mesmas escolas, a promo-
rificar o seu próprio trabalho e o valor dos ção. De fato, nos três anos anteriores, nas
processos que emprega. mesmas escolas, a promoção oscilou en-
E a medida escolar, porque se exerce tre 62% e 64%. No ano da organização se-
sobre fenômenos da mesma natureza dos letiva, de base estatística, subiu a 81%. Nos
da biologia, só pela estatística pode ser dois anos seguintes, não se tendo feito a
obtida, como vimos. Mas, não só no diag- seleção referida, baixou de novo, para a
nóstico pode intervir a medida. Também no classe percentual do triênio anterior.
prognóstico, cujas bases são também as Verificou-se, desse modo, que a ele-
pedidas ao método estatístico. Os níveis de vação da taxa de promoção, no ano de
desenvolvimento mental nos oferecem, para 1931, não ocorreu como flutuação devida
o estudo de determinadas disciplinas, em ao acaso, mas decorreu da aplicação de
certos graus, ao menos, índices seguros da uma medida que a estatística havia sanci- R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998

capacidade de aprendizagem. Podemos, onado.


assim, reunir numa mesma classe indiví- Ainda mais, verificou-se, ainda e
duos em que se prevê a mesma capaci- sempre com o auxílio do método estatís-
dade de aprender, para benefício do tra- tico, pelos coeficientes de associação e
balho coletivo, economia de tempo e de de correlação, que os alunos mais bem
energia. É a questão chamada das classes classificados nas provas eram os que re-
seletivas ou homogêneas. Várias experiên- almente aprendiam mais depressa. É um
cias brasileiras podem ser apontadas a este exemplo de como nos problemas de edu-
respeito, como as da Escola de Aperfeiço- cação não só se aplica a estatística de
amento Pedagógico, de Belo Horizonte, e variáveis, mas também a estatística de
as do Instituto de Educação, da Prefeitura atributos.
do Distrito Federal. Os índices de correlação encontra-
Acreditamos, porém, que a maior e dos em São Paulo e Belo Horizonte fo-
mais repetida experiência que já se tenha ram respectivamente de 0,75 ± 0,26 e de

72
0,61 ± 0,04. O coeficiente de associa- Conclusão
ção encontrado se assinalou como 0,92.
De acordo com a verificação empreen- Até há pouco, os planos e as práticas
dida nas escolas do Distrito Federal, pela da educação, por todo o mundo, viviam
Divisão de Medidas e Eficiência Escola- entregues ao domínio do arbítrio, da rotina
res, do Instituto de Pesquisas Educacio- ou da intuição.
nais, em 1933, a probabilidade de inde- Foi, sem dúvida alguma, com a ado-
pendência entre os resultados das pro- ção dos processos estatísticos, para defi-
vas e o da aprendizagem mostrou-se tão nição dos problemas de massa, e para aná-
reduzida como 5 centésimos milionési- lise dos problemas de técnica, que a edu-
mos por cento, o que é o mesmo que cação pôde inaugurar uma nova fase, ins-
dizer que a probabilidade de associação crevendo-se entre aquelas atividades hu-
se mostrou igual a 2 milhões para 1, de manas a que podem caber, no melhor sen-
ocorrer por acaso. tido, a designação de “técnicas”. Técnicas,
O sistema de medidas objetivas da porque capazes de verificarem as relações
capacidade dos alunos e do trabalho es- dos próprios fatos, que pretendem orientar
colar vem se generalizando por todo o e apreciar. Técnicas, porque capazes de ad-
país, sujeito, naturalmente, às imperfei- mitirem a noção de medida dos fenôme-
ções naturais de um novo e delicado ins- nos e a noção de pesquisa objetiva ou ci-
trumento, que exige capacidade e prepa- entífica e, na medida de suas conclusões,
ro técnico, pedagógico e estatístico. Mas a capacidade de previsão nos resultados.
por ele, já se inauguraram, no Distrito Fe- É certo que não se deve pensar que
deral, como em alguns Estados, novos e todos os problemas de educação sejam de
seguros caminhos à perfeição da técnica natureza técnica, e possam resolver-se, afi-
pedagógica. nal, no domínio do quantitativo. Ao lado de
Na verdade, todo trabalho educativo, uma técnica, deverá haver sempre uma po-
consistente, de um lado, em fenômenos lítica e uma filosofia de educação. Mas,
da mesma natureza dos biológicos, de mesmo a estas, a estatística pode e deve
outro, preso aos problemas sociais, care- servir, no esclarecimento de muitos de seus
ce, para sua interpretação inteligente, dos problemas e na proposição de novas ques-
recursos do método estatístico. O rendi- tões a serem cada dia consideradas.
mento do ensino aperfeiçoar-se-á à me- O político e o filósofo da educação ne-
dida que uma consciência técnica pene- cessitam de lembrar, ao menos, a declara-
trar na escola. E essa consciência técni- ção do manifesto do “Chartismo” inglês, da-
ca, que subentende a noção de função e tado de 1839: “A judicious man looks at
de dependência, exige, necessariamen- statistics not get knowledge but to save
te, relações quantitativas, que só o méto- himself from having ignorance foisted on
do estatístico pode oferecer. him...”

Manoel Bergstrom Lourenço Filho (1897-1970), educador, escritor e figura pública


de destaque na área educacional, foi diretor do Inep (à época, Instituto Nacional de
Estudos Pedagógicos), no período de 1938-1946.
R. bras. Est. pedag., Brasília, v.79, n.192, p.60-73, maio/ago. 1998

Abstract
The article comments on statistics evolution as a presentation of numerical registration
and as a procedure. It analyses education as a collective phenomenon and as a production
method of performance or particularized technique. It also defends that the use of statistics
contribute to great transformations in educational policy and organization, allowing to
determine how individuals utilize methods and educational processes, providing the
possibility of objective measures in educational work. In conclusion, the article states
that educational problems are not always derived from technical nature and that they
could be solved in a quantitative domain. However, statistics could and should serve to
clarify the various problems and for the proposal of new questions.

Key-Words: statistics; school statistical register; historical approach.

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