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Dossiê Jovens: diferentes olhares, múltiplas

Jovens pobres: abordagens


modos de vida...
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JOVENS POBRES: MODOS DE VIDA, PERCURSOS URBANOS E


TRANSIÇÕES PARA A VIDA ADULTA

PAULO CARRANO*

*Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF); bolsista produ-
tividade do pesquisador do Cnpq, nível 2; bolsista jovem cientista do nosso estado/Faperj; coordenador do Observa-
tório Jovem do Rio de Janeiro/UFF. E-mail: paulocarrano@yahoo.com.br

RESUMO: CARRANO, P. Jovens pobres: modos de vida, percursos urbanos e transições para a vida adulta.
Ciências Humanas e Sociais em Revista, Seropédica, RJ: EDUR, v. 30 n 2, p. 62-70, jul-dez, 2008. As investigações
sobre as identidades juvenis centradas sobre determinados temas (cultura, trabalho, lazer, escolarização etc) têm, em
grande medida, investido em aspectos parcelares da vida dos jovens e perdido de vista os contextos concretos de
existência dos sujeitos investigados. A investigação sobre os modos de vida dos sujeitos jovens em suas relações com
os espaços-tempos da cidade pode permitir a ampliação da compreensão para além dos estudos recortados por temas,
conferindo maior complexidade de análise dos objetos investigados. O reconhecimento de eventos, disposições
aprendidas e processos de interação nos permitem compreender, principalmente, os sentidos dos percursos dos jovens
nos espaços da cidade. Os percursos e as redes de relacionamentos que se configuram no espaço são significativos
para a compreensão das trajetórias pessoais e o processo de transição para a vida adulta.

Palavras-chave: jovens – cidade – modos de vida

ABSTRACT: CARRANO, P. Poor Young people: lifestyle, urbans origens and adult life transitions. Ciências
Humanas e Sociais em Revista, Seropédica, RJ: EDUR, v. 30 n 2, p. 62-70, jul-dez, 2008. The investigations
focused on youth identities based on certain topics (culture, work, recreation, education etc) are invested in partial
aspects of the young peoples lives and lost sight of the existence of specific contexts of the investigated. The research
about the young people ways of life in their relations with the city space-time could allow the expansion of understanding
in addition to studies that are focused on other subject and give greater complexity of analysis of the objects investigated.
The recognition of events, learned rules and procedures of interaction allows us to understand, especially, the meanings
of the routes of young people in the city. The pathways and networks of relationships that are up in space are significant
to understand the personal trajectories and the transitions process to adulthood.

Key Words: young people – city – ways of life

INTRODUÇÃO o consumo, as mediações com o tráfico de


drogas e a polícia, os serviços urbanos, den-
tre outros aspectos relacionados com os mo-
O inventário dos percursos urbanos se dos de vida dos jovens pobres na cidade.
apresenta como um modo particular de des- A noção de território não se confunde
crever a cidade sem dissociá-la dos sujeitos com os limites sócio-espaciais dos locais de
que a constituim. Uma aposta de pesquisa que moradia dos jovens. Neste sentido, a “comu-
temos feito é trazer para o centro da análise o nidade” não deve ser espaço social único de
emaranhado de mediações e conexões que referência para a investigação, uma vez que
permitem visualizar práticas concretas relaci- compreender o modo de vida dos jovens pela
onadas com o trabalho, a moradia, as relações perspectiva de se enxergar uma comunidade
familiares, a educação escolar e não escolar, ampliada conformada pelos percursos, medi-

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ações sócio-culturais e redes de relacionamento A cidade como espaço de práticas


estabelecidas nos espaços da cidade e, em educativas não se resume ao âmbito das apren-
muitos casos, em redes de relacionamentos que dizagens institucionais, tais como aquelas que
transcendem o âmbito municipal. ocorrem na escola e em outros espaços não
O inventário, a descrição e a análise de escolarizados de aprendizagem constituídos
trajetórias e percursos pessoais e coletivos com a intenção pedagógica de educar. A cida-
podem permitir não apenas a elaboração de co- de pode ser considerada educativa também no
nhecimentos sobre biografias e dinâmicas de sentido ampliado de espaço-tempo social de
ação coletiva juvenil como também contribuir relacionamentos, experiências públicas,
para desvelar partes significativas do comple- compartilhamento de significados e vivência
xo jogo de atores (TELLES & CABANES, de situações conflitivas mais ou menos bem
2006) que se dá nos relacionamentos dos su- resolvidas pelos sujeitos.
jeitos jovens com escolas, trabalho, ongs, pro- O mundo do trabalho, as relações fa-
jetos governamentais, ações de filantropia, miliares, a participação em atividades
envolvimentos partidários e religiosos, educativas orientadas, a participação no cir-
associativismos diversos, milícias, traficantes cuito de produção e consumo de mercadorias
etc. Essa orientação pode contribuir para uma culturais, os percursos pela cidade, o acesso à
maior aproximação da real configuração do fruição de bens culturais materiais e imateriais,
tecido social que constitui determinado espa- a vivência ou negação da experiência pública
ço popular em que jovens articulam seus mo- da circulação pelas ruas e espaços públicos,
dos de vida e de experimentação do tempo de dentre outras possibilidades desigualmente
juventude. distribuídas pelo tecido urbano, compõem uma
complexa rede educativa que envolve espa-
ços formais de aprendizagem e possibilidades
A CIDADE COMO ESPAÇO-TEMPO para experiências informais que configuram a
DE PRÁTICAS EDUCATIVAS dimensão educativa de uma cidade.
Para Lefebvre (1981), o espaço trans-
As redes de subjetividade se entrelaçam formou-se na sede do poder. É nele, funda-
para a formação dos sujeitos históricos. San- mentalmente, que ocorre a reprodução das re-
tos (1995) afirma ser a nossa existência uma lações sociais e é nesta perspectiva que na vida
rede de subjetividade que se tece em múlti- contemporânea há a centralidade das relações
plas e complexas relações cotidianas. As re- cotidianas, do urbano e das diferenças. O cor-
des que se estabelecem nos contextos familia- po vivido na cidade é simultaneamente vulne-
res, do mundo do trabalho, da cidadania, e nos rável e resistente à reprodução social, assina-
contextos da mundialidade concorrem para a la o autor francês. Melucci (2005), por sua
formação de sujeitos cada vez mais imersos vez, aponta também para a centralidade da vida
em processos de grande complexidade social cotidiana nas sociedades complexas contem-
e em contato com saberes que cada vez mais porâneas, pois são nas relações cotidianas que
se apresentam como transversais. A investiga- indivíduos constroem o sentido de seu agir. O
ção preocupada com a relação dos jovens com inventário desses sentidos coloca o acento na
a cidade enfrenta o desafio de inventariar a importância da pesquisa do tipo qualitativo.
pluralidade de caminhos que, em última ins-
tância, se cruzam para constituir sujeitos e gru-
pos sociais. As cidades e os seus territórios pre-
cisam se apresentar como redes de relações e ESPAÇOS E TERRITÓRIOS URBA-
práticas que configuram um amplo espectro NOS
dos fatos sociais educativos (CARRANO,
2003). O espaço urbano intensifica os antago-
nismos de interesses que se constituem por

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uma participação diferenciada e desigual dos Ainda segundo Telles (idem), na análi-
processos de produção e reprodução da vida se das desigualdades, as noções de dualização
social. Isso significa dizer que a cidade não é social além de não darem conta da realidade
experimentada e apropriada por todos da mes- teriam o efeito de produzir uma imagem
ma maneira. Esse diferencial de apropriação desfocada do mundo social. Para ela, estaría-
dos recursos materiais e simbólicos da cidade mos frente não a dualizações, mas sim à
pode ser apontado como um dos fatores que disjunção ou dissimetria (esta sim problemáti-
organizam a produção das identidades soci- ca), sobretudo no que diz respeito aos jovens
ais. Para visualizar essa tensão entre sujeitos de bairros empobrecidos da cidade, entre
situados em diferentes lugares sociais de apro- integração econômica, integração política e
priação dos recursos urbanos basta que pen- integração cultural. Nesse quadro de disjunção,
semos nas desiguais condições de vida em tor- ocorrem transformações societárias que com-
no dos espaços de moradia, lazer e trabalho. binam a experiência do desemprego e do tra-
É possível afirmar com Lefebvre (1969) que balho em mercados excludentes, instáveis e
o direito (material e simbólico) à cidade não é precários em conjunto com a integração dos
igual para todos os seus habitantes. indivíduos e suas famílias em circuitos de bens
A organização social das cidades cria culturais e simbólicos da sociedade de consu-
restrições geográficas e simbólicas para a mo. Essa lógica atravessa toda a sociedade atin-
constituição do livre trânsito das identidades. gindo até mesmo os territórios tradicionalmen-
É neste sentido que não é possível falar de te considerados como lugares paradigmáticos
identidades apenas restringindo a análise a da pobreza desvalida (VALLADARES, apud
seus aspectos culturais. Cruz (2000), consi- TELLES, op. cit: 51). A sociedade se vê tam-
derando tanto a inserção dos sujeitos nas es- bém atravessada por processos societários iné-
truturas de produção quanto o papel da cultu- ditos e novas formas de sociabilidade, subjeti-
ra na elaboração das subjetividades, concebe vidade e construção de identidades. Há novos
os atores urbanos em três grandes categorias: padrões de mobilidade e acesso aos espaços ur-
a) os integrados à estrutura de produção; b) os banos e seus serviços, ambivalentes redes so-
disponíveis (que mesmo sem estar dentro do ciais são tecidas entre a dinâmica familiar, os
sistema produtivo são suscetíveis de ser re- espaços de lazer e consumo e o crescente mun-
crutados); e c) os circulantes, que gravitam sem do das ilegalidades que articula formas diver-
destino aparente na estrutura de produção. sas de criminalidade e o tráfico de drogas
Telles (2006) em seu estudo sobre as Os fenômenos acima descritos podem
tramas da cidade, as trajetórias urbanas e seus ser enxergados como vetores sociológicos que
territórios, afirma a necessidade de repensar- ainda precisam de esforço investigativo para a
mos crítica e teoricamente a questão urbana e sua melhor compreensão, sobretudo se consi-
a cidade considerando as metamorfoses dos derarmos seu caráter recente e as distintas for-
“problemas urbanos”. Os problemas já não são mas e conteúdos que os mesmos podem assu-
os mesmos analisados em estudos marcantes mir em diferentes contextos urbanos. Em algu-
das décadas de 1970 e 1980 e que criaram re- mas cidades – tais como Niterói e Rio de Ja-
ferências analíticas importantes para compre- neiro – as noções de centro e periferia são pou-
ender as contradições presentes nas relações co elucidativas sobre a história da produção dos
entre capital e trabalho no quadro de expan- espaços urbanos. Se, por um lado, é possível
são da “cidade fordista”. Os anos 1990, que compreender morros e favelas como áreas de
demarcam a consolidação do modelo segregação, por outro, não podemos ignorar a
neoliberal de organização do Estado e da eco- multiplicidade de conexões que os espaços se-
nomia, são também momentos de início das gregados estabelecem em relação aos demais
transformações que incidem sobre a produção territórios da cidade. O acompanhamento dos
do espaço urbano e o tecido social contempo- trajetos e percursos dos jovens pobres pode
râneo. permitir desenhar novos contornos do espaço

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urbano e ajudar na compreensão da cidade que A construção das identidades pelos gru-
a eles se oferece nas tramas de socialização pos supõe práticas de aprendizagem e alguns
que emergem da cidade por eles praticada. jovens instituem lutas simbólicas através dos
compromissos cotidianos que assumem com
determinado processo de identização coletiva
que existe no contexto de práticas permanen-
PRÁTICAS TERRITORIAIS JUVENIS tes e mutantes de definição das identidades.
É possível afirmar que os jovens das clas-
Os jovens recebem espaços da cidade ses populares articulam territórios próprios na
prontos e sobre eles elaboram territórios que ruína dos espaços da cidade que sobraram para
passam a ser a extensão dos próprios corpos: eles. A relativa ignorância dos adultos acerca
uma praça se transforma em campo de fute- da materialidade social e do simbolismo das
bol, sob um vão de viaduto se improvisa uma práticas juvenis é fonte de mal-entendidos,
pista de skate ou um baile de black music (ou incompreensões e intolerâncias acerca das ati-
forró, por exemplo); o corredor da escola – tudes e silêncios dos jovens. A pesquisa social
lugar originalmente de passagem – se torna sobre os grupos juvenis tem contribuído para
ponto de encontro e sociabilidade ou uma rua decifrar sinais e estabelecer pontes para o diá-
se transforma em espaço para o street basket. logo entre os jovens e o mundo adulto que
Os diferentes territórios juvenis são também administra as crises relacionadas ao declínio
lugares simbólicos para o reconhecimento das de realização dos projetos institucionais. No
identidades em comum; é em torno de deter- que pese a importância dos estudos sobre os
minado território que se constitui o grupo de grupos e as identidades coletivas juvenis, ain-
iguais. A identidade do grupo precisa se mos- da há, notadamente no Brasil, largo campo a
trar publicamente para se manter e, assim, cada explorar naquilo que se refere ao estudo das
grupo cria suas próprias políticas de visibili- trajetórias sociais e percursos – usos da cida-
dade pública que podem se expressar pela de – dos jovens dos espaços populares.
roupa, pela mímica corporal, em vocabulári- Há, por exemplo, um cenário de novos vín-
os e gramáticas exclusivos ou num novo esti- culos de sociabilidade juvenil com a partici-
lo musical. pação de jovens em projetos e programas so-
A cidade é transformada de espaço anôni- ciais – de ongs e governos – focados em co-
mo a território pelos jovens atores urbanos que munidades populares. A análise do fenômeno
constroem laços objetiváveis, comemoram-se, da geração dos jovens de projeto (social) en-
celebram-se, inscrevem marcas exteriores em contra-se na agenda de aprofundamento das
seus corpos que servem para fixar e recordar investigações sobre os vínculos entre a juven-
quem eles e elas são. Essas marcas se relacio- tude popular e as novas mediações sociais. Me-
nam com processos de representação, verda- diações estas que tanto são capazes de alargar
deiras objetivações simbólicas que permitem campos de possibilidade e de articulação de
distinguir os membros dos grupos no tempo e alternativas de futuro quanto organizar proces-
no espaço. As marcas podem ser objetivadas sos de tutela e controle do tempo livre da ju-
no próprio corpo (uma tatuagem) ou mesmo ventude pobre que se associam ao conjunto
habitar o corpo como adereço de identidade, das práticas de gestão e controle da pobreza
tal como acontece com os bonés que se trans- urbana.1
formaram em fonte de tensão permanente em
algumas escolas que não toleram seu uso, tal-
vez por não enxergarem que esses são signos
que representam a extensão da própria subje-
tividade dos jovens alunos que reagem ao te-
rem de deixar “parte de si” fora do espaço-
tempo da escola. A “QUESTÃO” JUVENIL

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Uma das características de nossas so- Um dos princípios organizadores dos pro-
ciedades contemporâneas está relacionada cessos produtores das identidades contempo-
com a velocidade das mudanças que ocorrem râneas diz respeito ao fato dos sujeitos seleci-
nas esferas da produção e reprodução da vida onarem as diferenças com as quais querem ser
social. Sem dúvida, os jovens são atores-cha- reconhecidos socialmente. Isso faz com que a
ve desses processos e interagem com eles al- identidade seja muito mais uma escolha do que
gumas vezes como protagonistas e uma imposição. É neste sentido que se com-
beneficiários das mudanças e por outras so- preende que uma das mais importantes tare-
frem os prejuízos de processos de “moderni- fas das instituições, hoje, é contribuir para que
zação”, produtores de novas contradições e os jovens possam realizar escolhas conscien-
desigualdades sociais. tes sobre suas próprias trajetórias pessoais. É
As preocupações com a juventude se nesse contexto de intensas transformações nas
orientam em grande medida pela percepção formas e conteúdos das instituições sociais que
de que as próprias sociedades se inviabilizam interferem em suas condições e capacidades
com a interdição do futuro das gerações mais de promoverem processos de socialização que
jovens. Sobre esta juventude ameaçada se gestores de políticas públicas, em diferentes
depositam também as esperanças da renova- níveis de governo, são desafiados a formular,
ção, muitas vezes se idealizando uma natural executar e avaliar políticas públicas dirigidas
capacidade dos jovens para a transformação e aos diferentes públicos jovens.
a mudança. Um importante campo de pesquisa
Melucci (1997) questiona a existência pode se constituir em torno das reflexões so-
de uma “questão juvenil”, no plano da abstra- bre o lugar e a efetividade das instituições
ção que a categoria juventude é normalmente socializadoras que possuem influência e res-
situada. Em geral, a juventude só aparece como ponsabilidades sobre a vida juvenil. Em gran-
problema pelo diagnóstico de que ela enquan- de medida, fala-se em crise ou declínio das
to categoria que incorpora um grupo etário é instituições. Até que ponto este, que já é con-
potencialmente conflitiva. Entretanto, a juven- siderado um fenômeno de âmbito mundial, se
tude só é conflitiva em conjuntura social es- realiza plena ou parcialmente nas instituições
pecífica. Os jovens tanto podem ser fatores de com as quais as jovens gerações interagem no
integração no mercado cultural de massas, Brasil? No lugar de se falar em crise ou fim
como podem se constituir como atores do con- das instituições (tais como a família, a escola
flito social numa mobilização antagonista. O e o trabalho) não seria mais adequado buscar
conflito e a possibilidade de transformação que identificar e compreender as mutações
ele instaura só se explicitam, portanto, no tem- societárias que promovem a perda da unidade
po e no espaço. Para Melucci, ser jovem não é do mundo social e suas consequentes trans-
tanto um destino, mas implica na escolha de formações no plano institucional? Assim, tor-
transformar e dirigir a existência. na-se importante a realização de estudos que
Nesta perspectiva, os jovens são a pon- aprofundem conhecimentos e inventariem a
ta de um iceberg que, se compreendida, pode multiplicidade de situações que configuram as
explicar as linhas de força que alicerçarão as diferentes e desiguais formas de se experimen-
sociedades no futuro (MELUCCI, 2001 e tar tempos e espaços da vivência da juventu-
2004). Hoje, eles possuem um campo maior de.
de autonomia frente às instituições do deno-
minado “mundo adulto” para construir seus
próprios acervos e identidades culturais. Há
uma rua de mão dupla entre aquilo que os jo-
vens herdam e a capacidade de cada um cons-
truir seus próprios repertórios culturais.

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JUVENTUDE: TRANSIÇÕES E da casa dos pais, constituir moradia e família,


TRAJETÓRIAS casar e ter filhos. Essas são “estações” de uma
trajetória societária linear que não pode mais
servir para caracterizar definitivamente a
Um dos traços mais significativos das so- “transição da juventude para a vida adulta”. A
ciedades ocidentais é que crianças e jovens perda da linearidade neste processo pode ser
passam a ser vistos como sujeitos de direitos apontada como uma das marcas da vivência
e, especialmente os jovens, como sujeitos de da juventude na sociedade contemporânea.
consumo. A expansão da escola, a criação de Pais (2003) apresenta este processo de passa-
mercado cultural juvenil exclusivo e a gem das formas lineares de transição para pas-
postergação da inserção no mundo do traba- sagens de características inéditas que se po-
lho são marcas objetivas da constituição das deria descrever como de “tipo yo-yo”, rever-
representações sociais sobre o ser jovem na síveis ou labirínticas.
sociedade. A realização plena deste ideal de Sposito (2000) comenta sobre a exis-
jovem liberado das pressões do mundo do tra- tência da “dissociação no exercício de algu-
balho e dedicado ao estudo e aos lazeres é mas funções adultas” (descristalização) ou se-
objetivamente inatingível para a maioria dos paração entre “a posse de alguns atributos do
jovens. Entretanto, este ideal-tipo de vivência seu imediato exercício” (latência). As etapas
do tempo juventude é visivelmente existente da vida obedecem cada vez menos às
no plano simbólico. normatizações e às regulações das instituições
Bourdieu (1983) afirmou que a juven- tradicionais como a família, a escola e o tra-
tude é apenas uma palavra, trazendo a refle- balho sem constituírem fases muito bem defi-
xão sobre a necessária relatividade histórica e nidas (descronologização).2
social deste ciclo de vida que não pode ser Assim, é preciso ter em conta as mui-
enxergado como uma coisa em si, mas que tas maneiras de ser jovem hoje e de se fazer
deve ser visto em seu aspecto relacional no adulto. Em conjunto com a representação do-
contexto dos diferentes grupos sociais, socie- minante, ou definição etária, sobre aquilo que
dades e classes de idade. Somos sempre o jo- é o tempo da juventude, os jovens vivem ex-
vem ou o velho de alguém, disse também o periências concretas que se aproximam mais
sociólogo francês. Porém, é preciso conside- ou menos da “condição juvenil” representada
rar que “juventude” é noção produtora de sen- como a ideal ou dominante. Em outras pala-
tidos e contribui para o estabelecimento de vras, nem todos os jovens vivem a sua juven-
acordos e representações sociais dominantes. tude como uma situação de trânsito e prepara-
As passagens entre os tempos da infân- ção para as responsabilidades da vida adulta.
cia, da adolescência, da juventude e vida adulta Isso significa dizer, por exemplo, que para
podem ser entendidas como “acordos jovens das classes populares as responsabili-
societários”. De certa forma, as sociedades dades da “vida adulta”, especialmente a “pres-
estabelecem acordos intersubjetivos que defi- são” para a entrada no mercado de trabalho,
nem o modo como o juvenil é conceituado ou chegam enquanto estes estão experimentando
representado (condição juvenil). Em algumas um tipo determinado de vivência do tempo de
sociedades, os rituais de passagem para a vida juventude.
adulta são bem delimitados e se configuram As desigualdades educacionais, carac-
em ritos sociais. Em nossas sociedades urba- terizadas principalmente pelas baixas taxas de
nas, principalmente, as fronteiras encontram- universalização de educação média e superi-
se cada vez mais borradas e as passagens de or no Brasil, acentuam a heterogeneidade do
época não possuem marcadores precisos. Al- que pode ser denominado de “estruturas de
gumas dimensões marcavam o fim da juven- transições”.3 A trajetória de busca e inserção
tude e a entrada dos jovens no mundo adulto: no mundo do trabalho dos jovens, especial-
terminar os estudos, conseguir trabalho, sair mente os das famílias mais pobres, é incerta,

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ou seja, estes ocupam as ofertas de trabalho se apresenta como orientação teórico-


disponíveis que, precárias e desprotegidas em metodológica de análise que reconhece os
sua maioria, permitem pouca ou nenhuma pos- conceitos de estruturas de transição e trajetó-
sibilidade de iniciar ou progredir numa car- rias sociais, mas privilegia a noção de per-
reira profissional. A informalidade é crescen- cursos juvenis nos territórios da cidade e as
te à medida que se desce nos estratos de renda redes de relacionamentos que aí se desenro-
e consumo do beneficiário do emprego. O lam. Este tem sido nosso esforço na consoli-
aumento da escolaridade, em geral, coincide dação de uma trajetória de pesquisa na
com maiores chances de conseguir empregos interface entre os estudos sobre educação e
formais, algo decisivo para os jovens, consi- juventude nos contextos urbanos.
derando que o desemprego juvenil no Brasil
é, em média, quase três vezes maior que o do
conjunto da população.
REFERÊNCIAS
Enxergando por esse prisma é possível
afirmar que os condicionantes sociais que de-
limitam determinada estrutura de transição
(processo de mudanças para distintas situações
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. Sobre
de vida) interferem na constituição das traje-
a teoria da ação. Campinas, Papirus, 1996.
tórias sociais dos jovens, na constituição de
seus “modos de vida” e na possibilidade que
encontram de elaborar seus sentidos de futu-
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Se, por um lado, transição serve para fa-
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zer referência a um duplo processo que inclui
ro, Marco Zero, 1983.
mudanças biológicas próprias do crescimento
e os marcos de passagem de determinadas si-
tuações de vida a outras (a maternidade ou não
maternidade, a inatividade ou vida produtiva
CARRANO, Paulo. Juventudes e cidades
etc), por outro lado, na noção de trajetória o
educadoras. Petrópolis/RJ: Edt. Vozes, 2003.
importante não é a sequência dos distintos
marcos característicos da geração de novos
indivíduos adultos, mas sim as posições que o
indivíduo ocupa ao longo da sua vida e que CHARLOT, Bernard. Da relação com o sa-
caracterizam sua biografia. ber. Elementos para uma teoria. Porto Ale-
Reconhecer que os jovens são construto- gre: Artmed, 2000.
res de suas próprias trajetórias biográficas sig-
nifica reconhecer também as relações de
interdependência dessas mesmas trajetórias
CRUZ, Rossana Reguillo .Emergencia de
com as relações e condicionantes sociais
culturas juveniles: Estrategias del desencan-
(DUBET, 1994; CHARLOT, 2000).
to. Bogotá: Grupo Editorial Norma, 2000. 182
A busca por identificar e interpretar as
p.
diferentes maneiras pelas quais os jovens ela-
boram suas trajetórias pessoais e praticam
DUBET, François. El declive de la
determinado modo de vida passa pelo inven-
instituición: profesiones, sujetos e individuos
tário e compreensão dos valores, condutas e
em la modernidad. Barcelona: Editorial
práticas sociais que os mobilizam rumo aos
Gedisa, 2006.
seus projetos pessoais e arranjos sociais cole-
tivos. Nesta perspectiva, a análise sobre os
percursos nos diferentes territórios da cidade

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territórios. São Paulo: Associação Editorial
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Humanitas, 2006.
Petrópolis/RJ: Vozes, 2001.

(Footnotes)
1
O caráter normativo das ações públicas para
________. Juventude, tempo e movimentos
os jovens pressupõe o que seria desejável para
sociais. In: Juventude e contemporaneidade.
estes a partir de determinadas concepções
São Paulo: Ação Educativa, Revista Brasilei-
(adultas) sobre suas necessidades. Alguns pro-
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antemão as respostas sobre aquilo que os jo-
vens precisam (e desejam?). Em geral as ofer-
tas de atividades possuem caráter pedagógi-
PAIS, José Machado. Ganchos, tachos e bis-
co-formativo, ainda que muitas vezes sejam
cates: jovens, trabalho e futuro. 2ªed. Porto:
ofertas esvaziadas de sentido e de incipiente
Ambar, 2003.
qualidade, e estabelecem controles tutelares
sobre o uso do tempo. Algo diferente e pouco
praticado nas referidas iniciativas é a indaga-
ção sobre o que os jovens são capazes de de-
SANTOS, Boaventura Souza. Pela mão de
sejar e fazer pessoal e coletivamente, entre
Alice. São Paulo: Cortez, 1995.
pares de idades ou em colaboração com adul-
tos. Sobre as representações e práticas domi-
nantes que organizam ações públicas para os
jovens. Sobre isso ver: Spósito, 2007.
SOTO, Ghiardo Felipe; LEÓN, Oscar Dávila. 2
Dubet (2006:32) assinala que as instituições
Trayectorias socialies juvenilis:
da modernidade têm encontrado dificuldade
ambivalências y discursos sobre el trabajo.
de fazer valer seus programas institucionais.
Santiago de Chile: INJUV/CIDPA, 2008.
Por programa institucional defini-se o proces-
so social que transforma valores e princípios
em ação e em subjetividade por intermédio de

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Jovens pobres: modos de vida...
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um trabalho profissional específico e organi-


zado. Para melhor compreensão, o autor apre-
senta o seguinte esquema: Valores/princípios
> Vocação/profissão > Socialização: indivíduo
e sujeito (tradução própria).
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De maneira distinta, no Chile, por exemplo,
ocorre uma espécie de homogeneização par-
cial da estrutura de transições nos distintos se-
tores da juventude, que se deve principalmen-
te às transformações ocorridas no plano edu-
cacional. As altas taxas de cobertura em edu-
cação secundária, somada à obrigatoriedade
que recentemente se definiu de doze anos de
escolarização, de alguma maneira fez com que
a grande maioria dos jovens apresente uma
estrutura de transição similar até a idade em
que se normalmente se completa a educação
secundária (SOTO E LEON, 2008: 51).

Ciências Hum. e Soc. em Revista. Seropédica, RJ, EDUR, v. 30, n. 2, jul-dez., p. 62-70, 2008.