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DEMOCRACIA VIVA 44

JANEIRO 2010

Cultura
Reflexões sobre
uma década de FSM

Eleições 2010
Entrevista
Joel Rufino
e d i t o r i a l
Dulce Chaves Pandolfi
Diretora do Ibase e pesquisadora do Cpdoc/FGV

O ano de 2010 será de muitas disputas e enfrentamentos. Alguns dos


desafios que estão postos para o Brasil e para o mundo exigem respostas radicais e imediatas. A
segunda década do século XXI se inicia com a permanência e até mesmo o agravamento de imensas
desigualdades regionais, econômicas e sociais responsáveis pelas injustiças ambientais que se abatem
nas diferentes regiões do planeta.

As frustrações com os resultados da COP 15, a Conferência das Nações Unidas sobre
Mudanças Climáticas, ocorrida em dezembro de 2009, em Copenhagen, não impediram que diversos
países, entre eles o Brasil, começassem a dar passos objetivos, colocando metas para a redução das
emissões de gases e do efeito estufa.

Por outro lado, o terrível terremoto que se abateu em janeiro de 2010 sobre o Haiti, e
quase o destruiu totalmente, expôs para o mundo um país institucionalmente frágil e extremamente
pobre. No entanto, é importante frisar, que essa situação de extrema pobreza, sem dúvida agravada
com o terremoto, não foi obra da natureza. Resultado de um processo histórico, foi produzida pela
humanidade e pelas nações que, ao longo dos séculos, colonizaram, dominaram e exploraram o Haiti.
Situações como a que enfrenta hoje o Haiti reforçam a nossa determinação de lutar por uma socie-
dade planetária mais justa e mais solidária. E é essa determinação, mesclada com a nossa esperança
de que “um outro mundo é possível”, que nos leva, apesar de tudo, a comemorar tanto a década que
finda como a década que se inicia. É também em janeiro de 2010 que o Fórum Social Mundial, que
começou pequeno, mas sempre soube de sua grandeza, completa dez anos de existência.

No Brasil, o final deste ano coincidirá com o final do governo Lula e a eleição presiden-
cial que promete ser muito acirrada. Aqui, o ano 2010 se iniciou com um importante e tenso debate
sobre os Direitos Humanos, revelador de quanto ainda precisamos avançar nesse terreno.

Apesar do III Plano Nacional dos Direitos Humanos ser ainda bastante tímido e ter
sido gestado em amplas discussões que precederam as conferências estaduais e chegaram à Confe-
rência Nacional, setores da sociedade e do próprio governo se levantaram indignados, questionando
aspectos ali contidos como o controle social sobre os grandes meios de comunicação ou a necessidade
de se fazer uma mediação antes de expulsar ocupantes de terras e de imóveis abandonados. Mas o
ponto que provocou maior reação foi a criação de uma Comissão Nacional de Verdade para avaliar
a violação dos Direitos Humanos ocorrida durante o período do regime militar que se instalou no
país em 1964 e perdurou até 1985. Entretanto, esse acerto de contas com o passado é fundamental:
abrir os arquivos da repressão e extinguir a impunidade que foi garantida àqueles(as) que torturam
e assassinaram opositores(as) da ditadura militar são condições para garantir um futuro mais justo e
democrático para o nosso país.
s u m á r i o
Ibase – Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas
3 ARTIGO Av. Rio Branco, 124 / 8º andar
20040-916 Rio de Janeiro/RJ
Qual comércio, para qual Tel.: (21) 2178-9400 Fax: (21) 2178-9402
desenvolvimento? <ibase@ibase.br> <www.ibase.br>
Carlos Guillermo Aguilar
Conselho Curador
Sebastião Soares
8 NACIONAL João Guerra
Redemocratizar a democracia Carlos Alberto Afonso
Eliana Magalhães Graça Nádia Rebouças
Sonia Carvalho

12 ARTIGO Direção Executiva


Cândido Grzybowski
A internet no centro da Dulce Pandolfi
comunicação política no Brasil Francisco Menezes
entrevista Juliano Borges
Joel Rufino Coordenadores(as)
Antônia Rodrigues
16 INTERNACIONAL Fernanda Carvalho
Jogos Olímpicos, jogo para Itamar Silva
todos e todas? João Roberto Lopes Pinto
Luzmere Demoner
Carlés Riera
Moema Miranda
Renata Lins
20 ENTREVISTA
DEMO C RA C IA VIVA
Joel Rufino
ISSN: 1415-1499 – Publicação trimestral

34 ARTIGO Diretora Responsável


América Latina e os processos de Dulce Pandolfi
democratização da comunicação Conselho Editorial
Maria Pia Alcione Araújo
Cândido Grzybowski
CULTURA
38 MATÉRIA Charles Pessanha
Cleonice Dias
A desconstrução do descaso Jane Souto de Oliveira
Ana Cristina Bittencourt, Flávia Mattar e João Roberto Lopes Pinto
Jamile Chequer Márcia Florêncio
Colaboração: Diego Santos Mário Osava
Moema Miranda
Regina Novaes
44 CRÔNICA Rosana Heringer
Alcione Araújo Sérgio Leite

Edição
46 VI PLATAFORMA IBASE Ana Bittencourt
Cuidar, cuidarmo-nos: imperativo Jamile Chequer
ético, desafio coletivo
Lilian Celiberti Revisão
Flávia Leiroz
Crise de civilização hegemônica e Ana Bittencourt
interaprendizagem de paradigmas Assistente Editorial
alternativos Flávia Mattar
Roberto Espinoza
Assessoria de imprensa
Rogério Jordão
58 OPINIÃO IBASE
Para além do Estado do Produção
bem-estar social Geni Macedo
João Roberto Lopes Pinto
Estagiário
Diego Santos
O Ibase adota a linguagem de 62 RESENHAS
gênero em suas publicações por Distribuição
acreditar que essa é uma estratégia Elaine Amaral de Mello
para dar visibilidade à luta pela 66 CULTURA
eqüidade entre mulheres e homens. Fórum Social Mundial, a construção Projeto Gráfico
Mais Programação Visual
Trata-se de uma política editorial, de um outro mundo possível
fruto de um aprendizado e de um Cândido Grzybowski
acordo entre os(as) funcionários(as) Foto de capa
Montagem sobre foto de J. R. Ripper
do Ibase. No caso de artigos
redigidos voluntariamente por 78 SUA OPINIÃO
Tiragem
convidados(as), sugerimos a adoção 4.700 exemplares
da mesma política. 80 ÚLTIMA PÁGINA
Os artigos assinados nesta Nani democraciaviva@cidadania.org.br
publicação não traduzem,
necessariamente, a posição do Ibase.
artigo
Carlos Guillermo Aguilar*

Qual comércio,
para qual
desenvolvimento? 1

Se aceitamos como ponto de partida que o comércio pode se tornar uma ferramenta

fundamental para o desenvolvimento dos países pobres, também devemos ser capazes de

avaliar algumas das razões pelas quais, hoje,a agenda de liberalização comercial agressiva

nem é uma agenda de desenvolvimento sustentável nem ajuda a reduzir os problemas

de pobreza definidos nos Objetivos do Milênio (ODM).

Os ODM são um conjunto de medidas adotadas em 2000 por um total de 189

países, “para resgatar o tema do desenvolvimento nos países pobres”, com metas definidas
1 Este texto é parte da
para 2015. Nele, encontram-se metas como reduzir a pobreza, a fome, as desigualdades palestra “El multilateralismo
desequilibrado de la
Organización Mundial
de gênero, a mortalidade infantil e a materna; evitar doenças como HIV/aids, malária, de Comercio (OMC) y la
estrategia de acuerdos
bilaterales de los países
entre outras; promover o desenvolvimento sustentável, a educação; e avançar rumo a desarrollados: hacia una
agenda para fracasar en los
Objetivos del Milenio (ODM)”,
realizada na Universidade da
uma parceria global para o desenvolvimento. Costa Rica. O texto completo
será publicado pelo Instituto
de Investigaciones Sociales da
[Traduzido do espanhol por Lígia Filgueiras] universidade.

Janeiro 2010 3
artigo

Cada vez mais, diversas organizações particularmente em países da América do


e instâncias internacionais reconhecem que, Sul. Aconteceu o mesmo com as exporta-
embora o comércio não seja uma panaceia ções. (...). Não apenas o crescimento total
para o progresso em todos esses aspectos, é foi muito menor do que o do período de
fundamental para atingir as metas fixadas. As substituição de importações, como também
negociações comerciais multilaterais, em espe- o crescimento das exportações desacelerou
cial as promovidas na Organização Mundial do e ainda é dominado pelos produtos primá-
Comércio (OMC), compreendem uma agenda rios (Ganuza et al., 2004, p.1).
tão ampla que toca os principais temas relacio-
nados com os ODM. Segundo esse estudo, paralelamente,
Hoje, por exemplo, é reconhecido que cresceu a desigualdade de renda,3 afetando a
os maiores problemas ocorrem nas questões de eliminação da pobreza, a equidade e a coesão
desenvolvimento humano, particularmente no social. Assim, o estudo chegou a reconhecer que,
que diz respeito à saúde, e que as diferenças embora o impacto da liberalização e a tendência
nos avanços estão intimamente relacionadas para as exportações não fossem a principal expli-
às regiões mais ou menos convergentes do cação para o fracasso, a sua contribuição para o
comércio internacional. Assim, a Ásia apresenta desenvolvimento deveria ser medida na apreciação
progressos significativos, enquanto a África de casos particulares em um esquema mais geral
subsaariana apresenta defasagens em matéria de grupos vencedores (segundo a educação e a
de comércio e redução da pobreza. Na América percepção de renda) e de perdedores (trabalha-
Latina, são vistas algumas reduções no número dores agrícolas e não-qualificados) (Programa das
e na porcentagem de vítimas da fome, já na Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2005).
América Central, há significativos aumentos nos Essa é a situação geral na América Latina,
últimos anos (Andersson, 2007). onde surge, em meados dos anos 1990, a OMC
Por outro lado, é opinião corrente, ao mesmo tempo que a promulgação do Trata-
admitida por vários grupos de especialistas em do Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).4
economia e políticas de desenvolvimento, que Ainda que as políticas de liberalização comercial
o crescimento econômico nem significa me- agressiva acompanhem a situação do continente
lhores condições para o desenvolvimento nem desde as reformas propostas pelo Consenso de
está, necessariamente, associado à liberalização Washington, a aprovação do Acordo Geral sobre
2 Veja os trabalhos do comércio e às reformas promovidas por Tarifas e Comércio (GATT), por meio da Rodada
mais recentes de
Ricardo Hausmann organismos financeiros internacionais desde a Uruguai5 até a formação da OMC e a Rodada de
(antigo colaborador do
Consenso de Washington década de 1980.2 Doha para o Desenvolvimento, lançada em 2001,
e economista-chefe do Um estudo patrocinado pelo Programa significaram mudanças muito sensíveis nos temas,
Banco Interamericano de
Desenvolvimento). Em 2005, das Nações Unidas para o Desenvolvimento nas modalidades e no alcance das negociações.
Hausmann afirmava ao Wall
Street Journal: “Reformas (Pnud) sobre a promoção das exportações e a As décadas de 1980 e 1990 caracterizam-
profundas, crescimento pobreza, durante a década de 1990, na América se por anos de dominação de uma forte ortodoxia
péssimo [...]. Algo deve estar
errado com as teorias de Latina e no Caribe, sustentava em 2004: liberalizadora, de raízes monetaristas, que optou
crescimento.” Recomendamos
também os trabalhos de por um modelo que combinava o multilateral e
Dani Rodrik, Joseph Stiglitz e Desde o final da década de 1980, quase o bilateral. Os resultados dessas políticas, nos
Andrew Charlton.
todos os países latino-americanos expe- anos subsequentes, provocaram não apenas uma
3 Algumas análises insistem
que o comércio desempenha rimentaram um processo de profundas revisão e uma discussão sobre os fundamentos
um papel cada vez mais
ativo na distribuição da
reformas econômicas que ocorreram, par- econômicos do monetarismo e do regionalismo
renda global. Veja Programa ticularmente, no comércio internacional, aberto para a América Latina (Cepal), mas signifi-
das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, 2005, na liberalização financeira e da balança de caram, acima de tudo, um alerta constante para o
p. 133.
pagamentos (...). A maior abertura favore- crescimento excessivo e descontrolado de acordos
4 Bloco comercial formado bilaterais e a crise desencadeada nas negociações
por Estados Unidos, Canadá e
ceu novas fontes de crescimento econômi-
México. Este último assinou, co, mas também aumentou a volatilidade multilaterais após a V Conferência Ministerial, em
em 1997, o Acordo Bilateral,
que entraria em vigor e a sensibilidade aos choques externos. Cancun, no México (2003).
em 2000.
No início, parecia que as reformas iriam
5 Costa Rica e outros países funcionar como prometido. Aumentou o
da América Central, exceto Emaranhado de acordos
Nicarágua, que já estava crescimento econômico, a inflação caiu
incluída antes por sua relação
com os EUA, iniciaram e houve um boom de entrada de capital O que observamos hoje em dia é a constatação
processos formais de adesão estrangeiro. Mas em algum momento, da crise geral do sistema de comércio baseado
ao GATT em finais dos
anos 1980. por volta de 1995, o crescimento cessou, em estratégias de liberalização agressiva (livre-

4 Democracia Viva Nº 44
Q ua l c o m é r c i o, pa r a q ua l d e s e n v o lv i m e n t o ?

comércio) que desaceleraram e desnudaram as O relatório “Perspectivas da economia


verdadeiras intenções dos países desenvolvidos mundial para 2005”, do Banco Mundial, deixa
nas negociações multilaterais, e que acabaram bem clara a situação:
construindo um complexo emaranhado de
acordos bilaterais, tanto no plano comercial Os acordos entre o Norte e o Sul, espe-
como nos investimentos. cialmente os celebrados com os Estados
Contrariamente ao que supõem alguns Unidos, foram mais eficazes em bloquear
pesquisadores, não creio que estamos diante a liberalização de novos serviços, fizeram
de um dilema do tipo: multilateralismo versus exigências de direitos de propriedade
bilateralismo. Tanto os Estados Unidos (EUA), intelectual mais rigorosas do que as da
em sua Estratégia de Segurança Nacional co- Organização Mundial do Comércio (OMC)
nhecida desde 2002 (Aguilar, 2003) como a e ampliaram o âmbito da proteção dos
União Europeia (UE), em seu documento “Uma investimentos ... (2005).
Europa global: competir no mundo”, têm enfa-
tizado a necessidade de continuar encorajando A questão para esses organismos resume-
as negociações multilaterais, ao mesmo tempo se em até que ponto conseguem esses acordos
que avançam em seus interesses particulares por substituir o programa de liberalização multilate-
meio de acordos bilaterais. ral. Especialistas como Anne Krueger e Srinivasan
Dessa forma, não foram os países de- destacam que esses acordos preferenciais impe-
senvolvidos que questionaram esse modelo de dem a liberalização, fixando regras que mudam
grandes prejuízos para os interesses do desenvol- a política comercial dos países individualmente.
vimento. Foi basicamente a opinião pública mun- David Richardson e Hans-Peter Lankes, por sua
dial (ONGs, movimentos sociais), especialmente vez, reconhecem que os dados são ambíguos,
os países que compõem o G-336 e, até mesmo, mas que, sob certas circunstâncias – comércio
as agências de financiamento e organismos significativo entre as partes, tarifas elevadas e
internacionais. Hoje, economistas como Jagdish negociações entre países desenvolvidos e em de-
Bhagwati7 reconhecem que acordos como o senvolvimento – e seguindo padrões de harmo-
Nafta significaram o desvio do comércio, afe- nização e redução tarifária sob a supervisão da
tando, principalmente, a economia mais fraca.8 OMC, poderiam apoiar uma liberalização maior
Outros, como Stephen Tokarik (2004), do Fundo a nível mundial. (Ibid. Conferência do FMI).
Monetário Internacional, sustentam que: Yongzheng Yang, do FMI, resume a
questão dessa forma:
A liberalização beneficia principalmente
os países ricos e, embora no conjunto os ... as autoridades devem estar cientes de
6 Grupo de países reunidos
países em desenvolvimento se beneficiem, que o regionalismo talvez não beneficie a para defender interesses,
especialmente em relação aos
alguns podem ser prejudicados, princi- economia mundial a longo prazo. [...] Em países africanos, embora não
palmente os importadores de produtos um mundo de regionalismo e bilateralismo, exclusivamente.

agrícolas (p. 316). poderíamos terminar com o dilema de paí- 7 Bhagwati é reconhecido
mundialmente por ser um
ses que procuram tirar vantagem através da dos maiores economistas
defensores da globalização
Em geral, não surpreende que, dada a discriminação (regionalismo “competitivo”), econômica. Seu livro “Em
avalanche de acordos bilaterais (mais de 230 sem que o resultado beneficie ninguém. defesa da globalização” reúne
uma série de desqualificações
em todo o mundo, cobrindo mais de 40% do (Los acuerdos regionales y bilaterales de para os críticos do atual
modelo econômico dominante
comércio mundial), organizações como o FMI libre comercio requieren precaución, FMI- e foi apresentado pelo FMI
insistam que esses instrumentos deveriam ser Boletín. V. 33, n.11. 6 / 2004. p. 168). como “o caudilho do livre
comércio”.
chamados de “acordos preferenciais” porque
8 Robert Lawrence, professor
não tendem a uma ampla liberalização do Assim, o dilema multilateralismo-bila- de Harvard, manifestava suas
dúvidas, em uma entrevista
comércio, mas à redução das barreiras entre teralismo mostra-se falso diante dos interesses para o Boletim do FMI,
os países signatários. Deve acrescentar-se que dos países desenvolvidos, que combinam ambas assim: “... é preferível não
celebrar acordos que exijam
também deixam intacto o sistema de ajudas e as negociações, interessados em suas indústrias a implementação de políticas
que, na opinião dos países,
subsídios para a agricultura dos países desen- e empresas, e não em políticas de desenvolvi- sejam prejudiciais para o
volvidos, que não tocam em questões relacio- mento internacional para os ODM. Há anos, desenvolvimento”. FMIBoletin.
V.33, n.22. 12/2004.
nadas às práticas de dumping e que ampliam a os questionamentos ao sistema de comércio p. 359.
agenda de questões relacionadas com serviços, mundial nos obrigam a refletir sobre o que está 9 Estas três questões estão
propriedade intelectual, investimentos, normas errado. São necessárias novas regras, novas entre os conhecidos temas
de Singapura, por enquanto,
de concorrência e contratação pública.9 instituições, significa desviar o foco do comércio suspensos na OMC.

Janeiro 2010 5
artigo

* Carlos Guillermo (romper a identificação com uma série de polí- a crise das commodities demonstram não ser
Aguilar ticas ortodoxas de livre comércio) para deixá-lo a agenda prioritária dos países desenvolvidos,
Pesquisador do Ibase em função de um desenvolvimento social e nem para os Estados Unidos, muito menos para
ecológico, de um marco amplo e abrangente a União Europeia.
dos direitos humanos, romper o falso dilema A situação dos países do Sul obriga
proteção-liberalização ou, em sua forma mais mudanças urgentes na estrutura do comércio
ideológica: isolamento-abertura.10 multilateral, bem como de toda uma discussão
Como observou o Relatório sobre De- de fundo sobre a ajuda e a cooperação inter-
senvolvimento Humano, de 2005: nacional, os fluxos de capital e de migração, a
distribuição de renda mundial, a transferência de
Lançada em 2001, Doha foi classificada conhecimentos e tecnologias, e os padrões de
como uma ‘rodada para o desenvolvimen- consumo de energia para a proteção do meio
to’. Os países ricos comprometeram-se ambiente e as alterações climáticas. Se quere-
a implementar medidas práticas para se mos que o comércio consolide novas maneiras
alcançar uma distribuição mais justa dos be- de acabar com a fome e a pobreza, é urgente
nefícios da globalização. No entanto, nestes começar a nos perguntar: qual comércio, para
últimos quatro anos, não houve qualquer qual desenvolvimento?
avanço em nenhuma questão importante.
Os obstáculos ao comércio internacional
permanecem intactos, aumentaram os sub-
referências
sídios agrícolas e os países ricos dedicam-
se ativamente a conseguir a aplicação de AGUILAR, Carlos. Políticas de Libre Comercio y resistência popular.
A propósito del Tratado de Libre Comercio Centro-
10 Os estudos de Andrew regras para os investimentos, os serviços Amerca y Estados Unidos. Revista Passos – Revista
Rose, professor de Berkeley,
demonstraram, em 2003, que
e a propriedade intelectual que ameaçam do Departamento Ecumenico de Investigaciones,
o ingresso dos países na OMC aprofundar ainda mais as desigualdades no San Jose, Costa Rica, n. 105, p. 37, jan./feb. 2003.
não representou aumento Disponível em: <http://www.dei-cr.org/mostrar_
das trocas comerciais e, mundo (Pnud, 2005, pp. 127-128). articulo_pasos.php?id=24&pasos_nro=105&fecha_
em vários casos, significou
pasos=Segunda%20%C9poca%202003:%20Enero%20
efeitos econômicos negativos.
Veja-se Rose, Andrew. “Do Nestas circunstâncias, o comércio, longe -%20Febrero&especial=0>. Acesso em: 20 jan. 2010.
WTO members have more ANDERSSON, Annelie. ¿Doble Mensaje? Sobre la coherencia
liberal trade policy?” or de ser um fator de desenvolvimento e convergên- em la política de y el derecho a la alimentación em
“Do we really know that
the WTO increases trade?”
cia das economias mais pobres, significou, em al- Latinoamérica. Estocolmo: Fian/UBV Latinoamérica,
[“Os membros da OMC guns casos, a redução drástica de participação no 2007. Disponível em: <http://www.cifca.org/Doble%20
têm política comercial mensaje.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2010.
mais liberal?” ou “Será mercado mundial (a mais perceptível é a da Áfri- BANCO MUNDIAL. Perspectivas econômicas globais para 2005.
que realmente sabemos
que a OMC desenvolve o
ca subsaariana, como dissemos). Se seguirmos Washington DC: Banco Mundial, 2005.
comércio?”. Disponível em:<: as recomendações do Pnud para que o comércio Disponível em: <http://siteresources.worldbank.org/
http://faculty.haas.berkeley. BRAZILINPOREXTN/Resources/3817166-1251734401748/
edu/arose/WTO.pdf> e apoie, realmente, os objetivos dos ODM, criados GEP2005_Complete_Eng.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2010.
<http://faculty.haas.berkeley.
edu/arose/GATT.pdf >
em 2005, a saber, o fortalecimento de três áreas GANUZA, Enrique et al. ¿Quién se beneficia del libre comercio?

11 Estudos de Aaditya
fundamentais para os países pobres: acesso Promoción de exportaciones y pobreza en América Latina y el
Caribe en los 90. Bogotá: PNUD/Alfaomega Colombiana, 2004.
Mattoo e Sabramanian, do aos mercados, o processamento dos subsídios LA OMC si es importante. FMIBOLETIN – Revista do Fundo
Banco Mundial, propõem que
não se limite a liberalização agrícolas e tratamento especial e diferenciado, Monetário Internacional, Washington, DC, v. 33,
de bens e serviços, mas podemos constatar que Doha falhou em tudo. A n. 2, fev. 2004.
também a mão de obra, LOS ACUERDOS COMERCIALES y la apertura del comercio:
o que, segundo eles, se transformação das medidas de investimento, dos ¿Benefician a los paises em desarrollo?. FMIBOLETIN –
traduziria em maiores
benefícios para os países em direitos de propriedade intelectual, a circulação Revista do Fundo Monetário Internacional, Washington,
desenvolvimento. Vide “La temporária de pessoas (liberalização gradual dos DC, v. 33, n. 20, nov. 2004.
OMC sí es importante”, 2004, LOS ACUERDOS REGIONALES y bilaterales de libre comercio
pp. 22-23. mercados de trabalho),11 a questão da dívida e requieren precaución. FMIBOLETIN – Revista do Fundo
Monetário Internacional, Washington, DC, v. 33, n. 11,
p. 168, jun. 2004.
PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO.
Relatório sobre desenvolvimento humano 2005. Nova
York: ONU, 2005.
ROSE, Andrew. “Do WTO members have more liberal trade policy?
Califórnia: Berckley, nov. 2002. Disponível em: <http://faculty.
haas.berkeley.edu/arose/WTO.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2010.
UNIÃO EUROPEIA. Una Europa global: competir en el mundo.
Comunicação da Comissão ao Conselho, ao Parlamento
Europeu, ao Comitê Econômico e Social Europeu e ao
Comitê das Regiões. Bruxelas, out. 2006. Disponível em:
<http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=CEL
EX:52006DC0567:PT:NOT>. Acesso em: 20 jan. 2010.

6 Democracia Viva Nº 44
Janeiro 2010 7
nacio
nacional
Eliana Magalhães Graça*

Democratizar
a democracia
“A democracia que vivemos é sequestrada, amputada. O poder do cidadão se limita a tirar

um governo que não gosta e colocar um que não sabe se vai gostar.” José Saramago

Apesar de estarmos no início de 2010, o país já respira, há muito, o clima eleitoral. A

disputa já se faz sentir na mídia, no Parlamento, nas ações do governo, e até mesmo nas

conversas informais, quando as preferências para o próximo pleito conduzem o bate-

papo. A escolha do(a) próximo(a) presidente(a) da República canaliza as atenções e baliza

atitudes políticas. Tudo já é medido com os olhos voltados para outubro de 2010. Os

presidenciáveis já estão no páreo, sem a devida discussão dos respectivos projetos políticos

para o país. E os parlamentares em exercício de mandato só pensam em se reeleger.

Este artigo pretende tratar das eleições parlamentares que se dão em conjunto

com a disputa para a Presidência da República. Afinal, o presidente eleito precisa de

uma base no Legislativo que assegure apoio a sua agenda. O fato de conseguir esse

apoio por meio do processo eleitoral garante tranquilidade durante o mandato? O que

a experiência brasileira tem a ver com o chamado “presidencialismo de coalizão” que,

teoricamente, sustenta o governo?

8 Democracia Viva Nº 44
onal
Existe consenso que as eleições par- (Abranches, 1988). Limongi entende que o uso
lamentares são fundamentais na sucessão do presidencialismo de coalizão é procedente e
presidencial. Tão importante como eleger o(a) se aplica ao caso brasileiro, no qual as coalizões
presidente(a) da República é assegurar sua funcionam perfeitamente, dando suporte polí-
base de sustentação no Parlamento. As alianças tico às agendas do chefe do Executivo. Os dois
partidárias já começam a se configurar para as autores concordam na utilização do conceito,
eleições majoritárias e sua consequente reper- mas divergem na questão das peculiaridades do
cussão nas parlamentares. No sistema político caso brasileiro. Limongi não vê instabilidade no
vigente, é impossível governar o Brasil se não nosso sistema político.
houver uma coalizão de forças partidárias que Assinala que, pelo menos no processo
avalize a pauta legislativa definida pelo chefe pós-Constituinte, o que se vê é o perfeito fun-
do poder Executivo. cionamento do poder imperial do presidente
A Constituição Federal garante ao presi- sustentado por uma base parlamentar sem vis-
dente a iniciativa privativa da maioria das leis1 lumbre de qualquer ameaça ou crise da demo-
que realmente são fundamentais para a vida cracia. Ou seja, o presidencialismo de coalizão
dos(as) brasileiros(as). O que de fato conta na funciona e se assemelha ao parlamentarismo
definição das políticas públicas tem começo no europeu, sem crise institucional. O processo
Executivo. Mas não se pode esquecer que todas constituinte estava repleto de parlamentaristas,
elas passam pelo Legislativo, daí a necessidade condicionando o texto constitucional nessa
de uma base parlamentar sólida. direção. Com a posterior confirmação do pre-
sidencialismo por meio de plebiscito, o país ex-
perimenta essa pretensa e aparente semelhança
Usurpa ou delega?
com as democracias europeias.
Boa parte dos analistas políticos tem admitido Ao fazer uma análise comparativa com
que, no Brasil, a função legislativa é usurpada outras democracias europeias, Limongi avalia
pelo Executivo. Esquecem-se que esse poder que a democracia brasileira funciona e pode
dado ao presidente se origina na Carta de ser equiparada àquelas. A agenda presidencial
1988, portanto, não há usurpação, mas sim é aceita e tem alta taxa de dominância e de
delegação pelo poder constituinte, que refor- sucesso sobre possíveis agendas parlamentares,
çou o poder institucional do presidente. Para assemelhando ao verificado na Inglaterra. Isso
Fernando Limongi (2006), “o presidente detém significa que há uma supremacia da agenda
o monopólio sobre a iniciativa legislativa, o que do Executivo com alto índice de sucesso: o
aproxima o sistema brasileiro das democracias que o presidente propõe é aprovado durante
parlamentaristas europeias”. Para ele, essa se- seu mandato. No período pós-Constituinte até
melhança formal não autoriza supor o nosso 2006, essa taxa de aprovação foi de 70,7%,
sistema político submetido a peculiaridades, em média. Já a taxa de dominância da agenda
uma democracia ameaçada por crises constan- do Executivo para o período foi de 85,6%, em
tes, melhor dizendo, sem estabilidade. média (Limongi, 2006).
Nesse ponto, o autor critica Sérgio No entanto, essa tese defendida pelo
Abranches, para quem o conceito de presiden- autor apresenta uma perspectiva institucional de
cialismo de coalizão surge exatamente como análise que não dá conta dos problemas enfren- 1 Ver Constituição Federal de
1988, artigo 161, parágrafo
necessidade de superar as ameaças de crise tados pela democracia no Brasil e das disputas primeiro.

Janeiro 2010 9
nacional

que já se assiste neste período pré-eleitoral. pode deixar de lado as crises constantes, princi-
Além disso, é descabida a comparação com o palmente as denúncias de desvio de recursos e
parlamentarismo europeu. O poder imperial do a compra de votos de parlamentares. A premissa
presidente, no caso brasileiro, afasta qualquer de que a coalizão é construída sobre programas
submissão ao voto de confiança a que está e ideologias não se sustenta, pois, ainda que os
submetido constantemente o primeiro-ministro processos judiciais sejam inconclusos, o que se
nos regimes parlamentaristas. sabe é que foram desviados recursos para com-
prar votos da própria base aliada. Então, o apoio
à agenda do Executivo não se dá por convicções
Enfrentamento entre os poderes
ideológicas nem por fidelidade ao programa do
É verdade que não se avizinha nenhuma crise partido, mas pelas vantagens pessoais e político-
institucional da democracia, mas essa é uma eleitorais obtidas, até mesmo ilegalmente.
visão formal do processo democrático. Não se
questiona o conteúdo da produção legislativa e
Sinais concretos de fragilidade
muito menos as crises vividas tanto pelo Parla-
mento brasileiro como pelo O sistema político no Brasil está sedimentado
poder Executivo ao longo em bases patrimonialistas e oligárquicas que
dos anos. Para citar apenas dominam o país há décadas. São os mesmos

Para além da alguns exemplos: um presi-


dente afastado por denúncia
que se beneficiam dos esquemas do poder e da
corrupção. E são essas bases, e não a existência
de corrupção e várias crises de projetos políticos claros para o país, que
democracia pontuais envolvendo parla- condicionam as alianças e formatam coalizões.
mentares e gestores públicos O poder continua sendo exercido em nome das
formal, a maioria também em corrupção. E, oligarquias e enchendo os bolsos daqueles que
agora, ainda temos de acres- já detêm a maioria das riquezas. O governo
da sociedade centar a discussão recente Lula, eleito para mudar, não conseguiu mexer
sobre o poder de legislar do nas peças desse xadrez político.
brasileira exige Judiciário, que tem levado
a enfrentamentos entre os
O recente escândalo que envolve o
governador do Distrito Federal, parlamentares

uma democracia dois poderes.


Se tomarmos como
de sua base de apoio e secretários de governo
joga mais luz em um esquema que funciona nas

que contemple exemplo os dois mandatos


do presidente Lula, veremos
várias esferas de governo para manter o apoio
à agenda do Executivo. Era de se esperar que
a importância que tem, e a base governista não seria “comprável”, visto
outra forma de teve, a coalizão partidária que já ganhou parcelas ponderáveis de poder e
nas eleições presidenciais. status com a divisão de ministérios, secretarias e
exercer o poder A opção de construir uma cargos públicos. No entanto, tanto no esquema
base parlamentar de amplo denunciado em 2005, de compra de votos no
espectro – que congregava governo federal, como no exemplo do Distrito
até inimigos históricos do Federal, quem recebe a propina são parlamen-
partido (PT) que chegava ao poder – levou o tares da base aliada ao governo.
presidente a garantir sua agenda legislativa via Apesar de alguns analistas defenderem
compartilhamento do governo com os chama- a tese da solidez da democracia brasileira,
dos partidos aliados. Naquela época, alguns esses acontecimentos são sinais concretos de
analistas defendiam a tese de que Lula poderia sua fragilidade. Há eleições, o povo comparece
garantir sua capacidade de governar via apoio às urnas, os eleitos cumprem seus mandatos
popular, traduzido na quantidade expressiva de e a Constituição é respeitada quanto ao cum-
votos registrados nas urnas. Mas, em vez disso, primento das prerrogativas do presidente da
a coalizão partidária foi o caminho escolhido República na posição de legislador máximo. Mas
para garantir maioria no Legislativo e a apro- essa é a democracia formal, pois, do ponto de
vação de sua agenda. vista real, muito ainda está por construir.
Essa engenharia política, porém, não Para além da democracia formal, a maio-
garantiu a tranquilidade de que a agenda do ria da sociedade brasileira exige uma democracia
presidente fosse aprovada no Parlamento sem que contemple outra forma de exercer o poder e
sobressaltos. Qualquer análise que se faça não que passe pela democracia econômica e social,

10 Democracia Viva Nº 44
Redemocratizar a democracia

livre das desigualdades. Uma reforma do sistema crises institucionais no seu sentido estrito. Gera, * Eliana
político brasileiro que vá além dos meros ajustes também, a sensação de que não existem no país Magalhães Graça
eleitorais a cada pleito torna-se imprescindível projetos políticos em disputa mas sim, uma geleia Socióloga e
e urgente. E que altere as práticas políticas, geral que favorece as propostas de manutenção assessora política do
em todos os espaços de expressão política, no de poder nas mesmas mãos, em nome de uma Instituto de Estudos
âmbito do Estado (Legislativo, Executivo e Judi- fictícia sustentabilidade política de governo. Essa, Socioeconômicos (Inesc)

ciário), dos partidos políticos e da sociedade civil na verdade, mantém-se em pé à custa do dinheiro
organizada. Pensar nas formas de participação, público desviado a cada novo escândalo.
de representação política, com seus processos Eleger um Parlamento que sustente a
eleitorais, e de tomada de decisões. Pensar nas agenda do presidente também a ser eleito é
relações entre a União, os estados, o Distrito importante, mas não significa que o presidente
Federal e os municípios. E, além disso, pensar conte com apoio automático. No meio do cami-
nas relações entre Estado, partidos políticos e nho, outras negociações pouco ortodoxas deve-
movimentos sociais. rão ser feitas para que o sucesso e a dominância
Pode-se concluir que o presidencialis- de sua agenda estejam garantidos. Isso até que
mo de coalizão existente no Brasil possui, sim, a sociedade se convença de que uma reforma
características peculiares que o tornam muito do sistema político é urgente e necessária. É
mais propício a gerar crises éticas e morais que preciso democratizar a democracia.

referências
LIMONGI, Fernando. A democracia no Brasil. Revista Novos Estudos –
revista do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São
Paulo, n. 76, p. 17-41, nov. 2006. Disponível em: <http://
www.cebrap.org.br/imagens/Arquivos/a_democracia_no_
brasil.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2010.
ABRANCHES, Sérgio. O presidencialismo de coalizão: o dilema
institucional brasileiro. Revista Dados, Rio de Janeiro, v. 31, n.
1, p. 5-33, 1988.

Janeiro 2010 11
artigo
Juliano Borges*

A internet
no centro da
comunicação
política no Brasil

Depois de um ano de intensos debates ocorridos em encontros municipais e regionais, a

Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) foi concluída dia 17 de dezembro, em

Brasília. Convocada pelo governo, a Confecom produziu diversas diretrizes e resoluções

que, se espera agora, sejam aplicadas por meio de políticas públicas ou por legislação

específica. Com isso, antigas demandas da sociedade civil podem começar a ser atendidas

no âmbito de uma Política Nacional de Comunicação.

Durante o encontro, um tema em especial pontuou quase todas as discussões

travadas entre representantes do governo, de organizações sociais e do setor privado:

as novas tecnologias da comunicação. O mote da conferência “Comunicação: direito e

12 Democracia Viva Nº 44
cidadania na era digital” já indicava a urgência Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão ig-
em discutir o papel central que a comunicação noraram a importância do encontro – no limite,
mediada por suportes digitais assume neste uma pauta de alta relevância para a própria
cenário marcado por alta concentração da mídia – e impingiram à opinião pública um
propriedade dos meios e administração de pacto de silêncio sobre a realização e os debates
modelo familiar. que ocorreram em Brasília. Não fosse a capaci-
A acelerada difusão da internet no dade de comunicação rizomática, autônoma,
Brasil está modificando significativamente não independente e plural, permitida pela própria
apenas as possibilidades de expressão política internet, estaríamos condenados à ignorância
e cultural como também de reestruturação do sobre os fatos relacionados à Confecom.
modelo político de comunicação social brasilei-
ro. Desdobramentos relacionados ao controle
Sabotagem por dentro e por fora
dos fluxos de informação, com vistas a garantir
direitos de propriedade intelectual, chocam-se É sintomático que uma conferência preocupada
com a defesa da liberdade de expressão e com com o futuro da comunicação, a era digital, e
a democratização do acesso à informação, as- que pretendia expandir as formas de controle
segurados por um conjunto de direitos civis nas social dos meios de comunicação tenha sofrido
redes digitais que impedem o monitoramento sabotagem deliberada promovida pela “velha
da comunicação dos cidadãos. mídia” fora, mas também no interior do encon-
A concorrência da internet com os meios tro. E a internet esteve no centro desse conflito.
de comunicação tradicionais é outra preocupa- Por exemplo, a implantação do acesso universal
ção dos empresários da mídia. Esse parece ser, à internet por banda larga – questão-chave
afinal, o ponto essencial dos debates: como para estabelecer as condições mínimas para um
garantir que os potenciais técnicos dessas novas equilíbrio de forças com os oligopólios de mídia
ferramentas tecnológicas não sejam apropriados – foi alvo de divergências. De um lado, grupos
por grupos privados, reproduzindo o mesmo da sociedade civil advogaram maior presença
modelo concentrador da mídia brasileira? do Estado na difusão da rede. De outro, setores
Temerosos com a possibilidade de terem seus do empresariado perceberam a oportunidade
interesses contrariados no enfrentamento po- de lucrar oferecendo acesso pago à internet
lítico da conferência, um grupo importante do com isenção fiscal às empresas.
empresariado de comunicação nacional decidiu, Ao fim, prevaleceu a concepção da ban-
ainda em agosto, abandonar o encontro, com o da larga como direito fundamental assegurado
intuito de esvaziá-lo politicamente. Seis das mais pelo Estado, prestado em regime público e com
importantes entidades patronais demonstraram tecnologias variadas, o que permitirá estabelecer
sua dificuldade em se comunicar quando não metas de universalização do acesso, da qualidade
detêm o controle total da agenda discursiva. e do controle dos custos e das tarifas. A intenção
Dessa forma, a Associação Brasileira de separar as estruturas das redes, porém, foi
de Internet, que representa os provedores de obliterada pelos empresários. A medida teria
acesso à rede; a Associação Brasileira de TV por impacto direto no poder dos monopólios pri-
Assinatura; a Associação dos Jornais e Revistas vados, pois forçaria as empresas do setor a se
do Interior do Brasil; a Associação Nacional desmembrarem, obrigando algumas a apenas
dos Editores de Revistas; a influente Associação gerenciar as redes físicas, e outras a somente
Nacional de Jornais; e a poderosa Associação prestar serviços diretos aos cidadãos.

Janeiro 2010 13
artigo

As resoluções da Confecom não são esses recursos tecnológicos serão empregados


deliberativas. Dependem, portanto, da dis- na disputa política. Os últimos anos foram pro-
posição do governo para transformá-las em veitosos em experiências que lançaram mão das
ações executivas ou do empenho de sua força novas tecnologias digitais, com investimentos
legislativa no Congresso para convertê-las em relativamente modestos, para obtenção de
leis. Paira, então, a dúvida sobre os resultados resultados surpreendentes.
efetivos da conferência: as diretrizes aprovadas Até que ponto é possível pensar no
democraticamente pelo conjunto da sociedade triunfo do azarão Barack Obama sem o uso
no encontro serão convertidas em políticas estratégico das ferramentas digitais promovido
públicas ou sucumbirão à força dos lobbies pela sua campanha? Não há, evidentemente,
capitalistas, parte deles abrigada no interior do uma fórmula capaz de assegurar os mesmos
próprio Ministério das Comunicações? efeitos se mantidas as condições e formas de
A Conferência foi convocada como produ- uso porque cada eleição traz componentes e
to de quase sete anos de pressões exercidas pelos cenários particulares que precisam ser consi-
movimentos sociais, quando a internet desempe- derados no contexto da campanha, a começar
nhou papel importante na articulação dos grupos pela agenda e pelo carisma do candidato.
de interesse. Fica, assim, cada vez mais evidente É possível, entretanto, apreender li-
como a internet é fim e também meio da luta pela ções daquela experiência norte-americana.
democratização da comunicação no Brasil. Foi a primeira campanha a ter sucesso com
o uso da internet não apenas como meio de
vocalização independente do candidato – de
Azarão digital
resto, um importante atalho ou contraponto à
Suas características técnicas permitem comu- mediação promovida pelos meios de comuni-
nicação dialógica horizontal, assegurando ao cação empresariais. A estratégia anterior tende
cidadão não somente o acesso a informações a atrair eleitores potencialmente interessados
advindas de fontes extremamente diversificadas em uma candidatura e que, por isso, buscam
como a oportunidade de expressar-se por meio a página do candidato na internet. A experi-
de múltiplos canais, confundindo os papéis clás- ência da campanha de Obama mostrou que
sicos da comunicação. O receptor também pode as redes sociais – mais dinâmicas e ‘vivas’ que
ser emissor. Uma vez conectado à internet, um a fria página do candidato na web– têm o
computador torna-se um terminal adicional que potencial de atrair para a campanha eleitores
contribui para ampliar o tamanho da própria desinteressados ou mesmo simpatizantes de
rede, permitindo a entrada de novos atores adversários.
políticos nesse sistema de comunicação. Sua eficiência foi ter sido capaz de esta-
Pela ótica do mercado, esses atores são belecer uma sinergia entre ações reais de campa-
percebidos como consumidores em potencial. nha, que enfatizavam Obama como alternativa
Pela lógica da sociedade civil, porém, fazem parte de mudança, e atividades virtuais de promoção
de uma comunidade política fluida e em cons- da candidatura, a partir de uma enorme rede de
trução. No que diz respeito apenas à internet, voluntários e militantes construída com a ajuda
o conflito entre sociedade e mercado assistido de diferentes redes digitais como o MySpace,
durante a Confecom foi apenas mais um episó- o Twitter e o YouTube. Assim, foi possível não
dio da luta que tem por objetivo desenhar um somente garantir votos de simpatizantes como
modelo específico para a internet brasileira. prover meios de trabalho e articulação políticos
Apesar das divergências agudas, está para a conquista de novos eleitores.
claro para os dois lados em disputa que as redes
a operar no interior da internet são mais que
O caso brasileiro
meios capazes de favorecer o reconhecimento
de demandas sociais. São, ainda, instrumentos Esse modelo de organização pode ser replicado
de mobilização política, de organização de no Brasil em 2010? Possivelmente, ainda que
longo alcance espacial – e, talvez, as vitórias com efeitos mais modestos. Quinto país em
parciais dos movimentos sociais na Confecom número de conexões com a internet, segundo
comprovem essa energia. o Instituto Ibope Nielsen, em 2009, houve no
Evidenciado o caráter político da in- Brasil 64,8 milhões de usuários (42,39% da
ternet, a chegada do ano eleitoral de 2010 população brasileira). Há menos de cinco anos,
estimula ainda mais especulações sobre como apenas 21% da população com mais de 10 anos

14 Democracia Viva Nº 44
A Internet no centro da comunicação política no Brasil

de idade fazia uso da rede. A velocidade de ex- mera reprodução de experiências não é garantia * Juliano Borges
pansão da internet brasileira é surpreendente se de comunicação bem-sucedida. Doutor em Ciência
considerarmos as modestas iniciativas públicas Se os efeitos do uso estratégico em Política pelo Instituto
de democratização do acesso. campanhas eleitorais são incertos, os potenciais Universitário de
A maioria da população, no entanto, políticos das novas tecnologias da comunicação Pesquisas do Rio de
ainda se encontra excluída dessa realidade já são conhecidos o suficiente para afirmarmos Janeiro (Iuperj)
tecnológica, situação diferente dos Estados como é crucial garantir o acesso universal e
Unidos, cujo alcance da população era de 71% qualificado à internet para todos os brasileiros.
em meados de 2008. A exclusão tecnológica 2010 é um ano eleitoral, mas é também o pri-
no Brasil reflete sua exclusão social. Há apenas meiro ano da implantação do Plano Nacional de
13% de internautas nas classes D e E enquanto Banda Larga, que promete acesso generalizado
89% da classe A faz uso regular da internet. à internet no Brasil.
A figura dos formadores de opinião Estamos diante de muito mais que um
na internet, no entanto, é menos eficiente, novo meio de comunicação. A internet pode
por exemplo, quando empregadas táticas de servir mais que a coleta e a troca de informação
marketing viral (replicação de informações de forma alternativa aos oligopólios de mídia,
entre internautas) porque os influenciadores ainda que também sujeita à sanha corporativa.
não necessariamente são replicadores como Pode servir como meio de integração de inte-
os receptores ordinários. resses semelhantes, porém, geograficamente
Se levarmos em conta que na classe C difusos, e como ferramenta de coordenação
estão 54% dos brasileiros, e que apenas 38% de movimentos destinados à consecução de
deles utilizam a internet, será possível perceber objetivos políticos definidos coletivamente, no
que o impacto político do uso da internet como âmbito de redes voltadas para a ação política.
ferramenta eleitoral tem potencial restrito às Para isso, entretanto, serão necessárias novas
camadas mais altas da sociedade, pouco sig- rodadas da disputa ocorrida na Confecom,
nificativas numericamente. Essas são apenas que posiciona em lados diversos interesses de
algumas considerações que indicam como a mercado e urgências sociais inapeláveis.

Janeiro 2010 15
intern
internacional
Carlés Riera*

Jogos
Olímpicos,
jogo para todos
e todas?
A eleição do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos em 2016 não apenas encheu

de alegria e esperança muitos brasileiros e brasileiras, como também muitas outras pes-

soas de todo o mundo.

O Brasil e, particularmente, o Rio de Janeiro despertam muita simpatia em todo

o planeta, e isso faz com que as oportunidades que abrigam os Jogos Olímpicos sejam

recebidas como algo merecido. O investimento, a referência desportiva e cultural, a aten-

ção da mídia, a mobilização social são contribuições que os Jogos garantem e marcam

a história de uma cidade antes e depois.

[Traduzido do espanhol por Lígia Filgueiras]

16 Democracia Viva Nº 44
acional
Porém, a alegria e a esperança fazem o público e o êxito dos Jogos confirmaram a
debate político e midiático ocultarem, quase cidade como referência global por seus valores
sempre, os desafios, as dificuldades e os as- e suas potencialidades.
pectos negativos que alguns Jogos Olímpicos A transformação de Barcelona motivada
também trazem para uma cidade. pelos Jogos Olímpicos foi a penúltima. A atual
apoia-se em três novos acontecimentos: o Foro
Mundial das Culturas, a ampliação aeroportu-
O caso de Barcelona
ária e a chegada do Trem de Alta Velocidade.
A eleição de Barcelona como sede dos Jogos Com elas, o território urbano fica totalmente
Olímpicos de 1992 foi fruto de um grande con- transformado e saturado. As próximas transfor-
senso político, econômico, midiático e popular, mações já estarão mais relacionadas à extensão
em escala local, catalã e espanhola. O resultado e à conexão da cidade em escala metropolitana,
foi uma grande mobilização de recursos, vonta- regional e internacional, por meio de novas redes
des e esperanças que garantiram o êxito, tanto de transporte e de tecnologia.
do processo de preparação como do evento. Face ao relativo fracasso do Foro Mun-
Milhares de voluntários e voluntárias, dial das Culturas, podemos dizer que os Jogos
uma cidade voltada para a acolhida da família Olímpicos foram a última expressão de Barcelona
olímpica, exibindo seu rosto mais acolhedor e que gerou grande consenso e que legitimou
cosmopolita, e a promoção na cidade de um um discurso global e coerente sobre a cidade,
sem fim de atividades de desportos de base, baseado no espaço público e na globalização
assim como sociais e culturais, mostraram que como valores.
a proposta e realização dos Jogos haviam lo- Essa imagem ocultou, no entanto, os
grado amplo consenso e alto entusiasmo entre fatos e efeitos negativos, os discutíveis, bem
grande parte da população. Podemos afirmar como as vozes críticas que, não por serem
que Barcelona 1992 constituiu um fenômeno minoritárias, foram pouco significativas, mas
altamente participativo. mesmo assim constatamos que o tempo lhes
A contribuição olímpica também propi- deu razão em muitos dos seus prognósticos.
ciou importantes atuações em questões urba-
nísticas e arquitetônicas, sendo estas as mais
Efeitos negativos
relevantes e as que maior impressão deixaram
na cidade. De fato, graças aos Jogos, Barcelona Os Jogos Olímpicos constituíram, também, uma
realizou um novo urbanismo e consolidou uma grande operação de comunicação e de mídia para
nova arquitetura. A cidade passou por grandes forçar um modelo de consenso que ocultou as
mudanças e transformou sua imagem com re- vozes críticas e que gerou a imagem de unidade,
ferências construtivas, espaciais e de desenho não somente em face dos Jogos propriamente e
que, ainda hoje, influem nas intervenções urba- em razão das melhorias no espaço público, mas
nas. O espaço público se transformou, cresceu e também ante a especulação, a segregação urba-
se qualificou. Melhoraram a mobilidade, a aces- na, a legitimação acrítica dos poderes políticos,
sibilidade e o equipamento urbano. Barcelona econômicos e midiáticos e da repressão. Essas
abriu-se ao mar e recuperou seu vínculo com vozes, oficialmente, não existiam, e sua denúncia
suas praias e seu espaço público marítimo. era silenciada ou reduzida a ruídos marginais.
A atenção da mídia obtida com os Jo- Essa grande operação abriu as portas da
gos, a projeção de seu rosto amável e de sua cidade à entrada legitimada da globalização ca-
cultura, de sua interculturalidade, sua inovação, pitalista e do neoliberalismo de maneira rápida
seu urbanismo e sua arquitetura, seu espaço e definitiva, bem como à ideia de desenvolvi-

Janeiro 2010 17
Internacional

mentismo, embora com as atenuantes de sua de identidade e convivência baseadas na própria


suposta sensibilidade social e de sua suposta população sobre a tradição turística da cidade.
sustentabilidade. No plano da repressão, esta não foi ape-
O confronto entre especulação urbanís- nas midiática, mas atuou de maneira contundente
tica e imobiliária e liberação de espaço público contra todo movimento crítico e dissidente, me-
foi claramente favorável à primeira. A cidade, os diante a implantação de uma cidade policial que,
serviços e a moradia encareceram-se de tal modo também sob a legitimação do grande consenso,
que Barcelona se converteu em uma cidade mais “limpou” o território de grupos sociais que, por
elitista e com menor peso e presença das classes sua exclusão ou contestação, poderiam danificar
populares que, desde então, não deixaram de a imagem de cidade “ideal”.
abandonar a cidade. Embora, no início, Barce- Essa política continua atualmente em
lona tenha ganho espaço público, desde aquele vigor, com uma repressão policial contínua sobre
momento, a pressão para sua mercantilização e as dissidências e um severo controle sobre os
privatização não cessou, constituindo a luta por usos e a ocupação do espaço público a favor
sua preservação um dos aspectos fundamentais do turismo, das elites, do privado e do mercado,
da atual agenda dos movimentos sociais. em detrimento dos usos populares, socializantes,
As operações urbanísticas posteriores interculturais, comunitários e alternativos.
acentuaram, ainda mais, aquele confronto, Barcelona hoje, globalizada, dependente
confirmando a tendência que a operação olím- do turismo, em plena crise imobiliária, sem um
pica inaugurou. Alguns dos projetos realizados novo grande evento e sem território para legitimar
retomaram antigas ideias do fim do período de uma nova operação de crescimento, com a iden-
ditadura que, naquela ocasião, sob o consenso tidade debilitada, com as classes e os movimentos
dos Jogos, reapareciam como ideias necessárias e populares segregados e sofrendo as tensões e
modernizantes, apesar de seus custos sociais. fragmentações da globalização capitalista, busca
No plano econômico, passados os Jogos, seu novo projeto, sua nova história.
o investimento – tanto privado como público Talvez, a única alternativa seja a de as-
– caiu de maneira brusca e a cidade sofreu um sumir uma nova cidade com diversas histórias em
período de impactos muito negativos: contração tensão dialética, como já foi em seus melhores
econômica e aumento do desemprego. O mo- momentos na etapa republicana de inícios do
delo econômico tornou-se muito dependente da século 20, com o espaço público como território
atividade/especulação imobiliária e do turismo. de disputa e de criatividade social, sem falsos
No primeiro caso, as consequências, chegada consensos, com a inclusão, a participação, a
a crise de 2009, são evidentes, com as taxas de diversidade e a coesão como valores, com o
desemprego muito elevadas e grande dificuldade conflito como fator mobilizador, com diversas
para a recuperação. No segundo, levaram a uma economias, que integre na transformação mais
terceirização extrema e a uma perda de referências que exclua no desenvolvimento.

Questões para o Rio de Janeiro


Não sou um especialista da realidade brasileira, no entanto, em face da experiência de Barcelona, faço
algumas considerações orientadoras, sob a forma de perguntas, para a reflexão e o debate.
O grande investimento e a oportunidade que pressupõe para o Rio a celebração dos Jogos Olímpicos
promoverão a criação e transformação do espaço público em benefício da maioria, bem como de equi-
pamentos desportivos, sociais e culturais para benefício das classes populares? Qual vai ser o balanço
entre especulação e investimento social?
Irá construir-se um falso consenso que oculte a dialética social, as desigualdades, a diversidade, as
tensões e os conflitos?
Que história e quais projetos urbanos virão a ser construídos?
Qual será o lugar da participação e do debate público democrático?
Que modelo econômico irá consolidar-se?
Irá tratar-se de um processo inclusivo ou excludente e repressivo?
As atuais zonas urbanas segregadas iniciarão um processo de transformação que as converta a longo
prazo, em zonas residenciais de alto padrão, com a consequente expulsão de sua população original?
Dito de outro modo, a possível valorização do território das favelas será para seus habitantes atuais?
Essas e outras perguntas podem contribuir com a agenda para um debate necessário e urgente, já
que é estratégico para o futuro do Rio de Janeiro e de sua população.

18 Democracia Viva Nº 44
J o g o s o l í m p i c o s , j o g o pa r a t o d o s e t o d a s ?

* Carlés Riera
Sociólogo, presidente
da Fundación Desarrollo
Comunitario

Janeiro 2010 19
ENTRE Entrevista

VISTA
Joel Rufino
O historiador Joel Rufino,
apaixonado desde garoto por
futebol, durante o exílio político
na Bolívia, chegou a ser jogador
profissional. Foi também nessa
época que o escritor – hoje
premiado – participou de grupo
liderado pelo intelectual Werneck
Sodré para elaborar projeto
que revolucionaria o método de
ensino-aprendizagem da História
no país. Pai e avô dedicado, o ex-
preso político abriu seu coração
para a equipe do Ibase nesta
entrevista realizada ao apagar
das luzes de 2009: “Estou muito
contente de estar aqui, admiro
muito o trabalho de vocês, sou
aliado do Ibase em qualquer
circunstância”. Foi uma conversa
emocionante, recheada de risos e
muito bom humor. Confira
a seguir.

20 Democracia Viva Nº 44
Democracia Viva (DV) – Poderia em depressão. Depois, melhorou, mas nunca
falar da sua origem e primeiras se recuperou por completo desse golpe, como
lembranças de família? tantos comunistas. Ele era ‘prestista’ também.
Joel Rufino – Minha origem é suburbana Passou pela Segunda Guerra, depois veio a
carioca, o bom subúrbio carioca do fim dos perseguição aos comunistas no governo Dutra
anos 40. Meu pai, Antônio Rufino, era ope- e uma semiclandestinidade.
rário. Depois, ele passou por uma ascensão DV – Sua mãe era nordestina de
social, tornou-se alto funcionário do antigo qual estado? E seu pai, era carioca?
IAPM [Instituto de Aposentadorias e Pensões Joel Rufino – Ambos eram pernambuca-
dos Marítimos]. Durante um período da vida, nos. Eles vieram para cá num caso típico de
ele foi pastor evangélico também. Meu pai migração nordestina para o Sudeste. Minha avó
foi isto: um operário que ascendeu para a era empregada de um político nordestino de
pequena burguesia. Pernambuco. Esse político se elegeu senador,
DV – Funcionário público estadual? veio para o Rio, e ela veio agregada, de serva.
Joel Rufino – Antigamente, o INSS [Ins- E foi puxando os outros, os filhos, depois as
tituto Nacional do Seguro Social] era dividido irmãs... Foi basicamente isso.
em IAPM; IAPI [Instituto de Aposentadorias e DV – Quantos(as) irmãos(ãs) tem?
Pensões dos Industriários]; IAPC [comerciários]; Joel Rufino – Do primeiro casamento do
IAPB [bancários] e IAPETC [transportes e cargas]. meu pai, primeiro não cronologicamente – ele
Essa é basicamente a trajetória dele. E ele era manteve duas famílias durante muito tempo –,
um operário que lia, acho que isso determinou com minha mãe, somos quatro. Três já fale-
meu futuro. Podia ter me tornado qualquer cidos. Da outra mulher, são quatro também.
coisa profissionalmente, mas me tornei escritor Estão quase todos vivos, menos um.
em parte por isso, pelo estímulo inicial muito DV – Seu pai também era
forte do meu pai. Ele era comunista. Quantas sindicalista?
coisas ele fez: era pastor evangélico, médio Joel Rufino – Sim, o sindicato dele era mui-
funcionário do IAPM e comunista. Como bom to forte, Sindicato dos Marítimos e Portuários.
comunista que era, fazia questão de ler. Sobre- Era um sindicato com muito poder de barganha.
tudo, Lima Barreto, Graciliano Ramos, aqueles Creio até que era um dos mais fortes daqueles
escritores que estavam na linha do partido, tempos de Getúlio.
digamos assim. DV – Como foi sua infância?
DV – E quanto a sua mãe? Joel Rufino – Sobre isso, minha filha
Joel Rufino – Minha mãe tinha um nome brinca dizendo que meu universo é muito
belíssimo, Felicidade Flora dos Santos. Era uma limitado. Sempre me interessei por poucas
evangélica bem típica. Nordestina, semianalfa- coisas, futebol, livros, samba, e minha infância
beta e muito crente, ciosa do ensino da bíblia, foi isso. Jogava bola o dia inteiro. Se alguém
da escola dominical. Minha mãe foi a segunda me chamasse: ‘Ah, vai lá em casa!’, pergunta-
força, o segundo estímulo forte que tive. Ela va: ‘Tem bola lá?’. Uma obsessão por futebol
queria muito que eu fosse um bom evangélico, que se manteve por toda a vida. Uma paixão,
mas nisso fracassou. Mas, por outro lado, alguns digamos assim. As brincadeiras de criança, eu
outros estímulos que frutificaram em mim, que pouco fiz. Meu negócio era bola, dormia com
se tornaram trajetórias para mim, vieram dela. ela. E samba, que minha mãe, como crente,
Por exemplo, a consciência de que negro é igual não deixava, mas aí tinha aquele negócio de
a qualquer outro. Minha mãe fazia questão de dar a volta, né?! Ir a escola de samba sem ela
dizer que o filho dela podia ser qualquer coisa, saber, sair no bloco sem ela saber... E livros.
desde que estivesse vestido com decência, desde Desde menino, compensei muita coisa por
que tomasse banho, podia fazer qualquer coisa meio dos livros.
que outros meninos fizessem. DV – Seu pai era um intelectual
DV – Seu pai era filiado mesmo ao do partido. Sua leitura era mais
Partido Comunista Brasileiro? marxista, comunista ou ele lia
Joel Rufino – Era, desfiliou-se no 23º Con- de tudo?
gresso, com a denúncia dos crimes de Stálin. Joel Rufino – Ele lia de tudo, e era au-
Tenho a impressão, e minha irmã acha isso todidata, aprendeu inglês sozinho. Ele lia em
também, que o choque da revelação dos crimes inglês, lia também um pouco de química, de
de Stálin afetou a sua saúde, ele logo entrou física, tudo autodidaticamente. E também a

Janeiro 2010 21
entrevista

literatura que o partido indicava. Havia isso, DV – Era bom aluno?


sabe, o Partido Comunista era também peda- Joel Rufino – Não, era mediano. Não ia
gogo, digamos assim. Estamos falando de 1945 ‘pagar o mico’ de ser bom, mas também não
até a década de 60. Quem se tornava membro, era ruim.
tinha de ler determinados livros; muitas vezes, DV – Quando despertou seu
ele até ganhava coleções. A Editora Vitória era engajamento político?
a editora do bom comunista. É gozado que Joel Rufino – Quando era estudante no
minha mãe, como boa evangélica, tinha de curso científico. Havia bases dos partidos nas
ler a Bíblia, e meu pai, como bom comunista, principais faculdades e nos principais colégios.
tinha de ler outros livros, então, ali, não tinha O meu era na Rua do Ouvidor, na Frederico
escapatória, a gente saía da bíblia, caía em Ribeiro, não sei se existe ainda. Ali, tinha uma
Jorge Amado. célula que a gente chamava de base do partido.
DV – Lembra de alguma Ingressei no Partido Comunista Brasileiro, a
perseguição a seu pai? divisão do partido ainda não tinha ocorrido.
Joel Rufino – Ele foi perseguido, mas não a DV – Quando saiu desse colégio, foi
ponto de ser preso longamente ou ser condena- para onde?
do. Ele escondia pessoas lá em casa, e um dos Joel Rufino – Comecei a trabalhar cedo,
caras que me ensinou a ler foi um alemão que com 14 para 15 anos, comecei como office-boy
meu pai escondia. Isso em 1946. Esse alemão aqui no centro da cidade. Depois, fui trabalhar
ficava lá em casa em um quarto. Nós, crianças, numa firma de engenharia, carregando teodo-
achávamos que ele tinha a fórmula da bomba lito, um instrumento de medição geológica.
atômica, imagina. Aí pensei: ‘Vou ficar nessa firma, estudar en-
DV – Mas o que seu pai e sua mãe genharia’. Mas quando terminei o científico,
explicavam sobre essas pessoas? decidi não fazer mais faculdade. Pensei: ‘Tá
Joel Rufino – Para criança, não se dizia bom, já tenho o diploma de segundo grau’.
muito. Mas ele ficava lá no quarto, só ia à sala A essa altura, o que eu queria era viver de
para comer, depois voltava para o quarto. Meu escrever e de ler. Para isso, não precisava de
irmão e eu íamos lá para conversar com ele. Não faculdade, pensei.
vou lembrar agora do seu nome, mas não im- DV – Mas, então, como chegou ao
porta, pois devia ser um nome falso mesmo. curso de História?
DV – Quando começou a escrever? Joel Rufino – Isso foi uma virada na minha
Joel Rufino – Por volta dos 10, 11 anos. biografia intelectual. Recebi de um ex-colega
Na escola Ginásio Cavalcante, fazia redações, um livro que, segundo ele, havia mudado a
me sentia bem ao escrever, era elogiado pela sua vida e iria mudar a minha também. Era
professora, pelos colegas. Escrevia na parede Introdução à Revolução Brasileira, do Werneck
do banheiro também, muito. Menino gostava Sodré. De fato, o livro mudou a minha traje-
muito de fazer isso. tória, porque eu amava Literatura e o livro do
DV – Era escola pública? Sodré, pela primeira vez, conectava a Literatura
Joel Rufino – Não, isso é interessante. A com a evolução geral do país. Por exemplo,
escola pública naquela época era boa compa- a gente admirava Euclides da Cunha, aquela
rativamente, mas havia já essa ideia de o pobre vaidade de jovem que fala de Euclides, etc. O
que ganha um pouquinho mais, que ganha um livro de Sodré situava Euclides historicamente,
extra, não botar os filhos na escola pública, e sim mostrava em quê ele correspondia ao avanço
na particular. E minha mãe, além do trabalho do país, em quê era conservador. Isso foi uma
doméstico, aos sábados e domingos, costurava revelação, colocar a Literatura no contexto da
para confecções. Com esse dinheirinho extra, História. Estudei História até o Golpe de 64. Fui
ela preferiu me colocar na escola particular. Era expulso no ano do golpe.
uma escola de um pastor metodista, ‘Ginásio DV – Foi expulso da faculdade?
Cavalcante, entra burro e sai elefante’, era o Joel Rufino – Sim, me formaria em 64,
que a criançada dizia e repetia. estava com quase 23 anos, mas não deu. Muitos
DV – Seus irmãos e suas irmãs anos depois, a universidade me deu o que eles
também estudaram lá? chamam de Notório Saber, um diploma cor-
Joel Rufino – Não, meus irmãos estudaram respondente à graduação. Aliás, no meu caso,
em escola pública. Eu era o caçula, compreen- deram um título correspondente ao mestrado
deu a situação? em História.

22 Democracia Viva Nº 44
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DV – Como foi o dia o do golpe na DV – Nelson em homenagem a


sua vida? Nelson Werneck?
Joel Rufino – Eu trabalhava no Iseb Joel Rufino – Sim. Estivemos casados um
[Instituto Superior de Estudos Brasileiros], tempo, depois, com a necessidade de ficar
era assistente do Werneck Sodré. Eu era seu fugindo de um lado para o outro, de ter de ir
aluno no curso de História e seu assistente. embora para São Paulo, clandestinamente, a
No golpe, andei pela cidade meio atordoado, gente acabou se separando. Ficamos muitos
como todo mundo. Estava recém-casado, e anos separados. Nos anos 80, a gente voltou.
minha mulher, grávida. A gente não sabia DV – E essa questão do exílio,
bem para onde ir. como foi?
No dia seguinte, ainda aquele atordoamen- Joel Rufino – A Bolívia tinha um tratado
to, minha mulher foi para um lugar seguro, de asilo ou refúgio político com o Brasil. Aqui,
voltou para a casa dos seus pais. E eu pere- já havia muitos exilados bolivianos, nós até
grinei no subúrbio, em casas de conhecidos, conhecíamos alguns. Essa foi uma razão para
esperando o que iria acontecer. Quando ficou eu ir para lá. Outra é que, apesar de as embai-
claro que o golpe era mesmo para valer, que xadas estarem cercadas para impedir a saída
iria durar, eu me asilei na Embaixada da Bolívia, dos perseguidos pelo regime, o adido militar
dali fui para o exílio. Isso é impressionante. Se enfrentava. Ele pegava a pessoa candidata a
vocês conversarem com quem veio dessa época, se asilar e entrava com ela sob proteção na
um mês, dois meses antes, ninguém poderia embaixada. E a gente sabia disso.
imaginar a dimensão do problema. DV – A Bolívia era o país mais
DV – Quantas pessoas ficaram na progressista da região. Muitos
embaixada? outros comunistas se refugiaram
Joel Rufino – Muita gente. Era um aparta- lá, não é?
mento de dois quartos, uma sala-escritório, e Joel Rufino – Sim, por exemplo, José Serra
ali talvez estivessem umas 30 pessoas. Era fila foi meu colega de quarto na embaixada e, de-
para usar o banheiro, para dormir, o clima ficou pois, em La Paz. Esse grupo de exilados ficou
irrespirável. Ficamos lá durante um mês. lá por uns cinco ou seis meses. Na Bolívia, era
DV – Conseguiram sair como? muito difícil se sustentar. Quem tinha família
Joel Rufino – O cônsul da Bolívia nos levou para remeter dinheiro, ficava melhor, mas quem
em um ônibus até o aeroporto, e dali para não tinha... Havia um grupo de sargentos que
Cochabamba e La Paz. O avião fez uma escala tinha sido perseguido por causa de um levante
em São Paulo, onde a polícia fez um ‘corredor anterior, era gente muito sem grana, sem apoio
polonês’. Eles não podiam tocar na gente, seria da família, cada um se virava como podia. Eu
um absurdo, mas ficaram xingando, fazendo me lembro dos atores Gianfrancesco Guarnieri
provocações. e Juca de Oliveira vendendo gravatas e roupas
DV – Durante o golpe militar, você usadas para se sustentar. Eles enchiam uma
já estava casado. Voltando um mala e saiam pra ‘camelar’ pela cidade. E eu
pouco, como se conheceram? joguei bola profissionalmente. Tinha 23 anos.
Joel Rufino – Conheci minha mulher, Ganhava cerca de US$ 100 por mês, dava
Tereza, quando ela fazia o pré-vestibular para apertado para pagar a comida.
entrar na faculdade, eu já havia entrado. A fa- DV – Qual era sua posição no time?
mília dela é de migrantes espanhóis do tempo Joel Rufino – Eu jogava com a “oito”.
da guerra civil. A família veio para cá fugindo Deixa eu contar um fato para fazer justiça:
do franquismo. O pai dela era intelectual, era tinha um menino nissei que jogava muito, era
diretor da Editora Vecchi – não sei se ainda o titular do time – o Municipal de La Paz. Eu
existe, mas foi uma editora importante em certo não conseguiria tirar a vaga dele jogando, mas
momento, editava a revista Grande Hotel, entre o técnico era um brasileiro comunista exilado,
outras publicações bem conhecidas. Enfim, não precisa contar mais, né?!
houve alguma dificuldade para a família aceitar DV – Assim, você se tornou titular...
o casamento. Eu, negro, comunista, pobre, Joel Rufino – Virei, mas o japa sabia que
historiador, era um genro que ninguém que- jogava mais. Eu dizia para ele: ‘Você joga mui-
ria. Mas depois, com o tempo, eles acabaram to!’ Mas, afinal, ele ganhava razoavelmente
aceitando, principalmente depois que nasceu bem para o padrão boliviano, cerca de US$ 1
o Nelson, meu filho. mil. Eu ganhava cerca de US$ 100, mas eles

Janeiro 2010 23
entrevista

pagavam o hotel também... Esse comunista DV – Por que resolveu voltar?


técnico do Bolívar, Vinícius Ruas, tinha sido Joel Rufino – Meu filho tinha nascido nesse
presidente do diretório da Escola de Educação meio tempo. Além disso, eu tinha a ideia de que
Física. Ele concorreu à eleição pouco antes do queria voltar a fazer política – ‘a luta continua’.
golpe e o slogan da sua campanha era: ‘Co- Em suma, era isso.
munista, porém honesto’. Era essa figura que DV – Como foi essa volta?
treinava o Bolívar. Joel Rufino – Quando voltei, ainda estava
DV – Por que da Bolívia você foi integrado ao PCB, voltei clandestinamente.
para o Chile? O caminho passava por Buenos Aires, onde
Joel Rufino – Um grupo foi para o Chi- tínhamos um esquema de apoio, Passo de los
le porque, para brasileiros, a adaptação na Livres, Uruguaiana e, já no Brasil, São Paulo.
Bolívia era mais difícil. Por exemplo, naquele Meu documento era boliviano, nem documento
tempo que passei por lá, não consegui me chileno tinha, porque, ao sair da Bolívia para
relacionar com ninguém do povo. Tem a bar- o Chile, tinha renunciado ao exílio e estava
reira linguística e toda essa história que agora tratando de conseguir documentação, voltei
está explodindo com Evo Morales. A Bolívia é com um salvo-conduto boliviano.
fracionada mesmo. Quem é descendente de DV – Um aspecto importante da
indígena é uma coisa, quem não é, é outra. A sua trajetória é a produção da
gente não conseguia se entrosar, aí passamos História Nova e sua contribuição
para o Chile. Nesse grupo, tinha o Marcelo para a historiografia. Em qual
Cerqueira, o falecido Artur da Távola. No Chile, momento isso se dá?
a ajuda do governo era maior. Eles nos deram Joel Rufino – A História Nova é de 1963.
bolsa de estudo, eu me empreguei em uma Eu estava com 22 para 23 anos. Participava
pesquisa na Universidade do Chile, a situação de um grupo liderado pelo Werneck Sodré no
começou a melhorar financeiramente. Fiquei Iseb. Éramos jovens assistentes, mas tínhamos
lá por cerca de um ano, voltei para o Brasil no um mentor de peso, um mestre. O Rubem
começo de 65. Cesar Fernandes [coordenador do Iser/VivaRio]
DV – Como ficou sua relação com a também participava, foi convidado a integrar
escrita durante o exílio? a equipe do Sodré.
Joel Rufino – No exílio, eu escrevi pouco, A História Nova era dirigida a professores,
mas escrevi com Pedro Celso O golpe de 64, não era dirigida diretamente a alunos. Tinha um
para o público chileno. A gente contava, do papel paradidático, dizíamos que era a reforma
nosso ponto de vista, o que tinha acontecido. de base na História. Esse projeto só se tornou
Naquela época, havia a seguinte divergência: possível porque o Paulo de Tarso estava à frente
o golpe se deveu a uma ‘esquerdização’ ou a do Ministério da Educação e o diretor da Cases
uma ‘direitização’? O que provocou o golpe: o [campanha de auxílio didático aos professores]
fato de termos tentado avançar muito ou por era o Roberto Pontual. Eles editaram a História
que fomos tímidos nesse avanço? No livro, a Nova, para resumir essa experiência. Depois do
gente procurava se situar. Achávamos que as golpe, com a apreensão da obra, nossa prisão,
duas coisas tinham sido verdadeiras. Por um inquérito, etc., a Editora Brasiliense, de Caio
lado, forçamos muito, com muita agitação, Graco, reeditou alguns volumes da História
com certo ‘esquerdismo’ e, por outro, come- Nova, que também foram apreendidos, mas
temos o erro da timidez, do conservadorismo. isso já em 67.
Até hoje, essa divergência existe. DV – Por que a História Nova teve
O que mais nos ocupava lá era a agitação tanto impacto nas salas de aula?
política que, no Chile, era intensa desde os Joel Rufino – A literatura didática esta-
anos 60. Até que vai culminar com a vitória va em crise profunda naquele momento de
de Allende no começo dos anos 70, e a gente agitação muito grande de massa, que vai da
se envolveu. Havia muito exilado espanhol, morte de Getúlio até o golpe de 64, passando
grupos da América Central, venezuelanos, pela renúncia de Jânio. Esses anos foram de
cubanos. Exilados cubanos fugidos da re- intensa agitação, e o ensino de História entrou
volução e também cubanos que estavam lá em crise também, porque era muito em torno
para promover a discussão sobre a revolução, dos grandes feitos administrativos, dos presi-
para defendê-la. Era um clima intenso de dentes. Geralmente, o ensino de História do
agitação. Brasil não chegava aos presidentes, ia só até a

24 Democracia Viva Nº 44
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Proclamação da República, citavam alguns pre- virei ‘paliteiro’ de IPM, Inquérito Policial Militar.
sidentes, com algumas façanhas, alguns feitos. Quando eles não tinham como avançar, inclu-
Era isso, o ensino tinha falido completamente, íam pessoas que, muitas vezes, não tinham
quer dizer, aparecia como falido. nada a ver só para mostrar serviço. Por exemplo,
Só que não havia uma literatura didática entrei no ‘IPM da Feijoada’. Teve uma feijoada
nova, o que havia eram historiadores como na casa do Ênio Silveira, abriram um IPM para
Caio Prado, Sergio Buarque, que renovaram o apurar quem tinha participado, o que se tinha
conhecimento histórico, mas não o ensino da conversado... E eu nem fui na feijoada, mas
História. A História Nova tentou fazer a ponte entrei nessa também.
entre esses historiadores renovadores e a sala Para vocês terem ideia de como a situação
de aula. Esse foi exatamente o seu objetivo. Não foi caindo no ridículo, o falecido Stanislaw
tínhamos antecedentes, não sabíamos como Ponte Preta inventou o Festival de Besteiras
fazer. Tanto que a História Nova tem defeitos que Assola o País, o Febeapá ironizando essa
graves, que a gente só enxerga com os olhos situação. Teve um IPM do filme O encouraçado
de hoje. Havia certo dogmatismo, por exemplo. Potemkin para ver quem tinha participado da
A direita acusava a História Nova de marxista, exibição e o filme tinha passado no Odeon.
mas ela não era marxista porque era muito Quando eles se deram conta, a imprensa co-
elementar. A relação entre a base econômica meçou a chamar a atenção: ‘Se abrir IPM para
e a superestrutura era quase mecânica. Para a quem viu e discutiu o filme, todo mundo que
época, foi um avanço pelo fato de o ensino de foi ao Odeon estará incluído’. Os IPMs foram
História estar em crise, mas ela tem as virtudes crescendo, eles acabavam largando de mão,
e os defeitos das reformas de base daquele mas, depois, abriam outros.
momento. A História Nova é muito datada. Ao voltar, enfrentei alguns IPMs e fiquei preso
DV – Ao voltar, veio para o Rio de durante um mês uma vez; depois, alguns dias;
Janeiro para atuar onde? uma semana, era assim que funcionava. Era
Joel Rufino – Não recomecei a atuar de limitado a fazer o seguinte: abria-se o IPM e o
imediato. Eu me considerava militante, mas teve encarregado – muitas vezes, um major ou um
uma época que o Partido Comunista refluiu, e coronel – começava a prender pessoas para justi-
isso não adiantou porque havia a repressão. ficar. Quando comecei a me sentir muito incomo-
Então, eu, como tantos outros ex-estudantes, dado com isso, a vida em família desorganizada,

Janeiro 2010 25
entrevista

eu sem conseguir trabalho, resolvi ir para São que confiscavam o que queriam, deixavam a
Paulo. Já estávamos em 67, 68 – arranjei outra gente levar o que desse na cabeça deles, e
identidade e comecei a lecionar em cursinhos, não me deixaram levar nada de papel, livros...
foi aí que eu conheci a Bete Mendes. Passaram muitos anos, e a mãe do Nelson tinha
DV – Ela era do Partido Comunista. guardado uma parte dessas cartas, digamos
Costumava encontrar com o 40%. As outras não tinham chegado a ele, se
pessoal do partido em São Paulo? extraviaram de alguma maneira. Então, resol-
Joel Rufino – Sim. Dava aulas no Equipe, vemos publicar tal qual foram escritas – usava
um curso pré-vestibular ligado ao grêmio da lápis de cor, desenhava – pensando em dois
Faculdade de Filosofia da USP, na Rua Maria aspectos: em primeiro lugar, que é um docu-
Antônia, era uma entidade de alunos. Usava mento desse medo que qualquer pai tem de
o nome de Pedro Ivo. Os alunos não sabiam perder o filho, até quando há uma separação
de nada, só souberam depois. Esse cursinho mesmo, sem ter motivo extra. E, em segundo, as
foi interessante, juntou pessoas que marcaram cartas são testemunhos do efeito da repressão
a época. Por exemplo, Marilena Chauí, Miguel sobre uma família, sobre um pai, um menino. O
Wisnik, Benetasso, Marisa Lajolo. Mas alguns livro ficou muito bonito, ficou caro, mas valeu
foram caminhando para a direita, alguns foram a pena, seu título é Quando voltei, tive uma
mortos pela repressão. surpresa, foi publicado em 1990.
DV – E, certamente, utilizava a DV – Na época da sua
História Nova em suas aulas? prisão, praticamente todo o
Joel Rufino – Sim, a gente estava acos- Departamento de Filosofia da
tumado com a História toda certinha, com as USP foi preso também. Por isso,
datas, então, a História Nova era como um bra- o pessoal chamava o presídio de
seiro, era a História como um processo, era uma ‘universidade’?
revolução, extremamente mais interessante. Joel Rufino – Era a Universidade, o pesso-
DV – Poderia falar um pouco sobre al também chamava de ‘Aparelhão’. A prisão
o período quando esteve preso? política, em qualquer parte, funciona assim:
Joel Rufino – Cumpri pena em São Paulo as pessoas vão estudar, debater, um ensina ao
por dois anos, de 72 a 74, depois voltei para o outro aquilo que sabe. Eu li muito, aprendi
Rio. Os presídios que conheci foram o DOI-CODI muito. Um dos meus colegas de prisão, duran-
[Destacamento de Operações de Informações/ te boa parte do tempo, foi o [José] Genoíno.
Centro de Operações de Defesa Interna], o Dops Aprendi muito com ele sobre esse assunto de
[Departamento de Ordem Política e Social], o floresta, vida no mato, sobrevivência. Ele era
Presídio Tiradentes, que foi demolido, e passei um excelente contador de histórias. E instrutor
uns poucos dias no Carandiru. de educação física, nos dava treinamento físico
DV – As cartas que escrevia para todo dia.
seu filho na prisão renderam um DV – Por que a opção pela ANL?
livro, certo? Joel Rufino – Eu me fiz esta pergunta
Joel Rufino – Sim. Entrei no apoio da ALN muitas vezes. Não acreditava realmente na
[Aliança Libertadora Nacional], e minha queda luta armada, então, não devia ter entrado na
foi semelhante a tantas outras. Alguém é preso e ALN. Penso que foram duas as razões para eu
eles sentam o pau. Aconteceu isso em dezembro entrar: primeiro, a rede de relações que todos
de 72 e, depois de passar dessa fase, da etapa nós, comunistas, tínhamos. Se alguém dessa
barra pesada de tortura, interrogatórios, fui rede entrava, por um dever de solidariedade, a
cumprir pena como todo mundo. Nessa época, gente ajudava. Isso era muito comum, mesmo
meu filho estava com 8 anos, e meu medo era se a gente não concordasse, mesmo se achasse
perdê-lo. Impossível explicar para um menino que a luta armada não daria em nada. Chamo
que o pai está preso e não é bandido. Por mais essa razão de cumplicidade. Segundo, havia
que a mãe e os avós tentassem... Então, toda a onipotência de jovem. O jovem acaba acre-
semana praticamente, escrevia uma carta. Ele ditando que se ele não fizer algo, a ditadura
respondia algumas, outras, a mãe respondia por não vai acabar. Vamos chamar isso de espírito
ele... ficou nisso durante aquele tempo todo. sacrificial do jovem comunista, vocês estão
Quando deixei a prisão, as cartas que Nelson compreendendo? Por mais que faça uma análise
tinha me enviado, não pude levar. Ao sair do e conclua: ‘É, não adianta travar luta armada
presídio, passávamos pelos delegados do Dops, contra a ditadura nessas circunstâncias’. Mesmo

26 Democracia Viva Nº 44
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que se conclua isso racionalmente, alguma coisa certamente denunciou alguém, levou à queda
na gente diz: ‘Alguém tem de lutar, alguém tem de alguém. Mesmo aqueles que morreram sob
de enfrentar. E eu sou jovem, tenho saúde, sou tortura, eventualmente, podem ter entregado
capaz de lutar’. Acho que foi isso basicamente. alguém, o que não os livrou de morte. Fazendo
Não foi crença, não foi uma atitude logicamente um pé de página nisso que estou dizendo, vi
determinada, pelo contrário. pelo menos uma pessoa morrer sob tortura,
DV – Você também tinha uma o Carlos Nicolau Danielli. O que nós o ouvía-
ligação com Marighella? mos dizer era apenas o seguinte: ‘Sim, sou eu
Joel Rufino – Tinha, menos por Marighella quem sabe disso, mas não vou falar. Eu sei’.
do que por outras pessoas. Eu falei ainda há Eles queriam que o Carlos Danielli entregasse
pouco no Benetasso, que foi nosso colega no a conexão com a Guerrilha do Araguaia, e
cursinho do grêmio, era uma pessoa admirável. ele foi assim até morrer. Mas, então, quem
A família dele tinha lutado contra o fascismo na passou pela tortura esteve sujeito a isso,
Itália, aliás, ele era italiano, veio para cá jovem. qualquer que fosse a sua forma de reagir, a
O Benetasso era de luta, acreditava que o dever sua força interior.
do revolucionário é morrer pela revolução. Há O terceiro fato que posso dizer a esse res-
alguma coisa de grandioso nisso, de generoso. peito é que, durante algum tempo, me puni
E quando Benetasso entrou na luta armada, muito por ter entregado algumas pessoas. E
aconteceu aquilo que eu disse: ‘Se um cara só me recuperei, cumprindo pena por alguns
como esse, que eu admiro tanto, entra, por que meses depois, conforme retomei o processo
eu não posso apoiar, não posso participar?’. de luta como preso político. O preso político,
Mas isso também eu só percebi depois, naquele mesmo ali naquelas condições carcerárias,
momento, entrei sem pensar muito. tem condição de lutar, de prosseguir a sua
DV – É possível dimensionar o luta de alguma maneira. Quando comecei
impacto das torturas que sofreu na a fazer isso, me recuperei daquela culpa,
sua vida? daquele sentimento ruim que eu tinha de
Joel Rufino – Também já me fiz essa achar que devia ter morrido, que não devia
pergunta muitas vezes. Vamos começar pelo ter falado nada.
seguinte: dos presos políticos que conheci que Vamos falar das sequelas desse sofrimento.
passaram por tortura, grosso modo, dividiam- Esse sofrimento de ter entregado algumas pes-
se em dois grupos. Um grupo achava que a soas, penso quase ter me curado por conta
tortura, que o torturador, são desumanos, disso, porque não desisti de lutar, continuo
que não são gente, que são monstros ou algo lutando, de alguma maneira, continuo comu-
parecido; e o outro grupo achava que, apesar nista. Isso, então, me cura, ou quase, dessa
de ser uma forma extrema de crueldade, uma sequela. Agora, há sequelas dificílimas, talvez
experiência-limite, o torturador é humano e impossíveis de se curar. Por exemplo, ter visto
que, dependendo das circunstâncias, uma alguém morrer sob tortura ou ter visto alguém
pessoa que não torturaria, tortura. Ou seja, ser torturado barbaramente, uma pessoa jovem.
a propensão para a tortura estaria dentro de Muitas vezes, por exemplo, eu olho para minha
todas as pessoas, qualquer pessoa, em graus filha – hoje com 30 anos – e fico pensando que
variados. Não estou falando de sadismo, estou muitas moças que conheci sob tortura, algumas
falando do torturador que é capaz de torturar que vi sob tortura, outras que eu soube, eram
uma pessoa por horas a fio e sair dali, tomar como a minha filha, pessoas completamente
uma cerveja com um amigo, ir para casa beijar amadorísticas em termos de sofrimento, de
os filhos. Por exemplo, havia os que diziam: enfrentamento. Como pode uma pessoa de
‘O torturador tem de sofrer exatamente aquilo 20, 25 anos enfrentar um torturador? É com-
que ele fez sofrer’. Essa era uma visão. Outra pletamente desigual. A pessoa nem foi vítima
era: ‘O torturador desempenha uma função de tanta maldade nem praticou tanta malda-
histórica determinada em um determinado de assim que tivesse alguma defesa contra a
momento e, em outro momento, ele não será maldade absoluta que é a tortura. Essa é uma
torturador. Não faz sentido torturar ninguém, sequela, isso me faz sofrer ainda. Quando olho
descontar, vingar’. para uma pessoa jovem, penso: ‘Poxa, alguém
De modo geral, é assim que a gente se como ela foi torturada. Eu assisti a tudo, ela
divide. Esse é um fato. Outro fato é que quem sofreu tanto’. Enfim, essa mágoa, acho que
escapou, quem passou pela tortura, quase dificilmente passa.

Janeiro 2010 27
entrevista

DV –Como analisa a juventude Essas experiências com os presos negros


hoje? foram me estimulando e, como eu disse, o
Joel Rufino – Com inveja, tenho muita movimento negro estava também no pique. Aí,
vontade de ser jovem ainda. Estou brincando, ao sair da prisão, em 75, comecei a participar
não sou saudosista. Cada época tem a sua luta. de alguns movimentos. Tinha aqui no Rio o
Se a gente vê coisas negativas na juventude de IPCN [Instituto de Pesquisas da Cultura Negra],
hoje, a nossa também tinha, e a gente tende a o MNU [Movimento Negro Unificado], que foi
esquecer. Quer dizer, o jovem é mais ou menos fundado em 1978.
igual em qualquer época. As diferenças são DV – Como é sua relação com o
menores que as semelhanças. Por exemplo, a movimento hoje?
onipotência. Nós éramos muito onipotentes. Joel Rufino – Sempre pertenci a uma corren-
Outro dia, estava lendo para meu filho o te minoritária do movimento negro. A corrente
manifesto que a imprensa teve de ler por conta principal, a dominante, é aquela que pensa a
do sequestro do embaixador americano. Acho questão racial como se fosse a principal contradi-
que foi Franklin [Martins] que escreveu. Fomos ção da sociedade, quase isolada das outras. Sou
ao lançamento do livro ‘Resistência atrás das de uma corrente que defende que a contradição
grades’, de Maurice Politi, e eu li para ele. É racial só pode tomar sentido no conjunto das
de uma onipotência impressionante: “Agora contradições brasileiras. Por exemplo, a questão
será olho por olho, dente por dente.” É a das cotas. Sou a favor das cotas, mas como uma
onipotência do jovem de qualquer época. É o estratégia de democratização da sociedade bra-
manifesto de um jovem. Então, a onipotência, sileira. Por que a maioria, pelo menos parte dos
a generosidade, o sentimento de injustiça, o líderes do movimento negro, tem uma visão de
jovem parece que diferencia mais isso. racismo como se fosse um fenômeno autônomo?
DV – Em quais circunstâncias, No fundo, trata-se do seguinte, são duas concep-
tornou-se ativista do movimento ções do negro. Uma do negro como proletário, e
negro? outra do negro como etnia, ‘raça’, entre aspas,
Joel Rufino – Na prisão, tive uma experi- porque pouca gente usa e trata o negro como
ência interessante, que foi de pertencer a um raça. São duas concepções. Quase sempre, estive
coletivo de presos políticos em que eu era o na contramão do movimento negro, da tendência
único negro durante a maior parte do tempo. dominante do movimento negro.
E vivendo em um presídio onde a maioria es- DV – Mas você concorda que há
magadora dos presos comuns era negra. Essa uma luta específica que precisa ser
tensão foi me impulsionando, me estimulando travada pelo movimento?
a pensar na questão do negro. Nesse momen- Joel Rufino – Concordo que o negro tem
to, o movimento negro estava crescendo, se de travar a sua luta. Todos têm de travar a sua
fosse em outro momento, seria diferente, mas luta específica. Agora, a estratégia tem de ser
o movimento negro está exatamente tomando a mudança da sociedade como um todo. Nessa
pique no começo dos anos 70. luta, me reconheço como o negro proletário.
Um dos bandidos, preso comum – ele se Vou dar um exemplo que, talvez, me faça en-
considerava bandido –, sempre que me encon- tender melhor. Qualquer expressão, qualquer
trava nas partes comuns do presídio, dizia assim: nome, qualquer designação é relativa, não pode
‘Ô neguinho, qual é a tua manha pra ficar com ser tomada como absoluta. Eu não gosto da
os terroristas?’. Ele não se convencia de que eu expressão ‘afrodescendente’, porque filia você
era ‘terrorista’, eu tinha sempre de dizer: ‘Não a uma África anterior à experiência histórica
rapaz, eu sou terrorista’. O preso político tinha brasileira. Na experiência histórica brasileira,
banho quente, as visitas eram mais longas. E o que foi o negro? Foi um trabalhador. Com-
ele achava que eu usava de alguma manha pulsório, escravo, mas trabalhador. O negro
para entrar nesse grupo. Uma vez, meu filho foi de hoje descende desse negro que construiu o
me visitar e eu o apresentei a um ladrãozinho país como trabalhador. E não do negro africano
de pequenos roubos. Depois que meu filho foi anterior ao Brasil. Nesse momento, aparece a
embora, ele disse assim: ‘Ô, professor, querendo contradição, a divergência. Uso a expressão
me desclassificar? Por que me apresentou ao seu ‘afrodescendente’ com restrição.
filho? O que vão pensar de mim? Eu sou fera!’. DV – O que achou da aprovação da
Ele achou que eu queria esculachá-lo na frente Lei 10.136, que obriga o ensino da
dos outros ao apresentar meu filho. história da África nas escolas?

28 Democracia Viva Nº 44
J OEL RU F INO

Joel Rufino – Eu achei bom, mas não pode


tomar o lugar do ensino da história do trabalho
no Brasil. Quer dizer, o negro foi no Brasil, grosso
modo, o africano desterrado e foi o trabalhador
brasileiro. Nós descendemos, ou devemos nos
orgulhar de descendermos, do trabalhador bra-
sileiro. Quando se quer descender do africano,
se esquece um pouco o essencial, que é a expe-
riência de classe trabalhadora do negro.
DV – Acredita que essa contradição
se deva a quê?
Joel Rufino – Essa tendência dominante,
de ver o negro como o africano desterrado,
deve-se à origem do movimento negro, que
se origina na classe média em ascensão nos
anos do chamado milagre brasileiro. Nesses
anos 70, 80, muitos negros queriam entrar na
classe média por meio do estudo. Formam-se
em universidades, particulares geralmente, vão
para o mercado de trabalho. E não conseguindo
a gratificação que esperavam, eles se frustram.
A frustração dessa classe média ascendente
por meio do ensino particular é a origem do
movimento negro, que fica marcado por essa
origem de classe. Suas reivindicações são típi-
cas de classe, tanto que o negro mais pobre, o
negro que não está em ascensão, não consegue
se identificar com as bandeiras do movimento
negro. Por exemplo, me parece mais fácil o
movimento negro se mobilizar pelas cotas nas
universidades que pelo ensino público universal
e gratuito.
DV – Poderia falar mais sobre por
quê dessa não identificação da
população negra mais pobre com o adquire sentido por meio da luta social, da luta
movimento negro? de classes, da luta contra a ordem. O racismo é
Joel Rufino – Em primeiro lugar, eles acham um fator estrutural, está na própria essência da
que são discriminados porque são pobres e formação brasileira. Se não pensarmos assim,
não porque são negros. Eu nunca medi isso, vamos tomar o preconceito racial um sinônimo
embora haja quem faça estatísticas a respeito, de racismo, e aí o problema vai longe, vai cair
mas onde se encontra negro favorável a isso é na reivindicação isolada, justa, mas isolada, vai
mais na classe média. O negro humilde mesmo, cair em certas ilusões que alguns negros têm
que não tem pretensão, que sabe que o filho de que se, por exemplo, o negro puder estar na
não vai para a universidade, que não está nem televisão, se o negro puder ser general, se puder
tentando, não quer saber disso. Ele pensa que ser executivo, que o problema estaria resolvido,
o sistema de cotas e outras reivindicações desse o racismo estaria sendo combatido.
tipo vão dividir mais ainda. Essa questão vai aparecer com a novela
DV – Há diferenças entre racismo, “Viver a vida”, da Rede Globo. Ter uma prota-
discriminação e preconceito racial? gonista negra na ‘novela das oito’ é realmente
Joel Rufino – O preconceito racial é fácil de combate ao racismo? Para quem encara racismo
identificar. Já o racismo é mais difícil, porque, como sinônimo de preconceito racial, é. Está
para compreendê-lo, é necessário conhecer aí a negra no papel. Agora, se pensarmos no
alguns conceitos sobre o funcionamento da racismo como estruturante, como elemento
sociedade. O racismo é uma forma de domi- essencial da formação brasileira, que não é
nação estrutural na sociedade brasileira que só igual ao simples preconceito, vamos perceber

Janeiro 2010 29
entrevista

que a novela é um endeusamento da beleza com o lógico e o dialético. O que constitui a


da mulher. Esse é um fator estruturante das verdade da sociedade? É lógica? Não.
relações no Brasil. Entre Helena e Luciana, Por exemplo, alguém diria o seguinte: ‘O
qual é o papel principal? Aparentemente, é problema dos negros é que eles são discrimina-
o da Helena, mas, na verdade, é da Luciana dos porque são negros, É o racismo’. Até aí, só
porque a beleza é uma forma de dominação fomos lógicos, é preciso dar o passo seguinte,
na sociedade moderna, não só no Brasil, mas verificar que a discriminação dos negros é a
no Brasil principalmente. Quem nasceu belo maneira pela qual se dá a exploração do capital
não precisa ter mérito nenhum. Não precisa ser pelo trabalho, ou melhor, do trabalho pelo
bom, ser legal, ser estudioso, ser boa pessoa, ser capital, na sociedade brasileira. Assim, saímos
generoso, basta ser belo que já tem um espaço do lógico e passamos para o dialético, saímos
assegurado. Em suma, a ‘novela das oito’ com- do particular e passamos para o universal para
bate o preconceito racial, mas o racismo está lá melhor compreender o particular.
na questão da exaltação da beleza. No caso do negro, ele é discriminado e
DV – Como distinguir o que é ou vítima de racismo. Mas essa discriminação
não estruturante? A questão racial é uma manifestação, uma concretização de
não é estruturante também? algo mais geral, universal no Brasil, que é a
Joel Rufino – Essa é uma questão meto- exploração dos pobres pelos ricos ou da classe
dológica antiga de difícil solução. O fenômeno dominante pela classe dominada. Então, não
social só aparece por meio de fenômenos espe- há contradição em dizer: ‘A questão do negro
cíficos. A questão social no Brasil só se mostra é específica, mas não é a questão do negro,
por meio da discriminação dos negros, da mu- é a questão do Brasil’. Para mim, a questão
lher. O geral só aparece a partir do específico, do negro só é interessante porque é a ques-
mas o especifico não existe sem o geral. É uma tão da sociedade brasileira. Se luto contra a
antiga questão porque, no fundo, tem a ver discriminação dos negros, é porque, na minha
consciência, estou lutando pela transformação
da sociedade brasileira. Aí, desaparece essa
contradição entre lógico e dialético, entre
particular e universal.
DV – Acredita na eficácia das
políticas universalistas para
combater o racismo?
Joel Rufino – Isso faz sentido. Políticas
universalistas, como as de educação, vão be-
neficiar os negros. Há antecedentes disso na
História do Brasil. Conforme o Estado se for-
taleceu na era Vargas, conforme se constituiu
e se ampliou, melhorou a situação dos negros
porque eles entraram no Exército, na polícia,
no funcionalismo público, eles começaram a
ganhar mais, subiu o patamar de renda da
população negra. Nesse sentido, é possível
que uma política de universalização da escola
melhore a situação dos negros. Agora, tam-
bém sem ilusões porque quando se analisa a
melhora dos indicadores sociais brasileiros nos
últimos cem anos, percebe-se que a melhoria
da população negra não acompanhou o mesmo
ritmo. Há uma especificidade aí.
DV – Por que o foco na literatura
infanto-juvenil?
Joel Rufino – Resolvi escrever para crianças
porque estava sem emprego em São Paulo,
fugindo da repressão, e alguém me ofereceu
uma mixaria para escrever uma história na

30 Democracia Viva Nº 44
J OEL RU F INO

Revista Recreio. Isso foi em 69, algo assim. Es- Joel Rufino – Não, porque fiz doutora-
crevi achando que não iria dar certo, mas deu, do em Comunicação e Cultura na Escola de
e possui a escrever toda semana e a ganhar Comunicação da UFRJ. Os embates que eu
um dinheirinho com isso. Depois, na prisão, tinha como professor eram mais de natureza
escrevendo as cartas para o meu filho, isso foi ideológica, concepção de literatura, sentia a
decisivo para eu achar que poderia escrever para necessidade de politizar o ensino da Literatu-
criança. Mas depois que meus filhos cresceram, ra, aí tinha um embate muito grande.
perdi um pouco a graça. DV – Como um árduo defensor dos
DV – Você é avô? direitos humanos, como avalia o
Joel Rufino – Sou, tenho quatro netos. cenário brasileiro?
DV - Como avalia o ensino da Joel Rufino – Considerando um largo
literatura para crianças no Brasil? período da História brasileira, os avanços são
Joel Rufino – Fui professor de Literatura evidentes. Por exemplo, na área da Justiça, per-
brasileira nos últimos 20 anos, até me aposen- cebi, no período em que fui assessor do Miguel
tar. Penso que o professor, ou o pai, a mãe e Paxá, que a morosidade se deve, em grande
o responsável, tem de convencer a criança, de parte, ao aumento da demanda por justiça. Isso
alguma maneira, que literatura é importante. considerando os últimos 50 anos. Em matéria
A criança tem de descobrir, olhando o exemplo de justiça, houve um avanço da consciência
do adulto, que literatura é interessante. Se ela dos direitos, muito mais demandas por parte
desconfia que é só um acessório, não dá certo. de mulheres, de pobres, de vizinhos.
Para a criança melhorar o interesse pela leitura, DV – O que acha da política de
é necessário que os professores sejam leitores. segurança pública do governo do
Como professor, eu estava um bocado na estado do Rio de Janeiro?
contramão também. Porque há os professores Joel Rufino – Até onde pensei nessa ques-
que consideram o gosto do aluno e os que não tão, não sou muito favorável a essa política do
consideram. Os que consideram o gosto do governo estadual. Compreendo que deve ter
aluno começam por ouvir mais do que falar. alguma razão, algum fundamento, que é razoá-
Isso também serve em casa com nossas crian- vel em alguma medida, mas não acho que seja
ças. Você tem de ouvir a fabulação da criança por aí o caminho. O que é segurança? Política
sem cortar, sem disciplinar, sem organizar. A de segurança deve ser a política de direitos
fabulação é natural na criança, e a gente tem humanos. Política de segurança, para mim,
de estimular. Vejo muito pai e muita mãe que que sou de esquerda, só pode ser a política de
ficam tristes porque o filho não lê, não pega direitos humanos. Quando se separa as duas,
livro. Mas não adianta tristeza e a obsessão vai mal, sou crítico.
de obrigar a ler, isso não funciona. Tem de ser DV – Analisando historicamente
divertido, a criança tem de compreender que a questão do golpe de 64 e a
leitura é importante, os adultos precisam ter situação política atual de ascensão
livros em casa, a criança precisa ver o pai e a de esquerda na América Latina,
mãe lendo. qual leitura poderia fazer?
DV – Esse estilo de didática você Joel Rufino – Há 50 anos, a ideia de reali-
trouxe do estudo em História? dade brasileira era de pouca circulação social,
Joel Rufino – Publiquei um livro sobre isso mas tinha peso nos acontecimentos políticos.
há três anos: Quem ama literatura não estuda Quando se dizia: ‘o problema do Brasil é o la-
literatura. Tento passar o que deve ser o progra- tifúndio e o imperialismo’, para a maior parte
ma de um estudante de Letras, de um professor da população, isso não queria dizer nada. Tinha
de Letras. E começa pelo seguinte: a literatura significado para uma pequena parte da popu-
e, portanto, o estudo de Letras é um capítulo lação que lia livros, estava na universidade, ia a
da história da cultura, não pode ser tomado debates da esquerda. Mesmo sendo pequeno o
isoladamente, como um setor que se explique número dos que participavam desses debates,
por si próprio, que faça sentido por si mesmo. tinham peso nas estratégias políticas, na luta
Por exemplo, o estudo de Letras no Brasil tem política. Em certo sentido, o golpe de 64 foi
de passar por Filosofia, Ciência. dado contra o prestígio dessa ideia de realidade
DV – Sentiu alguma dificuldade brasileira. É nesse sentido que digo, há 50 anos,
como professor universitário por a luta ideológica e intelectual era mais nítida,
não ter concluído o seu curso? os pensadores eram mais seguros de si.

Janeiro 2010 31
entrevista

De 20 a 30 anos para cá, embolou o meio mento, foi impossível derrotá-lo, depois caiu
de campo, e não só porque o Brasil mudou, e em decadência. Era difícil criticar o Fernando
mudou não apenas naquele sentido que aque- Henrique porque ele tinha o que chamo de
les pensadores pensavam, o mundo mudou ‘teoria do Brasil’, era a ‘Teoria da Dependência’.
também. A inserção do Brasil no mundo se Com base nessa teoria, ele fez um governo
tornou diferente, ou seja, aconteceram duas coerente, fez alianças políticas coerentes para
coisas que estavam fora do alcance daqueles compor uma base que permitisse essa políti-
pensadores nítidos: a globalização e a cultura ca. Outro dia, minha mulher lembrava que o
de massa. Esses dois fatos mudaram, acabaram Fernando Henrique, ainda em campanha, teria
com aquelas certezas. dito: ‘Vou fazer aliança com o PFL’. Ele não
DV – A crise do socialismo também escondeu de ninguém. Hoje, por exemplo, é
contribuiu para isso? impossível alguém propor uma aliança com o
Joel Rufino – Também, esse seria um ter- DEM, herdeiro do PFL, mas Fernando Henrique
ceiro fator, sem dúvida. Temos de contabilizar a propôs naquele momento e funcionou como
nossa derrota perdeu, perdeu. Agora, há possibi- base de apoio para ele governar.
lidade de surgir outra vez alguma ou algumas No plano político, me parece evidente que
teorias nítidas com peso social sobre o Brasil? Lula foi um passo adiante. Agora, em termos
Eu penso que sim. Por exemplo, o Fernando de teoria do Brasil, será possível também ir
Henrique, o grupo do Fernando Henrique, tem adiante de Fernando Henrique? Outra teoria
um pensamento, tem uma teoria de Brasil. do Brasil, as bases para uma nova teoria que
DV – Ainda hoje? não seja a de Fernando Henrique, que seja
Joel Rufino – Sim, hoje. É por isso que o também de esquerda? A base talvez já exista.
considero um adversário difícil. Em certo mo- Bresser Pereira, que é um pensador interes-

32 Democracia Viva Nº 44
J OEL RU F INO

Participaram
sante, teve certo prestígio com Fernando o Serra. Mas a gente não decide assim, a gen-
desta entrevista
Henrique, depois com Lula – o pai da reforma te não vota assim, a gente decide de acordo
administrativa. Ele tem uma hipótese interes- com o contexto. Entre Serra e Dilma, Serra é Entrevistadores(as)
melhor pessoa, melhor cabeça... Não sei, ainda Ana Bittencourt
sante, diz que a teoria desenvolvimentista do
Carlos Tautz
Brasil, dos anos 60, fracassou porque acon- estou pensando, ainda há tempo para decidir. Cândido Grzybowski
teceram fatos que ela não previa. Um desses Quando a Marina se lançou, saiu do PT, eu me Diego Santos
entusiasmei um pouco, durante alguns dias... Dulce Pandolfi
foi a queda do socialismo, a globalização, a
Felipe Siston
internacionalização da economia brasileira, o Agora, é melhor esperar para ver qual será o Fernanda Carvalho
fim do processo de substituição de importa- menos pior. Flávia Mattar
ções, não havia uma burguesia nacional, como DV – Como avalia as perspectivas Francisco Menezes
Gabriel Ferreira Gonçalves
tantos acreditavam. do Fórum Social Mundial para Geni Macedo
O desenvolvimento anterior da sociedade a sociedade em termos de Jamile Chequer
brasileira, da economia brasileira, criou pos- transformação cultural nestes 10 João Roberto Lopes Pinto
Luciana Badim
sibilidade para uma burguesia nacional. A anos da iniciativa?
possibilidade que morreu naquele momento Joel Rufino – Em primeiro lugar, é indiscu- Decupagem
ressurgiu agora com o desenvolvimento pos- tivelmente um avanço daquilo que chamamos Fabiana Born
terior à globalização. No momento presente, de direitos humanos, de democracia. Também Edição
a globalização criou, permitiu uma burguesia visto a partir dos 50 últimos anos, é um grande Ana Bittencourt
industrial brasileira, ou seja, uma burguesia avanço, um grande passo adiante. Eu nunca
Fotos
interessada em ganhar dinheiro, obviamente participei, o que sei é pelos jornais, pelo que me
Marcus Vini
como toda burguesia, mas que vê essa possibi- contam, mas só vejo aspectos positivos.
lidade no confronto com o capitalismo inter- DV – Quais seriam os livros Produção
Geni Macedo
nacional, sobretudo com o capital financeiro. fundamentais que você mandaria
Essa burguesia industrial, que não existia antes, para alguém em uma ilha deserta?
estava mais no plano do desejo e, agora, está Joel Rufino – Um manual prático de cons-
no plano do real, pode ser a base para uma trução de barcos, para começar. Talvez o livro mais
teoria de Brasil. importante desta geração de escritores brasileiros
É uma ideia interessante, uma especulação seja o Viva o povo brasileiro, do João Ubaldo.
que, no mínimo, mostra que a vida social e É um livro que narra a elaboração dos mitos
política é muito mutável. Há 50 anos, não cabia da formação e da fundação brasileira. O livro
outra teoria do Brasil que não fosse aquela do começa com um índio que, durante o domínio
desenvolvimentismo. Nos 30 anos seguintes, holandês na Bahia, um dia come um holandês
não se produziu nenhum pensamento, ne- que saiu do acampamento, e gostou tanto que
nhuma política nova, a não ser a do Fernando faz um criatório de holandeses para comer. Está
Henrique, e, agora, 50 anos depois, na geração aí o mito da antropofagia, depois vem o mito do
seguinte, já surge a possibilidade de um novo heroi que proclama a independência. É um livro
pensamento de Brasil. É uma visão otimista. Por fundamental.
exemplo, existe uma teoria de Brasil a partir do DV – Você está escrevendo?
PT, a partir do lulismo, que considera o interesse Joel Rufino – Estou sempre escrevendo.
da classe operária industrial. São especulações. Agora, estou tentando mostrar os limites disso
Por exemplo, o que chamam de subperonismo que chamei aqui hoje já de realidade brasileira.
do Lula – foi o Fernando Henrique quem falou –, Até que ponto a realidade brasileira correspon-
ele está querendo dizer de algo que é um mal, de à realidade de fato? Seria um livro de histó-
mas está apontando para algo possível. Pode ria das ideias, como a realidade brasileira, ao
ser que surja daí, em volta, como superestrutura mesmo tempo que foi um instrumento de luta
desse subperonismo, uma teoria de Brasil. social, criou algumas ilusões difíceis de superar.
DV – Aécio Neves acaba de Vai sair em meados do ano que vem.
renunciar. Acha que Dilma Roussef DV – Já tem nome?
vai ganhar esta eleição? Joel Rufino – Tem um título provisório, um
Joel Rufino – Não, acho que não. Mas é gigantesco inseto, retirado da metamorfose de
puro palpite. Se fosse hoje, eu votaria na Dilma Kafka. Eu acho que houve no Brasil uma grande
com dúvida, mas votaria. metamorfose a partir de 1930. Essa metamor-
DV – Quem vai estar no páreo, na fose produziu essa ideia de realidade brasileira,
sua opinião? que ao mesmo tempo, é um instrumento e
Joel Rufino – O melhor individualmente é uma ilusão.

Janeiro 2010 33
artigo
Maria Pia*

América Latina
e os processos de
democratização da
comunicação
Observar os processos de democratização a partir das políticas públicas sobre comunicação

constitui uma prioridade na análise das lógicas de poder que conformam a realidade na

América Latina. Desde a conivência da mídia com o golpismo em Honduras até a apro-

vação da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual na Argentina, demonstra-se que o

papel dos meios de comunicação se torna cada vez mais atuante na ação política.

Mais que recursos, os meios de comunicação são a visibilidade do poder, o lugar

onde se constrói a agenda política, onde se conforma o debate cidadão. Constituem

elemento decisivo da participação democrática contemporânea. Por isso, as políticas

sobre comunicações devem considerar que não basta resguardar o direito à informação,

é necessário garantir a participação da pluralidade de vozes e atores no debate político.

Quer dizer, é fundamental a diversidade de vozes articuladas no sistema de meios de

comunicação. Em função disso, devem ser considerados como bens públicos.

[Traduzido do espanhol por Lígia Filgueiras]

34 Democracia Viva Nº 44
A partir dessas considerações, propomos audiovisuais, informático e das telecomunica-
as seguintes perguntas: será que os governos ções baseada em um modelo de pagamento
da região incorporaram em suas agendas a por conteúdos. É dessa forma que chegamos
comunicação como um direito humano? De- ao século 21 e a tarefa de democratização das
senvolveram marcos regulatórios e políticas comunicações enfrenta um cenário difícil.
públicas que acrescentem o caráter de serviços Na América Latina, a mãe das desigual-
públicos ao sistema de mídia? dades é a desigualdade no exercício do poder.
Existem realidades diferentes, como Os meios de comunicação estão no centro dessa
diferentes são os processos políticos de cada assimetria; a disputa pela distribuição das frequ-
país. Mas também existem padrões globais no ências de rádio e televisão reflete isso. As práticas
campo dos direitos humanos que estabelecem discricionárias na concessão de frequências de
parâmetros para as ações positivas que garantam rádio e televisão, o uso de mecanismos antide-
sistemas de meios de comunicação equitativos. mocráticos, como a concorrência para licitação, a
Especialmente relevantes são os prin- falta de limites efetivos à concentração dos meios
cípios adotados pela Unesco em 1980, no e, em geral, o estabelecimento de barreiras ao
documento conhecido como “Informe MacBri- acesso equitativo das comunidades indígenas,
de”, no qual são assinalados vários princípios organizações sociais e outros meios não comer-
que continuam sendo fundamentais para o ciais, são comuns no continente.
desenvolvimento de marcos democráticos Os abusos têm como consequência o
de comunicação. Entre eles, destacam-se a silenciamento de vozes dissidentes e diversas,
necessidade de eliminar os efeitos negativos em detrimento da pluralidade de informações e
de monopólios públicos e privados e das opiniões necessária para a existência de nossas
excessivas concentrações, bem como a remo- democracias. Centenas de emissoras comu-
ção de obstáculos internos e externos para a nitárias foram testemunhas dessa situação,
livre-circulação da informação. Destacam-se e muitas outras emissoras de caráter público
também os direitos de identidade cultural de
cada povo e o direito de coletividades e grupos
étnicos e sociais de terem acesso às fontes de
informação e de participar ativamente dos
fluxos da comunicação.
Adotar esses princípios pressupõe um
compromisso claro com a valoração das co-
municações como campo de direito e, a esse
respeito, existe um acentuado déficit em toda
a América Latina, muito além dos projetos
políticos que animam seus governos.
Desde a década de 1990, no contexto da
chamada “onda democratizadora da região”, a
falta de políticas públicas teve como resultado
uma acentuada concentração da propriedade,
sem precedentes. Como parte dos processos
de transição democrática, impôs-se o mito de
que os Estados não podiam intervir nas co-
municações. Para muitos governos, a melhor
política era não ter política. Paralelamente, a
exploração das frequências de rádio e televi-
são constituía-se como um dos setores mais
dinâmicos das economias neoliberais. Fez-se a
desregulamentação a partir da lógica do mer-
cado, possibilitando fórmulas de propriedade
cruzadas e verticais.
A identificação dos meios como parte
da indústria de entretenimento e da informa-
ção tem como resultado a alta concentração
da propriedade, com convergência dos setores

Janeiro 2010 35
artigo

* Maria Pia foram excluídas por marcos regulatórios e prá- • A opção de construir um sistema diferen-
Jornalista, presidenta ticas arbitrárias que beneficiam empresários e te de meios de comunicação: o caso da
para América Latina e grupos econômicos. Argentina
Caribe da Associação
Mundial de Rádios A aprovação da Lei de Meios Au-
As realidades de Honduras e
Comunitárias (Amarc) diovisuais na Argentina posiciona esse país
Argentina
como uma das melhores referências em
Levando-se em conta que os meios de co- matéria de marcos regulatórios para limitar
municação constituem o epicentro do poder, a concentração da mídia. Trata-se de uma
analisaremos dois casos. lei que democratiza os meios de comuni-
cação; o fim do monopólio atual do grupo
• O poder e os meios: o caso de Honduras Clarín que, por si só, possui 264 licenças
de radiodifusão.
Honduras constitui um exem- Outro aspecto importante da lei é
plo para limitar o poder dos
A aprovação da meios de comunicação.
que 33% do espaço audiovisual se põe à
disposição de meios sem fins lucrativos, o
A conivência da mí- que abre a porta aos meios comunitários,
Lei de Meios dia da corrente principal é a até agora ausentes como gestores nas fre-
base do golpe de Estado em quências radioelétricas argentinas.
Audiovisuais Honduras. A confrontação No momento em que o equilíbrio
entre o governo do presi- midiático ocupa o centro da atualidade do
na Argentina dente Zelaya e os meios de
comunicação tem uma gê-
continente, a nova lei argentina serve de
inspiração para outros países da região. A
posiciona esse nese anterior ao 28 de junho
e se explica pela propriedade
lei reconhece expressamente a rádio e a te-
levisão comunitárias, adotando a definição

país como uma cruzada que existe com


outros setores financeiros.
sugerida pela Amarc nos Princípios para um
Marco Regulatório Democrático sobre Rá-
O desequilíbrio no setor da
das melhores mídia é uma dura realidade,
dio e Televisão Comunitária como: “atores
privados que têm uma finalidade social e
anterior ao golpe de Estado se caracterizam por serem administrados
referências que deu alento ao clima de por organizações sociais de diversos tipos,
ingovernabilidade. sem fins lucrativos”.2
em matéria Os empresários dos Nesse caso, tão importante quanto
grandes meios são protago- o conteúdo da lei é o seu processo de ela-
de marcos nistas da crise política; esse
fato determinante afeta a
boração e debate. O texto toma seus aspec-
tos fundamentais de uma iniciativa cidadã,
regulatórios liberdade de expressão, põe
em dúvida a credibilidade dos
anterior ao atual governo, denominada
“21 Pontos Básicos pelo Direito à Comuni-

para limitar a meios perante a cidadania e


expressa uma forma extrema
cação”, elaborado pela Coalizão por uma
Radiodifusão Democrática, uma aliança de
de vinculação entre política e
concentração negócios que causa danos à
organizações e instituições sociais, sindi-
cais, acadêmicas e profissionais.
democracia. A conivência da O processo da coalizão cidadã pela
da mídia mídia comercial com as elites nova lei argentina, que não apenas agrupa
empresariais não apenas a meios e corporações profissionais, demons-
levou a fazer parte da estra- tra que, para contar com uma regulamenta-
tégia golpista como também disponibilizou ção democrática, é preciso mobilizar a ideia
para a ditadura um sistema de controle da do direito à comunicação como garantia da
informação de profundo impacto no cidadão prática de outros direitos, como o direito
e na cidadã. No lado oposto aos meios da à identidade, à diversidade e o relativo à
corrente principal dos grandes conglomera- deliberação. Uma base social ampla, diversi-
1Para mais detalhes sobre
o resultado das missões dos, estão os escassos meios independentes ficada e organizada pode criar um marco de
a Honduras ver <www. e comunitários. Aqueles que foram objeto legitimidade para a demanda que mobilize
agenciapulsar.org/>.
de atemorização, censura e encerramento mudanças, ainda que em contextos políticos
2 <www.legislaciones.amarc.
org> de transmissões.1 de grandes desigualdades de poder.

36 Democracia Viva Nº 44
Janeiro 2010 37
matéria
Ana Cristina Bittencourt, Flávia Mattar e Jamile Chequer
Colaboração: Diego Santos

A desconstrução
do descaso

Os grupos impactados por toda sorte de projetos – que vão desde o plantio da cana-de-

açúcar e eucalipto à construção de hidrelétricas e exploração de minério – denunciaram

a violação de seus direitos e a depredação do meio ambiente nas regiões onde moram.

Os relatos foram feitos durante o I Encontro Sul-americano de Populações Impactadas

por Projetos Financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

(BNDES), no fim de 2009.

Nas cinco regiões do país, milhares de pessoas – ribeirinhos(as), quilombolas, indí-

genas, pescadores(as), agricultores(as) etc – sofrem com um modelo de desenvolvimento

que aprofunda as desigualdades econômicas, sociais e ambientais. O número é imen-

surável, a quantidade de pessoas impactadas diretamente pelas obras é infinitamente

maior do que imaginamos.

38 Democracia Viva Nº 44
fotos: Irene Betini/MMC

É possível perceber que a extensão dos A “expulsão” de suas casas e comuni-


danos desses projetos que envolvem grandes dades onde moram desde que nasceram se dá
empresas vão além, e muito além, da valo- de maneira violenta e com poucas palavras. A
ração material. Vistas como “entraves para o retirada dessas pessoas de suas terras mina suas
desenvolvimento”, essas populações sofrem identidades e seus laços, seja feita com ou sem
com barragens construídas a poucos metros negociação. A dúvida com relação ao próprio
de suas casas; nuvens de poeira por retirada destino, fruto da falta de informação e diálogo,
de minério das jazidas; atropelamento em torna-se um martírio diário. A maior parte dos
vias férreas sem sinalização ou passagem para relatos demonstra que as populações locais são
pedestres; assoreamento, poluição e extinção as últimas a saber sobre o empreendimento
de rios; destruição de manguezais; envenena- e suas consequências. Em vez do prometido
mento e extinção de peixes; barulho constante; progresso, portanto, o que essas obras têm
trânsito crescente com a presença maciça de trazido para essas populações é exploração da
grandes caminhões. “Nós, ribeirinhos, não mão de obra e angústia.
temos mais o direito de pescar. Dizem que a “Os estudos de impacto ambiental para
causa é a natureza. Impacto da natureza que aprovação dos projetos são mal-elaborados,
nada, é a desgraça da hidrelétrica”, denuncia os dados são mal-analisados. As informações
Cleide Passos, coordenadora do Movimento de sobre os impactos sociais e ambientais são
Atingidos por Barragem. recorrentemente omitidas da sociedade. É dito

Janeiro 2010 39
artigo

que esses empreendimentos, em geral, são Glass, o banco financia mais de 200 usinas de
feitos em ‘vazios demográficos’, que vão levar cana, principalmente no Centro-Sul do país, e sua
desenvolvimento para essas regiões, mas isso carteira de recursos para o setor sucroalcoleiro
está longe da verdade. As empresas que não ultrapassa R$ 20 bilhões. “A expansão do plantio
conseguem instalar seus empreendimentos em da cana é uma ameaça à agricultura familiar e à
países com padrões ambientais mais rígidos vêm soberania alimentar, e o BNDES é hoje o motor
fazer isso na América Latina”, aponta Guilherme econômico dessa atividade”, diz.
Zagalo, da Campanha Justiça nos Trilhos. A Plataforma BNDES defende a respon-
E outros países da América Latina se- sabilização do banco pelos empréstimos que
guem o mesmo caminho aberto por empresas concede. É um primeiro passo para o desmonte
brasileiras, como afirmam representantes de de uma lógica opressiva e agressiva aos direitos
comunidades do Equador, da Colômbia e da Bo- da maioria. “A Plataforma levanta a tese da
lívia. “Na Bolívia, os financiamentos do BNDES corresponsabilidade do banco. Responsável
beneficiam grandes empresas privadas ligadas não é apenas aquele que executa o projeto,
ao poderio econômico nacional. Os recursos do mas também aquele que concede empréstimos,
BNDES não deveriam servir para atentar contra aliás, a juros bem baixos”, aponta Cândido
a vida no planeta, não deveriam por em risco Grzybowski, diretor do Ibase.
populações de milhares de países. Por respon- Os grupos que estiveram no encontro
sabilidade do BNDES e do Estado brasileiro, os vislumbram um mundo à frente do que vivemos
direitos humanos dos povos indígenas e dos hoje. Não desejam o fim do BNDES ou lutam
pequenos agricultores estão em risco”, revela contra o desenvolvimento. Defendem um banco
Manuel Lima Bismark, da Foro Boliviano sobre transparente e que financie o desenvolvimento
Medio Ambiente y Desarrollo (Fobomade). baseado em critérios sociais e ambientais.
É claro que a situação é muito mais No fim do evento, representantes das
complexa do que o próprio BNDES pode dar organizações presentes foram em marcha ao
conta. Trata-se de uma megaoperação global prédio do BNDES para protesto e encontro
para esticar o capitalismo ao máximo. O banco, com o presidente do banco, Luciano Coutinho.
porém, tem orçamento quatro vezes maior que O documento, com propostas e reivindicações
o do Banco Mundial e parte de seus recursos para a democratização do banco, não foi rece-
vem do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), bido como o esperado. Coutinho acabou não
ainda que isso soe irônico. Para se ter uma ideia, se comprometendo com as responsabilidades
segundo a jornalista do Repórter Brasil, Verena atribuídas à instituição.

40 Democracia Viva Nº 44
fotos: Verena Glass/Repórter Brasil
“Se você pegar o dinheiro, não deve falar para
o seu vizinho. É arriscado, ele pode te roubar”.
É muito difícil.
Sabemos que vamos ter de sair das
terras, nos avisaram que isso deve acontecer a
partir de junho de 2010. Não pudemos impedir
as usinas, fomos enganados. Agora, temos de
lutar para que possamos reconquistar o que
Cleide Passos Jacob da Silva,
tínhamos, os nossos direitos. Queremos o
Movimento de Atingidos por Barragens (Mab) reassentamento-padrão – o mesmo tamanho
Hidrelétrica Santo Antônio, Porto Velho, das terras que temos – e também condições
Rondônia para que possamos trabalhar.
Sem terra, não temos como produzir.
Moro há 16 anos na comunidade. Há quatro, Nela, plantamos para o nosso sustento. Nossa
começou a movimentação para a construção da terra é boa, fértil. Para onde vamos? Queremos
hidrelétrica. Fomos enganados, nos falaram de ter o direito de escolher a terra onde vamos
desenvolvimento, que a vida dos ribeirinhos mu- viver e trabalhar. Eu sei que, com a luta, vamos
daria para melhor, que seríamos indenizados, conseguir. Estamos lutando para que o nosso
teríamos terra para morar, que nossos filhos e reassentamento-padrão seja na beira do lago,
esposos teriam emprego etc. queremos ficar no nosso lugar, onde sempre
Falaram que as construções não come- vivemos. O MAB nos deu força, nos incentivou
çariam sem sermos indenizados e retirados da a lutar. Descobrimos que somos capazes.
comunidade. Tudo mentira. Quando começa-
ram as audiências públicas, fomos, mais uma
vez, enganados. O povo ribeirinho assinou
um documento, concordando com as usinas,
pensando que assinava uma lista de presença.
Assinamos a nossa sentença.
As usinas já estão sendo construídas,
metade do rio Madeira já foi fechada. O que
está sendo ofertado para os ribeirinhos são
casas de placas, nas chamadas agrovilas, com
três hectares de terra. O ribeirinho é um cam-
Irene Betini,
ponês, agricultor, acostumado a viver da terra.
Quem era pescador não pode mais pescar. Não Movimento de Mulheres Camponesas (MMC)
há mais terra para trabalhar na roça. As pes- Usina de Açúcar e de Álcool, Rio Brilhante,
soas que estavam próximas ao canteiro foram Mato Grosso do Sul
para as agrovilas, tiveram de sair na marra. Há
ainda aquelas pessoas, como eu, que estão Há cerca de dois anos, sentimos os impactos
conseguindo resistir, que estão organizadas no das usinas em nossa região. No nosso assen-
Movimento de Atingidos por Barragem. tamento, colhemos frutas e tiramos leite para
O assentamento Joana D’arc vai ser consumo próprio e para venda. As hortas não
atingido, vai ficar dentro do lago. Quando eles produzem mais como antes. Somos, ao todo,
fizeram o levantamento, disseram que 700 fa- 67 famílias.
mílias seriam atingidas. Posso provar que são Entre os problemas que enfrentamos
cerca de 5 mil famílias. Só no Joana D’arc somos está o veneno das usinas, que faz as pastagens
3.200. Cerca de 1.300 pessoas do Joana D’arc queimarem, prejudicando a alimentação do
estão organizadas no MAB, estão na luta, na gado. Pés de frutas chegam a derreter. A man-
resistência. São homens, mulheres e crianças. dioca está linda, daqui a uns dias... não sobra
Fazemos ocupações, manifestações... nada. Com a baixa na produção, os homens
Eles sabem que a nossa comunidade está se veem obrigados a trabalhar fora do assen-
organizada. Estamos reunidos coletivamente tamento, em fazendas.
no MAB. Eles tentam jogar as famílias umas Fora isso, convivemos com as queima-
contra as outras: “Você acredita no MAB?”; “O das. A plantação de cana tomou conta de tudo,
problema de vocês é individual, não coletivo”; fica em frente de casa, a uma distância de 100

Janeiro 2010 41
artigo

metros. Outro dia, colocaram fogo no canavial de 10 a 12 casos envolvendo crianças, idosos,
de dia. Ficamos presos dentro de casa durante jovens e adultos. São pessoas com problemas
quatro horas com dificuldade de respirar. mentais ou com problemas de audição, por isso,
Nós, do Movimento de Mulheres Cam- não escutam o trem, pessoas idosas que não têm
ponesas, somos milhares de mulheres em todo agilidade para passar pela linha férrea.
o Brasil. O movimento tem entrado em contato Quando a Vale chegou, há cerca de 20
com pessoas nas usinas e com autoridades mu- anos, toda uma cultura foi descartada, jogada
nicipais para travar diálogo. Já levamos fotos no ralo porque não fazia parte desse grandioso
para a Câmara Municipal para demonstrar os projeto de desenvolvimento, sobretudo para a
impactos pelos quais a região está passando. O escoação do minério de ferro. As pessoas da
governo disse que iria investir no social, porém região que trabalham para a Vale também têm
não vemos nada. seus direitos desrespeitados. A Vale trabalha
com empresas terceirizadas, as pessoas são
contratadas por tempo determinado, no má-
ximo seis meses, para não caracterizar vínculo
empregatício no Ministério do Trabalho.
O poder público não dá conta da sua
parte, a assistência social não consegue atender
todas as demandas e, assim, aumenta a violência,
a desestruturação moral e ética da famílias. Sem
falar nas condições de escravidão a que estão
submetidos esses trabalhadores. As pessoas saem
de casa às 2 horas da madrugada, com seu mar-
Flávio Pereira,
mitex, para poder se alimentar por volta das 12
Coordenador da Cáritas da Diocese de Viana e horas, 13 horas, comida fria, sem um local com
da Rede Educação Cidadã Buriticupu, Maranhão um mínimo de conforto, o tempo todo debaixo
de sol, sem nenhuma espécie de proteção. E quais
A Diocese de Viana fica no sul do Maranhão são as funções dessa população? Cavar buracos,
e compõe 26 municípios. Já a Rede Educação fazer remanejamento das juntas do trem, é isso
Cidadã reúne vários movimentos que buscam o que fica para as comunidades.
a construção de um projeto popular de nação Temos na região o rio Pindaré, de gran-
com base no método freireano de educação de importância para o estado, que está sendo
popular. Só o município de Buriticupu, onde ameaçado e violentado das piores formas: são
moro, tem cerca de 75 mil habitantes, os de- aterros para a linha férrea não desmoronar;
mais municípios da região variam de 40 mil a em vários momentos, a linha férrea passa por
70 mil habitantes. É difícil quantificar as famílias cima do rio. Esse trabalho está provocando
que acompanhamos, são muitas, sobretudo o assoreamento do rio, com o consequente
aquelas vinculadas ao Programa Bolsa Família. empobrecimento das populações ribeirinhas,
Acompanhamos também povos quilombolas, que dependem do rio para sobreviver. Além da
indígenas e quebradeiras de coco babaçu, ribei- questão da pesca, o rio também é importante
rinhos. Fazemos um trabalho de organização e por conta da navegação.
mobilização pela conquista de direitos. Precisamos que o BNDES repense a sua
Hoje, a Vale faz do Maranhão o seu maior postura como incentivador do desenvolvimento
corredor de minério. Por noite, são aproximada- com relação à agricultura familiar, com grupos
mente de seis a oito trens, cada um com cerca informais da economia solidária, que devem
de 2 quilômetros de comprimento. Em geral, a ser valorizados com projetos que respeitem a
via férrea passa bem no meio desses municípios, diversidade, que respeitem o meio ambiente.
os trens fazem um barulho ensurdecedor, as pes- Se é para se fazer desenvolvimento, se o BNDES
soas não conseguem dormir, as casas ficam com estiver disposto a fazer o que traz em seu nome,
rachaduras, algumas até já caíram, os poços de que passe a apoiar esses projetos que sabem
água estão ficando com barro. Mas o problema fazer desenvolvimento para o amanhã, para
principal, irreparável do ponto de vista dos direitos as futuras gerações. A Plataforma BNDES foi
humanos, são os atropelamentos. Para se ter uma muito feliz em promover esse grande momento
ideia, só na comunidade de Vila Pindaré, mais político rumo à construção do projeto popular
conhecida como Presa de Porco, já ocorreram de nação que almejamos.

42 Democracia Viva Nº 44
Manoel Lima Bismark,
O governo diz que há um débito histórico
Campesino do Departamento (estado) de conosco e que vai criar projetos para resolver
Pando, Bolívia, fronteira com o Acre isso, mas, quando vamos ver, o tempo passou
e nada acontece, o apoio é bem precário.
Minha comunidade é uma das mais impactadas Precisamos de outros projetos que garantam a
com a construção das três represas hidrelétricas sustentabilidade da comunidade. Nós queremos
que o Brasil pretende construir, cuja continuidade, ter as nossas plantações. Não queremos ir ao
a quarta hidréletrica, começa no município de supermercado, isso está na contramão do que
Nova Esperança e continua em Catiola Esperan- entendemos como vida. Não é no supermercado
za, já no lado boliviano. Os impactos que serão que se transforma alimentos.
gerados são totalmente fora de qualquer sentido Creio que o BNDES precisa tomar a
comum humanitário. Não adianta construir tama- responsabilidade não só das empresas grandes,
nhos monstros para represar rios, que são a fonte mas de aplicar esses recursos nas comunidades
de vida da humanidade e de milhares de pessoas que precisam de apoio. Não se pode pensar que
que habitam as suas margens. Quando esses rios índios, quilombolas e pequenos agricultores são
forem represados, haverá a migração e/ou exter- incapazes. Não se pode investir no progresso
mínio de peixes e muitas outras espécies. Com da morte.
relação às populações, só no meu departamento,
cinco municípios serão totalmente afetados.

A Plataforma BNDES
Desde julho de 2007, um grupo de organi-
zações e movimentos sociais se reuniu para
formar uma frente ampla para a democrati-
zação de um dos principais instrumentos de
promoção do desenvolvimento nacional do
país, o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES).
A articulação recebeu o nome de Platafor-
ma BNDES e é fruto da percepção de que a
Cacique Toninho Guarani repolitização da economia parece ser um dos
grandes passos a serem dados pela sociedade
Aldeia Boa Esperança, Aracruz, Espírito Santo brasileira em busca de sua democratização e
que é necessário haver uma contribuição da so-
Nós tínhamos as matas que forneciam alimen- ciedade nas escolhas econômicas que definem
to, plantávamos feijão, milho, abóbora. Hoje, o rumo do desenvolvimento do Brasil.
A estratégia de ação se baseia na nego-
isso é muito difícil, porque a Aracruz plantou
ciação direta com a presidência do banco,
eucaliptos. Por causa disso, até os córregos que na produção e disseminação de informações
passavam pela aldeia secaram e a dimunição sobre o BNDES e no apoio à ação dos setores
de água nos atingiu diretamente. Depois da sociais impactados, direta e indiretamente,
demarcação, nós estamos nos recuperando pelos financiamentos.
Por isso, no início da articulação, foi ela-
devagarzinho. Mas ainda não é o suficiente.
borado um documento com um diagnóstico
Somos cerca de 6.600 habitantes nas sobre a atuação do BNDES e apontamentos
tribos Tupiniquim-Guarani, nessa região. As sobre propostas concretas para a reorientação
plantações de eucaliptos ficam em volta de nos- do banco no financiamento de um desenvolvi-
sas aldeias. Eles tiram o eucalipto plantado, mas mento que atenda às demandas históricas da
sociedade brasileira. O documento foi entregue
ficam as raízes e isso faz com que o eucalipto
ao presidente, Luciano Coutinho, em 9 de julho
invada as terras demarcadas. daquele mesmo ano.
Temos uma comissão que trabalha com a O presidente se comprometeu com a
Associação Tupiniquim-Guarani e uma articulação agenda prioritária apresentada no documento
com o Centro de Trabalho Indígena, fazemos parte que incluía, entre outras questões, estabele-
cer critérios e parâmetros que vão além dos
de uma comissão nacional que representa o povo
aspectos técnico-contábeis-financeiros e a
Guarani do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, transparência nas transações. Mas de lá para
Mato Grosso e São Paulo. Fazemos contato com a cá pouco avançou.
Aracruz pela associação para identificar os débitos
que a empresa tem com a gente. Se ela nos deve Mais informações: <www.plataformabndes.org.br>
porque destruiu o que tínhamos, tem de pagar.

Janeiro 2010 43
C R Ô NI C A

A vida é ruim,
Em 1968, quando os jovens sacudiam o Mas eis que Rodrigo se desentende
mundo com rebeliões libertárias, a lourinha com os pais e decide sair de casa. Sem ter
Juliana, com 15 anos, começou a namorar para onde ir, foi acolhido provisoriamente
Rodrigo, de 17, amigo dos seus irmãos e na casa dos amigos e da namorada, cujos
habitué na casa. O que poderiam então saber pais ajudavam na reconciliação. Cresceu a
das simulações, dissimulações, camuflagens, familiaridade dos pombinhos, porém, pouco
tristezas, alegrias, decepções e surpresas depois, o namoro acabou – por razões que
dos jogos de amor? Para eles, o passado e ninguém soube, nem precisava saber, nem
o futuro se recolheram, e do tempo restou cometeu o deslize de perguntar. Sob o mesmo
apenas o presente. Em convivência intensa, teto, findou-se a intimidade, não a amizade.
Juliana e Rodrigo abriram portas e janelas Mais tarde, quando Rodrigo resolveu estudar
à paixão, que se instalou como senhora dos em Londres, os pais de Juliana o ajudaram a
seus desejos e impulsos, do presente e do aprontar a viagem.
futuro: paixões são inesquecíveis, alegres Na espalhafatosa agitação do mundo,
ou tristes. o tempo passa sem se deixar ver, em diáfano
Em tempo: sempre dedico este espaço silêncio, sem cor, sem odor e sem sabor. E
à vida real – faço ficção em outras escritas –, a vida segue seu imprevisível curso, nave-
fiel ao meu olhar, míope, é verdade, porém gando ao acaso – esse, sim, senhor da vida
essencial à crônica. Digo isso para excluir e da morte. Juliana apaixonou-se por outro
qualquer vestígio de ficção no que conto, rapaz, casou-se e teve duas filhas. Rodrigo
mesmo ciente de que, para ser verdadeiro, voltou de Londres, foi trabalhar em Brasília,
um texto não precisa narrar o real. por lá se casou, e teve quatro filhos.

44 Democracia Viva Nº 44
mas é boa
Gira o mundo, roda a vida, há dois se ao inesperado. Noutro encontro, Rodrigo Alcione Araújo
anos morreu o marido de Juliana, deixando as presenteia Juliana com uma caixa com fotos alcionaraujo@uol.com.br
filhas formadas, uma médica, outra advogada. da adolescência e um diário pessoal. Ela
No denso vazio da viuvez, Juliana encontra o atira-se à leitura, mal ele se despede: por
travesseiro quando, dormindo, a mão carente anos, e anos ele anotou, nas datas certas e
tateia no escuro a cama. com ternas observações, fatos decisivos da
O indefinível tempo só se deixa ver vida de Juliana: cada aniversário e a nova
pelos efeitos de sua ação, ao esculpir a pedra idade, o início do namoro, o rompimento,
dura da montanha, fazer brotar do galho seco o casamento dela, nascimento da primeira
folhas, flores, frutos; fazer nascer, crescer, filha, da segunda, a morte do marido, tudo,
envelhecer e morrer. Essa semana, a mãe de tudo, até a data daquele dia, quando, respei-
Juliana, 78 anos, viúva, convidou a filha para tando dois anos de luto, veio procurá-la.
jantar, acenando uma surpresa. Eis que Julia- Aos 57 anos, Rodrigo propôs a Juliana
na e Rodrigo se reencontraram, pela primeira reviver a paixão dos 17. Navegando a esmo,
vez em 40 anos. A emoção deu cambalhotas voltarem ao mesmo porto é o improvável
no tempo, o passado refluiu redivivo: lem- feito possível. Entre surpresa, incrédula,
branças, alegrias, rumos da vida, lágrimas, assustada e o coração inundado de gratidão
risadas, revelações: separado, filhos criados, pela vida, ela aceitou reviver os 15 anos aos
Rodrigo vive sozinho há cinco anos. 55. Não são mais o que foram, mas, após uma
O indefinível tempo passa e deixa pausa de 40 anos, o namoro recomeçou.
marcas nas pedras, na vida, no rosto, na cor Implacável, o tempo não para, mas a
dos cabelos. Viver é navegar ao acaso, expor- vida, entregue ao acaso, é ruim, mas é boa.

Janeiro 2010 45
vi plataforma ibase

46 Democracia Viva Nº 44
o Ibase realiza, desde 1993, a cada três anos, encontros amplos, denomi-
nados Plataforma Ibase. A Plataforma tem como objetivo central articular
debates-sondagens em relação às opções estratégicas e aos rumos da ins-
tituição, envolvendo parceiros(as) e amigos(as). Trata-se de uma concerta-
ção política, avaliando propostas e a incidência da entidade, e sinalizando
perspectivas de futuro.

Os textos a seguir abordam algumas temáticas que foram foco de refle-


xão no encontro realizado entre os dias 9 e 12 de setembro de 2009, em
Itacuruçá, no Rio de Janeiro.

Janeiro 2010 47
vi plataforma ibase

Cuidar,
cuidarmo-nos:
imperativo ético,
desafio coletivo
Lilian Celiberti
Socióloga, diretora da ONG Cotidiano Mujer, no Uruguai,
membro da Articulação Feminista Mercosul e integrante do Conselho Internacional do FSM

Na última Plataforma do Ibase, Cândido Grzybowski (2009) apresentou um texto

inicial para motivar a reflexão dos(as) assistentes. Essa reflexão parte da constatação que

“estamos diante de uma crise civilizatória, isto que precisamos reconhecer para poder

reagir enquanto ainda é tempo. A lógica do desenvolvimento, gestada com a revolu-

ção industrial, tornou-se o motor econômico, político e cultural do mundo nos últimos

séculos. Não se trata mais de um embate nos velhos termos – capitalismo x socialismo

– no marco da civilização industrial e seus desdobramentos. Estamos diante da crise da

própria civilização industrial e de seus modelos de organização econômica e política – a

dominante capitalista e a desafiante e subalterna socialista – para a sociedade. São os

fundamentos desse tipo de civilização que se esgotaram. Literalmente, derreteram, foram

consumidos pelas suas próprias contradições. E ameaçam o planeta inteiro”.

[Traduzido do espanhol por Lígia Filgueiras]

48 Democracia Viva Nº 44
A partir da minha experiência política desenvolver para sua vida outros projetos e
como feminista, sinto-me provocada a apresen- outras identidades, seja na política, no trabalho
tar algumas dimensões que, em geral, têm raro remunerado ou na criação. Discutir a divisão
desdobramento no debate público, menos ainda sexual do trabalho supõe levantar a questão
quando o debate se refere a questões macro. de uma fantasia de harmonia na distribuição
Falar de crise civilizatória coloca-nos do trabalho entre homens e mulheres e as
simultaneamente diante do esgotamento de relações de poder que derivam da separação
um modelo de desenvolvimento depredador e entre o público e o privado como fonte de
de uma concepção de sociedade e civilização desigualdade.
que se sustenta e reproduz na divisão sexual do A própria ideia de cidadão-indivíduo
trabalho que está na base da marcante separação desenvolvida como mito capitalista dos sistemas
da esfera pública como um espaço de domínio liberais supõe, para sua realização, a existência
masculino e a esfera privada como domínio das de uma infraestrutura de cuidados de que todos
mulheres. Até agora, os custos da produção da e todas necessitamos, mas que, majoritariamen-
vida humana recaem sobre as mulheres em todas te, realizam as mulheres.
as culturas e em todos os territórios do planeta, e De fato, vivemos em uma organização
sobre essa divisão sexual do trabalho se assenta social e somos parte de uma cultura que atri-
um sistema de poder e de prestígio que origina a bui a capacidade dos cuidados às mulheres
desigualdade social que atinge as mulheres. e desenvolve paralelamente uma fantasia de
A divisão sexual do trabalho aparece autossuficiência nos homens que contribui para
como problema apenas no momento quando desvalorizar a dependência e a necessidade
as mulheres decidem ou desejam ocupar-se que temos dos outros, nós, humanos, homens
de outras tarefas ou funções sociais, como e mulheres.

Janeiro 2010 49
e s p e c i a l | VI p l a t a f o r m a i b a s e

Essa espécie de fuga, que pretende es- po é uma relação essencial e permanente da
capar da vulnerabilidade humana, desconhece sociabilidade capitalista. O tempo destinado ao
ou minimiza necessidades básicas como o ali- trabalho doméstico do cuidado, bem como à
mentarmo-nos, vestirmo-nos, protegermo-nos reprodução da vida das pessoas, não é conside-
das enfermidades, mas também dos afetos e rado na relação trabalho produtivo-reprodutivo.
das relações solidárias de que necessitamos para Mesmo na análise marxista, a reprodução é
chegarmos à fase adulta mais ou menos sadios. tratada apenas como um substrato do processo
Focalizou-se a materialidade dessas necessida- produtivo” (Ávila, 2007, p. 132).
des, ou seja, as desigualdades distributivas dos Na relação espaço-tempo entre trabalho
recursos, mas para satisfazer essas necessidades produtivo e reprodutivo, o tempo que é valori-
requerem-se as tarefas de cuidado. zado é aquele destinado ao trabalho produtivo,
A economista Cristi- entre outros, por que o capitalismo supõe a
na Carrasco (2001) formula mercantilização do tempo, e é assim que a
perguntas muito simples aquisição de “valor” releva o pagamento, com
A partir da que permitem visualizar
essa dicotomia de base que
tudo que isso implica simbolicamente.
Como as necessidades humanas mais

economia reproduz um verdadeiro


sistema de desigualdades:
elementares têm sido relegadas a um espaço
invisível para a consideração dos problemas
“Como as sociedades re- “macro”? “Como os sistemas econômicos nos
feminista, solvem as necessidades de têm apresentado tradicionalmente como autô-
subsistência das pessoas? nomos, ocultando assim a atividade doméstica,
desenvolveu- Como se organizam em base essencial da produção da vida e das forças
torno dessa função primá- de trabalho?” (Carrasco 2001, p. 13).
se, para isso, ria e fundamental da qual
depende nada mais nada
Cuidado para homens e mulheres
o conceito da menos que a vida humana?”
(Carrasco, 2001, p. 12). Dada a persistência e generalização
economia do A manutenção da
vida não tem sido uma pre-
dessa omissão na teoria econômica e social,
mesmo a autodefinida alternativa, podería-

cuidado para ocupação central das aná-


lises socioeconômicas, que
mos concluir que a tarefa das economistas
feministas é enorme para desmontar a he-
geralmente têm considerado gemonia patriarcal.
referir-se a esse a família como uma forma A partir da economia feminista, desen-
de organização exógena ao volveu-se, para isso, o conceito da economia
espaço em que a sistema econômico. do cuidado para referir-se a esse espaço em
A teoria feminista en- que a força de trabalho é reproduzida e man-
força de trabalho focou essa relação, abrindo tida, incluindo todas aquelas atividades que
a possibilidade de analisar envolvem as tarefas de cozinha e limpeza,
é reproduzida e integralmente a socieda-
de. Carrasco assinala que
a manutenção geral do lar e o cuidado com
as crianças, com os enfermos e as pessoas
mantida “centrar-se explicitamente
na forma através da qual
incapazes.
Um componente importante dessa
cada sociedade resolve seus economia do cuidado está a cargo das famí-
problemas de sustentação lias – particularmente no Terceiro Mundo – e,
da vida humana oferece, especialmente, a cargo das mulheres, que
sem dúvida, uma nova perspectiva sobre a desenvolvem essas tarefas sob forma não
organização social e permite tornar visível toda remunerada. Isso é complementado com os
aquela parte do processo que tende a estar serviços providos pelo setor público e privado
implícita e que, habitualmente, não é conside- que compõem a economia do cuidado remu-
rada”. (Carrasco, 2001, p. 12). nerada (Salvador, 2007).
Poder-se-ia sustentar que é bom que A sociedade e a economia continuam
essa área das necessidades humanas fique fora desconhecendo que o cuidado com a vida
de toda consideração mercantilizada, ou seja, humana é uma responsabilidade social e polí-
fora do mercado e do Estado. Porém, como tica. Mas também, em uma ordem totalmente
assinala Betânia Ávila, “a apropriação do tem- diferente, esse desconhecimento continua

50 Democracia Viva Nº 44
Cuidar, cuidarmo-nos: imperativo ético, desafio coletivo

reproduzindo homens que se desligam e ig- é que se produziu uma significativa mudança
noram as tarefas de cuidados desenvolvendo no seio dessas teorias, uma mudança de pa-
uma arrogância autossuficiente que alimenta radigma que descrevi em outro lugar como
e reproduz, também, a corrida produtivista do o passo de “um socialismo legaliforme e
capitalismo. substitutório em direção a um universalismo
Explorar esse vínculo constitui uma das interativo”(Benhabib, 1992).
tarefas a que nos propusemos a partir do femi- Cada vez que a experiência social
nismo, não apenas para denunciar a utilização das mulheres ingressa no debate público,
que faz o capitalismo do trabalho gratuito das descobrem-se dissonâncias e contradições
mulheres, mas também para a revalorização onde apareciam unanimidades ou aparentes
do cuidado como uma ética social e ecológica consensos. Os espaços tomados como neutros e
imprescindível para pensar alternativas. justos, como a família, deixam de ser inocentes
Poder perguntar-se quanto necessitamos para mostrar suas matrizes de desigualdade,
realmente para viver e evitar que o conforto de dominação e violência.
uns se baseie na miséria da maioria da humani- Concordo com a afirmação de María
dade constitui uma indagação fundamental no Jesús Izquierdo quando diz que “a abordagem
momento atual para o desenvolvimento de uma do cuidado pode ajudar-nos a traçar um ideal de
nova economia ecológica. De algum modo, como liberdade que não perca de vista que depende-
sociedade, necessitamos voltar a introduzir o mos uns dos outros e, portanto, o indivíduo só
trabalho humano para diminuir a materialização o é se há uma comunidade que lhe dê apoio”
da produção, nas palavras de Wolfgang Sachs.1 (2003, p. 27).
Uma desmaterialização que suponha produzir o Por isso, pensar hoje em alternativas em
necessário com a menor quantidade de energia, face da crise civilizatória supõe também colocar
com o menor consumo de água, com a menor o desafio cultural de uma nova geração de
contaminação possível. Propor-se essa indagação homens que cuidem.
conduz, necessariamente, a como distribuir o cui-
dado entre homens e mulheres de modo a viverem
e desenvolverem uma nova ética, tanto na relação
entre pessoas como com o meio ambiente. referências
Essa relação entre o cuidado e o meio ÁVILA, Maria Betânia. “Notas sobre o trabalho doméstico”. In: LIMA,
ambiente encontrará, sem dúvida, resistências Maria Edinalva Bezerra et. al (orgs.). Transformando as
em alguns que continuam pensando nos proble- relações trabalho e cidadania: produção, reprodução e
sexualidade. São Paulo: CUT Brasil, 2007. Disponível em:
mas como questões hierárquicas que mantêm <http://www.mujeresdelsur-afm.org.uy/debatefem08_
uma ordem prioritária entre uns e outros. É na mba_p.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2010.
forma de pensar os problemas que o feminismo BENHADIB, Seyla. Uma revisión del debate sobre las mujeres y
la teoria moral. Isegoría – Revista de filosofía moral y
oferece a maior contribuição anti-hegemônica. política, Madri, n. 6, p. 37-64, 1992.
Para desenvolver uma concepção de vida boa ou CARRASCO, Cristina. La sustentabilidad de la vida humana ¿um
do bem viver, na qual as necessidades de cuida- asunto de mujeres?. Barcelona: Icaria Editoral, 2001.
GRZYBOWSKI, Cândido. Mudar mentalidades e práticas: um
do não se convertam em fator de desigualdade imperativo. Democracia Viva – Revista do Ibase, Rio de
entre homens e mulheres, é necessário integrar Janeiro, n. 43, p. 58-62, 2009. Disponível em: <http://
a ética do cuidado com a ética da justiça. www.ibase.br/userimages/DV43_opiniao_ibase.pdf>.
Acesso em: 20 jan. 2010.
Seyla Benhabib faz uma interessante IZQUIERDO, Maria Jesús. “Del sexismo y la mercantilización del
incursão nos debates teóricos que se seguiram à cuidado a su sociealización: hacía una política democrática
publicação do livro de Carol Gilligan, em 1982, del cuidado”. In: CONGRESO INTERNACIONAL SARE 2003:
CUIDAR CUESTA: COSTES Y BENEFICIOS DEL CUIDADO,
In a different voice, no qual a autora desenvolve 2003, Madri. Anais... Vitoria-Gasteiz: Emakunde/Instituo
o conceito de cuidados e torna-se o foco de Vasco de la Mujer, 2004.
uma intensa controvérsia. SALVADOR, Soledad. Estudo comparativo de la “economia del
cuidado” em Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México
Essa incursão permite-lhe afirmar que y Uruguay. LA-IGTN-IDRC, 2007. (Projeto Comercio,
“se a teoria feminista conseguiu recordar género y equidad en América Latina: conocimiento para
às moralidades universalistas da tradição la acción política del Capítulo Latinoamericano de la Red
Internacional de Género y Comercio). Disponível em:
kantiana que é necessário compensar a <http://www.generoycomercio.org/areas/investigacion/ 1 Entrevista concedida por
vulnerabilidade dos seres que se convertem Salvador07.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2010. Wolfgang Sachs à Luciana
Siri em 1/12/09, Montevidéu,
em indivíduos por meio de processos de so- SIRI, Luciana. Metáforas en el caos: entre el cambio climático
Uruguai. Disponível em:
y civilizatório. La Diária, Montevidéu, 1 dez. 2009.
cialização de maneira tal que nunca podem Disponível em: <http://ladiaria.net/articulo/2009/12/
<http://ladiaria.net/
articulo/2009/12/metaforas-
afirmar sua identidade por si mesmos [...], metaforas-en-el-caos/>. Acesso em: 19 jan. 2010. en-el-caos/>

Janeiro 2010 51
vi plataforma ibase

Trata bem a terra – teus filhos apenas a emprestaram” (P ovos indígenas)


“Há terra suficiente para as necessidades humanas, mas não para suas ambições” (Gandhi)

Crise de civilização
hegemônica e
interaprendizagem de
paradigmas alternativos
Roberto Espinoza
Sociólogo, integrante da Red Descolonialidad del Poder, Peru

[Traduzido do espanhol por Lígia Filgueiras]

52 Democracia Viva Nº 44
Vivemos uma complexa crise da civilização Terra. Era e é muito mais: a imposição de uma
hegemônica (aquela da unidade entre “moder- matriz civilizatória afogando a diversidade de
nidade-colonialidade”) que põe em perigo todas muitas outras. Essas vozes não foram ouvidas
as formas de vida do planeta, não somente as por muito tempo, até que no novo século con-
humanas, e torna urgente o desenvolvimento vergem sob esse enfoque em diferentes graus,
de alternativas, a partir do fortalecimento de com diversos movimentos sociais, como os
experiências e propostas sociais que estejam ambientalistas, mulheres e aqueles dos direitos
em construção, ajudando a clarificar novas humanos, entre outros.
perspectivas, novos horizontes de sentido e É necessário proceder uma interpre-
paradigmas interculturais que contenham, em tação integral que permita compreender a
potencial ou ativamente. complexidade, entrecruzamento, gravidade e
Refletimos sobre o que ficou apreen- profundidade de tantas crises simultâneas. A
dido de nossa participação nas duras lutas necessidade de caracterizar adequadamente a
dos povos originários/indígenas/tribais, porém simultânea gravidade e superposição no tempo
enriquecido também com a contribuição dos da catástrofe ambiental e climática, e os fracas-
movimentos afrodescendentes, de autoges- sos da ONU para contê-la; da fome alimentar
tão urbana e as correntes de ecologia social simultânea a especulações de excedentes de ali-
crítica, socialização do poder, feministas, mentos na bolsa (commodities); da crise energé-
radicalização da democracia, diversidade se- tica com um capitalismo enfermo e dependente
xual, descolonialidade do poder e do saber. dos hidrocarbonetos, e, por sua vez, agravando
As contribuições descobertas, essas provêm os impactos dos agrocombustíveis, à exclusão
dos ensinamentos de incontáveis lutadores social e ao desemprego estrutural permanente;
dos povos amazônicos e andinos, como os a gigantesca bolha especulativa e financeira,
do CAH, Aidesep, Coica, Caoi; comunidades que subordina e desnaturaliza os processos
urbanas, como Cuaves1; e lutadores teóricos, produtivos; da privatização das tecnociências
como Anibal Quijano e Boaventura de Sousa. que, com os transgênicos, somados à invasão
E, se encontram-se vazios, são dívidas pen- desenvolvimentista das indústrias extrativas e
dentes em um processo de reflexão pessoal, aos megaprojetos e privatizações da água, do
embora crescentemente coletivo. subsolo, dos bosques, que contaminam e põem
Está em marcha a construção de novas em risco todas as formas de vida, à crise dos
teorias para novos movimentos. É necessário Estados-Nação, uniculturais, dominados pelas
impulsionar um processo de debate e intera- transnacionais do livre-comércio, que criminali-
prendizagem sob essa perspectiva, baseado na zam o exercício de direitos coletivos dos povos e
pluralidade e interculturalidade de enfoques, comunidades, encobertos e aguçados por novas
para o que propomos, entre outros, quatro formas de racismo ontológico e epistemológico
eixos de debate, abertos e em permanente e conflitos religiosos.
redefinição. Não se trata somente de uma crise es-
peculativa ou econômica, de um certo modo
de produção, ou tão somente do capitalismo.
Crises simultâneas
Se admitirmos o caráter sistêmico e integral
Uma primeira questão é a crise da civilização de tantas crises simultâneas, transcorrem elas,
hegemônica. Os povos indígenas, originários, então, sobre eixos mais profundos que apenas
camponeses, afrodescendentes, ribeirinhos, os econômicos. É necessário questionar o con-
caboclos, garifunas, dalits, adivases, nações sem junto da modernidade e seus grandes mitos
Estado (curdos, masai, amazig, catalões, ciga- funcionais como “mercado”, “Estado” e “de-
nos, bascos e outros), e outras denominações senvolvimento”, todos baseados na “razão”
semelhantes das mais de 6 mil culturas e 500 instrumental. O mito do Estado uninacional,
milhões de pessoas que continuam resistindo que permitiu continuar com a colonialidade 1 CAH: Consejo Aguaruna
e enfrentando a modernidade-colonialidade- do poder após a descolonização. O mito do y Huambisa; Aidesep:
Asociación Interétnica
capitalista-eurocêntrica, afirmando que não “desenvolvimento” e do crescimento ilimitado de Desarrollo de la Selva
apenas se tratava de uma área da dominação, do domínio da natureza e da homogeneidade Peruana; Coica: Coordinadora
de Organizaciones Indígenas
como é o mundo do trabalho/capital/classes (não a diversidade) cultural como “fortaleza”. de la Cuenca Amazónica;
Caoi: Coordinadora Andina
sociais, mas, ao mesmo tempo, das outras Abrir a questão de por que as experiências de Organizaciones Indígenas;
áreas das cosmovisões, sexos, imaginários, ou propostas chamadas socialistas, em todas Cuaves: Comunidad Urbana
Autogestionaria de Villa
formas de autoridade e relação com a Mãe as suas variantes, não puderam superar El Salvador.

Janeiro 2010 53
e s p e c i a l | VI p l a t a f o r m a i b a s e

esses mitos fundamentais da modernidade- (e a “real politik”), resulta insuficiente. Possibi-


colonialidade e permaneceram submersas em litar a unidade entre aqueles que se fazem as
suas matrizes essenciais. mesmas perguntas, embora as respostas con-
O debate está aberto e, para possibili- tinuem sendo diversificadas; e, portanto, como
tar o encontro das diversas resistências críticas, em uma paródia com o futebol, de continuar
foi proposta a perspectiva de crise de civiliza- chutando diversas bolas, porém, visando ao
ção hegemônica, a partir da qual se avance no mesmo gol, e apontando a construção de novas
diálogo e mútuo enriquecimento entre para- teorias para novos movimentos, de unidade na
digmas alternativos, dessa mesma dimensão diversidade, sem necessidade de novos relatos
“de horizontes de sentido omniexplicativos de tudo.
civilizatório”, em torno de
eixos essenciais da existên-
Catástrofe da vida
Uma segunda cia e convivência humana e
de todas as demais formas Uma segunda questão central é a da desmer-
de vida. É nesse debate que cantilização da vida. Assistimos a uma autêntica
questão os povos originários/indíge- catástrofe socioambiental, e é necessário desen-
nas/tribais (denominações tranhar por que é tão difícil sair dela, quais são
central é a da s e m e l h a n t es ) a s s in a la m seus eixos fundamentais e, portanto, as bases
que passaram de mais de para detê-la e as perspectivas transformadoras.
desmercantilização 500 anos de resistência e Não se trata apenas de uma alteração climá-
protesto a uma etapa de tica que não seja “natural” nem uma simples
da vida. reconstituição de alternati-
vas civilizatórias diante da
“mudança”, senão uma catástrofe incomparável
e simultânea de secas, inundações, desapare-

Assistimos a crise de modernidade/co-


lonialidade. Nessa direção,
cimento de glaciares e múltiplos ecossistemas,
chuva ácida, poluição urbana, água com metais

uma autêntica é fundamental o diálogo e


a interaprendizagem entre
pesados, transgênicos que alteram germoplas-
mas. A irônica tragédia de que países a reboque
esses movimentos de povos do “desenvolvimentismo” são, sem dúvida,
catástrofe originários, com enfoques suas primeiras vítimas, como é o caso do Peru,
similares ou convergentes, terceiro na escala dos desastres globais. Uma
socioambiental, provenientes de outros catástrofe da vida que, sendo evidente e visível,
movimentos sociais que este “sistema”, ou o poder dessa modernida-
e é necessário considerem que não apenas de, não “pode” e até nem quer detê-la. Já no
“outro” mundo (homogê- delírio, até se planejam novas “oportunidades
desentranhar por neo), senão também que
vários “outros mundos”
de negócios” como sementes transgênicas re-
sistentes à hecatombe climática (?!).

que é tão difícil (diversos) são possíveis; e,


sobretudo, possíveis não
Trata-se da disputa e invasão de ter-
ritórios, especialmente dos povos, comuni-

sair dela apenas desde o debate


filosófico (que é uma contri-
dades e nações sem Estado (curdos, amazig,
massai, catalões, bascos, entre outros) pelo
buição), senão, sobretudo, desenvolvimentismo e extrativismo. A invasão
a partir da aprendizagem por parte da mineração, que deixa sem água
das lutas e dos sacrifícios diários, de resistên- a agricultura; pelas petrolíferas, regando seus
cias e emergências sociais concretas e suas dejetos tóxicos pelos rios; ou por agrocom-
construções teóricas. bustíveis para alimentar automóveis, apesar da
Abertura e convergência não apenas fome humana. Não podem ser reduzidos nem
entre paradigmas ou matrizes civilizatórias “tecnocratizados” todos esses dramas à “en-
que têm resistido e permanecem resistindo na genharia social” da chamada “sustentabilidade
história (violenta) da modernidade ocidental ambiental” que convive e não põe em questão
capitalista e colonial; como, também, diálogo as lógicas mercantilistas, desenvolvimentistas
com a diversidade de horizontes de sentido e o frenesi consumista. Não esqueçamos o
ou propostas em construção que apontam “pragmatismo” de certas corporações “am-
para os mesmos objetivos de transformação e, bientalistas” de conviver com as máfias petro-
sobretudo, mutação social profunda, já que a leiras globais. Também não se pode esquecer e
palavra “revolução” limitada à esfera do poder analisar o que deve ser modificado, para que

54 Democracia Viva Nº 44
Crise de civilização hegemônica e interaprendizagem de paradigmas alternativos

não se repitam as tragédias do inferno radio- como línguas e culturas existem e que têm a
ativo de Chernobil, na Rússia, os milhares de ver com priorizar ou por em primeiro lugar a
deslocados pela represa das Três Gargantas, na vida boa ou bem viver como harmonia com
China, ou a destruição dos Andes, do Pantanal a natureza, em paz e equilíbrio social. A vida
e da Amazônia pela Iniciativa de Integração da com água limpa, não com o mercúrio das mi-
Infraestrutura Regional Sul-americana (Iirsa),2 nas; o ar puro e a tranquilidade sem o inferno
todos eles “avanços” promovidos segundo automotriz; o orgulho, identidade, autoestima
projetos denominados “socialistas”, na Rússia, e felicidade de sobreviver usando/conservando
China e Brasil. (quando necessário) o bosque ou as monta-
Tais problemas não podem ser reduzidos nhas, sem terminar empurrado para cidades
a “custos sociais”, impactos ou exteriorização repletas e suas esmolas da “bolsa família”.4
de um crescimento inesgotável, e que é pre- Qualidade de vida e não consumismo e esban-
ciso compensar ou minimizar com modelos jamento. Viver bem e não “viver melhor”, no
algébricos de “sustentabilidade”. Não se pode sentido de “ter mais e mais” objetos, embora
continuar admitindo, sem mais nem menos, os não indispensáveis e muitos inúteis. Não ao
enfoques tradicionais do crescimento “indetí- encantamento e à adesão à cultura do “sho-
vel” das forças produtivas. Tampouco reduzir pping” que encobre depredação, poluição,
essas questões ao estreito plano jurídico da aquecimento e suicídio planetário.
“propriedade privada” versus “estatizações”, Viver bem implica o direito de pensar,
sem por em questão um desenvolvimentismo selecionar e decidir com autonomia. A ONU
produtivista que mercantiliza a água, bosques, já reconhece o direito “ao próprio desenvolvi-
oxigênio, toda a vida, seja em nome do deus- mento”. Analisar e dizer sim aos computado-
mercado, ou da razão do Estado. res, painéis solares, mas não ao monocultivo e
aos transgênicos. Sim à escola, porém, não ao
monolinguismo e à aculturação, senão à iden-
Necessários limites
tidade e interculturalidade. Sim aos postos de
Se o aquecimento trata de converter tudo em saúde, porém, não ao parto “ocidental’, a não
mercadoria, não pode haver esfriamento sem ser o vertical e em família. Escolher pesticidas
desmercantilização da vida. Trata-se de impor naturais, e não ser “seduzido” pelos químicos
limites ou freios a comprar-vender-privatizar do petróleo. O orgulho de usar e valorizar as
água, terra, subsolo, bosques, montes... a vida milhares de plantas medicinais e alimentos
inteira. Debater como seria possível manter o nativos, e não a confusão e submissão peran-
controle social sobre os bens comuns, tanto te os fármacos e a frustração de não poder
os da natureza como os do conhecimento. comprá-los. Rechaçar os supostos “Tratados
Nesse sentido, são fundamentais as propostas de Livre-Comércio”, sejam dos Estados Unidos,
dos povos originais, que incluem os conceitos da Europa ou da China, que servem para pôr
e enfoques sobre a Mãe Terra (Pachamama em cadeados jurídicos supranacionais para manter
Quéchua ou Nugkui em Awajun) ou Madre “eternamente” a privatização e mercantilização
Agua (Yacumama na selva) diferente de “re- da vida, que começa na mineração, continua
cursos naturais”. A “criação da vida”: cria a nos transgênicos e termina na biopirataria.
mãe terra e deixa que ela te crie. A unidade Tudo isso é bem viver/viver bem e, os povos
entre natureza-sociedade-cultura. Os territó- e as comunidades continuarão lutando, uma
rios como totalidade vivente, de unidade entre e outra vez, como ocorre há cinco séculos,
solo-subsolo-montanhas e fontes de história- para poder existir como “Povos” com direito
identidade-orgulho-cosmovisão, distante de à diferença. Vai-se literalmente a vida neste
lote-chácara-terra. A reprodução, recuperação desafio, e não é um assunto “ideológico” 2 Com mais de 500 mega
e reformulação dessas perspectivas nos espaços porque os povos-territórios-identidades são projetos e mais de $ 60,000
milhões, para hidroelétricas e
citadinos ocupados pelos migrantes e afetados uma coisa só. super-rodovias.
também pelo “(mal) desenvolvimento” da po- Cabe notar, porém, que esse “(mal) 3 Maloca : a casa grande e
luição e marginalidade urbanos. desenvolvimento” é impulsionado não apenas tradicional de vida harmônica
entre famílias e espíritos do
Tudo isso é o que os povos Quíchua pelo capital transnacional, senão também por bosque.

denominam “Allin Kawsay”; os Aimará; “Suma tecnocracias, intelectuais, sacerdotes, perio- 4 “bolsas família” e nomes
similares, dos programas
Qamaña”; os Awajun; “Nugkui” ou “Bikut”; distas, setores da classe média, e também neoliberais de ajuda social,
os Guaranis; “Ñandereko”; “Voltar à Maloca”3 muitos pobres, que creem firmemente nos para não se por em questão
a sobre-exploração e
para os amazônicos, e tantos nomes mais supostos mitos do Estado-Nação, apesar de depredação impunes.

Janeiro 2010 55
e s p e c i a l | VI p l a t a f o r m a i b a s e

serem cada vez menos “nacionais” e públicos, como Villa El Salvador (Peru), pujantes com
e crescentemente privatizados. Isso nos leva a seu espírito andino do “trabalho em comum”,
uma terceira questão: colonialidade e desco- ou para os Quilombolas, que definem sua au-
lonialidade do poder. tonomia afrodescendente, ou a comunidade
de Valdisusa, na Itália, lutando por bem viver
contra a “modernidade neoliberal”.
Mercantilização e destruição da vida
A importância de que, diante da cres-
Há uma conexão entre privatização da vida e cente privatização do poder, imaginemos a
privatização do poder. O colonialismo atual socialização (redistribuição) do poder, não
do poder, como herança da pós-colonização apenas em sua “captura”, ou, pior, sua simples
passada, e subsistência da imposição eurocên- “administração tecnocrática”. Identificar as
trica de somente uma forma de Estado, a do propostas e estratégias que permitam supe-
Estado-Nação. Uma nação, uma cultura, que se rar sua herança colonial, de um sistema de
iniciou com o etnocídio das 6 mil culturas do autoridade baseado na exclusão dos direitos
mundo que ainda resistem e que continua com coletivos dos povos e das comunidades. Re-
temor à diversidade linguística e cultural, o viés cuperar as lições que deixam em uma direção
face à “homogeneidade” e a estigmatização transformadora as propostas e os ensaios
dos “outros”, do que sente e vive diferente, di- práticos, de possuir direitos coletivos/povos,
ferente do suposto “milagre além dos Indivíduos/cidadãos ou a denomina-
econômico” com a estigma- da “cidadania étnica”. A diversidade de fontes
tização dos Mapuche, que de direito (leis, justiça), não apenas o ocidental
Não é possível prolonga a carnificina militar (francês ou anglo-saxão) que supõe respeitar
para “unificar a nação” e o direito maior, direito consuetudinário ou os
nacionalizar continua em sua criminaliza- direitos da natureza (incluídos na Constituição
ção por defender seu direito do Equador). O desafio e a contribuição dos
ou socializar à diferença junto às suas
águas e seus bosques diante
Estados plurinacionais, com seus Parlamentos,
Justiça, Economia, Serviços, todos também

a economia das indústrias de papel.


Os supostos Esta-
plurinacionais (que ocorrem na Bolívia). As
alternativas das várias formas de autonomia,

mantendo a dos-Nações, teoricamente


em áreas do bem comum,
autogoverno e livre-determinação, dos povos
originais/indígenas reconhecidas pela ONU na
porém, na realidade, instru- Declaração de 2007; e do próprio “mandar-
verticalidade do mentos de hasta pública, obedecendo” dos Tzotsiles e demais povos
saque e privatização da Mãe indígenas de Chiappas, bem diferente da dita-
sistema de poder Terra. É necessário debater dura dos representantes “democráticos”.
como substituir a expropria- Tanto o estatismo privatista como o
ção dos povos e das comuni- desenvolvimentismo passaram a fazer parte
dades do controle dos bens do sentido comum das coisas sob o neolibe-
naturais por parte dos Estados que, baseados ralismo e seu confuso “fim da história”, o que
na “razão de Estado” e no “interesse público”, implica por em questão esse “sentido comum”,
impõem a privatização, mercantilização, con- essa forma “natural” de conhecer, de sonhar,
taminação e destruição da vida. imaginar, recordar. Trata-se de debater uma
Não é possível nacionalizar ou socializar quarta questão sobre Saberes e Subjetividades
a economia mantendo a verticalidade do siste- Alternativas. Desentranhar o mistério ou a ma-
ma de poder. Se reconhecemos a diversidade gia de por que “desenvolvimento”, “Estado” e
biológica unida à diversidade cultural, devemos “mercado” continuam aparecendo como pro-
assumir também a “demo-diversidade” ou a postas “científicas” e “modernas” e, por que
diversidade de formas de “democracia” que não, até “civilizadas”.
não apenas incluam os mecanismos represen-
tativos (clássicos e desgastados), mas também
Para todos(as), tudo
aquelas de democracia direta, e ainda aquelas
da democracia e autogoverno comunitários. E Não é por acaso que, anteriormente, as igrejas
dizemos “comunidades” não apenas para os e, agora, a ciência, em geral, e ambas, apesar
Ayllus que se reconstituem no Qollasuyu (Bolí- de suas características eurocêntricas, eram e
via), assim como para as comunidades urbanas continuam sendo garantia de legitimidade.

56 Democracia Viva Nº 44
Crise de civilização hegemônica e interaprendizagem de paradigmas alternativos

Povos, comunidades e movimentos aparecem para a humanidade, e que hoje se procura


antes como “hereges” e, ainda hoje, como “liberalizar” em benefício da biopirataria.
“bárbaros”, sempre opostos ao desenvolvi- Surge a necessidade de desenvolver
mento e, portanto, estigmatizados, quando outras formas de conhecimento que reinte-
é o desenvolvimento que se opõe a eles e à grem a unidade entre o humano e o natural,
sobrevivência humana. O racismo colonial que respeitem a diversidade de cosmovisões,
não apenas impôs a invenção das inexistentes permitam seu controle e a vigilância social e
“raças”, e a consequente divisão entre “raças” a redistribuição equitativa de seus benefícios.
superiores e inferiores, mas também deixou, até A desmercantilização da comunicação e da
hoje, outras formas mais sutis de racismo, como intercomunicação, cultura, música e demais
são o racismo ontológico e epistemológico. artes e serviços públicos de educação, saúde
Os povos originários ou os afrodescendentes e saneamento. Recuperá-los para o uso co-
podem ser motivo de folclore, misericórdia e mum de todos, em corresponsabilidade e sob
até aceitos como portadores de protestos ou o controle social, todos os bens e serviços
reclamações, até mesmo serem teoricamente necessários para a vida. “Para todos, tudo”,
“iguais”, mas, dificilmente, podem ser admiti- como ressoou o grito zapatista desde a selva
dos como geradores ou inspiradores de valores, Lacandona do México.
conhecimentos e teorias ou filosofias alternati- Para concluir, como começamos, reite-
vas ou politicamente “respeitáveis”. ramos que se faz indispensável um processo de
Há uma conexão entre mercantilismo e construção de paradigmas sociais alternativos à
privatismo, e essas ciências reducionistas, positi- crise da civilização hegemônica e aos impactos
vistas, homogeneizantes, antropocêntricas, nos de sua modernidade-colonialidade eurocêntrica.
quais os “outros” são os “objetos” de estudo de Criar espaços de encontro e interaprendiza-
“sujeitos” eurocêntricos e da razão instrumen- gem interculturais entre as experiências
talizadora. No entanto, diferencia-se entre as de povos, comunidades, nações sem
línguas europeias e os “dialetos” originais; entre Estado e movimentos sociais.
a arte culta e os artesanatos; entre a medicina Terminamos, por ora, estas
científica e o folclorismo de indígenas, amazig reflexões, porém, o debate continua.
ou quilombolas. Impossível falar de filosofia e E para resistir e persistir no torvelinho de
sistemas políticos e pensar que podem tê-los incertezas e desafios nesta longa crise de
os Batwa na África ou os Aimará no mesmo civilização, enquanto o velho resiste a morrer,
padrão de legitimidade do ocidental. e ao novo não deixam florescer, necessitamos
Implica pôr em questão a expansão das voltar, uma vez mais, a recordar as emo-
tecnocracias e o pós-industrialismo, com os ções e a sabedoria,
transgênicos, biopirataria e a nanotecnologia embora não exa-
que, em nome da sagrada “propriedade inte- tamente com
lectual”, não apenas modifica genes, células, e as mesmas
até átomos, sem controle nem vigilância social palavras,
de seus impactos sociais e ambientais, e, além das avós e
disso, apropriam-se e privatizam conhecimentos dos avôs.
ancestrais dos povos e suas aplicações para Como o
novos alimentos, medicamentos e insumos “não te-
industriais. A mercantilização das ciências e nho mais
conhecimentos que, muitas vezes, priorizam ou paciência de aguentar tudo isso” de
servem para combater as enfermidades tropicais Micaela Bastidas, companheira de Tú-
e a alta mortalidade daqueles que vivem nas pac Amaru, ambos rebelaram-se em
montanhas ou nos trópicos. 1780 diante do etnocídio europeu. Aos
Questionar por que as descobertas úteis Maias, reiterando que “Cortaram nossos
para a humanidade não são compartilhadas ou frutos, talos, folhas... porém, não nossas
são inacessíveis pelas patentes e pelos direitos raízes, e voltaremos”. Ao longo martírio
de autor, como nos casos graves de Aids e cân- dos Mapuches, porém, ensinando
cer. Sem dúvida, são inumeráveis os alimentos, sempre com seu grito de “Marry
medicamentos, insumos industriais e conheci- Chewehu!!” “... dez vezes nos
mentos com os quais os povos e as comuni- golpearam, dez vezes nos
dades contribuíram, e continuam a contribuir, levantaremos !!”.

Janeiro 2010 57
ibase
opinião
João Roberto Lopes Pinto *

Para além do
Estado do
Bem-Estar
Social
1

A efetivação e ampliação de direitos sociais dependem, hoje, não apenas de uma retoma-

da, mas também da ampliação da função pública do Estado. Isso significa ir além da sua

dimensão distributiva, alcançando os mecanismos de que o Estado dispõe para regular

e financiar a produção da riqueza. Os direitos sociais devem estar inscritos e orientar a

própria dinâmica econômica, o próprio mercado. As fronteiras, até aqui bem definidas,

entre o econômico e o social precisam ser subvertidas, sob pena de seguirmos tratando

a “riqueza como assunto econômico, e a pobreza como assunto social”.


1 Texto originalmente
publicado na revista Teoria e A construção do Estado social no pós-guerra esteve ancorada nas lutas sociais, mais
Debate, da Fundação Perseu
Abramo, edição de dezembro
de 2009. particularmente dos sindicatos pelos direitos dos trabalhadores assalariados. Ao mesmo

58 Democracia Viva Nº 44
tempo, esse Estado somente se viabilizou, com Como e em qual direção efetivar e am-
variações a depender do país, por um contrato pliar as políticas sociais? Para responder a essa
social em que o empresariado reconhecia as questão, deve-se reconhecer que o paradigma
vantagens de uma cidadania mais robusta como do Estado social foi também responsável por
forma de alavancar o mercado e, portanto, o deslocar para fora do mercado setores importan-
seu processo de acumulação. Esse pacto se tes da reprodução social e, com isso, serviu para
desfez pela chamada globalização e conse- despolitizar os conflitos relacionados à desigual-
quente hipertrofia dos agentes de mercado. dade ou à concentração da renda e riqueza. Não
As corporações buscam hoje estender seus é por acaso que se confunde desenvolvimento
negócios sobre áreas anteriormente ocupadas com crescimento econômico e política social com
pelo Estado na prestação de serviço social, “administração da pobreza”.
atuando em favor da desregulação pública e Não se trata mais de simplesmente fazer
redução de direitos. crescer as rendas já constituídas para, por meio
Certamente, esse cenário aponta para da ação fiscal do Estado, prover a população
uma necessária e intransigente defesa do papel de “quase direitos”. Não será suficiente para o
do Estado na promoção de políticas sociais, combate à pobreza alocar de modo socialmente
capazes não apenas de assegurar direitos já responsável os recursos públicos se a ação do
conquistados, mas de ampliá-los e qualificá-los. Estado não incidir em favor de um desenvolvi-
No caso brasileiro, a promoção do Sistema Bra- mento capaz de superar desigualdades. Com o
sileiro de Proteção Social precisa estar no centro rompimento do equilíbrio entre Estado social
das preocupações e do gasto público. e mercado, em benefício deste último, reabre-
Em estudo recente, o Instituto de Polí- se a possibilidade de se repolitizar as relações
tica Econômica Aplicada (Ipea) desmistifica a econômicas. As políticas econômicas precisam
ideia de que o gasto social é o vilão do déficit ser pensadas e encaminhadas como políticas
público. O problema nas contas do governo sociais e vice-versa.
está, em verdade, na financeirização do gas- Como falar, por exemplo, em direito
to público, ou seja, no pagamento de juros à segurança alimentar, ao trabalho, ao meio
altos que acaba por comprometer as contas ambiente e ao desenvolvimento sem que a
públicas e produzir um círculo vicioso. O cidadania se projete sobre as relações e ins-
estudo demonstra que o total do gasto social tituições tipicamente de mercado? A questão
do governo federal sempre esteve abaixo, na climática atualmente expõe essa necessidade
última década, dos gastos com a dívida pú- de forma dramática. Nas lutas sociais, há clara
blica. Além do que, faz as contas e prova que tendência de ampliar a perspectiva dos direi-
o orçamento social é superavitário, mesmo tos para o campo da economia. Várias são as
quando se desconta a parcela destinada à experiências que apontam nesta direção e que
composição do superávit primário. Portanto, buscam assegurar direitos em pelo menos três
os recursos para a promoção de políticas so- campos: do financiamento ao desenvolvimento;
ciais existem e precisam ser canalizados para do regime de propriedade; e do reconhecimento
essa finalidade. e regulação das diferentes formas não assala-
Sem dúvida, um maior volume de recur- riadas de trabalho.
sos é indispensável para dar conta do grande Em cada um desses campos, várias são
déficit de cobertura de nossas políticas sociais. as agendas e iniciativas em curso. No que toca
Mas há de se interrogar sobre como efetivar o financiamento, a agenda cobre um leque
e qualificar direitos em meio à hipertrofia das amplo de questões, que vai da reorientação
corporações, à desorganização da estrutura da política operacional do Banco Nacional de
partidária e sindical e à crescente restrição de Desenvolvimento Social (BNDES) em favor de
uma cidadania ancorada no trabalho assalaria- um desenvolvimento socialmente equitativo
do. É inescapável repensarmos o paradigma do ao acesso ao fundo público por organizações
Estado social. Um novo pacto se faz necessário. que desenvolvem trabalho social, passando
Como já foi dito, não se trata de abrir mão dos pela justiça tributária. Já no caso do regime
direitos sociais, consagrados em nossa Consti- da propriedade, as questões envolvem desde a
tuição. Ao contrário, trata-se de reafirmá-los revisão do índice de produtividade da terra até
como referência básica de cidadania, mas cuja a regulação sobre a exploração dos recursos
efetivação e ampliação dependem de uma re- naturais, passando pela questão das concessões
definição do lugar e papel do Estado. de exploração das ondas de rádio e infovias de

Janeiro 2010 59
Op i n i ã o Ib a s e

comunicação. Sobre a questão do trabalho, para não se rever o índice de produtividade


a agenda compreende da contabilização do da terra estabelecido na década de 1970, para
trabalho imaterial até o reconhecimento e a efeito de reforma agrária. A proposta, enca-
valorização do trabalho reprodutivo, incluindo, minhada pelo governo ao Congresso, revendo
também, a regulação e o fomento ao trabalho o índice aponta para o debate em torno da
associado, cooperativo. questão da finalidade social ou pública da
A título de exemplo, destacamos aqui propriedade, seja ela estatal ou privada. Essa
algumas dessas agendas. Diferentes organiza- discussão está igualmente no centro de outras
ções e movimentos sociais – que incluem Central disputas legislativas, como no caso da recente
Única dos Trabalhadores “MP da Grilagem”, nas proposições referentes
(CUT), Movimento dos Tra- à flexibilização da legislação ambiental, ao zo-
balhadores Rurais Sem Terra neamento agroecológico da cana, bem como
Sobre a (MST), Movimento dos Atin-
gidos por Barragens (MAB),
de exploração mineral em terras indígenas. Na
verdade, assiste-se a uma tremenda disputa

regulação das Confederação Nacional dos


Trabalhadores na Agricultura
sobre o modelo de apropriação dos recursos
naturais, incluindo os do subsolo, em particular
(Contag), Federação dos sobre a Região Amazônica.
formas não Trabalhadores na Agricultura O avanço no país de uma estrutura
Familiar (Fetraf), Conse- produtiva especializada no setor intensivo em
assalariadas lho Indigenista Missionário natureza aponta, de um lado, para a desregu-
(Cimi), Ibase, Rede Brasil, lamentação do controle e da exploração desses
de trabalho, entre outros – têm atuado recursos. De outro, as populações que vivem
em favor de uma agenda desses recursos e são diretamente impactadas
vale chamar comum de incidência sobre
o BNDES. Com essa agen-
por grandes projetos extrativos e agropecuários
defendem um controle social e público desses
a atenção da, intitulada “Plataforma
BNDES” <www.plataforma-
recursos. Com o aquecimento global, essa passa
a ser uma agenda que extrapola as populações

para a atual bndes.org.br>, pretende-se


que o Banco adote uma pos-
mais diretamente impactadas.
Sobre a regulação das formas não assa-
tura proativa em termos do lariadas de trabalho, vale chamar a atenção para
composição do estabelecimento de critérios a atual composição do mercado de trabalho:
sociais e ambientais em seus 52% dos ocupados no país estão na “informa-
mercado de financiamentos, bem como lidade”. Se retiramos os casos dos assalariados
do crédito a cadeias produ- sem carteira, teremos algo em torno de 40%
trabalho: 52% tivas voltadas para desen- de trabalhadores não assalariados no país.
volvimento local e regional. Ou seja, trabalhadores que estão operando –
dos ocupados Reivindica-se, igualmente,
o financiamento de tec-
como microempreendedores, cooperativados,
conta-própria e produtores rurais familiares
no país estão na nologias voltadas para um
aproveitamento equilibrado
– uma economia cujo tamanho nos impede
de qualificá-la como franja do chamado setor

“informalidade” e sustentável dos recursos


naturais. Busca-se, enfim,
formal. A “inclusão” desses trabalhadores como
sujeitos de direitos passa por uma agenda que
reorientar esse instrumento os reconheça e promova como agentes de
central do desenvolvimento desenvolvimento econômico e social. Essas
brasileiro, que tem atuado formas de trabalho podem ser vetores de um
em favor da concentração econômica e espe- aumento efetivo da capacidade produtiva e de
cialização produtiva em setores intensivos em geração de trabalho, sem cair na concentração
natureza (minério, papel e celulose, petróleo de renda típica dos processos de “crescimento
e gás, etanol, pecuária e soja), na direção de sem desenvolvimento”.
uma diversificação da estrutura produtiva e da As políticas de economia solidária
distribuição da riqueza e da renda. voltadas para promover o direito ao trabalho
Em relação ao regime de propriedade, associado apontam nessa direção. Embora
vale chamar a atenção para o fato de que, com haja diferenças entre tais atividades, existe um
a “modernização” do campo brasileiro nas aspecto comum que se refere ao fato de que
últimas três décadas, não há qualquer razão nelas, praticamente, não há separação entre

60 Democracia Viva Nº 44
Pa ra a l é m d o E s ta d o d o B e m - E s ta r S o c i a l

capital e trabalho. Ou seja, são atividades que alcançado pelos negócios? A conjuntura interna- * João Roberto
contribuem, com enorme debilidade é certo, cional marcada pelas crises climática e financeira, Lopes Pinto
para a desconcentração da propriedade e, bem como a conjuntura doméstica, que combina Cientista político,
portanto, da renda. Além disso, como o traba- estabilidade monetária, eleições presidenciais coordenador do Ibase
lho não possui a mobilidade característica do e “pré-sal”, oferecem um ambiente favorável e professor da PUC-RJ

capital, a inserção dessas atividades no tecido para se travar uma amplo debate público
socioprodutivo demanda estratégias de desen- sobre qual desenvolvimento queremos e
volvimento local ou regional. Nesse campo, a qual papel deve desempenhar aí o Estado
construção de um marco legal que dê suporte brasileiro. Mas a considerar as limitações
a uma política de fomento vem sendo discutida de nossos partidos e lideranças políti-
no Congresso, no âmbito da revisão da Lei Geral cas, esse debate somente ganhará
do Cooperativismo e do estabelecimento de um a cena pública se resultar de
Estatuto da Economia Solidária. uma demanda da própria
Alguém poderia dizer que se trata de uma sociedade. Com a pala-
agenda de resistência. Como produzir esse novo vra, as organizações
pacto em favor de um Estado Social ampliado, e os movimentos da
considerando a desproporção hoje do poder sociedade civil.

Janeiro 2010 61
r e s e n h a

Será que o Estado e a sociedade se movem em


caminhos que convergem sobre uma maior
igualdade racial no Brasil? Pelo seu título, Cami-
nhos convergentes, parece responder que sim.
Evidentemente, a resposta não é tão simples e o
conteúdo do livro dá conta da complexidade da
relação entre os dois grandes atores envolvidos
nas ações afirmativas.
A definição de ações afirmativas é am-
pla: no final do governo Fernando Henrique Car-
doso, o Instituto de Política Econômica Aplicada
(Ipea) contou 40 programas e projetos ligados
à promoção da igualdade racial, da eliminação
do racismo e preconceito dos livros didáticos
à inclusão do quesito raça/cor nos formulários
do Ministério da Saúde. O livro abre com um
instrutivo panorama histórico, por Valter Ro-
berto Silvério, da história de políticas públicas,
desenvolvimento econômico e desigualdade
racial; tenta responder à pergunta de por que
o Brasil não obedeceu a regra pela qual a mo-
dernização levaria à ascensão social dos negros,
mas precisa de políticas específicas.
A seguir, o livro focaliza o quadro atual
e traz textos avaliativos e analíticos sobre ações
em quatro âmbitos: o ensino fundamental, com
Caminhos a Lei 10.639/03, sobre o ensino de História e
convergentes: Culturas Africanas; os quilombos, com as po-
líticas específicas de terra, saúde e educação;
Estado e sociedade e a política de cotas e bônus para estimular o
na superação das ingresso de negros nas universidades. O traba-
lho sobre a situação das mulheres negras é de
desigualdades raciais natureza mais abrangente, pois inclui dados
no Brasil. oficiais sobre saúde e emprego, no contexto
de uma avaliação dos efeitos sobre as mulheres
Marilene de Paula e Rosana Heringer negras do “processo” de Durban, das políticas
(orgs.) da Secretaria de Políticas para as Mulheres e do
Fundação Henrich Böll/ActionAid Programa Bolsa Família.
292 págs. A segunda parte do livro apresenta qua-
tro textos mais interpretativos do que as orga-
nizadoras chamam dos “caminhos percorridos
pela luta antirracista”. Entende-se que é nos
caminhos traçados no passado que se encontra
o início do mapa para a ação futura. Os textos
tematizam o processo de Durban, o movimento
negro, as ONGs não negras que começaram
a trabalhar com a temática e, finalmente, a
movimentação cultural da juventude negra e
o que pode trazer ainda de novo. A autora do

62 Democracia Viva Nº 44
primeiro texto, Francine Saillant, preocupa-se públicas e privadas, ao apoio às comunidades
em fazer uma discussão sobre reparações, que quilombolas, à atenção específica à mulher.
acompanha “a vida social” dos direitos, como O reconhecimento do racismo permitiu a co-
eles existem e são reivindicados na prática, brança, pelo movimento negro, de medidas
antes de um formalismo legal em que direitos, que estimulassem a igualdade. A conferência
predefinidos de acordo com modelos “univer- chamou a atenção, não só do governo, mas
salistas” ocidentais, são adquiridos pelos povos dos meios de comunicação e da sociedade
das periferias. Na questão específica das repa- mais abrangente, para o tema do racismo e da
rações, observa a autora, o modelo consagrado desigualdade racial. A criação da Seppir marca
é de reparações aos judeus depois da II Guerra a importância do tema visto que se constitui na
Mundial, mas a situação dos afrodescendentes instância articuladora, no governo, das políticas
é diferente, pois o “erro” “se inscreve em um de promoção de igualdade racial.
tempo genealógico longo e de consequências O livro é um contraponto ao debate na
incomensuráveis e, para alguns, difusas”. No mídia, com sua obsessão pelas cotas nas uni-
caminho, ela faz interessantes comentários versidades públicas. Acaba sendo um manual
sobre a emergência, durante o processo de para quem quer entender em que “pé” estão
Durban, de novas consciências de afrolatinidade as ações afirmativas. Explica também que um
e afrodescendência, entre outras noções que dos impasses das políticas para os quilombos,
começaram a ser de uso comum no passado por exemplo, é que a descentralização do finan-
recente. A contextualização histórica também é ciamento dessas políticas, em nome da demo-
uma preocupação de Marcio André dos Santos, cracia mais participativa, acaba, muitas vezes,
em seu texto sobre a atuação do movimento reforçando velhas forças monopolizadoras do
negro no Estado, mobilizando e, depois, institu- poder, em âmbito municipal, mas que também
cionalizando-se, assim como para Atila Roque, transformaram figuras consideradas folclóricas,
que escreve sobre ONGs, e Sílvia Ramos, que os quilombolas, em “ativistas incômodos”. Às
discorre sobre a atuação de jovens da periferia vezes, comete deslizes, como quando relata a
envolvidos em projetos socioculturais. experiência de pré-vestibulares como se fossem
Uma periodização emerge da leitura do um fenômeno carioca. Mas mais um ponto a
livro. Os últimos 15 anos de história brasileira favor de sua utilidade, ao longo dos diversos
são marcados por alguns avanços, tanto no textos, apontam-se problemas que necessitam
reconhecimento social do problema do racis- de pesquisa e aprofundamento.
mo como na adoção, por parte do Estado, de Para quem é iniciante na discussão, o
medidas para superar a desigualdade racial. livro é claro e didático, pode ser uma referência
Estes marcos são: o reconhecimento oficial do de informação e discussão acumulada. Para
racismo, em 1995, pelo governo de Fernando quem acompanha de perto a evolução das
Henrique Cardoso, com a criação de um Grupo políticas de ação afirmativa, propõe abordagens
de Trabalho Interministerial para a Valorização conceituais instigantes. Interpreta a colabora-
da População Negra e o início dos estudos da ção e a tensão entre o Estado e a sociedade e
desigualdade racial pelo Ipea; a conferência da como elas vêm resultando na implementação
ONU contra o Racismo, a Xenofobia e Formas de medidas de superação da desigualdade racial
Conexas de Discriminação, em setembro de nos últimos 14 e, sobretudo, nos últimos seis
2001, e o seu processo preparatório que en- ou sete anos.
volveu governo, movimentos e ONGs negros e
outros setores organizados da sociedade, como
mulheres, ONGs não negras e fundações; a cria- Liv Sovik
ção, no governo Lula, da Secretaria Especial de Professora da Escola de Comunicação da
Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Sep- Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
pir) e a promulgação de programas e projetos autora de Aqui ninguém é branco
ligados à inclusão de negros nas universidades (Aeroplano, 2009)

Janeiro 2010 63
r e s e n h a

A pesquisa coordenada por Elenaldo Celso Tei-


xeira, que contou com a colaboração de diversos
coletivos, começa em 2000 com a aposta do
professor do Departamento de Ciência Política
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) na capaci-
dade transformadora das organizações da socie-
dade civil. Idealizado com o objetivo de entender
o papel das organizações da sociedade civil na
relação com o poder público, o trabalho mapeia
mais de 1.800 organizações baianas cadastradas
pelos próprios pesquisadores, dada a dificuldade
de obter um cadastro confiável de organizações
do estado baiano no qual se apoiar.
A primeira parte do livro consiste em um
texto teórico publicado anteriormente na edição
especial da revista Teoria e Sociedade, produ-
zida pela Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), em 2005, intitulada “Instituições híbridas
e participação no Brasil e na França”. Nela, faz-
se um rápido resgate histórico das associações e
relação com o poder público desde os tempos do
Império, delineando os diferentes papéis exercidos
ao longo do período e as diferentes dinâmicas
Sociedade civil na estabelecidas no percurso. Associações beneficen-
tes, sindicalismo, formas de associativismo urbano
Bahia-papel político são retratados para mostrar uma variedade de
das organizações possibilidades, seja circundada pela esfera privada,
seja regulada pelo Estado, entre outras.
Elenaldo Celso Teixeira (coord.) O texto destaca a importância dessas
Editora da Universidade Federal da organizações na construção de uma sociedade
Bahia (Edufba) mais democrática, principalmente no período de
231 págs. formulação e após a Constituição de 1988. Os
movimentos sociais teriam conquistado direitos
que, hoje, institucionalizados, são instrumentos
que influem na dinâmica de interação com o Es-
tado. Se os canais dessa interação são realmente
efetivos, abertos à partilha de tomada de decisões
e à influência na elaboração de políticas públicas,
e não apenas formais, é o cerne da questão
tratada no livro, mas, a despeito do resultado, o
processo transforma as próprias organizações.
A segunda parte é resultado de extenso
trabalho de campo que contempla questioná-
rios aplicados às organizações estudadas. Além

64 Democracia Viva Nº 44
disso, foram feitas entrevistas estruturadas em ção. As que mantêm, – quase 40% das 673
mais de 600 delas, acompanhadas de uma breve questionadas – estabelecem relações orgânicas
análise do contexto econômico, social e político como militância e filiação de diretores. Essas
do estado da Bahia. Qual o perfil das organi- relações são concebidas como “estratégia de
zações baianas e como participam das políticas mobilização e organização de lutas”. Cerca de
públicas? Quais são os limites e as possibilidades 42% deles, no entando, apóiam candidatos nos
registrados por elas na elaboração, no desenvol- pleitos eleitorais e 26,4% orientam o eleitado
vimento e controle das políticas públicas? na escolha.
Os dados estão divididos em duas partes: A aquisição de direitos sociais, trabalhis-
os resultados mais gerais, como o perfil das or- tas, previdenciários, entre outros, e obtenção de
ganizações e as ações coletivas, são resultado da recursos governamentais como Pronaf e Fundef
amostra total; os mais específicos, como a sua e outros governamentais se apresentam como
forma de organização e funcionamento, relação algumas das conquistas de destaque dessas
com o poder público e desafios, entre outros, organizações, ainda que as comunidades e
foram realizados a partir da segunda amostra. organizações tenham pouca influência sobre
As 94 tabelas resumem questões pri- isso. Essas conquistas, no entanto, beneficiaram
mordiais para o entendimento sobre essas principalmente pequenos produtores rurais e
organizações e sua atuação. Elas mostram o trabalhadores rurais sem terra.
papel que essas organizações exercem, suas As maiores dificuldades enfrentadas por
proposições e como acompanham a execução essas organizações estariam relacionadas ao
e o controle das políticas públicas. sistema econômico-político em vigor, especial-
A maior parte das organizações baianas mente no que diz respeito à falta de recursos
pesquisadas (52%) foi fundada na década de humanos e financeiros. A falta de apoio do
1990, possui algum tipo de registro (91%) e poder público e de capacitação de seus diri-
foi classificada como de natureza comunitária gentes também são apontados como desafios
(47%). Acesso à educação e à comunicação e a serem enfrentados.
outras benfeitorias para o bairro reivindicadas O livro preenche algumas lacunas de
às prefeituras se mostram como questões questões emergentes na sociedade brasileira.
importantes para elas. Essas organizações se Após mais de 20 anos de regime democrático,
relacionam com outras, principalmente com a análise da relação das organizações da socie-
setores da Igreja (28%) e do governo (23%). En- dade civil com o poder público se faz necessária.
tre os instrumentos de ação, abaixo-assinados, É assim que se pode aprimorar e refletir sobre
petições ao poder público e audiências públicas os tantos desafios que a democracia nos traz.
e denúncias em jornais e rádios são os caminhos E esse é um belo trabalho nesse caminho.
mais comuns. Elenaldo não estava mais entre nós quando a
Elas mantêm relações com a prefeitu- pesquisa tomou a forma de livro. Deixa-nos seu
ra, cobrando ações e pedindo informações. esforço e legado de entusiasmo com as organi-
Participam de conselhos e atuam neles, zações da sociedade civil e a aposta de que é,
principalmente reivindicando e apresentando também, a partir delas que este país pode ser
propostas. A maior parte dessas organizações constantemente renovado.
não mantém relações com partidos políticos
por serem apartidárias/apolíticas ou autônomas
com relação a partidos ou, ainda, acreditam Jamile Chequer
que estabelecer alguma relação com partidos Jornalista do Ibase, mestranda em Sociologia
políticos pode ser prejudicial para a organiza- Política e Cultura pela PUC-Rio

Janeiro 2010 65
c u lt c u lt u r a
Cândido Grzybowski
Sociólogo, diretor do Ibase

Fórum Social
Mundial,
a construção
de um outro
mundo
possível

66 Democracia Viva Nº 44
ura

samuel tosta
Em fins de janeiro de 2001, na cidade de Porto Alegre, realizou-se a primeira edição do

Fórum Social Mundial (FSM). Surgiu com marca de ousadia e inovação, contestando a

hegemonia do pensamento neoliberal simbolizado pelo Fórum Econômico Mundial, em

Davos, na mesma data, reunia os autoproclamados senhores e donos do mundo. De um

lado, a surpresa, a festa barulhenta de encontros e desencontros, em uma verdadeira

praça da democracia, de identidades e línguas diversas, e a constatação de que, afinal,

não somos tão poucos os que acreditam que “outro mundo é possível”, a expressão

agregadora do FSM. Do outro lado, o hotel de luxo da estação de esqui, misto de cele-

bração retórica das benesses do mercado de um capitalismo globalizado, sem fronteiras,

e de pura negociação em vista de mais e mais lucros, sem amarras.

Assim começou o FSM: um espaço aberto que, sem negar a marca de origem con-

testadora do neoliberalismo, quer ser uma espécie de recarregador de baterias da cidadania

ativa, agora, necessariamente de dimensões planetárias, pois é dela que depende a solução

Janeiro 2010 67
C u lt u r a

contradições deste capitalismo levado ao seu contradições e dos limites sob as quais o capi-
extremo. Surgido como um evento, o FSM de- talismo globalizado submete a humanidade e
sencadeou uma onda que, ao longo dos últimos a sustentabilidade da própria vida no planeta.
anos, foi ganhando força, com realizações de Hoje, “outro mundo possível” torna-se uma
fóruns mundiais, continentais e regionais, nacio- urgência e uma necessidade inadiável.
nais, locais, temáticos. Perdeu-se a conta, e ela Quero pensar, por isso, nos desafios daqui
ainda não acabou. Agora, em 2010, já iniciamos para diante, para além do FSM. Não estou pro-
o décimo ano desse processo que vai penetrando pondo uma mudança da iniciativa em si, pois,
no mundo e alimentando a esperança. penso que deve continuar a tarefa inspiradora
O Fórum já conferiu fundamental contri- que é sua marca. Os encontros do FSM ainda
buição para a emergência de uma cultura cidadã alimentam o sonho e a esperança para muitos
em escala mundial. Hoje, é um processo que mundo afora. E o mundo é ainda enorme para as
segue seu próprio curso, apropriado por orga- dimensões reais que o processo de realizações do
nizações de cidadania ativa, movimentos sociais FSM conseguiu até agora. Muita semente precisa
e redes em diferentes partes do mundo. Inspira ser espalhada por diferentes territórios de nosso
um modo de tentar construir uma inteligência planeta e fazer ressurgir a vontade de mudança.
política coletiva sobre os problemas, os desafios Que o FSM siga o seu curso e sua capacidade
e as possibilidades das lutas que empreendemos mobilizadora, especialmente cativando as jovens
– cada qual a seu modo – no lugar onde nos en- gerações, como vimos em janeiro de 2009, em
contramos no planeta, mas que, pelas circunstân- Belém. Sou dos que pensam que ninguém segura
cias, nos tornam interdependentes, obrigados a essa “onda de cidadania”, pois o FSM já em nada
compartir um mesmo mundo para dele fazer “um depende do nosso bando de velhos cúmplices
outro mundo”. Para a nossa grande diversidade – quase todos homens, além do mais. O FSM
de identidades e culturas, a nossa pluralidade poderá mudar muito, como, aliás, mudou a cada
de visões e perspectivas, todas legítimas, mas ano, mas erra quem decreta seu fim. Hoje é um
sempre negadas, o FSM nos oferece um espaço patrimônio da humanidade. É ela que necessita de
aberto – uma espécie de usina para nova cultura um espaço aberto como o FSM para se repensar.
política – para que nos reconheçamos iguais como Como a minha reflexão está ainda em
humanidade e parte do mesmo e único sistema elaboração, faço apenas uma espécie de guia
planetário para compartir entre todas e todos. para minha atuação como diretor do Ibase, para
samuel tosta

Não pretendo relatar aqui a história do dentro e para fora, aquém e além do FSM, e
FSM. Deixo a história para a história. Mas mudou uma contribuição aberta aos parceiros e parcei-
muito o contexto cultural, político e econômi- ras em redes, articulações e lutas democráticas
co do mundo de 2001 a 2010. As múltiplas e que, juntos, empreendemos.
articuladas crises recentes são expressões das

68 Democracia Viva Nº 44
Fórum Social Mundial, a construção de um outro mundo possível

O FSM como inspiração e como limite


A contribuição mais evidente do FSM foi

Ierê Ferreira
reacender uma força galvanizadora ao se
contrapor a Davos e simplesmente afirmar
que “outro mundo é possível”. Isso foi possi-
bilitado ao deslocar o foco quase exclusivo no
Estado e na economia para a capacidade de
ação transformadora dos múltiplos e diversos
sujeitos coletivos, organizados em entidades,
movimentos, redes, coalizões e alianças, que
resistem, formulam propostas concretas e vão
à luta por sua concretização.
Em certo sentido, não é o FSM que ins-
pira, simplesmente, um convite a uma reflexão
compartilhada de experiências e saberes que
se desenvolvem na prática, nas mais diversas
situações, para, com abertura ao mundo,
potencializar a própria ação, segundo as pos-
sibilidades de cada sujeito e em cada contexto.
O FSM cria bases de uma nova cultura política
de transformação exatamente por estabelecer
como um imperativo o diálogo planetário
horizontal, sem protagonismos, racismos ou
patriarcalismos, diálogo intra e inter sujeitos,
uns e umas reconhecendo os outros e as outras
igualmente como sujeitos.
A nova cultura política não é uma inven-
ção do FSM, mas ele é um grande propulsor
e indutor. Por seu caráter de espaço aberto à
diversidade e pluralidade – como definido na
Carta de Princípios –, o FSM tem conseguido
se tornar uma referência de encontros e trocas,
sem hierarquias ou prioridades. No seu interior, –
forjam-se legítimos consensos e dissensos (na
verdade, outros consensos), extraindo, assim,
da diversidade social e cultural, do encontros e
desencontros, e da pluralidade política a energia
que o mantém como referência de uma nova
cultura política de caráter planetário.
Forçoso reconhecer que, se bem é uma
nova cultura política que está presente no FSM, protagonizam os sujeitos, o que no FSM, muitas
é apenas algo emergente, em construção. Nós vezes, manifesta-se na ocupação do território e
todos e todas trazemos ao FSM nossas estru- na disposição de atividades.
turas mentais, nossos valores e nossas práticas, Apesar da massiva presença de organi-
com todas as suas contradições. Começando zações e movimentos feministas, o machismo
pelo mais simples: confundimos diversidade encrustado nas relações não confere às mulhe-
com cada qual fazer o que quer, mesmo que seja res a devida relevância nos diálogos e trocas.
uma atividade para os seus pares, dificultando Língua e diversidade cultural são patrimônios
aglutinações, fusões e buscas coletivas, razão e riquezas a preservar, mas não sabemos lidar
de ser do espaço FSM. Não nos iludamos com o com o problema da tradução, apesar das tecno-
tamanho da tarefa pela frente. Nosso modo de logias de informação e comunicação ao nosso
pensar e agir de esquerda no seio do capitalismo alcance. Isso, talvez, porque está na tradução
ainda vem carregado por determinismos concei- – no sentido que Boaventura Souza Santos
tuais e políticos que priorizam, hierarquizam e lhe dá – o básico para aceitar e reconhecer os

Janeiro 2010 69
C u lt u r a

outros e as outras como detentores de saberes Mas aí vem os limites. Não dá para ig-
tão ou mais importantes que os nossos, em norar que o modo de acontecer do FSM como
diálogo com os quais, como dizia Paulo Freire, espaço aberto, centrado em eventos como sua
poderemos, juntos, criar um novo saber, sobre grande realização, é o que é: um processo de
nós mesmos, a sociedade, o mundo. Enfim, eventos que vem despertando consciências e
sem ser exaustivo, assinalo esses problemas vontades para um novo fazer. Contudo, ainda
só para acentuar o caráter ainda incipiente da não é o fazer de um outro mundo. É apenas
nova cultura política. um passo, um começo fundamental, um abrir
Um aspecto, que considero o grande de portas. O FSM é uma condição necessária
legado do FSM, até aqui, é o resgate e a valo- mas insuficiente do novo, no meu modo de ver.
rização da política como a arena por excelência Para surgirem forças transformadoras do que aí
da construção de outro mundo e da ação cidadã está, será preciso fazer um caminho para além
como força transformadora. Em um mundo ca- do FSM, não mais como Fórum, e sim como
pitalista, cada vez mais dominado por grandes invenção de sujeitos que acordam entre si ações
corporações de negócios, cada vez mais privati- concretas de incidência que julgarem adequadas
zado, mais mercantilizado, mais cínico e violento, nas diferentes situações e conjunturas, sobre
de um consumismo desenfreado, destruidor do relações, estruturas e processos de poder em
patrimônio comum da vida, criador de exclusões crise, mas ainda muito vivos e dominadores. Os
e acentuada desigualdade social, o FSM res- desafios se vislumbram e ecoam no FSM. Seu
significa o público e a política e traz ao centro enfrentamento, porém, exige uma nova criati-
os princípios e os valores éticos para pensar a vidade políticocultural. Aí reside o dilema:
natureza, a vida, a economia e o poder. como espaço, penso que o FSM é
Considero três os pontos fortes do FSM indispensável ainda, mas por causa
como inspiração: reacender a esperança e re- do próprio Fórum, sinto-me
colocar a história no seu lugar, como produção empurrado a iniciativas
humana e não determinação metafísica; pôr em para além dele, iniciativas
questão os determinismos e protagonismos pró- de incidência do plano local
prios da cultura de esquerda; valorizar a energia ao mundial, construindo as
da diversidade de sujeitos coletivos. articulações necessárias.
samuel tosta

70 Democracia Viva Nº 44
8
Fórum Social Mundial, a construção de um outro mundo possível

Elementos para uma agenda além FSM


O ponto de partida é repolitizar a vida, a relação Não sendo o FSM o objetivo da ação
com a biosfera, o poder, a cultura e a economia política transformadora, mas apenas um meio
e agir com uma perspectiva planetária e cos- de fortalecê-la, a questão da agenda política é
mopolita. Como já assinalei, o FSM ressignifica crucial para cada participante, como expressão
a política e o poder, dando-lhes centralidade de seu direito e responsabilidade humana e ci-
em contraposição às relações de mercado e dadã. É nesse sentido que penso ser um dever,
à economia. Aponta, nesse sentido, para o como participante, priorizar a agenda política
poder instituinte, constituinte e transformador no antes e no pós evento Fórum. O além FSM
da cidadania ativa. Não elabora e não define, a que me refiro tem o sentido de intervenção
enquanto tal, a agenda ou as agendas de luta. com uma agenda que se elabora, até inspirada
Legitimamente, as agendas de cada sujeito por ele, mas sem se limitar, tomando o FSM
coletivo, individual ou as construídas em redes, apenas como um momento de reflexão e troca.
coalizões e alianças, são trazidas, debatidas e, A minha prioridade é avançar na agenda de
muitas vezes, atualizadas nos eventos do FSM. luta e buscar as parcerias e alianças possíveis
A responsabilidade por elas é de quem as adota, para melhor incidir nas diferentes situações e
não podendo ser impostas ao conjunto dos(as) nos contextos nos quais vivo.
participantes do Fórum. Hoje, penso que a questão central de
uma agenda de enfrentamento do capitalismo
é a busca de alternativas à “crise de civilização”
que tem por base o seu domínio colonial e
imperialista sobre povos e a nature-
za e o desenvolvimento industrial,
produtivista e consumista, que o
capitalismo promove em função
da acumulação desenfreada.
Destruição ambiental e injustiça
social são condições intrínsecas
samuel tosta

9
vanor correia

Janeiro 2010 71
C u lt u r a

do capitalismo, exacerbadas com a globalização cluir. É visível a territorialização do racismo, no


a serviço dos grandes conglomerados econô- interior das socidedades (favela versus asfalto),
micos e financeiros, sob a guarda militarizada entre cidades e regiões, entre cidade e campo,
imperialista. A fratura social só se aprofunda, entre agronegócio e formas sociais diversas de
e a ruptura com a biosfera e os bens comuns produção e vida de grupos excluídos, e nas
da vida para todas e todos chega ao limite do relações entre povos e nações, em um verda-
irreversível. Não é possível tornar sustentável deiro processo de racismo ambiental. O velho
tal civilização, daí a crise. patriarcalismo é renovado e naturalizado pelo
Para tornar sustentável toda a forma de capitalismo. Com isso, domina e desvaloriza,
vida, os povos e suas sociedades, é fundamental mas se beneficia de uma economia do cuida-
enfrentar a injustiça em sua dupla face: social e do, impõe uma dupla jornada de trabalho às
ambiental, injustiça socioambiental. Para tanto, mulheres. A publicização e politização dessa
se impõe como prioridade a disputa do ideal do agenda que emerge das lutas das mulheres é
bem viver e uma busca sistemática de alternativas tarefa da cidadania como um todo, do local
de poder e economia ao modelo de desenvolvi- ao mundial.
mento industrial, produtivista e consumista do Em termos de agenda política, tendo
capitalismo. Mas não é mais possível limitar-se à presente o contexto de crise profunda no qual
mudança das relações sociais de produção para está o sistema hoje e mirando o caminho a cons-
dar vazão às forças produtivas, como posto no truir para a transformação desta civilização de
ideal dominante das esquerdas. Trata-se de por injustiça socioambiental, é fundamental pensar
em questão o tipo de desenvolvimento de forças no processo necessário de rupturas cumulativas.
produtivas. Ou seja, o ideal da sociedade indus- A questão que se impõe é política e ética ao
trial, dos bens e serviços que propicia e do estilo mesmo tempo. A legalidade institucional deve
de consumo e de vida que gera, é parte da in- ser tensionada pela legitimidade da mudança.
justiça socioambiental que precisamos enfrentar. O arcabouço institucional que nos confina a
A ideia de resistência à mercantilização de tudo, Estados-nação se revela como uma arena ne-
dos bens comuns e da própria vida, está bem cessária, mas extremamente limitada da luta
presente no clima do FSM. Mas isso é pouco. por “outro mundo possível” ou, como hoje
É todo o imaginário de sociedades sustentáveis prefiro, “outra civilização possível”. Estamos
que precisa ser refeito, do local ao mundial, se- diante da necessidade inadiável de contrapor
gundo as possibilidades e os limites da biosfera a soberania cidadã e dos povos aos Estados so-
e da criatividade cultural, científica e técnica de beranos e seu monopólio na esfera mundial do
cada povo, em um espírito de interdependência poder (mesmo quando Estados subordinados e
e solidariedade planetária. subservientes, como a maioria dos quase 200
Um elemento-chave da nova cultura países do mundo).
política e de uma agenda de transformação Isso implica tensionar a legalidade exis-
social é descolonizar e libertar nossos modos de tente, dentro e fora, em nome de uma legitimi-
pensar e agir. Muitas formas de ver as questões dade e responsabilidade ética de rever processos
da exclusão social e pobreza nos tornam pre- e estruturas, políticas e econômicas, que negam
sas fáceis de uma agenda de desenvolvimento direitos iguais e destroem as bases naturais da
imposta pelo poder colonial e imperialista do vida. Considero fundamental radicalizar uma
capitalismo. Não conseguimos pensar alterna- concepção emergente no processo FSM: a
tivas de criação de maior justiça social fora de cidadania não é uma dádiva dos Estados, mas
um quadro estreito de crescimento. condição política de ser parte da humanidade.
No contexto de “crise de civilização” no Tirando as consequências de tal afirmação,
qual vivemos é outro poder e outra economia surge, necessariamente, a agenda de repensar
que precisam ser pensados. Precisamos, ainda, e refundar o Estado como expressão política do
desnaturalizar as relações que condenem mui- poder que as “cidadanias”, iguais e diversas, lhe
tos à pobreza, exclusão, às múltiplas formas de conferem. Vasta tarefa de construção política,
desigualdade e dominação. Não é a falta de que precisa ser feita com mente aberta e muita
desenvolvimento que explica tais situações, pelo ousadia política.
contrário, é por causa dele. O desenvolvimento, Isso me remete a mais um elemento es-
como símbolo da civilização no qual vivemos alia sencial da agenda: a nova arquitetura do poder.
o velho e o novo e deles se alimenta. Reinventa A interdependência entre povos e nações, no
constantemente o racismo para dominar e ex- quadro do capitalismo globalizado de hoje, é,

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Fórum Social Mundial, a construção de um outro mundo possível

sem dúvida, um grande problema gerado pela As cartas de Direitos Humanos – revista
dominação imperialista dos países desenvolvidos, de uma perspectiva cosmopolita e liberta, ela
particularmente dos EUA. Mas a interdepen- também, da perspectiva civilizatória ocidental –
dência traz, contraditoriamente, uma enorme e a emergente, das Responsabilidades Humanas,
possibilidade de futuro. O próprio FSM, como fornecem elementos, mas ainda insuficientes.
espaço de uma emergente cidadania planetária, Em termos políticos, uma agenda fundamental
não seria possível não fosse a difusa consciência é politizar e radicalizar as potencialidades que
de interdependência, na qual, em nossa diversi- oferecem as tecnologias de informação e co-
dade de povos, culturas e identidades políticas, municação (TIC), por permitirem a participação
somos parte de uma mesma humanidade e horizontal em escala planetária, com formação
compartimos um mesmo Planeta. de redes sem fronteiras de países. Não se trata
Interdependência, porém, não pode só de usar a TIC, mas de politizar o espaço que
ser pensada e praticada sem uma localização oferecem como arena política de uma perspec-
concreta, onde temos o essencial de nossas tiva cidadã cosmopolita.
vidas e relações com os outro(as) e realizamos Finalmente, como brasileiro, penso que é
nossas trocas com a biosfera. Como repensar indispensável problematizar o Brasil no contexto
esse fundamental local, em termos de poder, mundial. Sabemos que temos muita injustiça
cultura e economia, de uma perspectiva cidadã social e ambiental para dentro com que nos
planetária? E como repensar o poder mundial ocupar. Corremos, porém, o risco de referendar
de uma perspectiva de cidadania territorializa- uma agenda que vai contra tudo o que apontei
da? Para não sermos pegos pelo pragmatismo anteriormente. Como país emergente, o Brasil
mais multilateral (mas nada cosmopolita) que tende a usar a base de recursos naturais de que
a crise impôs aos países dominantes do G-8, é dotado, em um mundo carente de tais recursos,
abrindo-se ao G-20, com a inclusão de novos para, a seu modo, fazer valer a estrutura de poder
sócios no clube do poder – incluindo o Brasil – e, regional e mundial a seu favor. A velha agenda
assim melhor dominar o mundo, é fundamental do petróleo, como vem ficando claro no debate
que enfrentemos a agenda da nova arquitetura sobre as reservas do pré-sal, e as propaladas possi-
do poder, que implica necessa- bilidades de felicidade geral da nação podem nos
riamente uma refundação da levar a referendar um conjunto de políticas que
ONU e dos Estados-nação, reforçam o modelo de desenvolvimento ambien-
no horizonte não tão talmente predatório e socialmente excludente. É
distante assim. deste Brasil que a cidadania planetária precisa?

samuel tosta

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C u lt u r a

Um possível novo modo de agir


Aqui, quero chamar a atenção para a incon- mais amplo que seja sempre será dos que a
tornável necessidade de organizar, de forma ele aderem. Portanto, ele já aponta para um
nova, as forças para impulsionar a agenda. além FSM. A questão mais delicada é construir
Novamente o FSM serve como um caldo ins- coalizões de sujeitos coletivos com um máximo
pirador, mas falta a tarefa difícil e contínua de denominador comum – para me contrapor ao
organizar os sujeitos, avaliar as oportunidades mínimo denominador comum de certas decla-
políticas e ir à luta. Só destaco alguns pon- rações genéricas e vazias – sobre a agenda e a
tos, pois, de fato, é no agir que se faz ação política. Falo de coalizões intermovimentos
a ação (é caminhando que se faz e organizações de cidadania ativa. A experiência
o caminho). Ele começa pelo existente, de relativo sucesso, é de campanhas
acordo sobre a agenda, temáticas. No caso, porém, falo em ações di-
que, por ferenciadas e coordenadas de uma cidadania
militante, visando tensionar estruturas
e poderes constituídos, nas
mais diversas situações.
A cultura política de inci-
dência internacional é intra-
movimentos e organizações,
ligando o local ao mundial
(confederações sindicais, Via
Campesina, Plataforma de Direitos
Humanos, Oxfam Internacional, Alop,
Articulação Feminista Marcosul, para
dar alguns exemplos). Falta-nos o inter-
movimentos, organizações e redes.
Um elemento metodológico a conside-
rar é a possibilidade de transformar a ideia de
redes – dominantemente de diálogo político e
concertação sobre agendas temáticas comuns
– para algo mais no sentido da iniciativa e
incidência coordenadas, como um verdadeiro
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vanor correia

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Fórum Social Mundial, a construção de um outro mundo possível

trabalho político de cidadania desenvolvido em prioridade. A comunicação e as campanhas


rede pelo conjunto diferenciado de sujeitos em públicas são, assim, uma arena prioritária do
coalizão. Além da agenda propriamente dita modo de agir necessário.
para a ação, definem-se os princípios e valores No FSM, fala-se em democratizar a de-
éticos norteadores, os objetivos comuns e as mocracia. Como? Como concretizar a radicalida-
formas de mobilizar e compartir recursos entre de do agir contido em tal afirmação? Penso que
os parceiros. Isso exige paciente trabalho de se trata de apostar na democracia
construção do que, potencialmente, venha a ser como modo de transformar a
um sujeito político de novo tipo, com identidade sociedade, sem a opção
e propostas, do local ao mundial. pela violência da força
A questão crucial do agir é a disputa e armada. Ou seja, a
construção políticocultural de hegemonia nas radicalidade está em
sociedades locais concretas e nos vários pata- fazer valer as contra-
mares de incidência política, até as estruturas dições da disputa de
de poder mundial (mídia, fóruns de dirigentes hegemonia e poder que
políticos e empresariais, cúpulas etc.). Refiro-me a democracia propicia, com
à disputa de hegemonia no sentido gramsciano uma estratégia de re-
que, em uma apropriação livre, defino como volução permanente,
a criação de “grandes movimentos cidadãos de legitimidade das
irresistíveis”. Como fazer isso sem protagonis- demandas cida-
mos a priori, como é da tradição de esquerda? dãs, instituindo
O segredo, me parece, está na construção de a legalidade do
coalizões abertas, que partem de reconhecer direito como
como indispensáveis os outros e outras e que conquistas de-
de todos e todas depende a própria agenda e mocráticas.
a construção do caminho de sua implementa-
ção. Desse modo podem gestar-se consensos
ativos, fundamentais para dar força na disputa
de hegemonia. Mas é fundamental reconhecer
que, para a cidadania, sempre o espaço público
do debate e da livre-circulação de ideias é a
Leonardo Mello

samuel tosta

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C u lt u r a

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Fórum Social Mundial, a construção de um outro mundo possível

vanor correia

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s u a o p i n i ã o
Entrevista memorável Em sala de aula
Itamar Silva, parabenizo-o por sua entrevista Sou professora em cursos de História, Políticas
na revista Democracia Viva [n. 42, maio de Públicas e Ciência Política e, ao tomar conheci-
2009]. Sinto-me feliz e estimulado em co- mento da revista Democracia Viva, gostei muito
nhecer histórias com as quais me identifico do conteúdo e tal material será muito útil ao
profundamente. desenvolvimento do meu trabalho. Solicito o
Obrigado por nos permitir compartilhar da envio gratuito dos exemplares, incluindo núme-
sua vida. O conhecimento da sua trajetória é ros antigos para que eu possa melhorar minha
um recurso para a luta política. Como escritor, biblioteca particular.
afirmo que a sua entrevista é inspiradora para Geordana Natali Rosa Requeijo
a vida e a ficção. Belo Horizonte/ MG

Hélio Penna
Escritor e dirigente sindical
Solicitação internacional
El Instituto Popular de Capacitación, IPC, me-
Sugestão de permuta diante su Centro de Documentación, solicita a
Recebemos, por meio de doação, três exempla- ustedes consideren la posibilidad de hacernos
res da revista Democracia Viva e temos interesse objeto de donación de la revista impresa De-
em receber os demais exemplares, formalizando mocracia Viva. Material valioso para la consulta,
um acordo de permuta entre as nossas institui- estudio de nuestra comunidad de usuarios,
ções. A revista de nossa publicação é a Ciência además, de poder potenciar nuestro “Proyecto
em Movimento. Político Democrático Regional”, impulsado
Roseli Bastos por nuestra Institución en el Deparatameto de
Centro Universitário Metodista do IPA/Biblioteca Antioquia, Colombia. Agradecemos su atención
Central Guilherme Mylius prestada al presente,
Porto Alegre/RS
Fredy Jiménez Arango
Centro de Documentación Instituto Popular de
Capacitación/ IPC
Mudança de endereço Medellín/ Colombia
Quero, na presente, "implorar" para que vocês
retifiquem meu endereço, pois estou sem rece-
ber a revista. E ela me faz muita falta. Mas se
não constar mais no rol, por favor, insiram meu Nota da redação
nome e endereço. Aguardarei ansiosamente
Novo ano, momento de avaliar o que foi feito e
e parabéns pelo belo trabalho no projeto de pensar nos próximos passos. Para que a revista
construção de cidadania deste país. Democracia Viva fique cada vez melhor, mais
Rute Noemi da Silva Souza que nunca, contamos com a sua colaboração,
Rio de Janeiro/ RJ leitor(a). Agradecemos por todas as mensagens
e todos os artigos recebidos no endereço
eletrônico da revista e no Portal do Ibase ao
Acervo ampliado longo de 2009. Informamos que os textos serão
avaliados e, se possível, publicados. Lembramos
Recebemos, com muita satisfação, o número 42 que também é possível fazer comentários,
da publicação Democracia Viva, pelo qual muito enviar sugestões e ler o conteúdo da revista
agradecemos. O fascículo foi imediatamente no orkut. Esperamos que esse possa ser mais
um canal de troca e estreitamento de nosso
incorporado ao acervo e encontra-se disponível contato com vocês.
para todos os usuários de nossa biblioteca. Agradecemos, também, por todas as cartas
Reafirmamos o nosso interesse em continuar enviadas, informando que, de acordo com a
recebendo os próximos fascículos publicados. necessidade editorial, essas serão publicadas
Antecipadamente, agradecemos. com cortes.
Esperamos que em 2010 vocês continuem
Marcelo Pivatti colaborando com a revista Democracia Viva:
Unifieo/ Centro Univesitário Fieo / Fundação Instituto escrevam, opinem, critiquem, mantenham
de Ensino para Osasco/Biblioteca/ Setor de Periódicos contato!
Osasco/ SP
<democraciaviva@cidadania.org.br>

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s u a o p i n i ã o

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última página
Nani
44
A agenda da revista Democracia Viva é ampla

VIVA
e aberta, parte do compromisso radical com

DEMOCRACIA
a cidadania e com a democracia.

Democracia Viva não se alinha com partidos

nem religiões, mas toma partido desde que

esteja em jogo a possibilidade de aprofundar

a democracia. Não disputa poder, mas quer

exercer um papel de vigilância, monitoramento

e avaliação; com toda autonomia e independência,

das políticas públicas e das ações governamentais,

bem como das práticas empresariais e das

relações econômico-financeiras. Quer ser ativa

como interpeladora de consciências e vontades,

questionando práticas e valores que limitam

a democracia, estimulando a participação cidadã.

Sua qualidade é a força das reflexões, análises,

propostas e dos argumentos.

JANEIRO 2010