Frutos do Brasil

Histórias de Mobilização Juvenil

neide duarte
p r e fá c i o : J o s é B e r n a r d o To r o

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Histórias de Mobilização Juvenil

neide duarte

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AGRADECIMENTOS

Frutos do Brasil
Histórias de Mobilização Juvenil

Muito obrigado!
A todos os projetos que inscreveram suas histórias; Adriana de Carvalho; Alcides Almeida (TV Cultura SP); Alcino (marinheiro); Alexandre Silva (assessor parlamentar); Andrés Thompson; Antonio Carlos Martinelli; Ashoka Empreendedores Sociais; Assunção (pela hospedagem); Báu (motorista); Bernardo Toro; Carla Corrochano; Célia Schlithler; Celso (Talent); Claire Fallender; Clarice (Estúdio Silvia Ribeiro); Cláudio Vignatti (Deputado Federal); Couto (motorista); Cristina de Miranda Costa; Daniela de Melo; Dulce Critelli; Eduardo Santos; Eliana (cozinheira); Eliane Monteiro (agente de viagem); Emilia Dulce Florentino de Faria; Fernanda Papa; Fernando Moraes; Flávia Simões Nunes Yosida; Flávio Motonaga; Francisco Tancredi; Gilberto Bessa (TV Cultura do Pará); Gondim (TV Cultura do Pará); Ilana Cunha; Irineu Ferreira; Jefferson Sooma; Jéssica Martineli (TV Cultura do Pará); Jonah Wittkamper; José Antonio Moroni; Julio Ribeiro; Kato; Kodi; Lis Hirano Wittkamper; Lívia De Tommasi; Marcelo Cavalcanti; Marcílio Brandão; Marcos e toda equipe da Pousada Terra Viva; Marcos Cartum; Marcus Nakagawa; Maria da Conceição Amaral da Silva; Maria Emília Celestino; Maria Rosa Duarte de Oliveira; May Hampshire; Nicole (Estúdio Silvia Ribeiro); Nildo (capitão do barco); Nurimar Falci; Otaviano De Fiore; Patrícia M. Souza; Paulo Marcelo (Instituto Elo Amigo); Pedro (transporte); Pedro Dantas (Câmara dos Deputados); Péricles (motorista); Rabelo (TV Cultura do Pará); Reinaldo Bulgarelli; Renata Borges; Rodrigo Abel; Roseni Sena; Sesc-SP; Silvia Ribeiro; Tamine Maklouf Carvalho; Tatiana Holler;Tiana Lins;Valdir Souza (TV Cultura SP);Vinícius Gorgulho Braz e Willian Naked.

Texto (Autor): Neide Duarte Projeto Gráfico: Silvia Ribeiro e Nicole Boehringer Assistente de Design: Clarice Uba Editoração Eletrônica: Estúdio Silvia Ribeiro Coordenação Geral do Projeto: Antonio Lino Equipe do Projeto: Carla Cabrera, Denise Delfino, Juliana Pierotti, Luciana Martinelli e Paulo Gonçalves Decupagens e transcrições: Maria da Conceição Amaral da Silva, Maria Emília Celestino e Tatiana Holler Produção Gráfica: Celso Aparecido Costa e José Carlos Araujo Pré-impressão e impressão: Stilgraf Fotografias: Antonio Lino Ilustrações originais: Breno Tamura Preparação de texto: José Muniz Jr. Revisão de textos: Renato Potenza e Vivian Miwa Matsushita

Copyleft © 2006.Todo o conteúdo deste livro pode ser livremente utilizado sem finalidade comercial, desde que o crédito seja dado à Aracati - Agência de Mobilização Social

www.aracati.org.br este livro foi feito em papel reciclado

Um agradecimento especial para:
Antonio Lino Pinto, Fabiana Kuriki e João da Silva Prado..

Juventude: atores da construção de nossa história
Os desafios de romper o ciclo da pobreza, exclusão e desigualdade social são hoje temas que têm repercussão entre as mais diferentes gerações na sociedade. Alguns movimentos, visíveis ou invisíveis, apontam possibilidades de ação e mobilização de atores. Embora muitas vezes desconhecidas pelo público em geral, essas ações e mobilizações vêm construindo desenvolvimento, sentido de pertencimento e fortalecimento de identidades. Este livro vem ao encontro desse movimento, dando luz, cara, cor e imagem aos mais diversos processos sociais desencadeados pelas gerações mais jovens. São processos que reúnem diferentes movimentos na busca de alternativas e formas de expressão mais autônomas, formas de participação mais democráticas e orgânicas; demonstram o surgimento e o crescimento dos diferentes movimentos juvenis com agendas sociais das mais diversas, que fortalecem a identidade e o papel dos jovens na sociedade como provocadores, promotores e atores de processos de mudança, de si mesmos e dos organismos mais diversos da sociedade em geral. A mobilização dos jovens tem originado forças convergentes no país, que sugerem uma época mais madura, de abordagens mais progressistas e colaborativas de trabalho pelo desenvolvimento. Neste livro, visitamos essas forças que impulsionam o agir do jovem nos quatro cantos do país. As experiências relatadas demonstram que as ações com jovens não dependem apenas de processos formativos ou proibitivos, mas sobretudo de ações emancipatórias e legítimas de intervenção, onde a originalidade e a contemporaneidade fazem parte da essência do ser jovem. A juventude mobilizadora, neste livro, torna-se visível. Os jovens tornam-se atores da construção de nossa história, impulsionadores da luta contra a pobreza e a desigualdade social. E ensinam ao país que a juventude brasileira é, sim, atuante. Neste livro, visitaremos o que fazem os jovens do nosso Brasil.

Lis Hirano Wittkamper Assistente de programação da Fundação Kellogg na América Latina e Caribe

O sisal sai de Conceição do Coité. Sendo desse jeito. Um dos países mais desiguais do planeta Terra. Nesse momento. vendo tevê. Outros não têm dinheiro para tirar cópias de textos. Outros nem na faculdade estão porque não podem pagar a mensalidade. o atravessador fica com 85% do valor que é cobrado do consumidor. a polícia corre pra Ceilândia. mas têm um jeito positivo de olhar para si mesmos e para a própria vida. Cerca de 74% deles acham que há mais coisas boas do que ruins em ser jovem. com a sirene ligada. O “Perfil da Juventude Brasileira”. um livro sobre jovens do Brasil. revelou que 92% dos jovens do país acham que sua vida vai melhorar nos próximos anos. Os personagens principais são jovens. este também é um livro sobre injustiças.. não têm acesso à educação pública de qualidade. os jovens já sabem que é melhor ficar em casa quando os carros passam em comboio. Essas histórias reais. mas o dinheiro da exportação não volta pra lá. Alguns dos nossos jovens personagens lá do semi-árido baiano trabalham com o sisal desde crianças.APRESENTAÇÃO s histórias deste livro são reais. Quando acontece algum crime mais sério em Brasília. Veja só que paradoxo: os jovens não têm trabalho digno. eles podem estar em casa. dormindo. muitos jovens ainda estão otimistas.. talvez até folheando essas páginas e lendo sua própria história. Enquanto eles ganham uma mixaria pelo que produzem. O acesso à universidade pública não é fácil pra quem sempre estudou em escola pública. de jovens reais. no trabalho. embora vivam na pele esse tipo de injustiça. Na cidade-satélite. todos eles de carne e osso. Mas é interessante notar que.. Alguns jovens vão de carro para a faculdade. não têm segurança. acontecem num país de verdade: o Brasil.. A . uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Cidadania.

estereótipo da alienação e do consumismo. brilham todos os dias nas telas de televisão. Ficamos atrás apenas da Colômbia e de Porto Rico. O que acontece é que os jovens não estão mais participando do mesmo jeito que os jovens daquela época participavam. Projeto Juventude e Participação Social/MOC (BA) e Saúde e Alegria (PA). O pessoal da Bansol está na universidade. Muita gente tem saudade da geração de jovens dos anos 60 e 70 e costuma dizer que a juventude de hoje não é engajada e politizada como a de antigamente. em vez de participar. o resultado da consulta foi surpreendente. Desde 2002. Quase a metade dos desempregados do país (3. ainda tem gente disposta a arregaçar as mangas para melhorar a própria vida e a vida das outras pessoas. o pessoal do Núcleo Cultural Força Ativa mobilizou os . ou uma ditadura em que todos vivem bem. estão seguindo um caminho novo: eles lutam pelo acesso. Um outro dado. permanência e sucesso dos negros no ensino superior. de 2000.7 milhões) é jovem. Núcleo Cultural Força Ativa (SP). os jovens que participavam estavam principalmente nas classes médias urbanas e se organizavam através do movimento estudantil. um resumo de todos os 132 relatos recebidos está no site da Aracati: www. mais da metade (19 milhões) vive em famílias com renda de menos de um salário mínimo por mês. Cerca de 17 milhões não estudam. para se ter uma idéia.7%) aceitaria a volta da ditadura se isso resolvesse os problemas econômicos. a rica diversidade de tipos e formas de participação juvenil existentes hoje no Brasil. entre agosto de 2003 e maio de 2004. “As questões atinentes aos jovens com mais de 18 anos permanecem desconsideradas como foco de ação pública e social até meados dos anos 90. Esperávamos receber uns 30 relatos.Outro dado importante: 84% dos jovens acreditam que a juventude pode mudar o mundo. nos intervalos comerciais. ainda que parcialmente. Na verdade. Não faz sentido uma sociedade altamente participativa onde todos vivem em condições precárias. da UNESCO. em vários estados. a taxa de mortalidade de jovens por homicídios no Brasil era a terceira maior do mundo. Bansol (BA). Este é também um livro sobre participação social. Os jovens que participam dos projetos da ONG Geledés. em geral. comprova a gravidade da situação: em 2002. Mas eles não participam daquele tipo de movimento estudantil mais conhecido. Participação e desenvolvimento devem ser vistos. Essa quantidade. Essas iniciativas não são necessariamente melhores do que as 124 que não foram publicadas.org. Grupo E-Jovem (Nacional). Eles estão dentro da faculdade de administração de empresas levantando a bandeira da economia solidária. uma iniciativa do Instituto Cidadania que promoveu. Sem pressão social. Fora das faculdades também tem muita coisa acontecendo. O Bernardo Toro. que foi às ruas na época da ditadura. Mas é bom que se diga: não é só das injustiças vividas pelos jovens brasileiros que se trata aqui. Não dá pra querer um sem o outro. da cidade de São Paulo. a ONG Aracati. a maioria pensa diferente. e as histórias deste livro estão aí para comprovar. O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) descobriu que mais da metade dos latino-americanos (54.Vamos ver o lado positivo: apesar de ser a minoria. Geledés (SP). tão mais importantes e urgentes? Eis o ponto. O site do projeto recebeu mais de 2 mil visitas em 30 dias. E aí alguns podem perguntar: pra que falar de participação num país em que uma parcela significativa dos jovens vive tantos problemas? Participação não seria um luxo perto de todas as outras necessidades. Os jovens das propagandas.br).aracati. Mas façamos como a juventude. é igual à de toda a população da Argentina. a situação já estava indo de mal a pior. Mas como os “bansolinos”. Mas os adultos. governos e empresas que incentivam a participação juvenil. escolhemos oito: Aliança com o Adolescente (PE. também são estudantes universitários. E muitos desses brasileiros têm entre 15 e 24 anos. escolas. Quando os olhos do país se voltaram para a juventude. De todas as histórias que recebemos. Jaqueline E de todos os tipos: muitas iniciativas de grupos e organizações de jovens. costuma dizer que “a participação é o modo de vida da democracia”. sempre seremos livres e iguais apenas nas páginas da Constituição. No outro extremo. No período da ditadura. a Aracati vem desenvolvendo projetos de incentivo à participação de jovens. Mas hoje o cenário é outro. como lados da mesma moeda. O preço que se paga por estar nessa fronteira é caro: o abandono. O problema é que se as pessoas não reivindicarem seus direitos. em São Paulo. Na democracia devem coexistir pelo menos duas coisas: a dignidade e a participação. associando a imagem da juventude aos problemas e não às soluções. Desses muitos brasileiros que têm entre 15 e 24 anos. E mesmo sabendo da existência de diversas iniciativas juvenis país afora. elas retratam.” A conclusão é do Projeto Juventude.Vivem hoje no país cerca de 34 milhões de jovens. Uma sem a outra não faz sentido. E isso é óbvio. As oito histórias foram escolhidas como um grupo. Grupo Interagir (DF). que gentilmente escreveu o prefácio deste livro. CE e BA). lá em Salvador. ninguém vai fazer isso por elas. Dá pra entender: a necessidade em geral fala mais alto e muita gente prefere ter dinheiro no bolso e comida na mesa. em parceria com a Fundação Kellogg. Mas também alguns projetos de adultos: de ONGs. Neide. fez uma consulta em todo o Brasil à procura de histórias de mobilização juvenil. (Aliás. portanto. os jovens que matam ou morrem freqüentemente viram manchete de jornal. Recebemos 132. um amplo programa de estudos e debates sobre os jovens brasileiros. costumam ver muito mais o lado negativo. Acontece que nem todo mundo pensa assim. Na periferia de São Paulo. Mas não é verdade. Para encontrar alguns desses jovens. Mas… e os jovens que não se encaixam em nenhuma dessas categorias? Onde estão? Esses jovens estão numa fronteira: a fronteira invisível entre a infância e a vida adulta. Muita gente ainda insiste em definir a juventude por negação: os jovens não são mais crianças e ainda não são adultos. Esses são dados do censo do IBGE. Margleuda. Juntas. Os tempos mudaram.

A Clara perdeu umas aulas na faculdade de administração por causa do encontro. Neide deu bastante espaço para a fala literal dos próprios jovens. da Gameleira.moradores do bairro e montou uma biblioteca comunitária. para coletar imagens e depoimentos. Jeitos diferentes de ser. os jovens de lá podem se comunicar com os jovens gays e as jovens lésbicas que trocam idéias e informações por e-mail e pelo site do Grupo E-Jovem. orientações sexuais. política. A Vivi e o Josivaldo vieram da zona rural. “nós” gays. O mais certo é falar em juventudes brasileiras — assim. Montaram também um telecentro com acesso à Internet. estrada asfaltada. Os integrantes do Interagir também estão envolvidos nessa discussão sobre políticas públicas. sabe lidar com as pessoas. Vários integrantes do grupo são do movimento hip-hop. Estrada de terra. o clima. pensar e agir. Agora. a história e a cultura dos lugares que visitamos. a flora. para que você possa saber um pouco mais sobre essas referências. Estrada do Algodão. E. Mas o interessante foi perceber que ainda há um outro “nós”. “nós” da periferia. onde está trabalhando atualmente. Os jovens da Rede Mocoronga de Comunicação Popular.Tem gente fazendo projeto na área de saúde. Os jovens da Aliança estão abrindo seus próprios negócios e se envolvendo com projetos na área de cultura. 29 anos são costurados pela sua poesia jornalística. os jovens foram importantes para que a ditadura desse lugar à democracia. Este livro nasceu para ser uma pequena comprovação dessa diversidade. E nesse ponto. Quem também não quer abandonar a terra onde nasceu são os jovens do Projeto Juventude e Participação Social. admite Deco Ribeiro. Uns trabalham com economia. E estão num lugar privilegiado para isso: Brasília. era importante que eles soubessem uns dos outros. Entre 26 e 31 de março de 2005. como o leitor preferir. a fauna. Os textos também estão recheados de referências sobre a geografia. juventude negra. Eles estão se organizando em municípios do semi-árido baiano para garantir que haja políticas públicas para a juventude da zona rural. Há algumas décadas. Os jovens de hoje receberam essa herança e estão indo adiante: estão desbravando a democracia. . Contando histórias de iniciativas do terceiro setor. Por isso a escolha de um conjunto bem diverso de experiências. vários estão desistindo de vir para as capitais porque acreditam no desenvolvimento local de suas comunidades. raças. no meio da floresta. “nós” da floresta. Neide Duarte sabe lidar como poucos com as imagens e as palavras. “nós” sertanejos. estão fazendo programas de rádio em comunidades ribeirinhas do Pará. Além do livro. agricultura. outros com comunicação. aconteceu um marco na produção deste livro: quatro jovens de cada um dos projetos se encontraram em Brasília. Os textos em geral estão recheados de depoimentos que Washington. O resultado foi considerado “excelente” por 80% dos participantes. seria difícil imaginar que é possível achar algo em comum. Mas acima de tudo. o material coletado durante essas visitas deu origem a um videodocumentário sobre mobilização juvenil no Brasil. projeto da ONG Saúde e Alegria. Fica aqui o convite: leia o livro e veja o filme. no plural. Este é um livro de andanças. Antes que outras pessoas os conhecessem através do livro. a culinária. criamos uma espécie de glossário. A Raquel mora na floresta. Em alguns casos é mais forte. Mas em geral está sempre presente: o “nós” jovens. juventude da floresta. em meio a tantas identidades diferentes. A Carlinha veio de mais perto: ela mora em Brasília mesmo. juventude rural. Foram realizadas visitas a cada uma das iniciativas. às vezes vem depois. do Coco. A Fernandinha canta rap. prevaleceu o sentimento de que é possível construir a unidade na diversidade. porque não existe uma juventude brasileira. Ela deixou saudades em muitos dos lugares que visitamos. Escolhidas as oito histórias que seriam publicadas. mas esse encontro me fez ver que eu estava errado”. E são muitos os caminhos. em outros menos. que às vezes vem antes. A Camila é negra. acertamos em cheio ao escolher a jornalista-viajante Neide Duarte para escrever as histórias. começaram as viagens. Ou pelo seu jornalismo poético. fundador do Grupo E-Jovem. outros mexendo com educação. Ao final do livro.. outros com política. Como você vai perceber. dos Bandeirantes.. A idéia do encontro era promover um intercâmbio entre eles. Alguns com cultura. barco e avião. O Rodolfo é gay. descobrindo novos e importantes caminhos de participação social. Antes de voltar à Rede Globo.“Eu realmente duvidava que um movimento juvenil unificado fosse possível pela complexidade de todas as juventudes. Neide dirigiu e apresentou o Programa “Caminhos e Parcerias” na TV Cultura. ela conheceu bem o itinerário poeirento e esburacado que leva aos projetos sociais. Diversas classes sociais. de fato. Cada um trouxe suas bandeiras de luta e suas identidades: “nós” negros. No final. A seleção das histórias e as viagens para colher imagens e depoimentos aconteceram entre outubro de 2004 e fevereiro de 2005. Juventude urbana.

E isso não costuma ser facilmente aceito. esse é um debate que está ganhando cada vez mais força: algumas prefeituras. a fórmula é a mesma: mais participação juvenil.. organizações e movimentos juvenis estão fazendo pressão e cobrando seus direitos. 2% dos brasileiros entre 15 e 24 anos) desenvolvem algum tipo de ação benéfica para a sua comunidade. O cenário ainda está longe do ideal. no começo não aceitava que mulher criasse peixe.. o “Perfil da Juventude Brasileira”. terra do Germano e do pessoal da Aliança. Um país que. jovens ribeirinhos estão fazendo programas de rádio e se organizando politicamente no Pará. cultural ou esportivo. o interessante é ver que. em 1968 o Brasil tinha mais ou menos 270 mil universitários.Você já procurou saber o que os jovens estão aprontando de bom na sua cidade. mas no dia-a-dia é diferente. Conheça. Em 1835. Agora ela percebe que lá também é lugar de negros. Esses jovens são pioneiros. as ações políticas e sociais dos jovens de hoje não estão nas páginas dos jornais. um sem número de movimentos: a Conspiração dos Suassunas em 1801. A mãe da Élida já entende melhor porque a filha estudou tanto para entrar na faculdade. os jovens engajados desse país continuam na escuridão. fica mais difícil. com costumes que vêm de gerações. Histórias reais. O Seu Antonio. no seu bairro? Provavelmente você vai encontrar muitas histórias parecidas com as que estão escritas aqui neste livro. Na casa da Luiza. mas o pai não aceita ter um filho gay. em geral. A participação juvenil não costuma ser reconhecida e valorizada. As resistências. além de se conhecer. Se hoje a juventude vem ganhando espaço na agenda política do país. estamos falando de uma turma de cerca de 7 milhões de pessoas. Por outro lado. que não acredita muito nesse papo de economia solidária. num país de verdade. A pesquisa também revelou que os personagens deste livro não estão sozinhos: cerca de 680 mil jovens (ou seja. a concluir o ensino médio. Muitas vezes eles mexem com tradições. Esse espaço foi criado por uma mãe. Do mesmo modo. seja religioso. 0. Mas ainda que não apareça e que digam o contrário. Segundo aquela mesma pesquisa do Instituto Cidadania que citamos anteriormente. outra de nossas personagens. A família da Margleuda. com personagens reais. Este livro pretende ser um facho de luz sobre essa juventude. a assumir sua homossexualidade. a participação juvenil existe sim. é porque alguns grupos. Falando assim parece muito simples e lógico. Os jovens de Monte Santo. o Ajuntamento de Pretos em 1815. você vai conhecer alguns deles. Antonio Lino Co-fundador da Aracati . Ainda mais sendo adolescente. uma das personagens deste livro. começam dentro de casa. no seu livro Culturas da Rebeldia: a Juventude em Questão. Aliás. eles aproveitaram a estada em Brasília para visitar o Congresso Nacional e conversar com políticos sobre o que o governo está fazendo pela juventude do país. Um país que durante muito tempo esqueceu sua juventude. Somando os que estão fazendo com os que querem fazer. a terra da Cícera e suas bonecas. Porque geralmente o que acontece é que os brasileiros que não se enquadram naquele mito do povo pacífico e passivo acabam sendo condenados à invisibilidade. mas que agora começa a descruzar os braços para pagar essa dívida. esse mesmo estado foi palco do movimento da Cabanagem. Na verdade. o Padre Cícero liderou o movimento milenarista em 1914. Nas próximas páginas. E nada disso caiu do céu. Dentro de casa. segundo Paulo Sérgio do Carmo. lembram até hoje do Conselheiro. Já pensou se de Norte a Sul esses jovens fossem às ruas para construir um país melhor e mais justo? Não faria muita diferença? Pra se ter uma idéia. os pais têm a oportunidade de conhecer melhor o que os filhos pensam e descobrir aos poucos que suas idéias e ações têm fundamento. Imagine então o que 680 mil podem fazer. E quando os jovens começam a querer mudar o jeito como os adultos fazem as coisas. As revoltas e lutas populares quase não aparecem nos livros de história. Nem todos esses universitários tiveram alguma participação nos movimentos contra a ditadura. Eles estão longe dos holofotes da mídia e da opinião pública. E tem um garoto do Grupo E-Jovem que não fala com o pai há um ano. tem um imenso patrimônio: milhões de jovens que ainda não perderam a esperança. Mas fora de casa. e os projetos e programas governamentais ainda são insuficientes. No Ceará. e aos poucos as famílias aprendem a acolher e valorizar as novidades que os jovens trazem pra casa. Para evitar retrocessos e conseguir novos avanços. pai da Ana Nere. Os problemas que afetam a juventude são muitos. não usa mais agrotóxicos na plantação desde que a filha levou pra casa uma alternativa mais ecológica. Apesar de estarem conquistando cada vez mais espaço. Muitas vezes são os primeiros de suas famílias a se envolver com projetos sociais. não precisa imaginar o que os jovens podem fazer. Mas é preciso reconhecer que estão acontecendo avanços. A história se repete.Agência de Mobilização Social . 15% dos jovens brasileiros participam de algum grupo.Até porque pouca gente fica sabendo o que os jovens estão fazendo. E dentro do site do E-Jovem tem até uma coluna direcionada aos pais dos adolescentes gays e lésbicas que não sabem como lidar com a sexualidade de seus filhos e filhas. que deu origem ao primeiro e único governo popular.3% de toda a população daquela época. Atualmente.Vivemos numa sociedade adultocêntrica. essas resistências vão se desfazendo. nem sempre são bem-vindos. indígena e camponês do período imperial. Eles moram na mesma casa. a Revolução Praieira em 1847. Mas aqueles que tiveram cumpriram um papel muito significativo. na Bahia. de vez em quando rolam uns “conflitos ideológicos” com o pai. Um país cheio de injustiças e desigualdades. governos estaduais e o próprio governo federal começam a perceber a importância das políticas públicas para os jovens. às vezes.E como jovens.Vá atrás. Em Pernambuco. apesar de todos os problemas.

aprender a construir a autonomia pessoal e social. é fácil entender que este não é um problema de governantes. para a dignidade de todos. A governabilidade supõe um conjunto de novos entendimentos e aprendizados sociais: recuperar o valor da política. em cooperação com os outros. A política A possibilidade ou dificuldade que uma sociedade ou comunidade tem para avançar depende de sua própria capacidade para criar e sustentar .PREFÁCIO Os jovens e a governabilidade A liberdade não é possível a não ser na ordem. e definir um norte ético como fundamento para fazer da sociedade um espaço de humanização contínua. U m dos maiores desafios da América Latina é a governabilidade. criar e fortalecer as organizações como condição para exercer a cidadania (ser ator social). Se definimos governabilidade como a capacidade de uma sociedade de dar ordem a si própria. mas a única ordem que produz liberdade é a que eu mesmo construo. mas uma construção que se gera e se produz a partir da sociedade civil.

espiritual. onde os jovens vivem e evoluem como cidadãos autônomos. é preciso saber se organizar ou pertencer a organizações que respondam a nossos objetivos e interesses. suas idéias e ações repercutem em todo o âmbito dessas organizações. através da conversa. Os jovens e a governabilidade As novas (e antiqüíssimas) visões da sociedade demandam novas formas e espaços de formação e de vida para os jovens. capacidade de trabalhar para diminuir e evitar o sofrimento dos outros. Ser jovem. entendida como a arte de escolher o que convém à dignidade humana. tornar possível a universalização dos direitos humanos. de poder formular e implementar o próprio projeto de vida. Uma pessoa sozinha. O projeto mais importante da sociedade é a dignidade. isto é. depende sim do número e do tipo de organizações às quais a pessoa esteja vinculada. isto é. a tudo o que constitui uma sociedade. articulados no propósito coletivo. se autodestruíram. e saber fazer alianças e transações do tipo ganhar – ganhar. A ética. É sob essa perspectiva que convido o leitor a percorrer estas páginas. a tecnologia e o poder podem se virar contra nós e nos destruir. descrições e experiências apresentadas aqui nos ajudam a visualizar novos espaços de socialização e de aprendizagem. A importância da política. Sem esse referencial. Quando uma pessoa pertence a muitas organizações de uma forma ativa. ao investimento. entendida como a capacidade de orientar e decidir sobre a própria vida de acordo com um projeto ético. A autonomia é o resultado de três dimensões interiores: o autoconhecimento. os jovens precisam viver como tais na sociedade a que pertencem. à política. saber dar normas éticas a si mesmo.interesses coletivos. a ceder e a receber cessões. do debate e da confrontação pacífica de interesses. o diretor Carl Sagan propõe a seguinte hipótese: talvez houve em outros planetas civilizações inteligentes como a nossa. série de TV sobre a conquista do espaço. a compaixão. Como dizia Tocqueville. Sabemos que não é possível um projeto de jovens sem adultos. As narrações. organizados e com um projeto ético que fundamenta sua atuação presente e futura. e que seu sucesso depende de que todos possam agir e ser como são. a ciência.Aprender a argumentar e se deixar argumentar. social e política. . dos políticos e dos líderes provém dessa tarefa. Também o são: saber cuidar de si mesmo. São características de uma pessoa autônoma: o conhecimento. a auto-estima e a auto-regulação. a associação e o saber associar-se compõem a ciência-mãe de uma sociedade. dos outros e do planeta.A formação política consiste exatamente nisso: aprender a criar propósitos coletivos. a combinar interesses para obter melhores conquistas e resultados. a partir da multiplicidade de interesses de cada um de seus membros. A ética dos direitos humanos nos orienta sobre como usar a força do poder. E se é a própria vida. como ser criança ou velho. capacidade de perseguir objetivos e metas que beneficiem a outros. A organização Ser cidadão significa ser ator social.Aprender a desenvolver essas três dimensões é o novo paradigma da educação emocional.Tais direitos são o norte ético das novas sociedades. sem nenhuma organização. não é uma etapa da vida – é a própria vida. ao trabalho. a valorização e a ponderação da história pessoal e social de cada um. Ao ler o conjunto de histórias relatadas nesse livro. Essas são também as características de uma organização e de um país autônomo. a solidariedade. A ética Em Cosmos. é a riqueza mais importante de uma sociedade. dão sentido às instituições. José Bernardo Toro A. e outros podem facilmente ignorar ou violar seus direitos. Uma sociedade ou uma comunidade (desde a família até o Estado) avança em direção aos seus objetivos quando pode criar uma convergência de objetivos. um só interesse comum. mas que tiveram a desgraça de a ciência e a tecnologia terem chegado antes da ética e. É preciso que pessoas se dediquem a construir e conseguir essas convergências de vontades e desejos por um propósito externo e de benefício coletivo. da ciência e da tecnologia. quando consegue construir. A autonomia A formação política requer também a formação para a autonomia. a formação para o conhecimento e para a observação interior. O nível de influência de uma pessoa em uma sociedade não depende do dinheiro ou dos antepassados na família. por isso. podem-se perceber a pertinência e a importância da atuação dos jovens. uma pessoa que em cooperação com outras pode modificar a ordem social em que vive. não tem influência na sociedade. Para ser ator social. todo o resto depende disso.

SAÚDE E ALEGRIA_131 ALIANÇA COM O ADOLESCENTE_75 PROJETO JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL_113 GRUPO INTERAGIR_63 BANSOL_99 GELEDÉS_35 GRUPO E-JOVEM_23 NÚCLEO CULTURAL FORÇA ATIVA_47 .

22 GRUPO E-JOVEM .

Palavras para serem escritas por pessoas sem corpo. a formação de uma palavra em construção passa. como um desenho. É sol de fim de tarde. Palavras para serem ditas de costas. IMAGEM: três rapazes projetam sua sombra num telão na sala de aula. numa paisagem embaçada. (O primeiro à direita) — Era como se tivesse uma casca em torno de mim. o céu.A natureza não tem uma regra específica. só aumentava minha timidez. de noite. A sombra deforma o retrato. talvez por isso não façam sentido: intraduzíveis. num instante etéreo em que a mensagem alcança seu destinatário. Com o tempo as coisas . irremediáveis. desde então.24 25 E se eles soubessem? E-MAIL: As palavras escritas passam numa velocidade espantosa. como vivemos a nossa humanidade. dez anos de idade eu me sentia reprimido pelos colegas da minha classe. fica difícil descrever como eles são. quase vermelho. a terra inteira até se formarem em algum outro lugar. As pessoas viam a casca. e de uma forma invisível atravessarem o ar. uma tatuagem. Uma letra passa perdida. sem som humano que as confirme: como são nossos dias. no centro) — Desde os nove. também sem corpo. No telão aparecem as palavras que escrevem no computador. mas não a minha verdadeira natureza. (O segundo. foi como se a Gestapo tivesse passado a morar comigo. Sempre fui tímido e o fato de ser como sou sempre foi motivo de chacota. uma cicatriz feita de letras. Há cinco anos que eu contei para os meus pais. para olhares sem nitidez. neste século. Palavras para serem ditas por pessoas sem voz. as montanhas.

IMAGEM: nuca de rapaz em primeiro plano. que alguém tinha colocado aquilo na minha cabeça e que eles podiam tirar com uma oração. à esquerda) — Estou no início de minha carreira. Não dá pra você omitir uma parte da sua vida. por preconceito. quem quer ficar. Faço faculdade e estágio na área. Maria Tudor. quase na passagem. arrastada assim. o marco zero da cidade. Pelo pouco que a gente consegue ver. eu fico quieto. É teu estilo de vida. Eu tenho medo de que. até o espaço em que.Você tem que criar uma coisa pra colocar naquele lugar. IMAGEM: costas. desde pequenininha eu era apaixonada pela vizinha do meu avô. onde a cidade foi fundada. o rapaz deve ter entre 18 e 20 anos. entra naquele personagem e vive aquele personagem. ali. na calçada da praça Bento Quirino. (O terceiro. (Outro ele) — Há uma semana toquei no assunto e revelei que sou gay. Uma mulher e outra mulher. Então você acaba criando um personagem. foi exatamente aqui e tem um valor político pra gente muito interessante. Ele cria um personagem. manchada. fica. a gente podia ter feito uma coisa pra isso passar. é o jeito como você vê o mundo. o adolescente gay vive eternamente um jogo de RPG. é daquele filho-personagem que você criou. no Sucão. Não quero que minha mãe e meu pai me vejam falando sobre isso. Fui sendo excluído pouco a pouco por todos no colégio. não sei qual seria a reação se eles soubessem que existe um.Aí. CENA: Na primeira mesa. que você vê. é personalidade. onde as luzes projetam sua sombra no oitavo andar do edifício. os que passam atrás são uma mancha. E aí você fica naquela:“será que ela vai gostar de mim quando descobrir que eu sou assim?” Então. Minha irmã descobriu e me ameaçou: se eu não contar para os meus pais. Ser gay é uma coisa que você é 24 horas. o garçom não dá conta de atender todo mundo. risos. um casal se beija. SOM: “Porque eu não quero aparecer? É um motivo pessoal. acorda de olho castanho. um pedacinho da orelha. faço Arquitetura. duas bandeiras com muitas cores. ficava com receio. (Ela) — Eu sempre tive desejo por mulher.Você dorme de olho castanho. Na escola aprendi a me posicionar e não inventar mais. Deco conseguiu ser atendido e agora. quase apagada. desfocados. teria que viver a vida enjaulado.” CENA: Deco ainda insiste e chama o garçom. SOM: “Quando eu era pequena sofria mais ainda. o bar está cheio. Entre óperas descansa a morte de Carlos Gomes – nesta praça. Eles iam achar que era provocação. mas não queria admitir para mim. O meu pai disse que era pra eu pegar as minhas coisas e sumir de casa. IMAGEM: garota desfocada entre luzes. mas não é do filho que ela está orgulhosa. ela conta. mas já faz um ano que meu pai não fala comigo. Aqui tem mesinha na rua. por ser gay.‘Se você tivesse contado desde pequeno. quer dizer.’ Isso foi a minha mãe. a nuca. Noite de luzes. se eu passava ao lado de um. Lo Schiavo. Borrados. um instante e o olho não tem certeza se viu. você coloca esse personagem no lugar do seu verdadeiro eu. me disseram que isso era coisa demoníaca. E quando eles souberem eu sei que vão querer me levar pra Bahia de volta. marco zero de Campinas. A palavra nunca dita. beija. conversas. em algum momento. (Um outro ele) — Tenho 18 anos e comecei um estágio agora. CENA: Bento Quirino está sentado numa cadeira bem no meio da praça. parte do cabelo. não gostaria de ser prejudicado. entre eles. Não dá pra você só ficar em silêncio sobre tudo que você faz enquanto gay. Carlos Gomes segura a batuta de maestro lá no fim da rua. não vão me deixar continuar a faculdade e lá eu vou sofrer a maior repressão. embaçada. Condor. Fosca. finalmente. SOM: vozerio no bar. perfil. as portas se fechem para mim. (Ele) — Meu pai simplesmente chegou pra mim e falou que não ia admitir que o filho dele virasse mulher.” E-MAIL: Mesmo a palavra não dita revela a sua identidade. entendeu? É uma característica sua. A gente tá aqui na rua. num guetinho escondido. e se eu quisesse ficar dentro da casa dele eu nunca mais poderia usar o telefone. que você sente. Sombras numa parede.26 27 só pioraram.Tenho grandes chances de subir na carreira dentro da empresa em que trabalho. sentado ali. Porque você não é gay só na hora que você vai pra cama e tal. Meus superiores vivem fazendo piadinhas a respeito disso. Eu continuo a viver na minha casa. nuca. Quando eles descobriram. discriminado. eu sabia. invisíveis. por exemplo. riscos de luzes que passam sem deixar marcas. É branco. não tá num lugar. um barzinho de muro alto e vidro fumê. você tem olho castanho a vida inteira. quem quer beijar. Se eu estou na mesa ele não senta. grita. histórias de falsas namoradas. logo era apontado e discriminado na frente de todos. velocidade . baixa. Onde os bares agora acendem suas luzes. (Deco) — Aqui é o centro de Campinas.Tenho 19 anos. Deco chama o garçom. a sua mãe está toda orgulhosa do filho. não sabendo que eu era assim. Salvador Rosa. Ele não se senta à mesa comigo. como se estivesse atrás de uma vidraça opaca.Você nasceu de olho castanho. cabelos claros. Il Guarany. que você pensa enquanto gay. Ser gay é uma coisa muito por aí também. sendo gay só ali escondido. espera o chope e o sanduíche.

Alguns podem se revelar.. porque eu cresci na igreja. em Passo Fundo no Rio Grande do Sul.Agora.Tive namorado. Retroprojetor. E os colegas fazendo piadinha também.. CENA: Praça Bento Quirino. aí vi o site do E-jovem. não tem como esconder. dos amigos gays. por exemplo. mas ninguém chegava pra ela e dizia. fiquei com um cara e tal e sempre naquela luta sozinha. a vida dele é o quê? Ele vai pra escola. na escola. Sol de fim de tarde. era péssimo. nós temos esperança. os professores nunca falam nisso. entendeu? Você não vai mais para o inferno sozinho”.. Mas aquilo para mim era absurdo. Minha mãe ficou péssima.. eu cuidava das crianças da igreja. Eu tinha a esperança de ter nojo. outros não. Ultimamente sou mais pro lado dos meninos mesmo. né? Porque você não pode ser você dentro de uma igreja. Que bom que você gosta de alguém. e agora?”. Eles me disseram que eu estava em pecado e que se eu falasse que eu ia deixar essa vida de pecado eles me manteriam na igreja.. que bom que você está namorando.Aí eles falaram:“Não. Algumas meninas.. eu quero ver o meu neto feliz. mas aí eu gostei absurdamente. E aí. ela ouvia algumas conversas. novidades.Aí eu conheci uma menina. Quando falam é na aula de biologia ou algo assim. todo mundo meio que falando no assunto. de casa em casa. longe. bem mais velho do que eu.. tipo cantando lá na frente e pensando: “nossa. E nesse grupo. é isso a vida dele. (Ele) — Eu estava há muito tempo em dúvida. acredito que todo mundo que tem dificuldades de encontrar pessoas para discutir esses assuntos acaba procurando na Internet. (Deco) — O principal motivo para os jovens procurarem o site é o isolamento. Computador. que ser gay é muito mais legal do que ele pensa. Chão preto de borracha. que tem outras pessoas passando o que você passa. Eu falei que não. Contei pra uma pessoa que fez o favor de contar para a igreja inteira. Então. É uma coisa maior complicada. Aí conversei com ela e tal e falei: “Vó. porque eu saí da igreja. ele vai pra casa. na família. a gente ia para outros estados para evangelizar e tal. olhava no espelho e falava pra mim mesmo: “se assuma. assim. que eu era assim e não tinha como. vi que o perfil das pessoas batia comigo e fiquei. Eu me sentia muito culpada. Eu fui criado lendo o pequeno livro. vocês vão para o inferno juntos. porque tinha cultos.. aí se inscreve numa lista de discussão e aí você começa a ver que tem milhares de pessoas em todo o Brasil. Esse ano pra mim foi o ano de liberdade mesmo. (Outro ele) — Esse negócio de igreja é complicado. eu falava e pregava. você volta pra gente”. eu tenho um namorado”. alguns rapazes. Então eu sofri sozinha dos 14 aos 18 anos. E ela me falou o seguinte: “Ah. Deco e outros gays numa mesa no bar Sucão. O adolescente gay de 14 anos no interior de qualquer estado. né? Ela já estava suspeitando. falar tudo o que passa pela minha cabeça.Tá dando o maior rolo. palestras. E foi um período até que eu sentava. você tem uma praça no centro da cidade que os gays freqüentam. Daí você chega até o site. um amigo meu me trouxe para o E-jovem. aí você vê que não está sozinha. menos pra ela. aqui em Campinas. Então. ele acaba achando o site e acaba descobrindo que ser gay não é viver sozinho. Sala de aula. Deco fala à vontade. num canto branco da sala. Eu pensava: “Minha avó vai morrer se eu falar pra ela” . quando muito. Estou namorando. com medo. tudo quanto é canto. Mas por quê? Às vezes até ouve piadinha do pai ou da mãe. mas ela está feliz porque eu já não vou sozinho. (Um novo ele) — Como as pessoas foram chegando? Ah. O adolescente se sente isolado em casa. E a Internet acaba sendo a janela para o mundo gay. basicamente. Eu posso viver naturalmente. era pecado. (Ela) — Tenho 17 anos. Aí eu pensei. (Outra ela) — No meu caso foi bem complicado.. E os amigos dele são os amigos da escola. perto de você. agora é vermelho. você vai pra Maringá no Paraná. Geralmente a gente fica medindo o que vai falar. — Porque. em casa ele não pode falar. uma coisa assim. Em São Paulo. Eu me sentia péssima. porque as meninas não estão dando oportunidade. Eu também me afastei. Tinha sempre gente feliz. fiquei com ela. Eu vou cozinhar um mocotó no casamento de vocês.. se aceite”. Sou bissexual. Como é ser gay em Altamira? A gente tem um rapaz no E-jovem . Minha mãe supercrente. era horrível. Sofá largo e laranja. das Testemunhas de Jeová. aquele amarelo. só tem uma conclusão. Ele sai no fim de semana pra ir ao shopping. você tem ruas inteiras gays. “Meu filho é gay. pela Internet. É com soropositivo. Ela continua achando que eu vou para o inferno por ser gay. Então. Ela falou: “Eu achei esse livro no quarto da sua mãe”.. e se eles soubessem de mim?”. A minha avó é testemunha-de-jeová há mais de 20 anos e eu contei que sou gay para todo mundo da minha casa. Aí eu entrei na lista. e tentando namorar com homem. sabe. Então a gente te exclui da igreja pra você pensar e quando você voltar ao normal.Aí aos 18 anos comecei a me afastar da igreja. falando sobre homossexualismo:“vão para o inferno”.. eu ia no campo e tudo. você vai para Altamira. Na escola. ela estava lendo um livro que eu dei pra minha mãe: Meu filho é gay. E aí ele se fecha ainda mais. eu pude conviver com pessoas com as quais eu não preciso me preocupar com isso. Aí eu fui excluída da igreja. eu cantava na igreja. falando do namorado. Um dia eu cheguei em casa. assim. no Pará. Porque se você tem alguém. e agora? E ela sentadinha na cama dela lendo. ele se sente isolado. como vai agir. Aí aos 14 anos comecei a gostar de uma mulher.28 29 CENA: Interior.

“A gente tem esse exemplo de jovens que contam na escola ou que contam para a família. O Brasil tem aproximadamente 1056 suicídios de jovens gays por ano. poder levar ela lá em casa e falar assim:‘essa aqui é a minha namorada’. eu convivo com ele’. sem retrato. e mudam alguma coisinha na vida dessas pessoas e isso se multiplica. os gays são todos promíscuos’ para a minha mãe. um adolescente gay se mata porque é gay... Eu ia me sentir bem mais verdadeira se isso acontecesse. nove gays se mataram. em ângulo oblíquo. e que aquela criança que ela criou. que você acha que é gay. entendeu? Então. Eles procuraram corrigir a minha homossexualidade. e olha de volta para ele mesmo. uma pessoa que deixa de se matar porque encontrou um site. a sociedade acaba matando esse jovem. Se você quiser mudar o mundo. eu acho que a gente criar essa referência para as pessoas que estão próximas a nós é o principal.Uma vez eu levei uma menina lá e eu falei pra minha mãe que era minha amiga. muito pelo contrário. CENA: Campinas atrás de grandes janelas.” CENA: Deco olha pra esse lado de Campinas. porque os pais não sabem. Mas são três suicídios por dia. por exemplo: eu contei em casa para o meu pai. Poucas nuvens. por cima”.Tem namorado. outros 12 gays se mataram. Meus pais sabem que sou gay há cinco anos. Ele escreve para a gente: “Você olha assim para alguém. na cidade. Não tem bar gay. 20. ou de algum outro programa de humor. porque cada pequena coisa que uma pessoa faz no seu próprio universo começa a mudar o mundo. Eu acho que eu gostaria muito que acontecesse. Eu vejo isso na minha família. Nos três dias de carnaval. só depois de eu ter sobrevivido à tentativa de suicídio. entendeu? São mais de mil por ano. assim’. por que o jovem se mata? Porque a família o rejeita. Bater um papo legal e ela aceitar. Responde às nossas perguntas por escrito. passam a ter uma referência para gay. você muda a sua casa primeiro. O jovem se mata porque o mundo o rejeita. isso dá uma média de três suicídios por dia. para a minha mãe. assim.” CENA: Uma menina olha pela janela. por fim. 15. (Deco) — A gente recebia uns e-mails de jovens dizendo:“Eu estava sozinho. como vidros de um navio. Se todo mundo fizesse isso. não tem boate gay. de Zorra Total. Ele escreve no computador. para os meus primos etc. não tem nada gay”. O jovem se mata porque a escola o rejeita. eu o conheço. se alguém fala assim:‘Ah. ou o André meu neto. Então.30 31 que mora em Altamira.A cada oito horas. assim. Eu recebo vários e-mails como esse. IMAGEM: a luz vermelha do sol de fim de tarde projeta a sombra de um rapaz na parede da sala de aula. e que não tinham uma outra referência para gay a não ser o que viam na mídia em programas humorísticos. É uma vitória. mas você nunca vai saber se ele é ou se não é. “Eu gostaria de poder dizer pra minha mãe: ‘olha mãe. Porque no momento não estou namorando ninguém. ou aquela menina que ela acompanhou todos os passos e tal é lésbica. de repente o gay não é mais aquela coisa abstrata. pensando em me matar. alguns prédios: “adoro olhar o centro de Campinas. Claro. tentei o suicídio há sete meses porque eu não via futuro para mim. na janela entreaberta. Nessa hora em que a cidade é azul e mostra seus prédios numa linha que recorta o céu. Eu acho superchato a gente sentar no sofá e não poder dar as mãos. Não tem como você ser feliz se escondendo. como se fosse uma doença.. mas se por algum acaso eu vier a namorar uma menina. enquanto sua imagem se duplica. achei o site e mudei de idéia”. Porque ninguém nunca vai ter coragem de se aproximar e se revelar. Então.” .Você percebe que essas pessoas que estão em volta de você. para os meus irmãos. O gay é o André meu filho. Sem voz. Ela sabe como o filho dela é.. minha família percebeu que a situação era mais séria do que eles pensavam. E para os amigos da faculdade também. 25 anos. a gente teria o mundo que a gente quer. 18. “Tenho 23 anos. é assim. sabe? Não poder dar um beijo. é gay. Você vê. viu crescer. enquanto a maioria do povo estava curtindo. Então a gente começou a se perguntar por que isso acontece. de 15 a 24 anos. o meu filho é gay e não é promíscuo. Depois de eu ter revelado a minha homossexualidade. Então o único contato é pela Internet. eles não se mostraram compreensivos. nos quatro dias de vestibular da Unicamp. ela vai falar assim:‘Não. toda mãe conhece o filho há 10.

só conversar. O retorno que a gente tem é muito positivo. entendeu? Você não pode pensar em mudar a sociedade. distribuídos. sexo. normalmente os jovens escrevem pra gente dizendo coisas assim:‘Nossa. fazer cobertura de eventos etc.900 jovens de todo o Brasil e alguns de Portugal e do Japão. falecida em 2005. trabalhando numa sociedade fictícia só de gays. Ana Maria Ribeiro. achando que é o único gay do mundo. atualmente. pais e mães de E-jovens respondem dúvidas sobre como esses pais podem compreender melhor os seus filhos. E como os filhos podem também compreender melhor os seus pais. Santos. uma coluna para pais e mães que não sabem o que fazer quando descobrem ter um filho ou uma filha homossexual. é jornalista e trabalha como editor e webmaster do site. escrever depoimentos ou ainda fazer uma reportagem. entre os amigos da escola. o que costuma ser comum na maioria dos sites dirigidos para homossexuais. no táxi. Palavras para serem ditas com calma numa manhã de sol e céu claro. religião. no café-da-manhã. reportagens. por Porto Alegre. E se os próprios pais não aceitarem e respeitarem os filhos. Rio de Janeiro. Os usuários são também aqueles que alimentam o site. 30% têm menos de 16 anos. peças de teatro de temática gay e.e-jovem. família. Cerca de 76% dos usuários do site têm menos de 21 anos. Deco tem 33 anos. a Dra. Foram criadas unidades regionais do Grupo E-jovem em várias cidades. Palavras para serem ditas no almoço de domingo. O site “www. Nessa lista. “Eu acho que o site conseguiu cumprir aquilo que era o objetivo dele. Quando eu começo a ver heteros participando de movimentos gays. escola. Nela. lésbicas.32 33 E-MAIL: Começam a se formar letra por letra. num contínuo movimento de reconstrução. Palavras para serem lidas numa noite. O nome da coluna é “Afagho”. no açougue. que ainda é o objetivo dele: passar informação pra quem não tem informação e se sente isolado. mais de 2. em que Campinas passa assim. Jovens gays. Palavras para serem ditas ainda de pijama. A idéia central é estimular o protagonismo juvenil. São mais de 35 mil acessos mensais. O site também disponibiliza uma lista de discussão por e-mail. atualmente. foi criada pela mãe do Deco. Palavras para serem ditas numa noite qualquer. se tivessem certeza que teriam apoio. na lavanderia. eu percebo que a nossa causa é uma causa justa. No chope de fim de tarde entre os amigos do trabalho. Guarulhos. Origens e Propostas O www. na padaria. azul. os jovens se cadastram e conversam entre si. O site é composto por dicas de baladas. na fila do cinema. E quando ficam nítidas. quadrinhos. lésbicas e bissexuais cadastrados no E-jovem passaram a se encontrar e conversar sobre o que cada um poderia fazer pela causa gay. suja ou que deva ser secreta – a maioria dos garotos gays tem orgulho em ser o que é e adoraria que os pais soubessem. bissexuais. como essa. o Grupo E-jovem realiza encontros reais. escrever uma coluna. com a família.com” tem.A causa gay é a gente não precisar ficar lembrando a toda hora que a gente é gay. o Programa Escola Jovem. artigos. ainda. Campinas. foi demais o site.Você tem que trabalhar num mundo que tem gays. sobre temas fundamentais na vida de todos nós: amor. na cabeleireira. São cerca de cem jovens atuando na linha de frente da militância. me ajudou em muitas coisas. pela janela do ônibus. No site há espaço tanto para o jovem que apenas quer receber informações quanto para aquele que quer participar de discussões. quando o pai volta do trabalho. Belo Horizonte e Brasília. Além dos encontros virtuais. que pretende levar a discussão da homossexualidade para dentro das escolas públicas e particulares de ensino fundamental e médio. “Queremos mostrar aos pais e à sociedade que isso que estamos fazendo não é uma coisa errada. O Grupo E-jovem é um dos únicos grupos gays do Brasil a colocar em estatuto que aceita heterossexuais como representantes do projeto. charges animadas. criando um mundinho só de gays. a causa ganha mais força. antropóloga clínica. heterossexuais. Me ajudou a tomar coragem pra contar para minha família que sou gay”. Eles criam e desenvolvem projetos que podem atingir centenas de outros adolescentes. Estão cadastrados no site. (Deco) — Eu acho que quando a gente agrega pessoas que não estão diretamente envolvidas na causa.com.e-jovem. Curitiba. sem correr o risco de ter pornografia no site. diz Deco Ribeiro. como vídeos. Eu mostrei pro meu pai e pra minha mãe. São Paulo. Foi fundado por Deco Ribeiro em 2001. no elevador. Palavras para serem ditas no ônibus. Cruz Alta. fiz trabalho de escola com ele. Para contatos diretos com a coluna o e-mail é: afagho@e-jovem. enquanto a mãe passa o café pelo coador. como iremos querer que a sociedade os aceite?“ . na sala de aula. estão prontas as palavras.com é um site dirigido ao público homossexual jovem. todos estão vivendo juntos”. continua Deco. No E-jovem quem se inscreve na lista não pode trocar fotos. ainda. no escritório. O objetivo do E-jovem é ser um site de troca de informações.

34 GELEDÉS .

de África herdadas. Não. Cláudio Adão.37 Sou só eu na minha sala A os pés da Santa Cruz. soltos de todo jugo.. sem autorização.. em pálido assombro retumbante: existem professores negros na Universidade? Existem alunos negros na Universidade? E continuam aquelas vozes. estalar do açoite. nos pensamentos de falar. sem ordem. Tinir de ferros. Em sangue a se banhar. marrom.. Legiões de homens negros como a noite.. Não. O próprio senhor e seus filhos eram. duros.... neste ano da graça de 2005. teus pensamentos de agora. que logo chegarão. São Paulo: Companhia das Letras. reprodutores soltos ali para emprenharem a quem pudessem. “Onegroche gaasent irmedo imag inandoq uepos sasof rerprec oncei totud oques erefer eao negrono Br asilnã oébem acei to Euso u negraso upob reeeun ãoposs onega rques ou negramin h amã eé negramin haav ó é negrar. que não vai chegar e que se viesse nos diria.” Pátio da Cruz.. entre orgulhos de cabelo mole ter nascido. bege-escuro. Nenhuma hipótese havia nesse ambiente para que os negros e mestiços tivessem qualquer chance de se estruturar familiarmente. onde ecoa a voz desgovernada. nesta sintaxe: amém. de fato. será dito agora e documentado nesta via que segue. loucos nesse turbilhão. Quanto aos outros. 1995.” E sendo eu o branco. caracóis encarniçados. marrom mais claro. “A juventude negranão te mrefer ência deprof essor es negrospou case scolastêm profes sores negrosen aunivers idad evoc enãoen contra profes. Alexandra e Daniele de Jesus esperam por Élida e Adriano.. Não.. bege-oliva... o submetido. Era um sonho dantesco. Pois então não éreis vós o negro. nesta Roma das cidades. de Castro Alves. nós que não desatam. não me pesam tuas palavras.. .. o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. livres na escritura. o que tinham a nos dizer. Horrendos a dançar.sores negrosquan tosdos jov ens negrosque entramnas. pátio da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O provo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. cá pra nós que não somos negros. a família patriarcal do senhor de engenho. como tanto sabe de cor.. não me pesam teus cabelos. como eles o são. “O Navio Negreiro”. Darcy Ribeiro. não me pesam tuas cores. seus filhos e aparentados mais diretos ocupava tão exaustivamente as funções do lar de tipo romano que não deixava espaço para outras formas dignas de acasalamento. neste latim que nos abençoa. assim. azul-marinho. . e por Diego. o obediente ao seu feitor? Então não era assim que as coisas se davam? Que mal houve nestes rumos? Nesta Grécia em perfeição.. o pálido que ostentas estrelado.

30% dos negros não conseguem concluir o ensino fundamental. E a juventude pobre? E a juventude negra. a porcentagem que era de 45% cai para 21%. São duas na minha sala. essa porcentagem é de 19%. para seguir a carreira acadêmica. tudo o que se disse foi ali. aquela população que tinha uma baixa autoestima. outro em Presidente Prudente. entre os brancos. ou particulares de qualidade. brancos.. realizou uma pesquisa nacional. 24 anos. estimulada a vida inteira. eu lembro que na sala de aula. A pesquisa mostrou um outro retrato: entre os jovens que se dizem brancos. vai ajudar sua mãe passar roupa. Alexandra de Campos. é difícil você tentar se colocar e ter uma posição.A nossa maior preocupação.38 39 Vós não sois aqueles que chegaram. . uma evasão escolar enorme. 45. (Élida) — A maior parte do grupo entrou na PUC São Paulo. Porque se você for fazer uma análise hoje. Ele foi pensado também para que os 20 jovens negros voltem às suas comunidades e trabalhem o protagonismo juvenil. sendo que o meu amigo branco consegue comprar todos os 50 livros em um semestre e eu não consigo comprar nenhum livro? (Daniele) — É complicado também você entrar em uma faculdade.. desde o berço. Era para os negros que os professores diziam essas coisas. desenhos na lousa de alguma aula inexplicável. O número de ascendência negra subiu para 75%. segundo ano de Turismo. pouquíssimos. eu acho que no curso inteiro. que acrescenta dados importantes ao Censo 2000 do IBGE. 45% são brancos. entendeu?”. além de mim. atrás de outros espaços menos barulhentos. aquela população que ficava no fundão. bússolas e sextantes. falando língua estranha de toda corte. Nenhum quarto. “Perfil da Juventude Brasileira”. os cereais em aguardente? Então não fomos nós a fartar os gansos com comida. brancos. – 3% dos jovens indígenas chegam à Universidade. nenhuma cozinha. (Élida) — Passa muito pela escola também. vai varrer rua. 42% dos jovens brasileiros chegam só até o ensino fundamental. Adriano Rodrigues dos Santos. É que todos os 20 tinham atuações em suas comunidades. tem uma na sala ao lado. obscura. um na Anhembi Morumbi e um em São Bernardo do Campo. E saímos à procura de uma sala de aula que estivesse vazia e. outros dois jovens entraram na Unesp. Segundo a pesquisa. a partir do pequeno percentual de negros que freqüentam as universidades. A juventude burguesa foi preparada. os professores sempre diziam assim para a população negra. segundo ano de Administração de Empresas. dois na Metodista. O que temos de cada um são apenas os seus discursos. em todo o período escolar. onde é que fica nessa história? O Instituto Cidadania. segundo ano de Letras. Segundo o Censo do IBGE (2000). na África. vai lavar carro. em oito anos de estudo. faz duas faculdades: segundo ano de Pedagogia e terceiro ano de Direito. que criamos esse mundo? Em astrolábios. para quem não é da turma. nada particular. todos estudantes da PUC. naquele ambiente de lousa e cadeiras. a criar louças e cristais. quando ingressamos na Universidade. ou seja. (Élida) — A gente luta é pela igualdade de condições. mares e estrelas nomeados? Então não fomos nós. impossível de entender. – 10% dos jovens brancos chegam à Universidade. Daniele Cristina de Jesus. onde melhor se ouvisse e entendesse tudo o que tinham a dizer os cinco meninos do projeto Afro-ascendentes. Ele foi pensado por Geledés. Eu estudo administração e na minha sala. nada revelador sobre nenhum dos nossos personagens. como a PUC. se tiver dez alunos negros é muito. conforme segue: Cláudio Adão. 90% dos alunos são totalmente diferentes de você. Como é que eu vou acompanhar o curso. Os professores diziam o seguinte:“Olha. tem uma outra menina negra e isso foi para mim uma grande surpresa. Aliás. quando perguntados sobre a ascendência racial só de brancos. Élida Miranda. Desse número. Esse projeto leva o nome de Afro-ascendentes. segundo ano de Comunicação Multimeios. na Faculdade de Direito. 18 anos. nenhuma sala. até a morte. qual a juventude que entra na USP? De onde saiu essa juventude? Quantos por cento dos jovens negros que entram nas universidades particulares conseguem se formar? Pouquíssimos. depois da Nigéria. você não quer estudar? Vai pra fora. um em Guaratinguetá. a gente fala em recursos acadêmicos. linhos e aventais? Então não fomos nós a transformar a uva em vinho. Por exemplo: – apenas 6% da população jovem brasileira tem acesso à Universidade. encolhidos. e perceber que a maioria dos alunos. por exemplo. (Cláudio) — A gente faz parte de um projeto que visa a inserção de 20 jovens negros nas universidades públicas. Acompanhando essa conversa.3% dos jovens brasileiros são negros e pardos. através do Projeto Juventude. 24 anos. 21 anos. assim. em rara iguaria? Então não fomos nós a acorrentar os homens e a corromper as mulheres de escuras peles e cabelos de espinho? Então não fomos nós a reconhecer nos homens o boi trabalhador ou o cavalo reprodutor? E nas mulheres a dócil vaca de grandes tetas para nossos filhos? Então não fomos nós a ver nas meninas escurinhas o prazer libidinoso para o branco de pança cheia de açúcar e de arrotos? Então não fomos nós a forçá-los ao nosso carinho? Então não fomos nós a desvendar-lhes o destino? E foi então que saímos do Pátio da Cruz. Por isso é que se costuma dizer que o Brasil é o segundo maior país de população negra do mundo. E quando a gente fala em permanência. era de como iríamos nos manter aqui dentro. de toda Europa? Conheciam os mares? Os nomes das estrelas? Os mapas dos continentes? Então não fomos nós. escurecidos. – 3% dos jovens negros chegam à Universidade. 21 anos. por um modelo educacional que de fato seja igualitário. Então ela sai do ensino médio direto para a Universidade. para que nos dessem em troca o próprio fígado. né? Em que quem freqüenta o ensino público tenha condições de ingressar nas universidades.

Fonte: Maria Inês Barbosa. A pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira” revela também que os jovens negros são mais atingidos pelo desemprego (34%) do que os jovens brancos (28%). Segundo pesquisa. disputando a vaga. quando eu comecei a aceitar que existia essa falta na minha família. Aconteceram. com meu cabelo cacheado. Um dos meninos do nosso grupo que entrou na Unesp de Guaratinguetá foi fazer a matrícula e lá na faculdade já gritaram. E o professor. eu não sou negra. Nós queremos partir para o mestrado. segundo o IBGE. E é assim. Mas a gente tem que ter a nossa correria.9 salário mínimo. essa proporção é de 39% para os homens brancos. o rendimento médio mensal da população negra brasileira é de 1. porque a minha mãe é negra. tem um tanto de papel destinado a revelar fotografias. Que eu era louca porque eu vivia estudando. a minha avó é negra.Tem uns alunos brancos que. Racismo e Saúde. então eu sou o quê?”. A educação ainda é o caminho. olha. A gente é referência para o povo negro. (Cláudio) — E mesmo com todas as dificuldades.7 salários mínimos. . entre os jovens. e entre os indigentes 69. estou numa entrevista de emprego com uma pessoa que é branca. Eles têm uma diferença de tratamento. eu não posso negar que eu sou negra. Outra pesquisa mostra que. Minha mãe não entendia nada. mesmo que ela tivesse mais experiência do que eu. Muita gente fala pra mim: “mas você é clara. E ele vem passando por um processo de discriminação tão forte que começou a mexer com o psicológico dele. os negros morrem mais cedo que os brancos. Porque. fazem rapidamente o que têm de fazer e já correm para querer aprender mais do que os outros. A condição subalterna de onde nossas famílias vieram. Eles querem estar sempre na frente. hoje. do que falar que é negra e sofrer todo o preconceito. se for eu e a Alexandra. a população negra tem um rendimento médio de 2. Embora não se perceba assim. A esperança de vida ao nascer é menor entre as crianças negras. Continue com as condições e nas condições de subalterna. sim. de ingressar na Universidade. sabe? De falar “não. o doutorado. Porque ela não admite. por se sentirem superiores. Os brancos querem estar sempre na frente. assim. nem parece negra”. (Alexandra) — Em sala de aula tem uma diferença. Mesmo que eu tenha mais experiência profissional que ela. uma das nossas idéias – isso é uma bandeira de luta – é que nós. adoecer e morrer. de longe. assumir um papel crítico dentro da sociedade. Eu sou negra. alguns fatos trágicos por parte dos “amigos” brancos da faculdade. As mortes por causas externas atingem 32% dos homens negros e 16% dos homens brancos — praticamente a metade. 68 jovens negros morrem por homicídio. E aí. Eles tratam os alunos brancos de um modo e o lado negro de outro. porque eu trouxe ela pra dentro dessa realidade. Então é muito mais fácil ela falar que é morena para ser aceita pela sociedade.A gente tem que se formar. “Ah. ela te mata. de cada 100 mil habitantes. tanto que a minha mãe.55% são negros. (Fonte: O mapa da violência IV: Os jovens do Brasil. loira e tem cabelo liso. da população branca é de 3. esse número se reduz para 39. Aí eu ingressei na Universidade. Entre os brancos. você é branca”. mas o que é a faculdade?”. entendeu? Não é todo mundo que tem essa chance que a gente está tendo. os outros alunos. A autora conclui que o racismo é fator determinante no modo de viver. assim. ficava de madrugada estudando. Tese de doutorado em Saúde Pública. Mas aí um dia ela falou assim: “a minha filha está na faculdade.Vai fazer qualquer outra coisa da vida. E não é para a primeira dificuldade que vamos abaixar a cabeça.. A mortalidade infantil entre os negros é maior do que entre os brancos. como servente. (Daniele) — Por exemplo.. Quando eu saí do ensino médio e ingressei na Universidade. eu Daniele. ela briga. eu comecei a trabalhar com ela essa história. seguir a carreira acadêmica. mas a gente percebe. aconteceria. xerox é difícil.5 salários mínimos e a população branca de 4. 63% dos homens negros morrem antes dos 49 anos. USP: São Paulo. juventude negra. 2004) Quanto aos salários. nós nos consideramos jovens privilegiados. faz o curso de alfabetização de adultos aqui na PUC e agora ela consegue compreender o que é a Universidade.Você encontra uma pequena parcela de negros na academia. 64. mas tenho uma tonalidade de pele mais clara que a dela. eu ficaria com a vaga. porque a gente não é referência só para a nossa família. ser sempre os primeiros. realizado pela UNESCO.. na segurança. quem fica com a vaga é ela. diferença de 74% entre as raças. E eu disse: “não. King Kong. bem alto. ela encerrou o ensino médio já está bom. Em São Paulo..9 salários mínimos. Nós queremos. Porque afinal de contas saímos da periferia. Nós temos um projeto acadêmico maior. (Élida) — É o estresse de sala de aula. não. Nós queremos romper com essa cultura da subalternidade. entende? Então assim. ao invés de falar assim: “espera os outros alunos”. Nós queremos sim é O Atlas Racial Brasileiro mostra que entre as pessoas pobres. Secretaria Especial de Direitos Humanos e Instituto Ayrton Senna. de perspectivas de vida. sim. Por exemplo. na minha família. A gente é referência para a nossa comunidade. É assim. no laboratório de fotografia.40 41 (Daniele) — Eu tenho uma prima que tem uma tonalidade de pele um pouco mais escura que a minha e se você falar pra ela que ela é negra. Condução é difícil. estimula isso. eu não quero isso pra mim”. porque a cor da minha pele está mais perto da tonalidade branca. E esse papel crítico passa pela educação. na certa. E nós não queremos nos formar de qualquer jeito. a mesma coisa. sou morena”. é o estresse que o negro sofre na sala de aula.Vai trabalhar de balconista. sabe? É condição subalterna. 1998. falta da minha mãe compreender o que é a faculdade. saiamos da condição subalterna. ninguém esperava na minha família.84% são negros. (Élida) — Quando a gente fala de sonhos. O trabalho infantil é maior entre as crianças negras. Mas. Eu falei assim:“se você é morena. isso gera uma discussão quando a gente se encontra. Então todo mundo achava que eu era louca. ela diz. (Élida) — Nós somos a primeira geração do nosso núcleo familiar a ingressar na Universidade. vai trabalhar no shopping. mas você encontra muitos negros na faxina.

1996 . porque era chacota total na cidade. No dia em que acabou a escravidão. Ele abre a revista e não se reconhece. Num dia eu fiquei muito brava numa discussão de grupo e depois fiquei pensando: “ai. numa lanchonete. imagine sem elas. Foi vendido como escravo pelo próprio pai. Gentis-homens. foram feitas ações afirmativas. “agora vocês se viram”. Porque tudo é bodarrada! (Cláudio) — Que ninguém tenha a ilusão de que as ações afirmativas vão resolver o problema da desigualdade racial. Marram todos. sou pobre e agora ainda vou fazer barraco. Eles não podiam entrar num bar. Deputados. que viviam aqui.. Vereadores.) Sei que é louco e que é pateta Quem se mete a ser poeta. Ele foi um poeta negro que viveu em São Paulo no século 19. negro. quando os imigrantes vieram pra cá. e que os homens poderosos. Rio de Janeiro: Record. homens. sem deixar nenhum. não porque eu fosse tímida. com exceção da região Sul. Como é que ele vai crescer numa sociedade que não o respeita? Ninguém dá valor pra ele. Cardeais. mulheres e crianças. elas vêm mesmo para sanar toda essa história. se impõem. a literatura mais importante para o movimento negro... dominaram e ocuparam a cidade por quatro dias. Compram negros e comendas. Bispos. desta arenga receosos. não digo sanar. Mas. Nobres. Muitos negros não conhecem. mas pelo menos amenizar. E.. Têm brasões. você está sempre em minoria. os brancos.. Bahia de Todos os Santos. a gente ficou assim ao léu. Orgulhosos fidalgotes. ou sou bode Pouco importa. Ele foi abolicionista e republicano.. o que é que eles vão pensar? Eu sou negra. Uma das referências negras que nós temos na nossa literatura é Machado de Assis. E com tretas e com furtos Vão subindo a passos curtos.42 43 Por exemplo. entendeu? A capoeira é marginalizada. ainda hoje a ascendência malê é escondida.A gente quer representatividade tanto na elite quanto na classe média. mas ele próprio negava ser negro.. Bodes ricos. Frades. Ele anda pelas ruas. Ricas Damas e Marquesas. a ordem dos senhores foi matar todos os membros da nação malê. E a história dele. sejamos todos francos. Que no século das luzes. tudo que pertence ao negro é marginalizado. O que a gente quer é equilíbrio. Então. Baios. em verdade os escravos provindos dessa nação alcançavam os preços mais altos. pampas e malhados. porque eles. procurei me afirmar para o lado negro. vê os outdoors e não se reconhece. Nos ensinaram que ser negro no Brasil não presta. não – das Kalendas. a produção literária dele são deixadas de lado. Repimpados principotes. Os birbantes mais lapuzes. Ele liga a televisão e não se reconhece. que apóiam e defendem os negros. não é? Mas tem outros escritores que são abolicionistas. sendo não só os mais caros. E realmente eu percebi que eu tinha medo de falar o que eu pensava. (Alexandra) — Um dia. Condes e Duquesas. haja alegria. Galgam altas posições. Porém eu que não me abalo Vou tangendo o meu badalo Com repique impertinente Pondo a trote muita gente Se negro sou. hão de chamar-me Tarelo. Folgue e brinque a bodaria. A gente tem na nossa literatura representantes que muitas vezes são esquecidos. fizeram coisas horrorosas. Logo derrotados pelos soldados. o samba é marginalizado. A nação malê não era apenas a mais culta entre quantas forneceram mercadoria humana para o tráfico repugnante. (Cláudio) — É por causa disso que o negro não se auto-afirma.”. a biografia. quanto tempo para serem aceitas? Tudo o que se refere ao negro no Brasil não é bem aceito. bodes pobres. Cesse pois a matinada. você acaba se retraindo. importantes E também alguns tratantes. também os mais disputados. as religiões africanas. vem de Luís Gama. De nobreza empantufadas. para a nossa cultura. E aí importaram mão-de-obra da Europa. estou entrando no projeto de iniciação científica.) Pois se todos tem rabicho. descobriu-se que os jovens negros se distribuem de maneira mais ou menos igualitária pelas regiões do Brasil. quando a família dele ia visitá-lo. recém-saído da escravidão.. do trabalho nas lavouras. Bode. sabe? Isso mexeu fortemente com o estímulo dele e com a própria vontade de querer cursar a faculdade. onde a grande imigração européia do começo do século passado praticamente excluiu o negro. (. E a gente está lutando para que isso seja colocado em debate. nesta boa terra. Quem sou eu? (.Tudo que toca ao negro... senhor de engenho. para mim. quando já as razões do medo foram esquecidas. jogaram a gente para os guetos. Por que em lugar dos negros. que era branco.. E porque é que ninguém discutiu? Houve no Brasil um processo de embranquecimento. O mais culto dos malês era o alufá Licutã. amenizar porque com as cotas demoraria 50 anos para a gente alcançar a eqüidade. A repressão foi tamanha que ainda hoje a palavra malê continua como que maldita.. Eles começavam a dizer: “olha os negros. Onde vivem os jovens negros: Região Norte e Centro-Oeste – 50% Sudeste – 45% Nordeste – 42% Sul – 17% lavouras? Jogaram a gente nas margens da periferia. Ele comandou a revolta dos negros escravos durante quatro dias e a cidade da Bahia o teve como seu governante quando a nação malê acendeu a aurora da liberdade. sendo que os negros eram capacitados para o trabalho. No começo do século passado. Mongibelo. não tem como. (Adriano) — Eu sempre. olha lá os macacos”. Jorge Amado.Teve ações afirmativas dos imigrantes. onde a gente vai estudar Luís Gama. Belas damas emproadas. as cotas. Aqui. levantaram-se os escravos. Pretendo me tornar um especialista em Luís Gama. Uns plebeus e outros nobres.) eu bem sei que sou qual Grilo. um professor virou pra mim e falou que por eu ser negra eu me isolava dos outros alunos e eu tinha medo de falar. desde o início. Na pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira”. Claro que ele sente medo. Para que tanto capricho? Haja paz.. há rajados. tudo berra. Fanfarrões imperiais. dentro do meu curso. Agora. (. dentro da sala de aula. silenciada. entendeu? É por causa disso que o negro não se valoriza. Bodes negros. para que as pessoas conheçam Luís Gama. ele não pode crescer mesmo.. marginalizaram nossa cultura. É complicado. Senadores. Fazem grossa pepineira. como Castro Alves e outros. Só pela arte do Vieira. O que isto pode? Bodes há de toda casta Pois que a espécie é muito vasta Luís Gama Há cinzentos. republicanos. A gente quer equilíbrio na pirâmide social. E com jeito e proteções. Eu faço Letras. de maçante e mau estilo. tanto é que hoje eles estão bem representados em todas as classes sociais. Bodes sábios. bodes brancos. preferiram trazer os europeus para trabalhar nas . era chacota total. mas sim porque eu tinha medo da resposta que os outros alunos podiam me dar.

que o patrocinador financiaria atividades culturais. (Cláudio) — O projeto. Então. e aí.As Geledés são consideradas meio bruxas. Uma sociedade em que as mulheres detêm o poder político da tribo. em projetos diferenciados. todo mundo se dedicou e tivemos 100% de aprovação. o Geledés está tentando batalhar outros financiadores. E estamos aí. um ano após estarmos formados. vamos dar condições para que outro jovem negro possa freqüentar a faculdade. já dentro do mercado de trabalho. de mulheres negras africanas. atual- mente. de início. A empresa paga para os jovens desde o cursinho até o término da faculdade. transporte. assumimos um compromisso: quando a gente estiver formado. (Cláudio) — E mesmo com a falta do patrocinador. Os brancos têm 100% de cotas. o sistema de cotas já existe no Brasil: para os brancos. muitas coisas que caíam nas provas que a gente não tinha a menor noção. Não é porque o patrocinador saiu que a gente vai perder a causa. de quem não se pronuncia o nome. assim. que têm todas as dificuldades de permanência na Universidade. (Solimar) — Quanto à questão das cotas. presidente da Geledés) Projeto Afro-ascendente – ação afirmativa que pretende inserir 20 jovens afrodescendentes em Universidades. facilitar estágios em empresas parceiras e propiciar condições para o desenvolvimento integral de talentos. por causa da nossa formação no ensino público.A empresa patrocinadora. O que a gente está discutindo é: vamos distribuir esse sistema de cotas. mas até agora. para que a partir daí eles possam fazer uma intervenção qualificada dentro das suas comunidades. inclusive. Mas a gente teve professores muito empenhados e. mas no começo do século passado. paga 70% da faculdade para sete alunos. Mulheres que você não vê. Kolynos. Ficamos seis meses fazendo cursinho. E a gente ralou muito para poder entrar nas faculdades. (Élida) — Basicamente o ideal do Projeto Afro-ascendente era este: acesso e permanência dos jovens negros nas universidades públicas ou particulares de qualidade. cinema etc. no programa de alguns vestibulares. elas existiram aqui no Brasil também. acompanhá-los durante a graduação. que usam máscara. mas a empresa encerrou o patrocínio antes da conclusão do projeto. tentando nos manter da melhor forma possível. Somos os jovens negros.A organização trabalha com inúmeros projetos. nós estamos dentro das universidades caminhando com recursos próprios.. muito profunda. atendem 54 jovens afro-descendentes. alimentação. tipo. Hoje. (Daniele) — A gente começou a ver. mas aí o financiador disse que em nenhum momento ele se comprometera a pagar a faculdade. O que a gente vem discutindo é: já existe um sistema de cotas no Brasil desde o seu nascimento. né? Todos os 20 conseguiram passar em boas faculdades públicas ou particulares. Geração XXI – ação afirmativa pioneira no Brasil. Aqui na PUC nós temos bolsa de 50% doação e 50% restituído.” (Solimar Carneiro. no atendimento a 21 jovens negros/as com seus estudos custeados da 8a série à conclusão da Universidade. Quando a gente pensou em um nome para a organização. No início contou com a parceria do Instituto Xerox do Brasil. . desenvolvida em parceria com a Fundação BankBoston. tudo isso estava previsto no projeto. (Daniele) — Quando nós ingressamos no projeto. teatro. Só a Alexandra conseguiu 100% da bolsa. a gente procura manter a unidade do grupo. (Élida) — Também xerox. e tem o compromisso de absorver esses jovens no programa de trainee quando estiverem no quarto ano da faculdade. Diversidade – projeto patrocinado pela Unilever. E tem algumas. E foi assim que nos chegaram as Geledés. Próxima Parada Universidade – projeto que oferece o cursinho preparatório para a faculdade. que há 16 anos tem como missão combater o racismo e o sexismo. entre eles alguns direcionados para a juventude.45 Origens e Propostas “Geledés é uma sociedade secreta feminina africana. nós estaríamos proporcionando a outro jovem negro a mesma condição que nos foi proporcionada por uma empresa. assim como quaisquer outros jovens negros trabalhadores. a gente quis recuperar alguma tradição. a gente quer manter essas pessoas pensantes e atuantes nas suas comunidades.. não que a gente não venha fazendo isso desde 1978. Inclusive porque o Instituto Xerox encerrou o projeto nesse momento. O projeto foi financiado pelo Instituto Xerox do Brasil. E. também dizia que nós teríamos computadores. porque são eles que estão na faculdade. Elas são originárias da Nigéria. Então. inclusive as mensalidades das faculdades particulares. O Geledés é uma organização criada e dirigida por mulheres negras. na verdade você tem uma discussão acirrada na sociedade brasileira.

46 47 NÚCLEO CULTURAL FORÇA ATIVA .

Passa uma fábrica de blocos. Passa o Cérebro Cabeleireiro. Passa um cabeleireiro. Caixas d’água esverdeadas pelo limo. . Passa mais um pouco de Mata Atlântica. Passa uma ponte comprida e alta. porque os blocos de concreto desabaram. Passa um motel abandonado e cor-de-rosa. Passa uma porta azul. Passa a avenida Jacu-Pêssego inteirinha. Passa uma ponte redonda. Passa a Mata Atlântica. Passa uma porta branca. Passa a loja das Casas Bahia:“quinta-feira especial com mesa e cadeiras. Eucaliptos no canteiro central. Passa uma casa de perfil. Nova fábrica de blocos. vidro e metal. eu vi. no muro da metalúrgica Vulcão. Passam lajes com elementos vazados. Passa uma janela vermelha. Passa a estação Artur Alvim. Passa a panificadora Brasil Chic. Passa uma banca de jornal fechada. Passam templos enormes em nome de Jesus. Passa a estação Patriarca. Ponto de ônibus: três mulheres e duas crianças. Aí o metrô acabou. Vizinho. Passa uma janela branca. Mulher e moça passam de Havaianas. Passa a estação Corinthians-Itaquera. Açougue: cartão de crédito e tickets. Passa uma Kombi azul e branca. Já passou. Passa o muro que anuncia bem grande: show de Reinaldo. Passa o bilhar dos irmãos Pereira. Um descampado enorme. P E ainda não chegou. Passa um portão verde.48 49 Para mudar essa paisagem assa a estação Tatuapé. Passa um Opala marrom. Passa uma casa de costas para a rua. Passam muros com nomes imensos de candidatos a vereador. Passa uma Kombi 76 e está à venda: R$6. Uma Belina branca passa. Mais eucaliptos. o príncipe do pagode. Passa a estação Vila Matilde. Passa a estação Carrão. As outras casas todas que passam são cor de reboque. Uma araucária. Ambulantes vendem doces na calçada.Venha olhar nossa linha branca”. Passa a Drogaria Lucy. Janelas e portas têm cor que não se explica. Passa uma bandeira do Brasil pela metade. Passa uma casa com menininha de vestido rosa no portão.800. Encostado na casa dela tem um bar azul de madeira. um bar com música ao vivo. aproveite você também.

pouca estrutura. Essas coisas que colocam um estigma na pessoa pelo local onde ela mora.. Eu não gosto dela não. Num muro pequeno. Cléber. Enfim uma praça. um bar que está à venda. de cobre?. eu trabalho para alterar essa realidade. Uma mulher gordinha de saia comprida e blusa turquesa vem com duas sacolas pesadas pelo caminho de terra. Vizinho um bar só com pinga e cerveja. Se eu pudesse. o busto de Tiradentes que olha para o outro lado. nem tem blusa turquesa. (Cléber) — Esse rótulo que a sociedade coloca para a gente. de marginais. quase de costas para quem chega. Então juntam essas coisas e daí nasce uma carga pejorativa gigante que ultrapassa fronteiras.. prédios de quatro andares. Vizinho. De perto nem é gordinha. Assim começa a Cidade Tiradentes. quase em camadas. porque se todos quisessem. né? De violentos. de chumbo?): “é pena. poderíamos fazer do Brasil uma grande nação”. ativista do Força Ativa) Entrevista panorâmica. né? E o grupo Força Ativa trabalha para alterar essa realidade. morador de Cidade de Tiradentes há 13 anos. Depois. E é tão grande e tão longe das vistas que só um esforço dos olhos faz a gente enxergar a figura de mulher que vem pela paisagem. prédios de quatro andares. Morro descampado. a sudeste. 23 anos. prédios de quatro andares. a boreste. a mais que leste. 23 anos . concentração muito grande de negros. Passa mais uma fábrica de blocos. prédios de quatro andares prédios de quatro andares. prédios de quatro andares. Outro salão de cabeleireiro passa. a noroeste. Aqui somos pessoas de bem que se organizam e resistem sim. O que você acha dessa paisagem? — É feia. entre capins. prédios de quatro andares. prédios de quatro andares. Isso é uma mentira da sociedade. (Cléber Ferreira. Vizinho um bar com Videokê. No primeiro plano. Mas é o que a gente tem e a gente se organiza para lutar e modificar essa paisagem. nem tem saia tão comprida. o capim alto desbarranca na paisagem.. violento. a norte. de serem todos bandidos. mas diz (em letras de ferro?. para as casas que se esparramam na planície. a bombordo. né? E aí você tem isso potencializado aqui na Cidade Tiradentes: bairro pobre.. a sul.50 51 Vizinho um bar com forró e sinuca. se eu pudesse não.

“A estratégia do Força Ativa é o socialismo.. um pouco infantil. Quando terminou a música. Aí que me despertou pra essa questão e eu comecei a pensar diferente e hoje às vezes sou eu quem faz a janta na minha casa. P OST U RA R EVO LU C I O N Á R I A L E TA L M E N T E . FO I . eu lembro que um dia eu falei. em vez de painéis ou o cenário de um teatro. Cores iluminadas pelo sol de fim de tarde. 29 anos pra isso.Tito canta um rap: EST U P RA RA M A B O N DA D E N AS C E N D O N OSSA G E RA Ç Ã O..” (Washington Góes. acesso a livros. quase apanhei das meninas. né?. A I N DA N OS R ESTA U M A A LT E R N AT I VA . P R E F I R O S E R S O L I D Á R I O. AG R ESS I VA M E N T E .. uma marcenaria. R E AC I O N Á R I OS. você não tem outra saída a não ser dividir. pela divisão dos bens aí. é dividir. nas intervenções. estudante de Letras na PUC e ativista do Força Ativa) A história do Força Ativa está ligada à história do rap. tenho que ir embora. M E M A N I F ESTO. Na última porta. preciso pegar minhas irmãs que elas têm que fazer a janta. AOS V E R DA D E I R OS M I L I TA N T ES D E ES Q U E R DA . E o muro a terminação do céu. É um palco no meio de uma praça. Grafite colorido no muro.Agora. porque é coisa de mulher. S O C I A L I ZO P E L A V I DA . tudo dividido.Ainda era a Rússia. Cléber lembra que se encantou com os ideais do grupo. alguma coisa impressionista. Noooossa. você tem que ter uma vida tranqüila pra você pensar em livros.Tem brinquedos e gritos de alegria de criança. nossa. no mínimo. as meninas.”. condições de pensar. tem um muro. No nosso dia-a-dia. Primeiro você tem que ter acesso à cultura. É uma transformação socialista. Como se o céu fosse a continuação do muro. (Cléber) — Eu lembro que a música falou de comunismo e falou contra o McDonald’s. você tem que ter as suas condições objetivas resolvidas. puts. um pouco enevoada.. Contribuir quando você dá livros ao invés de outras coisas. Era um grupo de estudos. quando ouviu Góes cantar um rap. Dia de encontro. Atrás do palco. Para você pensar em participação política você tem que ter. a gente – e até com base no que estudamos e pregamos – vê uma única alternativa a esse mundo burguês: é a revolução socialista. R E A L I STA . . S O C I A L I ZO P E L A V I DA .. ele falou: a gente pensa que comer no McDonald’s representa alguma coisa. O socialismo é isso. eles estavam discutindo a implantação do taylorismo na Rússia. porque você tem que ter o lazer. na nossa opinião e na minha. O azul é tão azul que em alguns pedaços o muro se confunde com o céu. pensar em uma atuação política. AO M ST. mas não representa nada. RA D I CA L . M O RT E AOS T E Ó R I COS D E M O DA . Daí eu achei interessante e fui ver o que tinham pra dizer.. nas falas das pessoas do grupo. nós temos o entendimento que não é o Força Ativa que vai fazer a revolução que a gente tanto sonha. Daí as meninas:“Como assim? Por que você não faz a janta?”. durante a revolução. V Í T I M AS F L AG E L A DAS D E U M M U N D O T Ã O A M A R G O CO M O F E L . Se não divide. Falei:“Ah. cada um aperta um parafuso. Q U E V E N H A A BA I XO O C É U. Não tem. o que infelizmente acontece em alguns outros grupos do Movimento Negro. Nesse cenário. o sistema de produção em série. 29 anos.Todo mundo gostava de rap. AOS P R E TOS E P R E TAS R EVO LU C I O N Á R I OS. aí eu me apaixonei pela discussão e falei: não dá pra ir embora. VA L E U FO R Ç A AT I VA . A sede do Força Ativa que criou ali a Biblioteca Comunitária Solano Trindade. o Força Ativa não proíbe a entrada de brancos.52 53 Espaço comercial da Cidade Tiradentes: uma porta de garagem ao lado da outra – bar do Paraíba.Você tem que ter e aí é um paradoxo. Espetinho do Amaral. de futebol e as meninas.Alguma alegria. E a gente luta por isso. uma foice e um martelo. A praça mais bonita do bairro. A outra coisa é a questão racial. Mas é contribuir Washington. algumas pinturas dão pistas do que acontece ali: as barbas de Marx. BEM-AVENTURADAS AS COMUNIDADES ZAPATISTAS.

diziam que transavam e depois de alguns meses nunca tinham nem beijado. de que a Aids tinha diminuído em São Paulo. então tem que ter algo melhor.. Então a gente discutia sexualidade. Então estou investindo na área social e é difícil pra caramba. a menina pode ter 12.. enquanto organização juvenil. as meninas têm um problema maior: os pais não liberam autorização para a menina pegar camisinha. dos ferroviários. se tem questões a serem tratadas referentes a prevenção.. dos metalúrgicos. do hospital onde trabalha como assistente social. capim alto. pegavam. E falavam:“eu quero camisinha. de limão. nos seus prédios exatamente iguais. a gente nem beija na boca. tinha pais também que vinham juntos na orientação e vinham para também assistir a orientação sexual. tem uns pré-adolescentes que já estão na atividade. E vinham falando: “eu quero camisinha. de bate-papo. que se cogitou a idéia de ter um serviço de prevenção. A Cidade Tiradentes é tão grande e tão parecida nas suas esquinas. (Tito) — O trabalho é de conversa. Isso com os meninos. quero camisinha”.” Alguns falavam: “Eu transo. Eles vinham e falavam abertamente:“Se eu não pegar a camisinha. Agora. tem autorização assinada a gente libera”. que são iguais aos ferroviários. eles também chegavam:“ah. Quando chegaram aqui.. vai até em saquinho de gelinho”. montava um cronograma e ia desenvolvendo. E a grande diferença aqui é o prédio pequeno do CTA onde Tito trabalha. (Tito) — Porque eles já vêm com uma visão de sexualidade de casa. né? Não esquenta. que passou na TV Bandeirantes e eles assistiam em casa. se não todos.. eu quero camisinha”. A gente perguntava:“Pra que você quer camisinha?”. filas de formigas que passam. A gente tá sempre tentando conversar com os pais. frisador. eles vêm pensando em sexo. aí o que acontece? Uma incidência enorme de gravidez na adolescência. mas saquinho de gelinho não vai te prevenir. viu? Mas eu não agüento essas profissões tão difíceis de você lidar. O menino pode ter 8. Quando o CTA veio pra cá. que é mais um ato simbólico. acabaram confessando que nunca nem tinha beijado ninguém. eu quero 30”. (Roberta) — Agora. o setor 65 etc. disseram:“Não. eu quero orientação. sexo.. que tipo de filme eles queriam ver.. 9 anos de idade. preconceito sexual. mas a média era 8. do telecentro e porque moram muitas crianças aqui. da escola e até mesmo da rua e sexo. terreno descampado que sobe em pequena elevação até a parede lateral da Biblioteca Solano Trindade. 8 anos por conta da escola que tem ali. O mais novo tinha cinco anos. porque ela é que sabe da vida sexual dela. As profissões ficam assim diferenciadas umas das outras apenas pela nomeação. agente de prevenção do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids) da Prefeitura e mais um do Força Ativa. Teoria e Objetividade. grafitados no muro. Aí tem um espaço de dar camisinha. chegavam aqui: “Tem Emanuelle?”. outras vezes de números: o setor G. 13. A gente fazia parcerias com as diretoras. mas é difícil. prevenção. No CTA tem pé de goiaba. a gente já trabalhava e aí fizemos uma parceria para que a gente atuasse dentro do CTA. de letras.. Aids. a gente é criança ainda”. Mas o lance mesmo é bater um papo. E aí o menino não pode mais participar da orientação. 23 anos e Tito. esse sexo pro meu filho. retificador. dos bons. Eles levam o nome. o que a gente ia discutir. ativista do Força Ativa. que os pais não liberam. para encontrar Tito e juntos falarem sobre o trabalho do Força Ativa na questão da sexualidade. dos gráficos. “Pra dar pra minha mãe. torneiro. O último momento é liberar a camisinha. Aí a gente começou a discutir com eles por que eles queriam tanto camisinha e essa coisa da sexualidade vulgarizada na televisão.Também sou vendedor.. Então eles viam os adolescentes. sou contador. então elas vinham. DST. Terra. Então nós pensamos:“como é que a gente. Uma pena. “Não. mas eu sou Tito: Trabalho.. que costuma ser diferenciada por setores. aquele pai que chegou aqui e tirou o menino da oficina de sexualidade e falou:“Fica ensinando essas porcaria. Esse trabalho começou de um dado que a gente pegou na Secretaria Municipal de Saúde.”. veio de Itaquera. mas quem percorre a Cidade Tiradentes e é apresentado aos seus setores percebe que os gráficos são iguais aos metalúrgicos. (Roberta) — O Força Ativa já vinha fazendo um trabalho de prevenção de DST/Aids nas escolas municipais aqui na Cidade Tiradentes. estão: Marx. Sou educador na Febem do Tatuapé. Meu sobrenome escravocrata é Silva de Souza. Eu falava:“Ah. 23 anos. os adultos pedirem: “quero 30”. Ali. escola municipal. Roberta. ficavam brincando no jardim. né? Eles tinham visto Emanuelle. (Roberta) — Aqui no CTA começou a vir crianças de 6. Elas vinham. Solano Trindade e outros personagens. eu preciso de camisinha”. Roberta Pereira da Silva. que são iguais aos bancários. poderia atuar nessa área?”. No CTA é cota negociada: a pessoa é quem diz o quanto de preservativo ela quer. 9 anos que os pais liberam. Inteligência. tem Fuga das Galinhas. mecânico geral. ou então de categorias profissionais: setor dos bancários. A gente fechava temas com eles. sexo. mas aumentado na Cidade Tiradentes. As crianças vinham e entendiam que o CTA era um espaço de lazer. é aqui o point do momento. Roberta. Tenho 27 anos.. 7. às vezes. Sempre era pornô. 27 anos . tirar dúvida. Lembra. com oficinas.54 55 — Meu nome próprio é germânico:Wagner. Por acaso esta praça está no setor dos bancários.” Depois de muitas segundas-feiras a maioria.

com seus mais de 4 mil livros. para mim. a ter um entendimento crítico das coisas. mas o difícil não é você entrar na academia.” (Fernanda. como uma pérola rara. Acho que é com esse objetivo que geralmente as pessoas estão em movimentos sociais. P R O CU R E S E I N FO R M A R. senão eu venho. S Ó T E M CO I SA P RA B OY E V E R OS P R E TO P E D I N D O ES M O L A .. C H EGA D E BA BAQ U I C E . Fernandinha. de povo. ela é destinada para uma classe social. né? Sobre a comunidade.. no ensino fundamental. o difícil é você conseguir permanecer nela com todo histórico educacional que a gente tem durante toda a nossa vida. M E U I R M Ã O. escrever e contextualizar. foi a dona Edi. E OS G RU P O D E RA P Q U E EST Ã O S U R G I N D O AG O RA . que leiam um livro e se reconheçam naquilo que estão lendo. P R EST E AT E N Ç Ã O N O Q U E VO U T E FA L A R AG O RA . preta como a ônix. que tenham conhecimento de um fato histórico e se reconheçam naquele fato histórico. porque ela possibilitou a gente refletir. E ela não consegue dialogar com os novos personagens que estão chegando. E I CA RA . As duas vão contentes. Então. magra. se você quiser aparecer. A universidade é classista. 23 anos Lá vem o homem do algodão doce. para a menina. atende o pessoal da comunidade que vem retirar livros. Acho que é pela necessidade de mostrar aquilo que não é mostrado. Cruza com a mãe e a menina no caminho de terra em frente à biblioteca. O H . M E R G U L H E N A H I ST Ó R I A . Foi com você.56 57 Fernandinha. 23 anos.. O caminhão de gás passa com seu som de música clássica e toma conta do ambiente da biblioteca. as reuniões são abertas. .. que despertou em mim a vontade até de fazer faculdade de História. Sábado vai ter uma atividade que é ler. Então. de nada. N Ã O S E JA U M M EST R E DA B U R R I C E . estudante de História na PUC. C H EGA D E L E R B EST E I RA . onde uma grande parcela de jovens está entrando por uma perspectiva de bolsa. é um exemplo de educadora de verdade.. Lembra? Por que vocês ficam aqui no domingo o dia inteiro? O que é? (Fernandinha) — Ah. alta. (Homem) — No sábado eu não vou fazer nada. Ela. P O I S É A M Á Q U I N A D O T E M P O. então isso pra mim é que é educação. 27 anos. (Homem) — Mas sem lucro? (Fernandinha) — Sem lucro. VA M OS L E R M A I S L I V R OS E M OST RA R A V E R DA D E I RA H I ST Ó R I A . as atividades na biblioteca.A biblioteca funciona como se fosse pública. cabelo inteiro de trancinhas. Eu tive o privilégio de ter uma professora. “Eu quero que as pessoas se conheçam na própria história.. elas entram nas áreas de humanas. A mãe compra um algodão doce. Porque a gente não veio com uma referência de luta. ela tem o molde e você tem que se inserir dentro desse molde. é isso que a gente está tentando. E hoje ela não está preparada para receber esse leque de pessoas que estão entrando agora. se você quiser participar. S E L I GA N AS PAT R I C I N H AS Q U E A PA R EC E M N A M A L H A Ç Ã O. azul-clarinho. sem custo nenhum para quem quer ler um livro. Posso trazer meus filhos também? (Fernandinha) — Pode. ESS E E N J Ô O É U M TO R M E N TO P R O CU R E L E R U M L I V R O. claro. nem explorador. S Ã O TA N TOS Q U E FA L A M M E R DA . (Homem. nem patrão. puxando conversa) — Eu peguei outro dia o livro do Darcy Ribeiro. Fernandinha. T E L EV I S Ã O É U M A D R O GA . (Fernandinha) — Então a devolução fica para o dia 17. ESS E T I P O D E CO I SA P RA VO C Ê É I N FO R M A Ç Ã O. pode-se ler no murinho que dá para a rua: nem pátria. a gente discute várias coisas. E aí o exemplo que eu falo é o da PUC. canta um rap: E I .. uma das mediadoras de leitura.. ES CO N D E A N OSSA H I ST Ó R I A . nem explorado. só se eu pegar uns carretos por aí. ativista do Força Ativa) Daqui de dentro da biblioteca.

minhas irmãs. do alto de um prédio. tenho certeza que eu não teria pensado duas vezes em me vingar..” (David Brehmer. Mas aí o pensamento veio na família. olha pela janela. você tem que ir lá.. algumas plantas. E foi legal que foi.” . teu pai cara. dessas para se ver de longe. depois de entrar no Força Ativa.. Estava cabulando aula.Antes de entrar no Força Ativa. eu era um rapaz comum aí. do guarda-roupa. com moldura de gesso. “O meu nome é David. Ele foi vítima de um latrocínio aqui na Cidade Tiradentes. eu poderia estar talvez num outro caminho!”. ativista do Força Ativa. aí no mundão.Através do Força Ativa eu pude entender que essa pessoa que assassinou o meu pai não é o verdadeiro culpado. perdem o todo e ficam só as partes. eu conheci uma pessoa que me falou:“David. O verdadeiro culpado é o sistema capitalista. camiseta da seleção da Argentina. A arma está aqui. pichações enormes. Che Guevara para mim. Eu tenho muitos amigos que optaram pelo lado da criminalidade e eu mantenho uma relação ainda estreita com alguns deles. E talvez se eu não tivesse conhecido o pessoal do Força. eu sou ativista do Grupo Cultural Força Ativa e estou aí junto com o pessoal tentando melhorar a periferia de São Paulo e quem sabe do mundo. foi um grande herói e está aqui na minha sala fazendo parte do meu dia-a-dia. Um cachorro late bem perto. Eu preferi não saber quem era.. o meu irmão também. estava participando de coisas talvez sem nenhuma importância para a minha vida futura. atrás de capas de revistas blackpower americanas. Proletários de todos os países. Uma divisória de meia parede separa a sala da cozinha. estava aí com os amigos na rua. alienada da minha vida. da avenida. Têm um mundo a ganhar. do metrô. Isso me criou um espírito de vingança. deixaram muitas coisas boas por aí que a gente está aproveitando e a leitura que eu sigo é a leitura marxista. eu pensava: “caramba. por onde entra um risco de sol. com o seu pensamento: “Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Nela os proletários nada tem a perder a não ser os seus grilhões. (David) — Eu perdi meu pai há alguns anos e isso mexeu muito comigo. Nas paredes... um pôster dos Racionais. Paredes brancas. curtindo. roubaram e depois mataram meu pai.. Na hora que você quiser a gente dá uma passada lá”.Vistas assim. Na parede alguns retratos: Che Guevara e um pôster de Marx. pessoalmente. Se fosse antes. eu estou dando uma oficina para outros jovens. estava enfim. Um sofá. tem bastante lembrança aí daquele tempo. 25 anos . e eu já tinha um entendimento maior. Uma foice. uni-vos”. (David) — Esses foram caras assim. David. cabelos de longas tranças. David esquenta o café.. Linhas retas ou curvas. está sentado na cama. foi fulano que matou seu pai.Quando eu comecei a participar foi uma vitória.. Porta vermelha. nós fomos pichadores e isso aí se refletiu no meu quarto. Foi legal que isso aconteceu depois que eu já estava nesse caminho da militância. é legal você participar das atividades do Força Ativa. Essas pichações. tão de perto. Eu fui pichador.58 59 Quarto de David. sem indicação de onde vão parar. eu acho que essas amizades teriam virado uma parceria mais perigosa.”. um martelo. foi uma época. Ainda fui requisitado outras duas vezes: “pô. Eu estava aí na balada. Ele está lá agora.. no fliperama. insistentemente.A minha sorte é que nessa época tinha alguns amigos que já estavam na área da militância e estavam sempre ali comigo: “vamos lá David. vamos dizer assim. David. até encontrar o Força Ativa. que ajudaram demais. contribuíram muito. 25 anos. na minha mãe. Sala da casa de David. educador social na Febem) Letras vermelhas indecifráveis somem atrás da cômoda.

um orelhão. Entre as ações. cada um fica responsável por ir a algum lugar em algumas atividades. 27 anos. todos da periferia. a mais importante é a participação nos movimentos sociais: o movimento da infância e da juventude. As mães. dá 10% do seu salário para o grupo. hoje teve picadinho. São duas comissões (captação de recursos. a luta do MST. até como forma de sobrevivência e ocupação do espaço.” (Fernanda. Então cada um. de gênero. Uma névoa. Passa a padaria redonda. ainda tem sonho e pudim. As mulheres voltam do trabalho.. AQ U I N Ã O T E M S E R I N GA . ativista e mediadora de leitura do Força Ativa: V I AJ E N A I D É I A . as atividades. P O L I T I ZA Ç Ã O. Este é um deles. FO R Ç A AT I VA T E A L E RTA . cantado por Fernandinha. não tem uma divisão assim. a igualdade de direitos e oportunidades.A gente faz um cronograma das atividades do seminário anual e aí em cada reunião. O Força Ativa é organizado em forma de comissões.60 61 A noite está quase. tem divisão de tarefas. Passam os salões de beleza. na loja de móveis usados. fazer determinadas coisas. E M N OSSA BAT I DA . Como o grupo não é autônomo. menos que chuva. e a luta contra o machismo. através dos informes. Foi criado em 1995 e atua na vida política do bairro de Cidade Tiradentes. em sua maioria pretos. nas reuniões consegue organizar um lanche etc. Uma esquina. tanto nas atividades nossas quanto nas atividades externas. Seus temas: a consciência racial e a luta contra o racismo. antes da noite. menos que garoa.. ativista do Força Ativa) Quase todos os integrantes do grupo cantam rap. O bar do Chico passa.” (Washington Góes. A G E N T E CO M PA RT I L H A : I N FO R M A Ç Ã O. “A gente não abre mão dessa coisa de estudo. Os participantes são jovens. Passa um bar ao som de um forró. Era um bar. Regina fashion hair. estudante de História na PUC. oficinas e imprensa e comunicação) e a executiva. Então é assim que a gente mantém a biblioteca. sexualidade e auto-estima. “Todos fazem tudo. cada integrante do Força Ativa tem que estar dentro de uma comissão. onde se dedicam ao aprendizado do pensamento marxista. Realizam também grupos de estudo. Era uma igreja. não tem ajuda financeira de nenhum lugar. Mais um dia e ninguém comprou. ESSA É A SA Í DA . Uma luz amarela passa. Uma neblina desceu sobre São Paulo. estudante de Letras na PUC e ativista do Força Ativa) O Força Ativa realiza oficinas com a comunidade sobre questões raciais. A maioria é de estudantes. em São Paulo. ou através do grupo. Cada pessoa que está trabalhando por influência do grupo. depois de pegar os filhos na escola. Uma casa azul comprida passa. Existe uma participação equilibrada entre homens e mulheres. A cama branca de ferro já está sendo guardada. para incentivar a leitura entre os moradores do bairro. a igualdade entre homens e mulheres. Origens e Propostas O Força Ativa é uma organização juvenil que tem por proposta promover a conscientização política da comunidade local. a luta dos semteto. A Cidade Tiradentes pouco se vê. Desenho de mulher em escova definitiva. 23 anos. cada integrante do grupo dá uma contribuição mensal de 10 reais. Hoje nós temos três comissões. Dentro de cada comissão. hoje com um acervo de mais de 4 mil livros. . voltam pra casa. outro bar e ainda outro. 29 anos. tudo é executado por deliberações da assembléia. Criou o projeto “Vamos ler um livro” e fundou a Biblioteca Solano Trindade.

62 63 GRUPO INTERAGIR .

Belamente cimento armado. que as medidas dos passos. mesmo com 120 mil pessoas. Belamente longa. Belamente monumental. cada rampa. mas uma lua de quarto. não para os homens. Você não consegue concentrar gente aqui. P . E que inteira fosse bela. não consegue. bambeando num pau dormente. também.. Sobre a cidade pensou os homens que habitariam a cidade. nos explica que cidade é esta. assim. Na praça dos Três Poderes. aqui. enquanto dirige seu carro. Ceilândia é assim. cabe inteirinho o presidente Juscelino. Você não tem multidão. comprido.Tem a Praça Vermelha. sei lá. mas para que a humanidade coubesse inteira. você vai lá e encontra espaços vazios o quanto você quiser. cada porta.A praça dos Três Poderes é uma das maiores do mundo. na largura. feito estátua. Maiores que as medidas dos braços. dentro da foice. 22 anos. a acenar pra nós. Sobre a forma pensou a cidade.Talvez não seja uma foice. formado em Ciência da Computação. Mateus. no papel. A foice se equilibra no martelo e lá. Avenidas monumentais. — Eu vi uma vez no Guiness.. neste planalto. num mármore que se estende. ou numa figurinha de chiclete. menos que a Lua rimeiro o arquiteto pensou a forma. por mais gente que tenha. cada arco. o eixo monumental é a maior pista do mundo em largura: cabem 61 fuscas de uma pista a outra. Belamente triângulos e curvas. Aqui você não consegue fazer concentração de pessoas. quase grande igual. como o horizonte no cerrado. feita milimetricamente.64 65 Brasília é a Terra. eu acho.

a gente quer.. Duas asas sobre o chão. As pessoas não se juntam em praça. você vê um monte de coisas. do corpo de outro avião. e a cabeça do avião fica lá. eu também sou engenheiro. só pombos. Lilian vem de bicicleta. por ser omisso. agora eu descobri o mundo. a sua vida muda. E foi aí que a gente teve a idéia.Aqui não tem e aí você tem uma praça enorme. Eu não preciso ficar só reclamando do governo. A gente queria fazer coisas mais na linha de desenvolvimento. alguma chuva. Então é um marco. Henrique. de ser muito brother mesmo. Os meninos de Brasília vão chegando. E tem um monte de pessoas que já fazem trabalhos na comunidade e não se conhecem. A gente é cutucado. mas todo mundo sacava a interação do grupo mesmo. jovem. 24 anos. Noite passada. “Acho que todo mundo. — Brasília não tem praça. Para o lado direito é a Asa Sul e para a esquerda a Asa Norte. de fazer um fórum. Mohana e Pablo chegaram depois. pensa a cidade que é Brasília. Lá eu vi que tinha gente fazendo coisas legais com os jovens. pela janela. só que a gente percebeu que queria fazer outras coisas também. Se lasca muito no bom sentido. estressado. eu pensei:“quero fazer alguma coisa como voluntário”. estudante de Antropologia) (Mateus) — No final do terceiro fórum. ainda que estivesse todo mundo desgastado. algumas curvas. Aí percebemos duas coisas: tem um monte de gente querendo fazer trabalho na comunidade e não sabe como começar. não sei o quê. Começou com um site. Não tem a história das outras cidades. mas no final todo mundo deitado no chão. 25 anos. então a gente precisa gerar informação. No banco de trás. 22 anos. não ficar só na Internet. a integração de todo mundo. na casa de Renata. quais os objetivos do grupo Interagir. outras vezes com a Erika e com a Mariana. ver que você pode sair daquilo ali e esse é o problema. cara. no final de 2000. engenheiro) “Porque geralmente está todo mundo tentando proteger a gente. minha vida não precisa ser sempre esse caminho que eu vou seguir reto e Luísa. brigando. (só nas palavras carregadas de letras “a” ou letras “ó” o piercing fica visível no seu brilho). Quando entrei no Interagir. — É um grupo constituído de um grupo social específico.66 67 O Memorial JK aparece inteiro numa curva dos óculos “Matrix” de Mateus. eu comecei a ver: nossa. mas eu não preciso ficar esperando ninguém fazer as coisas por mim.Você sabe que está todo mundo ali com o sangue e a lágrima. e não representantes. eu sou engenheiro’.” (Lilian.” (Pablo. visto assim. De avião para avião. Assim é que enxergamos a cidade. setor residencial. Carol. sabe? Tipo assim.. até os ombros. muitas vezes com o Clóvis.. como a praça dos Três Poderes... se é que essa cidade tem um centro. sabe? Você vê pessoas que passaram 12 meses ralando. Uma grande reta. falando um pro outro: “eu te amo”. Doze jovens em volta de uma grande mesa nos contam o que é. a vida antes do Interagir e a vida depois do Interagir. É um grande desafio. não na linha assistencial. Carla e Carol . piercing na língua. digamos assim. Luzes na pista e na cidade. então vamos continuar com nosso site. bacharel em Direito e estudante de Ciência Política. cara. “Existe um marco. que são as duas asas do avião. Erika. e daí. depois de estar com o Interagir é outra coisa completamente diferente. bicho. que têm uma igreja. E aí você se lasca. do Centro. Quando vi na TV um negócio sobre o Centro de Voluntários do Distrito Federal. 20 anos. chorando. A gente começou a fazer o site. Assim é que chegamos a Brasília. A gente sabe da diferença que a gente tem com relação a grande parcela da juventude brasileira – diz Clóvis. sabe? Tipo: ‘ah. sabe? De você sair ali do seu quarto. 24 anos.. cara? Eu sei que antes de estar com o Interagir era uma coisa. que em 2001 foi chamado de Fórum de Jovens Voluntários. então tudo é possível. todo mundo está aí na Universidade ou em vias de entrar na faculdade. a gente se emocionava muito depois desses encontros. Marcelo vem com os cabelos molhados. — E aqui é o centro da cidade. – Mas a gente está aqui sim.’. Então eu cheguei.. em 1999. formada em Engenharia Florestal. juntei uma galera e assim começou o Interagir. Manhã. de uma classe social favorecida. Uma turbina de avião. fora o conteúdo mesmo. que não é convidativa. Carlinha. como eu briguei muitas vezes com o Henrique. engenheiro) “Você é responsável até por não escolher algumas coisas. Você é responsável por ser omisso. Cabelos lisos. querendo sair do grupo. Luísa. Aí eu pensei em fazer um projeto com os jovens dentro do Centro de Voluntários. então vamos começar a estimular encontros entre essas pessoas. mas aqui é o corpo do avião. Quando você passa a fazer parte do Interagir você começa a perceber a possibilidade que você tem de fazer uma coisa mais. Clóvis. Erika. é claro. quando chegamos. O corpo de um avião. eu posso fazer coisas. onde é dirigido o Brasil. já estavam lá. Mateus. sabe? Você ter 34 pessoas se abraçando.” (Marcelo.Asa Norte. Clóvis. nos olhamos. castanhos-claros. Mateus olha pra ela pelo espelho retrovisor. não tem ninguém. a proposta era fazer um portal na Internet com a idéia de divulgar informações para os jovens que quisessem fazer alguma coisa pela sua comunidade. fui bem acolhido e comecei a trabalhar na equipe Antes do passeio monumental. começou de uma inquietação. sabe? Se você tem certeza do que você quer. você não consegue mais voltar. O Marcelo falou assim:‘pô. é quem começa a conversa: — Então. Clóvis. Para mim o melhor momento sempre é quando vejo uma pessoa dizer:‘eu posso’. Varanda da casa de Renata. têm um lugar e as pessoas sentam nos banquinhos e conversam. e aí a gente começou a pensar em ações que podiam ser desenvolvidas dentro do Distrito Federal. pô. E a resposta que a gente dá é: queremos ser ponte. porque quando você vê que pode sair daquilo ali.

Henrique. E é muito isso. vai ser sempre assim. aí um dia ele estava distribuindo panfleto. “Empréstimo para aposentados”..68 69 pronto. E minha vida hoje é eu saber que minha vida não se resume só ao meu cotidiano. a juventude do partido político tem essa ambição de ficar representando tudo. Essa é uma necessidade que já está há algum tempo e é o nosso desafio agora. 22 anos (Clóvis) — A gente está fazendo alguma coisa. não tem como separar. não estar com as pessoas com as quais eu convivo. (Henrique) —Tem um cara no sinal do sudoeste que é o seu Zé. e ele “ô”. todo gente boa. nesse querer transformar um espaço onde tem uma desigualdade social que atinge a cada um de nós. quando se fala de um encontro de pessoas. é um encontrar. a nossa missão é articular e promover outras iniciativas que não necessariamente do nosso grupo. quando se fala em proporcionar espaços. Lá vamos encontrar o pessoal do grupo Atitude. em nenhum momento a gente conseguiu parar pra pensar o que a gente quer. à minha família. Tem a ambição de tentar englobar tudo. Ele simplesmente só pede dinheiro. “o carinha não estava conseguindo distribuir tudo. resolvi ajudar. que é um velhinho.” (Renata. Longa estrada de outdoors. que são essas relações de confiança. na fala de cada um. se a gente consegue conviver com tanta desigualdade assim? Acreditando que a gente serve.. estudante de Sociologia) (Erika) — A gente nunca conseguiu.Todo mundo que passa: “ô seu Zé”. é que a gente tenta gerar essas soluções. fora dessa varanda. até começarem os quarteirões planejados de Ceilândia. (Clóvis) — Eu acho que a pergunta que ainda está para ser respondida é: e o quê mais? Fora dessa sala aqui. Então é nessa linha. estudante de Psicologia) (Clóvis) — A gente trabalha com jovens porque a gente acredita no jovem hoje. esses encontros. Por exemplo.” Sabe? O velhinho não tem nada. Houve um momento de luz. no próximo ano. A gente tenta criar esses espaços. “Vestibular Gratuito. tem fórum. justamente para permitir um olhar no horizonte. esse estímulo de vários sentimentos. o quanto é importante esse espaço aqui para a formação de cada um. Tudo isso é uma coisa só. Não tem como eu olhar para o lado e falar: “poxa. sem gastar rios de dinheiro”. Mas esse espaço gera reflexo fora daqui? Acabaram as avenidas monumentais. não porque a gente acredita que o jovem tem um potencial para o futuro. Eu acho que desde manhã a gente está percebendo isso. não se angustia por não ter essa representatividade enorme. já que a gente diz que quer mudar o mundo. faça Geografia. qual é o nosso planejamento. para as pessoas. se eu quiser mudar minha vida. Não tem como minha vida não estar no país onde moro. que é o capital social. seja ele qual for. mas acho que a pergunta que ainda está por ser respondida é: o que a gente faz e pra quê? Que “pra quê” é esse. E essas soluções estão muito no nível de gerar uma expressão. que é esse estímulo de democracia. a melhor coisa que o Interagir me deu foi isso: sou responsável pela minha vida. de tentar engolir tudo. a gente não conseguiu até agora definir o que vai ser nos próximos meses. tem projetos. são ações pequenas. são também a nossa vida. 22 anos. tem oficina. mas é solidário com os outros. estamos na estrada. um momento de inspiração para a construção da proposta conceitual do Terceiro Fórum. Existem pessoas que cuidam de mim. uma das cidades-satélite de Brasília. indo com Mateus e Erika para Ceilândia. isso e aquilo outro. ele me disse. como outras organizações. “Acho que a gente não tem ambição. são simples. propostas de vida mesmo. que quer isso e aquilo. que a gente aprendeu no decorrer dessa estrada. acreditando que a gente quer mudar essa realidade. quando se fala de olhar para aquilo como geração de capital social. essas oficinas e vários projetos que a gente faz. Eu sei que agora. “Pô”. mas que coisa é essa? Ela se consolida em algumas ações que existiram..” (Henrique. pessoas que eu posso cuidar e eu faço parte disso. com quem os jovens do Interagir já fizeram algumas parcerias. sabe? Tudo bem é um hoje. Acho que a gente não tem essa ambição. mas qual a relevância do Interagir para o mundo? Qual é o impacto que geram essas ações para esse planeta. o seu Zé ali está triste e eu vou ficar de boa”.. 20 anos. tem articulação de políticas públicas. essas possibilidades. faz parte da minha vida. Não tem como. Para mim. Será que cada um de nós serve para alguma coisa. . no meu caso. a gente tenta facilitar. que o jovem possa descobrir seu caminho. Não. minha vida é o que eu vejo. ele também. eu posso.

a forma de lidar com as questões que eles têm trabalhado é uma referência para a gente. O tráfico tem seduzido muito esses jovens. E eu acho que é isso que a gente tem que começar a mudar: essa mentalidade daqui. A gente viu que eles tinham essa percepção de trabalho de cunho social. de repente os caras até se afastam de mim. mesmo. oficinas. fica o escritório do Atitude. Quem fala é Sérgio. só que são as coisas embaçadas. sei lá. E outra coisa também: eles estiveram com a gente dando idéias. é uma contribuição pra gente muito valiosa. através das escolas. falta o ar. no tráfico de drogas nas comunidades. enquanto conta a história do seu encontro com Mateus e com o Grupo Interagir. Então tenho o pé no chão. só porque mora em Brasília. tinham carro. 26 anos. fã do hip-hop e um dos diretores do grupo: — Quando comecei no Grupo Atitude. com casas comerciais. mete a porrada na gente. né? Tá andando com playboy’. E as pessoas não acreditavam que a gente chegava lá a pé e não ganhava nada. Então. né? Eu estou num trabalho. de estar mais próximo. continuavam a ter outras necessidades e a gente tinha que respeitar isso.. Brasília gira em torno de si mesma. muito engraçados. pô!. nesse estereótipo do menino de classe média. A gente conseguiu um amadurecimento no nosso grupo. — O Interagir foi um grupo que a gente conheceu há alguns anos atrás. o mesmo gosto estético que se vê na paisagem da periferia de São Paulo. a saúde é inadequada. a gente não está existindo! Antes de conhecer o pessoal do Interagir. foi muito importante para a gente. não é só a distância geográfica. você precisa conhecer a realidade que está aqui a dez. muros. mas também de conseguir fazer alguns trabalhos junto com o pessoal do Interagir.. então a gente conseguiu. mas eu acho que . nenhum lazer. é bem complicado. que é um olho muito importante. tem grana. um cercadinho mesmo.A gente ia nas escolas de ensino médio falar sobre DST/Aids. (Mateus) — Esse contato do Interagir com o Atitude não é só um contato institucional. há um ano e meio. Eu acho que foi um aprendizado muito grande. um pôster e a lembrança de um rap: Apocalipse 16. tinham uma visão de mundo bacana e a gente conseguia ter um diálogo e a gente conseguia. a escola é inadequada. são muito piadistas. A proporção seria de cruzar uma W3 a outra W3. um garoto que tem tudo e tudo o mais. as pessoas não têm roupas novas. sabe? Eu lembro um dia. ajudando de alguma forma o nosso trabalho para construir uma política pública de lazer e de cultura. Ceilândia é assim. Ceilândia gira em torno de Brasília. E foi muito importante pra gente chegar próximo dessas pessoas. de quem tem um futuro e a gente está no caos. Brasília tem uma certa atmosfera. A postura que eles têm. sabe? São as coisas reais.. A gente andava de dez a 15 quilômetros para fazer o trabalho. da periferia de Salvador. agregar um valor para a comunidade. que faz com que a gente perca muita coisa e caia nessa coisa fácil e rasa de dizer que a pessoa é de um jeito ou de outro. não as básicas. Dá uma raiva. Sérgio é o anfitrião e nos mostra Ceilândia. De um modo geral. enfim. Quanto à arquitetura. Raramente uma menina vê valor num cara que trabalha para mudar a cidade. Então o que é que a gente diz pra eles? Que existe outra saída. muitas fantasias. sacou? Dos pais reclamando. não só nessa questão de ter o primeiro contato e diminuir os preconceitos que a gente tinha. “Aí a gente olhou para o Mateus e falou: ‘Ih! Que playboy!’.70 71 Brasília é a Terra. acho que ele é muito mais pessoal. eu era peão de obra e trabalhava de bico de ajudante de mecânico. protegido por uma grade na porta. quando eu encontro o pessoal do Atitude é outro tipo. assim. um mapa com os quarteirões da Ceilândia. a polícia chega aqui e em vez de proteger. falar com um público muito grande de jovens. E nem sempre é possível. Brasília esquece de olhar para Ceilândia. 20 jovens. assim. Asa Sul para Asa Norte. E eu fico vendo que isso é muito. Ceilândia seria uma delas. a cabeça nas nuvens lá. acho que o Interagir me dá muito o pé no chão. assim. Garoto branco.. Agora o que a gente está fazendo aqui é investimento a médio e longo prazo. estudante de Ciência da Educação. Casas. existe outra escolha e a escolha que a gente está mostrando pra eles é: existe a arte. um largo. A gente é privado de vários serviços públicos e ainda tem uma política de segurança inadequada. Isso gera uma angústia e uma frustação de que. Aí se eu começo a andar com o Mateus. Para as meninas daqui. Isso faz com que a mentalidade. assim. a gente não conhecia pessoas que moravam em Brasília e tinha um preconceito muito grande do playboy. Aqui. diminuir essas barreiras. onde se esbanja oxigênio. que para a gente estavam envoltas nesse clima de uma cidade como Brasília. Nossa história é marcada por a gente cruzar a Ceilândia a pé. e os caras contam umas coisas. aqui não tem nenhum teatro. aí sim. Grandes quadras. de gente que a gente nem conhece. assim. deixar a cidade melhor. pra minha família isso tem muito mais valor. uma parceria muito valiosa. enfim. dos caras matando. é um desafio para a gente conseguir trabalhar com esses jovens. de quem tem um monte de coisa garantida.Alguém passou e deu um pixo nas paredes. menos que a Lua. porque sempre existiu uma barreira muito grande entre Ceilândia. sabe? Quando eles fizeram o primeiro Fórum a gente participou. conseguiu ter contato com muita gente. Os valores e a concepção de mundo que a gente tem são muito diferentes. Ruas de Ceilândia. da forma de falar. mas aqui eu tenho um olho também. Hoje a gente tem um problema muito grande com a questão do tráfico. ele carregava o estereótipo da imagem dele. é coisa de homem. No primeiro andar. de Recife. que para a gente tem muitos mitos. cara. para a nossa comunidade aqui isso não tem valor. de qualquer outra grande cidade brasileira. Aí quando a gente começou a se relacionar mais com as pessoas do Interagir.. foi fantástico. às vezes. Na parede. as coisas tristes. tinham roupas novas. mas os caras contam de uma forma que você não consegue fazer outra coisa senão rir. É um estereótipo. o pé no chão que eu tenho no Interagir e a cabeça nas outras coisas que estão lá é de um tipo. pelo menos quase todos os jovens aqui da Ceilândia conhecem a gente. A gente tem que começar a repensar esses valores. achou interessante. um grupo de jovens moradores da Ceilândia que trabalham com políticas públicas. 15 quilômetros da sua casa. De qualquer forma. a gente sentou no chinês que tem ali e esses caras. Eles tinham comida. A gente está buscando um valor para isso. foram presos movimentando 100 mil reais por semana. Pela janela. também me dá a capacidade de sonhar. cabelo liso. mas não estavam completamente satisfeitos com a vida. Então. Aquilo é uma ilha. Isso é coisa de homem? Tá ganhando grana? Não? Então não vale de nada. Por exemplo. a gente percebeu que eles tinham outras necessidades. Se a Terra tivesse em torno dela umas dez luas. de pensar questões sobre saúde. Em Ceilândia. porque isso não ajuda em nada. quem não tem grana ou não está engajado no tráfico não tem valor nenhum. mas o contato com o Atitude me dá muito um outro olhar que não tem como eu ter esse olhar em Brasília. cidade-satélite e Brasília. só atrasa a gente pra caramba. por exemplo. A maioria das pessoas da nossa realidade come uma vez por dia. nascido e criado na Ceilândia.. sem nem conhecer. de pessoas que querem contribuir com a nossa sociedade. o imaginário do jovem dessa comunidade seja muito mexido. o pessoal aqui vai dizer:‘Tá se misturando com bodinho. não tem nada. Ceilândia vive de olho em Brasília.

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é muito bom nesse sentido de eu poder ter essa possibilidade de ter esse olhar. E você vê que são pessoas articuladas, pessoas inteligentes, são pessoas que tem uma plena potencialidade. O Sérgio dá um show ali, sacou? O Sérgio consegue te falar em cinco minutos o que eles fazem na prática, o que eles estão mudando aqui, o que para a gente do Interagir, às vezes, é muito mais complicado. E eu acho que a gente tem coisas muito parecidas, cara, que é o lance da postura, de se colocar no mundo. Quando a gente fala de valores, quando eles falam dessa necessidade de ter o lance da identidade e das necessidades, é só um tipo de necessidade. As necessidades que se tem de ter um cinema, de ter um teatro aqui, talvez sejam as mesmas necessidades que a gente tem lá de, tendo o teatro, freqüentá-lo, saber o que fazer com o teatro. Então é só o tipo de coisa que muda, mas a afirmação da identidade, a possibilidade da pessoa ter uma percepção mais afiada do mundo, pô, acho que essa linha é muito parecida. (Sérgio) — Pois é, igual, assim, a gente fala que é muito legal isso, porque quando a gente vê o jovem que está aqui em estado de alienação, de não perceber a realidade, a gente tem que enxergar de um plano muito parecido, sabe? De ver como um modo de consumo, mesmo que ele não possa consumir nada. Está tudo interligado, porque o que eu passo aqui, em Ceilândia, tem influência lá, em Brasília, e o que eles fazem lá tem influência aqui.Aí, toda vez, olha só que coisa triste, quando acontece um problema sério em Brasília, de alguém ser morto, ou espancamento de alguém, aqui tem um toque de recolher imposto pela polícia. É um toque de recolher que não é dito, porque é inconstitucional, mas você vê os caras da polícia, a partir das dez horas da noite, começar a passar em comboio, com a sirene ligada.Você acha que fica alguém na rua? Quem é doido de ficar na rua? Assim, eu falo assim, se acontece alguma coisa grave lá, o reflexo aqui é imediato, entende? A gente está ligado. Brasília e Ceilândia. Ceilândia e Brasília. Estamos de novo na estrada, de volta para Brasília, onde Mateus nos mostrará a Praça dos Três Poderes, o Memorial JK, o Palácio da Alvorada, a Esplanada dos Ministérios, toda a arquitetura. Naquele ponto exato e monumental, onde essa história começou.

Origens e Propostas
O Grupo Interagir foi criado em 2000, em Brasília, e o seu principal objetivo é fomentar e articular o protagonismo juvenil. O Interagir nasceu com a inquietação de um jovem, Clóvis, que desde a sua formação no Movimento Escoteiro sentia que precisava realizar mais por sua comunidade. A partir daí vieram os outros jovens, vários deles com alguma experiência em trabalhos sociais (escotismo, movimento estudantil, movimento religioso). Em maio de 2000 o Interagir criou o Portal do Protagonismo Juvenil, www.protagonismojuvenil.org.br, que ganhou o prêmio “Jovens Voluntários” e que é referência no que diz respeito ao protagonismo juvenil no Brasil. O Interagir já realizou quatro Fóruns de Protagonismo Juvenil em Brasília, buscando a mobilização e a integração das juventudes. O principal objetivo é divulgar o conceito de protagonismo juvenil, discutindo problemas sociais, incentivando os jovens a utilizarem melhor seu potencial transformador e promovendo a interação entre eles. Para o Interagir, o protagonismo juvenil sustenta-se em três pilares: Iniciativa, Liberdade e Compromisso. Para o grupo, a pessoa protagonista é aquela que busca liberdade para escolher a área de interesse e a forma de ação e de intervenção, tem iniciativa para a realização de suas escolhas e estabelece compromisso com os resultados e com a avaliação dos impactos gerados ou obtidos. O protagonista, com isso, cria oportunidades para transformar palavras em atitudes, comprometendo-se com o presente e com o futuro que almeja. É uma conquista de autonomia que permite a percepção da juventude não somente como problema, mas sim como parte da solução para questões sociais, pelo livre exercício da educação para a vida e para a cidadania. O grupo realizou vários projetos envolvendo jovens em discussões sobre políticas públicas. Um desses projetos abordava a política em si: “Voto, Logo Opino”, projeto que se tornou referência no Distrito Federal, pois auxiliou

na análise e avaliação, pelos próprios jovens, dos programas de governo que iriam afetar diretamente a juventude. (Clóvis) — Então, ia ser eleição pra governador e a gente tentou recortar os programas de governo, dos candidatos, focados na juventude. Foi a maior pauleira pra conseguir reunir essas propostas, alguns não tinham proposta nenhuma para a juventude. Aí fizemos mil recortes e, enfim, conseguimos reunir todo o material, aí a gente criou uma metodologia para que os jovens analisassem esses programas de governo. Durou um dia inteiro o encontro, no final os jovens opinaram e construíram propostas também. Meio Ambiente e Juventude – O Grupo Interagir foi escolhido pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) para ser a instituição responsável pelo projeto Geo Juvenil no Brasil. Será uma articulação nacional entre jovens e organizações sociais visando criar alternativas para questões ambientais no país. Acompanhando o processo de criação da Comissão Especial de Políticas Públicas para a Juventude da Câmara dos Deputados, o Interagir participou da Semana Nacional de Políticas Públicas para a Juventude e da Conferência Nacional de Juventude, integrando, inclusive, a comissão executiva das conferências locais do Distrito Federal. Em 2004, criou o boletim informativo “Falando em Política”. (Renata) — A idéia é compartilhar informações, difundir informações de coisas que estão rolando no Brasil, de percepções que a gente tem sobre as políticas públicas, sobre esse foco. Esse boletim é eletrônico, está na Internet, e a gente tem o apoio da Fundação Friedrich Ebert. E sempre com um sonho, sei lá, como pode se chamar, a idéia de ter em Brasília um observatório de juventude, em âmbito federal, um observatório de jovens sobre as questões da juventude. De sua criação até hoje, o Grupo Interagir já sensibilizou pelo menos 4 mil jovens do Distrito Federal e cerca de 10 mil jovens do restante do país para a necessidade da transformação social.

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BANSOL

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É uma cidade negra, mas é também uma cidade portuguesa.... os filólogos e historiadores perdem tempo discutindo se esta cidade se chama cidade de Salvador ou cidade de São Salvador... o povo continua chamando sua cidade pelo doce nome de Bahia. Esta é a cidade da Bahia. Assim a trata o povo de suas ruas desde a sua fundação a primeiro de novembro de 1549. A economia e a solidariedade
Jorge Amado, Bahia de todos os santos: guia de ruas e de mistérios. Rio de Janeiro: Editora Record, 1945.
— A casa de Jorge Amado fica aqui, no Rio Vermelho, Zélia ainda vive aí. O Rio Vermelho é um bairro tradicional da boemia. É um bairro onde moram muitos artistas. Um garotinho se aproxima da janela do carro e oferece para Luíza bonecas Barbie, numa caixa. — Obrigada. Aquele vai, outro vem. Este vende chaveiros. — Obrigada. — Aqui é o que? — A Rótula do Abacaxi. — Por quê? — Porque o trânsito aqui é um abacaxi. É um terror e essa avenida que vai reto vai para o largo das Sete Portas, o largo Dois Leões e Barroquinha, que é pertinho do Pelourinho. Barroquinha é Baixa dos Sapateiros, sobe a ladeira está no Pelourinho. Tem muito nome estranho assim em Salvador, rua da Poeira, Ladeira da Preguiça, Ladeira dos Aflitos... aí aqui a gente vai subir para o Cabula. E aí já estamos no caminho da Engomadeira. Comércio fraco pelas ruas, um manequim de calça jeans e top, na falta de vitrine que o proteja, se exibe apoiado na porta da loja com seu olhar vidrado, para os que passam na rua. Ao lado uma quitanda, na frente da quitanda um carrinho de mão, todo fechado, de alumínio, anuncia seu produto: munguzá.

— A gente está chegando no fim de linha da Engomadeira. É onde os ônibus param. Chama fim de linha, não sei se chama assim lá no sul — diz Luíza enquanto dirige seu carro. — Será que eles vão abrir? Eu costumava estacionar num terreiro de candomblé que tem aqui... Pela calçada, crianças pequenas correm, outras riem, outras acenam pra nós. Passamos pela mãe delas que lhes ensina: “olhe, são os turista...”. O terreiro de candomblé está fechado, então Luíza estaciona na rua sem saída da Engomadeira, onde funciona a Cooperativa Popular de Pães – COOFE. Para chegar aqui, Luíza, 24 anos, não saiu apenas da casa confortável, onde mora na Pituba, e tomou o rumo da Engomadeira. Para chegar a essa cooperativa, o caminho foi bem mais longo. Tudo começou na Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia, lá no vale do Canela, pertinho do bairro da Graça. — O meu pai é professor aqui nessa faculdade de Administração e no dia que eu

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fiz a minha inscrição no vestibular, que eu fui mostrar para o meu pai, ele falou assim: “Tsc, que burrice você fez.Você devia ter feito Economia”. Mas mesmo assim eu entrei em Administração. Nos primeiros semestres da faculdade eu só entrava, assistia aula e saía. Mas eu sabia que em alguma hora eu ia ter que me envolver em alguma coisa da faculdade. Até que soube das reuniões do Bansol, comecei a participar e me identifiquei com a causa. Hoje em dia é realmente o que eu pretendo continuar a fazer. Já terminei a faculdade e estou fazendo mestrado em Administração e continuo estudando Economia Solidária. — E o seu pai o que achou disso? — Meu pai, como muitas pessoas, não acredita na Economia Solidária como uma alternativa ao capitalismo. Ele acha que não vai ser nunca a Economia Solidária que vai mudar o modo de produção. E então, assim, a gente tem alguns conflitos ideológicos... Subimos as escadas da Faculdade de Administração, de um lado uma parede vermelha, do outro um painel de Bel Borba, o artista plástico baiano que distribui seus mosaicos pelas ruas de Salvador.

A universidade da vida popular ocupa por vezes as salas eruditas da Universidade Federal da Bahia. Um dos espetáculos mais fascinantes que vi nos últimos tempos foram as aulas de língua iorubá... nos bancos universitários sentava-se o povo dos candomblés: mães e pais de santo, ogãs, obás, feitas de múltiplas casas de santo... aquela língua conservada a duras penas pelo povo negro, transformada quase pelo tempo em língua ritual dos cultos afro-baianos, voltava ao saber do povo através da Universidade.
Jorge Amado, op. cit.

certo’”. A gente entra na faculdade com aquela coisa, você é muito formatado, entendeu? Realmente, o que é que eu pensava? Eu queria ser um executivo, porque na verdade eu não tinha a dimensão do que era realmente ser um executivo. Então era aquela imagem da televisão, o cara que deu certo, a pessoa que não vai morrer de fome. Eu não tinha a idéia dos valores do executivo. Eu tinha a imagem do executivo que a mídia me vendia, entendeu? Aí quando você entra na Faculdade de Administração, você descobre que os valores que você entrou pra buscar na faculdade não são aqueles que são da sua natureza. Vicente beija Diogo, que beija Clara, que beija Cléber, que beija Iara, que beija Vagner, que beija Luís, que beija Esdras, que beija Luíza, que beija Ana Paula, que beija Ludmila, que beija Vicente, onde o círculo se fecha. É o beijo coletivo do Bansol. Assim costumam começar e terminar essas reuniões. (Vicente) — Porque eu tenho um carinho muito grande pelo início do projeto Bansol. Tinha estudantes, professores e pela primeira vez na minha vida eu vi todo mundo sentar numa roda e construir um projeto coletivo, sabe? Admiro muito os professores que se permitiram isso. Foi uma das fases mais lindas, eu pensava:“Caramba, isso é Economia Solidária, é possível a gente colocar em prática aquilo que a gente tanto estudou”. (Ludmila) — O professor Genauto França tinha acabado de voltar do doutorado em Paris, com uma tese fresquinha sobre Economia Solidária, a Suzana Moura já estava desenvolvendo a pesquisa do desenvolvimento local, que aí enveredou para a vertente da Economia Solidária, mais Débora Nunes, professora de uma universidade

particular e ainda o professor Niltinho (Nilton Vasconcelos Jr.), que sugeriu a inclusão do pessoal da incubadora tecnológica da Universidade Estadual da Bahia. Junto com esses professores e técnicos estávamos nós, os estudantes.

Salvador, 20 de julho de 2001

Ata de Fundação do Bansol
Nossa primeira reunião foi um sucesso. Mais de dez pessoas compareceram e falaram. Manifestaram seu interesse, empolgação e compromisso com a idéia do Bansol.

(Vicente) — Quando o professor Genauto apareceu, trazendo essa reflexão mais profunda sobre o universo das organizações das empresas, os conflitos entre capital e trabalho e trazendo essa proposta de economia solidária, eu senti pela primeira vez que era possível unir duas coisas aparentemente opostas: economia e solidariedade, empresa e autogestão. Então foi aquilo: “meu Deus, será que isso é verdade?”. Porque a primeira impressão que se tem é que isso é uma loucura, que não faz sentido você juntar essas duas dimensões. E aí você descobre que faz sentido e isso pra mim foi libertador.

(Maiana) — O Bansol foi uma luz no fim do túnel. Eu ficava um pouco desesperada:“poxa, eu vou sair da faculdade, eu vou pra onde depois?”. Eu não quero trabalhar numa empresa e sei lá, ter uma vidinha assim que não faz sentido, que não muda, que não altera. (Vicente) — Quando chega na faculdade você tem um curso que infelizmente não é um curso de Administração, é um curso de administração de empresas capitalistas de mercado. (Esdras) — Porque realmente esse curso de Administração aqui da Federal da Bahia é um curso muito elitista, né? E o trabalho do Bansol não se encaixa no perfil da faculdade, então quando a gente vai apresentar o nosso trabalho em outras instituições, organizações, as pessoas olham para a cara da gente assim e perguntam:“Vocês são de Administração da UFBA?”. Ninguém acredita, é impressionante isso. (Cléber) — No Bansol nós colocamos o foco no ser humano e não na questão do capital. E nós estamos numa escola de gestão que tem valores tradicionais: a busca incessante pelo lucro, a competição, tratar as pessoas como recursos (na verdade são os recursos humanos, não são pessoas), então você aprende a contabilizar tudo isso. Maximizar e minimizar até as motivações e aspirações das pessoas. E com o Bansol a gente foi na contracorrente de tudo isso.

Salvador, 12 de julho 2002 Ata Hoje subvertendo a ordem dos acontecimentos do dia, vou começar a ata pelo final, pois temos uma notícia MARAVILHOSA! O Bansol fez o seu primeiro financiamento!!! A COOFE é a nossa primeira investida!!! E que o fundo se multiplique!!! Parabéns pra gente, para a COOFE e ITCP!!! Bom, mas me recompondo e dando um tempo para vocês fazerem o mesmo, caso alguém tenha caído da cadeira comemorando...

(Cléber) — Eu entrei na faculdade para ser um executivo. Eu ficava brincando com a galera: “Parece que estou vendo, na capa da revista Exame, ‘o preto que deu

Vicente

Luíza, 24 anos

Cléber

entrega o saquinho de pães pela janela da casa e aproveita pra pôr em prática uma regra do bom comerciante: “Obrigado. Carro de mão. Muito pouca gente tem carro por aqui. onde fica a padaria da COOFE. — Esse é o único homem da COOFE — diz Luíza. ( Janice) — A gente cresce como pessoa. com a experiência da COOFE e de outros empreendimentos.Tem cerca de 30 mil habitantes e uma taxa altíssima de desnutrição. passados dois anos do empréstimo. feiras. ao fazer o empréstimo para a Cooperativa. no muro imenso. boa parte do montante para quitar dívidas e o que aconteceu? Eles saldaram essas dívidas e sobrou uma parte para tocarem a produção. agora nos últimos tempos a questão tem sido a comercialização. O bairro surgiu de uma ocupação num terreno acidentado. (Iraci) — Na época que os meninos do Bansol apareceram. no processo educativo. Além disso. A renda familiar é de um salário mínimo e meio. em todo o Brasil. a gente não teria sobrevivido até agora. teria que trabalhar em diversas frentes.A gente volta muito fortalecida desses encontros. eu tô sempre aqui. no consumo. o Bansol. E o que aconteceu? A COOFE não conseguia na verdade gerar um excedente que permitisse que a gente retirasse a nossa parte de cooperado. quando eles podem. Foi aí que percebemos que a questão das finanças era muito limitante e que se a gente quisesse realmente fomentar a Economia Solidária. um homem corre na parede. um homenzinho no topo de uma escada. até hoje. volte sempre”. cada vez que houvesse o excedente a ser distribuído entre os cooperados. sobre Economia Solidária. antes a gente não fazia a rosca doce. encostado no batente da porta. As mulheres Iraci. criada por 27 pessoas da comunidade. Para isso. Janice. a Bansol nunca deixou de acompanhar o trabalho da COOFE. fóruns.. assim. ( Janice) — Toda a comunidade compra da gente. (Vicente) — Aí a gente pensou:“será que o crédito é a melhor forma da gente apoiar esses projetos?”. — E aponta pra Nei. Por exemplo. eles vendiam muito pouco. um tocador de sax. um menino espera do lado de fora. depois do empréstimo do Bansol.457 reais. piranhas com dentes afiados. os cooperados também precisavam retirar algum dinheiro para se manter. sem rumo certo por Salvador. mas não foi o suficiente.Vânia e Jô. a COOFE fez uma cooperativa de pães e no processo eles descobriram que pão é o que menos dá dinheiro em uma padaria. na produção. Nei entra em cena. em volta de uma mesa. eles pagam. porque eles produziam muito pouco. um balão. na articulação política. ninguém sai.Vem sabendo que a gente tem que lutar para descobrir os caminhos para resolver cada problema. ( Janice) — O pessoal do Bansol veio aqui conhecer o nosso trabalho. mortalidade infantil e desemprego. os integrantes da Bansol fizeram uma pesquisa de mercado sobre o potencial de compra da comunidade e as possibilidades de distribuir os produtos da cooperativa nas padarias do bairro. Mas agora. O bairro da Engomadeira é um dos mais pobres de Salvador.Temos esses 22 postos por causa de um projeto da Petrobras onde fomos incluídos. a maioria compra pelo preço mais acessível. a gente conseguiu se equilibrar e oferecer mais produtos. 10 mil reais. Bel Borba passou por aqui. foi quando o Bansol tinha ganhado um prêmio e acreditaram na gente e resolveram investir na nossa cooperativa. de onde se avista a Baía de Todos os Santos.. O grande objetivo é gerar trabalho e renda com a Economia Solidária. E tudo que a gente vive é um processo. Na avenida do Contorno. Então ficou assim. o Bansol também receberia a sua parte. Num ponto de ônibus. a gente estava querendo um carro e conseguimos. Então era assim. a Bansol costuma estimular as pessoas das cooperativas para participar de encontros. de acordo com as regras que estabelecemos no estatuto. (Iara) — O empréstimo tinha uma taxa que nós denominamos taxa de retribuição solidária. No nosso empréstimo não existia juros. a gente viu que muitas vezes a gente estava só adiando um problema que poderia voltar a acontecer lá na frente. um carro com pessoas na janela. pão muitas vezes dá até prejuízo. Maria da Conceição. o Bansol recebeu de volta a metade do montante emprestado. não podemos desistir. Bel Borba passou por aqui. apenas sete tocam o projeto. Debaixo de um viaduto. — Ô Nei. né? Nós fazíamos pão e panetone e foi num momento que a gente estava com muita dificuldade por causa do aumento do preço da farinha de trigo. se cada cooperado recebesse 200 reais. — E quem leva o carro? (Iraci) — Olha o piloto aqui. Porque muitas vezes esses empreendimentos estavam trabalhando com produtos dissociados da realidade da comunidade. nós resolvemos fazer o empréstimo para a COOFE. Emprestamos 2. o Bansol também receberia 200 reais. né? Para oferecer os pães no final da tarde pelas ruas da comunidade. (Cléber) — Emprestamos os recursos para a COOFE. E é isso que nos dá força para poder dominar os conflitos. sempre percebendo as necessidades de cada etapa. hoje. ó. Assim. por exemplo. Na época a gente tinha muitas dívidas e estava a ponto de fechar a cooperativa. Então quando nós ganhamos o prêmio da Fenead (Federação Nacional dos Estudantes de Administração) e recebemos a primeira parte. O bairro já tinha muitas padarias. nas finanças. Nos últimos três anos. morcegos no muro. A Cooperativa existe desde 99. com touca de padeiro na cabeça. naquela rua sem saída. um . a gente se fortalece para o grupo. nas padarias comuns o preço é 15 centavos. colocam cerejas em roscas doces para irem ao forno. (Esdras) — Na visita que a gente fez à COOFE a gente viu que eles precisavam pagar contas de consumo e comprar matéria-prima. vamos abrir a cooperativa para mais 22 pessoas da comunidade. No começo a necessidade era a estruturação. ou seja.104 105 Luíza estacionou seu carro em frente à COOFE e agora ninguém entra. se tornava um dos cooperados. Naquele sol ardente de quase metade do dia. só a CPMF e a inflação. nos apresentando Nei. O pãozinho aqui custa dez centavos. ( Janice) — Agora nós vamos aumentar os postos de trabalho. o que dá lucro são os utensílios que eles vendem nas padarias. Saímos da Engomadeira. Então. Eu acho que se não fossem esses encontros.

Convive todo mundo ali.A indústria americana? A exploração da mão-de-obra de países pobres? Ou um grupo de pessoas da sua comunidade? (Vicente) — Tem um projeto que a gente apoiava que visava à implementação da COOPAVV Cooperativa Popular de Alimentação de Vila Verde. Fim de semana. (Cléber) — Vila Verde é um lugar de disputa de tráfico de drogas e. tudo orgânico. Um mecânico do outro lado da rua. não entre aqui de carro. “Não. onde o índice de violência é alto. ligada ao cotidiano. Isso aqui. acabar com a pobreza. senão a gente ia só ver na televisão e pensar: “Ah. A gente conseguiu montar com eles um prato de quentinha no valor de um real. Ela fica próxima. entregando coentro orgânico. para que eles atendessem a comunidade. você tinha uma ou duas pessoas que costumavam passar fome. (Ludmila) — A gente teve que parar porque teve um grupo de extermínio por lá. restaurante comunitário. Pensar em quem você está beneficiando com a sua compra.A gente entrou em contato com o Fórum de Combate à Violência. do que vestir. não venha.Aí você começa a ter uma outra postura diante dessas notícias e diante da sociedade que a gente está construindo. desde os tempos longínquos de Gregório de Matos até os dias de hoje.. assim. Que a gente pode modificar as relações de consumo. E o que se descobriu é que. gaivotas sem fim. para de lá enxergar o Alto das Pombas. uma horta comunitária e um ligava pra gente dizendo: “Ó. estão até com delivery. Então a gente crê e define o consumo como um ato político. de cada dez casas. É um lugar para onde foram pessoas de vários pontos de Salvador. um dos meninos que era amigo do pessoal da cooperativa foi morto. o Bansol trouxe para a minha vida a preocupação com o consumo ético e solidário. Jorge Amado. no grande centro urbano.” “E uma Coca-Cola?” “Também não. . Encontrará uma arte essencialmente política. são quase palpáveis no seu contraste. apenas poucas pessoas tinham condições de comprar aquela quentinha. morreu mais um”. op. eu descobri aqui no Bansol que compra é poder. das faculdades. E aí o pessoal (Esdras) — A gente acredita que para promover o desenvolvimento. cit. Eu vou levar vocês até o Alto das Pombas. se investir em produção se as próprias pessoas que moram lá não têm condições de consumir. a gente está com um projeto lá de fazer um mapeamento. Eles tinham . Paramos num terreno vazio entre muros. no seu retrato de casas empilhadas. numa arte de rua. (Clara) — Em termos de revolução pessoal.violência”. em cima de outra laje. porque estava ficando muito perigoso. O conservador e o revolucionário coexistem no espírito da cidade. não sai na mídia. boné e roupa suja de graxa. culturas diferenciadas e botou tudo nesse lugar que é o alto de uma colina. porque a gente sabe que quem define a parada hoje é o consumo. acena para sair na foto. Inclusive foi a própria líder comunitária que pediu pra gente dar um tempo. No muro azul alguém escreveu com letras miúdas. Isso aqui é o cartão-postal de Salvador. Numa enchente que teve aqui em 1996/97. feitos em mosaicos. numa comunidade periférica. de distribuição através da escolha do que comprar. É periferia da periferia. Aos 24 anos.. eu estou tentando aos poucos transformar isso em mim. não vai querer uma cerveja?”. eu quero uma água de coco. uma arte a serviço do povo. (Luíza) — Hoje nós nos afastamos do projeto por conta da violência. eu estava com um pessoal num barzinho e o pessoal: “E aí Clarinha. para pelo menos fazer alguma coisa. Não adianta. perto de Itapoã. dá pra ver os prédios e as casas antigas da Graça. vamos dizer assim.” Sabe. é essa orla aqui de Ondina. mas o índice de fome também é muito alto. Uma velha gameleira entorta seu tronco. dentre o total de moradores da comunidade. o índice de tráfico de drogas é alto. vocês estão sendo visados”. eu moro ali. do trajeto do Carnaval.106 107 helicóptero. um banco comunitário. É uma comunidade interessante. fundem-se por vezes. o principal foco é o consumo. a horta está até funcionando. uma laje em cima de uma casa. em cima de outra laje. Ele abre o porta-malas e guarda sua mochila pesada de estudante. por inteiro. terminou Administração e se prepara para o mestrado. Bel Borba passou por aqui. pra não chamar muita atenção: “chega d. assim. um avião e gaivotas. no pátio da Faculdade de Administração. e atrás dos prédios tem o Calabar e o Alto das Pombas. onde fica a Faculdade. do vale do Canela. próxima de bairros nobres. Subimos pelo Calabar. a prefeitura pegou famílias de diferentes lugares. E o que aconteceu? Ficou altamente vulnerável. do Carnaval Baiano. (Vicente) — Daqui de baixo. Seguimos Vicente até o Gol branco. fechamos questão que não dá para desenvolver um trabalho comunitário que não consegue ter uma continuidade. Uma das maiores dificuldades da comunidade era a fome e era uma cooperativa de produção de alimentos. chocam-se. por exemplo. uma horta comunitária. Retratos do cotidiano do século 20. em cima de outra casa. porque as pessoas não tinham uma rede de ligações e aí o tráfico entrou e tomou conta. E nesse mapeamento a gente descobriu que.

o saneamento básico. a gente já tem outra consciência hoje. (Mosar) — A gente pensa em criar um banco. Jorge Amado. (Esdras) — Uma coisa muito importante nesse projeto é que a gente conseguiu incluir a comunidade em todo o processo. marceneiro.. Então hoje a gente está consciente e procuramos conscientizar as outras pessoas que elas tem que consumir dentro do próprio bairro. os jovens disseram:“Não. (Paulo) — A agência de crédito será a base. O Salão Modelito com a placa despencando passa. Agora a gente vê quantas costureiras tem. E numa casa aqui no alto. que beija Claudenice. bem grande: “use o banheiro”. Mariana beija Mosar que beija Josimar que beija Vanessa. (Adriana) — Nós estamos perto das pessoas. vai receber o crédito.. sólida e envolvente a dessa cidade. o Salão Toque de Beleza também. . eles descobriram que muita gente da comunidade passa fome e eles nem imaginavam. e isso gerava renda para seis jovens. se dá calote. A Universidade. que beija Elisângela. Passa um comércio pobre de barraquinhas pelas calçadas. a barraca de doces. E quando a gente elaborou. com uma linha de microcrédito. E naquela luz azulada das lâmpadas fluorescentes. todo o comércio local. a bravia Yansã e o tétrico Omolu. como lá embaixo na Faculdade de Administração. Para a gente o resultado já aconteceu. Não nasceu de repente. já chega com um projeto pronto. ruas estreitas. a gente sabe que tem 200 baianas de acarajé. porque é a gente que faz as ações. porque ninguém conhece melhor a pessoa do que o vizinho dela. junto com eles. nós fomos os sujeitos. os nomes como poemas: Rua dos Quinze Mistérios. Aqui no Alto das Pombas o critério que a gente está querendo adotar para a escolha do crédito é o vizinho. porque aqui na nossa comunidade ninguém passa fome. Xangô. (Mariana) — Eu acho que o mapeamento veio para mudar a gente. quando chega na comunidade. ela tem que fazer essa rede. Ogum. no Alto das Pombas. nos encontramos com o pessoal da comunidade que participa do projeto Incluir Sim. por isso fizemos o mapeamento do consumo local. Numa porta aberta se lê. E dentro do Rodrigo e Mosar Mariana e Rodrigo Incluir Sim. esculpidos em madeira e ferro. É. eles produziam e a comunidade consumia. a gente foi descobrindo a profissão delas. como se diz. na comunidade.A gente vai fortalecer o pastel do seu Luís. a barraquinha de doce aí vizinha e. o primeiro restaurante da Dadá foi aqui. o questionário a ser feito.A gente tem que ver também o poder de consumo que a gente tem.. foi construída lentamente e está amassada no sangue dos escravos. nós fizemos oficinas de capacitação e foram os jovens da comunidade que fizeram esse trabalho. para descobrir o potencial da comunidade. e a gente entrando na casa da pessoa pra fazer a pesquisa viu realmente o que elas passam. a infra-estrutura. mas na comunidade se consome o dobro de acarajés que elas produzem e quem sabe não seria uma das linhas de crédito financiar uma outra tabuleira de acarajé? Lá no Palmas a gente viu uma empresa de produtos de limpeza. E assim. aguardando os fregueses do Alto das Pombas. vizinha. que consumir aqui vai fazer o dinheiro rodar aqui mesmo e que todo mundo da comunidade vai ganhar com isso. que a gente tem o poder de consumo. Passa uma mulher com uma trouxa de roupas equilibrada na cabeça. pintor. diz Vicente. a barraca de pastel do seu Luiz. mulheres conversam em cadeiras na calçada. que beija Esdras. (Mariana) — O conhecimento que a gente adquiriu dentro desse processo eu acho que é maior do que qualquer outro projeto de você palpar mesmo... que beija Viviane. que comanda a varíola. A comunidade é objeto. o encontro termina da mesma forma.. não”. vizinho sabe de tudo isso. como o Banco Palmas. que beija Vicente. Mirante dos Aflitos. — Aqui é a estrada do Calabar. E aí nós vamos passar a discutir quem. E agora no decorrer do processo. Um homem passa levando um carrinho de mão e alguém grita: “Oh Damasceno!”.108 109 É uma beleza antiga. que escorre das igrejas dos santos negros. de onde se avistam os prédios de Ondina ao longe. a alimentação. que beija Mariana. mas ao mesmo tempo distantes da intimidade delas. não é? Se é brigão. É uma beleza que escorre como óleo do casario e das pedras negras de certas ruas. que beija Adriana. como o que está em baixo é igual ao que está em cima. Exu amedontrador. vão se acendendo. a gente que construiu esse projeto de inclusão social dentro da perspectiva da Economia Solidária.. Ele interrompe a caminhada pra conversar com o amigo. No largo do Pelourinho eles eram castigados e das janelas dos sobradões imensos as frágeis iaiás espiavam os corpos nus cortados à chibata. Crianças brincam de correr. o dia perdendo a cor. porque agora a gente conhece o nosso bairro. em Fortaleza. aqui no Alto das Pombas. op. não precisa fazer essas perguntas sobre fome. Porque já mudou a nossa mentalidade. enfim. que beija Paulo. Largo das Sete Portas. a violência. que começam a chegar. a luz elétrica tomando conta da paisagem. Por exemplo. Representando o Bansol vieram Esdras e Vicente. Ladeira do Tabuão. mas a nossa idéia é atingir também outras metas. é um caso de objeto-sujeito. normalmente se contrata um instituto de pesquisa para fazer um retrato da comunidade. as pessoas desempregadas. Quem vai avaliar se a pessoa deve ter direito ao crédito é o vizinho. o desemprego que assola as famílias. cit. em casa. Rua do Cabeça. Por exemplo. Porque quando eles chegaram a gente achava que ia ser a mesma coisa. A gente foi descobrindo isso. — A gente vai passar agora no restaurante da Dadá. Oxóssi. E vamos saindo do Calabar.

assim que o aluno conclui a faculdade. que siga a mesma lógica e. e o Bansol tem que se renovar. é a que nos interessa construir. Não é justo. Uma instituição cuja preocupação central seja a manutenção do fundo de empréstimo e que mesmo que vise a sua ampliação. construir um banco solidário que fornecesse crédito barato para empreendimentos solidários.. E daí nasceu um manifesto. Então vamos ser realistas e dar essa oportunidade a outros estudantes. Essa iniciativa é viável? É a organização que queremos. Para isso precisamos de todos.. que passavam por alguma crise.. Em seguida a gente passou para “finanças solidárias”. Queremos uma organização que não vise o lucro. um concurso de projetos sociais. o faça através de outras iniciativas que . A idéia era criar um projeto para participar do prêmio Fenead (Federação Nacional dos Estudantes de Administração). além de professores do ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares) da Uneb (Universidade do Estado da Bahia). e da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UNIFACS. apoiar iniciativas solidárias. finanças solidárias e passar a ser uma associação de fomento à economia solidária. como profissionais. ou taxas próximas às que ali se praticam. Esse projeto era. para viabilizar atividades produtivas de iniciativa popular. até que a gente chegou naquela questão. por conseqüência. Eles ganharam o prêmio (20 mil reais) e passaram a fazer empréstimos a cooperativas já existentes. “Queremos uma proposta diferente. não uma organização que sirva de ponte para o sistema financeiro já instituído. depois do empréstimo da COOFE: será que dinheiro é o principal? E a gente concluiu que não. fazendo uso privado do espaço público.A Universidade tem um compromisso social que não é este. E a gente vai continuar na causa em outros espaços. e a gente logo viu que não ia poder ser porque ia ter problemas com o Banco Central.110 111 Origens e Propostas A Bansol nasceu em 2001 como uma idéia conjunta dos alunos da Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia e professores da mesma universidade. ajudando o Bansol o quanto for possível. a princípio. (Cléber) — Porque o medo da gente foi o seguinte: precisar começar a usar o Bansol para atender as nossas conveniências. Isso significa que. Como se faz uma organização assim? É uma iniciativa em construção. em que se aprende à medida que nos comprometemos com uma idéia que aos poucos se concretiza. Assim nasceu a Bansol. ele se desliga da Bansol. pesquisa e extensão na Escola de Administração da UFBA. aquela coisa do desapego.. (Luíza) — A Bansol teve três denominações. reproduza injustas relações.” A visão definida pelo grupo prevê tornar o Bansol uma associação sustentável reconhecida e integrada a uma rede de Economia Solidária. foi aí que a gente resolveu deixar de ser um banco solidário. A Bansol passou a ser uma associação acadêmica que desenvolve atividades curriculares de ensino. É o que entendemos como uma instituição que forneça crédito barato. Primeiro foi “banco solidário”. MANIFESTO POR UMA INICIATIVA VERDADEIRAMENTE SOLIDÁRIA não seja a aplicação de juros de mercado. precisamos nos sustentar. Na verdade pensamos o seguinte: nós.. mas sim. Ficamos com medo de nos tornarmos mais uma coisa qualquer que está dentro da universidade pública..

74 75 ALIANÇA COM O ADOLESCENTE .

O Império acabou. de sede. nos lugares onde os rios são secos e as nuvens no céu não são sinal de chuva. ou outros peixes. A coroa está inteira no Museu de Petrópolis. no governo do presidente Juscelino Kubitschek. Estamos entrando no semi-árido do Ceará. Depois virão as montanhas de Quixeramobim. (Margleuda) — Eu sou Margleuda. nos tempos em que José de Alencar escreveu Iracema. aqui é o meu lugar. a República se instalou e de presidente para presidente a construção do açude de Orós foi se adiando. conhecido como o mais seco do mundo. Até que a praga do bicudo veio e acabou com a plantação. seja a piranha.76 77 Os novos semeadores strada do Algodão. entrou para . A carnaúba ainda se vê. E a história como “a seca do Ceará”. no Rio de Janeiro. na estrada. Hoje. Foi aí que D. algodão só no nome. nem de sede”. essa palmeira de folhas plissadas. nem de fome. como as plantas da caatinga. porque o açude de Orós tem muito peixe. Milhares de pessoas morrem de fome. A seca é imensa e atinge principalmente o Ceará. a que nunca falta na nossa mesa. desde que não morra mais nenhum cearense. imensas no seu mistério. o açude vingou. Lá em cima fica a minha casa. até que em 1956. Essa beleza é o açude de Orós. de doenças. Aqui é onde todas as famílias do sítio Pereira dos Barbosa tiram as suas rendas. é onde nasci. Não se venderam os brilhantes. ela precisa do oco das árvores para fazer seu ninho e com tanto pasto seco por aí. mas o imperador mandou uma equipe estudar o local onde poderia ser feita uma barragem. Estamos chegando na região da bacia do médio Jaguaribe. que leva a gente até a nossa unidade de criação de tilápias. 1877. E aqui é a nossa canoa. Pedro II disse: “Venda-se o último brilhante da minha coroa.Assim chamada em lembrança aos tempos de riqueza do Ceará com o algodão. o açude de Orós ainda é um oásis num deserto. Jandaia por aqui não se vê mais. onde cantava a jandaia. Assim surgiu o boqueirão dos Orós. tenho 19 anos. as árvores estão raras e ralas. Hoje. Ao longe já se vêem as rochas de Quixadá. Moro no sítio Pereira dos Barbosa. rareando aqui e ali. nessa geografia. uma abertura na serra. um grande rio. mas não é suficiente para resolver a questão da seca por estas paragens.

”. Daqui a dois anos começamos a pagar o Instituto e se Deus quiser vamos nos tornar independentes. (Cícera) — Eu recebi 591 reais da Aliança.. ainda eu imagino. que Margleuda costuma atravessar a nado. Sorrisos. A minha mãe é agente de saúde. porque dentro de poucos minutos estava a comunidade em peso ajudando a gente a salvar os peixes. coletes. nas festas. nós já estamos quase com os pés no chão. Estamos fazendo palestras. porque assim não vai ser uma coisa só nossa. Margleuda e Jaqueline Dentro do açude.. né? Quase que já dupliquei o financiamento. E eu fico fazendo as bonecas. enquanto rema: — A princípio não sabíamos se ia dar certo. onde criam os peixes para vender. meu peito não cabe de tanta felicidade. na casa de barro onde moram. “Fale alto. a casa do cantor Fagner.. Com 22 mil habitantes. uma comunidade distante daqui. meu pai trabalha na agricultura e na pesca. em 15 dias o açude Orós encheu e pudemos fazer o trabalho aqui mesmo. se você tem um potencial. No caminho conhecemos seus avós. aí eu comecei realmente a vender em dezembro. Nós criamos nossa própria identidade. aí quando a gente decidiu criar peixe em tanque rede foi pra ir criar em Santarém. Foi então que começamos a nos dedicar de corpo e alma.78 79 Margleuda e Jaqueline remam. diz Margleuda. acenos. e de canoa nos levam até o tanque rede. debates e a comunidade já está ajudando em peso. complementar e específico. ninguém nunca viu mulher criando peixe.” Na beira do açude de Orós. Margleuda e Jaqueline levam a ração para os peixes. que a gente não olhava a dificuldade por conta da distância. Isso de ganhar credibilidade dentro da comunidade acho que era o desafio maior. onde o açude tem dez metros de profundidade. mas aí Deus é maravilhoso. No primeiro cultivo teve uma mortandade enorme de peixes e foi. mas futuramente com essa renda aqui dos peixes eu sonho fazer faculdade de fisioterapia. o museu da Meirismar – com a história do açude e utensílios da tribo dos Icós e dos Quixelôs. uma riqueza como o açude de Orós. vamos comprar mais canoas. “Não vou fazer uma faculdade porque infelizmente a renda é pouca. no meio do açude. uma jaçanã pousa no cercado.. os tapuias que viviam por aqui. Orós é também a padaria Esmeralda. faz bonecas. eu não vou ter com que cobrir esse dinheiro”. caixas e tô sempre me aperfeiçoando. é CCBL: Cícera Confecções de Bonecas e Lembrancinhas. Assim. Margleuda terminou o segundo grau no ano passado. 17 anos . Assim que viram as costas. na esperança de que sobre algum peixe pro seu bico. mais gaiolas.. O barco vai no rumo da cidade de Orós. menina magrinha de 17 anos. No alto de uma colina. esse tipo de coisa.. não tem como eu fazer uma faculdade. Param o barco ali. e em pé na canoa alimentam as tilápias. Tem nome a confecção? — Tem sim. surpreendente. junto com um trabalho de formação que dura 13 meses e é dividido em três etapas: básico. minha avó é mouca”. As meninas (são cinco nesse projeto atualmente) receberam um empréstimo para comprar todo o material necessário: gaiolas. porque o açude de Orós estava seco. Foi a Aliança com o Adolescente. — Então a minha vontade — continua Margleuda — era criar alternativas sustentáveis na minha comunidade. Meu financiamento saiu em setembro. mas a vontade era tanta. a gente passa na rua. Quando me chamam de menina do peixe me sinto orgulhosa.. ainda eu penso.. “olha lá a menina do peixe. Cícera. Saímos do açude e subimos o caminho até a casa de Margleuda onde a mãe dela nos serviu um suco delicioso de manga com goiaba. tanta. Minha mãe ficou com medo quando recebi o financiamento da Aliança para tocar o meu negócio das bonecas. tem a máquina que já era minha. ração. um barco passa ao longe. (Margleuda) — Nós agora somos referência na comunidade. a responsabilidade era enorme. (mãe) — Eu só falava assim: “Cícera não pegue esse dinheiro. O Instituto daqui a dois anos vai ser só o nosso parceiro. já tenho bastante material pra trabalhar. No começo não tivemos muito apoio das nossas famílias.. E a canoa? ( Jaqueline) — Já compramos com o dinheiro do nosso cultivo. através do Instituto Elo Amigo. que financiou o projeto. É o meio de transporte de quem vive nessas comunidades nas margens do açude. assim. numa casa sem reboco. alevinos. Cícera. ainda mais adolescente.. E é Margleuda quem fala. Então é muito gratificante você não precisar ter de sair da sua cidade atrás de uma renda. comércio pouco e muitas ladeiras que ajudam na visão do açude. redes.

não é? E eu sou o tipo de pessoa que sou mais aquela parte que eu vejo. até 120 reais pelo mesmo saco. aí a barra começa a subir e começa a desfiar a chuva. eu era bordadeira. chapéus. para as serventias da casa. Então abri mão do emprego e não me arrependi. Eu planto o arroz. sou eu quem faz as florzinhas. faço os vestidos. muita dificuldade. Sábado e domingo oficinas na Aliança. Quando vai chover faz aquela barra bonita no nascente. Eu acho corajoso quem enfrenta a agricultura. Aqui no nosso município nem uma secretaria de agricultura não tem. Mas depois fui aceitando e hoje na minha plantação não tem nada de uréia. Quando me falta e eu preciso comprar na cidade pago cem. Daqui a pouco vem o vento.00 e a cidade de São Paulo R$ 13. não dá pra conseguir alguma coisa na vida. tirar a minha miniconfecção daqui de dentro do meu quarto e ter um espaço para eu poder mostrar mais a fundo o meu trabalho e dar oportunidade para outras pessoas de aprenderem aquilo que eu aprendi na Aliança. mas não quero ser agricultora. A árvore do coité está carregada. agora em vez de comprar essas florzinhas miúdas pra enfeitar as bonecas. ainda com gosto de árvore e paisagem. Na sexta-feira tinha apresentação de teatro na praça de Orós. sou educadora júnior de outros projetos dentro do Instituto e ajudo a formar jovens na construção de projetos sociais. Cícera terminou o colegial e pretende fazer. Tomamos nosso rumo: volteamos o açude de Orós e. porque quando não tem nuvem. num sítio chamado Angicos.00. generosa na sua sombra ventilosa. estão quase no ponto de virar cuia. aí chegou a Aliança. casinhas de pau-a-pique. nasci e me criei dentro dela. também está pronto. o adubo da terra. o adubo é orgânico que a gente usa. a gente acha mais bonito do que o céu azul. o pai de Cícera vem com um caldeirão cheinho de serigüela. alguma coisa assim. — O tempo tá todo bonito assim.80 81 Fiz um curso de biscuit.580. Eu abandonei um emprego para estar na Aliança. trovejando. Meu objetivo é trabalhar com comunicação. E eu quero continuar morando no campo. não — diz seu Antonio. bisavós. não quero trabalhar para os outros. de anunciação. um dia. Eu não quero isso pra mim. de tanto calor. A cidade de Jucás tem um PIB per capita de R$ 1. O que eu percebo é que os adolescentes do Elo Amigo não são acomodados. O céu é de nuvens grandes. vegetação branca e cinza da caatinga. quando sobra e eu quero vender pra ganhar um dinheirinho extra. tenho muito orgulho..00. pega o bagaço bota numa roça de banana dessas daí. a cidade de Fortaleza R$ 4. (Ana Nere) — De início entrei no projeto por uma questão mais de poder ajudar meu pai. Hoje eu sou um referencial muito grande dentro da minha comunidade. os frutos na mais perfeita circunferência. você pega o seu dinheirinho e vai ajuntando.. porque quando a gente não conhece uma coisa a gente se escusa de abraçar. porque não tem investimento por parte dos governos. (Ana Nere) — O Instituto Elo Amigo conseguiu mudar completamente minha vida e isso também porque eu quis. eu tenho orgulho. É aqui o nosso destino. carrega as nuvens e fica azulzinho. meus pais. aí minhas colegas da fábrica só me chamavam de importante: “só vive de reunião. não dá nem pra andar por aí. essa menina é importante demais”. marca a casa de taipa onde vivem seu Antonio. Eu fui vítima de embriaguez com veneno. O terreno com degraus. frutinha madura. Os índices de Desenvolvimento Humano deixam a cidade de Jucás no limite entre a linha da pobreza e a da miséria. do arroz brotando. — Tá com nove mês que não chove por aqui. Só falta a chuva chegar pra molhar a terra. E aí o que aconteceu? Eu estudava à tarde. dona Rosa. Obra da natureza. De vez em quando. eu como atriz não podia perder. Eu trabalhava numa fábrica. vamos na direção de Jucás. avós. de tanto sol. Eu tenho muita vontade de crescer. — É. ao contrário de muitos eu não tenho vergonha. grandes quadrados verdinhos. É muito lindo. azulzinho. vem o atravessador e compra de mim por 20 reais o saco. Aí Ana começou a trabalhar no projeto Aliança com o Adolescente e através de Ana eu descobri a agricultura ecológica. né? Eu sempre falo pra ela:“Cícera. Eu vejo toda a geração da nossa família aqui no sítio. Eu gosto de morar no campo. família de Ana Nere . Cinquenta e seis porcento de todos os pobres do Ceará vivem na zona rural. eu quero administrar o meu próprio negócio. (pai) — Ela tá certa. não é?”. na mais tenra idade. Lá do fundo do quintal. relampejando. de um dia ter a minha confecção. Das minhas quatro filhas nenhuma trabalhou na agricultura. Uma mangueira imensa carregada de fartura e admiração. mas é só passagem de nevoeiro. não. Foi a partir da minha vontade. Jornalismo. grandes pastos ressecados com árvores redondas e solitárias para dar abrigo ao gado. Eu dou muito valor à agricultura. não podia perder. aqui na minha plantação. todos passando muito sofrimento. No começo não queria. (mãe) — O dinheiro pra devolver ela já está guardando. também não podia perder.139. Na paisagem do caminho. pra quando chegar o dia de devolver já está tudo lá. faculdade de administração. não é chuva. mas ela só dá pra gente viver.A gente gosta quando fica esse nevoeiro. duvidava. fazer faculdade de Letras. escuras. de forma alguma. (pai) — Antigamente eu trabalhava com veneno. Fonte: IBGE. a filha Ana Nere e mais três irmãs. para a plantação do arroz. eles se sentem responsáveis pela vida das suas comunidades. tirada do pé. acompanhando o leito do rio Jaguaribe. né? E ficava em reunião direto na Aliança.416. agoa e com oito ou dez dias a gente vira e já tá o estrume feito.

Censo 2002. Nosso destino agora é Quixelô. Ela conserva todos os livros desde a quinta série.. Vamos para o sítio dos Barroso. mobilizando moradores e jovens para atividades ambientais e esportivas. 2003. então quando ela não tem leite suficiente.. No dia seguinte. Luís Gonzaga Sales Jr. 2004. isto é. o fator interferente mais grave reside nas irregularidades climáticas. vacas deitadas na paisagem.Tudo muito organizado e bem cuidado. Fonte: IBGE. Açude ao fundo. Eles não são só mais um na multidão. além dos livros que gosta de ler agora: Rubem Alves. pois também está. Ela participa do projeto Adolescentes Solidários da Aliança com o Adolescente. enquanto acena pra nossa despedida. pilhas de livros em cima de dois banquinhos. “É” todos os meninos que estão aqui. — Quando ele fala assim “as ilusões estão todas perdidas. na beira de um dos lados do açude de Orós. o quadro político daqui é muito difícil. Os domínios de natureza no Brasil. Voltamos pela mesma estrada. na linha entre a pobreza e a miséria. você coloca nessas pessoas uma valorização humana. aí chega assim. Porque quando você trabalha com adolescentes e cada um consegue descobrir o seu valor. onde estamos hospedados. para nos dias seguintes.. Onde Aderlúcia vai.. a gente começou de adolescente. E quando a minha amiga Solange falou que ela não quer ser só mais uma na multidão. vem para nos oferecer a água refrescante do coco verde. se intercalam trágicos anos de secas prolongadas. um de seus músicos preferidos e vai falando. A carne macia da fruta já tem outros donos: os gatos da casa já estão de olho. para que você não ameace o poder. — Aí assim. Outra coisa que você não pode fazer é pegar no rabinho do burrego quando ele nasce. você se sente muito pequeno no mundo. eles são o diferencial na multidão.e ma prá Ideol u quero u .. Um homem passa na sua bicicleta. — Vai desculpando aí. M. eu dou leite pra ele na mamadeira — diz Aderlúcia. Typ. A chuva espantou caça e caçador. não é só ela que é desse jeito. — É burreguinho enjeitado. — ainda diz seu Antonio. toda ali. o que a gente vive politicamente na microrregião é mais ou menos isso.. É uma líder natural. Seu Antonio vem do quintal com seis cocos na mão. Tanto Quixelô quanto Orós registraram uma queda no crescimento da população. Enquanto fala de política. Quarto de Aderlúcia. aí ela não quer mais o filho.82 83 . O que pode significar a saída dos moradores. aquilo de “ou você faz ou morre”. Vamos tomar nosso rumo outra vez. Talvez não tenha alcançado o sítio de seu Antonio. atrás de trabalho ou estudo nas cidades grandes. em termos de desenvolvimento humano. entre irmãos e primos ou na comunidade. A cidade de Quixelô não é muito diferente de Jucás. Diz que não tem nenhum partido e que no futuro pretende criar um. Para o cotidiano do sertanejo e sobrevivência de sua família. 1878. . um carneirinho marrom de dois meses de idade vai atrás. Aderlúcia foi convidada por políticos do PSDB da sua região para ser candidata a vereadora. Duas cabras e dois cabritos vêm correndo pela estrada fugindo da chuva. os meus sonhos foram todos vendidos”. as caatingas semi-áridas. que “entrava” também os meninos buchudos. periódicas que assolam o espaço social dos sertões secos (. A voz de Cazuza sai forte pela janela do quarto de Aderlúcia: o uma prá viver . a mãe sente que o cheiro é diferente do dela. um ela enjeita. faz faculdade de Educação Física. Aves da caatinga. De qualquer forma. Foi uma aguada passageira que caiu em Iguatu. contanto que tenha vontade mesmo. os currais políticos. — As ovelhas às vezes dá cria de dois. Aderlúcia tem 21 anos. onde é líder comunitária. Uma pequena boiada passa apressada. de maio a janeiro. a mais alta temperatura média anual. pasto seco. acostumados que estão com essa iguaria nos seus pratos. Nos despedimos da família.Tudo que você quiser fazer você pode conseguir. no sentido da cidade de Iguatu. se você pegar. todos os meninos da nossa região. o céu amanhece ameaçador e uma chuva grossa cai.. Na falta de estantes. na frente da casa. Aziz Ab’ Sáber. a gente ver o sertão reverdecer.. qualquer coisa. seja na família. ogia.. Assim as pessoas tentam sempre diminuir você. a chuva pouca foi suficiente. A natureza semi-árida desta área resulta principalmente da predominância de massas de ar estáveis empurradas para sudeste pelos ventos alísios. A. Ideol viver ogia. na reunião dos “molequinho buchudo” lá do sítio. Mas ela não aceitou. quando comparadas a outras formações naturais brasileiras. Observações sobre as secas no Ceará. apresentam muitas características extremas: a mais alta radiação solar.. porque se você for analisar. de Macedo.eu quer . Fortaleza: Edições Demócrito Rocha. István Major. carregando a espingarda.. e Rodrigo Castro. entendeu? Pra você ver que nada é impossível na vida. encadeiam e arrastam todos os vapores aquosos e deixam o Ceará na mais límpida e serena calmaria. existe a politicagem partidária. as mais baixas taxas de umidade relativa. eles são aqueles que dão o brilho. enquanto ele canta.) entre as chuvas habituais de final e de começo de ano. você vai conquistando o seu espaço. mora com o pai e três irmãos no sítio dos Barroso. São Paulo: Ateliê Editorial. põe pra tocar um CD de Cazuza. na estação seca. . Paulo Freire e tudo sobre política que cair nas suas mãos. Nas últimas eleições. Nacional. Não existe a política pública. os ventos regulares se elevam e em sua marcha de 100 a 120 km por hora.

o outro vem e belisca o outro. Sete horas da manhã. vão vir 50 gaiolas.. beneficia apenas a Zona da Mata. vem. Glória do Goitá. vamos para Quixelô mais uma vez. no Campo da Sementeira. 17 anos.. um bica o outro. a ONG parceira da Aliança com o Adolescente na formação de jovens agentes de desenvolvimento local. Rubeane e o pai enfileiram as cadeiras para a nossa chegada. Estamos saindo do Ceará. da lu ta da paz. Depois que eu coloco a ração. A estrada do algodão nos trouxe. eles voltam ligeiros quando percebem que é hora do almoço. A mãe de Rubeane vai buscá-los. já perto das águas do açude.. Chão de cimento queimado. É uma responsabilidade muito grande para todos nós adolescentes. ande.Vamos para Pernambuco. aí tenho de matar.. (Rubeane) — Antes eu pensava assim: estudar pra quê? Quando a gente termina não tem o que fazer mesmo. estudante do segundo grau. Está em Rubeane. tchuc. né? Venha. a estrada do algodão nos levará. Duas casas prá arriba. São tudo graúda assim por conta da ração. uma mulher... sede do Serta. op. de onde sai aquele som e aquela luz tênue das casas do sertão. Me dá uma alegria.. vem. de jeito nenhum. Todo o grupo do Maracatu é formado por alguns desses jovens. Às vezes tem gente que compra e já quer que eu entregue morta. Às vezes meus filhos “fala”. Na praça de Iguatu. quando a noite começa a vingar. Rubeane. No terreiro. Pernambuco.. Aziz Ab’ Sáber. durante o inverno. Agora a paisagem são coqueiros. A força do Maracatu. Gigante Negro e Caipirão ciscam no terreiro. Eu me considero uma empresária. de chapéu.. conversava um pouco comigo. estudando.. e criação de galinhas em sociedade com a mãe..“mata uma pra nós ‘comer’”. Eu pretendo continuar meus projetos por aqui.. fico aqui sentada no terreiro olhando eles comer. não quero ir pra São Paulo. seis cabras olham fixamente para a janela. é um projeto piloto. Agora eu não quero nem sair daqui. os bichinho que são mais novinho. igual quando a gente tá com os filhos da gente.. seis vezes mais do que costuma chover no sertão. nem pro Rio. nem a mata ficando cinza emaranhada nas suas folhas. não é? É do jeito dos filho da gente. Rubeane é a única adolescente da Aliança que desenvolve três projetos: criação de peixes. era “bença pai” e mais nada.. La Belle Rouge. brilhoso. mas me dói demais (. Antigos engenhos apontam suas chaminés. Mas e na hora de vender? (mãe) — Tem uns que eu não vendo. não. são bonitinho demais . Dia claro. com outros jovens da comunidade. quando eu vejo que eles tão com o papinho já cheio é só aí que eu vou pra casa. agora num outro sítio. se alimentando e a gente se sente feliz. vixe. É a Nação Sementeira que passa cantando o Maracatu pelo Campo da Sementeira. no largo do açude.. outras três. vem Rosinha. tchuc. umas têm dois meses. cit. O cuidado que a gente tem com os filho da gente é o cuidado com a criação também. em Pernambuco. não tenho vontade nem de visitar. Nesta região da Zona da Mata chove. Carnaúba não se vê mais. criação de abelhas em sociedade com o pai. gu Meu M errei ro ad os me us a ncestrais. (mãe) — São tudo francesa. entre a natureza toda verde. (mãe) — Essa menina mudou demais. Nós passamos direto. mas com o pai. eu falo: “Não belisca!”. vem comer. região da Zona da Mata.. antigamente ela falava pouco.. (mãe) — Eu fico conversando com eles. ande. de tão limpo. lava roupas..84 85 Do lado de fora. h eran ç aracatu é guer rei ro. que pode ser um passo para a microrregião do médio Jaguaribe. No momento em que a massa de ar tropical atlântica (incluindo a atuação dos ventos alísios) tem baixa condição de penetrar de leste para oeste. pelo menos. Mas não gosto quando eles “fica” brigando. uma fila de desempregados espera uma senha para tentar conseguir um trabalho. — Eu gosto de dizer que eu sou empresária — diz Rubeane. ande bichinha. o pai e a mãe nos esperam na sala. 17 anos Rubeane e sua mãe nossas mãos conseguir um projeto produtivo para este lado do Ceará. como todo mundo. só indo pra São Paulo.) Tá tudo cismado hoje. de nome Angicos. mas vai custar muito pra comer”. a gente tem um projeto de piscicultura. lutando com eles e a gente olha tá tudo lindinho ali conversando. . galinhas exuberantes exibem o seu vigor. eu respondo:“ah. — Pode-se dizer que eu sou uma microempresária. porque trabalho em três eixos. desde que entrou na Aliança. naquela água cheia de nuvens e de céu. corre atrás. Zona da Mata. Meu Ma racatu verdadeiro.

. nos tempos da escravidão. que é a Nação Sementeira. tas v erdes de Santa Cruz caboclinho das m sou atas v erdes d o pau-brasil. de resistência popular. 1960. e tenho a certeza de que quando os meninos vão ao encontro daquele desfile de maracatu. naquele espaço. Câmara Cascudo. Desde que eu entrei aqui no Serta. n já se cor 87 oou. que temia porque sabia que ali. três anos. coco de roda. de espaço de organização. sou caboclinho lê.. aí pintou a oportunidade e agora sou eu que estou levando aí a galera pra tocar.. Maracatu: visível vestígio dos séquitos negros que acompanham os reis de congos. por haver se tornado importante centro de tráfico. Dicionário do Folclore Brasileiro. A nossa região é muito rica em maracatu. lê. há muito. que foi dada a origem a esse maracatu.. . um caboclo. mas precisaria fazer mais. Já não olham para o maracatu com o olhar preconceituoso da casa grande. ela não tinha controle. Então a gente tem feito esse trabalho. conservando elementos distintos de qualquer outro cordão da espécie (em Pernambuco). também vocábulo do idioma desses negros. Chão da Terra. — Estava conversando agora com Marilândia e Gerusa que pintaram um mural belíssimo pro palanque dos maracatus — diz Inalda Batista. são assim pequenas frases que alguém canta e o resto do pessoal responde. Então a gente.. . por ser usado. só uma reprodução de uma música de três tons. e os adolescentes não viam isso como uma riqueza. lê das Lê. elas são jovens formadas pelo projeto. já sabem olhar a partir de uma perspectiva de cultura popular. porque assim era chamada a língua que falavam e o reino a que pertenciam.. 22 anos) — O batuque é pra dar mais um ritmo à nação. Na gô. a nossa rain ha se coroou.. São Paulo: Ricordi. já ossa r ainha e coro Já s . o grupo convergiu para o carnaval. sou caboclinho do s tam b or es e ag ogôs Cantam os meninos do grupo de teatro do Serta. Esses ritmos são herança dos escravos. que trazem a pior música possível.. de arte e cultura. e nagô. Designam-se eles pelo nome de iorubá. eu e Gerusa. nagô. de uma região que se chamou Costa dos Escravos. para se contrapor a essa influência nefasta das rádios FM. os africanos do grupo iorubá ou nagô são originários do sul da Nigéria. a n ou. . já se coroou. a gente identificou que a nossa cultura estava morrendo. Rossini Tavares de Lima. A gente espera que os jovens tenham acesso democraticamente a outros tipos de música. Aí eu fiz várias oficinas de percussão. decidimos retratar a arte e a cultura através de pinturas manuais em camisas. para denominá-los. não é? (Adriano. homenageando Nossa Senhora do Rosário. No início nenhum jovem queria saber de ter um caboclo pintado na camisa. agô. vice-presidente do Serta —. . aclamados na escravidão e nos exílios dos engenhos de açúcar. Rio de Janeiro: MEC/INL.. pelos franceses. agora já tem jovem que chega pra gente e pede:“eu quero um maracatu. para a coroação nas igrejas e posterior batuque no adro.86 Nagô. E o canto é chamado de entoada.. Perdida a tradição sagrada. (Marilândia. 1954. Abecê do folclore. ma . 18 anos) — A partir da formação que a gente teve aqui no Serta. Maracatu é chamado de nação. faz uns dois. lê. porque essa que toca nas rádios FM é uma ditadura.”.

A sombra do nosso carro passa estendida pelo canavial. submissos. abraçado no avô) — Então.. O menino Manassés. estradinha estreita de terra. Frente a ela só a camada parasitária de armadores e comerciantes exportadores de açúcar e importadores de escravos – que era também quem financiava os senhores de engenho – guardava certa precedência. Darcy Ribeiro. 19 anos E essas marcas. se penduram pelos cantos mais escuros. O poder do senhor de engenho. Árvores de flores vermelhas. Engenho de São João Novo. que mora na casa vizinha e é a coordenadora do projeto Cisternas.. O senhor de engenho era um empresário nativo. nos deram uma contribuição de 700 reais e a partir daí começamos a fazer as entrevistas com os moradores do Engenho. morador do Engenho) — Esses buracos. integrados todos num sistema único que regia a ordem econômica. fizemos o projeto e Edna. Tinham privilégios. em livros.. puxava muito terço. dentro do seu domínio. dessas de prontidão no antigo engenho de açúcar. sobrou uma cômoda de gavetas enormes e vazias e um nome de mulher. Vou buscar o dia. onde Edna (20 anos) e Estelina (20 anos) desenvolveram um projeto para a construção de cisternas. 19 anos. não é? E fazia às vezes músicas de entrada. op. se estendia à sociedade inteira. quando de madrugada faço minha petição pra rezar o ofício santo da Virgem da Conceição.”. religiosa e moral. política. Na sacristia. como um túmulo: 22/12/1921. Verdes campos. O piso do andar de cima está destruído. A gente visa a conservação das águas. a caminho da comunidade da Gameleira. ele visa o social geral daqui do Engenho de São João Novo. casinhas de pau-a-pique.. Maria Cavalcanti Xavier. A cana gerava altas rendas para Portugal. honrarias da Coroa. vou buscar o dia. é o pessoal que vê a igreja destruída e se aproveita pra cavar. com José e com Maria. exuberantes jaqueiras. Quem fala é Edna. (Edna) — A gente fez um encontro microterritorial no município e nesse encontro foi feita uma visão de futuro. cit. Uma coruja branca fez um ninho no campanário e agora perde suas penas. Mulheres. ou se está nessa do chão. a casa grande. cabras.88 89 Era uma igrejinha pequena. Só o sino ainda está inteiro e os meninos brincam com sua reverberação. Os morcegos voam pelos corredores da igreja. era só o trabalho de evangelização. A gente juntou um grupo aqui da comunidade. Porque o projeto não visa só a restauração da igreja. O senhor de engenho tinha uma autoridade que a própria nobreza jamais tivera no reino. homens e crianças estão reunidos em volta da cisterna comunitária feita no quintal de dona Terezinha. pesquisas na Internet. que eu sou leigo.. a paisagem é feita de pequenos roçados de mandioca. Até hoje aqui se planta cana. coqueirais. a restauração da história. assim como todas as portas e o teto. como o mulungu. escrito na parede. uma mulher e sua filha vão de sombrinha aberta para aliviar o sol. Um jegue vai pela estrada. O açúcar perdeu o espaço. a chaminé. não é? (Manassés. é ele quem dá essa inspiração. Nosso projeto foi aprovado pelo Serta. de tanto ver o avô ir lá na igreja do engenho. que caem sobre o altar. não.A gente não sabe realmente se a pessoa enterrada se está nessa catatumba aqui na parede. né? Pra ver se encontra alguma jóia de valor. assim. o clero e a administração reinol. Buscar o dia significa a gente se acordar antes do dia amanhecer e a gente ver as coisas da maravilha de Deus. de onde se avista a moenda. esses buracos tapados? (seu Arlindo. Diante dele se curvavam. vou buscar o dia. Ele vivia na casa grande construída para durar e passar a seus herdeiros. que é outra catatumba aqui embaixo. município de Pombos. 23 anos Manassés.. onde definimos as prioridades e dentre elas estavam as cisternas.. para descobrir a história dos engenhos de Pernambuco.. (avô) — Dizer a missa. era assim: “vou buscar o dia. agora apenas para fazer o álcool. 20 anos . Uma alameda inteira de palmeiras imperiais. Estamos em Glória do Goitá. dizer a missa. pra conversar com Jesus. bibliotecas. Na Gameleira.

500 reais para a construção de três cisternas. Dona Josefa tem.Achava que tudo tinha que ser feito pelos políticos. Se não existisse a zona rural. boto um bocadinho de cloro e só aí a gente pode tomar a água. Como assim. na casa de barro onde vive. Quer dizer. mas a partir de quando entrei no Serta eu comecei a resgatar minhas raízes e ver que cada pessoa é importante no processo de desenvolvimento. que tanto vai servir à dona da casa. Sabe por quê? A água vai escorrer das telha. (Dona Josefa) — A gente tem que deixar dar duas chuvada pra pegar a água. Eles aprovaram e nos deram um financiamento de 1.90 91 enviamos para o Serta. cada pessoa tem seu papel. mancha a pele quando apanhar o sol – ela diz. como a gente também. vê que é totalmente diferente. E quem abastece de água. dona Terezinha nos ensina a passar óleo de cozinha. não é? (Edna) — Até eu entrar no Serta. uma calha feita especialmente para aparar a água da chuva. (Dona Josefa) — Quando tem pouquinho assim. (Dona Terezinha) — É porque demora pra chegar. para tirar o líquido da jaca. De algum quintal do povoado da Gameleira o pessoal da comunidade vem trazendo um carrinho de mão. Eu já estou com duas semanas tomando água da chuva. na boca e nas mãos. eu não me reconhecia como uma pessoa capaz de desenvolver ações em prol da comunidade. então a gente vai ao vereador e pede pra ele mandar.A gente que mora no campo sofre muito preconceito da gente da cidade. E agora vocês estão pegando água aonde? (Dona Josefa) — Chuva. a gente não pode tomar uma água dessa. levo lá pra dentro pra coar. quando não dá pra colocar de 15 em 15 dias. tem micobe nas telha. Germano ajuda a descascar e vai nos oferecendo aquela doçura. enquanto nos oferece o óleo de cima da pia. pra ela não rachar. sentindo e acreditando que a gente é menos do que o povo da cidade. que foram feitas em forma de mutirão. Que a gente ia muito longe pegar água. do telhado. é jeca e a gente vai crescendo. cheio de jacas. Aí quando a gente chega no Serta. através de um vereador. A coisa melhor do mundo foi que inventaram esse projeto pra nós todos. E tá vazia a cisterna? (Dona Terezinha) — Tá. E por que põe cloro? (Dona Josefa) — Mor dos micobe. que ia ser usado no almoço. e agora vamos ter a água aqui pertinho. que grudou feito cola: (Dona Terezinha) — Se não tirar. mais de uma hora de caminhada. a gente tira a quantidade da gente e deixa a quantidade da cisterna.Aí pego essa água. pelo menos uma vez por mês. né? Desde a semana passada que a gente pediu e não chegou ainda. quando não chove? (Edna) — É a prefeitura. Depois. de onde vêm os alimentos. de lonjura boa. não é assim? E ali o que é que tem? Melda de rato. choveu a gente aparou lá num balde e tá tomando até que chegue a carrada. Edna e Dona Josefa . A cidade sobrevive da zona rural. Comemos a jaca debaixo da mangueira. na casa da vizinha. não tem? Só pode ter. Ele coloca água todo mês. vereador? (Edna) — É porque aqui os carros-pipa são controlados pelos vereadores. a gente deixa pra cisterna. Tem de deixar dar duas chuvada pra amparar depois. não é? Tem que deixar a quantidade dela. eles falam que quem mora no sítio é matuto. barata. a cidade não sobreviveria. Mas vocês não fizeram a calha para pegar a água da chuva? (Dona Terezinha) — É porque a gente ainda não tem o dinheiro pra comprar a bica.

ele faz rezas e dá bençãos. lacrau. dança e balança na sua sombra brasileira. não tenho nada pra lhe dar. pau-brasil. Na prateleira. mas a gente conseguiu se colocar. a oposição rejeita e a situação aprova. (Ketma) — No primeiro encontro. jararaca. Aí quando as meninas chegaram pra participar do nosso orçamento. pra não ser mal interpretado. é sua? (Nequinho) — Foi mãe quem deu. canta o grupo d eninos do Serta. O armazém faz anúncio do café que vende: “café Santa Clara. trinta anos atrás. meu vinhe . É uma organização da sociedade civil que trabalha com lideranças comunitárias. não sei se Joel notou nossa dificuldade. em fartura de beleza. realid las de flores. por parte de outros vereadores. Palmas. que nada lhe acontece. mangueiras. quem v — Eu sou Ketma Santos. Árvores brasileiras. na sua mão com esse dente de cobra. Outrora foi muito utilizada na construção civil e naval e trabalhos de torno. No resto da Câmara. várias cobras se enroscam. e.. eu trouxe um pé de pau-brasil pra você”. roçado de mandioca. Joel Gonzaga. a madeira atualmente é empregada somente para confecção de arcos de violino. Feira Nova. eu mesmo que pego. azuis. saud mos d rtão e da mata e todos o . os vereadores discutem. Mordida de cobra eu curo assim: boto um crucifixo na sua mão. que mata sete vezes. Era meu aniversário e ela disse “meu filho. na paisagem que o olhar já acostumou a reconhecer. eles conseguiram entender a gente e a partir de então nosso diálogo ficou mais fácil. Mulheres em cadeiras na calçada.Tudo parece normal. moro em Feira Nova e coordeno o Fórum do Orçamento Público. só que a coisa foi mudando e desde 1990 eu passei a participar do orçamento participativo do Estado. tenho 21 anos. enfeitadas com desenhos no frontão.92 93 Vamos voltando pelas estradas dos sítios de Glória do Goitá. casco de burro. do agrest os a vo ap tar um rosa. de sindicatos. Plantei e hoje tem um grande futuro no meu terreno. (Nequinho) — É a coral. Nós somos uma organização que não tem vínculo nenhum com a gestão e trabalhamos para que o orçamento público venha a ser democratizado. q uem vem lá. Que co ui vou pe rguntar. Casas pequenas. Nequinho é um curandeiro. Chão da Terr Semente dos m a. grêmios estudantis. vem lá. Aqui é veneno puro. escorpião. Eu disse:“muito obrigado. rtejo é aq uele senhor? Eu aq Quem em lá. rainha. uma alegria. se Pedim s lados. salamanta. 2002. corde-rosa. A sua exploração intensa gerou muita riqueza ao reino e caracterizou um período econômico de nossa história. não é? Nequinho é dono de um bar que fica atrás do pau-brasil. A loja Lili Modas exibe seus vestidos. Seu principal valor residia na produção de um princípio colorante denominado brasileína. religiosamente puro”. dentro de garrafas cheias de pinga. amarelas. Seu Nequinho Boa ta amos a t odos da casa rde. minha mãe”. qualquer cobra pode lhe atacar. Junto com Ketma.. . ira. a caninana e a mariscadeira. faço um sino de Salomão. teve alguma resistência. de sete pernas. marimbondo. Ruas de paralelepípedo. de início. além da cachaça. Essas garrafadas “cura” problema de coluna. te. depois de eu lhe rezar. Faz isso uma vez só e fica curado pro resto da vida. vinhemos con da pes Na terra faze ória.. ( Joel) — O que era costume é: o prefeito manda o orçamento. que estimulou a adoção do nome Brasil ao nosso país. que sa mos o sonho be fazer sua hist . — Ó Nequinho. extraído do lenho e antigamente usado para tingir tecidos e fabricar tinta de escrever. eu encarei com muita simplicidade. essa árvore que tá aí fora. Ficamos com medo assim de estar se colocando. de gente ssa licenç cabra a. de chãos e p os da e teatro. povo querido. Ali. . são todas aqui da região. autônomos. Nova Odessa: Plantarum. Harri Lorenzi. pessoas de grupos jovens. É o pau-brasil reencontrado. que é o que tem maior saída. sete flor dos sete pios. qualquer inseto pode lhe morder. presidentes de associações. de pequenas flores amarelas que se criam em cachos. vamos até a casa do presidente da Câmara de Feira Nova. tá entendendo? E pronto. Até que uma árvore. no éta ade certei s camp ra..

quem v — Eu sou Germano de Barros. saud mos d sertão e da mata. a gente chama de propriedade modelo. dispostas em círculo. Essa propriedade. q uem vem lá. Boa ta amos a t odos da casa rde. vem lá. povo querido. também tem as galinhas e serve pra elas tomarem água. parece que foi feito para o povo não entender. s lados. eles não lêem. meu . que é em relação à preocupação do jovem da Zona da Mata aqui de Pernambuco. quem v Boa ta amos a t odos da casa rde. povo querido. (Germano) — Isso aqui é um lago onde tem criação de peixe. deveres e lutar para se inserir no contexto da construção de políticas públicas para.. é um monte de códigos.. gestores.As nossas preocupações são diversas. que sa be fazer sua hist Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. que você luta com uma multidão de jovens que também acreditam naquilo que você carrega. mas beneficiar a vida de uma forma mais plena: uma educação de qualidade. com a questão da cidadania. e todos o Pedim este. Boa ta amos a t odos da casa rde. É a questão de lutar pelos direitos. saud Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. Hoje nós temos na Câmara nove vereadores. saud Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. meu . com os valores. q uem vem lá. do agr os a vo ap tar um rosa. Protagonismo juvenil é você lutar por aquilo em que você acredita e através disso você não beneficiar só a si próprio. uma oportunidade de emprego. e com. em sua forma mais simples. com a vida do próximo. aí eles vão votando em quem dá mais. ( Joel) — Infelizmente a população do nosso município vota de acordo com suas necessidades. vem lá. vinhemos con da pes ória. tenho 22 anos.. com o ambiente. Esse público vem pra cá para aprender essas tecnologias e depois levar para a sua comunidade... Então isso aqui serve pra gente mostrar para o agricultor como ele pode aproveitar as energias externas. q uem vem lá. quem v Casa da Dona Josefa . sou de Glória do Goitá. sou agente de desenvolvimento local e moro na cidade de Lagoa de Itaenga. a juventude. estudava. sou agente de desenvolvimento local da primeira turma e hoje sou um dos educadores do Serta. o Campo da Sementeira.. faço parte da equipe de mobilização social. e esquece a questão do conhecimento. rodam e como um monjolo fazem a água circular e oxigenar o lago. Não é a linguagem do povo. tenho 19 anos. mas eu acho que uma preocupação muito sublime é com a vida. vem lá. de gente ssa licenç cabra a. É um centro de formação tanto de agricultores quanto de jovens. uma saúde de qualidade. faz a água escorrer dentro das garrafas pet cortadas ao meio que. O Campo da Sementeira é como se fosse uma fonte de inspiração. Gostaria de responder à primeira pergunta que me causou muito entusiasmo. Quando o cata-vento gira. — Eu sou Viviane. a gente estudava.94 95 (Ketma) — E não é fácil entender o orçamento. te. O vento também é uma energia a ser aproveitada. meu vinhe . professores. É você lutar por tudo isso e saber que não luta sozinho. Preocupação com a vida. povo querido. Se você escrever uma palavra e mandar eles lerem. três são analfabetos.

Nós aprendemos muito com os outros projetos.Ao entrar no Instituto. diretora do Instituto Aliança) O Projeto Aliança. Uruçuca e Itacaré. mas eles são pessoas muito atentas ao que se diz e ao que se pede a eles. primeiro eles esperam pra saber como está a situação. tem uma área de 3 mil metros quadrados. A Fundação Odebrecht e o BNDES atuam como entidades financiadoras. políticas ou sociais em suas microrregiões. somos todos da mesma comunidade desses jovens. . formação e campo experimental. O Instituto Ayrton Senna e a W. Instituto Elo Amigo “O que a gente tenta passar para os jovens e para a comunidade de maneira geral é uma formação realmente contextualizada e uma formação intensa. se afirmam com muita qualidade.834 projetos concorrentes que desenvolvem ações complementares à escola em todo o Brasil. tem 500 anos de opressão nesse Brasil. não uma identidade separada do resto do país. Mais da metade dos adolescentes formados está inserida em atividades econômicas. A convite da Aliança com o Adolescente. Agora. em Pernambuco pelo Serta e no Baixo Sul pelo Ides. em Pernambuco. por um grupo de agricultores. E eu digo que o êxito é muito pela educação do jovem rural. em Pernambuco. o Serta conquistou o segundo lugar do Prêmio Itaú Unicef – Muitos lugares para Apreender. de 1999 até junho de 2004. no Ceará. no Ceará. iniciou a disseminação deste projeto no litoral sul da Bahia. Bacia do Goitá. adolescentes solidários e central de referência em serviços. e Baixo Sul. Uma massa crítica. com as outras regiões. na Bahia.” (Inalda Neves Batista. sediada no local. para formar a sociedade que a gente desejaria ver no futuro. que vem contribuindo com a produção de conhecimentos e de valores no desenvolvimento das comunidades. do Rio ou de São Paulo. são aliados estratégicos do Projeto nas microrregiões do Médio Jaguaribe e da Bacia do Goitá. nós vamos chegar num processo irreversível. Outra coisa: na equipe do Instituto Elo Amigo. em Glória do Goitá.96 97 Origens e Propostas “A proposta da Aliança sempre foi contribuir para instalar nessas localidades uma dinâmica de desenvolvimento sustentável. antes de tudo. não é? Então. então nós também tivemos que nos educar e estamos nos educando junto com os jovens. Ceará) O Instituto Elo Amigo foi criado em 2001 e entre outros projetos coordena. o Instituto Aliança acredita ser possível que o Litoral Sul possa reviver as histórias imortalizadas nos livros de Jorge Amado a partir de novos tempos. Em cada microrregião foi identificada uma ONG. uma nova dinâmica dentro de uma determinada comunidade. Então o nosso ideal não é fazer prevalecer um projeto. É bonito ver esses meninos se reconhecerem como os jovens de Quixelô. o que a gente quer construir com esses jovens é uma identidade brasileira. no sentido de que esses jovens vão estar formando outros e outros. os jovens brasileiros. A sede do Serta. “O que a gente quer mostrar. talvez não tivéssemos êxito. que era a idéia dos gregos de educação integral dos seus cidadãos. de novos valores e de uma nova cidadania. Em junho de 2003 as ações do Projeto na microrregião no Baixo Sul da Bahia foram concluídas. uma nova visão. no Ceará.” (Márcia Campos. para ser parceira no projeto e executora das ações na região. mas quando eles se afirmam. eles são pessoas muito presentes.” ( José Eleudson de Queiroz. uma identidade apenas nordestina. O sentido de autoridade eles aprendem com muita definição dentro de casa. O projeto Aliança com o Adolescente iniciou sua etapa piloto em três microrregiões do Nordeste: Médio Jaguaribe. mediante itinerários educativos com duração média de dois anos. K Kellogg Foundation. o Campo da Sementeira. mudar para algo que a própria comunidade reconheça como melhoria de qualidade de vida. Desde 1992 passou a desenvolver. As relações sociais são muito bem definidas. a Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (Peads). o projeto Aliança com o Adolescente. destacando-se entre 1. Um sentido das pessoas acreditarem que elas podem. mais de 2 mil adolescentes para atuar como agentes de transformação. propiciando a instalação de uma dinâmica de desenvolvimento local. construída e planejada para atividades de pesquisa. de fazer valer os seus direitos. os jovens de Orós. coordenador de projetos do Instituto Elo Amigo) Serta O Serta foi fundado em 1989. O povo da zona rural é um povo muito ciente dos seus direitos. mudar e mudar para melhor. que são os jovens nordestinos. As crianças e os jovens aprendem a ter muito respeito com as relações humanas que se estabelecem e a valorizar muito as palavras do educador. o trabalho é feito pelo Elo Amigo. Com a conclusão do ciclo de cinco anos (1999-2004) nas microrregiões do Médio Jaguaribe e Bacia do Goitá.A relação pedagógica que eles estabelecem não é de autoritarismo. Um conceito que a gente utiliza é a Paidéia. em 2000.” (Gilvan David de Souza. os jovens de Jucás. Uma vontade de mudar. não só em técnicas de produção ou de questões sociais. As relações são muito estáveis. com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Territorial e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). “Às vezes eu penso que se nós trabalhássemos esse mesmo projeto com jovens das camadas populares de Recife. projetos maravilhosos que a gente teve a oportunidade de conhecer no nosso Brasil. mesmo que seja de pais separados. com 05 hectares e 90 ecotecnologias integradas sob a ótica e os princípios da permacultura. porque o jovem rural é um jovem que vive numa família. Eles esperam. Eles são pessoas muito discretas. não são muito ‘atirados’. uma vez que seria impossível trabalhar com os 43 mil jovens da região. uma base realmente humanista. o Serta passou a atuar na Bacia do Goitá com a formação de adolescentes protagonistas. formou. o Instituto Aliança. mediante conquista de novos parceiros. por educação. Então eles acrescentam demais à nossa relação pedagógica. Comunicação e Mobilização Social e de Inclusão Digital. mas toda uma formação. vice-presidente do Serta) Em 2003. o jovem escolhe a área de atuação: agroecologia familiar. E não fazemos isso sozinhos. mediante reuniões com os vários segmentos e setores que formam aquela comunidade. O Instituto desenvolve também programas nas áreas de Direito e Cidadania.. entre suas ações. Os 70 mil reais do prêmio foram utilizados para financiar projetos de jovens na região da Bacia do Goitá. além de uma propriedade agrícola modelo. e sim apoiá-los a produzir novas e crescentes riquezas. O objetivo final do Projeto Aliança não é realizar ações compensatórias ou pontuais nos lugares em que atua. nos municípios de Ilhéus. mas se o clima é de ocupação de espaço. numa multiplicação sem fim. A partir do momento que começar a haver essa reação em cadeia. Assim. mas uma nova postura. Outro conceito é trabalhar uma massa crítica de jovens. É um conceito da Física Nuclear. técnicos e educadores que atuavam junto aos produtores familiares. fazemos com a ajuda dos jovens e de outros parceiros. Desse modo. mas que são. Eles começam agora a trazer no discurso deles essa identidade brasileira. coordenador executivo do Instituto Elo Amigo. que tem uma estruturação de continuidade. por meio da mobilização de suas próprias forças. juntas. além de apoiar financeiramente a Aliança..

112 PROJETO JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL 113 .

aumenta na grandeza. a pindaíba. longamente azul. uma de vestido branco. Casinhas de desenho de criança. O semi-árido é maior que o sertão. a catingueira. A caatinga se apresenta. nessa tarde nordestina. onde. É maior que a caatinga. O sertão que começa. Uma árvore descabelada passa. A sombra do nosso carro vai atravessando os campos baianos. o canudo-de-pito. Duas mulheres. Em cada mandacaru um novo gesto arrebatado em um drama indecifrável. a quixabeira. a macambira. . ouricuris. O céu. Em Feira de Santana. o gravatá. desprezamos a Estrada do Feijão e tomamos rumo pela Estrada do Sisal. Não há mais céu sem seus braços retorcidos. como nós. se exibem as palmeiras: coqueiros. Um mulungu com flores vermelhas. vistosas. O mandacaru agora é constante na paisagem. outra de vestido com losangos coloridos. viagem para o semi-árido da Bahia. Um restaurante: Bode Assado. o xiquexique. Entre campos e caatingas. uma outra bem magrinha também. esperam o ônibus debaixo de um juazeiro murmurante de folhagens.114 115 Sou sertanejo. sou brasileiro D eixamos para trás a Estrada do Coco. Grandes nuvens redondas e inofensivas seguem.

Betânia. Jailson. a caatinga nordestina tem uma fauna e flora riquíssimas. em cima das árvores secas. Jucilene. não tem segurança. fazem relatos dos seus quereres. Cláudio. (Marilúcia) — Existe também a máquina que transforma o “sinzal” na fibra e já mutilou várias pessoas. Assim somos recebidos na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité. Melquisedeque. Genivaldo. quando crianças ou adolescentes. Como se fosse um sertanejo também. sombreando os campos de sisal com suas flores compridas. Maria Luiza. a mão. um dia. que. com tanto trabalho. em cima das cercas de palha. cada vez mais. Jucélia. até ficar claro que somos nós passando ali. Paulo. que já perderam o braço. Aqui um quilo de sisal é um real. Ficamos gratos por sermos vistos como referência. . que a gente faz com tanto carinho. que nos sustenta. Apesar da ausência de verde no período da estiagem. ( Jailson) — O maior perigo é na hora do desfibramento. a Pousada do Sisal. mas é também um sinal de resistência no meio de terra tão seca. São cerca de 600 tipos diferentes de árvores e a maior densidade populacional de espécies animais encontrada em regiões semiáridas da Terra. de tão retas. Um marco para a nossa história vocês nos concedem. Eliana. Conceição do Coité. O sisal dourado secando no campo. A gente levantou a questão do êxodo rural e quando a gente sai da zona rural pra vir para a sede ou para outra cidade maior.. Somos nós. Um trabalho perigoso.Ai de nós se não fosse o “sinzal”.A flor anuncia a morte da planta. 2003. a algaroba. (Melquisedeque) — E estão exportando o nosso “sinzal”. Mônica. o município. depois tem que ir para o campo para secar e aí tem outro processo na batedeira. Daiane. onde você está sujeito a perder um braço. E continuamos caminho. Em nome do Coletivo do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité eu vos saúdo. no distrito de Salgadália. Joêmia. Agora a gente vem debatendo sempre a questão do trabalho infantil no “sinzal”. Numa das paredes. Que sejam bem-vindos a nossa região sinzaleira. retorcidas. Jamile. com tanto sacrifício. quem acaba ganhando são os grandes empresários que compra o “sinzal” aqui nas batedeiras e revende. Ana Paula. Um vaqueiro montado num cavalo passa. 12 anos. da mão-de-obra da gente. Clécia. no terreiro das casas. A máquina moendo a planta. Zé Carlos. Já é noite. a cena é só um borrão. Hoje tem um programa.. fruto da gente. das suas conquistas. Passam a Rádio Sisal. Marilúcia. feito com facão. porque não tem uma única proteção para você que vai desfibrar. É uma reunião de trabalhadores rurais. para cortar folhas pontiagudas e duríssimas. A lua está de quarto.. Articulação no Semi-árido brasileiro. Gerusa. trabalharam no corte da palha do sisal. No borrado a nossa sombra se define. o sisal ainda pequeno brotando nos campos e chegamos ao nosso destino: Salgadália. um distrito de Coité. Gal. (Melquisedeque) — A gente cortava palha com dez. Vanilda. Graciane. recatadas. e ao mesmo tempo uma reunião de jovens...Aqui em Salgadália. ASA. pelos jovens que fazem parte do Coletivo Municipal de Jovens. um quadro pintado a óleo mostra a plantação do sisal. exporta pra outros países. em cima do homem que vai à caça com a espingarda nas costas. Rute. Ailton. Com a nossa velocidade. depois que ele sai da batedeira ninguém sabe.116 117 Arlete. acho que aqui nenhum sabe o preço de um quilo de sisal quando vai para o exterior. É uma planta que veio do México. Marta. Hoje é o “sinzal” que traz renda pra gente. aí a gente vê na televisão que tal cidade está Caatinga quer dizer mata branca na língua tupi. Alderir. A sala escura de lâmpadas de pouca potência tem bancos compridos como os de uma igreja. Esta é a última beleza da planta do sisal. Duas casinhas retas passam. através do sindicato. Gledson. O mandacaru outra vez. pelo apreço e reconhecimento a nós destinado. Todos. pra tirar as crianças desse trabalho. como você viu ali no quadro. recentemente um rapaz de 16 anos perdeu a mão. na nossa presença. região “sinzaleira”. (Melquisedeque) — Salgadália é conhecida como a região do “sinzal”. ( Jucélia) — As nossas sinceras felicitações. Como se fosse uma resposta da vida. pra depois ele ser comercializado. Sérias.. Estamos em terra do sisal. em varais que se estendem no terreiro. erguidas em hastes para o céu. resistentes. que dá essa força e estamos lutando aí. ( Jailson) — A nossa principal preocupação hoje é a falta de emprego.

vou sair daqui porque a minha terra não oferece condições para eu viver”. No semi-árido. por isso é que você tem uma alta concentração de renda e um alto nível de empobrecimento. a questão a ser discutida não é como vamos produzir mais sisal. nossa vida. (Maria Luzia do Carmo) — A gente se reúne todo mês nas oficinas do PJPS (Projeto Juventude e Participação Social) com os jovens coordenadores dos outros 22 . tudo está aqui.8% dos adolescentes do campo estão fora da escola. É só a população rural que vai pra cidade. e não de emprego. mas como uma questão de gestão e tudo mais. o que a gente sabe fazer para as outras comunidades. ao final de todo o processo de produção. preciso de trabalho. imagina se ficasse aqui. Já existem estudos de como aproveitar o resto do sisal para argamassa. (Maria Luzia do Carmo) — Uma coisa que nós da juventude pensamos em fazer é conseguir cursos para que as pessoas possam se aperfeiçoar no trabalho do sisal. para encher mais ainda os bolsos dos grandes empresários. Hoje.Agora pense na produção total. pra se habituar em outro ambiente.” (Clodoaldo da Paixão. No semi-árido. mas o debate é sobre como vamos aproveitar a matéria-prima do sisal para outros usos. Então há um processo de exploração de renda que é por aí que a gente consegue entender os índices do PNUD. uma renda de 534 mil reais.. Fonte: Unicef. porque eu não quero sair daqui. tiveram o apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. não como forma de estar na mão-de-obra. Relatório da Situação da Infância e Adolescência Brasileiras. o que fica para o grande empresário é algo em torno de 85% do valor que o sisal obteve até chegar no consumidor. só se aproveita 5%. em termos de escola. de 74% — continua Clodoaldo — e então. trabalhadores rurais. Unicef. ou continuam a ser. É só a população que cresce. que agora buscam novas conquistas. Não adianta sair daqui. A nossa luta é justamente essa: pra que a gente jamais precise dizer “olha eu. — O nível de pobreza aqui da região é. (Betânia) — Salgadália é tudo o que a gente tem.9 milhões de jovens entre 15 e 24 anos vivem no campo. vão pra Conceição do Coité. 10% da população. 22. Quanto ao sisal. Nessa luta. não a cidade. quando foi realizada a pesquisa nacional por amostra de domicílios. Os jovens de Salgadália querem a emancipação política. “A possibilidade de emprego está ligada à existência de entidades. bebida. de família. alimentação de animais etc. Fonte: IBGE. todos eles foram.A renda vai ficar aqui e o jovem vai ter emprego. vai se interessar mais pelo sisal. empresas que gerem trabalho. São 534 mil reais que não ficam aqui. para que a gente mesmo comece a fazer coisas. do nosso cotidiano.118 119 crescendo. O salário dos professores é quase a metade dos professores das áreas urbanas. Atualmente 5. não está crescendo. coordenador técnico e pedagógico do Programa de Políticas Públicas – MOC) As famílias da região sisaleira da Bahia compõem os 5 milhões de brasileiros que declararam ao IBGE não ter nenhuma renda no ano de 2002. de cada cem quilos de fibra verde do sisal. querem deixar de ser um distrito de Conceição do Coité. apenas 9% dos professores do campo são formados em universidades. sendo 1. de estudo. (Maria Luzia do Carmo) — O sisal aqui em Salgadália tem uma renda muito grande.. está só inchando. Eu sou jovem. por isso que eu quero melhorar. 2003. em média. (Mônica) — Salgadália é meu distrito amado. futuro da região sisaleira da Bahia? Avaliação Peti – Bahia” In: de Feira de Santana (BA): Movimento de Organização Comunitária (MOC). Na região da gente. pensar em emprego é pensar em 5. o trabalhador consegue tirar o salário mínimo. que tem um papel muito importante junto a esses jovens. Fonte: MEC.A gente tenta se manter aqui porque é nossa realidade. 650 mil vindos da área rural estavam residindo nas cidades. então. Adolescente da área rural tem quase quatro vezes mais possibilidade de ser analfabeto do que da área urbana. João Francisco Souza e Adriana Lenira Souza. “Crianças e adolescentes. Censo 2000. então a nossa sede de emancipação política é porque se essa renda ficar aqui. Salgadália vai ter progresso principalmente no sisal.A gente tem que debater a noção de trabalho e renda. a mostrar o nosso produto. do IBGE. não acha emprego e aí não tem mais como voltar pra casa. afinal.8 milhão em situação de extrema pobreza. comece a vender.

1898 – São Paulo: Abril Cultural. (Marilúcia) — Falando em beneficiamento à população rural. Pelo vidro do carro só o que balança é a fita azul clarinha de Nosso Senhor do Bonfim. A gente percebe o quanto é bom a juventude estar se organizando. e não a manchassem nunca com o sacrilégio de um sorriso.. Se as comunidades rurais estiverem bem. o muro branco do cemitério.. vêm aqui até a praça de Salgadália para se reunir com amigos... decidiram trabalhar com alguns projetos bem objetivos. Euclides da Cunha. Na frente. Jeremoabo. Pelas janelas. O primeiro deles foi a restauração da praça da cidade. toda bonita. Manhã azul-clara de calor. até então um depósito de lixo.Ao lado um canhão. É Cláudia de Jesus.’ (os dizeres desta profecia estavam escritos em pequenos cadernos encontrados em Canudos). (Clécia) — Uma questão também de preocupação nossa é conseguir a melhora da qualidade de vida do pessoal que mora na zona rural. em toda esta área não há. plantas jovens. cruzes e bandeiras do Divino. passou na Globo. se avista o caminho de três quilômetros na Serra da Santa Cruz por onde passou o Conselheiro. Encaminharam um projeto à Câmara dos Vereadores de Conceição do Coité. A gente já trabalhava... Da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Monte Santo. Estamos chegando em Monte Santo. a luz azulada da televisão. talvez. Hoje. até mesmo para namorar. Salgadália não tinha divertição e agora.... e durante alguns dias. árvores antigas e lá no fundo um carrinho de mão com uma luz acesa. o penitente errante e humilde monopolizava o mando. que “fulora” aqui na seca. Uma oratória bárbara e arrepiadora (. no caminho das igrejinhas construído pelo Antonio Conselheiro e seus seguidores. — Antonio Conselheiro foi e continua sendo um mártir que defendia o povo daquela época e continua na história de Monte Santo e vai ficar aqui pra sempre — continua Cláudia. a sua entrada nos povoados. assim. Saímos da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e fomos caminhando pela rua escura: casinhas pequenas. foi assim bem legal. uma cidade ou povoado onde Antonio Conselheiro não tenha aparecido. depois de um seminário que realizaram (“Jovens Camponeses”). Era assombroso. Bom Conselho. de cada região. Monte Santo. um dos lugares por onde passou o Conselheiro. embelezando a estátua que se adivinha: Antonio Conselheiro. 20 anos. (Maria Luzia do Carmo) — Essa praça pra gente é tudo. onde as árvores não se alteram com o vento. Aqui em Monte Santo foi gravado O Pagador de Promessas e Deus e o Diabo na Terra do Sol. em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão. tudo quanto os maculasse com um leve traço da vaidade. de camisolão comprido. então o certão virará praia e a praia virará certão. Monte Santo... (Melquisedeque) — Eu posso dizer que essa praça significa tudo pra mim. a comunidade urbana também vai estar bem. Mesmo as pessoas que moram na zona rural. no fim de semana. em silêncio. quem nos apresenta a história de seu município.120 121 municípios envolvidos no projeto... eclipsando as autoridades locais. inflexível. já se organizava enquanto juventude dentro do sindicato. É uma coisa que nós conseguimos pela vontade do jovem. Inhambupe. Prenunciavam-nos anos sucessivos de desgraças:‘. nós temos a praça. 1979. vem muito turista pra cá. . quase uma via-crúcis. a praça foi reconstruída e hoje é o grande orgulho desses jovens. com desenhos no frontão. Os Sertões . afirmam testemunhas existentes. Alagoinhas. dia de domingo..) que os fiéis abandonassem todos os haveres. Lá estavam bancos.Vende pipoca? Não. Ela é uma das coordenadoras do Coletivo Municipal de Jovens e faz parte da coordenação sub-regional. Estrada do Sisal volteada pelo desenho duro da caatinga. ainda mais. carrega uma cruz na mão.... Que abdicassem as venturas mais fugazes e fizessem da vida um purgatório duro. pendurada no espelho retrovisor. E a gente percebe a dificuldade de cada município.. Paralisavam-se as ocupações normais. Tudo parado pelo caminho. isso me enche os olhos. homem grande. Esses jovens de Salgadália. seguido pela multidão contrita. você vai às duas da tarde e tá um movimento enorme o dia inteiro até o final da noite. mas esse projeto veio aprimorar assim. pelo nosso trabalho. ele ali subia e pregava. da guerra de Canudos. (Cláudia) — O nosso é um município muito religioso. eu digo que de qualquer forma o jardim da praça aqui da sede de Salgadália também é uma forma de beneficiamento. aos domingos e todos os dias. Foram atendidos. O Juízo Final aproximava-se. alevantando imagens. cabeludo. Todas as fortunas estavam a pique da catástrofe iminente e fora temeridade inútil conservá-las. . era solene e impressionadora. Terra do sertão. de mandacaru na praça. eles vêm mais no intuito de pagar promessa e tá subindo o Morro da Santa Cruz. Fomos até a praça reconstruída. a matadeira. fazia-se autoridade única. acarajé. com capelas espalhadas pela estrada.

a lição de esperança dos ensinamentos do Conselheiro sobre a possibilidade de criar uma ordem social nova. A Janelas de madeira. na tradição oral das populações sertanejas. onde nos esperavam os outros jovens do Coletivo Municipal.66% das crianças e adolescentes do semi-árido vivem em famílias onde a renda per capita é menor que 1 salário mínimo. sem vidraças. eu so a. Fonte: IBGE.. que recolheram os poucos sobreviventes do morticínio e deles ouviram e guardaram os episódios heróicos de resistência e de luta. Falta de incentivo dos pais. sem venezianas.122 123 A memória de Canudos perpetuou-se. cheio d enc brasi leiro vo v . chilen o.. dançarinas e uma música. Essas são as nossas perspectivas. também. op. Argen melho de tant ae a b do eu ém sou stou à espera de um mun mágo .Tem um dono... . às vezes acaba indo até em outro município. Aí a gente insistiu junto à Secretaria de Jovens e fizemos um levantamento e chegamos a um número de 45% de jovens na nossa região que não têm identidade. o re Eu em faço o suor e tr onhos ansformo meus s o Eu .. A gente vai trabalhar já este ano com o beneficiamento do umbu. Darcy Ribeiro. tin o sofrer Tam enezuel ia. três meses. sem fazendeiros. Censo 2000. E aí o que acontece? Quando eu tirei a minha demorou uns 90 dias. da Nicarágua. Am érica e um dia verei o meu po mérica Latina . os jovens não têm aonde tirar. eu tenho direitos. Lá dentro nos aguardavam uma cena de Santo Antonio. atores cuspindo fogo. ário n tenh alid a grande cidade. nem autoridades.42. sou e er. Peru. idadão bia. mas acabam perdendo por não ter documentos de identidade. Pelas paredes brancas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. (Heraldo) — Tem uma coisa que a gente tinha gosto: era criar a rádio comunitária para estar divulgando os trabalhos sociais que existem aqui em Monte Santo. om as própr ias mãos.47% das crianças e adolescentes do semi-árido não possuem rede geral de esgoto ou fossa asséptica em suas casas.. Todos os jovens cantaram uma letra que dizia assim: abastecimento de água adequado. (Cláudia) — Dentro do coletivo mesmo tem alguns projetos que os jovens poderiam participar. .2% da população infanto-juvenil do semi-árido não tem acesso a Entramos com Cláudia na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. E sobretudo. Eq o vo Eu ntad so uc lôm Na u da B e. . então aquele dono coloca só o que ele quer.. tenh progresso c uador. A primeira questão que aqui mais alto se alevanta é a questão da identidade. América Latina. .. A cidade é grande e tem uma única rádio que é voltada apenas ao poder mesmo.38. Co olív V r. cit. Uruguai. o suco e a polpa. A Eu mérica L sou oper atina. palmas de licuri penduradas como enfeites. a geléia do umbu.. agora está demorando uns seis meses.. não dá oportunidade nenhuma para a comunidade.74. América Latina Eu ade. Paraguai. já tem pessoas do grupo que fizeram o curso prático e já sabem produzir desde o doce. de estar organizando uma rádio comunitária e tem também a questão da geração de emprego e renda.. tá lá na zona rural e pensa assim:“eu moro na zona rural não preciso dessa história de documento”.

124 125 A nossa perspectiva pra esse ano é ter jovens trabalhando em sua própria comunidade e sem pensar em querer sair da sua terra. muitas mesinhas.A gente tem pessoas que lutam com a gente.1% dos estudantes rurais encontram-se em situação de defasagem idade/série. Jailson. sej em-vind . desmedidos. ar. então a gente tem que ser isso mesmo e não ter medo de dizer “eu sou sertanejo. o nosso sonho é. Lucineide.. altos os mandacarus com seus braços estendidos. onde a gente pôde observar que as experiências trabalhadas aqui com os jovens deixou a gente muito esperançoso. Saber que a gente não está lutando sozinho. (Davi) – No ano de 2004. nos ajudando assim a aceitar o que é nosso.65.56% dos universitários do país são jovens do campo. seus galhos esticados. Gilmara. o fogo balança dentro delas. mas precisamos de uma política pública para viabilizar esse projeto. um bar. Agora vamos apresentar um teatro feito só por mulheres. a gente priorizou um cursinho prévestibular. passa. Um Opala branco passa com massa plástica na lataria e um colchão amarrado no teto. jovens lutando por uma política. grêmio estudantil. Bruno. . que é uma coisa que eu amo. Robervaldo. porque nos poços perfurados aqui em Araci a água é salgada. merenda. Numa esquina. metade preta. Passa homem com seu burro. o que está ao nosso alcance.. (Ludimila) — Bem-vindos. dias melhores. Fica aqui o nosso reconhecimento por tanto agrado. Juarez. onde participaram os jovens da zona rural e da zona urbana do município de Tucano. de acordo com dados do MEC/Inep. saúde. Temos também o nosso projeto de reciclagem e nós damos o nome de “Agente do Meio Ambiente”. porque a nossa região é semi-árida. E como encaminhamento desse congresso. Um caminhão carregado da fibra dourada do sisal atravessa à nossa frente e deixa poeira no nosso destino.. Uma bicicleta vem.. Marcílio. Plantação de palmas. Cinco tigelas de barro no chão. dois dormitórios coletivos onde jovens. -vin ua. Elielson.Araci. Ludimila está no centro de um galpão. Josi. Planos. Esta é a nossa casa e vamos falar um pouco sobre as nossas experiências. como dizia Euclides da Cunha. Mireide. Lourival. Também temos os poços artesianos. Patrícia. que vão mostrar como é a nossa cultura e como a gente é aqui em Araci. ou a vingança de um oponente: Bahia. principalmente das comunidades mais carentes que precisam de mais renda para os jovens. funcionárias públicas da limpeza. fora daqui. m-v eja ô. Junior. não é uma coisa mais de tentar acabar com a seca e sim aprender a conviver com a seca. nós jovens fizemos uma viagem de intercâmbio pela região sisaleira. Traçar um plano de viagem: de Monte Santo para Araci. é antes de tudo. (Gilmara) — E é bom porque a gente fica sabendo que tem pessoas de fora que se importam com aquilo que a gente tem buscado na região. Para que a gente não tenha que estar partindo para outras cidades e que a gente aprenda a conviver com a seca. Edson. Eu já faço parte do Conselho da Criança e do Adolescente. Cláudia. lele. E conseguimos também o curso de políticas públicas e gerenciamento de propriedade. Na parede do bar. por isso a questão do camarão. Ludimila. c ca a a ão ntra eg . Gilma. le. (Ludimila) — Nós queremos ver na nossa cidade. a necessidade do jovem ter uma qualificação é de fundamental importância. no Conselho da Criança e do Adolescente e também no Fórum de . Não só ficar representando outros e sim mostrar nossa identidade. mostrar a identidade para o jovem e a cara do jovem.. passaram a noite para poder participar desse encontro. Andréa. Estrada do Sisal até Barrocas. meu irmão aa. nosso objetivo maior eu acho que é esse. . para fazer direito. Dailson. galinha e frutas. Rosenilda. Segunda Divisão. nós queremos jovens na Câmara dos Vereadores. quem sabe. mas eu acho que a nossa expectativa é que este livro possa levantar ainda mais o nosso coletivo e possa trazer mais e mais os jovens das comunidades. a gente promoveu o 10 Congresso Municipal de Jovens. que é um projeto nosso. Adauto.A gente não chegou aqui à toa.Apenas 1. homens de chapéu de feltro. meu irm de e bem-vindo. É Ludimila um dia de festa. Logo após.a o o. o poeta. (Ludimila) — Como conquista. Josemar. associações de pequenos agricultores (Apaeb) e também de jovens comunicadores e comunicação juvenil. Edmilson. para ir para as grandes cidades. movimento de mulheres trabalhadoras rurais. Somos de associações comunitárias. sindicatos de trabalhadores rurais.. Fonte: IBGE. Natanael. Mata espetada da caatinga. Como nas outras localidades. em parceria com o MOC e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Iolanda. Damião.A baraúna. É de pessoas assim que a gente precisa para crescer mais e mais. Davi. jovens ocupando seu espaço. Be do s . Márcio. alimentação. Luzia. para que ele no futuro tenha orgulho de dizer que é sertanejo. além de cozinha grande. le. viemos de todos esses movimentos e hoje somos o Coletivo de Jovens de Araci e queremos lutar por dias melhores na nossa região sisaleira. Eu pretendo fazer vestibular o ano que vem. com muito orgulho”. nós temos a atuação de jovens em Conselhos municipais de educação. A festa terminou com um grande almoço: baião de dois. com suas folhas miúdas. Censo 2000. teatro.. que a vida no campo tinha condições de ser melhor para o jovem. soo. a água não dá para o consumo humano. po eja a b bemsa é s . a pichação de um torcedor descrente. até a prefeitura. Verônica. de lá Teofilândia e Araci.A nossa idéia é a criação do camarão. indo seja Ô. apresentações de dança. das comunidades mais distantes de Araci. Nelson. O prédio da Apaeb – Associação dos Pequenos Agricultores de Araci tem. uma carroça vai. igreja. Passa cruz grande na estrada. (Ludimila) — Todo mundo tem uma expectativazinha aqui guardada. Alto o céu. Um grupo de jovens com a cara pintada metade branca. r. buscando água. “sertanejo. para estar dando aos jovens da zona rural a possibilidade de um trabalho e renda. a sa é sua. Daiane. perspectivas de trabalho e renda. com fita de gorgorão. (Dailson) — E também buscar o nosso lugar dentro de todos os Conselhos que existem.Agora somos nós que agradecemos. faço parte do grupo gestor do Peti. As coisas que a gente precisa para crescer mais. dança no meio do fogo. São mais de 30 jovens. Pelas ruas mulheres varrem as folhas da calçada. Porque a gente sabe que mesmo no campo. a gente já tinha participado de outros movimentos sociais e também religiosos aqui na nossa cidade. só não tem coragem de expor o que está sentindo. um forte”. ou seja. Passam dois com cão e espingarda. pode ch Cidadania.

Na nossa pressa. na calçada. daqui da Bahia. painéis com fotos de eventos realizados. Pro vale do rio Jacuípe. depois de Riachão do Jacuípe. em nome de todo o vale do Jacuípe. depois que estudamos toda a lei orgânica. os jovens dessa associação são nossos parceiros. É como a gente percebe a pobreza que se alastra e a gente está tentando aprender a conviver melhor com essas situações. como o céu daquela hora..Trouxeram uma maquete também. Então. dessa pobreza. depois de Tanquinho. Quixabeira) As taxas de mortalidade infantil nos municípios do semi-árido brasileiro são maiores que as dos países subsaarianos. nós temos solo. eles não conhecem a nossa realidade. mas com garra. Cultivamos aqui mandioca. E é ali. na merenda. A nossa arrecadação é insuficiente. coordenador do PJPS. orientação. o nosso rumo é Quixabeira. milho. mamona. ( Janilde. (Patrícia. para a área da agricultura só destinavam 40 mil reais. “A nossa cidade de Quixabeira fica a 300 quilômetros de Salvador. nossa satisfação de receber vocês aqui. Capim Grosso) — Essas leis orgânicas do município não são elaboradas pelo pessoal do município. 18 anos.Até a questão dos recursos. a gente começa a tocar os outros jovens. fizemos as nossas questões e todas foram incluídas. Projeto Juventude e Participação Social. A gente quer deixar para todos os ouvintes da Quixabeira FM a visita da ONG Aracati. E a gente deixa assim ao vivo os nossos agradecimentos. beiju de tapioca. era necessário que nós jovens tomássemos uma atitude. Edisônia chama a nossa atenção: (Edisônia. para fazer faculdade. licor de licuri. azul. no papel que eles têm dentro da sociedade. melancia. a gente quer deixar com vocês lembranças de produtos da nossa terra. envolvida num papel celofane. É quase hora do almoço e precisamos voltar para Salvador. Outra coisa que falta nas escolas é a educação sexual. azul. Quênia e Sudão.. você já passou por lá. biscoito voador e carequinha. feijão. ao surgir o projeto PJPS. O avião sai às cinco da tarde. Pé de Serra. a gente está recebendo uma visita. nosso muito obrigado. não sei se todo mundo reparou na mesa. Foi nessa hora. Por exemplo. sendo que a nossa região é principalmente rural. abóbora. Os jovens de Capim Grosso estudaram a lei orgânica do município. dentro da cabine. estão visitando o nosso PJPS.” “Gente. fizeram várias emendas e encaminharam para a Câmara de Vereadores.A gente queria que o prefeito reparasse na questão dos estudantes que saem de Capim Grosso para Jacobina. que faz para toda a região. Pé de Serra) — A nossa maior preocupação é inserir a juventude na sociedade. . a arrecadação per capita no município é de 60 centavos. com força. mas lutar sempre” – Projeto Juventude e Participação Social. eles que são de São Paulo. nós reunimos os jovens do município e estamos começando a trabalhar. mostrar à juventude o quanto é necessária a sua participação nas políticas públicas. Só temos tempo de agradecer. já exportaram para a Itália. atrás do vidro. que Edisônia nos entregou uma cesta. falta educação. A gente sugeriu que o prefeito desse um auxílio no transporte para aqueles jovens. têm também um trabalho com piscicultura. não já? Naquela mesa ali estão produtos da nossa terra. Fernanda e Edisônia o “Em nome de todo o PJPS de Quixabeira. Em dez municípios do nordeste brasileiro. o município depende das receitas estaduais e federais. biscoito carequinha. nossas cidades são rurais e quem faz a lei orgânica parece que ignora isso. Saímos da sede do Sindicato. Na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Quixabeira. e nos explicam que o município fica entre as duas serras. que vocês levem pra São Paulo a lembrança de nós. dobramos a esquina para conhecer a rádio comunitária Quixabeira FM. nossa alegria. eles têm um trabalho com apicultura. (Fábio) — Diante de toda essa problemática que o município vive. é tudo muito precário. uma honra muito grande.” (Fábio.126 127 A nossa ida agora é menos pro sertão e mais para a aguada. então eles precisavam de uma bolsa de custos porque o transporte fica muito caro. nós estamos participando ao vivo do programa Integração Total. É uma minoria que está mobilizada. tem uma variedade de coisas ali que a gente quer apresentar pra vocês como experiência de geração de trabalho e renda do nosso município. Aqui tem cocada de licuri. só falta a chuva. Eles não pensam na importância. exportam mel. tem cocada de licuri.” É Edisônia. O projeto Conviver é a Associação dos Pequenos Produtores de Jabuticaba. saudações a nossa presença e algumas frases: “o importante na vida não é vencer todos os dias. nos apresentam no estúdio. que são biscoitos da goma da mandioca. Saímos junto com todos os jovens do grupo. para que a gente pudesse entender como é linda a cidade onde vivem. diversão. estão mais curtindo festa. 6632 na zona urbana e 3128 na zona rural. onde Edisônia e Fernanda. Será que a juventude não pode ajudar a juventude? A maioria dos jovens não pensa muito em se organizar. essa taxa é maior do que os índices do Congo. O índice de meninas grávidas é muito alto. que os jovens de Pé de Serra nos mostram o quadro que trouxeram com a pintura do Pé de Serra e da Serra do Bugio. criar alternativas para que os jovens sobrevivam aqui e sobrevivam bem. mas por uma empresa em Salvador. Capim Grosso. E também a questão da agricultura familiar. coordenadora PJPS–Quixabeira) — Naquela mesa ali. para que a prefeitura comprasse os produtos e distribuísse nas escolas. quem faz a nossa apresentação. locutoras da rádio. rapadura. A população de Quixabeira é de 9460 habitantes. eles não passam nem perto do que nós vivemos. tem biscoito voador. de sol pleno. Fonte: Ministério da Saúde.

Cada cidade tem o seu Coletivo Municipal de Jovens. seguimos nosso rumo. Bahia. Retirolândia. Salgadália e Monte Santo. Pela estrada. E no futuro. Então acho que essa é a grande novidade do trabalho. palmeiras de licuris enchiam nossos olhos. é futuramente ter uma renovação de lideranças. já que eles são hoje. Ichu. possuem as mesmas demandas. dando toda a autonomia para que os jovens encontrassem as suas demandas. mais de 600 jovens. Nova Fátima. Então ninguém melhor do que eles para mobilizar a si próprios. Esses quatro são os que têm acesso às capacitações. O MOC percebia a juventude como historicamente preterida das decisões políticas. de imediato. por percorrer esses caminhos semi-áridos da Bahia e conhecer todas essas pessoas em Quixabeira. Serrinha. Estavam todos os coordenadores dos 18 municípios da Região do Sisal e do Vale do Jacuípe. São 22 coletivos de jovens. Pé de Serra. Projeto Juventude e Participação Social (PJPS). a juventude se firma como sujeito político próprio. com uma visão política mais ampliada. envolvidos no projeto. Araci. têm os mesmos sonhos. 20 centavos!”.128 129 E é nessa hora que dizemos adeus a Quixabeira. ao vale do Jacuípe. Candeal. Origens e Propostas Estava escrito na lousa: “Sejam bem-vindos. MOC) O MOC ajudou na organização. Araci. na formação dos grupos. Capim Grosso. sem paternalismos. Conceição do Coité. Monte Santo. liderados pelo MOC (Movimento de Organização Comunitária). que insere a juventude enquanto segmento social estratégico. a partir de uma identidade política própria. Riachão do Jacuípe. Nós somos jovens de: Queimadas. (Clodoaldo) — O que a gente fez na realidade foi reunir essa experiência tentando trabalhar na dimensão de um olhar de juventude. na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Coité. não cabe num livro. que reúne de 20 a 30 jovens. São Domingos. que discutam alternativas. O projeto alcança. Nordestina.” (Clodoaldo Paixão. Conceição do Coité. a satisfação do Coletivo Regional de Jovens. Irará. pela vinda de vocês. no silêncio daquela hora que o sol espanta: “Geladinho. Quijingue. Quixabeira. de volta pra São Paulo. A única testemunha é o sorveteiro que passa gritando. dialoga de um lugar de juventude e para que os jovens. os jovens se organizem e comecem a se inserir nos processos sociais locais. . e são eles que vão repassar as vivências que tiveram aos jovens da sua comunidade. Tucano. Conscientes da nossa fortuna. em toda região. “A expectativa da gente nesse trabalho com a juventude na região do semi-árido é que. ao todo. a entidade que coordena e acompanha toda a experiência dos grupos de jovens. em cada um são quatro coordenadores municipais. maioria absoluta. Onde a juventude visse ela própria.” Assim fomos recebidos em Conceição do Coité. onde se realizou o encontro com os jovens do PJPS. que se mobilizem e se articulem em torno de viabilizá-las. que quando dialoga com as entidades. olhando no sentido estratégico. Santa Luz. eles próprios. mobilizem os próprios jovens. Cansanção. sendo assim. O que significa que eles conheçam sua realidade. dependendo do município. 15 centavos! Picolé. coordenador técnico e pedagógico do Programa de Políticas Públicas. que falam a mesma linguagem. Valente. Antonio Cardoso.

130 SAÚDE E ALEGRIA 131 .

na direção do nosso rumo. enfrentador de oceanos. Nildo. estão acima de nós. rio e floresta dão a mesma impressão. de jeito manso. corrige a rota alguns graus para sudoeste. onde terra. vejo Alcino. Nuvens redondas passam pequenas. E quando dois rios de orgulho grande se encontram. estamos descendo. além da nossa. cordilheiras. Rio na Amazônia é como o mar: acompanha a curva do mundo. mexedor de montanhas. Um barquinho e dois pescadores vão sozinhos pela imensidão do Amazonas.132 133 A gente não sabe se eles sabem que a gente existe. carregador de continentes. na direção do sol poente. um dos marinheiros. acolhendo o céu todo no seu lume. Navegaremos a vida inteira e não alcançaremos a outra margem. o capitão do nosso barco. que escolhemos nosso norte. outro. ali. Ali. Estamos todos deitados. azul. O rio é parente do tempo. é que está a nossa atenção. Vereda Tropical. barrento. no meio da geografia da recriação do mundo. Querem ser sozinhos no próprio destino. Não querem nenhuma parecença. O rio não tem fim. pela imensidão azul do Tapajós. Entendo então que a terra. companheiro. um socó voa ao longe. Foi nesse lugar. num estado entre o desmaio e a lucidez. briguento. Santarém. onde mal e mal se adivinha o encontro das águas desses rios: Amazonas e Tapajós. Um. Sete horas de viagem e encontramos apenas uma única embarcação. com olhar de tucunaré de mercado. Navegamos para oeste.Tudo é água. cobertos por uma fina e quase transparente cortina. . Só o sol orienta nossa visão desconhecida de principiantes. já não é tão funda. um não aceita a água do outro. Mais abaixo ainda. abaixo de nós. nesta floresta D aqui da janela do avião. passar abraçado com uma âncora. aquelas que lembram pinceladas no céu e indicam mudança de tempo. Está tão quente que mal conseguimos falar ou nos mexer. Já conformada em aceitar nosso destino de navegar para sempre. aqui. cada um na sua rede. as nuvens cirrus. Nós já não vamos tão sozinhos. nesta altura do rio. nunca acabará.

que trabalha desde 1987 na Amazônia. as professoras. ficava vermelha quando enxergava um monte de gente na minha frente. feijão. Uma a uma as pessoas da comunidade se apresentam. tentam pegar um peixe.. “Nós somos nativos daqui. — A gente queria dar uma notícia muito legal para a comunidade: o trabalho da rede Mocoronga foi selecionado como uma das oito experiências de mobilização juvenil num concurso feito por esse pessoal aqui de São Paulo — continua Fabinho.. que deixa a água dourada e brilhosa. . uma das locutoras da Raio de Sol. Praia de areia branca. mas depois com o tempo. Os jovens. arroz. Nós fazemos o beijú. sai forte pelas duas cornetas de alto-falantes. os artistas. Franciana. Uma mulher e três crianças. antes que as ondas do rio apaguem os passos da sua vidinha de ave do rio Tapajós.. É uma comunidade muito respeitosa. quieto. mas que também dará a sua ajuda na hora difícil em que a escuridão encurta a paisagem do mundo. Fim do forró. Pela areia da praia. não sabia nem o que falar. quando acabar. retornamos. que nos proteja da correnteza do rio e do vento muito forte. para outros lugares que precisam saber que tem coisas tão legais acontecendo aqui na Amazônia.. a perna tremia. da ONG Aracati. um sinal de quem acordou mais cedo e já passou por aqui. o trapiche todo a descoberto. a locutora da rádio. — A gente está muito feliz porque vocês também fazem parte da construção dessa história e hoje a gente está vindo aqui para trazer o pessoal que veio documentar tudo isso.. um projeto criado pela ONG Saúde e Alegria. 19 anos e Raquel. não sabia nem falar meu nome. Rivaldo. Nós somos descendentes dos tupinambás. sabe.. 19 anos. todo mundo quer ir lá pegar o microfone e falar. Esses rios da Amazônia podem ser muito perigosos quando o barco está atracado perto da praia. num barco pequeno.A gente tem uma tradição muito enorme. depois que essa rádio chegou aqui eu desenvolvi um pouco. muito boa noite. Estamos saindo do ar e esperando todos vocês aqui na frente da rádio. Sob a luz do sol poente. que trabalham na coordenação da rede Mocoronga de Comunicação Popular. que estão chegando em nossa comunidade.. farinha e a beleza das estrelas. E eu me sinto muito satisfeita de ter alguma coisa pra falar para as pessoas que estão me ouvindo. mulheres. na frente da rádio. é quem fala agora e se diz presente: — Ser jovem aqui na comunidade. Passamos a noite num abrigo.. olhando pra mim. é Fabinho quem nos apresenta à comunidade de Muratuba: — Boa noite. a gente não tem conhecimento. pra contar essa história para o Brasil. Chico Malta e Lela. em Muratuba. e que são jovens que estão fazendo isso. Quando perguntavam meu nome eu me enrolava toda e não falava nada. teremos apenas os candeeiros. os que são jovens e os que já não são jovens. sem vara. depois que a rádio chegou. Ela é parente de quase toda a gente que está por aqui nesta noite. Raquel. dançam na escuridão. Hoje não teremos o programa Educando para o Futuro. prima de Rivaldo. montanha escarpada. chegar lá e pegar o microfone. na frente da sede da rádio Raio de Sol. daqui a pouquinho. ao longo dos rios Tapajós e Arapiuns. toda noite. Porque antes eu não tinha. com a equipe do Saúde e Alegria e mais uma equipe de São Paulo. Antes eu nem conseguia olhar para o pessoal. Boa noite. acho que eles estão querendo conhecer a gente e a gente quer conhecer eles também. a tapioca. na margem esquerda do Tapajós. num passeio matinal: as marcas pequenas das patinhas do maçarico estão por toda parte. Na cheia do rio a água deve chegar quase lá em cima.. Marquinhos. nessa hora em que o silêncio é de prata e a água é de ouro. comanda a dança com apitos regulares marcando o tempo. É só um ensaio.. apenas com uma linha de pesca. Domingo vai ser dia de festa aqui em Muratuba. Clareia o dia na luz ainda pálida da manhã. No escuro é o som que serve de guia. arecatu. o tarobá.. Assim. tchau.. Coordenador do projeto de implantação de rádios e jornais comunitários em 31 comunidades ribeirinhas do oeste do Pará. em pares. mas eu penso que eles estão trabalhando assim. antes eu sei lá. floresta. A escuridão é densa quando descemos a escadaria e atravessamos a praia para jantar e dormir em nosso barco. quando pessoas diferentes vêm aqui a gente procura saber qual é o motivo. Viemos até aqui pelas mãos de Fabinho. já esperava por nós com a mesa posta: surubim frito.. No meio da mata. assim. onde fica a comunidade de Muratuba. um menino toma banho na beira do rio... serenoso. para convidar todos os comunitários para uma reunião. por causa da reunião e também a gente vai poupar energia para poder ter a reunião. amarrados na copa da seringueira. Agora é Franciana. uma tira fininha e comprida: é uma escadaria enorme..’” Essa é dona Juca. no céu de pouca lua. nascida Maria de Jesus Santos Silva..134 135 Chegar é poder dizer para si mesmo: terra à vista. Eu me lembro da minha avó quando chamava a gente e queria que a gente fosse depressa. assim. temos uma rotina: saímos até encontrar um igarapé. 17 anos A voz de Raquel. a gente não sabe como são os jovens dos outros lugares.. fazendo os programas. de 24 anos.. diz Fabinho. e alcança toda a comunidade de 66 famílias.. uma da matriarcas da comunidade. sentados em cadeiras escolares no terreiro. 17 anos. a lua branca crescendo no céu e uma bacia de alumínio com um restinho de água. Olá ouvintes. O dia já terminou e a luz do gerador não vai durar muito tempo. Começa um forró. aqui não moram outras pessoas a não ser nós mesmos. cada um toma o rumo de casa. comunidade de Muratuba. estamos mais uma vez nos estúdios da Rádio Raio de Sol. tchau. igualmente nós. Um dos seus filhos. ela falava: ‘arecatu curumim. na manhã seguinte. — Boa noite! — respondem homens. o tacacá. ali no terreiro em frente à rádio. ainda frescas.. esquecida ali no terreiro. uma fita cassete tocada num rádio de pilha.. quem fala: — Quando chegou essa rádio comunitária eu acho que eu mudei muito. no começo é difícil. apresentando pra todo mundo estar ouvindo ali. falar pra todo mundo. meninos e meninas da comunidade. Eliana. a cozinheira.

eu tento repassar para os ouvintes assim.. Mas é muito pouco o que eles pagam. quando foi um tempo a ilha parou e diz que é uma Cobra Grande que entrou debaixo dela e mora lá até hoje. fiuuuu. do lixo. a Cobra Grande. a gente fala também sobre educação.As pessoas que moram aqui também participam. vai devorar quem mora em Muratuba. repórter da rádio) — Dizem que tem uma Cobra Grande aí nesse lado. a FM de Muratuba. só abrem um olho pra espiar quem passa. hoje em dia não se vê mais. Então nós estamos estimulando eles a ouvir os antigos ritmos da comunidade: o carimbó. a apresentadora Raquel nos explica como são os programas. Por uma porta de palha. em desenho de geometria. A mandioca escorre fina pela peneira em cima do girau. no lago. ainda hoje. o Chico Malta e todos que estão na escuta do nosso programa.. já sangradas no seu tronco. 80. Maria Lúcia e Graciana. Enquanto a Banda da Lourinha canta “Chuveiro” no estúdio da rádio.136 137 Chegamos em Muratuba. o forró que é produzido na comunidade. dos bichos. (Rosekelly) — E se ela sair. Quem quer contar a história da Cobra Grande? (Rosekelly.. na direção geral Rita dos Anjos. Mas o que ele tem pra dizer não tem nada a ver com futebol. O brega é um ritmo muito legal.Agora eu não sei mais o jeito dela... locutora da rádio) — E se ela sair de lá tudo aquilo vira água.. Naquela noite ela estava assobiando perto da minha casa. a Lela. poucas casas (de palha ou de pau-apique) em grandes terreiros. o Boto. Os mais idosos diziam que a ilha andava de um lado pra outro.Três cachorros magros. dão uma idéia. o funk no Rio de Janeiro. a Mapinguarí.Valmir e a mãe trabalham pra transformar a mandioca em farinha e no caldo do tucupi. uma opinião. desculpe. Essas histórias precisam ser relatadas e relembradas. que dizem que tem uma Cobra Grande debaixo dela. É assim que acontecem os programas da rádio.. nossos pais contam. do vento. — Antigamente a gente via a Curupira por aqui. é uma música muito preconceituosa. do meu avô. alguém deitado numa rede balança... — É uma longa história que nossos avós. o meu finado avô então falou: “É a Curupira assobiando e protegendo a mata”. por causa de tanta exploração das matas. era assim uma coisa invisível.A rádio comunitária tem que ser uma alternativa para as rádios comerciais. O sol já está a um palmo do horizonte. Sons só de gente.. técnico da rádio) — Tem uma ilha logo ali. O senhor já viu a Curupira? — Vi com a idade de 13 anos. aqui na região o brega é a música que todo mundo escuta — diz Marquinho.. — Então. dão entrevista.. é de alguma serventia para essas comunidades da Amazônia. marcando o tempo. o problema são as letras... como tratar a água para beber. Milton Dona Juca Estamos de volta e a gente gostaria de mandar um grande abraço para as professoras Rosinete.. na técnica de som Edmar. o Marquinhos. É a Curupira. quase nem vale a pena — diz dona Juca. Mais adiante uma fileira de árvores. um dos repórteres da rádio — e essas histórias já vieram dos pais. a desfeiteira. Estamos mais uma vez aqui para apresentar o programa Juventude e Ação. os homossexuais. aqui a juventude escuta o brega. estirados no chão. vou . como é a educação da nossa comunidade. diretor da rádio Mocoronga e responsável pela instalação das rádios comunitárias ribeirinhas —. Marco Antonio Mota.. nem mexem a cabeça. Vocês estão na companhia de Roseana e de Raquel. que nos chama a atenção por um detalhe: o escudo do Vasco desenhado na parede. Está entrando no ar a sua rádio Raio de Sol. cara. das sementes que caem pra gerar novas árvores. É a seringueira que. como o hip-hop na periferia de São Paulo. A Curupira era do tamanho desse menino aqui (aponta um garoto de uns seis anos de idade). dos pais. (Edmar. entreaberta. 15 anos.1. uma emissora filiada ao sistema Mocoronga de Comunicação Popular. essas lendas e até hoje tem pessoas que acreditam e essas histórias nunca vão acabar. — Eu apresento mais programas relacionados com educação e saúde. com a Banda da Lourinha. uma coisa muito depreciativa sobre as mulheres. 19 anos. eu já estou com 24 anos — diz Rivaldo. Silêncio.Vai comer todos nós. (Franciana. Na casa de farinha. Passamos pela casa de seu Milton. A primeira carta que nós vamos atender é da nossa ouvinte Adriana. para o Fabinho. ela que escreve e pede a música ‘Chuveiro’. — A gente tira o leite delas e vai vender na cidade. 18 anos. Vamos andando pela comunidade. mas eu enxerguei passar. como se prevenir de doenças.

Do resto do Brasil e até mesmo do resto do mundo. ou algum papel para o nosso jornal. As pessoas vivem da roça da mandioca..Todos trabalham juntos no roçado de mandioca. no rio. — Qualquer barco que passa barulhando eles correm ver o que é que está acontecendo no rio. o problema é que a bateria quando descarrega.. mas não funcionam..138 139 entrar no ar agora. a maioria das pessoas caça o tatu. — Algumas casas têm a televisão.. de perto um boizinho feito de mangas pequenas.. assim. lá em casa nossa bateria pifou e a televisão está desligada há mais de três meses. torra a farinha. — O nosso pensamento. só quando acontece alguma coisa assim rápida de urgência.. papai e mamãe gostam de assistir os noticiários. No prédio de madeira onde funciona a rádio. aí passa meses. Fale um pouco da sua experiência com o projeto dos esportes coletivos e do game Superação. e na minha criatividade também.. ao largo. a gente teve a visão de fazer um benefício. Eles vão com enxadas. pra cá. algumas crianças nos espiam e depois se escondem. Não são todas as famílias que vivem uma vida boa aqui. o açúcar. 21 anos. né? Porque a gente não sabe se eles sabem que a gente existe aqui nessa floresta — completa Maria Lúcia.. debaixo de uma mangueira. alguma coisa assim parecida. mesmo a gente sente um pouco. bom dia Rivaldo.. — É pouca coisa que acontece aqui — diz Graciana. Um menino passa correndo e deixa uma coisa na janela. Televisão tem algumas.. não só daqui. Dinheiro quase não circula por aqui. Pegamos uma estradinha estreita e vamos seguindo. quase ninguém passa. Em Muratuba não existe luz elétrica... álcool para a nossa copiadora. Bom. tudo isso a gente visou ao fazer esse roçado. como já temos a rádio comunitária. mas mundial. verduras. — diz Rivaldo. das galinhas que ciscam. bom dia Rosiane. mas falta ainda. (Rivaldo) — No mato a gente gosta. das mangueiras. rindo. E quando você vê o jornal local você se reconhece no noticiário? — Na verdade acho que não vieram ainda fazer uma reportagem dessa área aqui. nosso trabalho aqui é roçado. jabuti e as pessoas às vezes pegam um pouquinho a mais e dá um pouco de vender.. nenhum armazém...A gente tira a mandioca. um barco grande passa carregado de madeira. pela janela. olha pra frente só é água.. paca... essa farinha pra vender e dar algum retorno para o nosso grupo de jovens — diz Valmir... quando a gente pensou em fazer o roçado. veado. das seringueiras.. desse Tapajós todo aqui pra passar lá para as pessoas conhecerem. fulano de tal matou outra pessoa naquela comunidade lá. apesar de que aqui a gente encontra fruta.. O. da coleta de produtos da floresta. lenços e chapéus na cabeça pra aliviar o sol.. a experiência que eu tive foi principalmente no meu desenvolvimento. a caça. talvez porque eles pensem que não existe esse lugar aqui. De longe um bichinho de brinquedo.... — Mas todos nós trabalhamos na roça. Por aqui o rio é muito quieto.. E faz falta porque tem um jornal. 16 anos. (Rivaldo) –– Bom dia Raquel.. estão na frente da escola. né? O único trabalho da gente aqui é o da mandioca... não tem telefone nem posto de saúde. dos repórteres. — continua Rivaldo. Às vezes a gente precisa comprar um caderno. com esse trabalho a maioria das pessoas sobrevive — diz Jander. porque a gente era muito indisciplinado e com certeza isso nos ajudou no desenvolvimento das nossas boas qualidades.K. algum microfone. peixe. divertidas com a brincadeira. de também plantar a mandioca e fazer a farinha e vender para conseguir algum recurso. Vamos atravessando os terreiros.. — A gente olha pra trás só é floresta. As crianças correm para a beira do morro pra assistir a sua passagem.. passando perto das casas. ao som de risinhos abafados e olhinhos apertados. estou aqui no estúdio da rádio Raio de Sol e vou conversar com a jovem Rosekelly. catitu. dos cachorros que dormem. Estamos atrás das locutoras da rádio. tira a farinha. nenhum bar. estamos de volta agora com o repórter Rivaldo. Nós corremos também.. Logo uma família inteira de boizinhos faz fila na janela. dos técnicos. (Rosekelly) — Bom dia Rivaldo e um bom dia todo especial aos ouvintes da rádio Raio de Sol. facões. As professoras Graciana e Maria Lúcia não vão.. assim aquele dinheirinho que ele arrecada já vai pra pensar em comprar o café. aí a gente se sente sozinho do resto do Brasil.. caídas de uma mangueira.. local. da pesca. .. Na linha do horizonte. desse lado do rio. Não tem nenhuma loja. de descendentes dos tupinambás. no caso comprar alguns CDs. da caça.

As crianças da bandinha de lata. Quando eu era jovem tinha duas madeireiras aqui atrás que vinham derrubando nossas árvores. cantam a música do Circo Mocorongo. — Eles pensam assim: se a gente resgatar os costumes dos nossos antepassados a gente vai ter muito mais direitos. porque a gente fica pensando que alguém pode vir e tomar a nossa terra e se nós nos assumirmos como índios a terra será nossa pra sempre. — A soja até agora.. entre as mais altas mangueiras. vem com um irmãozinho bebê no colo e encontra no caminho outro menino do mesmo tamanho dela. Palco da comunidade. Edvandro. o tatu.. na nossa comunidade. uma menina.. tiraram itaúba. na mandioca. E se o tempo estiver ruim. Quem poderia tirar a terra de vocês? — É porque a gente já lutou muito. dos pés de cupuaçu.. o boto. riem e cada um segue seu caminho. Jander. Edmar. tiraram. Frente da rádio Raio de Sol. (Rivaldo) — As dificuldades que a gente tem aqui é em relação à educação e à saúde.. da Consciência Indígena. se for grave a única opção é Santarém.. por muito tempo. nele são sete horas de viagem pra ir e sete pra voltar. graças a Deus. dos nossos antepassados.. Rosekelly. mas do outro lado do rio a gente já ouviu falar que é de um lado e de outro da estrada. de entrevistas — continua Valmir. tiraram e nunca replantaram — diz a professora Maria Lúcia.. um microfone. e aí a gente brincava nas aulas de rádio. Anabel. todos estão na roça limpando o terreno. não chegou aqui. 17 anos . Conversam. Nós temos de decidir se queremos ser índios ou não — diz a professora Graciana. com muito vento. mais umas duas horas e meia pra voltar. pelo menos do nosso conhecimento. não dá pra arriscar atravessar o rio. Ele faz com perfeição esculturas em madeira.. o Mocorongo tem uma turm Circ a que é d O e rachar Saúde e Alegr nha do A turmi ia a turminha você vai gos E ss tar . uma Valmir. primeiramente a nossa terra. e nem faz só microfones. o peixe-boi em extinção.140 141 Raquel. — Ah sempre vem esse pessoal de fora. de uma entidade chamada Consciência Indígena. a gente tinha uma tevê que era uma caixa de papelão e um rádio também de papelão. Os instrumentos da bandinha são muito simples: uma lata de óleo. Valmir encontra uma mandioca do tamanho e formato adequado e com uma faca esculpe. que não esculpe só na mandioca.. mogno. — Antes de chegar a rádio comunitária a gente fazia isso na escola juntamente com os professores. cantor da Amazônia. 21 anos Raquel. fazia o microfone. Maria Lidine. no grande galpão está acontecendo uma reunião: as pessoas da comunidade e um pessoal de fora. a gente consegue passar um rádio e chamar uma ambulância. Cleber. Atrás das palmeiras. também com um bebê no colo. cedro. Rafael. A ambulância demora umas duas horas e meia de viagem pelo rio. Franciana. porque a gente está resgatando a nossa cultura indígena. é porque a gente não tem um posto de qualidade assim. tudo soja e falaram pra gente que os moradores saíram pra dar lugar pra soja. quando alguém fica doente. cinco horas. Roseana. ensaiadas pelo compositor Chico Malta.. se for muito grave.. só que é um barquinho pequeno. Vocês têm um barco da comunidade pra ir a Santarém? — Temos. Num terreiro largo de mangueiras. de uns seis anos de idade. de televisão.

À noite fomos embora de Muratuba. batendo violento no barco. o céu estava caprichoso. comemos mungunzá. um bambu com três garrafas penduradas por um barbante. cantoria. Deixamos nossos contatos para quando o telefone chegar por aqui e fomos para o abrigo passar a noite. o seu Hipólito. os cachorros da comunidade. no meio da roda das pessoas da comunidade. 25 anos. na rádio Raio de Sol. Dona Juca não gostou nada da cena. Então a gente tem o prazer de trazer aqui pra rádio Raio de Sol.142 143 tampa de lata e um cabo de vassoura. agora eu gostaria que a Lela entregasse para o seu Hipólito os CDs com a gravação das músicas dele. o CD. O dia seguinte foi de festa. Bom.. aqui na presença de. É um prazer falar aqui no microfone mais ouvido do beiradão do Tapajós. ali. naquele desassossego de anunciar que a dor pode ser maior. mostrava que não estava pra peixe. Já durante a tarde. Seu Hipólito .. por sua vez. Correu atrás de todos eles. Esse CD faz parte de um trabalho da rádio da Rede Mocoronga de Comunicação. seis. cantadas por ele mesmo.. e o Dico Tapajós.. de frente para a paisagem do rio. acumulando nuvens em desenhos de fazer o medo. a voz de ouro de Muratuba. o desenho da escadaria. a planta de Muratuba. E precisamos encontrar logo o abrigo. Estamos navegando há algumas horas.. dança. ilumina o próprio rosto com uma lanterna e diz: “Estamos aqui diretamente do rio Tapajós. a força poderosa do milagre da vida. todos. Marcela Beltrão. Ali. sem saber onde estamos. casado com a dona Juca e pai de nove filhos.. O capitão não encontra o abrigo.”. Foi com o programa caça-talentos que a gente acabou fazendo uma primeira seleção e escolhemos dois compositores do Tapajós: o seu Hipólito. de Piquiatuba. tocados com uma sandália de borracha na boca do bambu. que certamente o pessoal da rádio vai tocar várias vezes durante a programação. 60 anos. Todo mundo caiu na gargalhada.. que foram continuar o romance atrás da vista do pessoal. nervoso. a comunidade inteira feita de sementes. tomamos suco. do Saúde e Alegria. E estamos sem luz a bordo: a bateria pifou. onde a gente traz a notícia especial: o lançamento do CD dele. teve jogos. as vermelhas das palmeiras. alguns numa luta de amor. o rio. em primeira mão. Enquanto os meninos da bandinha cantavam.. outros meninos exibiam para a platéia a sua obra de arte: num papelão. a rádio. juntamente com as 31 comunidades de valorização dos talentos comunitários.. O rio. paulistana com três anos de rio Tapajós. de Muratuba. Lá do rio Amazonas o Antonio Oliveira e do rio Arapiuns o Antonio Ferreira.. As sementes escuras da seringueira. e quatro tubos de bambu amarrados. porque senão vamos passar um perrengue. nem aonde vamos. Boa tarde a toda comunidade de Muratuba. comemos manga. comunicadora do Saúde e Alegria. as árvores. Lela. que serve de baqueta. antes da tempestade. No mapa da comunidade. sete cachorros se engalfinhavam.

na comunidade. estava muito tranqüilo. porque o barco é todo aberto nas laterais. O que acontece se a gente pega uma tempestade dessas no meio do rio? — pergunto para Alcino. depois fui me encaminhando para a rádio e para o jornal. — A impressão que vem na cabeça hoje é de muita festa. ora o rio. apaga e acende. quando a chuva começar. nós ficávamos todos no trapiche esperando por eles. enfim para a comunicação popular. mas sempre eles buscaram a expressão das pessoas. . paulista ou mineiro.. sem sair do lugar. Corremos para levantar as redes. a mesma escada comprida. franjas de plástico. Ele nasceu na comunidade de Carariacá. igual saia de havaiana.. comecei a viajar para outros lugares. que já estavam encharcadas.. ora a floresta. fincados na areia da praia do abrigo. e àquela hora parecia um lugar encantador. a mesma praia de areia branca..A única diferença é que. é uma ponta do rio. De longe. onde ficaremos livres da correnteza do Tapajós. criavam situações para a gente poder se expressar. a caminho de Suruacá. não dá pra ver nada. gos ruac grandes ami ui em Aq Sejam bem -vin á. e era um menino de dez anos quando a equipe do Saúde e Alegria passou por lá. a Eliana preparou o café-da-manhã e logo estávamos navegando de novo. nosso barco parecia ter sobrevivido a um naufrágio. Já era bem de madrugada quando os raios e trovões se acalmaram. no rio Amazonas. O vento vem com força de tufão.. gos ocês mos grandes ami Av saud ar. que seguram os grandes plásticos que nos protegerão – a nós e a nossas redes. das nossas terras ou do estrangeiro. sentados em um banco. cercada pela floresta. participar de eventos sobre juventude pelo Brasil afora e hoje me vejo na situação de coordenar o trabalho do qual eu participei quando era criança. estamos passando por isso. imagine o barquinho do pessoal de Muratuba! Se alguém. Nessa época a equipe era quase toda de gente de São Paulo. acho que é isso que todo jovem precisa.Alcino faz duas amarrações no barco. Quando o dia amanheceu.. a mesma montanha escarpada. igual luz estroboscópica. balança do outro e vira. É assim que elas recebem todo estranho. São dois paus. No alto da escadaria. Se nós. tem onda de todo tamanho. palhaços. numa noite assim.. Dividimos biscoitos. dois banheiros e capacidade para 40 pessoas. Os marinheiros deram um jeito em tudo. numa comunidade dessas. então quando aparece alguém de fora e pergunta alguma coisa a gente tem vergonha de falar quem a gente é. com as cordas estendidas. A paisagem que nos acolheu era uma espécie de enseada. Eu tive a oportunidade. um de cada lado. como de costume. sapinhos minúsculos cantam nas pequenas lagoas que se formaram na praia por causa da chuva. despreza o plástico que nos protege e o reduz a tiras. A comunidade parava para aquele evento. na minha comunidade. nem parecia que tinha atravessado um temporal. Suruacá é muito parecida com Muratuba. não existe o estranho. redonda. coordenador geral da Rede Mocoronga de Comunicação. E assim começou o espetáculo dos raios. Fabinho. em vez de uma só. precisar de uma emergência.A gente esperava muito tempo pra que aquilo acontecesse. com circo. nos ligando à terra. E nos cobrimos com toalhas de banho. E vai reforçando as amarras. seja qual for a realidade dele. todos vie dos. nosso Su indos. numa seqüência interminável de claridade. o barco balança de um lado. — Vai pro fundo. Aquela solidariedade de quem sente que está afundando. onde todo mundo se conhece. A força do vento fazia girar nosso barco e assim. a cada hora víamos uma cena iluminada pelos relâmpagos. num ritmo frenético. aqui. O vento também. Como esse rio é perigoso. que passara a noite no andar de baixo. — O Amazonas é mais perigoso ainda. E a equipe do Saúde e Alegria chegava na comunidade com muita alegria.144 145 Encontramos o abrigo. Dona Martinha e amigas . uma barra de cereais e um café frio que sobrara do jantar. não tinha ninguém do Pará ou do Amazonas. 26 anos. dona Martinha e duas outras senhoras do Grupo de Mulheres nos recebem com um canto especial de boas-vindas. Fábio Pena. na ilusão de que ainda dormiríamos naquela noite. ora a praia. Comecei no projeto tocando numa bandinha de lata. não tem barco que atravesse o Tapajós pra socorrer. Sejam bem-v . uma enseada. num barco de dois andares com cozinha..A gente convive num ambiente. como nós. mostrar o nosso talento.

de babaçu. as palmeiras de tucumã.. distantes uma das outras.. Aliene levou os filhos pra pesar. fraturas. . Suruacá parece um vilarejo: a rua larga de terra com casas de palha. A vizinha de dona Mercedes. Pelo caminho do posto de Saúde até o Telecentro.. bacabá.. picada de cobra.A gente escuta bem de dentro de casa. o mingau de cará.. debaixo de uma mangueira.. mas um pouco magrinhos. onde funciona a rádio. que chamam surucucu de fogo. pra sentar na rua e apreciar o programa da rádio comunitária. Essa foi a representante da Associação do Grupo de Mulheres. como se fosse uma televisão. A maioria delas morre em função da diarréia ou de outra doença infecciosa.. — Quando começa o tempo das chuvas é que aumenta o número de picada de cobra — diz Henrique. — A alimentação deles é a carne e o peixe. uma emissora ligada ao Sistema Mocoronga de Comunicação. quase o dobro da média nacional. isso tá acabando com a nossa Amazônia. E a buriti. Esses dados são de uma pesquisa feita em 2002 pelo próprio projeto Saúde e Alegria. cortes profundos... Qual caça? — De tatu. Estão bem. e a mortalidade infantil é bastante alta.. só encaminhando pra Santarém. Que carne? — De caça do mato. das festas religiosas. — A que mais morde é a jararaca.146 147 Suruacá é uma comunidade maior do que Muratuba. quando o caso é um corte que precisa de pontos. cercadas pelos terreiros. — Eu ouço o “Bom dia. . — Tem vez que ela fica muito chiando. ou um cinema.. dona Adair. Em Suruacá o serviço médico funciona assim: no caso de parto. essa é a sua rádio Japiim. Suruacá” todos os dias e o programa religioso das tardes... mas tem vez que sai bem. tem o Henrique. E como é feito o manejo da matéria-prima para não prejudicar o meio ambiente? — Nós tiramos a palha com cuidado para não quebrar aquelas palmeiras que estão brotando e também já estamos fazendo novos plantios da palmeira do tucumã. nas comunidades. todas as tardes para ouvir os programas.. são de crianças de até um ano de idade. Boa tarde. Os índices de desnutrição nessas comunidades da Amazônia atingem quase 10% de todas as crianças até dois anos de idade. . .. 15.. com um bebê no colo. Quando o assunto é mais sério. aqui tem um telefone público. nós ficamos aqui.7% das mortes... são mais de 40 espécies por aqui. Mais perto do prédio da rádio. tá tendo uma doença na Amazônia que é o plantio de soja. auxiliar de enfermagem do Posto de Saúde. para apresentar nossos artesanatos para os visitantes que chegarem aqui. mas a mais agressiva aqui na região é essa mesmo. quando tem. onde dão sombra as seringueiras. sentadas na frente de casa. vamos ouvindo a programação. tem uma vendinha e até um Posto de Saúde. queremos montar uma lojinha nossa mesmo. um de dois. algumas mulheres trouxeram as cadeiras de dentro de casa. verificar a pressão arterial. está sentada na cadeira. Quem vai atrás? — O pai deles. mas eu gosto de vir olhar aqui do lado de fora — diz dona Mercedes. E quando não tem carne o que comem? — Faz qualquer coisa. este é o programa Desperta Amazônia. aqui em Suruacá.. Como é o nome deles? — Esse aqui é o Adison Odilei e este o Alex Odivan. açaí.. outro de quatro anos. com seu jeito de rainha… A rádio Japiim de Suruacá está no ar. Suruacá. tem quatro parteiras. paca.

Marquinho ia passando um microfone com um fio enorme. Quando a gente está trabalhando com a comunidade a gente começa a se entender como uma grande teia e cada um tem uma responsabilidade muito grande. dia de quarta.. principalmente em termos de aprendizagem. tem agora computador e Internet. na frente da escada. as sandálias de borracha ficam todas lá embaixo. muitas coisas que antes a gente não sabia. onde ficam os computadores. com o programa Raízes da Terra. não conseguia mexer no mouse.. — Antes do computador a gente só tinha televisão. Antes que a rádio entrasse no ar. sabe. eu senti uma emoção. como todo mundo aqui no Suruacá. eu estou maravilhado com a aprendizagem que estou tendo. né? Suruacá é um lugar privilegiado. no computador ao lado de Richardson —. sua própria vida. hoje a gente pode saber notícias do mundo todo — diz Richardson. — Internet pra nós foi um sonho — diz Jardeson. Enquanto cada um fazia uma avaliação do trabalho da rádio no último ano. porque fica na frente da rádio.. as galinhas saltam pelos terreiros para abocanhar a comida que vem pelo ar. financiador. 19 anos. eu nunca tinha visto um computador. a dança da Jacutinga e uma superentrevista com a dona Palmira. os cantos. 19. mas a gente vai acabar trazendo essas pessoas aqui pra dentro e assim como o técnico teve paciência de me ensinar. — diz Marquinho. eu vou mexer num computador. Daqui de cima do Telecentro. sábado e domingo. É a rádio Japiim de Suruacá. enquanto navega na Internet. os cupins estão voando por toda a comunidade. vamos criar uma rádio que tenha a cara da nossa comunidade. Marquinho continua: — Uma coisa que é importante observar é que nós não precisamos ficar copiando o que as FMs comerciais fazem. mas são só duas horas por dia. cada um tem seu trabalho. E você também fica sempre aqui? — Sempre não.. a minha casa fica lá mais pra frente. Esse prédio é um orgulho pra comunidade. mas a gente acaba se encontrando com o outro.A minha mão parecia um metal. é uma beleza. Já que a gente não é preso a patrocinador. Até formar uma teia. — Sabe o que é legal nessa teia? É como se fosse a vida da gente. Fabinho. porque se um de nós soltar a ponta.. Hoje vamos falar sobre a nossa cultura. Tem muita gente aqui em Suruacá que continua com medo do computador. mas não alcançam os cupins no seu vôo. cada um segura sua própria ponta. varanda em toda volta do segundo andar. as danças. Marquinho fez uma oficina com os jovens da comunidade envolvidos com o projeto da rádio comunitária. não tinha acesso. dois andares. igual teia de aranha. o pessoal da comunidade só entra descalço.. e televisão aqui só funciona quando tem energia.148 149 Ao lado dela está dona Maria Aldeíde. Eu cheguei para o técnico e pedi:“eu quero aprender”.... O ar está mais úmido depois da tempestade. os franguinhos também saltam... mas quando eu posso eu venho aqui pra casa dela. 26 anos . onde fica a rádio. Na parte de cima.. que aos poucos foi enredando todo o grupo de mais de 30 pessoas. Você vai ficar sabendo um pouco sobre o conjunto das Andirás. que é uma das componentes da dança da Jacutinga. todo em madeira. além de telefone. vamos destruir a teia inteira. E o prédio do Telecentro. os meninos correm atrás do invisível e batem palmas no ar. eu também vou ter paciência para ensinar quem quiser aprender. eu fiquei assim.. Eu não sabia fazer nada.. — Pra gente a Internet significou muita coisa. políticos e empresários.

. fugir. utar. — Olha. Enquanto as pessoas vão se acomodando em bancos no terreiro. — Cada um vai ter 30 segundos. José Edvaldo.. mas com outro desenho. olhar. construindo sozinho uma casa nova. oite á pira imit uru e ando A assobios. para dar mais espessura. junto com Lela. As paredes de palha. Ja M é H n Chico Malta s. inteiras trançadas. antigamente não tinha esse negócio de telha de barro. B e acomp gá.As janelas são de palha de babaçu.. depois é só trocar “as” palha. . Em seguida vão todos para o computador analisar. nem de pau-a-pique. Lela dá uma aula prática de fotografia. A casa é uma obra de engenharia. as fotos que tiraram. l nhar. um jacarezinho cresce. mas a noite ainda não acabou. — gritam e saem correndo pelos terreiros. não quero saber de ninguém parado em pé fazendo a foto. C ta P rera nhan n t ati í. vão sendo amarradas umas às outras com uma espécie de corda feita da palha. Chico Malta. As crianças na frente. também..150 151 Algumas crianças se aproximam. No telecentro as oficinas continuam. oita a u tá.. também trançadas. a bandinha de lata. E com quem o senhor aprendeu a fazer casa de palha? — Com os antigo. escavado na terra. na . era tudo de palha. as mulheres da comunidade cantam. com Chico Malta. um lavrador com mais de 70 anos. Toda a comunidade está reunida na parte de baixo do Telecentro. Lá. cortar essas pernas e pés que aparecem no alto da foto? (…) Essa daqui tá muito boa. olham pra gente querendo fazer amizade. — Isso daqui vai ser a sala. em volta do Telecentro. fazer pra cá uma cozinha e o quarto fica pra lá — continua seu Vitalino.. chegando perto. Os palhaços se apresentam. vai cantando uma música sua que diz assim: Na selva amaz a ôni nd matas virgens. No caminho de volta encontramos seu Vitalino de Deus.. Seu Vitalino O Circo Mocorongo. ao lado de uma pensativa tartaruga. O Circo Mocorongo vai começar. Careca e Chico Malta vão fazer uma espécie de sarau. O circo está com a lotação completa. dona Martinha. vocês viram que tem um triângulo aqui? Anoiteceu. sentar no chão. A casa é de quê? — De babaçu. na luz da lamparina. Quanto tempo dura uma casa de palha? — Oito anos. arquitetura e artesanato. Dona Martinha nos leva até a casa de um de seus filhos. têm alguma coisa pra contar: — Vem ver um jacarezinho..Vão reunir as crianças e naquela noite de céu sombrio vão contar histórias e fazer o medo. à n s águas d m os rios.. o Careca. Tem que abaixar. As meninas e os meninos saem todos para o terreiro. No final toda a trupe dança e canta: O grupo se dispersa. procurar um ângulo. Nós vamos atrás. atrás dos ângulos desejados. Num tanque. n ca tem m e le istérios a as edo de dia . Saci. não dá. no andar de cima. cheias de risos. sentadas no chão. — Aqui vocês não sentem falta de abaixar mais assim. — diz Lela.

Assim que chegamos. paredes de taipa que não chegam até o teto. onde antes era floresta. preparados para a plantação. Chico Malta uma do boto. que estão voando pela cidade. Casa de chão de terra batida. e outros dois rapazes da comunidade vêm nos ajudar com as malas. teto sem forro para entrar a fresca. mas antes de pegar a estrada principal. estão ficando douradas. dona Martinha outra do boto e nessa hora em que o boto virou gente. tudo existe. mas a gente não pode ter medo de nada. Acordamos com o som da rádio Japiim que entrou no ar.. 12 pessoas da comunidade que acenavam pra nós. voltou assobiando na noite. fomos de carro até Belterra.Assunção acendeu uma vela no chão para iluminar o cômodo até que pendurássemos as nossas redes e adormecêssemos. foram plantados mais de 3. O nosso rumo é Santarém. Era o barracão do Posto de Saúde e assim atrás ficava o cemitério. O sol está nascendo dentro do rio Tapajós.As crianças gritaram. onde vamos passar a noite. enquanto o carro percorria todo aquele caminho.Tudo a gente tem de enfrentar nessa vida. As folhas das copas das mangueiras. tudo isso um dia será soja. Uma praga acabou com tudo. tudo isso um dia. tudo isso um dia será soja. Duas menininhas acabam de acordar e andam ali pela beira.. agora devastados. a antiga aldeia dos índios Borari. traumatizados com a noite anterior. mas caiu como uma luva para os nossos sentimentos. numa comunidade lá no rio Arapiuns. Djalma. Em 1928. cansei de repetir em pensamento o que era preocupação da professora de Muratuba: “Tudo isso um dia será soja.. Uma boceja. Careca que tinha saído dali sem que ninguém notasse. limpa da floresta. que estavam ali. onde hoje as crianças correm para pegar as saúvas. Amanhece. De lá. E vendo aqueles campos. vestido de roupa brilhosa. Alter do Chão . O conselho era para os netos dela. Foi aí que dona Martinha falou: — Aranha caranguejeira. entramos em estreitas estradas de terra. Até onde a vista alcança. outra se espreguiça. só nos resta enfrentar a noite. Não tem preço a acolhida quando a gente é o estranho e não tem onde dormir. crianças.. por causa da escuridão. E enquanto pudemos ver aquela paisagem. como as nuvens. Santarém-Cuiabá. se fingindo de Curupira. Ainda não são seis horas. Quando entramos no barco. Depois das sábias palavras de dona Martinha. já eram umas dez. das palmeiras.”. — diz Chico Malta — Aí eu só lembrei de rezar. atravessar os terreiros e chegar valentemente na casa da Assunção. pra ver o nosso movimento de ir embora. a cidade planejada por Henry Ford para fornecer látex à linha de produção da Ford. As histórias vão se sucedendo: Careca contou uma da Curupira. De Suruacá. Mas ainda existem bosques de seringueira espalhados pela cidade. aqueles pequenos pontinhos coloridos. Resolvemos dormir em Suruacá.. continuavam a nos dar adeus. nós gritamos também. tudo isso um dia será soja. na beira da praia. no meio do rio imenso.. tudo isso um dia será soja. na direção de Alter do Chão. na margem esquerda do Tapajós.500 quilômetros quadrados de seringueiras. atravessamos para a margem direita. a paisagem foi passando aberta. empurrada lá pro fundo. rasgada. da floresta imensa. agente de saúde.152 153 – Teve uma vez que o Marquinho tava dormindo numa rede. Curupira.

Inclusão Digital: por enquanto implantada em duas comunidades. cotidiano e da cultura regional da população. criando espaços de participação comunitária. Todo trabalho é definido pelos próprios repórteres que fazem matérias ao vivo ou pré-gravadas e montam a grade de programação conforme a identidade de cada local. eles não têm moeda. microfones –. participação e mobilização.” (Caetano Scanavino. CD player. sendo que hoje. eles não têm dinheiro para comprar as coisas. O trabalho visa. parteiras tradicionais. Através desses trabalhos. pescadores. que começou a trabalhar na prefeitura de Santarém para atuar na área rural. ONG que atua na Amazônia desde 1987. Isso criou uma rede intercomunitária de permanente circulação de informações e conhecimentos. em Santarém – e 22 sucursais rurais. os jovens viram crescer as próprias possibilidades e potencialidades. em programas de saúde. cada locutor é um agente multiplicador. ribeirinhos. lideranças. de modo geral. realidade. desenvol- vendo outras ações que sejam importantes para eles. Através dela. médico. Com o início das oficinas de capacitação. melhoria na área de produção de alimentos. São jovens trabalhadores rurais. mulheres. Recentemente. Ele percebeu que os problemas de saúde eram de origem básica – diarréia. coordenador do Saúde e Alegria) “Atualmente os objetivos da Rede Mocoronga vão além da promoção da comunicação comunitária pelos próprios jovens. Foram organizadas nas comunidades oficinas de comunicação onde os jovens eram capacitados como repórteres rurais e aprendiam a produzir programas de rádio. Aí ele viu que os problemas de saúde eram também problemas de educação. Ao mesmo tempo. E era preciso que a população tivesse um apoio em outras áreas: acesso garantido à escola. A Rede funciona a partir de uma central – o escritório do Saúde e Alegria. desnutrição –. sobretudo. cultura e comunicação. porque são eles que detêm o maior conhecimento sobre a Amazônia. extrativistas. Nesse contexto. educação. mesa. Foi aí que ele saiu da prefeitura e criou a ONG Saúde e Alegria. mas acabavam ficando graves por falta de intervenção efetiva em tempo hábil. articulando políticas públicas onde estes estejam incluídos de forma adequada e protagonista. onde avaliam e planejam estratégias de ação. educativas e de renda. professores. esse movimento busca contribuir para a formação da cidadania da juventude ribeirinha. além da valorização e do reconhecimento dos jovens ribeirinhos como segmento estratégico para a região. o fortalecimento da identidade cultural do ‘jovem da floresta’. mas todos os grupos e faixas etárias. tape-deck. buscamos promover a formação de novas lideranças antenadas com a luta das populações ribeirinhas por melhores condições de vida e pela proteção da Amazônia. cinco são jovens que participam da Rede Mocoronga. entre as comunidades envolvidas no projeto. Rádio Mocoronga: as sucursais funcionam nos moldes de rádios comunitárias a partir de um kit de áudio – amplificador. e veiculam o material produzido por meio de cornetas espalhadas pela comunidade. alguns estudantes. índios. opções culturais. Todo trabalho é distribuído através de três veículos: Jornal Mocorongo: cada sucursal tem um kit de editoração. geração de renda. monitores de saúde. Amazonas e Arapiuns (organização de base comunitária que representa as comunidades da área de atuação do Saúde e Alegria). Eles têm que viver a partir do que a natureza dá. Os programas da Rede Mocoronga procuram envolver não só os jovens. apoiar as ações protagonizadas pelos grupos de jovens que foram criados através do trabalho de comunicação. vídeo e jornais comunitários. Entre os 12 membros eleitos para a nova diretoria do Conselho Intercomunitário dos Rios Tapajós. Ali não existe farmácia. fazer o remédio caseiro. para avançar na sua participação sociopolítica e comunitária. inserindo as novas gerações no processo de desenvolvimento das comunidades. Cada repórter. compostas pelos grupos de jovens repórteres de cada localidade. Também organiza o fluxo intercomunitário dos programas de comunicação popular e qualifica os materiais produzidos pelas comunidades. Então. os participantes dos grupos de jovens da Rede Mocoronga criaram a Teia Cabocla de Lideranças Juvenis.” (Fábio Pena. produtores rurais. outros não. têm que sair de manhã para pescar o almoço. As produções são veiculadas nas rádios e jornais intercomunitários e difundidas para outras regiões. o fluxo inverso permite que a população ribeirinha tenha acesso às realidades de outros lugares. em telecentros culturais com computadores e acesso à Internet.154 155 Origens e Propostas A história da Rede Mocoronga de Comunicação Popular começou como parte das estratégias de educação e mobilização social do Projeto Saúde e Alegria. A arte. não têm geladeira. com o Saúde e Alegria a gente buscava dar poder para essas populações tradicionais de seringueiros. os jovens passaram a se colocar nas comunidades na condição de agentes multiplicadores. uma máquina de datilografia e um mimeógrafo. organização comunitária. “O Saúde e Alegria começou com meu irmão Eugênio. sair à tarde para caçar o jantar… Então é uma população que tem um patrimônio cultural fantástico e vive um quadro de exclusão tremendo. . desafios mais amplos foram sendo incorporados. jovens e crianças. o lúdico e a comunicação são os principais instrumentos de educação. A Rede passou a promover a comunicação entre as comunidades e iniciou um amplo processo de difusão da voz. A sobrevivência deles depende desses conhecimentos. coordenador da Rede Mocoronga) Os atores envolvidos nessa história são cerca de 450 jovens entre 14 e 25 anos que formam grupos em cada uma das 31 comunidades ribeirinhas.

Bento Quirino dos Santos – Comerciante abastado da cidade de Campinas. Geledés “O Navio Negreiro” – Um dos mais importantes poemas abolicionistas da literatura brasileira. Pág. Homossexualismo – Afinidade. Castro Alves – Antonio Frederico de Castro Alves. no final do século 19. Pág. Foi um grande poeta romântico e . 29. Pág. decidindo sumariamente as punições que deviam ser aplicadas. Mocotó – Pata de bovino. Essa polícia funcionava sem tribunal. Carlos Gomes – Maestro e compositor brasileiro. Pág. escrito em 1868 pelo poeta Castro Alves. RPG – Sigla de Role Playing Game. SP. na Bahia.156 SAIBA MAIS 157 Grupo E-Jovem Gestapo – Foi a polícia política da Alemanha nazista. Pág. 28. 27. Descreve o horror a que eram submetidos os africanos na travessia do Oceano Atlântico e clama pelo fim do tráfico negreiro. 26. Pág. 37. homossexualidade. atração e/ou comportamento sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. nasceu em 1847 na cidade de Curralinho. sem o casco. 27. 25. Pág. Prestou relevantes serviços à população por ocasião da epidemia de febre amarela. 26. Pág. inspirada no romance homônimo de José de Alencar. É um jogo de aventura e interpretações de papéis. autor da mundialmente consagrada ópera O Guarani. Sucão – Lanchonete no Centro de Campinas. criada por Adolf Hitler.

Pág. Pág. Matrix – Filme norte-americano de ficção que conta a história de um jovem programador de computador que é atormentado por estranhos pesadelos. Pág. 50. 41. Darcy Ribeiro – Antropólogo. 71. Pág. Machado de Assis – Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro e viveu na segunda metade do século 19 e início do séc. ensaísta e romancista. 69. De todos os escritores negros. além do olhar crítico sobre a sociedade do Rio de Janeiro do século 19. bem vestidos e que ostentam sua posição social. Ações afirmativas – Propostas que pretendem estimular o protagonismo da população negra. MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) – Movimento político-social brasileiro que busca a reforma agrária. bem como dos órgãos das esferas governamentais federal. Juscelino Kubitschek – Presidente do Brasil de 1956 a 1961. Pirâmide social – Esquema de representação das classes sociais cujo formato se assemelha ao de uma pirâmide. residência oficial do Presidente da República. a fim de atender aos princípios da justiça social e ao aumento de produtividade. irrite. No seu governo. 70. 42. Legislativo e Judiciário. pessoas excluídas e marginalizadas). Em 21 de abril de 1792. Teve origem na oposição ao modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar. conhecido por Che Guevara ou El Che. Pág. Pág. nasceu em Montes Claros em 26 outubro de 1922 e faleceu em 17 de fevereiro de 1997. é um dos clássicos da literatura brasileira e constitui. 52.158 159 abolicionista. 41. nas suas contradições essenciais. O lema de seu governo era: “50 anos em cinco”. com igualdade social e econômica para todos. sua preocupação maior está na reflexão sobre a existência humana. pintor. Latrocínio – Assassinato com objetivo de roubo. foi tropeiro. Pág. Pág. Pág. Solano Trindade – Poeta. teatrólogo. Tem na base as classes mais pobres (trabalhadores. em São Paulo. Pág. Estereótipo – Imagem padronizada que reflete uma opinião simplificada a respeito de uma situação. 37. nasceu na Argentina em 14 de maio em 1928. Esplanada dos Ministérios – Região localizada no Eixo Principal de Brasília onde estão situados os edifícios de todos os ministérios do Governo Federal. A trama desenvolve-se a partir da mistura entre elementos do real e do ilusório. Racionais MC’s – Um dos mais importantes grupos de rap e hip-hop do Brasil. Rap – Gênero musical surgido no início da década de 1970 nos Estados Unidos. Um de seus últimos livros – Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) narrado a partir do ponto de vista de um defunto. Palácio da Alvorada – Primeiro edifício inaugurado em Brasília. 20 (1839-1908). Estresse – Conjunto de reações orgânicas e psíquicas de adaptação que o organismo emite quando é exposto a qualquer estímulo que o incite. Tem como objetivo mobilizar pessoas e recursos para encontrar soluções criativas para os problemas da comunidade. filósofo e socialista alemão. 52. Pág. apresenta as regiões denominadas Asa Sul e Norte. Pág. em Brasília. Centro de Voluntários – Parte integrante do Programa de Voluntários da Comunidade Solidária. Pág. Asa Sul e Asa Norte – O projeto da cidade de Brasília tem a forma de um avião. circundam o Plano Piloto. Pág. de conexão horizontal e de regulamentação democrática de uma sociedade. uma melhor distribuição das terras mediante modificação no regime de sua posse e uso. Pág. Foi um grande “retratista” do Brasil e dos brasileiros. reunidos a cada dois anos para discutir e deliberar sobre importantes questões no âmbito de seu mandato. Capital Social – Diz respeito aos níveis de organização. 66. amedronte ou o faça muito feliz. 53. Reconhecido nacional e internacionalmente como um dos maiores escritores brasileiros. política. foi ministro de Educação. 37. até hoje. nasceu em 1818 e morreu em 1883. Pág. Desenvolveu vasta atividade educacional. drogas e marginalidade. Pág. para atender demandas específicas de grupos sociais. sendo seu nome a sigla para rhythm and poetry (ritmo e poesia). Cidades-satélites – Localizadas ao redor de Brasília. em Recife. Karl Marx – Economista. Pág. professor. 72. Pág. mas o maior de todos eles foi a liberdade. Segundo Jorge Amado. literária e científica. foi construída e fundada Brasília. 65. classe ou grupo social. foi enforcado e teve seu corpo esquartejado e exposto em praça pública. Pág. É um dos idealizadores do Comunismo. 71. e suas músicas abordam temas como violência. raça. 72. Che Guevara – Ernesto Guevara de la Serna. Pág. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – É o principal provedor de dados e informações sobre o país. UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação. Seus contos são verdadeiras obras-primas de contenção e rigor construtivo. ideologias e práticas políticas que postulam a abolição das desigualdades econômicas entre as classes sociais. formando uma complexa periferia. 68. em conjunto ou não com a sociedade civil. no sentido de pensar e executar ações pertinentes à desconstrução do racismo e do preconceito. 52. Pág. 42. sendo chamado “o poeta dos escravos”. Pág. que abrigam as super quadras residenciais e setores de comércio e serviços. Nasceu no dia 24 de julho de 1908. a capital brasileira. 58. ator e folclorista. Surgiu em 1990. Socialismo – Denominação genérica de um conjunto de teorias socioeconômicas. Núcleo Cultural Força Ativa Tiradentes – Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Minas Gerais em 1746. Pág. 69. 58. acontecimento. Pág. Pág. Pág. no meio situa-se a classe média e no topo da pirâmide estão as chamadas elites. 59. Capitalismo – Sistema econômico que tem por base o lucro e a propriedade privada dos meios de produção. 39. principalmente na década de 1970. mascate e dentista prático. pessoa. 66. Políticas Públicas – Conjunto de ações econômicas. 65. Ficou conhecido por ser um guerrilheiro revolucionário e por ter participado da Revolução Cubana e do governo de Fidel Castro em Cuba. 52. ou a completa abolição do conceito de classes. a Ciência e a Cultura) – Organização que conta com mais de 191 Estados-Membros. Grupo Interagir Praça dos três poderes – Praça idealizada pelo urbanista Lúcio Costa e localizada no início do Eixo Monumental. Pág. 59. doutrina política que prega a formação de uma sociedade sem classes. Pág. . sociais e ambientais implementadas pelo governo. por isso. O povo brasileiro é um livro indispensável para quem procura entender a formação da nossa história e do nosso caráter. nos quais encontra-se conectado por cabos em um imenso sistema de computadores do futuro. Playboy – Denominação popular que se dá aos jovens de classe alta e média-alta. Criou a Universidade de Brasília. Representa a união dos poderes Executivo. atendendo às necessidades dos mais diversos segmentos da sociedade civil. teve muitos amores. Dono de um texto impecável e de um humor refinado. tornando-se conhecido pela habilidade com que arrancava e colocava novos dentes feitos por ele mesmo. ministro-chefe da Casa Civil e senador. 43. estadual e municipal. foi quem deixou presença mais forte. Pág. Foi líder da Inconfidência Mineira e primeiro mártir da Independência do Brasil. uma grande sensação literária. ligados à coletividade negra brasileira.

Pág. Pág. Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) – Conjunto de indicadores que medem a qualidade de vida e o progresso humano em âmbito mundial. Pág. Pág. que para o povo é suspeita. 115. pois dá ótima sombra e alimento ao gado faminto. Bansol Jorge Amado – Grande escritor baiano da cidade de Itabuna. 106. o grupo convergiu para o Carnaval. Autor de vários livros e artigos. Pág. 116. Pág. a cajazeira. 101. Pág. ato de livrar-se do poder. . conhecido como “Boca do Inferno” por sua ironia e pela crítica aos costumes e à política da época. 78.. 117. Pág. 119. Monjolo – Engenho primitivo. feita a base de milho. 101. CE.Tem funções legislativas. Já ao final. Perdida a tradição religiosa. Aliança com o Adolescente Carnaúba – Tipo de palmeira com inúmeras finalidades de aproveitamento. financeira e orçamentária. Paulo Freire – Um dos grandes educadores contemporâneos. cera. Pág. Pág. Gregório de Matos – Poeta nascido na Bahia em 1633. 106.. provenientes da África e recentemente introduzidos no Brasil. da beleza e da pobreza. Pág. Pág. Serigüela – Fruta típica do Nordeste brasileiro. na época da escravidão. 77. que aborda o tema das ruas. tendo sido responsável pela construção de um projeto literário de raízes nacionais.160 161 Protagonismo Juvenil – É a atuação consciente e criativa do jovem na busca de soluções para desafios dos ambientes em que vive e convive. 109. 103. 77. Mandacaru – Planta arborescente. O livro começa assim: “Verdes mares bravios de minha terra natal. 115. chegando até o litoral do Nordeste. Um de seus poemas foi musicado por Caetano Veloso nos anos 70. Pág. Pág. 81. Câmara dos vereadores – Órgão municipal formado por vereadores eleitos. contaminados pela memória de Iracema: “No fundo do mato-virgem nasceu” não a virgem dos lábios de mel. 77. após esgotar toda a sua energia na produção de frutos e brotos. por suas grandes reservas de água. Pág. Candomblé – Religião Afro-brasileira praticada em grande parte do Brasil. Pág. açúcar e canela. José de Alencar – Autor de Iracema. Pág. 101. PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) – Organização que tem como objetivo principal o combate à pobreza e à miséria no mundo.”. movido por água. Há um vínculo forte entre esse começo e o fim do livro. e diz assim: “Triste Bahia. Pág. Munguzá – Comida típica nordestina. 73. seja pelo início e pelo final. ó quão dessemelhante. Sisal – Planta produtora de fibra. 89. Não há a figura do patrão e todos os empregados participam das decisões administrativas em igualdade de condições. mas permanece no canto da jandaia. Pág. Utilizam-se suas folhas. Pág. Dá nome a uma cidade na Bahia e a outra no Ceará ( Juazeiro do Norte). Pág. 118. em busca de emprego e melhores condições de vida. mas “Macunaíma. são árvores cultuadas pelos orixás-voduns. Pág 77. frutos. Pág. Rubem Alves – Escritor mineiro nascido em 1933. 78. Pág. principalmente para dar lugar ao gado. leite de coco. dos mistérios e da gente da cidade de São Salvador. Iracema – Obra de José de Alencar. Pág. 107. 101. Pág. Pág. abastecido com água da chuva ou dos caminhões pipa das prefeituras. Pág. Faz o ninho no oco da carnaúba. escrita em 1944. Bahia de todos os Santos – Obra de Jorge Amado. Banco Palmas – Banco criado por moradores do Conjunto Palmeira. É uma benção para o sertanejo. PETI (Programa para Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil) – Programa de transferência direta de renda do Governo Federal para famílias de crianças e adolescentes envolvidos no trabalho precoce. Conhecido como canjica em São Paulo. a pitangueira e a gameleira. em geral integrantes de uma determinada categoria profissional. Emancipação – Libertação. a mangueira. Pág. quando Iracema morre. Juazeiro – Árvore de cinco a dez metros de altura que aparece na caatinga e no polígono da seca. Foi membro da Academia Brasileira de Letras por 40 anos e vendeu mais de 20 milhões de livros. com diferentes denominações e peculiaridades. Nasceu em Recife em 1921 e faleceu em 1997. traz para esse livro a presença de José Alencar. Maracatu – Grupo carnavalesco pernambucano. Mário de Andrade. surge “E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói”. a jaqueira.Tem inúmeras utilidades: alimento. Seu objetivo é fomentar pequenos negócios e estimular a comunidade a consumir o que ela mesma produz. os supersticiosos não atravessam sua sombra. no lugar da jandaia. atingem mais de dois metros de altura. Pág. Com a derrubada da carnaúba nativa.. em Macunaíma (1928). herói de nossa gente” (início). Pág. Jandaia – Ave pequena muito parecida com o periquito. 80. Delivery – Entregas em domicílio. a planta mãe morre. No Candomblé. exerce atribuições de fiscalização externa. Alevinos – Filhotes de peixes. 85.As inflorescências são imensas. Tilápias – Peixes comestíveis de água doce. óleo para sabão e artesanato.”. Pág. Pág. fundado sobre a língua e a cultura brasileiras. Mouca – Termo regional utilizado para indicar surdez. 83. com pequena orquestra de percussão que antigamente acompanhava os séqüitos negros dos reis de congos. 83. onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. falecido em 1990. 120. Mulungu – Árvore nativa do Brasil. 108. 119. 78. Pág. Gameleira – Árvore grande. Multiplica-se na vegetação da caatinga. 89. Êxodo Rural – Movimento de abandono do campo por seus habitantes.Viveu na segunda metade do século 19 e é um dos maiores escritores brasileiros.. vítima de Aids. A floração acontece uma única vez e. a jandaia está em extinção. o lenho e principalmente a cera. conta a lenda da índia Iracema que se apaixona por um guerreiro branco. 91. Pág. que. endêmica do Nordeste. seguem para os centros urbanos. Pág. no qual se inscreve a memória do nascimento do Ceará . Cisternas – Espécie de poço. uma favela de 30 mil habitantes na periferia de Fortaleza. 115. Sindicato – Associação fundada para a defesa de interesses comuns a seus participantes. que no tempo das secas é aproveitada na alimentação do gado. Pág. feito de concreto. Projeto Juventude e Participação Social/MOC Ouricuri – Palmeira também conhecida como licuri e coqueiro-cabeçudo. 94. Iaiás – Nome dado às filhas dos senhores de engenho. Cazuza – Cantor e compositor carioca. Pág. conhecido no mundo todo e falecido em 2001. seja pela dedicatória da 1a edição (“A José de Alencar/pai-de-vivos que brilha no vasto campo/do céu” ). respeitado mundialmente. moradoras das casas grandes. junto com o dendezeiro. roceiro. 83. 119. Autogestão – Forma de gerência em que todos os indivíduos atuam como colaboradores de si mesmos. muito apreciada por sua floração vermelho-vivo. Matuto – Aquele que vive no mato.

Curupira – Ente fabuloso do folclore brasileiro que. em alguns trechos. xaxado. Pág. Pág. dono da companhia Ford. Tucupi – Molho tradicional da culinária do Norte brasileiro. o equivalente a uma montanha dez vezes mais alta que o Pão de Açúcar. junto com ele. o Juízo Final será o acontecimento derradeiro do fim deste mundo. Euclides da Cunha – Escritor. 146. Pág. Candeeiro – Utensílio em que se coloca azeite. Forró – Segundo o folclorista Câmara Cascudo. 152. Pág. Além de Os Sertões. os pares são obrigados a passar diante dos músicos. Possui vários usos industriais. semelhante a um grande macaco. Fulora – Como se fala no sertão. Pág. riacho. 121.162 163 Acarajé – Comida típica baiana com camarões e muita pimenta. Rio Tapajós – Afluente da margem direita do rio Amazonas cuja nascente se encontra no Estado do Mato Grosso. . querosene ou gás inflamável para iluminação. 121. Baião de Dois – Prato típico da culinária nordestina. Nessa guerra. habita e protege as matas. os revoltosos contestavam o regime republicano recém-adotado e os desmandos dos coronéis locais. 137. da mesma família do bagre. Paca – Nome comum de um roedor de cor escura. Pág. e pés de burro. Saúde e Alegria Cirrus – Tipo de nuvem formada por cristais de gelo. com enormes unhas viradas para trás. após sucessivas derrotas. Tem os calcanhares voltados para diante e os dedos dos pés para trás. 136. o que significa que vêm de formações geológicas mais antigas do que as águas barrentas do rio Amazonas. ou seja. Catitu – Mamífero não ruminante que apresenta uma faixa de pêlos brancos no pescoço. ribeirão. 133. 135. 139. Pág. Juízo Final – De acordo com algumas denominações cristãs. Ele não tem um leito definido: nos períodos de cheia. a popular sanfona de oito baixos. feito de suco de mandioca fresca. Pág. É o mais longo rio do mundo. liderado por Antonio Conselheiro. Pág. 121. desceu os rios Amazonas e Purus). Pág. com manchas amareladas. com muitos requebrados em face de uma personagem invisível. Pág. Pág. no Rio de Janeiro. Isso incomodou as autoridades e deu origem à Guerra de Canudos. sem etiqueta”. aquecido até tomar a consistência e a cor do mel de cana. Faz seu ninho no chão. Brasil. Rio Arapiuns – Um dos braços do rio Tapajós. 121. Atribui-se a ele o ato de curar doenças e salvar vidas. pendurado nas árvores próximas a rios e lagos. quadrilha. Euclides da Cunha foi enviado ao sertão da Bahia como repórter do jornal O Estado de São Paulo. em que. realizada em festas de família ou populares. sempre foi movido por vários tipos de música nordestina (baião. Suas águas são verdeazuladas. feito de feijão e arroz. Pág. 137. 136. Pág. no Peru. 133. líder espiritual e político do povo de Canudos. sonhavam criar uma nova forma de vida em comum. que de repente param de tocar. sociólogo e engenheiro. bate-chinela ou fobó. Pág. Pág. Pág. jornalista. 139. também conhecido por arrasta-pé. vive em praias arenosas de rios e lagos. Socó – Ave de água. Pág. Pág. com 7. O forrobodó. Igarapé – Canal estreito de água que só dá passagem a canoas ou pequenos barcos. Pág. 135. rojão. Pág. ribeiro. penadas. Pág. Lume – O mesmo que luz. do tamanho de uma garça. Guerra de Canudos – Movimento político-religioso brasileiro que durou de 1896 a 1897. 135. o julgamento de Deus que premiará os justos e condenará os pecadores. Os Sertões – Livro-reportagem escrito por Euclides da Cunha. Seu ninho tem a forma de um cesto. 120. segundo a superstição popular. São nuvens altas e delicadas que lembram pinceladas no céu.200 quilômetros. 135. coco. o nome forró deriva de forrobodó. 133. e deságua no Oceano Atlântico. Carimbó – Dança regional maranhense que se assemelha à capoeira baiana. Nela. clarão. 137. 134. no Brasil central e no Nordeste. 125. Carrega para o Oceano Atlântico 800 milhões de toneladas de terra por ano. Pág. atraindo uma multidão de miseráveis sertanejos que. em lugar de floresce. xote) e animado pela “pé de bode”. coberto por pêlos densos. 121. cozidos juntos numa mesma panela. “divertimento pagodeiro”. com longas folhas. sempre com a preocupação de desvendar a terra e o homem do Brasil. Babaçu – Nome de várias espécies da família das palmeiras. Pág. é um de seus poucos afluentes de águas escuras. 121. Estariam. Pág. O forró é uma festa que foi transformada em gênero musical. Desfeiteira – Brincadeira de salão típica do Amazonas. obra-prima que retrata a Guerra de Canudos. Henry Ford – Empresário. livres dos comandos dos coronéis e do governo. Indicam mudança de tempo. 121. riozinho. Pág. povoado do alto sertão da Bahia. 137. Possui variadas formas. Surubim – Peixe de água doce. Nosso Senhor do Bonfim – Santo de grande devoção do povo baiano. Maçarico – Pequena ave de água. que o tornam invulnerável a balas. Antonio Conselheiro – Personagem da História brasileira. “baile ordinário. líder na indústria automobilística nos Estados Unidos. no Pará. escreveu relatos de viagens que realizou pelo interior do país (entre outras. encontradas na região amazônica. Pág. as margens do rio se alargam em até cem quilômetros de extensão. 133. Fazia sermões e discursos em praça pública. assim. Pág. Mapinguarí – Animal lendário. Pág. sua carne é muito apreciada em algumas regiões do Brasil. Rio Amazonas – Rio sul-americano que nasce na cordilheira dos Andes. contando a história da Guerra de Canudos. 133. os batalhões do exército acabaram por destruir o povoado e dizimar a população.

É Mestre em Investigação e Tecnologias Educativas e Decano da Faculdade de Educação da Universidade Javeriana em Bogotá. Esse seu trabalho com o “Caminhos” foi amplamente reconhecido: o programa ganhou 11 prêmios jornalísticos no Brasil e no exterior. Depois de trabalhar três anos como repórter do jornal Folha de S. O prefácio José Bernardo Toro é colombiano. Neide ingressou na Rede Globo. o Mídia da Paz. Neide apresentou e dirigiu o Programa Caminhos e Parcerias. formada pela Faculdade de Comunicações e Artes da Fundação Armando Álvares Penteado. . o Banco Mundial e alguns governos. onde ficou 16 anos fazendo matérias para o Jornal Nacional. o Vladimir Herzog. Desde os anos 70. entre eles o Líbero Badaró.164 QUEM SOMOS 165 A autora Neide Duarte é jornalista. Participou. Globo Repórter e Fantástico. o Prêmio Ethos e o Grande Prêmio Barbosa Lima Sobrinho. por exemplo. o BID. Neide viajou pelo Brasil para contar a história de projetos sociais. desde os anos 80. Foi Presidente do Conselho Diretivo do Centro Colombiano de Responsabilidade Empresarial e da Confederação Colombiana de ONGs. onde está atualmente. na TV Cultura.Paulo. da Reforma Educativa de Minas Gerais e do Chile. Antes de voltar como repórter especial para a Globo. no governo do Presidente Frei. em São Paulo. Física e Matemática. e. Entre 1998 e 2005. Toro vem formando especialistas em planejamento em toda a América Latina. vem prestando consultoria para o UNICEF. Estudou Filosofia.

br Núcleo Cultural Força Ativa Rua Jardim Tamoio.com. Nordeste do Brasil e região andina da Bolívia.br – www.br – www.br Rua Mourato Coelho. entre outras regiões. sala 1327 Brasília – DF – CEP 70713-000 TEL: 61 3036-9675 portal@protagonismojuvenil.moc. 137 – 4º andar – Vila Buarque São Paulo – SP – CEP 01221-000 TEL: 11 3333-3444 geledes@geledes.bansol. a Fundação Kellogg é hoje uma das maiores financiadoras privadas do mundo.org . Peru e Equador. O aracati é uma brisa que se forma no litoral e passa todos os dias.br – www. sala 1312 Caminho das Árvores – Salvador – BA – CEP 41820-774 TEL: 71 2107-7400 – FAX: 71 2107-7424 ia@institutoalianca. o orçamento anual da instituição para a região é de 24 milhões de dólares.aracati.166 CONTATOS 167 A Aracati A Aracati é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de participação juvenil no Brasil.br – www.org. Mas a inspiração para o nome da organização vem do Nordeste.br Saúde e Alegria Travessa Dom Amando.br Projeto Juventude e Participação Social / MOC Rua Pontal. nº 61. térreo. 315 – apt. 211 apt.org. um aracati de mobilização social. Um aracati que.Atualmente. atrás do frescor trazido pelo vento. Centro Comercial – Alphaville CEP 06454-000 – Barueri/SP – Brasil wkkfbr@wkkf.com Geledés Rua Santa Isabel. Cruzeiro Feira de Santana/BA – CEP 44017-170 TEL: 75 3221-1393 – FAX: 75 3221-1604 moc@moc. 44B São Paulo – SP – CEP 08255-010 TEL: 11 65158223 – 94024447 nucleoforcativa@ig. As áreas onde há projetos apoiados pela Fundação Kellogg são: Sul do México e América Central (incluindo Haiti e República Dominicana. com doações nos Estados Unidos. A estratégia de trabalho é financiar conjuntos de projetos que envolvam ONGs. geralmente nos fins de tarde. 460 – Pinheiros CEP 05417-001 – São Paulo/SP – Brasil Tel: 11 30311133 – Fax: 11 38198593 contato@aracati.geledes. Em suma.org.saudeealegria.org.br www.br Aliança com o Adolescente Rua Frederico Simões. por cidades e vilas de clima muito quente e seco no interior do Ceará. Torre Norte. a Aracati vem desenvolvendo projetos de comunicação (como este livro) e de educação. Escola de Administração.e-jovem. com o objetivo de influenciar políticas públicas direcionadas à juventude e quebrar o ciclo de reprodução da pobreza. Bloco A.com/athens/cyprus/3465/ Grupo Interagir SCN Quadra 5.br – www. Desde então. Desde 2001.br – www.org. governos locais e sociedade civil (empresas. 31.com – www. sala 4 Canela – Salvador – BA – CEP 40110-100 TEL: 71 3263-7369 bansol@ufba. Reitor Miguel Calmon. Quando o aracati passa as pessoas saem de suas casas e encontram-se nas ruas.br Bansol Av. Sua missão é ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas. s/n. assim como a brisa que refresca o interior do Nordeste.org.geocities.wkkf-lac. 697 Santarém – PA – CEP 68005-420 TEL: 93 3523 1083/3522 2161 – FAX: 93 3522-5144 psa@saudeealegria. comércio.org. Grupo E-Jovem Rua Coronel Quirino.org.org. A Fundação Kellogg Criada nos Estados Unidos pelo pioneiro da indústria de cereais Will Keith Kellogg.br – www. de suas casas. Edifício Brasília Shopping.org.ufba. através da aplicação prática de conhecimentos e recursos para melhorar a qualidade de vida desta e das futuras gerações. A sede da Aracati fica em São Paulo.protagonismojuvenil. é capaz de tirar as pessoas. aproximadamente.org. A crença na capacidade dos brasileiros de construir juntos um país melhor para todos fez surgir um outro aracati. 153. que envolveu mais de 300 jovens em escolas de ensino médio da cidade de Santos e foi reconhecida pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) como uma das quatro melhores práticas de voluntariado juvenil da América Latina e Caribe em 2002.América Latina e Caribe. comunidade em geral). A América Latina entrou na programação da Fundação Kellogg no início da década de 1940. em especial os jovens.org – www.br Escritório Regional da América Latina e Caribe Alameda Rio Negro. Sul da África. no Caribe). conj.institutoalianca. como a Gincana da Cidadania. Um aracati que é capaz de gerar movimentos de participação. mais de 2 mil projetos receberam apoio na maioria dos países latino-americanos e em alguns países do Caribe.org. 55 Campinas – SP – CEP 13025-000 TEL: 19 9136-1950 grupo@e-jovem. 1084.

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