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Gedeon Alencar

Apresentação do Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos


Origem, implantação e militância (1911-1946)
v :
Origem , implantação e militância (1911-1946)

Gedeon Alencar

Ab Se j Edijoriab
São Paulo /'2010
_ Dados Internapionais de Catalogação na Publicação . . \
ClP-Brasil. Catalogação na fonte -c ' • . V

A368a Alencar, Gedoon '


Assomblèia do Deus - origem, irpplantação e mllitâricia
(19110946) / Gectéon Alfencar. São Paulo: Arte Editorial,:
2010 • •' ‘ '
192 p.: 14X21 cm ’

ISSN 978-85-98172-85-9' . ,,; , v’

Ir A^emblèla deíDeus 2. ÁssSmbielaüà Dèuà (io Brasil, •


. .3,, Daniel Berg 4. Pentecostalismó I. Título V. '

, ’ "\ ■' , , . ■ CDD 230

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Copyright © 2!01 O^por Arte Editorial. Jodòs os direitos reservados.

Coordenação editorial e projeto gráfico: Magno J?aganelli .


.Revisão: João Guimarães , . ■
1* Edição: julho / 2010 .
Publicado' no Brasil, por Arte' Editorial..

.. V/VS'V

A r t e E d i t o r ia l
Rua Parapuã, 574 - ttaberaba
02831-000 - São Paulo - SP ’
N editora@arteeditòriaÍ:coiji;br
www.arteedltoriai.com.br..
SU M Á R IO
Apresentação, pelo Prof. Dr. Leotiildo Silveira Campos. . .9
INTRODUÇÃO. . . . ' . . . ............ . . . .19
Um parêntese pessoal •Justáficativadoperíodo (1911-1946) !

1 1. PENTECOSTALISMO: ORIGEM, TEORIAS


E CRESCIMENTO, ........................... . . . . . . ------. . . 27
A ORIGEM (MARGINAI.) DO PENTECOSTAIJSMO. . . . . .-. /......... .. .29
U m filh o deèscravo p ertu rb a o m undo evangélico • Babel ou
Pentecostes, a mensagem se espalhou
R eferenciais teóricos . . . ............... .. . . . . . . . . ... .......... .. 3 2
Três idéias clássicas sóbre religião no Século 20 • Weber - ó
( Carisma e às aãeptos-* SíiebUhr - a igreja dos deserdados
' renasçe sempre? • T illic h - o .“p rin cip io protestante ” está
peràido? • Três visões sóbre ò penéecostalistrtó brasileiro •
Leohard - um pentecostalism o serft leitura bíblica hão terá
Ju tu ro • Beatriz de Souza - o ajuste úfbanò • Cartaxo Rolim
- alienação sacral /
, .Crescimento. . .". . . . . . . .'. . . . - . . • • • • • • . . . . . . . . . 42 -
E statísticas: além da teoria, uma estimativa comprovaixwa........'45
' T apela 1: Estim ativas do crescim ento.dopentecostalism o . . . . . . . . 4 5

P rimeira' Fase : .Penteoostamsmq àssembleiano B rasileiro

. 2;> A IMPLANTAÇÃO DA “ SEITA


\..fr PENTECOSTISTA’ - 1 9 1 1 - 1 9 3 0 , ..........................., . . . 47
1/ Primeira Fase: a implaniação da SErrApeniecostisia (1911-1930)... 48
-^{SegundaFase:A niSTrnjaoíiAiJZAÇÃODAlGREjA^l930-1946) . . . .50
7; TTe^ceiraFase: a ohçiauzação da^peí^ominação (1946 em diante).;. .51
Os suecos visionários. . »• •;> . ^ . . . . . . . . . . . J. . . . . . . . . 54
'/v D a n ie lB e rg (l884-1963), o operário • Gunnar Vingren (1879-
,: }1$33), 0 líd er • O estilo Vingreri-Vingren
^'■Dissidência e Oficialização, '. . .~. v . . . 7. . . . . . ................. . .,..60-
6 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Tabela 2: Versão assem bleiana eKersáo batistà dá divisão. . . . . . . . . . . 61


O nom e “Assem bléia de D eus" • A expansão aleatória
Tabela 3: A expansão da AD :em.seus prim eiros!anos.......... 6 9
T abeia 4: Quadro estatístico da Igreja em Bèíém (1911-1914). . . . . .'. . . 71
Batism os na A D Belém (1911-1914) • A crise dá borracha ajuda y
na expansão da A l) • .
Jo r n a is : o pr in c ípio d a m o d e r n id a d e . . . ; . . . . . . . . . . ; . . . . . 76
A experiência p ion eira de 1917: A Voz da Verdade • Som Alegre.-' 1
uma dissidência carioca? • Uma palavra oficia l: Boa Semente
(1 9 1 9 -2 9 ) • A s êitfaêé& igóiôgicas genienté '
Tabela 5: Tabulàção do Jornal Boa Sem ente (1919ri 92^). . . ’. . . . . . . .79
/Lv singularidades da mensagem pentecostal

I grejas C a l v in is t a s crescem m en os que I grejas A r m in ia n a s ? . . .-.,. . . 85

S e g u n d a F a s e : P e n t e ç o s t a l is m o A s s e m b l e ia n o B r a s il e ir o

3. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA IGREJA - 1930-1946 . ! . . 89


AD - U m projeto b r a s il e ir o ? .,. ....;. . . . . . . . . . . . . ; . .......... .. 90
Qual a ligação da A d no B rasil com a dós EUA ? • A Igreja Filadélfia
dc / stocolm o é quem sustenta. E.decide • Os m issionários vêm da
,Suécia e não dos EU A • A ütísência de registro norte-am ericáno
sobre a A D no B ra sil * AD norte-am ericana versus A D brasileira *
"Projeto b ra sileiro"? Q ueprojetó? ~
Tabela 6: “Igrejas sédçs.Te pastpres em 1931 . . . . . .-. ...Vi". . . . . . 106
O E thos sueco-nordestino ....... ......; . . . . . . . C. . p íQ 7
O ethos sueco nordestino: umà visão sòciológica * O ethos suecà
nordestino: urna visão teológica V - '

O “ M ensageiro de Paz ” como consolidação da I greja . . . . . . . . . .113


Tabela 7;,As ênfases teológicas nos textos . . . . . . . . . .1 Í6
As convenções. .... . . ; . . A .;. . . . . . . v . . ;A . . . c. . . 1 1 6
Tabeuv 8: As Convenções da AD . . . . . . . . . . . . . . . . .-. . . . ' , . . . 118
A Convenção de 1930: os suecos “entregaram ” ou os brasileiros . '
“tomaram ”? • A versão sueca das “Igréjas Livres ’’ e a construção
da autonom ia brasileira • P rim e ira (e únibaydissidência teológica?
Os M inistérios . ................ . . . . -. . ............. . . . . . . . ... . . .127
Paulo M acalão: o alijado quê estabeleceu um estilo
S U M Á R IO ■„ 7

A CHEGADA DE NOVAS IGREJAS.. . . , . ... , . . . . . . . . . . . . . . . ... .; . 132


■t ‘ A dissidência da cura: Cruzada nacional.de Evarigeíizàção • O c
- que é a AD na década d e 50? " •

' 4. CARACTERÍSTICAS DO PÉNTECOSTÀLISMO

' Al-GUMSCARACTERÍSTICASDOPENTECOSTAUSMOASSEMBLF.IANO........ . . ....... . , ■:1.39


1. A "síndrom ede m arginal" 2 .0 discurso de negação do mundo e
o escatologismo 3. A aversão a mudanças (ou “Não destruam nossos
m ito s ") 4. Liderança diversificada, doutrinação homogênea 5.
Sistema eclesiástico ássembleiano: episcopalismo vita lício
\- \ ' \■ . ^ y. ‘“1. ■ . ■'
' N ada mais brasileiro que um asçembleiano : omisso e feliz . . . . , . . . .... . . . 150
-Uma iòreja além da “ normalidade” . ........................................ .1 5 2

- • CONSIDERAÇÕES FINAIS. . . . . . . . . . . . . . . . ... ... • • .155


J ABREVIATURAS.......• • i- k • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • lè ?
> v> REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. , . . . . . . , . . . . . . . . . . . .159
A. .; , ■ . •' ' ■
'
,r ^ ANEXO 1: Pesquisarias fontes primárias. . : . . k . ; .171
1 ANEXO 2: Prêsençá missionária estrangeira no B ra sil.. . 181
\ > ' ANEXO 3: Convocação da Convenção de 1930 em Natal. .185
ANEXO 4: Comparação entre as
f■

/-

) ■

n ui
DEDICATÓRIA
^ • •

À memória de
■ í f f '■ - : :u; f \' ' ■ .
José Freire de Alencar e Francisca Rosalina de Lim a Alencar

; como tributo, mesmo tendo me deixado


C V cedo, ainda sã,o responsáveis
v ; ^ por minhas conquistas.
Á PR E^ÉN m çà a

EM BU SC A DE U M A ID E N T ID A D E PRÓ PRIA
PARA O PEK lTECO STALISM O A S S E M B L E IA N O '
yy. . ; -r. r.;,:r ; , y B R A S I L E I R O . '

Dezenas de eventos, de grande envergadura estão sendo.


preparados para comemorar, em 2011, os 100 anos da chegada
a Belém, Estado do Pará, dos pregadores pentecostais, de ,
origem batista, e imigrantes suecos nos Estados Unidos,
Gunnar Vingrçn (1879-1933) e Daniel Berg (1884-1963).
Naquela, cidade, a partir de uip pequeno grupo de fiéis
pertencentes à Igreja Batista,, em 1911 Qrganizou-se a Missão
da F é A ppètólica, que eih 1918 adotou ó nome d e ,.Igreja
Evangélica Assembléia de Deus (IEAD).
Nas primeiras décadas, a IEAD avançou no norte, nordéste
e sul do país sem se fragmentar. Cem anos depois, os
a ssem b leia n os se acham d iv id id o s em dezen as de
“ Ministérios” e várias “Convenções” , que coiri suas redes dè;
templos, recebem aproximadamente 10 milhões de brasileiros
que buscam viver a fé cristã numa perspectiva pentecostal.
As comemorações do centenário do pentecostalismo no
Brasil ocorrem após as celebrações acon tecidas no Chile (1909)
12 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

e no próprio berço - Azusa Street, em Los Angeles, Califórnia


- (2006). Para aquela cidade norte-americana, em abril de 2006,
pentecostais do mundo se dirigiram para comemorar a data
considerada ofieialmente como o marco inicial"do avivamento
péntecostal e o início do “Século do Espírito Santo” , na expressão
. de Vinson Synan. É claro que tais datas evocam eventos cuja
datação é quase sempre discutível. Em que ponto da História
poderse fixar o “ ponto zero” , a partir do qual se cria uma
historiografia? 1
Estamos aqui iios referindo ao “ mito das origens” . Mas,
por que esse avivamento de Los Angeles foi escolhido’ como
“ marco zero” no lugar do que aconteceu em Topeka, em 1901,
com Charles Parham (1873-1929)? Não vem ao ca.so discutir
a qu i os m o tivo s dessa opção com em orativa, porém é
im portante assinalar que a historiografia do movimento
pentecostál acabou consagrando o ministério de um filho de
ex-escravos negros da Lousiania, Willian Seymour (1870-
1922) como o “ herói c iv iliz a d o r ” . Seym our fo i assim
consagrado como aquele que despertou o mundo para as
bênçãos de Pentecostes no século 20. / ’ '
Ô m ovim en to pentecostál ficou conhecido pela sua
ca p a cid a d e de crescim en to e, ap mçsmo tem po, de
fragmentação. Daí'ser significatiyo que o site criado na internet
relativo ao centenário pentecostál tei^ ^ .êsçòMdQ .çomo/seu:v
slogan principal a expressão Together Again. Isto é, depois de
100 anos, os pentecostais estavam novamente unidos. Esse
slo g a n é sugestivo, pois, ess’a explosão do avivam ento
pentecostál criou -tantos ecos, e provoco q tantas ondas no
“ la g o r e lig io s o ” que acabou por gera r m ilhares de
movimentos, instituições autônomas oú redes pentecostais é
carismáticas em todo o mundo. O pentecostalismo assumiu
culturas, tendências e se aclimatou em várias partes do
mundo. Daí a necessidade de se Falar nesse objeto sempre np
plural - Pentecostalism os. .. A
APRESENTAÇÃO

Porém, depois de tanta fragm entação, resultante do


dinamismo do movimento e dos conflitos que frequentemente
ocorrem entre lideranças carismáticas, ainda se pode falar
que cada um desses; fragmentos conseguiu construir uma só
identidade e alcançar uma coesão interna duradoura no tempo
e no espaço? Como captar, além do dinamismo operante em
; cada indivíduo ou comunidade, o dinamismo operante nas
grandes e pequenas igrejas e denominações pentécóstais? Há
■ uma identidade pentecostal que sübjaz a todas as partes desse
mosaico? v e
v Há pouco mais de 15 anos, Paul Charles Freston, com sua
' } costumeira acuidade, observava haver uma ausência de
' pesquisas que conseguissem ultrapassar a dimensão do micro,
;d'nos estudos do pentecostalismo brasileiro. Em uma frase de
,' seu artigo sobre a Assembleià de Deus (1994:106), que é citado
N ■neste texto de Gedeon Freire Alencar Freston defendia que
" estava na hora db estudioso de Sociologia da Religião se lançar
^>no “ estudo das grandes igrejas pentecostais enquanto
'^instituições em evolução dinâmica” .
t ' Há 10 anos, tendo inclusive Paul Freston. na sua Banca de
;rMestrádo, Alencar se incluiu entre os estudiosos dispostos a
atender ao desafio verbalizado por Freston. No ano 200Q,
'^Àlençar apresentou, na Universidade Metodista de São Paulo,
^/i'a sua/dissertação de mestrado\ Todo poder aos pastores, todo
f}ptrabalho ao povo, todo louvor a Deus. Assembleià de Deus:
jt- Origem, implantação ém ilitâ n cia (1911-1946). O novo Mestre
'íT-ém Ciências da 'Religião fõi orièntadò pela Prof.a Dr.a Maria
á ^ jç s é F . R. Nunes uma aguerrida e competente autoridade
h . .brasileira em Ciências Sociais e„ Religião.
JDesde à apresentação daquela dissertação passou-se uma
^rdçcada. Porém, esse.,texto sobre á Igreja Evangélica Assembleià
l^de^eussdiãò*^perihainéceú nas "prateleiras, esquecido como
acontecevcórn muitos textos ácadêmicos enfocando ou não a
l.P 'religião. Sua dissertaçáo de mestrado circulou entre estudiosos
ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

do pentecostalism o ná forma de cópias xerográficas ou


digitalizadas. Houve até uma infeliz tentativa de plágio de sua
dissertáção, que acabou sendo parcialmente resolvida na
] ustiça anos depois. Alencar pensou em esperar pelo Doutorado
(neste momento em andamento na PUC-SP) para aperfeiçoar o
texto de sua dissertação. No entanto, ele acabou por não resistir
à pressão, que. se tomou mais forte depois do sucesso de seu
provocativo texto Protestantism o m piniqüim ; Hipóteses sobre
a (não) contribuição evangélica à cultura brasileifa, (2005).

O texto de Gedeon Alencar não esconde as suas raízes


,assembleianas nem as dificuldades oriundas dessa pertença,
O pai de Alencar foi pastor da Assembléia de Deus. Em suas
andanças, Alencar se tornou membro de uma Rede de
Teólogos Pentecostais, que admite prioritariamente intelectuais
pentecostais, sempre com a tarefa de repensar teologicamente
o movimento pentecòstal na América Latina.
Portanto, a v is ã o qtie A len ca r com unica da Igreja
A ssem bléia de Deus está lon ge do ideal positivista de
afastamento do objeto ou. de neutralidade acadêmica. Mesmo
assim, não se pode afirmar què seu texto é apenas uma forma
de fazer um acerto de contas com seu passado assembleiano.
Porém, é possível que o fato delé ter sido filho de pastor e de
congregar hoje na Igreja Betesdá lhe tenha fechado algumas
poucas portas nà pesquisa- Alencar, no entanto, consegue
t ransformar o qtie parecería uma desvantagem acadêmica em
uma oportunidade de fazer um estudo inovador a partir de ;
dentro de seu objeto de estudo. Ele consegue, quase sempre, ;
conter as paixões pelo objeto e desenvolver interesses de
pesquisa usuais nos. meios da Academia.
Por isso, Gedeon Alencar circula com naturalidade pelos
meandros do mundo assembleiano. Essa pertença lhe abriu
portas e lhe possibilitou um diferencial nas investigações,
permitindo que ele pudesse ler documentos nas entrelinhas,
interpretar discursos, colocár em prática uma forma muito
f , .• . .. .
r A P R E S E N TA Ç Ã O ■:
' V /■' 15

- pessoal de interpretar o “ mundo assembleiano brasileiro” .


' Essa pertença ainda lhe deu uma flua sintonia, para não dizer
um faro refinado, para os conflitos naturais e humanos, sem
|-'0S quais a constituição do campo religioso não ocorre com
: fidelidade, confbrmé nos ensina Pierre Bourdieu. '
Em sua análise, Alencar não centra a sua atenção nas
' origens norte-americanas do peritèeoStalismb brasileiro. Poderia
até fâzê-lo, visto, que tanto o ítalo-americano que começou a
Congregação Cristã no Brasü (l910), como os suecos da Igreja
Assembléia de Deus, tiveram o impulso inicial para o trabalho
missionário em. outras terras sob a influência da dinâmica
missão pehtecOstar inaugurada em 'Chicago por W illiàn H.
Durham (1873-1912). Porém, como assinala Alencar, a
' jástalação do pentecostalismo assembleiano no Brasil, se tiver
. faturas a serem pagas, teriam que ser creditadas aos suecos,
em particular à Missão Filadélfia de Estocolmo* Fòi essá missão
j que, liderada por um dos pioneiros do pentecostalismo europeu,
|>Betrús L ew i Pethrtís ( l :8 8#r 197*4), etíy íp u dezen as de
^ missionários pentecostais para o norte e nordeste brasileiro
’ -entre 1912 e 1930. Mesmo assim, o despertar inicial do
* pentecostalismo no Brasil não esteve ligado a empreendimentos
. . missionários, comb ocorreu com os protestantes históricos nas
%deçâdas anteriores. Daí ser possível afirmar que as principais
& iaízes da Assembléia de Deiis brasileira não são a Igreja
^ííom ônim a norte-americana^ organizada a partir de uma
VfcÔhfêderação de igrejas pentecostais de brancos naquele país.
|;"dabè aqui, pelo menos no caso da Congregação Cristã rio Brasil
|^|nã: fa s è in ic ia l;d á a p e lid a d a d e “^ i t â ' penteçbsíiSta”
^CAsséihbleia de Deus), reconhecer que a expansão perttecostal
^íoVurn, trabalho liderado por leigos, e que,ganhou força num
í^bqntexto depois batizado por pesquisadores cariocas -
^ ^ ^ H téco stá lism o âutónomo’\ Em outras palayras, a sua
pfópàgaçãò. dependeu muito mais dos esforços laicos e livres
'"'.das .organizações missionárias qu^se sempre pressionadas
^ f i l á s burocracias clericais. - v ' ■
ló ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA .

Entre os vários tentas que Gedeon Alencar atrai para o


debate sobre a Assembléia de Deus no Brasil, -no período de
1911 a 1946, podemos destacar alguns deles. O primeiro é
que as origens, avanço e crescimento do pentecostalismo
reforçam a teoria de Webér retomada por Niebuhr, a respeito
do papel desempenhado pelos atores que estão à margem dos
principais movimentos e organizações religiosos. Isto é, a
criatividade e a inovação, inclusive no interior do campo'
religioso, dependem muito mais dos que estão fora dos
paradigmas (na linguagem de Thomas Khun) do que daqueles
qué são os privilegiados pelos modelos predominantes. No
pentecostalismo inicial, os negros, brancos'pobres, imigrantes
e outros desprestigiados da econom ia e cultura norte-
americana, assumem a vanguarda da inovação peritecostal.
Nos países onde os pregadores pentecostais foram bem
recebidos, os que os receberam eram também oriundos das
camadas mais pobres da sociedade. ^ / V
O, texto de Alencar torna visível a figura de Frida Mar
Strandberg Vingren (1891 -1940), a esposa de Vingren, cuja
tenacidade, iniciativa e autoridade gerou um indisfarçável
d es co n fo rto entre a segunda geração de pastores da
Assembléia de Deus, especialmente na elite nordestina que
assume, a partir de 1930, os destinos dq denominação no
B ra sil Frida Vingren participou de muitas átividades no meio
assembíeiano que ainda hoje é úni espaço cQhsiderádp corno
um espaço” dos homens. Ela era na vida prática uma pastora,
mais. do que um complemento do ministério do marido!
Escrevia pára osx jornais da denominação muitos artigos na
forma de reflexãp e poésias. Somente nos números editados
entre 1930 e 1931, conforme Alencar, Frida escreveu para o
Mensageiro de Paz 10,9 % de artigos e poesias. O seu marido
produziu ápenas-3,4% do total publicado nesse jornal. O papel
ousado do trabalho de Frida é usado por Alencar para
ressaltar a problemática de gênero ainda não resolvida entre
os assembleianos às vésperas dé seu centenário. "
v APRESENTAÇÃO 17

*Outro texto, em que Alencar descobre questões ainda


>'■ insúficieritem ènte debatidas é o crescente processo de
autonomia e independência dos pastores nacionais em relação
'■'< aos suecos. Os anos 1920, entre as denominações evangélicas
/ brasileiras, ainda ressoavam. a divisão da Igreja Presbiteriana
t" ,(1903) por problemas ligados à intervenção das missões: norte-
; americanas. Os batistas também tinham os seus problemas e
os metodistas caminharam naquela década rumo à autonomia.
Das denominações pentecostais, somente a Assembléia de Deus
): teve esse problema, pois, a Congregação Cristã' no Brasil
’ praticamente ficou nas mãos dos leigos brasileiros que
D reçeberam desde o início o apoio de Franciscon, ele também
, uni leigo pentecostal ítalo-norte americano, que nunca esteve
• ligado a quaisquer agências missionárias.
1( A famosa convenção assembleiana de 1930, realizada em
Natal, marcou o afastamento dos missionários, a ascensão
V dos nordestinos, e a fixação dos suecos para áreas novas.
:«8>Rprém, pergunta Alencar, naquela Contenção os suecos
“entregaram” ou os brasileiros “ tomaram” oá destinos da
f~' Igreja? Seja qual for a resposta, o certo é que tais conflitos
1'j' entre nacionais e estrangeiros, onde houveram, sempre
^ acabaram por deixar marcas profundas em ambos os lados,
5?i' cjúando não lima independência não bem resolvida.
n?-C O último capítulo deste texto faz referência às características
jt^do' pentecostalism o desen volvid o no Brasil pela Igreja
í. ..-^Assembléia de Deus. Hoje o nome Assembléia de Deus, serve de
A um guarda-chuva para cerca de 10 milhões de pentecostais
^jbm sílçirps. O seu crescimento sé deve à facilidade que ela se
*>d acomodou ^ cultura brasileira? A sua penetração em áreas
7D; marcadas pela migração interna, pelo êxodo rural, pela vinda
dé nordestinos para o sudeste do Brasil, pela formação de um
«r.Dpperariado nas grandes cidades que perderam as raízes
, religiosas finca tias nò mundo rural, não teriam ajudado na
'■ expansão dessa Igreja? A süa inserção no campo da política
:8 ÂSSEMBLEIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃÒ E MILITÂNCIA

-v ■ â. ' ■' ".. ,


após o regime militar, uma crescente visibilidade na mídia, onde
no Norte a Igreja tem suas próprias estações de televisão, o
estabelecimento de um enorme parque gráfico, de escolas de
formação teológica para os futuros pastores e obreiros. Ora,
tudo isso não está potencializando o dinamismo inicial do
movimento pentecostal e encaminhando a Assembléia de Deus
para uma identificação cada vez maior com a cultura brasileira*?
Algumas dessas questões ainda não estavam claras quando
Gedeon Alencar escreveu o seu texto, no final,da década
passada, As pesquisas sobre pentecostalism q no BrSsil
cam in h aram m uito nesta ú ltim a década que está se
encerrando. Porém» o texto escrito por Alencar sobre a
Assembléia de Deus no Brasil não perdeu á sua capacidade
de estimular nôvas investigações desse conglomerado de
igrejas e ministérios, cujo início parecia ser tão simples há
100 anos. Hoje não se pode negar que de cada 10 evangélicos
brasileiros pelo menos quatro'deles fazem parte de alguma
igreja ligada à Assembléia de Deus. , r ^. d
Por tudo isso, este texto de Gedeon Freire Alencar, a despeito
de alguns pequenos problemas típicos de uma investigação
que não pode contar com literatura ácadêmicá específica, ainda
assim soube trazénà tona questões que vale a pena discuti-
las. Com certeza, neste ano de centenário da Assembléia de
Deus no Brasil esta e outras obrás viraó preencher um vazio
em- nossos conhecimentos sobre o pentecostalismo que se
aclim atou no Brasil. Infelizm ente, apesar dos l õ anos
passados do desafio de Paul Freston sobre a necessidade de
se conhecer mais as-principais denominações penteçostais
b r a s ile ir a s , tem os produ zido na A cadem ia tão pouco
conhecimento sobre elas. f ^ r, .. ■-

Prqf. Dr. Lem tídpSilveim C& m p& s ;


U n iv e r s id a d e M e to d is ta d e S ão P a u lo UM ESP V - -
P r o g r a m a de P ó s-G ra d u a çã o em C iên cia s d a R e lig iã o .
IN TR O D U Ç Ã O

-Em 1910, a Igreja Católica celebrava missas em latim, a


igreja Luterana, cultos em alemão, a Igreja Anglicana em
inglês. Até mesmo a .única igreja pentecostal da época, a
■Congregação Cristã do Brasil, celebrava sèus cultos em
lialiano.^O espiritismo ainda era caso de políciaje os cultos
mo rèferénçíãl religioso, nem sequer eram nomeados
-ou reconhecidos. Qual.então, o espaço para a expressão de
frélígipsidade popular da época? Oficialmente, nenhum.
^>'D è um ,lado havia uma densa institucionalização religiosa
lha Jgreja Católica e demais denominações protestantes e, de
gSSteo, uma religiosidade marginal não aceita dentro densas
líSldtuições^estabelecidas, cbmoAs expressóes-da religiosidade
lafrb. Há, portanto, um imenso espaço no campo religioso
káüuado entre essas duas realidades. É neste momento (em
que a Assembléia de Deus surge no Brasil. Há muito
I Í f e o - a ser conquistado. Hoje, o surgimento de uma igreja
|Je§teçóstaL popülarTnãp causa nenhuma alteração no cenário;
^jela perde-se no meio de tantãs outras. Em 1911, põr ser a
fíprimèira igreja estabelecida em Blém, fez muita diferença, 'fôm
b t í à ó com viiite pessoas e- segundo Read (1976;122), ja em 1930
.0 0 0 membros,- ém 1950, 120.00.0 membros, üm.
^crescimento de aproximadamente 69.000% em 19 anos e 108.000%
20 ; ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPIANTAÇÂO E MILITÂNCIA

em 38 anos, respectivamente. No total, mais 600.000% de


créscimento nas quatro primeiras décadas, algo em torno de
? 15.000% ao ano.
Este ppntecosfalismo, atualmente nominado “clássico” , foi '
trazido por imigrantes pobres, sendo, portanto, marginal no
sentido de sua posição frente àsf instituições estabelecidas e
v aceitas, e marginal por ser uma religião de pobpes e negros.
Aqui no Brasil, esse pentecostalismo cresce entre imigrantes
nordestinos e alcança todo o país sempre de forma periférica.
Os suecos de- tradição batista, que o trouxeram para o
Brasil, não estranham a perseguição religiosa, pois já de muito
eram vitimados por ela. Na Suécia, pela Igreja Luterana, uma
entidade estatal, rica e aliada do governo, onde ser “ batista”
era üm grave ato subversivo. Aqui são perseguidos pela Igreja
Católica e demais igrejas protestantes, mas, ironicamente,
protegidos pelo Governo por dispositivo constitucional da
liberdade religiosa. Tal realidade política é fundamental para
a postura desta igreja, sempre elogiando o governo.
,r T^ntbém por causa da “aversão à organização”, seu discurso
— negativo aos olhos de todo e qualquer modelo institucional
- faz disso, pretensamente, seu estilo. Portanto, não desenvolve
nenhuma instância burocrática nacional e quando cresce fica
vulnerável ao personalismo de seus líderes, resultattdo distò/
uma igreja guantitativam ente grande,, más fraçanèm sua
representatividade. Nunca teve um órgão nacional de estratégia,
mas alcançou o país em 20 anos; nunca teve organização
efetiva, mas é a m a io rig reja evangélica do país; nunca teve
teólogos e/ou eruditos, mas foi a que mais cresceu; neste
.período, não havia nenhuma escola de formação de obreiros,
mas proliferou mais que qualquer outra,- .sempre foi periférica
e marginal, mas alcançou os pobres e simples como nenhuma
outra; Ela incorpora como “bênção” todas as críticas que lhe Ç
são dirigidas (alienação política, conservadorismo, atraso etc.).
í ' INTRODUÇÃO.
' *. . . . . . . . .._.

% Este pentecostalismo está bem distante do moderno quando


X a ênfase é riqueza, poder e saúde - a tríade d.a teologia da
p rosp erid a d e.1 No prim eiro m om ento, as m arcas do
‘pentecostalismo eram glossolalia (falar em-línguas estranhas
como resultado do batismo com o Espírito Santo), cura divina
,/ e forte escatologia. Com uma interpretação bíblica funda-
^ mentalista e espaço apenas para uma moral individual
puritana.
?.. do n a s c i m e n t o da AD no Brasil,
D ia n t e d is s o , e s te liv r o t r a t a
,v' sua expansão e seus membros. Como dois suecos solitários
u ' iniciam acidentalmente essa Igreja que veio a ser a maior
A instituição evangélica do planeta e, apesar disto, que efeito
i>, çaüsa na vida sociocultural dèste país? Como esses suecos se
piantêm durante quatro décadas no pòder e depois são
fefGompletamente substituídos por lideranças nacionais, não sem
muitás tensões e contradições dás mesmas. Acrescente-se
R $ nésta disputa, á tentativa dos norte-americanos de também
teMínfluenciarem a liderança nacional. Por fim, quem de fato faz
esta igrejá: quem a constrói, á leva nos otnbros e a mantém?
Este membro anônimo que prêga, sofre a perseguição, abre
K òs"trabalhos, contribui, “ põe a mão ha massa” , mas passa ao
^ largo das disputas e do exercício do poder, porque é assim a
ifeA ssem b léia de Deus, especialmente no período coberto por
fiz e s t e livro.Taisdisputas máò interessam-ão membro, que não
|^/doma partido, antes, quer agradar ao seu Senhor. Como o t ítulo
Ju?deste trabalho quando apresentado inicialmente sugeria, os
^ bastores"têm todo o poder, os membros todo o trabalho e Deus

neopenteeostaiismo e apoiiMuy como m w uuiym^xy*** — r~*. ~


X'U teologia, apesar de alguns grupos da terceiraonda àrenegarem. Cf. Campos (1999
‘ b) e Mariano (1999). ,' ;
■J • '
22 . . ' ASSEMBLEIA d e deus - o r ig e m , im p l a n t a ç ã o e m il it â n c ia

; .■ :/ ' -i ’ ■, ' ; * ~ /;: '


U m parêntese pessoal

A discussão da imparcialidade científica é antiga. Esta


pretensa assepsia cie n tífica , defendem alguns, é algo da
própria ‘‘essência” da ciência. AÍgo, aliás qüe não resolve nem
ajuda a ciência, pois, desta forma, se lhe daria uma categoria
m etafísica, e, ironicamente, foi contra a metafísica religiosa
m edieval que a ciência mais lutou no seu processo de
emancipação. Ontologicamente, a ciência precisa ser feita em
nome da exatidão, da metodologia, da objetivação, excluindo-
se, daí, toda a subjetividade, valores crenças, etc. Ora, quem
consegue isto? ym a pesquisa científica sobre religião situa-
se sobre um limite muito tênue.2 Por que um pesquisador
escolhe esse e não outro tema? Por que, depois de escolhido,
toma esse rumo e não outro? (ÜonvenhamòSí situar is to numa
objetividade científica é muita subjetividade.
Esta pesquisa, como qualquer outra, tem problemas pela
escassez de dados, pela dificuldade de coletá-lòs, pelo
ineditismo do foco pesquisado. Averiguando a produção da
sociologia da religião no Brasil, este deve ser o primeiro
trabalh o sobre a: A ssem b léia de Deus escrito por um
assem bleiano. Mas não aceito, a p rio ri, o policiam ento
científico” de que apenas um ateu e/ou agnóstico téria a
isenção necessária para escpevér sobre teligiâò, pois, assim
sendo, mulher não podería escrever sobre mulher, comunista
sobre, comunismo, negro sobre negro, ateu sobre ateísmo - ó
ser humano sobre a raça humana! ^ V v
Como assembleiano, admito, soir duplamente suspeito: na
academia, pelo qüe destaquei anteriormente, mas creio ser
possível superar; já dentro da igreja, d caso é mais grave.
Diversos pesquisadores que trabalharam no meio evangélico
foram a lvo de a fçiçã o e proselitism o (G ouveia, 1986;

i Cí. Pedro Ribeiro de QÍiveira (1998) Estudos da Religião no Brasil: um dilema entre
academia e instituições religiosas, in Sousa (1998) Sociologia da fieligião nò Brasil.
flN T R W U Ç Ã ® 23

^Mariano, 1^99; Brandão, 1986) e “os erros/má interpretação’’


& seüs trabalhos, se por acaso Hdos pelos fiéis, serão
desculpados pela “falta de fé, discernimento espiritual etc.” .
j»(jEu não terei esta atísoivição^ dos; mens entrevistados e dos
» leitores da igrejá - e, isto ja deve seryir de indício, para os de,
,r fora, de como a igrêjà age. Tudo na igreja, de forma úniça e
TexclusiVa, é explicado “ espiritualmente” . I^to pode ser tão
1 obtuso quanto uma “ explicação puramente cièntÍfica” JÊ peste
terreno minado que tenho de seguir. Interessante como duas
áreas opostas podem se encontrar em seus extremos.
£ ,v» . ' .. . ■ ’ ;V - v >‘ • ,
^ i “Suspender provisoriamente as opiniões pessoais do
/ investigador acerça da existência, e açêo dos-seres
. N sobrenaturais, hão deixando que tais opiniões penetrem
^’ na investigação científica com á função dê’ “critérios'” (...)
^ ^ De fato, è desté modo que investiga e expõe qualquer bom
*> ' historiador da Igreja, por mais crente e praticante que seja”
' (Maduro, 1981:46). ^11 •-

Esta não e uma obra apologética,3 mas também não ê.um


~h“ ácerto de contas” . As publicações produzidas pela própria
igreja, obviámente, todas são “ apologetiças e triunfalistas
|^(Mõnteiro, 1995:11), mas no universo protestante,, alguns
^pesquisadores aproveitaram seus trabalhos para,1 digamos,
íiççontarem outra versão. Rubem Alves4 justifica este ãcertò
• Adé contas” da seguinte forma: “Os cientistas que se dedicaram
f e ^ f á z é r tinia análise’ crítica dó Protestantismo sãó todos, (na
- !■ ■ ■ ■ - - ■ ' ■ ' ■

^Quando ainda na pesquisa na CPAD - Casa Publicadora das Assembléias de Deus,


wlr/Vem conversa com um dos diretores na ocasião, ele sé mostrou interessado na
' ' publicação de meu trabalho. Desconversei. Quando d conteúdo completo da
pesquisa fosse conhecido, elè,' èvidentemente, entendería qtiè ã Çaáa (çom o a
V, ,.C^AD é conhecida entre eles) não poderia publicâ-la. O tjue não difere de nenhuma
f’ ‘editora religiosa confessional;. ’ t
f> * * Rubem Alves, autor de Protestantismo é Repressão (Àtica, 1978);:e Dogmatisnto e
^ v Tolerância (Paulinas, 19.82), é um bom exemplo deste “ ajuste de contas”.
24 . ASSEMBlEIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO e M il it â n c ia :

v medida eni que eu conheço), ex-pastores, ex-seminaristâs, ex-


líd e r e s le ig o s forçados a d eix a r suas funções (...) Q
protestantismo e analisado como uma ideologia repfessora,
totalitária, capitalista, que se encontra em casa rium Estado
Capitalista e totalitário” (1984:136-13 7)-.5 ■ \ "
C on cordo com Otto M aduro quando diz que “ fa zer
sociologia da reljgiãó é ver e estudar as religiões (todas da
mesma maneira) como fenômenos sociais” .6 Como minha área
de atuação é a sociologia da religião (e não a teologia), ative- \
me a uma análise sociológica da denominação, dentro dos
padrões estabelecidos por esta ciência. As “razões dos fiéis” ,
serão respeitadas, mas não validadas como explicação
sociológica. A ■■ J 7:
, Assim, este livro pretende ser, como diria Bergér, '‘uma
tentativa de: compreensão”7 da fundação e construção da AD
em suas primeiras quatro décadas. Iniciada em 1911 , é,
representante de um pentecostalismo brasileiro nascente e
monolítico até a década de 50, quando õ movimento se ramifica
sobretudo, se diversifica. Apresentava-se ben| diverso do
pentecostalismo moderno e pluralista de hojé. " -> :

Justifiçativa do período (1911-1946)

O pentecóstàlismo brasileiro, eni seus pfú^èirqs 40 anos


prim eira onda (Freston, 1993), tem dois modelos: um italiano
e outro sueco, ambos vindos dos EUA. A versão italiana é a

nenhnm exP urg ° ou algo similar por questões políticas —isto ':
não melhora nem, piora” a AD, é apenas in díciodc sua postura política que
iremos discutir no capítulo IV. ■ 'Ç ; - - ' , ,
6 Op.cit. M aduro (1981:46). ’ ' . ■■;•
7 função da sociologia da religião: compreensão dos fenômenos religiosos
enquanto realidades sociais. Ou na defínição completa de llerger (19976:14) “a
sociologia não é uma ação e sim urna tentativa de çompreensão” Cf. ainda Maduro \ '
(1981) Martelli (19S>5); Wetier (1998). ' ' (
^ in t r o d u ç ã o 25

Mppngregação Cristã no Brasil —CBB. Nascida em 1910, é, em


Jf$iiâs primeiras décadas, uma “ igrejã italiana” . Cresceu no
Pferièio da colônia italiana rio Sudeste e até 1947, Seus hinários
te s e u s x u ltp s ' eram ieãlizados rièssa líriguá, quando começou
|L:a “ abrasileirar-sé". O binário da CCB, em sua I a Edição, èm
p ft ’924, çra italiario. A terceira edição, èm 1935, foi bílíttgüe, e
i fe m 1943/rim portüguê^ definitivaménte.; (Silva, 1995:77-78)
W jNão sofreri nenhuma alteração doutrinária, não teve nenhum
Cisma e continua, ainda hojç, uma igreja muito próxima de
f^ u a s origens.8
fc a versão sueça do pentecostalismo brasileiro é Vista na
uv Assembléia de Deus, que se mantém razoavelmente uníssona
pi!, pm seus primeiròs anos, mas a partir da década de 50, além
|!'dai disputa frâtricida dos “ ministérios” e seu processo de
^institucionalização irreversível, ela tem que disputar espaço
Ip^rim. os diversos'grupos pentecoStais que surgem rio cenário.
Apenas para citar aá igrejas de maior expressão, temos a Igrèja
|i^-do Evangelho Quadrángulap (Í9 5 1 ), Ò Brasil para Cristo
(1955) e a Igreja Peritecostal Deus É Amor (1962). O mundo
'^i/pentecostal já não é o mesmo. 1
O pèríodo coberto neste livro vai, portanto, do nascimento
j^p da AD em 1911, até o momento de seu registro estatutário em
|í?,‘Í946 como uma Convenção Geral, de âmbito nacional, e com
i í '-'u m órgão de imprensa e produção oficial, de seu material, a
fÇ ' Casa Publicadora das Assembleias de Deus - CPAD. Esse é
jfe'- também o período que chamo de “dqminação sueca” , pois com
f f / o estabelecimento da CPAD, com. recursos norte-americanos,
||Sa,ÀD no Brasil “ sai” <ia influencia sueca e passa pára a
influência nórte-americana.
WS ■ - v ' ' " ■"
g&k.c* .... . - -• _■■■••
1^^Estc é un t típico movimento religioso baseado em tradição orâl, já que não publica
^liyros e/ou tratados pará qué, a partir dos mesmos» possa ser avaliada. Poi causa
disto, evidéntemente, tudo o que é dito a respèito da mesma, via de regra, é
'x interpretação de alguém de fora. Sem entrar no mérito da questão, as fontes para
fêAfjs. * ,as informações sobre a CCB são de Read (1967) e Monteiro, (1997).
'6 ASSEMBLÉIA DE DEUS - O R IG EM , IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Algumas correlações entre a AD antiga p a ~


realizadas com o o b j e t o dò benefício

^beSel
1. Pentecostalismo: origem ,
^ teorias e crescim ento

Repetindo o senso comum, o pentecostalismo é o mais


É portante fenômeno religioso do século 20. E, senso comum,
iflm bém sé tornararti alguiis “ princípios sôciòlôglcos” que
^ p íiç a m Ò pentecostalismo, ou pelo menos se tornaram
fp^drão metodológico pará enquadrá-lo à partir dós' anos
Ressenta, quando éle começou a ser estudado no Brasil. Esses
^ p fitícíp io s sociblógicòs” , resümidamente, seriam que a
'^èligião institucional não conseguiu responder à. .anomia
; provocada pela urbanização e industrialização das cidades
brasileiras, agravadas pelo seu caráter opiáceo, num amplo
processo de alienação deste continente pobfe que nãò aderiu
e/ou não entendeu a ra c io n a liz a ç ã o m o d e rn iza d o ra
‘protestante das denom tóspójricaè-;
■v Mas a complexidade, tanto dó fenômeno pentecostal cómo
"do pensamento destes autores, é bem maior. Portanto, dizer
'que o crescimento do pentecostalismo deu-se como resultado
‘Jaà anomia produzida pela urbanização a partir da década de
.iôO poderia até ser uma explicação a partir dessa época, mas
'éómo e por que o pentecostalismo cresceu - e cresceu muito -
^nas décadas anteriores? justificar a adesão ao pèntecostalismo
pór absoluta alienação das massas empobrecidas é uma cias
respostas, mas por que parte da “ massa alienada” adere
também á outras religiões ou a nenhuma delas? E qual a
28 . ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

ex p lic a ç ã o para as alterações sociais operadas conco-


m ita p te m e n te a esta a lien a çã o ? Por ,fim , situ ar o
pentecostalismo tluma “ efervescência carismática” , excluindo-
lhe do mínimo de racionalização, negando-lhe, inclusive, a
nominação de igreja e/ou protestante9 pode ser apenas a mera
indicação do problema e não sua explicação. Mas o que dizer
' do processo de institucionalização das chamadas “agências
de cura d iviria” ? Repetindo, não dá para enquadrar úm
“fenômeno paradoxal" (André Droogers, 1991)e a complexidade
dos marcos teóricos durkhamiano, marxista e weberiano em
poucas linhas. /s ’ ~
A d e m a is , algu m as pergu n tas que os prim eiros
■ pesquisadores lançaram ou se propuseram a responder, por
causa da renovação dõ fenômeno continuam esperando
respostas; as respostas dadas foram superadas, mas outras
surgiíam . E, atualmente, as pesquisa têm um leque bem
' d iv e rs ific a d o . Há diferentes perspectivas no estudo do
peh teçostalism ó, como acomodação social (Sotisa, 1967;
D’Epiriay, 1967), superação da pobreza e machismo (Mariz,
- 1994, Machado, 1994), alienação social (Rolim, 1985; Brandão,
1980), formação da cidadania (Novaes, 1985), atuação política
(F restó n , 1993), adesism o p o lític o (Pieru cci, 1996),
relativização ética (Mariano, 1999) e até modelo administrativo
de m arketing (Campos, 1999b). Há, portanto, ditérerites
respostas e análises dos diversos pesquisadores em suas
respectivas épocas. ' V
tyosso objetivo >é, a partir das mesmas épocas, entender a
pluricausalidade do crescimento do pentecostalismo, e não
tratá-lo num só marco teórico como foi feito anteriormente-
(Fernàndes/ISER, 1998:134; Campos, 1995). “Para se entender*•

, P ° r razões diversas, e em contextos diferentes, alguns autores entendem q u e '.


• determ inados grupos ditos,pentecostais ou neopentecôstáis não'podem ser
chamados de protestantes e/de igrejàs evangélicas, cf. Mendonça, 1998; Mariano,
1988, Jardilino, 1994. >
ENTECOSTAUSMO.' ORIGEM , TEORIAS E CRESCIMENTO 29

gi-bem os pentecostalismos10 presentes na sociedade brasileira,


pAe-preciso que seus analistas passem dos paradigm as da
^ s im p lic id a d e para o dom ín io dos p a ra d ig m a s da
W icpm plexidade" (Campos, 1995:29, grifo no original). piversos
LÇ trabalhos escr(tõs há alguns artos úsafáin uma das antinomias
basilares, como igreja-seita, pobre-rico, opressor-oprimido,
^ ^ c fe n a l-m ís ttc o ,.;fo ré m i ha •atualidade, com a superação
£ ndesses paradigmas, o desafio é, usando o que eles têm de
£ ■ válido e ao mesmo tempo ultrapassando-os, interpretar a
^realidade com uma visão mais ampla.

w í T ■ A O R IG E M (M A R G IN A L ) O O
, PE N TEC O STALISM O
lik
i 'r
U m filho de escravo perturba o mundo evangélico
^ jr
ípjpi}
* àx;, A/m a Azuza, 312, em Los Angeles, no início do século 20,
^ "co n sid era d a o marco do nascimento do pentecostalismo
^moderno (Hollehweger; 1976; Dayton 1987) tendo como líder
^principal o “ apóstolo negro” (Forbers J, 1983:12),J. W. Seymor.
t Esse filho de ex-escravos havia assistido algumas aulas nà
t Escola Bíblica Betei, sob a liderança de Chàrles Fox Parham,
^'e^cola-na qiíal b m oyim eittp ^ estranhas” teve início,;
| çm 1901. Parham desafiou os alunos a estudarem o livro de
Átos dos Apóstolos e, a partir desse estudo, o fenômeno da
Kglossblãlia aconteceu e se espalhou.
| £ : ;Apesar .desse registro localizável, há diversos relatos segundo
l,p s quais o mesmo fenômeno acontecera simultaneamente em
li,outros lugares, sem nenhuma conexão uns com os outros. A
5a referência que be faz à rua AzuZa ganha destaque muitó mais

ífíf-1?Neste mesmo texto; Leonildo Cáítipos diz que não“ há-pfentecostalismo no singular
Í - ,'op. cit., 27 e Rolim (1995:22) diz que o “pentecostalismo não é uma.religião
í,uniforme. Foi homogênea apenas durapte os seus primeiros anos”.
30 _ ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA ‘

porque remanescentes dali se espalharam-pelo mundo?11 ainda


que sem todos os princípios doutrinários, porém munidos com
o que pareceu mais “notável” , que foi a questão àaglússolalia.
Em diversos momentos dâ história da igreja podé-se
encontrar fenôm enos parecidos com os da rúa A zu za :
profecias, visões, línguas. Além dessas especificidades, uma
“ postura pen tecostai” pode ser identificada em outros ■
movimentos. Se considerarmos, mesmo que estereotipadamente,
como “ postura pentecostai” a ênfase na espiritualidade e um '
pretenso retorno ideal de Atos dos Apóstolos, dá para apontar
para o Movimento de Santidade do Metodismo, os avivamentos '
do século 18,o pietismo etc. Dada a fragmentação denominacional
(Niebuhr,1992) decorrente da Reforma protestante, há sempre
grupos insurgentes contra a “frieza da liturgia” , o “desvio da '
igreja” , a “adesão ao Estado” , o “abandono dâ espiritualidade” ,
na procura de - segundo eles - “resgatar” o que seria ô verdadeiro *
cristianismo. Em diversos momentos da história do cristianismo -
as “religiões do Eápírito” se manifestam invariavelmente dé
forma subversiva,, herética,12 enfim, marginal. ; '
Este discurso de retorno às origens é bem típico do '
, protestantismo, ou uma variante do lema “ Igreja reformada
sempre se reform ando” ,, clássica expressão dá Reforma
protestante. Todas as igrejas, aliás, justificam suas origens
(q uem sabe uma forma de encobrir o problemático surgimento
de cada denominação (Niebuhr, 1992) como um retorno à
‘Verdade bíblica” , daí ser bem natural o “retorno a Atos dos

11W.G. Hoover, o missionário metodista Reiniciou opentecostalismo nò CMè, conheceu


o movimento por intermédio da mesma fonte que os missionários suecos e italiano •
que vieram para o Brasil, berp como divérsps outros mpirimentos pentéfcpstaiS no
mundo. Cf. Walker (1990), D eiros,(Í994), Conde'(160), Daytoii (1987).
12Apalavra/usada no seusentido etimolágico sem conotação teólógífca. Heresia g o
grego, “ hairesís”, é, literãlménte; Vscolhã” I usado pêlos clássicos e na Septuáginta
com o uma escolha de um grupo filosófico ou de umá pessoa. Posteriormente,
tom ou uma conotação pèjorafiya de üm erro doutrinário. CírNovó Dicionário da ,
^ E N ÍE C O S T A M S M O : O R IG E M , TEORIAS .E G R ESC IM EN TO ' 31/
■ ; ; ;
vApóstolos” 13 flue o movimento péntecostal (neste momento a
ç;ÀD, especificamente) tanto defende. í

Babel ou Pentecoste, a merisagem se espalhou

t f ' O que torna o movimento da rua Azuza um marco? Além


■da propagação internacional que ele causou, o fato dè, a partir
idaí, 1. ser um movimento urbano e 2. ser um fenômeno inter-
.racial. Mesmo não significando que' esses dois fatores lhe
sejam favoráveis, indiscutivelmente, porém, foram marcantes.
' sendo um fenômeno moderno urbano, evidenteménte, este
fqto ájudou em sua propagação com mais facilidade. Los Angeles
: recebia muitos imigrantes europeus que se encarregaram de-
an^néiar a n ovidade. Segundo Corten (1 9 9 5 :5 8 ), ò
Vpentecostalismo" é um “fenômeno transnaeionãlizãdò’!. O fato
de que diversos grupos, independentemente de. seus rótulos;
^ denominacionais, terem sido atingidos pelo fenômeno, ajudoii
N na propagação. E, entre disputas dê espaço e entusiasmo com
; a novidade, o movimento espalhou7se rapidamente. Mas essa
'possibilidade quantitativa lhe trouxe uma fragmentação
irreversível, a ponto de não conseguir estabelecer um referencia
^doutrinário único. Há algumas características genéricas -||||
podem ser atribuídas aq movimento, mas sua principal m áflk
* é a pluralidade ou, para os não-pentecostais, a “ confusão
doutrinária!’ .
A questão teológica da “bênção dupla” ou “bênção tripla”
(Hollenweger, 1976: Dayton, 1987: Horton, 1996) taml>ám foi
^ um fator de divisão dos diversorgrupos originados “ problema
teológico que nunca -afetou o pentecostahsmò brasileiro.

' Bíblia, São;Paulói yid a Noyà, pág.709. Enciclopédia Hisútrteo ^ U g fC fp ip J& eja
^ Crístã, São Paulo: Vid^ N ova, 1990, pág. 248.
p 13É no livro de Atos dos Apóstolos (cap. 2) que acontece o fenômeno do pentecostes
' na nascente Igreja..
32 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Em uma região e época em que as tensões e separações entre


as raças ainda eram muito bem delimitadas, mesmo nas igrejas
evangélicas (Niebuhi; 1992), um grupo religioso que reunia num
mesmo lugar negros e brancos ,era, no mínimo, inusitado./Iãlvez
essa tenba sido a causa da perseguição jornalística14 que,
ironicamente, terminou por ajudar na süa divulgação. E por mais
que o movimento, no início, tenha reunido diversos grupos e
raças, esse mèsmo movimento é separado também em grupos e
raças - o sectarismo protestante não pode ser negado.

v REFERENCIAIS T E Ó R IC O S ;

Há algumas teorias sobre a religião, que a nosso ver podem


ajudar no entendim ento, e mais especialmente, sobre o
pentecostálismo que, tanto pela originalidade quanto pela
primazia do tempo, se tornaram referenciais e precisam ser
citadas. . 'T ;9 ; T
1 ■ 4.. 'v ... ■ ' • ’ ■* ' . 'V
Três idéias clássicas sobre religião no Século 20

Levaremos em conta três livros escritos no início do século


que analisaram a religião,- Economia e Sociedade (escrito em
As origens sociais das religiões cristãs (escrito em
1929) , e A era protestante (escrito em 1937),15 por Max Weber,
H. Richard Niebuhr e* Paul Tillich, respectívamente. Do ponto

Os jornais em Los Angeles noticiaram os eventos da rua Azuza assiiníLos Angeles


Daily rimes: “Santos esperneadores promovem orgias” ; O Lps Angeíes 'finies:
“ Brancos e Negros se misturam nüin frenesj religioso”. (Campos, i 999b: 179). Os
jornais Chilenos na época <lo surgimento do pentecostálismo têm comportamento
idêntico (D lipinayt 1970:49). N o Brasil, sem a conotação racista, as consequências
feiram menores até porque p âmbito de alcance dos jornais de Belém do Pará
também.era menor ( Vingren, I973:50;55)’.- : ■; ^ v :r
Publicado em português em 1992,fo i lançado originalmente ent inglês ein 1948
com o uma cpletânéa dé àrtigos escritos desde 1929 a 1945. Aqui trataremos
éspecifkamertte do texto “ O fim da era protestante” escrito em 1937.
I I I / pI n TE G Ó STALISM Q : •O R IG EM ,.'TEQ , r ia s t . c r e s c im e n t o

pe vista específico, nenhum deles falou do Pentecostalismo


& mas tratam de questões religiosas que transcendem; suai
‘ épocas e são marcadas pela originalidade,
t • -

' ;■
Weber “ o carisma e os adeptos

Weber tem um conceito muito importante - os tipos d<


'dom inação1671 - que é fundamental para o presente caso
Segundo sua definição, dominação “ é a probabilidade d.
«encontrar obediência a umâ ordem de determinado conteúdo
,• entre determinadas pessoas. in d ic á v e is V 7 Dentro de su;
" çlassificação há três tipos de dominação: a racional, a tradiciona
a carismática'. A que nos interessa, mais precisamente, é ;
/carismática.
, a dom inação carism ática é “ baseada ha veneraçã*
extrucotidiana da santidade, do poder heroico ou do cáráte
' exemplar de uma pessoa e das ordens1 por esta reveladas 01
t príadás” .1S Enquanto as anteriores, para funcionarem e seren
,/íegitim adas, necessitam um corpo burocrático, orden
r 'impessoais, duâlificação pessoal, prebéndas etc., esta s
legitima a partir dos adeptos.1" Adeptos isto é algo de sum
, importância para o entendimento do fenômeno pentecostal
K Q carisma é uma dotação pessòahéxtrácotidiana, e como
^jprpprio Weber diz, é impossível avaliar isto “objetivamente
-Á .Cbm critérios estéticos, éticos etc., pois o portador do
^carismas” é reconhecido por seus adeptos. Õ pentecostalism
', se realizou, cresceu e expandiu-se a partir do reconhecíment
;í^ endógeno dos carismas; líderes - homens e mulheres - n
íA condição de “enviados por Deus” que reúnem em torno d

fjH
16Gf. Weber (1991), cap. 3.
17 Òp.cit., 33.
34 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

seuá dons um grande grupo de adeptos, e causaram a guinada.


Só que esse carisma, por mais fenomenal que seja* tendè a se
rotinizar” , daí aparece um novo personagem extracotidiano
(de preferência mais exfraCotidiano que os anteriores), com
um novo carisma (ou o mesmo carisma, mas, com uma nova
roupagem), consegue novos adeptos, e dá nova guinada,
mesmo sem a iptensidade original. Issõ porque por mais
carismática que a igreja seja - ou pretenda ser - eíá tende a
se tradicionalizar (entrando, assim, na segunda fase da
dominação tradicional) e também porque, como Weber diz,
não existem “ tipos ideais puros” . Nenhuma dominação é
exclusivamente carismática ou tradicional - mesmo que as
igrejas insistam em afirmar o contrário. v
Ora, enquanto as demais instituições religiosas estão se
legitimando a partir do Credo X, Documento Y, Comissão A
instituída pelo Concilio D, cóm um corpo eclesiástico formado
e ra cio n a liza d o , a carism ática não tem “ fu n cion ários
profissionais” , pòrque não há seleção por critérios objetivos,
mas pelas qualidades carismáticas (“discípulos” , “homens de
confiança” , “nomeaçãô”). Não há hierarquia, salário, autoridade
institucional, regulamento algum. Há somente a intervenção dò
líder, a camaradagem do amor, os jüízois de Deus, as revelações e
o reconhecimento como dever1 Ó carisma e ps adeptjbs. Haverá
sempre espaço para os carismas se manifestarem e, muito mais
espaço legitimador para realimentarem os mesmos. , :

N iebu h r — a igreja dos deserdados renasce sempre?

Em seu livro, Niebuhr pretende explicar o “fracasso ético”


do cristianismo por causa das divisões, pois, as pretensas
razões teológicas dás denominações são àpènas disfarces para
racismos, nacíonalismos, étriocentrismos; a “ética das castas
i :
* PENTECOSTALISMO: ORIGEM, TEORIAS E CRESCIMENTO 35

acaba com a ética da fr a te r n id a d e ” ,30 Fazen do um


ç levantamento histórico desde a Reforma,2? o autor identifica
• vários m ovim entos sociais - “ anabatistas, m etodistas,
f Ekército da Salvação e seitas mais recentes”22 que ele chama
V de “ igreja dos deserdados” , em contraposição à “ igreja dos
•' afortunádos e cultos” . ' -
:/;;v: ô presbiterianismo era intelectualista, aristocrático e
autoritário,23 e o luíerahismo aliado à nobreza tornou-se
I religião estatal com os mesmos problemas que o catolicismo
- tinha antes; portanto, a Reforma não conseguiu satisfazer
' as necessidades religiosas dos camponeses e das dem ais'
N classes não-privilegiadas. E quais eram essas necessidades?
jü s tiç a social, participação popular nós cultos, fervor
"emocional, esperanças apocalípticas. A Igreja dos deserdados
^ tem tudo isso, além de “visões, revelações, luz interior,
^tqtrhõsferá sobrenatural de milagres” ~ tüdo o que rnáis tárdé
u>;-vai caracterizar o pentecostalismo. É interéssãntfe qúe Niebúhfp
èm 1929, não se reporta, em nenhum m om ento, aõ
. 7 pentecostalismo. Aliás, para ele o metodismo24 foi o últimò
ihòviihento dos deserdados no cristianism o e “ não há,
atualmente, movimento efetivo religioso entre os deserdados
U como resultado, eles estão simplesmente fora do pálio do
cristianismo orgânizado” .?s Niebuhr não acreditava ou, por
l^ p re C o n c e ito . não consegu iu ver, que uma “ ig re ja de
lb-deserdados” pudesse surgir sempre.26 .V/■" , /. ?'
’ ' ' ___ —----' ' - '. .. ■■>.'
1.1 20 Op.cit., 21 : .
O livro, portanto, deileria se jchamai “As ^origens sociais das fáríoMitiaçõès
protestantes" pois é deste-universo quertraía. '
op/çit.,2 6 - v ■■ . V p-'
; 23 Op.ut., 34 ^ j ,
ú, ÓriginalmentéTpois, no momeiito êm que ele éscrfeve.já o considera Uma igreja de
ky-y classe média, (50). . .. . , , ' r -
p>-• 2f Òp. cit., 53 i ■' : \ \ V
f Urda possibilidade seria ele, como tantos outros, estar convicto de que aseculaiização
V modemizante, enfim, descartaria a religião como fenômeno social relevante. A
36
ASSEMBLÉIA DE D.EUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

. Como os movimentos inendicàntes, a Irmandade do Livre


Espirito, os anabatistas, o Pietismo e outros, o movimento
penteçostãl do sêculò 2 0 nasce marginal, entre os pobres que
nao tinliam espaço e resposta à? suas necessidades^ dentro das
instituições religiosas de classe média e alta. Se tem à
originalidade da igreja primitjvçi, o fervor dos morávios, a
santidade dos montanistas, é outra questão, mas origens, ou,
do,atra forma, as causas sociais são paralelâs (Dayton, 1 9 9 1 ).'

TiUich>^ ° “princípio protestante” está perdido?

. Em 1958, o teólogo Tillich vê o protestantismo rendido a nutros

em Ciências Sociais, Série Ensaios dé -Pós-


Graduação/Ciências da Religião, Ano I,
* 1> n-° 1, novembro de 1995 (pp. 29-53).
Op. çit., 204., , '
Op. d/. , 243. . '
PENTECOSTALISMO: O RIG EM , TEORIAS E CRESCIMENTO 3;
r
fc
O cátplicismo,, com sua hierarquia autônoma29 e seu podei
1È simbólico, séria a única força religiosa com apelo significativc
às massas desintegradas. Ou seja, 0 protestantismo precisará
. 1 . resgatar uma n ova com preensão dos sím b olos, a:
“objetividades do sagrado” ; 2 . ultrapassar a barreira dc
sagrado e do profano e resgatar à cultura; 3o realizar c
“ protesto profético” contra o Estado, a Igreja, o partido 01
líder “ todas as instâncias que reivindicam caráter divino, cas<
, contrário será'o “fim da era protestante”.'0
É possível que W eber, em 1914, na A lem an ha, nã<
conhecesse o pentecostalismo moderno, mas será que Niebuh
e Tillich, nos EUA, nas décadas de vinte e trinta, não tenhan
ouvido falar - ainda que mal - do pentecostalismo para incluí
. Io em suas análises? 31 Faz sentido que a religião de pobres
negros, liderada por ex-escravos e mülheres (Hollenwege
it
Mm 1-9X2) não tinha chegado ao conhecimento da academia.
.
m
Não se pode afirmar que o pentecostalismo seria ou é:
•. carisma que atende aos deserdados num protesto proféticc
no entanto, qual outro fenômeno religioso neste sécul
podería aproximar-se disto? ,
, Mendonça (1997:109), inclusive, comentando este texto d
SÉ Tillich, diz: ■ -" '.. /A
mk
•fí&k-
É®
“Tillich achava, na época em que escreveu, que
catolicismo romano estava preenchendo essa função pel
v - seu poder reintegrador e simbólico. Parece que se
, raciocínio não valeparaoTerceiro Mundo, em que a

Ir?;1' ' 79O contento protestante èuropeqjf dé igréjàs estatais onde a hierarquia está atrelac
t , e dependente do Estadçr, já nos EUA o comprómjsso é cóm “ grupos sociais” (245
jgrij' 249, A : ’ ''V , ■ '
' 11 Talvez um episódio, que Leoniídp.(Campos conta río artigo já citado, possa s
H flústratiyo disto?nuin debate entre Harvey C óke Rubem Alves; em J969 (not
K •, : (- -se bem a data) ao ser perguntado spbre a’ “pèntecòstálização do pròtestantisn
histórico”, Alves disSe textuálmente: “ Esse é o tipo de problema que não n
ifa , interessa nó momento”. '
38
■ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E M ltlTÂN ÇIA

religiõesde mais apelo simbólico, cerno o pentecostalismo,


estão suplantando o protestantismo e o catolicismo.” .

Ire s visões sobre o pentecostalismo brasileiro

Hã muitas análises distintas sobre o pentecostalismo


(destacadas nesta obra), no entanto,- poucas trabalham sua
origem e o período especifico escolhido. Usaremos^ portanto,
três autores que, historicamente, estão próximos, até porque
são os prim eiros a escreverem sobre o assunto. O
P to testa n tis m o B ra sileiro um estudo de eçlesiologia e
história socia l (1963), A experiência da salvação: pènteçostais
em São P a u lo (1969) e Pentecostais: um a análise só cio -
religiosa jói979), de Ejmile G. Léornad, Beatriz Muniz de Souza
e Francisco Cartaxo Rolim, respectivamente.

Léonard - um pentecostalismo sem leitura


; bíblica não terá faturo a --: ,

Pelo título do livro vê-se que ele trata do Protestantismo, e


hãovdo pentecostalismo especificamente;32 no entanto, no final
de seu livro ele faz rápidas considerações sobre as “religiões
iluministas” . Sua análise sobre as igrejas “ pentecostistas”
da época se reporta à AD e CCB. Sobre a Assembleia de Deus',
ele afirma seu “ caráter bíblico” , mas vê a Congregação Cristã
no Brasil com muitas reservas, inclusive, de esfacelamento
do movimento porque não tem algum tipo de estrutura bíblica
ou estudo sistemático, da Bíblia. O irônico é que, 50 anos
depois, aconteceu o inverso. À Congregação Cristã continua
coesa, sem dissidência, sem mudança na orientação polítiCa

” ■Aqui há uma lógica” histórica, porque seu livro, originalmènte, foi publicado como
artigos na Revista de História da USP entre janeiro de 1951 a dezembro de 1952.
Nesta época, o pentecostahsmq ãinda era tuna religiosidade completamente ignorada.
PENTECOSTAUSMO: Q RÍG EM , -TEORIAS t CRESCIMENTO •39

ou ética, e “bíblica”33 com seu sistema èclesiológiço intocável,


tanto quanto niacomèçodoáéçulo.-Se melhor óq pior nãonos
cabe definir. Isto é apenas uma constatação sociológica.
tío entanto, à Assembléia, também com seu Caráter “bíblico”
: (aqui vale o mesmo que se afirmou pára a Congregação), foi
|completaménte alterada. Hoje ela é outra igreja, bem diversa
da que fòi analisada por Léornad.
Qual é a nossa percepção afinal? As realidades sociais são
. mais fortes e capazes de alterações mais significativas que o
s pretenso “caráter bíblico ou não bíblico de uma igreja”.3334 Isto,
' aliás, já foi analisado por Niebuhr (1992), sobre as estruturas
^eclesiòlógicas que se alteram ou se conservam obedecendo às
d e m a n d a s sociais. A CCB conseguiu tornar-se um grupo
homogêneo èm seus primeiros anos porque teve início dentro
de grupo étnico, razoavelmente coeso, de forte tradição e com
(/interesse de preservá-la. Desenvolveu uma estrutura de poder
' leigo que ficoü imune, às disputas de poder ou tentações
financeiras. Socialmente, nunca teve atuação e, parece, não
sente necessidade disto; optou por uma postura apenas
" “sacral”35 em sua religiosidade. Permaneceu sempré um grupo
/'fechado e com visibilidàde reduzida e, consequentemeritè, fácil
• he administrar e àe preservar.36 Já a AD pluralizou-se, modificou-
/T^e é hoje, cofti exceção" da doutrina da contemporaneidade dos
\'dotíS'$Q Espírito Santo, não carrega elementos quê lembrem a
■'/antiga igrejà. FOi áltérada, fundamentalmente, por demándas
sociais.
/. - - :) : a ’ ; y
33“ Bíblica” no sentido que Léonard entende de “ bíblica correta”, riãò nos cabendo
f ’ aqui definir se correto ou errado. O que se quer dizet com isto: sjiá doutrinação,
// (calvinista, congregacional. não clerical, não prpselitista) que ele entendia como
,/ correta no início do século se mantém até hoje. / V
34 Isto deve causar calafrios e ser visto cóího absoluta “ heresia”,pelos, religiosps. < .
/ “ Em todos os seus trabalhos, Rolim ( Í9 7 9 ,1980, 1995) critica o pentecostaljsmo
. ■ , por sua ação alienada, de postura sacral e não social.
' 36Nãò encontramos documentos ou textos dá igreja para alguma análise, mas por
conversas informaiscòm membros, tem-se áimpressão de que aigrefa^debaseus

\
Wt
4© ■ .. . ASSEMBLÉIA DE :p E U S - ÕRIC3EM>'lMPUHTAÇÂO EM !LITÂN CIA'

. Beatriz de Souza — o ajuste urbano


- ■, .f--. ■ 7 ,■ ■ *, •• v . Ur-' •.

. Uma tese funcionalista que entende o peritecostalismo


como uma resposta à anomia social (Durkheim), fruto do
processo de urbanização e industrialização. E mantém-se
dentro da questão que move os pesquisadores da década de
1960, em relação ao pentecostalismo, algo que D’ Epinay
expressa claramente em seu. trabalho sobre o Chile: 1, o
pentecostalismo é uma expressão cultural do povo chileno
ou é algo estrangeiro? 2 . tal.expressão religiosa contribui no
processo de transformação social? Para Beatriz de Souza, o
pen tecosta lism o, mesmo tendo origem estrangeira, se
“abrasileirou”,37 aculturando-se o suficiente para tornar-se
: UIda das expressões da religiosidade local. Apesar - ou por
causá disto mesmo - de sua “descontinuidade-continuidade”
(D’Epinay, 1970) exerce exatamente este papel nds camadas
, as quais atinge, ou seja, a “deséontjnuidade” do rompimento
com a identidade anterior (católica) e “ continuidade” de
permanecer alheio à realidade. ^
Procopio Camargo, na mesma linha de pensamento, diz
que, apesar disso o pentecostalismo também tem a capacidade
de reconstrução de relações fraternas e o estabelecimento de
reajustamentos na urbanização desagregadosa. A “ seita”
fechada, reacionária e excludente tem também uma coesão e
rigor moral muito necessário” apsmigrantés que sé agártcpn
a isso como força agregadora e normatizadora de suas vidas.

m em bros .à vontade em sua conduta: Por exemplo, cm suas reuniões de


confraternização álguns ingerem bebidas alcoólicas s outros nãcr.Aígreja não os
proíbe, mas também não incentiva, Isso pròbleinatiza ainda mais a caracterização
de seita em seu rigqrismOpnoral individual dòs niembròs. Eliana Gouveia(Í986), >
em seu trabalho sobre a questão feminina, analisando a Igréjá Pentecostalláeus é
A m or e a Congregação Cristã do Brasü, entende-a primeira como “ igreja” e a
segunda com o “seita”. ' ' _■ . /- ..
D Epinay( 1970:17) tem a n>esma preocupáçãoi saber se o pentecostalismo éu m
corpo estranho ou se “chilenizou”. , . . ,
PENTECOStAl.ISM O: O RIG EM , TEORIAS E CRESCIMENTO 4

“Aética puritana, contrapondo-se por suà rigidez à lassidã»


f 'c K moral considerada pelos protestantes como típica d-
; catolicismo, veio acompanhar a vivência da conversão a.
V,;. ; novo credo,religioso. Esta ética desenvolveu entre os fiéi
' ' i padrões de conduta característicos, sociologicament
v ': importantes. Enfatizando estrita honestidade nos negócio*
/ conduta austera e recato do trajar, propugnavam
paralelamente, severas restrições de comportamento: não te
vícios, como õs de fumar e beber-, não frequentar diversõe
profanas; não participar de jogos de azar; não ter relaçõe
. sexuais extraconjugais” (Camargo 1973; 136-7).

Cartaxo Rolim — alienação sacral

=',/ Para Rolim, a in ex istên cia d e atuação política se dá


^'primeiro, porque a “religião pentecostal que se implantou n
y -Brasil é úm rebento daquela experiência pentecostal dos norte
-'^americanos de cor branca" e> segundo; “ as camadas pobre
.. que a ela aderiram, se traziam a experiência religiosa d
$ deVocionál católico,'náò traziamaexperiência político-social
{Rolim, 1995:24,47-48). Gs missionários trouxeram apenas
“ experiência religiosa” e não de^átuação na luta de libertaçã
dos pobres é marginalizados na sociedade (o viés pentecoste
negro norte-americano).
' Então, esta experiência religiosa estrangeira aqui encontr
uma' religiosidade nativa, acomodada è marginalizada pela
A instituições religiosas, que se alastra na periferia ser
' >ilenhuma alteração social. Não fora exigido antes' e tambér
não sente necessidade dela na sua implantação.
.^ o lim , em seus diversos tex to s, re gistra algum a
jd, experiências políticas dos penteCostais, como as Liga
Camponesas (Pernam buco), um levan te de agricultore
^ .(ídarãnhão) e um protesto de. pescadores (Rio de Janeiro;
^ ç o j í i ò eSperança dê que 0 pentecostalismo seja alterado. Póréir
V. como ele mesmo admite, esses são casos isolados. Esses caso
de, atuação política no meio pentecostal foram “acidentes d
42 ASSEMBLÉIA DE D E U S - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

percurso . Ou seja, não foi uma determinação çla igreja em


participar. Em nenhum momento existiu pma orientação
teológica da necessidade de presença na realidade, muito ao
contrário, a igreja condenou áempre esta participação. Além
de condenar, ignora còmpletamente esses episódios: não há
um só registro nos jornais, histórias e livros da igreja.38
Conquanto as indicações de Rolim possam estar corretas,
ele não atentou para duas outras causas dessa postura: 1 . a
condição de estrangeiros num período tenso da História, que
lhes prejudicaria qualquer postura política; e' 2 . A aversão que
eles sentiam por qualquer instituição, pelo trauma da
perseguição sofrida eiii Seu pãís de origem; daí a defesa sueca
das chamadas “ igrejas livres” . Não se pode excluir a influência
da “ mentalidade sacral católica” , mas também não se pode
reduzir isto à orientação racista dos .brancos norte-americanos.
Os suecos não. compartilhavam deste racismo. Foram omissos
politicamente, mas por outras razões.

C R ESC IM EN TO

Inicialmente, vejamos as “razões” que o pentecostalismo


tinha para não crescer:
1. A Igreja Católica é forte e hegemônica e a menos de 30
anos do suígim eritó do pentecostalismo no país, com á
proclamação da República, deixou de ser a religião oficial, mas
continuava plena e oficiosa. Ela dava conta de todas as
instâncias da vida - nascimento, casamento e enterro;
mantinha, ainda em sua influência, de cartórios a cemitérios.39
As denominações protestantes só foram toleradas, porque,

38 N os anos 1990, a A D nem mesmo citava Benedita, da Silva.em Seus jornais,


quando ela começou sua atuação, nas favelas do Rip de Janeiro, se elegendo
vereadora, deputada e depois senadora pelo Partido dos Trabalhadores (P T ). Mais
à frente, já como vice-governadora (deixou de ser oposição e passou a ser Governo),
o jornal Mensageiro da Paz publicou fotos suas e elogios, mas nãó diz como e por
que ela saiu da Assembléia de Deus e ligou-se à Igreja Presbiteriana."
PENTECO STALISM O: O R IG E M , TEORIAS E C R E S C IM E N TO '» 43
v \ ‘ ■ - ■ ' ■ ' .. . ■ ~ ... •• '

originalmente se restringiram a grupos étnicos; depois, as


' igrejas de missão, àté então, com um crescimento insignificante.
2. As igrejas protestantes, até então pequenas, mas tofias
>ç.om aspectos “ modernizantes” da cultura ángio-saxônica
, (Léornad, 1963; Mendonça, 1989 e 90), eram distintivas da
' çultura brasileira. Igrejas cultas, ricas, lideradas por
v■êstrangèifos, financiadas por dólares, representantes da moderna
pedagogia, portanto, vistas com bons olhos pela elite republicana.
, Ademais, herdeiros do “destino manifesto” (Mendonça, 1989 e
\ 90; Jardilino, s/d) estaVam trazendo a “rédenção” nãó' aptenas
v espiritual, mas econômica e sociocultural para o Brasil.; ~
V Como, apesar disto, uma nova modalidade de religião
^protestante nasce e cresce neste espaço? v.
' O pentecostalismo, como já foi frisado, é um fenômeno
I fiijrbano, mas sua principal çaracterística ó a marginalidade
i a ! qual nasceu e proliferou %Seu aspecto mais visível ~ . e ;
^ folclórico - é a participação e liderança de negros e mulheres.
■'^E, talvez, esta tenha sido a principal causa de sua estranheza
s no início. Será que o pentecostalismo, mesmo com a glossolalia,
, se lideradq por homens,-brancos, ricos e cultos, teria Sofrido
’ ' as mesmas perseguições e preconceitos teológicos? 40
', Disseminado pelo mundo por migrantes, chega até o Brasil,
írí-çpo norte e no sudeste,41 espnlha-se, maS vitim ado por
>; ;preconceitos de, todos os lados. E não podemos dizer que o
péntecostalismo não contribuiu parà o agravamento de tal
TV' preconceito. Sem nenhum julgamento teológico, mas o exercício
/ do “falar em línguas estranhas” , o permitir que qualquer adepto
(analfabeto, negro ou mulher) tivesse suá própria fiíblia e, a*

39 Cemitériqs forajn uma das principais zonas de tensão entre os evangêncos.ç a


Igreja Católica. :: ' ' • ^ '
* Alguém podería objetar que, homens brancos,..cultos e ricos não se envolveríam
com este tipo de “ doutrina” —rio que persiste ò preconceito. ..
. • « A colônia italiana, rto Brás, e ^ S a o Baulo, não éra padrão dc riqueza e cultura,
, pois era cpmpostá de imigrantes igualmente pobres. (Rolim , 1989)

V. ■ . V"
- V -f. . •
■44... * '' s ASSEMBtElÁ DE DEUS ^ ORIGEM; IMÉLANTAÇÃp E MILITÂNCIA,

ensinasse, pregasse ou testemunhasse em público, é, no mínimo,


s algo inusitado para a época. Adernais, o pentécòstalismo tem
duas características inicialmente, graves: 1 . o proselitismo
exacerbado, inviabilizando uma conduta pacífica; 2 . um
discurso sectário sobre a “verdade” . Pretensamente, nele e
somente nele está a verdade completa da Bíblia.
Esta avaliação, no entanto, não responde, a uma das questões
centrais: por que cresce o pentecostalismo? Foi. exatamente esta
“mensagem libertária popular” que ensinava a receber a todos
indistintamente, e da mesma forma lhes dava a oportunidade
de falar de suas “experiências” , o que encantou/converteu as
pessoas. Todos - e todas - têm acesso a este “ poder” (em se
tratando de pentecostalismo, esta palavra adquire uma conotação
muito mais abrangente, de contato com o divino), sem a mediação
da classe produtora de bens sagrados-, e não é um erudito/
instituição quem/que delimita, instrui ou permite sua experiência.
No pentecostalismo acontece, exatamente, o contrário: sua
experiência — pessoal, intransferível, com seu linguajar, sua
realidade, sem que ninguém critique ou tente moldá-la - é que
define a teologia e a instituição. É muito significativo para aqueles
que nunca tivèram acesso ao sagradó, identidade autônoma ou
independência pessoal. ' ... u
Há uma ruptura com o atual estado da pessoa - mesmo que
depois voite. tudo ao “norm ati.O encontro com este tipo de
religiosidade, ou esta acessibilidade ao sagrado, é algo que
altera a conduta. Os deserdados encontram um espaço para se
; expressarem sem cérceainentos. As autoridades não estão
. ouvindo, os eruditos religiosòs^não estão condenando, os cultos
não estão debochando -n ã o se faz diferença. A abertura/êxtase,
por meio do choro, línguas, riso, é realizada para Deus, e Deus
— o crente tem certeza - está ouvindo, compreendendo e se
' solidarizando. :v ; a;' ~ - r 'P ' ; '
E se as instituições são incompatíveis, as regras não se
coadunam, isto não importa porque a legitimação se dá pela
' PENTECOSTALISMO: ORIGEM,-TEORIAS E CRESCIMENTO

*' .. .' ■' • >/< ‘


aceitação dos adeptos; como já foi dito, é a experiência qc
^legitim a a regra teológica e não o contrário. Portanto, est
5 capacidade de renascer, de se insurgir contra o s tatus, d
y questionar o estabelecido e este inconformismo protestam
'■ encontra-se presente também aqui.

A- ESTATÍSTICAS: A L É M D A T E O R IA , U M A
A . ESTIM ATIVA C O M P R O V A D O R A

A í ' As estatísticas são um problema grave para a análise c


k, religião no Brasil. Mais grave ainda, para nossa pesquisa, é
’ fato de que os pentecostáis só paissam a ser computadc
! nficialmente a partir do censo de 19804’. O que temos sã
('^estimativas, e elas serão citadas sem questionamento, pois nã
■ há como prová-las nem desacreditá-lás. Possivelmente, elas nã
^'sejam os números exatos, pias não dispomos de outros. E
- qualquer fontia, eías acertam no fundamental. O penteCostáliair
ç\surge no Brasil na década de 1910 e cresce o suficiente pai
se tornar o maior contingente evangélico do país. ^

• Tabela 1: Estimativas do crescimento do pentecostaiismc

i f - : Percentual 1900 1911 1930 1940 1950 1960


*\ ' ./
Evangélicos no país43 1,1%, ‘ 2% 3,4% ■
‘ " .’ A
' Pentecostáis44 ■> '■■■. < ' 9,5% 60%45-

' Assem bléia de Deus: A 20 14.000 80.000 120.000


u m em bros46 _< ' : A '

jÇ , 6 Õ Censo de 1900 foi impugnado, refeito em 1906, quando o dado sobre religi
íí?, foi excluído se mantendo até 1940. (Rolim, 1995:32)
t j/ ^ R o lin j (1989:32). . ^ .
Souza (1969:17). " ' 7
... 45Esta'estimativa é questionável.
46 Read (1967:121).
46 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

AAD , que tem início ejn 1911 com 20 membros tem’ secundo
a estimativa de Read (1976:122), em 1930, 14.Ò00 membros
e, em 1950, í 20.000 membros. Esses núníeros representam,
respectivam ente, 69,76% de crescim ento em 19 anos e
108.000% em 38 anos. No total, são mais de 600.000% de
crescimento nas primeiras quatro décadas. É uma taxa de
crescimento anual de Í5.000% ao ano! -C v
O Censo Demográfico do IBGE de 1991 apontou 8,98% de
eva n gélicos na população brasileira, com a projeção de
crescimento de 67,3%, o que na prática se confirmou,, pois o
Censo de 2000 apontou 15,4% dè evangélicos na população
brasileira (cerca de 25,5 milhões de evangélicos no país). E,
se no Censo de 1980, os peritecostais já eram 51% da população
cristã, há estimativas que hoje mais de 80% da população
evangélica é pentecostal. A jpesquisa áo Datqfolha em 1994
indicou um percentual de 76% da população evangélica sendo
pentecostal. É indiscutível que os pentecostais são maioria,
no entanto, a questão permanece: Quántos são? Qual a taxa
de crescimento dos diferentes grupos?
Fernandes (1998), na pesquisa N o vo N ascim ento, dá
algUmas pistas sobre crescimento e um dado chama atenção:
a AB é a igreja que mais perde membros, mas é também a
igreja que mais ganha membros, tanto pela conversão como
por adèsão de membros vindos àe. outras igrejas, isto, por
conseguinte, explicaria a estimativa assembleiana de ser â
maior igreja evangélica brasileira. V
'•). P R IM E IR A F A S E - P E N T E C O S T A L IS M O A S S E M B L E IA N O B R A S IL E IR O
^ v- ■ , ... -X' - . - ■> - i■ ~ ___ V
&

2.. A im plantação da "Seita


m Pentecostista" - 1911-1
l&f

A divisão dq história da AD em fases é meramente didática.


fcüsi,
íeitr
teoria das ondas do pentecostalismo*7v
ÍL^F restpn, 1993) e não pretendemos entrar na infindável
p f discussão metodológica sobre está divisão.4? N à prim eira onda
èstão as igrejas Congregação Cristã no Brasil (1910) e
i^ ^ s e m b j^ ia de Déus (1911) . N|sta proposta do divisão vále mais
f7. V
O título que identifica o período do que as datas propriamente
pi^ ditas, porque os processos sociais .apenas culminam nüma
^determ in ada datâ. mas têm causas anteriores.4,9
£t>
Rolim (1985:89) já propusera uma divisão tríplice do
||;.' pentecostàlísnlp 1. ittiplãntãçãó^ (1910-35); 2. Expansão(1935-
m.\Wo) e 3. “ enelausuramento na dsfem-satíaieyádiaLcí^'práticas

&V. 47 CfiFrestòn (1993), em'seu. trabalho, sobre a participaçao .política evangélica, no


K ^ '5iíàiil» dividiu o. movimento pentècostál errí três ondas. Sobre a periodização do
jÉ&Ti protestantismo, ver Burgessd-Í99S) e Martin (1990). * - '/•-
Élfc;48 ®stá discussão-provavelmente còmeçou còm jCésar (1973) è fosteriorm ente
^ .taitibém foi-ânálisada por Femandès (1977): Mais recentemente, Mariano ( í 9?9)

que düránte algum tem po estiveram consólídadas. Alguns autores, inclusive, têm
,K :'d ivérgèn cia s quanto.à teoria das ondas, como Campos (1999), Mendonça (1998).
Ç íff49 “As datas, éntretantó, não são marcos definitivos. De'maior significação são os
f f f 1 fatos que procuramos descrever. Nãò se trátà assim períodos fixos e definitivos.
^ São arítepassos de uma experiência históricó-religiosa em nexo,-Com a sifuação
«« social e política” (Rolim, 1985:89).
48 . ASSEMBEEIA DE DEUS - ÒRIGJM,IMPLANTAÇÃO,E M ItlTÂNÇIÁ

sociais” .(1964-1985). Como este livro se reporta apenas, aos


dois primeiros períodos, propomos o seguinte:
I a fase: A implantação de “seita pentecostista” - 1911-1930
2a fase: A institucionalização da Igreja - 1930-1946
3a fase: A oficialização da denominação - 1946 em diante.

P R I M E I R A FASE: A I M P L A N T A Ç Ã O D A “S E I T A 50
, • P E N T E C Q S T I S T A " 51 (1911-1930) : ; r,

. , Utilizando a conceituação de Weber (1991) e Tro.eltsch


(1987), neste período a AD tem todas as características de
seita: nasce de uma dissidência, é exclusivista,'' estábelece-se

' -í /V'* \ f'


50Esta .pãíavra tem uma conotação herética no meio evangélico, e é um paradigma
um tanto anacrônico ná sociologia da religião, mas a usamos etimologicamente
na conceituação sociológica definida por W ebér e Tjroeltsch, com o grupo
m in o ritá rio , iniciante ainda sem uma postura de igreja, anterior à sua
institucionalizaçãp. O aspecto negativo dapalavrá vem ém função/aindaneste
momento, de seu sectarismo e exçlusivismo quAÇaracteiiza uma seita, algo nãç> -
muito distante da A D neste, período. Concordo com C a m p óill9 9 5 :4 Í) quando
diz que ò “páradigma seita-igreja não está mais servindo para delimitar mesmè)
^ dentro do próp rio protestantism o, os vários grupos sociais e padrões de
\ comportamento”, pois o que é seita ou igreja hoje? Portanto, se “ se nasce na igreja,
e se adere à seitá” (Troeltsch, 1987:143), o que dizer de grupos sectários que
poderíam ser.énqüadradós na perspectiva de exclusjvísmo, e são ao mesmo tempo,
grandesdnstitúições oqde mais de uma geração se faz presente nela. Sobre òs-
,grupps pentécostáis sendo estudados como “seitas” ver Sousa (1969), Gouveia
(1987.) e Bòbsin (4984). Para urna visão crítica dò uso degtè conceito; vèr Santa .
Ana (1992), Campos (1995) e Gomes (1996). 7 A A
5 Pentecostista” é uma expressãopejoràtiva? É desta form a que o pen tecos tal ismo
é nôrninadò por livros e jornais- de outras denominações (p. eX. Expositor — ,
Mensageiro Iivangélico, anò XXVIU, n° 9, 09/41), e os católicos são 'chamados ■
romimistas’ . Conhecendo o grau de beligerância que existe entre protestantes e
católicos, é bem possível que foSse uma expressão, depreciadva.\ N o éntahto;;
Émile.G. Léornard epi O Protestantismo Brasileiro (São Paulo: Aste/Iuérp,1968) : ’
tàmbém usa esta expressão (p. 345) no mesmo contexto em que admite o caráter
bíbjico (pág, 346) desta denominação. Ademais, qualquer expressão era rechaçada .
pela Assembléia de Deus. Ser chamada de “pentecostaP ou de “denominação”
■>' ' ‘- 49
Ç A IM P L A N T A Ç Ã O D A "SEITA P E N TE C O S TI5TA " - 1 9 1 1 - 1 9 3 0

|MJ‘ ■../ \
i f ó ruptura com uma in stitu ição, form a-se da adesão
Ivóluntária com uma mensagem “ fundada na continuidade da
'nrevelaçào e interpretação teológica literal das; Escrituras,
i^incentiya a formação de líderes espontâneos e carismáticos”
^(Cqmargo, 1973:152). Seu discurso é o “único verdadeiro”52 e
^presce; a despeito - ou contra - da institucionalização. É um
Éf^rupo anárquico em Tsua adm in istração; gu iádo pelos
^ “carismas” (Weber) eressênciaiménté, formado e construído
tvbor leigos/adeptps. .T
Mais que alijada social e teologicam en te por nuoes
§ ^ te rv a s ,' como já fbi frisado sobre o caráter marginal do
p^entêcostalismo, isto é Uma escolharelá tem Unia “,’ síndrome.
m arginal” . A AD tem em seu ethos uma natureza de
^ ^ y e r s ã o ao inundo,” que sé justifica por rdzões internas-, sua
^ ç a t o ló g ia im inente não lhe dá tempo para pensar no
I Jpfésente; seu purismo moral afasta-a das manifestações
PRculturais do povo-, e a perseguição como legitimação coletiva
"rtecçssááa” pára etá) sçisentir verdadeira;, ademais,
P^íJeu nascente roí de membros e composto de extratos sociais
^'dn fen orèsf portanto' já acostumados com a marginalização.
f e s t e - r ■■

eia rejeitado como ofensa (Conde, 1960:11-15). A única npmi nação


gfAaceitàveTpara a AD era de “ M ovim ento” (?). O mesmo raciocínio tém João
^ ^ ú ç i r b z , dissidente da AD cpm Manoel H iginofim 1930, fúndadores datgreja de
^ SyGrjstô em Mossoró.ém não qneferáceitar o termo “denominação” “ À semelhança
S i ' do que ácohtecera com a AsSembleia de Deus, éles SÃO portadores de üm novo
^?p'djsçprsò (.:.) óorisidefavam-se portadores da “ sã doutrina”. Afirmavam, de pés

’es*t^ texmdi: pois n ó fio rn a t Boa Semeríté (n°lT,2, setembro/30) há um texto


^!tí^dtizidÔ:ddrT h e Péritecostcil Evcmgel, comí o segiiinte título: “Em defesa do
[f-pèytecostísmo”. Òs integrantes da ÇGB, segundo. Gduvéa (1969:85) também não
hepitam ser chamados de “ pentécostais”. : ' /
do primeiro jornal é “.Voz da ^Verdade”, o seguinte “Boa Semente , nada
|v mais siiitomátiéo. AHáç.bá seguidos “testemunhos” de ejbbatistas, ex-presbiterianos,
■fí -.ex-adventistás, agora péntecostais, admitindo, enfim, terem encontrado a “ verdade
completa”. - ‘
:0 ASSEMBLÉIA DE.DEUS - ORiGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA U

S E G U N D A FASE: A I N S T I T U C I O N A L I Z A Ç Ã O V;
D A I G R E J A (1 9 S 0 -1 9 4 6 ) / A

Coin sua I a Convenção Nacional em 1930 - vitoriosa para t


uns e fracassada para outros - é que começa seu processo de
institucionalização e, a consequente e natural luta pelo poder.
Ainda na crise de identidade, por desconhecer se era ou seria: %
a) igreja pentècostal sueca5-\no Brasil '/ ■_ A
% igreja pentecostal brasileira dirigida jto r siieços : i
c) igreja pcntecostal dirigida p or brasileiros e irifluençiada -
p o r suecos A a A ' a ,.: , ." T ; ; A y
igreja pentecostal dirigida p or brasileiros e influenciada
p o r norte-americanos. : 1
Igrejas centenárias, como a Católica e as Protestantes, têm -
umá tradição pofque se patitar, a zelar ou, diriam outros; a
atrapalhar. Mas qual seria z. tradição pentecostal assembleianal '
A té este momento nenhuma; é uma igreja em formáção e
enfrentará todos os probléínas naturais de qualquer grupo i
social em definição. Há a tradição protestante cristã, mas como
o discurso pentecostal para .se legitimar precisa, de Certo modo,
d e s q u a lific á -lo , então é n ecessário ir em busca da
“ pentecostalidade fuhdanté” (Campos M., 1996:50), ou seja, ■:
sua origem. Porém, isfcoiócÒrfía õu seja i
“ encontrado” , existem diversos fatores sociais-e econômicos
qué não podem ser desconsiderados. E a orientação de Lewis
Pethrus, da Igreja Filadélfia em Estocolmo, é relevante para
u m á Igreja em Belém do Paçá? E o poderio econômico da AD
norte-americana já presente em toda a América Latina? E entre
estes dois polos de influência, como ficam os novos líderes
brasileiros (eles sim, construtores da igreja)? -í

— ^— :— T e — v ■ ■ ■ ; . • a í ■a ' "• . v /a j
j3 bsta -é a hipótese menos gpováyel; póis apesar da doutrina e liderança sueca ser ' -
hegemônica, em nenhum momento há algum indício desta proposta. ■,
'A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PENTECOSTISTA" - 1 9 11-1 930 51

4- , TERCEIRA FASE: A OFICIALIZAÇÃO DA


è D EN OM INAÇ ÃO (1946 EM DIANTE) ;

':A ' Com o registro da Casa Publicadora das Assembléias de


Deus (CPAD) em março de 1940 ( I ahistória, Conde, 1060:348),
...mesmo como mero acidente provocado por Getúlió Vargas
' (Fausto, 1999:375-6) e seu DIP - Departamento de Imprensa
>■-e Propaganda, a AD se assume como uma instituição formal.
Mas é só em 1946 que a CPAD é registrada estatutariamente,
agora, enfim,--urna, ppíctvra- oficia l brasileira. Depois de Arm
t período de quase dez anos sem Convenção,54 na 8a Convenção
f Geral,S5 em Recife7ém 1946, a CPAD foi reconhecida como órgão
t o/iciãl da Igreja. Em 1947, um brasileiro assumiu pela segunda
íl- vez (em 1937, Paulo Macalão foi o presidente) o cargo de
A-presidente da Convenção, até agora nas mãos dos suecos e
s o m e n t e a partir de 1953 os ^h)ra3 iÍeirÔS;\ã;SSU.miríatn.
y definitivamente essa função. Aqui “o novo movimento religioso
ê(deixã de ser uma expressão predomi.nantemente carismática:
i - passa a ganhar peso institucional” (Santa Ana, 1992:31).
IÇcqmeçá a fase que Bastide (1975) cháma de “domesticação dó
i5 :sagrado selvagem” .' ' T -
É a partir dessa época que a. AD se divide em ministérios,
mesmo que a semente do divisionismo tenha se proliferado
P^desde a década de\ 1920, e começa uma luta fratTicidá pelo
poder político e financeiro dessa lgréja, não apenas enquanto
ferilôcal e espaço de reuniões mas, sobretudo, uma tutà ideológica
èntre os “ pentécostalismos” e a “pentecostalidade fundante”
(Càmpos, 1996),56onde,cada ramo requer para si “originalidade

* Entre os anos 1938 a 1946nãòhouveConvençãq(2ahistória, Almeida, 1982:33).


É o períododa 2* GuerraMundial. Aliás.algoque tambémaconteceu comoutras
denominações (Mesquita, 1940). >y . • _ y .'
■ í 5f Esta numeração das Cohvençõés é incerta, porque algumas não foram computadas,
c 'como a dé 1931 (ver tabela 8: Às Convenções da AD, p. 412).. •
a' J 56 Segundo conceituação do próprio autor: ‘‘São diferenciaisrpois os dóis termos dá
gx ^ jrela çã o não são proporcionaisra pentecostalidade é epistemologicámente aiitçrior
52 ASSEMBLÉIA DE DEliS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

e verdade” , e nega o outro grupo.57 Nos anos anteriores, os


problemas externos (perseguição 4á Igreja Católica e das
denom inações protestantes, a pobreza dos membros, a
dificuldade de locomoção etc.) mantiyeram a igreja' coesa'e
estimulada. Agora ela está envolta em vtdtiiemas internos (o
peso e a riqueza da instituição, e, ironicamente, o status que
os títulos e cargos das Convenções e da CPAD) lhe são o major
desafio, Há muito perdeu o discurso exclusivista da seita
(quando só os assemblcianos eram salvos e tinham o Espírito
Santo), assumindo uma postura inclusivista de relacionamento
; com outras in stitu ições. evangélicas (mesmo ainda hoje
antiecumênica) ,58 ou seja, “ perde fluidez, mas ganha em
densidade institucional” . ^ •.
A p a rtir da década de 1,950; começam a su rgir as
comunidades “ pentecostais livres” (Hollengewer, 1972:149).5?
Além de novas igrejas pentecostais que se tornaram grandes
denominações, como a Igreja Pentecostal Deus é Amor - IPDA
e O prasil para Crisfo - OBPC, também acontece o fenômeno
da “ pentecostalização” das chamadas igrejas tradicionais,
su rgin d o as inúm eras “ Igrejas R en o va d a s” nos anos
seguintes. Na década de 80, pela. primeira vez ém sua história,
a AD teye um projeto político na nação.- éleger membros da

aos pentecostalismps, c os penteçoslalismps são posteriores,^ pentccostalidade. E


' são compleinentares potque qs.pentecpstalismos; objetivamie historicizam a
pentccostalidade e porque a pentecostàjidade funda os pentecostalismos, uma vez
que estes a constituem em seu fundamento'’. ’ ;
N o ideário folclórico cia A I) consta unia História em que dois assemblêianos'se
encontram e a pergunta foi: “Você é membro de qual, da boa ou da outra?'
^Os pentecostais chilenos de tradição metodista, em 1941, participam do .Círculo
Evangélico tio Chile e, alguns grupos, até mesmo de atividades ecumêniçás ligadas
ao C M I - Conselho Mundial de Igrejas (D^pinay,,1970:264-278). Já ríoBrasil, ô
único ramo do pèntecostaliSmò que teve uma “ faseecurhênita’* foi O Brasil para
Cristo, que se toríiou membro do Concilio Mundial de Igrejas, algo visto de forma
muito alvissareira por alguns, flollehweger, pôr exemplo, considera que a.asspciaçap
ao Conselho não troqxe qualquer “fruto” para nenhumadas partes;
59 O u ‘agências pe cura divina” (Mendonça, 1992). ) , f
m r ...;■■■■■' v -
p r i ^ P L A N T A Ç Ã O DA "S E IT A P E N T E C O S T IS T A " - ,191 1 - 1 9 3 0

pnstitu liite, 1987 (Freston, 1993; Cavalcante, 1994;


K randi,1994). E, na dècadq dè 19 9 0 , alterando completamente
sua caminhada, a AD fez parte de algum organismo evangélico
^terdeiiòm inacidnál como a Associação Evangélica Brasileira
|;T AEVB e a Associação de Editores Cristãos -.A^SEC. Neste
tberíodo, depois de 87 anos de existência (1911-1^98), ela entra
ã M ciü tm en te60 na TV, bem diferente dè suasTpongêneres da
5 América. Latina fundadas pela AD nos EUA.
Nas décadas de 1980 e 1990, quando o pentecostalismo,
|<pçrcentualmente, se tornou hegemônicò, ò desafio da A D -
^ g o r a em processo de aburguesamento,6i;não é realizar uma
^ p o lo g é tic a pentecostal, “glorificar a Deus pela perseguição”
^op'' destacar pela glo sso la lia , mas consegu ir algum
^ d ife re n c ia l’’62 dentro do mundo pluralista do pentecostalismo
^ (o u gospel, ou neopentecostalismo, pós-pentecostalismo, pós-
Êjsjenominacionalismo etc,) quando o “ merçado religioso” está
/ éadá vez mais competitivo e confuso.63
■■■■■■:.• ■•4/. . .. .
Y 60 O programa na Rede Manchete “Movimento Pentecostal” causou um grande
ffK\ debate nacional porque para o membro, àté então, era “pecado ter televisão”. No
rç., entanto, dèsdé 1981 a A D de Belém do Parátinha programa na TV, o que por sua
transmissão ser regionaj, talvez não tenha causádo polêmica dentro da A D em-
gpA nível nacional. (H . Belérri; 1986:75)
j^$i;SJ|iversas pesquisas ànàlisando. o neopentecostalismo, se reportam ao fat o do
pentecostalismo estat alcançando as classes média edita (Campos, 1999b, Mariano,
a%l *'l999‘) . Em sua 3.“ geração, seria natural que o estrato social atingido pela AD
IfV''subisse; poftajrto, dizer que a A D está se abUrguesárido pode ser um mero insulto
f A ç ideológico (se se.considerar “aburguesamento” como insulto) sem-ter com o provar.
Mas causariá estranheza, no mínimo, aos fundadores da AD saber que a Associação ■
V e Homeits de Negócio do Evangelho Pleno - ADHONEP, organização que tem
^^í-ffcomõprõjetobvángelístico jàntáres ern hotéis cinco estrelas, foi fundada no Brasil
íyip por empresários assembleianos. ' ' '
Ip;-62 A reportagem da revista Vinde (janeiro de 1999, pp. 20-27, intituladà: “ Bem-'
@1, vinda, modernidadel -Assembleia de Deus investe nó epsino e muda posturas para
P J enfrentares desafios do século 21)”, é bem sintomática, quando chega à conclusão
t ...
^ 4 ; ' de que “ a AD não é mais a mesma”. ' ' ■ • .
%?.■® A necessidade de conquistar o público hòje fáz a A D aderir ao marketing da'
prosperidade, algo impensável no período de nosso estudo. N ão há qualquer
tíir. dificuldade em encontrar uma AD promovendo os chamados “ Cultos da Vii ória”
ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

OS SUECOS VISIONÁRIOS . ...

“O missionário não é apenas o anunciador do evangelho,


mas também senhor do segredo de como fazer, como pregar,
como organizar e hierarquizar a sociedade cristã, como se
comportar e falar, como viver o estado cristão. É a enciclopédia
cristã” (D’Epinay, 197Q:142). V c .^ ^
Qualquer “Agência Missionária”* 64 moderna exige que o
participante faça um curso de missões transculturais, estude
a cultura do povo, aprenda o idioma, informe-se sobre as
condições climáticas, tenha endereços para onde vai, etc. Mas
dois suecos chegam ao Brasil sem dinheiro, sem falar uma
palavra em português, vindo ha terceira classe do navio, não
têm nenhum conhecido esperando-os - apenas uma “visão” .
Era, aliás, a forma “natural” de se fazer missões no início do
século a partir da rua Azuza. As denominações tradicionais
já tinham estabelecido organism os de missões, m as-o
pentecostalisino é apenas um movimento. .

Daniel Berg (1884-1963), o operário

Daniel Berg e Gunnar Vingren são dois imigrantes suecos


afetados pela “ febre das Américas” (Berg 1995:45; Vingren,
1973:17),-em que milhares de europeus pobres foram em buSca -
de riqueza na “ terra prometida” e, se não conseguissem ficar

ou mesmo “Campanha da Independência Financeira” O que há alguns anos era


tratado de m odo sutil (a teologia dá próspèriçlade), tornou-se praticamente ’
indispensável. •- _• ' ,. .. : "
64 “Agências Missionárias” são O NGs paraéclesiásticas qúe realizam^aproximação,
entre o “ Campo Missionário” (tribo, cidade e/ou país) e as igrejas no envio de. .
missionários.- Realizam a tarefa de treinamento, envio 6 sustento, recebendo o
dinheiro das igrejas e viabilizando a estada dos missionários em seus “campos”. Há
no Brasil,1inclusive, uma associação que coordena o trabalho destas âgências —~
Associação de Missões Transculturais do Brasil (A M T B ). - , . - • ^ d
V

v Á IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PENTECOSTISTA" - m i - 1 9 3 0 ^ 55


Çí.ts.
rvi."
; ricos, tornariam-se amigòs e teriam suas vidas interligadas
;he, as mesrhas, ao Brasil. ■ w ■■ ••' ■• 1 . ^
x* ' s• •!
L Daniel Berg nasceu em 19 de abril de 1884 em Vargõn, Suécia.
{ De famflía batista rpuito pobre, sègundorerátasuabiografía, -■
r sofreu na infância a mârginalização de ser “ pagão” (só foi
^batizado aos 15 anos) numa sociedade que batizava as crianças
. e, em que, a Igreja Luterana, estatal, controlava escolas, igrejas.
' Aos 18 anos, Berg foi para a Inglaterra e de lá para os
EUA: Chegou ao Brasil em 1910; aos 26 anos dé idade, onde
v Viveu por 52 anos, e Vindo a morrér erri 1963, na Suécia.
\ Operário de fundição, apenas alfabetizado, no Brasil nunca
aásumiu qualquer igreja, cargo ou exerceu qualquer outra
, fôrma de influência.65 Chegou a admitir que pretendia, “ servir
* áo Senhor no fütüró com sua força física” (Berg, 1995:16).•
■No Brasil, trabalhou na C om panhia P ort^ oJ P a rá , para
I- sustentar seu amigo enquanto aquele estudava o português.
^ .Nas entrevistas com os pastores, quando perguntados por
I que Daniel Berg nunca assumiu a presidência da Convenção
ou dé uma igreja, as Tespostas variaram entre: “ele éra muito
I humilde; era apenas um evangelista, vivia nas ruas e .nos
•" trens distribuindo literatura; era um analfabeto, nunca
^ aprendeu a falar português” . Enfim, este homem que é
fundador da AD, morreti no ostracismo. Não há qualquer
| r^stoÔ -dé?DWél,Bei^':tèriéeé^idi0 uma consagração oficial
f 'com o pastor. Seu nom e d esap arece dos jo rn a is da
dqnòminação è hq apenas dois artigos assinados por ele
|| (álgpns entrevistados têm certeza de que não foi ele quem
|,rescreveu). Já no fin a l da vid a , foi h om ed â gea d o no

65Po tiásó é éstranhoo título do $? capítulo do livro de Hollengewér (1976) sobre á


A D no Brasil: “Um operário funda aimaior igfeja ná América Latina T Daniel Berg
as Assembleias de Deus no Brasil” A Ünicá explicação para isto é que em seu
| período de pesquisá no Brasil (iníciò da década de sessenta) Èerg ainidà vivo, e já
%< esteja vivendo a “ glorificação” . Ò autor “comprou” esta visão da forma como a
igreja lhe passou sem nenhuma suspeita. - ^
56 ■ ASSEMBLÉIA DE DEUS,- ORÍGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Cinquentenário da Igreja. A partir da década de Í960 a


terceira fase, quando a AD lançava a sua I a história e já era
uma denominação nacional querendo afirmação institucional,
houve todo um discurso elogioso sobre “ dois heróis suecos”
- provavelmente uma tentativa de “compénsação” pelos anos
que foi relegado ao esquecimento. 7
Berg trabálhou um tempo em Portugal66 e nos Estados do
Espirito Santo e São Paulo, mas, oficialmente, permaneceu
sem assumir a direção de uma igreja. Os novos missionários
suecos que vão chegando passam a pastorear as igrejas já
iniciadas e ele é preterido. Dois dos pastores entrevistados
falaram que em seus últimos anos no Brasil Berg viveu em
grande pobreza,67 algo que hão seria novidade se se tratasse
de um pastor assembleiano /m sertão nordestino, mas Berg,
pioneiro fundador da igreja, vivendo em São Paulo, quando a
AD já era grande e rica, é de se perguntar por que a ocorrência
de tal esquecimento ou abandono?

Gunnar Vingren (1879-1933), o líder

“Vingren era o dirigente principal”68 (Vingren, 1973:8)

Vingren é o antônimo de Berg, Líder, com formação teológica


no Séminário Teológico Batista Sueco de Chicago (1909),
Vingren nasceu ém 8 agosto de 1879, em Ostra Husby, ha
Suécia, Era cinco anos mais velho que Berg. Em 1903, já com
24 anos, fói para os EUA e, depois dp formado, iniciou seu
ministério pastoral na Primeira Igreja Batista de Chicago. Viveu
22 anos no Brasil (1910-32), e além do pastorado na, Igreja-
mãè em Belém-PA, também pastoreou a Igreja do Rio dé Janeiro

Penodo,-aliás, sobre ó q ua1a história da ÀJD‘ cni Portugal nada registra.


67 Esta é uma informação sob suspeita, pois não conseguimos nenhum documento
ou teSterpunhp que a confirmasse. Ademais, dois entrevistados que falaram nisso,
ao pedirem confirmação nadá quiseram acrescentar.
68 Palavras de L. Pethrus na introdução dá .biografia de Vingren.
A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PENTECOSÍISTA" - 191 1-1930. 57.

%(capital federal, na época) por nove anos, vindo a morrer, em


29 de junho de 1933, na Suécia. ' > '
‘ Um homem doente,^ sendo sua doença, provavelmente, o
resultado da mudança de clima da Suécia pára Belém. Não
teve oportunidade de ver o resultado de seu trabalho c .
certamente, em seus últimos dias, tenha sofrido grande
desilusão pelos rumos que a denominação por ele fundada
‘ estava tomando. Escreveu 25 diários durante os vinte anos
que viveu no Brasil, mas foi publicado apenas um livro baseado
neles (Vingren, 1973:8). ' ; '
<- ' Retornou três vezes (1917, 1920 e 1930) à Suécia, passando
pelos EUA. Parece que seu desejo era manter a igreja brasileira
, ligada à Igreja Filadélfia de Estocolmo. Foi ele quem trouxe o Pr.
; Lewis Pethrus para “resoiver a questão” , na Convenção de 1930.
■'. .Porém, possivelmente, todos os problemas existentes foram
^/somatizados.Interessante.porém, è seu silêncio sobre educação
teológica apesar de ele ser um aluno formado em seminário,
\-j pois, em séús textos para os jornais nurtcá se pronunciou contra
ou a favor - quando outros suecos escreviam contra. Se o Pr.
í Gunnar Vingren tivesse vivido mais tempo e mantido sua
f'.liderança, esta igreja seria oütrã? Melhor õti pior, não dá para
fSaber, mas talvez tivesse tomado outro rumo. '
' Os “ dois apóstolos” desapafecerain cedo é bs demais Süêçòs
P que continuaram a missãbhão fivèram carisma sufiòiente pára
f impor um modelo; os caciqües nordestinos tomaram o poder
|%e imprimiram seu estilo. Um bom exemplo da versão dos
suecos sobre o seu trabalho é o liv ro .D esp erta m en io
íPlApostólico no Brasíl, pub\icado em 1934 na Suécia, que chegou
Brasil 53 anos depois. .■ :
K L ___ ; ; L L --' L ; ;/L ; • ■' .; : "
7, 6,í!Ruth Carlson (entrevista ocorrida a 07/02/00, em Òlindà-PE) atualmente com 88
^^'•'anosí quárido menina viveu ria casa do Gunnar Vingren, diz que ele teve diversas
malárias è sofria de botiilismo. Segiindòs os relatos históricos, vivia em “coristantes
È Á ; crises oríundas de súas enfetiriidades” (2a história, 1982:18), “ frágil e doentio”.
(11.Belém, 1986:9)
58 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Atualmente, após décadas da morte dos missionários, os.


suecos sáo elevados à categoria de “líderes ideais” , ou usando
a expressão weberiana com “ capacidade extracotidiana” ; no
entanto, durante suas atividades no Brasil, eles foram
contestados diversas vezes. Evidentemente, não há um só
registro disso nos três livros de história oficial, mas nas Atas
das Convenções, há. Mesmo sendo üm primor da dissimulação,
h á um trecho no qual a pergunta feita na Convenção de São
Paulo, em 1947, ‘foi: Qual a superioridade dos m issionários
em relação aos pastores? O assunto foi discutido em diversas
sessões. A que conclusão chegaram? Mudaram a pergunta:
O que se deveria discu tir não era a su p eriorid a d e do
missionário em relação ao pastor, mas a diferença entre um
m inistério e outro. Diferença, aliás, que se na teoria não havia, ;
isso era desmentido na prática. Talvez esse tenha sido o maior
problema da AD no Brasil em seus primeiros anôs.7o --
Dentro dessa constru ção ideal dos m ission ários, a
capacidade altruísta deles é a mais citada. Apresenta-se a
Suécia como o melhor dos mundos e ò Brasil, o pior. Saíram
de um país rico, desenvolvido e vieram para uma Belém
atrasada^ cheia de doençasr l^ há boa alimentação, bom clima;
aqui, muitas enfermidades, pobreza, calor, e ainda por cima,
persegu ição re lig io s a . E vid en tem en te, esta percepção
historiográfica assembíeiana se dá visando realçar o caráter
dos missionários, mas Belém do Pará não é o inferno tanto
quanto a Suécia não é o paraíso. „

‘A Suécia da época não era a próspera sociedade de bem- ^


estar em que se transformou posteriprmente. Era um país -
estagnado com .pouca diferenciação social, forçado a
exportar grande parte de sua população” (Freston, 1996:76).7
0

70 A Carta de Convocação da C onvenção de 1930 é uma prova evidente da


contestação, desde essa época, que a liderança sueca começava a sofrer.
■: * ,' -. : -
' ■■■■■ , .
P :ÍM P lA N T A Ç Ã O D A "SEITA PEN TEC O STISTA" - 1 9 1 1 -”1 9 3 0 . 59
m
h/ Um testemunho insuspeito sohi-e. isso é de Frida'Vingren,
^'que chega a Belém em 1917. ; .

kk “Cheguei ao alvo de minha viagem. No. dia 3 de julho, à


noite, entramos no porto de Belém (...) A cidade parece
grande e imponente. É bastante bonita com suas torres e
•4 casas altas. No dia seguinte, de mánhã, tudo era sol e verão -
- outrã vez. As matgens do rio são lindas, com duas pequenas
ilhas lá fora. As praias tão lindas eram baixas, um pouco
- monótonas e atrás estáva a densa mata” (Vingren, 1973:85).

t E se Belém e seus arredores-são um “ mundo romântico,


/imensas selvas com grandes orquídeas e cipós por todos os
lados” ,71 a descrição que Vingren faz do Rio de Janeiro em
i- süa primeira viagem é mais favorável ainda:

& ‘Aqui não fáz calor nem frio, um clima agradável. A entrada
do porto é maravilhosa e a cidade também è muito linda.
Parece com o s Estados Unidos, há fartura e muitoJuxo
lA ^ também. (.. .) Caminhei bastante naquele trânsito terrível e
no meio de tudo senti o poder de Déus.” (Vingren, 1987:87)
&&<■

O estilo Vingren-Vingren

a história da ÀD sempre é contada a partir do Berg e


Vingren, mas jpodèriá também ter uma vêrsão Vihgrep-
| Vingren: Gunnar e Frida. Nos vinte primeiros anos é este casal
jfequem lidera a igreja.NBerg inexiste ou apenas realiza um .
t^rábalho de colportagem nas periferias. Samuel Nystrort e Néls
^ e ls ^ q u è '.c h ^ a jç t ' em 1916 92 u respectivaméntè, qs
í/que mais se destacam, inclusive por assumirem igrejas e à
^liderança das convenções nos primeiros anos,; No entanto, não
imprimiram suas mareias peSsoais ou assumiram qualquer
tatus á mais. A pergunta agora é: quem estabelece o modelo

j 71 Op. cit., 30.


60 . • ' ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO f: MILITÂNCIA '

de liderança? Entre 1911 a 1932, quando Vingren retorna à


Suécia, ]á chegarani ao Brasil quase 30 suecos (ver Anexo 2, p.
175). Alguns destes nomes (entre os quais há também
finlandeses) só aparecem uma única vez, sem data de chegada
oú retorno e sem algum outro registro sobre o seu trabalho. Nas
entrevistas, álguns pastores desconhecem absolutamente tais
nomes. Quem, de fato, traz a marcá a AD? Apenas Berg e Vingren.
Como Bérg é inexpressivo na liderança e Vingren doente,
este ficou pouco tempo efetivamente na liderança, fic a a
dúvida sobre quem de fato dirigia e ditava as normas nesta
igreja em seus primeiros anos-. Frida Vingren? v

D IS S ID Ê N C IA E O FICIALIZAÇÃO ç

■ ^ “O pentecostalismo já nascett cismático” (Jardilino' s/d:36)

Que igreja protestante não nasceu cismática? Divisionisino,


aliás, reside no cerne do protestantismo (Niebuhr, 1992). O
m ovim ento pen tecostal brasileiro se inicia a partir de
dissidências. Mesmo que nenhum dos imigrantes pentecostais
tenha vindo para fundar igrejas, Luigi Francescon chegou ao
Brasil, que fora membro da Igreja Presbiteriana em Chicago e
Daniel Berg e Gunnar Vingren, da Batista. Np Brasil, em ambas '
as igrejas, a novidade da mensagem péntecostàl foi rejeitada
e os missionários foram “ convidados” a sair, resultando assim,
no surgimento de novas igrejas. Neste caso o pentecostalismo .
repete, como em outros países, o ca rá te r cis m á tico do
protestantism o. Afinal, que Igreja Protestante não tem um
cisma em sua origem?72 : <

72 Sem muito esforço é fácil identificar isto em todas aS igrejas protestantes rio .
Brasil. P. ex: Igreja Presbiteriana do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente, ^
Igreja Presbiteriana Unida, entre outras.
: A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PENTECOSTISTA" ^ 1911-1,930 61

/ . É interessante coqio as versões dos historiadores73 sobre


‘ ás duas denominações - Assembléia de Deus e Igreja Batista
f - coincidem no fiíndamental, mesmo que as visões sejam
j distintas; os missionários suecos chegam ao Brasil, e não tendo
; onde morar são acolhidos no porão da Igreja, o pastor batista
•viaja e deixa sua igreja na confiança dos dois. Eles começam
, a realizar reuniões de oração penteçostal e, confrontados pelo
■evangelista que está substituindo o pastor, são excluídos.

ç. Tabela 2: Versão assembleiana e versão batista da divisão

VER SÃO A SSEM Bt-ElANA V E R S Ã O BATISTA

' \'“Daniel Berg e Gunnar Vingren até aquele “Em abril de 19.11 desembarcaram em Belém
j -momèntò éstavam ligadós à igreja batista i dois missionários suecos. (...) que se intitu­
. m a América (as jgrejasq úe aceitavam o • laram batístas-.-Dijigirám-seimèdiatamente
i .aviyam entoperm aneciam com o mesmo a Nelson, seu conterrâneo, sendo acolhidos
T"-nome.” (Conde, 1960:19) porele.” (Mesqúita, 1940:136)

í f “Raimundo Nobre (evangelista), apoderoü- ,“0 evangelista (.,.) convocou uma reunião
' “ se do púlpito e atacou os partidários do da c o n g re g a ç ã o , d e cla ro u que os
/. Movimento Pentpcostal. 0 grupo atacado pentecostais, quejá eram maioria, estavam
(, começouà múrrnurar(;..).Nessernorriento fora da ordem e, apoiado pela minoria74que
? • o dirigente ilegal,"dessa sessão ileg a l/ permanecera batista, excomungou os que
* . propôs que ficassem em pé todos àqueles, tinham falseado a sã doutrina. (...) Desta
| ^.queaceitavam a doutrina do Espírito Santo. forma, à Comunidade foi dizimada... Tãl foi
\ maioria ficou em ;pé. Imediatamente o começo do movimento penteçostal no
(3 Raimundo Nobre propôs à minoria que a Brasil” Mesquita (1940:137).
| excluísse a m aioria, o 'q u e éra ilegal
í tambérh” Conde (1960:25). .

* y , As biografias dos suçcòs tàpibem confirmam estes fatos;


Ifsó há um dado conflituoso em todos os relatos; o número de
W.

s73Hollenweger (1976:129) chama a atenção para estes relatos paralelos, inclusive, o


Í tom irônico de Mesquita. ' ■
H* Conde reclama disto em que a “ minoria exclui a maioria” como se este prjncípio

■ de.democracia congregado nal fosse válido na AD.


62 ASSEMBLEIÀ DE DEUS - ORIGEMy-IMPLÁNTAÇÂO E MILITÂNCIA

excluídos.. A V história (Conde, 1960:26) registra 17; Berg, 18 J


( 1 995:97); Vingrén (1973:33), 18. À 2 a história (Almeida, 19 8 2 :
27), registra 19. A 3a históha (Oliveira, 1998:51) também
registra 19. Em todos os livros (à exceção, de Mesquita) há listas -
dos nomes, as quais não combinam com o núrtíero informado,
Conde registra 17 excluídos, mas relaciona 20 nomes. A
explicação provável está no próprio Conde quando diz que
“ dessa lista, 17 eram membros e outros menores.” (26)

“ ■ O nome “Assembléia de Deus” x

“O ano de 1918 foi de suma importância para a continuação


do movimento pentecostal no grande país. O trabalho já 1
contava com alguns anos. Agora chegou o tempo de
registrar a igreja oficialmente, para que fosse pessoa
jurídica. Isto aconteceu no dia 11 de janeiro de l918, quando
^ a igreja foi registrada oficialm ente com o nome de j
‘A ssembléia dé Deus’.” (Vingren, 1973:91) "

A adoção do nome Assembléia de Deus permanece uma


incógnita. O grupo expulso da Igreja Batista adotou o nome
de M issão d a 'Fé Apostólica e esta igreja, em seus primeiros
sete anos, não tem nenhuma definição institucional - apenas !
cresce assustadoramentè. Em novembro de 1917 o jornál Fu?
da Verdade publicou a seguinte notícia: / T t

“Os nossos irmãos Samuel Nystron e Daniel Berg em uma


viagem evangelísticaque fizeram em seis igrejas da fé
apostólica, no interior deste Estado, batizaram 90 pessoas,
A Assembléia de Deus em São Luiz (Pará) tem crescido tanto
que o vasto salão da Casa de Oração se tornou pequeno
para acomodar os irmãos que ali se reúnem, O pastor ;
Gunnar Vingren batizou, no batistério da Assembléia de •.
Deus nesta cidade (Belém), 12 pessoas (...). O nosso irmão <
J (-...) um missionário da fé apostólica (Assembléia de Deus).” ^
' A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA' PENTECOSTISTA" 191 1930 63

, : Este jornal que se diz “devotado a. propagar a Fé Apostólica”


V registra o nome “ fé a p o stólica ” com letra mihúscuía e
“Assembleia de Deus” com maiúscula. Fica implícito que os
dois nomes são usados alternadamente pára a mesrria igreja.
E,já havia uma propensãoaonomeAssembleia, pois no relato
que Frida Vingren faz de sua chegada ao Brasil, em 14 de
( julho de 1917, ela fala que havia uma placa de ‘Assembléia
de Deus” no templó (Vingren, 1973:87).
Abraão de Almeida, na 2a história (1982:27), no relato da
expulsão dos batistas, diz:

“Estes irmãos (segundo sua lista, 19 ao todô) resolveram


. organizar-se em igreja no dia .18 de junho de Í911 (...)'
inicialmente èhàmáda de Missão da Fe Apostólica (...) No
dia 11 de janeiro de 1918, foi registrada oficialmente como
' Assembléia de Deus, primeira igreja do mundo a. adotar
este nome. Não era uma igreja filiada a alguma missão
estrangeira, mas era genuinamente brasileira” (grifo do
autor). x , ' A ... ç ■< v ' V ..
M?
k ^ Esta 2a história, como já foi dito, é o livro de^Emílio Conde
|(qüe narra a I a história) que sofreu um ajuste têxtual em suà
Àedição que, ufanisticamente, cometeu o erro de dizer que foi a
B
Iprimeirá'Igreja do mundò a usar o nome, quando a ÀD já se
^áêiáifeiarã nos EUA em 1914, ha j^ u te m a la ’ épí; 1916 e ho
êxico em 1917.75 O livro H istória da Assembléia de Dèus em
1986:14) dá Uma boa pisfa para a questáo dò nome:

“Quanto à denominação Assembléia de Deus, o pioneiro


Manoel Rodrigues lembrava, em fim dos anos setenta, sobre
ç a primeira vez que se ventilou o assunto. Um grupo de
irmãos saía da congregação Vila Coroa'e se encontrava na
parada do bonde de Bernal do Couto. Vingren indagou a
respeito da questão e informou que nos Estados Unidos

75 Cf. Walker (Í990: 17 e 119), Hollenweger (1972) c Burgess (1988).


64 ' %■' ' ASSEMBLÉIA DE D E U S -O R IG E M ,JM p U n T A ^ O E MILITÂNCIA ’ !

' , haviam adotado o nome Assembléia de Deus ou Igreja 4


■r Pentecostal.76 Houve unanimidade em torno db primeiro
nome. Em 11 de janeiro de 1918, o título Assembléia de
Deus foi ollcialmente registrado.” j

Se assim aconteceu; mostra bem o caráter ainda não ' ;


institucional desta igreja: num a reunião iriform al, em um
pontb de bonde, se decide o novo nome da igreja! C V '
O certo é que, se em 1917 já havia um placa com o nome
Assembléia de Deus (como relata Frida Vingren), em 1913 o
nome ainda era M issão da Fé A põstólicd, segundo o relato do ■
diário de Vingren (173:55); ;

“Naquele tempo (1913) se escreviam muitos artigos contra


; os crentes. Havia também jornais que defendiam os crentes
. e as ondas de discussão iam bem altas. Até que um dia
, ; veió um redator de um jornálde Belém yerifícar o assunto.
.;r-- J Para alegria dos crentes, o redator desse diário defendeu- -
os contra os que os criticavam. Entre outras coisas escreveu , ;
esse redator que “os que pertencem a esta “Missão de fé
apostólica” (era o nome da igreja naquele tempo) só ^
permitem manifestações do Espirito Santo” (grifo do autor). "

Em 1911 iniciou-se &Missão da Fé Apostólica e somente em


1918 o nome Assembléia de Deus77 foi adotado oficialmente, e
isto passou deàpércebido como se fosse algo sèm importância,
o que não é. Qual a razão da mudança de M issão da Fé
Apostólica para Assembléia de Deusl
A MFA era a igreja dos negros pentecostais norte-
americanos e a AD era a igreja dos pentecostais brancos
76 O nom e Assembléia de^Deus, nos EÚA, já está estabelecido, mas Igreja Pentecostal ,
' é um termo genérico e não identifica nenhuma igreja èspecificamente, já que
muitas eram assim-denominadás: Isto, evidentemente, se deve à imprecisão da
tradição oral. ~, v ' ■ ■
77 N o grego ekklesia tou theon (igrejas deDèus), Apesar de não estar documentado,
ouvi pastores falarem, com um indisfarçável orgulho, que o nome da Igreja “está ‘
na Bíblia, diferente de outras por ai que são invenções humanas”. ,
• A, IM P LA N T A Ç Ã O D A "SEITA PENTECO STISTA" - 1 9 1 1 -1 9 3 0 , Ó5

. ■■ , :
•/(Freston, 1996:74-75; Hollenweger, 1972; 17). Há um fosso
\abismal entre estas duas denominações, é não são apenas
« diferenças teológicas,78 rrias socioeconômicas também. Á AD,
nos EUA, nasceu cqmo uma federação de igrejas que haviam
se pentecostalizado e não queriam identificação com o
' moVimento negró. Além disso, é até hoje uma organização
‘ congregacional. Originalmente, é urna igreja racista,7'5Por que
^ òs suecos optam por esta mudança? Suecos pobres e
~ marginais, eles não deveríam ter nenhuma afinidade com o
%home Assembléia de Deus,. Seria mais. lógico a sua identificação
1 çom a Missão da Fé Apostólica.
'' Nenhum dqs pastores entrevistados soube responder a-esta
questão.80 A lgu n s, inclusive, desconheciam que a Igreja havia
se cham ado MFA, outros achavam que o nome veio dos EUA
e outros, aihtía, q u e os suecos já eram m em bro s81 da AR
^ q u a n d o vieram para o B rasil.f2 iíâ o |há rténhüm registro nos
■>' jornais ou nas b io g ra fia s q u e explique isto. Se nos EUA a
questão racista influenciou a m udança, esta possibilidade,
$ aqui,, é q uase n u la ,83 afinal eles estavam construindo um a

/ 78N o cap. 1 foi discutifiá a questão teológica qüe provoca esta divisão.
79Segundo o texto do Bcumcnical News lntérnacionak “Os pentecostais se arrepèndem
dopecado dé racismo e dá divisão da igreja.” Uma reportagem do histórico enCont ro
5)’ de iíderes da Assembleià de Deiíss Igreja de Deus de Cleveland, Internacional do
A Evangelho Quadrangulàr, Igreja Pentecostal Hqlliness e rnais j 3 igrejas onde, com
^ uma solenidade de lavagem dos pés uns dos oiitros, oficializaram O lançamento dé
uma entidade multirracial qüe congregará brancoS e négròs pentecostais.
x 80 Um dós entrevistádos não admite, em hipótese alguma, esta condição racista da
j. A D norte-americana. Aliás, não admite a cond ido racista nem mesmo nos E U A ;
' tsso, segundo o mesmo, “não passa de propaganda enganosa” Ele já esteve diversas
' vezes nas igrejas'nos EUA e na Éüropá, erdisse'nunca ter vistp racismo nas igrej as.
81Alguns rejeitaram á jdeia de que a.AD foi fundada no Brasil por um pastòr-batista.
fo 82Aliás, mesmo sem afirmar taxátivamente, muitos autores, ao informarem que os
’ Ç fundadores da AD vieram dos EUA, deixam implícito isto como se não houvesse
* 1 ' nenhuma importância no fato7 Hahn ( 1988:338), citando Read, diz que a A D no
r *) Brasil é “uma.organizaçã<> segundo ós padrões das Assembléias dé Deus suecas”.
\ 81N o navio para rfBrasil “ eles éram os únicos passageiros brandos abordo, ó que,.
^ eniborá fosse uiria sensação nova,não deixava de sei uma preparação para a nova
ç. vida que estava à sua espera” (Berg, 1995:60).
66 ASSEMBLÉIA DE DEUS -,.ORIGEM, IMPLANTAÇÃO É.MILITÂNCIA '

ig reja de pobres-negros-mulatos-manielucos-colhedores de x
látex no norte do país. Ademais, os suecos são imigrantes *
igualmente pobres e profundaménte marginalizados. /
Na chegada do pentecostaliSmo aO Brasil, havia quaáe 30;
anos da assinatura da Lei Áurea (1888). Legalmente, no Brasil, p
não havia segregação racial; já se vivia em plena manifestação
da ‘cordialidade brasileira" (Freyre, 1993; Holanda, 1999). C
Portanto, não havia espaço para igrejas segregaçionistas '
típicas dos EUA.84 o conteúdo étnico que o pentecostalismo
tem em suas origens norte-americanas não 0 acompanhou i
aqui. No Brasil, todos os “ homens são livres mesmo em estado J
escravocrata” (Franco, 1997). Não há um sô texto hos jornais ^ '!
sobre a questão da escravatura ou sobre o racismo - brasileiro ■
ou norte-americano. Muitos ex-escravos estavam vivos ainda
e, pelo ambiente que a AD atingiu em todo o .Brasil, a igreja ;
deve ter recebido muitos deles como membros. A questão é
inexistente para os suecos. As, únicas referências - racistas,' ;
aliás - são no livro Despertam ento A p ostólico no Brasil, p
publicado em 1934, com Otto Nelson fazendo um relato do ‘
trabalho em Maceió (1915), que diz: 7Í

‘A primeira que recebeu o batismo com o Espíritú Santo foi *


uma irmã preta como carvão mas lavada no sangue de p
Jesus” (Vingren, 1987:66), e mais adiante, “ele é preto no ;
^ exterior, m as por dentro lavado no sangue de Jesus.”
(Vingren, 1987:66,77) - Á -p ^

v
M Ate no presente isto 6 válido, com o "diz Contins (1997:6): “ N o caso norte-
americano, os cultos peritecostais estão fortemente associados aos negros. Já no
con texto brasileiro, a questão da identificação entre a co re a religião não ápareçe
nitidam ente” ^ '
ígj
7 nh
^íIM P LAN TAÇ ÃO DA' ^SEITA PENTECOSTISTA" - 1911 -1 9 3 0 67

Üm comentário desses, escrito num livro em 1934,85 seria*,


tiniavelmênte, -“normal” , até hoje para nossos padrões de
v^fracismo cordial’.®6 ;
, J - Se nos EUA, além do racismo, a questão da bênção tripla
/ou dupla de alguma forma provoca a divisão, a dissidência
^rp Erasil se âeu, nas igrejás batista e presbiteriana', por çaiisa
pjá giossolalia. Nos EUA, a polêmica da bênção, provocou a
^exclusão de Durham (anteriormente pastor de Gunnar). por
'^§éymor (Hpllenweget, 1976:11), que antes jâ fora excluído de
íibipa Igreja dos Nazarenos, pela pastara negra Neeley Terry
i ^ ç à r , 1999.:2G; H0llépgewer, 1972:11).' E isto nos dá úm )
íijiíjtdíeio razoável para a questão do nome: é que, nos EUA, o
/tóovimehto pentecostal negro estava tão esfácelado87 que não
í|fayia possibilidade de se; constru iralgo' emufomo dele e
g u n n a r Vingren (ex-pastor batista), que em 1917 esteve nos
IpTUA, lá deve ter rèvisto diversos amigos/igrejas batistas que
use transformaram em AD, e traz a ideia para ò Brasil. Neste
^ è k ò d o de, 19| i a 1918 chegam ao Brasil, Otto Nelson e esposa
^ 1 9 1 4 ), Samuel Nystron e esposa (1916), Frida Standberg
^(para casar-se com Gunnar em 1917) e Joel Carlson e John
Não-há registro de suas igrejas de ofigerií
" ,a de Estocolmo?), mas é muito provável que eles, no
, já Conhecessem a AD.88 - * ,.V

Entre 1934 é 1941, leiís eugênicas foram adotadas pelo Parlamento sueco. A^
S&^proposta de “ Wgieneracial e social” vigorou durànte muitos anos na Suécia, còrn
^l.\?éstèrilização de mulheres para “preservação” da raça. Portanto, a imagem idílica da
tf»,, nação sueca não é tão real assim. Revista IstoÉ, n° 1592, 05/04/00, pág. 109.
fiijj*.Íí£ta éxpiessão, “racismo cordial”, foi amplamente usada numa pesquisaxeaíizada.
^ p ip elo DarqFoíha, ém 1994,onde demonstrou qüé;, Como cíizia Florestán Fernandes,
$j£l“o.brasileiro tem preconceito-de ter preconceito”. C- Á -;.-V U
/Ç^Q-MovLmeiito Pentecostal se manifesta em diferentes locais e igrejas e de formas
|çf%íístintasi Só em Los Angeles, ém 1966, havia nove comiínidadés pentécostáis
^ ^ q e g r a s diferentes não simpáticas entre-si. As interpretações - e diãpütas — eram
^iv*diversas (Holiengewer, 1972:10-11). • : . '
C çm certeza, eles não eram membros da AD, pois o Departamento Executivo do
wm&Concilio Geral das ADs nos EUA desde d início, sustentava seus missiõnáriós-e.
:6 8 ' ' ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

A expansão aleatória

“Crescimento é tanto mais notável quanto mais jovem é a


' denominação” (D’Epinay 1970:67). (

“A evangelização no Brasil tem sido realizada pelos pobres


é parã os pobres” Gondin,.1995:79), . :^

“O alvo de todos era ganhar o máximo possível de almas


pará o Senhor. Todos se esforçavam o máximo possível e o
resultado não tardou/ Surgiá urpa igreja após oútBâg|
(Vingren, 1973:82). 1. ■■ . - 1 ‘ :

“Eu tinha 20 anos, era professora epi .u m a " f a z e n d ^ | ^ '


dia eu fui à cidade. l.á minhas primas me chamaram p|rá
um culto na casas dos crentes, eu nunca tinha ouvido falar
de protestantes, de crente, de nada... eu só conhecia a Igreja
Católica. Sim, eu fui e achei muito bonito e lá aceitei a
Jesus. Voltei para a fazenda e comecei a fazer cultos... Eu
tocava violão, cantava os hinos que tinha aprendido e liá o
Evangelho que ganhei dos irmãos lá.na cidade... depois de
três meses o pastor foi lá e batizou 34 pessoas... assim
nasceu a AD lá....”.*89 . ’ o.

E sta n a rra tiv a é u m a típica h istória a s s e m b le ia n a dos


an tigos m em bros. In ú m eras histórias gom o estas aconteceram
no sertão B rasil a fora. Isto é contado e repetido como algo
corriqueiro, m as a o m esm o tem po f è n o m e n a l a s p é sso a s /
v e e m isto a p e n a s com o “m ila g re de D e u s”. É ótim o com o
reforço do d iscu rso a sse m b le ia n o bem caracterizado nestas
fra se s das en trevistas: •_ " .

1- “A s habilidades h u m a n a s n a d a valem, sem a operação do


Espírito Santo”: com o u m a jovem professora prim ária de
u n ia fa z e n d a no in terio r do Ceará, na décad a de 1930,

em 1919, foi organizado o Departamento de Missões Estrangeiras para coordenar


as atividades missionárias mundiais (Hurlbút, 1979:225).
89 Sénhora de 83 anos, esposa de um dos pastores entrevistados. .
• Á IMPIANTAÇÃO DA "SEITA PÊNTECOSTISJA" - 1911-1930 4'

apenas com o evangelho de João e cantando dois hinos


começa uma igreja?
/ 2.. “AD não precisa de uma liderança humana, pois quem fa:
. a obrà é Deus” : quem designou esta jovem para iniciar ;
mensagem pentecostal?
3 . “O ESpírito Santo é quem ensina e dá as palavras” , est;
moça pregou o que não teve oportunidade de aprender?
4. “Os pastores foram escolhidos por Deus para dirigir i
v■ Igreja” : esta mulher, quando questionada na entrevista
?, • “ por que a senhora mesmo não batizou as pessoas, já qu
foi qüem pregou e elas se converteram a partir de su.
-■ mensagem? Por que esperar o pastor, se foi a senhora quen
começou a Igreja?” Ela responde assustada- “ Eu? Pastor
pastor. Na Bíblia não tem mulher pastoral”

Tabela 3: A Expansão da A D em seus primeiros anos

Ü F/ LO CALIDADE P E S S O A /F O R M A
propaga-SE acompanhando a construção da linh
, 1911 ;.. PA R Á -interior
do trem Belém-Bragança.
1911' PARAÍBA E R. Gde. um fazendeiro, após uma revelação, visita diversa
NORTE cidades; depois ò pastor vem batizando pessoas ei
23 localidade^. (Vingren, 1987:21)
1914 CEARÁ - Serra de 1, Maria de Nazaré resolve visitar parentes.19V
Uruburetama Vingren visita o Ceará e já encontra uma igreja.

1914 ; T A M A Z O N A S ; ; perto da frontèira còm a Venezuela havia um irmã


que fora batizado no Espirito Santo ru- Cear:
(Vingren, 1987:40)
1915 - ; A LA G O A S ^ irmão visitando parentes.
1928/29(?) ; BAHIA - Canaviéiras uma irmã visita seus parentes. (Vingren, 1987:71
Em 1930 já havia uma igreja.

antesde 1920 R IO DE JANEIRO i Gunnar Vingren faz Uma visita a uma família qu
veio do Norte. Há um grupo de 20 pessoas. (Vingrei
1973:98) ' '
antes de 1924 ' E S P ÍR ITO SANTO Daniel Berg chega em 1924 e já havia convertido:

1923 (?) , SÃO PAULO - Santos “pessoas do Nórté à procura de emprego no Sul
(Vingren, 1987:91)
70 A s s e m b l é ia d e d e u s - o r ig e m , im p l a n t a ç ã o e m il it â n c ia

A AD, iniciada em 1911 no Pará,'chegou em 1914 ao Ceará,


em 1015 a Alagoas, em 1916 a Pemambücp e Amapá e, em
1924, alcançou o Rio Grande do Sul. Nos seus primeiros vinte
anos, alcançou todo o país. A disseminação dá igreja foi
■desordenada, aleatória e acidental, mas persistente.. Como ela
não contou com um órgão administrativo/estratégico909 *.para
1
^elaborar um plano de ação e sua liderança no primeiro momento
parece não ter consciência do que estava acontecendo, ela foi
se alastrando e crescendo de qualquer modo. Isto não é
n ecessariam en te um fenôm eno in édito, pois todos os*
movimentos sociais,, notadarnenté religiosos carismáticos, têm-
inicialm ente um crescimento explosivo e no decorrer da
caminhada vão sofrendo um processo de acomodação.

“Nos seus primeiros anos nò Brasil, os novos crentes, cheios


de um entusiasmo contagiante, não preocuparam as igrejas
históricas, fossem elas frutos da imigração europeia
(anglicanos, luteranos) ou de missões norte-americanas
(congregácionais, presbiterianos, nrètodistás, -batista,
episcopais). Algum as dessas confissões contavam com
mais de meio século de existência e uma estrutura nacional
bastante estável, embora em grande escala dependente de
seus países de origem” (César, 1999:22)

fgrejas são abertas sem ter pastores para cuidar delas;


pessoas são batizadas nas águas (efetivan do, assim, a
filiação), mas não há obreiroá credenciados para lhes ministrar
a Santa Ceia;01 missionános chegam do exterior sem definição

90 C om o existe, por exemplo, na A D dos EUA (Hurlbut, 1979).' --


91Pelo visto, nesta época ainda não há o costume da celebração religiosa de casamentos.
C om exceção do casamento de Gunnar e Frida Vingren, realizado em 1917 em
Belém p or Samuel Nystron.(qual a validade do mesmo juridicamente também.
não é explicado) não há um registro spbre a problerháticádos casamentos. O que
fica implícito é que, nas regiões ribeirinhas e sertões, os casais viviam juntos sem
a oficialização do matrimônio, - ' .
' A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PENTECOSTISTA” - 1 9 1 1 - 1 9 3 0 71

dé igrejas e Locais de trabalho.92 Há seguidas cartas,, nos


- periódicos da época; de pessoás^e diferentes.cidãdes/poyoados
pedindo visita pastoral. ^ >

“No ano de 1927 (...) considerando-se a falta de pastores e


evangelistas, e atendendo ao fato-de muitas igrejas passarem
meses seguidos sem visita de obreiros, iniciou-se o que se
pôde chamar de trabalho de evangelismo itinerante" (1‘
história, Conde, 1960:56) - ■ -

, já no segundo ano de existência da igreja, em 1913 ( I a


história, Conde, 1960:32), Vingren inicia a consagração de
•pastores brasileiros93 para ajudá-lo. Em cinco anos, cinco
pastores foram consagrados - e Daniel Berg, em seu ministério
, de colportagem no interior, começa a cair no ostracismo. *

y Tabela 4: Q uadro estatístico da Igreja em Belém94 (1911-1914)

ANO BATIZADOS NAS Á G U AS BATIZADOS C O M 0 E S P IR IT Q ^ Ã N T O

1911. ■'"‘.V .. : ' 13 ' '• ' '•••■ .' \ .. . 4 : '


1912 ' 41 v V v ,--. ' . 15 -: ^ -
1&13 140 12 1 . ' ■ .
1914 doo ■ Y; . - ' . ■ 136 ....
Total 384 ^ ____
_ - . . 296 Y - . . .

/£' 92 N ão M nenhum dado sobre esta questão, mas os registros históricos apenas
informam que “ tal” missionário chegóú e foi para “ tal” local. Fica iniplícito que
rr não houve uma programação anterior para tanto. ;
' 93A partir deste episódio, começou a se delinear o perfil dos obreiros assembleianos
no Brasil: brasileiros iriam tocar o projeto. ■ V'
94 Cf. Vingren (1973:59). -V
72 . . ,:■ / ' ASSEMBLÉIA DE D E U S - 0R(GEM, ^P 1>;N TA (^Q E .M I1ITÂ N Ç IA :.

Esta é uma estatística questionável, mas, registrada no


diário de Vingren; possui o seu valor histórico. 'A igreja
começou coní 13 pessoas ou com os 18 expulsos da Igreja
Batista? Um dado chama a atenção: o número de membros
batizados nas águas, a cada ano, está maior do que o de
batizados com o. Espírito Santo. Em três anos a igreja já perde
um pouco de seu “ ímpeto” pentecostal? Seria exagero falar,
neste momento, de rotinização do carisma, até porque é a
partir deste período que a igreja tem o crescimento, já citado,
de 600.p.00% em quatro décadas. No entanto, o aspecto
pneumatológico da manifestação da glossolaiia vai, pouco a
pouco, tendo menor ênfase.95 -
Em 1938, a AD já chamava atenção da Igreja Católica, pois
o padre Agnelo Rçssi la n p u um livro chamadq D iretório
Protestante rio B rasil, como um brado de advertência para'
sua igreja contra, segundo ele, o “ perigo protestante” . Este
movimento foi seguido por um zelo tão intenso que, em poucos'
anos, espalhou-se por todo o mundo” .96

95Em qualquer igreja A D na classe média, já não háa ênfase naglossalalia , como nas
antigas igrejas, como também nas reuniões mais periféricas,
96 Apüd. César, 1999:22.
; A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PENTECOSTISTA" - 1 91 T -l 93.0 73

A prise da borracha ajuda na expansão da A D

“Nenhuma organização,religiosa foi tão combatida, tão mal


compreendida e recebida com tantas reser\'as, suspeitas e
malquerenças, quanto fói o movimento pentecostal. Porém,
também é certo que nenhum outro movimento cresceu tanto
em igual período, nem se projetou com tanta rapidez, como
as Assembléias de Deus, apesar de as piesmas não contarem
com recursos financeiros, nem possuírem destacados
valores intelectuais” (1 “ história, Conde, 1960:7).

Este texto de Emílio Conde não é falso, mas também não é de


todo verdadeiro. Primeiro, porque no mesmo período as demais
denominações protestantes e outras manifestações religiosas
também foram perseguidas;97 segundo, porque em parte a
perseguição pentecostal era também resposta ao seu avanço
progelitista que dizimava algumás igrejas tradicionais dà.época.98.
Por ú ltim o, de fato, se com parada com as dem ais
denominações, a AD não tinha o poder financeiro vindo do
exterior,99 mas estava tornando-se forte do ponto de vista
q u a n tita tiv o (e logo, obyiam en te, se torn a ria forte
financeiramente) e já conta com “valores intelectuais” - ele,
■1.' r ■ ; .:/r7- ■ : !r_. • \
97 Õs cultosafro.defínitivamente, foram asmanifestações religiosas mais perseguidas
no Brasil, desde o .século passado até bem recente. (Prandi, 1991) O espiritismo,
chegou a ser considerado “ malefício social” pela Constituição de 1884 - Guimbelli
(1997). Pr. José Rego (1942:34) em suç História da Assembléia de Deus rto Ceàrâ,
registra que a polícia prendeu um grupfo dé crentes confundindo -os com ürh
“grupo de cátimbózeiros e comunistas” mas logo após perceber o engano os
crentes foram soltos. ' -7. • • / ■ ;v :■’ •
- 9S Kvidenteinente, o registro desse aspecto nos jornais é feito em torri ufanista:
igrejas inteiras, como batístàs, presbiterianas e átè a Congregação Cristã se tomam
assembleiarias. (Virigren, l973:d4; 89:92) Fàtò histórico de difícil comprovação, .
pois ó^historiadoíbs das demais dehomináçõesnãõ. registraram isto, obviamente.
Portanto, temos apenas a versão assembleiana.
C o lh o mera ilustração, a Igreja Presbiteriana teifí o Mâckenzie.em Sãò Paulo, o i
Instituto Gammon, em Minas Gerais, ambas-instituições nascidas e sustentadas
com verba estrangeira. ^
74 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Emílio Conde, é um bom exemplo disto,100*Para toda a literatura


da igreja sua expansão é - apenas - “obra dò Espírito Santo” .
Pode ter sido, mas a crise da borracha ajudou muito.
B oris Fausto (1 9 9 9 ), quando analisou os processos
migratórios dos Censos de 1920 e 1940, acentuou algo muito
interessante, Apesar do aüniento da população, de- 30,6
milhões para 41,1 milhões do habitantes, ò crescimento da
população urbana não foi correspondente. Ou seja:

“ os imigrantes não se dirigiram em regra para as cidades,


ou pelo menos para cidades de razoáveis proporções (...) o
Norte (região) apresentou uma elevada taxa negativa de
migração interna (-13,72%), como resultadp da crise da
borracha. Foi, em grande medida, um movimento de retorno
dos nordestinos para sua região de origem”.10!

: Até 1918, a borracha, em termos comérciáis, era'o segundo


produto mais importante no Brasil, representando em 1910,
o auge da produção, ou seja, 25,7% das exportações. A partir
daí houve o declínio, quando á Ásia entrou no mercado, pois,
em 1910, detinha 13% da produção mundial, mas em 1915
chegou a espantosos 68%. A Região Amazônica, que de 1890
a 1900 sofreu migração líquida de mais 110 mil pessoas vindás

100 Em ílio Conde (08/10/01—05/01/71) foi uma figura ímpar na A l). Poliglota, .
trabalhou com exportação e em h o fé is n o R io deJaneiro/Çonverteu-sena
Congregação Cristã dp Brasil. represehtou o Brasil em Conferências Mundiais e 7
recusou a ordenação ministerial (Gosta( l985:157j. Escreveu os Uwos: Asas âo ,
ideal, Igrejas sem brilho, O homem,Pentecosteparatòdos,Nosdpmíniosdàfé, ]
Caminhos do mundo, Flores do meu jardim, Tesouros de conhecirnentos bíbjicos,
Estudos da palavra e a 1“ história da A I). Hollenweger, no artigo que publicou na
Revista Simpósio, it° 3, de junho dè 1969,; diz que ele tinha jum doutorado em
filosofia na França, más quando lançoü seiilivro El PenjêcostaJisntó, em'1976,
excluiu esta informação. Com o era celibatário, não há nenhum descendente
para-confirmar ou desmentiç tal informação. Ahás, sobrem mesmo, há diversas'
histórias, no mínimo sui genèris, sem comprovação.
Ibidem, 390. -: . . .
/)’;< - ". . _ . • ; ■, A. \ : '
A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PÈNTÉCÓSTISTA" - 1911 -1 9 3 0 .■ ' 75

principalm en te do Ceará, a partir de en tão sofreu um


rétraimento na extração de borracha.102 Os missionários suecos
chegaram no início da queda da produção de borracha. Há, a
partir daí, üm processo imigratório de retomo para seus Estados
de origem - e a mensagem perttecostal ós acompanha!103
P A tabela 3, mesmo sem todos os dados, de algum modo
confirma isto. Mesmo sem.dadòs estatísticos específicos dé cada
Estado, pelos livros de história da AD é possível perceber que o
Ceará foi o segundo Estado brasileiro a receber a mensagem
pentécoçtal, segu indo-se a ele diversos outros Estados
nordestinos e nortistas, e os mensageiros sempre foram pessoas
que retornaram à súa parentela para anunciar o evangelho.
Como já foi ditò, não há uma “decisão da liderança da igreja
em prol da evangeiizáção do país” ; há sim, uma dispersão
indisciplinada de pessoas - homens e mulheres - retornando
. às suas antigas cidades-. Aliás, a liderança da AD jamais enviaria
mulheres para o campo e, a pioneira cearénse foi Maria de
Nazaré. Invariavelmente, a AD iniçia seus trabalhos nos
Estados, em alguma cidade do interior, e não na capital.

“Não fora qualquer missionário nem mesmo qualquer


obreiro credçnciadp quem levara a mensagem pentecostal
ao Estado do Ceará; nãò foi um varão (...) uma mulher
A p ': v humilde, mas ardendo de zelo (...) desejou que seus parentes
também conhecessem as Boas N o vas é o Evangelho
' Completo” ( I a história, Conde, 1960:113-4).

^ Nos relatos da expansão da AD pelos Estados; os pastores/


missionários chegam para realizar batismos e oficializar a

102U m dos entrevistados contou que seq pai falava da lembrança mais forte que ele '
tinha de Belém dp Pará, que era üma multidão de desempregados ào cais^à
procura de serviço. . ■
v 103 Çf. Mendonça (1984) O Celeste. Porvir, em que o autor analisa o crescimento do
) protestantismo acompanhando o ciclo do Café em São Paulo. -
76 . ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

igreja, mas quem as iniciou? çjuando e como a mensagem


pentecostal chegou a esses municípios? Quem reuniu o grupo
e ensinou-lhe, inclusive, da necessidade do batismo? Gente
ajiônima - a militância assembleiana, c ; ' 7 Ã

. 1 “Como era maravilhoso nos reunirmos para, cantar, orar,


testificar e louvar ao Senhor, enquanto os corações estavam
transbordando dte alegria e gozo; Nã verdade, alinãohavia
cerimônia de nenhuma espécie, mas q povo de Deus se .
reunia com toda a simplicidade para lo W a r q Senhor. E o
santo fogo do Espírito Santo se espalhava cada vez mais
entre os moradores das margens dos diferentes rios”
(Vingren, 1973:42). ; c ; 7 : v ,

JORNAIS: O PR IN C ÍPIO ' DA MODERNIDADE

À experiência pioneira de 1917: Voz da Verdade

Lançado em novembro de 1917, en> Belém do Pará, pelos


pastores Almeida Sobrinho e João Triguiero104* ( I a história,
Conde, 1960:41), o jornal Voz da Verdade parece ter tido um
único núm ero. Na prim eira página há uma m atéria
autojustificativa: “Voz da Verdade” (o título é um primor para
o movimento nascente), é uma publicação gratuita,108 não visa
contenda (mesmo com este tftulo?), Uão esta ligado a nenhuma
associação e “não é propriedade de uma seita” . Diz-se, ainda,
um “organi devotado a propagar a Fé Apostólica” (estamos
conservando a grafia original). " C

104Nenhum desses nomes consta nalista de.cpnsagrações feitas pelos súecòsçportantó, r


não sabemos se eles. aderiram à AIT já pastores ou'se são-consagrados por ela. ; '
C om o Weher,acentua, não há rélaçao econômica numa dominação carismática,
só aparecendo a partir de sua tradicionaiização. O jornal A Voz Pentecostal
(Rècife, 02/1933, ano 1) também se apresenta como de distribuição gratuita.
m . A . ■ ■ •
í A IM P LA N T A Ç Ã Íp D A "SEITA; P EN TEC O S TIS TA" - 19 1 1 - 1 ^ 3 0 77
'/; ).:■■' .. v' ■■ li'
Parece independente demais paia os padrões de liderança
Asueca, ta lvez por: isso seu fim é inform ado por C o n d e -
(1960:346), assim: -

“Em 1919, Gunnar Vingren, Otto Nelson e outro, fundaram


em Belém, Pará, o jornal Boa Semente, que passou a ser
■" ' órgão oficial da Igreja, pois Voz da Verdade que se publicou
À.'- em 1917 deixou de existir, e não era órgão ofrciál da Igreja”.
vA-*' ■7- v",: ■- ~ :■ V ■7 . 7 ,7; " ~ .
Como e por que deixou de existir está dentro da categoria
• dos silêncios da história dá AD, mas é fácil presumir-,
1 . Este jornal foi projpto de dois brasileiros e não dos suecos .
(foram consultados?);
;.;'2óOs suecos estavarn mais propensos à AD do que à MFA-.
3. O jornal não estava ligado a ninguém, mas iria defender a
; f p apostólica-, '
• 4. Ouem iria financiá-jo?; ,l
" ç. O título de Rev. Almeida Sobrinho colocado na capa agradou
aos stíecos?;106 '
6. A AD, em 1917, com exceção desses dois, já deveria ter oito
pastores, cinco brasileiros (Conde, .1960:32) e três (?)
suecos,'oy e nenhum deles estava na liderança do jornal;
'l 7 . Pelo cunho apologético do texto de abertura, o jornal se
dirigia muito mais ao público externo. Algo bem distinto
dá tônica do jornal Boa Semente, que: sempre foi mais
dirigido âo ;púplico internòf
8’. O jornal Voz da Verdade é çompletamente omitido na
i biografia de Vingren. Para qUem fez 25 diários em dez anos,

16Se sim ou se não, não sabemos, porém, sabemos que este foi o único reverendo
7âssembleianov pqis a A D nunca adotou esta nom enclatura típica d o s

I presbiterianos.
Otto Nelson e Samuel Nystron estavam no Brasil desde 1914 e 1916 respectivamente,
mas não sè sabe se elés chegaram com os títulos óu se os receberam n o B ra s il.
78 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANtAÇAO E MILITÂNCIA i

seria um “ esquecimento” imperdoável. Ou sua opinião


não favorável - foi excluída na edição feita por seu filho? 'p

Som Alegre: um a dissidência carioca? -

A A D iniciou-se no Rio de Janeiro com uma família vinda de


Belém, ainda na década de 1910, pois em 1920 Gunnar Vingren, .. \
em visita ao Rio, lá encontrou um grupo (Vingren, 1973:98). O
Rio de Janeiro era a capital federal e a mais importante cidade
do país. Vingren resolveu, portanto, deixar a igreja de Belém
nas mãos de Samuel Nystron e assumir esta igreja, iniciando e
um jornal chamado Som Alegre. Portanto, temos agora dois
jornais assembleianos num país com maioria analfabeta.
Qual a razão desse jornal? Por que não juntar forças ao
Boa Sem ente que estava sendo feito em Belém? Era uma
estratégia de divulgação para amenizar a dificuldade de
transporte e correio num país continentar oü começava aqui
a disputa de poder entre as igrejas/lidéranças?
Es te é outro silêncio da história da AD. E mais, o Som Alegre
desapareceu completamente do cenário. Não há uma única
cópia na CPAD pu na sede dos Ministérios mais importantes
do Brasil.108 Nenhum dos pastores entrevistados tem uma
cópia ou se lembra de têrlo visto; outros, ainda, confundem o
Boa Semente com o Som Alegre, como se fossem apenas um.
Enfim, o jornal do Rio de Janeiro, qüte disputou espaço cOm d
jornal de Belém, a igreja mãe, desapareceu.

Uma palavra oficial: B oa Sem ente (1919-29)

O jornal Boa Sem ente foi, portanto, a primeira palavra


oficiai da AD. Lançando em 1919 em Belém do Pará, já era um

108 Foram contatados as Igrejas Sedes dos M inistériosem Belém-PA, Manaus-AM,


, Madureira-RJ, São Gristóvão-Rj, Penha-RJ, Brás-SP c Belétn-SP c, em nenhuma
dessas igrejas há qualquer exemplar do jornal. Aliás, a maioria das pessoas
/ consultadas sequer ouviu'falar do mesmo.
" A IMPLANTAÇÃÓ DA "SÉITÁ PESlTECOSKSTA" - 1 9 1 1 -1 930 - ' 79'

indício da burocratização: a mensagem precisa ser oficializada.


CFoi também uma demonstração da. preocupação sueca em não
-perder o controle sobre a “obra” . Samuel Nystron e Gunnar
'yVingren foram seus os diretores - e aqui nascem os títulos
na AD. .■ ' 7'7 ' 7; ' V ■ v
Os números das tabulações abaixo são o retrato dessa
igreja; e isto nãò é o que se diz sobre ela, é o que ela diz sobre
si mesma. .. ' ■; •• . ' ' -7 / . "

As ênfases teológicas do Boa Sem ente 7

: Tabela 5: Tabulações do Jornal Boa Sem ente — 1919-1929

Tem a Total % Produção Produção P rod uçãp P rod ução '


Fem inina Masculina •N acional
- ' '
Estrangeira

1 Compromisso •7 0 7 20.1 6 ’ ‘ 64 63 , 7 •
2 Evangelismo 33 9.4 . 1 íy 32 32 '.'7 1 ■.

,3 Poesia . 7 - : . 10 <3 32 . 35 • ... o


4 Apologia - 36 10.3 4' ’ , ' 7 34 A 8 7 :
- ; 28 ,
5 Doutrina 54 15.5 ■„ - y\ ...... ,, 53 .51 - ■' • 3 . r.,
6 Escatologia ,- . 22 ;; 6.3 * 2 : 20 18 4-■'

7 Pessoa de Jesus Cristo 47 13.5 2 45 41 ; ' 6

8 ' Conforto naTribolação 13 3.7 • 2 - 11 7 / : 9. '■ • 4 .

9 Oração 10 2.9 / 2 ■; ' ~ 3 - 10 0

10 Diversos 29.- 8.3 7 ' , ? A ■ 27 7 • V 4-


. J' ‘
10 T O T A L 349 25 7 ; 324 ' 312 37 v,

A temática do jo ín a í poderia ser resumida da seguinte


maneira: ,. ■7 -7-*7;..' 7 : .:7 7 : J 7
Compromisso. Foi a tônica principal e necessária, A igreja
nascente precisava disciplinar, seüs membros pará a luta e os
mesmos não podiam vacilar diante das intempéries que se
: apresentam O jofnãl era panfletariamerite evàttgelístico:. o
80 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

leitor (ou, como diria Weber, o adepto) era peça fundamental


da história e, portanto, precisava se envolver, dar o sangue,!
a vida. Em linguagem weberiana, isso daria a legitimidade. O
discurso do jornal serviu de reforço para esta mensagem. Todos
os textos dentro desta categoria se objetivam: 1 . conclamar
os,leitores/adeptos a se envolverem com a obra; 2 . fazê-los
entender que isto é prioritário e absoluto. v
, D outrina e Pessoa de Jesus Cristo. Nada mais óbvio, essa
nascente igreja precisava de uma fundamentação teológica/
bíblica. Nesta categoria estão os textos sobre salvação,
nascimento e morte de Jesus, santa ceia, batismos ètc. T
Apologia Pentecostal Qual a exegese usada nos textos bíblicos
para a fundamentação da doutrina da contemporaneidade da
. ação do Espírito Santo? Se falarmos de exegese clássica no sentido
técnico de interpretação, a partir das línguas originais, nenhuma.
Não há um só texto109 que faça alusão a isto - mesmo que
isto riáo seja “ erro” apenàs dos pentecostais, os opositores
; que escrevem contra a “heresia dos pentécostistas” em outros
jornais também não realizam e^ta exegese técnica 110 Todos -
contra ou a favor,,- trabaljham com o dado da experiência:
“ acontecéu comigo” , “dizem os pentecostais” ; “ isto aconteceu
apenas no período bíblico e não mais comigo” , dizem os
op ositores. 111 A tônica do jornal èra herm eneiiticam ente
experim ental. A Bíblia é literalizadá e experiencialr.o textodiz,

l0?:Quem na A D nesse momento pòderia fazer isto? Apenas Gurinar Vingren tèín
um curso deteolqgia dexpiatro anos de duração no Seminário Batista Sueco, em 1
Chicago, EUA. / / ■;
110 N o Jofrial Expositor -mensageiro evangélico, da Igreja Presbitériana, na coleção
dé 1935 a 194Q, há alguns artigos coiitra a “ heresia ,dos pentecostistas” que
-, argumentam simplesmente, cura?, batismos, revçlações, líhguas;são para o período
dos Atos dos Apóstolos. H oje não mais. - - 1 J■
111‘‘Deus não fala mâi$ diretamente aósliomens hoje”, foi a respostasque o Çonsistório :
Pçesbiferianp Brasileiro recebeu da Missão Norte-kmericana, quando da consulta
sobre as manifestações iluministas do Dr. Miguel Vieira Perreira que, expulso,
fundou a lgreja Evangélica Brasileira em 11/09/1879 (Leonárd, 1988).
P ^ r ó P L A N T A Ç Â O D A ^SEITA P BN TEC O STiSTA" - 1 9 1 1 - 1 9 3 0 81

ií*).'."-.---' - ' ■ ' '•'.


. então acontece, E acontece hoje. Aliás, esta deve ser uma das
| principais singularidades da teologia peritecostal, e mais uma
| vez a leitura do jornal reforça o discurso m ilitante na medida
a em que, pessoas de todas as partes do país estão recebendo as
J mesmas'curas, revelações, perseguições e batismos com o
! Espírito Santo e estão relatando nas páginas dò jornal'umas
às outras.

fi As singularidade? da mensagem pentecostal

|‘ Tais perspectivas são muito importantes para a construção


'' da igreja neste momento e elas precisam sér entendidas “ por
s dentro” para que, assim, se possa avaliar melhor a igreja.112
Jr  questão da experiência é fundamental para o indivíduo É
preciso haver uma experiência de salvação, uma experiência
; de batismo no Espírito Santo e este, como consequência daquele,
^■•Vé tão ou mais importante quanto. Como consequência, “ é
| preciso” sofrer perseguição como atestado comunitário de
. veracidade. - --'j-
Quase desnecessário é lembrar que as ênfases do primeiro
? momento do pentecostalismo forám viscèralmente distintas
f.. das atuais. Enquanto hoje a ênfase está no exorcismo, na
v prosperidade, na bênção ê no pòderpolítico, no início do século
A o pentecostalismo enfatizava o batismo (glossolalia), a cura
§Ç. e a santidade pessoal - isto, ainda mais no restrito espaço
; dos templos e residências familiares. Bem diverso da pregação
; neopentecostal, hoje feita ern cadeia nacional de TV.
r “ Meu p en tecoste” : a experiên cia pomò :rea lid a d e
legalizadora do indivíduo. Como se deu e o que é o pentecoste?

112“ Eu não podería esperar compreender o cpje estava acontecendo no pensamento


e na vidade pessoas que faziam parte dessesrnovirnentòs a menos que fizesse um
grande esforço para penetrar emseu rnúndo, compreender e experimentar a sua
fé de dentro de sua realidade” Shaull (1999:153), aut César (1999).
82 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

“ É o evento fundante da vivência pentecostal, pois dele toma


0 ríomé e nele seihspira em suaorganização interna e vocação
missionária"11314(Campos, 1996:61). O pentecoste não é apenas '
um evento histórico, datado e fixó no passado, ele pode - e
deve - ser repetido fenomenologicamente em cada indivíduo,
da mesma forma comova experiência da salvação ou ò “ dia da
conversão” . Não há nos textos qualquer diferenciação entre
uma experiência e outra; ambas são necessidades a serem
vivenciadas. Há ao contrário uma “mistura” das experiências.
Como é a experiêncià/adepto quem comprova e atesta o
carisma, então, mês após mês os testemunhos/artigos se .
repetem, contando que em diferentes lugares e ocasiões
“ pecadores aceitaram a Jesus e foram batizados com o Espírito
Santo” . “A experiência de fé era muito mais importante do
que sua com preensão sistem ática e ra cion al” (Shaull,
1999:153). Vingren diz em seu diário’ quê “ muitos tiveram
seu Pentecoste nesse tempo” (Vingren, 1973:57). • ^
Que hermenêutica bíblica, se faz pisto? Como foi dito, no
sentido técnico de exegese dos textos bíblicos com análise das
línguas originais, nenhuma. Que importam os textos, se cada
um tem a experiênçia/verdade? Os testemunhos/artigos
assumem uma “conotação ainda Tnaior. de verdade” quando
partem de um ex-batista, de ex-presbitériano etc.
G Pentecoste é ‘‘núcleo querigmátiçoCfúudáute” (Càm^õs
M., 1996), ele é origem, fundamento e razão de ser deste novo
indivíduo. Origem, porque uma igreja com poucos anos de
vida diante de outras centenárias precisa apelar para algo
a n terio r (d a í, os A tos dos A p ó sto lo s) como form a de
1 egi li mação; 11 'fu n d a m en to porque, mais uma vez, todas as
demais têm séculos de história teológica, credos, nomes

113 Esta conceituação da experiência-é baseada em Bernardo Campos, Na força do


Espírito: pentecostàlismo, teologia e ética soríal, tn Gutíérrez:(1996). ; ’’
114 Esta necessidade todas as igrejas protestantes tinham —e têm - diante da Igteja
Católica com o ò ramo origincil do cristianismo.
A IMPLANTAÇÃO DA "SEITA PENTECOÍSTISTA" - 19TV-1930 . ' ' • 83

(Calvino, Wesley,, Confissão de Westminster), e na falta de algo


similar, apela-se. a um evento;115^razãó do novo indivíduo, 116 J
porque um crente “cheio dó poder” é diferente - e nisso há
implicações éticas,' sociais.

^ “ M u lh e r o u h o m e m , tu d o in d ic a h a v e r u m a n te s e u m
d e p o is , s e ja c o n v e r s ã o o u r e c o n v e r s ã o : d a r o t i n a r e li g i o s a ,
1 p a r a o s a l t o d a e m ó ç ã o d ê u m a fé r a d i c a l ” (C é s a r, 1 9 9 9 : 2 9 ) .

Teodiceia do sojfifnento;xxl A perseguição como realidade


íegalizadora da comunidadel Perseguição não é um acidente
de percurso, um tropeço na caminhada ou uma dificuldade
episódica, mas um acontecimento natural, diria mesmo,
. necessário para confirmação dá mensagem pentecostal. Por
, que a AD é perseguida? Porque é verdadeira.
Em repetidos textos, há o seguinte raciocínio: A Igreja
Primitiva que aparece em Atos dos Apóstolos erá perseguida?
• Sim, então ã AD também deve ser. Quem perseguia â igreja?
Os doutores da lei, os religiosos oficiais, os sábios, os homèns
do poder, os pecadores. Quem está perseguindo a mensagem
■ pentecostal hoje? Ós pastores form ados em sem inários
(batistas, presbiterianos etc,), os religiosos oficiais (na Suécia,
os luteranos; no Brasil, Ós padres), os Sábios (jornalistas), os
poderosos (fazendeiros), ospecadpres (hêÓados, arfuaceiros).
-Esta é a leitura, como consequência da ênfase experiencial
anterior, que ps assembleianos fizeram da perseguição, pies
foram presos, apedrejados pelos padres, expulsos de cpsa por

' ,115 N os diários de Gunnar Vingrem sobre a situação deles ao se despedirem de süa
igreja de origem em Chicago rumo ao Brasil, ele escrèvem.“A li estávamos os dois
sem nenhum recurso, sem pertencer a nenhuma denominação, pertencendo
"r somente à denominação que está no céu” (Vingren, 1973;25). • ;
' llf>Cif. Mariz, Cecília L „ Alcóolismólgênero epentecostalismo, m Religião e Sociedade, 'I
; ISKR, vol. 16, n° 3, maio de 1994 (pág. 80-93).
,; 1,7 Estou utilizando o conceito de Weber. '
(-
84 , \ ASSEMBLEIÀPE 0ÉUS -ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
a ... ■■■■■. •. ■'" , '

seus familiares é, então, escrevem um artigo para o jornal


■- usando pste texto bíblico: . ■ .Ã c ' ■ ; ' :'v t

Chamando os apóstolos, açoitaram-nos e, ordenando-lhes


que não falassem em o nome de Jesus, os soltaram. E eles
1 \ se retiraram do Slnédrio, regozijando-se por terem sido
considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome ~
■ Atos 5.40,41. --V / t . - -A c

, A tônica foi “ somos perseguidos, somos verdadeiros” .


'■ Simplismo? Pode Ser. Alas.uma igreja formadq por imigrantes
pobres e seringueiros desempregados, perseguidos péla Igreja
C atólica e esnobados pelas denominações protestantes,
precisava de uma “razão espiritual” para sobreviver. A teodiceía
■■ do s o frim e n to tra n sform ou o escárnio em privilégio e a '
marginalizaçâo social em participação do sofrimento por amor
de Cristo. Isto- foi uma tremenda reviravolta, na lógica do
sofrim ento. 118 A ideia de perseguição como legitimação da-
verdade foi excepcional para a AD naquele momento. De fora,
*\ a leitura feita foi a de se tratar de um bando alienado de
fanáticos, mas a leitura interna foi a de que eram “ privilegiados
por sofrerem pela causa de Cristo”. Isto, evidentemente, fez
uma tremenda diferença ná agressividade evángelísticá dá ÀD,
Berger, ao se referir a esta expressão weberiana, copientou que
ela “empresta sentido ao sofrimento, de modo a transformá-lo
1 de fonte-de revelação em fonte de redenção” (1976? 123).
Aqui não há á “barganha cósmica”,119 ou o “é dando que
. se recebe” , típico da teologia da prosperidade que atualmente
na u m a reviravolta jnüitç interessante é efetuada por Wilson Gomes em Nem anjos
nem demônios: cinco:teses equivocadas sobre as novas seitas populares (1994), sobre
a questão financeira. Todos criticam o mercenarismo das nçvas igrejas ém tomar
dinhéiro dè gente pobre, mas Gomes faz uma leitura inversa; a alegria e dignidade
queisto produz no pobre em jjoder dar e, ainda mais, dar para Deus. Fazer dele um
parceiro. Pode-se rião aceitar/o argumento, mas foi, no mínimo, inovadorv
“ *Expressão cunhada para exigência da oferta por W ilson Gomes, em Demôàios do
fim do século - curas, ofertas e exorcismo na Igreja Universal do Reino de Deus,
Cadernos de CEAS, n° Í46, julho-agosto, 1993.
ãfi*’:a- . ■■ .. > ■..... - ■r
' À IM P LA N T A Ç Ã O D A "S O T A P EN TEC O STISTA" - 1 9 1 1 -1 9 3 0 , Ç , 85

■;é marca nas chamadas igrejas neopentecostais. 120 Os adeptos


ifpão estão esperando enriquecer, te r saúde e assumir o poder
í político, até porque, como pentecostais neste mom em o,
f nenhuma destas perspectivas lhes é possível; ao contrário. O
'í esperado mesmo é o inverso do enriquecimento: pobreza; cm
■vez de saúde, muita perseguição. 0 poder político é uma
[/possibilidade inimaginável e até mesmo não desejada, porque
escatologicamente, no futuro, éspera-se apenas a vinda de
” Jesus.-Segundo André Cprten (1999), o discurso teológico da
.1teologia daprosperidadeofusca o texmo salvação com o termo
'.solução-, aqui, pelo visto, acontece exatamente o contrário,
não se busca solução, apenas a salvação.

■ IG RE JA S C A L V I N ISTÀS C R E S C E M M E N O S QUE
IGREJAS A R M I N I A E Í A S ?
yÀ-\' • ' ■- " ■, V-.

í Nenhum trabalho até agora analisou a qu estão da


^ m otivação soteriológica das denominações como fator de
l< crescimento e éste não será o, primeiro. A provocação aqui se
i faz apenas, como registra, Más a Congregação Cristã do Bras il,
pentecostal com as mesmas origens teológicas (Francesco e
% Vingren conheceram a doutrina penteçpstal em Chicago) e
^.sociológicas (ambos eram imigrantes pobrés),; não tem o
' mesmo, crescimento que a AD. Por que?, Podemos repetir as
análises sdciológicas feitas até agora:121 a CCB se tornou uma
v igreja étnica e a AI), uma ígreja rnultirraCial; a CCB ficou sob
•••• o domínio de uma fam ília enquanto que a A D teve uma
[.'lid era n ça d iv e rs ific a d a ; a CCB fom en cu rralad a pelos
movimentos operários sulistas e a AD foi disseminada pela
p ’ —: ^ ■<
120Cf.ÇeipeejLficaínentena vastapEodução sobre a-teologia da prosperidade, Mariano
f , ‘ - (1998), Campos 1998. ; \ ;
/• 121 Cartaxo Úolim, em diversos trabalhos, faz uma ahaiogia entre a  D e CCB,
: inclusive nesta temática do, crescimento (1979; 1980;, 1995a 1995b). Essas
( , v considerações são todas baseadas em sua pesquisa. ^ ,

M '- ' -.:, K ; . E y ■ ; . c ; . V . . ‘> V : A ' ; - .


86 ASSEME5LEIA DE DEUS - O RIGEM; IMPLANTAÇÃO E MIUTÂNC.IA
- - -■/ . . .. .'
migração nordestina, mas poderiamos acrescentar (por que '
não?), que à CCB é calvinista,122 a AD é arminiàna. ,
Ora, a m otivação soteriológica de que Deus, em sua
sabedoria, já definiu ós salvos e os perdidos, e sua soberania
é inquestionável (calvinismo); ou de que, toda a humanidade
é pet adora e está perdida, mas a ação salvífica de Cristo é
capaz de salvar todos os que o aceitarem (arminianismo) -
faz, uma diferença fenomenal no processo evangelístico. É fácil
identificar quais as igrejas com algum esforço evangelístico,
e sem entrar no mérito, todas as que o realizam, fazem-no
obvia mente por acreditar^nele. ' r
Por que e para que evangelizar, se salvos e perdidos já
estão definidos? 123 É essa a teologia que justifica a CCB não
realizar campanhas, convites, apelos, programas de rádio,
distribuição de literatura etc. A AD, ao contrário, tem em seu
cerne uma motivação soteriológica diversa: ela quer “ salvar
o mundo” , ou pelo menos, pretende que todos ouçam a
mensagem do evangelho, na crença arminiàna de que, se
aceitarem livremente a salvação, podem ser salvos. Basta ter
oportunidade de ouvir. Isto, evidentemente, faz uma boa
diferença no processo.de crescimento.

“Tem havid.o esforços para-relacionar a doutrina da


predestinação, qdepreváleeé nas igrejas caívinistas de classe
niédia, com o caráter puritano. É difícil, no entanto, perceber
se a doutrina foi resultado da psicologia burguesa, com
ênfase na responsabilidade do indivíduo ou inversamente,
se o caráter puritano da atividade dinâmica foi consequência
da doutrina da predestinação” (Niebuhr, l 992:59).

122Monteiro frisa que, nesta caso, os menibros da GÇB sãq“presbiterianos ortodoxos”


(1995:15) • . '■"" ; ' -v
123 Este m ódo de com preender o aspecto sotèriológico no calvinismo não é
compartilhado por todos os caívinistas. Alguns (senão muitos) entendem'que
uma vez salvo, o cristão deve levar a mensagem parã que o Senhor alcance os que
já estão predestinados à salvação. N .E .' x
•• ,. ;. . • .
' a IM P L A N T A Ç Ã O D A "SEITA PENTÈCÕ STISTA" - 1 9 1 1 - 1 9 3 0 ' 87
Vi . i^
f i w :■ ■ ■ N .'; . / J
%, O ovo ou a galin ha? A predestinação in flu en ciou sf'.
‘psicologia puritana ou o inverso? Weber explica, não se trata
(ae a mais b ser igual a c, mas que entre situações diversas há
ícertas “ afinidades eletivüs” que.dialeticam ente, terminam
imbricadas. A perguntal entãò, seria: qual a afinidade eletiva
entre crescimento quantitativo de membros e doutrina da
[predestinação? Ou qual a relação entre o avanço evangelístico
e a perspectiva arminiana? Coincidência ou não, são as igrejàs
í arminianas as que mais crescem, até hoje, segundo átesta a
Pesquisa Novo Nascimento (Fernandes, 1998).
, A Igreja de Cristo, fundada em 1932 (Queiroz, 1999), çomo
>á primeira dissidência da AD no Brasil, tem as mesmas
características. Igreja nordestina, formada por pobres, avessa
a educação teológica, prima por uma liderança autóctone, jmas
v.iUão cresceu,,ficou restrita ao nordeste- Sua orientação é
rígorosamente calvinista.
V

f;

/
n
S e g u n d a f a s e - p e n t e ç o s t a l is m o a s s e m b l e ia n o b r a s il e ir o

3. A Institucionalização da

O movimento pentecostal entrou em sua terceira década


;^em 'dessectarizado e assumindo o papel de igreja; 124 já hão
^Se trata mais de um grupo de exclusiva adesão voluntária;
4|iá uma geração sendo forrhadã néla. Mais do que igreja, está
ftransformando-se em denominação. Mesmo que isto não seja
aceito pelo seu principal ideólogo, Emílio Conde, que, em 1960
'^escreveu contra o conceito de denominação e insistiu em ser
fapenas um “movimento"’ - até hoje a AD faz questão deste
discurso..125
, Esta fase, que começou com a Convehção Geral126 em 1930,
l em Natal-RN, e se consolidou com o registro estatutário da
fp P A p , fo i defin itiva: pára a A P se firm ar como igreja/
' dénomiduçã0/ Foi um período de muitas tensões internas

i 124‘‘O i conflitos^que surgementre òs valores religiosos è os da sociedade inclusiva


Z ' ' podem assumir formas de acomodação quelevam à antiga “'seita” a transforma -
Ço se etn “ igreja” (.Souza, 1969:73). ., . -
' 12s Já não há como antes ó discurso antiprgariização. Âceita, hoje, ser chamada de
^ denominação e/oir igreja pentecóstal, mas àinda é um-discurso m uito repetido
no jornal O Mensageiro da Paz (ern todos os exemplares que acompanhamos em
1999)'sè autòihtitulár de “movimento”. u '
Convenção Geral é o título dado pela convocação de Natal em 1930 (ver Anexo
3, p,’ l79) e até hóje é a designàção'desta convenção. Já Convenção Nacional é
sua correlata do Ministério de Madureira.
90 ASSEMBLÉIA DÊ DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

(Convenção em Natal e todas as demais; relação suecos x


brasileiros x norte-americanos; semente do divisionism o
ministerial e expansão da igreja em todo o país etc.) e externas
(crise rias bolsas, Getúlio Vargas, Estado Novo, Segunda
Guerra M undial), mas, resolvendo bem ou mal todos os
desafios que ela teve, a AD alcançou todos os Estados e se
fortaleceu por todo o país. f f1 U
Neste capítulo trataremos das relações entre suecos e
brasileiros, suecos e norte-americanos e brasileiros-suecos-
norte-ainericanos. As relações institucionais dos líderes, porque
a igreja (seguidores, batizados, construtores e mantenedores)
não participa dessa tensão. É necessário entender.como
funcionavam as convenções, e a partirdelas, como ocorreu o
desembocar do processo de fracionamento dessa igreja em
ministérios distintos, fraternos e, em determinadas ocasiões,
inimigos. . - ' : rV ’ . V

AD UM PROJETO BRASILEIRO?

Q ual a ligação da AD no Brasil com a dos EÜAf

‘A influência dos EUA foi intensa" (Campos Jr, 1995:139,


grifo do autor). f - : .

“A AD mantém estreitos laços com as igrejas peritecostais


norte-americanas, das quais depende quase totàbnente em
termos de educação teológica, que embora incipiente no
Brasil, começa a se fortalecer pelo estabelecimento de vários
-- seminários e institutos .bíblicos para a preparação de
pastores. Acresce uma gama de literátura traduzida,
amplamente difundida principalmente por meio da CPÁD e
Editora Betânia” (Bittencourt Filho,1985:35, grifo dp autor)."■
, " -V • ,■ •

“O pentecostalismo estava apenas na sua mfância quando


chegou ao Brasil um fator importante para sua aútoctonia”
(Freston, 1994:75). -
. IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IG REJA - 91

v x Esta afirmação de que o pentecostalismo brasileiro é um


'produto m adein EUA esta dentro da categoria de “estereótipos
.sociológicos” (Fry, 1975:84). Tornou-se senso comum e, se
,vèrdade ou não, ninguém se preocupa em comprovar. Onde,
quando e como se deu esta influencia intensa? Quais os
xbátreitos laços ~ teológicos, econômicos, culturais? Como se
'deu esta dependência total da educação teológica? - ".. -V
O contexto da frase de Campos Jr. é a questão da música
• dos negros norte-americanos; a sua espontaneidade de ritmos
e instrumentos, algo muito repetido nas análises sobre o
f pentecostalismo brasileiro, mas esta “ espontaneidade” é muito
' mais um exercício áermenêutico dos observadores. A AD,
' desde o início, teve uma postura muito conservadora quanto
ig õ corpo. Até hoje, qualquer tipo de dança é reprimida e,
p itu rg ic a m e n te (ap esa r de critica r m uito as ou tras
çdenominações de “frias e não darem liberdade ao Espírito” ),
Io.padrão de culto assembleiano è bem fechado e definitivo:
| em grande número de igrejas*127 cantam-se somente os hinos
{ da Harpa Cristã dentro daquela música “ sagrada como era
'Vànjiigamente”! ^ 8 o ritu al na tribuna é p r e v is ív e l; a
^participação é domesticada.129 Aquele estilo das igrejas negras
Vcom ,'dança, e cân tico? “ n egros e s p iritu a is ” : (g o s p e l) ,
ílcãracterizados pelos improvisos, pessoas batendo palmas e
a dançando no culto ^ “ confírrúandõ” òü perguntando algo áo
V pregador, nunca sé constituiu padrão ássembleiano brasileiro.

% P7 listamos nos referindo às ADs tradicionais, è nao às autônomás/independentes.


Fazerum arranjom usicalem estilopopular de samba ou rock é um sacrilégio
inaceitável na;cultura assembletana. Sòbre o conceito de sàcralidade na hindlogia ,
brasileira, ver Música Sacra, mas Nem Tanto, de M ilton Rodrigues Jr. (A rte
Editorial, 2010)1 ,"' - . • \ ~ •
TaLvezparaum pesquisador queassistéa trêA “ p ito s públicos”, duas “ reuniões de
,oração” a participação “espontâneaÇse comparada à Igreja Anglicana e muito
mais: à Gatólicà, é álgõ extraordinário, mas se o pesquisador assistir a reuniões
duráíitè alguns anos, em comunidades assêrribleianas diversas, vai perceber a
“ ritüalização da. espontaneidade-” .
92 . ASSfcMBLírIA DE DEUS ~ ORIGEM, IMPLANTAÇÃO' E MILITÂNCIA

Tfemos que restringir esta “espontaneidade” com a possibilidade


de qualquer um (análfabeto, letrado, empregada doméstica ou a
patroa) dar um testemunho, falar ou pregar. Todos .têm a liberdade,
em quaisquer momentos do culto, de v- numa linguagem que
Corten (1996:12) chama de “intervenção anárquica da palavra” ,
e os assembleiarios de “glorificação a Deus” - dar glórias, aleluias,
falar em línguas, chorar, rir, gritar No mais, tudo segue muito
bem defirtido e restritivo: vestimenta, ritmos, postura, liderança,
ritos, interditos etc. 0 culto começa apenas com uma oração, depois
se canta apenas três hinos da Harpa Cristã, depois se faz apenas
uma leitura bíblica, e dá-se oportunidade para o conjunto de
senhoras/jovens/crianças e alguns testemunhos. Há décadas
o culto “guiado” peíò Espírito Santo realiza-se A apenas -
assim. E ninguém se atreve a mudar. Nem ó Espírito.
Já Bittencourt fala da educação teológica, pelo fato de o
, primeiro seminário teológico brasileiro ter sido fundado, em
1958, por um pastor que chegara dos EUA.130 Precisamos situar
esta qpíestão de modo mais claro, pois, nos primeiros anos,
muitos alunos, ao se inscreverem nesse curso e noutros que
surgiram a partir de então, foram “ disciplinados” por suas
igrejas e, em geral, os “ formados em teologia” tinham muita,
dificuldade,de sé inserirem no ministério pastoral. Educação
teológica sempre foi rechaçada, apesar (e também por isso) de
y ir dos .ÉUA. Durante décadas, seminários foram tratados
pejorativamente como “ Fábricas de Pastores”131 e rejeitados por

130 IliA D Instituto Bíblico das Àssembleias de Deus, fundado ém 1958 pelo Pr.
João kojenda Lemos, brasileiro, descendente de alemães. Sua esposa, Ruth Doris-
Lemos (falecida é m 2009), pastòTa^assémblèiana/é norte-áinéricana. Hoje sãò
considerados heróis, mas durante anosforam tratados comb “desviados, rebeldes”
; e não forãfn excluídos, da A D porque, embora ho Brasil, permaneceram filiados
- à A D nos EUA. ' ■ '
131Esta ó uma expressão corriqueira nos meios ãssémbleianos, usada ainda hoje. Na
Ata da 9a Sessão da 18‘ Convenção ein Santo Àndré, eni 1966, o pr. Anselmo
Silvestre, dé Belo I Iorizonte, sé posicionou còntra a proposta7de criação de
seminários, qüe ele chama de “ Fábrica de pastores” pelo perigo de alguns ficarem
com as cabeças cheias e q coração vazio” '• , >
f; ■ /( ■
IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA IG R E J A

.,irem contra a “ tradição da Assembléia” , e porque essa igreja


: -nasceu e cresceu sem a existência deles. 132 Ademais, quantos ;
seminários foram fundados por missões norte-americanas1’3
"(e quantos norte-americanos estiveram, ou estão, dirigindo ou
formando pastores assembleianos?), algo muito comum, por
exemplo, na tradição batista e presbiteriana.
1 r Apesar de os suecos terem chegado ao Brasil vindos dos
EUA, eles não foram enviados por alguma missão134 ou igreja
- norte-americana, portanto, institucionalmertte eles não têm
;. nenhuma.ligação com aquele país. Os suecos eram autônomos,
<£;mesmo que Gunnar Vingren fosse; originalmente um pastor
■I batista; çomo ele diz em seu diário', ao seu despedir de sua
v igreja, já não era mais membro de nenhuma denominação,
“apenas da denominação do céu”. Não há nenhum texto nos
' jornais e nenhum indício nas biografias de alguma ligação dos v
^^m issionários com a igreja de H. Burliam , da quul Sãò
_ originariamente membros, e que os “ abençoa” na hora da
j -; partida. E nenhum missionário norte-americano foi enviado
para supervisionar e lhes dar qualquer tipo de suporte,
p Na biografia de J. P. Kolenda, um alemão que veio para o .
^ . Brasil em 1904, com seus pais (depois foi mõrar nos EUA e lá*I

132Hojé,.iron icam ente, a educação teológica virou febre naAD. Todos os ministérios
1 têm, hoje, uma “ Faculdade Teológica”, mesmo qiie ineficaz, com carência de
biblioteca e quadro docente funcionando precariamente.
I3? Se ps ÊÜA;tiyêssem investido,ém educação teológica no Brasil, talvéç hoje
- t ivéssemòs algo pêlo menos parecido com umá universidade digna deste nom e,,
i no- meio asserhbleiano, equivalente ao Mackertzie (Presbiteriano) oü UMESP
(Metodista). Tembshoje a Escola de Educação Teológica da Assembleia de Deus,
—EETAD, em Cajnpinas-SP, que não é projeto da A D norte-americailaj mas foi
' '■ unr sonho do missionário Bernard Jonhsoit; norte-americano, que a implantou
e a sustentou. É uma esçola teológica por correspondência para atingir os rincões
deste país, onde o ensino regular não chegou. '' '
,M Um dos entrevistados falou de uma Missão Norte-americana que sustentava b's
f missidnlriós süeços po Brasil, mas pão Irá nenhum registro ou indício histórico
desta missão) Da sueca, sim. Léonard (198.8:72) aoanalisár a AD, diz-qüe ela está
ligadaà Missão Escandinava. . . ... •

A
9 4
ASSEMBLÉIA DE DEUS ORIGEM/ IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

se tomou pastor da AD), há um trecho bem significativo para


entendermos a questão suecos-norte-americanos-brasileiros.
Trata-se de uma fala de Noel Perkins, Diretor de Missões da
AD nos EUA, em 1938: Perkins çonvidou J-B Kolenda para ser
o “representante das ADs nos EUA; a fim de fazer uma
sondagem da situação” (Brenda, 1984:85):

“Temos wmproplema no Brasil. Precisamos de um homem


com experiência, preferencialmente alguém que' fale a
língua, para ir ao U va siltin vestiga r certas condições
existentes e depois nos aconselhar quanto ao rnódo de
procedernfos" (grifo do autor). ' , r

Mas qual é o' problema? t . V

“Os missionários suecos: tinham objeções à ida ao Brasil T


de missionários norte-amèricanos das ADs. Achavam que,
visto serem eles os pioneiros, téndo chegado primeiro ao
Brasil, aquele país deveria ser considerado campo deles” ,
(idem, 86).

Então, segundo Perkins, o Departamento de Missões tinha


as seguintes opções: ■; . :; ',
1 ) “a ceita r o pedido dos m issionários suecos e reéomendar
que os missionários135 dás Assembléias de Deus da América
do Norte nó Brasil deixassem o país e;fossem redistribuídos
' em outros países sul-ámericanos;
2 ) recom en d ar que ps m isàion ários n orte-am erican os
organizassem uma obra separàda nò B rasil, ligada às

1?5 Am eriçanòs n ò Brasil em 1938?Lawrence01sonchegou em 07/09/38. Read


(1967:135) fala de FrankStalter em-1934, do qual já'sé disse, é o único registro.
Quais são os outros? Ònde estão? F.ni nossa pesquisa foram encontrados os nomes
de Pa ul A em isejohn Aemis,mas eles“apareeem” semnenhumdado ou informa,ção
além do registro que eram norte-americanos. Sobre eles não há qualquer registro
nos jornais, na História e os pastores entrevistados não os conheceram. Já-em
1962, segundo Read (1965:130), existem aqui oito casais de norte-americanos.
•A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA 915

Assembléias de Deus nòrte-americanas, independente da


obra ali existente; ‘ ‘ - H. '■:'
3) Achar um m eio de cooperar com a obra existente das
4,, Assembléias de Deus, da qual os missionários suecos eram
os pioneiros e edifkar uma só obra forte das Assembléias
; de Deus no Brasil” (Brenda, 1984:85; grifo do autçr).

Jd5.Kolenda, que foi pastor no Brasil de 1939 a 1952 (quando


foi enviado à Alemanha com função idêntica), sugeriu ao
Departamento detMissões a terceira opção e asSimV parece ter
acontecido, pelo, menòs nós prim eiros anos. Depois dá
Segunda Guerra Mundial, com a perspectiva de vencedores e
responsáveis (?) pelo, mundo, a postura norte-americana
mudou. 136 ■ :' ' ■í ■■■■'

“Em 1934, o Sr. Frank Stalcer e esposa foram indicados


pela Junta Norte-americana para trabalharem áo Brasil, e
* . enipenharam-se mais na fundação de igrejas no solo
' brasileiro. Os missionários foram pioneiros em muitas
A : partes dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, onde foram
instrumento para a multiplicação de igrejas” (Read,
" 1967:123). ' ^ '■ :,.X: —

: Esta informação do Read (1967:123) sobre o missionário


Frank Stalter e sua'esposa, é desconhecida em qüakjuèf livrò-de.
história da AD, nos jornais ou demais livros. Se este missionário
>não tivesse aparecido no livro do Read, seria complètamente
desconhecido e se tomado mais um capítulo àos silêncios da
história assembleiana. Nà ata da 10aSessão da Convenção Geral,
realizada em Recife, em 1938, há um registro de que uma carta
' estava sendo enviada aos EUA, tratando do missionário Fránk
e seu caso, sem entrar em detalhes. *1
5

15* “Após a Segunda Guerra Mundial, a atenção norte-americana cm geral, e


missionária (católica protestante) em particular se volta‘para a América Latina,
impulsionada pelo novo papel internacional americano” (Frestpn, 1996:72).
9 6 , . ' ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

“Foi lida a carta; que a convenção propôs tosse ,enviada


para o secretário da missão “The General Council of the
Assemblies of God e explicado pelo presidente o seu
conteúdo cujo carta foi aprovada unanimemente (...) A '
convenção deliberou também que uma comissão composta
-c. por Virgiíio Sinitíi e Gustavo Bergstron escrevesse uma carta
a Frank Stalter dando ciência do assunto” (a grafia original ,
: foi mantida) \,'V '-'V 1:

O que fica implícito?


1. Este m issionário foi enviado pela AD nos EUA sem o
“ consentimento” dos suecos?
2. Aqui chegándò, trabalhava como “autônomo” sem lhes dar
satisfação? • . /. :
3. Seu ministério financeiramente mais confortável estava
ameaçando os suecos?157 , ... ■
4. As Atas não detalham a questão, mas o mal-estar é patente
em ambos os lados. .7.. • ;; ( . j. ■

A Igreja Filadélfia de Estocolmo é quem sustenta. E decide.

‘A gestão financeira da,igreja sofria indirèctaménte com o


. bloqueio cambial, pelo que as ofertas monetárias da Suécia
estaVam suspensas devido ao estado dcguerra”13ti (Barata,
- 1999:37), .U- ", V :f çVc ■

‘A Igreja Filadélfia, em Estocolmo, sabe quê não é suficiente


~ .o sustento que recebo de lá. Mas estes queridos irmãos1 8
7
3

137J.P. Kolenda, quando chegou ào Rio de Janeiro em 1942, alugou um apartamento


na praiá de Copacabana e importou um Chevrolet dós EUA. (Brenda, 1984:89) .
Alguns entrevistados.insinuaram que o estilo arrogante e opulento dos norte-
americanos contrastava com á smiplicidade e pobreza dos suecos, más Gúnnàr
Vingren teve um carro entre 1925 e 1930 no Rio de Janeiro. (Vingren, 1973:188)
U m entrevistado informou que Paulo Léivas Macalao, a principio, condenava o
uso de automóveis. Não sabemos o por quê. Aj ■
138 O período é a década de. 1940, portanto, durante a Segunda Guerra Mundial.
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A .IGREJA \ 97

têm tantos missionários para ajudar, ,que é um .milagre


• ' poderem fazer tanto. Quê Deus os abençoe” (Vingren,
7 ' V .í. ■' ÍD73:19/^:V' - s " ■

Gunnar Vingren registrou em seu diário o envio de oferta da


Igreja Filadélfia de Estocolmo para seu sustento e a construção
,.de templos, ou seja, fica claro que sua ligação (e dependência) é
com esta igreja. Nada mais óbvio que quem sustenta
çfinanceiramente também tome as decisões. A Convenção de 1 930
foi uma demonstração da dependência da liderança sueca no
Brasil a Lewis Pethrus, pastor dá Igreja Filadélfia de Estocolmo.
“Todos os -assumptos foram discutidos com iriteiradiberdade,
tanto pelos trabalhadores brasileiros, como pelos missionários,
fazendo-se ouvir sempre, o Pastor Lewis Pethrus, da Suécia”
(MP, n<? 1, 171930, grafia original mantida).
!> Na Convenção de 1930, uma das questões foram os prédios,
* templos e casas de oração, que foram comprados com dinheiro
. sueco e doados aos brasileiros.
: Há um registro sintomático no jornal Boa Semente n° 64
■ (9/1926), de uina “Convenção de Missionários Suecos no'
Brasil” . O texto jornalístico tem muitos problemas, pois nao
informa a data exata, local, participantes e objetivo. Numa
nota (BS, n° 58, 3/1926), diz Simplesmente que o Dr. Flanklim
' chegpu áó Brasil. era24?9 Veip de onde e com qual
i objetivo? Depois, o jornal noticia a convenção “já ” realizada.
. A convenção ocorreu para decidir o quê? Existe algum outro
- registro dela? * 140 A biografia do Vingren também fala dessa

Ruth Carlson, cm entrevista (Recife, 07.02.00), informa que ele fo i üm pastor


auxiliar de Pethrus, e provavelmente o responsável pelo Departamento de Missões
da Filadélfia. 1 ' .
■li° Ná introdução da biografia de Daniel Berg há um registro sobre um livro escrito
pelo Dr. Franklin chamado lintrc pcntecostais e srpiíos abandonados na América
■doSul. Tráta-sé um relato cobrindo seis meses da viagem que éle fez entre ò Bra sil
e Argentina. Mas nem mesmo os descendentes suecos souberam informar algo
sobre sua existência. , :
98 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MÍLITÂNCIA

\ . j j ' -c

convenção e acrescenta apenas que ela aconteceu no Riq de


Janeiro. Se foi redigida alguma ata, ela se perdeu, porque
ninguém tem qualquer informação a respeito, nem mesmo os
descendentes dos suecos no Brasil. Mas a despeito da ausência ,
de documentos, fica muito claro que havia uma estrutura de
poder sueco que liderava a A D no Brasil, e talvez tenha sido
essa reunião ■que oçasid'npu'o levartte dos brasileiros para
“convocar” a Convenção de i 930,141 O jornal, não diz como e o
por que de os brasileiros terem sido dela alijados, mas parece-
me óbvio: a reunião era dè suecos-com esse enviado de lá.
A Missão Sueca sustenta, alému dos missionários suecos, o
colombiano Clímaco Bueno e havia também um evangelista
brasileiro recebendo salários dos EUA (Vingren, 1973:105).
Como isso se realizava,, não se sabe ao certo e não há onde
pesquisar. Enfim, a ligação e sustento oficial registrados os
vinculam à Igreja Filadélfia. Igreja Filadélfia dé Estocolm o,
originalmente foi uma igreja batista que se pentecostalizou,
mas nunca veio a ser Assembléia de Deus como diversos
pesquisadores e pastores da AD142 confundem. Manteve-se : ;
como uma “ igreja livre’”, congregácional, péntecostal, até hoje.143
Portanto, nada mais óbvio que a Igreja Filadélfia de
Estocolmo, que mantém os missionários. decida seus ramos.
No BraSil, ela s u s te n ta i tenta decidir, porém, parece não
conseguir exatamenté o que queria. '

O s missionários vem dá Suécia e não dos E U A j/}


. . ■ _- ' f" -' ■....
“O missionário Daniel Berg^veio ao nossoencontro no porto,
quando chegamos no navio que nós trouxe de Nova Iorque.

141Ver anexo o texto da Convocação dos brasileiros.


142 Alguns entrevistados, ap se rèferirêm à origem da~AD, falam da Igrejaálo Pr; _/.
Pethrus com o sendo a A D na Suécia. '
143 Conf orm e jornal mensal recebido pela rítisssionária Rute Garlson (entrevista, 8/
02/00, Olinda-PE). .-'C '' . .. .\ A T ; :
Á IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA 9 9

a Belém (Pará), pois esse era o único caminho de viagem,


; vja Estados Unidos”. (Vingcen, 1987:23) /

l Os dois primeiros missioháriçs, Berg e Vingren, como eles


/mesmos assumem, foram contaminados pela “febre dós EUA’ ,
- mas aqui se evidencia 'puramente uma questão econômica;
: os demais usam os EUA apenas como passagem.
Em 1930, temos (ver Anexo n° 2, p. 175) suecos, poloneses,
• finlandeses e nenhum norte-americano. Oficialmente, os dois
/primeiros norte-americanos são O.S. Boyer e Virgílio Smith, que
já .estavam no Brasil desde 1927 como missionários da Igreja de
P Cristo.14414
5No Nordeste, em contatos com a Assembléia, recebem o
' batismo com o Espírito Santo, retomam aos EUA, desligam-se
' de suas igrejas e, filiados agora à AD nos EUA, voltam ao
JBrásil em 1940, já pautados no .“ acordo Kolendu-EUA’ . r, ;
£r-' Os demais, se não suecos de nascimento, são “pentecostais
7'suecos de doutrina” , por exemplo, Nills Táranger, norueguês,
5/íjue Chegou ao Brasil ein 1946, depois de 16 anos de pastorado
; na Suécia. Èuricò Bergston, finlandês,;poucos meses antes
de morrer (quando foi, entrevistádo), fez quéstão de dizer que
■ o “ segredo do crescimèritó da AD no Brasil foi a firmeza da
. doutrina dos suecos.liíi '
p '■'/•■/// C -■ :
|TÂ ausência de registro norte-americano sobre a A D no Brasil

“Essa história da A D no Brasil viver atrás dos norte -


v americanos hoje é bobagem, os norte-americanos é quem
deveríam vir atrás de nós para aprenderem evangelizar,
porque enquanto a AD nos EUA tem 2 milliões de membros146*
Sv
fir
<íy“*Não é aTgréjade Cristo nascida erri 1932 em Mossoró, a primeira dissidêhcia da
iP ' AD, nem alguma das diversas Igrejas de Gristó qiiè levam este nome atualmente.
145 Entrevista cóm pastor de 78 anos. no dia 14/08/98.
', 146Se o chute é éxagerado em relação ao Brasil (25 milhões) acerta em relaçãoaos EUA
•V v que segundo estimativas tem um número dè membros aproximados. (Burgess, 1988)
100 ;. ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTA^AO E MILITÂNCIA

nós temos 25 milhões. Eles é. que deveríam aprender de


nós!” (pastor, 82 anos). . f-7 V f '

; “Por que o Brasil? É inexplicável o fato de o Espírito de


7 Deus haver eleito o então desconhecido e inóspito país sul-
;v , americano para abénçoar a sua Igreja com o “sopro” que,
de algumas década a esta parte, desperta a atenção de
' evangélicos do mundo inteiro (...) Como resultado desta
, bênção singular, milhões de membros e congregados em
tòdas as regiões dp Brasil, passaram a constituir a maior
7 com unidade de f é pentecostal da Terra”. (3a historia,
Oliveira, 1998:13) (grifo do autor). ■/?"' . ' , : 7 ■' ,

. O discurso ufanista da AD brasileira hoje, de que é a m aior


igreja pentecostal do mundo, é completaménte desconhecido
fora dp Brasil.147 Não há um verbete sequer sobre a AD no
Brasil nó D içionary q f Pentecostal and Charisrnatic Movements
(Burgess, 1988); há apenas pequenas biografias de Gunnar
de Vingren e Daniel Berg14814 9 (onde, .evidçntemente, citam a AD
do Brasil), mas muita informação sobre fewisPethruà1?9 (diversas
- fotos) e o movimento pentecostal da Suécia. Aliás, há diversos
verbetes sobre diferentes países que, quantitativamente, são
menos Importantes. ;
; Stanley Horward Frodsham (1941) em seu W ith S ign s ■
'■ FolloW ing—th estory o f thçpentecostalrevivd lin the tw entieth
century, em seys 24 capítulos, dedica'amplo espaço à França,
Venezuela, Chile, China e até o Egito. O vigésimo segundo
- capítulo é sóbrè a América do Sul - e nenhuma frase sobre o
avivamento pentecostal no. Brasil. Por quê? 71 7

• •' 'l X47 ' N ' -'r . 1 1 . ; .. . .7) .' ' ' . ;7
v A D parece estar inserida nesta síndrome brasileira-de querer ser o centro do
mundo. M aior futebol; maior-rio, m aior carnaval, afinal Deus é brasiléifo!'' 7 /
h 8 Op. cit. 872, ^ ^ - ".7 •
149Op. cá 721. \7-■' '\7-7\'-;7 7. '77-V 7". 7. 77^ .7.., ' ..
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA IGREJA . . 101

O “Anointed to serve “ the story o f the Assernblies ofG od ",


de Williàm W. Menzies (1971) não cita - apenas citação - uma
única vez Berg, Vingren ou a “ maior igreja pentecostal cio
mundo” . :y : : \ :í
Stolll (1999), em Is Latina América tu m in g protestant? The,
p o litic s o f eva n gelica l grow th, escreve um livro sobre o
fen om en al crescim ento do protesta n tism o (le ia -s e ,
pentecostalização) na América Latina, mas ironicamente,
nenhum capítulo sobre o Brasil, aliás pada sobre a AD no
Brasil. Seria justificável se*o Brasil não representasse (em
quase todos os aspectos estatísticos) mais da metade da •
. América Latina. 1S015 ^ *
O Livro Latinoamérica erx Liamos - h istoria y creencias dei
movimiento religioso más impfesionante. de todos los tiempos
(Deiros, 1994) se refere à AD brasileira duas vezes: 1. quando
fala do crescimento do pentecostulismo informando que ela tem
nove milhões de adeptos ein 1984 (citándo Wagner 1987),!:m e
2 . informando que foi fundada pelos norte-americanos de
origem sueca.
h. H istória da Igreja Cristã (1979) tem dois apêndices sobre
T a AD. O primeiro escrito por J. Roswell Flower, Secretário Geral,
sobre a AD no EUA e o segundo por Joanyr de Oliveira sobre a
AD no Brasil e em Portugal. Sap dois textos curtos sem maiores
pretensões, mas muito significativos em suas discrepâncias
teológicas/institucionais dessas igrejas que tem o mesmo nome,
mas constituições diversas e até mesmo contraditórias.
Aliás, sobre a AD em Portugal acontece algo ainda mais
curioso: a história da AD no Brasil registrá ( I a história, Conde,
1 960:36) o nascimento dessa igreja corno fruto do trabalho -

- 150fQúvi- de um professor, que pede para omitir seu nome, que numa conversa com ,
Sotll, este o questionou sobrô a ausência doBrásilem-seuliVro, ao que ele respondeu
, que á mesma sè deu por não saber ler porh/guês, daí sua dificuldade de pesquisa.
151 Estatística, aliás, questionável. - '
102 a s s e m b l e ia .d e d e u s - o r ig e m , im p l a n t a ç ã o e m il it â n c ia

missionário assembleiano brasileiro (em 1 9 1 3 foi enviado o


I o missionário e em 1921, o segundo), mas os portugueses
dão o mérito da mensagem pentecostaí áos suecos.152
Enfim, é sintomático que essa ausência de registros sobre
a AD sé de em material publicado pela imprensa pentecostaí
norte-am ericana. Talvez isso seja um bom parâmetro para
entendermos a presunção etnocêntrica dos norte- americanos.

A D norte-americana véfàus A D brasileira

“Quando o Concilio Geral (título abreviado do Concilio Geral ~


das Assembléias de Deus) veio a existir, em Hot Springs,
Estado de Arkansas, em abril de 1914, já havia entre os
participantes um consenso doutrinário (...) com os teipás '
da santidade wesleyana e de Késwick. Diante de uma
pergunta sobre as crenças pentecostais, Ei N. Bell, mèinbro
do Executivo e primeiro presidente geral '(posteriormente
chamado de superintendente geral), assim começou sua )
resposta...” (Hórton, 1996:21)^ ' ; ' d

152Em todas as histórias da AD, numa tentativa de çonsolidarp “espírito missionário”


da igreja, fala-se em José Plácido da Costa, o primeiro missionário brasileiro
enviado a Portugal. N o entanio, só depois vem um “ silêncio” inexplicável. Qual
o resultado dessa missão? Nenhuma palavra. Nà história da A D em Portugal, .
Línguas clefogo ( 1999:7,9) traz u m afoto do mesmo e diz que: “AD, que antes se
chamara no Brasil e tios Estados Unidos âa.Atnérica:de “Missão da Fé Appstólica”,
iniciou-se precariamente em Tondeta, Portugal, no ano de,1913, e, definitivamente,
em 1924 muito ao sul, na ciâadetàe Portimão (...) nacapítal do país,_pormeio do
missionário Jack Hãrdstedt; e em 1934 organizava^spd primeira Apsembleia de
Deus em Lisboa”, portanto, não fala dó missionário Plácido nem daatüação de \
Berg, mas dá o mérito ao sueco. Mas uma revista chamada Panorama Pentecostaí
(sem data e editora) tem uma reportagem sobre o início do movimento pentecostaí -
naquele p a í»e diz que José Plácido, ao chegar em Pòrtagàl, em 19là, fo i convidado. ;
para pastorear uma Igreja Batista e aceitou,.permanecendo nela atA 193(í>-qiiando
foi visitado por Daniel Berg“ será esta a razão do silêncio sobre este missionário
em to dos os registros históricos? Récebi cópias xerogràficas dessa revista, faltando
diversas folhas e as datas, e apesar dás diversas tèntatiVas, não cõnsèguimóá à s V
referências bibliográficas da mesma. ... ... ^ .V - ê
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA ' . - \ ’ 103'

Por razões óbvias,-toda comparação é deficiente, no entanto,


a coníparáçãb de uma igrejà brasileira com outra igreja latino-
americana, em tese, estaria mais próxima da verdade, pois,
evidentementé, sériâ'forçada a mesma comparação entre a
igreja de uma favela brasileira e uma megaigreja da metrópole.
Acrescente-se aindá que este exercício é, de fato, mera
, comparação, sem uina pnálise máis aprofundada. ,
Dois bons exempiós são os livros já citados Siem bra y
cosecha - rèsena histófica de lá Asambleas de Dios de M éxico
y Centroamêrtca™ (ytdStex, e H istoria da las.Asambleas ' ‘
de D ios dei Perá (Hildago, 1989). Todas essas igrejas fundadas
pela missão norte-americana têm sua história parecida e
- repetitiva em todos os países: um casal de missionários vem
aó país implantar a denominação e, talvez, o único estilo
idêntico aos- suecos no Bjrasil é a manutenção do poder em
süas mãos, algo, aliás, que causou problemas diversos. Mas /
duas ênfases distintivas são evidentes-, a educação teológica
e a instituciotíalização. Preocupam-se os norte-americanos em
fundar escolas tçológiças e çm alguns chso$ antes mesmo da
igreja, de construí la nos moldes norte-americanos. .
Os liv ro s de h istória da ÁD no B rasil p riv ile g ia m
fenom enologicam ente a h is tó ria ca rism á tica , ou seja, o - *
batismo no Espírito Santo, as curas, as manifestações de dons,
- Iivramiept^^ ãs revelações, ás fundações de
igrejas (mesmo êscòndendo as brigas dos mibistérios) & não
se reportam em nenhum momehto a este modelo de instituição
importado, pelo contrário até o depreciam. , . Vv
_ J Ademais, nunca esse modelo norte-americano foi cogitado :
pelos suecos. E, posjenormente; já nas mãos de brasileiros, o .
corón elism oeclesiá stico jamais permitiu a implantação de
instâncias de poder que se lhe viessem rivalizar. Exatamente*

^ 1M Nesse livro estão inclusos os^sèguiiitps países: México, El Salvador, Nicarágua,


Guatemala, 1loíiduras, Costa Rica, lielice e Panamá. ,, -
..j , / ■ - ‘ ' -;-j y ~. '
.104 . V ; ASSEMBLÉIA DE DEUS - O R IG E M , IM P LA N T A Ç Ã O E M IL IT Â N C IA
s • ', • ^

^ox este ephos sueco-nordestino é que nunca se cogitou da


■■ inclusão; do ministério feminino, 1?4 que a AD nos EUA tem
desde seu início, a liberação dos costumes, a edüçação teológica
ou mesmo uma estrutura administrativa nacional com o
, sisteina çongregacional de autonomia das igrejas locais. -
A AD norte-americana nasceu do encontro fraterno de igrejas
/ ; y autônomas (HUrlbut, 1979), na sua maioria batistas (portanto,
• y congregacionais), brancas (portanto, segregacionistas) e de
classe média (Freston 1994, Niebuhr, 1992), que têm em comum
, a doutrina pefiteeostal (mesmo que tivessem era comum também
o racismo). Estabelece-se a partir de uma estrutura eclesiástica
a ■ y racionalizada (Weber), com um status já estabelecido e uma
/ doutrina previamente conhecida.154 1S5156O carisma, neste caso, já
se inicia rqtinizado. já há uma direção nacional legalizada e
requerida, por isso seu crescimento não é fenomenal como na.
época de seu nascimento nem o é hoje. ' v \i V
y A melhor exemplificação disto é o livro Teologia Sistem ática
■ -- uma perspectiva pentecostál Çtloxton, 1996). Uma série de.
artigos sobre os mais diferentes temas da teologia escrito por
r diversos professores'56 das Faculdades feológicas Norte-
américanas da AD. O primeiro capítulo Panorama H istórica é
excepcional para nosso estudo. Nele se dá o desenvolvimento

154 Ruth Carlson (entrevista 8/02/00, Olinda-PÉ) informa quç até hoje a Igréja
; .' Filadélfia nãó admite mulher no pastorádó e, quando é perguntada sobre uma
desavença ocorrida com duas missionárias e, Bruno Skolimowsky, no Ceará (Rego-,
•" 1942:78), èla lembra que fo i por causa '‘destas duas que a Missão não mais enviou :
moças solteiras”. InYersamente. nos EUA a lideránça pentecostal negra era, em
grande parte, composta por mulheres (Freston, 1993; Hollengewer, 1972). >../
155 Hollenweger (1976) publicou umajDedaração de Pé das Assembléias de Deus
Norte-am ericanas apontando, inclusive, as diferenças- que esta tem com a /
, declaração das ADs no Brasil. P o r sua visão teológica, ele insiste em ver “afinidades
e diferenças teológicas” em ambas. N ò entanto, as diferenças ou afinidades
ocorrem - ou ocorreram - ocasionalmente. Esta declaração - ou qualquer outra
— nunca fói objéto de discussão em qualquer Convenção nó Brasil •
156Quase todos Ph.Defn teologia, àlgo impossível de ser feito.pelaAD no Brasil pela,
. ausência de professores assembleianos com esta titulação, ..... ^
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA ' " 105

institucional da igreja: a òrganização do Concilio, o cargo de


superintendente (desde 1914), as controvérsias teológicas sobre
a “segunda bênção” e a tensão entre os “pentecostais norte-
americanos” e “pentécostais afró7americanoS” (Horton, 1.996: i 8),
quando os primeiros enfatizam a escatblogia, e os segundos a
reconciliação (o livro, aliás, é um primor de dissimulação da
questão racista). Qúestões - repetindo, que nunca, foram
discutidas ou tiveram alguma importância na AD brasileira.
'AD brasileira é, inicialmente, a. soma do visionarisíno de
dois suecos, adesão emocionada.de dezoito batistas por causa
de uma cura e da- glossolalia e, majqritariamente, de católicos
marginalizados dó “ catolicismo devocional” (Rolim, 1979),
portanto acostum ados com uma igreja con servadora,
carismática, centralizada, clerical, com um discurso dogmático.
Não há - nem se faz necessário? - uma diluição do poder,
uma estrutura administrativa, uma tradição teológica; há
apenas uma liderança carismática para “ transmitir a visão” .

7 “Projeto brasileiro”? Q ue projeto?

Se os brasileiros têm projeto nacional, ele é inviabilizado


por um detalhe significativo-, além de assumir o “ trabalho” de
forma genérica, como consta nos livros de história oficial, eles
precisavam mesmo assumir as principais igrejas, o que não
aconteceu pelo que se nota na tabela acima. Na Convenção de
7 1930, segundo a versão oficial, ps. suecos “entregam” a direção
do trabalho aos braSjleirós. Mas tentregam o quê, já que
permanecem na liderança das principais igrejas? Se não são as
principais é porquê ainda não cresceram o suficiente- mas
fatalmente serão, pois se ehçontram nas principais cidades.
ASSEMBLÉIA DÉ DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Tabela 6: “Igrejas Sédes” e pastores em 1931157

MP C ID A DE Pastor Pastor Pastores


1 2 lg re ja s “ S éd e ” estrangeiro nacionais
I Rio de Janeiro 1 Pr. GunnarVingren
? Bello Horizontè , Pr.Nills Kastberg : y - . r ■
; 3 Recife x ; i Pr. Joel Carlsori ç .. -íY ;■Y .
4 Mgeèio ^ Pr. ÁlgotSyenson ' 5 5 ':
N° 1 5 Natal Pr. Francisco Gonzaga 58,3% , 41,7%
01/12/1930 6 Parayba do Norte Pr. Cícero de Lima •-
7Maranhão Pr. Manoel Cezar
8 M ana’os . •
Pr. José Moraes
./• , . -
3Santos , ' Pr.JohnSorheim
10Pará Pr. Nels Nelson . r"
II Curityba-Paraná Pr. Bruno SRolimowsky
12Bahia . ‘y ,
Pr. Otto Nelson

14Igrejas “Séde” V

N° 1 'Bello Horizonte,'' Pr. Climaco BuenoAza


Porto Alegre Pr. Gustavo Nordlméd 9 ’ 5
01/01/1931
São Salvador-Bahia Pr. Otto Nelson ' 6.4,3% 35,7%
S. Paulo158 Pr. Sáinúel Nystrpn
15 Igrejas “Séde” 1 • . .. . .
. f
N° 2 Nictheroy-Estado R J , Pr. Samuel Héldlum
10 5
15/0171931 66,7% ' ; 33,3%

^ Igrejqs “S éde” :; Y

N° 16 Fortaleza-Ceará Pr. Antonio Rego Barros tt ■'/' 5


. 15/08/1931 Bello Horizonte . Pr. Nillâ kastberg ; 68,7% ' 31,3% ,

N° 21 Maceió . > Pr. Antonio Rego Barros -Ç - 9 ■ 6


15/11/1931 Fortaleza . ; Br. Julião Silva 56,3% 43,7%

’7Quadro publicado no Mensageiro de Pàz, em 1931: Foi mantida a grafia Original.,


As edições não citadas, ou omitem esta seção ou simplesmente a repetem sem-
alteração. O aparecimento dessas igrejas na, lista implica, presumivelmente, a
“ oficialização” delas com o “ séde” (conio isto se dáva, é uma questão a ser
respondida) . Por exemplo: a A D do Gèàrá fo i fundada em 1914, oficializada
com o Igreja em 1929, mas sóiãparece na’ Ksta'em agosto de 1931.
’8 Desde 1927, Daniel Berg e, família estão em. São Paulo e iniciaram a A D na
cidade, mas ele nunca assumiu a direção de qualquer igreja-(Almeida, 1982:246)
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA ' ■ 107- ; : ■~

Os suecos parecem não ter consciência da dimensão da


' igreja que éstãO construindo, irias'será que os brasileiros têm? r
É quase ceftò que tàmbém não. Pela leitura dos jornais; não
se percebe nenhunia tensão òu preocupação neste sentido; "
apenas, que a igreja está crescendo. Porém, é a liderança que
estâ sendo formada? O único incidente é o já mencionado da
convenção dos suecos, e posteriorm en te, um te x to de
convocação - feito por brasileiros - para uma convenção geral. 1
Em comum acordo, ao que parece, suecos e brasileiros têm
o seguinte: não aceitam a intèrferênci4 da Assembléia norte- ;
americana ou, eomo diz o Boa Sernente (3/28, pág. 8 ): “ Não : ^
aceitamos os costumes mundanos159 dos norte-americanos” .

“O pentecostalismo desde o seu inicio.se apresentou,


I conforme observa André Corten (1995:58), um “fenômeno (
religioso transnacionalizado”. Em sua composição inicial
havia descendentes de africános, italianos, hispânicüse
algumas minorias raciais, (.„.) Talvez essa.peculiaridade
tenha facilitado a sua difusão em outras' aéreas dò mundo.
Assim o pentecostalismo se situou entre duas dimensões -
regional e uhiversãl - e, entre elas navegon facUmente em
seu processo de integração em novos ambientes culturais”
(Campos, 1999 b: 418). ^ :: ; V

O ETHOS S U E G Ô N OPJDESTINO x G;

“... Ganhou força no Brasil dos anos 30, a çprrérife


G ' autoritária. O padrão autoritário era e é única niarça da . ;

lMTentei muitas vezes nas entrevistas definir com os pastoreS<D que seriam “ costumes
mundanos” entre 1911 e 1930, mas não conségüi. Alguns apontaram “ banhos
de mar”, mas isto era uma coisanão muito còmurfimesmo entrè a socieUade da
<época, e não era ç que mais os norte-americanos gostavam; outros apontaram
colnò sendo “ roupas indecentes” úiàs o que era “ indecente” para aépoca?. As
- duas únicas coisas que me parecem prováveis sãò pintüras femininas (algo já um -
tanto comum na classe média norte-americáilá, público da A D ) e consagração ,
feminina (desde 1914, náscimentoda A D dòrte^americaná, éla teye pastoras,-
algo nunca aceito no Brasil). i ^ ' v i ^ ; f" -■ " ' :
109 , ASSEMBLÉIA DE DEUS ORIGEM, IMPIANTAÇÃO E MILITÂNCIA

cultura política do país. Acorrehteautoritária não apostava


r no partido e sim no Estado-, não acreditaya na mobilização
em grande escala da sociedade, mas na clarividência de
alguns homens” (Fausto, 1999: 357). y

k Assembléia de Deus tem um ethos suecô-nordestino. '


Começou com os nórdicos e passou para os nordestinos.
7 Sem entender as marcas desta trajetória, não se entende a 1
“ A D ” (Freston,. 1994:76). V ’ A - >■ ; ^ ,

Como a “realidade é uma construção social” (Berger, 1976),


e a religião é nada mais do que. ura dos principais fatores da
preservação desta realidade, entendemos o por qué do
caudilhism o assembleiano e como ele se mantém em terreno
tão fértil. Todos os pastores entrevistados se. apressaram em
louvar a ação dos suecos. Apenas um deles, ao sçr perguntado "T
sobre a liderança sueca, disse sem meias palávras: “Os suecos '
eram uns ditadores colonialistas!” Erttão, os novos líderes
assemblçianos, nos primeiros anos* quase todos nordestinos, 160 \
estão na “ escola sueca de liderança” : a palávra carism ática ,
<Weber) - ou cbmo alguns, falam “os suecos tinham a doutrina
pentecostal” . - é dada para ser seguida, cumprida e não ;
questionada. Ressalvando-se as proporções, no Brasil da
época, ainda se tem a “ inspiração” de Getúlio Vargas, f
Acompanhar os 100 anos da AD é uma boa bíntésõ da
história do Brasil. As mudanças ocorridas na igreja ou no país,
apesar d a .correlação, não são sim ultâneas, mas estão
absolutamenté implicadas umas nas outras. Nas igrejas, as
mudanças talvez demorem um pouco mais, mas não há dúvida
que igreja-sociedade, querendo ou não, se alteram mutuamente. '

160 Ú in entrevistado insinuou que até hoje a A D vive nas mãos de caciques
nordestinos, referindo-se à. liderança do Pr. José Wellingtón Bezerra da Gosta,'
atual presidente da CGADB “ Cónyeijção Geral das Assembléias de Deus no
Brasil.
••v’ ? ■, f:' '■ ■■ ■>.' - . ".
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA IG R E J A - ■ 109

O ethos sueco-nordestino: uma visão sociológica

Quais as “ afinidades eletivas” dó pentccostalismo com o


coronelismo nordestino? O modelo coronelístico tem nuanças
políticas e econômicas iinbricadas desde sua herança, na
implantação das capitanias hereditárias: um grande chefe,
com poderès absolutos e um exercício vitalício. : %
Politicamente, numa época em que apenas os homens
votavani e eram votados,161 a AD apenas seguiu o modelo de
liderança masculina. Aliás, algo comum em todás as demais
óigrejas protestantes e católicas. E nisto, mais uma vez, o
assembleianismo brasileiro se distanciou do pentecostalismo e
do assembleianismo norte-americano. Lá, desde' o início, as
mulheres exerceram liderança.162 Aqui, nunca (apesar da tentativa
de Frida Vingren, de acordo com o que dizem a respeito dela ela).
Uma região caracterizada pelo la tifú n d io com uma
população campesina, pré-industrial, que tem como único meio
de sobrevivência o cultivo da terra. Terra, aliás, que está nas
mãos dos fazendeiros e eles dispõem dela de modo vitalício e
exclusivo. O fazendeiro constrói a capela, escolhe o santo de
sua devoção, e manda buscar o padre pâra rezar a missa. Os
poderes políticos, econômicos e religiosos não sãò rivais; ao
contrário, o projeto da construção da “ sociedade Católica
brasileira” passa por ambos. !
Se a analogia econômica é possível, muito mais apolítica,
a temática do poder. Pois um pastor, muito além de ter.o. exercer;
, o poder, representa o próprio poder; ele é, em si, um símbolo
de poder. E, na religião, ainda mais no pentecostalismo, um

16i Apenas na Constituição de 1946 é qp efoi dada paridade eleitoral entre homens
e mulheres, pois a Constituição de ,I934t peraiitia o ^yoto feminino apenas das
mulheres que exerceásem funçãç publica remunefada (Fausto, 1999:400).
16? Cf.Hollenweger (1976) e Freston (1994:74): “À liderança de negros e de mulheres
é marcante nos primórdios do pentecostalismo”.
1 10 \ ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

símbolo ultrapassa a realidade. Um pastor é um “ungido dé -


Deus”. 11’3 tem a “visão de Deus para o povo” , em suma, tem a
resposta. Resposta definitiva, inquestionável e vitalícia. Esta
é a regra, os que não conseguiram “ chegaríá” é porque foram
vítimas de “acidentes de percurso” .

“Q u an d o as p equ en as ig re ja s pentecostais v ã o -s e
_ transformando em igrejas maiores, podemòs verificar a
transferência dessa mentalidade (necessidade de um patrão)
para o pastor geral. Vê-se isto em inúmeras igrejas
pentecostais, cujos lídéres têm grande préstigip e contrólam
os membros da igreja. Muitas igrejas tornam-se pequenos
domínios eclesiásticos dentro de suas denominações,
surgindo, com frequência; culto de personalidade entre os
líderes popu lares. Òs pentecostais utilizaram esta
^ mentalidade caudilhista, na organização de sua igreja.
Descobriram que os processos democráticos rião funcionam
com uma população que não está pronta nem preparada
para as responsabilidades democráticas” (Read, 1967:221).

Descontando a visão preconceituosa desse missionário


norte-americano que acha que pobre nada sabe e não tem
condições de exercer a democracia, sua análise de que uma
das características da mentalidade latina é a “necessidade de "
um patrão” , é correta; é a velha e gasta teoria do “salvador
da pátria” . A AD foi construída em cima de personalidades e
não da instituição-, tudo, desde o início, girava em torno de
nomes. Aliás, de “grandes nomes” . Em linguagem weberiana,
é uma plena instituição carismática. • 1
Uma igreja que desenvolve um ethos de não organização
(m esm o teoricam en te), que não tem qualquer tipo de
instituição e faz disto algo “doutrinário” e objetivo, é um ótimo1
3
6

163 “ N ão togueis nos meus ungidos^, Um versículo que até hoje se constitui nüm.
chavão forte na A D para legitimar —oü tentar —todas as ações da liderança. O
“ preceito” teológico nasce do.episódio em que Davi é incitado á víngar-se de Saul
e ele se escusa, pois este era “ ungido de Deus” (lS m 24.6). '
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA IG REJA . ■*, r . ' ' 111

espaço pata a consolidação personalística da atuação do


pastor. Esta igreja é um “ movimpnto” semi diretoria ou çôncílio,
órgãos norm atizadores, credos teológicos, docum entos
estatutários, planejamento ou algo similar, apenas a “ direção
do Espírito Santo” . A “direção” do Espírito Santo encarnada
personalisticamente no pastor. v
Diferencie-se à figura do pastor de uma igreja local,
pequena e pobre, de um pastor deum a igrejçi-séâe, -portanto,
grande e rica. A partir do momento em que na AD ..crescem as
ígrejâs-sedes (ver Tabela 6 , p. 1 0 0 )'tornam-se ponto de
aglutinação pata o desenvolvimento da mesma. A “ ígreja-
m ãe”164 é a iniciadora de outras igrejas e a relação de
dependência inicial, por razões óbvias, prossegue mesmo
quando esta npva' igreja, em tese, poderia se autossustentar.
A relação piramidal se consolida cada vez mais, fortajeeêndo,
evidentemente, a figura do pastor-presidente da igréja-sede,
pois as igrejas locais, congregações e subcongregaçõèS, além
de trazerem para a sede toda a arrecadação financeira, .-•••
dependem dela para toda e qualquer definição. Ou seja, estas
igrejas agregadas à Sede não têm nenhuma autonomia, mas
existem em absoluta depertdência -r e o pastor-presidente dá
a palavra final e definitiva sobre tudo e todos. 165

O ethos sueco-nordestino: uma visão teológica

Há um aspecto político-teológico que é fundamental para


se compreender a cosmovisão sueca: o conceito de “igrejas
livres” , tão caro para Lewis Pethrus, Numa Suécia, dé igreja

1MP.xpressão criada por Read (1967:176), mas nunca popularizada na AD . Algumas


■' " - Vezes duvi;esta expressão, mas com referência à A D em; Belém do Pará.;
165 C o m o já fo id ito , nenhumageneralização é válida para a ADrcada ministério/
7 . convenção é diferente do outro, inclusive pela atuação do pastor-presidente.
7^ Uris são mais centralizadores que outros. Hoje, inclusive, há a figura da “ Igreja
7 Locál Emancipada”, que não depende da Sede e/ou Convenção. nem lhes presta -
contas, más delá.é membró “ fraternal ,
j .1,2 " -■ ASSEMBLÉIA pE DEUS.- ORIGEM/IMPLANTAÇÃO E'MILITÂNCIA

estatal controladora das escolas e vida cultural da época, e


muito influente no governo, ser membro de outra igreja que
não a luterana era um ato subversivo. “ Igrejas livres” eram
todas as igrejas que não dependiam financeiramente do
governo, seus pastores não recebiam salário do Estado; suas
posturas dependiam apenas dos seus membros e não das
diretrizes estatais. Eram “livres” . _ :
' Invariavelménte, a aversão política do pentecostalismo é vista
comomlienação social (Rolim, 1980), ou até mesmo mero adesismo
. (Pieruçci, 1996, Mairiano, 1999, Cavalcante, 1994),166 mas,
originalménte, a postura política do pentecostalismo tinha a ver
com a “ subversão” âa tradição sueca. O que. e algo irônico: na
Suécia, eles são subversivos, por serem contra a Igreja do Estado,
mas no Brasil estão sempre elogiando o governo. Gratuitamente?
r Na Suécia, eles não tinham liberdade religiosa, já no Brasil,
apesar da hegemonia católica, a Constituição protege a todos.
Há inúmeras - e são muitas - citações, tanto teóricas (meros
comentários oü “louvores”) como práticas, (no momêntó em
que são presos e/òu perseguidos) do preceito constitucional
da libérdade religiosa no Brasil. Os suecos se sentiram um
tanto deslumbrados com essa liberdade - o que não era pouco.
N isto o B rasil é bem su perior ao p aís de origem dos
missionários. Ora, a fnotivação é de origem política, mas a
prática brasileira assúmè uma conotação dogmático-teológica:
os crentes devem louvar a Deus pelo governo. E apoiá-lo.
In teressan te notar que o ethos sueco-nordestino se
'configura ainda mqis no apoliticismo do pentecostalismo
destoando da caminhada súeda. Lá, .posteriormente, o Pr.
Pethras fundou um partido político (Freston 1994a.-80) e tinha.*1

' 166 É bem verdade q u ep adesismo de hoje é visceralmente distinto daquele. Lá a


adesão ao pentecostalismo se deu porque o governo óprotegíá dà perseguição,
1posteriorménte a adesão se deu pòrjbutras razões. O exercício político evangélico,
. n òtadam en te o. pentecostal, tem sido m aculado p or posturas políticas
cooperativistps, ou mesmo corruptas (Frestonj 1994). *
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA- IGREJA . , 113

escolas teológicas e seculares, postura que não influenciou


seus pares no Brasil. A AD brasileira que, na década de 1950
deslocou da influência sueca para â norte-americana, se
m anteve, confortavelm ente, apoiando o governo e sem
nenhuma militância. Postura que só mudaria no final da
década de 1980, por ocasião da Constituinte de 1989.
Inicialmente, isto nem “ melhora” nem “piora” a AD, apenas
define sua postura. As demais igrejas protestantes e católicas
são, em alguns momentos, contra e, em outros, a favor do
governo, por razões nem mais nem menos dignas que essas.
Sem juízo de valor, a postura política e o conceito teológico dos
suecos forjaram a conduta dos primeiros líderes da AD no _
Brasil.167 Certo ou errado, não cabe determinar, apenas explicar.

O “M E N S A G E I R O D E 168 P A Z ” C O M O
. C O N S O L I D A Ç Ã O D A IG R H jA -

-; Fundado na Convenção de 1930, em Natal, o Mensageiro


da Paz,- como é chamado hoje, foi o principal fator de
‘ consolidação désta nascente igreja. Considerando-se as
dim en sões ge o g rá fica s do B rasil e a v ia b ilid a d e de
comunicação na década de 1930, um jornal era o que pode ria
existir de mais moderno e eficiente. Sem entrar nó mérito e
f aprofundar esta discussão aqui, a AD sempre foi favorável à
imprensa escrita, mas na década de 1940 teve uma inglória
iuta contra o rádio e posteriorrnentè contra a TV.
^ ' O M P substituiu o paraense Bóa Semente (1919-29) e o
carioca Alegre (1929) como<veículo de comunicação e
V unificação do discurso da igreja. Tendo como diretor Gunnar

.... }6I Estapbra não tem o objetivo de determinar se esta igreja se conduziu de maneira
certa ou errada. Uma análise sociológica passa longe disto; seu objetivo é a
compreensão e aexplicação dos,eventos. Baíporqueé importante, neste momento,
j1 “ compreender” a postura sueca e sua influência na liderança brasileira.
168 H ò je é chamado dè.“ Mensageiro da Paz”, más ;nos seus primeiros anos era
“íyiensageiro de Paz”. L J )< C
114 ' ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA •

Vingren e como realizadora, nos dois primeiros anos, sua esposa


Frida Vingren, sua periodicidade é constantemente ameaçada
pela “ crise” (interna da igreja, Financeira, política?).169. Há ■
constantes apelos aos irmãos parp que vendam, distribuam e
enviem seu pagamento. ' ’ ^ /

“ O Mensageiro de Paz, é o portador de Salvação que deve .


entrar em todos os lares. Todo crente que tiver o privilégio
de lel-o, deve esforçar-se para propagal-o entre seus
parentes, amigos e conhçcidos. Deus recompensa àquele
que toma interesse pela evangelização” (MP - Anno I no. 1,
12/30, grafia original). : / ' ^

O M P é uma “causa” . Mais do que um simples elo neste


país continental, o M P é um bom motivo, meio e método de
. evangelização, Vendê-lo. ou presenteá-loé levar a causa nos
ombros, é proclamar a “verdade pentecostal” . É bem típico da
militância pentecostal da época.

“Eu sempre recebia pelo correio e lia todo, o M P e passava


para os irmãos... ele era o meio de sabermos das coisas,
como era que ia a.obra ito Brasil”' (82 anos, na década de
1940, pastor no interior do Ceará)

O M P tem importância internacional. A Revista de Novas


de Alegria, editada pela AD Portugal, em novembro de 1943,
publiça o seguinte: : ~ ç j-~-"' " ; ■

“Deste desejado jornal temos müitos exemplares attasádòs


para vender nas Igrejas. Pedimos aos irmãos qite façam
todo o possível para os comprar, visto qúe o dinheiro reverte
para a obra de qvpngélização do nosso país”. V ; , .

lí /.ínguas de Fogo (Hidálgo,1999:54), história da AD em ^


Portugal, confirma esta importância falando de sua “leitura
quase obrigatória” : ' í ;

169 O ano dc 1930 é o ano da eleição de Getúlio Vargas e em 1935 ocorreu a ,


Intentona Comunista. Isso diz muito da çohturbaçãp do períódo.; ' ,

/
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA - _ ' 1 15

“Todavia, para a formação dos cristãos pentecostais das


. Assembléias de Deus,ina década de 40 não contribui apenas
o seu órgão oficial; a viabilidade de se alcançar essa parcela
do povo de Deqs erajtambém iippulsionqda do exterior e
aproyeitada conio.a leitura quase Qbrigatória àò Mensageiro
da Paz. Este era já o prestigiado jornal das Assembieias de
, Deus no Brasil”.

O jornal compunha-se de artigos, poesia, notícias sobre a


“obra” (em seções qué alternam estes nomes): “Na Seara do
Senhor” , “Breves Monções, “Testemünhos” , e diversos dropes
de anúncios institucionais: sobre a venda da Harpa Cristã e o
Psaltériq Pentecostal,1701
7Revistas de EBD,m livros de Emílio
Conde e folhetos para evàngelização. Também constam dele a
relação de “ Igrejas-Sédes” , convites para as Escolas Bíblicas,
Convenções e inaugurações de novos templos.
O jornal, agora gerido na capital da República, é de úma
sim plicidade franciscana. Usa o mesmo tipo de letras, .
diagramado em doze páginas,172 pouquíssimas fotos, nenhuma
' ilustração e nenhuma propaganda. Visto isoladamente, podería
até se pensar que era estilo da época, mas compafadb173 ao
Expositor Cristão, da igreja Metodista, o M P pefde e muito. O
E x p o s ito r tem, mais páginas (16), inúmeras ilustrações,
, inclusive uma página infantil. > ; •;

170 Parece ser outro hinário existente na A D da época. Nenhum dos entrevistados
soube informar algo sobre ele e não há em arquivonenhumexemplar domesmo. ’
171 Ás revistas da Escola Bíblica Dominical (EBD) foram lançadas em 1922 com o
suplemento do jornàl Boa Semente, esçritaspor Samuel Nystrõn,para reuniões
- de estudos bíblicos c existem até hoje. É muito interessante esta-ênfase no
estudo até porque vai contra o estereótipo pentecostal avesso aò estudo, formal. _
r“ Nã 3 ahistória daà D , no texto final, diz que são vendidós mais de dois milhões
~ de revistas da EIÍD por semestre. Seria algo grandioso, se desconsiderássemos a
estatística de que a Á D tem no Brasil mais dé nove milhões de membros. J '
> o niimero dé páginas às vezes varia pára òitó ou até seis, sem nenhuma explicação.
' ■173 Seria desleal cõmparádò, por exemplo, còm o Jornal O Estado de São Paulo, ou
outro jornal secular de uma grande cidade; faço-o, portanto, <jm relação ao de
outra denominação evangélica.
116 " " ; 1 , ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

O MP consegue realizar seu grande objetivo? Sim, até hoje


continua sendo a grande referência assembleiana. No entanto,
pèla tiragem, já houve época quando sua importância foi muito
mais significativa. Considerando o ano em relação a tiragem
e a estimativa de membros, em tempos passados o;M P foi um
jornal, no mínimo, mais lido pelos assembíèianos que hoje.

Tabela 7: As ênfases teológicas nps textos

N ÚM ERO DE
C LASSIFICAÇÃO . TEMA PERCENTUAL
TÉXTO S
d 1 Compromisso 3B-'i , 19,8 r :
2a EvangelismO ■■■'; .T ":' f e C ' 17,6
3a Poesia C ■ 25 17,7
- p A ■, Apologia Pentecostal "7 /' T2; ■■ '
5a V ' Doutrina ~ - ■7 17' - '■ ' 9,3
6a ' Escàtologia - C C 35 7 : 'V. 8,2 7"
; - 7à< 1 " - , Pessoa de JC - ' O ' 12 6.6
' S a7 V - 7 - Conforto na Tributação ■v Ç : 4,4 ;/ >
9a i. Oração V ■ ; L ■ 6 . 3,3

" r V" ■ A S C O N V E N Ç Õ E S .> õ ç . , : , r :

6“Detesto este termo denominação. Dá ideiade uma máquina


preparada, para funcionar. Á AD inicialmente era um
movimento nias deixou de ser” (pastor, 80 anos). ‘

“As convenções antigamente se reuniam para estudar a Bíblia -


' e orar, hoje as convenções só se reúnem para discutir
estatutos, regimento (...) istoé um declínio” (pastor, 78 anos).

. “Muitos esforços têm sido feitos para dividir este movimento,


outros têm procurado organizá-lo como urna denominação,
más até agora sem êxito. As igrejas, conforme foram
formadas e fundadas pelos pioneiros Vingren e Berg segundo
o modelo apostólico, continuam até hoje levando adiante
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA IGREJA

í . .. esta poderosa obra de Deus" (palavras de L. Pethrus, Vingren,


' 1973-.7;rgrifo do autor). • •,

Ao estudarmos as Convenções, precisamos lembrar algumas


\coisas importantes: ! 1. As primeiras convenções, obviamentv,
em nada lembram as atuais; 2. As primeiras foram acontecendo
“aleatoriamente” 174e, posteriormente, é que se tornaram oficiais
e deliberativas; 3. As dp hoje, de cada ministério, sãò oficiais e
deliberativas, mas a Convenção Geral das Assembléias de Deus
no Brasil (CGADB) é apenas fraternal e não deliberativa;175 4.
Cada ministério hoje é autônomo em sua própria Convenção,
emas participa fraternalmente da Convenção Geral; 5. Igrejas
emancipadas podem participar/raremct/mertftf176de mais de uma
Convenção se assim desejarem; 6. Há um princípio estatutário177
proibindo as igrejas de participarem de mais de uma Convenção
com sm tus nacional - essa, aliás, foi a razão do “ desligamento”
(ou expulsão) da Convenção/Ministério de Madureira178 cia
cbADB, pois a mesma tém caráter nacional.

!74Os anúncios das primeiras convenções diziam, apenas,çjüé os obreiros se reuniram


Ç para alguns dias de oração e êstudo bíblico, Ò u seja, não havia questões
■i institucionais a serem decididas.'Ademais, em função das condições de transporte
- da.época, não haviá como marcar ujii dia exato para chegar.
j 4 ''75 Em agdsto de 1999, por, ocasião do Taller de Produccion Teologica Pentfcosal “ Red
,■ de lnyestigadqfes/as y Estuãiósos Soáales del Péritecostalisma da América IxUirui e
y Caribe, èni SantiagodoChileí aóapresentaréstetrabalhò.fui questionado pelos
participantes p o r causa deste conCeito de upia convenção “ fraÇernal e não
deliberátiva” São àís-idiossincrasias assémbleianàs que òs de fora têm dificuldades
em entcndê-jas. , - - ,. - A ' .
l76,“ Vínculofraternal” dé Uma igreja emancipada pàfa com tuna Convenção significa
í Á ter rçlaÇao espiritual e/ou doutrinária, mas nénhuma ligação administrativa e
financeira. .A ' ' - '■ . '
1773a história. (Oliveira, 1998:137) c; Sç'’ : i
Á ;17? Comentou-se nas entrevistas que O desligamento foi-Uma manob ra do Pr. José
"G Wellington Bezerra da Costa. na época presidente da CGÀDB e.(coincidência?),
.\ . présidente do lyíinistério do Belém'(rival do Ministério do Brás, o braço paulista do
■ Â Ministério de Madvireira, no Rio de Janeiro). Numa' Casuística Assembléia Geral
Ç À -Extraordinária, em 1988, em Salvador, o Pr. José Wellington conseguiu definitivament e
( desligar a Convenção de Madureira da Asseriibleia de Deus no Brasil.
118 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Tabela 8: A s Convenções da AD

DATA > LO C A L D IR È T Q R IA D ECISÕ ES


- 1923. : " Â.-. ^
Maceió Apenas Escola Bíblica >
21 a 28/10
1924 , Belém • ; - A; ■ f-' ■ Idem . .
24 a 27/04 :
C riida uma credencial para obreiros
v1927 / Belém
e uma cãixa dè auxíiios para yiúvàs
17 a 18/29 Natal GunnarVingren Apenas escola bíblica (? )v
.... í
- presente?
i *
1. Foi efetuada a “entrega” do trabalho
1930 , Natal GunnarVingren/ pelos suecos aos brasileiros; 2.
; Lewis Péthrus (?) Foi discutido 0 Ministério Feminino;
'(16 pastores brasileiros presentes)

Nels Nelson (?) Há registro da mesma no Jornal BS,


1931 B elém .
mas nenhum na história;
Samuel Nystron/ Nãp aceitar batismo de âdventistas
9 a 16/04/33 Rió ;
Conde (secretário) eoutrds grupos
14 a 24/02/34 Recife
N. Kasterberg
1935... João Pessoa 50 delegados
(presidente?)
> 1937 Paulo L. Maçaião Foi a primeira vez que üm brasileiro
(presidente) , assumiu, talvez pelas complicações
da Guerra'79

/ D e 1938 a 1946 - nã o h o u ve C o nven ção

Cícero Çanuto de >.


1947 São Paulo , Lima e Paulo Li
Macalão (presidente - , '■ ' ■A ,
e vice) 1
l ••• ’ - . Samuel Nystron/ " nove suecos e um norte-americano
194§ ; Natal Francisco Pereira -•proposta de um seminário foi rejeitada
(vice) (Brenda, 1984:Í19) '
1949 Rio Nels Nelson 149-obreÍros

179 A História da A D de Portugal (Báratã, 19^9:54) diz que esta foi a razão^dos
portugueses assumirem a Convenção em substituição aps suecos.
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA ; ’’ . ' ! 1 19

•10/1951 PòrtoAlêgre Gustavo Nordland Passou a ser bien al-1 5 9 obreiros.


R ep.do Cone-Sul, Suécia, Portugal,
Noruega é EUÀ. . •
1953 1 Santos 'Francisco Pereira a partir desta tódos os próximos
do Nascimento ; presidentes sâo brasileiros. \

A Convenção de 1930: os suecos “entregaram” ou os


brasileiros “tom aram ” ? : v

“A rotinização não se realiza, em regra, sem lutasA (Weber,


1998:166) V

Depois do lançamento de um jornal, uma Caixa Beneficente


para Viúvas de Pastores, a instituição de “Carta de Recomendação”
e credpncial pára os obreiros (JBoa Semente, IX, n° 78, novembro/
1,927), a realização de uma Convenção Geral, foi a mais concreta
manifestação de sua institucionalidade. ,^ ; W
Distintamente da AD norte-americana, que já nasceu corrí
uma estrutura local, distrital e n acion al, por ser um
conglom erado de igrejas autônomas, e a partir de uma
identificação teológica e racial, a AD brasileira se aütodefiniu
no decorrer da caminhada. Aqui, portanto, reside a importâríciã
da ConvençãoNde Natal-, em 1930, pois elá, oficialmente, fòi a
primeira e, apesar de inúmeras perguntas ainda pendentes
sobre a mesma, foi definitiva para a sua caminhada.
A versão oficial enfatiza o acordo entre suecos e brasileiros.
Não podia ser diferente, em se tratando de historiografia oficial
^ da igreja. Vejamos a versão da 1a história (Cortde, 1960:132):

à “No ano de 1930, no mês de julho, a igreja de Natal hospedou


a Convenção Geral, a prinjçira e a mais importante até então
^ realizada! Essa Convenção abriu o caminho para as
Convenções Gerais ou Nacionais que até então não tinham
esse caráter. Entre outras coisas qpe ali §e decidiram destaca-
Í2 0 ASSÊMBLBiÃ-DE D fU S - Ò R IG Efyt.IM PIA ^TA Ç Ã O E MILITÂNCIA :
' ,, j;/y
/ se a unificação dos jornais Semente e Som Alegre, dando
' lugar, ao aparecimento, do Mensageiro da Paz, evitando-se
assim a divisão do trabalho prestès a realizar-se”.

Versão da 2“ história (Almeida, 1982:3p):

“Os assu n tos tratados nessa convenção podem ser


resumidos em: em relatório do trábalho realizado pelos
missionários; a nova direção do trabalho peritecostal no
^ Norte e Nordeste,- a circulação dos dois jornais existentes e
o trabalho feminino na igreja. (...) Os missionários suecos
i • (...) sentiam que era chegada a hora de deixarem a Obra
nas mãos dos trabalhadores nacionais e partirem para ás
' áridas terras do Sul do País. Todos os templos e locais de
, reuniões quê pertenciam à Missão foram entregues às igrejas
brasileiras”. . ■>. . ■// „ ' " ? ,y

Conhecendo apenas as versões do$ livros de História, se


chega a esta conclusão: os suecos sentiram a necessidade de
entregar” a ;liderança aos brasileiros porque pretenderam,
altruísticamente, ir para as “áridas terras do sul” (?). Más há
um detalhe: a convocação dessa convenção aconteceu pela
primeira vez nas páginas do E^pa Semente (n° 105, fevereiro/
1930, pág. 8); assinada por brasileiros (Ver Anexo 3, p. 179).
Ficou excluída, portanto, á versão de que bs suecps; "sentiam
ser chegada a hora de deixarem á obra nas mãos de obreiros
nacionais” - bs suecps foram pressionados. ■
As biografias de Daniei Berg e Gunnar Vingren não falam
clarameríte, mas insinuam qüe estão sendo preteridos. E ivar
Vingren diz em entrevista no M ensageiro da Paz (n° 1178,
junho de 1985, pág. 7) que:

; íApesai de, na cpoca eu ter apenas 12 anos de idade (...)


fiqúei sabendo que havia dificuldades no Norte entre
pastores e missionários por causa do trabalho. Porém, Deus
V / A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA

colocou no coração de meu pai pára ele ir à Suécia e trazer


c ’ -o Pr. Lewis Pethrus para participar daquela importante
^ . Convenção. Os convencionais trataram de resolver o assunto
v da entrega.do trabalho nas mãos nos obreiros nacionais
(...) os pastores brasileiros choraram muito, pois queriam
: continuar tendo comunhão com os missionários e contando
com a ajuda'deles. Os missionáriosestayam deixando todo
o trabalho nas mãos dos pastores brasileiros e seguindo
para outros lugares” (grifo do autor).

Versão da 3“ história (Oliveira, 1998:183):

“Decisão tomada na primeira convenção de pastores da


Assembléia de Deus no Brasil, realizada em Natal, em 1930,
; . definiu, sobre alguns importantes aspectos, os rumos da
igreja. E explica, em-parte, o seu acelerado crescimento.
Os'obreiros nacionais, conhecedóresdãpsicologia do povo,
com os mesmos usos e costumes, mas resistentes às
endemias e outras espécies de enfermidades que grassavam
na época, alcançaram também maturidade espiritual e
assumiram a liderança eni vários Estados onde nasciam
as primeiras igrejas. Os missionários rumaram ao Siil, para
abertura de novos trabalhos”.

Versão do Diário fie Vingren (Vingren, 1973:142):

“... ,Por m otivo de a lg u m a s d ific u ld a d e s entre os


missionários e os irmãos brasileiros sobre a direção do
trabalho”. ’ v ' ) " "ÃJ;* r ; _ •v a '

Versão do texto de Convocação dos brasileiros:

“Tivemos pela graça de Deus a inspiração da necessidade


urgente de uma Convénção Geral (...) para resolverem certas
questões (...) Todos nós sabemos a crise porque, çomo uma
• , dura prova, passou a Assembléias de Deus neste paiz e
•' ? não podemos nos Gonformar corn estado de coisas (...) temos
. em vista convidar todos os obreiros por meio deste
■ manifesto (...) Deve começar no dia 12 dò referido mez e se
122 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

não precisamos o termino da mesma Convenção, é porque


acham os justo deixar ao arbítrio das necessidades e
circunstancias da ocasião (...) pois só assim será possível -
remover certos obstáculos que podem embaraçar a causa
do Nosso Senhor Jesus Christo (...) Francisco Gonzaga,
Cicéro Lima, Antonio Lopes, Ursulino Costa, Napòleão de
Oliveira Lima, José Barbosa, Francisco Cesar’ Nathanel G.
Figueiredo, Pedro Costa” (mantida a grafia original). ^ • '

Tèm-se as seguintes questões: - j


1. Numa reunião nos d ias' 17 e 18/12/1929, em Natal, foi :
decidida- essa convocação. Apenas brasileiros estavam.. ;
nela? É provável, pois são estes.que assinam a convocação;
2. Está havendo “ dificuldade... sobre a direção do trabalho” ;
3. A “necessidade urgente” é por causa da “ crise” . Qual? Onde?
4. A reunião não tem previsão de data para terminar, mas '
funcionará até a remoção, dos “certos obstáculos” ;
5. Nenhum desses signatários são nomes de pastores
conhecidos;180ou têm textos publicados nojom at Boà, Semente-,
6. O registro jornalístico diz que Lewis Pethrus assistiu à
abertura e não diz nada .Sobre os demais dias. Um dos
pastores, entrevistados “acha” 181 que, sob protesto, ele não
assistiu às dem ais reuniões. Talvez seja exagero, no
Mensageiro de P a z'de 193Í, ljáver dois textos de Pethrus
informando que foram mensagens pregadas durante a
Convenção, ou seja, ele assistiu, no mínimo, a duas reuniões.

1“ Ressalve-se apenas o nome de Cícero Lima que aparece nestá lista. Seria o Pr. Cícero
Canuto de Lima que.durantedécadaSifoipastordaAD.Ministériodo Belém-SP?
Natural de Móssoró, RN, foi consagrado ào pâstorado,èm l923, em Belém. ■ “ .
181 Ele usou este termo, e admite ser mera espêtulaçãó, pois nãò terá como provar. “
Não há nenhum participante deita Convenção vivo para dar seu testemunho -
sobre o que aconteceu, j . . . . . . .. . >
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IG R E JA ' 123

A versão sufeca das “ igrejas livres” e a construção da


v -■ autonom ia brasileira • * ' ■

Além da- previsível questão do exercício do poder que os


suecos tinham e, ao que parece, este grupo de obreiros
nordestinos tentava subverter, há duas outras questões: 1. a
.7 tentativa de organização nacional e 2. o “ modelo” de liderança

de Frida Vingren. /
Uma Convenção Geral envolvendo todo o país? De onde
este grupo tirou eSta ideiá tão “ moderna” , já que isto riãò
existia na AD? Quàl o Objetivo de um organismo como este, já
que os suecos, na “ direção do Espírito Santo", lideravam essa
igreja, muito bem? A gravidade da situação transcenderá
questão do patrimônio que teria sido adquirido pela Missão
Sueca. Por ser pequeno e insignificante, ele foi doado, segundo
a versão oficial, sem muita dificuldade.182 À resistência a isto
é ideológica, jporque os suecos estavam convencidos da
necessidade de igrejas locais. ; Ç í
No diário de Vingren, em seu relato desta convenção, há
diversos trechos de artigos e cartas de Lewis Pethrus, escritos
posteriormente a sua visita ao Brasil, defendendo a ideia de
“ igrejas livres” . Originalmente, po.rtanto, os suecos eram
congregacionais, mas os líderes brasileiros não (Vingren,
1973: 141-160): - ^

“Durante os últimos anos, temos sido enganados aqpi na


, .i Suécia com à notícia de que os missionários e a missão no
Brasil estavam organizados numa (sic) denominação
: bastante forte. Quem nos disse isto, mencionou qué a sede
> da organização está no Pará e que no princípio consistia
: somente de três missionários, mas depois se estendeu

■ '“ Diversas outras dénominações tiyeram problemas por causa de patrimônio dé


Missões Éstrangeiras no Brasil, e a regra 6 inuito simples: patrimônio pequeno,
rápida solução, patrimônio grande, grande confusão. _ '
124 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

dominando a obra em todo o Brasil. Os missionários no


; Brasil, estão, quando se trata dò assunto de organização,
■‘ inteiramente no mesmo ponto de vista que as igrejas livres
da Suécia. Todos expuseram a sua perfeita aprovação sobre
o pensamento bíblico dé igrejas locais livres e independentes,
entre as quais deve haver umá colaboração espiritual, mas
sem a organização da qual os missionários agora tinham
sidos acusados que professavam e até praticavam” (Vingren,
1973:157, grifos do autor).

Em segundo lugar, nesta convenção foi discutida a posição


da mulher no ministério “em razão de haver diferentes opiniões
sobre o trabalho na mulher na igreja”.183A Convenção publicou
a seguinte declaração: .’ . -v ' .

“A s irmãs têm todo direito de participar na obra evangélica,


testifican d o de Jesus e a sua salvaçãp , e também
, apresentando instrução se assim for necessário: Mas não
se considera justo que uma irmã tenha a função de pastor
/ dè uma igreja ou de énsinadora da mesma, salvo em casos
de exceção mencionados em Mateus 12:348. Assim dever
ser, especialrnente quando não existem nà igreja irmãos
capacitados para pastorear ou ensinar”184tgfifos do autor).

;/. Moderno demais para a época? Afinal, as mulhèçes ainda


não participavam da vida política do país nem mesmo pomo
eleitoras, mas à AD permite que. elas, e^épciõhuhnfen% sèjani
pastoras e ensinadoras. A AD no Rio de janeiro, em 1925 (Conde,r
1960:229), já havia consagrado uma diaconisa. É a única da
história, assunto que morreu completamente depois disto.
Influência de Frida Vingren? Com certeza. Ela prega, canta,
toca, escreve poemas, textos esçafológicos, visita hospitais,
presídios, realiza cultos e - nada comum - dirige a; igreja na
ausência do marido (e, segundo algumas insinuações, na

op. cit: 158. ; ■■■. , ; ' \' ~l ' -.'. . A


IBi Ibiclem, 158. . • ' . '
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA IGREJA 12 5

presença também). Numa entrevista com um pastor de mais


de oitenta: anos, pergu n tei-lh e por que na fo to dos
missionários participantes da Convenção de Natal (jornal
Mensageiro de Paz, n° 3, março de 1931) ela é única mulher
que ppárece? Onde estão as esposas dos outros? Ele respondeu
ríspido: “ Mas á Convenção dé 1930 aconteceu por causa
dela!” 185 Frida chega a escrever \xm texto no M ensageiro de
Paz (n° 5, maio, 1930) disciplinando a conduta dos obreiros.

' “A minha esposa, com òs obreiros da Igreja, têm. levado a


responsabilidade pela obra” (Víngren, 1987:194).

O p rojeto n acion al, da Convenção G eral, en tão se


via b ilizou ? Sim e não. Essa tensão entre o desejo dos
v brasileiros de se organizarem nacionalmente e a doutrina da
igreja focal sueca inviabilizou üm organismo nacional. Os
m líderes continuaram se encontrando, porém cada vez mais
:: “ in form alm en te” . Seus espaços/igrejas locais foram se
• fortalecendo eni detrimento de uma igreja nacional. Afinal,
- como disse Pethrus, a ligação era apenas “espiritual” .
:: Uma última questão não resolvida sobre a Convenção na
Assembléia de Deus é: ela seria umá convenção de igrejas ou
’ uma convenção de ministros? Até hoje, oü náo se quis discuür
' isto ou não se consegue fazê-lo.186 v

■ lS5 Pela reação desse pastor, podemos iniaginar a crise qjue os homens em 1930
passaram, ao ver seu espaço ameaçado pelàs mulheres. Pòrèm , cedo eles
.“A7,' conseguiram “ domeSticà-las” Esta perspectiva dà ação ou tentativa dè ação
í feminina no universo penteçóstal foi tratada por Sanzana (1995): Ver também
f. a dissertação de Eliana Gouvea (1986). O silêncio que deve ser ouvido. Mulheres
r f ’ péhtéeostaís em São Paulo, onde a autora analisa o comportamento das mulheres
nas igrejasPeptecostalDeus É A m or e a Congregação Cristã no Brasil,
) • i«> Numa só edição do Mensageiro dá Paz (n°;1354, 31 de janeiro de 2000) foram
;A; - tirados.tódòs estes exemplos que seguem: 78‘ Assembléia Geral Ordinária da
•. V ( '.onveiição d:e Ministros e Igrejas Evangélicas Àssemblçias de Deus no Estado do
Pará ~ COM lAIjDEPA (pág. 3); 39a Assémbleia Geral Ordinária da Convenção
dás Igrejas Evangélicas Assembléia de Deus nó Estado do Paraná - CIEADEP
126 ASSEMBLÉIA DE DEU,S ~ ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MÍLITÂNC1A

Primeira (e única) dissidência teológica?

A h istoriografia assem bleiana omite uma dissidência


ocorrida em 1930, éni N atal. Neste ponto* temos mais
perguntas que respostas. Çomo já foi dito, não há nenhum
registro na História. Todos os participantes já morreram e, se
há, não foram encontrados outros registros da Convenção de
1930. Ela e sempre retratada como a reunião para resolver a
disputa de poder entre suecos e brasiileiros, mas há uma
questão teológica muito complexa que a permeia.
Calvinisino versus arminianismo - foi a causa da primeira
dissidência na Assembléia de Deus? Sé a Convenção de 1930
aconteceu também por causa distp, ou se esta divisão foi uma
das sequelas da Convenção, ainda é uma pergunta sem
resposta. Sim ou não, esta seria a prim eira e única (até onde
se sabe) divisão da Assembléia de Deus por questões teológicas
e não por disputa de poder político.
É impossível transformar toda â querela de 1930 em uma
disputa de calvinistas contra arminianos, porque o aspecto
político, como já foi visto, é muito patente. Mas o Pr. Manoel
H ig in o (1 9 0 0 -1 9 7 5 ), s e c re tá rio *187 desta Convenção, é
postenQrmente “ exclpído” da Assembleia e funda a Igreja de
Cristo em Mossoró, porque era um “calvinista ortodoxo” .188

(pág. 4); 65aAssembléia Geral Ordinária dá Convenção Evangélica das Assembléias


de Deus ho Distrito Federal - CEADDIF (pág. 8); 35.aAssembÍeiaGeral Ordinária
da Convenção Estadual dosM inistrosdas Assembléias de Deus no Estado de
Rondônia —CELMADERON (pág. 8); Convenção de Ministròs da Assembléia de
Deus nó Estado do Rio Grande do Norte -C E M A D E R N (pág. 8). Fica a pergunta: ‘
as Convenções da ÁE> n o Brasil são de ministros ou de igrejas?
187 Secretário da Convenção segundo o registro do jornal Boa Semente; pois no
Diário de Vingren (1973:158) quçm aparece como secretários de Atas desta
Convenção A JoelG arlsoneS. Nystfon. . ; ' . ,
188 Entrevistà de Adina H igino (filha) concedida em 13/02/1995, em Natál-RN, a
Alexandre de Sousa, para sua dissertação de Mestrado em Sociologia na UEC.
Material não publicado.
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IG REJA . V - 12-7

ISÍos jornais e nos livros dê História há um silêncio absoluto sobre


ele e sobre os desdobramentos deste fato (ò mesmo procedimento
sobre a AD em Portugal). No entanto, o jornal O Bom Pastor, da
AD em Natal, feverèiro/abril de 1997, numa biografia de seus
ex-pastores diz que Higino foi “desligado do ministério” por se
negar a comparecer à Convenção de Recife, em 1934, para se
retratar de uma acusação. Dos entrevistados, um disse que ouviu
boatos segundo os quais Manoel Higino foi “ excluído” por
adultério, dois se negaram a falar algo a respeito* os demais
disseram simplesmente não conhecer o assunto.

' v ■.; ’ ■. V ■ OS MINISTÉRIOS ' ' '' :

“O caudilhismo pentecòstal foi precedido e também


informadOpelo autoritarismo missionário” (D’Epinay, 1970:
■ 142, grifo do original). ^ 7 .

' - “ ... A maior parte das igrejas pentecostais tem dirigentes


que são chefes; proprietários, caciques e caudilhos de um
movimento criado por eles mfesmos e transmitido de pai
V para filho de acordo com o modelo patrimonial e/ou por
- nepotismo de reprodução” (Bastian, 1994:126).

"... As lideranças ministeriais da AD são formadas de


“bispos è pequenoS pâpas” (Willems (1967:119);

“ [Ministérios] ajudaram a crescer e não podia ficar unida


(...) eles ficam trabalhando para jesus lá e nós cá (...) Tinba
de haver emancipaçãò das Igrejas. É como um filho quândo
cresce, tem que ter sua própria casa, sua família (pastor,
-V.' ' 85 anos). • 'U •" // T;--

‘A organização [de Ministérios] só veio atrapalhár, não ajudou


• em nada (...). O crescimento, é aparente” (pastor; 82 anos).

“Quando o movimento denominacionalista norte-americano


é estudado como um todo (...) sobressai claramente como
a maior causâ da divisão, e suas consequências nâ Igreja
128 . ASSEMBLÉIA DE D E U S - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

, são também indicativas do caráter mais sociológico do que


; teológico dos cismas” (Niebuhr, 1992•. 104), . . j

O tema “Ministérios” foi tabu na AD. Todos sabiam da sua •


existência, pois de alguma forma foram vitimados ou beneficiados
pela questão, inas ninguém queria falar a respeito.180 Os
entrevistados, unanimemente, optaram por evasivas ante a
pergunta: Gs ministérios ajudaram ou prejudicaram a AD? '
Todos responderam dubiamente: ajudou e prejudicou.
Devido ao fato da ausência de registros, precisamos
trabalhar com a “suspeição dos silêncios” , mas, ao quê parece,
Paulo Léivas Macalão foi b iniciador da questão.' : -

“A força que ele pregava, a convicção com que dirigia seus


ataques ao pecado, vinham sendo, há algum tempo, motivo
de censura por parte daqueles que não viam.no Evangelho
algo que tivesse de serprègado dãquéla maneira, às pressas
e com uma autoridade até então nunca vista. Censurado e .f
X incompreendido, o irmão Paulo, em setembro de 1926
/ (estava com dois anos de convertido), decidiu pregar
exclusivamente nos subúrbios da Central” (Costa, 1983-37).

Os suecos, sem querer, fizeram escola: da mesma forma


como eles impuseram aos norte-americanos unia “reserva de
mercado’’: nq Árriérica Latina, Pátrio Macalão impôs a sua na
periferia do Rio de Janeiro. Fazia dois anos, ém 1924, Gunnar
Vingren viera ao Rio para assumir a igreja: disputa de poder
entre os dois? É bastante provável.- /v .19
8

189.Cf. Bobsih (1984:69) quando de seü estudo sobre os diferentes ministérios na


periferia de São Paulo enfrentou o mesmo probletna: “Nas narrativas dos
dirigentes, o})servu~sc uiHu tctitutiva íle ocuitcir dados dti histtíriá da congregação.
Suspeita-se que esta ocultação ãdvenfiai muitas .vezes, da necessidade de negar a
ação humana —questões morais e disputas internas—naformação da congregação -
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O DA ■IGREJA

Paulo Macalão: o alijado quer estabeleceu o seu estilo

Paulo Leivas Macalão (1917-1982) foi consagrado pastor


em 1930, solteiro, aos 27 anos de idade. Era filho do general
José Maria Macalão e estudou no Colégio Batista e Dom Pedro
II. Rico, classe alta, não,. estava disposto a ser controlado por
um sueco; queria - e conseguiu - impor seu próprio estilo.
Um dos entrevistados contou que ouviu, há muitos anos,
diversos comentários de que “ a questão'maçônica também
influenciou” . Paulo Macalão era maçom ou não?190 Não se
sabe. Seu pai, provavelmente erâ;191 afinal o Exército era o
principal foco da mesma. Independente disto, a grande
questão foi poder de liderança: no Rio de Janeiro, capital da
República, a mais importante cidade da época, a Igreja cresceu
assustadoramente sem as perseguições típicas dos rincões
do sertão; viria a ser (como é até hoje) o centro do poder da
Igreja, por isto Vingren deixou a Igreja de Belém e foi para o
' Rio. Entretanto, não esperava encontrar a resistência de
Macalão. Se considerarmos a primeirareunião convencional,
de 192.3 até 1953 (ver tabela 8) foram trin ta anos de
hegemonia dos suecos na liderança, mas em 1937 Macalão se
tornou o primeiro brasileiro a assumir a presidêucia da
Convenção. Por quê? ; a . •' \
Não há qualquer registro sobre este “ acidente” na liderança
sueca, mas o provável é que o caldo do nacionalismo çla época
e as turbulências do período da Segunda Guerra tenham feito

190Nas Atas da Convenção de 1966 (pág. 41) um pastor perguntou se.um membro
da A D póderia fazer parte da Maçonaria e “ unanim em enteo plenário disse
‘não’.” E acrescentou que diversos pastores se pronunciaram sobre o assunto. Por
’ qúe um pastor levantaria este assunto se tião fiòúvèsse qualquer indício do mesmo?
191 Apesar áe inúmeras tentativas junto às Lòjas Máçôhicás/no Rio de Janeiro e era
conversas com algumas pessoas apontadas como maçons, não pude confirmai;
ou desmentir esta informação! Ouvi relatos de pessoas (que pedem anonimato)
que afirmam “ com certeza” que Macalão era maçon, Inclusive, em seu enterro,
uma comissão realizou úmá solenidade (?) em sua homenagem.
130 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

os suecos se afastarem estrategicamente, Até me$mo sua


“presidência” durou menos de um ano, pois de 1938 a 1946
não houve Convenção; Um entrevistado falou da simpatia que
Macalão tinha pelos suecos e 'de seu antinorteamericanismo.
Ideologia à parte, isso podería ser apenas uma demonstração
de aversão ao ‘‘modernismo” da ADnorte-americana.
Dez anos depois de sua consagração, já havia registro de
igrejas abertas em outros Estados. (Costa, 1983:56) Foi a
consolidação do Ministério de Madureira rivalizando còm a
“ Missão” , neste caso representado, no Rio, pela AD no bairro
de São Cristóvão. Em 1958, fo i eleito Pastar Presidente
Nacional do Ministério de Madureira192 e, em 1960, lançou o
jorn al próprio, O Sem eador. Em 1988, o m inistério foi
desligado da Convenção Nacional. , ’ <

“Vingren entrou de novo no trabalho que estava em plena


expansão. O irmão Paulo Macalão sentiu a direção do Senhor
de ocupar-se espéciaímente da obra nos subúrbios do Rio
de Janeiro” (Vingren, 1973:137). -

Oual, enfim, a razão da incompatibilidade de Macalão com


os suecos? Alguns entrevistados insinuaram que foi porque
“Paulo Macalão era muito firme na doutrina” , más isto podería
ser aceito Se os suecos não fossem tanrbém “rírm es^na;
doutrina” . Legalistas tanto quanto Macalão (ele teve escola),
os suecos nãò se sentiríam distanciados de alguém que
prezava a disciplina. Se esta foi a única “razão” encontrada, e
ela não faz sentido, só nos resta a possibilidade de ser a luta
pelo poder. M uito óbvia, .aliás, em M acalão, pelo seu
nacionalismo de vertente maçônica. 1 ç

192 Este é apenas um registro histórico, pois nà prática ele atuava havia anos' como
presidente nacional. Nas Atas da Convenção dé 1947 (pág. 37) Pauló Macalão
fala de “ seu campo”.
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA '" 431

, Madureira versus São Cristóvão, no Rio; e Belém versus


B rás, em São PauLo, sãò apenas exemplos de a lgo que
aconteceu em todo Brasil, a partir da década de 1950 como
prolongamento desta disputa na reprodução dos trabalhos.
Prolongam ento porque a AD de Madureira abriu muitas
igrejás ém diversos Estados onde já havia AD locais, provocando
dissidências intestinais: insatisfeitos (ou disciplinados/excluídos),
tantos membros comuns como obreiros, de determ inado
Ministériò se transferiam para outro. A cena se repetiu, ainda
se repete, em todos os demais Ministérios. ' ' „ v
■ Reprodução, porque o mesmò caso se repetiu em diversos .
Estados. Os nomes que apareceram na liderança das Igrejas-
sedes, em 1930, se tornaram pastores-presidentes (equivalente ■
a bispo, num sistema episcopal), com cargo vitalício, poder '
absoluto e inconteste, igrejas,em amplo crescimento (financeiro
e social), igrèjas filiadas às centenas; esta é a trama (de cargos- .
poder-dinheiro-sArr«s-rivalidàdes) que prodpziu os cismas
irreversíveis, ao longo da história da Assembléia. fv; ■ 4
Uma igreja qüe nunca tçve unia direção nacional instituída^ ,
(inicialmente, não quis, posteriormerite, não conseguiu), abriu
espaço para figuras isoladas Se fortalecerem." O discUrso,
oficial e oficioso, de a igreja ser contra a organização (Conde,
: 1960), combina com a mentalidade latina personalística do
caudilhismò (D’Epinay, 1970), com [nuanças de messianismo '
popular e o coronelismo nordestino. Em resumo, o sistema v
.de Ministérios deu-se devido: V ^
1. À síndrom e de "M o v im e n to "•. por não aceitar sèr.um a
denominação se aútoirttitulava movimento, mas era contra
V todo e qualquer tjpo de organização;
2. À ausência de uma lideránça burocrática e o personalism o
carism ático dós líderes em disputa: o grande líder original
era Gunnar Vingren, mas morreu cedo. Não deixou a igreja
administrativamente organizada nem um substituto que
tivesse carisma;
132 ' ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇAO E MILITÂNCIA

3. A o crescim ento das igrejas nos grandes centros-, longe da


perseguição e do trabalho mais duro, estas igrejas
* “ enriqueceram” mais que as outrasj fortes e importantes, não
admitiam viver à reboque, financeiro e ádministrativamente,
de outra; Y ' Y .Ç;
4. A s rivalidades dós líderes-, pastor de uma igreja que cresce
numericamente, constrói templo e aumenta, assim, o seu
patrimônio, e mantém numeroso grupo de “ discípulos/
obreiros” ao seu redor. Por que ele haveria de se submeter
- a outro? ■ ; ■ . ■ '■ .
5. A o J a to de que M in istérios são grandesfeudos-, onde cada
chefe estabelece seu estilo, modelo de liderança, sua
“ doutrina” (por exemplo: consagração de presbíteros),1931 4
9
suas idiossincrasias (em Mádureira, por exemplo, nos anos
1,930 e 1940 era “ pecado” um obreiro não usar chapéu,
porque õ Pr. Macalão impunha isso). ' '

Ante a pergunta, qual o sistema eclesiástico (çongregacional,


presbiteriano, episcopal) da ÁD.?, um pastor respondeu: “O do
Novo Testamento!” Y ■• "

; ‘ A CHEGADA DE NOVAS IGREJAS ■Y


• A» _ ...

Segundo a teoria das ondas, foi a partir da década de 1950,


a segunda onda,- que novas igrejas pentecostais surgiram no
cenário pára rivalizar com a ÁD.104 A Congregação Cristã dó

193 A hierarquia assembleiana tem a presumível pirâmide: ria base há,auxiliares,


diáconós, presbíteros, evangelistas, pastores; no tòpo, o pastor^píesidente. N o
eritânta, até hoje há alguns Ministérios que não consagram presbíteros, pois
entendem que esta designação é sinônimo dc_pastor. . , Y .
194“ N ão foram poucos os pastores que rieí^arátn a AsSémbleia dé Deus é ingressaram
ria jgreja do Evangelho Quadrangular. Nãô se tem, porém, notícias de que isto
, tenha ocorrido com a Congregação Cristã” (Rolim, 1995:57). - '. _ Y
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA ■_ 133

: Brasil não se sentiu “ ameaçada” , .como permaneceu igual


diahte das mudartças ocorridas p.a segunda onda. Nunca se
inseriu no meio evangélico, aliás não aceita sequer ser
chamada de igreja pentecòstal (Gouveia, 1986). A AD, sim,
disputou membros com as igreja's Pentecòstal Deus É Amor,, o
Brasil para Cristo e do Evangelho Qüadrangular. No entanto,
èssas não foram as primeiras dissidências do pentecostalismò.

A dissidência da cura: Cruzada Nacional de Evangelizaçao195

Por que o fenômeno da cura divina (pregado por esta


Cruzada mais tarde transformada em Igreja do Evangelho
; Ouadrangular) provocou tanta divulgação e estabeleceu um
novo padrão na história do pentecostalisnjo brasileiro, a partir
da década de 1950 quando, desde 1911, a AD já pregava cura
. divina? ^ ■/
Não foi a cura divina em si, mas a forma como foi pregada
ou realizada: É a mesma questão na atualidade, nos casos de
exorcismo feitos na IURD. Porque a AD também realizava
exorcismos desde 1911, mas há muita diferença entre uma cura
e/ou exorcismo ser realizado num templo da AD (na periferia
S' da cidade, como sempre) e o realizado numa tenda de circo ou
em um canal de TV com transniissão nacional. A questão, mais
que teológica^ é midiátjcâ. A AD nunca foi uma “ameaça”
concreta à hegemonia Católica ou um desafio visível a um
poderoso sistema de copiunicação. Ela começou pobre, periférica
e mesmo crescendo, nunca teve uma voz ativa no país por sua
administração desarticulada. Afinal, um agrupamento soc ial
com presumíveis nove milhões de mèmbros deveria ser Ouvido,
ou tèr o quer dizer. Estruturais, quantitativamente menores,
^ têm voz bem forte e poder de articulação maior.

1,5 Ã 5IEQ tinha um acordo com a A D nos EUA de não disputar espaço entre si na.
América Latina (Walker, 1990:223). Isso não funcionou no Brasil. Aliás, as
relações entre a IEQ e A D no Brasil, pelo menos até Gunnar Vingcen, eram as
134 ASSEMBLEIA DE D E U S -O R IG E M , IMRIANTAÇÃO E MILITÂNCIA

‘A AJD, na década de 1950 com a chegada da? novas igrejas


penteéostais, se éncplhèu. Ficou com medo de pregar cura
e expulsão de demônios sò porque outras igrejas estavam
fazçndo o mesmo, e ai ela não queria ser confundida co.m
as igrejas novas” (Pastor,-77 anos). " ^ -

Este pastor só se esqueceu de dizer que uma das razões do


“encolhimento” da A í) também foram as questões internas da
igreja. Além destas razões externas, seu maior problema mesmo
fo i interno. Ela enfrentou pérseguição da poderosa Igreja
C atólica e sobreviveu ; o desprezo dás denom inações
protestantes, e cresceu; nías quando a crise .começou a miná-ía
por dentro, ela se acomodou. Agora mais do que avançar e
conquistar novos espaços,.ela ^precisava administrar suas
tensões. Era uma instituição que contava 40 anos e, como todas
as demais, teve problemas. E, o que é pior, não se prepárou
para enfrentá-los. r- A , \■

O que foi a A D na década de 50?

1. Liderança-, a liderança sueca não se renovou (ou não


deixou que isso acontecesse);,-a lidera.nça brasileira era
formada por “grandes nomes” ,*196 intocáveis, que a partir de
então devotam as suas energias muito mais em preservar o
que já fora conquistadò Q espírito 4 ^ áfírúístçC
dos primeiros anos coirieçava a ser substituído pelo status
(os título^ passaram a ter jm p o rt^ c ià ) é ipl0üènciá dé poder
(filhos de pastores-presidentes eram consagrados e iniciavam
uma “ dinastia”); d; V ' „ V;

m elhores possíveis, pois 6 mesmo recebeu uma carta da Diretoria d á “ The -j


Internacional CIhurdi o f the Foursqpare Gospel” elogiando seu trabalho (Vingren,
1978:182). Pelo contexto histórico de sua biografia, esta carta deve ser de 1929.
196Paulo Macalão, Cícero Canuto de Lima, JoSé Am aro, Jpsé Piínentel de Carvalho,
to d o s estes iniciaramseus pastorados ainda jovens e ficaram até o final da vida
no exercício dos,mesmos.. - '
A IN S T IT U C IO N A L IZ A Ç Ã O D A IGREJA 135

2. Os norte-arqericanos estavam chegando com dólares. A


instituição da CPÁD, em 1946, foi uma demonstração da
, “ dependência” do poderio financeiro dós EUA. Como e por
que unia igreja que se construiu sem ajuda financeira
estrangeira, presente em todos os Estados, e a caminho de
ser a m aior igreja dó país, precisaria se submeter » esta
dependência?197 : ,
3. A A D é uma igreja grande, burocratizada e conservadora.
Em 1917, ela usou' o que h avia de m ais m oderno na
comunicação dá época: o jornal impresso. Em 1930, havia
mulheres no exercício ministerial e diversos jovens solteiros
como pastores, dirigindo igrejas, Mas já na década de 1940,
passou anos discutindo se era ou não “ pecado” ouvir rqdio, e
repetiu a discussão nas décadas seguintes sobre o uso da
televisão. Perdeu, o trem da História. No início, ela possuía
ministros jovens e solteiros e até mulheres abrindo e dirigindo
igrejas e, a partir de agora, ela se compõe de uma liderança
eh velh ecida è reacionária, preocupada em preservar a>\.
pretènsa “tradição assembleiana” ;
4. Afinal, Assembléia de Deus ou Assembléias de Deus?
Usam-se os dois nomes exatamente por não se saber o que
ela é. Era uma igreja ou várias com 0 mesmo nome? São várias
com o mesmo nome. A única unanimidade doutrinária dela é
a crênçá nã eóhtèmpptàneidádé da doutrina do Espírito Sahto,
já que os sistemas eclesiásticos eram diversos e os estilos de
liderança são contraditórios.

As Atasda Convenção de 1947 e 1948 dariam um estudo à parte. Muito mais do que ,
uma “ oferta” norte-americana está toda a problemática do fascínio pelo o dólar, da
"V importância dos EUA como vencedor da Segunda Guerra Mundial, da percepção
deslumbjrada pela industrialização. A perda de importância dos suecos apite o poderio
meramente financeirò dos norte-âxiíericános é patente7 Ademais, há uma história
mal explicada de um empréstimo,em dólares, feito por JP. Kolenda pâra a construção
' da CPAD. A versão oficial fala ap>enas de üma “ oferta” dada pela A D dos EUA. Não ,
fica claro, pelas Atas, como e por que esse empréstimo foi feito, mas muitos
pastores reclamam dele quando J.P. Kolenda pediu um “ voto de confiança”.
;J.Í

.y
4. Características do
pentecostalism o
assem bleiano brasileiro
j ' - * ■ ; ■ i.'. , ■ ...•

Qualquer análise mais consistente sobre a AD neste período


é prejudicada pela falta de estatísticas e documentos externos
sobre ela, já que oS estudos começam■a ser feitos apenas na
década de 1960. O que se tem, da época, são os jornais é livros
de publicação da própria igreja com as deficiên cias já
mencionadas. Não fazia parte do seu projeto qualquer tipo de
registro; Emílio Conde admitiu isso quando assumiu, na
Convenção de 1957, a responsabilidade de escrever a história.

“... sabíamos de antemão, que não sairía perfeita nem seria


com pleta por falta a b s o lu ta de in fo rm es que nos
capacitassem a dar às Assembléias de Deus o destaque
v que merecem (.. ^ xtòs pnirièiros ánòs de atividade não havia
a preocüpaçâo de anotar e registràrexperiências que
possibilitassem, mais tarde, ao historiador enriquecer a
história com a descrição desses fatos e experiências” (Conde,
■- ' 1960:8). : - V. - rT s '1- , : ■■ - . ' .
■" -■:: •; á V7-: V- S v . ,
A despeito disso, neste eapítuló, faremos Uma análise mais
teórica. A AD assumiu algum as características que se
tornaram “ marcas registradas” , a ponto de um assembleiano,
ou especialmente uma assembleiana,' ser identificado em
qualquer ambiente. A postura austera, a sobriedade das
138 ' ASSEMBLÉIA DE D EUS-O RIG EM )IM PLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

ves tim en ta s, o com ed im en jo na conduta, tornaram -se


folclóricos. O risco da estereotipagem foi grande, mas não havia
como fugir; Hoje este biótipo àssembleianose relativizou, tanto
pelo surgimento de outras igrejas pentecostais mais rígidas no
comportamento198quanto porque a Assembléia hoje é pluralista'
e diversificada. T ; ' 1
Algumas condutas, meros costumes sociais dos suecos e/
ou posturas da época da sua fundação, assumiram ares de .
“ dogmas bíblicos” . O uso da Harpa Cristã, dè onde se deve
cantar apenas - três hinos na abertura dos cultos, é um bom
exemplo da “tradição assembleiana” que se fossilizou a ponto
de se repreender a quem se atrevesse a alterar tal ordem.
Diversos exemplos poderíam ser acrescentados (uso de paletó
e gravata, proibição de maquiagem, a prática de esporte etc.),
mas o que importa no momento é o entendimento deste ethos
assembleiãnò. Afinal,,© pentecostalismo199se caracterizou como
exercício de ruptura cultural (protesto simbólico?), ou é um
mero figurante (acomodação?) em total alienação? “‘ A ■
A teoria da continuidade-descontinuidade de D/Epihay
(1970) parece poder ser também aplicada à A d no Brasil. Muito
da conduta promulgada como “ bíblica” , portanto, dogmática
para a AD, era o que se definia como “certo” na vida rural,
bem distante da complexidade urbana; onde a previsibilidade
da rotina tipificava a vida doméstica da fazenda: cumprir ,
horários de ordenhas,.©bedecer ap ciclo agrícola, seguir à risca

198O mundo protestante é uma incógnita, o pentecostál mais ainda. Pois se alguns
grupos pentecostais querem se diferenciai da A D por considerá-la “ liberal” (nesta
posição, mesmo por razões distintas, estão a Congregação Cristã e a Pentecostál -
-Deus é Amor.) outras o fazem pelo motivo contrario, “ conservadorismo” (Nova
Vida. ( ) Brasil para Cristo). ' . ( '
'" V a le lem brar que estamos foçalizando o-pentecostalismo assembleiano das
primeiras décadas, diverso da inserção étnica da Congregação Cristã do Brasil e .
ainda mais distinto do neopentecostalismo, Sobre o últinuvMariano (1998) diz
que a alteração sociocúltural que o mesmo faz, òtí fará, é apenas quantitativa, já
v que ele não tem em seii cqfne os Valores do prolestaíitismo. Sobre á crítica da
crítica que se faz aos novos modelos, Ver Xlati2 (19?5)- :T ' "
CARACTERÍSTICAS d o Pê NTECOSTALISMO ASSEMBLEIANO BRASILEIRO 139

a solidariedade campesina e prestar toda fidelidade ao dono


da terra. Ser ordeiro, fiel, era uma característica social da época
que foi absorvida pela igreja ém sua fundação e incorporada
Como “conduta evangélica correta” . < C ' '
.- ’ ' -s ' ; ... J- :■ ' ■ / ,

v Algumas características do peíitecostalismo ássembleiano

1) A SÍNDROME DE MARGINAL . a

O rol de membros asseriibieiano foi fundamentalmente


formado pelos mais pobres', os “deserdados” . Como foi dito,
muitos ex-escravos ainda estavam vivos na época da sua
. implantação. Qual religião lhes podería ser mais conveniente e
simpática? A Católica, com suas missas em latim, onde estavam
seus antigos senhores e - mais grave, os principais teóricos da
L “legitimação” desta escravatura não era, convenhamos, o lugar
; ideal. As demais igrejas protestantes, pelo menos as principais,
\ tinham em sua direção um missionário estrangeiro que, apesar
de não falar latim, tinha um linguajar etéreo e a música da
igreja soava estranha com acompanhamento de um piano ou
de um órgão.200JOs cultos afros continuavam sendo perseguidos
oficialmente pela política. Qual, portanto, o único local onde -
W re e oficialmente - um ex-escravo poderia cantar, pregar e
até dirigir o “trabalho”?201 a " ^*•

m Há histórias antigas de ex-batistas e ex-presbiterianos que se tornaramassembleianos


, por causa da músicá. Tiveram dificuldade de se adaptar a “ fineza” dos corais e
cânticos com órgãos e pianos dos clássicos do protestantismo histórico. Istò,
■" evidentemente, é questionável, rta rnedida em què a A l) não-priorizou à música
popular (mesmo que também nimca tenhà Sdo em sua tradição pianos etc.).
2°i Qtto Nelson, escrévendò em1934, comentou sobre um pescador chamadoiAlbino,
> em 192Ó. Este fo i fiel dirigente da igreja, inclusive nó período em que os^
• ^ missionários se auseqtaram para a Suécia. N o mesmo parágrafo ele fala de uma
irmã “ preta como carvão^ cjue .recebeu o batismo coiú o Espírito Sarito. E os
considérouas “ pedras fundamentais” desta igreja nascente em Alagoas’ (Vingren,
1973:66). Léornard (l988:82) registra que em,1947, havia üm negro na direção
-. ~ da Congregação Cristã do Brasil. • ~
140 ^SSEMBLEIA DE DEUS ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

Os pobres, socialm en te m argin ais, ao se tornarem


péntecostais continuaram socialmente marginais, mas de forma
m pcro: assu m iam “nova id en tid a d e” dentro de uma
comunidade; Pode parecer pouco em nossos dias, mas nã época,
para eles, não era. Agora, copio “ crentes” , podiam escrever-para
o jornal, ver seus nomes publicados junto a “bênçãos” e tornam-
se protagonistas de algo novo - melhor, algo que eles estão
construindo. ■ .a ;
Nordestinos fugitivos da seca, seringueiros desempregados
retornando para seus antigos lugarejos? Não apenas isto;
há algo mais. Agora eles eram portadores de uma mensagem
que todos podiam ouvir, repetir e da qual podiam se apropriar;
eles até podem andar com um livro - a palavra de Deus -
para ler e . “ exp licá-la” aos deinais.202 È de fundamental
importância perceber que não havia, no primeiro momento,
alguma diferenciação entre consumidores e produtores dos
bens simbólicos (foi por pouco tempo, mas hquve uma época
em que todos os assembleianos eram iguais). Portanto, essa
sensação de escória do mundo era vista.como "bênção” . Aqui
aconteceu a mesma inversão de 'sentido que eles tinham sobre
a perseguição: ser marginal não era “ruim” ; é, ao contrário,
a própria identificação com o genuíno Evangelho.
Os demais líderes protestantes eram “ cultos, sábios” , as
“ igrejas denorhinacibnais;’205 eram n icas.im pp^aú tés^m ás'
estavam ém vantagem? Na visão assémbleiana, este status
era ruim ou não “ bíblico” . Ser “ bíblico” é ser pobre, perseguido,
___________ _ • 1 ■. -J■. / '‘
202Num a época de pouca cultura e leitura,, quando a Bíblia era monopólio do padre
e raríssimas pessoas podiam lê-la, os colportores bíblicos andavam com caixas e
mais ,çaixas;veridendo-as para todos; Ã importância assuinida por .alguém que,
agqra, dispunha de uma Bíblia e a podia ler livremente «ra .aígo inêomurn. IstpA
alterou èm muito o senso de dignidade dos pobres e marginalizados.
203 Esta expressão fo i repetida reiteradas vezes nos jornais assembíeiaiios, pois ainda
não havia esta atual nomenclaturá de “ igrejas tradicionais” ou' “ pentécostais
clássicos”. Lembrando qiie o termo “denominação” tinha, parâaÀD, uma conotação
pejorativa, por isso ela não aceitava o termo para si mesma. Ver nota 51, p. 48.
^ v. --r . . v V '■ .. -i : - . d'
CARACTERÍSTICAS D O PENTECOSIALISM O ASSEMSLEIANO BRASILEIRO I4 1

simples, não culto, pois assim - e sómente assim, podia-se


ter identificação com a igreja dos Atos dos Apóstolos e, ainda
mais, cbm p próprio ministério de Jesus?^'

2) O DISCURSO DA NEGAÇÃO DO MUNDO E O


/ ESCATOLOGISMO

A Esta percepção tem duas vertentes: 1. a.negação por razoes


sociais e 2. a negação de cunho teológico. A negação social nasce
como resposta ao desprezo anterior dado pela sociedade (talvez
não exatamentè da sociedade, mas muito mais das outras igrejas)
por sua pobreza e falta de status. Na impossibilidade de se
alcançar, o mesmo status, posição social, financeira e cultural,
menospreza-se o status e opta-se por uma identificação mais
nobre, porque é bíbliccv^espitítual.. \
l Como consequência disto, há úmaexacerbação da escatologia:
o mundo (este mundo culto, rico, cheio de vaidades) é decadente
e avança para a destruição; sua destinação final, a,destruição,
está cada vez mais próxima e tom ele, todos os seus pertencem es.
A igreja, portanto, proibia a leitura de jornais e revistas e
condenava a instrução como coisas “ mundanas” e desne-
r cessáriàs porque o “Senhor vém em breve”, O que se impunha
era o preparo’ para o iminenté áriebatâihento da Igreja.
A negação do mundo, portanto, tem, um sentido - em, sua
origem e Consequência - teológico: a aprovação do mundo seria
a desaprovação de Deus (já que há úrh abismo entre os valores
dé ambos). Negar o mundo é negar aquele que despreza a Deus,
que luta contra os valores divinos (ou pelo menos dos valores
que a Igreja diz serem de Deus). Ademais, o mundo está na2 4
0

204 Interessante como esta visão'se repete ha literatura da Teologia da Libertação.


Aqui, o pobre/pòbrezã foram glamourizados como sendo a representação única
da encarnação histórica de Deus; como a presença “revolucionária” dos pobres
(contra os ricos/sábios) era a ideal e iria, a partir deles, transformar o mundo.
142 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCfA

iminência de ser destruído. Esse escatologismo não é tão


anacrônico ou atemporàl assim, afinal, 1911 á 1946 é o período
entre as duas grandes guerras mundiais. As nações estão se
preparando para viver em paz - Ou tentando, armando-se,

“Em 1914, ano em que rebentou a Grande Guerra (...) 2


Enquanto diplomatas do Velhó Mundo se debatiam nas
chancelarias procurando um meio de pôr termo ao conflito,
veio, da cidade de Belém, uma mulher crente, de' nome
Maria de Nazaré” (Rego, 1942:9).

Por que a Igreja deveria se preocupar com as questões do


mundo, se sua destruição é irreversível e qualquer tentativa
infrutífera?205 Ademais, “nossa missão” é mais importante e
até mais eficiente. Ò mundo da diplom acia (rico, culto,
poderoso) não conseguiu dar conta de seu recado, mas a “irmã
Nazaré” (pobre, inculta) conseguiu. v :

3) AVERSÃO A MUDANÇAS (OU “NÃO DESTRUAM NOSSOS


MITOS”) ' - ■

Há alguns ícones historiográficos intocáveis na AD. A


revelação (ou sonho, ou palavra profética)206 recebida por Berg
e Vingren sobre a palavra “Pará” é um deles. Mas no Pará já .
havia um missionário sueco207 (será que nunca ouviram falar

205 U m trabalho que trataespecificamente deste “apocaliptismo dos pentecostais e sua


visão fatalista do mundo” é o de Bobsin (1984). Ver também Cavalcanti (1994).
206 N ã o que a história .« p si seja mentirosa, mas os relatos não são plenamente
compatíveis: U m texto fala em uma palavra profética dàda aos suecos ( I ahistória,
Conde, 1900:14); outro texto fala de um sonho que seu compatriota, irmão O lo f
Üldin, teve e lhes contou na cozinha de casa (2a históriai Almeida, 1982:Í7).
207Erik Nilssòn, o pastor da lgreja Batista que lhes deu moradia (Vingren, 1973:30-
31). Apesar desse nome áparecer no livro de Léornard (1963:319) com outra
grafia, Euric Nelson, estamos .considerando a escrita de Vingren. ' :
CARACTERÍSTICAS D.O PENfECO STALISM O ASSEMBLEIANO BRASILEIRO 143

dele?) e a Cpm panhiaPort qfP a rá era uma grandeçexportadora


de borracha para os EUÀ. Portahto, este fonemà não era tão
desconhecido. Isto não tira o brilho da epopeia nèm diminui o
altruísmo dos suecos. Apenas mostra que a história oficial
da Igreja é-ideal, como em todas as demais igrejas. /j .i
A versão, por exemplo, do envio dos missionários para
Portugal é outro bom exemplo: Por que há um silêncio absoluto
sobre o trabalho realizado por esses missionários? Há apenas
o registro do envio, e usa-se isto como “autolouvação” para
frisar o caráter m ission ário da igreja b ra s ileira .208 Na
historiografia assembleiarià portuguesa, também há silêncio.
Por quê? Porque a história da igreja não é a que aconteceu
realmente, mas a que é registrada. ?
Por fim, a repetida e decantada história de que Celina
Albuquerque299 (seü nome consta em tòdas as listas como uma
das pessoas que saíram da Igreja Batista para fundar ã AD
com os suecos) foi a primeira pessoa no Brasil á receber o
, batismo com o Espírito íSanto,. quândó, em Santa Catarinà, já
existia úm grupo de batistas da Lituânia, entre os quais havia
pentecostáis, como o pastor Pedro Graudittí?10 Isto faz que a

^08“j osé de Matos, Ele tbi um dos pioneiros salvosnotem po de Vingren no Pará.
V •; Depois de algum tempo, ele sentiu a chamada de Deus para i f à sua terra,
- Portugal (...yA igrejanoPará seresponsabilizou por ele è o enviou. Desta maneira,
aquela igreja foi, desde O pruicípio,unia igreja missionária, o qúe ela tem sido até
hoje”. (Vingren, 1973:146) c2
0
1
Os três livros,áé história da A D répetem isto, e há décadas o Mensageiro dà Paz
também repete a história exaustivamente. : T" !
210Cf. Ismael dos Santos (19(96), Raizes de.nossa fé “ a histófiadas IgrejasEyangéltcas
Assembléias de Deus em Santa Çatarina eP.Sudoeste do Püranâ (1931-1996).
7 Sessenta e cincoanos ^divulgando >as bóas. novas. Verespecialmente o éapítulò 5:
Uma experiência pentecostal antes da chegada dos missionários suecos no Brasil.
Ali se reporta a essa Igreja Leto-Batista. Mas se'isto não fosse bastante, o próprio
Vingren relata um encontro com esse grupo, quando da suá viagem ao sul dó
país, em Í920. Com úm 'detalhe, ele terminou sendo expulso dé umá reunião
' nesta igreja, porque lá eles .dançavam e Vingren os repreendeu por esta prática
(Vingren, 1973:100-101). - y . 4
; 144. ASSEMBLÉIA DE D E U S -O R IG E M , IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

AD perca a primazia pentecostal, resultando, portanto, numa


afronta à chamada "tradição da Assembléia” . Mas o que vem
’ a ser a “ tradição, assembleiana”? <
,■ A tradição àssémbleiana é uma das coisas mais caras que
essa igreja tem, e seria necessário um grande exercício
hermenêutico para se identificar o que vem a ser essa tradição.
, - O que é, como se manifesta, como se mantém e para quem? O
i discurso da tradição invariavelm ente está se reportando,
pretensamente, ao chamado “ modelo dos suecos” . Mas qual
foi este modelo, afinal? Eles não o escreveram. Suas biografias
( são versões de seus filhos. Sua implantação foi acidentada
por diversos desencontros no início do trabalho entre os suecos
e os brasileiros, além da ten tativa de influência norte-
, americana. Os líderes brasileiros herdeiros dessa tradição
nunca foram harm ônicos so.bre isso, daí a d ivisão em
Ministérios. Portanto, este pretenso “ modelo" é uma ideia de
que todos falam e muitos dizem seguir, mas ninguém sabe,
exatamente, o que foi ou o que; é. /•: V -
O conservadorism o é levado tão a sério que qualquer
“revisiõnismo” histórico comò este seria impossível.211 Durante
os próximos? anos, p Mensageiro dá Paz continuaria publicando,
e livros de história da AD confirmando, que Celina Albuquerque
foi a primeira pessoa no Brasil a ser batizada com o Espírito
Santo, porque•a! tradição dsàembleiana fidaypodçjer mudada.
Doutra forma, se a AD optasse pela histórica simultaneidade
do fenôm eno pentecostal em diversas partes do mundq,
poderia, inclusive, dar mais veracidade ao fato. É não seria
uma “hê.rèsia’’,.já que ó próprio Conde (1960), em O Testemunho
dos Séculos, usou exatamente esse argumento, para defender
o “ movimento”: no Brasil??2 ?, ..

- 211Jòanyr de Oliveira, autor do textp da 3.ahistória, confirmou a mim em'entrevista


(20.0l .200Q, em Brasília-DFy que fez está ressalva histórica sobre Santa Catarina
e seu tçxto foi alterado-sem seu conhecimento préyio pela CPAD.
2,2Sobre fatos de simultaneidade do fenômeno pentecostal, ver Dayton (1991:127).
CARACTERÍSTICAS D O RENTECOSTALISMO ASSEMBLEIANO BRASILEIRO ' 145
I . . •/. . ,
4 ) LIDERANÇA DIVERSIFICADA,: DOUTRINAÇÃO
HOMOGÊNEA ; : ■

Um dado que precisa ficar bem dano nuirçtrabalho sobre a


AD é que não se pode fazer qualquer generalização sobre essa
igreja. Em função de sua divisão em Ministérios, a AD se
tornou um universo heterogêneo, como já foi dito. Cada
Ministério assumiu, o semblante de seu “ dono” ou de seu
pastor-presidente. Já nas primeiras décadas, o pentecpstalismo
assembleiano começou a se diversificar na própria liderança,
mas permaneceu doutrinariamente homogêrieo. Por quê?
^ É algo, no mínimo, intrigante que uma instituição nasceme,
sem uma estrutura form al com o já fo i fa la d o , tenha
con segu ido esta u n iform id a d e dou trin á ria num país
continental como o Brasil. A própria “natureza” do Brasil
contribuiu com isto: um só idioma em toda a sua extensão
facilitou, por exemplo, que um jornal feito em Belém do Pará
pudesse ser lido e entendido em todo ó território nacional!
Mas o que realmente çòntribuiú para a unidade doutrinária
da AD foi a EBD - Escola Bíblica Dominical.
Em 'todos os lúgarés éíri qüé ar AD |a sencjo consolidada,
também se estabelecia, dominicalmente, uma reunião para
estudo bíblico com todos os membros. Ou seja, num dado
domingo, em todo o Brasil, todos ps membros desta nascente
igreja estavam estudando o mesmo tema, dentro da mesma
visão. Nem a divisão da igreja em Ministérios lhe tirou esta
característica. k primeifa publicação nacional dissidente só
apareceu com o desligamento do Ministério de Madureira, em
1988. As revistas de EBD surgiram como encarte no jornal
Boa Semente, em 1928; portanto, dürante sessenta anos o
ensino bíblico da AD era um só. •
As lideranças distintas imprimiram seus estilos idios-
sincrásicQS, mas rtenliumá delas questionava óu tentava
impor sua “revelação” pessoal sobre alguma doutrina. Isto
146 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

também aconteceu pela falta de conhecimento bíblico. Quantas


pessoas eram capazes de escrever um lo n go texto de
comentário bíblico (mesmo devocional e não exegético) para
um trimestre ou semestre? Nos primeiros anos da igreja,
poucas pessoas tinhaip está capacidade.213 Quem, então, se
atreve ria a questionar? ; i
Roliní (1995b:88) falando sobre as tradições religiosas e
sociais das camadas pobres que, segundo ele, serviram de
matéria-prima para a construção do pentecostalisnío, se refere ~
à. EBI) sem lhe dar qualquer valor. ‘

“Os convertidos do catolicismo devocional aò pentécostalismo


eram pobres a analfabetos. Analfabetos, nenhum grau de
escolaridade lhes era exigido como requisito para que
pudessem pregar nos templos e praças públicas. A chamada
escola dominicalnada mais era do que a repetição material ■'
e literal dos textos bíblicos. E os textos escolhidos para esse
tipo de leitura são sempre alusivo^ áo poder de Deus, ou
seja, a' um poder sobrenatural a ser invocado tanto para
salvar almas como para curar corpos.”

Sem entrar no mérito da chamada leitura fundamentalista


da literalidade dos textos, ou até mesmo da “escolha dos.
textos” , queremos chamar a atenção para o fato de que os
pentecostais, desde o início/tlvCTãm alguma preocupação com
o estudo da Bíblia, e esse. estudo lhe propiciou uniformidade
doutrinária. Não aconteceu nenhuma divisão na história da
AD por causa de algum problema dê intèrpretação teológica -
todas as divisões foram brigas políticas. J

3Souza (1969:113,1^4) engana-se ao dizer que as lições bíblicas (a revista deEBD


da CPÁD) eram traduções de material dos EUA. Os primieirós comentários '
foram realizados por Samuel Nystron.dépoisalgunsoutrossüecoseemseguida
apenas brasileiros escreveram, blúnca a ÁD traduziu revistas do inglês ou qualquer .
outra língua. Já as ADs 'de,Ma,espanhola na América Latina fundadas por
missionários norte-americanos tiveram “ e têm “ suas lições traduzidas do inglês.
CARACTERÍSTICAS D O PENTECOSTALISMO ASSEMBLEIANO BRASILEIRO 147

' 5) SISTEMA ÇCLESIÁSTIÇO ASSEMBLEIANO:. .


EPISCOPALISMO VITALÍCIO V"' "*/-

Esta talvez seja-umâ das questões mais difíceis de definir.


Geralmente, ô sistema eclesiástico assembleiáno é o modelo
do líder que se encóntra no poder, Alghns pastores são mais
congregaciònais, outros mais presbiterianos e outros mais
episcopais,214 mas unanitnemente todos são vitalícios. " \ s
; Se considerarmos, para efeito didático, apenas os três
modelos mais conhecidos, diriamos que, heterogênea’, a AD
têm .um pouco de çada, com mais propensão a um modelo,
evidentemente. Como já foi destacado, é necessário diferenciar
entre um pastor/igreja de uma localidade (igreja/congregação)
de um pastor-presidentê de upia igreja sede. O sistema difere,
è muito. Os níveis de complexidade desta relação se alteram
consideravelm en te, porque o poder p o lític o e recursos
financeiros são disparatados. Mesmo nas primeirás décadas ,
de AD, esta diferenciação já se fazia presente quando o
M ensageiro de Paz, em 1930, publicou a relação de Igrejas
sedes (ver tabela 5, p. 73).
ora, ser pastor de uma igreja sede em 1930 (ainda não
havia aqui a figura do pastor-presidente, até porque os
Ministérios ainda não haviam se definido) fatalmente dava
um sta tiis diferente; era o início do bispado. Ser pastor d^
sede implicava que outros pastôres de outras igrejas estavam
sobre seu raio de ação; inicia-se, então, o exercício do poder
até então inexistente. Como esse exercício é vitalício e não há
neles um rodízio de liderança, o pastor,dp sede ten.de á se
fortalecer, já que a sua igreja, a sede, é o foco principal.

214o modelo congregacional tem como instância, máxima a congregação? onde são
decididas as questões que envolvem a mesma. O, presbiterianò é representativo a'
partir de uma eleição: O corpo ministerial dirige a igreja e o episcopal, também
chamado monárquico, própugna.o poder sendo exercido pela autoridade do bispo.
'148 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

O que era ,uma igreja sede na década de trinta? Não ternos


como saber exatamente, mas com certeza não era o que são as 1
igrejas sedes hoje. Atualmente, representam a Convenção,
(poder institucional de tirar ou colocar Um pastor numa igféjà;
centralização financeira e administrativa, -cargos e manobras
p o lític a s ). N aqu ela época, não h avia dinheiro a ser
movimentado e nenhum pastor para sèr mudado. Ao contrário,
havia muitas igrejas sem pastor, nenhum salário,215 muita
perseguição e sacrifício. Ser pastor da igreja sede localizada na
capital significava ter que ir sempre à delegacia ou ao Secretário
de Segurança Pública interceder por algum crente preso.216
Um a das m aiores surpresas nas entrevistas com os
pastores foi verificar que todos eles foram consagrados muito
jovens, alguns solteiros, algo impensável hoje. Por razões
óbvias, a igreja estava nascendo e todos; os líderes eram
jovens. Os dois suecos fundadores chegaram ao Brasil jovens
e solteiros, a liderança que os acompanhava estava;na mesma
fa ix a e tá ria e estado c iv il, situ ação bem d istin ta da
gerontòcracia no poder atualmente. Talvez essa tenha sido a
razão de tanto idealismo e nenhuma disputa de poder nos
primeiros anos. Não havia ò que cobiçar. Não se disputa ò
inexistente ou o sofrimento. A igreja cresce, começa a se
institucionalizar, adquire um patrimônio, nascem os cargos,
surgem ós trâmites burocráticos e, fãt^lrrténte^ a problemática
da disputa de poder. Poderia ser diferente? : í

215ü m dos pastores entrevistados se converteu nó final de década de 1930 ecptneçou


em sua casa um trabalho evangelístico. Còm a renda de sua alfaiataria, construiu
o templo da AD. Já da década de 1940, a convite do pastor da capital,,foi
participar de uma convenção e, para sua surpresa, foi consagrado pastor. Üm
ministério como este, nasce e se desenvolve sem nenhuma tènsãp, das entranhas
dó poder: não há medo de perder seu lugar ou querer assumir p posto de outro.
'Não havia concorrente a seUvali^r oupútra igreja a’sè desejari . ; ; ,v ,
2160 livro de Rego (1942) repete isto a:cada capítulo. A “proto-históna” (Vingren, '
1987) escrita pelos suecos em 1934 idem, episódios que, obviamente, desaparecem
, na história atual.
CARACTERÍSTICAS D O PENTECOSTAI.ISMO ASSEMBLEIANO BRASILEIRO ' 1.49

: Nas Atas da Convenção de 1948, em Natal, 3a sessão


l: convencionàl, foi levantado o seguinte assunto: “Quais são
os meios de preparação para os obreiros serem bem-sucedidos
no trabalho do Senhor?” Segundo a própria ata, o assunto
foi “ventilado por alguns obreiros” , inclusive citando textos
bíblicos, quando um dos presentes pediu que os “obreiros mais
velhos se expressem a respeito” . Nasce a autoridade da tradição.
A igreja que sempre foi feita “ sem modelo", ou no discurso da
própria igreja, “apenas na direção do Espírito” , agora tem um
modelo: os mais velhos. Os pioneiros estabeleceram o estilo e,
este e o que deve ser seguido,, até porque foi esse o “ modelo
aprovado” . Aliás, é este o raciocínio que, sistematicamente, é
feito para se combater a ideia de seminários teológicos ou
qualquer outfo “modernismo” . Os pioneiros construíram esta
igreja sem escolas te o ló g ic a s , portanto, elas não são
necessárias (mas construíram também sém cargos, poder,
dinheiro, mas agora sâo necessários).
Uma última consideração sobre o sistema de governo e
seus consequentes efeitos é a questão de que esta igreja nasce
sem tem plos: Os primeiros cültos/reuniões foram realizados
em residências, alpendres, debaixo das árvores e esquinas.
Nestes lugares não havia púlpito; platéia e oficiais estão no
mesmo nível. Os cultos eram realizados no alpendre, usando
a mesa da còzinha pára sobre ela se colocar a Bíblia. Era tudo
muito domestico, simples e acessível. Já na medida em que
essa igreja começava a construir'seus templos, apareceram
os lugares diferenciados; a estratifícação do trabalho religioso
surgia “naturalmente” . A “ Dona Maria” , simples negra da
periferia, não via ma|s a sua mesa e a sua toalha sendo usadas
' domesticamente corno local de culto; agora o local do culto
era “ ságrado” . E alguns lugares do “ sagrado” são mais
, “ sagrados” que outros. Ela, por exemplo, estava assentada
v em bancos “ sagrados” , mas as cadeiras do púlpito são “ mais
sagradas” , até porque estão rtum nível físico superior. O
150 ASSEMBLEIA DÈ D E U S Í O R IG E M í IMPLANTAÇÁO EM IU TÂ N C IA
.. f. '•

púlpito é local dos homens, ou melhor, de alguns homens.


Somente os obreiros sentam-se l'á. V ■. '
Quase todos os trabalhos sobre o pentecostalismo frisam esta
singularidade de se dá^ppprtpnidade a todos de falar nas
reuniões na AD. É a democracia da palavra. Indistintamente do
grau de escolaridade, profissão exercida, raça ou cor, qualquer
um podia dar o seu' testemunho, captar um hino, contar uma
bênção, realizar um trabalho evangelístico - mas no púlpito, na
liderança do culto e no exercício do poder na igreja, apenas o
pastor. E apenas os homens podiam ser pastores, até porque,
em tese, na AD, todos os homens podem ser pastores.
Em outras denominações protestantes, para alguém ser
consagrado ao ministério pastoral, há o preceito inicial da
formação teológica, algo nunca exigido na AD.217 Nos seus
primeiros anos, pela carência de obreiros, todos os membros
eram poderíam e deveríam ser - obreiros. A divisão social do
trabalho religioso inexistia e as relações institucionais eram de
absoluta simplicidade, Ná medida em que a igreja crescia,
obviamente, se complexifiçava. Quem pode ser.pastor na AD no
decorrer dos anos? Homens que tenham uma longa temporada
de serviços prestados, subindo gradual mente na escala
hierárquica. ;

N A D A M A IS B R A S IL IÍR O Q U E U M
A S S E M B L E I A N O : O M I S S O E F E L IZ

“O conceito fundam ental está claro: repousa sobre a


' dicotomia dôespintuaí e do material, da Igreja è do mundo,
: do espírito ê da carrie. O Evangelho tem relação apenas
com os dois'primeiros destes termõs e por meio deste filtro
se faz a leitura da Bíblia” (D’Èpinay, 1970:179).

217Salvo em alguns novos ministérios em anos bem recentes.


v CARACTERÍSTICAS D O PENTECOSTALISMO ASSEMBLEIANO BRASILEI RO 151
* -v *

“O penteçóstal pode ser considerado uma pessoa de duas


\ cidadanias. Uma, terrena e provisória. Quanto mais destituído
de sobrevivência, mais provisória é a vida, definida pelós
direitos e deveres cívicos. Àoutra, celeste e eterna, enquanto
. C cidadão dà “Nova Jerusalém” . Ele define a áüa participação
como cidadão, sujeito a leis que devem ser obedecidas, ao
mesmo tèmpò em que proteja o religioso - “deixai o mundo”
; f - ao trazê-lo de volta para a esfera do privado. A política
pertencé à esfera do que é “mundano”, e a religião ao espaço
do “não-mundano” (Bobsin, 1984:159-160).

Não existe uma pesquiâa sòbre a participação política dos .


pentecostais na época, portanto, estamos citando a D’Epinay
em sua pesquisa no Chile, feita em 1965, como mera ilustração.
- A pergunta; “ Nã sua opinião, a Igreja Évangélicn deye
preocupar-se pelos problemas políticos e sociais do país e falar
sobre eles?” , no universo de 100 pessoas entrevistadas, 36
afirmaram que sim e 64, não. *
Se a mesma pergunta fosse feita aos pentecostais brasileiros
no início do século, talvez o número de “nãos” fosse maior.
Mas antes de usar o “estereótipo sociológico” , especulemos que
se a mesma pergunta fosse feita entre protestantes tradicionais
- ou mesmo católicos, na década de 1910 ou 1930, será que a
resposta seria diferente? São apenas hipóteses. . v ,A ■
Os p en tecostais a n a lisa d o s, cotno extra to is o la d o ,
sobressaem como um gueto alienado (Rolim ,1989; Prandi,
1996). Mas a pergunta poderia ser feita douta forma; o
universo brasileiro‘na sua totalidade, é muito diferente? Às ;
vezes, a crítica da alienação, pôntecostal faz parecer que todos
. os demais extrãtòs sociais do. país estão engajados em lutas ;
so cia is; todas as dem ais re lig iõ e s são produtoras de
consciência social; todos os demais agrupariientos realizam
significativas müdanças sociais e somente os pentecostais
“ estão vendo a banda passar” . ; .; :\ ^
Ressalvas precisam ser feitas à condução dos suecos por, no
mínimo, duas razões fundamentai^; 1.: imigrantes pobres, sem
152 . 'ASSEMBLÉIA DE D E U S -O R IG E M , IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

influência e dinheiro, no auge das complicações da guerra,218 o


melhor que fazem é ser discretos; 2. aqui,;para os suecos, é o
“paraíso’ da liberdade religiosa, em comparação ao seu país de
origem, onde, comò batistas, eram perseguidos pela igreja estatal.

‘Ao chegar, ficamos sabendo que. houvera uma revolução,


. e nós agradecemos a Deus, que desta maneira nos guardara
' de estar no meio da luta” (Vingren, 1973:30);

“Dèpois da revolução de outubro de 30, temos tido um


bom governador. Ele é católico, mas muito amigo da igreja
evangélica (...) Ele tem ajudado da ;melhór maneira possível
a todos os crentes. Nunca h'ouve tanta liberdade para pregar
o Evangelho como durante seu tempo. Graças a Deus”
’ (Vingren, 1987:47). - '' - 'U

Quem é, portanto, o assembleiano? É um brasileiro comum.


Omisso e feliz. Não tem grandes preocupações com o destino
da nação; também não se posiciona.politicamente, apenas
reclama de algumas coisas, mas acha que isto não é problema
dele. De qualquer forma, tudo se arrumárá no final, até porque
“Deus é brasileiro” (DaMãtta, 1986), e aqui nesta terra
abençoada por Deus ou no céu (onde de fato está a redenção),
a felicidade o aguarda. / '

U M A IG R E J A A L Í G R E A L E M
“N O R M A L I D A D E ”

“Tiveque rhe deitar um poucd é nr. porque o Espírito Santo


veio sobre mim de .forma tão poderosa que não conseguià
falar (...) O poder de Deus veio sobreelétãopoderosamente,
qüe teve de sentar-sè um pouco pará nr, e dèpòis çòntinuar

21íHá mais.de um episódio no períddo das Gtierrás, Certa vez forám identificados,
como estrangeiros e levados à delegacia, para averiguação dè documentos. A
situação agrayava quando eram con&mdidõs corrralemães; mas, como se tratava
de _sqeèos ou norte.Tameriçanos, passaram a ser vistos como “amigos” .
CARACTERÍSTICAS D O PENTECOSTAI ISM O ASSEMB1.EIANO BRASILEIRO T53

'. a pregação (..,.) eu ,estavãTtão .cheio de gozo, que tive de


saltar e pular de alegria (...) eu tive de deitar-me um pouco
no sofá, pois o poder de Deus estava muito forte sobre
mim (...) Os cultos eram, como campos de batalhas. Vários
foram lançados no chão pelo poder de Deus” (Vingren,
1987:66, 77,80 e 81). ,

Este fenôm eno iritrigàntè das “m anifestações” (o u crises?)


de riso que Vingren com enta reiteradas vezes, aparece apenas
em sua biografia e, com o tempo, desapareceram d a liturgia
assem bleiana. Por quê? '
. Da entrevistas que realizei com pastores, nenhum comentou
qualquer coisa sobre o casò; portanto, presum im os q u e este
fenômeno desapareceu ainda nas primeiras décadas. Isto não
mais acontece? Sim e não. Sim, porque as m anifestações do
Espírito Santo, além da glossolalia (línguas estranhas) também
provocam risos, m as de form a esporádica e individual. M as na
descrição dada por Vingren, isto acontecia cpm ele e também
com toda a igreja. Nenhum outro livro da época (a já citada
biografia de Berg, a de Kolenda, os jornais etc.) registra algo
parecido. ■
- t, _ ,: ■
U m a con gregação inteira dan do risadas a ponto de ser
necessário o pregador parar su a m ensagem e deitar-se num
sofá até' passar a “ação d o Espírito” é um^fatp, n õ mínimo,
in u s ita d o .? 19 Este fa to t a lv e z e x p liq u e , d e n tre o u t r o s , o
“e sc â n d a lo ” que o pen tecostalism o pro vocava n a s igrejas
protestantes. Como se a g lo s s o la lia e o e x o rcism o já . não
fossem suficientes. Se isto tivesse sido re g istra d o p o r um
; jornal batista ou secular, ou num livro católico, certam ente se
veria o registro como deboche, acusação, b la sfê m ia , m as o2
9
1

219No meio rieoperitècostal de hoje acónteçè um fenômeno chamado “ bênção de


, Toronto” —as pessoas são tomadas pòr Um “espírito de alegria” e ficam, durante
algum tempo, dando risadas. Seria a “bênção de Vingren” revivida? Á
154 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

mesmo ocorrer no diário do fundador, revisado por seu filho


e impresso pela editora oficial da Igreja torna-o lègítimo.
Por que esta “ tradição assembleiana” se perdeu? Era um fato
isolado? Talvez/ mas um fenôfnéno que acontece com o “líder
principal” é inevitavelmente passível de imitação. Essa catarse

servir como alento a este estrato social tão sofrido? Foi mais um
dos “ atrativos” do pentecostalismo para a população pobre?

•■
'V i ■
Finais

. /
7« " ;; c'-:

•Vede, pois, qüem sois, irmãos, vós que recebestes o


chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo
a carne, hem muitos'poderosos, nem muitos dé família
prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, feeiís o escolheu
para confundir o que é forte; e, o que no mundo é vil e
desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada
o que é, a fim de que nenhuma criatura possa se vangloriar
diante de Deus” (ICo 1.20-28, Bíblia de Jerusalém). :

Este texto bíblico é usado por Shaull (1999:159) na sua


análise do pentecostalismo, no capítulo “ Reconstrução da vida
no poder do E sp írito ” . Os fu ndadores da A D ja m a is
imaginariam que, noventa anos depois de eles usarem esse
texto,'bíblico para se defenderem e justificarem, suâ fa lt a de
^ cultura e riqueza, um dos principais teólogos da libertação
faria o mesmo. . ■; , ' ", ■ ■-
As leituras são distintas, mas têm o mesmo objetivo: a
identificação dá âção do Espírito em solidariedade-com os pobres.
C O risco de estereotipagem e a carga ideológica desta leitura são
patentes. Mas o que mai&uhama a atenção é que, há ceni anos,
um grupo de pobres, sem ián alfabetos, com posturas
f eclesiástióas fora da normalidade da época (línguas, risos, curas
etc.) se insurge contra as estruturas seculares das instituições
,e se ajpresenta como um hipyo mbdelò, segupdo eles mesmos
15 6 ASSEMBLÉIA DE D E U S - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

melhor e com a verdade completa, No início, ridicularizados,


perseguidos. Mas esse grupo resolveu fazer; a leitura de toda a
perseguição e ridicularização de outra fôrma-, transformando
o ‘‘mal", em “bem” • e a partir daí cresceu. :
A AD foi iniciada e construída pelos pobres, analfabetos e
gente da periferia; os de fo rã viam isto pejorativamente. Mas
os assembleianos “assumiram” estas categorias como “bênção”
- era a marca legalizadora da verdadeira identificação com 'Atos
dos A p óstolos. O novo convertido, que podería ser um
seringueiro do norte, um agricultor do nordeste ou um operário
do sul, na AD não era apenas “ mais um” a assistir aos cultos;
_ele era participante da celebração. Afinal,, era uma celebráção
da qual ele entendia. Diferente de alguém do mesmo estrato
social assistindo a um ofício religioso na Igreja Católica em
latim; na Igreja Luterana em alemão, na Igreja Apglicana em
in glês ou mesmo na Congregação Cristã em italiano, Elè
participava dos cultos, não assistindo, mas cantando, pregando,
glorificando, Construindo a igreja. Ele era arigreja.
Vingren, pregando na Suécia, eiu 1922; explicou o sucesso
da missão no Brasil da seguinte forma: “Experiências, uma
fé simples e verdadeira obediência aos mandamentos, do
S en h o r” (Vingren, 1973:110), Excluindo a teo logia da
“Verdadeira obediên cia” , sociologicam ente pèrcebe-se a
simplicidade-e:a experiência como coihponentos fdridameritãis
da construção désta igreja. " ' Á '
A AD no Brasil foi um “ acidente” . Os suecos nao vieram
fundar uma igreja, nem depois de a fdndarem queriam que
ela fosse a Assembléia que se tornou. Os brasileiros que
aderiram não sabiam o que viria a ser à Assembléia, mas
queriam construir algo. Foi dessa mistura de intenções e
tensões que ela nasceu. Conseguiu desagradar a muitos
fazendo a alegria de outros. A AD nasceu è se tornou a maior
igreja do Brasil e no mundo - apesar dos suecos, apesar dos
brasileiros, ou, exatamente, por causa deles.
Abreviaturas
ÀEVB Associação Evangélica Brasileira
CEB Confederação Evangélica Brasileira
ÇCB ' j , Congregação Cristã-no Brasil
CGADB Convenção Gèrál das Assembléias de Deus no
Brasil
CONAMA Convenção Nacional Madureira das Assembléias
de Deus ;
AD ' Assembléia de Deus
1EQ Igreja do Evangelho Quadrangular
IPBC Igreja Pentecóstal o Brasil para Cristo
ib d a igreja'-Pentecóstal Deus É Amor
. IURD igreja Universal do Réino de Deus
MP Mensageiro da Paz -
5' w Voz da Verdade
SA Som Alegre . . .;
BS . Boa Semente
PNN Pestjuisa Novo Nascimento
CPAD Casa Publicadora das Assembléias de Deus
, MFA Missão da Fé Apostólica ,
EBD / Escola Bíblica Dominical
HC ^ IlarpaCristã - . i
ISER instituto de Estudos da Religião

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/
/‘
A nexo 1
Pesquisa nas' fontes primárias

' O leitor tem, a seguir, uma apresentação detalhada das


fontes de pesquisa utilizadas na composição da presente obra.
Sua leitura, é importante, por conter informações adicionais
sobre personagens, e órgãos que fazem parte da história da
AD, além de ser referência paíá futuras pesquisas. Também
apresento as discrepâncias nas histórias, a oficial é.á apurada
durante a pesquisa. ' .

" ’ , As biojgrafias . ■^ ^ •••’ ■

Há três livros biográficos fundamentais que narram a 1


histófia dos füèdádõfeá xláAtoj nõ-Brasil. Enviado p p rD e u s
(1973) e Diário de um pioneiro (1995), biografas de Gunnar :■
Vingren e Daniel Berg, organizadas por Ivan. Vingrep e David
7 Berg, respectivãmente filhos dos missionários. O primeiro é
compilação de-25 diários (Vlngrep, 1973:92) éscritos em vinte ■"
anos no Brasil, onde fica claro que muita história foi expurgáda. >
O ségundo é uma “celebração”220 qüe o filho faz ao pai. '

2220Leònildo Çanipps (1995) e m “Çelebrando’íobrase carreiras: afunção do “louvor"


ao passado e aos'líderes tia criação ê tnanutenção de uma cultura organizacional
em uma denominação protestante brasileira", analisa o papel dos historiadores
religiosos enijuanto “celebradores das instituições”. . , „
1721 ASSEMBLÉIA DE DEUS - O R IG EM , IMPLANTAÇAO E M ILITÂNCIA
, ( '\
Üm testemupho historiográfico importante é Despertamento
A postólico no B rasil (Vingren, 1987), publicado em Í934221 na
Suécia, e traduzido e publicado ho Brasil somente em 1987, É
uma série de artigos/testemunhos dos suecos sobre como se
deu a evangeíização/estabelecimento da, igreja no Brasil, que,
talvez seja uma “ proto-história asssembleiana” que veio à
luz na década de 4 0 .222 Duas outras biografias ajudam
especialmente no entendimento da problemática das relações
entre suecos e norte-americanos (Brenda, 1984) e suecos e
brasileiros e o surgimento dos ministérios (Costa, 1984): a
biografia de J.P Kolenda e a de Paulo Macálão, respectivamente.

A historiografia oficial

São três os livros oficias de história da AD no Brasil; oficias


porque foram lançados pela CPAD. Para efeitos didáticos,
classifiquei-os como: , ■• ■
- I a füstórisa: H is tó ria da Assem bléia de Deus no B ra s il
(1960). Foi escrito a partir de uma decisão da Convenção de
1948, em Natal, tarefa destinada a Emílio Conde223 (1960:8).
Nela se desenvolve a teoria do movimento, o autor discute o
ecumenisrpp, a relação com outras igrejas evangélicas, e
elabora muito do que vem a ser a teologia assembleiana,
enfim, estabelece o pctdrãç dssembleiano que, em sua maioria,

22Alvaf Vingren (1 973:92) diz que esse livro foi escritóem 1919,-mâs istcvou é erro
tipográfico ou o seu copidesque falhouxpois o contexto 6 posterior à segunda
viagem de Gunnar Vingren à Suécia, em 1920 (Vingren, 1987:35).
222 Fui informado desta “história da A D ” publicada na década de 40 numa das
entxevisíaSV mas apenas, uma pessoa sabia dela. Nenhum oütro éntrèvistado a
confirmou oú^desfnentíu. Outro entrevistado lembra quenó,início.da década de
70 conheceu um livro na Suécia' que podería ser unia.referência a este.
223 É o primeiro teólogo pentecostal no Brasil, escreve com este uma “história do
pentecostalismo mundial”, Testemunho dos Séculos (1960). ’ .
ANEXOS ' ■ - . - """.c-.. - ... ■■ ■;. ' ... , ? 7Í

é sçguido até hoje. Aliás, o livro, estabelece o “ padrão histo


riográfico assembleipno” , pois todos os demais livros repeten
sèu èjstilo-^ a história dos suecos, o nascimento da igrèja err
diferentes Estadbs e/ou cidades, perseguições, batismos
inaugurações de templos etc. Relata apenas os fatos, mas nãc
há qualquer explicação para os, mesmos. .
2a história: Tem o mesmo titulo do anterior. Foi lançadc
èm 1982 e é o livro de Emílio Conde (1960) copidescado poi
uma equipe na CPAD, liderada por Abraão de Alm eida
Lamentavelmente, o mesmo não, foi melfiorado; áo contrário
foram acrescentadas apenas algumas infofmações sobre oí
Estados., mas no principal nada difere. O livro, inclusive
confunde datas e faz afirmações não provadas.
3a história: As Assembléias de Deus no Brasil - sumarie
histórico ilustrado, escrito por Joanyr de Oliveira,2114 1998. Fo;
lançado na ocasião do Congresso Mundial das ÁDS, em Sãc
Paulo. Avança muitó ém relação aos anteriores, áo falai
positivamenté sobre educação teológica, atividades dos jovens
e até mesmo cita trabalhos científicos produzidos sobre a
Assembléia de Í3eüs. Mas do:ponto de vis'ta histçriográficò, é
de pior qualidade. Expõe úm amontoado de fotografias com
legendas erradas e não se justifica como livro de história.2 425
2
Como diz Júlio Ferreira, comentando a historiografia
evangélica ‘A hís,foriografia (...) é fragmentária e cientifica mente

224 Joanyr -de Oliveira é um intelectual atípico na Assembléia de Deus. Poeta coit.
diversos livros publicados por editoras seculares, é membro da Academia de Letra;
de Brasíliac da Associação' Nacional de Escritores, é organízadorde uma antologir
de poetas de Brasília. . ;> - ;
225É, edrno os demaislivros, típico^assembleiano: graiádiloquente, ufanista, cheio de
/ fotografias qüe atestam.a vitória. mas fica devendo no conteúdo. O autor teve
menos dé três mes^s para reálizâ-lo, iimá temeridade. Informações incompletas e
équívqcadas,. datas erradas e,jna pressão dõ tempo e economia editorial, lhe
cortaram abibliografiae as notas Sem o conhecimento do autor (informação dada
a mim por Joanyr de Qliyeira). Q textp-final. copidescado pela-CPAD, chega ao
cúmulo de tecer elogips ao próprio autor. , (
17 4 ASSEMBLÉIA DE DEUS - O R IG EM , IM PLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

deixa muito a desejar” !226 Não é diferente ern outras deno­


minações evangélicas. Pretende se, nesté trabalho, colocar ps
“ silêncios sob suspeita”227, alguns tópicos e/ou episódios são
prop osita d a n ien te (? ) esquèciàos nos livros de história e
biografias, e os entrevistados evitam falar. Pelo menòs três
assuntos são de capital importância: a mudança do nome de
M issão da Fe Apostólica pata Assembléia de Deus, o que de
fato aconteceu na Convenção de 1930, e a relação entre suecos
e norte-americanos. ; " -Y;.

v Jorn ais228 . \ .

Estas são as fontes primárias .mais importantes, desde seu


primeiro documento em outubro de 1917, o jornal Voz da Verdade.
Ressaltando-se as suaS ambiguidades e o papel ideológicò - estes
textos , mais o do que se diz sobre a AD, é o qüe ela diz sobre si.
Também foram usados os jornais .Sor? Semente - 1919-29,
um exemplar da Voz Pentecostal (fevereiro/30, de Recife), e o
M ensageiro de Paz (iniciado em 1930 e até hoje existente).
Jornais são, nas primeiras décadas, as únicas produções desta
igreja. Posteriormente surgiram diversos livros teológicos os
quais não foram consultados por não terem relação com o
período coberto pelo presente livro: S ,
Foram lidos e tabulados (Tabela 10) 522 artigos, 349 do
jornal Boa Semente (1919-29) e 173 do jornal Mensageiro de
226Cf. Ferreira, Júlio Andrade, Historiografia Evangélica Brasileira, Simpósio, ASTE,
vol. 2. Novénibro/68, SP, pág. 36. V- :
227Este conceito é desenvolvido pór EiízabethS. Eiorejnza.(1986:86) á pàrtir de seu
instrumental teórico na teoria da “hermenêutica da suspeifa” .Teóloga feminista,
ela estuda a históriá da igrejá sòb a perspectiva da mulher, mas esta histórià foi
escrita por homens e só eles-são píotagònistas, â ação feminiSna % parà dizer ó
mínimo, não vista. Então é necessário.fázer umá leitura suspeita dos fatos. Ver
“Ás origens cristãs a partir da mulher. Uma nova hermenêutica” ( Í992). Ver
ainda, Sanzana (1995) ern seu trabalho '‘Toc/us seríamos rainhas" - História do
pentecostálismó chileno dá perspectiva da mulher—1909-1935" fonde elâ trabalhou
com a história oral e usando o referencial teórico da F i ò r e n z a . '
228 Os jornais encontram-se arquivados na sede da CPAÇ), np Rio de Janeiro.
' anexos . 175 .■

, Paz (1930-31).229 Classificadqs por temática, e contabilizados


pelo número de articulistas (apeiias quem escreve m aisdedois
artigos foi considerado), Conta, também, a nacionalidade e sexo
dos autores. Os avisos, testemunhos e notícias não foram
considerados nesta tabulaçãó, pois, apesar da sua conotação !
téológica e de militância, são episódicos. Os artigos - a temática
e seus autores - é que fazem a doutrinação da igreja, ou pelo
menos o pretendem. Eles indicam como esta igreja está se >
, formando, o que é discutido e se é relevante para ela.

A tabulaçãó dos artigos apresenta os seguintes problemas:


1. U n ia a r b itr a r ie d a d e : a leitu ra determ inou que >
determinado artigo é sobre determinado tema, usando como 1
" critério a leitura do mesmo. Isso é questionável? Sim, até porque ;
diversos desses artigos póderiam ser enquadrados noutra
categoria, pois poucos deles são específicos sobre determinado ,
assunto. Assim, o critério de classificação foi arbitrário. No
t entanto, a estatística resultante nào é prejudicada, afinal um ';
texto sobre compromisso tém o mesmo objetivo que outro sobre
apologia pehtecostal-. incentivar a militância. ; . -.
, 2. Um a surpresa, pela leitura do primeiro jornal de 1917,
Voz da Verdade, parece que toda a produção jornalística
assem bleiana destina-se éxclusivám enté à defesa da fé ■
pentecostal. Ao inicia.r a leitura fica a impréssão de que tòdoS
^ os demais se prestarão apenas a isso, mas no decorrer dos
anos o jornal torna outros ramos e outros assuntos aflorám
(descuido ou propósito?). O jornal termina sendo q canal -
, único - de ligação dessá igreja nascente neste país continental.
3. A lgu m a s lim itações-, as coleções estão incompletas,*230
alguns textos ilegíveis, grande número de artigos sem .

7MA proposta original era ler e tabular os artigos do M l’ até 1950, mas uma série de
■ ' fatores a inviabilizaram. ^ . >
230A leitura foi feita a partir dejcerocópias, já que o&çriginais estão perdidosrHá úm :
exemplar do “Voz da Verdade” e diversos números avulsos do Boa Semente.
176 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA v

indicação de autor e origem , diversos trazem apenas as


in ic ia is , fica n d o im p o ss ível, po.rtánto, saber se foram
produ zidos por estrangeiros/m u lheres1e/oii brásileiros/
homens/Muitos textos tráduzidõSnão cohtêm identificação
de origem, e em nenhum deles consta a tiragem. Informação
fundamental para se saber o seu crescimento e potenciál, e,
evidentemente, da própria igreja. / ^

As entrevistas

A proposta de entrevistar pastores com mais de 70 anos


foi uma tentativa de, entre outras, ouvir a versão daqueles
que foram contem porâneos dos fundadores. Todos eles
iniciaram seus m inistérios há mais de cinquenta anos,
portanto, trabalharam com a primeira géração de pastores
assembleianos^nas quatfo primeiras décadas. Se eíes fossem
nossa única fonte de pesquisa, seria um malogro total, mas
as e n trevis ta s preten diam apenas con firm ar algum as
suspeitas, checar dados não contidos na historiografia oficial,
enfim, como já foi dito, ouvir a versão que podiam oferecer.
Foram contatados mais de vinte, mas consideradas apenas
oito entrevistas com pastores.231 Por quê? Muitos se escusaram
dizendo-se “um mero pastor que esteve na igrçja esses anos
todos, mas sem poder de decisão, ausentes do palco da
autoridade” e, portanto, não se consideravarh “ capazes e
autorizados para dar entrevista sobre a origem é construção
da igreja” . Nesses casos, sugeriam outros nomes, apontados i
como “ cultos e importantes” , porquanto, “este, sim, sabe das
•coisas e esteve na liderançp” . Mas os “cultos e importantes” ,

231 Duás entrevistas com mulheres foram consideradas separadamente, apesar de


termos^onversado com diversas esposas de pastores. Não é possível indüí-Ias na '*
contagem porque elas não participaram das questões decisórias da igreja.
anexos ' .7 ~ ’ o :í ■■■ '■ ; r/

apontados anteriormente, invariavelm ente eram o pasto


plresidente do ministério, e ai secretária e/on pastor-auxilia
impossibilitaram ó aeesso a ele.
Outras entrevistas não passaram de um m onólogo e
assim, não alcançaram o objetivo. O roteiro de pergunta:
müitas vezes não foi seguido. Desde o cuidado que se precisí
ter com a saúde de alguém com mais de 70 anose a presenÇí
de familiares sentindo-se parte da história (muitas vezes iicoi
claro que o pastor não queria falar sobre determinado assunte
na frente da esposa e filhos), a situações constrangedoras d<
ser expulso da residência por:não ter em.mãos uma “Carta d<
Recomendação” .232 Entrevistar alguém com essa idade é alge
excepcional, aliás. uma tentativa excepcional. Eventualmente
usam a pergunta para responderem outra-, é uma oportunidadi
de contar mais um “ causo” , na suá concepção bem mai:
importante do que as questõçs que o entrevistador pretendt
investigar. E, evidentemente, sua versão é a correta è ninguén
pode - nem deve - questionar. Ou interromper sua fala.
Evidentemente, este universo é muito pequeno para, a parti
dele, se chegar a concluir alguma coisa sobre a instituição, ric
entanto, algumas conclusões podem ser tiradas:
1. Classe social: todos os oito entrevistados, originalmente
- vieram de classe baixa (operários, alfaiate, metalúrgico) e d<
pequeno poder aquisitivo (nada^muito diferente da realidad<

2 Escolaridade: dois têm 3o grau completo, dois o 2 ’ g


e todos os demais são apenas alfabetizados. Não temo:
. nenhuma estatística antiga, nem atual, para checar se este:
dados podem estar próximos da média;

52Em Rècife.na casa de um pastor de 90 anos, no auge daconversà, a esposa no


interrompeu para saber se eü havia pedido autorização do pastor-presiden te par;
fazer-lhe aquela visita e me pedira rrirnha “ Carta de Recomendação”. Na ausênci;
destas, fui “convidado” a. sair epi “nome de Jesus”.
178 ASSEMBLEIÁ DE D E U S -O R IG E M , IM P lA N fÁ Ç Ã O E MILITÂNCIA

3. Entrada no m inistério: todo? foram consagrados ao


ministérió pastoral quando' jovens.vApenas um entrevistado
foi consagrado aos 32 anos; todos os demais, abaixo de 31
com 16 anos de idade, e quando ainda, eram solteiros (algo
rejeitado por várias Igrejas A Í) hoje); •
4. Religião anterior: dois entrevistados foram presbiterianos,
um foi luterano e OS demais, católicos, um dado chamou atençãò:
apenas um se converteu aos 22 anos, osdemais converteram-se
na adolescência;
5. Exercício do Ministério; todos iniciaram seus ministérios
Pregação e fundação de igreja - antes de receberem algum ■
título pastoral (os obreiros leigos, ainda hoje, começaram seií
ministério de pregação bem antes da ordenação;
6. Por fim, todos, de maneira saudosista, louvam seu período
como o “ideal verdadeiro, correto, santo, onde a igreja dependia
do Espírito Santo apenas”; e reclamam, da igreja atual que,
segundo entenderri, estã “ desviacja, caindo na teologia da
prosperidade, burocratizada, chéia de disputa por cargos,
preocupada em agradar o mundo, querendo parecer com as
igrejas tradicionais”.233*
A tentativa de resgatar a história oral foi uma etapa
in te ress a n te, mas um ta n to com plexa. Prim eiro, a
desconfiança: qual o interesse da Universidade Metodista na
história da AD?2?4 Esta primêira etapa foi vencida com minha
identificação como diácono asSembíéiano (na ocasião), usando
também o nome de meu pai,235 antigo pastor da AD no Ceará,
que alguns dos entrevistados conheceram;

233Todas estas afirmações são palayras/ffases dos-entrevistados.


2A E s te livro foi, inicialmente, apresentado coiiio dissertação de Mestrado ha
Universidade Metodista, em Sãò Bernardo do Campo, SP.
235 José Freire de Alencar (19Í5-1982) iniciou seu ministério em 1936.
ANEXO S - , ' ' . ; 179

•Segündo, porque qu eria entender a lgo tão ó b v io : a


constrüção/crescimerito da AD foi ,façãò dó Espírito Santo” -
e, eu, como ássembleiano, “ deveriá conhecer, ê não perder
tempo com isto” . Finaimente, a própria resistência em falar
como um “menino” (como fui chamado por um pastor de 82
anos) sobre assuntos tão sérios. Ademais, tudo já pàssou e o
mais importante é que Deus “confirmou sua obra e a AD está
aí como a maior igreja do mundo!” Os nomes dos entrevistados,
obviamente, foram omitidos (foi um compromisso assumido
durante a entrevista não gravada); âté porque os exporíamos,
uma vez que uma das principais características das entrevistas
foi a contradição.236

.; As atas ' '

No início da pesquisa, a principal pergunta era -.onde estão


as atas das reuniões convencionais e/ou de m inistérios! Na
CPAD não estavam e nas diversas sedès de Ministérios também
não. Nas entrevistas que realizei, foi frisado diversas vezes
que os “suecos não faziam atas,237” pois “ eles eram contra
todo e qualquer tipo de organização” . Emílio Conde (1960) e
Lewis Pethrus (Vingren, 1973) falam contra á possibilidade
de a AD vir a sè torpáruma “denominação” . No entanto, em
fevereiro de 2000 encontrei as cópias de Atas erjL mãos de

16Contradição na história oral não é mentira nem falsidade do entrevistado, apenas


236

sua “ construção de reminiscêricias” com todas as ambiguiâades que isto Venha


ter na medida eiiique, “ o processo de recordar é uma das principais formas de
nosidentifiearmós (,.,) A o narrar uma história, identificamos o.que pensamos
que éramos no passado, quem pensamos que somos no presente e o que
gostaríamos dò ser”. Cf. Thomson, Alistar, Étiòde História^ O r a l- Recpthpondaa
Memória: questões sobre a relação etitrehistôrià oral e ás memórias. Prõj. História
de São Paulo (15), PUC abril/97. ^ ' > >... ■ ■‘
237 Alguns explicaram que nem mesmo se fazia registro de membros porque é “pecado
còntar o povo de Deus”, algo que outras igrejas tàmbéni creem a partir d o episódio
da condenação divina a Davi por realizar um recenseamènto em 2Samuel 24^
180' ASSEMBLEIA DE DEUS - ORIGEM,' IMPLANTAÇÃO' E MiLiTÂNCIA

pessoas particulares (filhos de pastores da primeira geração).


Os suecos faziam atas, sim. Muito mais que isto, publicavam ;
um livreto de cada Convenção, para os participantes. Os suecos
eram contra & organização n a cion a l da Igreja238 mas, no
decorrer da caminhada, a necessidade de institucionalização
os ultrapassou.
Uma análise das atas, em seus múltiplos aspectos, ainda
está por ser feita* trabalho, aliás, que renderia diversos livros.
Os dirigentes das Convenções e as indicações dos mesmos; a
estipulação dos horários para estudos bíplicos e questões ;
administrativas; os participantes: quem pode falar e v o ta ria
presença feminina (no início seus nomes são citados, depois
figuram apenas como “ pastor x e esposa” , mais tarde são
proibidas de participar); os assuntos debatidos (aceita-se
batismo dos adventistas e presbiterianos?; pode um pastor :
da Assembléia de Deus participar dè um culto em outra igreja?,
etc.); a interminávei discussão sobre as “Fábricas de Pastores”
(seminários) e a conflituosa relação dos Ministérios entre si a
partir da década de 40, pois em quase todas as sessões há um
com issão para resolver o “ caso de ...” ; (assim mesmo, a
referência a “caso” ocorre sem nenhuma explicação da origem
do problema e das suas consequências).239
As Atas precisam ser “ interpretadas” , porque são registros
e rião explicação dos fatos. Serviram áo propósito deste livro
como -indicação da problemática relação dos suecos com os
norte-americanos. Algo, aliás, completamente omitido na
historiografiaoficial. , ^

238 Temática discutida nò cap. 3, p. 105. _ (


239As Atas da Convenção de 1938 já falam de “dificuldades em várias localidades” (pág.
37), “ incompatibilidades entre obreiros” (fjág. 17) e ‘invasão de campos” (pág: 11).
' I

Anexo 2
Presença missionária estrangeira no Brasil
•\ ■ '/ ' '■ . ■■•' / .. 'v ’ 4 K.

O quâdro seguinte é uma tentativa de identificar a presença


estrangeira na ÀD. No entanto, ele está longe da precisão pelo
fato de que diversos nomes aparecem nos relatos (biografias,
história e jornais) já no exercício ministerial sem a data .de sua
chegada ou saída, sem informações sobre sua nacionalidade,
estado civil, sexo e tipo de trabalho qüe fazia. Essa dificuldade
inviabiliza a inclusão da informação cuja precisão é, a meu ver,
indispensável. Portanto, só foram colocadas as informações que
são dadas nos livros. As lacunas estão sendo preenchidas pelas
entrevistas, mas quando obtive informações contraditórias,
preferi omiti-las. Outro problema é grafia dos mesmos qüe nem
sempre são uniformes. Podem ser a mesma pessoa ou outra
qualquer, se a grafia estiver correta. :

ANO ■ NOME / ' ORIGEM LO CA L D E S ER VIÇ O


AlbertWidner - A
1940 Aldor Pettterson (esposa e
■ - v - ■ ■ ■ _
três filhos) " y

1928- AlgotSevensen ’ V V* . , •; •

Ana Carisòn ,.
1934? Anders Jonhson '' ■ 1 9 3 4 —já estava no Brasil
ÀndérsJonhonsson' .
182 ASSEMBLÉIA DE D E U S - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

1946 André Hargreve EUA • veio trabalhar na gráfica da CPAD


Augusto Anderson '
1921 Beda Palha ...... !
y. ■ ; y. "
~ 1957 Bemhard Johnson Jr. EUA
1920 Bruno Skolimowáki Polônia Maranhão, Ceará, Paraná ?
.1 9 5 0 Carlos Hultgren - em 1955 mantinha um programa de
rádio em Belém ,: ' v
Cecília e Anderson . - ... :
Johansson
Clím aco Bueno Aza Colômbia / Belém, São Pauio .' ‘
1911 Daniel Berg, Suécia Belém ; em. 1921 vai para o E.
Santo, em 1930 vai para Portugal,
em 1963 morre na Suécia :
1.921 (?) Elizabeth Jonhansson, Suécia orfanato em Redfe
Augusto Anderson
1934? E m a Miller . ; EUA 1934 já estavâ em Salvador ;
EsterAnderson i y
1940 Ester Orlando _
1933 EuricoAldorPeters - ■: y-v y ry - ■ v - , - - 7 ? : yyy ■;
1923 Eurico Bergson (19 -1 9 9 9 ) Finlândia •y . '■ ■
1917 Frida Standbeng Suécia Belém, Riò, 1932 retoma para *
S uédá • •"<
1921 G ay de Vns EUA ; _ - ■ ■ -
Guilherme Treffut ■' y y . y y - ■>
1911 GunnarVingren Suécia . Belém; em 1924 vái pará o Rio, em
1932,retoma (Dara a S uéda :
1923 Gustavo Nordlund Porto Alegre
1924 Herbertoo Nordlund v ;-y : ■ " ' r. . ~ . • -.
H orace S. Ward ‘
1923 Ingrid e EsterAnderson , Su,éda Ceará ■ >
1918 Joel Carlson240 Suéda . Pernambuco .
• JohnAenis y>. .• y -
1948 John Peter Kolenda Alemanha - (
John Sòrheim f 1928 em SP

240 O liveira (1997: 37) registra 1925.


AN EXO S ■■■'■ ... / ■ • ... 183

LarsfEric 1926 fundou uma Escola Primária


,r ' . v; v.‘ ^ ■ em Belém

1938 Lawrence Olsòn EUA ' Lavras-MG; em 194Ò vai p/ Rio,


1955 program adeRádio,1962 inicia
o IBP no Rio • '
1938 Nels Cawrence Olson Rio :' ■
1921 ' Nels Nelson ./ Suécia Belém
1923 Nills Kasterberg Suécia ; .. ■ !
1946 NilsTararigér - Porto Alegre -
Nina Englund —• -■■■, ' .
1927 . Orlando Boyer ' EUA ; Originalmente, enviado pelalgreja
de Cristo - E U A ' - V
1914“ O ttoeA dina Nelson • Suécia Belém-PA, em 1918 vai para .
Alagoas
1922/24 P au lJ.A em is ' ' ■ EUA ; Mato Groeso . \
1921 Samuel Hedlund
‘ 1916 S am ueIN istrõeneesposa, Suécia Belém, Manaus (" ■-
' 1924 Simão Lundgren/Linèa '' S a n to s -S P * -1928
1923 SimãoSjõgren ' : Suécia . Paraíba ' . r ..
Victor Jansson - " 1 * •; /
1934(?) Virgílio Smith (?) EUA
1921 Vitor Johnson ' - v/
1934? WalterGoodband , V . •
•'/

\
AftexçxJ
C O N V O C A Ç Ã O D A C O N V E N Ç Ã O D Ê 30 E M N A T A L 241
- ^ ■; C O N V E N Ç Ã O GERAL EM NATAL
a grafia ori

A TODAS ASSEMfiLÉAS NÓ BRASIL

■ Nós, reunidos na cidade de Natal, nos dias 17 e 18 de


dezembro242 próximo fiado, tivçmos-pela graça de Deus a
inspiração da necessidade urgente de uma Convenção Geral,
em que se copgregjiie a mór parfe dos trabalhadores.brasileiros
e m issionários para resolverem certas questões que se
prendem ao progresso e harmpríia da causa do Senhor.
Todos nós sabemos a crise.por que, como uma dura prova,
passou a Assembléa de Deus neste paiz e não podemos nos
conformar com esse estado de coisas, sem o necessário
entendimento daquelles que teem responsabilidade deante de
Deus. , '■ ■ ■: L L
Sabemos que crises podem ocorrer; mas temos na Palavra
do Senhor o exemplo a seguir
Todos conhecem a dificuldade por que passou a egreja em
Jerusalém com a inovação dos judaisantes; porém vemos,

241 Este tex to fo i pu blicado p o r meses n o jo rn a l Boa Semente durante o ano


de 1929. Oliveira (1997: 37).registra 1925.
242 Esta reunião aconteceu em 1928. ' .
186 ASSEMBLÉIA DE PEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA

aliás, que se congregaram os apostolos e anciãos para


considerar a questão' (Àct. 15:6). ’ s-
Não tomaram attitudes pessoaes, porém se congregaram
e com elles estava o Espirito Sancto que os dirigia. "
Assim queremos fazer, amados irmãos, e pedimos eríj nome
do Senhor a vossa aprovação. - >
Temos em vista convidar todos os obreiros por meio deste
manifesto e solicitamos que nos respondaes com urgência,
pois a nossa Convenção áe realizará em julho vindouro, na
cidade de Natal. Deve começar no dia 12 do referido mez e se
não precisamos o termino da mesma Convenção, é porque
achiámos ju sto d eix a r no a rb ítrio das n ecessidades e
circunstancias de occasião.
Temos a certeza de que foi o Senhor que dos dictou a
necessidade de uma Convenção Geral, pois só assim será
possivel remover certos obstáculos que podem embaraçar a
causa de Nosso Senhor jesus Cristo.
Certos de que não haveis de desprezar o que sentimos da
parte do Senhor, contamos com a vossa presença na referida
Convenção, cujo fim será a exaltação do nome do Senhor e a
fraternidade daquelles que desejám extender o reino de Deus
neste mundo. ' V /-á • •-

Francisco Gonzaga, Cícero Lima, Antonio Lopes, Ursulino


Costa, José Amador, Napoleão de Oliveira Lima, José Barbosa,
Francisco César, Nathánael G. de Figueiredo, Pedro posta.

- Os que vierem tenham a bondade de comunicar com


urgência, afim de que se tom e fácil a hospedagem.
Endereço - Francisco Gonzaga. Rua Amaro Barreto, 40..

/ i
Comparação entre as versõés históricas áSsembleianas

A C O N T E C IM E N T O V E R S Ã O O FIC IA L , OUTRAS VER SÕ ES

Dinheiro para CPAD Oferta vínda dos EU A : Empréstimo por J.P. Kolenda
D missionário enviado pela A D em 1914
Missionário enviado :i adere à IgréjaB atista. Só em 1934 o
AD em Portugal - pela AD no Brasil em
missionário suedo funda, dó tato, a AD
1914 ■ em Portugal ,
Está havendo muitos problemas com a
Suecos decidiram ■ ideran^a entre suecos e brasileiros, daí a
Aconvenção de 30 ; entregar o trabalho ,
necessidade de Vingren ir à Suécia buscar
o Pr. Pethrus para resolver a questão
* As manifestações Silêncio Diário de Vingren -diversos registros em
cfe riso durante os que rios cultos ele,-durante a mensagem,
cultos caia ao chão ou se deitava para rire depois
retomava à mensagem ou ao culto
Disputa entre Silêncio Atas falam de uma carta enviada para
suecos e norte- KiissionMississipisobréErank Salter em
americanos ~ 1943'(?) V ■.
J Relação brasileiros Convivência pacifica e Tensão e disputa de poder
> e suecos harmoniosa
— — —— ------:—r-1------------N“r
Posição de Daniel Condição de herói Viveu no ostracismo e morreu na penúria
' - Berg ' honrado
Companheira fiel de Insinuações de que era autoritária e
Posição de Flida “metida”; dirigia a igrejà na ausência do
Vingren Gunriar Vingren .
marido (è segundo alguns, também na
presença). Morreu num hospício

Questãodos ministérios Dissimulação ' Brigas e disputa de poder

Silêncio Grupo assembleiano calvinista saiu da


, Dissidência calvinista
AD ern 1930 é fundou a Assembléia de
• em Natal em 1930
Cristo em 1932
Pastor da A D em N atal, calvinista,
Saída de Manoel Silêncio secretário da C onvenção e um dos
Higino líderes da convocação da mesma. N a
tradição oral, adulterou e foi excluído da
A D . Teve in clu sive seu s 35 hinos
Á’■
•f excluídos da Harpa Cristã:
■- A'
).