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CONTRACAPA

IOGA PARA A MENTE

IOGUE WILLIAM ZORN

Com uma clareza e uma simplicidade dignas dos mestres da Antiguidade, o iogue William Zorn oferece neste volume, ao leitor brasileiro, um valioso guia para o estudo das grandes verdades encerradas na literatura da Ioga. Apresenta ele aqui a essência da Raja Ioga, a ciência do controle da mente, e da Jnana Ioga, a ciência do conhecimento espiritual. Apresenta-as de maneira tal que permite ao leitor estabelecer regimes concretos, práticos para percorrer com êxito o caminho que leva à autocompreensão, à serenidade e à consecução dos ideais. IOGA PARA A MENTE interpreta e oferece em termos claros e práticos, os sutras mais importantes do Patanjali, bem como o essencial de Pranaiama, exercícios de concentração mental, meditações, disciplina iogue para a vida diária, Samadhi, os Upanishadas e o Bagavad Gita. O autor interpreta cada uma das grandes verdades filosóficas em termos ocidentais e traduz para a aplicação prática sua mais profunda significação, pelo que este é um livro que se recomenda particularmente a todos que tenham o espírito perturbado com concepções errôneas acerca de si mesmos e de seu lugar no mundo e queiram alcançar a plena realização de suas mais altas aspirações.

EDITORA PENSAMENTO

IOGUE WILLIAM ZORN

IOGA PARA A MENTE

Tratado de Ioga mental e filosófica escrito por um iogue ocidental

Tradução de

EUDALIZA DARÉ RABELLO

e

MÁRCIO PUGLIES

escrito por um iogue ocidental Tradução de EUDALIZA DARÉ RABELLO e MÁRCIO PUGLIES EDITORA PENSAMENTO SÃO

EDITORA PENSAMENTO SÃO PAULO

SUMARIO

CAPÍTULO I - ACERCA DA IOGA MENTAL INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I - ACERCA DA IOGA MENTAL INTRODUÇÃO

7

7

OS ENSINAMENTOS DA IOGA 7

O MISTÉRIO DO HOMEM 8

QUE SOMOS NOS? 9

IOGA MENTAL

10

AO ESTUDANTE

11

CAPÍTULO II - OS SUTRAS IOGUES DE PATANJALI

13

OS SUTRAS IOGUES DE PATANJALI

13

CAPÍTULO III - A IOGA FÍSICA COMO PREPARAÇÃO

24

A POSTURA DE RELAXAMENTO TOTAL (SAVASANA)

24

A POSTURA FÁCIL (SUKHASANA) 25

A POSTURA DO RAIO (VAJRASANA)

25

RESPIRAÇÃO ABDOMINAL

25

A

RESPIRAÇÃO COMPLETA

26

CAPÍTULO IV - PRANAYAMA (RESPIRAÇÃO IOGUE)

27

RESPIRAÇÃO RÍTMICA

27

RESPIRAÇÃO

ALTERNADA

28

RESPIRAÇÃO DO SOL (SURYA BHEDANA) 28

28

RESPIRAÇÃO SIBILANTE (SITKARI) 29

RESPIRAÇÃO VITORIOSA (UJJAYI)

RESPIRAÇÃO REFRESCANTE (SITALI)

29

RESPIRAÇÃO DO FOLE (BHASTRIKA)

29

RESPIRAÇÃO DE SONS INTERIORES (BHRAMARI)

29

RESPIRAÇÃO DE DESFALECIMENTO (MURCHHA)

29

CAPÍTULO V - CONCENTRAÇÃO E EXERCÍCIOS MENTAIS

31

EXERCÍCIOS MENTAIS

32

TRATAKA

33

VISUALIZAÇÃO 33

VIAJANDO A UM LUGAR DISTANTE 33

34

OUVINDO O TIQUE-TAQUE DE UM RELÓGIO 34

34

OBSERVAÇÃO

CONTANDO BENÇÃOS

PENSANDO NUM OBJETO E EM SUAS ASSOCIAÇÕES

34

OBSERVAÇÃO DO PENSAMENTO

35

DIMINUINDO A ATIVIDADE MENTAL

35

SUPRESSÃO DE PENSAMENTOS

35

CONCENTRAÇÃO NA RESPIRAÇÃO

36

RESPIRAÇÃO CALMA

36

CONTANDO RESPIRAÇÕES

36

DIRIGINDO O FLUXO DA RESPIRAÇÃO

36

RESPIRAÇÃO

PRÂNICA

37

SENTINDO MAIS CALOR OU FRIO

37

CUIDANDO DO PLEXO SOLAR

37

A

RESPIRAÇÃO POSITIVA

37

EXPELINDO CARACTERÍSTICAS INDESEJÁVEIS

38

REFLEXÕES NO FINAL DO DIA

38

RECORDAÇÕES

38

REVIVENDO PASSADAS EXPERIÊNCIAS

39

DESCOBRINDO O LADO BOM DE UMA OCORRÊNCIA

39

PENSANDO EM ALGUÉM DE QUE VOCÊ NÃO GOSTA

40

PENSANDO EM ALGO DE QUE DESGOSTE

40

AUMENTANDO O TAMANHO DO CORPO

40

DIMINUINDO O TAMANHO DO CORPO

41

FLUTUANDO NO AR

41

ENCHENDO O CORPO COM AGUA

41

CONSCIENTIZAÇÃO DAS DIFERENTES PARTES DO CORPO

41

O

LOTUS NO CORAÇÃO

42

MANTRAS

42

DESPERTANDO KUNDALINI

43

CONCENTRAÇÃO NO CENTRO DE COMANDO

44

MANIPULAÇÃO BINDU

45

 

NADA

BANDHA

45

CAPÍTULO VI - A DISCIPLINA IOGUE NA VIDA DIÁRIA

46

CAPÍTULO VII – MEDITAÇÃO

49

MEDITAÇÃO EM OM

50

MEDITAÇÃO SOBRE A UNIDADE

50

EU SOU

51

MEDITAÇÃO SUPRAMENTAL

51

CAPÍTULO VIII – SAMADHI

52

CAPÍTULO IX - A HERANÇA SAGRADA DA ÍNDIA

53

CAPÍTULO X - OS UPANISHADS

59

KATHA UPANISHAD

60

ISA UPANISHAD

63

KENA UPANISHAD

63

PRASNA UPANISHAD

64

MUNDAKA UPANISHAD

66

AITAREYA UPANISHAD

67

CHANDOGYA UPANISHAD

69

BRIHADARANYAKA UPANISHAD

74

KAIVALYA UPANISHAD

77

PAINGALA UPANISHAD

77

CAPÍTULO XI - O BHAGAVAD GITA

79

O BHAGAVAD GITA

80

CAPÍTULO XII - INTEGRAÇÃO

90

Leia também

92

CAPÍTULO I - ACERCA DA IOGA MENTAL

INTRODUÇÃO

A mente humana tem sido o objeto de minudentes estudos durante vários séculos.

Através das eras, diversos pontos de vista foram expostos relativamente à existência, inter-relações, e à verdadeira natureza da mente. Há muitas maravilhas e mistérios no universo, mas dentre todos, talvez nenhum tão maravilhoso e mais misterioso que a mente humana. Já passou o tempo em que a Ioga era vista no Ocidente como algo praticado apenas por faquires hindus que pareciam deliciar-se caminhando sobre brasas, bebendo

veneno, e reclinando-se em camas de pregos. Esta noção mal compreendida gradualmente foi superada por um crescente fluxo de literatura iogue objetiva, e através dos esforços dedicados daqueles que por si mesmos derivaram grandes benefícios da prática da Ioga e ansiavam por compartilhar com outros sua sorte.

O aspecto da Ioga que goza de maior popularidade no Ocidente é a ciência da

Hatha-Ioga, o ramo da Ioga que trata do corpo físico. As posturas espetaculares

que alguns dos mais avançados expoentes podem executar apenas chamam a atenção. Logo foi descoberto por aqueles que experimentaram as técnicas da Hatha-Ioga que um aperfeiçoamento da saúde rapidamente se notava. O que não é tão conhecido presentemente é que a Ioga é algo mais do que um sistema heterodoxo de se conseguir boa saúde. Numa sociedade em que tanta importância se dá à juventude e sua correspondente boa aparência, e onde fazer dinheiro é visto como uma das empresas mais dignas de consideração, inevitável seria que em muitas circunstâncias a Ioga fosse comercializada. Realmente, por vezes, a Ioga já foi apresentada ao público apenas como um meio de obter beleza corporal, tendo como resultado que pessoas sérias voltaram as costas para o Ioga, como algo desprovido de profundidade. Estas pessoas podem surpreender-se ao verificar que a Ioga também inclui um completo programa de disciplina mental, e que repousa na mais antiga e sublime filosofia. Hatha-Ioga é apenas o começo da Ioga. A Ioga do corpo é tão-só uma preparação para a Ioga da mente. A maioria dos ocidentais inclina-se por acreditar, especialmente à luz da nascente popularidade da psicologia, que são as únicas autoridades em mente humana. Entretanto, há milhares de anos, os ascetas hindus já haviam explorado cuidadosamente a natureza interior do homem. Suas descobertas são hoje de valor incalculável para aqueles que estão desejosos de se familiarizar com seus ensinamentos, e que se sentem preparados para pô-los em prática. Aqui, desde já, chocamo-nos com uma diferença vital entre a psicologia ocidental e sua filosofia, de um lado, e a psicologia e a filosofia hindu, do outro. A primeira pode ser discutida numa poltrona, enquanto que a última deve ser praticada e vivida, para que possa ser inteiramente compreendida. De início, pode parecer surpreendente que as técnicas que evoluíram há tanto tempo ainda sejam válidas, na nossa era de descobertas científicas, e dos homens

e mulheres "modernos". Mas, verificando-se mais de perto, descobrir-se-á não ser tão estranho assim. Ainda somos, como nossos ancestrais, seres humanos. Ainda estamos, como aqueles que povoaram esta terra antes de nós, cogitando do que será a vida, e o que realmente somos.

OS ENSINAMENTOS DA IOGA

Para alguns,

este

é

o melhor dos mundos possíveis. Afanosa e alegremente

ocupados com

o

reino dos sentidos, não têm tempo para reflexão e busca

introspectiva. Para outros, porém, a sabedoria de nossas vias está aberta à questão. Alguns voltam-se para a religião, achando a paz mental e alegria na devoção a seu Deus. Outros procuram respostas às suas candentes dúvidas no

estudo da filosofia. Mas, para muitos, a religião e a filosofia ocidental são consideradas deficientes, pois, nesta era científica, os dogmas religiosos parecem dar origem a tantos problemas quantos resolvem, ao passo que a filosofia ocidental não oferece explicação inteiramente satisfatória para o fenômeno da vida. O homem moderno, em sua tentativa de superar um profundo sentimento de insegurança, e descobrir ou reter sua própria identidade, está em séria falta de uma filosofia que possa acomodar as descobertas da ciência e que também possa responder suas perguntas e ansiedades sobre sua própria natureza. Hoje, tal como fizemos em tempos passados, o homem exige uma filosofia para sua

vida. A Ioga sempre foi tal filosofia. Seus ensinamentos antigos podem justapor- se perfeitamente com as idéias hodiernas e modos de vida. Sua aplicação fornece ao praticante conhecimento e segurança, e prepara-o para todas as eventualidades. Torna-se tão forte em sua independência, que mesmo a ameaça do holocausto nuclear não consegue assustá-lo.

A Ioga, em seus aspectos mais elevados, fornece ao homem técnicas bem definidas

para conhecer e dominar a própria mente, bem como uma filosofia monista para sua reflexão. Como resultado desta disciplina mental e reflexão filosófica, o homem pode se tornar consciente da essência de seu ser. Neste processo, ele aumentará tanto sua força de vontade como sua força mental. Sobrepujará seus temores e ganhará confiança. Aprenderá a concentrar-se. Estabelecerá completo domínio de seus pensamentos, e despertará as potencialidades que lhe jazem latentes na mente. Além disso, desenvolverá uma apreciação muito mais profunda da vida, e encontrará um novo relacionamento com seu próximo.

A

Ioga pode ser praticada em qualquer lugar. Não é necessário certamente ir para

o

Himalaia e tornar-se eremita, assim como não é necessário visitar a Terra

Santa para tornar-se cristão. A Ioga nos ensina que a Verdade está dentro de nós. Não importa para onde se viaje, continua necessário olhar e procurar introspectivamente. A mente pode ser treinada em qualquer lugar. A sublime filosofia iogue pode ser alvo de meditação a qualquer hora. Os ensinamentos antigos foram-nos deixados graças aos ascetas hindus. Estes sábios encontraram a compreensão e a felicidade para si mesmos renunciando à vida mundana, retirando-se para as florestas, e contemplando profundamente o interior de suas próprias mentes. Tendo encontrado a chave da sabedoria, nas profundezas de suas almas, divisaram técnicas efetivas a serem seguidas, que permitiriam a outros fazerem as mesmas elevadas descobertas. Sua instrução podia ser seguida por quem quer que se desse a esse trabalho. As disciplinas iogues propostas pelos mestres antigos precisam ser encetadas voluntariamente. Ninguém pode ser forçado a fazer isto ou aquilo, também ninguém precisa aceitar algo que vá contra suas crenças ou arraigadas convicções. Os sábios hindus não estavam tentando impingir suas idéias a ninguém. "Eis o caminho", diziam. "Segue este caminho se tens a intenção de descobrir o que és". Há algo para todos, na Ioga. Algumas pessoas desejarão conformar-se a seus ensinamentos, tanto quanto o permitam as circunstâncias, sem realmente alterar seu modus vivendi. Haverá aqueles que encontrarão em suas leituras justamente aquilo que estavam procurando durante toda a vida. Pode até haver alguns poucos que encontrarão aqui, expresso nas palavras dos antigos sábios hindus, algo que eles mesmos já haviam encontrado. Homens e mulheres de todas as eras, raças e credos podem tirar proveito da Ioga. Os seus princípios são similares em muitos aspectos aos ideais cristãos que exerceram tão significativa influência na sociedade ocidental. Muito da Ioga pode, portanto, ser facilmente compreendido, e prontamente aceito pela maioria dos ocidentais. Além do que oferece individualmente ao discípulo, a Ioga proporciona um código de comportamento ético que, se aceito universalmente, ajudaria a tornar o mundo algo mais perfeito.

O MISTÉRIO DO HOMEM

A ciência nos fornece uma enorme quantidade de dados sobre o universo. Olhando

para os céus, com nosso recém--adquirido conhecimento, é-nos desculpável um

respeitoso silêncio. O universo parece estender-se ao infinito; se bem que tempo

e distância infinitos nos sejam incompreensíveis. Em momentos como esse, o homem

tende a considerar-se insignificante. Somos igualmente surpreendidos pelo átomo, infinitamente pequeno. Mas o homem, colhido, como parece, entre o macro e o microcosmo, tem um corpo engenhosamente constituído por incontáveis unidadezinhas. É-lhe concedido sentir, pensar, e arrazoar. Ele mesmo é uma das maiores maravilhas do universo.

O

que mantém a unidade do homem? Que é ele? Na procura de respostas como estas,

os

homens voltam-se para a religião e a filosofia. Alguns encontram na religião

resposta para todas as perguntas; outros, mais céticos, secamente rejeitam os dogmas religiosos. Podemos chegar pela filosofia a uma solução do mistério

a

humano? Pode um questionamento crítico levar à compreensão? A razão é infalível? Podemos, em última análise, saber de nossa natureza real? Podemos realmente vir

a

saber alguma coisa?

O

objeto da epistemologia, ou teoria do conhecimento, ocupou as mentes

filosóficas por milhares de anos. Em 500 a.C., os sofistas já duvidavam que

alguém pudesse realmente saber fosse o que fosse. Conseqüentemente, apresentaram uma doutrina de sucesso mundano, e ensinaram a seus discípulos a arte de influenciar pessoas. Desde então, do idealista Platão (427-347 a.C.) ao cético Hume (1711-1776) e prosseguindo até nossos dias, as mentes perquiridoras de muitos filósofos consideraram o assunto: Platão sustentava não podermos adquirir conhecimento através da aprendizagem, e que todo o conhecimento de formas e de universais já está em nossa mente. Outros pensavam que o homem apenas aprendia pelo contato com seu ambiente. Logo que um pensador apresentava um conceito plausível, alguém aparecia com uma crítica e hipótese substitutiva. Através do que poderíamos considerar uma regularidade monótona, teorias eram postuladas tão rapidamente quão refutadas. Será esta questão satisfatoriamente respondida algum

dia?

Os

grandes problemas da vida foram considerados também pelos filósofos hindus.

muito chegaram a respostas que explicavam plenamente a própria essência do

ser. Mais do que isso, inventaram métodos e técnicas através dos quais

posteriores pretendentes ao autoconhecimento poderiam também atingir suas metas. Esses conhecimentos antigos e estrangeiros podem, acaso, ser aplicados no Ocidente, onde vivemos em diferentes circunstâncias e onde estamos acostumados a modos de pensar diversos? Tem-se dito que Oriente e Ocidente jamais se encontrarão. Tal afirmação é verdadeira ou seria talvez uma falácia? Certa-mente não é verdadeira do ponto de vista oriental, pois, onde o Ocidente vê diversidade e conflito, o Oriente reconhece ser possível a unidade. O fato de os ensinamentos do Oriente poderem ser aplicados aqui, atualmente, tem sido comprovado por muitos homens e mulheres que hoje vivem na América e na Europa e que alcançaram, por meio da Ioga, sabedoria e felicidade verdadeiras e duradouras. Sócrates afirmou que o dever primeiro do homem é atender à injunção: "Conhece-te a ti mesmo". Sob julgamento em 399 a.C., sustentou que a vida destituída de exame não era digna de ser vivida. Essas declarações atravessaram os tempos. Ainda são da maior importância nos dias de hoje, em que o homem parece diminuído por suas próprias invenções científicas e pelos riscos, sendo reduzido a um mero número num mundo de computadores. Seus frenéticos esforços para deixar uma marca

no ambiente físico ameaçam o homem com o perigo da perda de sua mais preciosa

posse : a própria identidade. Podemos bem indagar qual o proveito do espetacular progresso científico se no fundo permanecemos inseguros. "Qual o proveito de um homem se conquista o mundo todo e perde a própria alma?"

QUE SOMOS NOS?

René Descartes (1596-1650), o renomado matemático e filósofo francês, viveu numa era marcada por um contínuo e duro conflito entre os dogmas religiosos, de um lado, e conceitos filosóficos recentemente estabelecidos, do outro. Novas idéias começavam a desafiar velhas crenças firmemente estabelecidas. Muitas pessoas principiaram a questionar suas convicções e a se tornar céticas quanto ao pensamento tradicional. Nessa atmosfera de confusão e dúvida, Descartes buscou algo que fosse certo, um conceito que permanecesse inabalável diante de velhos

ou novos argumentos. Deixando Paris, retirou-se para a Holanda, onde começou a

reconsiderar tudo quanto sabia a fim de descobrir se restava algo que ainda

pudesse aceitar plenamente como conhecimento seguro:

Descartes logo descobriu que muitas de suas primitivas convicções fundavam-se em falsas crenças, as quais havia nutrido desde a juventude. Corajosamente decidiu banir da mente tudo que apresentasse alguma razão para dúvida, percebendo tão-- somente que isso incluía tudo quanto sabia. Finalmente, chegou ao único fato que podia considerar uma certeza absoluta: sua própria existência: Para expressar essa única certeza fundamental formulou a agora famosa divisa: Cogito, ergo sum ("Penso, logo existo"). Segundo Descartes, a verdade de sua proposição era clara

a todo o momento que a proferia ou nela refletia. Para que um pensamento

existisse, raciocinava ele, devia haver um pensador. Concordando ou não com a celebrada proposição cartesiana, a maioria dos homens

alimentaria pouca dúvida quanto ao fato de sua própria existência. Sentimos e sabemos certa-mente que somos. É a questão do que somos que faz nascer grandes problemas. Alguns materialistas tentaram explicar o homem como apenas um sistema de matéria orgânica, condicionado pelo meio e sujeito às leis do processo biológico. Tal visão estreita, certamente, não nos proporciona a imagem completa do fenômeno humano. Como se contemplássemos uma macieira no inverno e em seguida a definíssemos como um 'objeto estéril e nada mais! Tal visão árida e superficial omitiria a fragrância suave, as flores magníficas das quais a árvore estaria coberta na primavera, tanto como os deliciosos e saudáveis frutos que geraria — tudo isso seguramente fator importante em qualquer definição da macieira. A opinião materialista do homem, portanto, é altamente insatisfatória. Torna-o parecido a uma criatura desprovida de alma e de vontade livre — efetivamente nada mais que uma peça de maquinaria. Esse retrato pobre de imaginação não faz inteiramente jus ao homem. Onde nos ajustamos em seu indiscutível senso da própria existência? De que forma a imagem mecanicista explica sua capacidade introspectiva, como dá conta da profundidade dos sentimentos humanos, da intensidade das emoções? Onde encontrar, a partir dessa imagem, a origem dos nobres pensamentos do homem, os ideais elevados, as aspirações sublimes, a faculdade humana de agir sem egoísmo e de sacrifícios por amor, a capacidade de ser profundamente impressionado pela beleza e pela natureza, expressando todos esses sentimentos através da arte? Se pressentíssemos alguém à nossa porta e gritássemos "Quem é?", o visitante provavelmente responderia: "Sou eu!", acrescentando, talvez, como esclarecimento: "Jones!". No decurso de um único dia, dependendo das circunstâncias, essa mesma pessoa poderia sinceramente declarar-se : o pai de

Ruth

republicano

devaneios, ou à noite adormecido e em sonhos vividos, essa pessoa poderia

um arrojado piloto

claramente ver-se a si mesma como: um general triunfante

um um filósofo. Em seus

um americano

um franco-maçom

o irmão de Sônia

um homem de negócios

um texano

de corridas

um super-vendedor

um insinuante sedutor de inumeráveis

mulheres

um estadista mudando o curso da história. Suas experiências de

sonho ser-lhe-ão nesse momento tão reais quanto o são seus sentimentos acerca de

si próprio durante as horas de vigília.

Se tal pessoa se detivesse calmamente e se perguntasse a si mesma qual de todos esses rótulos lhe caracteriza a identidade real, teria que admitir que nenhum deles a defina precisa ou mesmo adequadamente; que todos eles representam apenas facetas parciais, superficiais. Tal ser humano sentiria que atrás desses fragmentos e panes existe algo mais duradouro, algo mais real. E através da prática da Ioga que o homem pode descobrir o que é essa parte de maior

significação do seu ser.

IOGA MENTAL

Este livro se ocupa de dois ramos da Ioga: Raja Ioga e Jnana Ioga. Devem ser estudados e praticados conjuntamente, em complementação mútua. A Raja Ioga, ou Ioga Real, é a ciência do controle da mente. Por meio da prática de suas técnicas o discípulo aprende a dominar a própria mente; uma vez que tenha finalmente obtido absoluto controle, poderá experimentar — em profunda

meditação — aquela centelha de Infinito dentro de si que é seu verdadeiro eu.

Jnana significa conhecimento espiritual, e é deste que se ocupa a Jnana Ioga, ou Ioga do Conhecimento.

O homem possui um princípio eterno dentro de seu ser — chamemo-lo "eu", "alma",

"psique", "espírito", "purusha" ou "atman" — esta é a afirmação dos sábios indianos. Foi através de prolongada introspecção que estabeleceram contato com esse eu infinito. Os métodos que empregaram são as técnicas iogues de

tranqüilização da mente. O único critério pelo qual é possível julgar a validade desses ensinamentos dos sábios hindus é a experiência pessoal: a "prova" de que

o eu existe e pode ser alcançado repousa na descoberta que cada indivíduo faça

de seu próprio eu. Ioga é o termo sânscrito para união. Deriva da raiz verbal yuj, que significa "emparelhar", "unir". Os vários ramos da Ioga são apenas

diferentes vias de acesso à mesma meta: integração com o Infinito. Na Raja Ioga

a mente é unida ao eu; na Jnana Ioga esse eu, que tão decididamente tem sido

considerado como pertencente ao homem, ou vice-versa, é unido ao Brahman, a Alma do Mundo. Enquanto a Jnana Ioga investiga a natureza do universo e da alma humana, considerando tal natureza idêntica, na Raja Ioga o eu é buscado e diretamente experimentado por meio da meditação intelectual transcendente. Na Raja Ioga o instrumento utilizado é a vontade e na Jnana Ioga o instrumento é o intelecto. Isso não significa, entretanto, que a Jnana Ioga constitui um acesso puramente intelectual. Os sábios estavam cientes que o intelecto tem suas limitações, que embora leve longe o pensador não pode levá-lo por todo o caminho. No fim é a mente serena que pode perceber com plenitude. Algumas pessoas se sentirão a princípio mais atraídas para a prática da disciplina mental, confiando na intuição preferivelmente ao intelecto. Outras reverenciam sua capacidade de pensar e se sentem irresistivelmente atraídas para o estudo da filosofia iogue. Podem-se seguir as próprias inclinações nos primeiros estágios do exercício, porém logo se descobre que para lograr sucesso na Raja Ioga ou na Jnana Ioga, ambas as matérias precisam ser praticadas e estudadas simultaneamente.

AO ESTUDANTE

Se você se decidir a empreender o estudo e a prática da Ioga, descobrirá um ponto decisivo em sua vida. Há muito a ganhar. Deve-se abordar a coisa decididamente. Aquele que tem fé triunfa. De início, poder-se-á não perceber

total-mente a magnificência do objetivo final — não é possível ainda apreciá-lo plenamente. Todavia, à medida que se progride fica-se cada vez mais ciente dele. Embora sua conquista definitiva possa parecer distante nessa fase, é mister lembrar que todas as jornadas longas começam com o primeiro passo. Portanto que se comece do começo. Em muitas das escrituras antigas, adverte-se ao discípulo que encontre um mestre particular, um guru. Tal coisa não é mais necessária. Devido ao fato de haver pouquíssimos livros e poucas pessoas capazes de ler, os ensinamentos sagrados foram comunicados oralmente por muitos séculos, sendo registrados em forma escrita somente depois de um milênio. Atualmente, quando tantos livros que contêm os clássicos são facilmente disponíveis, a necessidade dum mestre particular foi eliminada. A palavra escrita é o melhor dos gurus. Os grandes mestres nos falam diretamente através dos livros.

O exercício mental encerrado na Ioga terá por resultado a transformação da

personalidade. Considere-se, portanto, o efeito que isso pode acarretar às pessoas que lhe são próximas. O estudante da Ioga deveria viver harmoniosamente

com todos que o cercam e demais pessoas. Deveria evitar perturbar os outros. Não há um tempo estabelecido de prática que se exige. Para alguns o sucesso virá somente após longa luta, enquanto que para outros a realização poderá demorar menos. Depende muito do modo de vida anterior de cada um; uns se apresentam mais preparados do que outros.

O caminho que você está prestes a seguir foi organizado meticulosamente por

mestres do passado especialmente para você e seus semelhantes. Desde a antiguidade, milhares e milhares de pessoas trilharam o caminho. Muitos milhares de seres humanos o trilham mesmo agora, e um número incontável caminhará por

essa mesma estrada no porvir. A medida que você possa viajar, todos esses pretendentes estarão com você em espírito.

A investigação da Ioga pode ser vista como a escalada duma montanha que atinge

os céus. Uma vereda que conduz ao alto foi construída pelos grandes sábios, os quais deixaram sinais de orientação ao longo do caminho. De pé no vale, o alpinista em perspectiva contempla tomado de um misto de emoção e admiração o elevado cume que brilha alvo contra o céu azul. Alegremente, inicia a ascensão.

Logo descobre a existência de muitos obstáculos que devem ser vencidos. Amiúde,

a trilha apresentar-se-á abrupta e dominada por rochas. Todavia, não importa

como o viandante esteja equipado e quão difícil possa achar a subida, extrairá grande auxílio dos rumos deixados por aqueles que o antecederam. Se perseverar, alcançará finalmente, graças ao auxílio desses, o alto. Durante as caminhadas, poderá sentir-se fatigado e desejoso de sentar-se para repouso. Haverá vários pontos convenientes em que será possível descansar por algum tempo e ver a distância já percorrida. Isso lhe outorgará nova força e confiança. Descansado e disposto, levantar-se-á e empreenderá novamente a caminhada em direção a sua meta, aproximando-se desta a cada passo. Na atmosfera rarefeita das alturas respirará profundamente o ar puro. Do cume contemplará o panorama estendido abaixo de si como alguém que tudo conquistou. Aquele que conquista a Ioga é recebedor da maior das dádivas: possuirá profundo conhecimento espiritual e se livrará da noção errônea segundo a qual ele é um ente finito, só. Descobrirá que realmente é um ser absoluto, infinito.

CAPÍTULO II - OS SUTRAS IOGUES DE PATANJALI

Não se sabe ao certo quando viveu Patanjali, mas em geral se supõe que tenha

sido por volta de 300 ou 200 a.C. Nosso presente conhecimento de datas relativas

a acontecimentos e personalidades da história indiana remota é ainda bastante

vago. Três livros são atribuidos a Patanjali. Um constitui um trabalho de gramática, intitulado Patanjala Bhashya. Outro é Charaka, um trabalho de medicina.

Finalmente, há os Sutras da Ioga, ou Aforismos da Ioga, os quais constituem o manual de Raja Ioga. Os Sutras da Ioga são considerados como a mais alta autoridade no assunto e estão entre os mais importantes textos clássicos da literatura iogue. Numa série de aforismos extremamente condensados, quase duzentos ao todo, divididos em quatro capítulos, Patanjali explora a mente

humana e estabelece regras estritas para seu controle. Todavia, os aforismos, ou sutras, não representam fácil leitura. Deve-se compreender que além de ser um trabalho antiqüíssimo, escrito numa linguagem que contém palavras para as quais não temos equivalentes exatos, os Sutras da Ioga não são dirigidos a principiantes, porém mais àqueles já familiarizados com a Ioga.

O principal tema abordado por Patanjali é a técnica de controle da mente a ser

praticada por sadhakas, ou aspirantes, desejosos de auto-realização; mas seus ensinamentos a esse respeito são circundados por uma massa de especulações religiosas, metafísicas e do oculto. Neste livro, esses aforismos foram selecionados e organizados considerando-se o estudante interessado na prática efetiva. Evitaram-se complicações técnicas e problemas alheios ao nosso interesse, e cada sutra foi vazado em fraseologia moderna. Em tal apresentação o

estudante encontrará um programa objetivo e eficiente que conduz ao usufruto do controle perfeito e, finalmente, à conquista do estado super-consciente, de samadhi. Compete inteiramente a cada estudante determinar até que ponto deseja proceder a esse exercício mental. A ciência da Raja Ioga oferece um programa amplo, impossível de concluir com muita presteza. O estudante deverá ser hábil no domínio das técnicas mais simples antes de se preocupar com métodos mais avançados. A medida que caminhar na Ioga, sua mente se alargará e ele será capaz de fazer e compreender mais do que anteriormente julgava possível. Tendo em vista a exploração e o domínio da mente, o estudante deverá considerá- la meramente como outro órgão — pensar nela como um sexto sentido, diríamos. Deverá dizer a si mesmo que sua mente lhe está sujeita, que por meio da vontade poderá fazê-la obedecer a seu comando. No momento devido, será capaz de exercer completo domínio e controle sobre a mente, tal como "o auriga controla seus cavalos indóceis". O praticante da Ioga mental desde o início de seu treina-mento alcançará valiosos benefícios. Na vida cotidiana sua mente funcionará com maior eficiência. A prática das várias técnicas mentais levará a um completo atenuamento da tensão nervosa e à promoção da estabilidade emocional. E os benefícios não se restringirão à mente, pois a condição do sistema nervoso tem uma grande influência no corpo físico.

A Ioga pode transformar o estudante, mas somente pode fazê-lo para melhor, já

que estabelece os fundamentos duma personalidade verdadeira e permanente.

OS SUTRAS IOGUES DE PATANJALI

I,1 Agora segue-se uma exposição da Ioga.

O primeiro sutra é meramente uma introdução. No sutra seguinte, Patanjali dará

uma definição da Ioga a ser explicada.

I,2 Ioga é a ciência do controle das atividades mentais. Esclarece-se que a forma da Ioga que se vai ensinar é a Raja Ioga, a ciência do controle mental. O trabalho de Patanjali não é, em essência, filosófico.

Considera-se que o controle da mente foi atingido quando a mente pode ser contida pela vontade num estado de constrangimento, ou nirodha. Senhores dos próprios pensamentos e sentimentos, poderemos suspender a qualquer momento todas as atividades mentais conscientes e fazê-lo por qualquer espaço de tempo que se queira.

I,3 Aquele cuja mente está de todo serena torna-se ciente de sua verdadeira natureza. Neste sutra Patanjali indica tanto o propósito da Raja Ioga quanto o meio para que a meta seja atingida. A Raja Ioga é praticada com o fito de se descobrir e experimentar a própria natureza essencial. A técnica empregada é a da serenidade mental. Os sutras seguintes esclarecem como a absoluta serenidade da mente pode ser efetivada. Via de regra, a mente permanece ocupada com o registro da torrente constante de mensagens dos sentidos, com a observação dos múltiplos eventos que nos rodeiam de forma imediata e com o pensar de várias idéias. U'a mente de tal modo ativa não está em condições de se tornar ciente do que repousa além de si mesma. Apenas com a cessação de todas as funções mentais pode o espírito, que como ensina a Ioga é inerente ao homem, resplandecer. Isso acontecerá no último estágio da educação iogue, quando o estado superconsciente do samadhi foi alcançado. Numa analogia freqüentemente citada, a mente é comparada a um lago e os pensamentos na mente às ondas do lago. Quando a água se encontra agitada, não se pode ver o fundo do lago. Somente quando a água está perfeitamente tranqüila torna-se clara como cristal e apenas então o fundo do lago pode ser visto. O mesmo sucede com a mente. Como não se pode ver através da água agitada, do mesmo

modo não é passível ver o que está além do pensamento com uma mente carregada de pensamentos. Quando a mente serenou por completo, o homem pode tornar-se ciente

do que realmente ele é.

I,4 Enquanto a mente é ativa, o homem se identifica com sua mente. Quando o homem é agitado por seus sentimentos e emoções, vê tais sentimentos e emoções como algo bastante real. Para ele, representam a sua natureza essencial. Somente quando todas as atividades mentais são dominadas com sucesso o homem fica livre da teia dos sentidos, e só então pode penetrar além da mente.

I,12 0 controle mental é realizado pela abhyasa e pela vairagya. Abhyasa significa prática e vairagya é o termo sânscrito para desapego. Tanto abhyasa quanto vairagya, como já dissemos, são necessárias para se adquirir controle sobre a mente. São interdependentes; os dois métodos devem ser adotados a fim de se alcançar o fim almejado. Abhyasa e vairagya são mais explicitamente definidos nos sutras subseqüentes.

I,13 Abhyasa consiste no esforço persistente de reprimir as diferentes atividades mentais. Uma das condições necessárias para adquirir controle mental é restringir pensamentos e emoções. Quão profunda deve ser a tentativa, o enfatiza o sutra seguinte.

I,14 Após longa e ininterrupta batalha, a aplicação séria e devotada de abhyasa tornar-se-á um hábito estabelecido.

O controle da mente é uma tarefa de grande magnitude, comparada à qual a

obtenção de riqueza material ou fama mundana é uma brincadeira de crianças. A mente só pode ser controlada após longa e árdua batalha. Não é bastante praticar apenas um pouco por dia. Deve-se tentar controlar os pensamentos em todas as oportunidades. Se há esmorecimento, o terreno tão arduamente conquistado será rapidamente perdido. A luta deve ser ininterrupta. Podem-se fazer tentativas

ocasionais e até mesmo obter algum sucesso, mas resultados verdadeiramente positivos, pelo menos do ponto de vista iogue, só são obtidos com cem por cento de esforço. Se se persiste na tentativa, séria e devotadamente, a técnica de controle dos pensamentos torna-se, gradualmente, um modo de vida.

I,15 Vairagya é o estado em que o desejo de coisas materiais foi superado.

O segundo requisito para a obtenção de vitória na batalha pelo controle mental é

vairagya, ou desapego. Todas as tentativas que se façam para conseguir domínio

completo sobre a mente serão inúteis se não se tentar sobrepujar o desejo pelas coisas mundanas. Enquanto houver desejo de poder, riqueza e luxo, permanecer-se-

á

escravo dos próprios desejos. Tais desejos devem ser eliminados.

O

homem ocidental costuma ser encorajado a acreditar que para ser feliz é

preciso ser rico. Aqueles que acumularam fortunas, não importa por que meios,

são provavelmente apontados como exemplos significativos.- Muitas são as histórias contadas ao homem ocidental a respeito das vantagens de se ter posses

e riqueza. O iogue não condena a riqueza mas sim o desejá-la.

Embora possa, o estudante de Raja Ioga não é obrigado a se desfazer de suas posses, envergar uma túnica amarela, e daí em diante confiar na Providência ou

na caridade de seus semelhantes. O estudante ocidental pode, aparentemente, continuar a viver sua vida normal e, ao mesmo tempo, tentar praticar uma renúncia interior, que é a verdadeira e única vairagya, a qual não se consegue por renúncia física nem tampouco é impedida pela falta de tal renúncia.

I,16 A vairagya absoluta surge da conscientização do eu.

No estágio final da Ioga, no samadhi, o homem experimenta seu verdadeiro ego — o

espírito interior que é chamado eu. Esta experiência exerce um efeito tão

poderoso sobre a mente que todas as outras impressões, pensamentos e desejos se desintegram. Os desejos egoístas são tornados inativos para sempre, e o desapego

em sua forma mais elevada é permanentemente estabelecido.

Enquanto não houver auto-realização, as sementes do apego, com todas as suas

características perturbadoras, permanecerão.

I,19 Algumas pessoas nascem iogues. Enquanto para a maioria das pessoas o tornar-se iogue exige um trabalho árduo, como se explicará no sutra subseqüente, para algumas, a Ioga advirá naturalmente. Estas são pessoas não egoístas, contentes por natureza, e com alto grau de espiritualidade. Sem necessidade de estudo, possuem profundo discernimento de sua própria natureza, da natureza de outros, e de tudo aquilo que é.

I,20 Outros só obtêm sucesso na Ioga através da fé, de esforço persistente, de reminiscência e da aplicação de um intelecto aguçado. Há muitos tipos diferentes de pessoas e todos eles com características

diferentes. Como foi mencionado no sutra precedente, algumas delas nascem iogues. Entretanto, há outras pessoas que passam uma vida inteira em tentativas

e erros antes de alcançar a Luz. Entre estes dois extremos há muitas variantes.

Algumas despendem mais tempo e esforço que outras para obter o sucesso na Ioga.

É necessário fé -- tanto na meta quanto nos métodos a aplicar — para que se atinja o máximo. Sem esforço persistente, não haverá resultado válido.

O estudante deve ser capaz de relembrar seus feitos passados, e suas

conseqüências, para possibilitar uma aprendizagem através de seus erros. Os intelectuais desejarão raciocinar tão profundamente quanto seus intelectos lhes permitam. Deverão estudar filosofia Iogue assim como envidar esforços

persistentes para controlar suas mentes.

I,21 0 sucesso na Ioga é alcançado muito mais rapidamente por aqueles que mais firmemente o desejam. Quanto mais intenso for o desejo de sucesso, com muito maior brevidade será alcançado. Eis uma verdade válida para quase todos os empreendimentos.

I,22 0 grau de sucesso na Ioga depende de como a pessoa tenta alcançá-lo: pouco, moderada ou intensamente

O estudante de Ioga não é ameaçado com a condenação em caso de empenho

insatisfatório. Simplesmente ficará desejoso de progredir (em termos iogues) e

será considerado incapaz para ensinamentos mais avançados. As regras a seguir estão estabelecidas como padrões pelos sábios antigos, e seu uso é totalmente

facultativo ao estudante. Se seus esforços forem apenas medíocres, ficará preso

ao jogo da natureza e em ignorância espiritual.

I,30 Doença, lassidão, dúvida, negligência, preguiça, mundanismo, opiniões

equívocas, insucesso e instabilidade são obstáculos que perturbam a mente. Muitos são os transtornos que advêm ao homem. Todos os obstáculos que se devem sobrepujar. Se o corpo não é saudável, a mente será perturbada e a concentração será extremamente difícil. E por esta razão que a Hatha Ioga, ou Ioga física, é considerada preliminar indispensável à Raja Ioga. Mens sana in corpore sano (mente sã em corpo são).

Há pouca probabilidade de um homem lasso obter êxito.

Quando há dúvida a respeito da validade dos ensinamentos, qualquer tentativa

para segui-los será apenas medíocre. Uma tentativa causal de aproximação da Ioga certamente trará pouco ou nenhum resultado.

A

apatia mental é um grande entrave.

Se

a vida mundana continua a ser-nos muito atraente, a nossa prática da Ioga

sofrerá as conseqüências disso.

Se

o estudante tem noção errônea do verdadeiro propósito da Ioga, ficará perdido

na

selva dos sentidos.

Não obter-se um estágio da Ioga ou ser-se incapaz de nele permanecer com

segurança é efeito de incúria ou de pouca perseverança.

I,31 Tristeza, desespero, descontrole do corpo, e respiração irregular são sintomas de uma mente sem controle. Estes sintomas desaparecerão à medida que houver progresso no treinamento iogue.

I,32 Para conseguir a remoção de obstáculos, deve-se praticar constantemente um princípio.

O estudante deve lembrar-se constantemente dos ideais iogues e intentar

obedecer-lhes aos ensinamentos da melhor maneira possível. Muitas pessoas despendem suas energias mudando de um sistema ou filosofia para outro, mas para

o desejoso de um rápido sucesso em Ioga esta técnica é inútil. Deve polarizar seus efeitos e praticar a Ioga, com exclusão (temporária) de tudo o mais.

I,33 A mente se acalma à medida que se adote uma atitude benevolente em relação

à

felicidade, compassiva frente à miséria, alegre para com o bem e indiferente

ao

mal.

'Discute-se neste sutra a maneira pela qual se pode adquirir tranqüilidade da

mente. O estudante está mormente interessado, neste estágio, na obtenção e manutenção de seu equilíbrio mental. A alegria ou depressão por algo ocorrente

no mundo exterior, ou porque algo o atingiu, faz com que crie uma perturbação

mental. A vida prossegue em meio a dores e alegrias, e o estudante não deve se envolver excessivamente nisso, pelo menos no estágio atual. Terá que operar uma

mudança pessoal antes de se propor a mudar o mundo.

I,34 A tranqüilidade da mente também é promovida pela prática de exercícios respiratórios.

A ciência da Ioga inclui técnicas respiratórias específicas com o fito de se

obter equilíbrio mental. São chamados pranayama ou exercícios de pranayama e serão discutidos ampla-mente no Capítulo IV deste livro.

I,35 A força crescente das faculdades mentais ajuda a tranqüilizar a mente.

O estudante, ao passar à prática de seus estudos, obtém como resultado um

desenvolvimento de poder mental que o ajudará muitíssimo na tranqüilização de sua mente. Quanto mais forte ele se tornar, menos os acontecimentos exteriores o influenciarão. Quanto à sua atividade mental, será capaz de dizer à sua mente que se acalme, sendo prontamente obedecido.

I,36 À serenidade da mente também se segue uma conscientização da Luz Interior.

O primeiro reconhecimento do eu produz um efeito profundo na mente e daí resulta

grande paz.

I,37 A mente se acalma quando se pensa numa pessoa não egoísta. Se o estudante conhece alguma pessoa não egoísta, o pensar nela terá efeito tranqüilizador sobre sua mente. Pode passar a tomar tal pessoa como exemplo, e na sobreveniência de situações em sua vida em que se sinta perplexo relativamente à atitude mais adequada a tomar, poderá inquirir de si mesmo o modo como essa pessoa não egoísta reagiria nas mesmas circunstâncias.

II,3 As causas da miséria são avidya, asmita, raga, dvesa e abhinivesa. As cinco causas da miséria são chamadas os cincos klesas. A medida que se pratica Ioga esses klesas vão-se tornando impotentes. Nos sutras e em comentários subseqüentes explicar-se-á exatamente o que é cada klesa.

II,4 Avidya é responsável por outras causas de miséria, sejam latentes, pouco perceptíveis, dispersas ou esmagadoras.

A ignorância, ou avidya, não constitui a ignorância das coisas do mundo, mas a

ignorância espiritual. Quando o homem percebe que não é uma entidade pequena e solitária perdida na imensidão do universo, mas parte integrante de Uma Vida, as obstruções causadoras da dor são destruídas.

II,5 Avidya confunde respectivamente o limitado, o impuro, o doloroso e o não-eu com o eterno, o puro, o bom e o eu. Quando se tem idéia errônea ou limitada da natureza do eu, que é eterno e onipresente, se está oprimido pela ignorância ou avidya e sujeito ao egotismo, apego, aversão e arraigamento à vida.

II,6 Asmita é a identificação daquele que vê com o instrumento da visão. Inicialmente achamos ser o olho órgão da visão, mas depois percebemos que o

verdadeiro centro da visão localiza-se na mente. Inicialmente achamos que somos

a mente, depois percebemos que nossa identidade real está além da mente.

II,7 Raga, ou apego, resulta do prazer.

A experiência do prazer desenvolve o apego. A experiência do prazer, seja

físico, mental ou emocional, causa uma impressão na mente que faz desejar que a experiência continue ou que se repita. Portanto, há um apego em formação. Raga, ou apego, transporta a semente da miséria. Teme-mos a perda daquilo a que estamos ligados.

O estudante de Ioga abdica de todos os prazeres? Não, pode desfrutar o prazer

quando este se oferecer, mas deve ser capaz de ser privado dele. O perigo não reside no prazer em si, mas no apego a ele. O estudante deve tentar sobrepujar sua dependência a e desejo de uma satisfação sensual. Enquanto aprecie o prazer, deverá estar sempre pronto a abandoná-lo.

II,8 Dvesa, ou aversão, resulta da dor. Tememos aquilo que nos traz dor. Não queremos que uma triste experiência se repita, e então, dvesa, ou aversão, se desenvolve. A dor não precisa ser necessariamente física; pode ser emocional ou mental. Desenvolvemos a dvesa tanto pela infelicidade quanto pela dor física. Raga e dvesa são fatores que podem provocar uma perturbação da mente; o estudante deve sobrepujá-los, portanto.

II,9 Abhinivesa, ou arraigamento à vida, domina até mesmo o instruído.

O desejo de viver é inerente às coisas vivas. Todavia, o corpo físico não

permanecerá para sempre na sua forma atual. O estudante deve ser suficientemente

forte e sensato para aceitar tal condição de bom grado. Aquele que teme nunca poderá atingir o domínio da mente. O medo perturba-a.

Através da prática da Raja Ioga, o estudante aprende a permanecer calmo em todas as circunstâncias.

II,11 As manifestações dos cinco klesas, podem ser suprimidas pela meditação. Através da meditação podem-se afastar da mente as cinco obstruções eventuais

causadoras da dor. Deve-se refletir seria-mente acerca da origem, manifestações

e significado dos cinco klesas. Assim que os klesas tenham sido isolados, ou passem simplesmente a ser encarados como perturbações, sua influência perturbadora passará a ser nula.

II,10 As sementes dos klesas se podem conquistar pela dissolução delas em seu estado causal. Pela meditação os klesas podem-se tornar inativos, mas não serão totalmente destruídos. Depois de certo período de tempo, podem ressurgir no campo da consciência. Enquanto existir avídya, ou ignorância espiritual, os klesas, enraizados na avidya, permanecem como perigos em potencial. Na auto-realização a avídya desaparece, juntamente com todos os klesas.

II,26 A prática constante de discriminação é o meio de destruição da avidya, ou ignorância espiritual.

A ignorância em termos espirituais pode ser vencida através do estudo das

escrituras iogues, e através da contemplação contínua do significado e implicações dos ensinamentos aí contidos.

II,28 Através da prática dos diferentes estágios da Ioga, as impurezas da mente serão destruídas, e o conhecimento espiritual emergirá e levará à conscientização da Realidade. Antes que os oito estágios da Ioga sejam apresentados no próximo sutra, o propósito da prática iogue será reexplicado. Pratica-se a Ioga com o objetivo de acalmar a mente de modo que o homem se conscientize de sua verdadeira natureza e da natureza de todas as coisas. Existem muitas técnicas iogues, mas todas têm uma coisa em comum — seu objetivo final é a purificação da mente, para que ela se torne instrumento adequado à obtenção do conhecimento espiritual e experiência supra-sensível.

II,29 Os oito passos da Ioga são: yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi.

Yama

— Abstenção

Niyama

— Observância Pranayama — Controle respiratório

Pratyahara — Retração dos sentidos

Dharana

— Concentração

Dhyana

— Meditação

Samadhi

— Identificação

A Raja Ioga, como qualquer outra ciência, requer preparação e segue seu método

próprio. Yama e Niyama são disciplinas morais e constituem os primeiros requisitos da busca da perfeição. Asana e Pranayama pertencem ao campo da Hatha Ioga (Ioga física). Dharana, dhyana e samadhi formam a Ioga interna, ou Ioga mental, às quais se pode acrescentar pratyahara. Nos sutras seguintes, cada um destes tópicos é tratado, alguns com mais, outros com menos minudência.

II,30 Yamas são o não-ferir (O termo não-ferir é a tradução de ahimsa que pode significar, como em Gandhi, amor. Cf. Gandhi, Cartas a Ashram. - Nota do Tradutor), a castidade, a não-ganância, a veracidade e a abstenção do furto. Os cinco yamas, ou abstinências, constituem o primeiro degrau da escada da Ioga. Aliados aos cinco niyamas, ou observâncias, descritos em II, 32, formam um código ético de padrão bastante alto ao qual o estudante deve se dedicar com

todo seu conhecimento e habilidade. É impossível conseguir sucesso válido e duradouro em Ioga vivendo-se em discordância com essas abstinências e

observâncias. Se não podem ser seguidas ao pé da letra deve-se tentar seriamente atingir a idéia nelas contida. Não-ferir (ahimsa)*. O primeiro princípio, fato mui significativo, é o do não- ferir. O estudante de Ioga deve evitar causar o mal a outro homem ou animal em pensamentos, palavras ou obras. O sofrimento físico ou mental causado a outros infringe a primeira regra da Ioga. A medida que progride, o estudante aprende a ver a unidade da vida e desenvolve profundo amor por todas as criaturas inversamente a querer causar-lhes mal. Castidade (bramacharya). Castidade absoluta só é possível ou desejável para poucas pessoas. Aqueles que se sentirem obrigados à abstinência sexual absoluta devem fazê-lo. Aqueles que se sentirem obrigados, seja por temperamento ou circunstâncias, a realizar o ato sexual devem evitar um abuso em ações e pensamentos luxuriosos. Devem tentar evitar seu apetite sexual como qualquer outra coisa. O sexo, como outro aspecto ida, é uma grande maravilha e deve ser apreciado como tal. Quem pratica o ato sexual deve fazê-lo com sentimento de respeito e humildade.

A não-ganância (aparigraha). Temos certas necessidades vitais, mas há um limite.

Muitas pessoas desejam muito mais do que precisam e na maioria das vezes querem coisas simples-mente pelo desejo de possuí-las. Eis o que se deve superar. Os desejos egoísticos têm sido, e serão, a causa da infelicidade individual e do mundo. O estudante de Ioga deve tentar elevar-se acima da miséria — característica causadora da ganância. Nunca terá a mente tranqüila enquanto abrigar pensamentos egoísticos.

A veracidade e abstenção do furto são virtudes morais cujo valor é evidente.

11,32 Niyamas são a pureza, o contentamento, a austeridade, o estudo e a devoção

à Divindade.

São apresentados aqui cinco niyamas, ou observâncias.

O estudante deve almejar a pureza — não só corpórea, mas especialmente a pureza

da mente. Deve tentar manter apenas pensamentos puros. Contentamento (santosha). O estudante desenvolverá um sentido de contentamento se voltar a atenção para os aspectos bons oferecidos a ele pela vida. Austeridade (tapas). Tapas não constitui a mortificação da carne, mas a capacidade de viver segundo as necessidades mínimas e de suportar a miséria. A austeridade é essencial àquele que não deseja as riquezas do mundo exterior mas,

contrariamente, a imensa riqueza da vida interior. Tapas não constitui meramente um modo aparente de viver; se assim fosse, seria um desperdício de esforço. Viver uma vida austera, fisicamente falando, enquanto se sonha com riquezas mundanas, não constitui a verdadeira austeridade. Tapas deve existir na mente antes que em qualquer outro lugar.

O estudo a empreender é o da própria mente e das escrituras iogues que versam as

grandes interrogações da vida, da existência e da natureza do eu. Devoção à Divindade. A filosofia de Patanjali é religiosa. Ele chama de Divindade à Ishvara, que é descrita como alma especial, não tocada pelas aflições da vida, ações e seus resultados (1,24). N'Ele está a sabedoria infinita (1, 25) ; não sendo limitado pelo tempo, inspirou os mestres antigos (1,26). Sua designação é Om (1,27). Os estudantes que sigam alguma religião reconhecerão imediatamente a deidade de suas crenças no que Patanjali denomina de Ishvara, de cuja devoção resultará a Iluminação (I,23, ; 11,45). A Ioga pode ser estudada e praticada por pessoas de todos os credos religiosos; na verdade, nestas pessoas deve intensificar a devoção a seu Mestre. Os estudantes que não sigam nenhuma religião podem ler na quinta observância um mandamento para desenvolver um sentimento de respeito à maravilha que é a Vida. Em outra parte (II, 1) dos Sutras da Ioga de Patanjali, diz-se que os três últimos niyamas — austeridade, estudo e devoção à Divindade — constituem Kriya Ioga que é praticada (II, 2) para destruir as obstruções causadoras da dor e para conduzir ao samadhi, oitavo e mais alto estágio da Ioga.

II,33 Para aniquilar pensamentos impuros, seus contrários devem ser ponderados. Pureza, primeira das cinco observâncias, é, antes de mais nada, pureza mental.

Este sutra apresenta uma técnica efetiva e direta a ser empregada na supressão de pensamentos contrários aos altos ideais iogues. Pensamentos maus, destrutivos

e negativos são propositadamente substituídos por reflexões virtuosas,

construtivas e positivas. Pensamentos de ódio devem ser substituídos por pensamentos de amor, os de

tristeza por pensamentos de alegria, os de ganância por pensamentos de satisfação, os de desonestidade pelos de retidão, os de medo pelos de coragem,

os de fraqueza pelos de potência volitiva, e os desejos egoístas devem ser erradicados por meio de pensamentos altruístas.

II,34 Pensamentos e atos impuros resultam em miséria e ignorância — sejam eles negligenciáveis, médios ou intensos; come-tidos, causados ou instigados; tenham sido causados por ganância, raiva ou confusão. Portanto, é aplicado o método da substituição por pensamentos contrários.

Se ainda persiste alguma dúvida a respeito da indesejabilidade de pensamentos

prazerosos contrários aos ideais iogues, esta dúvida é aqui dissipada. A impureza causa miséria e ignorância.

II,41 Da pureza mental origina-se a alegria, a habilidade de concentração e o

controle dos sentidos. Dessa forma a mente estará apta para a realização do eu. Aqui acentua-se de novo a importância do primeiro dos cinco niyamas, a pureza. A pureza mental pode proporcionar resultados de longo alcance como podemos verificar neste sutra.

O controle dos sentidos é o quinto passo da Ioga. O sexto estágio é o da

concentração. A realização do eu é a meta da Ioga. Pensamentos puros são a base para o sucesso final em Ioga.

II,38 Adquire-se vigor através da castidade. Patanjali não moraliza a respeito de sexo, pelo contrário declara com brevidade que a prática constante de bramacharya, ou castidade, leva à obtenção de energia.

É evidente que há um desgaste de energia física na prática do ato sexual. O

excesso reduz a estamina do corpo e esgota o sistema nervoso. Conseqüentemente,

a atividade sexual deve ser reduzida. Dissipa-se energia mental ao se pensar

constante-mente em sexo. A energia mental pode ser reconduzida para outros aspectos e utilizada para fins espirituais. Entretanto, há pessoas cuja constituição requer intensamente a prática sexual. Para estes reprimir um instinto básico como o impulso sexual exigiria muitíssima energia. Na longa rota a percorrer, conservam energia e adquirem um estado mental mais equilibrado cedendo a seus impulsos naturais de modo limitado.

II,42 Do contentamento nasce grande felicidade. Tendo sido cultivado o estado de santosha, ou contenta-mento, seguir-se-á a felicidade. O contentamento deve tornar-se um hábito.

As pessoas geralmente acham que ficarão felizes se alcançarem determinada meta

mundana que se tenham proposto. Entretanto, descobrem, em geral, que ao atingirem tal meta não sentem ainda felicidade. A verdadeira felicidade não é

decorrência do sucesso exterior mas da interioridade. O estudante de Ioga deve aprender a se satisfazer com o que a vida lhe oferece.

Ao contrário de reclamar, deve antes procurar cumprir suas obrigações da melhor

maneira possível e sentir felicidade em ser útil à comunidade. Não importa se seu trabalho parece importante ou trivial. O estudante tentará progredir no mundo até o momento em que perceber não ser este o seu verdadeiro propósito na vida. Pelo contrário, deve devotar sua energia a prática da Ioga. Seu desejo de progresso deve centrar-se não tanto no sucesso mundano mas no domínio da mente.

II,43 A perfeição dos órgãos sensoriais e corporais é atingida através da destruição da impureza pela austeridade. Neste sutra apresentam-se os resultados da prática do tapas, ou austeridade. As impurezas aqui mencionadas são as físicas cuja destruição é possibilitada por

uma vida austera. O abuso alimentar e o conforto excessivo são prejudiciais à saúde física e mental.

II,46 Asana é postura firme e confortável.

O terceiro passo da Ioga — asana, ou postura — não é muito enfatizado no tratado

de Patanjali mas é um ponto essencial aqui. A postura iogue deve ser firme, mas, ao mesmo tempo, confortável. Firmeza no sentar é requisito para um estado de alerta e o conforto na postura é necessário para a mente não se distrair. Havendo dor ou excessiva tensão muscular torna-se muito difícil, se não impossível, concentrar a mente em coisas alheias ao corpo. Para maiores detalhes

a respeito de asanas veja o Capítulo III deste livro.

II,49 Quando asana foi conquistado segue-se pranayama, ou controle da inalação.

O quarto passo da Raja Ioga é o pranayama. O objetivo da prática do pranayama é

a verificação da velocidade da mente. O pranayama é o elo de ligação entre a Ioga física e a mental.

No Capítulo IV deste livro há lista completa dos exercícios clássicos de pranayama com instruções detalhadas.

II,53 Pela prática do pranayama, a mente está preparada para dharana. Dharana significa concentração, que é o sexto passo da Ioga. Este sutra acentua que o controle respiratório é preliminar ao controle das faculdades mentais.

II,54 Pratyahara é o desligamento dos sentidos do objeto do sentido. Os cinco sentidos visão, audição, tato, paladar e olfato — reagem constantemente ao mundo exterior. Suas mensagens fluem ininterruptas para o cérebro. Prestar atenção constante a esta corrente de mensagens fará que se tenha muito pouco tempo para outras coisas. Deve-se ter a capacidade de desligar a consciência dos órgãos sensoriais, a fim de possibilitar a concentração. O estudante distrai-se, por exemplo, ao sentir uma dor forte nas pernas, ao ouvir uma conversa em outra sala, observar uma mosca na parede, sentir o cheiro de comida sendo preparada ou se ainda pode sentir o gosto da última refeição na boca. Deve aprender a não atentar em todas essas distrações e concentrar-se em qualquer coisa que tenha escolhido. A mente precisa isolar-se do mundo exterior. Pratiahara pode ser um processo natural. Por exemplo, quando estamos completamente absortos na leitura de um livro interessante, não sentimos calor, frio nem desconforto e podemos chegar até a não ouvir se alguém nos chama pelo nome, som ao qual estamos acostumados a reagir rapidamente. Quando o estudante está preparado para dharana, o sexto estágio da Ioga, será capaz de se concentrar no processo interior da própria mente. Nesse caso, pratyahara é seqüência automática.

III,1 Dharana é a condição na qual a mente fica confinada a um objeto. Dharana, ou concentração, é o sexto passo da Ioga. Aqui, o estudante deve aprender a concentrar a mente numa coisa ou num pensamento. Com dharana, inicia- se a Ioga interna. Todo treinamento anterior foi preparado para a arte de controlar a mente. Perturbações mentais e corporais foram reduzidas ao mínimo. A vida casta, austera e altruísta que levou, controlou grandemente as tendências na mente do estudante. Seu corpo tornou-se saudável, ou manteve a saúde, através da prática da Ioga física. E capaz de permanecer sentado longos períodos de tempo. O controle respiratório acalmou-lhe a mente e ele tentou não prestar atenção às mensagens dos sentidos. Enfim, o estudante teve treinamento

preliminar. Necessitará dele, visto que a verdadeira concentração é dificultosa.

A concentração é amplamente discutida no Capítulo V deste livro. Este capítulo

inclui também quarenta exercícios mentais para o aperfeiçoa-mento da

concentração.

III,2 Dhyana é a condição sob a qual se presta ininterrupta atenção ao objeto da concentração.

O sétimo passo da Ioga é dhyana, ou meditação, que é forma prolongada e profunda

de concentração. As distrações que podem vir a interromper o processo de

concentração não chegam mais à consciência. O praticante pode voltar sua atenção para um determinado objeto durante o tempo que quiser. Entretanto, ainda existe uma dualidade. Enquanto estiver em dhyana o estudante permanece consciente, embora de forma vaga, de que está meditando. Uma vez perdida esta noção, dhyana transforma-se em samadhi. O Capítulo VII deste livro é totalmente votado à arte

da meditação.

III,3 Samadhi é condição na qual apenas há consciência do objeto da meditação e nenhuma consciência da mente em si.

O oitavo e último passo da Ioga é samadhi, ou identificação. Samadhi é a

concentração, no mais elevado grau. Não há mais distração e a mente perdeu toda

noção de sua existência separada. Está vazia de sua própria natureza, consciente apenas do objeto. Em samadhi aquele que medita está perdido no objeto da meditação. Identifica-se com ele. De acordo com os ensinamentos de Patanjali há vários tipos de samadhi, mas na literatura iogue em geral o termo não qualificado samadhi tem sido freqüentemente usado para denotar o estado em que há a experiência direta do eu. Patanjali, no sutra IV, 29, chama a esse estado final dharma-mega-samadhi.

O Capítulo VIII deste livro é dedicado ao estudo do feliz estado de samadhi.

I,41 Assim como o cristal puro toma a cor daquilo que o rodeia, na mente em que foram afastadas as distrações, conhecedor, conhecimento e conhecido tornam-se unos.

A aproximação usada neste sutra ilustra o que acontece no estado de samadhi. Se

colocarmos um cristal sobre uma superfície vermelha ele parecerá vermelho. Se for uma gema sem jaça, ficará, pelo menos aos nossos olhos, completamente absorvida pelo que a rodeia. Processo similar acontece na mente durante o samadhi. Ficará "colorida" pelo seu objeto de meditação. Na existência de

imperfeição na mente — impureza ou distração — haverá distinção entre o objeto e

a mente e será impossível completa absorção ou identificação.

III,4 Dharana, dhyana e samadhi juntos constituem samyama. Quando a concentração em um objeto começa e se aprofunda em meditação, resultando finalmente a identificação, todo o processo é chamado de samyama. Para os principiantes isto demandará longo tempo, mas os adeptos podem atingir samyama instantaneamente.

III,5 Ao domínio de samyama segue-se conhecimento mais elevado. Quando o samyama for praticado, o conhecimento espiritual despertará.

III,7 Dharana, dhyana e samadhi são internos tendo em vista os cinco passos anteriores. Os cinco passos iniciais da Ioga — abstenção, observância, postura, controle respiratório e retração dos sentidos — são chamados de estágios externos ou bahira anga. Os três últimos — concentração, meditação e identificação — são chamados de estágios internos ou antara anga. Ioga mental é chamada, portanto, algumas vezes de antaranga ou Ioga interna.

III,8 Mesmo dharana, dhyana e samadhi são externos em relação a nirbija samadhi. Patanjali distingue várias formas de samadhi. Se a concentração teve início num objeto, concreto ou abstrato, o samadhi resultante é chamado de subija samadhi ou samadhi com "semente". A semente, ou bija, é o objeto. O conhecimento obtido em sabija samadhi quanto ao objeto de concentração, diz Patanjali (I, 49), é mais elevado que o conhecimento obtido pelo raciocínio ou testemunho. A impressão causada na mente durante o sabija samadhi é mais forte que outras impressões (I,50). Em nirbija, ou samadhi "sem semente", existe apenas consciência e total consciência dessa consciência na mente treinadíssima e alerta. São suprimidas até mesmo as impressões resultantes de sabija samadhi (I,51).

Para atingir nirbija samadhi, o mais alto dos dois, deve-se ter a capacidade de manter a mente em prolongado estado de ausência de pensamento, sem nenhum esforço. Para adquirir essa habilidade, a mente deve passar primeiro por um processo denominado nirodha parinama, que será explicado no próximo sutra.

III,9 Nirodha parinama, ou transformação pela supressão, é transformação pela qual a mente se acostuma ao momento de supressão existente entre o pensamento que sai e o que entra. Para a prática de nirbija, ou samadhi sem objeto, é preciso que a mente permaneça constantemente no estado que prevalece entre dois pensamentos consecutivos. Há um momento depois que um pensamento deixou a mente e antes que outro entre no campo da consciência, em que não existe pensamento algum na mente. No início, este momento será extremamente curto, mas pela supressão (nirodha) do pensamento entrante o momento entre os dois pensamentos é prolongado. Durante determinado tempo, há apenas consciência na mente. Com a prática, a mente aprenderá pouco a pouco a captar com facilidade o pensamento de consciência do não-pensamento (III,10). A prática requerida é, entretanto, considerável. A técnica de concentração num objeto — intensificada e resultante no sabija samadhi, ou samadhi com "semente" — envolve a supressão de pensamentos interferentes. Portanto, sabija samadhi é praticado antes de nirbija ou samadhi sem "semente".

IV,29 Se se consegue permanecer desinteressado, mesmo com muita iluminação, e praticar a mais elevada discriminação, seguir-se-á dharma-mega-samadhi. Através da prática das diferentes técnicas iogues descritas até o presente a mente se torna um instrumento poderoso. O conhecimento das coisas consuetudinárias é facilmente apreendido por aquele que possui a mente bem treinada, ao mesmo tempo em que também é adquirido um conhecimento mais elevado (III,5). Os vários tipos de samadhi resultam numa profunda interiorização. Se um homem for capaz de não ser afetado por estas experiências atingirá o mais elevado samadhi, que é chamado de dharma-mega-samadhi. Se nos samadhis anteriores teve uma rápida visão do eu, no dharma-mega-samadhi sua mente ficará inteiramente imersa no eu. A experiência o transforma num iogue, e ele é um homem mudado. Atingiu a auto-realização. Nada mais pode afetá-lo. Está livre das obstruções que causam dor e resultados das obras comprometedoras (IV,30). Este estado é chamado kaivalya, ou independência.

CAPÍTULO III - A IOGA FÍSICA COMO PREPARAÇÃO

Pela ciência da Ioga física ou Hatha Ioga, pode-se atingir um alto grau de eficiência, saúde e beleza. Estes são atributos que quase todos gostariam de possuir. A Hatha Ioga é uma disciplina severa mas interessante. Todavia, o objetivo último da Ioga física é preparar a mente para as dificultosas técnicas da Ioga mental. O principal texto clássico sobre Hatha Ioga é o Hatha Ioga Pradipika, escrito por Svatmarama, antigo trabalho que começa declarando ser a

Hatha Ioga praticada simples-mente por causa da Raja Ioga. O controle do corpo é tão somente uma preparação para o controle mental. Destarte, os estudantes de Ioga física levam uma boa vantagem quando começam a busca da vitória sobre a mente.

O estudante de Raja Ioga deve ser capaz de praticar algumas das simples, mas

valiosas, técnicas da Hatha Ioga. Deve ter vida saudável e sensata e moderação

em seus modos. O Bhagavad Gita afirma (VI, 16) que a Ioga não é para aquele que

come ou se apressa em demasia, nem para aquele que dorme demais ou de menos. O mesmo livro sublime, alguns versos mais adiante (XVII, 5-6), condena aquele que

pratica austeridades severas e atormenta o corpo. Isso deve ser refutação

satisfatória aos reclamos daqueles que afirmam a necessidade de dormir sobre pregos, ou padecer fome até o definha-mento para ser um iogue.

O estudante deve seguir uma dieta salutar, dando preferência aos alimentos

naturais, evitando comidas muito salgadas ou apimentadas. Deve intentar obter

equilíbrio satisfatório entre os exercícios suficientes e repouso.

A seguir descrevemos algumas das posturas iogues básicas, ou asanas, e

importantes técnicas respiratórias.

A POSTURA DE RELAXAMENTO TOTAL (SAVASANA)

Desaperte toda roupa apertada. Deite-se de costas numa superfície plana e firme. Em savasana, a postura iogue clássica de relaxamento, os braços devem ser estendidos longe do corpo, com as mãos abertas e as palmas voltadas para cima. As pernas devem estar separadas com os pés voltados para o lado de fora. Mantenha a cabeça reta e feche os olhos. A boca também deve ficar fechada com os dentes levemente separados. Quando você adquirir experiência na arte de relaxamento — e isto é uma arte — será capaz de "relaxar" de imediato, tanto física como mentalmente, sem empregar nenhuma técnica específica. Por exemplo, quando você realmente tiver adquirido prática, será capaz de relaxar-se o tempo todo, esteja deitado na postura acima descrita, esteja na postura da vela, esteja em meio a um denso tráfego ou executando um intrincado trabalho. Mas para

os

principiantes existem vários métodos que serão de grande auxílio na obtenção

do

repouso físico e mental.

1.

No primeiro método, tomamos um exemplo do reino animal. Imagine um cachorro

indo dormir. Ele respirará profundamente. Espreguiçar-se-á e então, rapidamente, relaxar-se-á com um bocejo de contentamento. Voilà — relaxamento instantâneo! Seguindo esta técnica natural, inspire profundamente enquanto se deita em savasana. Ao mesmo tempo retese todos os músculos do corpo, todos em que você

puder pensar. Mantenha-se assim durante alguns segundos e então solte-se

rapidamente com um suspiro. Sinta agora que você está se tornando tão pesado a ponto de afundar no chão. A cada expiração afunda mais e mais.

Se

quiser, pode repetir a inalação tensa e profunda uma ou duas vezes.

2.

No segundo método, tensionamos as diferentes partes do corpo separadamente.

Primeiro, tensione todos os músculos da perna esquerda enquanto inspira profundamente. Prenda a respiração e mantenha a perna retesada por alguns segundos e então expire rapidamente e relaxe toda a contração muscular da perna. Concentre toda sua atenção naquela perna e sinta como ela se torna pesada e afunda no chão. Depois de dez ou mais segundos, repita o processo com a perna direita. Então inspire fundo, prenda a respiração e tensione os músculos

abdominais. Solte rapidamente depois de alguns segundos e sinta o abdome afundar-se mais e mais a cada expiração.

A seguir, o braço esquerdo. Tensione o braço todo à medida que inspira fundo.

Cerre o punho momentaneamente, prenda a respiração e mantenha a tensão muscular

durante alguns segundos. Solte rapidamente e durante dez ou mais segundos sinta

o braço afundando no chão. Faça o mesmo com o braço direito.

Finalmente, inspire profundamente, prenda a respiração e retese todos os músculos do pescoço. Solte rapidamente e sinta a cabeça tornar-se pesada e afundar-se no chão. 3. No terceiro método, você afastará conscientemente toda tensão da perna esquerda; depois, da perna direita, e assim de cada parte do corpo. Finalmente, relaxe a mente visualizando uma cena que induza à paz, por exemplo, um bonito jardim, um vale ensolarado e protetor ou um céu de azul profundo. Permaneça imóvel em savasana durante cinco ou dez minutos. Após esse descanso reanimador levante-se lentamente, inspire com profundidade, e, levantando os braços acima da cabeça, espreguice-se totalmente. Os benefícios fisiológicos de savasana são, além do relaxamento mental e muscular, como é óbvio, uma diminuição do batimento cardíaco e da pressão sangüínea.

A POSTURA FÁCIL (SUKHASANA)

A postura fácil, ou sukhasana, é excelente para a concentração e meditação. As

pernas cruzadas são colocadas junto ao corpo enquanto cabeça, pescoço e espinha permanecem eretos. As mãos abertas podem ser colocadas no colo, uma sobre a outra, ou com as costas sobre os joelhos. Cada pessoa deve encontrar a posição que lhe seja mais confortável e que cause menor distração. Algumas acham que as pontas dos pés doem ao praticarem esta posição em superfície dura. Podem sentar- se sobre um lençol dobrado. Quando as pernas começarem a indicar cansaço, a posição deve ser interrompida. As pessoas que acharem que a postura fácil não corres-ponde ao nome que tem, acharão a seguinte postura mais confortável.

A POSTURA DO RAIO (VAJRASANA)

Na postura do raio, ou vajrasana, as plantas dos pés ficam voltadas para cima, e

a pessoa senta-se sobre os calcanhares. As mãos descansam com as palmas voltadas

para baixo sobre a coxa. Como na postura fácil, cabeça, pescoço e espinha permanecem eretos. Há uma restrição. As pessoas que têm veias varicosas nas pernas não devem sentar-se na posição do raio, em hipótese alguma. Deve-se aprender a sentar calmamente. Quando o corpo está tranqüilo, a mente inclina-se a fazer o mesmo. Respirar é função que deve merecer muita atenção por parte do estudante. Sabemos que o corpo precisa receber constantemente determinada quantidade de oxigênio. Inspirando fundo o ar fresco, o estudante de Ioga certifica-se que todas as células de seu corpo estão sendo bem cuidadas. Pode praticar inspiração profunda em frente a uma janela aberta logo ao levantar-se pela manhã, quando tiver oportunidade durante o dia e especialmente antes de uma sessão iogue. Exceto no caso de alguns exercícios especiais, deve sempre inspirar e expirar pelo nariz. Os métodos corretos que descrevemos abaixo devem ser aprendidos para que se possa receber todos os benefícios da respiração.

RESPIRAÇÃO ABDOMINAL

A respiração abdominal, ou diafragmática, é a maneira pela qual você costumava

respirar quando bebê. Sua memória não é capaz de retroceder tanto assim. Você provavelmente terá esquecido a ação respiratória original e natural e terá, portanto, que aprendê-la novamente. As mulheres acharão um pouco mais difícil que os homens o domínio dessa técnica respiratória benéfica.

O diafragma é um músculo grande em forma de cúpula que separa o tórax do abdome.

Quando parado, assemelha-se a um domo sobre o abdome. Quando o músculo é contraído pressiona os órgãos abdominais para baixo e estes forçam o abdome para fora, inflando-o como uma "grande barriga". O benefício fisiológico da respiração diafragmática é que, além de proporcionar boa quantidade de ar fresco ao sistema, massageia suavemente todos os órgãos abdominais, auxiliando, portanto, a circulação sangüínea na região. No início, a maneira mais fácil de praticar a respiração abdominal é deitar-se de costas sobre o chão. Nenhuma roupa apertada deve ser usada. Coloque os dedos sobre o abdome. Inspire fundo e tente, ao mesmo tempo, empurrar os dedos pousados sobre o abdome para cima, tanto quanto for possível, com o abdome. Expire devagar deixando que seus dedos desçam junto com o abdome, inspire novamente, então, empurrando os dedos para cima. Continue assim durante algum tempo sempre respirando profunda e calmamente. Quando obtiver facilidade nesta prática, descanse os braços ao longo do corpo e tente empurrar o abdome para cima, conforme você inspira, sem ter os dedos apoiados sobre ele. Quando tiver dominado eficientemente esta técnica, tente praticá-la sentado e depois em pé. As pessoas com tendência à asma encontraram na respiração abdominal um método respiratório muitíssimo benéfico.

A RESPIRAÇÃO COMPLETA

Na respiração completa todo mecanismo respiratório entra em ação. Cada músculo

respiratório é usado e cada célula aérea dos pulmões enche-se de ar vital. A respiração completa é combinação de três métodos respiratórios: respiração abdominal, respiração torácica e respiração superior. Uma vez dominada a respiração abdominal, você estará pronto para começar a respiração completa. Seu aprendizado é mais fácil quando se está deitado; depois poderá ser praticada estando você sentado, em pé ou até mesmo caminhando. Deite-se de costas com os braços esticados ao longo do corpo. Primeiramente respire abdominalmente de forma profunda. Depois continue a inspirar enquanto expande profundamente o tórax. Neste estágio o abdome baixará de novo, mas é assim que deve ser. Simplesmente esqueça do abdome enquanto estiver expandindo o tórax. O terceiro estágio, a respiração superior, é feito por leve elevação dos ombros e clavículas. Prenda a respiração durante alguns segundos, expire vagarosa e uniformemente, sem prestar atenção particular aos ombros, tórax ou abdome.

A inalação é contínua, embora no início a respiração completa consista em três

movimentos distintos. Gradualmente os movimentos encadear-se-ão uns aos outros, produzindo no corpo um movimento semelhante ao das ondas. Os benefícios da respiração profunda não são apenas fisiológicos, mas também

psicológicos. A respiração profunda contribui para afastar temores, preocupações

e ansiedades. Há um estreito relacionamento entre a ação respiratória e o estado

da mente. Quando estamos nervosos, respiramos mais rápido. Revertendo o processo

— respirando com mais vagar propositadamente — poderemos acalmar a mente. Há uma

crença indiana que seria interessante lembrar. Assegura que o homem ao nascer é

aquinhoado com certo número de respirações e, conseqüentemente, respirando mais devagar viverá mais tempo. Há grande sabedoria nesta simples idéia.

CAPÍTULO IV - PRANAYAMA (RESPIRAÇÃO IOGUE)

Pranayama é o termo sânscrito para as técnicas respiratórias iogues. A palavra

significa domínio, ou controle, das três partes da ação respiratória: inalação, retenção e exalação.

A respiração está intimamente relacionada com a mente. Quando nos concentramos

com intensidade em algo — som repentino, por exemplo, ou pensar profundamente —

a respiração fica inconscientemente suspensa. Descobrimos também que, quando a

mente é afligida por medo ou raiva, a respiração se torna irregular e rápida.

Cada um desses exemplos demonstra que a respiração e a mente são interdependentes. "Quando a respiração se move, a mente também se move" (Hatha Ioga Pradipika, II,2). Para controlar a atividade incessante da mente, o estudante de Ioga deve aprender a regular a respiração. Se o estudante for capaz de se sentar confortavelmente numa postura firme e tiver aprendido a moderar seus hábitos alimentares, poderá começar a praticar pranayama.

A superfície sobre a qual se sente não deve ser muito dura, a fim de

proporcionar conforto. Os exercícios respiratórios iogues não devem ser praticados durante algum tempo após as refeições.

As fossas nasais devem estar limpas. Isto pode ser feito com um lenço ou então

mais tradicionalmente pela inspiração de água através de cada narina, utilizando-se a mão em concha ou uma tigela. A água é inspirada por uma narina até chegar à garganta e então é expelida pela boca. Esta prática é valiosa na prevenção de resfriados e para aclarar a cabeça, e seria bom que o estudante a realizasse todos os dias. No início, a água ao tocar a parte súpero-posterior das fossas nasais, pode causar uma sensação estranha, mas logo acostuma-se a

isso. Pode ser realizada enquanto se toma banho; quando a cabeça estiver levemente inclinada para trás, a água penetrará no nariz. As pessoas que sofrem

de sinusite não devem se utilizar de tal técnica.

Segundo o Hatha Ioga Pradipika (II, 39), o principal tratado sobre Hatha Ioga, a

prática regular do pranayama ajuda o estudante a superar todos os temores, mesmo

o temor da morte. Todavia a prática de pranayama não deve nunca ser forçada. O Hatha Ioga Pradipika adverte: "Assim como o leão, o elefante e o tigre são amansados gradativamente, a respiração deve ser controlada aos poucos, do contrário, mata (prejudica)o praticante." (11,15).

A advertência é bastante clara: você nunca deve se forçar quando pratica

pranayama. Svatmarama, autor do trabalho acima citado, declara posteriormente:

"deve-se exalar o ar com cuidado; inalá-lo cuidadosamente; retê-lo com

precaução". (II, 17). Durante a respiração iogue, os pulmões não ficam completamente vazios — afinal

de contas, ar significa vida. A este respeito declara-se com firmeza: "Enquanto

houver ar no corpo, há vida". (II, 3). No pranayama a proporção entre inalação e exalação é de 1 para 2. Em outras palavras, a exalação é sempre duas vezes maior que a inalação; se a inalação dura dois segundos, a exalação dura quatro. Nunca se prende a respiração a ponto

de

provocar desconforto. Se a retenção causar o mínimo desconforto, o propósito

da

prática do pranayama malogra. Para estabelecer uma proporção correta entre

inalação, retenção e exalação, o estudante deve praticar a respiração rítmica

durante algumas semanas antes de tentar dominar os pranayamas.

RESPIRAÇÃO RÍTMICA

Os principiantes podem começar praticando inalação, retenção e exalação na proporção 1 : 2 : 2. Inspire profunda-mente durante dois segundos, retenha a respiração durante quatro; exale lentamente durante quatro segundos. Quando isto

se torna fácil, você pode inspirar durante três segundos, prender a respiração

durante seis e exalar durante seis segundos. Ao invés de contar mentalmente os segundos, você pode contar as batidas cardíacas segurando o pulso. Os estudantes mais avançados devem almejar uma proporção de 1 : 4 : 2 entre inalação, retenção e exalação. Se a inalação durar dois segundos, a retenção deve durar oito e a exalação quatro. Depois, a inalação pode durar três segundos, a retenção doze e a exalação seis. A duração de cada parte da respiração pode ser gradualmente aumentada até que a proporção 1 : 4 : 2 seja

mantida e a retenção seja de sessenta e quatro segundos (sendo a duração da inalação e exalação, respectivamente, de dezesseis e trinta e dois segundos) .

O termo sânscrito para inalação é puraka; para retenção; kumbhaka; para

exalação, rechaka. Em lugar de contar segundos ou pulsações, o estudante deve ser capaz de recitar mentalmente as sílabas das palavras sânscritas acima citadas. Ao inspirar, recite vagarosamente pu-ra-ka; enquanto retém o ar, recite mentalmente quatro vezes kum-bha-ka; enquanto expira, recite duas vezes re-cha- ka. Com a prática, o número de repetições pode ser gradativamente aumentado.

RESPIRAÇÃO ALTERNADA

Tradicionalmente, o estudante recebe a advertência de que deve praticar

respiração alternada antes de realizar quaisquer outros pranayamas. A respiração alternada também é altamente recomendável como método para acalmar os nervos. Na respiração alternada inalamos e exalamos pela narina esquerda e direita alternadamente. De início experimente a seguinte técnica para fechar cada uma das narinas: coloque o dedo indicador e médio da mão direita ao longo do nariz

de tal forma que este fique comodamente fechado pela pressão do polegar contra o

lado do nariz, e a narina esquerda pela pressão exercida pelo mínimo e anular.

A

respiração alternada tem início com a inspiração apenas pela narina esquerda.

As

narinas ficam firmemente fechadas e a respiração presa segundo a habilidade

do

praticante. A mente permanece fixa no espaço entre as sobrancelhas. Quando

for desconfortável manter a respiração presa, o ar é lentamente expelido apenas pela narina direita. Assim que a exalação se tiver completado, inspira-se profundamente pela mesma narina, isto é, pela direita. A retenção da respiração

é seguida pela exalação e inalação pela narina esquerda, e assim por diante.

Expire e inspire sempre por uma só narina, prendendo o ar pelo tempo que lhe for

possível e confortável; depois, expire e inspire pela outra narina e continue assim quanto desejar. Respiração alternada e rítmica podem ser combinadas num só exercício.

RESPIRAÇÃO DO SOL (SURYA BHEDANA)

Este exercício de pranayama refere-se à inspiração pela narina direita. O ar entrante por esta narina é tido como símbolo do sol (surya). Inspire lenta e profundamente pela narina direita e prenda a respiração enquanto isto não lhe causar incômodo. Durante a retenção da respiração a mente fica concentrada no espaço entre as sobrancelhas. A exalação é feita lenta e igualmente apenas pela narina esquerda.

RESPIRAÇÃO VITORIOSA (UJJAYI)

Inspire profunda e vigorosamente pelas duas narinas. A proporção de entrada de ar nos pulmões deve ser uniforme. Prenda a respiração enquanto isso não lhe causar incomodo e concentre a atenção no espaço entre as sobrancelhas. A exalação se faz pela boca. Deixe a boca conformada como se você estivesse assobiando, expire lenta e vigorosamente produzindo um som suave de tom constante. Continue com a expiração até que os pulmões estejam absolutamente vazios. Se você prendeu a respiração por muito tempo terá dificuldade em executar o tipo de exalação prescrito, ou ofegará no final da exalação assobiada. Caso isso ocorra, descanse um pouco, recomece certificando-se de que doravante a respiração não ficará presa por muito tempo.

Pode-se praticar ujjayi expirando apenas pela narina esquerda, em lugar de fazê-

lo com a boca.

RESPIRAÇÃO SIBILANTE (SITKARI)

O sitkari realiza-se pela forte aspiração do ar pela boca ao mesmo tempo em que os dentes ficam cerrados e a língua suspensa, mas sem tocar o céu da boca.

Durante a inalação, produz-se um som sibilante, e nossa atenção deve estar concentrada na sensação de frescor na língua. Então fecha-se a boca, prende-se a respiração durante o tempo em que não se produza desconforto e concentra-se a mente no espaço entre as sobrancelhas. O ar é expelido tão-só pelo nariz.

O Hatha Ioga Pradipika (II, 54-6) promete ao praticante de sitkari a proximidade

do deus do amor na beleza e sujeição à adoração pelas ioguines (as mulheres iogues recebem eventualmente o nome de ioguines). Embora não haja menção direta pode-se acreditar que, inversamente, a mulher praticante torna-se adorável aos olhos dos iogues. Entretanto como o objetivo de pranayama é acalmar a mente, seria sensato não tomar sitkari como um meio de se chegar à beleza e à adoração pelo sexo oposto.

RESPIRAÇÃO REFRESCANTE (SITALI)

Este exercício respiratório é semelhante a sitkari e a diferença consiste na posição da boca e língua durante a inalação. Em sitali a língua protunde entre os lábios. A boca fica meio aberta de modo a produzir ainda o som sibilante. A respiração é retida enquanto houver condições gerais de conforto. A exalação se faz pelo nariz.

RESPIRAÇÃO DO FOLE (BHASTRIKA)

Realiza-se rápida sucessão de aproximadamente dez rápidas exalações pelo nariz, cada uma delas seguida por uma inalação igualmente rápida. Esta parte do bhastrika pranayama produz um som semelhante ao produzido pelos foles de um

ferreiro. A última inspiração da série é muito vigorosa e profunda. Então a respiração fica suspensa enquanto não causar inconvenientes e a mente concentra- se no espaço entre as sobrancelhas. Expire lenta e igualmente por ambas as narinas. Como variante, a inalação pode ser feita por uma única narina (esquerda ou direita) e a exalação pela narina direita em lugar de ser feita pelas duas narinas.

O bhastrika é um exercício muito intenso. Sendo assim, os iniciantes não devem

realizar este pranayama mais de três vezes antes de descansar. Com o progresso o número de rápidas inalações e exalações pode aumentar de aproximadamente dez a vinte ou trinta e o pranayama completo pode ser praticado com mais freqüência.

RESPIRAÇÃO DE SONS INTERIORES (BHRAMARI)

Ouvidos tampados com as mãos. Inalação e exalação pelo nariz. Inspire com vigor. Durante a retenção do ar, ouça os vários ruídos internos do corpo. A inalação e

a exalação produzem um som semelhante ao zumbido das abelhas; a inalação

vigorosa tem o som semelhante ao produzido por um zangão, e a exalação lenta, como o de uma abelha.

A melhor hora para praticar o bhramari é a noite e em ambientes silenciosos.

RESPIRAÇÃO DE DESFALECIMENTO (MURCHHA)

Inspire fundo pelo nariz. Pressione o queixo com firmeza contra a garganta, prendendo a jugular e a respiração enquanto isto não lhe causar nenhum incômodo. Concentre a mente no espaço entre as sobrancelhas. Exale devagar enquanto o

queixo está firmemente pressionado contra o tórax. Durante a inalação a cabeça deve manter-se elevada. A pressão causada pelo queixo, aplicada durante a retenção e a exalação, chama-se jalandhara bandha. Os benefícios advindos desta técnica são: o exercício dos músculos do pescoço, melhora da circulação sangüínea na região da garganta e fortalecimento da tireóide e glândulas paratireoidais. Os principiantes talvez achem mais fácil proceder à pressão com o queixo apenas durante a retenção da respiração.

CAPÍTULO V - CONCENTRAÇÃO E EXERCÍCIOS MENTAIS

Concentração é a focalização de todas as energias mentais sobre um objeto ou idéia. Na vida cotidiana, por vezes todos nos concentramos. Com a língua para fora, tentamos enfiar linha numa agulha. Desenhando, esquecemos de tudo. Com destreza extrema conduzimos nosso carro por uma área de trânsito congestionado. Esse tipo de concentração pode chamar-se de exterior, pois foi algo do mundo externo que prendeu e reteve nossa atenção. Dharana, ou concentração iogue é interior. O processo ocorre inteiramente no plano da consciência e é dirigido pela vontade. Na concentração exterior, o trabalho elaborado ou o quadro que se observa demandam nossa atenção. Não há nenhum esforço consciente para a concentração, ela simples-mente acontece. A concentração interior é muito mais difícil. Aqui, a mente é comandada pela vontade para que fixe sua atenção em algo propositadamente colocado no plano da consciência. O estudante de Ioga deve aprender a colocar sua constante atenção em algo em que decidiu se concentrar, seja algo importante ou insignificante. Deve ser capaz de concentrar a mente sempre que se decida a fazê-lo e, então, será capaz de manter esta concentração por tempo indeterminado. Para a mente destreinada, a concentração consciente é muitíssimo difícil. Após longos períodos de liberdade caótica, a mente não aceita disciplina com facilidade. Em geral reagirá com violência, comportando-se como se fosse um conturbado ninho de vespas. Tente não pensar e, logo, vários pensamentos lhe invadirão a mente. Tente concentrar-se numa só idéia e, em rápida sucessão, pensamentos desconexos lhe reclamarão a atenção. Se tentamos diminuir o processo, os pensamentos começarão a fluir à mente com espantosa velocidade. Entretanto, a mente poderá, aos poucos, transformar-se num instrumento útil e eficaz. Deve-se praticar com regularidade e diligência. De início, deve-se concentrar em objetos concretos. O iniciante encontrará muita dificuldade se começar por idéias abstratas e complicadas. Deve-se escolher algo simples, e tentar, então, reter a idéia na mente o maior tempo possível. Pensa- mentos estranhos fluirão para o campo da consciência, mas deve-se, calmamente, firmar a atenção uma vez mais no objeto de concentração. Acima de tudo, deve-se permanecer calmo. Enraivecer-se porque a concentração parece impossível, simplesmente piorará as coisas. Perseverança imparcial é essencial. Toma-se a mente pela mão, como se faz a uma criança e, suavemente, conduz-se-a ao objeto escolhido tantas vezes quantas forem precisas. Pode haver ocasiões em que um pensamento comece a introduzir-se, talvez com insistência tão irritante que a concentração pareça até impossível. Se for esse o caso, pode-se fazer de tal pensamento o objeto da prática de concentração. O importante é não se irritar. Outra maneira de lidar com esses pensamentos é prometer dar-lhes atenção futuramente. Devaneios da mente podem ser impedidos. Há bastante tempo para eles, não porém durante a prática da concentração. Freqüentemente você começará a pensar, talvez, numa árvore e, minutos depois, descobrirá que está pensando em coisa total-mente diversa. Se isso ocorrer, diga firmemente a si mesmo que o sonho deve acabar e conduza a atenção da mente uma vez mais ao objeto de concentração. Embora não se deva permitir à mente vagar sem rumo, pode-se permitir-lhe pensar em associações diretas com o objeto em questão, contanto que retorne constantemente a ele. A mente parte da idéia central para explorar seus diferentes aspectos. Destarte, tudo que diz respeito ao tema principal é colocado sob um microscópio mental. Se você tentar se concentrar muito, pode acabar conseguindo exatamente o contrário do que deseja. Exemplos disso são freqüentes na vida cotidiana. Tente falar com muita correção, e começará a cometer erros. Tente desenhar uma gravura muito perfeita e pode vir a falhar desastrosamente. Se, atrás do esforço de concentração, houver muita atenção, o empenho será inútil. Assim como o olho

físico não se cansa se opera sem tensão, também a mente deve permanecer calma para obter-se concentração eficiente.

O estudante não deve desanimar se, de início, seus esforços de concentração

parecem produzir poucos resultados. A prática constante aumentará a habilidade da mente em concentrar seus poderes de atenção. Com a prática, a concentração pode se transformar numa arte agradável. O estudante será capaz de isolar um pensamento ou idéia, e retê-la na mente sem nenhum desvio ou interrupção pelo tempo que quiser. Adquirirá grande conhecimento de qualquer coisa em que se concentre. Poderá trazer qualquer pensamento à mente, retê-lo para exame, desvencilhar-se dele e imediatamente estará pronto para dar a mesma intensa atenção à próxima idéia. Quando puder fazer isso, será capaz também de banir por completo os pensamentos e reter a mente num estado chamado nirodha, que significa restrição ou controle. Podem-se praticar vários exercícios mentais com a finalidade de melhorar a concentração. Se possível, o estudante deve-se isolar durante algum tempo, todos os dias, com este fim em vista. Recomenda-se praticar os exercícios em hora determinada, preferivelmente pela manhã, mas, se não for possível, a hora que mais convenha ao estudante essa será a melhor hora. Tendo-se tornado mais experiente, pode vir a utilizar-se de momentos ocasionais — como enquanto viaja ou espera — que seriam desperdiçados, para praticar algumas das técnicas mentais mais simples.

EXERCÍCIOS MENTAIS

É aconselhável, primeiramente, praticar os exercícios mentais sob circunstâncias as mais favoráveis. Deve-se estar sozinho e seguro de não ser perturbado durante algum tempo. Não deve haver corrente de ar no quarto; a luz não pode ser muito forte; a temperatura deve ser agradável. O quarto deve, de preferência, ser escassamente mobiliado, e, se possível, deve-se sentar voltado para uma parede nua. A maioria dos exercícios realiza-se com mais facilidade de olhos fechados. Não se deve praticar logo após uma lauta refeição, porque os efeitos imediatos da alimentação excessiva são um leve desconforto e sonolência. muito difícil ao iniciante sair do ritmo corrido e apressado da vida do mundo e, sem período algum de transição, entrar no mundo da mente. Portanto, se você é estudante de Ioga física, pratique-a antes de começar as técnicas mentais. Se não, é ainda aconselhável praticar um pouco de relaxamento físico primeiro, fazer alguns exercícios de respiração profunda e estira-mento (depois de haver atendido às exigências do sistema excretor). Não é bom, pelo menos para os iniciantes, realizar exercícios mentais quando estejam física ou mentalmente cansados. A concentração exige muito. A mente não deve, outrossim, estar ocupada com problemas emocionais ou mundanos. Os exercícios mentais são precedidos por pranayama, ou respiração iogue. A regularidade da respiração aquieta a mente. Quando se sente que a mente está calma o bastante, chegou o momento adequado. Após a prática do pranayama não mais se dá atenção à respiração.

A postura deve ser firme e confortável. Se a mente se conturbar com dores e

sofrimentos do corpo, ou mesmo leves desconfortos, a concentração será extremamente difícil. Alguns conseguirão assumir sem desconforto a postura fácil, ou sukhasana, o que será de bastante utilidade. Outros acharão a postura do raio, ou vajrasana, mais agradável. Outros poderão sentar-se num banquinho sem encosto, mantendo a cabeça erguida, costas retas e pernas unidas. Os pés ficam firmemente apoiados no chão, as mãos descansam sobre as coxas. Pode-se, igualmente, tentar praticar alguns exercícios mentais deitado de costas em savasana. De início, os exercícios de concentração não podem ser praticados durante período muito longo. As primeiras sessões devem durar aproximadamente dez minutos, não mais. Como algumas pessoas são capazes de se concentrar por períodos de tempo mais longos que outras, não há limite de tempo pré- estabelecido. Deve-se praticar com grande diligência. A intensidade do esforço é muito mais importante que a duração da prática. Sugere-se certa ordem nas técnicas, mas pode-se começar com qualquer exercício. Todo o tempo pode ser despendido na

prática de um único exercício, ou podem-se fazer vários numa mesma sessão. Dominando-se, até certo ponto, determinado exercício mental, pode-se iniciar o seguinte. É melhor continuar a praticar o exercício selecionado até conseguir determinado grau de sucesso. A duração de cada exercício será aumentada gradualmente.

TRATAKA

Trataka, ou contemplação, é um exercício benéfico e bastante praticado. E um dos seis kriyas, ou obrigações purificadoras, e ajuda a acalmar a mente. Olha-se, sem piscar, para um ponto ou objeto pequeno durante um ou dois minutos, ou pelo maior tempo possível sem tensionar os olhos e os músculos oculares.

Quando for incômodo, será melhor fechar os olhos e descansá-los, e então repetir

o exercício, do que manter a atenção fixa nele durante muito tempo. Estas

instruções são válidas para todos os exercícios dos olhos. Com a prática, a duração de cada período de observação pode ser aumentada consideravelmente. Pode-se também olhar fixamente para a ponta do nariz. Este antigo método ajuda a fortalecer os olhos. Envesgamentos ocasionais, não prejudicam os olhos, como habitualmente se pensa, mas, ao contrário, são de grande proveito. Semelhante ao olhar nasal é o frontal, no qual dirigem-se os olhos para o ponto central entre as sobrancelhas. Como isto é bastante cansativo aos músculos oculares, devem-se descansar os olhos logo que necessário. Olhar para uma vela acesa é outra técnica que ajuda a firmar a mente e fortalecer os olhos. É realizada numa sala escura onde não haja corrente de ar, pois, se assim o for, a chama mover-se-á e isso estragará o efeito do exercício. Senta-se aproximadamente a um metro da vela e olha-se fixamente para a chama. Quando parar, as mãos, em forma de concha, devem ser colocadas sobre os olhos. A imagem da chama ainda será visível e pode-se continuar a olhar para ela como um recurso para que a mente cesse de divagar.

VISUALIZAÇÃO

Visualizar é trazer uma imagem à lembrança com tal concentração e imaginação que a gravura, vista com os olhos da mente, torna-se tão real quanto um objeto. Se se evocasse a imagem de uma rosa, ver-se-ia a flor em sua magnificência, projetada claramente na tela da mente. Poder-se-ia admirar sua forma graciosa e sua bela cor, e ver-se-ia a gravura tão detalhadamente que o número de pétalas poderia ser contado e distinguidos os acúleos do caule. A visualização total deve ser tão vívida que se possa até mesmo sentir a delicada fragrância da flor.

VIAJANDO A UM LUGAR DISTANTE

Com intensa concentração, o poder de visualização pode ser aplicado tão fortemente que se nos torna possível transportarmo-nos a qualquer lugar na terra

e experimentar a sensação de estarmos numa localidade escolhida como se

realmente lá estivéssemos. Se o estudante decidisse ir a um lugar bonito num ambiente natural — talvez perto de uma queda d'água — fecharia os olhos e, desligando-se do lugar onde estivesse, viajaria com a velocidade da luz à meta distante. Chegando lá, visualizaria de tal forma sua presença no lugar de paz

que poderia ouvir o suave murmúrio da água, e o gorjeio de pássaros exóticos; aspiraria ar saudável e sentir-se-ia beijado por quentes raios de sol. Quando o estudante relutantemente abrir os olhos ao final do exercício, ficará bastante surpreso ao verificar que ainda está no mesmo lugar de onde se ausentou.

CONTANDO BENÇÃOS

Há na vida muito que agradecer. Agora o estudante pára e observa isso inteiramente. Pode começar o exercício refletindo sobre os sentidos, pensando em como são maravilhosos, e que grande bênção é possuir essas cinco faculdades. Ser saudável é um dom maravilhoso, do qual se deve ser muito grato. E muito mais importante que ser rico ou atingir posição social elevada. A saúde é um tesouro precioso, e o estudante de Ioga é grato à ciência da Hatha Ioga por ajudá-lo a tornar-se saudável e conservar-se assim. É maravilhoso dominar o corpo e, para o estudante de Raja Ioga, muito mais maravilhoso dominar a mente. O estudante de Jnana Ioga maravilha-se da imensa sabedoria ensinada pelos antigos sábios indianos. Cada um de nós possui muitas coisas pelas quais deveria ser extremamente grato. No exercício de contar bênçãos o estudante se detém nestas coisas e mantém um sentimento de gratidão durante sua vida diária.

OUVINDO O TIQUE-TAQUE DE UM RELÓGIO

Num compartimento bastante silencioso, onde haja o tique-taque suave de um relógio, tente ouvir o som a alguma distância. Dirija toda sua atenção a isso. Tendo-o conseguido, você pode dificultar o exercício sentando-se mais longe. Ao invés de um relógio grande, pode-se utilizar um de pulso para o treinamento. Primeiramente, coloque o relógio perto do ouvido. Quando puder ouvir seu delicado mecanismo em funcionamento, coloque-o sobre o ombro, e verifique se ainda pode ouvir o suave tique-taque. Percebendo o som, baixe a mão e coloque-o sobre o braço, bem abaixo do ombro, e assim por diante.

OBSERVAÇÃO

Podemos concentrar-nos em qualquer objeto no exercício de observação. No começo, deve ser uma coisa simples — como uma maçã. O objeto — neste caso a maçã — é colocada no nível dos olhos, a uma distância tal que sua observação contínua não tensione os olhos. Uma vez instalado, começa-se a olhar para a maçã com interesse especial. Note todas as suas particularidades em detalhe. Estude sua forma e tamanho. Observe as diferentes variações de cor na casca. Estude-lhe a textura da pele. Verifique se é lisa ou levemente ondulada e descolorida. Olhe atentamente para a haste saliente e note a maneira pela qual a maçã foi formada ao redor dela. Além da observação visual, tente captar a fragrância do objeto. A atenção deve estar concentrada na maçã até que sua figura esteja firmemente impressa na mente, de tal forma que se possa vê-la claramente, de olhos fechados ou abertos.

OBSERVAÇÃO E LEMBRANÇA

Depois de observar um objeto detidamente, o estudante fecha os olhos e tenta reconstruí-lo na mente, atentando meticulosamente para os detalhes mais minuciosos. Como antes, pode-se utilizar qualquer objeto, ou pode-se observar o ambiente e, depois de cuidadoso exame, reproduzi-lo mentalmente. Se estiver sentado fora, relembre a paisagem; se estiver sentado dentro de casa, relembre o local e o que estiver lá dentro. Com a prática deste exercício, os poderes de observação e memória são aumentados. Na vida cotidiana descobrir-se-ão muitos fatos interessantes sobre objetos comuns. Aprende-se a ver a vida com os olhos bem abertos e fica-se cada vez mais consciente das grandes maravilhas a serem vistas em toda parte.

PENSANDO NUM OBJETO E EM SUAS ASSOCIAÇÕES

Neste exercício, escolhe-se um objeto e pensa-se em todas as coisas que a ele podem ser associadas. Se o objeto escolhido for uma maçã, não se deve estar

muito preocupado com sua aparência, mas com os pensamentos que dela decorrem,

como, por exemplo, de onde procede; como veio parar-lhe nas mãos; as pessoas que plantam macieiras; as que vendem maçãs; aquele que seria afastado se uma maçã fosse comida todo dia (o autor se refere ao ditado popular: "An apple a day keeps the doctor away" (Uma maçã por dia mantém o médico afastado - Nota do Tradutor); as diferentes espécies de maçãs; os vários sabores que se encontram

na fruta; seus vários usos na cozinha; seu papel na tradição Suíça; como se diz

que o simples fato de uma maçã ter caído da árvore inspirou um grande cientista; quão útil é ela nos exercícios mentais, e assim por diante.

OBSERVAÇÃO DO PENSAMENTO

Aqui, permite-se aos pensamentos irem e virem a seu bel-prazer, enquanto o estudante, por assim dizer, caminha para fora da mente e torna-se espectador

objetivo. Ele se dissocia de seus pensamentos, solta as rédeas da mente e observa atenta-mente a atividade mental disso resultante. Observa as incessantes paradas de pensamentos que lhe passam pela mente em rápida sucessão. Se, por acaso, pensamentos aterrorizantes vierem-lhe ao campo da consciência, não deve

se

apavorar, mas permanecer como observador tranqüilo. Pode-se surpreender com

os

pensamentos que lhe venham à mente; pode ter sido de opinião que lhe seria

impossível pensar tais coisas. Sentado calmamente, perceberia que idéias repulsivas são apenas manifestações da nossa natureza inferior, que estamos justamente tentando dominar. No início, a mente, liberta de todos os controles, correrá, mas sua atividade diminuirá gradativamente e seus caprichos se tornarão menos violentos. No final do exercício o praticante pode refletir sobre os vários pensamentos, reconhecendo cada um deles pelo que foi. Pode também tentar descobrir um padrão que os tenha guiado, e tentar ver como diferentes pensamentos foram associados.

DIMINUINDO A ATIVIDADE MENTAL

O relaxamento físico e mental são dois estados que se inter-relacionam.

Descansando o corpo, e praticando pranayama (respiração iogue) durante algum tempo, o estudante prepara-se melhor para o estado de imobilidade mental. Pensamentos lhe cruzam a mente, mas fazem-no lentamente, sem aquela sucessão rápida e aquelas repentinas mudanças de assunto que normal-mente ocorrem na mente destreinada. Quando a atividade mental é diminuída, a mente pode ser comparada a um vasto céu azul, e os pensamentos ocasionais a pequenas nuvens isoladas passando acima da cabeça. O estudante pode realmente pensar num céu azul, e ver com o olho da mente uma pequena nuvem branca arrastando-se lentamente pelo firmamento. Então ele dirige o pensamento para aquela nuvem, deixa-a atravessar-lhe a mente devagar, e, no devido tempo, permite-lhe que desapareça no horizonte. Enquanto observa o céu, outra nuvem imaginária aparece, e o exercício repousante prossegue.

SUPRESSÃO DE PENSAMENTOS

Pensamentos invadem a mente de modo contínuo. Este processo pode ser detido, e o exercício presente é uma tentativa nesse sentido. O praticante exercita extrema alerta mental; logo que um pensamento aparece, ele, com resolução, o afasta. O estudante descobrirá que os pensamentos invadem a mente de todos os ângulos, por assim dizer, e ele deve permanecer sempre alerta; deve considerar tais pensamentos como intrusos que é mister afastar do campo da consciência. Reprimir pensamentos é um exercício muito fatigante e logo a mente ficará cansada. Quando isto acontecer, deve-se permitir aos pensa-mentos entrarem uma vez mais na mente. Após um descanso suficiente, reinicia-se o exercício. Concentrar o pensamento numa só coisa pode ser difícil, mas tentar não pensar é muito mais. Embora um adepto da Ioga possa banir pensamentos da mente, sem esforço, quando e como quiser, os iniciantes provavelmente encontrarão grande

dificuldade em deter o fluxo incessante de pensamentos que corre por suas mentes incansáveis. Portanto, neste estágio, podem retornar aos aspectos físicos para suprimir pensamentos e manter, durante algum tempo, um estado de esvaziamento da mente. Acharão mais fácil atingir esta condição se inspirarem profundamente, prenderem a respiração, fecharem os olhos, e depois olharem — com os olhos fechados — para o ponto central entre as sobrancelhas. A aplicação do entrave da língua, chamado khecari mudra, constitui um auxílio adicional aos estudantes, no qual dobra-se a língua e faz-se com que ela se dirija à garganta tanto quanto possível. O mudra deve ser utilizado apenas durante a retenção da respiração.

CONCENTRAÇÃO NA RESPIRAÇÃO

Respirando calmamente, concentre toda a atenção da mente no leve fluxo de ar que entra e sai pelas narinas. Enquanto inspira, sentirá o ar frio enchendo a cavidade nasal. Quando você inspirar mais fundo, porém ainda lentamente, será capaz de seguir o fluxo de ar até que ele chegue à garganta e, indo além, entrar pela laringe. No início, a concentração na respiração parecer-lhe-á uma técnica insignificante, mas um pouco de prática logo o convencerá do profundo efeito estabilizante que produz na mente. E um exercício que pode ser praticado com resultados benéficos em horas de tensão, e é também de grande auxílio às pessoas que sofrem de insônia.

RESPIRAÇÃO CALMA

Diga mentalmente a palavra "calma" enquanto inspira, fazendo com que a palavra dure até o final da inalação. Então novamente pense em "calma" enquanto expira, fazendo com que dure até o final da exalação. Você estará constante e ritmicamente repetindo "calma, calma, calma, calma "

CONTANDO RESPIRAÇÕES

Contar respirações é um exercício simples mas muito suave que requer, e depois desenvolve, a concentração da mente. Enquanto estiver sentado em silêncio, respire calmamente e conte mentalmente cada inalação. Continue a respirar uniforme e ritmicamente, esquecido do mundo exterior, e não se perturbe com os pensamentos que tentem penetrar-lhe a mente. Conte até cem, mova uma conta de seu mala (rosário), ou utilize os dedos para contar cada centena. Alternativamente, você pode fazer uma marca num pedaço de papel com caneta ou lápis. Se se distrair e perder a conta, anote mentalmente o número em que isto se deu. Com a prática será capaz de chegar a um total bem elevado sem se perturbar. E evidente que seria totalmente contrário ao propósito do exercício respirar mais rápido para aumentar o número total de respirações contadas.

DIRIGINDO O FLUXO DA RESPIRAÇÃO

No exercício de respiração alternada iogue o fluxo de ar é dirigido primeiramente a unia narina, depois a outra, pela pressão do polegar ou dos dedos mínimo e anular contra o lado do nariz. Pode-se tentar a respiração alternada pela narina sem fechá-la fisicamente. Outra diferença é que a respiração não é presa na técnica puramente mental. O método mental para dirigir o fluxo de ar nasal requer concentração total. Enquanto se inspira, primeiramente, pela narina esquerda, toda a consciência está concentrada no ar que está entrando por aquele lado do nariz. A mente não deve sentir mais nada. O mesmo acontece quando o ar é expelido pela narina direita, e então inspirado de novo.

RESPIRAÇÃO PRÂNICA

Pessoas que tiveram educação ocidental sabem que seus sistemas recebem oxigênio quando inspiram ar fresco. A absorção do oxigênio na corrente sangüínea ocorre

nos delicados vasos capilares do pulmão. O sangue distribui o elemento vital pelo corpo todo. Dessa forma suprem-se todas as células vivas do organismo com o oxigênio de que precisam para continuar a funcionar. Há milhares de anos, os iogues desenvolveram a teoria de que a atmosfera contém uma força vital, a que chamam Prana, e que consideram como energia universal e fundamental. Prana, dizem eles, está em todo lugar e em todas as coisas; é a força básica que anima toda matéria. A força que faz os planetas se moverem é Prana, e Prana é similarmente a energia responsável por toda ação do corpo e dentro dele, não apenas no aspecto físico, mas também no campo da atividade mental. O movimento muscular é a mais simples manifestação de Prana, enquanto que o pensamento e a vontade são suas expressões mais complexas.

O estudante de Ioga pode considerar Prana como energia concentrada, presente em

todo lugar. O oxigênio que inspira é uma forma de Prana, assim como a força vital que lhe energiza o sistema nervoso. Dessa forma a esotérica explicação oriental coincide com o ponto de vista ocidental. Na respiração Prânica o praticante sente que inspira profundamente grande quantidade de Prana. A respiração é presa pelo tempo que lhe for cômodo, e durante a retenção visualiza-se a força vital movimentando-se pelo corpo, vitalizando cada parte. Se determinado órgão necessitar especial atenção seleciona-se-o e dá-se-lhe mentalmente um auxílio extra de energia cósmica. Estudantes ansiosos em aumentar seus poderes de pensamento podem enviar extenso fluxo de Prana ao cérebro.

SENTINDO MAIS CALOR OU FRIO

Embora a temperatura ambiente permaneça constante, o praticante torna-se mais

quente ou mais frio. Através de um processo mental gradativo, pode imaginar estar sentado ao sol, e que os raios solares lhe estão esquentando o corpo, ou que está sentado junto ao fogo cujo calor o está envolvendo. Pode sentir também que o Prana que inala está gerando um calor intenso dentro de seu domicílio físico.

O aumento imaginário de calor pode ser sentido a tal ponto que se pode realmente

começar a transpirar. Pode-se sentir, da mesma forma, uma queda na temperatura do corpo se a pessoa se imaginar parcial ou totalmente imersa em água fria, ou rodeada por gelo, ou fechada numa câmara de congelamento.

CUIDANDO DO PLEXO SOLAR

O plexo solar, um feixe compacto de nervos ligados ao sistema nervoso simpático, fica na parte superior do abdome e em ambos os lados da coluna vertebral. É um centro nervoso importante e grande, situado numa posição dominante no meio do

corpo, de onde governa os órgãos vitais. Tem-se identificado o plexo solar como

a manipura chakra iogue, um centro sensível dentro da espinha dorsal no nível do

umbigo, e é tido como local de reserva de energia Prânica. Enquanto inspira lenta e regularmente, visualize um fluxo dourado de Prana circundando-o na atmosfera. Sinta-o entrar pelo topo da cabeça e dirija conscientemente este fluxo de energia vital ao plexo solar. Enquanto expira, faça o Prana circular dentro e em volta do plexo solar, aumentando a velocidade de circulação a cada nova exalação.

A RESPIRAÇÃO POSITIVA

Decidimo-nos a respeito de uma qualidade positiva que gostaríamos de possuir. Pode ser saúde ou ainda alguma qualidade mental. Se optarmos pela saúde, inspiramos profundamente pelo nariz, e sentimos que inalamos saúde abundante. Se optamos por uma qualidade moral ou mental, sentimos, igualmente, que ela flui

para dentro de nós à medida que inalamos profundamente. A qualidade escolhida pode ser a calma, a força de vontade, o desligamento, o altruísmo ou qualquer outra característica que sabemos ser positiva do ponto de vista iogue.

EXPELINDO CARACTERÍSTICAS INDESEJÁVEIS

A maioria das pessoas admitiriam prontamente ter alguma espécie de fraqueza na

sua constituição mental de que gostariam 70de se ver livres. A vida pode parecer complicada, e as forças e tentações esmagadoras. Se houver uma falha em especial no seu caráter que repetidamente foi a causa de quedas no passado, e muito provavelmente será um obstáculo ao progresso no seu programa de autodesenvolvimento, selecione esta falha da qual se quer ver livre, isole-a de si mesmo e use-a para praticar este método de rejeição de características indesejáveis. Há duas maneiras de proceder a este exercício. A primeira envolve inspiração e expiração pelo nariz, e, sinta que, a cada exalação vigorosa, você está expelindo sua qualidade indesejável pelas narinas. Se o que você sente por essa falta detestável é muito forte — ela o vem incomodando há muito tempo — use o segundo método, expelindo-a vigorosa e desprezivelmente pelo ânus a cada exalação.

REFLEXÕES NO FINAL DO DIA

Este é um exercício mental para praticar antes de se ir para a cama. O estudante deve pensar no dia que passou, perguntando-se honestamente se agiu como um bom estudante de Ioga. A vida oferece muitas ciladas ao viajante imprudente, mas isso não é desculpa para aquele que deseja progresso mental. Se o estudante agiu errado em alguma situação durante o dia que finda, deve, sem evasão, pensar nela

e perguntar-se por que errou. Deve examinar as razões dessa falha temporária, e

deve, finalmente, reviver toda a cena, conduzindo-se, desta vez, como mestre de si mesmo, como deveria ter feito antes. Na conclusão do exercício, o estudante deve resolver dominar quaisquer fraquezas que tenha ou faltas que possa ter praticado. As técnicas acima referidas podem também adaptar-se às falhas cometidas em passado mais remoto. Depois de considerar seu treinamento iogue até aqui e avaliar o estágio que atingiu, decida o que tem ainda de alcançar. Para ter idéia do que ainda deve ser feito, continue a leitura deste livro, e estabeleça, dessa forma, seu programa de treinamento futuro. Leve em conta quaisquer circunstâncias restritivas que venha provavelmente a encontrar, o relacionamento pessoal também deve ser considerado. Determine o que sem nenhuma razão especial deve tomar muito de seu tempo e de sua energia mental e proponha-se a abandoná-lo. Na firme determinação de que a meta iogue é o mais alto objetivo, decida quanto tempo devotará diariamente ao seu autotreinamento. Lembre-se que quanto maior for a prática mais benefícios e progressos alcançará. Reflita acerca de quaisquer planos que tenha feito quanto à sua vida mundana, e veja que se enquadrem em seu programa de Ioga. Decida-se a eliminar qualquer coisa que seja restritiva a um sério estudante de Ioga. Planeje sua estratégia como o general que se prepararia para uma batalha.

RECORDAÇÕES

O número de fatos guardados na mente é desconcertante. Com a mente calma podem-

se lembrar cenas da primeira infância, o relacionamento com os pais, os primeiros dias de escola, professores, amigos, e acontecimentos de toda uma vida já há muito esquecidos. Entretanto ao se tentar, intensamente, lembrar de algo em particular, a tarefa se torna terrivelmente difícil, até que por fim a mente se sobrecarrega e sobrevém, temporariamente, o black-out ou congelamento; todas

as suas atividades param por um momento, e não há lembrança nem pensamento. O oposto é verdadeiro; quando há placidez na mente — quanto mais calma houver na

mente, com mais facilidade se poderá lembrar. Portanto, um estado de tranqüilidade absoluta é essencial para se obterem máximos resultados. Só quando

a mente está calma como um céu azul sem nuvens poderá ela ser receptiva às

mensagens que lhe vêm do subconsciente. Há muita coisa armazenada no sistema de memória e qualquer coisa pode ser usada

como motivo para o exercício de recordação. O método consiste essencialmente em se decidir sobre o que recordar, e então propositadamente ativar os samskaras específicos, "traços da memória". Se o que se busca recordar for pouco definido, situando-se além da orla da mente, deve-se momentaneamente suspender a procura mental. Isto pode ser feito de imediato, desconsiderando-se a coisa toda, mas muitas pessoas destreinadas acharão isto difícil. Uma técnica indireta, isto é,

a concentração da atenção mental em algo totalmente diverso é muitíssimo valiosa

aqui. O assunto que se utiliza para afastar a mente pode ser um conjunto de assuntos especialmente selecionados para este fim — algo que se possa usar sempre, tal como uma simples figura ou desenho, uma paisagem pacífica na qual se

possa estabelecer um retiro mental. Contudo só se obtém sucesso através desse método com cem por cento de esforço. Se a mente está ocupada de modo parcial com

a procura do fato pouco definido, todos os esforços serão fúteis em havendo

distração deliberada. Deve-se com o tempo nem mesmo ter consciência da razão da concentração em algo. Estando-se constantemente consciente de que a mente está sendo levada em outra direção e verificando-se constantemente se a técnica está produzindo resultados não se obterá sucesso em nenhum exercício. Num exercício de Recordação seria bom escolher um assunto simples e insignificante. Por exemplo, pode-se tentar recordar o conteúdo do matutino, se não foi lido aquele jornal pode-se recordar o que foi lido no último jornal ou revista sobre os quais se deitaram os olhos. Pode-se também reconstituir as ações praticadas durante aquele dia desde o momento em que se levantou, ou as atividades do dia anterior ou de qualquer outro dia. O estudante que tenha lido inteiramente esta seção do livro pode tentar lembrar tantos exercícios mentais quantos forem possíveis, e, se estudou filosofia iogue, pode tentar recitar alguma das profundas elocuções dos sábios hindus.

REVIVENDO PASSADAS EXPERIÊNCIAS

Este é um exercício intimamente ligado ao exercício de Recordação. Pode ser considerado como extensão natural daquela técnica. Após haver decidido qual experiência reviver, ativam-se os samskaras específicos (traços da memória) e focaliza-se toda a consciência das mensagens que invadem a mente. Quando não há distrações internas nem externas, toda experiência a lembrar é mentalmente reconstruída em profundidade. O estudante volta no tempo, atravessa grandes

distâncias, e representa cenas completas de sua vida pregressa. Conversa com velhos amigos, experimenta mais uma vez a angústia e o prazer conforme o caso. Em lugar de reviver experiências passadas, pode-se inverter o processo e viver experiências futuras — se a mesma resolução for empregada. Sentado calmamente em sua esteira o aplicado estudante de Ioga pode, se tomar a decisão de fazê-lo, ia

a qualquer lugar, encontrar qualquer pessoa, e fazer qualquer coisa. Percebe

mais que qualquer outra pessoa que tudo está "na mente". Pode até mesmo, como exercício mental, abandonar o próprio corpo e assumir a identidade física e psicológica de outra pessoa, experimentando as reações daquela pessoa à vida.

DESCOBRINDO O LADO BOM DE UMA OCORRÊNCIA

O acontecimento escolhido para a prática, neste exercício em particular, é o

evento anteriormente considerado desagradável. O objetivo é refletir profundamente para descobrir qualquer bom aspecto que determinada experiência desfavorável possa talvez ter proporcionado. Pergunte a si próprio se a experiência lhe ensinou algo e o tornou mais sábio, mais maduro, mais realista. Isto é que é a vida — uma sucessão de experiências

agradáveis e desagradáveis. Às vezes as primeiras são mais freqüentes, às vezes as últimas. Qualquer coisa que aconteça tinha que acontecer, em obediência à Lei do karma (a Lei de Causa e Efeito). Tudo que acontece — seja no presente, no passado ou no futuro — tem uma causa, e causa e efeito seguem-se numa seqüência implacável. Chamar um acontecimento de "mau" simples-mente reflete uma atitude mental de momento. Através da Ioga aprende-se a olhar para as coisas de modo mais distanciado. Tudo no mundo perceptivo-sensorial está sujeito a mudanças e quanto mais cedo se perceber e aceitar isto, mais rápido se progredirá.

PENSANDO EM ALGUÉM DE QUE VOCÊ NÃO GOSTA

Os pensamentos ficam concentrados numa pessoa de que você não goste ou que deteste em particular. Em lugar de insistir naquilo que você sempre considerou como maus aspectos desse indivíduo, deve agora concentrar-se em quaisquer qualidades positivas que possa ter. Se você não puder descobrir nenhuma, é melhor insistir. Imagine que esta pessoa de que tanto desgosta seja seu parente consangüíneo, que você seja obrigado a defendê-la de alguma injustiça. Quando estiver sendo crítico deve sempre ter em mente que, se você fosse aquela pessoa, frente às mesmas circunstâncias, poderia ter-se comportado exatamente como ela. Se tem impulsos críticos, analise seus pensamentos e motivos e pergunte-se se a falta pode permanecer com você. Substitua então a crítica aos outros pelo entendimento. Conclua o presente exercício numa mensagem de bons votos e de amor à pessoa que foi objeto de sua concentração. Se não puder pensar em ninguém de que desgoste, terá que abandonar este exercício. Entretanto pode congratular-se pois você está bem avançado no caminho da paz. Para o iogue não existe inimigo, todos os homens e mulheres são seus irmãos e irmãs amados. E tem no coração amor intenso por toda criação.

PENSANDO EM ALGO DE QUE DESGOSTE

Se há algum assunto em que não goste de pensar, pense nele para o propósito deste exercício. Sua mente deve ter força bastante para pensar em qualquer coisa. Não há nenhuma necessidade de mencionar a ninguém esses pensamentos dos quais você se ressente, mas retenha-os na solidão de sua própria mente. Talvez haja pensamentos que tenham sido colocados nos recônditos de seu subconsciente, e estes pensamentos costumam emergir nos momentos mais inesperados. Traga-os deliberadamente à tona e analise seus sentimentos acerca deles.

AUMENTANDO O TAMANHO DO CORPO

Sentado calmamente, com os olhos fechados, sinta seu corpo aumentar a cada inalação, como se fosse um balão sendo inflado. Sinta-se aumentar de estatura, e simultaneamente sinta seu tórax se expandir. Cem por cento de esforço mental devem ser despendidos neste exercício, pois logo que sua concentração seja perturbada, ainda que levemente, você terá que recomeçar tudo de novo. Continue inflando-se até que sua cabeça toque o teto do compartimento; depois disso seu tórax deve se expandir até que todo seu corpo locuplete cabalmente o cômodo, até os recantos mais longínquos. Isto posto, você terá realizado o primeiro estágio do exercício. Pode deter-se aqui e esvaziar o corpo numa exalação. No segundo estágio continue a trazer ar para o corpo em profundos haustos. A força pela qual seu corpo é comprimido contra as paredes aumenta a cada inalação, até que a pressão se torne muito intensa — as paredes e o teto começam a estalar e finalmente a desintegrar-se. Seu corpo começa agora a se expandir no espaço infinito. Terminando o exercício deixe o ar sair de seu corpo numa longa exalação. Isto trará seu corpo de volta ao tamanho normal, fato de que você pode se convencer logo que abrir os olhos.

DIMINUINDO O TAMANHO DO CORPO

Olhos novamente fechados. A cada exalação vigorosa sinta o corpo tornar-se menor. Encolhe ainda mais cada vez que você expira e continua a diminuir até ficar pequeno como um grão de mostarda. Se sua mente se distrair enquanto você está diminuindo — se um pensamento invade a mente consciente — o efeito é destruído e antes que abra os olhos seu corpo terá voltado ao normal. Quando seu corpo se tiver tornado do tamanho de um grão de mostarda, você pode inspirar profundamente e "inflar--se" numa inalação prolongada, trazendo-se de volta ás proporções humanas. Entretanto, você poderia continuar o exercício e tornar-se menor que um grão de mostarda até que finalmente esteja do tamanho de um átomo, a circular na atmosfera, circulando livremente no espaço.

FLUTUANDO NO AR

O praticante sente o corpo tornar-se mais leve. Deve concentrar toda a atenção no sentimento imaginário de diminuição do peso corporal, do contrário o esforço será inútil. Através de concentração constante, a força da gravidade é gradualmente dominada. Livre da terra o corpo começa lentamente a se elevar. O teto do aposento se abre, o corpo se transforma num balão a librar nas alturas, num céu azul. Carregado pelos ventos o estudante flutua sobre vales pacíficos, rios sinuosos e montanhas cobertas de neve. Poderá ir até mesmo mais alto, experimentando uma sensação de quietude, flutuando sem esforço. Aquele que pratica esse exercício com sucesso alcança a levitação, pelo menos onde mais importa — na própria mente.

ENCHENDO O CORPO COM AGUA

Este exercício específico é praticado para lavar, no sentido psíquico, impurezas do corpo e da mente. Com a primeira exalação sente-se a água entrar pelo corpo pelas partes que tocam o chão. A cada nova exalação sente-se a água subir. O corpo se transforma numa bomba d'água; à medida que o ar é expelido, cria-se um vácuo, e mais água entra. Inicialmente enche as pernas, depois o abdome, cavidade torácica, os braços; sobe até o pescoço e enche gradualmente a cabeça, até que final-mente chega ao topo da cabeça. A água permanece no corpo algum tempo, até que todos os defeitos físicos e qualidades psicológicas indesejadas estejam dissolvidas nela. Finalmente, com uma inalação muito profunda, a água é pressionada para fora, levando com ela tudo que for negativo.

CONSCIENTIZAÇÃO DAS DIFERENTES PARTES DO CORPO

Para os estudantes que estão começando a controlar a mente, este exercício específico pratica-se melhor em savasana. Para a pessoa se conscientizar das diferentes partes do corpo, dirige toda a atenção da consciência para determinada parte. Se a parte escolhida tiver sido o pé esquerdo, aumenta-se a conscientização daquele pé pela exclusão de todas as mais partes do corpo. Tenta-se mentalmente sentir não só a pele que o envolve, mas carne e ossos também, e até mesmo a circulação sangüínea dentro do membro. Quando sentir formigamento no pé dê-se por satisfeito, pois a concentração terá sido completa. Pode-se, então, continuar o exercício com outras partes, até que se tenha atentado em todo o corpo.

O LOTUS NO CORAÇÃO

Visualiza-se uma flor de lótus no centro do coração. Trata-se de uma flor branca com doze pétalas. No início do exercício, a face do lótus está voltada para baixo. A cada inalação, ela se ergue levemente. Há uma luz dentro da flor, uma luz que se torna gradualmente mais clara à medida que a face do lótus se eleve. Quando finalmente o lótus brilhante está na posição correta, o praticante é envolvido em sua luz radiante.

MANTRAS

Um mantra é, em essência, uma fórmula espiritual. Por meio de sua repetição constante e rítmica (japa), o estudante almeja identificação com o objeto do

mantra. Se houver apenas concentração no som da palavra (ou palavras) do mantra,

o japa constitui meramente um exercício de concentração, resultando em calma e

simplicidade da mente. Por outro lado, quando o mantra é repetido levando-se em consideração todo o significado das palavras e idéias que elas expressam, o exercício se transforma em meditação. Mantras podem ser recitados em voz alta (vachika japa); suavemente (upanshu

japa), produzindo-se um sussurro que outros não possam ouvir; ou silenciosamente (manasa japa), em que nem os lábios nem as cordas vocais se movem, e o japa está apenas na mente. O japa suave é mais benéfico que o falado, e o japa silencioso,

o mais poderoso dos três.

Mantras devem ser recitados em ritmo uniforme, nem rápido nem lento demais. Enquanto os estiver entoando — seja em voz alta, suave ou silenciosamente — o estudante pode usar um mala (rosário) de cento e oito contas.

Mantra Om

A palavra Om (pronunciada como a palavra inglesa home, e às vezes transcrita

para o inglês como Aum) tem sido, desde tempos imemoriais, o mais elevado e mais reverenciado mantra iogue. Seu som é preso para se incluir as cinqüenta letras do alfabeto Sânscrito, e Om contém, portanto, o nome de todas as coisas. Há diferentes maneiras de repetir o mantra Om, aquele que tudo inclui. Om pode ser juntado à inspiração e depois à expiração, até que toda a mente esteja cheia da sílaba sagrada e vibre com sua essência. Após executar uma respiração completa, você pode entoar Om. Deixe que o som comece na parte mais profunda da garganta, mova-o gradualmente para a frente, e continue a vibração prolongada e ressonante do "m" quando os lábios estiverem fechados. O cântico deve ser claro e uniforme. Se houver oportunidade, os estudantes podem entoar o mantra juntos, enviando as ondas poderosas de belo som a seus corações, enviando-as uns aos outros, a todos os estudantes de Ioga de todas as partes, aos professores e adeptos e a todos os seres viventes. Para maior reverência, podem juntar as mãos, como se orassem, em frente ao tórax.

Mantra Sa'ha Conforme você inala pelo nariz, e o ar penetra ruidosamente, junte a sílaba sa à inalação, fazendo com que ela dure exatamente o mesmo tempo da inspiração.

Quando expirar, junte a sílaba ha à exalação, fazendo com que, novamente, ela dure o mesmo tempo da exalação. Respirando calma e uniformemente, você estará repetindo constantemente Sa-ha. Esta combinação vem do sânscrito e foi traduzida livremente por "Isto sou eu". Isto significando o Eterno. A exaltada conclusão da filosofia Iogue (Vedanta) é que o Eterno está em tudo e é tudo. Perceber que você é o Eterno constitui o fim último de seu treinamento iogue. No presente estágio, a repetição consciente do belo mantra Sa'ha proporcionar-lhe-á grandes benefícios.

O Gheranda Samhita (V, 84) afirma que há, durante um dia e uma noite, vinte e um

mil e seiscentas respirações (isto é correto se você inspirar e expirar numa proporção de quinze vezes por minuto). Após haver praticado a repetição do mantra Sa'ha durante algum tempo, você perceberá que a inspiração soa realmente como sa e a expiração como ha. Isto leva a uma importante constatação : durante

cada período de vinte e quatro horas, você proclama sua natureza divina vinte e uma mil e seiscentas vezes. E não apenas você, mas todo ser vivente, consciente ou não, recita de contínuo este sagrado mantra.

Mantra Gayatri

O mantra Gayatri, compilado pelo sábio Viswamitri, tem sido usado, há séculos,

como mantra e oração pelos membros da mais alta casta na Índia, os Brahmins. As catorze palavras deste mantra são as seguintes: Om; Bhur Bhuvah Swah; Tat Savitur Varenyam; Bhargo Devasya dhimahi; Dhiyo jo nah prachodayat. As nove primeiras palavras do mantra são nomes do Divino, e a palavra dhimahi significa culto ou meditação. A última sentença do mantra é uma súplica por iluminação.

DESPERTANDO KUNDALINI

De acordo com antiga teoria iogue, Prana ou força vital, circula pelo corpo por uma densa rede de 72 000 nadis, ativando, dessa forma, todos os órgãos e sentidos. Estes nadis podem-se comparar aos canais nervosos do corpo humano. Todos os 72 000 nadis nascem num centro situado na base da espinha. O nadi principal chama-se sushumna. Ele percorre a coluna vertebral e vai, pelo cérebro, ao todo da cabeça. O Prana que flui através de sushumna está sob a

forma da deusa Kundalini. Normalmente, Kundalini está adormecida em sua caverna (kanda) na base da espinha.

A deusa é descrita como uma serpente, deitada, enrolada em três espirais e meia.

Com a boca, ela fecha a entrada inferior do delicado canal de sushumna.

O objetivo da Ioga Kundalini, também chamada Laya Ioga, é despertar Kundalini,

de tal forma que ela se mexa, silve e comece a se movimentar através do canal de sushumna até atingir o topo da cabeça onde o deus Shiva, terceiro deus da trindade hindu, habita. Atinge-se o objetivo da Ioga Kundalini quando ocorre a união de Shiva e Shakti. São necessárias concentração e meditação profunda para acordar Kundalini e clarear a rota de sua jornada para o alto, pois o canal de sushumna é bloqueado por seis dos primeiros sete centros principais ou chakras, enfileirados sobre o nadi principal. O estudante desejoso de utilizar o profundo exercício mental fornecido pela verdadeira prática da Ioga Kundalini deve aprender tudo que possa

a respeito dos sete chakras, de tal forma que possa encontrá-las numa exploração introspectiva, e visualizar os centros em seus respectivos lugares através do

olho da mente. Prendendo todas as suas faculdades mentais nas chakras, será capaz de abri-los, abrindo assim o caminho para Kundalini. Primeiramente, é aberto a chakra muladhara que fica na parte inferior de sushumna; tendo entrado no sushumna por sua própria vontade, a serpente é conduzida de chakra a chakra; como os centros estão abertos, Kundalini continua a empreender sua jornada para

o alto em direção a seu esposo espiritual, o deus Shiva, que reside na última e mais elevada chakra, a chakra sahasvara.

A Chakra Muladhara.

Esta chakra está situada na base da coluna vertebral, entre os órgãos genitais e

o ânus. É representado por um lótus amarelo com quatro pétalas avermelhadas e

está relacionado com o elemento terra e com o sentido do olfato. Seu bija, ou semente, sonoro básico é lam. A vogal em lam deve ser curta e pronunciada como na palavra "rã". (As vogais dos bijas das quatros chakras seguintes são pronunciadas exatamente da mesma forma). A última consoante, o "m", continua a ser pronunciada uniformemente com os lábios fechados enquanto restar o suprimento de ar. 'Enquanto estiver meditando numa chakra, o estudante pode, para obter resultados mais rápidos, entoar seu bija, cujas vibrações ajudarão a abrir cada chakra em particular.

A Chakra Svadhisthana

Situada na raiz do pênis, a chakra svadhisthana é representada por um lótus branco com seis pétalas rubras. Está ligada ao elemento água e ao sentido do paladar. Seu bija mantra (semente sonora) é vam.

A Chakra Manipura

A chakra manipura fica em sushumna, na altura do umbigo. É representada por um

lótus vermelho com dez pétalas douradas. Está ligada ao elemento fogo e ao sentido da visão.

O bija mantra desta chakra é ram.

A Chakra Anahata

A chakra anahata fica na região do coração e é representada por um lótus cinzento com doze pétalas de vermelho flamejante. Está ligada ao elemento água e

ao sentido do tato. Seu bija mantra é yam.

A Chakra Vishuddha

Situada na região da garganta, logo abaixo da laringe, a chakra vishuddha é

representada por um lótus branco com dezesseis pétalas purpúreas. Está ligada ao elemento éter e ao sentido da audição.

O bija mantra desta chakra é ham.

A Chakra Ajna

A chakra ajna é o centro de comando, situado entre as sobrancelhas. Governa e

unifica as faculdades representadas nas cinco chakras anteriores. A chakra ajna

é a chakra da mente, e é representada por um lótus de um branco brilhante com duas pétalas brancas.

O bija mantra do centro da mente é Om, e é neste centro que o iogue recita Om na

hora de desfazer-se de sua carcaça física.

A Chakra Sahasrara

No alto da cabeça, brilhando com o esplendor de muitos sóis, fica o lótus das mil pétalas, a chakra sahasrara. E a sede da consciência pura, representada por

Shiva. Pratica-se a respiração iogue como exercício preliminar à concentração e

meditação sobre as chakras. Isto purifica os nadis e prepara a abertura das chakras. Kundalini é despertada meditando-se nela, uma vez que se encontra deitada em seu lugar de repouso, e essa meditação pode, de acordo com o Gheranda Samhita (III, 82), ser acompanhada de freqüentes contrações e relaxamentos do ânus. É empregada uma técnica posterior chamada Shakticalana, que significa "Shakti movente", a fim de fazer Kundalini entrar no canal de sushumna. Realiza-se Shakticalana inspirando-se profundamente e, contraindo-se lentamente o ânus, durante a retenção da respiração, de tal forma que a energia excretora (a pana) seja forçada para cima [Gheranda Samhita (III, 54, 55)] Dão-se instruções similares no Hatha Yoga Pradipika (I, 48), que também afirma (III, 29) poder-se obter resultado batendo-se repetida e suavemente as nádegas no chão.

O destino de Shakti (Kundalini) é a chakra sahasrara, onde terá lugar a união

com Shiva — uma união simbólica entre a energia latente do homem com a consciência pura. No final da meditação iogue, Shakti, prenhe de conhecimento, volta a seu lugar de repouso na base da espinha. A medida que ela desce, fortalece as chakras, dotando-as de consciência e poder. Por fim, as chakras permanecerão permanentemente abertas, deixando passagem livre ao fluxo de consciência pura.

CONCENTRAÇÃO NO CENTRO DE COMANDO

A chakra ajna, ou centro de comando, é excelente para a concentração devido à

sua posição na área subcortical do cérebro, exatamente no meio das sobrancelhas,

e devido à importância de suas funções do ponto de vista iogue.

O estudante deve fechar os olhos e concentrar toda a atenção da mente no ponto

entre as sobrancelhas. Sua concentração deve ser profunda se, sem intencioná-lo, prender a respiração. No início, pode servir de ajuda à mente destreinada "olhar" para o ponto em que a mente deve se concentrar, mas isto não deve ser feito durante muito tempo, de forma a não se sentir desconforto.

A estimulação deste centro através de concentração intensa e imóvel aumentará a

potência mental do praticante.

MANIPULAÇÃO BINDU

A manipulação bindu constitui um exercício mental avançado. Bindu significa

ponto ou pingo. Num primeiro estágio, o bindu deve ser visualizado no centro de comando entre as sobrancelhas. O bindu pode ser visto na forma de minúscula pérola transparente. Deve-se continuar esta parte do exercício até que ' a imagem se torne absolutamente clara. Manipulação de bindu significa move-10 da chakra ajna para a chakra sahasrara, na área cortical do cérebro físico, no alto da cabeça. Considera-se que a minúscula pérola contém a essência da mente, que será enriquecida ainda mais ao entrar em contato direto com a consciência na alta chakra sahasrara. Durante a inalação lenta e uniforme, a atenção da mente deve estar voltada para

o bindu, sem hesitação, e ele deve se mover por um canal nervoso (o sushumna

nadi) até o centro de sahasrara. Durante o período de retenção da respiração o bindu permanece na chakra sahasrara, onde é fortalecido com a consciência pura lá existente. A medida que se expira, quase imperceptivelmente, a pérola, que

agora ficou brilhante, é cuidadosamente guiada de volta através do sushumna nadi

à chakra ajna e a enche de refulgente luz.

Completa-se o exercício meditando longamente na radiante chakra ajna.

NADA BANDHA

Assim como na Hatha e Laya Ioga se aplicam certos retesamentos musculares, na Raja Ioga pode-se praticar o retesamento mental. Este retesamente psicológico é chamado de nada bandha. Nada significa som, especialmente som interno, e em nada bandha o praticante houve com o ouvido "interior" o som do Supremo. Todo o universo está em vibração — a vibração do Infinito — e essa música divina onipresente é, num plano superfísico, manifestada no indivíduo como um som cantado na cabeça. Ao praticar nada bandha, o praticante concentra todas as faculdades mentais na chakra ajna, o delicado centro entre as sobrancelhas. Aí, com toda a energia psíquica, ele sintoniza a fim de ouvir a música do Supremo, que é Om.

CAPÍTULO VI - A DISCIPLINA IOGUE NA VIDA DIÁRIA

Para atingir o mais elevado grau em Ioga, toda a sua vida deve ser dirigida

àquela meta. Cada obra realizada e cada pensamento elaborado deve ser compatível com os ensinamentos iogues. Pode-se praticar diligentemente durante duas horas por dia na solidão de um aposento silencioso e isto seria maravilhoso — mas deve-se ainda levar suas convicções para a vida diária e viver de acordo com elas a fim de atingir o sucesso último.

O estudante de Ioga deve realizar seus deveres mundanos da melhor maneira

possível, e ficar feliz por estar prestando serviço aos outros. Seu trabalho não deve visar apenas recompensas financeiras ou outros interesses egoísticos. Ao invés de pensar em seu ganho pessoal, deve pensar no lado bom de seus semelhantes. Servir ao homem é servir ao Divino. Na vida cotidiana, o estudante encontrará muitas oportunidades de praticar a concentração, exercitar o autocontrole, melhorar a força de vontade e agir altruisticamente. Concentrando-se em tudo que faça, almeja a perfeição em qualquer coisa que empreenda. Ao realizar determinada ação, é perfeitamente consciente de tudo que está fazendo. A ineficiência é coisa do passado. Ele domina aquilo de que desgosta selecionando para trabalho o que anteriormente evitava. Agora concentra-se nele propositadamente, e sente-se feliz em realizar tais obrigações.

As dificuldades, não importa o grau ou forma, são para o estudante desafios bem-

vindos. Grandes dificuldades foram sobrepujadas por muitas pessoas no passado, e

o serão no futuro. Assenhoreando-se de cada situação, o estudante será um

exemplo brilhante para outros.

O estudante deve tentar permanecer calmo, não importa o que aconteça. Deve

tentar manter o equilíbrio mental em todas as circunstâncias. Uma mente calma é

uma grande amiga. Se se excita ou enraivece, as coisas provavelmente s complicarão mais, e os problemas podem aumentar. O melhor é adotar uma atitude filosófica. Se algo aparentemente adverso acontece, não deve pensar nele como

tal. Parecer ou não adverso depende da atitude que se adota em relação à coisa ou acontecimento. Em face de adversidade aparente, deve-se tentar não só manter uma aparência de calma mas também, e muito mais determinantemente, deve-se tentar manter a serenidade interior. O resultado da prática contínua de preservação de um tranqüilo estado de espírito será uma grande força mental.

O estudante deve prestar atenção a tudo quanto diz. As palavras faladas são

manifestações de pensamentos interiores. Como primeiro passo, o estudante deve abandonar toda espécie de conversa que se relacione com desejos egoísticos, e com tudo que seja prejudicial ao sucesso em Ioga. Como último passo, deve abandonar todos os pensamentos adversos. Em conversação, deve tentar ater-se ao assunto em discussão. Esta é uma forma de concentração, e é interessante descobrir quantas pessoas a acham difícil. Contrariamente a desperdiçar seus esforços, e o tempo de outras pessoas, o estudante de Ioga almeja a concisão e correção em cada pensamento que expressa. Tenta compreender os aspectos importantes de qualquer que seja o assunto em discussão, e aplica a mesma disciplina ao pensamento. Sua mente não deve ficar atravancada com

trivialidades. Não profere uma palavra negativa ou de crítica aos outros, porque aprende a entender a si mesmo e, por esse meio, aos outros. A medida que progride em Ioga, seu entendimento aprofundar-se-á, e seus pensamentos críticos se transformarão em amor fraternal. O estudante experimentará verdadeiramente "intenção de não prejudicar a ninguém e caridade por todos". Tal atitude criará uma atmosfera harmoniosa no mundo e na mente do estudante.

O estudante sério não deve prender-se a conversas fúteis, nem envolver-se em

discussões. Convencido da retidão de suas atitudes, continua seu treinamento com calma e firmeza. Nunca se gaba aos outros de suas façanhas mentais. Fala pouco, e, se as circunstâncias permitirem, pode até entrar num período de completo

silêncio, ou mouna. Torna-se um verdadeiro mouni quando seu silêncio não for apenas exterior, mas quando também sua mente estiver calma e imperturbável. Deve-se sempre praticar a auto-restrição, e os hábitos negativos devem ser dominados. Freqüentemente o estudante de Ioga necessitará de uma grande força de vontade, mas isso lhe será de grande alegria. Ele gosta de exercitar sua força de vontade que, com a prática, só pode se tornar mais forte. Abundam

oportunidades em que pode testar e aguçar essa faculdade a qual, de outra forma, poderia desaparecer se não fosse usada com regularidade. Primeiramente, deve-se desfazer dos maus hábitos como uma serpente se desfaz de sua pele velha. Deve-se dar prioridade especial à eliminação do fumo e da bebida. Estes hábitos escravizam, e o estudante de Ioga não deseja ser dominado por essa espécie de coisas. Além do mais, tais vícios são prejudiciais à saúde do corpo. O fumo afeta os pulmões, enquanto que o álcool suja o fluxo sangüíneo e confunde a mente. Um pouco de álcool não prejudicará o estudante, mas ele deve, primeiramente, dominar a necessidade de tomá-lo; para provar que, de fato, dominou essa fraqueza pode abster-se de quaisquer bebidas alcoólicas durante um período prolongado. Depois disso, será capaz de dizer não a uma bebida, qualquer que seja a ocasião.

O desejo de objetos desenvolve-se quase desde o nascimento. Balança-se,

tentadoramente, um chocalho em frente aos olhos de um bebê, os desejos da criança são despertados e ela se agarra ao brinquedo. Esse tipo de reação continua pela vida afora. Somos seduzidos por coisas brilhantes, e as queremos para nós. Uma vez que as tenhamos, não as apreciamos mais e desfazemo-nos delas com indiferença, da mesma forma que um bebê joga seu novo chocalho para fora do

berço. Essas reflexões não devem resultar num desgosto por objetos. As coisas em

si não são nem boas nem más; é apenas a atitude mental que se adota frente a

elas que as faz parecer assim. Tanto a aversão como o apego devem ser dominados.

O desejo de objetos mantém a mente em contínuo estado de turbulência, no qual

sempre se está pensando em adquirir mais coisas. E esse estado de febre mental

que o estudante de Raja Ioga tenta dominar pela prática do desligamento interior. Estar rodeado por tentações torna sua batalha até mesmo mais interessante. Prepara-se para a contenda e parte para a aniquilação das

influências perturbadoras que estão profundamente enraizadas em sua mente. A luta pode ser implacável porque o inimigo é poderoso. Os desejos sensuais virão

à tona logo que a luta amainar. Levar uma vida baseada em suas necessidades

mínimas será de grande auxílio ao estudante.

O estudante deve aprender a confiar apenas em si mesmo. A dependência de outros

deve ser abolida, junto com a necessidade de apreciação e louvor. O estudante encontrará inspiração e força em abundância no seu estudo e prática dos

ensinamentos iogues. Não terá mais necessidade de depender de outras pessoas. Transformar-se-á num belo exemplo de independência. Jejuar, ainda que moderadamente, constitui outro caminho para a prática da força

de vontade. Entretanto, os jejuns exagerados são desaprovados como claramente se

explica no verso do Bhagavad Gita freqüentemente citado (VI, 16); mas a excessiva ingestão de alimentos deve ser refreada. Natural-mente, certa quantidade de alimento é essencial à saúde do corpo, mas é muito menor do que algumas pessoas pensam. Como treinamento mental, a extravagante necessidade de

alimentação pode ser diminuída, separando-se um dia na semana em que não se come nada e apenas bebe-se água. Essa prática ajudará a limpar o organismo, mas não deve ser adotada por pessoas com peso abaixo do nível médio para sua estatura. Uma forma suave e muito benéfica de dominar essa necessidade de alimentação é comer bem devagar.

O regime iogue de vida também inclui abstinência sexual. Para um estudante que

busca o domínio completo da mente, o controle da necessidade sexual é imperativo. Não deseja ser escravo de suas paixões sexuais, como não deseja ser fraco frente a quaisquer outros desejos. O. sexo não precisa ser afastado para sempre, mas o desejo dele precisa ser controlado. Como o estudante consegue isto? O método mais drástico é o abandono de toda atividade sexual, e de todos

os pensamentos a esse respeito. Evita-se a companhia de provocantes membros do sexo oposto, e substituem-se pensamentos sobre sexo por outros totalmente diferentes.

Algumas pessoas acham a abstinência sexual mais fácil que outras. A necessidade

sexual não é sentida com a mesma intensidade por todos; a falta de oportunidade ou abundância desempenham papel significativo. Se o estudante é casado e feliz, desfrutando harmoniosa vida sexual não é de esperar que vá desistir daquilo que

o aproxima tanto de sua mulher. Outrossim, existe a necessidade do sexo para a

procriação. Afinal, se todos desistissem do sexo ao mesmo tempo isso significaria o fim da espécie humana. Se o estudante viver com uma pessoa do sexo oposto, praticará a moderação. Se tanto o homem quanto a mulher forem estudantes de Ioga mental, a abstinência temporária pode ser um desafio útil. Quanto ao sexo são dadas, na literatura iogue, opiniões conflitantes. Por um lado, o estudante é requisitado a manter a mais estrita abstinência em obras e pensamentos, por outro lado, significados diferentes são emprestados ao que subjaz ao ato sexual. Ë caso especial a verdadeira participação em maithuna, ou união sexual, com propósitos específicos. Maithuna é elevada a um plano espiritual quando os participantes se consideram atores numa peça divina. Em vários lugares são descritas técnicas que podem ser praticadas durante maithuna para a obtenção de autocontrole e força. Os antigos consideravam o sukra, ou sêmen, como contenedor da essência do homem e, portanto, impedindo-se sua perda preservava-se força. O coito é prolongado e sob o estímulo da excitação é produzido mais fluido seminal. A ejaculação não deve ocorrer e para deter a "saída da semente" utiliza-se um mudra, ou retesamento, como o mudra Khecari, no qual a língua é dobrada para dentro, enrolada em direção à garganta. O pensamento permanece imóvel, e o sukra não é emitido, nem mesmo no "abraço de mulher jovem e apaixonada". Após ter sido assim estabelecido o autocontrole, o estudante moderno deve permitir que o orgasmo ocorra, uma vez que o ato sexual incompleto causará congestão dos órgãos sexuais e pode ocasionar dor. Em ritos religiosos a relação sexual era vista como ato simbólico. A mulher tornava-se um lugar consagrado à realização de um sacrifício. Seu colo era o altar em que se acendia o fogo do sacrifício, e o devoto oferecia sua oferenda.

Antes do ato, despendia-se tempo considerável em meditação a respeito de seu significado simbólico. Realizar maithuna com a mente assim purificada transforma um instinto básico em sublime.

O jogo das forças cósmicas também pode ser visto no casal humano que copula

buscando ardentemente a unidade. A mulher fértil é vista como representante de todos os princípios femininos da natureza, e o homem potente representa todos os

aspectos masculinos. O orgasmo se torna uma experiência mística. Similarmente a

união extática do casal humano é encarada como símbolo da união entre matéria e espírito, na qual a mulher é a encarnação de prakriti, ou matéria, e seu companheiro a encarnação de purusha, ou espírito. Em maithuna o macho permanece estático como o espírito inamovível, e toda atividade parte de sua companheira,

a

fêmea, representante da matéria ativa.

O

estudante de Ioga mental pode decidir-se acerca de que escola virá a

pertencer, e qual abordagem se coaduna melhor com seu caso particular. A reflexão sobre o assunto junta-mente com o estudo da filosofia iogue capacitá- lo-á a encarar o sexo sob nova perspectiva. Em lugar de perturbar-lhe a mente, o sexo se tornará para ele uma experiência sublime, excelente. Mas antes de decidir o que é bom para si próprio, deve, se tiver oportunidade, praticar sinceramente a abstinência durante algum tempo. Não deve apenas abster-se do ato real durante este tempo, mas também tentar banir da mente todos os pensamentos a ele relacionados. Deve considerar os membros do sexo oposto como seres espirituais que habitam corpos físicos. Tendo dominado os desejos sexuais a um grau suficiente pode retornar a uma vida sexual moderada.

CAPÍTULO VII MEDITAÇÃO

O propósito da meditação iogue é despertar a consciência mais elevada. Através

das diversas práticas meditativas, o que medita deseja afinar-se com o princípio

espiritual dentro do seu ser. Em meditação profunda transcende sua mente e entra numa nova dimensão de existência.

A mente é o elo entre o corpo e o espírito. Para alguns, ela está firmemente

ligada às necessidades e paixões corporais; para outros, há maior congruência entre a mente e os valores espirituais. Todo o treinamento iogue precedente foi empreendido com a finalidade de banir a primeira condição mencionada e ressaltar

a

última. A meditação acelerará esse processo.

Os

ensinamentos iogues sugerem que a mente humana pode estar dividida em três

regiões, as quais se podem denominar mente subconsciente, mente consciente, e mente superconsciente. Os instintos básicos e desejos egoísticos são propriedades da mente subconsciente, onde o homem está mais perto do animal; a mente consciente é a sede da razão e do intelecto, e lida com o cotidiano; a

mente superconsciente é a que está mais próxima do eu — a centelha do Infinito

no homem — e é origem de tudo quanto é bom na natureza humana. As aspirações

grandiosas e pensamentos nobres, o amor altruísta e a afeição pela humanidade,

os princípios éticos e as idéias inspiradoras — tudo provém da região mental

localizada acima da consciência comum.

O homem como em geral o conhecemos é um produto inacabado. Entretanto, possui

dentro de si a força que lhe dá a possibilidade de evolução espiritual e pode-se elevar, através de seus próprios esforços, ao plano da mente superconsciente.

A meditação só se pode empreender com sucesso após dominar a arte da

concentração e ter controlado pensamentos e sentimentos. Uma vez iniciada a meditação, deve ela ser praticada diariamente sob as condições requeridas para

os exercícios de concentração. As obrigações mundanas não devem ser descuradas; por outro lado, os afazeres corriqueiros não devem tomar todo seu tempo e

devoção, pelo menos neste estágio. De acordo com a inclinação de cada um, deve-

se meditar logo após a prática da respiração e da concentração iogues, pois

esses exercícios prepararão a mente. Tendo-se avançado o bastante, pode-se iniciar a meditação imediatamente e permanecer meditando durante um tempo determinado todo dia.

A meditação iogue difere da concentração normal. Enquanto na concentração o

objeto pode ser uma coisa ou alguma idéia abstrata, na meditação o objeto é sempre de natureza espiritual. As técnicas aplicadas também podem diferir. De modo algum deve haver esforço visível na meditação. A mente foi submetida a um programa de treinamento profundo e pode, agora, ser contida para verificação durante períodos prolongados. Distrações internas e externas não mais constituem ameaça à prática da meditação. O pensamento ou idéia a ser ponderado é cuidadosamente selecionado e então retido na mente durante algum tempo. Depois disso são possíveis dois desenvolvimentos. No primeiro método, o meditante explora vários aspectos do

tema central prestando a mesma atenção a cada ângulo. Finalmente, todos os aspectos são inteiramente projetados na tela mental. No segundo método, o tema central é momentaneamente retirado do campo da consciência; enquanto o meditante mantém a mente tranqüila, aguarda a chegada de idéias associadas em sua consciência. Tudo que está relacionado com o objeto em consideração pode penetrar, pode ser objeto de reflexão, e subseqüentemente ser descartado da mente para dar lugar ao pensamento seguinte. No fim da meditação o tema central

é

reintroduzido, e será então visto em profundidade.

Os

pensamentos a empregar como alvo de meditação podem ser encontrados em

abundância nos Upanishads e no Bhagavad Gita (veja respectivamente Capítulos X e

XI deste livro). O meditante seleciona um trecho que lhe seja conveniente, e

reflete então a respeito de seu significado. Revolvendo a passagem na mente tenta extrair-lhe a mensagem espiritual.

MEDITAÇÃO EM OM

Om: sílaba tão pequena e no entanto empregada para indicar tudo que existe dentro e além do Universo. Criador, Sustenedor e Transformador do Cosmos; o aspecto mais abstrato de Divindade; e os sons e vibrações de toda manifestação — tudo isso é denotado por este mantra monossilábico. Quando o hindu pronuncia Om em seu momento de morte sua alma é liberada. Apercebendo-se do profundo significado do mantra, o meditante reverentemente permite que Om lhe ressoe na mente, até que por fim a vibração sagrada começa a permear-lhe todo o ser. Meditar em Om com tal intensidade ajudará a atingir os objetivos espirituais. Om é o arco, a mente é a seta, e a Suprema Realidade é o alvo.

MEDITAÇÃO SOBRE A UNIDADE

Aqui o estudante faz da unidade o objeto de sua meditação. A Ioga ensina que tudo quanto existe é manifestação da única Vida Divina. Isto significa que há uma relação entre tudo que se move e respira. O estudante pode refletir acerca dos pontos de semelhança entre seus parentes consangüíneos e ele mesmo. Pode, a seguir, procurar semelhanças entre todas as pessoas que conheça. Pode ampliar seu inquérito e ater-se às coisas que tem em comum com seus compatriotas. Ignorando fronteiras artificiais e preconceitos, inclui a seguir pessoas de várias raças em sua busca de correspondências essenciais. Tendo visto a unidade da raça humana, alarga ainda mais seu horizonte, examinando os fatores comuns entre todas as criaturas vivas, sejam plantas animais ou homens. Apercebendo-se da unidade de vida e de seu relacionamento com tudo que é vivo, o estudante conclui a meditação enviando profunda mensagem de amor a todos os seres viventes.

QUE SOU EU?

Nesta meditação cada qual dirige a si mesmo, silenciosa e sinceramente, a pergunta: "O que sou eu?". Todos sentimos que somos "algo", mas ou ignoramos ou temos vaga noção do que este "algo" possa ser. Para descobrir nossa essência, deixamos os diferentes aspectos de nosso ser parados um a um através de nossas mentes, submetendo cada um deles a uma análise completa. Não somos a pessoa que os demais pensam que somos, pois mostramos aos amigos uma face diferente. A sociedade nos impele a desenvolver certas características que não fazem parte de nossa verdadeira personalidade, e que usamos meramente como fachada e proteção na vida cotidiana. Um homem em geral se apresenta de diferentes modos ao seu supervisor e aos seus supervisionados. As pessoas que com ele se relacionam comercialmente conhecem-no de modo diverso daquele por que ele é conhecido de uma mulher. Seus filhos e seus pais o vêem de modo distinto. Portanto, não é aquilo que o mundo geralmente pensa que ele é. Não somos mais que nossos corpos? Os cientistas nos dizem que o corpo humano experimenta renovação completa de sete em sete anos. Portanto, não podemos ser o corpo, pois embora esse mude — e bem podemos notar-lhe a mudança — sentimos que ainda somos o único e mesmo ser. Coisas que nos aconteceram na infância aconteceram à mesma pessoa agora adulta. Somos idênticos à nossa faculdade de pensar? Não, porque podemos observar o processo do pensamento; os pensamentos vêm e vão e somos mais que esses pensamentos transientes. Não somos também idênticos a nosso intelecto e capacidade de raciocínio, pois podemos utilizar a ambos como instrumentos. Nossas emoções podem ser sentidas, da mesma forma, leve ou profundamente, mas mesmo a última tende a desaparecer com o passar do tempo. Assim como um homem

pode falar de "meu casaco" e "meu carro", da mesma forma pode dizer "meu corpo", "meu intelecto", e "meu sentimento". Fala dessas coisas e faculdades como pertencentes a ele e como fazendo parte dele, mas não se identifica com elas, não mais do que com suas posses.

O homem sabe intuitivamente que é mais do que seu corpo mutável, mais que seu

intelecto, mais que seus pensamentos fugazes, e mais que suas incertas emoções. Sente que há algo profundo em sua personalidade, que permanece constante mesmo com a passagem do tempo e em meio às sucessivas mudanças. A medida que se analisa, rejeita faceta após faceta até que finalmente reste a noção "eu". Este sentido de "eu" não pode ser racionalizado. Durante toda sua vida, o sentimento "eu" permanecerá o mesmo. E a esse "eu" que tudo acontece, e é ele que sente, fala e age. O sentimento "eu" persiste mesmo durante os sonhos. Permanece constante durante o desenvolvimento físico e mental do homem, desde a tenra infância até a maturidade. É o único aspecto permanente de seu ser, e quando todas suas ações são analisadas, descobre-se que o "eu" é o principal atributo do homem; o "eu" é o principal em seus pensamentos e considerações, e tudo gira em torno desse pensa-mento central: "eu". Não importa o que aconteça, o homem sempre sente esse "eu". Na conclusão da meditação intitulada "O que sou eu?", o meditante pergunta-se de onde brota a consciência de si mesmo.

EU SOU

Nesta meditação o estudante não se preocupa com quaisquer conceitos intelectuais

a respeito do que ele é ou não é, mas interessa-se inteiramente pelo fato de que

é. Concentrando-se intensamente repete várias vezes, de si para. consigo, primeiro devagar e depois deliberadamente a sentença: "Eu Sou". Então o processo do pensamento é detido e o praticante medita a respeito da idéia contida nesta sentença curta e significativa. Tenta sentir com consciência intensa o fato de que ele é. Durante a meditação o estudante pode, de quando em quando, repetir o tema central: "Eu Sou'". Após cada asserção mental mergulha com renovado vigor no intenso sentimento de existência.

MEDITAÇÃO SUPRAMENTAL

Nas técnicas de meditação acima descritas havia sempre um pensamento ou idéia central utilizada como objeto ou ponto de partida da meditação. Na meditação supramental esse tema não existe. O processo do pensamento simplesmente não se

desenrola. A mente permanece estática. Aconselha-se o domínio de outras técnicas primeiro, pois a meditação livre de pensamentos é dificílima. Para que a meditação supramental seja eficiente é essencial que a mente permaneça estática por tempo prolongado; isto só se pode conseguir após longa e intensa prática. Manter os pensamentos fora da mente não deve constituir razão para esforço de espécie alguma. Quando o pensamento é ejetado da mente, nela permanece apenas a consciência. Embora a mente do meditante esteja destituída de toda atividade ele está extremamente alerta. A medida que penetra na paz interior, sua mente se torna sumamente sensível e receptiva. É nesses momentos de profunda tranqüilidade que

o homem recebe a mais alta das revelações. Da tranqüilidade mística emergem as

supremas manifestações de Isto, que são Sat, Chit, Ananda — Ser, Consciência, Bem-aventurança. Elas começam, lentamente, a se infiltrar através do silêncio. Aproxima-se uma consciência mais elevada, e a obtenção da última meta iogue — o feliz estado de samadhi — está próxima.

CAPÍTULO VIII – SAMADHI

A obtenção do estado de samadhi é a realização final de um longo programa de treinamento iogue. Como resultado de seus esforços espirituais, o meditante torna-se intensamente consciente do Princípio Divino dentro de seu ser. Em Samadhi o meditante transcende as limitações da mente e experimenta o Ser, Consciência e Bem-aventurança de Isto que sozinho é. Para se atingir samadhi todas as noções pré-concebidas a respeito do eu devem ser retiradas da mente. Conceitos intelectuais e idéias abstratas devem ser rejeitados. Pode-se chegar às fronteiras do reino espiritual através de pesquisas intelectuais, mas a faculdade de pensar e raciocinar não pode ultrapassar essas fronteiras. O estado superconsciente só é apreendido mediante meditação supramental. Essa contemplação livre de pensamentos é precedida por uma meditação semelhante que, no passado, proporcionou ao praticante a sensação de extrema serenidade, fazendo-o sentir-se como se estivesse sendo levantado acima do estado normal de consciência. O meditante avançado sabe por si mesmo como atingir tal condição. Pode ter-se detido extensivamente no pensamento de que sua natureza é divina. "Eu sou, em essência, um espírito divino" pode ter sido sua repetição deliberada e freqüente. Pode ter, silenciosamente, afirmado, de si para si, que é uma parte indestrutível e imperecível de Uma Vida. O assunto de sua meditação pode ter sido qualquer aspecto do Ser Supremo. Samadhi ocorre no plano superconsciente. Como tal, constitui experiência impossível de comunicar através de meras palavras. Modos de expressão utilizados para denotar acontecimentos no plano físico e mental tornam-se inadequados quando esses planos são ultrapassados. A verbalização, metafórica ou não, pode fornecer apenas uma indicação do que ocorre durante o envento supersensível. Sentado totalmente imóvel, o corpo esquecido e a mente resolutamente presa a uma pureza passiva, o iogue é invadido por um intenso e jubiloso sentimento de exaltação. A centelha de divindade dentro dele transforma-se em chama resplandecente. O iogue experimenta o Ser ilimitado, a Consciência infinita e a Bem-aventurança Extática numa única e sublime sensação. Sua personalidade limitada expande-se no ser ilimitado. Conscientiza-se da Consciência onipresente. Todas as discórdias desaparecem totalmente nesse transporte exaltado de suprema Bem-aventurança. Não existem dualidades no radiante reino do Eu. É um mundo eterno de alegria transcendente e inefável paz. Como poderiam as palavras descrever Isto que é indescritível? Quando o momento eterno de Iluminação espiritual cessar o iogue será um homem mudado. O mundo como é visto pelos olhos dos seres humanos comuns parece-lhe irreal. Ocorreu-lhe uma transformação na mente. Sua personalidade anterior foi aniquilada. Após habitar o pináculo de Suprema Bem-aventurança em união extática com o Eu Divino, o iogue descobre que todos os pensamentos e desejos egoístas, ou seus remanescentes, foram destruídos, e em seu lugar existe agora duradouro desapego.

CAPÍTULO IX - A HERANÇA SAGRADA DA ÍNDIA

Para o estudante desejoso de compreender a religião e filosofia hindu, é

essencial que saiba alguma coisa a respeito dos Vedas, e que se aperceba de sua extrema importância e influência.

A palavra veda significa conhecimento — especificamente, conhecimento

espiritual. O que agora conhecemos como Vedas constitui extenso material iniciado há milhares de anos e que foi aumentando, até chegar à sua presente forma, durante um período de muitos séculos. A herança sagrada era passada

oralmente de mestre a discípulo, de uma geração a outra, através da devoção de incontáveis adeptos.

Os Vedas se compõem de elocuções de antigos poetas, sacerdotes e sábios das

florestas, ou rishis (videntes), em forma de cânticos, orações, fórmulas para

sacrifícios, magia, rituais e tratados a respeito da significação e natureza da Realidade Suprema.

Os Vedas são a mais antiga composição literária em língua Indo-Ariana. Suas

raízes remontam à Pré-História. O Professor Max Müller (1823-1900), eminente

estudioso e pioneiro que dedicou toda a vida ao estudo e tradução dos livros clássicos da Índia, chegou à conclusão de que os Vedas foram concluídos antes de 600 a.C. Segundo ele, a literatura védica deve ter existido antes do aparecimento do Budismo, pois os ensinamentos de Buda, nascido em 563 a.C., estão amplamente baseados nos Upanishads, as filosóficas e últimas sessões dos Vedas.

Os Vedas estão divididos em quatro livros: o Rig Veda, o Yajur Veda, o Sarna

Veda e o Atharva Veda. Essa divisão é atribuída ao sábio Vyasa, que se acredita ter vivido aproximadamente em 500 a.C. O Rig Veda é o primeiro e o maior dos quatro livros; rig significa "verso", e o Rig Veda é, em grande parte, uma coleção de hinos de louvor e orações a uma variedade de deidades. No Yajur Veda, além de versos do Rig Veda, encontram-se muitas orações sacrificais. O Sarna Veda, ou Veda de Melodias, também contêm cânticos extraídos do Rig Veda. O Atharva Veda é, fundamentalmente, uma coleção de hinos e encantamentos. Cada Veda contém sublimes verdades espirituais — ensinamentos de sábios que renunciaram ao mundo, retiraram-se para as florestas lá passando muitos anos em profunda contemplação. Sua sabedoria está contida nos Upanishads, que formam a parte final de cada Veda. Em 1856, dois engenheiros ingleses, encarregados da construção da estrada ferroviária do leste da Índia, de Karachi a Lahore, sentiram-se felizes ao saber que a via que estavam construindo deveria passar perto das ruínas de duas antigas cidades, uma ao longo do terminal sul, outra ao longo do terminal norte. Nas ruínas dessas cidades, descobriram grande quantidade de bonitos tijolos, que solucionaram o problema de falta de cascalho para a construção da via férrea. Os engenheiros e trabalhadores utilizaram-se desse fácil suprimento de materiais de construção, não se apercebendo da antiguidade e importância de sua descoberta, nem da fúria que causariam aos pesquisadores. Enquanto recolhiam os tijolos, os trabalha-dores encontraram várias antiguidades que despertaram a curiosidade de pessoas interessadas na história da Índia. Entretanto, muito tempo se passou antes que algo de efetivo fosse iniciado. Finalmente, arqueólogos começaram a conduzir trabalhos de escavações naqueles lugares. Seus esforços revelaram a existência de um grande império pré-histórico ao noroeste da Índia, que se tornou conhecido como Civilização Harappa, ou Civilização do Vale do Indo. Uma das antigas cidades era Harappa, situada em Punjab à margem esquerda do Rio Ravi, a aproximadamente cem milhas a sudoeste de Lahore. A outra cidade era Mohenjo-daro em Sind, construída à margem direita do Rio Indo e situada aproximadamente a duzentas milhas ao norte de Karachi. O trabalho de escavação na localidade de Harappa começou em 1920, e a de Mohenjo-daro em 1922. Logo ficou evidente que as duas cidades tinham sido as capitais gêmeas de um império que tivera aparentemente uma existência quase

estática e ininterrupta durante aproximadamente mil anos, período este estimado entre 2500 e 1500 a.C. provavelmente. Separadas por umas trezentas e cinqüenta milhas, as cidades eram ligadas por rios navegáveis — sendo o Ravi afluente do Indo — e mostravam semelhanças impressionantes. Elas tinham um traçado comum, e

cada qual contava uma superfície de aproximadamente 2,5 km2; cada uma tinha uma cidadela de defesa que se elevava acima dos outros edifícios; o tamanho dos tijolos usados em cada uma das cidades era o mesmo, assim como era o mesmo o tamanho dos tijolos usados na construção de cidades e vilas nos arredores e entre as duas cidades principais.

O povo da civilização Harappa era constituído de uma raça mista, embora o tipo

mediterrâneo fosse, provavelmente, predominante. Ocupados em agricultura, plantavam trigo, cevada e algodão. Seus animais domésticos eram zebus, búfalos, cabras, ovelhas e porcos. Sabiam trabalhar o cobre e o bronze e com eles faziam ferramentas simples e armas, e estavam bem avançados na confecção de cerâmica. Embora sua escrita não tenha sido decifrada até agora, tinham desenvolvida a arte de escrever. Sabe-se muito pouco a respeito das crenças religiosas desses povos pré-

históricos. Acredita-se que fossem adoradores de uma deusa-mãe; foi encontrado um selo representando uma mulher de cujo ventre nascia uma planta. Provavelmente representava a deusa da terra e da vegetação, e seu consorte deve ter sido o protótipo do deus Shiva, uma vez que entre os selos em pedra-sabão foi encontrado um gravado com a figura de uma deidade masculina dotada de chifres e de três rostos. Este possível ancestral de Shiva estava sentado numa postura iogue; as pernas curvadas e os pés unidos pelos calcanhares. Seus olhos estavam concentrados na ponta do nariz, e ele rodeado por quatro animais: um búfalo, um rinoceronte, um tigre e um elefante (Todos esses animais habitavam tais regiões em eras passadas mas, com exceção do tigre, nenhuma espécie selvagem sobreviveu.)

A aparente paz existente há milhares de anos foi violada com a chegada na região

de uma raça estrangeira e muito bárbara, que, acredita-se, tenha vindo do Oeste. Este povo chamava a si mesmo de Ariano, que significa "homem nobre" em sânscrito, uma língua Indo-Européia que constituía a língua formal dos guerreiros, chefes e sacerdotes Arianos. Aceita-se tradicionalmente o ano de 1500 a.C. como data aproximada da invasão dessas tribos nas terras do império

Harappa. Como guerreiros impetuosos que eram, trouxeram ao campo de batalha seus velozes carros puxados a cavalo, e invocaram a assistência e bênção de seu heróico deus da guerra, Indra. A vinda dos Arianos coincide com o colapso do império Harappa, pelo qual provavelmente foi responsável. As crenças religiosas dos Arianos estão expressas nos versos iniciais do Rig Veda. Eles adoravam um panteão de deidades masculinas — tais como Surya (o Sol), Agni (Fogo), e Varuna (o Céu) — que são ou poderes da natureza personificados ou

o ideal Ariano elevado a proporções divinas. De todos os seus deuses, Indra, o

deus forte e armado, de barba trigueira, é, significativamente, o mais importante. Aproximadamente um quarto dos 1 017 hinos que formam o Rig Veda são dedicados a Indra, o ganhador do prêmio na batalha, aquele que tanto pode manejar um raio, como lutar ferozmente com um arco e flecha de seu carro. Indra não é grande somente em força mas também em tamanho. Come vorazmente e ingere grandes quantidades de soma, uma bebida intoxicante derivada da planta soma. Isto ele bebe aos baldes, trinta lagos numa sentada.

Todos os homens devem visitá-lo em meio à batalha; Ele, o mais adorado, sozinho tem poder para ajudar.

O

homem que lhe oferece suas orações, libações,

O

braço de Indra o ajuda a avançar.

Gritam-lhe em voz alta em meio à porfia, Correndo ao combate mortífero, para que os proteja, Quando amigo e inimigo renunciam à vida na batalha, Lutando para conquistar a paz para o filho e o neto.

Preparam-se, ó Poderoso, para o conflito,

provocando um ao outro para a contenda;

E quando os exércitos hostis se defrontam,

Então cada um teria o grande Indra como aliado.

Então trazem suas obrigações a Indra, Livremente são oferecidos carnes e bolos;

E aqueles que eram mesquinhos ficam ricos com soma, Sim, resolvem sacrificar um boi.

E ainda assim o deus dá sucesso àquele que verdadeiramente, com a mente desejosa despeja o gole que deseja, com todo seu coração, nem sente arrependimento em dar; para que ele, grande Indra, junte-se-lhe na batalha. (IV, 24, 2-6)

Segundo em importância depois de Indra, é Agni, deus do fogo. Mais de 200 hinos lhe são dedicados. Originado nas nuvens desceu à Terra primeiro em forma de relâmpago e então se escondeu. Agni pode ser evocado pela fricção de duas hastes de madeira. Está deitado em madeira macia como numa câmara. Despertado por aquela fricção na primeira hora da manhã, repentinamente emerge num brilho refulgente. O sacrificante coloca-no na madeira; Agni estende sofregamente a língua aguda e devora. Quando os sacerdotes despejam manteiga derretida sobre ele, lambe crepitando e relichando como cavalo.

Seu raio é todo busca, o esplendor de sua luz, Sua, toda bela, face de beleza e resplendor,

O cintilar mutável como o do curso do rio,

Assim luzem os raios de Agni, sempre brilhantes e incessantes.

(I, 143,3)

Varuna, deus do céu, é a mais sublime das deidades védicas.

Cante um hino em louvor de Varuna, o Rei — a ele que espalha a terra como o matador estende a pele do novilho ao sol.

Enviou brisas frescas através dos bosques, pôs vigor no sol, chuva nas nuvens, sabedoria no coração, relâmpagos nas nuvens, colocou o sol nos céus, a planta soma nas montanhas.

Entreteceu a barreira de nuvens e deixou suas águas caírem nos céus, no ar e na terra, molhando o solo e as searas.

Molha tanto a terra quanto o céu, e assim que deseja água para essas nuvens, as montanhas se envolvem em nuvens trovejantes, e os andarilhos mais fortes ficam cansados. (V, 85)

Seus trabalhos portam inteligência de seu poder e sabedoria, Aquele que estabeleceu firme apoio para terra e céu, Que se assentou no alto firmamento,

e fixou as estrelas e espalhou as expansões da terra. (VII, 86, 1)

Juntou às nuvens suas brisas refrescantes, Deu à vaca leite e ao cavalo espírito,

Pôs sabedoria no coração, nas nuvens o relâmpago,

o sol no céu, nas rochas, o soma.

(V, 85, 2)

Os corretos cursos do sol, Varuna apontou,

Os rumos das águas correntes determinou,

O

poderoso caminho dos dias criou,

e

os conduz como cavaleiros guiam cavalos. (VII, 87, 1)

Antes das escavações e subseqüentes descobertas em Harappa e Mohenjo-daro, acreditava-se geralmente que toda herança védica era de pura origem ariana. Mas hoje os estudiosos aceitam como razoável que tenha ocorrido uma fusão — não apenas de raça, mas também de religião e filosofia. Quando os arianos se estabeleceram nas terras recém-conquistadas devem ter absorvido algumas das crenças nativas, da mesma forma que o povo da civilização Harappa deve ter adotado algumas das doutrinas arianas. Seguiu-se então o que é chamado de "idade védica" — de 1500 a.C. a 600 a.C. — quando os Vedas e as exposições aí contidas amadureceram. Nos primeiros hinos do Rig Veda, o mais antigo dos Vedas, podemos ver uma "religião primitiva" gradualmente transformar-se em algo mais. Nos Vedas, em conjunto, uma visão do pensamento humano nos é permitida, tateando o caminho da obscuridade mais

profunda aos mais elevados píncaros de sabedoria. Testemunhamos o despertar do espírito perquiridor do homem, à medida que expressa um maravilhar-se frente aos fenômenos da natureza. Inquirindo a respeito do sol movendo-se livremente pelos céus, pergunta: "Sem sustentáculo, nem vínculo, como vem aquele que se volta para baixo, aquele que não cai? O guia de seu curso ascendente — quem jamais o viu?" (IV, 13, 5)

O monoteísmo evoluiu a partir do politeísmo. Antes que a coleção dos hinos do

Rig Veda estivesse completa, havia-se desenvolvido uma crença num Ser, nem macho, nem fêmea, um Ser elevado acima de todas as condições e limitações de personalidade e da natureza humana, o Uno e, entretanto, o mesmo Ser tinha sido nomeado por Indra, Agni, Varua, Prajapati. Isto fica evidente na canção ao deus desconhecido :

No início levantou-se a Criança Dourada [Hiranya-Garbha]; assim que nascido, era

o único senhor de tudo que é. Estabeleceu-se a Terra e este céu — quem é o Deus

a quem ofereceremos sacrifícios?

Aquele que dá fôlego, força, cujas ordens todos os deuses brilhantes acatam, cuja sombra é imortalidade, cuja sombra é morte — quem é o Deus a quem ofereceremos sacrifícios? Aquele que através de seu poder torna-se o único rei do mundo respirante e pulsante, que governa tudo isto, homem e animal — quem é o Deus a quem ofereceremos sacrifícios? Aquele cujo poder criou estas montanhas cobertas de neve e o mar, dizem, com o

rio distante [o Rasa], ele de quem essas regiões são de fato os dois braços — quem é o Deus a quem ofereceremos sacrifícios? Ele através de quem o céu sublime e a terra foram feitos rapidamente, ele através de quem o éter foi estabelecido, e o firmamento; ele que mediu o ar no céu — quem é o Deus a quem ofereceremos sacrifícios? Ele a quem o céu e a terra, firmes por sua vontade, olham, tremendo mentalmente; ele acima de quem o sol nascente brilha quem é o Deus a quem ofereceremos

sacrifícios?

Quando as grandes águas estivessem em todo lugar, preservando o germe [Hiranya- Gabha], e gerando luz, então se levantaria deles o sopro vital dos deuses — quem

é o Deus a quem ofereceremos sacrifícios?

Aquele que por seu poder examinou até mesmo as águas que tinham poder e geraram

o sacrifício, aquele que sozinho é Deus acima de todos os deuses quem é o Deus a

quem ofereceremos sacrifícios? Que não nos fira, aquele que é o progenitor da terra, ou ele, o incorruptível que procriou o céu; aquele que também procriou as águas poderosas e brilhantes — quem é o Deus a quem ofereceremos sacrifícios? Prajapati, não outro que tu, abraças todas essas coisas criadas. Possa ser nosso aquilo que desejamos quando sacrificamos a ti; possamos nós ser senhores da riqueza! (X, 129)

Um verso freqüentemente citado declara sucintamente: "A verdade é Una, embora o

sábio a chame por vários nomes". (I,164,46).

O verso acima tem sido citado por intérpretes monistas como exemplo do

desenvolvimento óbvio do Rig Veda do panteísmo para uma filosofia monista. Um conceito monista também está presente no seguinte verso: "Sacerdotes e poetas com palavras — transformam em muitas a realidade oculta que é apenas uma". (X,

14)

É esta filosofia monista que é amplamente discutida e exposta nas últimas seções

dos quatro Vedas, os Upanishads. Acredita-se que os Vedas tenham sido concluídos, como já mencionamos, por volta

de 600 a.C. Temos neles vasto corpo literário que tem seu início na aurora da

história. Expressado em eloqüente poesia e prosa poética, encontramos hinos de louvor à aurora e a vários aspectos da Natureza; rogos a vários deuses; descrições de ritos sacrificais e sexuais; encantamentos mágicos para afugentar fantasmas; comentários acerca de sacerdotes que se embebedaram com soma oferecido nos sacrifícios; instruções para conjurar o encantamento de um adúltero; mantras a serem proferidos durante a relação sexual para que possa resultar a gravidez; mantras a serem proferidos para que a gravidez não ocorra; ações a serem realizadas se se deseja procriar um filho de compleição robusta; orações para obter chuva e para granjear muitas vacas. Nos Vedas vemos também o aparecimento de novos deuses e o declínio de outros e são apresentados com

idéias morais novas sobre a incorruptibilidade e pureza de vida, pensamentos renascentes e o surgir do renascimento pela prática iogue de ensinamentos politeístas a monoteístas e monistas, e conceitos metafísicos elevados; quase todo pensamento do homem pode ser encontrado nos Vedas Iddo-Arianos. Foram elaborados seis sistemas filosóficos não muito após a conclusão dos Vedas.

Os seis sistemas de filosofia hindu são usualmente discutidos juntos, uma vez

que são interdependentes e têm sua origem comum nos Vedas. Chamados de sad darsanas — sad significa "seis", e a palavra sânscrita darsana deriva da raiz dris, "ver" — os sad darsanas são os seis "critérios" ou "pontos de vista".

Complementando um ao outro, contendo referências cruzadas por toda parte, os seis darsanas constituem os sistemas filosóficos clássicos da Índia. O hindu assegura que os seis sistemas reconhecem a autoridade suprema dos Vedas. Os Vedas são a árvore, os darsanas, os ramos.

Os seis sistemas têm objetivos idênticos. Todos eles apontam o caminho para a

união com a Alma Universal e revelam como os grilhões que prendem o homem podem ser rompidos através de jnana (conhecimento).

Os "pontos de vista" são pares estreitamente vinculados: Nyaya e Vaisheshika,

Samkhya e Ioga, Purvamimamsa e Vedanta.

O sistema Nyaya foi fundado por Gautama, que se acredita ter vivido no terceiro

século a.C. Relaciona-se principalmente com a lógica, empregando uma forma silogística de argumentação muito semelhante ao silogismo do filósofo grego

Aristóteles, exceto que a argumentação de Gautama consiste em cinco proposições

em

lugar de três.

O

Vaisheshika foi fundado por Kanada, que se acredita também tenha vivido no

século III a.C. Expõe uma teoria atômica do universo, na qual estabelece que o mundo material é constituído por átomos incontáveis e infinitamente pequenos.

O

sistema Samkhya foi fundado por Kapila, que se acredita tenha vivido no século

VI

ou VII a.C. Aceita-se o Samkhya como o mais antigo dos seis "pontos de

vista", e o mais elaborado. Sua teoria dos três gunas, ou qualidades inerentes

em prakriti, a substância material do universo fenomênico é de especial

interesse. Na literatura clássica hindu encontramos os três gunas freqüentemente mencionados. São sattva, a nobre qualidade de bondade e os mais elevados

aspectos da mente; rajas, a qualidade de energia e atividade; e tamas, a qualidade de escuridão e inércia. Os três gunas são encontrados no corpo e na mente do homem. De sattva são produzidos a sabedoria e o despertar espiritual;

de

rajas vêm a agitação; de tamas vêm ignorância e engano.

O

sistema iogue, fundado por Patanjali, é um "ponto de vista" complementar ao

sistema Samkhya. O sistema iogue aqui mencionado inclui todos os ensinamentos de Patanjali, como que preservados para nós em seus Ioga Sutras. Uma parte destes

ensinamentos é o sistema de oito angas, ou ramos, que Patanjali criou e que

suportou os testes do tempo e da experiência. Através das eras tem sido considerado como fornecedor da seqüência ideal para a aplicação das diferentes técnicas iogues. E interessante notar que, antes dele, um programa similar de seis passos foi elaborado no Maitra Upanishad (VI,18). Este sistema particular foi designado de tal forma que o praticante pudesse atingir o conhecimento de Brahman, a Infinidade de filosofia vedântica. O sistema de oito passos de Patanjali também pode ser adotado para esse fim, como tem sido feito por muitos mestres do passado e do presente. Seguindo o verdadeiro conjunto de regras nos Ioga Sutras, pode-se chegar a uma experiência direta do Eu, deixando todos os problemas filosóficos abstratos para trás. Ao compilar seus Ioga Sutras, Patanjali trabalhou no grande corpo de escritos sagrados hindus. A estrutura filosófica na qual seus ensinamentos se baseiam é, globalmente, a filosofia samkhya, com a grande diferença que a de Patanjali é obviamente teísta. Seus sutras que lidam com os siddhis, ou poderes sobrenaturais — a serem desenvolvidos pelo estudante avançado de Ioga — são especialmente controversos. Embora Patanjali advirta (Ioga Sutras, III, 38) que estes poderes são obstáculos ao sucesso último em Ioga, pessoas crédulas têm

procurado — em vão — gurus (mestres) que poderiam ajudá-los a obter esses siddhis. Pessoas iluminadas, entretanto, não tomarão estes sutras em seu sentido literal, mas como metáforas.

O "ponto de vista" Purvamimamsa foi fundado por Jaimini, que se acredita tenha

vivido aproximadamente em 400 a.C. O Purvamimamsa acentua a importância dos rituais védicos e sua execução precisa. Penetra no significado de dharma (incorruptibilidade). Vedanta foi fundado por Badarayana, que se acredita tenha vivido por volta de 200 a.C. Badarayana é o autor do Brahma Sutra, um sumário dos ensinamentos dos Upanishads. Vedanta é baseado nos Upanishads, Bhagavad Gita e no Brahma Sutra. Como o Bhagavad Gita e o Brahma Sutra são baseados nos Upanishads, Vedanta proclama, em essência, a filosofia dos Upanishads. Isto também é indicado pelo nome do sistema, uma vez que a palavra Vedanta significa "final dos Vedas", e os Upanishads são o final, ou conclusão, dos Vedas. Dos seis sistemas, Vedanta foi, e ainda é, o mais influente "ponto de vista" filosófico. Atraiu muitas mentes brilhantes, das quais a maior indubitavelmente foi Sankaracharya (788--820 a.C.), que pode ser chamado de segundo pai do

sistema Vedanta. Seu nome tornou-se sinônimo de Vedanta. As exaltadas exposições de Sankaracharya, proclamando Unidade, serão apresentadas no próximo capitulo.

A religião baseada nos Vedas, assim como em muitos trabalhos clássicos de apoio

— entre os quais o belo Bhagavad Gita tem um lugar especial — é o Hinduísmo. E

hoje, em todas as suas formas, a mais significativa religião na Índia. Os hindus

acreditam que os Vedas foram revelados por inspiração divina.

O mais elevado ensinamento dos Vedas, ou mais precisa-mente, dos Upanishads, é

que tudo é Brahman, Espírito Universal. Esta doutrina upanixádica afirma que todo o mundo, e tudo que nele é, são apenas manifestação do Brahman penetrante. Tudo no hinduísmo pode reduzir-se a este pensamento monístico básico. A última meta do estudo e prática do hinduísmo é alcançar o conhecimento, que uma vez adquirido, resulta em moksha (liberdade). No hinduísmo, o Brahman informe toma a forma de diferentes deuses. Desenvolvidos das deidades originais dos Vedas, três deuses maiores perfazem agora a trindade do hinduísmo. O impessoal é tornado pessoal em Brahma, o deus de criação, Vishnu, o deus de preservação, e Shiva, o deus de destruição ou transformação.

CAPÍTULO X - OS UPANISHADS

Os Upanishads formam os fundamentos de todos os ensinamentos iogues. Embora existam mais de duzentos Upanishads, nem todos são considerados autênticos. A

tradição hindu assegura que os Upanishads originais são em número de cento e oito. Estes estão registrados no Muktika Upanishad, o qual afirma que o estudo dos cento e oito levará à liberação.

A palavra upanishad significa literalmente "sentar-se perto"; o estudante senta-

se ao pé do mestre e de sua boca aprende a sabedoria eterna. A autoria dos Upanishads é anônima. Seu tema principal é Brahman — a Realidade Última que subjaz a todas as manifestações de vida — e a mensagem central desses estimados tratados filosóficos é que o eu individual é idêntico ao Eu Universal, ou Brahman. Do grande número de Upanishads autênticos — todos compostos, ao que se acredita, antes do sexto século a.C., dez ou onze são considerados os principais. A filosofia ensinada nos Upanishads parece, à primeira vista, não ser inteiramente coerente. Haja visto os vários relatos a respeito da criação do mundo, que são exemplos notáveis de incompatibilidade. Vários tipos de pensamentos filosóficos

caminham lado a lado, e nem poderia ser de outra forma, de vez que os Upanishads fazem parte dos Vedas, as escrituras sagradas que em si são tão contraditórias.

E preciso interpretá-los complacentemente.

No decorrer das eras, doutos comentadores ofereceram tais interpretações. Destes, Sankaracharya, nascido em 788 a.C. em Kaladi, foi o mais influente. Sábio de grande introspecção mística, Sankaracharya descobriu nos Upanishads uma

filosofia coerente de pensamento não-dualístico. Escreveu brilhantes comentários a respeito dos onze principais Upanishads, nos quais mostra que o principal ensinamento das escrituras é que tudo é Brahman. Em seu trabalho, Viveka Chudamani, ou "A Mais Bela Jóia de Sabedoria", afirma ele (229): "É apenas por causa da ignorância que este universo parece ter muitas formas, mas quando todas as idéias errôneas tiverem sido rejeitadas, tudo será visto como Brahmans". Esse tipo de pensamento monista, de fato, é encontrado nos Upanishads, como por exemplo: "Brahman está em todo lugar, à direita, à esquerda, em cima, embaixo, atrás, e em frente. O mundo é apenas Brahman" (Mundaka Upanishad, II, ii, 11).

O eu individual é idêntico a Brahman "O conhecimento de que Brahman e atman [o

eu] são um e o mesmo constitui conhecimento verdadeiro e está de acordo com os ensinamentos védicos" (Viveka Chudamani, 204). "No começo, filho, havia apenas Ser, um sem um segundo", falou Uddalaka a seu

filho Svetaketu no Chandogya Upanishad. "Alguns dizem que havia apenas não-ser,

e que do não-ser o Ser nasceu" (VI, ii, 1). "Mas como poderia isto ser verdade,

filho? Como poderia aquilo que é nascer do que não é? Não filho; no começo havia Ser apenas, um sem um segundo" (VI, ii, 2). Aqui temos um importante tema dos Upanishads — aquele de que algo não pode surgir do nada. O universo e tudo o que ele contém não é um mero acidente, mas uma emanação de Brahman, a Causa Sem Causa. A lei de causa e efeito é uma manifestação de Brahman, mas Brahman transcende a causalidade. O intelecto não é capaz de formar uma concepção clara de algo sem causa, mas Brahman está além do alcance do intelecto. Brahman é, sempre foi, e sempre será. Neste mundo de mudanças incessantes, o número interminável de formas e modos de expressão são todos manifestações de Brahman. Uma unidade espiritual subjaz à diversidade física do mundo. Várias palavras tais como Eu, Isto, e Espírito — são freqüentemente empregadas para designar Brahman, mas, ao final, Brahman é indescritível. Brahman está além de todas as qualificações limitantes. Como Brahman é tudo, não há nada a que possa ser comparado. Nenhuma descrição de Brahman pode ser adequada. Se se tentasse definir Brahman, dizendo "Brahman é isto", ou "Brahman é aquilo", a definição teria de ser refutada como incorreta ou incompleta. É esta a razão da famosa descrição negativa de Brahman no Brihadaranyaka Upanishad: "neti, neti" (não isto, não isto).

Na realidade, Brahman é tudo quanto existe, e tudo o que existe é Brahman. Brahman é Ser onipresente manifestante de Si mesmo eternamente: "O Eu é um, supremo, o Eu de todos os seres. Embora um, Ele toma a forma de muitos. O sábio que descobri-10 dentro, rejubile; quem mais pode rejubilar-se?" (Katha Upanishad, II, ii, 12). Os Upanishads exclamam: "Tat tvan asi" (Isto tu és!). Chegar a este entendimento é a meta do estudante de Jnana Ioga.

KATHA UPANISHAD

Vajasravasa, desejando os céus, realizou o sacrifício de doar todas as suas propriedades. (I, i, 1) Seu filho Nachiketa, embora ainda menino, pensou de si para consigo:

"Certamente, isto que ele está ganhando não pode ser o céu — suas vacas não podem mais comer, nem beber, nem dão leite, nem bezerros". (I, i, 2-3) Indo até seu pai, perguntou-lhe: "A quem irás dar-me, Pai?" Após ter inquirido três vezes, o pai respondeu-lhe irritadamente: "Dar-te-ei à Morte!" (I, i, 4) Nachiketa pensou: "Os homens são mortais. Morrer agora ou mais tarde é, afinal de contas, de pouca importância. O que sucederia se a Morte me arrebatasse agora?" (I, i, 5) Desejando que seu pesaroso pai não voltasse atrás em sua palavra, disse: "Pensa naqueles que se foram antes de nós, da mesma forma que naqueles que agora estão conosco. O milho amadurece, é cortado, e nasce novamente". (I, i, 6) Nachiketa penetrou na floresta e entrou na casa de Yama, o Rei da Morte, onde jejuou enquanto aguardava. (I, i, 7) Yama apareceu, e falou a Nachiketa: "Eu te reverencio, 6 santo homem! Três dias ficaste em minha casa sem comer nem beber. Peço-te que escolha três bênçãos por favor". (I, i, 9) Nachiketa disse: "Ó Yama, como primeira bênção escolho a reconciliação com meu pai; que ele possa ficar feliz, e não guardar rancor contra mim quando nos encontrarmos novamente." (I, i, 10) Yama disse: "Teu desejo está concedido. Ele te reconhecerá e será amável contigo. Compreendendo que estás livre das garras da morte, dormirá novamente em paz à noite, e reconciliar-se-á contigo." (I, i, 11) Nachiketa disse: "Por estares ausente, não há temor no reino dos céus. Todos se rejubilam no céu, estando além da fome, da sede e da tristeza." (I, i, 12) "Ó Morte! Conheces o sacrifício de Fogo que conduz aos céus. Explica-me o segredo desse Fogo, pois estou cheio de fé. Escolho esse segredo como minha segunda bênção." (I, i, 13) Yama disse: "Ouve! Explicar-to-ei. Está trancado dentro dos corações dos sábios." (I, i, 14) "O Fogo se alimenta de estudo, meditação e prática. Aquele que realiza esta tríplice obrigação, e sabe que o Fogo nasce de Brahman, alcança a paz eterna." (I, i, 17) "Aquele que realiza as três obrigações desgarra-se, embora ainda na terra, das cadeias da morte. Dominando a tristeza, ele desfruta os céus." (I, i, 18) "O conhecimento deste Fogo, que conduz aos céus, é tua segunda bênção. Nome-a- lo-ei em tua homenagem, Nachiketa. Agora escolhe a terceira bênção." (I, i, 19) Nachiketa disse: "Há controvérsia a respeito da condição do homem após a morte. Alguns dizem que continua a existir, outros que não. Explica-me isto, por minha terceira bênção." (I, i, 20) Varra disse: "Sobre esta questão até mesmo os deuses têm dúvidas. difícil entender. Escolhe algo mais, Nachiketa. Por favor, não me force a explicar." (I, i, 21) Nachiketa disse: "Ó Morte! Afirmas que até mesmo os deuses têm dúvidas, e que esta é questão difícil de responder. Mas quem melhor que tu pode explicá-la? Que outra bênção se lhe pode comparar?" (I, i, 22) Yama disse: "Pede filhos e netos com longas vidas, manadas de gado, cavalos, elefantes e ouro. Pede um reino; a vida na terra pelo tempo que quiseres". (I, i, 23)

"Escolhe qualquer coisa que quiseres, Ó Nachiketa! O maior reino, uma vida longa, qualquer coisa que desejas." (I, i, 24) "Qualquer prazer que haja, belas donzelas com carruagens e instrumentos musicais, deleites além dos sonhos. Teus serão, mas não me inquiras a respeito da vida após a morte." (I, i, 25) Nachiketa disse: "Ó Morte! Essas coisas são temporárias. Exaurem os sentidos. Mesmo a vida mais longa acaba. Conserva aqueles cavalos, conserva para ti mesmo todas aquelas danças e canções". (I, i, 26) "A riqueza não traz felicidade. Desde que me favoreceste, terei riqueza e vida longa. Todavia, não mudarei a bênção que pedi." (I, i, 27) "Que homem mortal, vislumbrando a imortalidade, tendo a oportunidade da imortalidade, preferiria apenas uma vida longa, ainda que cheia de deleites sexuais e outros?" (I, i, 28) "Ó Morte! Fala-me desta eternidade sobre a qual há tanta dúvida. Esta é a bênção na qual insisto." (I, i, 29) Yama disse: "O bem é uma coisa, o agradável outra. Ambos aprisionam o homem. Aquele que se empenha no bem, atinge o Mais Alto; aquele que se empenha no agradável, cai à margem". (I, ii, 1) "Todo homem se defronta com ambos. O sábio discerne e procura o bem; ganância e desejos da carne conduzem o ignorante ao agradável." (I, ii, 2) Nachiketa! Após examinares os prazeres temporais, rejeitaste-os. Não te

voltastes ao caminho da riqueza, no qual muitos atolam." (I, ii, 3) "Estes caminhos são bem separados; um é chamado ignorância, outro sabedoria. Não enganado pela promessa de riqueza, escolheste a sabedoria, Ó Nachiketa!" (I, ii, 4) "Os tolos vivem em escuridão. Cambaleando para lá e para cá, gabam-se de uma suposta sabedoria, cegos conduzindo cegos." (I, ii, 5) "O que sabe da eternidade aquele que está envolvido em ganância? ‘Este é o único mundo que existe!' ele grita, eu o ceifo sempre e sempre." (I, ii, 6) "Muitos nunca ouviram falar do Eu; muitos, tendo-o ouvido, não compreendem. Raro é o explanador, e raro o ouvinte; raro é aquele que conhece o Eu através da instrução de um mestre." (I, ii, 7) "O conhecimento do Eu, difícil de alcançar, não pode ser ensinado por uma mente comum. Mas quando é explicado por aquele que se tornou um com Brahman, então não há dúvida. O Eu é mais leve que o mais leve, e transcendente argumentação." (I, ii, 8) "O conhecimento do Eu não pode ser atingido raciocinando-se sozinho. Pode ser encontrado, Ó bem-amado, quando ensinado por alguém que possui este conhecimento. Tu és, de fato, um verdadeiro investigador. Se ao menos me fossem sempre enviados inquiridores como tu!" (I, ii, 9) "O sábio, concentrando-se no Eu, apercebe-se que o antigo Eu, difícil de imaginar, é mais difícil de entender. Ele ultrapassará a alegria e a tristeza." (I, ii, 12) "O sábio, instruído e compreendedor, separa a natureza do Eu, Ele vive para sempre e rejubila-se para sempre em Brahman." (I, ii, 13) Nachiketa disse: "Dize-me, Ó Morte! O que é outro que não certo e errado, causa

e efeito, passado e futuro?" (I, ii, 14)

Yama disse: "É Om, exposto pelos Vedas, o propósito das austeridades e a meta da pureza". (I, ii, 15) "Om é de fato Brahman. É o mais elevado. Aquele que conhece esta palavra pode obter tudo que deseja." (I, ii, 16) "Om é o fundamento. Aquele que encontra esse fundamento é digno da companhia dos santos." (I, ii, 17) "O Eu todo-poderoso não nasce e não morre. Não é causado, e não causa. Eterno, infinito e imperecível, Ele não morre quando o corpo morre." (I, ii, 18) "O Eu, menor que o menor, maior que o maior, vive nos corações de todos. Quando um homem se liberta de desejos e purifica mente e sentidos, verá a glória do Eu,

e irá além da tristeza." (I, ii, 20)

"Embora sentado, o Eu vai longe; embora em descanso, move-se em toda parte. Quem, exceto eu, Rei da Morte, pode entender este Ser resplandecente que é a

"Aquele que conhece o Eu, informe entre os formados, imutável entre mutáveis, todo-penetrante e supremo, transcende toda a dor." (I, ii. 221 "O conhecimento desse Eu não se pode obter pelo estudo das escrituras, nem mediante investigações intelectuais, nem por meio de discursos. Ele vem ao homem que o deseja ardentemente; a ele a verdadeira natureza do Eu é revelada." (I, ii, 23) "Conhece o Eu como o passageiro do corpo, o carro; o intelecto é o auriga; a mente as rédeas." (I, iii, 3) "Os sentidos são os cavalos; os objetos desejados, os caminhos. O sábio chama o Eu de Desfrutador quando Ele está unido ao corpo, à mente e aos sentidos." (I, iii, 4) "Quando o intelecto, vivendo numa mente que facilmente se distrai, perde o discernimento, os sentidos se tornam incontroláveis, como os rebeldes cavalos do auriga." (I, iii, 5) "Mas quando o intelecto, vivendo numa mente bem controlada, possui aguçado discernimento, os sentidos podem ser dominados, como os obedientes cavalos do auriga." (I, iii, 6) "Aquele cujo intelecto segura firmemente as rédeas da mente, alcança a suprema meta da jornada, o Brahman todo-penetrante." (I, iii, 9) "O Eu, oculto em todo ser, não é visto por todos; mas Ele é visto pelos sábios de mente concentrada e intelecto perspicaz." (I, iii, 12) "O sábio funde a fala na mente, a mente no intelecto, o intelecto na natureza manifesta, a natureza em Brahman, e assim encontra a Paz." (I, iii, 13) "Levanta! Desperta! Aprende ao pé do mestre. Os sábios dizem que o caminho é difícil, cortante como fio de navalha." (I, iii, 14) "Aquele que conhece o silente, amorfo, intangível, imortal, insípido, incorruptível, inodoro, sem-começo, sem-fim, imutável Brahman, escapa das garras da Morte." (I, iii, 15) Yama disse: "O Eu-Existente fez os sentidos voltarem-se para fora; assim, o homem olha para fora, e não vê o que há dentro. Quando um homem, tão freqüentemente desejoso de imortalidade, olha para dentro e vê o Eu." (II, i, 1) "O ignorante segue os desejos da carne, e mergulha no pântano de morte; mas o sábio, buscando o que é eterno, não procura as coisas que se deterioram." (II, i, 2) "Aquele que conhece o eu individual, o desfrutador dos resultados de ação, é o Eu Universal, no qual estão o presente, o passado e o futuro, e ele não teme." (II, i, 5) "Aquele Ser, que é o poder inato de todos os poderes, que está incorporado nos elementos e que vive no lótus do coração, é o Eu." (II, i, 7) "Somente pela mente purificada pode o indivisível Brahman ser atingido. Aquele que vê apenas multiplicidade em Brahman vaga de morte a morte." (II, i, 11) "Assim como a chuva que cai no topo da montanha espalha-se em todas as direções, assim aquele que vê apenas multiplicidade corre em todas as direções." (II, i,

14)

"Assim como a água pura despejada em água pura permanece pura, assim permanece puro aquele que conhece a unidade de Brahman." (II, i, 15) "Aquele que medita na Consciência pura, que habita o corpo, a cidade dos onze portões, não mais sofre. Ele se torna livre para sempre." (II, ii, 1) "O Eu é o sol no céu, o ar no espaço, o fogo no altar, o hóspede na casa; é todos os homens e todos os deuses. O Eu vive na água e sobre a terra, em verdade e em grandiosidade. Realidade Onipresente é o Eu." (II, ii, 2) "0 Nachiketa! Contar-te-ei sobre o Espírito eterno e sobre o que acontece após a morte." (II, ii, 6) "Alguns entram, através do ventre, em seres viventes; outros entram em matéria, de acordo com suas obras e com seu conhecimento." (II, ii, 7) "Como o fogo, que é um, toma a forma daquilo que consome, da mesma forma o Eu, embora um, toma a forma daquilo que Ele penetra. Ele existe também fora." (II, ii, 9) "Como o sol, que ilumina o mundo, não é afetado pelas impurezas sobre as quais brilha, da mesma forma o Eu, que habita todas as coisas, não é tocado pelo mal, existindo fora deles." (II, ii, 11)

"O Eu é um, supremo, o Eu de todos os seres. Embora um, Ele toma a forma de muitos. O sábio que o descobrir dentro rejubila-se; quem mais pode se

rejubilar?" (II, ii, 12) "Eterno entre coisas transientes, embora um, Ele preenche os desejos de muitos.

O sábio que O descobre dentro encontra a paz: quem mais pode encontrar paz?"

(II, ii, 13) "O universo é uma árvore com raízes para cima e ramos espalhados pelo solo. As raízes saem de Brahman, Espírito eterno. Em Isto todas as coisas vivem, e nada pode ir além d'Ele; Isto é Eu." (II, iii, 1) "Os órgãos de percepção têm sua origem separada; sua ação e inação são distintas do Eu. O sábio, conhecedor disto, não mais se entristece." (II, iii, 6) "Quando os órgãos sensoriais e a mente se tornarem calmos, quando o intelecto não oscilar, então o homem alcançará o mais elevado estado." (II, iii, 10) "O controle firme e constante dos sentidos e da mente chama-se Ioga. Tendo atingido o mais elevado estado, o iogue não pode errar." (II, iii, 11) "Brahman não pode ser conhecido por meio de discurso, nem alcançado pela mente, nem visto pelos olhos. Ele só pode ser ensinado pela experiência daqueles que Lhe afirmam a existência." (II, iii, 12) "Primeiramente, deve ser compreendida a existência do eu individual; isto leva então ao conhecimento de sua verdadeira natureza, que é Existência pura." (II, iii, 13) "O mortal, que extinguiu todos os desejos, embora esteja ainda no corpo, atinge Brahman; o finito transforma-se em infinito." (II, iii, 14) "Quando as cadeias de ignorância que prendem o coração são desfeitas, então o mortal torna-se imortal. Este é o mais elevado ensinamento das escrituras." (II, iii, 15) Nachiketa, tendo recebido do Rei da Morte este conhecimento, e todo o processo de Ioga, libertou-se do mal e da morte, e atingiu Brahman; aquele que assim procede, encontra o Eu mais íntimo. (II, iii, 18)

ISA UPANISHAD

O Eu, embora imóvel, move-se mais rápido que a mente. Os sentidos não podem

alcançá-LO, porque o Eu corre na frente deles. Imóvel, Ele ultrapassa aqueles que correm. Do Eu partem todas as atividades. (4) Imóvel, Ele se move; Ele está longe, embora perto; está dentro e fora disto tudo. (5)

O sábio que vê todas as criaturas no Eu, e o Eu em todas as criaturas, não

conhece a dor. (6) Que desilusão, que dor pode haver para aquele que vê a unidade de vida? (7) Uma coisa é obtida do conhecimento, outra, da ignorância. O sábio ensinou-nos isto. (10) Aquele que sabe distinguir o conhecimento da ignorância domina a morte que brota da ignorância e obtém vida imortal através do conhecimento. (11)

KENA UPANISHAD

O estudante perguntou: "O que põe minha mente em movimento? O que dirige o prana em mim? O que me faz falar? Que deus dirige meus olhos e ouvidos?" (I, 1)

O mestre respondeu: "Ele pensa em todas as mentes, vive em todas as vidas, fala

por todas as bocas, olha por todos os olhos, e ouve por todos os ouvidos. O sábio desliga o Eu dos sentidos, e, renunciando ao mundo, alcança a imortalidade." (I, 2) "O olho -não O pode ver e a mente não O pode conhecer. Não O conhecemos e não podemos ensiná-Lo. É diferente do conhecido e do desconhecido. Assim nos disseram os antigos mestres." (I, 3-4) "Conhece isto como Brahman que não pode ser expresso pela fala, mas pelo qual a fala pode ser expressa; não aquilo que é adorado pelos ignorantes." (I, 5) "Conhece isto como Brahman que não pode ser pensado pela mente, mas pelo qual a mente pensa; não aquilo que é adorado pelos ignorantes." (I, 6)

"Conhece isto como Brahman que não pode ser visto pelo olho, mas pelo qual o

olho vê; não aquilo que é adorado pelos ignorantes." (1, 7) "Conhece isto como Brahman que não pode ser ouvido pelo ouvido, mas pelo qual o ouvido ouve; não aquilo que é adorado pelos ignorantes." (I, 8) "Conhece isto como Brahman sem o qual a vida não pode viver, aquilo que torna tudo vivo; não aquilo que é adorado pelos ignorantes." (I, 9)

O mestre disse: "Se achas que sabes muito sobre Brahman, então certamente sabes

pouco; somente o conheces através de uma mente condicionada pelo homem e pela circunstância." (II, 1) Em tempos antigos os deuses da natureza convenceram-se de que eram todo- poderosos. (III, 1)

O Espírito, entendendo a errônea noção dos deuses, apareceu. Os deuses não

sabiam quem era o Espírito. (III, 2) Disseram a Agni, deus do fogo: "Agni, descobre quem é este misterioso Espírito!" (III, 3) Agni acorreu ao Espírito e disse: "Eu sou Agni." (III, 4)

O Espírito perguntou: "O que és capaz de fazer?"

Agni disse: "Posso queimar qualquer coisa e tudo que há neste mundo." (III, 5)

O Espírito depôs uma palha, e falou a Agni: "Queima isto." Agni engoliu a palha

mas não foi capaz de queimá-la. Imediatamente voltou para a companhia dos deuses

e confessou: "Não posso descobrir quem é esse Espírito misterioso." (III, 6) Os deuses disseram então a Vaya, o deus do ar: "Vaya, descobre quem é esse misterioso espírito!" (III, 7) Vaya acorreu ao Espírito e disse: "Eu sou Vaya." (III, 8)

O Espírito perguntou: "O que és capaz de fazer?" Vaya disse: "Posso soprar

qualquer coisa e tudo que há neste mundo." (III, 9)

O Espírito depôs uma palha, e falou a Vaya: "Sopra isto." Com todo seu poder,

Vaya arrojou-se sobre a palha, mas não pôde movê-la. Imediatamente, voltou para

a companhia dos deuses e confessou: "Não posso descobrir quem é este Espírito

misterioso." (III, 10) Então os deuses disseram a Indra, o grande deus de luz: "Indra, descobre quem é

esse Espírito misterioso." Indra acorreu ao Espírito, mas o Espírito desapareceu instantaneamente. (III, 11) Indra viu no céu Uma, a bela deusa da sabedoria, filha dos Himalayas. Indra chegou-se a ela e perguntou: "Quem é este misterioso espírito?" (III, 12) Uma respondeu: "Aquele Espírito é Brahman; através da grandiosidade de Brahman sozinho podes atingir a grandiosidade." Indra então entendeu que o Espírito era Brahman. (IV, 1) Ouve agora a instrução concernente a Brahman para o eu individual.

O poder da mente pertence a Brahman. Aquele que busca atinge Brahman através da

mente. Deve meditar em Brahman com todos os aspectos de sua mente. (IV, 5) Este conhecimento está fundamentado sobre austeridade, autocontrole e meditação.

É apoiado pelos Vedas, e sua moradia é a Verdade. (IV, 8)

Aquele que conhece este Upanishad domina todo o mal, e existe para sempre no

Brahman infinito. (IV, 9)

PRASNA UPANISHAD

Estudiosos, trazendo oferendas e fé, aproximaram-se do sábio Pippalada e pediram-lhe instrução no conhecimento do Brahman supremo. (I, 1)

O

sábio disse: "Fiquem comigo durante um ano, praticando austeridade, castidade

e

fé; então podereis perguntar o que quiserdes. Se puder, responder-vos-ei." (I,

2)

Quando o ano terminou, um estudioso inquiriu: "Senhor, como todas estas

criaturas vieram a ser?" (I, 3)

O sábio disse: "O Criador, tendo cumprido as austeridades, criou, em meditação,

um casal — prana, a força vital masculina, e rayi, o ali-mento feminino. Ele desejou que este casal produzisse muitas criaturas." (I, 4) "Prana, a força vital, é o sol; rayi, o alimento, é a lua. Tudo que tem forma é alimento." (I, 5)

"O sol nascente ilumina todos os seres no leste, e enche-os de energia. Então, ilumina as outras regiões, englobando todos os seres com seus raios vivificantes." (I, 6) Outro estudioso perguntou: "Senhor, quantos poderes diferentes têm este corpo junto? Quantos manifestam seu poder através dele? Destes, qual é o mais elevado?" (II, 1)

O sábio disse: "Os poderes são o éter, o ar, o fogo, a água e a terra. Estes

cinco elementos formam o corpo físico. Também estão presentes a fala, a mente, o olho e o ouvido. Todos os poderes proclamados sustentam o corpo." (II, 2) "Prana, a energia principal, disse-lhes: Não vos enganeis. Sou Eu sozinho, dividindo-me em cinco cursos, que sustento o corpo e o mantenho unido. Mas os

poderes ficaram céticos." (II, 3) "Prana, em justificação, levantou-se como se estivesse para deixar o corpo. Mas quando prana se levantou, os outros tiveram que se levantar também. Quando prana se assentou novamente, os outros puderam se assentar. Como as abelhas seguem sua rainha quando ela sai, e retornam quando ela retorna, assim é com a fala, a mente, o olho e o ouvido. Convencidos, começaram a louvar prana." (II, 4) "Prana arde no fogo, brilha no sol, está na chuva, no maior dos deuses, no ar, na terra, no alimento. É aquilo que tem forma, e aquilo que não tem forma. E imortalidade." (II, 5) "Como raios ao centro da roda, tudo está fixo em prana — os Vedas, os sacrifícios, os guerreiros, os sacerdotes." (II, 6) Então outro estudioso perguntou: "Senhor, de onde nasceu este prana? Como entra no corpo? Como vive no corpo depois de ter-se dividido? Como o abandona? Como sustenta o que está fora e o que está dentro?" O sábio replicou: "Fazes perguntas muito difíceis; deves ser um pesquisador sincero. Portanto, responder- te-ei." (III, 2) "Prana nasce de Brahman. Como a sombra sai do homem, assim prana sai de Brahman. Prana penetra no corpo para satisfazer os desejos da mente." (III, 3) "Como um rei emprega oficiais para governar partes de seu reino, assim prana emprega pranas secundários, tendo cada qual sua função própria." (III, 4) "O prana move-se através da boca e do nariz, e vive no olho e no ouvido. Junta- se a apana nos órgãos de excreção e procriação. No meio do corpo reina samana, que dirige a digestão e a assimilação." (III, 5) "O Eu vive no lótus do coração, de onde saem cento e um canais, cada um dos quais se divide em cem canais, e estes novamente em setenta e dois mil canais menores. Em todos estes canais, vyana reina." (III, 6) "Subindo por um destes, udana, no momento da morte, conduz o homem virtuoso à sua recompensa, e o pecador à sua punição; aqueles que foram tanto virtuosos quanto pecadores são trazidos de volta ao mundo dos homens." (III, 7) "O sol é o prana do mundo externo; levanta-se, ativando o prana no olho do homem. A terra controla apana; o éter entre o céu e a terra mantém samana; o vento, vyana." (III, 8) "Udana toma o desejo da mente no momento de morte, retorna a prana, e prana, guiado por udana, leva a alma ao mundo que mereceu." (III, 10) "Aquele que conhece a origem de prana, sua entrada no corpo, como assiste após sua divisão em cinco partes, sua relação interna e externa, obtém imortalidade; verdadeiramente obtém imortalidade." (III, 12) Outro estudioso disse: "Senhor, uma vez um príncipe me perguntou se eu conhecia

a Pessoa com dezesseis partes. Não conhecia, e não podia mentir. Na verdade,

aquele que conta mentiras perece, raiz e tudo. Diga-me, por favor, onde mora essa Pessoa?" (VI, 1)

O sábio disse: "A Pessoa com as dezesseis partes vive neste corpo." (VI, 2)

"Aquela Pessoa refletiu: — Com a partida de qual partirei, e com a permanência de qual ficarei?" (VI, 3) "Então ele criou prana; de prana, desejo; de desejo, éter; de éter, o ar; de ar,

fogo; de fogo, água; de água, terra; de terra, sentidos; de sentidos, mente; de mente, alimento; de alimento, virilidade; de virilidade, austeridade; de austeridade, os Vedas; dos Vedas, sacrifício; de sacrifício, mundo; de mundo, nomes." (VI, 4)

"Como rios correm para o mar, perdendo seus nomes e formas, chamados apenas de mar; assim estas dezesseis partes criadas por aquela Pessoa fluem para aquela pessoa, e são chamadas de Eu. Então aquele que vê torna-se livre de partes e imortal. Este é meu ensinamento." (VI, 5) "Conhece o Eu que é a meta do conhecimento, e no qual as partes repousam firmemente, como os raios no centro da roda. Conhece o Eu, e não morras ' mais." (VI, 6) "Eu vos disse tudo que pode ser dito sobre o Eu, o supremo Brahman; além disso, não há nada." (VI, 7) Os estudiosos reverenciaram o sábio e disseram: "Es de fato nosso pai. Guiaste- nos pelo mar de ignorância. Curvamo-nos aos grandes rishis! Curvamo-nos aos grandes rishis" (VI, 8)

MUNDAKA UPANISHAD

O primeiro dos deuses era Brahma, criador e protetor do universo. Revelou o Conhecimento de Brahman, o fundamento de todo o conhecimento, a seu filho mais velho Atharva. (I, i, 1) Há muito tempo, Atharva relatou isto a Angir, que o transferiu a Satyavaka, membro da família Bharadvaya. Satyavaka ensinou-o a Angiras. (I, i, 2) Saunaka, o famoso patriarca, aproximou-se de Angiras e perguntou respeitosamente: "Santo Senhor, o que é aquilo que, quando conhecido, faz com que conheçamos todas as coisas?" (I, i, 3) Angiras replicou: "Os conhecedores de Brahman nos dizem que há duas espécies de conhecimento — o conhecimento mais elevado e o conhecimento inferior." (I, i, 4) "O inferior é o conhecimento do Rig-, do Yajur-, do Santa- e do Atharva-Veda, de fonética, cerimoniais, gramática, etimologia, métrica e astronomia; o mais elevado é o conhecimento por meio do qual atinge-se o Brahman infinito." (I, i,

5)

"Através do conhecimento mais elevado o sábio vê aquilo que não pode ser visto nem compreendido, aquilo que não possui olhos nem ouvidos, mãos nem pés, que é não-causado, todo-prevalente, onipresente entretanto imensuravelmente minuto, imperecível e origem de todos os seres." (I, i, 6) Assim como a teia sai da aranha e é retirada novamente, como a planta sai da terra, e os cabelos do corpo do homem, assim o mundo sai de Brahman. (I, i, 7) "A reflexão de Brahman fez prakriti (matéria prístina) pronta para manifestação; de prakriti veio prana; de prana, a mente; da mente, os elementos; dos elementos, os mundos; dos mundos, karma (ações); de karma, seus resultados imortais." (I, i, 8) "Brahman tudo sabe e tudo compreende; Brahman é o conhecimento em si. De Brahman saem Brahma, nome, forma e alimento." (I, i, 9) "Brahman vive no coração. É o sustentáculo e centro de tudo que se move e respira. Aquilo que é o grosso e o tênue, que é supremo e além do aprendizado, conhece isso para ser teu Eu." (II, ii, 1) "Tome os Upanishads, a grande arma, como o arco; deite contra ele a flecha de devoção. Puxando o arco rápido com a mente concentrada em Brahman, acerta o alvo — o Imperecível." (II, ii, 3) "Om é o arco; atman, o eu individual, é a flecha; Brahman, o Eu Universal, é o alvo. Mira com a mente concentrada, e torna-te um com Brahman, da mesma forma que a flecha se junta ao alvo." (II, ii, 4) "Em Brahman estão o céu entretecido, a terra e o espaço, a mente e os sentidos. Conhece o Eu, descarta tudo o mais. Brahman é a ponte para a imortalidade." (II, ii, 5) "Como os raios da roda encontram-se no centro, assim as muitas formas de Brahman centram-se no lótus do coração onde se encontram os canais. Medita no Eu como Om, e cruza o mar de escuridão." (II, ii, 6) "Nem o sol, a lua, as estrelas, o fogo, nem o relâmpago iluminam Brahman. Quando Brahman brilha, tudo brilha; todas as coisas no mundo refletem a luz de Brahman." (II, ii, 10)

"Brahman está em toda parte, à direita, à esquerda, em cima, embaixo, atrás e na frente. O mundo é apenas Brahman." (II, ii, 11) "Este Eu, residindo dentro do lótus do coração, é encontrado pelos ascetas através da perseverança, veracidade, inteligência e castidade." (III, i, 5) "A verdade triunfa sozinha, a falsidade não. A senda para a alegria é recoberta com verdade. Ao longo dela, os profetas, com desejos dominados, viajam para a morada da Verdade." (III, i, 6) "Os olhos não podem ver Brahman, nem pode a língua dizê-Lo, nem os sentidos alcançá-lo. Brahman não pode ser descoberto pela penitência ou por ritual de sacrifício. Quando o coração tiver-se tornado puro, e a mente calma, então será revelada a Verdade informe." (III, i, 8) "O Eu brilha neste corpo onde o prana se divide em cinco cursos. Penetrando mente e sentidos, o Eu brilha para o intelecto puro." (III, i, 9) "O sábio conhece Isto que contém o universo. O homem que, tendo dominado os desejos, reverencia o sábio escapará dos nascimentos e mortes." (III, ii, 1) "O Eu não pode ser conhecido pelo fraco, nem pelo timorato, nem através de austeridade sem objetivo. Mas o sábio que é forte, deter-minado e sincero, penetrará na morada de Brahman." (III, ii, 4) "Tendo atingido o Eu, os profetas estão satisfeitos com seu Conhecimento. Livres de paixão, tranqüilos, vêem o Ser onipresente em todos os lados. Esses sábios, com mentes concentradas, penetram o Todo." (III, ii, 5) "Verdadeiramente, aquele que conhece o supremo Brahman, torna-se Brahman. Nenhum em sua família nasce ignorante de Brahman. Excede a tristeza e o pecado. Liberado dos embaraços do coração, torna-se imortal." (III, ii, 9)

AITAREYA UPANISHAD

No início era o Eu, um apenas. Nada mais se movia. Ele pensou: "Deixe-me criar os mundos." (I, i, 1) Ele criou estes mundos: o mundo de nuvens, o mundo de raios de luz, o mundo de terra, e o mundo de águas. As nuvens estão acima do céu, e são sustentadas pelo céu. Os raios de luz são espaço. Sobre a terra há mortais. Embaixo estão as

águas. (I, i, 2) Pensou: "Eis os mundos. Agora, deixe-me criar seus dirigentes." Das águas, tirou

a Pessoa, e deu-Lhe uma forma. (I, i, 3)

Pairou sobre ele. Na pessoa apareceu uma boca; da boca veio a fala, da fala, fogo. Formou-se um nariz; das narinas veio o fôlego; do fôlego, ar. Os olhos tomaram forma; dos olhos veio a visão; da visão, o sol. Apareceram as orelhas; das orelhas, veio a audição; da audição, os quadrantes de espaço. A pele

cresceu; da pele, vieram os cabelos; dos cabelos, plantas e árvores. Formou-se o coração; do coração, veio a mente; da mente, a lua. Apareceu o umbigo; do umbigo, veio a respiração inferior, apana; de apana, morte. Formou-se o órgão sexual; do orgão sexual, veio a semente; da semente, água. (I, i, 4) Estes deuses assim criados caíram nas grandes águas. O Eu submeteu os deuses a fome e sede. Os deuses disseram: "Encontra-nos um lugar onde possamos viver e comer". (I, ii, 1)

O Criador trouxe-lhes uma vaca. Eles disseram: "Não nos é suficiente". Então Ele

lhes trouxe um cavalo. Disseram: "Não nos é suficiente". (I, ii, 2) Então Ele lhes trouxe um homem. Os deuses disseram: "Este, de fato, está bem feito". Portanto, um homem é algo bem feito. Ele falou aos deuses: "Entrai em vossas moradias". (I, ii, 3) O deus do fogo, tornando-se fala, penetrou a boca. Ar, tornando-se fôlego, penetrou as narinas. O sol, tornando-se visão, penetrou os olhos. Os quadrantes

de espaço, tornando-se audição, penetraram os ouvidos. Plantas e árvores,

tornando-se cabelos, penetraram a pele. A lua, tornando-se mente, penetrou o coração. Morte, tornando-se apana, penetrou o umbigo. Água, tornando-se semente, penetrou o órgão sexual. (I, ii, 4)

A fome e a sede disseram: "Encontra-nos também moradia". O Cria-dor disse-lhes:

"Dou-vos um lugar em todos estes deuses, e desfrutareis com eles. Portanto, qualquer oferenda que a qualquer deus seja feita, fome e sede nela terão parte". (I, ii, 5)

Ele pensou: "Eis aqui os mundos, e os dirigentes dos mundos. Criarei alimento

para eles". (I, iii, 1) Pairou sobre as águas, e das águas emergiu uma forma. Essa forma era, de fato, alimento. (I, iii, 2)

O alimento assim criado fugiu do homem. O homem tentou agarrá-lo com a fala. Mas

não foi capaz de agarrá-lo com a fala. Se tivesse sido capaz de agarrá-lo com a fala, falar sobre ele teria sido suficiente. (I, iii, 3)

O homem tentou agarrá-lo com o fôlego. Mas não foi capaz de agarrá-lo com o

fôlego. Se tivesse sido capaz de agarrá-lo com o fôlego, inalá-lo teria sido

suficiente. (I, iii, 4)

O homem tentou agarrá-lo com a visão. Mas não foi capaz de agarrá-lo com a

visão. Se tivesse sido capaz de agarrá-lo com a visão, olhar para ele teria sido suficiente. (I, iii, 5)

O homem tentou agarrá-lo com a audição. Mas não foi capaz de agarrá-lo com a

audição. Se tivesse sido capaz de agarrá-lo com a audição, ouvi-lo teria sido

suficiente. (I, iii, 6)

O homem tentou prendê-lo com a pele. Mas não foi capaz de prendê-lo com a pele. Se tivesse sido capaz de prendê-lo com a pele, tocá-lo teria sido suficiente. (I, iii, 7)

O homem tentou agarrá-lo com a mente. Mas não foi capaz de agarrá-lo com a

mente. Se tivesse sido capaz de agarrá-lo com a mente, pensar sobre ele teria sido suficiente. (I, iii, 8)

O

homem tentou agarrá-lo com o órgão sexual. Mas não foi capaz de agarrá-lo com

o

órgão sexual. Se tivesse sido capaz de agarrá-lo com o órgão sexual, emitir a

semente teria sido suficiente. (I, iii, 9)

O homem tentou então agarrá-lo com o ar inferior, apana, e conseguiu. Aquele que

agarra alimento, isto é o ar. Este ar é o que vive de alimento. (I, iii, 10)

O

Criador pensou: "Como podem eles existir sem Mim? Por qual caminho penetrarei

o

corpo?" Pensou: "Se a língua fala, o nariz olfata, os olhos vêem, os ouvidos

ouvem, a pele sente, a mente pensa, apana digere, e o órgão sexual emite, então como irá o homem conhecer-Me?" (I, iii, 11) Abriu o topo da cabeça, e entrou através da abertura, que é chamada de o portão de alegria. O Eu tem três moradias: as condições de despertar, sonhar e dormir profundamente. (I, iii, 12) Então, manifesto como o eu individual, percebeu os seres criados. Que mais ter- se-ia para dizer? Ele nada viu exceto Brahman todo-penetrante, e falou: "Eu conheço Brahman". (I, iii, 13)

Primeiramente, o eu é a semente do homem. Essa semente é vigor conjunto de todos

os membros. O homem porta a semente em si mesmo. Quando ejeta sua semente numa mulher, dá-lhe um nascimento. É o primeiro nascimento do eu. (II, i, 1)

A semente torna-se parte da mulher; porque torna-se parte dela, não lhe causa

dano algum. Alimenta este eu que a penetrou. (II, i, 2) Alimenta a mulher, porque ela alimenta a semente. Após o nascimento, o pai alimenta o filho. Alimentando o filho, alimenta a si mesmo. Este é o segundo nascimento do eu. (II, i, 3)

O filho transforma-se no substituto do pai para a realização de atos virtuosos.

Quando o pai terminou seus deveres e exauriu seus anos, parte e nasce novamente. Este é o terceiro nascimento do eu. (II, i, 4)

O sábio Vamadeva disse: "Enquanto estava no ventre, eu conhecia todos os

nascimentos dos deuses. Estava confinado por uma centena de prisões de ferro, no

entanto, libertei-me rapidamente, como um falcão". (II, i, 5) Assim, o sábio Vamadeva, dotado de conhecimento, tornou-se um com Brahman. Ascendendo aos mundos celestiais, obteve todos os seus desejos, e tornou-se imortal; sim, tornou-se imortal. (II, i, 6) Qual o Eu, acerca do qual devemos meditar? E Ele por quem vemos, ouvimos, olfatamos, falamos, e distinguimos o doce do amargo? (III, i, 1) Ele está no coração e na mente como consciência, percepção, conhecimento, sabedoria, imperturbabilidade, pensamento, meditação, impulso, memória, concepção, propósito, vida, desejo, ânsia — todos esses são nomes de Consciência. (III, i, 2)

Ele é Brahma; é Indra; é Prajapati; é todos esses deuses. E estes cinco grandes elementos — terra, ar, éter, água, luz. E as pequenas e as grandes criaturas. Os nascidos de ovos, ventre, suor e solo, cavalos, vacas, homens, elefantes, tudo o que respira, tudo que se move, ou voa, ou não se move. Tudo que é guiado pela Consciência é estabelecido em Consciência. Tudo isto está baseado em Consciência. Brahman é Consciência. (III, i, 3) O sábio Vamadeva, conhecendo a Consciência, elevou-se deste mundo. Obtendo todos os seus desejos no mundo celestial, tornou-se imortal; sim, tornou-se imortal. (III, i, 4)

CHANDOGYA UPANISHAD

Om. Svetaketu era neto de Aruna. Seu pai, chamado Uddalaka,. disse-lhe:

"Svetaketu, leva a vida de um brahmacharin [estudante religioso]; nenhum membro de nossa família, filho, é um brahmin [membro da casta sacerdotal] apenas de nascimento". (VI, i, 1) Svetaketu encontrou um mestre 'e tornou-se estudante com a idade de doze anos. Estudou os Vedas. Com a idade de vinte e quatro anos voltou para casa, — convencido, considerando-se bem instruído, e arrogante. Uddalaka lhe disse:

"Svetaketu, uma vez que te consideras profundo conhecedor, já mediste instrução, (VI, i, 3) "pela qual ouve-se o que não pode ser ouvido, percebe-se o que não pode ser percebido, compreende-se o que não pode ser compreendido?" Svetaketu perguntou:

"Que instrução é essa, Senhor?" (VI, i, 3) Uddalaka replicou: "Filho, assim como conhecendo um torrão de argila todas as coisas de argila ficam conhecidas, a diferença estando apenas' nos nomes que provêm da fala, a verdade é que são argila; (VI, i, 4) "como conhecendo uma pepita de ouro conhecem-se todas as coisas feitas de ouro, residindo a diferença apenas nos nomes dados pela fala, a verdade é que são ouro; (VI, i, 5) "como conhecendo uma peça de metal conhecem-se todas as coisas feitas de metal, residindo a diferença apenas nos nomes dados pela fala, a verdade é que são metal — assim, filho, é essa instrução." (VI, i, 6) Svetaketu disse: "Aparentemente meu reverendo mestre não a conhecia. Pois tivesse-a conhecido, certamente ter-ma-ia ensinado. Portanto, Senhor, por favor, instrui-me". "Eu o farei, filho", disse Uddalaka. (VI, i, 7) "No início, filho, havia apenas Ser, um sem um segundo. Alguns dizem que havia apenas não-ser, e que do não-ser o Ser nasceu." (VI, ii, 1) "Mas como poderia isso ser verdade, filho?" disse Uddalaka. "Como poderia aquilo que é nascer do que não é? Não, filho, no início, havia apenas Ser, um sem um segundo." (VI, ii, 2) "Ele pensou: — Deixa-Me ser muitos, deixa-me crescer mais. — Produziu o fogo. Esse fogo pensou: Deixa-me. ser muitos, deixa-me crescer mais. — Produziu a água. Portanto, quando uma pessoa está quente e transpira, produz água do calor do fogo." (VI, ii, 3) "A água pensou: — Deixa-me ser muitos, deixa-me crescer mais. — Produziu o alimento. Portanto, quando chove, o alimento é produzido em abundância. Assim, alimento comestível é produzido pela água". (VI, ii, 4) "Aquele Ser pensou: — Deixa-Me penetrar estes três deuses por meio do eu, e desenvolver nomes e formas." (VI, iii, 2) "Deixa-Me fazer cada um desses deuses tríplice, — pensou aquele Ser pois que penetrou estes deuses, e desenvolveu nomes e formas." (VI, iii, 3) "Quando ingerido, o alimento torna-se tríplice: sua porção maior torna-se fezes, sua porção média carne, sua parte menor mente." (VI, v, 1) "Quando ingerida, a água torna-se tríplice — sua porção maior torna-se urina, sua porção média sangue, sua parte menor prana." (VI, v, 2) "O fogo quando absorvido (em alimentos caloríficos) torna-se tríplice — sua porção maior torna-se ossos, sua porção média medula, sua parte menor fala." (VI, v, 3) "Portanto, filho, a mente provém do alimento, prana da água, e a fala do fogo."

"Por favor, Senhor, instrui-me ainda mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, v, 4) Uddalaka, filho de Aruna, falou a Svetaketu: "Aprende de mim agora a verdadeira natureza do sono. Quando um homem dorme, então, filho, une-se àquele Ser; vai ao seu verdadeiro Eu. Portanto, dizem que ele dorme, pois entrou em seu eu." (VI, viii, I) "Assim como um pássaro atado a um cordel voa primeiro em todas as direções, e

não encontrando pousada, finalmente pousa no mesmo lugar onde está atado, também

a mente, após esvoaçar em todas as direções, e não encontrando onde repousar,

finalmente repousa em prana; pois, de fato, filho, a mente está atada a prana." (VI, viii, 2) "Naquilo que é a essência sutil, em tudo quanto existe, existe o eu. Isto é Verdade, Isto é Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instrui-me mais ainda", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, viii, 7) "Como as abelhas, filho, produzem mel juntando os sucos de diferentes flores, e os reduzem a uma mistura, (VI, ix, 1) "e assim como esses sucos não sofrem discriminação no mel, da mesma forma podem dizer: — Eu sou o suco desta ou daquela flor, — pois, de fato, filho, todas

estas criaturas, embora imersas naquele Ser, não sabem que estão imersas naquele Ser." (VI, ix, 2) "O que quer que sejam tais criaturas neste mundo — tigre, leão, lobo, javali, inseto, mosca, pernilongo ou mosquito — tornam a ser o que são." (VI, ix, 3) "Naquilo que é a essência sutil, em tudo aquilo que existe, existe o eu. Isto é Verdade. Isto é o Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instrui-me mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, ix, 4) "Estes rios, filho, fluem — no leste para o oriente, no oeste para o ocidente.

Nascem do mar [vapor, nuvens, chuva] e fluem para o mar

estes rios, enquanto estão no mar, não sabem — Sou este ou aquele rio, (VI, x,

1)

"— da mesma maneira, filho, todas estas criaturas, nascendo do Ser, não sabem

que se originaram do Ser. O que quer que sejam tais criaturas neste mundo — tigre, leão, lobo, javali, inseto, mosca, pernilongo ou mosquito — tornam a ser

o que são." (VI, x, 2)

"Naquilo que é a essência sutil, em tudo aquilo que existe, existe o eu. Isto é Verdade. Isto é Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instrui-me mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, x, 3) "Se desferires um golpe contra a raiz dessa grande árvore, ela perderá seiva, mas continuará a viver. Se desferires um golpe contra seu tronco, ela perderá seiva, mas continuará a viver. Se desferires um golpe contra seu cimo, ela perderá seiva, mas continuará a viver. A árvore é penetrada pelo Eu, e permanece firme, bebendo feliz seu alimento." (VI, xi, 1) "Mas se a vida abandona um dos ramos da árvore, tal ramo seca; se abandona um segundo, o segundo ramo seca; se abandona um terceiro, o terceiro ramo seca. Se abandona a árvore toda, a árvore toda seca. Exatamente da mesma forma, filho", Uddalaka disse, "conhece isto: (VI, xi, 2) "Veramente, este corpo seca e morre quando privado do Eu, mas o Eu não morre. Naquilo que é a essência sutil, em tudo que existe, existe o eu. Isto é Verdade. Isto é Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instrui-me mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, xi, 3) "Apanha-me uma fruta naquela figueira." "Ei-la, Senhor." "Abre-a, filho." "Está aberta, Senhor." "O que vês dentro dela?" "Pequenas sementes, Senhor." "Abre uma delas." "Está aberta, Senhor."

Tornam-se mar. Como

"O que vês dentro dela?" "Nada, Senhor." (VI, xii, 1) Uddalaka disse: "Filho, daquela essência sutil que não percebes, dessa mesma essência ergue-se a grande figueira. Acredita no que te digo, filho." (VI, xii,

2)

"Naquilo que é a essência sutil, em tudo que existe, existe o eu. Isto é Verdade. Isto é Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instrui-me mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. "Coloca este sal em água; vem ver-me pela manhã", Uddalaka disse. Svetaketu seguiu a instrução de seu pai. Pela manhã, Uddalaka disse: "Por favor, traga-me o sal que puseste na água ontem à noite." Svetaketu procurou o sal, mas não pode encontrá-lo, uma vez que ele havia se dissolvido completamente. (VI, xiii, 1) "Toma um gole da superfície", Uddalaka disse. "Que gosto tem?" "Está salgada", Svetaketu disse. "Toma um gole do meio, e diga-me que sabor tem", Uddalaka disse. "Está salgada." "Agora, toma um gole do fundo", pediu Uddalaka a seu filho. "Que gosto tem?" "Está salgada." "Joga a água fora", Uddalaka disse, "e vem a mim." Svetaketu assim procedeu, percebendo: "O sal continua a existir." Então Uddalaka disse: "Meu filho, não percebes que o Ser está aqui no corpo, mas, verdadeiramente, Ele está." (VI, xiii, 2) "Naquilo que é a essência sutil, em tudo aquilo que existe, existe o eu. Isto é Verdade, Isto é Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instrui-me mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, xiii, 3) "Assim como se pode conduzir uma pessoa vendada para longe da província de Gandhara, e deixá-la em lugar deserto; e assim como essa pessoa giraria e giraria, gritando: — Trouxeram-me aqui vendada! Trouxeram-me aqui vendada!" (VI, xiv, I) "E assim como logo após alguém poderia tirar-lhe a venda, e dizer-lhe: — Gandhara fica nesta direção; siga por aqui —; assim como em seguida, se fosse pessoa sensata, indagando seu caminho de vila em vila, chegaria finalmente de volta a Gandhara — exatamente da mesma forma um homem que encontrou um mestre obtém o verdadeiro conhecimento. Para ele há apenas demora enquanto não é libertado da ignorância; após isso, atinge a perfeição." (VI, xiv, 2) "Naquilo que é a essência sutil, em tudo que existe, existe o eu. Isto é verdade. Isto é Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instrui-me mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, xiv, 3) "Os parentes rodeiam um moribundo, perguntando: — Reconheces-me? Reconheces-me? — Enquanto sua fala não se funde em sua mente, sua mente em prana, prana em fogo, e fogo na deidade mais elevada, ele os reconhece." (VI, xv, 1) "Mas quando a fala funde-se em sua mente, a mente em prana, prana em fogo, e fogo na deidade mais elevada, ele não mais os reconhece." (VI, xv, 2) "Naquilo que é a essência sutil, em tudo que existe, existe o eu. Isto é Verdade. Isto é Eu. Isto tu és!" "Por favor, Senhor, instruí-me mais", disse Svetaketu. "Eu o farei, filho", Uddalaka replicou. (VI, xv, 3) "Filho, trazem um homem detido, dizendo: — Este homem roubou algo; cometeu um roubo. Esquentem o machadinho para ele. — Se o homem cometeu a ofensa e a nega, então é mentiroso. Cometendo falsidade, cobre-se de mentira, agarra-se ao machadinho quente, e se queima. Então é morto." (VI, xvi, 1) "Mas se não cometeu a ofensa, então é verdadeiro. Sendo verdadeiro, cobre-se de verdade, agarra-se ao machadinho quente — mas não se queima, e é libertado." (VI, xvi, 2) "Assim como o homem que não foi queimado vivia em verdade, da mesma forma tudo que existe naquele Ser tem seu eu. Isto é Verdade. Isto é Eu. Isto tu és, Svetaketu!"

Então Svetaketu compreendeu o que havia sido dito; sim, compreendeu. (VI, xvi,

3)

Narada havia-se aproximado do sábio Sanatkumara, pedindo instrução. Estes são os ensinamentos do sábio do Infinito:

"O Infinito é felicidade. Não há felicidade em nada finito. Precisamos desejar entender o Infinito." "Venerável Senhor", Narada disse, "eu desejo entender o Infinito." (VII, xxiii) "Onde nada se vê, nada se ouve, nada se conhece — esse é o Infinito. Onde se vê algo mais, ouve-se algo mais, conhece-se algo mais — esse é o finito. O Infinito

é imortal; o finito é mortal!"

"Venerável Senhor, onde repousa o Infinito?" Narada perguntou. "Repousa em sua própria grandeza, e não mesmo em grandeza." (VII, xxiv, 1) "Neste mundo chamam grandeza à. posse de vacas, cavalos, elefantes, ouro, escravos, mulheres, campos ou casas. Eu não me refiro a esse tipo de grandeza",

disse o sábio. "Pois, nesses casos, uma coisa depende da outra." (VII, xxiv, 2) "O Infinito está embaixo, em cima, atrás, na frente, à direita, à esquerda. O Infinito é, de fato, tudo isto." "Agora segue-se a instrução do Infinito como "eu": Eu estou embaixo, em cima, atrás, na frente, à direita, à esquerda. Sou de fato tudo isto." (VII, xxv, I) "Em seguida, a instrução do Infinito como o Eu: O Eu está em cima, embaixo,

atrás, em frente, à direita, à esquerda. O Eu é, de fato, tudo isto." "Aquele que vê, sente e conhece isto, ama o Eu, deleita-se no Eu, regozija-se no Eu, festeja no Eu. Torna-se independente; move-se a seu bel-prazer em todos os mundos." "Mas aqueles que pensam diferentemente deste são dirigidos por outros. Vivem em mundos perecíveis, e não possuem liberdade." (VII, xxv, 2) "Para aquele que vê, sente, e conhece isto, prana sai do Eu, esperança sai do Eu, memória sai do Eu; éter, fogo, água, aparecimento, desaparecimento, alimento, poder, entendimento, meditação, pensamento, desejo, mente, fala,

nomes, hinos sacros, sacrifícios

"Aquele que conhece isto não vê a morte, nem doença, nem dor; aquele que conhece

isto conhece todas as coisas e obtém todas as coisas em todo o lugar." "E um, torna-se três, cinco, sete, nove; então é chamado de décimo primeiro, depois de décimo centésimo e de vigésimo milésimo." "Quando o alimento intelectual é puro, a mente torna-se pura. Quando a mente

está pura, a memória torna-se firme. Quando a memória se mantém firme, todas as amarras são soltas."

O venerável Sanatkumara mostrou a Narada, após lavar suas impurezas, o outro

lado da escuridão. Chamam Sanatkumara de Skanda [homem sábio]; sim, chamam-no Skanda. (VII, xxvi, 2) Prajapati falou: "O Eu que está livre de pecado, velhice, morte e dor, livre de

fome e sede, com desejos verdadeiros e pensamentos verdadeiros, é esse Eu que

devemos buscar, esse Eu que devemos tentar conhecer. Aquele que buscou esse Eu e

O conhece obtém todos os mundos e todos os seus desejos." (VIII, vii, 1)

Deuses e demônios ouviram estas palavras e disseram: "Busquemos este Eu pela descoberta do qual todos os mundos são obtidos, e todos os desejos conferidos." Indra, rei dos deuses, e Vairochana, rei dos demônios, foram, sem ter-se comunicado, a Prajapati, com oferendas nas mãos. (VIII, vii, 2) Após terem permanecido trinta e dois anos praticando a castidade, Prajapati perguntou: "Por que estais ambos aqui?" Replicaram: "Disseste que O Eu que está livre de pecado, velhice, morte e dor, livre de fome e sede, com desejos verdadeiros e pensamentos verdadeiros, é esse Eu que devemos buscar, esse Eu que devemos tentar conhecer. Aquele que buscou esse Eu e O conhece obtém todos os mundos e todos os seus desejos. Estamos ambos aqui porque desejamos esse Eu." (VIII, vii, 3) Prajapati disse: "A pessoa vista no olho é o Eu." Acrescentou: "E o Brahman imortal, destemido." Eles perguntaram: "Venerável Senhor, aquele que é visto na água, e é visto em um espelho, quem é ele?" Prajapati respondeu: "Ele mesmo é visto em tudo isto." (VIII, vii, 4)

veramente, tudo sai do Eu." (VII, xxvi, 1)

"Olhai-vos em uma tigela d'água. O que quer que ainda não compreendeis acerca do Eu, vinde e dizei-me." Olharam-se numa tigela d'água. Prajapati perguntou-lhes: "O que vedes?" Ambos responderam: "Venerável Senhor, vemos o eu completo, uma gravura detalhada com cabelos e unhas." (VIII, viii, 1) Prajapati disse: "Após adornar-vos, colocar vossos melhores trajes, e limpar- vos, olhai-vos novamente na água." Após adornarem-se, colocarem seus melhores trajes e limparem-se, olharam-se novamente na tigela d'água "O que vedes?", Prajapati perguntou. (VIII, viii, 2) Replicaram: "Exatamente que estamos adornados, vestidos com nossos melhores trajes e limpos, Venerável Senhor, pois que ambos estamos aqui, adornados, vestidos com nossos melhores trajes, e limpos." Prajapati disse: "Isto é o Eu; isto é o imortal, destemido Brahman." Ambos se foram com os corações satisfeitos. (VIII, viii, 3) Prajapati, vendo-os irem-se, disse de si para consigo: "Ambos partem sem ter encontrado e sem ter conhecido o Eu. Quem quer que siga seus ensinamentos, seja deus ou demônio, perecerá." Vairochana, com o coração satisfeito, dirigiu-se aos demônios, e ensinou-lhes que o corpo deve ser adorado, que o corpo e só ele deve ser servido. Pregou que aquele que adora e serve o corpo ganha os dois mundos, este e o próximo. (VIII, viii, 4) Por esta razão até hoje chamam de demônio a um homem que não dá esmolas, que não tem fé, e que não oferece sacrifícios; pois esta é a doutrina dos demônios. Eles enfeitam os corpos dos mortos com perfumes, flores e trajes finos, pensando que conquistarão o próximo mundo. (VIII, viii, 5) Mas Indra, depois de juntar-se aos deuses, viu esta dificuldade: "Como este eu, este reflexo na água, está bem adornado quando o corpo está bem adornado, bem vestido quando o corpo está bem vestido, limpo quando o corpo está limpo, da mesma forma este eu ficará cego se o corpo ficar cego, coxo se o corpo ficar coxo, aleijado se o corpo ficar aleijado, e de fato perecerá quando o corpo perecer. Não posso ver nada bom nesta doutrina." (VIII, ix, 1) Ele retornou com oferendas nas mãos. Prajapati disse-lhe: "Indra, partiste com Vairochana, perfeitamente satisfeito. Por que voltaste?" Indra disse: "Venerável Senhor, como este eu, este reflexo na água, está bem adornado quando o corpo está bem adornado, bem vestido quando o corpo está bem vestido, limpo quando o corpo está limpo, da mesma forma este eu ficará cego se o corpo ficar cego, coxo se o corpo ficar coxo, aleijado se o corpo ficar aleijado, e de fato perecerá quando o corpo perecer. Não posso ver nada bom nesta doutrina." (VIII, ix, 2) "Estás certo, Indra", replicou Prajapati. "Explicar-te-ei mais acerca do Eu. Fica comigo durante outros trinta e dois anos." Indra permaneceu com Prajapati durante outros trinta e dois anos; então Prajapati disse: (VIII, ix, 3) "Aquele que de modo feliz move-se em sonhos, este é o Eu; é o Brahman imortal, destemido." Indra partiu com o coração satisfeito. Mas antes de se juntar aos deu-se a, viu esta dificuldade: "Embora seja verdade que este eu em sonhos não seja cego, nem mesmo quando o corpo for cego, nem coxo quando o corpo for coxo; embora não sofra os defeitos do corpo, (VIII, x, 1) "nem seja abatido quando o corpo for abatido, nem coxeie quando o corpo coxear; ainda assim é como se o abatessem, como se o acossassem. Toma-se mesmo consciente da dor, e derrama lágrimas. Não posso ver nada bom nesta doutrina." (VIII, x, 2) Retomou novamente com oferendas nas mãos. Prajapati disse-lhe: "Indra, partiste perfeitamente satisfeito. Por que retornaste?" Indra disse: "Venerável Senhor, embora seja verdade que este eu em sonhos não seja cego, nem mesmo quando o corpo for cego, nem coxo quando o corpo for coxo; e embora não sofra os defeitos do corpo, (VIII, x, 3) "nem seja abatido quando o corpo for abatido, nem coxeie quando o corpo coxear; ainda assim é como se o abatessem, como se o acossassem. Toma-se mesmo consciente da dor, e derrama lágrimas. Não posso ver nada bom nesta doutrina."

"Estás certo, Indra", Prajapati replicou. "Explicar-te-ei mais acerca do Eu. Fica comigo por outros trinta e dois anos." Indra permaneceu com Prajapati durante outros trinta e dois anos; então Prajapati disse: (VIII, x, 4) "Quando um homem está adormecido, repousado, sereno, e não sonha, isto é o Eu, isto é o Brahman imortal, destemido." Indra partiu com o coração satisfeito. Mas antes de se juntar aos deuses, viu esta dificuldade: "De fato, este eu não conhece a si mesmo como eu, nem conhece coisa alguma absolutamente. Está em completa aniquilação. Não posso ver nada bom nesta doutrina." (VIII, xi, 1) Retomou com oferendas nas mãos. Prajapati disse-lhe: "Indra, partiste, com o coração satisfeito. Por que retomaste?" Indra disse: "Venerável Senhor, de fato este eu não conhece a si mesmo como eu, nem conhece coisa alguma absolutamente. Está em completa aniquilação: Não posso ver nada bom nesta doutrina." (VIII, xi, 2) "Estás certo, Indra", replicou Prajapati. Explicar-te-ei mais acerca do Eu, e esta será a explicação final. Fica comigo durante mais cinco anos." Indra permaneceu com Prajapati durante outros cinco anos. Isto perfazia cento e um anos; por isso as pessoas dizem que Indra permaneceu cento e um anos como discípulo celibatário com Prajapati. Quando os cinco anos haviam passado, Prajapati disse: (VIII, xi, 3) "Indra, este corpo mortal está sempre sujeito à morte, embora seja a moradia do Eu imortal, incorpóreo. Quando se pensa que o corpo está identificado com o Eu, o Eu experimenta prazer e dor. Enquanto se pensa que Ele é o corpo, há prazer e dor. Mas quando se aprende que Ele é independente do corpo, então compreende-se que nem prazer nem dor podem tocá-Lo. (VIII, xii, 1) "O vento não possui corpo; as nuvens, os relâmpagos e os trovões não possuem corpos. Agora, assim como estes surgem do espaço além, alcançando seus pontos de manifestação, aparecem em suas próprias formas, (VIII, xii, 2) "assim também aquele Ser sereno surge neste corpo quando o conhecimento atinge seu ponto mais elevado, e aparece em Sua forma própria. Ele é a alma suprema. Em seu estado mais elevado Ele se move, rindo, divertindo-se, regozijando-se — esteja com mulheres, carruagens ou parentes — descuidado do corpo onde nasceu. Como um cavalo está ligado ao carro, assim o prana anima este corpo." (VIII, xii, 3) "Os deuses no mundo de Brahman meditam naquele Eu. Portanto obtêm todos os mundos e todos os seus desejos. Aquele que conhece e compreende este Eu obtém todos os mundos e todos os seus desejos." Assim falou Prajapati; sim, assim falou Prajapati. (VIII, xii, 6)

BRIHADARANYAKA UPANISHAD

Havia dois ramos de descendentes de Prajapati, os deuses e os demônios. Os deuses eram os mais jovens, e os demônios os mais velhos. Lutaram uns com os outros pela posse destes mundos. Os deuses disseram: "Dominemos os demônios do sacrifício por meio do cântico Udgitha." (I, iii, 1) Disseram à fala: "Canta-nos o Udgitha." "Sim", disse a fala, e cantou o Udgitha. Qualquer deleite que haja na fala é assegurado aos deuses pelo cântico; que se falasse bem, seria por si mesmo. Os demônios sabiam que por meio deste cantor os deuses os dominariam. Acorreram ao cantor e o penetraram com o mal. Portanto, o mal que consiste em falar o que é ruim é mal. (I, iii, 2) Então os deuses disseram ao olfato: "Canta-nos o Udgitha." "Sim", disse o olfato, e cantou o Udgitha. Qualquer deleite que haja no olfato é assegurado aos deuses pelo cântico; que se olfatasse bem, seria por si mesmo. Os demônios sabiam que por meio deste cantor os deuses os dominariam. Acorreram ao cantor e o penetraram com o mal. Portanto, o mal que consiste em olfatar o que é ruim é mal. (I, iii, 3) Então os deuses disseram à visão: "Canta-nos o Udgitha." "Sim", disse a visão, e cantou o Udgitha. Qualquer deleite que haja na visão é assegurado aos deuses pelo cântico; que se visse bem, seria por si mesmo. Os demônios sabiam que por meio deste cantor os deuses os dominariam. Acorreram ao

cantor e o penetraram com o mal. Portanto, o mal que consiste em ver o que é ruim é mal. (I, iii, 4) Então os deuses disseram à audição: "Canta-nos o Udgitha." "Sim", disse a audição, e cantou o Udgitha. Qualquer deleite que haja na audição é assegurado aos deuses pelo cântico; que se ouve bem, seria por si mesmo. Os demônios sabiam que por meio deste cantor os deuses os dominariam. Acorreram ao cantor e o penetraram com o mal. Portanto, o mal que consiste em ouvir o que é ruim é mal. (I, iii, 5) Então os deuses disseram ao pensamento: "Canta-nos o Udgitha." "Sim", disse o pensamento, e cantou o Udgitha. Qualquer deleite que haja no pensamento é assegurado aos deuses pelo cântico; que se pensou bem, seria por si mesmo. Os demônios sabiam que por meio deste cantor os deuses os dominariam. Acorreram ao cantor e o penetraram com o mal. Portanto o mal que consiste em pensar o que é ruim é mal. Os demônios tocaram todas as outras deidades com o mal, penetraram- nas com o mal. (I, iii, 6) Então os deuses disseram ao sopro vital: "Canta-nos o Udgitha." "Sim", disse o sopro vital, e cantou o Udgitha. Os demônios sabiam que por meio deste cantor os deuses os domina-riam. Acorreram ao cantor e o penetraram com o mal. Mas como um torrão de terra se espalha quando atirado contra uma rocha, assim foram os demônios espalhados em todas as direções. Portanto, os deuses triunfaram e os demônios foram destruídos. Aquele que conhece isto triunfa no Eu, e o inimigo que o obstrui é esmagado. (I, iii, 7) Enquanto o sacerdote canta, permite que o sacrificador recite estes elevados mantras:

Conduze-me do não-real ao real! Conduze-me da escuridão à luz! Conduze-me da morte à imortalidade! Quando ele recita: "Conduze-me do não-real ao real", o não-real significa verdadeiramente morte, e o real, imortalidade. Desta forma está dizendo:

"Conduze-me da morte à imortalidade, torna-me imortal." Quando recita: "Conduze-me da escuridão à luz", a escuridão significa verdadeiramente morte, e a luz, imortalidade. Desta forma está dizendo:

"Conduze-me da morte à imortalidade." Quando recita: "Conduze-me da morte à imortalidade", nenhuma explicação é necessária. (I, iii, 28) No início, tudo isto era Eu sozinho, na forma de uma pessoa. Ele olhou e não viu nada a não ser Ele mesmo. Disse primeiramente: "Este sou eu"; daí por diante Seu nome tornou-se eu. Portanto, mesmo hoje, se se pergunta a um homem quem ele é, ele responde primeiramente: "Sou eu", e acrescenta em seguida qualquer outro nome que possa ter. Porque Ele destruiu todo o mal, chama-se Purusha. Aquele que conhece isto destrói todo o mal. (I, iv, I) Ele sentia medo, e por esta razão as pessoas sentem medo quando se encontram sozinhas. Pensou: "Já que só há Eu, de que tenho medo?" Em seguida, Seu medo acabou; de que deveria ter medo? Veramente, é somente por um segundo que se sente medo. (I, iv, 2) Ele não sentia felicidade, e por esta razão um homem não é feliz quando está só. Desejou uma companhia. Tornou-se do tamanho de um homem e sua esposa abraçados. Dividiu-Se a Si mesmo em duas partes, e assim nasceram o esposo e a esposa. Portanto, como o sábio Yajnavalkya disse, este corpo é uma metade de nós mesmos, como uma das metades de uma ervilha cortada. Assim o lugar da outra metade é preenchido pela esposa. Ele se uniu a ela, e o homem nasceu. (I, iv, 3)

Ela pensou: "Como pode Ele unir-se a mim depois de ter-me produzido de Si mesmo? Esconder-me-ei." Transformou-se então numa vaca; Ele se transformou em touro, uniu-se a ela, e as vacas nasceram. Ela transformou-se em égua, Ele se transformou em potro; ela se transformou em asna, Ele se transformou em asno, uniu-se a ela, e os animais de casco nasceram. Ela se transformou em cabra, Ele em bode; ela se transformou em ovelha, Ele se transformou em cordeiro, uniu-se a ela, e nasceram as cabras e as ovelhas. Assim Ele criou tudo que existe em Pares, até as formigas. (I, iv,

Ele sabia que Ele era a criação, pois criara tudo isto. Portanto, tornou-se a criação, e aquele que conhece isto vive nesta Sua criação. (I, iv, 5)

Então pela fricção produziu fogo de sua origem: a boca e as mãos. Assim, a boca

e as mãos não possuem cabelos na parte interior, pois o interior do fogo não

possui cabelos. Quando dizem: "Sacrifica a este deus", ou "Sacrifica àquele deus", estes deuses são apenas Suas manifestações; Ele é todos estes deuses. (I, iv, 6) Este mundo era indiferenciado. Tornou-se diferenciado pelo nome e forma; podia-

se então dizer: "Tem tal nome, tal forma."

Mesmo no tempo presente tudo é diferenciado, e pode-se dizer: "Tem tal nome, tal

forma."

O Eu penetrou todas as coisas, até a ponta das unhas. Está escondido em tudo,

como uma navalha em sua caixa, ou o fogo em sua origem. As pessoas não o vêem, apenas em partes: quando se respira, chama-se prana, o sopro vital; quando se fala, chama-se fala; quando se vê, visão; quando se ouve, o ouvido; quando se pensa, mente. Todos esses são apenas nomes de Suas funções. Aquele que o considera um ou outro não O conhece, pois considera apenas parte d'Ele. Que os homens) meditem no Eu, pois no Eu todas as coisas são uma — o Eu é a pegada de todas as coisas, pois através d'Ele conhece-se tudo. Como se pode encontrar

aquilo que foi perdido por suas pegadas, assim aquele que conhece este Eu encontra glória e libertação. (I, iv, 7) Este Eu é mais caro que um Filho, mais caro que a riqueza, mais caro que tudo o mais, e é o mais interior. Se se disser a uma pessoa que considera cara outra coisa que não o Eu que perderá o que lhe é caro, certamente a perderá. Que ela medite apenas no Eu como sendo caro. Aquele que medita apenas no Eu como sendo caro, certa-mente aquilo que considera caro nunca perecerá. (I, iv, 8)

No princípio isto era Brahman. Ele conhecia a Si mesmo como "Eu sou Brahman."

Tudo nascia de seu conhecimento. Assim, qualquer deus despertado por este conhecimento tornava-se Brahman; é o mesmo com os profetas e com os homens. O sábio Vamadeva compreendeu e cantou: "Eu era Manu [lua], era o sol." Também hoje aquele que sabe que é Brahman, torna-se Brahman, e mesmo os deuses não podem

impedir isto, pois ele é também seu Eu. (I, iv, 10) Como os fios vêm da aranha, as pequenas faíscas vêm do fogo, assim deste Eu vêm todos os sentidos, todos os mundos, todos os deuses, todos os seres. Seu nome é "Verdade das verdades". Os sentidos são a verdade, e sua verdade é o Eu. (II, i,

20)

A descrição de Brahman é: "Não isto, não isto", pois esta é a mais elevada

descrição.

O nome para Brahman é: "Verdade das verdades", sendo os sentidos a verdade, e

Ele a verdade dos sentidos. (II, iii, 6)

A tríplice descendência de Prajapati foram deuses, homens e demônios.

Permaneceram com Prajapati como estudantes celibatários. Quando completaram seus

prazos, os deuses disseram a Prajapati: "Dize-nos, Senhor". Prajapati disse-lhes

a sílaba da, e perguntou se haviam entendido.

Replicaram: "Sim, disseste-nos damyata — controlai-vos".

Prajapati disse: "Sim, entendestes". (V, ii, 1)

Então os homens disseram a ele: "Dize-nos, Senhor".

A eles ele disse a mesma sílaba da, e perguntou se haviam entendido. Replicaram:

"Sim, disseste-nos datta — dai". Prajapati disse: "Sim, entendestes". (V, ii, 2)

Então os demônios disseram-lhe: "Dize-nos, Senhor".

A eles ele também falou a sílaba da, e perguntou se haviam entendido.

Replicaram: "Sim, disseste-nos dayadhvam — sede compassivos". Prajapati disse:

"Sim, entendestes".

A voz celestial do trovão repete esta mesma instrução "Da, da, da", que

significa: "Controlai-vos, dai, sede compassivos." Portanto deve-se praticar

esta tríade de autocontrole, generosidade e compaixão. (V, ii, 3)

KAIVALYA UPANISHAD

Asvalayana perguntou ao Deus Brahma: "Venerável Senhor, ensina-nos o conhecimento de Brahman, o conhecimento que é supremo e oculto, constantemente

buscado pelo sábio, o conhecimento pelo qual o conhecedor é libertado de impurezas e alcança o maior que o maior Ser." (I) Brahma o antepassado disse a ele: "Busca Brahman pela fé, devoção, meditação e concentração. Não se o obtém pelo trabalho, nem pela descendência, nem pela riqueza; apenas pela renúncia o homem alcança a imortalidade". (2)

"E mais elevado que o céu, brilha no lótus do coração. Os que lutam e aspiram

n'Ele penetram." (3) "Num local solitário, senta-te na postura fácil, com o coração puro, a cabeça, pescoço e corpo eretos, indiferente ao mundo, controlando todos os sentidos. Curve-se com devoção ao mestre." (5) "Destituído de paixão e puro, medita no 1ótus do coração, em cujo centro está o puro, sem-tristeza, inconcebível, tranqüilo, feliz, a origem de Brahma." (6) "Ele é Brahma; é Shiva; é Indra; é o Supremo; é Vishnu; é prana; é tempo; é fogo; é a lua." (8) "E tudo que foi, e tudo que será. E eterno. Conhecendo-se-O vence-se a morte.

Não há outro caminho para a liberação." (9) "Vendo o Ser em todos os seres, e todos os seres no Eu, vai-se a Brahman. Não há outro caminho." (10) "Fazendo da mente um bastão de madeira, e da sílaba Om outro bastão de madeira; friccionando os dois bastões juntos, e por este meio acendendo a chama do conhecimento, o conhecedor queima todos os vínculos." (11) "D'Ele nascem a vida, mente, e os sentidos, terra, ar, água, fogo e éter. Ele é

o sustentáculo de toda existência." (15) "Ele é o Supremo Brahman, o Eu de tudo, o fundamento de tudo, mais sutil que o sutil, eterno. Isto tu és, tu és Isto!"

(16)

PAINGALA UPANISHAD

Deve-se meditar nestas sagradas sentenças dos Vedas:

Tat tvam asi — Isto tu és Tvam tad asi — Tu és Isto Tvam brahmasi —Tu és Brahman Aham brahmasmi — Eu sou Brahman

A palavra Tat [Isto] denota a causa do universo, diversificado além da

compreensão, tendo as qualidades de onisciência, tendo maya como veículo e tendo os atributos Sat [Ser], Chit [Consciência] e Ananda [Felicidade]. E Isto que constitui a base da concepção do eu, e é Isto que é denotado pela palavra tvam [tu]. Brahman indiferenciado permanece após Maya [princípio ilusório] e avidya [ignorância espiritual], que englobam a Alma Universal e a alma individual, respectivamente, serem removidos.

A investigação do sentido real das sentenças Tat tvam asi e Aham brahmasmi

constitui o que é chamado de shravana [audição]. Meditar sobre o significado do que é ouvido é chamado de manana [reflexão]. Concentrar a mente com agudeza única no que é aprendido através de shravana e

manana constitui nididhyasana [contemplação]. Samadhi é o estado onde não há distinção entre o meditante e o ato de meditação,

e a mente assemelha-se a uma lâmpada colocada em local :em vento. Nesse estado

aparecem as características do Eu. Estas características não podem ser conhecidas; podem ser inferidas apenas da memória do estado de samadhi. Os inumeráveis karmas, redes de resultados de obras passadas acumulados durante ciclo sem início de renascimentos são destruídos através delas. Pela eficiência adquirida pela prática, uma torrente de néctar chove de mil direções. Desta forma os iogues chamam este mais elevado estado de dharma-mega [nuvem de virtude]. Pela manifestação das características do Eu, os karmas são aniquilados, sem deixar traços. Quando os bons e os maus karmas são totalmente aniquilados, as sentenças Tat tvam asi e Aham brahmasmi, como objetos na palma

da mão, dão ao iogue a percepção direta de Brahman, até aqui imperceptível. Então ele se torna um jivanmukti, uma alma libertada. (III, 2) Com a mente pura, com consciência purificada, resignado e sabendo que "Eu sou Ele", deve concentrar seu coração no Eu. Então atinge a quietude do corpo, e

mente e intelecto tornam-se tranqüilos. Que proveito tem o leite àquele que está cheio de néctar? Que proveito têm os Vedas para aquele que conhece o Eu? Para o iogue que está cheio do néctar do Conhecimento de Brahman, nada mais existe a atingir. Se ainda existe alguma coisa a atingir, então ele não é conhecedor de Tattva [Verdade]. Afastado, mas não afastado, no corpo, ainda não restrito ao corpo, ele é todo-penetrante. Tendo purificado o coração e contemplado Brahman,

o reconhecimento do "eu" como o Supremo e o Tudo é a mais elevada felicidade. (IV, 9)

Como água entornada em água, leite em leite, ghee em ghee, assim o eu individual

e o Eu Universal tornam-se um indiferenciado. (IV, 10)

Se um homem realizasse tapas [austeridade] sustentando-se sobre uma perna durante mil anos, este tapas não seria digno nem mesmo da décima sexta parte do valor de meditação. (IV, 15) Aquele que está desejoso de saber o que constitui jnana [sabedoria espiritual] e jneya, aquilo que deve ser conhecido, não alcançará seu fim almejado através de mero estudo dos shastras [escrituras], mesmo se o fizesse por mil anos. (IV, 16) Aquilo que é, deve ser conhecido como o imperecível. O que parece com o mundo é

impermanente. Portanto, abandonando o estudo dos shastras, deve-se meditar sobre

a Verdade. (IV, 17)

Cerimônias, observâncias de pureza, japas [repetições de sentenças sagradas], realizações de sacrifício e peregrinações, todas são prescrições enquanto aquele que busca não conhece a Verdade. (IV, 18) Para o que tem grande alma, o conhecimento "Eu sou Brahman" traz libertação. O

sentido de "meu" leva à escravidão, e o sentido de "não meu" leva à libertação. (IV, 19) Pelo sentido de "meu" está-se atado, e pela ausência do sentido de "meu" está-se liberto. Quando a mente atinge o estado de iluminação, a concepção de dualidade

é deixada para trás. (IV, 20)

Quando aquele que busca atinge o estado de iluminação, atingiu o estado mais elevado. Onde quer que sua mente resida, reside no estado mais elevado. (IV, 21) Aquilo que é o mesmo em tudo é Brahman apenas. Pode-se ter o poder de ferir o ar com o punho cerrado; pode-se ser capaz de saciar a fome com conchas de grão, mas nunca se atingirá a emancipação se não se tiver o conhecimento "Eu sou Brahman". (IV, 22)

CAPÍTULO XI - O BHAGAVAD GITA

O Mahabharata é uma grande epopéia que se relaciona com a história antiga da

Índia. Fala dos imperadores do país, de seus bravos guerreiros, de suas lendas,

de seus muitos sábios e seus sublimes ensinamentos espirituais. A autoria deste clássico é tradicionalmente atribuída ao lendário sábio Vyasa, cujo trabalho deve ter sido executado entre 500 a.C. até 200 a.C. O Mahabharata consiste em mais de cem mil estrofes. O Bhagavad Gita é uma das seções do sexto livro da epopéia.

O Bhagavad Gita ocupa honroso lugar entre os livros sagrados dos hindus. Sua

influência foi grande através dos tempos, tanto como agora. Para o venerado Mahatma Gandhi, o Bhagavad Gita era uma interminável fonte de inspiração. Este homem, tão pequeno em tamanho quanto grande em envergadura, lia seu amado livro todos os dias. O apelo do Gita, entretanto, não é especificamente hindu, visto que seus ensina-mentos têm interesse universal, sem vínculos com tempo ou lugar. Foi chamado um dos maiores poemas filosóficos do mundo, e milhões e milhões de pessoas procuraram consolo e inspiração em suas páginas. Bhagavad Gita significa "A Canção do Senhor". Os dezoito capítulos do livro relatam o discurso dos modos de ação, devoção e sabedoria do Deus Krishna a seu discípulo, o príncipe Arjuna. O último é um homem num dilema psicológico. Está em vias de combater muitos de seus parentes. Tem sido um grande guerreiro, lutando com bravura e denodo, mas subitamente o pensamento de estar envolvido numa contenda fratricida começa a perturbá-lo. "Que bem pode advir da matança dos parentes?" perguntou. Transbordante de dúvida e dor, recusou-se a lutar, Krishna consola-o. Arjuna é um soldado e como o direito está do seu lado deve lutar. "Levante e luta!" Krishna concitou-o. Neste ponto os ensinamentos espirituais começam e ocupam o restante do poema.

Algumas pessoas, indubitavelmente bem--intencionadas mas que provavelmente nunca foram além do início do segundo capítulo, opinaram que o Bhagavad Gita é um Livro que induz à luta e à morte. Esta não é, com certeza, a mensagem do Gita — muito pelo contrário. O fato de o desespero de Arjuna ter sido descrito com tamanho sentimento já seria suficiente para indicar o caráter do livro. O Gita é originário do Mahabharata, uma epopéia, e a guerra meramente provê os antecedentes para ensinamentos espirituais da mais alta ordem. Arjuna pertencia

à casta dos Kshatriyas — era um membro da casta guerreira — e, como soldado,

precisa cumprir seu dever, como cada um de nós deve cumprir seu dever no mundo.

A verdadeira batalha a travar é contra os desejos egoístas, a paixão e a

ignorância. Em lugar de ódio, o Gita preconiza o mais envolvente amor.

O

estudante de Ioga encontrará muita coisa de grande interesse no Bhagavad Gita.

O

livro se relaciona com a Karma Ioga (a Ioga das Ações Corretas) para aqueles

que estão envolvidos nas atividades consuetudinárias; com Bhakti Ioga (Ioga da Devoção) para os religiosos e com Jnana Ioga (a Ioga do Conhecimento) para aqueles que buscam a sabedoria espiritual. Os ensinamentos do Gita são baseados nos Upanishads e o Gita trata fundamentalmente do Brahman dos Upanishads. "Os Upanishads são a vaca, Krishna o divino ordenhador, o sábio é o que bebe, e o Gita-néctar é o excelente leite." Sugeriu-se que o Bhagavad Gita não tenha chegado até nós em sua forma original. Com o passar do tempo, alterações foram introduzidas no texto, e o trabalho foi talvez reescrito muitas vezes para fazer aflorar visões específicas. Isto se

pode atribuir parcialmente à diversidade de exposições filosófico-religiosas encontradas lado a lado no clássico. Seguem-se excertos do Bhagavad Gita. Foram enfatizados na seleção os ensinamentos mais diretamente concernentes ao contexto deste livro.

O BHAGAVAD GITA

No campo da retidão, o plano de Kurukshetra, dois exércitos se defrontam, prontos para a batalha. A contenda iminente é conseqüência de uma velha animosidade entre os Kurus e os Pandavas, membros de dois diferentes ramos da mesma família. Os Pandavas, dos quais o Príncipe Arjuna era membro, lutavam por questão de justiça. Arjuna e seus quatro irmãos foram criados com seus primos, na corte de seu tio, o rei Dhritarashtra. Em lugar de abdicar do trono como deveria ao ficar velho e cego, Dhritarashtra quis permanecer no poder.

Favorecendo continuamente seus filhos, o velho Rei incrementou a confusão. Após prolongada porfia, os Pandavas foram enganados e derrotados pelos Kurus num jogo

de dados, depois do que foram banidos. Durante mais de doze anos deambularam até

que final-mente a guerra começou. Para certificar-se de que o princípio de justiça prevaleceria, Krishna, um

avatara (encarnação divina) de Vishnu (um dos deuses do hinduísmo), manifestou- se. Uma proposta foi feita a ambas as partes em conflito. Poderiam escolher entre terem um exército forte, e bem equipado, por um lado, ou, por outro, terem

a ele Krishna como auriga. Os Kurus decidiram-se pela força dos homens e das

armas, enquanto os Pandavas preferiram ter o desarmado Krishna de seu lado. Aqui principia o Bhagavad Gita. Os versos de abertura descrevem os poderosos e muitos guerreiros presentes e fala dos preparativos da batalha. Os tumultuosos sons de trombeta agitam a terra e o céu. Num carro com brancos cavalos atrelados, estavam juntos o Deus Krishna e o Príncipe Arjuna:

Erguendo o arco, Arjuna falou para o Deus Krishna: "Senhor da Terra! Queira conduzir meu carro por entre os dois exércitos, ó Imutável Um, (I, 21) "Para que eu possa contemplá-los esperando, ávidos pela batalha, aqueles que precisarei defrontar nesta erupção de guerra; (I, 22)

"E olhar fixamente para aqueles reunidos, prontos para lutar e ávidos de agradar

o maldoso filho de Dhritarashtra na próxima batalha." (I, 23) Assim requisitado por Arjuna, o Deus Krishna conduziu seu brilhante carro entre

os dois exércitos; (I, 24)

Em frente de Ehisma, Drona e todos os capitães disse: "Veja, ó Arjuna, a

assembléia destes Kurus". (I, 25) Arjuna viu 1á pais e avôs, mestres, tios, irmãos, filhos, netos, amigos; (I, 26)

e

também nas duas armadas havia sogros e benfeitores. Vendo todos esses parentes

em

formação de batalha, (I, 27)

O

coração de Arjuna comoveu-se piedoso, e tristemente ele disse: "Ó Deus

Krishna! Quando vejo meus próprios parentes, prontos e esperando pela batalha, (I, 28) "meus membros fraquejam, e minha garganta está opressa, meu corpo treme e meu cabelo se eriça; (I, 29) "O arco Gandiva escorrega de minhas mãos, e minha pele se aquece inteiramente. Não posso suportar isto e minha mente fraqueja." (I, 30) "Vejo maus presságios, ó Krishna! Não antevejo nada de bom em matar meu próprio povo nessa luta." (I, 31) "Ó, Senhor! Não desejo nem vitória, nem o reino, nem suplico prazer. Que é reinado para nós, Ó Krishna, ou alegria ou vida comum? (I, 32) "Aqueles por cuja causa desejamos reinado, alegria e prazer estão aqui prontos para a batalha, preparados para abandonar a vida e riquezas — (I, 33) "mestres, pais, filhos e avós, tios e sogros, netos, cunhados e outros parentes." (I, 34) "Embora possam matar-me, não desejo matá-los, ó Krishna — nem mesmo pelo reino dos três mundos — quanto mais por esta terra?" (I, 35) "Que felicidade será a nossa, 6 Senhor, se matarmos estes irmãos de Dhritarashtra? Cometeremos pecado em matar este povo." (I, 36) "Portanto, não podemos matar esses filhos de Dhritarashtra, nossos parentes; como poderemos obter felicidade, ó Senhor, pela destruição de nossos parentes?" (I, 37)

"Embora esses homens, cegados pela ganância como estão, não vejam mal na destruição da família e não vejam crime em hostilizar os amigos, (I, 38) "nós, nós que vimos o mal na destruição da família — não podemos voltar as costas a tão grande pecado?" (I, 39) "Em verdade, seria melhor para mim se os filhos de Dhritarashtra, armas em punho, matassem-me na batalha, desarmado e sem resistência." (I, 46) Tendo assim falado, no campo de batalha, atirou longe arco e flechas, desceu de seu lugar no carro, turbado de tristeza. (I, 47) Para ele que estava dominado pela piedade, cujos olhos estavam marejados de lágrimas e que estava tão desesperado, o Deus Krishna disse estas palavras: (II,

1)

"Oh, Arjuna! Por que começa, nesta hora crítica, este abatimento, que é indigno de Arianos e que conduz apenas à desgraça e fecha os portões do céu?" (II, 2) "Não permitas que te tome a fraqueza, ó Arjuna! Isto não te é conveniente. Liberta-te desse desprezível desfalecimento de ânimo e eleva-te, o conquistador de inimigos!" (II, 3) Arjuna replicou: "O Deus! Como poderei atacar Bhisma e Drona com setas na batalha — eles que são dignos de reverência, ó Destruidor do inimigo?" (II, 4) "Melhor seria compartilhar da comida de mendigos nesse mundo do que matar tão honoráveis mestres, se eu matasse esses meus instrutores, o prazer de viver seria manchado com sangue. (II, 5) "Nem mesmo sei o que é melhor para nós — que nós os conquistemos ou que nos conquistem eles. Não poderíamos viver se matássemos esses filhos de Dhritarashtra, embora estejam aprestados contra nós." (II, 6) "Meu coração desfalece e minha mente está confusa acerca de qual seja meu dever. Imploro-Te, ó Deus, o que é certamente o melhor para mim, que sou Teu discípulo. Refugio-me em Ti; ensina-me." (II, 7) "Nada vejo que possa remover esta angústia que debilita meus sentidos, deverei atingir mestria sem igual e próspera na terra e mesmo domínio sobre os deuses." (II, 8) Tendo então se dirigido ao Deus Krishna, o conquistador dos inimigos disse: "Não lutarei" e permaneceu em silêncio. (II, 9) Após isso, entre os dois exércitos, o Deus Krishna, com um sorriso de compreensão, respondeu àquele que estava desesperado. (II, 10) "Lamentaste aqueles que não deverias lamentar e ainda falaste em sabedoria. O sábio não lamenta nem o morto nem o vivo." (II, 11) "Nunca haverá tempo em que eu não seja, nem tu, nem esses príncipes; nunca haverá tempo em que deixemos de ser." (II, 12) "Contato dos sentidos com esses objetos produz frio e calor, prazer e pena. Vêm e vão, nada fica para sempre. Suporta-os bravamente, ó Príncipe!" (II, 14) "Aquele que não é afligido por estes, que permanece equilibrado no prazer e na dor, somente este está apto para a imortalidade." (II, 15) "Aquilo que não é, nunca será; aquilo que é, nunca deixará de ser. Para o que vê, estas verdades são evidentes." (II, 16) "Aquele que penetra tudo isto é imutável. Nada pode destruir Isto." (II, 17) "Os corpos, nos quais o Eterno, Indestrutível e Imensurável habita, são todos finitos. Portanto, luta, ó Príncipe!" (II, 18) "Aquele que venera Isto enquanto mata, e aquele que venera Isto enquanto morto, são ambos ignorantes. Isto não mata, nem é morto." (II, 19) "Isto não nasceu, nem morre; nem tendo sido cessará de ser; não-nascido, eterno, perpétuo e primevo, Isto não é morto quando o corpo é destruído." (II, 20) "Aquele que conhece Isto como indestrutível, perpétuo, não-nascido e não- mutável, como pode ele matar, 6 Príncipe, ou ser morto?" (II, 21) "Assim como um homem se desfaz de seus trajes usados, e veste outros novos, assim Isto desfaz-se de corpos usados, e penetra em outros novos." (II, 22) "Armas não penetram Isto, o fogo não O queima; a água não pode molhá-LO, e o vento não pode secá-LO." (II, 23) "Isto é impenetrável, não pode ser chamuscado, nem molhado, nem secado. Isto é eterno, todo-penetrante, não-mutável e imóvel." (II, 24) "Isto é chamado de Não-manifesto, de Inimaginável, e de Imutável. Portanto, conhecendo Isto assim, não te deves afligir." (II, 25)

"Mesmo se pensasses em Isto como perpetuamente nascendo e morrendo, mesmo assim,

ó Príncipe, não te deves afligir." (II, 26)

"Pois a morte é certa para aquilo que nasce, e certo é o nascimento para aquilo que morre. Portanto não te aflijas pelo inevitável." (II, 27) "Os seres são não-manifestos em seus inícios, manifestos em seus estados intermediários, o Príncipe, e não-manifestos novamente em dissolução. Que causa há, portanto, para a aflição?" (II, 28) "Alguns consideram Isto como maravilhoso; outros similarmente falam disto como maravilhoso; como maravilhoso alguns ouvem Isto; entretanto, após terem ouvido, poucos de fato entendem Isto." (II, 29) "O que mora no corpo de todos, 6 Príncipe, é sempre invulnerável. Por esta razão não te deves afligir por nenhuma criatura." (II, 30) "Deves olhar ao teu dever, e não deves vacilar, pois nada poderia ser mais bem- vindo a um bravo soldado que uma guerra honrada." (II, 31) "Afortunados de fato são os soldados, 6 Príncipe, aos quais uma batalha não buscada, como essa, oferece a oportunidade de entrar pelo portão aberto do céu." (II, 32) "Se não deves tomar parte nesta guerra honrada, então renuncia a teu dever e a tua honra, e incorrerás apenas em pecado." (II, 33) "Os homens para sempre falarão de tua desonra. E para o altamente estimado, a desonra é pior que a morte." (II, 34) "Os grandes aurigas pensaram que fugiste da batalha por medo; embora uma vez tenhas sido altamente estimado, serás então pouco estimado." (II, 35) "Teus inimigos falarão mal de ti, caluniando tua força. O que poderia ser mais humilhante?" (II, 36) "Se morto em batalha, obterás o céu; se vitorioso, desfrutarás a terra. Por isso, ó Príncipe, levanta e luta." (II, 37) "Olhando igualmente o prazer e a dor, o ganho e a perda, a vitória e a derrota, prepara-te para a batalha, pois não incorrerás em pecado." (II, 38) "Assim relatei a sabedoria de Sankhya. Agora ouve o ensinamento de Ioga, pela aplicação do qual, ó Príncipe, afastarás todos os vínculos de ação." (II, 39) "Neste caminho, nem um esforço é jamais perdido, nem há transgressão. Mesmo um pouco desta honradez liberta do grande temor." (II, 40) "A mente resoluta, ó Príncipe, tem apenas uma diretriz; os pensamentos do irresoluto vagam em veredas inumeráveis!" (II, 41) "Os tolos proferem discursos floridos, ó Arjuna, e estão satisfeitos com a

literalidade dos Vedas, dizendo não haver nada senão isso." (I, 42) "Cheios de desejos egoístas, buscando um céu temporário, oferecem o renascimento como um resultado de ação, e prescrevem ritos árduo, e complexos para a obtenção de prazer e poder." (II, 43) "Suas mentes se agarram à distração e poder, e são tão cativos deles que não podem envolver-se na concentração que leva a samadhi." (II, 44) "Levanta-te acima das três qualidades védicas de natureza, ó Arjuna! Esteja acima das dualidades; firme em pureza, liberta-te de desejos de posses materiais

e centrados no Eu." (II, 45)

"Para o brahmana, o conhecedor da Verdade, todos os Vedas são de tão pouca utilidade como um poço àquele que está rodeado de água." (II, 46) "Tens direito apenas à ação, e nunca a seus frutos, portanto não deixes que o fruto da ação seja teu motivo; nem te ligues à inação." (II, 47) "Fixado em Ioga, faz teu trabalho, ó Príncipe! Abandonando o apego, equilibra-te igualmente em sucesso e fracasso. A propensão equilibrada chama-se Ioga." (II,

48)

"A ação é muito inferior A. Ioga de Inteligência, ó Arjuna! Recorre então à pura inteligência. São dignos de pena os que procuram o fruto de ação." (II, 49) "Tendo-se atingido o Conhecimento, abandona-se neste mundo o bem e o mal. Por essa razão adere a esta Ioga. Habilidade em ação chama-se Ioga." (II, 50) "Os sábios, tendo atingido o Conhecimento, renunciam aos frutos de ação. Libertos dos vínculos de nascimento, alcançam a mais elevada felicidade." (II,

51)

"Quando teu intelecto escapa aos laços do engano, torna-te-ás, então, indiferente às exposições ouvidas e às ainda por ouvir." (II, 52)

"Quando tua mente, inicialmente confusa pelos vários textos das escrituras,

permanece imóvel em samadhi, então alcançaste Ioga." (II, 53) Arjuna perguntou: "Como conhecemos aquele que é firme de mente e que atingiu samadhi, ó Deus? Como fala, como senta, como caminha?" (II, 54)

O Deus Krishna replicou:

Príncipe, e está contente apenas no Eu, é chamado então de firme de mente." (II,

55)

"Aquele cuja mente permanece imperturbável na dor, e cujo desejo de prazer foi dominado, aquele no qual a paixão, temor e raiva foram dominados, é chamado de sábio de mente firme." (II, 56) "Aquele que está livre de todo apego, que não se regozija ao receber o bem, nem odeia ao receber o mal, possui sabedoria." (II, 57) "Aquele que retrai seus sentidos dos objetos que o rodeiam, como a tartaruga guarda os próprios membros dentro da carapaça, possui sabedoria." (II, 58) "Objetos sensuais, se não o desejo deles, desviam-se para longe do austero de hábitos. Até o desejo de objetos sensuais morre depois que o Supremo é visto." (II, 59) "Os sentidos tumultuosos, ó Príncipe, arrebatam, impetuosos, a mente, mesmo do homem perspicaz que tenta a perfeição." (II, 60) "Tendo controlado todos os sentidos, deve sentar-se firme, meditando em Mim a Suprema Meta; pois aquele cujos sentidos são dominados possui sabedoria." (II,

61)

abandonou todos os desejos, ó

"Quando um homem

"Meditando em objetos sensuais o homem se apega a eles. Do apego nasce o desejo,

e do desejo a raiva." (II, 62)

"Da raiva vem o engano, o engano resulta em memória confusa, a memória confusa

perturba a razão, e com a perturbação da razão o homem perece." (II, 63) "Mas a alma disciplinada, movendo-se entre os objetos do sentido, com os

sentidos sob controle e livre da atração e aversão, atinge a paz eterna." (II,

64)

"Nessa paz há extinção de toda miséria, e a mente pacífica logo se estabelece em sabedoria." (II, 65) "Não há razão para o não-controlado, nem meditação para o não-controlado. Sem meditação não há paz, e sem paz, como pode haver felicidade?" (II, 66) "Como um barco que é atirado ao longo das águas pelo vento, assim a razão é arrebatada da mente que cede aos sentidos errantes." (II, 67) "Portanto, 6 poderoso armado, aquele cujos sentidos estão desligados dos objetos

do

sentido possui sabedoria." (II, 68)

"O

que é obscuro para o não-iluminado é claro para a alma disciplinada; e o que

é

real para o mundo é ilusão para o muni [sábio] que vê." (II, 69)

"Atinge a paz aquele que não é afetado por desejos, como o oceano, cheio de água, permanece sempre o mesmo, embora os rios fluam para ele; mas não aquele que permanece afetado por desejos." (II, 70) "Aquele que abandona os desejos e trilha seu caminho livre de desejos, egoísmo e egocentrismo, alcança a paz." (II, 71) "Este é o estado de Brahman, ó Príncipe! Tendo-se atingido esse estado nunca se fica confuso novamente. Quando alguém se estabelece neste estado, mesmo durante seus últimos momentos, atinge o Brahmanirvana [beatitude de Brahma]." (II, 72) Arjuna questionou: "Se consideras o conhecimento superior à ação, ó Deus, por

que então me instruis para entrar nesta terrível luta?" (III, I) "Com convenientes palavras contraditórias confundiste minha razão. Portanto, por favor, diga-me decididamente por qual caminho poderei atingir o mais elevado." (III, 2)

O Deus bem-aventurado replicou: "Como declarei, neste mundo há um caminho

bifurcado, ó Sem-Pecado. Há Jnana Ioga para os contemplativos e Karma Ioga para

os homens de ação." (III, 3)

"Um homem não pode atingir a liberdade de ação meramente refreando a ação, nem

atinge a perfeição por mera renúncia." (III, 4) "Nem pode ninguém permanecer inativo, nem mesmo por um momento; pois todos são compelidos a agir pelas qualidades de natureza." (III, 5)

"Aquele que se sente com os órgãos de ação controlados, mas com a mente presa aos objetos dos sentidos, esta mente confusa é simplesmente chamada de hipócrita." (III, 6) "Mas aquele cuja mente tem o comando dos sentidos, ó Arjuna, e que sem apego aplica os órgãos de ação em Karma Ioga, tal homem excede." (III, 7) "Realiza teu karma [ação correta], pois a ação correta é superior à inação; até mesmo o corpo não pode ser mantido se não age." (III, 8) "Neste mundo se está atado pelas próprias ações, a menos que tais ações sejam realizadas num espírito de sacrifício. Portanto, 6 Príncipe, realiza tuas ações sem apego." (III, 9) "Aquele que se regozija apenas no Eu, que está satisfeito e contente com o Eu

tão-somente, para ele nada resta a fazer." (III, 17) "Não te preocupes com a ação nem com não-ação neste mundo; nem dependas de nenhuma criatura." (III, 18) "Por esta razão, sempre, sem apego, realiza o trabalho que deve ser feito, pois, pela ação realizada sem apego, o homem alcança o Supremo." (III, 19) "O rei Janaka e outras grandes almas atingiram a perfeição através da ação correta tão-somente. Mesmo para o benefício do mundo deve-rias realizar a ação correta." (III, 20)

"O que quer que um grande homem faça, outros o fazem. Qualquer que seja o padrão

que ele estabeleça, é seguido pelo mundo." (III, 21) "Nada há nos três mundos, ó Príncipe, que eu necessite fazer, nem há nada a atingir que já não tenha sido atingido; entretanto ainda ajo." (III, 22) "Pois se eu não entrasse em ação incansavelmente, ó Príncipe, os homens seguiriam meu exemplo em toda parte." (III, 23) "Se eu deixasse de agir, estas palavras seriam destruídas pela confusão, e eu

seria o autor da destruição destes povos." (III, 24) "Como o ignorante age devido ao apego à ação, ó Príncipe, assim o sábio deveria agir sem tal apego, desejando apenas o bem-estar do mundo." (III, 25) "O homem de sabedoria não deve perturbar as mentes dos ignorantes que estão presos à ação; deve antes agir em harmonia, e tornar outros desejosos de praticar ações corretas." (III, 26) "Todas as ações são produto dos gunas [qualidades de natureza], mas a alma enganada pelo egotismo pensa: "Eu sou o autor." (III, 27) "Aquele, ó poderoso guerreiro, que sabe corretamente a relação entre os gunas e

a

ação, percebendo que os gunas agem de acordo com seu respectivo caráter, não

se

apega." (III, 28)

"Aqueles que são enganados pelos gunas apegam-se às ações dos gunas; entretanto, que o homem que conhece não perturbe a mente daqueles que conhecem pouco." (III,

29)

"Oferecendo todas as tuas ações a Mim, com a mente fixa no Eu, não pensando em recompensas, livre de egotismo e de dor, lança-te na batalha." (III, 30)

Arjuna perguntou: "O que leva um homem a pecar, ó Krishna, como se o compelisse

e

mesmo contra seus desejos?" (III, 36)

 

O

deus bem-aventurado

replicou:

"Luxúria,

ódio,

que

saem

de

rajas guna

[qualidades de escuridão]; tudo consomem, tudo corrompem, eis teu inimigo."

(III, 37) "Como o fogo é envolvido pela fumaça, como um espelho é coberto por poeira, e como um embrião é envolvido no ventre, assim o mundo é recoberto de desejo." (III, 38)

"O desejo encobre a sabedoria, e é o constante inimigo do sábio, ó Arjuna! O

desejo é insaciável como fogo." (III, 39) "Diz-se que os sentidos, a mente e o intelecto são suas sedes; velando a sabedoria por meio destes engana ao homem." (III, 40) "Por essa razão, ó Príncipe, controla primeiro teus sentidos, e mata então este pecaminoso destruidor de jnana [conhecimento espiritual], e vijnana

[conhecimento científico]." (III, 41)

156

"Diz-se que os sentidos são poderosos, mas superior aos sentidos é a mente; o intelecto é superior à mente, mas maior que o intelecto é o Supremo." (III, 42)

"Assim conhecendo o Supremo como maior que o intelecto e dominando o ego pessoal pelo Eu, mata o desejo, ó poderoso armado, este inimigo tão difícil de dominar." (III, 43) "O que é ação, e o que é inação? Esta questão tem confundido mesmo o sábio. Dir- te-ei o que é ação, e sabendo-o, serás livrado do mal." (IV, 16) "E essencial saber o que constitui a ação correta e a ação incorreta. Da mesma forma, deve-se saber o que é inação, pois misteriosa é a senda da ação." (IV,

17)

"Aquele que vê inação em ação e ação em inação é sábio entre os homens. E