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Distribuição Gratuita Ano VII – Número 24 – maio a agosto de 2006

Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais
Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais
Diretoria Executiva Nacional

Antônio Carlos Mesquita Charles Rodrigues Valente


Presidente Vice-Presidente

Bruno Costa Pitanga Maia Alan de Oliveira Lopes Sérgio Luis Fava Frederico Quadros D’Almeida
Secretário-Geral Suplente de Diretor Jurídico Diretor de Comunicação Suplente de Diretor Técnico-Social

Sara L. R. Lenharo Emílio Lenine C. C. da Cruz Rogério L. de Mesquita João Dantas de Carvalho
Suplente de Secretário-Geral Diretor Financeiro Suplente de Diretor de Comunicação Diretor de Aposentados

André Luiz da Costa Morisson Leonardo Vergara Antônio Augusto Araújo João C. L. Ambrósio
Diretor Jurídico Suplente de Diretor Financeiro Diretor Técnico-Social Suplente de Diretor de Aposentados

Conselho Fiscal Deliberativo

Paulo Roberto Fagundes Delluiz Simões de Brito Eurico Monteiro Montenegro Renato Rodrigues Barbosa Alyssandra R. de A. Augusto
Titular Titular Titular Suplente Suplente

Diretorias Regionais

ACRE FOZ DO IGUAÇU PARAÍBA RONDÔNIA


Diretor: André Luís Alonso Loli Diretor: José Augusto Melônio Filho Diretor: Eduardo Aparecido Toledo Diretor: Denis Peters
Suplente: Ramatis Vozniaik de Almeida Suplente: Fernanda Scarton Kantorsky
Suplente: Helder Marques Vieira da Silva
apcf.ac@apcf.org.br GOIÁS apcf.pb@apcf.org.br
apcf.ro@apcf.org.br
Diretor: José Walber Borges Pinheiro
ALAGOAS Suplente: Fabiano Afonso de Sousa Menezes PARANÁ
Diretor: Nivaldo do Nascimento apcf.go@apcf.org.br Diretor: Silvino Schickmann Júnior RORAIMA
Suplente: João Bosco Carvalho de Almeida Suplente: Magda Aparecida de Araújo Kemetz Diretor: Luciana Souto Ferreira
apcf.al@apcf.org.br MARANHÃO apcf.pr@apcf.org.br Suplente: Luciana Souto Ferreira
Diretor: Eufrásio Bezerra de Sousa Filho apcf.rr@apcf.org.br
AMAZONAS Suplente: Luiz Carlos Cardoso Filho PERNAMBUCO
Diretor: Evandro José de Alencar Paton apcf.ma@apcf.org.br Diretor: Agadeilton Gomes L. de Menezes
apcf.am@apcf.org.br SANTA CATARINA
Suplente: Assis Clemente da Silva Filho
MATO GROSSO apcf.pe@apcf.org.br Diretor: Alexanders Tadeu das Neves Belarmino
BAHIA apcf.sc@apcf.org.br
Diretor: Marco Aurélio Gomes Alves
Diretor: Rogério Matheus Vargas PIAUÍ
Suplente: William Gomes Gripp
Suplente: Antônio Luís Brandão Franco Diretor: Ricardo Wagner
apcf.mt@apcf.org.br SÃO PAULO
apcf.ba@apcf.org.br apcf.pi@apcf.org.br
Diretor: Cauê Peres
MATO GROSSO DO SUL
CEARÁ Suplente: Eduardo Agra de Brito Neves
Diretor: Silvio César Paulon RIO DE JANEIRO
Diretor: Fernando Fernandes de Lima apcf.sp@apcf.org.br
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apcf.ms@apcf.org.br Suplente: Marcelo Leal Barbosa
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DISTRITO FEDERAL MINAS GERAIS Diretor: Reinaldo do Couto Passos
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apcf.se@apcf.org.br
apcf.df@apcf.org.br apcf.mg@apcf.org.br Suplente: Odair de Souza Glória Júnior
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ESPÍRITO SANTO PARÁ TOCANTINS
Diretor: Roberto Silveira Diretor: Antonio Carlos Figueiredo dos Santos RIO GRANDE DO SUL Diretor: Carlos Antônio Almeida de Oliveira
Suplente: Fábio Izoton do Nascimento Suplente: Ana Luiza Barbosa de Oliveira Diretor: Maurício Monteiro da Rosa Suplente: Daniel Gonçalves Tadim
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Revista Perícia Federal


ISSN 1806-8073
Planejamento e produção: Capa e artes: Gabriela Pires A revista Perícia Federal é uma publicação Correspondências para: Revista Perícia Federal
Assessoria de Comunicação da APCF Diagramação: Marcos Antonio Pereira quadrimestral da APCF. A revista não se SEPS 714/914 Centro Executivo Sabin, Bloco D,
comunicacao@apcf.org.br Revisão: Lindolfo do Amaral Almeida responsabiliza por informes publicitários salas 223/224 CEP 70390-145 – Brasília/DF
Edição e redação: CTP e Impressão: Athalaia Gráfica nem por opiniões e conceitos emitidos em Telefones: (61) 3346-9481 / 3345-0882
Pedro Peduzzi (Mtb: 4811/014/083vDF) Tiragem: 7.500 exemplares artigos assinados. e-mail: apcf@apcf.org.br - www.apcf.org.br

2 Perícia Federal
Sumário Editorial: Antônio Carlos Mesquita, presidente da APCF
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NOVOS HORIZONTES
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Distribuição Gratuita

Ano VII – Número


24 – maio a agosto
de 2006

omo em qualquer corrida de longa distância, é nos últimos mo-

C mentos que precisamos acelerar para dar “aquele algo mais” du-
Associação
Nacional
dos Peritos
Criminais Federais

rante o sprint final. É nesta etapa que a atual diretoria da APCF


se encontra. Aceleramos ainda mais para deixar nossas contribui-
ções para a categoria e, é claro, para a sociedade.
Hoje o quadro da Polícia Federal conta, graças ao Curso Superior de Po-
lícia, com um grande número de peritos criminais federais preparados pela
Academia Nacional de Polícia para assumir os cargos dirigentes do DPF. A
APCF teve papel decisivo para que a nossa categoria obtivesse tal conquista,
bem como para a realização dos concursos públicos e pelo crescente número
CAPA
de peritos no órgão. Com isso, novos horizontes surgiram.
Cannabis sativa L. É possível constatar uma valorização cada vez maior do papel da polí-
PCFs Daniele Z. Souza, Kátia Michelin, Marcelo G. Holler;
cia científica para as polícias brasileiras. No âmbito da PF, volta e meia es-
Geraldo L. G. Soares, Mara R. Ritter e Neusa R. Bianchi
PÁGINA 17
cutam-se elogios por parte do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,
satisfeito com o sucesso obtido em inúmeras operações sem a necessida-
O Potencial das Perícias de Engenharia de de nenhum disparo – e com total respeito aos direitos humanos.
em Rodovias – A Quinta Rodovia Novos horizontes surgem também com o projeto preparado para a Cam-
PCFs Pedro de Sousa Oliveira Júnior e Régis Signor panha de Valorização da Perícia Criminal Federal, que apresenta resultados
PÁGINA 7
antes mesmo de ser iniciada. É o caso do PL do Su-
Arquivo APCF
perfaturamento, elaborado pela APCF e apresentado
Determinação da Prioridade e da no Congresso Nacional pelo deputado Carlos Mota.
Contemporaneidade de Lançamentos Estamos surpresos com a receptividade da matéria e,
em Lados Contrários da Mesma Folha em breve, entregaremos outro projeto, conforme rela-
PCFs Marcelo Gatteli Holler, Daniele Zago Souza tado na matéria da página 30. Vários outros serão ela-
e Kátia Michelin borados a partir das sugestões dos colegas, contidas
PÁGINA 9 nos artigos do Livro da APCF.
Outro produto previsto na Campanha é o Prêmio
Micro-CCD: Perícia Jornalística, destinado aos repórteres que
Uma Alternativa para a Cromatografia veicularem matérias ressaltando A Criminalística,
de Camada Delgada Tradicional
PCFs Adriano Otávio Maldaner e Luiza Nicolau Caldas
PÁGINA 11

sua parcela de
suas áreas de conhecimento e o papel do Perito Cri-
Mobilize-se e dê minal Federal para a sociedade. Planejamos fazer
a entrega desse prêmio – juntamente com placas e
certificados a autoridades dos três Poderes que se
Novos Desafios da Criminalística: contribuição para destacarem em sua função – a cada 4 de dezembro,
Perícias Criminais em Peças Sacras
esta que é uma das o Dia do Perito.
PCFs Alan de Oliveira Lopes e Acir de Oliveira Júnior Os detalhes desse projeto serão apresentados du-
PÁGINA 23 categorias mais rante o III Encontro Nacional de Peritos Criminais Fe-
importantes para a derais. Não deixe de participar deste que é o evento
A Perícia no Sistema
Único de Segurança Pública

sociedade brasileira
mais importante da Criminalística nacional.
O retorno que obtivemos com a última edição da
PCF Paulo Roberto Fagundes revista Perícia Federal foi fabuloso. Lembro a todos
PÁGINA 26 que esta é a vitrine de vocês. Continuem dando suas
colaborações na forma de artigos e não deixem de
Intercâmbio Pericial
abastecer nossa Assessoria de Comunicação com as informações de rele-
Pedro Peduzzi PÁGINA 29
vância para a Criminalística nacional.
APCF elabora mais um Projeto de Lei Aproxima-se a eleição da nova diretoria. E nesta fase a participação, ativa
Pedro Peduzzi PÁGINAS 30
ou não, de nossos associados implicará diretamente a estruturação da APCF
para os próximos dois anos. As chapas interessadas em participar do proces-
Substitutivo é apresentado na CCJC so eleitoral poderão se inscrever a partir da segunda quinzena de outubro.
Pedro Peduzzi PÁGINAS 31 Mobilize-se e dê sua parcela de contribuição para esta que é uma das cate-
gorias mais importantes para a sociedade brasileira.
Notas e Curtas PÁGINAS 32 A 34
Saudações periciais!

Perícia Federal 3
ENTREVISTA: Wil Fagel, ex-presidente do ENFHEx

A grafotecnia européia

Arquivo Pessoal
Perito grafotécnico do Netherlan-
ds Forensic Institute (NFI), um dos
institutos de Criminalística europeus
mais desenvolvidos no que se refe-
re à certificação de qualidade, Wil
Fagel é uma das grandes referên-
cias mundiais em sua área. Foi, por
dois anos, presidente do European
Network of Forensic Handwriting Ex-
perts (ENFHEx), um dos grupos de
trabalho do European Network of Fo-
rensic Science Institutes (ENFSI).
Atualmente, é membro do comitê di-
rigente e editor do site da ENFHEx.
Nesta entrevista concedida ao PCF
Carlos André Xavier Villela, Fagel
fala sobre como as atividades de
grafotecnia são desenvolvidas nos
órgãos europeus e aponta os desa-
fios contemporâneos que considera
mais importantes para a área. A ín-
tegra da conversa entre os dois pe-
ritos pode ser encontrada na página
do SETEC/RS na Intranet.

Conte-nos um pouco sobre sua for- novembro de 2005, fui o presidente do pelos demais exames nos documen-
mação acadêmica e experiência pro- ENFHEx. No último encontro do grupo, tos. Por que alguns institutos euro-
fissional. ocorrido em novembro de 2005, em Bu- peus, como o LPC-Portugal, possuem
Estudei Psicologia na Universidade dapeste, eu deixei a presidência. Atual- diferentes laboratórios: um para os
de Amsterdã, me especializei em Psico- mente, sou membro do comitê dirigente e exames grafotécnicos e outro para os
lingüística e fiz depois uma graduação editor do site do ENFHEx. demais exames documentoscópicos?
em Lingüística Geral. Após ter trabalhado Em alguns órgãos europeus, tan-
alguns anos na Universidade de Amster-
dã em um projeto de fonética para avalia-
ção das características de voz e pronún-
cia de falantes do holandês, entrei para o

Ocasionalmente, os peritos
grafotécnicos também
to o exame grafotécnico como o exame
técnico de documentos são realizados
por uma mesma pessoa, como no Rei-
no Unido, por exemplo. Em outros, toda-
Netherlands Forensic Institute (NFI) em procedem a alguns exames via, como no BKA alemão e no NFI (Ho-
1983, onde recebi a formação de perito landa), estes são considerados diferen-
grafotécnico. Após alguns anos de estu-
documentoscópicos muito tes campos de expertise, exercidos por
do (treinamento supervisionado por pe- simples, como utilizar o ESDA diferentes profissionais, o que não signi-
ritos mais experientes e estudo bibliográ- ou procurar diferenças nas fica que trabalhem completamente sepa-
fico), fui certificado pelo NFI como perito
grafotécnico em 1991. Fui secretário do

tintas por meio do VSC rados uns dos outros. No caso do NFI, pe-
ritos documentoscópicos e peritos grafo-
comitê dirigente do European Network of técnicos estiveram sempre em um mes-
Forensic Handwriting Experts (ENFHEx), mo departamento, trabalhando próximos
um dos grupos de trabalho do Europe- Muitos institutos de Criminalística, uns dos outros. Ocasionalmente, os pe-
an Network of Forensic Science Institu- como o INC, possuem um laboratório ritos grafotécnicos também procedem a
te (ENFSI), desde a criação do grupo em de Documentoscopia responsável tan- alguns exames documentoscópicos mui-
1997 até outubro de 2003. Desta data até to pelos exames grafotécnicos como to simples. Eu creio que o diferencial des-

4 Perícia Federal
tes laboratórios nos quais o exame técni- opinião”. Em alguns casos, dizemos ape- uso de conclusões bayesianas seja mais
co de documentos é procedido por outros nas que é “possível”. Neste momento, correto do ponto de vista científico, tenho
peritos que não peritos grafotécnicos, todo o NFI está gradualmente migran- medo que o problema das discussões na
como no caso do NFI, é que os examina- do para uma forma bayesiana de relatar Justiça sobre as conclusões probabilís-
dores de documentos estão mais espe- conclusões, que nos parece mais “cien- ticas não pare enquanto não pudermos
cializados em determinados tipos de exa- tificamente correta”. Em algumas áreas efetivamente quantificar as probabilida-
me, quais sejam: análises químicas das periciais os peritos já vêm utilizando essa des, como nos laudos de DNA.
tintas e dos papéis. Peritos documentos- nova maneira. Em outras, todavia, como
cópicos que se propõem a atuar nas duas na Grafotecnia, ainda está se discutindo Como vão as recentes tentativas
áreas raramente realizam eles mesmos a melhor maneira de se redigir as conclu- de se converter o exame grafotécni-
estes exames. Já que cerca de 80% do sões. O único consenso é que, segundo co em um exame verdadeiramente es-
trabalho que estes fazem são exames essa nova abordagem, teremos que re- tatístico? Como vai o projeto do BKA
grafotécnicos, não lhes sobra muito tem- latar explicitamente as hipóteses por nós intitulado “Harmonização e Definição
po para ir muito a fundo nas análises quí- consideradas e concluir em cima dos ele- de Conclusões, Implementando a Te-
micas. No NFI, a verificação da autentici- mentos encontrados sob a ótica de cada oria de Bayes”? O senhor acredita que
dade documental é, portanto, um traba- uma dessas hipóteses. a estatística bayesiana tenha realmen-
lho conjunto entre o perito grafotécnico, te a contribuir no exame grafotécnico?
que checa as assinaturas, e o perito do- Conte-nos um pouco sobre os progra-
cumentoscópico, que verifica as demais
características do documento.

Em alguns países, os peritos gra-



Neste momento, todo o
NFI está gradualmente
mas FISH, SCRIPT e WANDA.
Tenho informações de que este pro-
jeto não tem trazido significativos avan-
ços nesta área. Fui informado de que
fotécnicos encerram seus laudos com migrando para uma seu primeiro objetivo era padronizar –
conclusões categóricas do tipo: au- forma bayesiana de ou ainda harmonizar – as conclusões
têntico / falso / exame inconclusivo. probabilísticas usadas por todos os pe-
relatar conclusões,
Em outros países, todavia, conclu- ritos grafotécnicos que atuam para auto-
sões baseadas em escalas de proba- que nos parece mais ridades públicas da Alemanha, de forma
bilidade são também admitidas. Final-
mente, em outros países, conclusões

‘cientificamente correta’ que sua meta não era converter o exa-
me grafotécnico em um “exame verda-
categóricas são consideradas inacei- deiramente estatístico”. Na verdade, a
táveis devido às intrínsecas limita- Grafotecnia sempre foi uma disciplina
ções do exame grafotécnico. Como o O exame grafotécnico é passível estatística. Nós é que temos sido inca-
senhor vê essa questão? de erro. Baseando-se nisso alguns jul- pazes de quantificar suas probabilida-
Desde que eu trabalho no NFI – e pro- gam inadmissível a utilização de con- des. Tampouco acredito que estaremos
vavelmente há muito mais tempo que isso clusões categóricas. Mas uma subje- em condições de atingir essa meta den-
– vêm se discutindo questões relativas a tiva classificação em uma escala “pro- tro de um futuro próximo, pelo menos de
como formular uma conclusão e qual es- babilística” de conclusões não nos re- forma aproveitável em nossa prática diá-
cala de probabilidades deve ser utilizada. mete a um problema ainda maior? ria. Creio que o que é perfeitamente pos-
A mais contundente forma de conclusão Uma subjetiva classificação em uma sível seria obter-se informações quanti-
por nós utilizada até o momento é “com escala “probabilística” de conclusões re- tativas sobre a confiabilidade e a valida-
a probabilidade beirando a certeza”, por almente causa, seguidamente, confusas de das conclusões fornecidas pelos peri-
exemplo, dizer que a carta “C” foi (ou não discussões na Justiça sobre o sentido, tos grafotécnicos submetendo-os a tes-
foi) produzida pela pessoa “P”. Para nós por exemplo, do termo “provável”. A de- tes de proficiência. Sobre os programas
isso está bem próximo de uma conclu- fesa gosta de pedir para que sejam quan- FISH, SCRIPT e WANDA, são sistemas
são definitiva e categórica. Na verdade, tificadas essas conclusões, na forma de automatizados para a classificação de
quando usamos essa conclusão estamos uma percentagem ou chance de ocorrên- manuscritos, armazenamento em banco
pessoalmente convencidos de que a pes- cia, a qual – é claro – não temos como for- de dados eletrônico e busca a partir de
soa “P” escreveu a carta “C”. Dessa for- necer. Pode-se resolver esse problema elementos de convergência. Tais siste-
ma, não se trata de uma questão de con- recorrendo-se às conclusões categóricas mas podem ser de grande utilidade nos
vencimento, mas principalmente de uma ou, quando essas não forem possíveis, casos em que uma grande coleção de
questão científico-filosófica entre usar ou ao chavão “exame inconclusivo”. Algu- manuscritos precisa ser examinada, a
não uma conclusão categórica. Se o exa- mas vezes, entretanto, existem indicati- fim de se verificar se contêm elementos
me nos leva a uma indiciação, insuficien- vos fracos ou fortes, insuficientes todavia de uma mesma pessoa, como um nova
te, portanto, para a conclusão mais con- para uma conclusão categórica. Eu acre- carta anônima por exemplo. Isso toma
tundente – por qualquer razão, seja pela dito que nós devamos ser capazes de ex- muito tempo quando feito manualmen-
pouca quantidade de material questiona- pressar isso de alguma forma. Eu não te. Até onde sei, o programa FISH – de-
do ou pela insuficiência dos padrões de gostaria de ter que escolher entre uma senvolvido pelo BKA – foi o primeiro pro-
confronto –, podemos usar os termos “al- conclusão categórica ou uma absten- grama desse tipo. O SCRIPT é um siste-
tamente provável”, “provável” ou “sem ção de opinião unicamente. Ainda que o ma similar, porém desenvolvido por uma

Perícia Federal 5
ENTREVISTA: Wil Fagel, ex-presidente do ENFHEx

organização holandesa chamada TNO. Nos últimos 30 anos tem havido um bros do ENFHEx e outros colegas, foram
Há vários anos, o NFI pediu ao Instituto significativo aumento na mobilidade e na acrescentadas a esse banco de dados ao
NICI da Universidade de Nymegen para comunicação dentro da Europa. Os fa- longo dos anos.
comparar as performances desses dois tores que têm contribuído para esse au-
sistemas, o que foi feito em cooperação mento são o relaxamento das fronteiras É possível se fazer com que o exa-
com o BKA e a TNO. Os dois sistemas entre os países que constituem a União me grafotécnico atenda completa-
não diferiram muito, apesar do programa Européia, a queda da Cortina de Ferro, os mente às exigências da norma ISO/IEC
SCRIPT ter sido considerado mais amis- novos países que estão ingressando na 17025? Vocês já têm alguma certifica-
toso ao usuário. Usando as recomenda- comunidade européia e o crescente fluxo ção de qualidade no NFI? E os outros
ções fornecidas pelos pesquisadores do de imigrantes e refugiados oriundos de países europeus? O senhor considera
NICI, o BKA começou então um projeto fora de nosso continente. Devido ao uso que esta seja uma meta importante?
de modernização do sistema FISH. No- de diferentes cartilhas de alfabetização Os procedimentos de Grafotecnia do
vos módulos foram desenvolvidos por e métodos de ensino, as escritas podem NFI já possuem certificação junto ao nos-
um consórcio de empresas, dentre ou- apresentar-se bastante diferentes en- so órgão nacional certificador, o Nether-
tras: o Instituto NICI e o Instituto Frau- tre as populações, mesmo entre países lands Board for Accredition, baseada nas
nhofer de Berlim. Este projeto foi cha- que utilizam o mesmo alfabeto. Ao longo exigências da ISO/IEC 17025. Então, em
mado de WANDA. Infelizmente, o BKA dos anos, temos sido solicitados a, cada princípio, é possível preencher todos os
interrompeu o projeto após aproximada- vez mais, confrontar inusitados tipos de requisitos satisfatoriamente. Também
mente um ano, até onde eu sei, devido a escrita. Para entender a importância de em algumas outras nações européias o
limitações financeiras. Nesse meio tem- uma específica particularidade gráfica de exame grafotécnico já está certificado
po, o sistema SCRIPT foi muito pouco uma pessoa faz-se necessário determi- de acordo com a norma ISO/IEC 17025,
utilizado e parece ter caído em desuso. como os países do Reino Unido e alguns


O programa FISH ainda está sendo uti- países escandinavos. Em muitos outros
lizado pelo BKA e pelo Serviço Secreto países europeus, laboratórios de polí-
dos Estados Unidos, o qual desenvolveu Na verdade, a Grafotecnia cia ou do governo estão se empenhando
uma versão windows do sistema. Ape- sempre foi uma disciplina para conseguir a certificação de seus pro-
sar de o BKA não estar mais envolvido cedimentos de Grafotecnia, como parte
no projeto, o Instituto NICI e o Instituto
estatística. Nós é que temos de seus sistemas de garantia de qualida-
de Inteligência Artificial da Universidade sido incapazes de quantificar de. Eu acredito que essa seja uma meta
de Groningen continuaram a desenvol-
ver rotinas para melhorar os sistemas de

suas probabilidades importante porque, infelizmente, existe
uma quantidade muito grande de char-
classificação de manuscritos. Eles con- latões e grafologistas, sem a necessária
seguiram a subvenção para um projeto qualificação para o exame grafotécnico,
de pesquisa, com duração de três anos, nar quão rara ela é dentro dos padrões atuando nessa área e tentando se apro-
intitulado TRIGRAPH. Mais informações de escrita do país de onde provém essa veitar do fato de que a maioria das pesso-
sobre este projeto podem ser acessadas pessoa. O que parece ser um elemento as não sabe qual a diferença entre Grafo-
pelos seguintes endereços: www.ai.rug. característico muito raro em um determi- logia e Grafotecnia.
nl/~axel/projects/index.html e www.ral- nado país pode ser algo bastante comum
phniels.nl/pubs/niels-introducingtrigra- em outro. Para ficar mais a par dessas A seu ver, quais são os atuais de-
ph.pdf. O NFI também é um dos parcei- “peculiaridades nacionais de escrita” co- safios da Grafotecnia? Quais são suas
ros deste projeto. Nesse meio tempo ou- meçamos a colecionar cartilhas de alfa- expectativas para o futuro?
tros cientistas também têm atuado ati- betização e amostras de escrita de todo Eu creio que o atual desafio mais im-
vamente nesse campo. Por exemplo, o o mundo. O banco de dados internacional portante da Grafotecnia seja o de melhor
prof. Sargur Srihari, que está trabalhan- de padrões e cartilhas pode ser também validar a premissa da individualidade do
do para o Instituto CEDAR da Universi- útil para se descobrir de que país é oriun- gesto gráfico, bem como os métodos gra-
dade de Nova Iorque em Buffalo. Ele e do o autor de uma determinada carta anô- fotécnicos de identificação de autorias.
seus colaboradores desenvolveram um nima, nos casos em que não houver sus- Além disso, penso que seria importante
programa chamado CEDAR FOX. Maio- peitos. Além disso, as cartilhas mudam pesquisar-se uma forma de tornar as ob-
res informações em www.cedar.buffalo. ao longo dos anos devido aos novos tipos servações dos peritos grafotécnicos mais
edu/NIJ/index.html. de instrumentos de escrita e aos dinâmi- objetivas, com o uso de algoritmos com-
cos conceitos de qual seria o melhor mé- putacionais, que automaticamente extra-
Temos conhecimento de que o se- todo de ensino. Assim sendo, diferenças íssem medidas de relevantes caracterís-
nhor está pessoalmente envolvido entre cartilhas produzidas ao longo do ticas da escrita. Eu penso que tais medi-
com um projeto do grupo ENFHEx cha- tempo podem também ajudar na estima- ções quantitativas poderiam ser de gran-
mado “Padrões Gráficos e Cartilhas de tiva da idade de um autor desconhecido. de valia para melhor fundamentar as con-
Alfabetização”. O senhor poderia nos O banco de cartilhas começou com ima- clusões dos peritos, apesar de não acre-
explicar qual o objetivo deste projeto? gens digitalizadas a partir das coleções ditar que estas possam vir a ser suficien-
Por que colecionar padrões de escrita originalmente em papel do NFI e do BKA. temente completas e precisas a ponto de
e cartilhas de todo o mundo? Novas cartilhas, fornecidas pelos mem- ser dispensada a opinião do experto.

6 Perícia Federal
RODOVIAS: PCFS PEDRO DE SOUSA OLIVEIRA JÚNIOR (BACHAREL EM ENGENHARIA CIVIL) E RÉGIS SIGNOR (MESTRE EM ENGENHARIA CIVIL E DOUTOR EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO)

Tribunal de Contas da União vos que as auditorias realizadas pelo TCU Durante a realização da perícia, os peri-

O (TCU) acaba de concluir o rela-


tório1 de avaliação do Programa
Emergencial de Trafegabilidade
e Segurança nas Estradas (PETSE), cujo
objetivo era o restabelecimento da integri-
por sempre possuírem a parte de levanta-
mento de dados in loco.

PERÍCIA REALIZADA
Ainda no ano de 2004 foi igualmente peri-
tos verificaram que a proposta vencedora da
licitação era cerca de 20% abaixo do valor de
referência oriundo do sistema SICRO, man-
tido pelo DNIT. Observou-se, no entanto, que
após a subcontratação apontada pelo TCU e
dade física e das condições de trafegabilida- ciado um trecho rodoviário na mesma região outras manobras de preços, o valor do con-
de e segurança dos usuários das rodovias do país, que agora completa o total de cinco trato já se encontrava 36% acima do SICRO,
integrantes do Sistema Nacional de Viação rodovias anunciadas (ver P.F. nº 23). depois da 50ª medição.
(SNV). Segundo divulgado em seu sítio na O trecho periciado possui extensão Não bastassem essas irregularidades
internet, o TCU afirma que o programa teve aproximada de 70 km, sem pavimentação de cunho formal, a extensão do trecho e o
algumas alterações em relação à proposta asfáltica mas com revestimento primário em fato de não haver sido executada pavimen-
original e recursos oriundos de três medidas determinada parte, estando o restante do tação asfáltica requereriam uma perícia
provisórias. Foram fiscalizados cerca de trecho sem serviços executados. Um rela- trabalhosa, com necessidade de quantifi-
40,4% dos itens do programa, sendo que em tório de auditoria do TCU apontava, den- cação do movimento de terra executado.
47,5% das fiscalizações foram detectadas tre outras possíveis irregularidades, que Entretanto, os peritos se depararam com
irregularidades gravíssimas, as quais ense- a rodovia teve suas obras paralisadas por uma situação de abandono da rodovia.
javam a paralisação das obras. indisponibilidade de recursos. Destacava a Alguns trechos estavam intrafegáveis devi-
Apenas cerca de 7,9% estavam isen- existência de vários aditivos e a retomada do à erosão, conforme mostra a foto desta
tas de quaisquer irregularidades, o que das obras anos depois, após a subcontra- página, ou ainda por problemas ambien-
leva à quase totalidade dos serviços com tação de um consórcio de empresas, tendo tais como se vê na foto 2. Também merece
algum tipo de problema. Esse elevadíssimo sido necessária a recuperação dos serviços menção o fato de que muitos segmentos
percentual de obras com irregularidades até então executados. não receberam qualquer serviço, enquan-
constatadas somente demonstra a enorme Citava também que tal subcontrata- to outros apenas foram desmatados e já
importância dos trabalhos periciais realiza- ção era vinculada a um contrato já extinto têm a vegetação regenerada.
dos atualmente em rodovias construídas por decurso de prazo e, portanto, sem vali-
com recursos da União. Os laudos dade legal. Haveria necessidade de fazer
elaborados, muitas vezes, re-trabalho em cerca de 25% dos serviços
são ainda mais conclusi- já executados e, também, fazer a pavimen-
tação – por meio de nova licitação, aumen-
tando em 48% os serviços totais a executar.

O Potencial das Perícias de


Engenharia em Rodovias
A Quinta Rodovia
Dando seqüência ao
artigo publicado na última
edição da revista Perícia
Federal, peritos falam sobre o
trabalho realizado na quinta e última
rodovia da série. Nela, mais de 80% dos
recursos investidos foram desperdiçados sem
que a sociedade obtivesse nenhum tipo de benefício
Perícia Federal 7
RODOVIAS: PCFS PEDRO DE SOUSA OLIVEIRA JÚNIOR (BACHAREL EM ENGENHARIA CIVIL) E RÉGIS SIGNOR (MESTRE EM ENGENHARIA CIVIL E DOUTOR EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO)

Dessa forma, considerando a peculia- Diante dos absurdos já mostrados e Depois de flagrados tantos desperdícios
ridade da situação, optaram por percorrer da impossibilidade de coleta de dados que no trecho, foi verificada ainda a existência
o trecho e realizar uma análise simplifica- viabilizassem cálculos matemáticos preci- de dois novos procedimentos licitatórios,
da em função da perda das características sos, restou aos peritos apenas a tarefa de realizados em 2000, que têm por objeto
morfológicas executadas, o que impedia o comprovar, sob a forma de percentuais, os a pavimentação dessa mesma rodovia.
levantamento correto dos serviços de terra- valores compatíveis com o trecho executa- Constatou-se que o preço global praticado
plenagem executados. do, de acordo com o projeto existente, e os pelas empresas foi superior ao do SICRO
valores efetivamente pagos. em mais de 49% para um contrato e mais
Considerando que não havia qualquer de 60% para o outro, o que caracteriza
autorização para alteração do projeto dessa perfeitamente a prática de sobrepreço em
rodovia e tendo sido executados, até a últi- ambos os casos. Até esta data, felizmente,
ma medição do contrato original, apenas tais contratos não chegaram a ser executa-
cerca de 50 km de um total de 190 km, o per- dos, para o bem do erário.
centual correto a ser atingido seria por volta
de 26%, admitida certa variação, uma vez CONCLUSÃO
que a distribuição do movimento de terra As empresas contratadas cobraram,
não é linear ao longo do trecho. No entan- durante um período de quase onze anos,
to, existiam itens em que foram cobrados e cujo contrato inicial tinha duração prevista
pagos mais de 93% do total previsto. para menos de dois anos, mais de R$ 20
Foto 2 – Trecho intrafegável em função de
babaçuzal existente no traçado da rodovia O mesmo aconteceu na sub-contrata- milhões para a execução de 70 km de uma
ção: dos cerca de 140 km a executar, apenas rodovia que nunca foi acabada.
Além dos problemas já relatados, foram 20 km foram feitos pelo consórcio de empre- Adotando-se um valor médio de R$ 600
detectadas ainda algumas situações com- sas que assumiram a obra, resultando num mil/km de rodovia, advindo de cálculos das
pletamente absurdas, tais como uma ponte percentual de cerca de 15%. Ocorre que rodovias abordadas no artigo anterior (P.F.
sem aterro nas cabeceiras, mostrada na existem itens em que foram cobrados 853% nº 23), realizadas na mesma região e época,
fotografia 3, e bueiros de drenagem sobre o do total previsto. Em um deles, cobraram estima-se que com o valor gasto neste trecho
solo natural sem a execução das camadas 3.461% a mais, o que é absurdo e onera, de 70 km poder-se-ia, grosso modo, construir
sobre os mesmos, apresentado na fotografia sobremaneira, os custos reais da obra. uma rodovia asfaltada com 33 km de exten-
4, o que impedia a utilização de tais serviços. são e passível de utilização pela população.
PROBLEMA SOCIAL Dessa forma, é inevitável concluir que
Em que pese a grande importância do o investimento teria sido muito melhor apli-
ponto de vista financeiro, tais fatos apresen- cado se, ao invés de intervenções em pon-
tam um grave problema social, já que não tos aleatórios de uma grande extensão, o
permitem a utilização dos serviços em que poder público tivesse optado por iniciar
foram empregados milhões de reais. Isso e terminar a rodovia em trechos consecu-
causa graves prejuízos à comunidade da tivos, de forma que o resultado final seria
região, que tem frustradas suas perspecti- melhor e deveria perdurar até a atualidade,
vas de desenvolvimento ante a inoperância em contraste com os pontos intrafegáveis
do sistema viário existente, ficando à mercê hoje observados.
de iniciativas da própria população, como a Além disso, neste caso específico, os
mostrada na fotografia 5. peritos puderam fugir um pouco à regra
Foto 3 – Ponte sem aterro e sem uso geral de checar os custos apenas após
a obra executada, tendo sido verificado
sobrepreço nos dois contratos para conti-
Fotos: Arquivo APCF

nuação da obra dessa rodovia, os quais


não chegaram a ser executados, podendo
preservar assim a boa aplicação das verbas
públicas e evitar o desvio de recursos que
inevitavelmente viria a ocorrer.

1. TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO (TCU).


TCU conclui fiscalização da operação tapa-buracos.
Disponível em: <http://www2.tcu.gov.br/portal/page?_
Foto 5 – Trecho com toras de madeira para pageid=33,2476025&_dad=portal&_schema=PORTAL>
Foto 4 – Bueiros sobre o terreno natural permitir o trânsito de veículos (Acessado em 07/08/2006).

8 Perícia Federal
DOCUMENTOSCOPIA: PCFS MARCELO GATTELI HOLLER (QUÍMICO INDUSTRIAL E MESTRE EM QUÍMICA), DANIELE ZAGO SOUZA (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA),
KÁTIA MICHELIN (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA E ESPECIALISTA EM GENÉTICA FORENSE)

Determinação da Prioridade e a
Contemporaneidade de Lançamentos
em Lados Contrários da Mesma Folha
Neste trabalho é apresentada uma técnica simples, que em alguns casos possibilita ao perito
determinar a ordem de produção de lançamentos manuscritos feitos em lados contrários de uma
mesma folha, ao mesmo tempo em que estabelece a contemporaneidade desses lançamentos

Introdução um lançamento prévio, na mes-


ma região do papel, a pressão
m Documentoscopia, a deter- do lançamento posterior pode

E minação da prioridade e da
contemporaneidade de lança-
mentos sempre foi uma ques-
tão de grande interesse. Todavia, uma
determinação inequívoca da prioridade
ocasionar a transferência de
tinta do primeiro para uma folha
de papel com o qual haja contato,
caso a tinta ainda não esteja comple-
tamente seca.
de lançamentos só é possível em algu- Pela observação dessas marcas
mas situações restritas. de decalque, é possível determinar
Na literatura brasileira, já se tem fa- qual lançamento realizou-se pri-
lado sobre a determinação da priorida- meiro. Como a transferência só
de de lançamentos quando ocorre o ocorre enquanto a tinta estiver
“cruzamento de traços” (ou seja, quan- fresca, é possível determinar
do um lançamento é feito parcialmente também a contemporaneidade
sobre outro já existente). Sabe-se que dos lançamentos.
mesmo quando há cruzamento de tra- Um exemplo gráfico pode
ços, nem sempre é possível determinar ser visto nas fotos abaixo:
qual lançamento foi aposto sobre qual,
embora haja uma série de situações
em que isso é possível.
Por outro lado, a determinação da
prioridade de lançamentos (e cumula-
tivamente de sua contemporaneida- Figura 1 – primeiro lançamento efetuado
de) em lançamentos produzidos em la-
dos contrários de uma mesma folha é
um assunto, aparentemente, pouco co-
nhecido no Brasil, mesmo sendo, em
certas situações, um caso solucionável Figura 2 – segundo lançamento, efetuado
sobre o primeiro no lado contrário da folha
e encontrado com relativa freqüência.
David Ellen, em seu livro The Scienti-
fic Examination of Documents: Methods
and Techniques , faz referência ao artifí-
cio que possibilita a determinação: o fun- Figura 3 – marcas de decalque causadas pela
damento do método é que, quando um pressão do segundo lançamento sobre o primeiro
manuscrito com esferográfica é efetua-
do no lado contrário da folha onde existe

Perícia Federal 9
DOCUMENTOSCOPIA: PCFS MARCELO GATTELI HOLLER (QUÍMICO INDUSTRIAL E MESTRE EM QUÍMICA), DANIELE ZAGO SOUZA (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA),
KÁTIA MICHELIN (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA E ESPECIALISTA EM GENÉTICA FORENSE)

Para haver as marcas de decal-


EXPERIMENTOS REALIZADOS
que, obviamente é necessário que
exista uma folha de papel em contato
Para interpretar corretamente o efeito estudado, é preciso conhecer a influência
com o primeiro lançamento. Essa situ- de certos fatores, quais sejam:
ação é comumente encontrada quan- 1. Por quanto tempo pode haver a transferência de tinta por decalque?
do do preenchimento de cadernos, 2. A transferência de tinta acontece apenas quando a pressão devida aos lança-
cadernetas etc. mentos posteriores é feita diretamente no lado contrário da mesma folha do primei-
Observe-se que as marcas de de- ro lançamento ou também pode acontecer quando a pressão é feita com outras
calque reproduzem parte do segundo folhas interpostas?
lançamento, onde este se sobrepõe ao 3. A observação de marcas de transferência por decalque é sempre indicativa de
primeiro. Existe uma perfeita concor- que houve lançamentos contemporâneos ou o fenômeno pode ocorrer pelo simples
contato do papel entintado sem o efeito da pressão de caneta?
dância entre as marcas de decalque e
Para responder a essas questões, os autores fizeram uma série de experimen-
as intersecções do primeiro e segundo tos, utilizando as canetas esferográficas “Bic Cristal”, “Bic Fine Plus” e “Pilot BP-S”,
lançamentos (feitos em lados contrá- e papel ofsete de gramatura 75 g/m2 e 63 g/m2.
rios da mesma folha).
Também foi possível observar a RESULTADOS
ocorrência de transferência de tinta
por decalque quando a pressão sobre Nos experimentos realizados, os autores verificaram que o efeito de transferên-
o lançamento é feita com uma ou mais cia de tinta por decalque ocorreu de forma clara apenas nos três primeiros minutos
folhas sobre a folha do primeiro lança- após o lançamento inicial.
Vide ilustração abaixo:
mento. Todavia, as marcas de decal-
que assim produzidas têm um aspec- Tempo 1ºs lançamentos 2ºs lançamentos Marcas de decalque
to diferente daquele observado quando
a pressão é feita diretamente no lado 0 min.
contrário da mesma folha. Quando há
folhas interpostas, as marcas tendem a
1 min.
ser mais difusas e menos nítidas.
Quanto à transferência de tinta pelo
simples contato entre folhas de papel 2 min.
entintadas, sob pressão, os experimen-
tos demonstraram que, quando ela exis- 3 min.
te, as marcas de decalque produzidas
são diferentes daquelas produzidas por
5 min.
pressão localizada devido ao ato de es-
crever no lado contrário da folha, o que Figura 4 – marcas de decalque (coluna da direita) produzidas pelos lançamentos mos-
previne a ocorrência de enganos. trados na coluna central e feitos em diferentes tempos no lado contrário da folha onde
já existiam os traços horizontais mostrados na coluna à esquerda. Observe-se o esmae-
Conclusões cimento progressivo das marcas de decalque em função do tempo
O método estudado mostrou-se
bastante confiável na determinação são de lançamentos feitos no lado Aplicabilidade da técnica
da prioridade e da contemporaneidade contrário da folha dos lançamentos ini- A observação das marcas de decal-
dos lançamentos. ciais, deve-se observar uma perfeita que causadas por lançamentos em la-
O efeito da transferência de tin- concordância entre as marcas de de- dos contrários da mesma folha fica limi-
ta por decalque foi observado de ma- calque e a intersecção entre o primei- tada aos casos em que os lançamentos
neira clara apenas nos três primei- ro e segundo lançamentos, o que se foram feitos a caneta esferográfica com
ros minutos após a feitura do primeiro pode conseguir sobrepondo a folha diferença de poucos minutos. Essa si-
lançamento com caneta esferográfi- onde se encontram as marcas de de- tuação pode ser encontrada amiúde
ca. Assim, em sendo observadas as calque àquela onde estão o primeiro e quando do preenchimento fraudulento
marcas de decalque características, segundo lançamentos, e observando de carteiras de trabalho. Utilizando esse
pode-se dizer que os lançamentos en- o conjunto sob forte luz emergente. método, os autores puderam em diver-
volvidos foram feitos com diferença Não se observaram diferenças sig- sos casos demonstrar que lançamentos
máxima de poucos minutos. nificativas quando se utilizaram dife- que supostamente deveriam ter sido fei-
Para descartar a possibilidade de rentes canetas e papéis. O efeito da tos com diferença de anos haviam sido
as marcas de decalque serem causa- temperatura e umidade ambientes produzidos em um mesmo momento,
das por outros motivos que não a pres- não foi testado. comprovando a presença de fraude.

10 Perícia Federal
CROMATOGRAFIA: PCFS ADRIANO OTÁVIO MALDANER (BACHAREL EM QUÍMICA E DOUTOR EM CIÊNCIAS – QUÍMICA ORGÂNICA) E LUIZA NICOLAU CALDAS (BACHAREL EM QUÍMICA)

Uma Alternativa para a Cromatografia


de Camada Delgada Tradicional
A CCD feita em placas preparativas é rotineiramente utilizada nos laboratórios de Química das
unidades de Criminalística em procedimentos de identificações qualitativas diversas e, mais
especificamente, na realização dos laudos periciais de caracterização de drogas de abuso

Cromatografia de Camada prática a responsabilidade ambiental

A Delgada – CCD (do inglês


Thin Layer Chromatography
– TLC) é uma técnica clássi-
ca de identificação de substâncias or-
gânicas, sendo amplamente relata-
que todos devem cultivar.
Outra vantagem da técnica ba-
seia-se na grande resistência da fina
camada de fase estacionária das pla-
cas de CCD com base de alumínio em
da e extremamente útil em situações relação às placas tradicionais, permi-
rotineiras de análise toxicológica. Os tindo a imersão direta das placas de
esforços para modernização dos la- Micro-CCD em uma solução reve-
boratórios do DPF também devem in- ladora. Isso evita o delicado proces-
cluir atualizações nessa técnica, que so de borrifação de soluções revela-
pela sua versatilidade e praticidade doras, normalmente ácidas e tóxicas,
terá sempre espaço nos procedimen- diminuindo a exposição do perito aos
tos de convencimento do perito de la- reagentes e melhorando a aparência
boratório quanto à identificação das do laboratório.
substâncias questionadas. Além de apresentar as vantagens
Além do principal objetivo de redu- operacionais da Micro-CCD, este tra-
ção nos tempos de análise sem pre- balho tem como objetivos básicos au-
juízo no seu resultado, outros “cata- xiliar na caracterização e identificação
lisadores” nos levaram a estudar a rápida e inequívoca de cocaína e pro-
substituição da CCD preparativa pela mover a efetiva separação da cocaína
Micro-CCD, como a possibilidade da dos fármacos mais comumente utiliza-
redução das quantidades dos solven- dos por traficantes como “diluentes” da
tes e reagentes de revelação, cada droga, identificando-os também.
vez com o acesso mais restrito; a di- Como o próprio nome sugere, a
minuição da emissão de vapores or- Micro-CCD se baseia numa diminui-
gânicos, pois alguns ambientes de ção na escala dos materiais utiliza-
trabalho rotineiros na atividade peri- dos na Cromatografia de Camada
cial não encontram condições ade- Delgada. O mais importante, porém,
quadas de exaustão; a geração do é reconhecer que essa escolha acar-
mínimo possível de descarte de re- reta mudanças importantes nas inte-
agentes e solventes, colocando em rações substância-fase estacionária

Perícia Federal 11
CROMATOGRAFIA: PCFS ADRIANO OTÁVIO MALDANER (BACHAREL EM QUÍMICA E DOUTOR EM CIÊNCIAS – QUÍMICA ORGÂNICA) E LUIZA NICOLAU CALDAS (BACHAREL EM QUÍMICA)

Fotos: Arquivo APCF


e que devem ser aferidas apropria-
damente. Isto é, o processo aparen-
temente simples de diminuição da
escala implica alterações sérias nas
quantidades da amostra de material
analisado, na polaridade dos solven-
tes adequada para uma boa separa-
ção, no método de revelação, no tem-
po de eluição, na atenção do perito
durante a análise, e na avaliação dos
resultados, entre outras.

Alterações necessárias para a im-


plantação da Micro-CCD
1- cafeína;
Ao invés das placas tradicionais, 2- lidocaína; 1 2 3 4 5 6
de 20 cm x 20 cm, feitas de vidro re- 3- cocaína;
coberto com a fase estacionária, pas- 4- fenacetina;
5- benzocaína;
sa-se a utilizar placas de alumínio re- 6- mistura.
cobertas com sílica-gel. Essas placas
Figura 4: Placa com as seis amostras analisadas
de alumínio também são comerciali-
zadas na dimensão de 20 cm x 20 cm, auxiliam no processo de eluição, pro- No processo de eluição, ao invés
mas podem ser facilmente fraciona- movendo um fluxo ascendente e hori- de grandes cubas de vidro, compra-
das (cortadas) com o auxílio de um es- zontal e que evita distorções no percur- das especificamente para a CCD e com
tilete afiado e uma régua (servindo de so da separação. Um maior número de aproximadamente 100ml de solven-
guia). As dimensões da Micro-CCD fi- amostras em uma mesma placa pode tes, pode-se utilizar frascos pequenos
cam, portanto, a critério do perito que ser acomodado aumentando-se a e acessíveis, como os de café solúvel,
irá cortar a placa de alumínio. Como dimensão da base. geléia ou maionese (Figuras 2 e 3). A
sugestão indicamos que sejam corta- O sistema pode ser marcado com troca permite a utilização de quantida-
dos pequemos retângulos de 3 cm x 6 o uso cuidadoso de lápis ou lapiseira, des mínimas de solventes como eluen-
cm, que são suficientes para análise permitindo-se escrever na própria pla- tes (para o sistema acima, 5ml foi su-
de até seis amostras (Figura 4). Dois ca quais amostras estão sendo anali- ficiente). São colocados pedaços de
pequenos cortes diagonais feitos nos sadas (no caso da Figura 1: 1-amos- papel-filtro no fundo do frasco (para dar
vértices da base da placa (Figura 1) tra 1; P-padrão; 35-amostra 35). estabilidade à placa) e na lateral interna
(colaborar para a saturação da atmos-
fera interna pelo sistema de eluentes).

Análise de misturas por Micro-CCD


Foram sempre aplicadas seis
amostras padrões em cada placa
(nesta ordem): cafeína, lidocaína, co-
caína, fenacetina, benzocaína e uma
mistura contendo todas essas subs-
1 P 35 tâncias (Figura 4).
A primeira dificuldade neste tra-
balho foi encontrar um sistema de re-
velação que pudesse identificar to-
das as substâncias. A placa de CCD
comercial utilizada contém substân-
Figura 1: Análise de Figura 2: Solvente no Figura 3: Solvente no
cias adsorvidas na fase estacionária
três amostras (setas) INÍCIO da eluição (seta) FINAL da eluição (seta) sensíveis à luz ultravioleta, permitin-
do a visualização dos compostos pela

12 Perícia Federal
utilização de lâmpadas adequadas Para análise da Cocaína e seus Ao borrifar o revelador “B”, o apa-
(Figuras 5-a; 6-a; 7-a; 7-b; 8-a). “diluentes”, dois sistemas foram utili- recimento de uma mancha amare-
O outro sistema utilizado foi a se- zados com êxito: la aproximadamente no mesmo lugar
qüência de: 1) mergulhar a placa de “Sistema 1”– metanol(50ml)/buta- onde se encontrava a mancha da fe-
CCD em uma solução de iodo-KI (re- nol (50ml)/NaBr(1g) – sistema insatu- nacetina indica também a presença
velador “A”) (Figuras 5-b; 6-b; 7-c; rado (Figura 5); de benzocaína na mistura. Se ainda
8-b); 2) aquecê-la levemente com au- “Sistema 2” – Acetato de etila/ci- assim houver dúvidas sobre a presen-
xílio de um soprador térmico (Figuras clohexano/metanol (70/15/15) - placa ça dessas duas substâncias, basta
5-c; 6-c; 7-d; 8-c); 3) borrifar o reagen- CCD tratada com NaBr (Figura 6). correr a placa no “Sistema 2”, pois as
te de Ehrlich (revelador “B”) (Figuras O “Sistema 2” separa a cocaína de manchas correspondentes aparecem
5-d; 6-d; 7-e; 8-d). O revelador “A” re- todos os “diluentes”, mas as manchas em posições distintas, podendo ser
vela todas as manchas exceto a ben- correspondentes à lidocaína e à ca- identificas sem problemas.
zocaína (ver seta na figura 6-c), que é feína aparecem muito próximas (ver Outra alternativa é iniciar a análise
revelada pelo revelador “B” (ver seta setas na Figura 6-d), podendo levar a utilizando o “Sistema 2”, mas, como
na figura 6-d). Observou-se que ao falsas conclusões. foi citado anteriormente, as manchas
aquecer intensamente a placa depois Já no “Sistema 1”, as manchas correspondentes à cafeína e à lidoca-
de mergulhá-la no revelador “A” as correspondentes à fenacetina e ína aparecem em posições muito pró-
manchas desaparecem por comple- à benzocaína aparecem na mes- ximas. Havendo dúvidas se a mancha
to, mas, se a placa for aquecida leve- ma altura (ver setas na Figura 5-d). corresponde à cafeína, à lidocaína ou
mente, apenas o excesso de revela- Porém, são reveladas em momen- a ambas, pode-se em seguida utilizar
dor é retirado por evaporação. tos diferentes, ou seja, ao mergu- o “Sistema 1”, pois nele essas man-
O sistema de revelação “A” pode lhar a placa no revelador “A” apenas chas aparecem em posições bem dis-
ser utilizado por muitas vezes, pois a benzocaína não aparece (Figura tantes.
não é significativamente afetado pe- 5-c) e só após borrifar o revelador
las mínimas quantidades de sub- “B” é que pode-se visualizar a sua Análise de misturas
tâncias que poderiam estar se des- mancha (Figura 5-d). por Micro-CCD bidimensional
prendendo da placa de Micro-CCD Dessa forma, se, ao mergulhar Outra forma de separar as subs-
durante o processo de imersão. a placa no revelador “A”, apare- tâncias é fazer uma placa bidimensio-
A escolha/determinação do siste- cer uma mancha na posição equi- nal de 7cm x 7cm (Figura 7). Primei-
ma de solventes para eluição é uma valente à fenacetina/benzocaína ro deve-se realizar a eluição da placa
outra etapa crítica neste trabalho. De- conclui-se pela presença de fena- no “Sistema 1”, aplicando-se a amos-
zenas de sistemas de solventes fo- cetina na mistura. Depois de aque- tra no lado esquerdo (Figura 7-a). Nes-
ram testados até a escolha dos apre- cer intensamente a placa, as man- sa eluição a fenacetina e a benzocaína
sentados neste trabalho. chas desaparecem. aparecem muito próximas, o que pode

Fenacetina
Benzocaína

a) Revelador UV b) Revelador A (mergulhado) c) Revelador A depois de seco com pistola d) Revelador B

Figura 5: Sistema 1 – Metanol/butanol (50/50)

Perícia Federal 13
CROMATOGRAFIA: PCFS ADRIANO OTÁVIO MALDANER (BACHAREL EM QUÍMICA E DOUTOR EM CIÊNCIAS – QUÍMICA ORGÂNICA) E LUIZA NICOLAU CALDAS (BACHAREL EM QUÍMICA)

ser constatado pela observação na luz identificadas. Os sistemas revelado- Além das metodologias de revela-
UV (Figura 7-a). Depois de seca, a pla- res e o processo de revelação utiliza- ção já utilizadas, também foi borrifa-
ca deve ser virada em 90 graus no sen- dos são os mesmos na placa unidi- do o sistema revelador composto por
tido anti-horário, de forma que o lado mensional (Figuras 7-c, 7-d, 7-e). iodo-platinato acidificado (Revelador
que fora base na primeira eluição pas- “C”), por este sistema ser um dos re-
sa a ser o lado direito da placa na se- Análise de cocaína por Micro-CCD veladores clássicos e mais utilizados
gunda eluição, e aquele que fora lado Na identificação específica de co- no INC em CCD com placas de vidro
esquerdo passa a ser a base da placa caína, o melhor sistema encontrado (Figura 8-e).
na segunda eluição. A placa é, então, foi aquele composto por ciclohexano/
colocada para correr no “Sistema 2”. tolueno/dietilamina (70/15/15) (Figu- Fatores de Retenção
Na segunda etapa as manchas cor- ra 8), o “Sistema 3”. Esse sistema pro- Os fatores de retenção (Rf’s,%) de
respondentes à fenacetina e à benzo- move uma maior eluição da cocaína todas as substâncias analisadas nos
caína se separam (ver setas na Figu- do que das outras substâncias, identi- três sistemas de eluentes são mostra-
ra 7-b) e todas podem ser facilmente ficando-a facilmente. dos na Tabela 1.

Sem benzocaína Benzocaína

Lidocaína
Cafeína

a) Revelador UV b) Revelador A (mergulhado) c) Revelador A depois de seco com pistola d) Revelador B

Figura 6: Sistema 2– Acetato de Etila/Ciclohexano/Metanol (70/15/15)


a) Revelador UV b) Revelador A (mergulhado)

Fenacetina
e Benzocaína
Fenacetina
Benzocaína

a) Primeira corrida: sistema 1, revelador UV b) Segunda corrida: sistema 2, revelador UV c) Revelador A (borrifado) d) Revelador A depois de seco com pistola e) Revelador B

Figura 7: Sistema bidimensional

Cocaína

a) Revelador UV b) Revelador A c) Revelador A depois de seco com pistola d) Revelador B e) Revelador C


c) Revelador A depois de seco com pistola d) Revelador B
Figura 8: Sistema 3 - Ciclohexano/tolueno/dietilamina (70/15/15)

14 Perícia Federal
TABELA 1: TABELA COM OS RF´S (%) DAS CINCO SUBSTÂNCIAS ANALISADAS Dessa forma, este trabalho busca
mostrar que existem alternativas van-
tajosas a alguns procedimentos clássi-
SISTEMA 1 SISTEMA 2 SISTEMA 3
cos rotineiramente utilizados nas análi-
ses definitivas de drogas de abuso.
CAFEÍNA 53 40 7 Os estudos baseados na Cromatogra-
fia de Camada Delgada em escalas re-
LIDOCAÍNA 65 51 52 duzidas (Micro-CCD) permitem, através
de alterações simples, a diminuição sig-
COCAÍNA 33 17 57 nificativa no tempo de resposta à solicita-
ção, a diminuição dos custos da técnica,
a menor exposição do perito a atmosfe-
FENACETINA 82 64 9
ras orgânicas e uma significativa redu-
ção de material consumido e descartado.
BENZOCAÍNA 86 85 17 Outros sistemas têm sido testados no
SEPLAB/INC, levando a resultados pro-
Considerações finais de vapores orgânicos liberados para a missores também para a identificação de
Observa-se nas análises de Micro- atmosfera do laboratório. THC na maconha através da Micro-CCD.
CCD uma redução drástica no tempo Cabe ressaltar que toda identifica-
necessário para que o eluente percor- Vale a pena utilizar a Micro-CCD? ção cromatográfica necessita de pa-
ra toda a extensão da placa, reduzindo- Conclusões drões para comparação com a amos-
o para 1 a 3 minutos (aproximadamen- Esse trabalho mostrou que, para tra questionada. A aquisição/obtenção
te 30 minutos na CCD tradicional). Isso identificação e caracterização de coca- destes padrões é um dos mais desafia-
confere agilidade à técnica, mas exi- ína por Cromatografia de Camada Del- dores problemas a serem solucionados
ge também uma atenção maior do peri- gada, o sistema de solventes em que se dentro dos órgãos de segurança públi-
to, que deve retirar a placa no momento obtem os melhores resultados é o ciclo- ca, devido às dificuldades burocráticas
apropriado (ver seta na Figura 3), evi- hexano/tolueno/dietilamina (70/15/15) de aquisição de materiais importados
tando que haja uma superexposição (Sistema 3), separando-a inequivoca- e controlados. Os padrões disponíveis
no SEPLAB/INC e utilizados neste tra-
dos componentes aos eluentes, o que mente dos principais fármacos utiliza-
balho foram obtidos de amostras co-
levaria a distorções sérias nos resulta- dos como “diluentes” encontrados em
merciais e/ou aprendidas, identificadas
dos finais. Na prática, o “esquecimento” apreensões no Brasil.
inequivocamente por outras metodolo-
de uma placa nessas condições acarre- Para realizar tanto a separação da gias (cromatografia gasosa acoplada à
ta uma sobreposição dos componentes, cocaína como a identificação de possí- espectrometria de massas, espectros-
que são levados até a parte superior da veis “diluentes”, os sistemas de solven- copias no infravermelho e ultravioleta)
placa, impossibilitando a obtenção de tes mais eficientes foram o metanol/bu- e purificadas por recristalização ou co-
resultados confiáveis de Rf’s. tanol (50/50) (Sistema 1) e o acetato de luna cromatográfica.
A dimensão da Micro-CCD também etila/ciclohexano/metanol (70/15/15) Mais informações podem ser en-
possibilita que, após a retirada da placa (Sistema 2), sendo que um pode ser uti- contradas na vasta literatura disponível
do sistema de eluentes, haja uma me- lizado como contra-prova do outro. Foi tratando da Cromatografia de Camada
nor quantidade de solvente adsorvida mostrado que estes sistemas também Delgada. Alguns sites de educação na
na fase estacionária, diminuindo o tem- podem ser utilizados conjuntamente em Internet podem ser muito úteis na reso-
po de secagem da placa e a quantidade placas de Micro-CCD bidimensional. lução dos problemas mais práticos.

Notas e Referências VANTAGENS DA MICRO-CCD


1. Eluição: processo de interação entre o solvente e o sistema de separação, que no caso da CCD se 1. Resultados confiáveis.
inicia com o contato da placa com uma fina camada de solventes (eluentes) e que percorre a superfície
da placa de forma ascendente até alcançar a extremidade superior da placa.
2. Uma placa de alumínio pode ser fra-
2. Descrição para compra: placas de alumínio para Cromatografia em Camada Delgada, tamanho 20x20cm, cionada em muitas placas de Micro-
sílica gel 60 (poro médio de 60 ângstrons), espessura da fase 0,20mm, revelador UV 254nm, caixa com CCD, permitindo a análise de um nú-
25 unidades. mero maior de amostras e reduzindo
3. Revelador A (Iodo-KI): mistura-se 2g de iodo em 50ml de etanol 95% e 2g de iodo em 16,2ml de água. custos na aquisição de placas.
A seguir, adiciona-se 33,8ml de HCl concentrado.
4. Revelador B (reagente de Ehrlich): p-dimetilaminobenzaldeído 0,2% em HCl 10%
3. Diminuição de, pelo menos, 20 vezes
5. Sistema insaturado: o recipiente de eluição é mantido destampado. do volume de solventes utilizados,
6. As placas de CCD foram imersas numa solução de NaBr 0,1M em metanol e deixadas para secar. reduzindo custos e a exposição dos
Somente após este procedimento foram aplicados os compostos para a análise. peritos aos vapores orgânicos.
7. Sherma, J. & Fried, B. (Editores) Handbook of Thin-Layer Chromatography (Chromatographic Science, 4. Redução dos tempos de eluição (tem-
Vol. 89).
po de “corrida”) e de secagem da placa.
8. http://orgchem.colorado.edu/hndbksupport/TLC/TLC.html

Perícia Federal 15
CANNABIS SATIVA L.: PCFS DANIELE Z. SOUZA1 (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA EM ANÁLISES CLÍNICAS), KÁTIA MICHELIN1 (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA EM ANÁLISES CLÍNICAS, ESPECIALISTA EM GENÉTICA FORENSE), MARCELO G. HOLLER1 (QU

Roteiro ilustrado
Para identificação morfológica da

Estufa artesanal
utilizada pelos PCFs
da SETEC-RS

16 Perícia Federal
UÍMICO INDUSTRIAL, MESTRE EM QUÍMICA); E GERALDO L. G. SOARES2 (DOUTOR EM CIÊNCIAS E QUÍMICA DE PRODUTOS NATURAIS), MARA R. RITTER 2 (DOUTORA EM BOTÂNICA), NEUSA R. BIANCHI2 (FARMACEUTICA, MESTRE EM FISIOLOGIA VEGETAL)

tecnicamente correta nos laudos periciais, lha, é característica a presença de tricomas


Tendo em vista o elevado foi elaborado o presente roteiro, contendo tectores cistolíticos muito curtos e cônicos.
número de apreensões de as características morfológicas importantes
para a identificação taxonômica da planta. Na
Da mesma forma, no caule e na face aba-
xial das folhas, a presença de tricomas tec-
Cannabis sativa no âmbito confecção do roteiro, as características des-
critas na literatura foram confrontadas com
tores longos, delgados e rugosos é evidên-
cia marcante. Na maioria dos órgãos de
do DPF, os peritos criminais aquelas observadas em espécimes vegetais
cultivados pelos autores, visando identificar
C. sativa, podem ser verificados tricomas
glandulares, sendo os sésseis os mais di-
federais devem estar possíveis incongruências e/ou lacunas nas
descrições existentes.
fundidos na planta e os com pedicelo longo
os mais característicos.
preparados para realizar a Espécimes vegetais
A utilização de solução alcalina de Fast
Blue B (BB) Salt na montagem das lâminas
identificação botânica da planta utilizados na elaboração do roteiro aumentou em muito a especificidade do
Foram utilizados dez exemplares de C. exame botânico micromorfológico de C. sa-
sativa cultivados em estufa no SETEC/SR/ tiva, já que as estruturas secretoras podem
Cannabis sativa L. é uma planta cujo DPF/RS, provenientes de sementes da mesma ser identificadas quanto ao seu aspecto

A plantio, cultura, colheita e exploração


por particulares são proibidos em
todo o território nacional, conforme
a Lei nº 6.368, de 21 de outubro de 1976. Da C.
sativa pode ser extraído o tetraidrocanabinol
apreensão e mantidos em condições de cultivo
análogas (solo, espaço físico, temperatura,
umidade, luminosidade). Os espécimes vege-
tais foram mantidos em estufa confecciona-
da artesanalmente, com paredes internas
morfológico e composição química de sua
secreção. O Fast Blue B (BB) é um sal ro-
tineiramente empregado nos testes para a
identificação preliminar (teste de cor) e de-
finitiva (como revelador para Cromatogra-
(THC), substância com efeitos psicotrópicos forradas de material reflexivo, apresentando fia em Camada Delgada) de C. sativa, sen-
proscrita no Brasil. área de 0,2 m2. O solo utilizado para o plantio do a sua utilização em técnicas histoquími-
Apesar de a droga vegetal (planta seca e consistiu na mistura 1:1:2 de terra adubada, cas pouco difundida, ao menos no meio fo-
triturada) ser facilmente identificada de forma húmus de minhoca e areia, com irrigação diária rense. Em meio alcalino, o Fast Blue B (BB)
preliminar por testes químicos rápidos (Reação e adubação química a cada 20 dias. A tempera- reage com os canabinóides presentes na
com Fast Blue B Salt, Teste de Duquenois- tura da estufa foi mantida em torno de 25°C e a resina de C. sativa, originando uma colora-
Levine), plantas frescas, sobretudo as jovens, luminosidade fornecida por três lâmpadas flu- ção vermelho-púrpura.
e frutos isolados, podem gerar resultados duvi- orescentes de 20 W, posicionadas a cerca de É descrito que C. sativa atinge estatu-
dosos e até negativos nos testes preliminares. 30 cm do ápice dos vegetais e ligadas por no ras entre 1 e 3 m, podendo chegar a até 7
Nestas situações, bem como naquelas em que mínimo 18 horas diárias. Os espécimes foram m se cultivada em condições favoráveis (a
a análise química confirmatória necessitar ser mantidos em estágio de crescimento e acom- céu aberto; clima quente e seco; luz solar
complementada pelo exame botânico, o peri- panhados até os três meses de idade. abundante; solo adubado e com boa dre-
to criminal deverá ser capaz de reconhecer as nagem; irrigação abundante). Nas con-
características morfológicas relevantes para a Discussão dições de cultivo utilizadas pelos auto-
identificação de C. sativa. Da análise botânica realizada, verifi- res, foram obtidos, ao final de três meses,
Considerando a carência de um procedi- cou-se que os tricomas glandulares e tecto- exemplares com cerca de 1,9 m de altu-
mento ilustrado passo a passo para auxiliar a res são os elementos microscópicos mais ra, enquanto outros não ultrapassaram 60
identificação botânica de C. sativa, bem como importantes na identificação de Cannabis cm, demonstrando o alto grau de variabili-
a necessidade de utilização de terminologia sativa L. Assim, na epiderme adaxial da fo- dade desta característica.

TÉCNICAS HISTOLÓGICAS UTILIZADAS


1) Montagem do órgão vegetal com água destilada entre lâmina e lamí- as preparações com lamínula e observar em microscópio óptico. As lâminas
nula: aplicável ao cálice persistente que envolve o fruto de C. sativa. montadas com Fast Blue devem ser observadas após 30 minutos ou mais da
2) Cortes transversais: fazer uma pequena incisão em um bloco de isopor preparação, tempo necessário para o reagente pigmentar adequadamente
e incluir, sem deixar folgas, o órgão a ser cortado (folha, caule, etc.). Com uma as estruturas secretoras ricas em canabinóides.
lâmina afiada, realizar cortes transversais finos e transferi-los para um vidro de 5) Teste para identificação do carbonato de cálcio (CaCO3) nas inclu-
relógio contendo água destilada. sões cristalinas dos tricomas cistolíticos: em lâmina montada com água
3) Cortes paradérmicos (Técnica de “Peeling”): fazer pequena incisão destilada, retirar a água com um papel filtro posicionado em uma das late-
vertical no órgão e, com pinça de relojoeiro, puxar horizontalmente um frag- rais, concomitantemente à adição, pela lateral oposta, de gotas de solução
mento de epiderme de modo a destacá-lo. Transferir para um vidro de relógio aquosa de HCl ou HNO3 1M. Se a transferência de meio líquido for realiza-
contendo água destilada, cuidando para não inverter a posição do tecido. da ao microscópio, poderão ser observadas bolhas de gás (CO2) sobre os
4) Montagem da lâmina com água destilada ou solução alcalina de Fast cistólitos, com conseqüente esvaziamento da base do tricoma cistolítico. A
Blue B (BB) Salt (identificação de canabinóides nas estruturas secretoras): reação está resumida abaixo:
posicionar os cortes histológicos em lâminas de vidro contendo uma gota
de água destilada ou uma gota de solução alcalina de Fast Blue B (BB) Salt CaCO3 + 2HCL/2HNO3 (aq.) H2CO3 H2O + CO2Ĺ
recentemente preparada (50 mg de sal em 20 mL de NaOH 0,1M). Cobrir

Perícia Federal 17
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ROTEIRO PARA IDENTIFICAÇÃO


Exame Macroscópico Raiz (fig.1): axial, perpendicular e branca.

Fotos: SETEC/RS
Figura 1: Raiz de planta com 2,5 meses de vida

Caule (figs. 2 e 3): herbáceo, tipo haste, fino,


ereto, com ramificação monopodial; coloração
verde-claro a verde-escuro, podendo apresentar
pigmentação bordô em algumas regiões, devi-
do à presença de antocianina; anguloso, com
estrias longitudinais bem evidentes; áspero, dei-
xando odor característico nos dedos; fistuloso e
fibroso, com camada exterior rígida.

Figura 4: Face abaxial (esquerda) e face adaxial (direita)

Folhas (figs. 4 a 10): simples, longo-peciola- cea; levemente ásperas, podendo deixar odor
das, palmatissectas, com segmentos ímpares característico nos dedos; discolores, com face
(3 a 11), lanceolados, com ápice acuminado e adaxial verde-escuro e face abaxial verde-
base atenuada a cuneada; bordos serreados; claro; palminérveas, com nervuras secundárias
de tamanho variável, podendo atingir mais de partindo obliquamente das nervuras principais
15 cm; consistência membranácea a papirá- e terminando nas extremidades dos “dentes”
das margens serreadas; estípulas persistentes
na base do pecíolo; filotaxia variável de oposta
cruzada à alterna helicoidal em qualquer terço
da planta, dependendo das condições de ilumi-
nação em que a planta se desenvolve.

Figura 2: Caule de planta com 2,5 meses de vida

Figura 3: Caule cortado transversalmente Figura 5: Ápice de um segmento Figura 6: Face abaxial: detalhe das nervuras

18 Perícia Federal
UÍMICO INDUSTRIAL, MESTRE EM QUÍMICA); E GERALDO L. G. SOARES2 (DOUTOR EM CIÊNCIAS E QUÍMICA DE PRODUTOS NATURAIS), MARA R. RITTER 2 (DOUTORA EM BOTÂNICA), NEUSA R. BIANCHI2 (FARMACEUTICA, MESTRE EM FISIOLOGIA VEGETAL)

BOTÂNICA DA CANNABIS SATIVA L.

Figura 11: Extremidade frutificada de um espécime


feminino de C. sativa.

Figura 7: Filotaxia oposta cruzada Figura 8: Filotaxia alterna helicoidal

Figura 12: Frutos com os cálices persistentes (es-


cala em milímetros)

Figura 9: Base do limbo Figura 10: Estípulas na base do pecíolo

Frutos (figs. 11 a 13): aquênios; ovalados e hemisférios por uma faixa estreita, da mesma
levemente achatados; medem cerca de 3,5-6,0 cor dos veios, circundando o maior perímetro;
mm de comprimento por 2-4 mm de largura; cor envoltos por cálice persistente, gamossépalo,
variável (marrom/verde/cinza/bege/creme); epi- membranáceo, de aspecto rugoso, com forma-
carpo duro e liso, finamente reticulado/mosque- to tubular, afilado no topo e dilatado na base. Os
ado, com veios/malhas em coloração mais clara, frutos de C. sativa são geralmente referidos de
geralmente creme ou bege; divididos em dois forma equivocada como sementes. Figura 13: Frutos sem cálices

Perícia Federal 19
CANNABIS SATIVA L.: PCFS DANIELE Z. SOUZA1 (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA EM ANÁLISES CLÍNICAS), KÁTIA MICHELIN1 (FARMACÊUTICA BIOQUÍMICA EM ANÁLISES CLÍNICAS, ESPECIALISTA EM GENÉTICA FORENSE), MARCELO G. HOLLER1 (QU

ROTEIRO PARA IDENTIFICAÇÃO


Exame Microscópico

Caule (figs. 14 a 17): presença de tricomas tec- não apresentar inclusão cistolítica pequena,
tores transparentes, longos e delgados, agudos e dispostos no sentido das nervuras da folha,
no ápice e mais largos na base, a maioria encur- com ápices direcionados para a margem foliar.
vada em direção ao ápice da planta (opostos à Presença de tricomas glandulares sésseis,
gravidade). Sob maior aumento é possível obser- com cabeça globular formada por 8-16 célu-
var a parede rugosa destes tricomas, repletas las radiais e tricomas glandulares pequenos,
de papilas. Os tricomas glandulares são de dois com pedicelo curto e cabeça esférica formada
tipos: tricomas glandulares sésseis, com cabeça por 1-4 células. Tal como observado no caule,
globular formada por 8-16 células radiais, e trico- solução alcalina de Fast Blue B Salt cora os tri-
mas glandulares pequenos, com pedicelo curto comas sésseis de vermelho.
e cabeça esférica formada por 1-4 células. Em
lâminas montadas com solução alcalina de Fast Figura 17: Tricoma glandular séssil com cabeça glo-
Blue B (BB) Salt, após 30 minutos da preparação, bular, em corte transversal de caule montado em so-
as cabeças globulares dos tricomas sésseis se lução alcalina de Fast Blue B Salt (objetiva de 20 x)
coram de vermelho, demonstrando seu conteúdo
resinoso rico em canabinóides. Folhas (figs. 18 a 23):
face adaxial: presença de tricomas tectores cis-
tolíticos curtos e cônicos, transparentes, encur-
vados, agudos no ápice e bastante largos na
base, na qual está incrustada um cistólito volu-
moso. São mais curtos e bem menos abundan-
tes do que aqueles existentes na face abaxial e
estão dispostos no sentido das nervuras secun-
dárias, com ápices direcionados para os bordos
das folhas. Na margem, os tricomas possuem
ápices voltados para as pontas dos “dentes” do
contorno serreado. A adição de ácido inorgânico
diluído em lâmina montada com água destilada Figura 19: Face adaxial, sob aumento de 15 x: trico-
Figura 14: Caule visto em microscópio estereoscópico: mas tectores cistolíticos curtos e tricomas glandulares
tricomas tectores e glandulares gera bolhas de gás (CO2) sobre os cistólitos,
com conseqüente esvaziamento da base do tri-
coma, confirmando a natureza calcária das con-
creções. Os tricomas glandulares são escassos
nesta face, geralmente pequenos, com pedicelo
curto e cabeça esférica formada por 1-4 células.
face abaxial: abundantes tricomas tectores
transparentes, longos e delgados, encur-
vados, levemente rugosos (especialmente
aqueles situados sobre as nervuras), agudos
no ápice e mais largos na base, podendo ou

Figura 15: Corte paradérmico do caule de planta


adulta, visto com objetiva de 10 x: tricomas tecto-
res com paredes rugosas e tricomas glandulares
grandes e pequenos (glóbulos acastanhados)

Figura 18: Face adaxial, sob aumento de 15 x: trico-


Figura 16: Tricoma glandular séssil com cabeça glo- mas tectores cistolíticos curtos dispostos no sentido Figura 20: Face abaxial, sob aumento de 15 x: tricomas tec-
bular, em corte transversal de caule (objetiva de 20 x) das nervuras secundárias tores longos dispostos no sentido das nervuras

20 Perícia Federal
UÍMICO INDUSTRIAL, MESTRE EM QUÍMICA); E GERALDO L. G. SOARES2 (DOUTOR EM CIÊNCIAS E QUÍMICA DE PRODUTOS NATURAIS), MARA R. RITTER 2 (DOUTORA EM BOTÂNICA), NEUSA R. BIANCHI2 (FARMACEUTICA, MESTRE EM FISIOLOGIA VEGETAL)

BOTÂNICA DA CANNABIS SATIVA L.

Cálice persistente que envolve o fruto (figs.


24 a 28): face abaxial exibe tricomas tectores
transparentes, encurvados e direcionados
para o topo do cálice, longos, agudos no ápice
e mais largos na base, podendo ou não apre-
sentar inclusão cistolítica. Estão concentrados
no topo e na base do cálice, sendo escassos
nas demais regiões. Tricomas glandulares são
numerosos e de três tipos: longos, com pedice-
lo pardo, cilíndrico, pluricelular e multisseriado,
e cabeça globular de coloração vermelha/mar-
Figura 21a: Corte transversal de folha, visto com objetiva de 20 rom, formada por 8 ou mais células dispostas
x: abundância de tricomas na face abaxial em comparação com
a face adaxial em torno de duas células centrais (tipo mais
abundante, característico deste órgão); sés-
seis, com cabeça globular formada por 8-16
células; e pequenos, com pedicelo curto e
cabeça esférica formada por 1-4 células.
Parênquima muito rico em drusas de oxalato Figura 26: Corte transversal do cálice, montado em água e ob-
de cálcio, as quais podem ser vistas através de servado com objetiva de 10 x: tricoma glandular com pedicelo
ambas as epidermes. longo (à direita) e tricoma tector (à esquerda)

Figura 21b: Face abaxial, sob aumento de 15 x: tricomas


tectores e glandulares

Figura 24: Base do cálice persistente, face abaxial (aumento de Figura 27: Tricoma glandular com pedicelo longo pluricelular e mul-
10 x): tricomas tectores e glandulares tisseriado, e cabeça globular avermelhada (objetiva de 20 x)
Figura 22: Corte transversal de folha, visto com objetiva de 40
x: tricoma tector curto e cônico da face adaxial, com cistólito
volumoso na base

Figura 23: Corte transversal de folha, visto com objetiva de 40 Figura 25: Topo do cálice, face abaxial (aumento de 10 x): trico- Figura 28: Face adaxial do cálice persistente, entre lâmina e lamínula
x: tricoma tector curto e cônico da face adaxial, após a adição mas glandulares com pedicelo longo e pardo, exibindo cabeças (objetiva de 40 x): drusas de oxalato de cálcio abundantes
de HCl 1M globulares íntegras ou destacadas

Perícia Federal 21
CANNABIS SATIVA L.: PCFS DANIELE Z. SOUZA, KÁTIA MICHELIN, MARCELO G. HOLLER E GERALDO L. G. SOARES, MARA R. RITTER E NEUSA R. BIANCHI

A principal incongruência encontrada


entre os resultados obtidos e a literatura Glossário
consultada diz respeito à disposição das
folhas em C. sativa. O material analisa- Abaxial: face inferior do limbo foliar. No Herbáceo: caule flexível, pouco lignificado,
do exibiu um alto grau de variação da filo- caso do cálice persistente que envolve o com predominância de crescimento primário.
taxia, um provável indício da plasticidade fruto de C. sativa, diz-se da face externa.
Lanceolado: formato foliar cuja relação
fenotípica de C. sativa quanto a essa ca- Acuminado: limbo cujo ápice é alongado comprimento-largura do limbo é de 3:1 ou
racterística morfológica. Na literatura há e pontudo. mais e o ápice é agudo.
provavelmente uma observação equivo- Adaxial: face superior do limbo foliar. No Limbo: lâmina foliar.
cada desse aspecto, pois a maioria dos caso do cálice persistente que envolve o
autores define rigidamente a filotaxia da Longo-peciolada: folha com pecíolo longo.
fruto de C. sativa, diz-se da face interna.
C. sativa como oposta cruzada na base Membranácea: lâmina foliar delgada e
Alterna helicoidal: de cada nó caulinar
caulinar e alterna próximo ao ápice. Esse maleável, com consistência semelhante a
parte uma única folha e as folhas conse-
fato não foi observado em nenhum dos 10 uma membrana.
cutivas dispõem-se em vários planos ao
espécimes analisados. longo do caule, com ângulos diferentes de Monopodial: tipo de ramificação caulinar
Ainda, nos exemplares examinados, 180º entre si. em que há um eixo principal, com cresci-
os autores identificaram elementos re- mento durante toda a vida da planta, de onde
Antocianina: pigmento localizado princi-
levantes para a identificação de C. sati- partem ramificações laterais menores.
palmente nas partes superficiais das plan-
va pouco ou não mencionados nas obras tas, que confere coloração vermelha, viole- Oposta cruzada: de cada nó caulinar par-
consultadas, como os tricomas tectores ta e azul a flores, frutos, caules e raízes. tem duas folhas em sentidos opostos, e os
longos e rugosos presentes no caule e so- Aquênio: fruto pequeno, monospérmico pares consecutivos de folhas dispõem-se
bre as nervuras da face abaxial das folhas. (uma semente), pericarpo reduzido, casca em planos cruzados entre si.
dura e lisa e semente presa ao pericarpo Palmatissecta: folha simples com limbo re-
Conclusão através de um pequeno pedicelo. cortado em distintos segmentos, os quais se
O roteiro elaborado se mostrou uma fer- Atenuada: lâmina foliar com base estrei- unem através de suas nervuras principais.
ramenta eficaz como auxiliar no reconheci- ta que acompanha o pecíolo até o ponto Palminérvea: nervação foliar em que o lim-
mento das características morfológicas da de inserção no caule, dando a ele um as- bo possui três ou mais nervuras principais
Cannabis sativa L., tendo sido utilizado pe- pecto alado. que partem radialmente do mesmo ponto, na
los peritos criminais federais do Rio Gran- Axial: raiz pivotante, com eixo principal base do limbo; mesmo que palmatinérvea.
de do Sul na identificação de plantas fres- bastante desenvolvido, do qual partem ra- Papirácea: lâmina foliar delgada e maleá-
cas e frutos. mificações laterais menores. vel, com consistência semelhante ao papel.
Cálice: verticilo protetor mais externo das Parênquima: tecido permanente encon-
Bibliografia recomendada flores, constituído por peças denominadas trado em todos os órgãos vegetais, ocu-
sépalas. No caso da C. sativa, o cálice que pando os espaços entre os tecidos de pro-
CLARKE, R.C. Marijuana Botany – An Ad- envolve o ovário da flor feminina permanece teção e condução.
vanced Study: The Propagation and Bree- envolvendo o fruto após a sua maturação.
ding of Distinctive Cannabis. Berkeley: Ro- Pecíolo: eixo de sustentação do limbo que
nin, 1981.
Cistólito: inclusão sólida/concreção de o conecta ao caule.
carbonato de cálcio (CaCO3).
DIVISION OF NARCOTIC DRUGS. Recom- Pedicelo: pedúnculo ou pé introduzido na
mended Methods for Testing Cannabis. New Cuneada: lâmina foliar cuja base tem for- epiderme, que sustenta a cabeça de um
York: United Nations, 1987. mato de cunha. tricoma.
GROTENHERMEN, F., RUSSO, E. (ed.) Discolor: folha com faces de cor diferente. Pericarpo: parte do fruto correspondente à
Cannabis and Cannabinoids – Pharmacolo- Epicarpo: parte mais externa do pericarpo. parede do ovário desenvolvido.
gy, Toxicology, and Therapeutic Potencial .
Estípulas: modificações foliares, geral- Serreados: bordos chanfrados, com recor-
New York: Haworth Press, 2002.
mente laminares, localizadas na base da tes agudos e próximos, dirigidos para o ápi-
JACKSON, B.P., SNOWDON, D.W. Powde- folha e que protegem a gema caulinar. ce da folha. As reentrâncias são formadas
red Vegetable Drugs. London: J.&A. Chur- por linhas curvas e retas.
chill, 1968. Filotaxia: disposição das folhas no eixo
caulinar. Séssil: folha sem pecíolo ou glândula sem
QUIMBY, M.W., DOORENBOS, N.J., TUR- pedicelo.
NER, C.E., MASOUB, A. Mississippi-Grown Fistuloso: caule com entrenós ocos, como
Marihuana – Cannabis sativa Cultivation and o bambu. Tricomas: apêndices epidérmicos com for-
Observed Morphological Variations. Econo- mas, estruturas e funções variáveis.
Folha simples: limbo foliar inteiro ou recor-
mic Botany., v.27, p.117-127, 1973. tado, mas não subdividido. Tricoma cistolítico: tricoma tector que
possui um cistólito incrustado em sua base.
Gamossépalo: cálice cujas peças (sépa-
Notas las) são soldadas/unidas. Tricoma glandular: tricoma dotado de
Haste: caule frágil, geralmente de cor ver- glândula que secreta substâncias.
1. Setor Técnico-Científico da Superintendência
Regional do Departamento de Polícia Federal de, ramificado, subdividido em regiões no- Tricoma tector: tricoma com função pro-
no Rio Grande do Sul. dais e entrenodais, característico de plan- tetora, evitando a transpiração excessiva
2. Professores do Departamento de Botânica/Insti- tas herbáceas. da planta.
tuto de Biociências/Universidade Federal do Rio
Grande do Sul.

22 Perícia Federal
PATRIMÔNIO HISTÓRICO: PCFS ALAN DE OLIVEIRA LOPES (BACHAREL EM ENGENHARIA CIVIL) E ACIR DE OLIVEIRA JUNIOR ( (BACHAREL EM ENGENHARIA CIVIL)

Novos Desafios da Criminalística:


Perícias Criminais
em Peças Sacras
Na defesa constitucional da União, faz parte do rol de atribuições
da Polícia Federal a proteção e repressão aos crimes cometidos
contra o patrimônio histórico, artístico e cultural nacional tombados,
bem como ao tráfico ilícito internacional de bens culturais

as ações em defesa do patrimô- criminosos pedem uma solução definitiva para

N nio histórico nacional é necessário o


conhecimento dos seguintes arca-
bouços jurídicos:
• Decreto-lei nº. 25, de 30 de novembro de
1937, que organiza a proteção do patrimônio
o problema. Nesse contexto, é necessária uma
rápida adaptação da Criminalística Federal, a fim
de dar vazão a essas novas demandas.
No âmbito do Instituto Nacional de Crimi-
nalística (INC), essas perícias estão a cargo do
histórico e artístico nacional; Serviço de Perícias de Engenharia Legal (SEPE-
• Lei nº. 4.845, de 19 de novembro de 1965, MA). Mesmo com a já imensa carga de trabalho,
que proíbe a saída, para o exterior, de obras de os peritos desse serviço têm aceitado o desa-
arte e ofícios produzidos no país, até o fim do fio de ampliar seu horizonte de conhecimento e
período monárquico; começado a realizar perícias nessa área.
• Lei de Crimes Ambientais, em artigos Muitos tipos de perícias correlatas a patri-
específicos. mônio histórico já foram desenvolvidas no
A investigação dos danos e do tráfico pas- âmbito dos sítios urbanos e edificações e,
sam pela adequada perícia dos objetos envol- agora, mais uma modalidade foi incremen-
vidos. Até hoje, os órgãos envolvidos na repres- tada: a perícia de bens móveis e integrados
são a esses crimes vinham solicitando o apoio sacros – as chamadas obras sacras. Objeto de
de instituições especializadas, como o cobiça no mercado internacional e importan-
Instituto do Patrimônio Históri- te relato da história brasileira, essas relíquias
co Nacional (IPHAN), e de têm sido alvo constante de criminosos.
universidades para reali- Em recente trabalho desenvolvido para
zar essas perícias. Toda- identificação de autenticidade, origem e pro-
via, o aumento da freqüên- cedência de uma estátua sacra, foram estuda-
cia desses delitos e o temor das, desenvolvidas e adaptadas as metodo-
de especialistas de se expo- logias científicas para fins criminalísticos, que
rem frente às quadrilhas de serão apresentadas neste artigo.
Mas, antes disso gostaríamos de expor
Acervo do Museu de Arte Sacra de o conceito de autenticidade de obras de arte.
Natal, a estátua de São Joaquim, “Em sentido restrito, o autêntico é o contrário do
do séc. XVII, ajudou os peritos a falso; e o falso, em arte, é a coisa que passa por
reconhecer autoria e procedência ser o que não é, a contrafação do estilo de um
de uma peça apreendida pela PF artista ou de uma época.”

Perícia Federal 23
PATRIMÔNIO HISTÓRICO: PCFS ALAN DE OLIVEIRA LOPES (BACHAREL EM ENGENHARIA CIVIL) E ACIR DE OLIVEIRA JUNIOR ( (BACHAREL EM ENGENHARIA CIVIL)

A comparação entre
Em investigações sobre obras sacras as estátuas segue o
existem algumas fases que são cruciais e, mesmo princípio da
juntas, representam a metodologia. Em grafotecnia
resumo, são:
- descrição do objeto;
- análise iconográfica e iconológica;
- análise formal;
- análise estilística;
- análise do estado de conservação;
- análise da tecnologia e dos materiais
(pigmentação e suporte);
- pesquisa documental histórica;
- entrevistas e diligências; e
- confronto com objetos já identificados
que possuam similaridade.

Descrição do objeto
A descrição deve atentar para todos os
detalhes disponíveis. As dimensões e porte Análise formal neste caso. Para obras que se querem pas-
podem dar indícios de qual era o uso original Nesta etapa são analisados os contor- sar como do período colonial, a ausência de
do objeto. Mesmo a percepção de partes do nos, simetrias, eixos principais e secundá- desgastes naturais é um indício de falsida-
objeto que estejam faltantes fornece subsí- rios. Enfim, a geometria da peça. A repetição de. Também é possível identificar serviços de
dios para sua boa identificação. É uma etapa de forma pode ser uma característica identifi- intervenção como restauro, sondagem para
que não pode ser menosprezada, podendo cadora do artista. amostragem e raspagem.
servir, também, de subsídio à alimentação de
Análise estilística
banco de dados. Análise da tecnologia e dos materiais
O estilo artístico é uma das análises mais
(pigmentação e suporte)
importantes, pois é um dos fatores determi-
Análise iconográfica e iconológica Esta etapa pode ser encarada como a
nantes da datação da peça, visto que a pro-
Nessa etapa é necessário estudar traços, mais importante. Por meio de modernas fer-
dução artística obedece a ciclos históricos já
detalhes e símbolos do objeto a fim de saber ramentas de análise de materiais, é possí-
estudados e catalogados. No Brasil colonial e
o que está se representando e com que inten- vel determinar com precisão característi-
monárquico temos as seguintes fases artísti-
ção. Isso é muito importante para a pesquisa cas essenciais do objeto questionado. Pre-
cas: manerista, barroca e rococó, com predo-
histórica. Uma fonte de dados interessante é liminarmente, pode-se submeter o objeto a
mínio do estilo barroco, onde os motivos reli-
a relação de bens culturais procurados, con- uma bateria de exames por raios-X hospita-
giosos eram a temática predominante.
tida no sítio eletrônico do IPHAN (www.iphan. lar, de forma a permitir a verificação da estru-
gov.br). Nele, podem ser feitas verificações tura interna, juntas, fissuras e inserções de
Análise do estado de conservação
iconografias semelhantes e proceder a bus- objetos metálicos. Essa análise da tecnolo-
Um antigo ditado da Criminalística, “a
cas preliminares de bens extraviados. gia construtiva também é necessária para a
ausência de um vestígio é um vestígio”, vale
boa classificação.
Muitas obras sacras podem ter dois
autores principais: o que executa o supor-
te (escultura, mesa, retábulo, etc.) e o que
faz a pintura decorativa. Por isso, divi-
de-se a análise dos materiais em dois
grupos: a dos pigmentos e a do supor-
te, que nada mais é que o material base
do objeto (madeira, barro cozido, ferro,
bronze, gesso etc.).
No estudo da pigmentação, aconselha-
se o uso do Microscópio Eletrônico de Var-
redura (MEV), por meio do qual podemos
identificar os principais componentes de
determinado pigmento, após devidamen-
te coletada uma amostra. O estudo então
Difratograma de Raio X: confronto entre amostras extraídas das bases das estátuas de
será de identificação de materiais antigos e
São Joaquim (linha preta) e de São João Batista, a peça questionada (linha vermelha)

24 Perícia Federal
modernos – elementos de autenticidade e A produção de objetos em madeira tam- siderando o universo de pessoas habilitadas a
de datação. Existem institutos de tecnolo- bém foi muito abundante e, mesmo se con- lidar com obras de arte e bens culturais. A inter-
gia habilitados a fazer esse tipo de exame, siderando a ação de insetos e outras pragas, locução com esses profissionais é fundamen-
como o ITEP de Pernambuco. Recentemen- esses elementos ainda constituem um acervo tal para qualquer investigação. Tratando-se de
te o Departamento de Polícia Federal, por considerável. Nesses casos, a análise botâni- “experts”, ninguém melhor que o perito crimi-
meio do projeto de investimento PROMO- ca ajuda a identificar a origem do material de nal para dialogar com estudiosos, restaurado-
TEC, adquiriu um MEV que também poderá suporte, pois algumas árvores são típicas de res, professores universitários e donos de anti-
ser usado com esse intuito. Um exemplo de determinadas regiões do Brasil e da Europa. quários. Nessas diligências é importante obter
análise é a identificação de películas que, informações sobre bens culturais já identifica-
supostamente, são de ouro. Pesquisa documental histórica dos e sobre eventuais furtos já ocorridos. Esse
No estudo do material base um equipa- Quando já definida a autenticidade do trabalho de campo deve ser bem planejado de
mento adequado é o difratômetro de raios- objeto pelos demais exames nos aspectos forma a agilizar as investigações. Como o estu-
X. Com ele pode-se traçar um gráfico com os de antigüidade e estilo (entre outros), exis- do da história nacional, principalmente do perí-
picos característicos dos diversos compo- te a necessidade de definir – ou pelo menos odo barroco, foi pouco desenvolvido no exterior,
nentes de uma amostra do material (ver grá- indicar – a origem e procedência da peça. encontramos as melhores referências científi-
fico da pág. 24). Considerando-se certo grau Nesse momento, o perito criminal deve pro- cas em instituições nacionais, como a UFMG.
de homogeneidade do conjunto do material curar na documentação disponível (inquéri-
de suporte, pode-se obter importante identi- to policial, denúncia etc) informações sobre Confronto com objetos já identificados
ficador físico. No primeiro caso desenvolvi- a origem do objeto questionado: região, que possuam similaridade
do pelos peritos do INC, o apoio foi consegui- época, proprietário e envolvidos. Depois de caracterizada a autenticida-
do junto ao Departamento de Física da Uni- Tudo de forma a restringir o imenso uni- de do objeto no sentido de obra de arte históri-
versidade Federal de Pernambuco (UFPE). verso de bens a ser pesquisado. Essas infor- ca, passa-se à questão da origem e procedên-
Esse tipo de ensaio é perfeito para análi- mações vão direcionar a análise dos bens cia. Nisso é importante que todas as entrevis-
ses de confronto entre objeto questionado e tombados pelo IPHAN e seus inventários. tas e diligências busquem identificar possíveis
padrões de obras de arte já identificadas. A parceria com o IPHAN é muito importan- peças semelhantes (padrões). Deve ser feito
te, mas muitas vezes os inventários estão o confronto entre elas, seguindo os mesmos
incompletos, ou mesmo a peça pode ainda passos já descritos. Nesse momento deve-se
não ter sido tombada pelo simples fato de sua partir da premissa de que, nas partes menos
existência ser desconhecida. O estudo histó- importantes da obra, o artista possa repe-
rico permitirá definir se existem objetos seme- tir mecanicamente processos habituais (por
lhantes já identificados que podem ser con- exemplo, o desenho das orelhas, das mãos,
frontados com o objeto questionado e resul- dos drapeados). O grau de similaridade levará
tar em uma identificação da autoria artística. ou não a uma identificação positiva e à conse-
qüente emissão do laudo pericial.
Entrevistas e diligências
As entrevistas e diligências são atividades Futuro
desenvolvidas em paralelo com as demais, con- Este primeiro trabalho inicia as discussões
sobre essa modalidade de perícia. Existe muita
pesquisa a ser feita, como o estudo de falsifica-
ções, e a criação de um banco de dados orga-
nizado por características. Esse tipo de perícia
também pode envolver questões merceológi-
cas. É de se ressaltar que a defesa do patrimô-
nio histórico possuí uma peculiaridade: realiza-
do o dano ou o furto, o objeto não pode ser subs-
tituído, pois é único. Portanto, o ressarcimento
financeiro não remedia o prejuízo. A expectativa
agora é a de difundirmos e ampliarmos esses
conhecimentos dentro da Polícia Federal, seja
pelo treinamento multidisciplinar interno, seja
pela incorporação de novos profissionais.
Estátua de São João Batista:
Fotos: Arquivo APCF

primeira obra de arte a ter a Fonte bibliográfica


autenticidade constatada por laudo
Argan, G. C., Fagiolo, M.
produzido pela Polícia Federal
Guia de História da Arte – Teoria da Arte.

Perícia Federal 25
SUSP: PCF PAULO ROBERTO FAGUNDES (BACHAREL EM GEOLOGIA E MESTRE EM GEOLOGIA ECONÔMICA), COORDENADOR GERAL DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO EM SEGURANÇA PÚBLICA E PROJETOS ES

A perícia
no no Sistema Único
de Segurança Pública
A interação entre a SENASP/MJ e os órgãos periciais
oficiais vem propiciando a execução de projetos que visam
à estruturação de algumas áreas da Criminalística. Com
isso já estão sendo implantadas soluções técnico-científicas
que melhorarão as condições de trabalho dos peritos
criminais e a qualidade da prova material

Secretaria Nacional de Segurança Segurança Pública (SUSP) como reaparelha-

A
ƒ Possibilitar o intercâmbio entre os profis-
Pública do Ministério da Justiça mento, formação, gestão do conhecimento e sionais dos institutos de perícias com o corpo
(SENASP/MJ) vem desenvolven- valorização profissional envolvendo os órgãos docente universitário, trazendo o implemento
do ações conjuntas com órgãos de de perícias estaduais e federais. Talvez o tra- de novas tecnologias na área de DNA Forense.
segurança pública nos níveis federal, estadu- balho mais importante seja a união dos peritos ƒ Desenvolver atividades de pesquisas
al e municipal nas áreas de formação, valo- das diversas áreas do conhecimento discutin- conjuntas entre os órgãos periciais e as uni-
rização profissional, prevenção, repressão do as soluções técnico-científicas para cada versidades, nos campos de genética humana,
qualificada, produção da prova, padroniza- setor. Por meio dessas reuniões de grupo genética forense e biologia molecular.
ção de procedimentos e gestão do conheci- de trabalho temos conseguido avançar nas ƒ Desenvolver projeto para um banco de
mento, entre outras. Para fomentar as ações, ações propostas de maneira satisfatória. dados de DNA nacional.
a SENASP administra o Fundo Nacional de Como há uma heterogeneidade muito gran- Para difundir a tecnologia do DNA como
Segurança Pública na aplicação de recursos de em termos de infra-estrutura, tecnologia e instrumento de investigação e prova conside-
nas seguintes instituições e áreas de atuação: recursos humanos para cada área da perícia ofi- rou-se importante investimentos em recursos
I – reequipamento, treinamento e qualifi- cial em cada estado da Federação e na Polícia humanos, infra-estrutura laboratorial e equi-
cação das polícias civis e militares, corpos de Federal, os grupos em geral reúnem peritos de pamentos modernos. O objetivo é colocar os
bombeiros militares e guardas municipais; instituições com estágio avançado de conhe- laboratórios nacionais em níveis compatíveis
II - implantação de sistemas de informa- cimento nas áreas específicas. Dessa forma, com os internacionais.
ções, de inteligência e investigação, bem pretende-se elevar o nível da perícia dos esta- Dessa forma foram feitos até o momento
como de estatísticas policiais; dos mais carentes, diminuindo as diferenças. investimentos de R$ 6,5 milhões em aquisição de
III – estruturação e modernização da Podem ser destacados os seguintes projetos: equipamentos e consumíveis em laboratórios de
polícia técnica e científica; DNA dos institutos de perícia e R$ 2 milhões em
IV - apoio a programas de polícia comu- DNA Forense laboratórios de DNA de universidades.
nitária; e O Projeto de DNA teve seu início em 2004 Estão sendo realizados cursos de espe-
V – desenvolvimento de programas de com a implantação de laboratórios regionais cialização em genética forense com 400
prevenção ao delito e à violência. de DNA com a seguinte concepção básica: horas-aula na Universidade Federal do Pará
Para o alcance desses objetivos, as ações ƒ Realizar atividades de formação, capaci- e na Universidade Federal de Alagoas. Até o
e projetos podem ser feitos mediante celebra- tação e pesquisa aplicada com peritos estadu- presente foram formados 53 peritos criminais
ção de convênios ou por meio da intervenção ais e federais, visando seu aprimoramento na estaduais e federais nesse tipo de curso. Os
direta da SENASP na sua execução. área de análise de DNA em casos criminais. peritos que saem dos cursos possuem condi-
Na área de Perícia ou Produção da Prova, ƒ Auxiliar na padronização em procedi- ções de fazer análise de DNA sob a orientação
algumas ações vêm sendo desenvolvidas mentos e técnicas de genotipagem e seqüen- de profissional mais experiente nos laborató-
dentro da concepção do Sistema Único de ciamento de DNA. rios de DNA considerados como referência.

26 Perícia Federal
SPECIAIS – SENASP/MJ

Nesses laboratórios são dados cursos práti- Forense. Trata-se de uma proposta ousada tas de aquisição de sistemas automatizados
cos avançados em DNA, com a resolução de que deverá evidenciar a vontade do governo de identificação balística por parte de entes
casos reais do estado de origem dos peritos. de combater a impunidade por meio do sistema federados mais adiantados. Existem duas
Até o presente foram formados 63 peritos cri- de investigação criminal. Existe uma estimati- unidades federativas que possuem esses
minais nesse tipo de curso. va de aplicação de recursos da ordem de R$ 40 sistemas e os mesmos não funcionam ou
Desse modo está havendo a difusão do milhões para a extensão desse banco de dados funcionam inadequadamente.
potencial do DNA na resolução de casos crimi- a todos os estados e à Polícia Federal. Assim, a SENASP decidiu, com base em
nais. Quando o projeto teve inicio, havia seis reuniões com peritos especializados, investir
laboratórios de DNA em órgãos periciais fun- Balística Forense em capacitação para aumentar a quantida-
cionando. Atualmente, existem dez laborató- Com base em diagnóstico feito em 2005, de de peritos especializados em microcom-
rios em operação, com possibilidade de mais verificou-se a grande heterogeneidade de paração balística. Existem aproximadamen-
quatro entrarem em operação ainda em 2006. condições de trabalho das seções de balís- te 60 peritos no país aptos a realizarem tais
O projeto de DNA caminha para uma pro- tica dos institutos de criminalística estaduais exames. A utilização de sistemas automati-
posta de implantação de um banco de dados e federais. Esta é refletida na existência de zados, do tipo IBIS, sigla em inglês que signi-
de DNA criminal, que se encontra praticamen- poucos peritos especialistas em microcom- fica sistema integrado de identificação balís-
te pronta e foi feita com a colaboração de peritos paração balística, na inexistência desses tica, aumenta em seis vezes a necessidade
estaduais e federais especialistas na área, além peritos em alguns institutos e na ausência de confrontos por parte do perito criminal.
de professores universitários – grupo de traba- de microscópios comparadores em alguns A SENASP adquiriu sete microscópios de
lho denominado Rede Nacional de Genética estados. Paralelamente, surgem propos- comparação balística, marca Leica, para a
montagem de um centro de treinamento pre-
visto para funcionar no Instituto Nacional de
Criminalística da Polícia Federal. Serão ofer-
tados cursos de capacitação de 80 horas-
aula, por meio dos quais pretende-se dimi-
nuir o déficit de peritos especialistas em
microconfronto balístico, estimular o uso de
microscópios por parte dos estados que não
os possuem e dotar a perícia oficial de capa-
cidade de resposta em caso de implantação
de sistemas automatizados, como está pre-
visto no Estatuto do Desarmamento.

Toxicologia Forense
Assim como na área de balística, na área
de toxicologia os laboratórios estaduais avalia-
dos apresentam grandes diferenças em seus
níveis de desenvolvimento técnico. Pode-se
considerar que nenhum laboratório forense
brasileiro apresenta organização, estrutura e
métodos que possam ser considerados mode-
lares. É especialmente preocupante a existên-
cia de diversos equipamentos analíticos inope-
rantes devido a problemas de infra-estrutura e
de desenvolvimento de recursos humanos.
Dessa forma, as principais dificuldades
encontradas são: inexistência de programas
de treinamento específicos à atividade peri-
cial em toxicologia forense; problemas de
adequação de infra-estrutura; dificuldades no
fornecimento de consumíveis; dificuldades
no estabelecimento de uma rede de comuni-
cação entre os laboratórios; dificuldades no
acesso a fontes de informação técnica e cien-
tífica; dificuldades no acesso a substâncias
de referência; inexistência de programas de
controle de qualidade facilmente acessíveis;
e inexistência de normatização da atividade
pericial em toxicologia no Brasil.
A estruturação e a modernização da polícia técnica e científica é uma das prioridades do SUSP
Além das dificuldades acima menciona-
das, ainda foram encontrados problemas

Perícia Federal 27
SUSP: PAULO ROBERTO FAGUNDES* (BACHAREL EM GEOLOGIA E MESTRE EM GEOLOGIA ECONÔMICA)

Fotos: Arquivo APCF


próprios da organização de recursos huma-
nos dos estados, tais como a inadequa-
ção dos processos seletivos para peritos e
ausência de pessoal técnico de apoio.
Assim, a SENASP decidiu investir em
capacitação para diminuir a carência exis-
tente, homogeneizando o nível de conhe-
cimentos dos peritos da área de toxicologia
de amostras biológicas e de amostras quí-
micas, e introduzindo uma padronização de
exames para a área de toxicologia. Foi esta-
belecida parceria com o Instituto Geral de
Perícias – RS para cursos em amostras bio-
lógicas associadas à casuística dos institu- Laboratório de DNA
tos de medicina legal. Forense do INC
Os cursos previstos são de três níveis:
ƒ nível básico: preparação de amostras
ta. Apenas três unidades da Federação rea- zando os laudos. Isso se enquadra na con-
biológicas, cromatografia em camada delga-
lizam exames mais elaborados e consisten- cepção do SUSP e irá alavancar, de forma
da e introdução à cromatografia gasosa apli-
tes no âmbito estadual, estando, entretanto, consistente, a Perícia Oficial de fonética
cada à toxicologia forense;
limitadas a um quantitativo de peritos muito forense nos estados, o que, muito provavel-
ƒ nível intermediário: cromatografia
aquém das necessidades. Observa-se ainda mente, não acontecerá se forem feitas inicia-
gasosa e líquida, usando métodos quantitativos
a esdrúxula situação em que peritos ad hoc tivas de forma isolada.
e qualitativos, aplicados à toxicologia forense;
integram o corpo de peritos da perícia oficial, Está em andamento processo de aquisi-
ƒ nível avançado: espectrometria de mas-
ferindo assim a independência funcional dos ção de equipamentos. Após a aquisição está
sas associada à cromatografia e validação de
peritos. No âmbito federal, apenas seis uni- prevista a montagem de um centro de treina-
métodos, aplicados à toxicologia forense.
dades do sistema de criminalística realizam mento no Instituto Nacional de Criminalística,
Até o momento foram feitos dois cursos de
perícias envolvendo a verificação de locutor. para serem capacitados peritos oficiais em
nível básico, com capacitação de 47 peritos
Visto que a investigação criminal, nota- exames de análise de conteúdo fonográfico,
estaduais, e um curso avançado em croma-
damente em crimes de corrupção, tem sido verificação de edição e verificação de locutor.
tografia líquida – no Instituto de Criminalística
embasada em escutas telefônicas, e que a Os cursos estão programados para iniciarem
de São Paulo, no qual foram capacitados 15
ausência de laudos consistentes acarretará até o início de 2007. Os investimentos previs-
peritos estaduais e federais.
um aumento de impunidade, a SENASP, jun- tos ultrapassam R$ 5 milhões.
Em exames de amostras químicas foi
tamente com os peritos federais do Instituto
estabelecida parceria com o Instituto Nacional
Nacional de Criminalística e peritos estaduais Outras áreas
de Criminalística, cujos cursos serão oferta-
desenvolveram projeto que visa aparelhar e Além das áreas mencionadas, a SENASP,
dos em três níveis:
capacitar os laboratórios de fonética e os peri- por meio de parcerias, investiu em treinamen-
ƒ nível básico: preparação de amostras
tos criminais oficiais para que, a médio e longo to e capacitação nas áreas de microscopia ele-
químicas, cromatografia em camada delgada e
prazos, consigamos mudar este cenário. trônica de varredura, entomologia forense e
introdução à cromatografia gasosa aplicadas à
O projeto visa difundir a metodologia identificação civil e criminal.
análise de drogas, bebidas e medicamentos;
empregada em exames periciais da área de Outros estudos estão em andamento no
ƒ nível intermediário: cromatografia gasosa
fonética forense pelo Instituto Nacional de sentido de se estabelecerem formas de atu-
e líquida, usando métodos quantitativos e qualita-
Criminalística da Polícia Federal e aplicar o ação em âmbito nacional, por meio de gru-
tivos, aplicados à análise forense;
programa de capacitação já implementado pos de trabalho, nas áreas de medicina legal,
ƒ nível avançado: espectrometria de mas-
pela Polícia Federal a todos os peritos cri- incêndios e grupos antibombas.
sas associada à cromatografia e validação de
minais oficiais, estaduais, distritais e fede- Como observado anteriormente, as ações
métodos, aplicados à toxicologia forense.
rais. Na esfera federal este programa de diretas promovidas pela SENASP comple-
Até o momento foi feito um curso básico,
capacitação tem alcançado resultados posi- mentam-se com ações feitas diretamente
com a capacitação de trinta e cinco peritos
tivos. O projeto ainda prevê a aquisição de pelos estados, com recursos próprios ou com
estaduais e federais.
laboratórios para todos os órgãos da Crimi- recursos do Fundo Nacional de Segurança
nalística participantes. Pública mediante celebração de convênios.
Fonética Forense
Uma premissa considerada importan- Embora não signifique uma alteração profun-
A situação dos laboratórios oficiais nacio-
te para o sucesso do investimento é a inte- da, tem-se notado uma mudança de menta-
nais é de carência generalizada em recursos
gração dos recursos humanos dos laborató- lidade das autoridades nacionais e estadu-
humanos e tecnológicos. Em muitos deles,
rios estaduais com os recursos humanos dos ais no sentido de investir em projetos peri-
os peritos limitam-se a realizar transcri-
laboratórios da Perícia Federal no respecti- ciais, conforme preconiza o Plano Nacional
ções fonográficas e não possuem conheci-
vo estado. Somente dessa forma, integrando de Segurança Pública. Assim, nota-se um evi-
mentos e condições de elaborar laudos peri-
toda a perícia criminal oficial, será possível dente estímulo na comunidade pericial por
ciais com capacidade probante, tais como
desenvolver e sedimentar a área de fonética essa abertura propiciada com a implantação
os que envolvem exames de verificação de
no Brasil, implementando uma única meto- de uma coordenação específica para tratar
locutor e de verificação de edição fraudulen-
dologia de investigação pericial e padroni- desses temas dentro da SENASP.

28 Perícia Federal
INTERCÂMBIO: PEDRO PEDUZZI

Intercâmbio Pericial
Visita de peritos criminais chilenos ao INC possibilitou a troca de informações e experiências
entre os dois países. Para a Criminalística brasileira, esse intercâmbio aperfeiçoará as
metodologias de cadeia de custódia e de avaliação econômica das perícias

Instituto Nacional de Criminalística Participaram da visita o diretor do Laboratório

Fotos: Arquivo APCF


(INC) recebeu, entre os dias 22 e 24 Criminalístico Central do Chile, Julio Ibañez,
de agosto, a visita de três peritos cri- acompanhado dos peritos criminais Cláudio Cuq
minais do Chile, a convite do diretor e Carolina Ulloa, uma brasileira naturalizada
da DITEC, PCF Geraldo Bertolo, e da diretora do chilena. A primeira impressão que os visitantes
INC, PCF Zaíra Hellowell. A visita fez parte de um tiveram do INC foi bastante positiva, principal-
projeto de desenvolvimento dos órgãos periciais mente em relação aos bons equipamentos, às
compartilhado por todos os países da América instalações e ao nível de capacitação do qua-
do Sul e, ainda, Portugal e Espanha. dro de peritos criminais federais. “Este instituto Julio Ibañez (ao centro): elogios
ao INC e surpresa com o pequeno
tem ótimas instalações físicas e uma estrutura número de PCFs no Brasil
bastante adequada para os serviços periciais”,
avaliou Ibañez durante a visita ao setor que Mas nem todas as impressões foram posi-
investiga crimes ambientais. tivas. “Fiquei surpreso com o pequeno número
“Eles demonstraram muito interesse pelos de peritos criminais que o Brasil dispõe para um
sistemas de avaliação de gemas e minérios número populacional tão grande. No Chile temos
que desenvolvemos, bem como pelo laborató- cerca de 600 peritos criminais para uma população
rio de Geoprocessameno e pelo sistema geo- de 15 milhões de habitantes. Destes, 350 ficam em
gráfico de informação que utilizamos visando Santiago, que é responsável por 14 mil das 27 mil
à detecção de desmatamento e às ocupações perícias feitas a cada ano”, explicou Ibañez.
irregulares de áreas protegidas”, relatou o
chefe da Área de Perícias de Meio Ambiente Cadeia de custódia
(APMA), PCF Emílio Lenine Cruz. Está previs- A troca de informações e experiências será
ta a participação dos peritos criminais chile- de grande valia para chilenos (que poderão com-
nos no III Seminário de Perícias de Crimes parar e avaliar os laboratórios dos dois países
Ambientais, a ser realizado no INC entre visando, entre outras coisas, ao intercâmbio de
os dias 18 e 22 de setembro. procedimentos) e brasileiros, que terão, no reco-
“A qualidade desta edificação é sur- nhecido exemplo chileno, a possibilidade de se
preendente”, elogiou Carolina Ulloa, que aperfeiçoar ainda mais nas questões relativas à
cogita adotar, para as instalações da cadeia de custódia e de metodologia da avaliação
Criminalística chilena, um econômica das perícias.
projeto de engenharia simi- No Chile, a área central da Criminalística é a
lar ao do INC. “Estamos à dis- da cadeia de custódia. A partir dela os indícios são
posição para ajudá-los no que encaminhados (lacrados) para as demais áreas
for preciso para isso”, garantiu periciais. Apenas os peritos podem retirar o selo
o PCF Alan de Oliveira Lopes. de segurança para a análise de material. Depois
de analisado, o material é novamente lacrado e
devolvido à área central. “A experiência do Chile
em cadeia de custódia pode contribuir para o aper-
“Eu sei feiçoamento da Cadeia de Custódia do Sistema
antecipadamente Nacional de Criminalística em implementação
quanto gastaremos pelo INC”, afirma o PCF Emílio Cruz.
em cada uma O sistema de acompanhamento de perícias chi-
das perícias que leno, que permite ao órgão daquele país um controle
total de tempo e de custos para cada serviço pericial,
realizamos”
também recebeu elogios dos peritos brasileiros. “Eu
JULIO IBAÑEZ, diretor do
Laboratório Criminalístico sei antecipadamente quanto gastaremos em cada
Central do Chile uma das perícias que realizamos”, garantiu Ibañez.

Perícia Federal 29
CONGRESSO NACIONAL: PEDRO PEDUZZI

Fotos: Arquivo APCF


APCF elabora mais
um projeto de lei
A estratégia de aproveitar os
conhecimentos técnicos e
práticos da atividade pericial –
somada às dificuldades por que
passam não só os peritos, mas
diversas outras categorias de
servidores públicos – inspirou
a APCF a elaborar mais um
projeto de lei a ser apresentado
via Congresso Nacional

sucesso obtido com o PL 6.735/06, o

O PL de combate ao superfaturamento
elaborado pela APCF e em tramitação
na Câmara dos Deputados, inspirou
membros da Diretoria Executiva da APCF a pre-
parar mais um projeto de lei, dessa vez visando
Barbosa (esq.) busca, na APCF e no INC, ajuda para que o DNIT identifique problemas em obras emergenciais

responsabilidade, despertaremos o interesse dos


bons técnicos e evitaremos que pessoas mal inten-
Pouco antes da votação, os deputados
Fernando Coruja (PPS-SC) e Luiz Couto (PT-PB)
acrescentar à legislação brasileira uma gratifica- cionadas ou inexperientes exerçam tais funções”, elogiaram o mérito do projeto, mas alegaram que,
ção para o exercício de atividades de fiscalização ressalta o PCF Alan. Os dois PLs preparados pela por implicar alteração na legislação penal, fariam
da execução de contratos administrativos. APCF têm, como origem, as ações periciais reali- pedido de vistas, a fim de analisar de forma mais
E, novamente, o pai da criança é o PCF Alan zadas durante o caso SUDAM/SUDENE. aprofundada o conteúdo do documento. Miranda
de Oliveira Lopes. “A preparação de projetos de sugeriu, então, a formação de uma comissão de
lei não é tão difícil quanto parece, em função dos Superfaturamento líderes para a discussão da matéria.
conhecimentos que nós, peritos criminais da Apesar do período eleitoral, que se encerrou, A APCF organizou uma comissão de direto-
Polícia Federal, possuímos”, garante Alan. A prá- a tramitação do PL 6.735/06 está bastante acele- res que se mobilizou para esclarecer as dúvidas
tica adquirida pelo perito criminal federal na elabo- rada. Prestes a receber parecer favorável de seu dos parlamentares. “Considero o pedido de vistas
ração do primeiro projeto tornou ainda mais fácil a relator na Comissão de Constituição e Justiça e de dos deputados muito positivo, pois nos permite
materialização do segundo, a ser apresentado nos Cidadania (CCJC), deputado Sérgio Miranda (PDT- antecipar quaisquer tipos de problemas que pos-
primeiros dias de setembro na Câmara Federal MG), o PL do Superfaturamento – termo adotado sam surgir ao longo de sua tramitação. Apesar de
pelo deputado Carlos Mota (PSB-MG). pelos parlamentares para se referir à matéria – já significar um pequeno atraso para a votação na
“A grande contribuição do deputado para a tra- esteve para ser votado pela Comissão. comissão, essa discussão dará mais agilidade à
mitação do PL 6.735/06, aliada à sua experiência votação em Plenário”, garante Alan.
em matérias que devem ser indicação ao Poder
Executivo, nos levou a procurá-lo para a autoria do DNIT
novo projeto. Por tratar de remuneração do servidor Depois de ler o artigo publicado na revista
público, o PL deve ser de iniciativa do Executivo, Perícia Federal nº 23, sobre perícias em rodovias,
porém o Congresso pode sugerir oficialmente a e de ficar a par da iniciativa da APCF em apresen-
matéria por meio da figura da indicação”, justifica o tar o PL do Superfaturamento junto ao Congresso
vice-presidente da APCF, Charles Valente. Nacional, o diretor do Departamento Nacional
O novo PL complementa o que foi apresentado de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), Mauro
no PL anterior. Se, por um lado, o PL 6735/06 exige Barbosa da Silva, recebeu em audiência, no dia
maior rigor daqueles que administram as verbas 14 de agosto, os PCFs Charles Rodrigues Valente
públicas, por outro lado o novo PL estimulará os ser- e Alan de Oliveira Lopes para debaterem formas
vidores que contemplam o ônus decorrente da fisca- de evitar ao máximo problemas como os de super-
lização de contratos administrativos, atividade que faturamento e de má aplicação de recursos.
resulta em grande acréscimo de responsabilidades. “Somos uma instituição nova que preza pela
“Nosso objetivo é o de regulamentar, de forma transparência, mas que, em função do caráter
mais eficiente, os procedimentos para a formação emergencial de nossas atividades, tem de identi-
das comissões de fiscalização de obras públicas. ficar os problemas sem parar com as obras”, argu-
É importante que nossas leis definam claramente mentou Barbosa.
aqueles que respondem pelos gastos públicos. ”Sabemos das dificuldades que um processo
Ao criar uma remuneração para quem assuma essa PCFs entregam novo PL ao dep. Carlos Mota (centro) formal de licitação impõe ao administrador públi-

30 Perícia Federal
co. Assim, colocamo-nos à disposição para servir nismos, ou de melhor conhecê-los, de forma a Livro da APCF
de ponte com o Instituto Nacional de Criminalística impedir que as fragilidades da máquina pública Cobrar de quem administra as verbas públi-
(INC) e para organizar palestras onde abordarí- levem o gestor ou o agente público a cometer cas e estimular servidores que fiscalizam contra-
amos as formas de atuação dos fraudadores”, alguma irregularidade. Assim, contribuirá para tos administrativos. Estas são duas das muitas
sugeriu o PCF Charles Rodrigues Valente. a formação de uma sociedade mais justa e de sugestões que a APCF está elaborando para o
“Um cuidado que vocês precisam ter é com uma administração pública mais transparente Legislativo brasileiro, visando produzir leis mais
os projetos viciados que certas empreiteiras cos- e eficiente, fornecendo subsídios que evitem modernas e eficazes de combate aos diversos
tumam apresentar já prontos. Neles, costuma a má administração ou má aplicação de recur- tipos de crimes já investigados. “Estamos pre-
haver brechas que, colocadas propositadamen- sos públicos. Seja em benefício do DNIT ou parando um livro onde descreveremos, na forma
te, servirão para favorecer o prestador dos servi- de qualquer entidade que administre um orça- de artigos autorais, práticas criminosas, ações
ços”, adiantou o PCF Alan Lopes. mento de grande vulto. Transformar a experi- periciais e, por fim, sugestões para que a socie-
Mauro Barbosa apresentou suas impres- ência dos PCFs em um PL norteará os gestores dade se previna de crimes semelhantes aos que
sões acerca do PL 6.735/06: “Ele dará condi- públicos quanto a uma boa e eficaz aplicação dos já foram investigados pela PF”, informa o presi-
ções às organizações públicas de criar meca- recursos”, declarou. dente da APCF, Antônio Carlos Mesquita.

Substitutivo é apresentado na CCJC


Relator do PL 6.735/06 na Comissão

Divulgação
de Constituição e Justiça e de
Cidadania (CCJC), o deputado Sérgio
Miranda (PDT-MG) apresentou um
elogiado substitutivo que certamente
aperfeiçoará ainda mais o documento.
O deputado, que vê na iniciativa da
APCF e dos peritos uma “demonstração
de cidadania e compromisso com o
país”, acredita que o momento político
brasileiro é bastante favorável ao
debate da questão. Nesta entrevista,
Miranda explica – e justifica – as
mudanças que foram apresentadas no
substitutivo e fala sobre a repercussão
da matéria nos bastidores do
Congresso Nacional.

O que o senhor acha do mérito do PL


6.735/06 e da iniciativa dos peritos crimi-
nais federais em, à luz das experiências que
detêm sobre o modus operandi dos crimino-
As sugestões apresentadas pelo deputado Sérgio Miranda foram bem recebidas pelos PCFs
sos, apresentarem sugestões de projetos de
lei a parlamentares? versação de recursos públicos, e a pena era mais jeto. Existem vários parlamentares, no entan-
Os peritos demonstraram uma preocupação grave que as previstas em lei para outros crimes to, que apresentam questões, que não afetam
cívica e com toda a sociedade, ao apresentar este de potencial ofensivo mais elevado. Dessa forma, o mérito do projeto, que podem aperfeiçoá-lo,
projeto de lei. É evidente que a legislação atual o projeto não respondia a dois pilares fundamen- principalmente no sentido de evitar brechas
tem demonstrado ser insuficiente para a punição tais da nossa Constituição, que são os princípios para que sejam cometidas injustiças. Penso
de desvios de recursos públicos. O projeto apre- da proporcionalidade e da razoabilidade. Ao alterar que, durante as discussões na CCJC, vamos
sentado tem o grande mérito de abrir o debate esse tópico, ganhamos mais chance de aprovação ter que ouvir, debater e buscar acordo para que
sobre o tema, e envolver o Congresso e a socieda- na comissão e no plenário. No meu relatório, pro- o projeto seja aperfeiçoado e aprovado.
de na discussão sobre as mudanças necessárias pus então um substitutivo, com encaminhamento
nesta legislação. pela aprovação do projeto, com meu voto favorá- Alguma mensagem do senhor aos peritos
vel pela constitucionalidade, juridicidade, adequa- criminais federais?
Que alterações foram sugeridas no subs- da técnica legislativa e também quanto ao mérito. Quero parabenizar toda a categoria pela ini-
titutivo ao PL e no que elas irão aperfeiçoá-lo? ciativa. O caminho para mudar o país é o envol-
As alterações foram essencialmente para Como tem sido a repercussão das maté- vimento e a mobilização de toda a sociedade.
adequar melhor o projeto à técnica legislativa e rias nos bastidores do Congresso Nacional e, Ao propor o projeto de lei, usar seu conhecimen-
evitar possíveis contradições com a Carta Magna. em especial, na CCJC? to para tentar melhorar a legislação num tema tão
Um exemplo: o projeto previa pena idêntica para Percebo no Congresso e na CCJC um importante, deram demonstração de cidadania e
as modalidades dolosa e culposa do crime de mal- grande interesse em discutir seriamente o pro- compromisso com o país.

Perícia Federal 31
NOTAS E CURTAS: PEDRO PEDUZZI

Arquivo pessoal
Impressões digitais
O II Seminário Brasileiro de Perícias sões digitais de baixa qualidade. “Essa
de Revelação de Impressões Papilares, técnica permite ao perito criminal deter-
realizado em João Pessoa/PB entre os minar o autor de uma impressão digital
dias 22 e 25 de agosto, contou com a par- mesmo quando não é possível marcar
ticipação de dois peritos criminais fede- um número suficiente de pontos carac-
rais, Frederico Quadros D´Almeida e terísticos. É muito útil para auxiliar na PCFs Bruno Dantas
e Geraldo Bertoldo
Clayton Tadeu Mota Damasceno. localização desses pontos em situações
“A experiência foi bastante recom- de pouca nitidez”, assegurou.
pensadora, pois nos possibilitou obser- Lotado na Academia Nacional de O primeiro colocado
var que, em diversos estados, a perícia Polícia (ANP), onde é responsável por dis-
criminal de revelação e análise biomé- ciplinas e atividades relacionadas a local na Academia
trica de impressões digitais está muito de crime nos cursos de formação da Polícia Depois de um concurso público extremamente
bem estruturada”, afirmou o PCF Fre - Federal, o PCF Clayton Damasceno falou concorrido, os 125 peritos criminais federais que
derico D´Almeida, que ministrou a pales- sobre a revolução pela qual passa o curso entraram recentemente para o quadro da Polícia
tra “Revelação de Impressões Di gitais dirigido aos peritos criminais federais. Federal passaram pelo rigoroso curso de forma-
ção da Academia Nacional de Polícia (ANP). Se
– Casos Reais da Perícia Criminal Durante a palestra intitulada “O Ensino
já é difícil ser aprovado, o que dizer de quem foi o
Federal”. Nela, foram apresentados da Criminalística”, Damasceno infor- primeiro da turma. É o caso do PCF Bruno Teixeira
alguns casos de perícias criminais envol- mou que o número de horas-aula destina- Dantas, 33, mestre e doutor em Engenharia Civil
vendo a revelação e a análise biométrica das a disciplinas de local de crime, como pela UFRJ. Nascido em Vitória, no Espírito Santo,
de impressões digitais, e exposta uma a de coleta de impressões papilares, foi é fã dos livros de Michael Crichton e gosta de soltar
técnica de sobreposição de imagens ampliado, mas sem deixar de contemplar pipa na praia na companhia da filha.
para análise de fragmentos de impres- todas as áreas periciais. Como foi a preparação para o concurso?
Me dediquei bastante. Durante dois meses fiz
curso preparatório e sacrifiquei momentos de lazer.
Não esperava passar e fiquei muito feliz quando

Grampos e escutas saiu o resultado da 1ª fase. Mas ao mesmo tempo


começou outra luta: a preparação para a prova
física. A 45 dias do teste de aptidão física eu não
O II Curso de Investigação e Busca de necessário o desembolso de valores com pas- atingia o índice mínimo na barra e na corrida. O que
Aparatos Clandestinos de Interceptação, reali- sagens e diárias”, garante o chefe do Serviço mais me preocupava era a barra, pois não fazia
zado em junho na sede do Instituto Nacional de Perícias em Audiovisual e Eletrônicos nenhuma e precisava fazer pelo menos duas. Entrei
de Criminalística, em Brasília, preparou 22 alu- (Sepael), PCF André Luiz da Costa Morisson. na musculação e, nas últimas três semanas anteri-
nos do XXII Curso de Formação Profissional O curso foi dirigido aos formandos da Área ores à prova, contei com um preparador físico.
de Perito Criminal Federal para identificar e 2 – engenharias elétrica, eletrônica, em Quais as diferenças entre o que você imagi-
coibir grampos clandestinos. A alta demanda telecomunicações e de redes. nava do cargo de PCF e o que foi constatado na
por varreduras eletrônicas nova profissão?
em órgãos do governo e a Antes do curso de formação eu não tinha a
As atividades de varredura
necessidade de adaptação às mínima idéia sobre a atuação dos PCFs. Mas essa
eletrônica são cada
novas tecnologias adotadas vez mais solicitadas por pergunta me fez refletir sobre a nossa preparação
por criminosos tem aumen- órgãos governamentais na ANP. A Academia apresenta uma visão bem rea-
tado a preocupação do DPF lista sobre a nossa atuação. Os conhecimentos e
as técnicas ministrados têm correspondência com
em combater, de forma cada
o que pratico no dia-a-dia.
vez mais eficiente, esse tipo de
crime. “O treinamento durante Que características você apontaria como
o curso de formação garantiu as mais importantes para um perito em forma-
que os novos peritos egres- ção se destacar a ponto de ser o primeiro da
sos da Academia Nacional de turma na ANP?
Polícia, lotados nos mais diver- Não tive o objetivo de ser o primeiro colocado.
Isso acabou ocorrendo como conseqüência do
sos estados, já estarão capac-
meu desempenho. Mas posso apontar algumas
itados a desempenhar as ativi-
características que, acredito, contribuíram para
dades de varredura eletrônica, o resultado: capacidade de adaptação, discipli-
trazendo economia de tempo na, capacidade intelectual e motivação pessoal.
e de recursos, uma vez que, Eu queria muito a oportunidade de ser lotado no
Arquivo APCF

para treinamento da mesma Espírito Santo.


turma após a nomeação, seria

32 Perícia Federal
Polícia Federal e dos elementos de segurança empregados
Banco Central unem na moeda brasileira e, assim, melhorá-
forças para combater a los ou substituí-los, durante o desen-
falsificação da moeda brasileira volvimento de novas cédulas.

Seguindo uma moderna tendência Sugestões


internacional, o DPF e o Banco Central Esse histórico con-
firmarão um convênio que dificultará a fal- vênio está para ser assi-
sificação da moeda brasileira. Este acordo nado pelo diretor-geral do DPF,
de cooperação permitirá que os profissio- delegado Paulo Lacerda, e pelo diretor de
nais dos dois órgãos trabalhem de forma Administração do Banco Central do Brasil, João Antônio
mais conjunta. Fleury Teixeira. As reuniões preliminares entre as duas instituições con-
Estão previstas ações como o estabeleci- taram com a presença dos PCFs Carlos André Xavier Villela, João Pinto
mento de um banco de dados único sobre apreensões de moeda falsa Rosa e Marcelo Américo, que ajudaram na tomada de importantes deci-
em todo o território nacional. Isso incluirá tanto as apresentadas na rede sões antes mesmo da formalização do convênio, como a inclusão de
bancária como as apreendidas pelas delegacias da Polícia Federal, per- alguns itens de segurança nas futuras cédulas do BC.
mitindo que se obtenha uma visão panorâmica da falsificação de moe- Com o objetivo de atualizar a Criminalística brasileira e qualificar
das no país e, também, informações conclusivas sobre o equipamento ainda mais a participação do DPF no grupo de trabalho, o PCF Villela
técnico utilizado pelos falsários. foi designado para participar de um treinamento na Europol (o Training
Ao que tudo indica, esse banco de dados será um dos maiores do Course on Currency Counterfeiting), realizado em Haia, na Holanda,
gênero no mundo. Outra vantagem será o alinhamento das rotinas de entre os dias 8 e 12 de maio. “Foi uma oportunidade para estabelecer
exame entre os peritos do DPF e os especialistas do Banco Central, incluin- contatos com especialistas de instituições como os bancos centrais
do a harmonização dos termos técnicos a serem utilizados. Por meio do da Holanda e da Europa, o serviço secreto dos EUA, a Real Polícia
estudo das contrafações, será possível avaliar continuamente a eficiência Montada do Canadá, a Interpol e a Europol”, garantiu Villela.

de perícia em obras realizadas numa rodovia ra de aplicação do asfalto, não estavam sendo
Peritos cidadãos suspeita por gastar demais com restauração,
os peritos avistaram uma equipe de operários
seguidos, e isso não poderia ser comprovado
em exames posteriores”, explica o PCF Régis.
Os PCFs Régis Signor e Alexandre fazendo uma operação tapa-buracos. Apesar “Julgamos que, como agentes públicos e, prin-
Bacellar Raupp não são escoteiros, mas estão de não terem sido escalados para investi- cipalmente, como cidadãos, não podíamos dei-
sempre alertas e fazem bom uso do olhar clíni- gar os serviços em execução, resolveram – xar de tomar providências para evitar o desper-
co que só os anos de exercício pericial possi- enquanto cidadãos – verificar os procedimen- dício de mais dinheiro público. Comunicamos
bilitam. Durante uma viagem ao Rio Grande tos que estavam sendo adotados pelos operá- o fato à Delegacia de Polícia Federal mais pró-
do Sul, em abril deste ano, para a realização rios. Acabaram descobrindo o motivo de tan- xima e obtivemos, no ato, um pedido formal de
tos gastos com a estrada. exames, como meio de perpetuar as provas”,
“Procedimentos executivos completa. Com isso, os peritos puderam retor-
básicos, como a cor- naram ao local e realizar exames mais detalha-
reta temperatu- dos para subsidiar a elaboração de novo laudo.
Fotos: Arquivo pessoal

Em missão para realizar perícia


em obras já concluídas, PCFs
acabaram descobrindo problemas
nas obras em execução

Perícia Federal 33
NOTAS E CURTAS: PEDRO PEDUZZI

PCF José Helano


participa de audiência na
Câmara dos Deputados
A audiência pública realizada em 26 de abril
pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias
da Câmara dos Deputados (CDHM) discutiu a
utilização da internet como instrumento para a
realização de crimes. Presidida pelo deputado
Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), a audiência
contou com a participação do PCF José Helano
Matos Nogueira.
O interesse despertado pelo tema fez lotar a
sala da comissão. Helano foi um dos primeiros a
se apresentar, e iniciou sua fala destacando os
diversos tipos de crimes investigados na inter-
Movimento de Combate
net pela Polícia Federal. Em seguida explanou
sobre os desafios que os peritos vêm enfrentan- à Corrupção Eleitoral
do. Segundo ele, há problemas na legislação bra-
sileira, que carece de leis específicas que facili- A APCF é, desde o dia 11 de agosto, integrante de uma rede de organizações e
tem a obtenção da materialidade dos crimes. “É movimentos que tem por objetivo promover a aplicação da Lei nº 9.840/99 – que per-
lamentável que a impressão de páginas da inter- mite a cassação de registros e diplomas eleitorais em virtude da prática da compra
net, solução possível para que as investigações
de votos ou do uso eleitoral da máquina administrativa. As ações do Movimento de
não ficassem tão prejudicadas pela volatilidade
da rede, não possa servir de prova”, criticou. Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), centradas no binômio educação/fiscaliza-
“Seria interessante, para nós que trabalha- ção, têm por objetivo estimular o exercício ético do voto e a mobilização contra a prá-
mos no lado investigativo da Polícia Federal, tica da corrupção eleitoral. “Este é um passo importante da nossa Associação em prol
que pudéssemos de alguma forma, ao ser acio- da cidadania e do progresso político e social do Brasil”, declarou o vice-presidente da
nados, ir ao encontro do provedor e lá obter os APCF, Charles Rodrigues Valente.
registros dos IPs e demais informações neces-
sárias para buscar a autoria e a materialidade
do delito. Todavia, o nosso ordenamento jurí- ISSN 1806-8073

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“Identificar remetente e destinatário não consti-


tui quebra de sigilo. É de informações desse tipo Perícia Distribuição Gratuita Ano VI – Número 21 – maio a agosto de 2005
Distribuição Gratuita Ano VI – Número 23 – janeiro a abril de 2006

que precisamos”, completou o delegado fede-


ral Cristiano Barbosa Sampaio, que também Federal na Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais
Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais

participou da audiência.
Internet
As versões digitali-
Encontro Nacional zadas das edições mais
Foi escolhida a cidade-sede do III Encon- recentes da revista Perícia
tro Nacional dos peritos Criminais Fede-
Federal podem ser baixa-
rais, fórum onde são discutidos os proble-
mas, as soluções e as perspectivasda Pe- das pela internet. Basta
acessar o site da APCF
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rícia Federal. O Encontro, que ocorrerá


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(www.apcf.org.br) e cli-
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em paralelo com a IX Reunião de Diretores


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da APCF e o III Encontro dos Peritos Fede- car na seção “Revista”, Distribuição Gratuita Ano VI – Número 22 – setembro a dezembro de 2005
Distribuição Gratuita Ano VII – Número 24 – maio a agosto de 2006

rais Aposentados, será realizado em Cal- localizada no menu prin-


das Novas. Entre os dias 2 e 5 de outubro, cipal, à esquerda da pági- Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais

essa cidade goiana receberá peritos cri-


na. A versão eletrônica
minais federais de todo o país para discu-
tir temas de interesse para a categoria. O está em PDF, arquivo que
pacote com preços promocionais podem abre por meio do programa
ser obtidos junto à BBTur, pelo telefone 61- Adobe Reader. A versão
3218 6200 (falar com o Wellington). Mais gratuita está disponível no
informações com a APCF, nos telefones endereço www.adobe.
0800 703-2723 e 61-3346 9481. com/products/acrobat.

34 Perícia Federal