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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

DISCIPLINA: TEORIA DO ESTADO E CIÊNCIA POLÍTICA


PROFESSOR: FABRÍCIO TOMIO

LUIDGI MERLO PAIVA DOS SANTOS


DIREITO DIURNO
1º PERÍODO

FICHA-RESUMO
Texto: “Peças e Engrenagens das Ciências Sociais”. Capítulos I, II, III e IV.
Autor: Jon Elster

MARÇO
2011
Jon Elster inicia sua obra a firmando que o enfoque dela é na explicação por
mecanismos, que podem ser usados para explicar fenômenos sociais complexos.
Segundo Elster, as ciências sociais, bem como todas as ciências empíricas, dois
tipos de fenômenos, quais sejam, eventos e fatos. De acordo o autor, estes seriam
instantâneos temporais de uma torrente de eventos – que, por sua vez, seriam ações
humanas individuais, incluindo atos mentais como formação de crença. Para se explicar
um evento tem que se fazer um relato de por que o mesmo aconteceu. Na maioria das
vezes, isso ocorre pela citação de um evento prévio como causa do evento que se deseja
explicar, junto com algum relato do mecanismo causal que conecta os dois eventos.
Para o autor, as explicações causais devem ser distinguidas de proposições
causais verdadeiras. Citar a causa não é suficiente, deve-se mencionar também o
mecanismo que realmente resultou em determinado evento, pois pode haver muitos
mecanismos para uma mesma causa.
As explicações causais devem ser distinguidas de afirmações sobre correlação,
pois o fato de um evento de certo tipo ser usualmente seguido por um evento de outra
espécie não nos permite dizer que o evento do primeiro tipo causa eventos do segundo,
porque os dois poderiam ser efeitos comuns de um terceiro evento.
As explicações causais devem ser distinguidas de afirmações de necessitação.
Isso se deve porque explicar um evento é fazer um relato de por que este aconteceu da
maneira como aconteceu. Portanto, ainda que haja um evento anterior e um mecanismo
causal suficiente para provocar o evento posterior, isso não garante que outro
mecanismo substitua esse mecanismo causal suficiente e seja efetivamente a maneira
como o evento posterior ocorreu.
As explicações causais devem ser distinguidas do contar histórias, pois uma
explicação genuína descreve o que aconteceu, como aconteceu, e contar histórias é
descrever o que aconteceu como poderia ter acontecido (e talvez tenha acontecido).
Por último, as explicações causais devem ser distinguidas de predições, porque
certos mecanismos têm implicações frequentemente surpreendentes e contra-intuitivas
para o comportamento. Muitas vezes, os sujeitos estão diante de dois ou mais
mecanismos, sendo qualquer uma das escolhas de um mecanismo possíveis plausível.
Elster afirma que a unidade elementar da vida social é a ação humana individual
e que explicar instituições e mudança sociais é mostrar como elas surgem como
resultado da ação e interação de indivíduos. Para explicar uma ação, o autor a concebe
como resultado das oportunidades (ações livres de coerções econômicas, físicas, legais e
psicológicas) que nos são possíveis em conjunto com os nossos desejos (escolha
mediante as oportunidades). Essa relação entre desejos e oportunidades se mostra
abundante em possibilidades, visto que, certas vezes, as oportunidades podem parecer
mais fundamentais que os desejos (devido à maior facilidade de observação daquelas do
que destes, ou da capacidade das oportunidades de influenciar no comportamento), em
outras ocasiões há uma interação estratégica eliminando-se possibilidades para se
alcançar certos desejos, ou pode haver um número de oportunidades muito reduzido,
que force a uma determinada ação. Para Elster, na verdade, o que explica as ações são
os desejos das pessoas juntamente com suas crenças a respeito das oportunidades. O
indivíduo pode, por isso, deixar de perceber certas oportunidades e, consequentemente,
não escolher o melhor caminho disponível para realizar o seu desejo.
De acordo com o autor, a escolha racional se caracterizaria pela proposição de
que as pessoas, quando defrontadas com várias possibilidades de ação, fazem o que
acreditam que levará ao melhor resultado global. Na visão de Jon Elster, essa escolha é
instrumental, ou seja, as ações são avaliadas e escolhidas não por elas mesmas, mas
como meios mais ou menos eficientes para um fim subseqüente. Além disso, há como
categorizar as possibilidades de escolha para, após uma análise comparativa, definir-se
uma escolha: a chamada ordem de preferência, que também pode ser convertida em
função de utilidade. Tudo isso para fazer a melhor escolha, ou maximizar a utilidade.
Vale salientar que a escolha racional não é um mecanismo infalível, porque a pessoa
racional pode escolher o que acredita ser o melhor meio. Há também de se exigir que as
crenças sejam racionais em relação aos indícios disponíveis, mas também que a
quantidade desses indícios seja de certa forma ótima. Elster também afirma que todas as
crenças factuais são, em princípio, uma questão de probabilidades e que, ao tomarmos
uma decisão de risco, levamos em conta essas probabilidades a fim de maximizarmos a
utilidade esperada. Para o autor, agir racionalmente pressupõe fazer tanto melhor para si
quanto se é capaz, porém quando nossas decisões dependem das decisões de outros
indivíduos para alcançarem o fim desejado essa premissa torna-se mais difícil de ser
cumprida. Elster ilustra essa afirmação através de um exemplo da teoria dos jogos,
comprovando tal dificuldade.
O autor também salienta que a teoria da escolha racional pode falhar de duas
maneiras: falhar em produzir determinadas predições ou quando as pessoas podem não
se ajustar às suas predições. Ele, ademais, reforça que, nessa teoria, os desejos são o
único elemento independente, ao qual todos os outros (crenças em certas oportunidades,
ação e evidências) estão subordinados. Elster, após essas afirmações, ressalta que as
escolhas racionais podem falhar através da indeterminação, ou porque pode haver
diversas ações que sejam igual e otimamente boas, ou porque pode haver nenhuma ação
que seja ao menos tão boa como todas as demais, e que casos em que não há ação ótima
surgem quando somos incapazes de comparar e ordenar todas as opções existentes. O
autor, além disso, revela que as crenças são indeterminadas quando a evidência é
insuficiente para justificar um julgamento sobre a probabilidade dos vários resultados da
ação e que isso pode ocorrer através da incerteza e da interação estratégica. Muitas
vezes, não há base suficiente para a formação de uma crença racional e,
consequentemente, não há base consistente para a afirmação. Quando a escolha racional
é indeterminada, algum outro mecanismo deve preencher a brecha. Este poderia ser o
princípio de “satisfazer”, de escolher algo que seja suficientemente bom. O autor
também afirma que muitas vezes as pessoas não aceitam a indeterminação e acabam se
decidindo, entre outros motivos, por ações através de uma crença irracional no poder da
racionalidade. Por isso, Elster salienta que a primeira tarefa de uma teoria racional é ser
clara sobre seus próprios limites, às vezes simplesmente é melhor se valer de outros
artifícios para se alcançar determinados fins. Outras formas de irracionalidade podem
ser encontradas quando as pessoas deixam de escolher o que acreditam ser o melhor
meio de realizar seus desejos. Além disso, o comportamento irracional pode derivar de
crenças irracionais, quando, por exemplo, as crenças são subvertidas pelas paixões a que
supostamente devem servir que é o caso do wishful thinking (tendência a acreditar que
os fatos são como o indivíduo gostaria que fossem). Entretanto, a formação de crenças
pode sair errada sem qualquer interferência das paixões, principalmente ao se lidar com
assuntos estatísticos atribuindo excessiva importância à experiência pessoal e eventos
correntes às expensas de fontes impessoais e eventos passados e também em relação à
ignorância sobre princípios elementares de inferência estatística. Finalmente, Elster diz
que podemos fazer escolhas erradas quando nossos desejos são irracionais. Entretanto,
ele admite não conseguir dar uma definição clara de desejo racional, demonstrando
apenas alguns casos nos quais as vontades são irracionais, quando, por exemplo,
desvalorizamos o que não podemos conseguir, quando desejamos algo simplesmente
porque não podemos consegui-lo ou quando nos rendemos a desejos altamente
impulsivos.