Frutos do Brasil

Histórias de Mobilização Juvenil

neide duarte
p r e fá c i o : J o s é B e r n a r d o To r o

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Histórias de Mobilização Juvenil

neide duarte

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AGRADECIMENTOS

Frutos do Brasil
Histórias de Mobilização Juvenil

Muito obrigado!
A todos os projetos que inscreveram suas histórias; Adriana de Carvalho; Alcides Almeida (TV Cultura SP); Alcino (marinheiro); Alexandre Silva (assessor parlamentar); Andrés Thompson; Antonio Carlos Martinelli; Ashoka Empreendedores Sociais; Assunção (pela hospedagem); Báu (motorista); Bernardo Toro; Carla Corrochano; Célia Schlithler; Celso (Talent); Claire Fallender; Clarice (Estúdio Silvia Ribeiro); Cláudio Vignatti (Deputado Federal); Couto (motorista); Cristina de Miranda Costa; Daniela de Melo; Dulce Critelli; Eduardo Santos; Eliana (cozinheira); Eliane Monteiro (agente de viagem); Emilia Dulce Florentino de Faria; Fernanda Papa; Fernando Moraes; Flávia Simões Nunes Yosida; Flávio Motonaga; Francisco Tancredi; Gilberto Bessa (TV Cultura do Pará); Gondim (TV Cultura do Pará); Ilana Cunha; Irineu Ferreira; Jefferson Sooma; Jéssica Martineli (TV Cultura do Pará); Jonah Wittkamper; José Antonio Moroni; Julio Ribeiro; Kato; Kodi; Lis Hirano Wittkamper; Lívia De Tommasi; Marcelo Cavalcanti; Marcílio Brandão; Marcos e toda equipe da Pousada Terra Viva; Marcos Cartum; Marcus Nakagawa; Maria da Conceição Amaral da Silva; Maria Emília Celestino; Maria Rosa Duarte de Oliveira; May Hampshire; Nicole (Estúdio Silvia Ribeiro); Nildo (capitão do barco); Nurimar Falci; Otaviano De Fiore; Patrícia M. Souza; Paulo Marcelo (Instituto Elo Amigo); Pedro (transporte); Pedro Dantas (Câmara dos Deputados); Péricles (motorista); Rabelo (TV Cultura do Pará); Reinaldo Bulgarelli; Renata Borges; Rodrigo Abel; Roseni Sena; Sesc-SP; Silvia Ribeiro; Tamine Maklouf Carvalho; Tatiana Holler;Tiana Lins;Valdir Souza (TV Cultura SP);Vinícius Gorgulho Braz e Willian Naked.

Texto (Autor): Neide Duarte Projeto Gráfico: Silvia Ribeiro e Nicole Boehringer Assistente de Design: Clarice Uba Editoração Eletrônica: Estúdio Silvia Ribeiro Coordenação Geral do Projeto: Antonio Lino Equipe do Projeto: Carla Cabrera, Denise Delfino, Juliana Pierotti, Luciana Martinelli e Paulo Gonçalves Decupagens e transcrições: Maria da Conceição Amaral da Silva, Maria Emília Celestino e Tatiana Holler Produção Gráfica: Celso Aparecido Costa e José Carlos Araujo Pré-impressão e impressão: Stilgraf Fotografias: Antonio Lino Ilustrações originais: Breno Tamura Preparação de texto: José Muniz Jr. Revisão de textos: Renato Potenza e Vivian Miwa Matsushita

Copyleft © 2006.Todo o conteúdo deste livro pode ser livremente utilizado sem finalidade comercial, desde que o crédito seja dado à Aracati - Agência de Mobilização Social

www.aracati.org.br este livro foi feito em papel reciclado

Um agradecimento especial para:
Antonio Lino Pinto, Fabiana Kuriki e João da Silva Prado..

Juventude: atores da construção de nossa história
Os desafios de romper o ciclo da pobreza, exclusão e desigualdade social são hoje temas que têm repercussão entre as mais diferentes gerações na sociedade. Alguns movimentos, visíveis ou invisíveis, apontam possibilidades de ação e mobilização de atores. Embora muitas vezes desconhecidas pelo público em geral, essas ações e mobilizações vêm construindo desenvolvimento, sentido de pertencimento e fortalecimento de identidades. Este livro vem ao encontro desse movimento, dando luz, cara, cor e imagem aos mais diversos processos sociais desencadeados pelas gerações mais jovens. São processos que reúnem diferentes movimentos na busca de alternativas e formas de expressão mais autônomas, formas de participação mais democráticas e orgânicas; demonstram o surgimento e o crescimento dos diferentes movimentos juvenis com agendas sociais das mais diversas, que fortalecem a identidade e o papel dos jovens na sociedade como provocadores, promotores e atores de processos de mudança, de si mesmos e dos organismos mais diversos da sociedade em geral. A mobilização dos jovens tem originado forças convergentes no país, que sugerem uma época mais madura, de abordagens mais progressistas e colaborativas de trabalho pelo desenvolvimento. Neste livro, visitamos essas forças que impulsionam o agir do jovem nos quatro cantos do país. As experiências relatadas demonstram que as ações com jovens não dependem apenas de processos formativos ou proibitivos, mas sobretudo de ações emancipatórias e legítimas de intervenção, onde a originalidade e a contemporaneidade fazem parte da essência do ser jovem. A juventude mobilizadora, neste livro, torna-se visível. Os jovens tornam-se atores da construção de nossa história, impulsionadores da luta contra a pobreza e a desigualdade social. E ensinam ao país que a juventude brasileira é, sim, atuante. Neste livro, visitaremos o que fazem os jovens do nosso Brasil.

Lis Hirano Wittkamper Assistente de programação da Fundação Kellogg na América Latina e Caribe

Cerca de 74% deles acham que há mais coisas boas do que ruins em ser jovem. Mas é interessante notar que. de jovens reais. eles podem estar em casa. os jovens já sabem que é melhor ficar em casa quando os carros passam em comboio. dormindo. Essas histórias reais. Quando acontece algum crime mais sério em Brasília. Um dos países mais desiguais do planeta Terra. todos eles de carne e osso.. Os personagens principais são jovens. Alguns dos nossos jovens personagens lá do semi-árido baiano trabalham com o sisal desde crianças. este também é um livro sobre injustiças.. uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Cidadania. A . O sisal sai de Conceição do Coité. com a sirene ligada. embora vivam na pele esse tipo de injustiça. Na cidade-satélite.. o atravessador fica com 85% do valor que é cobrado do consumidor. Veja só que paradoxo: os jovens não têm trabalho digno. O “Perfil da Juventude Brasileira”. mas têm um jeito positivo de olhar para si mesmos e para a própria vida. um livro sobre jovens do Brasil. muitos jovens ainda estão otimistas. talvez até folheando essas páginas e lendo sua própria história. O acesso à universidade pública não é fácil pra quem sempre estudou em escola pública. no trabalho. a polícia corre pra Ceilândia. Sendo desse jeito. Enquanto eles ganham uma mixaria pelo que produzem.. Outros não têm dinheiro para tirar cópias de textos.APRESENTAÇÃO s histórias deste livro são reais. mas o dinheiro da exportação não volta pra lá. não têm segurança. Alguns jovens vão de carro para a faculdade. não têm acesso à educação pública de qualidade. vendo tevê. revelou que 92% dos jovens do país acham que sua vida vai melhorar nos próximos anos. acontecem num país de verdade: o Brasil. Outros nem na faculdade estão porque não podem pagar a mensalidade. Nesse momento.

Sem pressão social. Juntas. é igual à de toda a população da Argentina. Na democracia devem coexistir pelo menos duas coisas: a dignidade e a participação. Mas também alguns projetos de adultos: de ONGs.org. Mas os adultos. também são estudantes universitários. a taxa de mortalidade de jovens por homicídios no Brasil era a terceira maior do mundo. As oito histórias foram escolhidas como um grupo. O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) descobriu que mais da metade dos latino-americanos (54. ainda tem gente disposta a arregaçar as mangas para melhorar a própria vida e a vida das outras pessoas. fez uma consulta em todo o Brasil à procura de histórias de mobilização juvenil. a situação já estava indo de mal a pior. Cerca de 17 milhões não estudam. E aí alguns podem perguntar: pra que falar de participação num país em que uma parcela significativa dos jovens vive tantos problemas? Participação não seria um luxo perto de todas as outras necessidades. Esses são dados do censo do IBGE. Ficamos atrás apenas da Colômbia e de Porto Rico. Participação e desenvolvimento devem ser vistos.aracati. elas retratam. Geledés (SP). Eles estão dentro da faculdade de administração de empresas levantando a bandeira da economia solidária. um amplo programa de estudos e debates sobre os jovens brasileiros. escolhemos oito: Aliança com o Adolescente (PE. Este é também um livro sobre participação social. Quase a metade dos desempregados do país (3. tão mais importantes e urgentes? Eis o ponto. Mas… e os jovens que não se encaixam em nenhuma dessas categorias? Onde estão? Esses jovens estão numa fronteira: a fronteira invisível entre a infância e a vida adulta. que foi às ruas na época da ditadura. associando a imagem da juventude aos problemas e não às soluções. estão seguindo um caminho novo: eles lutam pelo acesso. permanência e sucesso dos negros no ensino superior. Desde 2002. da cidade de São Paulo. Desses muitos brasileiros que têm entre 15 e 24 anos. a maioria pensa diferente. a Aracati vem desenvolvendo projetos de incentivo à participação de jovens. Não dá pra querer um sem o outro. Fora das faculdades também tem muita coisa acontecendo. O preço que se paga por estar nessa fronteira é caro: o abandono. uma iniciativa do Instituto Cidadania que promoveu. Projeto Juventude e Participação Social/MOC (BA) e Saúde e Alegria (PA). O problema é que se as pessoas não reivindicarem seus direitos. Não faz sentido uma sociedade altamente participativa onde todos vivem em condições precárias. Os jovens que participam dos projetos da ONG Geledés. Mas façamos como a juventude. De todas as histórias que recebemos.br).Vivem hoje no país cerca de 34 milhões de jovens. Os tempos mudaram. a rica diversidade de tipos e formas de participação juvenil existentes hoje no Brasil. em vários estados. os jovens que matam ou morrem freqüentemente viram manchete de jornal. comprova a gravidade da situação: em 2002. Uma sem a outra não faz sentido. escolas. em parceria com a Fundação Kellogg. de 2000. um resumo de todos os 132 relatos recebidos está no site da Aracati: www. Jaqueline E de todos os tipos: muitas iniciativas de grupos e organizações de jovens. Na verdade.Outro dado importante: 84% dos jovens acreditam que a juventude pode mudar o mundo. estereótipo da alienação e do consumismo. ainda que parcialmente. costumam ver muito mais o lado negativo. Mas não é verdade. e as histórias deste livro estão aí para comprovar. sempre seremos livres e iguais apenas nas páginas da Constituição. como lados da mesma moeda. “As questões atinentes aos jovens com mais de 18 anos permanecem desconsideradas como foco de ação pública e social até meados dos anos 90.7%) aceitaria a volta da ditadura se isso resolvesse os problemas econômicos. brilham todos os dias nas telas de televisão. Acontece que nem todo mundo pensa assim. O que acontece é que os jovens não estão mais participando do mesmo jeito que os jovens daquela época participavam. Os jovens das propagandas. mais da metade (19 milhões) vive em famílias com renda de menos de um salário mínimo por mês. Mas eles não participam daquele tipo de movimento estudantil mais conhecido.” A conclusão é do Projeto Juventude. E isso é óbvio. Muita gente ainda insiste em definir a juventude por negação: os jovens não são mais crianças e ainda não são adultos. Um outro dado. Recebemos 132. Dá pra entender: a necessidade em geral fala mais alto e muita gente prefere ter dinheiro no bolso e comida na mesa. No período da ditadura. Mas é bom que se diga: não é só das injustiças vividas pelos jovens brasileiros que se trata aqui. lá em Salvador. em vez de participar. entre agosto de 2003 e maio de 2004. Margleuda. Mas como os “bansolinos”. Esperávamos receber uns 30 relatos. Essas iniciativas não são necessariamente melhores do que as 124 que não foram publicadas. Grupo Interagir (DF).7 milhões) é jovem. da UNESCO. Quando os olhos do país se voltaram para a juventude. Para encontrar alguns desses jovens.Vamos ver o lado positivo: apesar de ser a minoria. ou uma ditadura em que todos vivem bem. em São Paulo. Essa quantidade. costuma dizer que “a participação é o modo de vida da democracia”. Na periferia de São Paulo. CE e BA). portanto. em geral. para se ter uma idéia. E muitos desses brasileiros têm entre 15 e 24 anos. Neide. o pessoal do Núcleo Cultural Força Ativa mobilizou os . nos intervalos comerciais. Mas hoje o cenário é outro. Núcleo Cultural Força Ativa (SP). O site do projeto recebeu mais de 2 mil visitas em 30 dias. O Bernardo Toro. Bansol (BA). O pessoal da Bansol está na universidade. os jovens que participavam estavam principalmente nas classes médias urbanas e se organizavam através do movimento estudantil. No outro extremo. (Aliás. que gentilmente escreveu o prefácio deste livro. governos e empresas que incentivam a participação juvenil. Muita gente tem saudade da geração de jovens dos anos 60 e 70 e costuma dizer que a juventude de hoje não é engajada e politizada como a de antigamente. a ONG Aracati. Grupo E-Jovem (Nacional). E mesmo sabendo da existência de diversas iniciativas juvenis país afora. ninguém vai fazer isso por elas. o resultado da consulta foi surpreendente.

raças. projeto da ONG Saúde e Alegria. 29 anos são costurados pela sua poesia jornalística. Este livro nasceu para ser uma pequena comprovação dessa diversidade. A Carlinha veio de mais perto: ela mora em Brasília mesmo. Cada um trouxe suas bandeiras de luta e suas identidades: “nós” negros. Neide deu bastante espaço para a fala literal dos próprios jovens. Há algumas décadas. Fica aqui o convite: leia o livro e veja o filme. A Camila é negra. vários estão desistindo de vir para as capitais porque acreditam no desenvolvimento local de suas comunidades. “nós” gays. Mas em geral está sempre presente: o “nós” jovens. Como você vai perceber. onde está trabalhando atualmente. Entre 26 e 31 de março de 2005. Diversas classes sociais. fundador do Grupo E-Jovem. Além do livro. Alguns com cultura. E nesse ponto. sabe lidar com as pessoas. “nós” da periferia.. no plural. a história e a cultura dos lugares que visitamos. em meio a tantas identidades diferentes. Por isso a escolha de um conjunto bem diverso de experiências. estrada asfaltada. do Coco. Contando histórias de iniciativas do terceiro setor. “nós” da floresta. às vezes vem depois. Os jovens da Rede Mocoronga de Comunicação Popular. a culinária. Quem também não quer abandonar a terra onde nasceu são os jovens do Projeto Juventude e Participação Social. estão fazendo programas de rádio em comunidades ribeirinhas do Pará. Ao final do livro. descobrindo novos e importantes caminhos de participação social. E estão num lugar privilegiado para isso: Brasília. criamos uma espécie de glossário. a flora. outros mexendo com educação. dos Bandeirantes. Neide Duarte sabe lidar como poucos com as imagens e as palavras. A Raquel mora na floresta. Agora. porque não existe uma juventude brasileira. ela conheceu bem o itinerário poeirento e esburacado que leva aos projetos sociais. da Gameleira. O resultado foi considerado “excelente” por 80% dos participantes. Os textos também estão recheados de referências sobre a geografia. Os textos em geral estão recheados de depoimentos que Washington. Este é um livro de andanças. aconteceu um marco na produção deste livro: quatro jovens de cada um dos projetos se encontraram em Brasília. no meio da floresta. Antes que outras pessoas os conhecessem através do livro. Estrada do Algodão. Ou pelo seu jornalismo poético. os jovens de lá podem se comunicar com os jovens gays e as jovens lésbicas que trocam idéias e informações por e-mail e pelo site do Grupo E-Jovem. de fato. o clima. A Clara perdeu umas aulas na faculdade de administração por causa do encontro. o material coletado durante essas visitas deu origem a um videodocumentário sobre mobilização juvenil no Brasil. pensar e agir. . juventude da floresta.“Eu realmente duvidava que um movimento juvenil unificado fosse possível pela complexidade de todas as juventudes. outros com política. admite Deco Ribeiro. Antes de voltar à Rede Globo. Montaram também um telecentro com acesso à Internet. Os jovens de hoje receberam essa herança e estão indo adiante: estão desbravando a democracia. era importante que eles soubessem uns dos outros. seria difícil imaginar que é possível achar algo em comum. prevaleceu o sentimento de que é possível construir a unidade na diversidade. como o leitor preferir. Os jovens da Aliança estão abrindo seus próprios negócios e se envolvendo com projetos na área de cultura. Mas acima de tudo. juventude rural.moradores do bairro e montou uma biblioteca comunitária. Escolhidas as oito histórias que seriam publicadas. Mas o interessante foi perceber que ainda há um outro “nós”. política.Tem gente fazendo projeto na área de saúde. Eles estão se organizando em municípios do semi-árido baiano para garantir que haja políticas públicas para a juventude da zona rural. O mais certo é falar em juventudes brasileiras — assim. Jeitos diferentes de ser. E. mas esse encontro me fez ver que eu estava errado”. Neide dirigiu e apresentou o Programa “Caminhos e Parcerias” na TV Cultura. que às vezes vem antes. A Vivi e o Josivaldo vieram da zona rural. E são muitos os caminhos.. A idéia do encontro era promover um intercâmbio entre eles. acertamos em cheio ao escolher a jornalista-viajante Neide Duarte para escrever as histórias. No final. A seleção das histórias e as viagens para colher imagens e depoimentos aconteceram entre outubro de 2004 e fevereiro de 2005. Os integrantes do Interagir também estão envolvidos nessa discussão sobre políticas públicas. A Fernandinha canta rap. os jovens foram importantes para que a ditadura desse lugar à democracia. Foram realizadas visitas a cada uma das iniciativas. em outros menos. Ela deixou saudades em muitos dos lugares que visitamos. Vários integrantes do grupo são do movimento hip-hop. Uns trabalham com economia. para coletar imagens e depoimentos. “nós” sertanejos. Em alguns casos é mais forte. juventude negra. O Rodolfo é gay. a fauna. Juventude urbana. barco e avião. orientações sexuais. para que você possa saber um pouco mais sobre essas referências. começaram as viagens. Estrada de terra. outros com comunicação. agricultura.

. de vez em quando rolam uns “conflitos ideológicos” com o pai. Mas é preciso reconhecer que estão acontecendo avanços. Em 1835. Mas aqueles que tiveram cumpriram um papel muito significativo. Um país que. tem um imenso patrimônio: milhões de jovens que ainda não perderam a esperança. o interessante é ver que. a participação juvenil existe sim. num país de verdade. Antonio Lino Co-fundador da Aracati . Aliás.Agência de Mobilização Social . Atualmente. Falando assim parece muito simples e lógico. jovens ribeirinhos estão fazendo programas de rádio e se organizando politicamente no Pará. Apesar de estarem conquistando cada vez mais espaço. E nada disso caiu do céu. indígena e camponês do período imperial. o Ajuntamento de Pretos em 1815. a assumir sua homossexualidade. Muitas vezes eles mexem com tradições. pai da Ana Nere.Você já procurou saber o que os jovens estão aprontando de bom na sua cidade. Agora ela percebe que lá também é lugar de negros. Somando os que estão fazendo com os que querem fazer. 0. não usa mais agrotóxicos na plantação desde que a filha levou pra casa uma alternativa mais ecológica. o Padre Cícero liderou o movimento milenarista em 1914.E como jovens. esse é um debate que está ganhando cada vez mais força: algumas prefeituras. A história se repete. esse mesmo estado foi palco do movimento da Cabanagem. Se hoje a juventude vem ganhando espaço na agenda política do país. Os jovens de Monte Santo. fica mais difícil. no seu livro Culturas da Rebeldia: a Juventude em Questão. A pesquisa também revelou que os personagens deste livro não estão sozinhos: cerca de 680 mil jovens (ou seja. eles aproveitaram a estada em Brasília para visitar o Congresso Nacional e conversar com políticos sobre o que o governo está fazendo pela juventude do país. os pais têm a oportunidade de conhecer melhor o que os filhos pensam e descobrir aos poucos que suas idéias e ações têm fundamento. 2% dos brasileiros entre 15 e 24 anos) desenvolvem algum tipo de ação benéfica para a sua comunidade. estamos falando de uma turma de cerca de 7 milhões de pessoas. além de se conhecer. não precisa imaginar o que os jovens podem fazer. Já pensou se de Norte a Sul esses jovens fossem às ruas para construir um país melhor e mais justo? Não faria muita diferença? Pra se ter uma idéia. que deu origem ao primeiro e único governo popular. Nas próximas páginas. O cenário ainda está longe do ideal. uma das personagens deste livro. No Ceará. Esse espaço foi criado por uma mãe. Para evitar retrocessos e conseguir novos avanços. terra do Germano e do pessoal da Aliança. às vezes. Este livro pretende ser um facho de luz sobre essa juventude. nem sempre são bem-vindos. começam dentro de casa.. em 1968 o Brasil tinha mais ou menos 270 mil universitários. o “Perfil da Juventude Brasileira”. organizações e movimentos juvenis estão fazendo pressão e cobrando seus direitos. os jovens engajados desse país continuam na escuridão. a terra da Cícera e suas bonecas. Por outro lado. E quando os jovens começam a querer mudar o jeito como os adultos fazem as coisas. Esses jovens são pioneiros. seja religioso. a fórmula é a mesma: mais participação juvenil. Dentro de casa. segundo Paulo Sérgio do Carmo. com personagens reais. com costumes que vêm de gerações. e aos poucos as famílias aprendem a acolher e valorizar as novidades que os jovens trazem pra casa. Do mesmo modo. Porque geralmente o que acontece é que os brasileiros que não se enquadram naquele mito do povo pacífico e passivo acabam sendo condenados à invisibilidade. governos estaduais e o próprio governo federal começam a perceber a importância das políticas públicas para os jovens. 15% dos jovens brasileiros participam de algum grupo. essas resistências vão se desfazendo. A família da Margleuda. E tem um garoto do Grupo E-Jovem que não fala com o pai há um ano. Um país cheio de injustiças e desigualdades.Vivemos numa sociedade adultocêntrica. outra de nossas personagens. Os problemas que afetam a juventude são muitos. mas no dia-a-dia é diferente. em geral. a Revolução Praieira em 1847. As revoltas e lutas populares quase não aparecem nos livros de história. Segundo aquela mesma pesquisa do Instituto Cidadania que citamos anteriormente. E isso não costuma ser facilmente aceito. Mas fora de casa. Ainda mais sendo adolescente. Eles moram na mesma casa. A participação juvenil não costuma ser reconhecida e valorizada. você vai conhecer alguns deles. Na casa da Luiza. Na verdade. Eles estão longe dos holofotes da mídia e da opinião pública. é porque alguns grupos. que não acredita muito nesse papo de economia solidária. Muitas vezes são os primeiros de suas famílias a se envolver com projetos sociais. mas o pai não aceita ter um filho gay. no seu bairro? Provavelmente você vai encontrar muitas histórias parecidas com as que estão escritas aqui neste livro. As resistências. a concluir o ensino médio. Nem todos esses universitários tiveram alguma participação nos movimentos contra a ditadura. Conheça. apesar de todos os problemas. mas que agora começa a descruzar os braços para pagar essa dívida. e os projetos e programas governamentais ainda são insuficientes. lembram até hoje do Conselheiro. Mas ainda que não apareça e que digam o contrário. Imagine então o que 680 mil podem fazer. Histórias reais.Até porque pouca gente fica sabendo o que os jovens estão fazendo. A mãe da Élida já entende melhor porque a filha estudou tanto para entrar na faculdade. cultural ou esportivo. no começo não aceitava que mulher criasse peixe. E dentro do site do E-Jovem tem até uma coluna direcionada aos pais dos adolescentes gays e lésbicas que não sabem como lidar com a sexualidade de seus filhos e filhas. O Seu Antonio. Um país que durante muito tempo esqueceu sua juventude. um sem número de movimentos: a Conspiração dos Suassunas em 1801. na Bahia.3% de toda a população daquela época.Vá atrás. as ações políticas e sociais dos jovens de hoje não estão nas páginas dos jornais. Em Pernambuco.

aprender a construir a autonomia pessoal e social. criar e fortalecer as organizações como condição para exercer a cidadania (ser ator social).PREFÁCIO Os jovens e a governabilidade A liberdade não é possível a não ser na ordem. mas uma construção que se gera e se produz a partir da sociedade civil. para a dignidade de todos. Se definimos governabilidade como a capacidade de uma sociedade de dar ordem a si própria. mas a única ordem que produz liberdade é a que eu mesmo construo. em cooperação com os outros. A política A possibilidade ou dificuldade que uma sociedade ou comunidade tem para avançar depende de sua própria capacidade para criar e sustentar . e definir um norte ético como fundamento para fazer da sociedade um espaço de humanização contínua. U m dos maiores desafios da América Latina é a governabilidade. A governabilidade supõe um conjunto de novos entendimentos e aprendizados sociais: recuperar o valor da política. é fácil entender que este não é um problema de governantes.

Quando uma pessoa pertence a muitas organizações de uma forma ativa. um só interesse comum. capacidade de trabalhar para diminuir e evitar o sofrimento dos outros. Uma sociedade ou uma comunidade (desde a família até o Estado) avança em direção aos seus objetivos quando pode criar uma convergência de objetivos. não tem influência na sociedade. dos outros e do planeta. a associação e o saber associar-se compõem a ciência-mãe de uma sociedade. a partir da multiplicidade de interesses de cada um de seus membros. a tudo o que constitui uma sociedade. Essas são também as características de uma organização e de um país autônomo. série de TV sobre a conquista do espaço. a ciência. a tecnologia e o poder podem se virar contra nós e nos destruir. e que seu sucesso depende de que todos possam agir e ser como são. social e política.interesses coletivos. A autonomia é o resultado de três dimensões interiores: o autoconhecimento. A ética. onde os jovens vivem e evoluem como cidadãos autônomos. isto é. através da conversa. Uma pessoa sozinha. dos políticos e dos líderes provém dessa tarefa. Ao ler o conjunto de histórias relatadas nesse livro. A autonomia A formação política requer também a formação para a autonomia. José Bernardo Toro A. As narrações. a combinar interesses para obter melhores conquistas e resultados. a formação para o conhecimento e para a observação interior. do debate e da confrontação pacífica de interesses. por isso.Aprender a argumentar e se deixar argumentar. espiritual. capacidade de perseguir objetivos e metas que beneficiem a outros. se autodestruíram. uma pessoa que em cooperação com outras pode modificar a ordem social em que vive. ao trabalho. É preciso que pessoas se dediquem a construir e conseguir essas convergências de vontades e desejos por um propósito externo e de benefício coletivo. A ética dos direitos humanos nos orienta sobre como usar a força do poder. sem nenhuma organização. e outros podem facilmente ignorar ou violar seus direitos. São características de uma pessoa autônoma: o conhecimento. articulados no propósito coletivo. tornar possível a universalização dos direitos humanos. de poder formular e implementar o próprio projeto de vida. o diretor Carl Sagan propõe a seguinte hipótese: talvez houve em outros planetas civilizações inteligentes como a nossa. é a riqueza mais importante de uma sociedade. os jovens precisam viver como tais na sociedade a que pertencem. a solidariedade. não é uma etapa da vida – é a própria vida. A organização Ser cidadão significa ser ator social. Sem esse referencial. depende sim do número e do tipo de organizações às quais a pessoa esteja vinculada. Como dizia Tocqueville. como ser criança ou velho. Também o são: saber cuidar de si mesmo. é preciso saber se organizar ou pertencer a organizações que respondam a nossos objetivos e interesses. Para ser ator social.Aprender a desenvolver essas três dimensões é o novo paradigma da educação emocional. Ser jovem. a ceder e a receber cessões. Sabemos que não é possível um projeto de jovens sem adultos. O nível de influência de uma pessoa em uma sociedade não depende do dinheiro ou dos antepassados na família. Os jovens e a governabilidade As novas (e antiqüíssimas) visões da sociedade demandam novas formas e espaços de formação e de vida para os jovens. isto é. E se é a própria vida. todo o resto depende disso.Tais direitos são o norte ético das novas sociedades. dão sentido às instituições. organizados e com um projeto ético que fundamenta sua atuação presente e futura. É sob essa perspectiva que convido o leitor a percorrer estas páginas. e saber fazer alianças e transações do tipo ganhar – ganhar. da ciência e da tecnologia. a valorização e a ponderação da história pessoal e social de cada um. entendida como a capacidade de orientar e decidir sobre a própria vida de acordo com um projeto ético. . O projeto mais importante da sociedade é a dignidade. entendida como a arte de escolher o que convém à dignidade humana. ao investimento. à política. A ética Em Cosmos. mas que tiveram a desgraça de a ciência e a tecnologia terem chegado antes da ética e. descrições e experiências apresentadas aqui nos ajudam a visualizar novos espaços de socialização e de aprendizagem. a compaixão.A formação política consiste exatamente nisso: aprender a criar propósitos coletivos. podem-se perceber a pertinência e a importância da atuação dos jovens. A importância da política. saber dar normas éticas a si mesmo. suas idéias e ações repercutem em todo o âmbito dessas organizações. a auto-estima e a auto-regulação. quando consegue construir.

SAÚDE E ALEGRIA_131 ALIANÇA COM O ADOLESCENTE_75 PROJETO JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL_113 GRUPO INTERAGIR_63 BANSOL_99 GELEDÉS_35 GRUPO E-JOVEM_23 NÚCLEO CULTURAL FORÇA ATIVA_47 .

22 GRUPO E-JOVEM .

quase vermelho. irremediáveis. sem som humano que as confirme: como são nossos dias. fica difícil descrever como eles são. talvez por isso não façam sentido: intraduzíveis. Palavras para serem ditas por pessoas sem voz. A sombra deforma o retrato. de noite. uma cicatriz feita de letras. as montanhas. dez anos de idade eu me sentia reprimido pelos colegas da minha classe. como um desenho. a terra inteira até se formarem em algum outro lugar. no centro) — Desde os nove. foi como se a Gestapo tivesse passado a morar comigo. num instante etéreo em que a mensagem alcança seu destinatário. numa paisagem embaçada. No telão aparecem as palavras que escrevem no computador. (O primeiro à direita) — Era como se tivesse uma casca em torno de mim. também sem corpo. Uma letra passa perdida. Há cinco anos que eu contei para os meus pais. As pessoas viam a casca. Palavras para serem ditas de costas. Palavras para serem escritas por pessoas sem corpo. IMAGEM: três rapazes projetam sua sombra num telão na sala de aula. só aumentava minha timidez. o céu. neste século. É sol de fim de tarde.24 25 E se eles soubessem? E-MAIL: As palavras escritas passam numa velocidade espantosa. e de uma forma invisível atravessarem o ar. desde então.A natureza não tem uma regra específica. Com o tempo as coisas . Sempre fui tímido e o fato de ser como sou sempre foi motivo de chacota. mas não a minha verdadeira natureza. como vivemos a nossa humanidade. uma tatuagem. (O segundo. para olhares sem nitidez. a formação de uma palavra em construção passa.

faço Arquitetura.’ Isso foi a minha mãe. em algum momento. Ser gay é uma coisa muito por aí também.Você nasceu de olho castanho. A palavra nunca dita. entra naquele personagem e vive aquele personagem. quase na passagem. CENA: Bento Quirino está sentado numa cadeira bem no meio da praça. as portas se fechem para mim. foi exatamente aqui e tem um valor político pra gente muito interessante. um instante e o olho não tem certeza se viu. onde a cidade foi fundada. Pelo pouco que a gente consegue ver.” E-MAIL: Mesmo a palavra não dita revela a sua identidade. Não dá pra você só ficar em silêncio sobre tudo que você faz enquanto gay. arrastada assim. até o espaço em que. o rapaz deve ter entre 18 e 20 anos. risos. (O terceiro. Ele cria um personagem. é daquele filho-personagem que você criou. você tem olho castanho a vida inteira. IMAGEM: garota desfocada entre luzes. duas bandeiras com muitas cores. os que passam atrás são uma mancha. que alguém tinha colocado aquilo na minha cabeça e que eles podiam tirar com uma oração. SOM: “Quando eu era pequena sofria mais ainda. Uma mulher e outra mulher. Não quero que minha mãe e meu pai me vejam falando sobre isso. Onde os bares agora acendem suas luzes. na calçada da praça Bento Quirino. Borrados. CENA: Na primeira mesa. desfocados. Se eu estou na mesa ele não senta. entre eles. manchada. Na escola aprendi a me posicionar e não inventar mais. que você sente. a gente podia ter feito uma coisa pra isso passar. mas não queria admitir para mim. um barzinho de muro alto e vidro fumê. acorda de olho castanho. finalmente. espera o chope e o sanduíche. SOM: vozerio no bar. Eu continuo a viver na minha casa. um casal se beija. Maria Tudor. Meus superiores vivem fazendo piadinhas a respeito disso.Tenho grandes chances de subir na carreira dentro da empresa em que trabalho. Eles iam achar que era provocação. não vão me deixar continuar a faculdade e lá eu vou sofrer a maior repressão. logo era apontado e discriminado na frente de todos. fica. O meu pai disse que era pra eu pegar as minhas coisas e sumir de casa.‘Se você tivesse contado desde pequeno. Il Guarany. Ele não se senta à mesa comigo. ficava com receio. Fui sendo excluído pouco a pouco por todos no colégio. É branco. marco zero de Campinas. por preconceito. como se estivesse atrás de uma vidraça opaca. embaçada. (Ele) — Meu pai simplesmente chegou pra mim e falou que não ia admitir que o filho dele virasse mulher. A gente tá aqui na rua. eu sabia. a nuca. velocidade . perfil. sendo gay só ali escondido. Deco conseguiu ser atendido e agora.Você dorme de olho castanho. entendeu? É uma característica sua. Fosca.Aí. cabelos claros. Noite de luzes.Tenho 19 anos. que você vê. não tá num lugar. parte do cabelo. é o jeito como você vê o mundo. teria que viver a vida enjaulado. (Ela) — Eu sempre tive desejo por mulher.Você tem que criar uma coisa pra colocar naquele lugar. ali. invisíveis. a sua mãe está toda orgulhosa do filho. um pedacinho da orelha. num guetinho escondido. o garçom não dá conta de atender todo mundo. Porque você não é gay só na hora que você vai pra cama e tal. não sabendo que eu era assim. o adolescente gay vive eternamente um jogo de RPG. É teu estilo de vida. onde as luzes projetam sua sombra no oitavo andar do edifício. quer dizer. você coloca esse personagem no lugar do seu verdadeiro eu. quase apagada. no Sucão. Ser gay é uma coisa que você é 24 horas. Faço faculdade e estágio na área. Carlos Gomes segura a batuta de maestro lá no fim da rua. sentado ali. por ser gay.26 27 só pioraram. Deco chama o garçom. conversas. à esquerda) — Estou no início de minha carreira. quem quer beijar. Aqui tem mesinha na rua. e se eu quisesse ficar dentro da casa dele eu nunca mais poderia usar o telefone. nuca. que você pensa enquanto gay. Minha irmã descobriu e me ameaçou: se eu não contar para os meus pais. por exemplo. quem quer ficar. Quando eles descobriram. eu fico quieto. mas não é do filho que ela está orgulhosa. (Um outro ele) — Tenho 18 anos e comecei um estágio agora. E aí você fica naquela:“será que ela vai gostar de mim quando descobrir que eu sou assim?” Então. é personalidade.” CENA: Deco ainda insiste e chama o garçom. desde pequenininha eu era apaixonada pela vizinha do meu avô. Lo Schiavo. baixa. IMAGEM: costas. (Outro ele) — Há uma semana toquei no assunto e revelei que sou gay. grita. ela conta. não sei qual seria a reação se eles soubessem que existe um. riscos de luzes que passam sem deixar marcas. E quando eles souberem eu sei que vão querer me levar pra Bahia de volta. o bar está cheio. discriminado. beija. histórias de falsas namoradas. se eu passava ao lado de um. o marco zero da cidade. Condor. Eu tenho medo de que. Não dá pra você omitir uma parte da sua vida. IMAGEM: nuca de rapaz em primeiro plano. SOM: “Porque eu não quero aparecer? É um motivo pessoal. Sombras numa parede. Entre óperas descansa a morte de Carlos Gomes – nesta praça. não gostaria de ser prejudicado. mas já faz um ano que meu pai não fala comigo. Salvador Rosa. me disseram que isso era coisa demoníaca. (Deco) — Aqui é o centro de Campinas. Então você acaba criando um personagem.

que ser gay é muito mais legal do que ele pensa. assim. Eu posso viver naturalmente. porque as meninas não estão dando oportunidade. Tinha sempre gente feliz. vi que o perfil das pessoas batia comigo e fiquei. é isso a vida dele. falando do namorado. se aceite”. Contei pra uma pessoa que fez o favor de contar para a igreja inteira. O adolescente gay de 14 anos no interior de qualquer estado.Aí aos 18 anos comecei a me afastar da igreja. Então. ela estava lendo um livro que eu dei pra minha mãe: Meu filho é gay. (Deco) — O principal motivo para os jovens procurarem o site é o isolamento. de casa em casa.Agora. quando muito. Mas aquilo para mim era absurdo. ele acaba achando o site e acaba descobrindo que ser gay não é viver sozinho. Aí aos 14 anos comecei a gostar de uma mulher. novidades. O adolescente se sente isolado em casa. ela ouvia algumas conversas. que tem outras pessoas passando o que você passa.. Alguns podem se revelar. Sala de aula. Aí eu fui excluída da igreja. E aí. — Porque.. Daí você chega até o site. e agora?”. eu falava e pregava. era pecado. a gente ia para outros estados para evangelizar e tal. E os amigos dele são os amigos da escola. falando sobre homossexualismo:“vão para o inferno”. Eu fui criado lendo o pequeno livro. assim. É com soropositivo. Deco e outros gays numa mesa no bar Sucão. fiquei com ela. Mas por quê? Às vezes até ouve piadinha do pai ou da mãe. dos amigos gays. Então eu sofri sozinha dos 14 aos 18 anos. (Ela) — Tenho 17 anos. acredito que todo mundo que tem dificuldades de encontrar pessoas para discutir esses assuntos acaba procurando na Internet. (Outro ele) — Esse negócio de igreja é complicado. Deco fala à vontade. Sol de fim de tarde. E foi um período até que eu sentava. Então. Aí conversei com ela e tal e falei: “Vó. vocês vão para o inferno juntos. tipo cantando lá na frente e pensando: “nossa. sabe. Retroprojetor. que eu era assim e não tinha como. que bom que você está namorando. alguns rapazes. uma coisa assim. Então a gente te exclui da igreja pra você pensar e quando você voltar ao normal. Sofá largo e laranja. E a Internet acaba sendo a janela para o mundo gay. eu pude conviver com pessoas com as quais eu não preciso me preocupar com isso. Algumas meninas. né? Ela já estava suspeitando.. E nesse grupo. como vai agir. porque eu cresci na igreja. aquele amarelo. Em São Paulo. E ela me falou o seguinte: “Ah. (Outra ela) — No meu caso foi bem complicado. Ele sai no fim de semana pra ir ao shopping. e se eles soubessem de mim?”. eu cuidava das crianças da igreja. não tem como esconder. Eles me disseram que eu estava em pecado e que se eu falasse que eu ia deixar essa vida de pecado eles me manteriam na igreja. outros não. CENA: Praça Bento Quirino. era péssimo. Na escola. mas ninguém chegava pra ela e dizia. ele se sente isolado. E aí ele se fecha ainda mais. (Um novo ele) — Como as pessoas foram chegando? Ah. falar tudo o que passa pela minha cabeça. Geralmente a gente fica medindo o que vai falar. você vai para Altamira. no Pará. perto de você.28 29 CENA: Interior. E os colegas fazendo piadinha também. entendeu? Você não vai mais para o inferno sozinho”. eu ia no campo e tudo. você vai pra Maringá no Paraná. Como é ser gay em Altamira? A gente tem um rapaz no E-jovem . eu cantava na igreja. todo mundo meio que falando no assunto.. Um dia eu cheguei em casa. Estou namorando.. porque tinha cultos. ele vai pra casa. tudo quanto é canto. nós temos esperança. longe. Ela continua achando que eu vou para o inferno por ser gay. e agora? E ela sentadinha na cama dela lendo. em casa ele não pode falar. Aí eu entrei na lista. né? Porque você não pode ser você dentro de uma igreja. Quando falam é na aula de biologia ou algo assim. Minha mãe supercrente. aí se inscreve numa lista de discussão e aí você começa a ver que tem milhares de pessoas em todo o Brasil. era horrível.. a vida dele é o quê? Ele vai pra escola. eu tenho um namorado”. num canto branco da sala. na escola. A minha avó é testemunha-de-jeová há mais de 20 anos e eu contei que sou gay para todo mundo da minha casa. É uma coisa maior complicada. aqui em Campinas. Eu vou cozinhar um mocotó no casamento de vocês. Sou bissexual. basicamente. aí vi o site do E-jovem. Eu também me afastei. Eu me sentia muito culpada. porque eu saí da igreja. Eu tinha a esperança de ter nojo. das Testemunhas de Jeová. Computador. agora é vermelho. Que bom que você gosta de alguém. Chão preto de borracha. você volta pra gente”. por exemplo. na família.. aí você vê que não está sozinha. Então. fiquei com um cara e tal e sempre naquela luta sozinha. Minha mãe ficou péssima.. palestras. Eu me sentia péssima. Eu falei que não..Aí eu conheci uma menina. “Meu filho é gay.. você tem ruas inteiras gays. Aí eu pensei. você tem uma praça no centro da cidade que os gays freqüentam. pela Internet. mas ela está feliz porque eu já não vou sozinho. eu quero ver o meu neto feliz. um amigo meu me trouxe para o E-jovem. e tentando namorar com homem. com medo. menos pra ela.. Ultimamente sou mais pro lado dos meninos mesmo. Porque se você tem alguém. olhava no espelho e falava pra mim mesmo: “se assuma. Ela falou: “Eu achei esse livro no quarto da sua mãe”.Tive namorado.Aí eles falaram:“Não.Tá dando o maior rolo. os professores nunca falam nisso.. em Passo Fundo no Rio Grande do Sul. Esse ano pra mim foi o ano de liberdade mesmo. bem mais velho do que eu. (Ele) — Eu estava há muito tempo em dúvida. Eu pensava: “Minha avó vai morrer se eu falar pra ela” . só tem uma conclusão. mas aí eu gostei absurdamente.

Porque no momento não estou namorando ninguém. Sem voz. eu convivo com ele’.. e que não tinham uma outra referência para gay a não ser o que viam na mídia em programas humorísticos. Eu acho que eu gostaria muito que acontecesse. de 15 a 24 anos. poder levar ela lá em casa e falar assim:‘essa aqui é a minha namorada’. Se você quiser mudar o mundo. eu o conheço. outros 12 gays se mataram.Uma vez eu levei uma menina lá e eu falei pra minha mãe que era minha amiga. eu acho que a gente criar essa referência para as pessoas que estão próximas a nós é o principal.. ou de algum outro programa de humor. sabe? Não poder dar um beijo. “Tenho 23 anos. pensando em me matar. assim’. IMAGEM: a luz vermelha do sol de fim de tarde projeta a sombra de um rapaz na parede da sala de aula.” CENA: Uma menina olha pela janela. O gay é o André meu filho. 20. Você vê. por que o jovem se mata? Porque a família o rejeita. uma pessoa que deixa de se matar porque encontrou um site. nos quatro dias de vestibular da Unicamp. entendeu? São mais de mil por ano. O jovem se mata porque a escola o rejeita. “A gente tem esse exemplo de jovens que contam na escola ou que contam para a família. Se todo mundo fizesse isso. em ângulo oblíquo. viu crescer. e que aquela criança que ela criou. Eu ia me sentir bem mais verdadeira se isso acontecesse. muito pelo contrário. Ele escreve no computador. só depois de eu ter sobrevivido à tentativa de suicídio. não tem nada gay”. não tem boate gay. Bater um papo legal e ela aceitar. Poucas nuvens. o meu filho é gay e não é promíscuo. a sociedade acaba matando esse jovem. enquanto a maioria do povo estava curtindo. ou aquela menina que ela acompanhou todos os passos e tal é lésbica. na cidade. E para os amigos da faculdade também. O jovem se mata porque o mundo o rejeita. Porque ninguém nunca vai ter coragem de se aproximar e se revelar. CENA: Campinas atrás de grandes janelas. porque os pais não sabem. entendeu? Então. é gay. 15. eles não se mostraram compreensivos. Ele escreve para a gente: “Você olha assim para alguém.A cada oito horas. sem retrato. porque cada pequena coisa que uma pessoa faz no seu próprio universo começa a mudar o mundo. É uma vitória. você muda a sua casa primeiro. 25 anos. Então a gente começou a se perguntar por que isso acontece. Então. e olha de volta para ele mesmo. minha família percebeu que a situação era mais séria do que eles pensavam. Meus pais sabem que sou gay há cinco anos. e mudam alguma coisinha na vida dessas pessoas e isso se multiplica. é assim. achei o site e mudei de idéia”. (Deco) — A gente recebia uns e-mails de jovens dizendo:“Eu estava sozinho. passam a ter uma referência para gay. Claro. mas se por algum acaso eu vier a namorar uma menina. Eu acho superchato a gente sentar no sofá e não poder dar as mãos. ela vai falar assim:‘Não. Nos três dias de carnaval. se alguém fala assim:‘Ah. isso dá uma média de três suicídios por dia. para os meus primos etc. enquanto sua imagem se duplica.30 31 que mora em Altamira. mas você nunca vai saber se ele é ou se não é. alguns prédios: “adoro olhar o centro de Campinas.. nove gays se mataram.” CENA: Deco olha pra esse lado de Campinas. Ela sabe como o filho dela é. os gays são todos promíscuos’ para a minha mãe. O Brasil tem aproximadamente 1056 suicídios de jovens gays por ano. como vidros de um navio. para os meus irmãos. tentei o suicídio há sete meses porque eu não via futuro para mim. assim.. Mas são três suicídios por dia. por fim. Eles procuraram corrigir a minha homossexualidade. um adolescente gay se mata porque é gay. que você acha que é gay. Nessa hora em que a cidade é azul e mostra seus prédios numa linha que recorta o céu. Não tem bar gay. de repente o gay não é mais aquela coisa abstrata.Tem namorado. 18. ou o André meu neto. Eu vejo isso na minha família. Depois de eu ter revelado a minha homossexualidade. Então o único contato é pela Internet. “Eu gostaria de poder dizer pra minha mãe: ‘olha mãe.Você percebe que essas pessoas que estão em volta de você. Não tem como você ser feliz se escondendo. toda mãe conhece o filho há 10. a gente teria o mundo que a gente quer. Então. por exemplo: eu contei em casa para o meu pai. Responde às nossas perguntas por escrito. assim. Eu recebo vários e-mails como esse. por cima”. na janela entreaberta. como se fosse uma doença. para a minha mãe.” . de Zorra Total.

normalmente os jovens escrevem pra gente dizendo coisas assim:‘Nossa. E como os filhos podem também compreender melhor os seus pais. foi criada pela mãe do Deco. todos estão vivendo juntos”. (Deco) — Eu acho que quando a gente agrega pessoas que não estão diretamente envolvidas na causa. sobre temas fundamentais na vida de todos nós: amor. O Grupo E-jovem é um dos únicos grupos gays do Brasil a colocar em estatuto que aceita heterossexuais como representantes do projeto. no açougue. Eles criam e desenvolvem projetos que podem atingir centenas de outros adolescentes. é jornalista e trabalha como editor e webmaster do site. no táxi. o Programa Escola Jovem. família. o Grupo E-jovem realiza encontros reais. num contínuo movimento de reconstrução. Para contatos diretos com a coluna o e-mail é: afagho@e-jovem.e-jovem. Palavras para serem ditas no almoço de domingo. que ainda é o objetivo dele: passar informação pra quem não tem informação e se sente isolado. No site há espaço tanto para o jovem que apenas quer receber informações quanto para aquele que quer participar de discussões.A causa gay é a gente não precisar ficar lembrando a toda hora que a gente é gay. “Eu acho que o site conseguiu cumprir aquilo que era o objetivo dele.e-jovem. o que costuma ser comum na maioria dos sites dirigidos para homossexuais. como iremos querer que a sociedade os aceite?“ .900 jovens de todo o Brasil e alguns de Portugal e do Japão. Origens e Propostas O www. os jovens se cadastram e conversam entre si. artigos. enquanto a mãe passa o café pelo coador. Palavras para serem lidas numa noite. no elevador. escrever depoimentos ou ainda fazer uma reportagem.com” tem. Jovens gays. escola. Palavras para serem ditas no ônibus. a Dra. Ana Maria Ribeiro. entre os amigos da escola. atualmente. fazer cobertura de eventos etc. continua Deco. Palavras para serem ditas numa noite qualquer. eu percebo que a nossa causa é uma causa justa.com. que pretende levar a discussão da homossexualidade para dentro das escolas públicas e particulares de ensino fundamental e médio. Curitiba. ainda. A idéia central é estimular o protagonismo juvenil. na cabeleireira.com é um site dirigido ao público homossexual jovem. São cerca de cem jovens atuando na linha de frente da militância. achando que é o único gay do mundo. O site é composto por dicas de baladas. uma coluna para pais e mães que não sabem o que fazer quando descobrem ter um filho ou uma filha homossexual. Quando eu começo a ver heteros participando de movimentos gays. Palavras para serem ditas ainda de pijama. na sala de aula. sem correr o risco de ter pornografia no site. No E-jovem quem se inscreve na lista não pode trocar fotos. Rio de Janeiro. Nela. Além dos encontros virtuais. Cerca de 76% dos usuários do site têm menos de 21 anos. estão prontas as palavras. E quando ficam nítidas. fiz trabalho de escola com ele. Foram criadas unidades regionais do Grupo E-jovem em várias cidades. criando um mundinho só de gays. por Porto Alegre. Palavras para serem ditas com calma numa manhã de sol e céu claro. peças de teatro de temática gay e. lésbicas e bissexuais cadastrados no E-jovem passaram a se encontrar e conversar sobre o que cada um poderia fazer pela causa gay. mais de 2. Campinas. O nome da coluna é “Afagho”.32 33 E-MAIL: Começam a se formar letra por letra. como essa. na lavanderia. na fila do cinema. Os usuários são também aqueles que alimentam o site. no escritório.Você tem que trabalhar num mundo que tem gays. distribuídos. foi demais o site. trabalhando numa sociedade fictícia só de gays. quando o pai volta do trabalho. pais e mães de E-jovens respondem dúvidas sobre como esses pais podem compreender melhor os seus filhos. São mais de 35 mil acessos mensais. em que Campinas passa assim. 30% têm menos de 16 anos. antropóloga clínica. Deco tem 33 anos. me ajudou em muitas coisas. na padaria. Estão cadastrados no site. Me ajudou a tomar coragem pra contar para minha família que sou gay”. lésbicas. religião. azul. quadrinhos. pela janela do ônibus. Cruz Alta. heterossexuais. bissexuais. suja ou que deva ser secreta – a maioria dos garotos gays tem orgulho em ser o que é e adoraria que os pais soubessem. falecida em 2005. O retorno que a gente tem é muito positivo. Belo Horizonte e Brasília. sexo. entendeu? Você não pode pensar em mudar a sociedade. se tivessem certeza que teriam apoio. Santos. “Queremos mostrar aos pais e à sociedade que isso que estamos fazendo não é uma coisa errada. Eu mostrei pro meu pai e pra minha mãe. ainda. a causa ganha mais força. São Paulo. como vídeos. com a família. charges animadas. O site “www. Guarulhos. diz Deco Ribeiro. no café-da-manhã. atualmente. O objetivo do E-jovem é ser um site de troca de informações. Nessa lista. No chope de fim de tarde entre os amigos do trabalho. reportagens. só conversar. O site também disponibiliza uma lista de discussão por e-mail. E se os próprios pais não aceitarem e respeitarem os filhos. escrever uma coluna. Foi fundado por Deco Ribeiro em 2001.

34 GELEDÉS .

pátio da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.. de Castro Alves. Horrendos a dançar. azul-marinho. cá pra nós que não somos negros.. Cláudio Adão. Nenhuma hipótese havia nesse ambiente para que os negros e mestiços tivessem qualquer chance de se estruturar familiarmente. Não.” Pátio da Cruz. seus filhos e aparentados mais diretos ocupava tão exaustivamente as funções do lar de tipo romano que não deixava espaço para outras formas dignas de acasalamento. ... bege-escuro. nesta sintaxe: amém. e por Diego. “A juventude negranão te mrefer ência deprof essor es negrospou case scolastêm profes sores negrosen aunivers idad evoc enãoen contra profes. a família patriarcal do senhor de engenho. duros. nos pensamentos de falar. .. Não. sem autorização. o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. soltos de todo jugo. onde ecoa a voz desgovernada.. Era um sonho dantesco.. nesta Roma das cidades.37 Sou só eu na minha sala A os pés da Santa Cruz. bege-oliva. como eles o são.” E sendo eu o branco. caracóis encarniçados. o submetido. Pois então não éreis vós o negro. São Paulo: Companhia das Letras.. sem ordem. neste latim que nos abençoa... Em sangue a se banhar. neste ano da graça de 2005.. será dito agora e documentado nesta via que segue. nós que não desatam. marrom mais claro.. O provo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. assim. 1995.. o obediente ao seu feitor? Então não era assim que as coisas se davam? Que mal houve nestes rumos? Nesta Grécia em perfeição. de fato. Não. entre orgulhos de cabelo mole ter nascido. Darcy Ribeiro. que não vai chegar e que se viesse nos diria. Legiões de homens negros como a noite. de África herdadas. o pálido que ostentas estrelado. teus pensamentos de agora. Quanto aos outros. Alexandra e Daniele de Jesus esperam por Élida e Adriano.. não me pesam tuas cores. estalar do açoite.sores negrosquan tosdos jov ens negrosque entramnas. O próprio senhor e seus filhos eram. Tinir de ferros. em pálido assombro retumbante: existem professores negros na Universidade? Existem alunos negros na Universidade? E continuam aquelas vozes. marrom.. não me pesam tuas palavras.. não me pesam teus cabelos. que logo chegarão. loucos nesse turbilhão. “Onegroche gaasent irmedo imag inandoq uepos sasof rerprec oncei totud oques erefer eao negrono Br asilnã oébem acei to Euso u negraso upob reeeun ãoposs onega rques ou negramin h amã eé negramin haav ó é negrar. reprodutores soltos ali para emprenharem a quem pudessem. como tanto sabe de cor. o que tinham a nos dizer. livres na escritura. “O Navio Negreiro”.

ou seja. naquele ambiente de lousa e cadeiras. todos estudantes da PUC. os professores sempre diziam assim para a população negra. segundo ano de Comunicação Multimeios. para quem não é da turma. ou particulares de qualidade. (Élida) — A maior parte do grupo entrou na PUC São Paulo. que criamos esse mundo? Em astrolábios. 42% dos jovens brasileiros chegam só até o ensino fundamental. na África. Então ela sai do ensino médio direto para a Universidade. se tiver dez alunos negros é muito. E saímos à procura de uma sala de aula que estivesse vazia e. a porcentagem que era de 45% cai para 21%. tem uma na sala ao lado. os cereais em aguardente? Então não fomos nós a fartar os gansos com comida. vai lavar carro. né? Em que quem freqüenta o ensino público tenha condições de ingressar nas universidades. era de como iríamos nos manter aqui dentro. 90% dos alunos são totalmente diferentes de você. “Perfil da Juventude Brasileira”. tem uma outra menina negra e isso foi para mim uma grande surpresa. Por exemplo: – apenas 6% da população jovem brasileira tem acesso à Universidade. aquela população que tinha uma baixa autoestima. Os professores diziam o seguinte:“Olha. 24 anos. brancos. a gente fala em recursos acadêmicos. onde é que fica nessa história? O Instituto Cidadania. Segundo a pesquisa. depois da Nigéria. desde o berço. É que todos os 20 tinham atuações em suas comunidades. Era para os negros que os professores diziam essas coisas. eu acho que no curso inteiro. essa porcentagem é de 19%. estimulada a vida inteira. assim. nenhuma cozinha. para que nos dessem em troca o próprio fígado.A nossa maior preocupação. Como é que eu vou acompanhar o curso. sendo que o meu amigo branco consegue comprar todos os 50 livros em um semestre e eu não consigo comprar nenhum livro? (Daniele) — É complicado também você entrar em uma faculdade.3% dos jovens brasileiros são negros e pardos. qual a juventude que entra na USP? De onde saiu essa juventude? Quantos por cento dos jovens negros que entram nas universidades particulares conseguem se formar? Pouquíssimos. de toda Europa? Conheciam os mares? Os nomes das estrelas? Os mapas dos continentes? Então não fomos nós. linhos e aventais? Então não fomos nós a transformar a uva em vinho. segundo ano de Letras. vai ajudar sua mãe passar roupa. outro em Presidente Prudente. Acompanhando essa conversa. A pesquisa mostrou um outro retrato: entre os jovens que se dizem brancos. eu lembro que na sala de aula. na Faculdade de Direito. Ele foi pensado por Geledés. escurecidos. desenhos na lousa de alguma aula inexplicável. Segundo o Censo do IBGE (2000). tudo o que se disse foi ali. quando ingressamos na Universidade..38 39 Vós não sois aqueles que chegaram. bússolas e sextantes. quando perguntados sobre a ascendência racial só de brancos. falando língua estranha de toda corte. outros dois jovens entraram na Unesp. além de mim. através do Projeto Juventude. a criar louças e cristais. Adriano Rodrigues dos Santos. você não quer estudar? Vai pra fora. – 3% dos jovens indígenas chegam à Universidade. para seguir a carreira acadêmica. 21 anos. em rara iguaria? Então não fomos nós a acorrentar os homens e a corromper as mulheres de escuras peles e cabelos de espinho? Então não fomos nós a reconhecer nos homens o boi trabalhador ou o cavalo reprodutor? E nas mulheres a dócil vaca de grandes tetas para nossos filhos? Então não fomos nós a ver nas meninas escurinhas o prazer libidinoso para o branco de pança cheia de açúcar e de arrotos? Então não fomos nós a forçá-los ao nosso carinho? Então não fomos nós a desvendar-lhes o destino? E foi então que saímos do Pátio da Cruz. – 3% dos jovens negros chegam à Universidade. Élida Miranda. realizou uma pesquisa nacional. (Élida) — Passa muito pela escola também. 24 anos. encolhidos. 18 anos. Desse número. um em Guaratinguetá. vai varrer rua. E quando a gente fala em permanência. (Cláudio) — A gente faz parte de um projeto que visa a inserção de 20 jovens negros nas universidades públicas. e perceber que a maioria dos alunos. nenhuma sala. – 10% dos jovens brancos chegam à Universidade. Esse projeto leva o nome de Afro-ascendentes. 45% são brancos. entendeu?”. (Élida) — A gente luta é pela igualdade de condições. Ele foi pensado também para que os 20 jovens negros voltem às suas comunidades e trabalhem o protagonismo juvenil. Porque se você for fazer uma análise hoje. 30% dos negros não conseguem concluir o ensino fundamental. como a PUC. O que temos de cada um são apenas os seus discursos. nada revelador sobre nenhum dos nossos personagens. por exemplo. Daniele Cristina de Jesus. 45. por um modelo educacional que de fato seja igualitário. onde melhor se ouvisse e entendesse tudo o que tinham a dizer os cinco meninos do projeto Afro-ascendentes. até a morte. Por isso é que se costuma dizer que o Brasil é o segundo maior país de população negra do mundo. 21 anos. A juventude burguesa foi preparada. segundo ano de Administração de Empresas. nada particular. conforme segue: Cláudio Adão. que acrescenta dados importantes ao Censo 2000 do IBGE. Eu estudo administração e na minha sala. impossível de entender. atrás de outros espaços menos barulhentos. segundo ano de Turismo. mares e estrelas nomeados? Então não fomos nós. . E a juventude pobre? E a juventude negra. O número de ascendência negra subiu para 75%. Aliás. dois na Metodista. Nenhum quarto. uma evasão escolar enorme. um na Anhembi Morumbi e um em São Bernardo do Campo. São duas na minha sala. obscura. em oito anos de estudo.. Alexandra de Campos. aquela população que ficava no fundão. brancos. pouquíssimos. em todo o período escolar. é difícil você tentar se colocar e ter uma posição. a partir do pequeno percentual de negros que freqüentam as universidades. faz duas faculdades: segundo ano de Pedagogia e terceiro ano de Direito. entre os brancos.

da população branca é de 3. estimula isso. Segundo pesquisa. Muita gente fala pra mim: “mas você é clara. essa proporção é de 39% para os homens brancos. Nós temos um projeto acadêmico maior. “Ah. E eu disse: “não. Um dos meninos do nosso grupo que entrou na Unesp de Guaratinguetá foi fazer a matrícula e lá na faculdade já gritaram. entre os jovens. do que falar que é negra e sofrer todo o preconceito. King Kong. eu ficaria com a vaga. Por exemplo. eu Daniele. saiamos da condição subalterna. A educação ainda é o caminho. 63% dos homens negros morrem antes dos 49 anos. ela briga. Que eu era louca porque eu vivia estudando. E o professor. e entre os indigentes 69. se for eu e a Alexandra. você é branca”. E nós não queremos nos formar de qualquer jeito. de longe. 64. sabe? De falar “não. estou numa entrevista de emprego com uma pessoa que é branca. Condução é difícil.Vai fazer qualquer outra coisa da vida. ela diz. ser sempre os primeiros. Eles tratam os alunos brancos de um modo e o lado negro de outro. Racismo e Saúde. porque eu trouxe ela pra dentro dessa realidade. segundo o IBGE. Outra pesquisa mostra que. (Alexandra) — Em sala de aula tem uma diferença. Eu sou negra. Eu falei assim:“se você é morena. Eles têm uma diferença de tratamento. (Cláudio) — E mesmo com todas as dificuldades. (Fonte: O mapa da violência IV: Os jovens do Brasil. Mas a gente tem que ter a nossa correria. quem fica com a vaga é ela. A esperança de vida ao nascer é menor entre as crianças negras. nós nos consideramos jovens privilegiados. E não é para a primeira dificuldade que vamos abaixar a cabeça. Mas aí um dia ela falou assim: “a minha filha está na faculdade. juventude negra. E esse papel crítico passa pela educação.Vai trabalhar de balconista. (Élida) — Quando a gente fala de sonhos. faz o curso de alfabetização de adultos aqui na PUC e agora ela consegue compreender o que é a Universidade. seguir a carreira acadêmica.Você encontra uma pequena parcela de negros na academia. sim. os negros morrem mais cedo que os brancos. A condição subalterna de onde nossas famílias vieram. Eles querem estar sempre na frente. 1998. Os brancos querem estar sempre na frente. E aí. vai trabalhar no shopping. Entre os brancos. a mesma coisa. tem um tanto de papel destinado a revelar fotografias. porque a gente não é referência só para a nossa família. a população negra tem um rendimento médio de 2. A autora conclui que o racismo é fator determinante no modo de viver. bem alto. mas o que é a faculdade?”. falta da minha mãe compreender o que é a faculdade. Mesmo que eu tenha mais experiência profissional que ela. A pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira” revela também que os jovens negros são mais atingidos pelo desemprego (34%) do que os jovens brancos (28%). É assim. Fonte: Maria Inês Barbosa. no laboratório de fotografia. E ele vem passando por um processo de discriminação tão forte que começou a mexer com o psicológico dele. por se sentirem superiores. Continue com as condições e nas condições de subalterna. Nós queremos partir para o mestrado. eu não quero isso pra mim”. (Élida) — Nós somos a primeira geração do nosso núcleo familiar a ingressar na Universidade. O trabalho infantil é maior entre as crianças negras. é o estresse que o negro sofre na sala de aula.. A gente é referência para a nossa comunidade. com meu cabelo cacheado.9 salário mínimo. Secretaria Especial de Direitos Humanos e Instituto Ayrton Senna. sou morena”. mas você encontra muitos negros na faxina.9 salários mínimos. nem parece negra”. sim. alguns fatos trágicos por parte dos “amigos” brancos da faculdade. de ingressar na Universidade. na minha família. Embora não se perceba assim. Porque. A mortalidade infantil entre os negros é maior do que entre os brancos. o doutorado. aconteceria. (Daniele) — Por exemplo. (Élida) — É o estresse de sala de aula. de cada 100 mil habitantes. o rendimento médio mensal da população negra brasileira é de 1.. Mas.Tem uns alunos brancos que. porque a minha mãe é negra. assumir um papel crítico dentro da sociedade. 68 jovens negros morrem por homicídio. então eu sou o quê?”. assim. de perspectivas de vida. Então todo mundo achava que eu era louca. ela te mata. Nós queremos.. Aí eu ingressei na Universidade.5 salários mínimos e a população branca de 4. . Em São Paulo. assim. xerox é difícil. As mortes por causas externas atingem 32% dos homens negros e 16% dos homens brancos — praticamente a metade. loira e tem cabelo liso. E é assim.55% são negros. Nós queremos romper com essa cultura da subalternidade. porque a cor da minha pele está mais perto da tonalidade branca. mas tenho uma tonalidade de pele mais clara que a dela.40 41 (Daniele) — Eu tenho uma prima que tem uma tonalidade de pele um pouco mais escura que a minha e se você falar pra ela que ela é negra. fazem rapidamente o que têm de fazer e já correm para querer aprender mais do que os outros. mesmo que ela tivesse mais experiência do que eu. Minha mãe não entendia nada. Tese de doutorado em Saúde Pública. eu não posso negar que eu sou negra. esse número se reduz para 39.84% são negros. USP: São Paulo. quando eu comecei a aceitar que existia essa falta na minha família. Porque afinal de contas saímos da periferia. na segurança. Aconteceram.7 salários mínimos. Então é muito mais fácil ela falar que é morena para ser aceita pela sociedade. olha. adoecer e morrer. ficava de madrugada estudando. Quando eu saí do ensino médio e ingressei na Universidade. tanto que a minha mãe. ninguém esperava na minha família. ao invés de falar assim: “espera os outros alunos”. sabe? É condição subalterna. a minha avó é negra. disputando a vaga. Nós queremos sim é O Atlas Racial Brasileiro mostra que entre as pessoas pobres.. A gente é referência para o povo negro.A gente tem que se formar. os outros alunos. na certa. entendeu? Não é todo mundo que tem essa chance que a gente está tendo. Porque ela não admite. eu não sou negra. mas a gente percebe. uma das nossas idéias – isso é uma bandeira de luta – é que nós. não. hoje. como servente. 2004) Quanto aos salários. isso gera uma discussão quando a gente se encontra. eu comecei a trabalhar com ela essa história. ela encerrou o ensino médio já está bom. entende? Então assim. diferença de 74% entre as raças. realizado pela UNESCO.

”.Tudo que toca ao negro. vê os outdoors e não se reconhece. ainda hoje a ascendência malê é escondida. sendo não só os mais caros. desde o início. imagine sem elas. sem deixar nenhum.. Ele foi um poeta negro que viveu em São Paulo no século 19. entendeu? A capoeira é marginalizada. É complicado. Onde vivem os jovens negros: Região Norte e Centro-Oeste – 50% Sudeste – 45% Nordeste – 42% Sul – 17% lavouras? Jogaram a gente nas margens da periferia. onde a gente vai estudar Luís Gama. quanto tempo para serem aceitas? Tudo o que se refere ao negro no Brasil não é bem aceito.. Ricas Damas e Marquesas. tudo berra. Na pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira”. Folgue e brinque a bodaria. 1996 . Logo derrotados pelos soldados. Vereadores. E a história dele. com exceção da região Sul. Baios. A gente tem na nossa literatura representantes que muitas vezes são esquecidos. porque eles. Então. Eu faço Letras. Que no século das luzes. dentro do meu curso. fizeram coisas horrorosas.) Pois se todos tem rabicho. não – das Kalendas. porque era chacota total na cidade. De nobreza empantufadas. as cotas. um professor virou pra mim e falou que por eu ser negra eu me isolava dos outros alunos e eu tinha medo de falar. de maçante e mau estilo. há rajados. hão de chamar-me Tarelo. A repressão foi tamanha que ainda hoje a palavra malê continua como que maldita. desta arenga receosos. republicanos. estou entrando no projeto de iniciação científica. também os mais disputados. (Adriano) — Eu sempre. tanto é que hoje eles estão bem representados em todas as classes sociais. Ele comandou a revolta dos negros escravos durante quatro dias e a cidade da Bahia o teve como seu governante quando a nação malê acendeu a aurora da liberdade. Jorge Amado. se impõem. homens.. Agora. dentro da sala de aula. Belas damas emproadas. dominaram e ocuparam a cidade por quatro dias. mulheres e crianças. E a gente está lutando para que isso seja colocado em debate. os brancos. Marram todos. preferiram trazer os europeus para trabalhar nas . Deputados. negro. olha lá os macacos”.42 43 Por exemplo. Têm brasões. No dia em que acabou a escravidão. Aqui. Porém eu que não me abalo Vou tangendo o meu badalo Com repique impertinente Pondo a trote muita gente Se negro sou. mas pelo menos amenizar. Fanfarrões imperiais.. para mim. Frades. o que é que eles vão pensar? Eu sou negra. ou sou bode Pouco importa. a produção literária dele são deixadas de lado. E porque é que ninguém discutiu? Houve no Brasil um processo de embranquecimento.) Sei que é louco e que é pateta Quem se mete a ser poeta.. não tem como. E realmente eu percebi que eu tinha medo de falar o que eu pensava. jogaram a gente para os guetos. Uns plebeus e outros nobres. elas vêm mesmo para sanar toda essa história. e que os homens poderosos. sabe? Isso mexeu fortemente com o estímulo dele e com a própria vontade de querer cursar a faculdade. A nação malê não era apenas a mais culta entre quantas forneceram mercadoria humana para o tráfico repugnante. foram feitas ações afirmativas. O que a gente quer é equilíbrio. E aí importaram mão-de-obra da Europa. O mais culto dos malês era o alufá Licutã. Muitos negros não conhecem. que era branco.. que apóiam e defendem os negros. (Cláudio) — É por causa disso que o negro não se auto-afirma. haja alegria. Foi vendido como escravo pelo próprio pai.. Bispos. quando já as razões do medo foram esquecidas.. silenciada. quando os imigrantes vieram pra cá. Mongibelo. vem de Luís Gama. você acaba se retraindo. Galgam altas posições. Bodes negros. Claro que ele sente medo. Ele liga a televisão e não se reconhece. Por que em lugar dos negros. ele não pode crescer mesmo. Nobres. amenizar porque com as cotas demoraria 50 anos para a gente alcançar a eqüidade. Repimpados principotes..) eu bem sei que sou qual Grilo. recém-saído da escravidão. marginalizaram nossa cultura. onde a grande imigração européia do começo do século passado praticamente excluiu o negro. Num dia eu fiquei muito brava numa discussão de grupo e depois fiquei pensando: “ai. Ele anda pelas ruas. Bode. mas sim porque eu tinha medo da resposta que os outros alunos podiam me dar. pampas e malhados. você está sempre em minoria. Condes e Duquesas.. Gentis-homens. era chacota total. a biografia. (Alexandra) — Um dia. (. Pretendo me tornar um especialista em Luís Gama. as religiões africanas. a literatura mais importante para o movimento negro.. E com tretas e com furtos Vão subindo a passos curtos. Eles não podiam entrar num bar. importantes E também alguns tratantes. Como é que ele vai crescer numa sociedade que não o respeita? Ninguém dá valor pra ele. sejamos todos francos. Para que tanto capricho? Haja paz. Bodes ricos. levantaram-se os escravos. Cesse pois a matinada. para a nossa cultura. No começo do século passado. o samba é marginalizado. Bahia de Todos os Santos. E com jeito e proteções. Só pela arte do Vieira.. Ele abre a revista e não se reconhece. a ordem dos senhores foi matar todos os membros da nação malê. entendeu? É por causa disso que o negro não se valoriza. (. senhor de engenho. Eles começavam a dizer: “olha os negros. Compram negros e comendas. A gente quer equilíbrio na pirâmide social. nesta boa terra. tudo que pertence ao negro é marginalizado. não é? Mas tem outros escritores que são abolicionistas. sou pobre e agora ainda vou fazer barraco. em verdade os escravos provindos dessa nação alcançavam os preços mais altos. Bodes sábios. numa lanchonete. a gente ficou assim ao léu. Ele foi abolicionista e republicano. bodes pobres. bodes brancos. não porque eu fosse tímida.. procurei me afirmar para o lado negro. como Castro Alves e outros. Quem sou eu? (. O que isto pode? Bodes há de toda casta Pois que a espécie é muito vasta Luís Gama Há cinzentos. quando a família dele ia visitá-lo. Porque tudo é bodarrada! (Cláudio) — Que ninguém tenha a ilusão de que as ações afirmativas vão resolver o problema da desigualdade racial. para que as pessoas conheçam Luís Gama.. descobriu-se que os jovens negros se distribuem de maneira mais ou menos igualitária pelas regiões do Brasil. mas ele próprio negava ser negro. Cardeais. Rio de Janeiro: Record. do trabalho nas lavouras. E. Fazem grossa pepineira. Senadores. sendo que os negros eram capacitados para o trabalho. que viviam aqui. Uma das referências negras que nós temos na nossa literatura é Machado de Assis. “agora vocês se viram”. Nos ensinaram que ser negro no Brasil não presta.A gente quer representatividade tanto na elite quanto na classe média. Orgulhosos fidalgotes.Teve ações afirmativas dos imigrantes. não digo sanar. Os birbantes mais lapuzes. Mas.

não que a gente não venha fazendo isso desde 1978. Elas são originárias da Nigéria. (Cláudio) — O projeto. O que a gente está discutindo é: vamos distribuir esse sistema de cotas. Mulheres que você não vê. Ficamos seis meses fazendo cursinho. entre eles alguns direcionados para a juventude. porque são eles que estão na faculdade. Só a Alexandra conseguiu 100% da bolsa. nós estamos dentro das universidades caminhando com recursos próprios. que o patrocinador financiaria atividades culturais. assim como quaisquer outros jovens negros trabalhadores. paga 70% da faculdade para sete alunos. E tem algumas. desenvolvida em parceria com a Fundação BankBoston. que usam máscara. Então. a gente quis recuperar alguma tradição. facilitar estágios em empresas parceiras e propiciar condições para o desenvolvimento integral de talentos. muito profunda. de quem não se pronuncia o nome. por causa da nossa formação no ensino público.. (Daniele) — A gente começou a ver. O Geledés é uma organização criada e dirigida por mulheres negras. a gente quer manter essas pessoas pensantes e atuantes nas suas comunidades. Não é porque o patrocinador saiu que a gente vai perder a causa. O projeto foi financiado pelo Instituto Xerox do Brasil.” (Solimar Carneiro.A empresa patrocinadora. Kolynos. a gente procura manter a unidade do grupo. Aqui na PUC nós temos bolsa de 50% doação e 50% restituído. mas a empresa encerrou o patrocínio antes da conclusão do projeto. assumimos um compromisso: quando a gente estiver formado. um ano após estarmos formados. tudo isso estava previsto no projeto. Inclusive porque o Instituto Xerox encerrou o projeto nesse momento. né? Todos os 20 conseguiram passar em boas faculdades públicas ou particulares. o Geledés está tentando batalhar outros financiadores. atendem 54 jovens afro-descendentes. para que a partir daí eles possam fazer uma intervenção qualificada dentro das suas comunidades. E. O que a gente vem discutindo é: já existe um sistema de cotas no Brasil desde o seu nascimento. No início contou com a parceria do Instituto Xerox do Brasil. acompanhá-los durante a graduação.A organização trabalha com inúmeros projetos. inclusive as mensalidades das faculdades particulares. mas aí o financiador disse que em nenhum momento ele se comprometera a pagar a faculdade. (Cláudio) — E mesmo com a falta do patrocinador. tipo. E a gente ralou muito para poder entrar nas faculdades. (Daniele) — Quando nós ingressamos no projeto. já dentro do mercado de trabalho.45 Origens e Propostas “Geledés é uma sociedade secreta feminina africana.As Geledés são consideradas meio bruxas. transporte. elas existiram aqui no Brasil também. (Élida) — Basicamente o ideal do Projeto Afro-ascendente era este: acesso e permanência dos jovens negros nas universidades públicas ou particulares de qualidade. E foi assim que nos chegaram as Geledés. de mulheres negras africanas. todo mundo se dedicou e tivemos 100% de aprovação. no atendimento a 21 jovens negros/as com seus estudos custeados da 8a série à conclusão da Universidade. tentando nos manter da melhor forma possível. presidente da Geledés) Projeto Afro-ascendente – ação afirmativa que pretende inserir 20 jovens afrodescendentes em Universidades. A empresa paga para os jovens desde o cursinho até o término da faculdade. o sistema de cotas já existe no Brasil: para os brancos. vamos dar condições para que outro jovem negro possa freqüentar a faculdade. e tem o compromisso de absorver esses jovens no programa de trainee quando estiverem no quarto ano da faculdade. e aí. Os brancos têm 100% de cotas. Quando a gente pensou em um nome para a organização. alimentação. nós estaríamos proporcionando a outro jovem negro a mesma condição que nos foi proporcionada por uma empresa. mas no começo do século passado. em projetos diferenciados. de início. E estamos aí. Hoje. teatro. Geração XXI – ação afirmativa pioneira no Brasil.. também dizia que nós teríamos computadores. mas até agora. Então. no programa de alguns vestibulares. que têm todas as dificuldades de permanência na Universidade. Próxima Parada Universidade – projeto que oferece o cursinho preparatório para a faculdade. Mas a gente teve professores muito empenhados e. . Somos os jovens negros. (Solimar) — Quanto à questão das cotas. muitas coisas que caíam nas provas que a gente não tinha a menor noção. assim. Diversidade – projeto patrocinado pela Unilever. na verdade você tem uma discussão acirrada na sociedade brasileira. cinema etc. Uma sociedade em que as mulheres detêm o poder político da tribo. atual- mente. que há 16 anos tem como missão combater o racismo e o sexismo. inclusive. (Élida) — Também xerox.

46 47 NÚCLEO CULTURAL FORÇA ATIVA .

Venha olhar nossa linha branca”. Eucaliptos no canteiro central. Caixas d’água esverdeadas pelo limo. Açougue: cartão de crédito e tickets. Vizinho. Passa uma casa com menininha de vestido rosa no portão. Um descampado enorme. Passa um Opala marrom. Passa a estação Artur Alvim. Passa uma porta azul. Já passou. Encostado na casa dela tem um bar azul de madeira. Aí o metrô acabou. As outras casas todas que passam são cor de reboque. Passa a Drogaria Lucy. Janelas e portas têm cor que não se explica. um bar com música ao vivo. aproveite você também. Passam templos enormes em nome de Jesus. Passa a estação Carrão. Passa a estação Patriarca. o príncipe do pagode. Passa um motel abandonado e cor-de-rosa. . Nova fábrica de blocos.800. Passa a panificadora Brasil Chic. Passa o bilhar dos irmãos Pereira. Passa uma casa de costas para a rua. Passa uma Kombi azul e branca. Passa a loja das Casas Bahia:“quinta-feira especial com mesa e cadeiras. Passam lajes com elementos vazados. Ambulantes vendem doces na calçada. porque os blocos de concreto desabaram. Passa uma ponte redonda. Passa uma janela vermelha. Passa uma fábrica de blocos. Passa um cabeleireiro.48 49 Para mudar essa paisagem assa a estação Tatuapé. Passa uma bandeira do Brasil pela metade. Passa uma Kombi 76 e está à venda: R$6. Passa uma casa de perfil. Passa a avenida Jacu-Pêssego inteirinha. Passa o Cérebro Cabeleireiro. Passa uma ponte comprida e alta. Mais eucaliptos. P E ainda não chegou. Passa a estação Vila Matilde. no muro da metalúrgica Vulcão. Ponto de ônibus: três mulheres e duas crianças. Passa o muro que anuncia bem grande: show de Reinaldo. Passa um portão verde. Passa uma banca de jornal fechada. vidro e metal. Passam muros com nomes imensos de candidatos a vereador. Passa mais um pouco de Mata Atlântica. eu vi. Passa a Mata Atlântica. Passa a estação Corinthians-Itaquera. Passa uma janela branca. Uma Belina branca passa. Mulher e moça passam de Havaianas. Passa uma porta branca. Uma araucária.

concentração muito grande de negros.. né? E aí você tem isso potencializado aqui na Cidade Tiradentes: bairro pobre. ativista do Força Ativa) Entrevista panorâmica. a boreste. porque se todos quisessem. O que você acha dessa paisagem? — É feia. a noroeste. nem tem saia tão comprida. entre capins. Vizinho um bar com Videokê. a norte. de serem todos bandidos.50 51 Vizinho um bar com forró e sinuca. Enfim uma praça. o capim alto desbarranca na paisagem. Passa mais uma fábrica de blocos. de marginais. a sul.. Mas é o que a gente tem e a gente se organiza para lutar e modificar essa paisagem. Vizinho. a bombordo. morador de Cidade de Tiradentes há 13 anos. 23 anos. a sudeste. o busto de Tiradentes que olha para o outro lado. quase em camadas. prédios de quatro andares prédios de quatro andares.. Outro salão de cabeleireiro passa. Aqui somos pessoas de bem que se organizam e resistem sim. prédios de quatro andares. prédios de quatro andares. de cobre?. mas diz (em letras de ferro?. Eu não gosto dela não. quase de costas para quem chega. um bar que está à venda. prédios de quatro andares. pouca estrutura. Se eu pudesse. Num muro pequeno. Vizinho um bar só com pinga e cerveja. violento. Depois. Então juntam essas coisas e daí nasce uma carga pejorativa gigante que ultrapassa fronteiras. No primeiro plano. Isso é uma mentira da sociedade. (Cléber Ferreira. né? E o grupo Força Ativa trabalha para alterar essa realidade. (Cléber) — Esse rótulo que a sociedade coloca para a gente. Uma mulher gordinha de saia comprida e blusa turquesa vem com duas sacolas pesadas pelo caminho de terra. 23 anos . prédios de quatro andares. Essas coisas que colocam um estigma na pessoa pelo local onde ela mora. eu trabalho para alterar essa realidade. nem tem blusa turquesa. Cléber. Assim começa a Cidade Tiradentes. prédios de quatro andares. prédios de quatro andares. De perto nem é gordinha. poderíamos fazer do Brasil uma grande nação”.. né? De violentos. de chumbo?): “é pena. para as casas que se esparramam na planície. E é tão grande e tão longe das vistas que só um esforço dos olhos faz a gente enxergar a figura de mulher que vem pela paisagem. se eu pudesse não. a mais que leste. Morro descampado.

.Tem brinquedos e gritos de alegria de criança. pela divisão dos bens aí. Como se o céu fosse a continuação do muro.Ainda era a Rússia. A I N DA N OS R ESTA U M A A LT E R N AT I VA . de futebol e as meninas. Quando terminou a música. Noooossa. uma foice e um martelo. AOS P R E TOS E P R E TAS R EVO LU C I O N Á R I OS. M O RT E AOS T E Ó R I COS D E M O DA . É um palco no meio de uma praça.. Para você pensar em participação política você tem que ter.Agora. “A estratégia do Força Ativa é o socialismo. no mínimo. Era um grupo de estudos. Atrás do palco. tudo dividido. Daí eu achei interessante e fui ver o que tinham pra dizer. né?. Aí que me despertou pra essa questão e eu comecei a pensar diferente e hoje às vezes sou eu quem faz a janta na minha casa. quase apanhei das meninas. O socialismo é isso. Dia de encontro.. Nesse cenário. 29 anos. E o muro a terminação do céu. O azul é tão azul que em alguns pedaços o muro se confunde com o céu. BEM-AVENTURADAS AS COMUNIDADES ZAPATISTAS. Espetinho do Amaral. na nossa opinião e na minha. mas não representa nada. nas falas das pessoas do grupo. o sistema de produção em série. porque você tem que ter o lazer. R E AC I O N Á R I OS. as meninas. eu lembro que um dia eu falei. P R E F I R O S E R S O L I D Á R I O. AO M ST. uma marcenaria. um pouco infantil. pensar em uma atuação política. A sede do Força Ativa que criou ali a Biblioteca Comunitária Solano Trindade. E a gente luta por isso. É uma transformação socialista. AG R ESS I VA M E N T E .. M E M A N I F ESTO. Cores iluminadas pelo sol de fim de tarde. tem um muro. 29 anos pra isso. (Cléber) — Eu lembro que a música falou de comunismo e falou contra o McDonald’s. Não tem. A outra coisa é a questão racial. condições de pensar. Falei:“Ah.”.52 53 Espaço comercial da Cidade Tiradentes: uma porta de garagem ao lado da outra – bar do Paraíba. nossa. Primeiro você tem que ter acesso à cultura. ele falou: a gente pensa que comer no McDonald’s representa alguma coisa. nós temos o entendimento que não é o Força Ativa que vai fazer a revolução que a gente tanto sonha. porque é coisa de mulher. Contribuir quando você dá livros ao invés de outras coisas. você não tem outra saída a não ser dividir. Cléber lembra que se encantou com os ideais do grupo.” (Washington Góes. você tem que ter as suas condições objetivas resolvidas. quando ouviu Góes cantar um rap. preciso pegar minhas irmãs que elas têm que fazer a janta. A praça mais bonita do bairro. Grafite colorido no muro. nas intervenções. Se não divide. estudante de Letras na PUC e ativista do Força Ativa) A história do Força Ativa está ligada à história do rap. eles estavam discutindo a implantação do taylorismo na Rússia. cada um aperta um parafuso. Daí as meninas:“Como assim? Por que você não faz a janta?”. VA L E U FO R Ç A AT I VA . o que infelizmente acontece em alguns outros grupos do Movimento Negro.Todo mundo gostava de rap. AOS V E R DA D E I R OS M I L I TA N T ES D E ES Q U E R DA . é dividir. um pouco enevoada. o Força Ativa não proíbe a entrada de brancos. algumas pinturas dão pistas do que acontece ali: as barbas de Marx. acesso a livros. em vez de painéis ou o cenário de um teatro. tenho que ir embora. P OST U RA R EVO LU C I O N Á R I A L E TA L M E N T E . S O C I A L I ZO P E L A V I DA . V Í T I M AS F L AG E L A DAS D E U M M U N D O T Ã O A M A R G O CO M O F E L . Q U E V E N H A A BA I XO O C É U. No nosso dia-a-dia. alguma coisa impressionista. FO I . a gente – e até com base no que estudamos e pregamos – vê uma única alternativa a esse mundo burguês: é a revolução socialista. Mas é contribuir Washington.. RA D I CA L . durante a revolução.. Na última porta.. aí eu me apaixonei pela discussão e falei: não dá pra ir embora.Alguma alegria.Você tem que ter e aí é um paradoxo.Tito canta um rap: EST U P RA RA M A B O N DA D E N AS C E N D O N OSSA G E RA Ç Ã O. puts. S O C I A L I ZO P E L A V I DA . você tem que ter uma vida tranqüila pra você pensar em livros. R E A L I STA .

” Depois de muitas segundas-feiras a maioria. Inteligência. tem Fuga das Galinhas. 7.. a gente já trabalhava e aí fizemos uma parceria para que a gente atuasse dentro do CTA. mecânico geral.. veio de Itaquera. eu quero orientação. agente de prevenção do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids) da Prefeitura e mais um do Força Ativa.54 55 — Meu nome próprio é germânico:Wagner. tinha pais também que vinham juntos na orientação e vinham para também assistir a orientação sexual. que os pais não liberam. de limão. então elas vinham.”. E vinham falando: “eu quero camisinha.” Alguns falavam: “Eu transo. Esse trabalho começou de um dado que a gente pegou na Secretaria Municipal de Saúde. (Tito) — Porque eles já vêm com uma visão de sexualidade de casa. Uma pena. a menina pode ter 12. Roberta. aí o que acontece? Uma incidência enorme de gravidez na adolescência. O menino pode ter 8. às vezes. A gente fazia parcerias com as diretoras. As profissões ficam assim diferenciadas umas das outras apenas pela nomeação. poderia atuar nessa área?”. é aqui o point do momento. o setor 65 etc. do hospital onde trabalha como assistente social. E aí o menino não pode mais participar da orientação.. disseram:“Não. outras vezes de números: o setor G. de bate-papo.. mas saquinho de gelinho não vai te prevenir. (Roberta) — Agora. Então eles viam os adolescentes. esse sexo pro meu filho. que costuma ser diferenciada por setores. tem autorização assinada a gente libera”. Aí a gente começou a discutir com eles por que eles queriam tanto camisinha e essa coisa da sexualidade vulgarizada na televisão. Então nós pensamos:“como é que a gente. O último momento é liberar a camisinha. mas é difícil. Eu falava:“Ah. nos seus prédios exatamente iguais. 27 anos . E falavam:“eu quero camisinha. eu quero camisinha”. A gente perguntava:“Pra que você quer camisinha?”. eles também chegavam:“ah. Tenho 27 anos. que se cogitou a idéia de ter um serviço de prevenção. que é mais um ato simbólico. Eles vinham e falavam abertamente:“Se eu não pegar a camisinha.. Aids. Sempre era pornô. Isso com os meninos. (Roberta) — Aqui no CTA começou a vir crianças de 6. estão: Marx. viu? Mas eu não agüento essas profissões tão difíceis de você lidar. Ali. Mas o lance mesmo é bater um papo. O mais novo tinha cinco anos. Lembra. grafitados no muro. 8 anos por conta da escola que tem ali. As crianças vinham e entendiam que o CTA era um espaço de lazer. Então estou investindo na área social e é difícil pra caramba. se não todos. né? Eles tinham visto Emanuelle. mas a média era 8. eu quero 30”. tirar dúvida. E a grande diferença aqui é o prédio pequeno do CTA onde Tito trabalha. Aí tem um espaço de dar camisinha. No CTA é cota negociada: a pessoa é quem diz o quanto de preservativo ela quer. vai até em saquinho de gelinho”. montava um cronograma e ia desenvolvendo. 9 anos de idade. ou então de categorias profissionais: setor dos bancários. quero camisinha”. Quando chegaram aqui. para encontrar Tito e juntos falarem sobre o trabalho do Força Ativa na questão da sexualidade. então tem que ter algo melhor. Elas vinham. dos bons. 13.. mas aumentado na Cidade Tiradentes. que tipo de filme eles queriam ver. Roberta. de que a Aids tinha diminuído em São Paulo. se tem questões a serem tratadas referentes a prevenção. Sou educador na Febem do Tatuapé. tem uns pré-adolescentes que já estão na atividade. frisador. chegavam aqui: “Tem Emanuelle?”. Eles levam o nome. mas quem percorre a Cidade Tiradentes e é apresentado aos seus setores percebe que os gráficos são iguais aos metalúrgicos. que são iguais aos ferroviários. Solano Trindade e outros personagens. terreno descampado que sobe em pequena elevação até a parede lateral da Biblioteca Solano Trindade. porque ela é que sabe da vida sexual dela. torneiro. dos metalúrgicos. “Não. Meu sobrenome escravocrata é Silva de Souza. que passou na TV Bandeirantes e eles assistiam em casa.. Por acaso esta praça está no setor dos bancários. (Tito) — O trabalho é de conversa. sou contador. A gente tá sempre tentando conversar com os pais. a gente é criança ainda”. Quando o CTA veio pra cá. sexo. mas eu sou Tito: Trabalho. Terra. preconceito sexual. da escola e até mesmo da rua e sexo. eu preciso de camisinha”. a gente nem beija na boca. acabaram confessando que nunca nem tinha beijado ninguém. A gente fechava temas com eles. ficavam brincando no jardim. eles vêm pensando em sexo. 9 anos que os pais liberam.. com oficinas. o que a gente ia discutir. filas de formigas que passam. sexo. enquanto organização juvenil. Então a gente discutia sexualidade. do telecentro e porque moram muitas crianças aqui. capim alto. A Cidade Tiradentes é tão grande e tão parecida nas suas esquinas. Roberta Pereira da Silva. Agora.. de letras. ativista do Força Ativa. Teoria e Objetividade. dos ferroviários. 23 anos. pegavam. (Roberta) — O Força Ativa já vinha fazendo um trabalho de prevenção de DST/Aids nas escolas municipais aqui na Cidade Tiradentes. retificador.Também sou vendedor. prevenção. DST. “Pra dar pra minha mãe. que são iguais aos bancários. diziam que transavam e depois de alguns meses nunca tinham nem beijado. 23 anos e Tito. aquele pai que chegou aqui e tirou o menino da oficina de sexualidade e falou:“Fica ensinando essas porcaria. as meninas têm um problema maior: os pais não liberam autorização para a menina pegar camisinha. dos gráficos... No CTA tem pé de goiaba. os adultos pedirem: “quero 30”. né? Não esquenta. escola municipal.

27 anos. sem custo nenhum para quem quer ler um livro. para mim. as atividades na biblioteca. N Ã O S E JA U M M EST R E DA B U R R I C E . P R O CU R E S E I N FO R M A R. Fernandinha. Ela. P R EST E AT E N Ç Ã O N O Q U E VO U T E FA L A R AG O RA . ativista do Força Ativa) Daqui de dentro da biblioteca. P O I S É A M Á Q U I N A D O T E M P O. Foi com você. S Ã O TA N TOS Q U E FA L A M M E R DA . estudante de História na PUC.. ESS E E N J Ô O É U M TO R M E N TO P R O CU R E L E R U M L I V R O. né? Sobre a comunidade. .. E ela não consegue dialogar com os novos personagens que estão chegando. Fernandinha. As duas vão contentes. que leiam um livro e se reconheçam naquilo que estão lendo. Então.” (Fernanda. a ter um entendimento crítico das coisas. Eu tive o privilégio de ter uma professora. nem explorado. S Ó T E M CO I SA P RA B OY E V E R OS P R E TO P E D I N D O ES M O L A . ES CO N D E A N OSSA H I ST Ó R I A . nem explorador.. 23 anos. porque ela possibilitou a gente refletir. Porque a gente não veio com uma referência de luta. M E U I R M Ã O. nem patrão. S E L I GA N AS PAT R I C I N H AS Q U E A PA R EC E M N A M A L H A Ç Ã O. E OS G RU P O D E RA P Q U E EST Ã O S U R G I N D O AG O RA . (Homem) — Mas sem lucro? (Fernandinha) — Sem lucro. com seus mais de 4 mil livros. VA M OS L E R M A I S L I V R OS E M OST RA R A V E R DA D E I RA H I ST Ó R I A . cabelo inteiro de trancinhas.A biblioteca funciona como se fosse pública. Sábado vai ter uma atividade que é ler. foi a dona Edi. se você quiser participar. mas o difícil não é você entrar na academia. claro. é isso que a gente está tentando. Posso trazer meus filhos também? (Fernandinha) — Pode. M E R G U L H E N A H I ST Ó R I A . canta um rap: E I . de nada. Cruza com a mãe e a menina no caminho de terra em frente à biblioteca. então isso pra mim é que é educação. Lembra? Por que vocês ficam aqui no domingo o dia inteiro? O que é? (Fernandinha) — Ah. O H .. pode-se ler no murinho que dá para a rua: nem pátria. senão eu venho. o difícil é você conseguir permanecer nela com todo histórico educacional que a gente tem durante toda a nossa vida. para a menina. Acho que é pela necessidade de mostrar aquilo que não é mostrado. (Homem) — No sábado eu não vou fazer nada. como uma pérola rara. elas entram nas áreas de humanas. 23 anos Lá vem o homem do algodão doce. “Eu quero que as pessoas se conheçam na própria história. A mãe compra um algodão doce.. é um exemplo de educadora de verdade. azul-clarinho. ESS E T I P O D E CO I SA P RA VO C Ê É I N FO R M A Ç Ã O. E aí o exemplo que eu falo é o da PUC. no ensino fundamental. só se eu pegar uns carretos por aí. preta como a ônix. E I CA RA . ela tem o molde e você tem que se inserir dentro desse molde.56 57 Fernandinha. C H EGA D E L E R B EST E I RA . A universidade é classista. T E L EV I S Ã O É U M A D R O GA . C H EGA D E BA BAQ U I C E . as reuniões são abertas. (Homem. onde uma grande parcela de jovens está entrando por uma perspectiva de bolsa. (Fernandinha) — Então a devolução fica para o dia 17. Então. que despertou em mim a vontade até de fazer faculdade de História. uma das mediadoras de leitura. puxando conversa) — Eu peguei outro dia o livro do Darcy Ribeiro. magra.. atende o pessoal da comunidade que vem retirar livros. Acho que é com esse objetivo que geralmente as pessoas estão em movimentos sociais. escrever e contextualizar.. que tenham conhecimento de um fato histórico e se reconheçam naquele fato histórico. O caminhão de gás passa com seu som de música clássica e toma conta do ambiente da biblioteca. alta. de povo.. E hoje ela não está preparada para receber esse leque de pessoas que estão entrando agora. a gente discute várias coisas. se você quiser aparecer. ela é destinada para uma classe social.

eu acho que essas amizades teriam virado uma parceria mais perigosa. E foi legal que foi. (David) — Esses foram caras assim. Estava cabulando aula. Sala da casa de David. Isso me criou um espírito de vingança. perdem o todo e ficam só as partes. Um sofá. pichações enormes. foi fulano que matou seu pai.. eu pensava: “caramba. Se fosse antes. Che Guevara para mim. Uma foice. David esquenta o café. insistentemente. estava aí com os amigos na rua.. Eu fui pichador. Ele foi vítima de um latrocínio aqui na Cidade Tiradentes. tão de perto. nós fomos pichadores e isso aí se refletiu no meu quarto. um pôster dos Racionais. ativista do Força Ativa.. uni-vos”. está sentado na cama.” . Na parede alguns retratos: Che Guevara e um pôster de Marx. você tem que ir lá. eu conheci uma pessoa que me falou:“David. alienada da minha vida.. eu sou ativista do Grupo Cultural Força Ativa e estou aí junto com o pessoal tentando melhorar a periferia de São Paulo e quem sabe do mundo. roubaram e depois mataram meu pai.. Eu tenho muitos amigos que optaram pelo lado da criminalidade e eu mantenho uma relação ainda estreita com alguns deles. vamos dizer assim. deixaram muitas coisas boas por aí que a gente está aproveitando e a leitura que eu sigo é a leitura marxista. Têm um mundo a ganhar. Essas pichações. dessas para se ver de longe. David. curtindo. até encontrar o Força Ativa. do guarda-roupa.Através do Força Ativa eu pude entender que essa pessoa que assassinou o meu pai não é o verdadeiro culpado. foi uma época. teu pai cara. o meu irmão também. estava enfim. no fliperama. algumas plantas. Eu estava aí na balada. é legal você participar das atividades do Força Ativa.. eu era um rapaz comum aí. Ele está lá agora. do alto de um prédio. Mas aí o pensamento veio na família. tenho certeza que eu não teria pensado duas vezes em me vingar. pessoalmente. A arma está aqui. E talvez se eu não tivesse conhecido o pessoal do Força. “O meu nome é David. eu estou dando uma oficina para outros jovens. do metrô. cabelos de longas tranças. contribuíram muito.Antes de entrar no Força Ativa. olha pela janela.58 59 Quarto de David. tem bastante lembrança aí daquele tempo. eu poderia estar talvez num outro caminho!”. 25 anos . David. com o seu pensamento: “Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Nela os proletários nada tem a perder a não ser os seus grilhões. Porta vermelha. Proletários de todos os países. depois de entrar no Força Ativa.. estava participando de coisas talvez sem nenhuma importância para a minha vida futura. Linhas retas ou curvas. Uma divisória de meia parede separa a sala da cozinha. Foi legal que isso aconteceu depois que eu já estava nesse caminho da militância.”. 25 anos. sem indicação de onde vão parar. aí no mundão. por onde entra um risco de sol. na minha mãe. camiseta da seleção da Argentina.Quando eu comecei a participar foi uma vitória.. educador social na Febem) Letras vermelhas indecifráveis somem atrás da cômoda. da avenida. Nas paredes.. Um cachorro late bem perto. Eu preferi não saber quem era. minhas irmãs.Vistas assim.A minha sorte é que nessa época tinha alguns amigos que já estavam na área da militância e estavam sempre ali comigo: “vamos lá David. um martelo. (David) — Eu perdi meu pai há alguns anos e isso mexeu muito comigo. Ainda fui requisitado outras duas vezes: “pô.” (David Brehmer. Na hora que você quiser a gente dá uma passada lá”.. que ajudaram demais. O verdadeiro culpado é o sistema capitalista. e eu já tinha um entendimento maior. Paredes brancas. com moldura de gesso. foi um grande herói e está aqui na minha sala fazendo parte do meu dia-a-dia. atrás de capas de revistas blackpower americanas.

Dentro de cada comissão. As mulheres voltam do trabalho. Regina fashion hair. A Cidade Tiradentes pouco se vê. 29 anos. até como forma de sobrevivência e ocupação do espaço.60 61 A noite está quase. a igualdade entre homens e mulheres. hoje teve picadinho. Os participantes são jovens. Origens e Propostas O Força Ativa é uma organização juvenil que tem por proposta promover a conscientização política da comunidade local. a luta dos semteto... através dos informes. Cada pessoa que está trabalhando por influência do grupo. Uma névoa. Era um bar. Hoje nós temos três comissões. sexualidade e auto-estima. Uma esquina. tanto nas atividades nossas quanto nas atividades externas. voltam pra casa.” (Washington Góes. Desenho de mulher em escova definitiva. Criou o projeto “Vamos ler um livro” e fundou a Biblioteca Solano Trindade. A G E N T E CO M PA RT I L H A : I N FO R M A Ç Ã O. ainda tem sonho e pudim. Mais um dia e ninguém comprou. onde se dedicam ao aprendizado do pensamento marxista. “A gente não abre mão dessa coisa de estudo. Passam os salões de beleza. hoje com um acervo de mais de 4 mil livros. não tem uma divisão assim. Entre as ações. na loja de móveis usados. Passa a padaria redonda. ESSA É A SA Í DA . todos da periferia. estudante de Letras na PUC e ativista do Força Ativa) O Força Ativa realiza oficinas com a comunidade sobre questões raciais. 23 anos. A maioria é de estudantes. Foi criado em 1995 e atua na vida política do bairro de Cidade Tiradentes. cada integrante do grupo dá uma contribuição mensal de 10 reais. 27 anos. Existe uma participação equilibrada entre homens e mulheres. O bar do Chico passa. Era uma igreja. ativista do Força Ativa) Quase todos os integrantes do grupo cantam rap. O Força Ativa é organizado em forma de comissões. tem divisão de tarefas. Uma neblina desceu sobre São Paulo.A gente faz um cronograma das atividades do seminário anual e aí em cada reunião. A cama branca de ferro já está sendo guardada. Uma luz amarela passa. um orelhão. FO R Ç A AT I VA T E A L E RTA . outro bar e ainda outro. AQ U I N Ã O T E M S E R I N GA . em São Paulo. P O L I T I ZA Ç Ã O. cada um fica responsável por ir a algum lugar em algumas atividades. em sua maioria pretos. cada integrante do Força Ativa tem que estar dentro de uma comissão. dá 10% do seu salário para o grupo. menos que chuva. As mães. Uma casa azul comprida passa. Realizam também grupos de estudo. fazer determinadas coisas. São duas comissões (captação de recursos. Então é assim que a gente mantém a biblioteca. e a luta contra o machismo. “Todos fazem tudo. a luta do MST. a igualdade de direitos e oportunidades. ativista e mediadora de leitura do Força Ativa: V I AJ E N A I D É I A . depois de pegar os filhos na escola. Este é um deles. . oficinas e imprensa e comunicação) e a executiva. Como o grupo não é autônomo. antes da noite. estudante de História na PUC. tudo é executado por deliberações da assembléia. a mais importante é a participação nos movimentos sociais: o movimento da infância e da juventude. para incentivar a leitura entre os moradores do bairro. nas reuniões consegue organizar um lanche etc. menos que garoa. não tem ajuda financeira de nenhum lugar. Seus temas: a consciência racial e a luta contra o racismo. ou através do grupo. de gênero. Passa um bar ao som de um forró. cantado por Fernandinha.” (Fernanda. Então cada um. E M N OSSA BAT I DA . as atividades.

62 63 GRUPO INTERAGIR .

cada rampa.Talvez não seja uma foice. P . num mármore que se estende. formado em Ciência da Computação.. ou numa figurinha de chiclete. E que inteira fosse bela. Ceilândia é assim. bambeando num pau dormente. a acenar pra nós. por mais gente que tenha. A foice se equilibra no martelo e lá. não consegue. menos que a Lua rimeiro o arquiteto pensou a forma. também.. Sobre a cidade pensou os homens que habitariam a cidade. Aqui você não consegue fazer concentração de pessoas. não para os homens. Mateus. cada porta. aqui. Belamente longa. Avenidas monumentais. como o horizonte no cerrado. mas uma lua de quarto. Na praça dos Três Poderes. você vai lá e encontra espaços vazios o quanto você quiser. Belamente triângulos e curvas. dentro da foice. feito estátua.A praça dos Três Poderes é uma das maiores do mundo. nos explica que cidade é esta. cada arco. no papel. sei lá. Belamente cimento armado. que as medidas dos passos.Tem a Praça Vermelha. — Eu vi uma vez no Guiness. Belamente monumental. Você não tem multidão. eu acho. 22 anos. assim. Você não consegue concentrar gente aqui. quase grande igual.64 65 Brasília é a Terra. mas para que a humanidade coubesse inteira. o eixo monumental é a maior pista do mundo em largura: cabem 61 fuscas de uma pista a outra. cabe inteirinho o presidente Juscelino. Maiores que as medidas dos braços. feita milimetricamente. Sobre a forma pensou a cidade. na largura. mesmo com 120 mil pessoas. comprido. neste planalto. enquanto dirige seu carro.

pensa a cidade que é Brasília. Para mim o melhor momento sempre é quando vejo uma pessoa dizer:‘eu posso’. eu sou engenheiro’.Aqui não tem e aí você tem uma praça enorme. querendo sair do grupo.. já estavam lá. Noite passada. sabe? De você sair ali do seu quarto. cara? Eu sei que antes de estar com o Interagir era uma coisa. visto assim. Carla e Carol . alguma chuva. sabe? Tipo assim..” (Marcelo. por ser omisso. bacharel em Direito e estudante de Ciência Política.’.. formada em Engenharia Florestal. Erika. como eu briguei muitas vezes com o Henrique. Quando você passa a fazer parte do Interagir você começa a perceber a possibilidade que você tem de fazer uma coisa mais. E foi aí que a gente teve a idéia. não tem ninguém. porque quando você vê que pode sair daquilo ali. não na linha assistencial. pela janela. a integração de todo mundo. 20 anos. eu comecei a ver: nossa. depois de estar com o Interagir é outra coisa completamente diferente. eu também sou engenheiro. As pessoas não se juntam em praça. mas aqui é o corpo do avião. estudante de Antropologia) (Mateus) — No final do terceiro fórum. falando um pro outro: “eu te amo”. A gente queria fazer coisas mais na linha de desenvolvimento. que têm uma igreja. Assim é que chegamos a Brasília. como a praça dos Três Poderes. todo mundo está aí na Universidade ou em vias de entrar na faculdade. estressado. sabe? Se você tem certeza do que você quer.66 67 O Memorial JK aparece inteiro numa curva dos óculos “Matrix” de Mateus. e a cabeça do avião fica lá. eu pensei:“quero fazer alguma coisa como voluntário”. E aí você se lasca. O corpo de um avião. Duas asas sobre o chão. fui bem acolhido e comecei a trabalhar na equipe Antes do passeio monumental. (só nas palavras carregadas de letras “a” ou letras “ó” o piercing fica visível no seu brilho). Uma turbina de avião. — Brasília não tem praça. 24 anos. fora o conteúdo mesmo. bicho. Assim é que enxergamos a cidade. Para o lado direito é a Asa Sul e para a esquerda a Asa Norte. Aí percebemos duas coisas: tem um monte de gente querendo fazer trabalho na comunidade e não sabe como começar. Quando entrei no Interagir. Carol. Aí eu pensei em fazer um projeto com os jovens dentro do Centro de Voluntários. pô. do corpo de outro avião. jovem. — É um grupo constituído de um grupo social específico. – Mas a gente está aqui sim. Doze jovens em volta de uma grande mesa nos contam o que é. até os ombros. Erika. Luísa. eu posso fazer coisas.. onde é dirigido o Brasil. E tem um monte de pessoas que já fazem trabalhos na comunidade e não se conhecem. não ficar só na Internet. juntei uma galera e assim começou o Interagir. que não é convidativa. Mateus olha pra ela pelo espelho retrovisor. então a gente precisa gerar informação. piercing na língua. minha vida não precisa ser sempre esse caminho que eu vou seguir reto e Luísa. outras vezes com a Erika e com a Mariana. Marcelo vem com os cabelos molhados. Carlinha. quando chegamos. mas eu não preciso ficar esperando ninguém fazer as coisas por mim. então tudo é possível. Clóvis. Os meninos de Brasília vão chegando. em 1999.Asa Norte. ver que você pode sair daquilo ali e esse é o problema. cara.. Henrique. A gente é cutucado. a gente se emocionava muito depois desses encontros. E a resposta que a gente dá é: queremos ser ponte. setor residencial. A gente começou a fazer o site. Cabelos lisos. e não representantes. No banco de trás. têm um lugar e as pessoas sentam nos banquinhos e conversam.” (Lilian. — E aqui é o centro da cidade. quais os objetivos do grupo Interagir. mas todo mundo sacava a interação do grupo mesmo. de fazer um fórum. digamos assim. Não tem a história das outras cidades. “Existe um marco. e daí. Começou com um site. a proposta era fazer um portal na Internet com a idéia de divulgar informações para os jovens que quisessem fazer alguma coisa pela sua comunidade. do Centro. agora eu descobri o mundo. de ser muito brother mesmo. Então eu cheguei. é claro.” (Pablo. é quem começa a conversa: — Então. Então é um marco. não sei o quê. O Marcelo falou assim:‘pô. “Acho que todo mundo. Quando vi na TV um negócio sobre o Centro de Voluntários do Distrito Federal. você não consegue mais voltar. mas no final todo mundo deitado no chão. Mohana e Pablo chegaram depois. que em 2001 foi chamado de Fórum de Jovens Voluntários. a sua vida muda. 22 anos. a gente quer. engenheiro) “Porque geralmente está todo mundo tentando proteger a gente. e aí a gente começou a pensar em ações que podiam ser desenvolvidas dentro do Distrito Federal. 25 anos. cara. de uma classe social favorecida. você vê um monte de coisas. Lilian vem de bicicleta. Uma grande reta. Clóvis. sabe? Você vê pessoas que passaram 12 meses ralando. muitas vezes com o Clóvis. Se lasca muito no bom sentido. Clóvis.Você sabe que está todo mundo ali com o sangue e a lágrima. que são as duas asas do avião. então vamos continuar com nosso site. brigando. Lá eu vi que tinha gente fazendo coisas legais com os jovens. castanhos-claros. sabe? Tipo: ‘ah. 24 anos. a vida antes do Interagir e a vida depois do Interagir. então vamos começar a estimular encontros entre essas pessoas. Você é responsável por ser omisso. Luzes na pista e na cidade. começou de uma inquietação. algumas curvas. no final de 2000. só pombos. engenheiro) “Você é responsável até por não escolher algumas coisas.. nos olhamos. Manhã. se é que essa cidade tem um centro. chorando. É um grande desafio. sabe? Você ter 34 pessoas se abraçando. na casa de Renata.. Mateus. ainda que estivesse todo mundo desgastado. Eu não preciso ficar só reclamando do governo. Varanda da casa de Renata. De avião para avião. só que a gente percebeu que queria fazer outras coisas também. A gente sabe da diferença que a gente tem com relação a grande parcela da juventude brasileira – diz Clóvis.

seja ele qual for. faz parte da minha vida. eu posso. 20 anos. Existem pessoas que cuidam de mim. no meu caso. Eu acho que desde manhã a gente está percebendo isso. para as pessoas. todo gente boa. “Empréstimo para aposentados”. à minha família. fora dessa varanda. tem articulação de políticas públicas. pessoas que eu posso cuidar e eu faço parte disso. Tem a ambição de tentar englobar tudo. com quem os jovens do Interagir já fizeram algumas parcerias.. a gente tenta facilitar. “Acho que a gente não tem ambição. sabe? Tudo bem é um hoje.” Sabe? O velhinho não tem nada. vai ser sempre assim. esses encontros. se eu quiser mudar minha vida. indo com Mateus e Erika para Ceilândia. mas qual a relevância do Interagir para o mundo? Qual é o impacto que geram essas ações para esse planeta.68 69 pronto. 22 anos (Clóvis) — A gente está fazendo alguma coisa.. essas possibilidades. são simples. não porque a gente acredita que o jovem tem um potencial para o futuro. “Vestibular Gratuito.. quando se fala de olhar para aquilo como geração de capital social. E minha vida hoje é eu saber que minha vida não se resume só ao meu cotidiano. se a gente consegue conviver com tanta desigualdade assim? Acreditando que a gente serve. ele me disse. Então é nessa linha. estudante de Psicologia) (Clóvis) — A gente trabalha com jovens porque a gente acredita no jovem hoje. quando se fala de um encontro de pessoas. ele também. acreditando que a gente quer mudar essa realidade. a juventude do partido político tem essa ambição de ficar representando tudo. Não tem como. Não. resolvi ajudar. de tentar engolir tudo. Henrique. e ele “ô”. nesse querer transformar um espaço onde tem uma desigualdade social que atinge a cada um de nós. que é o capital social. que quer isso e aquilo. Será que cada um de nós serve para alguma coisa. A gente tenta criar esses espaços. a melhor coisa que o Interagir me deu foi isso: sou responsável pela minha vida. Houve um momento de luz. quando se fala em proporcionar espaços. que é um velhinho. Ele simplesmente só pede dinheiro. o quanto é importante esse espaço aqui para a formação de cada um. já que a gente diz que quer mudar o mundo. Eu sei que agora. qual é o nosso planejamento. como outras organizações. minha vida é o que eu vejo. (Clóvis) — Eu acho que a pergunta que ainda está para ser respondida é: e o quê mais? Fora dessa sala aqui. que é esse estímulo de democracia. mas que coisa é essa? Ela se consolida em algumas ações que existiram. Acho que a gente não tem essa ambição. sem gastar rios de dinheiro”. a gente não conseguiu até agora definir o que vai ser nos próximos meses. é um encontrar. aí um dia ele estava distribuindo panfleto. Tudo isso é uma coisa só. tem fórum. Essa é uma necessidade que já está há algum tempo e é o nosso desafio agora. (Henrique) —Tem um cara no sinal do sudoeste que é o seu Zé. o seu Zé ali está triste e eu vou ficar de boa”. Mas esse espaço gera reflexo fora daqui? Acabaram as avenidas monumentais. no próximo ano. até começarem os quarteirões planejados de Ceilândia. tem oficina. uma das cidades-satélite de Brasília. na fala de cada um. é que a gente tenta gerar essas soluções. “Pô”.Todo mundo que passa: “ô seu Zé”. um momento de inspiração para a construção da proposta conceitual do Terceiro Fórum. esse estímulo de vários sentimentos. mas acho que a pergunta que ainda está por ser respondida é: o que a gente faz e pra quê? Que “pra quê” é esse. tem projetos. 22 anos. Não tem como eu olhar para o lado e falar: “poxa. não tem como separar. Por exemplo. essas oficinas e vários projetos que a gente faz. Para mim. Não tem como minha vida não estar no país onde moro. isso e aquilo outro. Lá vamos encontrar o pessoal do grupo Atitude. em nenhum momento a gente conseguiu parar pra pensar o que a gente quer. estamos na estrada.” (Henrique. faça Geografia. que a gente aprendeu no decorrer dessa estrada. propostas de vida mesmo. não estar com as pessoas com as quais eu convivo. mas é solidário com os outros. . a nossa missão é articular e promover outras iniciativas que não necessariamente do nosso grupo. que são essas relações de confiança. não se angustia por não ter essa representatividade enorme. E essas soluções estão muito no nível de gerar uma expressão. estudante de Sociologia) (Erika) — A gente nunca conseguiu. Longa estrada de outdoors. são também a nossa vida. justamente para permitir um olhar no horizonte. que o jovem possa descobrir seu caminho. E é muito isso..” (Renata. são ações pequenas. “o carinha não estava conseguindo distribuir tudo.

Alguém passou e deu um pixo nas paredes. E nem sempre é possível. assim. Grandes quadras. Isso é coisa de homem? Tá ganhando grana? Não? Então não vale de nada. Por exemplo. E foi muito importante pra gente chegar próximo dessas pessoas. por exemplo. tinham carro. agregar um valor para a comunidade. sacou? Dos pais reclamando. então a gente conseguiu. É um estereótipo. E eu fico vendo que isso é muito. Aí quando a gente começou a se relacionar mais com as pessoas do Interagir. assim. são muito piadistas. A maioria das pessoas da nossa realidade come uma vez por dia. continuavam a ter outras necessidades e a gente tinha que respeitar isso. foram presos movimentando 100 mil reais por semana. A gente andava de dez a 15 quilômetros para fazer o trabalho. Então. Garoto branco. Em Ceilândia. a forma de lidar com as questões que eles têm trabalhado é uma referência para a gente. da forma de falar. nesse estereótipo do menino de classe média. o imaginário do jovem dessa comunidade seja muito mexido. de estar mais próximo. (Mateus) — Esse contato do Interagir com o Atitude não é só um contato institucional. a escola é inadequada. de Recife. é bem complicado. De qualquer forma. tinham uma visão de mundo bacana e a gente conseguia ter um diálogo e a gente conseguia. de quem tem um monte de coisa garantida. mete a porrada na gente. Nossa história é marcada por a gente cruzar a Ceilândia a pé. Brasília esquece de olhar para Ceilândia. Raramente uma menina vê valor num cara que trabalha para mudar a cidade. sabe? São as coisas reais. cabelo liso. — O Interagir foi um grupo que a gente conheceu há alguns anos atrás. uma parceria muito valiosa. E eu acho que é isso que a gente tem que começar a mudar: essa mentalidade daqui. assim. a saúde é inadequada. também me dá a capacidade de sonhar. quando eu encontro o pessoal do Atitude é outro tipo. acho que o Interagir me dá muito o pé no chão. a gente não está existindo! Antes de conhecer o pessoal do Interagir. existe outra escolha e a escolha que a gente está mostrando pra eles é: existe a arte. foi fantástico. enfim. Quem fala é Sérgio. um cercadinho mesmo. que faz com que a gente perca muita coisa e caia nessa coisa fácil e rasa de dizer que a pessoa é de um jeito ou de outro. protegido por uma grade na porta. oficinas. assim. Então tenho o pé no chão. conseguiu ter contato com muita gente. Ceilândia seria uma delas. enfim. tinham roupas novas. 20 jovens.. para a nossa comunidade aqui isso não tem valor. eu era peão de obra e trabalhava de bico de ajudante de mecânico. A postura que eles têm. pô!. no tráfico de drogas nas comunidades. Aí se eu começo a andar com o Mateus. não é só a distância geográfica. enquanto conta a história do seu encontro com Mateus e com o Grupo Interagir.. não tem nada. e os caras contam umas coisas. de qualquer outra grande cidade brasileira... é um desafio para a gente conseguir trabalhar com esses jovens. fica o escritório do Atitude. Isso gera uma angústia e uma frustação de que. mas aqui eu tenho um olho também. da periferia de Salvador. Então. a gente percebeu que eles tinham outras necessidades. mas não estavam completamente satisfeitos com a vida. que é um olho muito importante. você precisa conhecer a realidade que está aqui a dez. cara. de pessoas que querem contribuir com a nossa sociedade. sabe? Quando eles fizeram o primeiro Fórum a gente participou. Ceilândia gira em torno de Brasília. 15 quilômetros da sua casa. de repente os caras até se afastam de mim. é coisa de homem. A gente é privado de vários serviços públicos e ainda tem uma política de segurança inadequada. muitas fantasias. Hoje a gente tem um problema muito grande com a questão do tráfico. só atrasa a gente pra caramba. Ceilândia vive de olho em Brasília. a polícia chega aqui e em vez de proteger. não só nessa questão de ter o primeiro contato e diminuir os preconceitos que a gente tinha. cidade-satélite e Brasília. Aqui. há um ano e meio. “Aí a gente olhou para o Mateus e falou: ‘Ih! Que playboy!’.70 71 Brasília é a Terra. Isso faz com que a mentalidade. pelo menos quase todos os jovens aqui da Ceilândia conhecem a gente. sei lá. mas o contato com o Atitude me dá muito um outro olhar que não tem como eu ter esse olhar em Brasília. ele carregava o estereótipo da imagem dele. que para a gente tem muitos mitos. a gente sentou no chinês que tem ali e esses caras. A gente está buscando um valor para isso. foi muito importante para a gente. o mesmo gosto estético que se vê na paisagem da periferia de São Paulo. Pela janela. de quem tem um futuro e a gente está no caos. Se a Terra tivesse em torno dela umas dez luas. mas os caras contam de uma forma que você não consegue fazer outra coisa senão rir. A gente conseguiu um amadurecimento no nosso grupo. O tráfico tem seduzido muito esses jovens. as pessoas não têm roupas novas. porque isso não ajuda em nada. Os valores e a concepção de mundo que a gente tem são muito diferentes. E outra coisa também: eles estiveram com a gente dando idéias. com casas comerciais. De um modo geral. muros. um mapa com os quarteirões da Ceilândia.. Na parede. porque sempre existiu uma barreira muito grande entre Ceilândia. às vezes. A gente tem que começar a repensar esses valores. Sérgio é o anfitrião e nos mostra Ceilândia. estudante de Ciência da Educação. um garoto que tem tudo e tudo o mais. as coisas tristes. quem não tem grana ou não está engajado no tráfico não tem valor nenhum. pra minha família isso tem muito mais valor. 26 anos. fã do hip-hop e um dos diretores do grupo: — Quando comecei no Grupo Atitude. Eu acho que foi um aprendizado muito grande. não as básicas. assim.. o pé no chão que eu tenho no Interagir e a cabeça nas outras coisas que estão lá é de um tipo. A gente viu que eles tinham essa percepção de trabalho de cunho social. nascido e criado na Ceilândia. um pôster e a lembrança de um rap: Apocalipse 16. No primeiro andar. Aquilo é uma ilha. Casas. Ceilândia é assim. Eles tinham comida. mas eu acho que . Quanto à arquitetura. aí sim. a gente não conhecia pessoas que moravam em Brasília e tinha um preconceito muito grande do playboy. E as pessoas não acreditavam que a gente chegava lá a pé e não ganhava nada. de pensar questões sobre saúde. a cabeça nas nuvens lá. Para as meninas daqui. Ruas de Ceilândia. dos caras matando. Então o que é que a gente diz pra eles? Que existe outra saída. nenhum lazer. diminuir essas barreiras. falta o ar. sem nem conhecer. Brasília tem uma certa atmosfera. através das escolas. de gente que a gente nem conhece. falar com um público muito grande de jovens. mesmo. Agora o que a gente está fazendo aqui é investimento a médio e longo prazo. Brasília gira em torno de si mesma. aqui não tem nenhum teatro. né? Tá andando com playboy’. onde se esbanja oxigênio. o pessoal aqui vai dizer:‘Tá se misturando com bodinho. sabe? Eu lembro um dia. só que são as coisas embaçadas. que para a gente estavam envoltas nesse clima de uma cidade como Brasília. menos que a Lua. deixar a cidade melhor. né? Eu estou num trabalho. achou interessante.A gente ia nas escolas de ensino médio falar sobre DST/Aids. tem grana. acho que ele é muito mais pessoal. um grupo de jovens moradores da Ceilândia que trabalham com políticas públicas. é uma contribuição pra gente muito valiosa. Asa Sul para Asa Norte. ajudando de alguma forma o nosso trabalho para construir uma política pública de lazer e de cultura. A proporção seria de cruzar uma W3 a outra W3. muito engraçados. Dá uma raiva. um largo. só porque mora em Brasília. mas também de conseguir fazer alguns trabalhos junto com o pessoal do Interagir.

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é muito bom nesse sentido de eu poder ter essa possibilidade de ter esse olhar. E você vê que são pessoas articuladas, pessoas inteligentes, são pessoas que tem uma plena potencialidade. O Sérgio dá um show ali, sacou? O Sérgio consegue te falar em cinco minutos o que eles fazem na prática, o que eles estão mudando aqui, o que para a gente do Interagir, às vezes, é muito mais complicado. E eu acho que a gente tem coisas muito parecidas, cara, que é o lance da postura, de se colocar no mundo. Quando a gente fala de valores, quando eles falam dessa necessidade de ter o lance da identidade e das necessidades, é só um tipo de necessidade. As necessidades que se tem de ter um cinema, de ter um teatro aqui, talvez sejam as mesmas necessidades que a gente tem lá de, tendo o teatro, freqüentá-lo, saber o que fazer com o teatro. Então é só o tipo de coisa que muda, mas a afirmação da identidade, a possibilidade da pessoa ter uma percepção mais afiada do mundo, pô, acho que essa linha é muito parecida. (Sérgio) — Pois é, igual, assim, a gente fala que é muito legal isso, porque quando a gente vê o jovem que está aqui em estado de alienação, de não perceber a realidade, a gente tem que enxergar de um plano muito parecido, sabe? De ver como um modo de consumo, mesmo que ele não possa consumir nada. Está tudo interligado, porque o que eu passo aqui, em Ceilândia, tem influência lá, em Brasília, e o que eles fazem lá tem influência aqui.Aí, toda vez, olha só que coisa triste, quando acontece um problema sério em Brasília, de alguém ser morto, ou espancamento de alguém, aqui tem um toque de recolher imposto pela polícia. É um toque de recolher que não é dito, porque é inconstitucional, mas você vê os caras da polícia, a partir das dez horas da noite, começar a passar em comboio, com a sirene ligada.Você acha que fica alguém na rua? Quem é doido de ficar na rua? Assim, eu falo assim, se acontece alguma coisa grave lá, o reflexo aqui é imediato, entende? A gente está ligado. Brasília e Ceilândia. Ceilândia e Brasília. Estamos de novo na estrada, de volta para Brasília, onde Mateus nos mostrará a Praça dos Três Poderes, o Memorial JK, o Palácio da Alvorada, a Esplanada dos Ministérios, toda a arquitetura. Naquele ponto exato e monumental, onde essa história começou.

Origens e Propostas
O Grupo Interagir foi criado em 2000, em Brasília, e o seu principal objetivo é fomentar e articular o protagonismo juvenil. O Interagir nasceu com a inquietação de um jovem, Clóvis, que desde a sua formação no Movimento Escoteiro sentia que precisava realizar mais por sua comunidade. A partir daí vieram os outros jovens, vários deles com alguma experiência em trabalhos sociais (escotismo, movimento estudantil, movimento religioso). Em maio de 2000 o Interagir criou o Portal do Protagonismo Juvenil, www.protagonismojuvenil.org.br, que ganhou o prêmio “Jovens Voluntários” e que é referência no que diz respeito ao protagonismo juvenil no Brasil. O Interagir já realizou quatro Fóruns de Protagonismo Juvenil em Brasília, buscando a mobilização e a integração das juventudes. O principal objetivo é divulgar o conceito de protagonismo juvenil, discutindo problemas sociais, incentivando os jovens a utilizarem melhor seu potencial transformador e promovendo a interação entre eles. Para o Interagir, o protagonismo juvenil sustenta-se em três pilares: Iniciativa, Liberdade e Compromisso. Para o grupo, a pessoa protagonista é aquela que busca liberdade para escolher a área de interesse e a forma de ação e de intervenção, tem iniciativa para a realização de suas escolhas e estabelece compromisso com os resultados e com a avaliação dos impactos gerados ou obtidos. O protagonista, com isso, cria oportunidades para transformar palavras em atitudes, comprometendo-se com o presente e com o futuro que almeja. É uma conquista de autonomia que permite a percepção da juventude não somente como problema, mas sim como parte da solução para questões sociais, pelo livre exercício da educação para a vida e para a cidadania. O grupo realizou vários projetos envolvendo jovens em discussões sobre políticas públicas. Um desses projetos abordava a política em si: “Voto, Logo Opino”, projeto que se tornou referência no Distrito Federal, pois auxiliou

na análise e avaliação, pelos próprios jovens, dos programas de governo que iriam afetar diretamente a juventude. (Clóvis) — Então, ia ser eleição pra governador e a gente tentou recortar os programas de governo, dos candidatos, focados na juventude. Foi a maior pauleira pra conseguir reunir essas propostas, alguns não tinham proposta nenhuma para a juventude. Aí fizemos mil recortes e, enfim, conseguimos reunir todo o material, aí a gente criou uma metodologia para que os jovens analisassem esses programas de governo. Durou um dia inteiro o encontro, no final os jovens opinaram e construíram propostas também. Meio Ambiente e Juventude – O Grupo Interagir foi escolhido pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) para ser a instituição responsável pelo projeto Geo Juvenil no Brasil. Será uma articulação nacional entre jovens e organizações sociais visando criar alternativas para questões ambientais no país. Acompanhando o processo de criação da Comissão Especial de Políticas Públicas para a Juventude da Câmara dos Deputados, o Interagir participou da Semana Nacional de Políticas Públicas para a Juventude e da Conferência Nacional de Juventude, integrando, inclusive, a comissão executiva das conferências locais do Distrito Federal. Em 2004, criou o boletim informativo “Falando em Política”. (Renata) — A idéia é compartilhar informações, difundir informações de coisas que estão rolando no Brasil, de percepções que a gente tem sobre as políticas públicas, sobre esse foco. Esse boletim é eletrônico, está na Internet, e a gente tem o apoio da Fundação Friedrich Ebert. E sempre com um sonho, sei lá, como pode se chamar, a idéia de ter em Brasília um observatório de juventude, em âmbito federal, um observatório de jovens sobre as questões da juventude. De sua criação até hoje, o Grupo Interagir já sensibilizou pelo menos 4 mil jovens do Distrito Federal e cerca de 10 mil jovens do restante do país para a necessidade da transformação social.

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BANSOL

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É uma cidade negra, mas é também uma cidade portuguesa.... os filólogos e historiadores perdem tempo discutindo se esta cidade se chama cidade de Salvador ou cidade de São Salvador... o povo continua chamando sua cidade pelo doce nome de Bahia. Esta é a cidade da Bahia. Assim a trata o povo de suas ruas desde a sua fundação a primeiro de novembro de 1549. A economia e a solidariedade
Jorge Amado, Bahia de todos os santos: guia de ruas e de mistérios. Rio de Janeiro: Editora Record, 1945.
— A casa de Jorge Amado fica aqui, no Rio Vermelho, Zélia ainda vive aí. O Rio Vermelho é um bairro tradicional da boemia. É um bairro onde moram muitos artistas. Um garotinho se aproxima da janela do carro e oferece para Luíza bonecas Barbie, numa caixa. — Obrigada. Aquele vai, outro vem. Este vende chaveiros. — Obrigada. — Aqui é o que? — A Rótula do Abacaxi. — Por quê? — Porque o trânsito aqui é um abacaxi. É um terror e essa avenida que vai reto vai para o largo das Sete Portas, o largo Dois Leões e Barroquinha, que é pertinho do Pelourinho. Barroquinha é Baixa dos Sapateiros, sobe a ladeira está no Pelourinho. Tem muito nome estranho assim em Salvador, rua da Poeira, Ladeira da Preguiça, Ladeira dos Aflitos... aí aqui a gente vai subir para o Cabula. E aí já estamos no caminho da Engomadeira. Comércio fraco pelas ruas, um manequim de calça jeans e top, na falta de vitrine que o proteja, se exibe apoiado na porta da loja com seu olhar vidrado, para os que passam na rua. Ao lado uma quitanda, na frente da quitanda um carrinho de mão, todo fechado, de alumínio, anuncia seu produto: munguzá.

— A gente está chegando no fim de linha da Engomadeira. É onde os ônibus param. Chama fim de linha, não sei se chama assim lá no sul — diz Luíza enquanto dirige seu carro. — Será que eles vão abrir? Eu costumava estacionar num terreiro de candomblé que tem aqui... Pela calçada, crianças pequenas correm, outras riem, outras acenam pra nós. Passamos pela mãe delas que lhes ensina: “olhe, são os turista...”. O terreiro de candomblé está fechado, então Luíza estaciona na rua sem saída da Engomadeira, onde funciona a Cooperativa Popular de Pães – COOFE. Para chegar aqui, Luíza, 24 anos, não saiu apenas da casa confortável, onde mora na Pituba, e tomou o rumo da Engomadeira. Para chegar a essa cooperativa, o caminho foi bem mais longo. Tudo começou na Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia, lá no vale do Canela, pertinho do bairro da Graça. — O meu pai é professor aqui nessa faculdade de Administração e no dia que eu

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fiz a minha inscrição no vestibular, que eu fui mostrar para o meu pai, ele falou assim: “Tsc, que burrice você fez.Você devia ter feito Economia”. Mas mesmo assim eu entrei em Administração. Nos primeiros semestres da faculdade eu só entrava, assistia aula e saía. Mas eu sabia que em alguma hora eu ia ter que me envolver em alguma coisa da faculdade. Até que soube das reuniões do Bansol, comecei a participar e me identifiquei com a causa. Hoje em dia é realmente o que eu pretendo continuar a fazer. Já terminei a faculdade e estou fazendo mestrado em Administração e continuo estudando Economia Solidária. — E o seu pai o que achou disso? — Meu pai, como muitas pessoas, não acredita na Economia Solidária como uma alternativa ao capitalismo. Ele acha que não vai ser nunca a Economia Solidária que vai mudar o modo de produção. E então, assim, a gente tem alguns conflitos ideológicos... Subimos as escadas da Faculdade de Administração, de um lado uma parede vermelha, do outro um painel de Bel Borba, o artista plástico baiano que distribui seus mosaicos pelas ruas de Salvador.

A universidade da vida popular ocupa por vezes as salas eruditas da Universidade Federal da Bahia. Um dos espetáculos mais fascinantes que vi nos últimos tempos foram as aulas de língua iorubá... nos bancos universitários sentava-se o povo dos candomblés: mães e pais de santo, ogãs, obás, feitas de múltiplas casas de santo... aquela língua conservada a duras penas pelo povo negro, transformada quase pelo tempo em língua ritual dos cultos afro-baianos, voltava ao saber do povo através da Universidade.
Jorge Amado, op. cit.

certo’”. A gente entra na faculdade com aquela coisa, você é muito formatado, entendeu? Realmente, o que é que eu pensava? Eu queria ser um executivo, porque na verdade eu não tinha a dimensão do que era realmente ser um executivo. Então era aquela imagem da televisão, o cara que deu certo, a pessoa que não vai morrer de fome. Eu não tinha a idéia dos valores do executivo. Eu tinha a imagem do executivo que a mídia me vendia, entendeu? Aí quando você entra na Faculdade de Administração, você descobre que os valores que você entrou pra buscar na faculdade não são aqueles que são da sua natureza. Vicente beija Diogo, que beija Clara, que beija Cléber, que beija Iara, que beija Vagner, que beija Luís, que beija Esdras, que beija Luíza, que beija Ana Paula, que beija Ludmila, que beija Vicente, onde o círculo se fecha. É o beijo coletivo do Bansol. Assim costumam começar e terminar essas reuniões. (Vicente) — Porque eu tenho um carinho muito grande pelo início do projeto Bansol. Tinha estudantes, professores e pela primeira vez na minha vida eu vi todo mundo sentar numa roda e construir um projeto coletivo, sabe? Admiro muito os professores que se permitiram isso. Foi uma das fases mais lindas, eu pensava:“Caramba, isso é Economia Solidária, é possível a gente colocar em prática aquilo que a gente tanto estudou”. (Ludmila) — O professor Genauto França tinha acabado de voltar do doutorado em Paris, com uma tese fresquinha sobre Economia Solidária, a Suzana Moura já estava desenvolvendo a pesquisa do desenvolvimento local, que aí enveredou para a vertente da Economia Solidária, mais Débora Nunes, professora de uma universidade

particular e ainda o professor Niltinho (Nilton Vasconcelos Jr.), que sugeriu a inclusão do pessoal da incubadora tecnológica da Universidade Estadual da Bahia. Junto com esses professores e técnicos estávamos nós, os estudantes.

Salvador, 20 de julho de 2001

Ata de Fundação do Bansol
Nossa primeira reunião foi um sucesso. Mais de dez pessoas compareceram e falaram. Manifestaram seu interesse, empolgação e compromisso com a idéia do Bansol.

(Vicente) — Quando o professor Genauto apareceu, trazendo essa reflexão mais profunda sobre o universo das organizações das empresas, os conflitos entre capital e trabalho e trazendo essa proposta de economia solidária, eu senti pela primeira vez que era possível unir duas coisas aparentemente opostas: economia e solidariedade, empresa e autogestão. Então foi aquilo: “meu Deus, será que isso é verdade?”. Porque a primeira impressão que se tem é que isso é uma loucura, que não faz sentido você juntar essas duas dimensões. E aí você descobre que faz sentido e isso pra mim foi libertador.

(Maiana) — O Bansol foi uma luz no fim do túnel. Eu ficava um pouco desesperada:“poxa, eu vou sair da faculdade, eu vou pra onde depois?”. Eu não quero trabalhar numa empresa e sei lá, ter uma vidinha assim que não faz sentido, que não muda, que não altera. (Vicente) — Quando chega na faculdade você tem um curso que infelizmente não é um curso de Administração, é um curso de administração de empresas capitalistas de mercado. (Esdras) — Porque realmente esse curso de Administração aqui da Federal da Bahia é um curso muito elitista, né? E o trabalho do Bansol não se encaixa no perfil da faculdade, então quando a gente vai apresentar o nosso trabalho em outras instituições, organizações, as pessoas olham para a cara da gente assim e perguntam:“Vocês são de Administração da UFBA?”. Ninguém acredita, é impressionante isso. (Cléber) — No Bansol nós colocamos o foco no ser humano e não na questão do capital. E nós estamos numa escola de gestão que tem valores tradicionais: a busca incessante pelo lucro, a competição, tratar as pessoas como recursos (na verdade são os recursos humanos, não são pessoas), então você aprende a contabilizar tudo isso. Maximizar e minimizar até as motivações e aspirações das pessoas. E com o Bansol a gente foi na contracorrente de tudo isso.

Salvador, 12 de julho 2002 Ata Hoje subvertendo a ordem dos acontecimentos do dia, vou começar a ata pelo final, pois temos uma notícia MARAVILHOSA! O Bansol fez o seu primeiro financiamento!!! A COOFE é a nossa primeira investida!!! E que o fundo se multiplique!!! Parabéns pra gente, para a COOFE e ITCP!!! Bom, mas me recompondo e dando um tempo para vocês fazerem o mesmo, caso alguém tenha caído da cadeira comemorando...

(Cléber) — Eu entrei na faculdade para ser um executivo. Eu ficava brincando com a galera: “Parece que estou vendo, na capa da revista Exame, ‘o preto que deu

Vicente

Luíza, 24 anos

Cléber

mortalidade infantil e desemprego. né? Nós fazíamos pão e panetone e foi num momento que a gente estava com muita dificuldade por causa do aumento do preço da farinha de trigo. a gente estava querendo um carro e conseguimos. de acordo com as regras que estabelecemos no estatuto. No nosso empréstimo não existia juros. eles pagam. Então quando nós ganhamos o prêmio da Fenead (Federação Nacional dos Estudantes de Administração) e recebemos a primeira parte. piranhas com dentes afiados. ( Janice) — Toda a comunidade compra da gente. Bel Borba passou por aqui. nós resolvemos fazer o empréstimo para a COOFE. ninguém sai.Temos esses 22 postos por causa de um projeto da Petrobras onde fomos incluídos. na articulação política. foi quando o Bansol tinha ganhado um prêmio e acreditaram na gente e resolveram investir na nossa cooperativa. Emprestamos 2. sempre percebendo as necessidades de cada etapa. criada por 27 pessoas da comunidade. o Bansol. só a CPMF e a inflação. Porque muitas vezes esses empreendimentos estavam trabalhando com produtos dissociados da realidade da comunidade. um tocador de sax. O bairro já tinha muitas padarias. no muro imenso. até hoje. nos apresentando Nei.Tem cerca de 30 mil habitantes e uma taxa altíssima de desnutrição... O pãozinho aqui custa dez centavos. a gente conseguiu se equilibrar e oferecer mais produtos. Muito pouca gente tem carro por aqui. nas padarias comuns o preço é 15 centavos. no processo educativo. se cada cooperado recebesse 200 reais. um carro com pessoas na janela. teria que trabalhar em diversas frentes.Vânia e Jô. Foi aí que percebemos que a questão das finanças era muito limitante e que se a gente quisesse realmente fomentar a Economia Solidária. um menino espera do lado de fora. pão muitas vezes dá até prejuízo. colocam cerejas em roscas doces para irem ao forno. com touca de padeiro na cabeça. um . a gente viu que muitas vezes a gente estava só adiando um problema que poderia voltar a acontecer lá na frente. depois do empréstimo do Bansol. E o que aconteceu? A COOFE não conseguia na verdade gerar um excedente que permitisse que a gente retirasse a nossa parte de cooperado. a Bansol costuma estimular as pessoas das cooperativas para participar de encontros. Para isso. se tornava um dos cooperados. em volta de uma mesa. E é isso que nos dá força para poder dominar os conflitos. Debaixo de um viaduto. sobre Economia Solidária. no consumo. um balão. antes a gente não fazia a rosca doce. Por exemplo. (Cléber) — Emprestamos os recursos para a COOFE. os cooperados também precisavam retirar algum dinheiro para se manter. hoje. porque eles produziam muito pouco. o Bansol também receberia a sua parte. morcegos no muro. O grande objetivo é gerar trabalho e renda com a Economia Solidária. por exemplo. Assim. a Bansol nunca deixou de acompanhar o trabalho da COOFE. (Iara) — O empréstimo tinha uma taxa que nós denominamos taxa de retribuição solidária. Num ponto de ônibus. o Bansol recebeu de volta a metade do montante emprestado. eles vendiam muito pouco. o Bansol também receberia 200 reais. 10 mil reais. nas finanças.Vem sabendo que a gente tem que lutar para descobrir os caminhos para resolver cada problema. O bairro surgiu de uma ocupação num terreno acidentado.457 reais. na produção. com a experiência da COOFE e de outros empreendimentos. Carro de mão. volte sempre”. Mas agora. Eu acho que se não fossem esses encontros. quando eles podem. boa parte do montante para quitar dívidas e o que aconteceu? Eles saldaram essas dívidas e sobrou uma parte para tocarem a produção. No começo a necessidade era a estruturação. Então ficou assim. de onde se avista a Baía de Todos os Santos. apenas sete tocam o projeto. O bairro da Engomadeira é um dos mais pobres de Salvador. ao fazer o empréstimo para a Cooperativa. Nei entra em cena. Além disso. Saímos da Engomadeira. entrega o saquinho de pães pela janela da casa e aproveita pra pôr em prática uma regra do bom comerciante: “Obrigado. — E quem leva o carro? (Iraci) — Olha o piloto aqui. passados dois anos do empréstimo. Então. mas não foi o suficiente.104 105 Luíza estacionou seu carro em frente à COOFE e agora ninguém entra. em todo o Brasil. um homenzinho no topo de uma escada. encostado no batente da porta. né? Para oferecer os pães no final da tarde pelas ruas da comunidade. assim. — Esse é o único homem da COOFE — diz Luíza. As mulheres Iraci. ó. Bel Borba passou por aqui. — E aponta pra Nei. a gente não teria sobrevivido até agora. eu tô sempre aqui. não podemos desistir. ou seja. Nos últimos três anos.A gente volta muito fortalecida desses encontros. (Iraci) — Na época que os meninos do Bansol apareceram. — Ô Nei. Na avenida do Contorno. E tudo que a gente vive é um processo. a maioria compra pelo preço mais acessível. os integrantes da Bansol fizeram uma pesquisa de mercado sobre o potencial de compra da comunidade e as possibilidades de distribuir os produtos da cooperativa nas padarias do bairro. a gente se fortalece para o grupo. onde fica a padaria da COOFE. ( Janice) — Agora nós vamos aumentar os postos de trabalho. A Cooperativa existe desde 99. cada vez que houvesse o excedente a ser distribuído entre os cooperados. o que dá lucro são os utensílios que eles vendem nas padarias. Na época a gente tinha muitas dívidas e estava a ponto de fechar a cooperativa. Naquele sol ardente de quase metade do dia. naquela rua sem saída. sem rumo certo por Salvador. Então era assim. um homem corre na parede. Maria da Conceição. feiras. (Esdras) — Na visita que a gente fez à COOFE a gente viu que eles precisavam pagar contas de consumo e comprar matéria-prima. (Vicente) — Aí a gente pensou:“será que o crédito é a melhor forma da gente apoiar esses projetos?”. agora nos últimos tempos a questão tem sido a comercialização. ( Janice) — O pessoal do Bansol veio aqui conhecer o nosso trabalho. vamos abrir a cooperativa para mais 22 pessoas da comunidade. ( Janice) — A gente cresce como pessoa. a COOFE fez uma cooperativa de pães e no processo eles descobriram que pão é o que menos dá dinheiro em uma padaria. Janice. A renda familiar é de um salário mínimo e meio. fóruns.

” “E uma Coca-Cola?” “Também não. a prefeitura pegou famílias de diferentes lugares. de cada dez casas. Retratos do cotidiano do século 20. chocam-se. para pelo menos fazer alguma coisa. é essa orla aqui de Ondina. não sai na mídia. cit. vocês estão sendo visados”. Não adianta. uma horta comunitária e um ligava pra gente dizendo: “Ó. Subimos pelo Calabar. (Ludmila) — A gente teve que parar porque teve um grupo de extermínio por lá. A gente conseguiu montar com eles um prato de quentinha no valor de um real. porque estava ficando muito perigoso. dá pra ver os prédios e as casas antigas da Graça. se investir em produção se as próprias pessoas que moram lá não têm condições de consumir. a horta está até funcionando. Uma das maiores dificuldades da comunidade era a fome e era uma cooperativa de produção de alimentos. Inclusive foi a própria líder comunitária que pediu pra gente dar um tempo.” Sabe. o índice de tráfico de drogas é alto. senão a gente ia só ver na televisão e pensar: “Ah. Bel Borba passou por aqui. Um mecânico do outro lado da rua. boné e roupa suja de graxa. terminou Administração e se prepara para o mestrado. dentre o total de moradores da comunidade. assim. uma horta comunitária. você tinha uma ou duas pessoas que costumavam passar fome. acabar com a pobreza. a gente está com um projeto lá de fazer um mapeamento. em cima de outra laje. O conservador e o revolucionário coexistem no espírito da cidade. culturas diferenciadas e botou tudo nesse lugar que é o alto de uma colina. eu estou tentando aos poucos transformar isso em mim. Isso aqui é o cartão-postal de Salvador. “Não. (Luíza) — Hoje nós nos afastamos do projeto por conta da violência. de distribuição através da escolha do que comprar. do trajeto do Carnaval. um dos meninos que era amigo do pessoal da cooperativa foi morto. porque a gente sabe que quem define a parada hoje é o consumo.. fundem-se por vezes. É uma comunidade interessante. onde o índice de violência é alto. eu estava com um pessoal num barzinho e o pessoal: “E aí Clarinha. tudo orgânico. das faculdades. não vai querer uma cerveja?”. no pátio da Faculdade de Administração. porque as pessoas não tinham uma rede de ligações e aí o tráfico entrou e tomou conta.. e atrás dos prédios tem o Calabar e o Alto das Pombas. É um lugar para onde foram pessoas de vários pontos de Salvador. no grande centro urbano. eu descobri aqui no Bansol que compra é poder. em cima de outra laje. É periferia da periferia. perto de Itapoã. para que eles atendessem a comunidade.Aí você começa a ter uma outra postura diante dessas notícias e diante da sociedade que a gente está construindo. em cima de outra casa. op. desde os tempos longínquos de Gregório de Matos até os dias de hoje. numa arte de rua. (Clara) — Em termos de revolução pessoal.A gente entrou em contato com o Fórum de Combate à Violência. E nesse mapeamento a gente descobriu que. próxima de bairros nobres. do vale do Canela. Seguimos Vicente até o Gol branco. no seu retrato de casas empilhadas. são quase palpáveis no seu contraste. entregando coentro orgânico. Ele abre o porta-malas e guarda sua mochila pesada de estudante.violência”. Aos 24 anos. o principal foco é o consumo. E o que se descobriu é que. morreu mais um”. eu moro ali. Jorge Amado. Eles tinham . acena para sair na foto. por exemplo. E aí o pessoal (Esdras) — A gente acredita que para promover o desenvolvimento. Paramos num terreno vazio entre muros. Fim de semana. Então a gente crê e define o consumo como um ato político. do Carnaval Baiano. onde fica a Faculdade. Encontrará uma arte essencialmente política. vamos dizer assim. fechamos questão que não dá para desenvolver um trabalho comunitário que não consegue ter uma continuidade. do que vestir. Isso aqui. Convive todo mundo ali. o Bansol trouxe para a minha vida a preocupação com o consumo ético e solidário. restaurante comunitário. um avião e gaivotas. não venha. Eu vou levar vocês até o Alto das Pombas. não entre aqui de carro. mas o índice de fome também é muito alto. gaivotas sem fim.106 107 helicóptero. para de lá enxergar o Alto das Pombas. ligada ao cotidiano. Pensar em quem você está beneficiando com a sua compra. um banco comunitário. estão até com delivery. numa comunidade periférica. (Vicente) — Daqui de baixo. por inteiro.A indústria americana? A exploração da mão-de-obra de países pobres? Ou um grupo de pessoas da sua comunidade? (Vicente) — Tem um projeto que a gente apoiava que visava à implementação da COOPAVV Cooperativa Popular de Alimentação de Vila Verde. No muro azul alguém escreveu com letras miúdas. uma arte a serviço do povo. apenas poucas pessoas tinham condições de comprar aquela quentinha. pra não chamar muita atenção: “chega d. feitos em mosaicos. . Que a gente pode modificar as relações de consumo. Numa enchente que teve aqui em 1996/97. (Cléber) — Vila Verde é um lugar de disputa de tráfico de drogas e. eu quero uma água de coco. Ela fica próxima. E o que aconteceu? Ficou altamente vulnerável. uma laje em cima de uma casa. Uma velha gameleira entorta seu tronco. assim.

que beija Claudenice. se dá calote. a luz elétrica tomando conta da paisagem. Ladeira do Tabuão. como lá embaixo na Faculdade de Administração. Ogum. e isso gerava renda para seis jovens. a barraquinha de doce aí vizinha e. Agora a gente vê quantas costureiras tem. pintor. Passa uma mulher com uma trouxa de roupas equilibrada na cabeça.. que beija Adriana. a bravia Yansã e o tétrico Omolu. que consumir aqui vai fazer o dinheiro rodar aqui mesmo e que todo mundo da comunidade vai ganhar com isso. mas na comunidade se consome o dobro de acarajés que elas produzem e quem sabe não seria uma das linhas de crédito financiar uma outra tabuleira de acarajé? Lá no Palmas a gente viu uma empresa de produtos de limpeza. já chega com um projeto pronto.A gente vai fortalecer o pastel do seu Luís. não precisa fazer essas perguntas sobre fome. diz Vicente.. — Aqui é a estrada do Calabar. ela tem que fazer essa rede... a barraca de pastel do seu Luiz. (Mariana) — Eu acho que o mapeamento veio para mudar a gente. em Fortaleza. (Paulo) — A agência de crédito será a base. cit. porque aqui na nossa comunidade ninguém passa fome. E vamos saindo do Calabar. por isso fizemos o mapeamento do consumo local. o questionário a ser feito. é um caso de objeto-sujeito. nós fizemos oficinas de capacitação e foram os jovens da comunidade que fizeram esse trabalho. Crianças brincam de correr. a gente sabe que tem 200 baianas de acarajé. E assim. É uma beleza que escorre como óleo do casario e das pedras negras de certas ruas. Por exemplo. os jovens disseram:“Não. Exu amedontrador. E aí nós vamos passar a discutir quem. porque ninguém conhece melhor a pessoa do que o vizinho dela. a alimentação. quando chega na comunidade. o Salão Toque de Beleza também. Não nasceu de repente. vai receber o crédito.. os nomes como poemas: Rua dos Quinze Mistérios. A Universidade. vão se acendendo. marceneiro. enfim. Passa um comércio pobre de barraquinhas pelas calçadas. A gente foi descobrindo isso. E quando a gente elaborou. ruas estreitas. a gente já tem outra consciência hoje. (Adriana) — Nós estamos perto das pessoas. Numa porta aberta se lê. a gente foi descobrindo a profissão delas. A comunidade é objeto. como se diz. É. vizinho sabe de tudo isso. . que começam a chegar. o desemprego que assola as famílias. como o que está em baixo é igual ao que está em cima. a gente que construiu esse projeto de inclusão social dentro da perspectiva da Economia Solidária.. Por exemplo. Largo das Sete Portas. sólida e envolvente a dessa cidade. porque agora a gente conhece o nosso bairro. Oxóssi. eles produziam e a comunidade consumia. No largo do Pelourinho eles eram castigados e das janelas dos sobradões imensos as frágeis iaiás espiavam os corpos nus cortados à chibata. na comunidade. (Esdras) — Uma coisa muito importante nesse projeto é que a gente conseguiu incluir a comunidade em todo o processo. aguardando os fregueses do Alto das Pombas..108 109 É uma beleza antiga. (Mosar) — A gente pensa em criar um banco. Aqui no Alto das Pombas o critério que a gente está querendo adotar para a escolha do crédito é o vizinho. não”. E dentro do Rodrigo e Mosar Mariana e Rodrigo Incluir Sim. no Alto das Pombas. e a gente entrando na casa da pessoa pra fazer a pesquisa viu realmente o que elas passam. as pessoas desempregadas. nos encontramos com o pessoal da comunidade que participa do projeto Incluir Sim. vizinha. não é? Se é brigão. Porque quando eles chegaram a gente achava que ia ser a mesma coisa. Então hoje a gente está consciente e procuramos conscientizar as outras pessoas que elas tem que consumir dentro do próprio bairro. a violência. E naquela luz azulada das lâmpadas fluorescentes. que a gente tem o poder de consumo. Xangô. que comanda a varíola. que beija Esdras. em casa. Quem vai avaliar se a pessoa deve ter direito ao crédito é o vizinho. todo o comércio local. que beija Paulo. o encontro termina da mesma forma. a barraca de doces. mulheres conversam em cadeiras na calçada. o saneamento básico. eles descobriram que muita gente da comunidade passa fome e eles nem imaginavam. o dia perdendo a cor. Um homem passa levando um carrinho de mão e alguém grita: “Oh Damasceno!”. Mariana beija Mosar que beija Josimar que beija Vanessa. junto com eles. bem grande: “use o banheiro”. Representando o Bansol vieram Esdras e Vicente. a infra-estrutura. Mirante dos Aflitos. o primeiro restaurante da Dadá foi aqui. Jorge Amado. aqui no Alto das Pombas. como o Banco Palmas. (Mariana) — O conhecimento que a gente adquiriu dentro desse processo eu acho que é maior do que qualquer outro projeto de você palpar mesmo. porque é a gente que faz as ações. de onde se avistam os prédios de Ondina ao longe. para descobrir o potencial da comunidade. O Salão Modelito com a placa despencando passa. com uma linha de microcrédito. Porque já mudou a nossa mentalidade. — A gente vai passar agora no restaurante da Dadá. Para a gente o resultado já aconteceu. op. normalmente se contrata um instituto de pesquisa para fazer um retrato da comunidade.A gente tem que ver também o poder de consumo que a gente tem. que beija Mariana. Ele interrompe a caminhada pra conversar com o amigo. Rua do Cabeça. que escorre das igrejas dos santos negros. E numa casa aqui no alto. mas a nossa idéia é atingir também outras metas. E agora no decorrer do processo. esculpidos em madeira e ferro. mas ao mesmo tempo distantes da intimidade delas. que beija Viviane. que beija Elisângela. foi construída lentamente e está amassada no sangue dos escravos. nós fomos os sujeitos. que beija Vicente.

a princípio. Primeiro foi “banco solidário”. ou taxas próximas às que ali se praticam. Na verdade pensamos o seguinte: nós. MANIFESTO POR UMA INICIATIVA VERDADEIRAMENTE SOLIDÁRIA não seja a aplicação de juros de mercado.110 111 Origens e Propostas A Bansol nasceu em 2001 como uma idéia conjunta dos alunos da Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia e professores da mesma universidade. até que a gente chegou naquela questão.. Ficamos com medo de nos tornarmos mais uma coisa qualquer que está dentro da universidade pública. Como se faz uma organização assim? É uma iniciativa em construção. ele se desliga da Bansol.. (Cléber) — Porque o medo da gente foi o seguinte: precisar começar a usar o Bansol para atender as nossas conveniências.. Assim nasceu a Bansol. e da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UNIFACS. pesquisa e extensão na Escola de Administração da UFBA. um concurso de projetos sociais. assim que o aluno conclui a faculdade.” A visão definida pelo grupo prevê tornar o Bansol uma associação sustentável reconhecida e integrada a uma rede de Economia Solidária. finanças solidárias e passar a ser uma associação de fomento à economia solidária. mas sim. é a que nos interessa construir. Isso significa que. Então vamos ser realistas e dar essa oportunidade a outros estudantes. por conseqüência. em que se aprende à medida que nos comprometemos com uma idéia que aos poucos se concretiza. que siga a mesma lógica e. depois do empréstimo da COOFE: será que dinheiro é o principal? E a gente concluiu que não. Esse projeto era. para viabilizar atividades produtivas de iniciativa popular. Não é justo. Queremos uma organização que não vise o lucro. A Bansol passou a ser uma associação acadêmica que desenvolve atividades curriculares de ensino. Essa iniciativa é viável? É a organização que queremos. Para isso precisamos de todos. e a gente logo viu que não ia poder ser porque ia ter problemas com o Banco Central. construir um banco solidário que fornecesse crédito barato para empreendimentos solidários. fazendo uso privado do espaço público. E a gente vai continuar na causa em outros espaços. como profissionais. Uma instituição cuja preocupação central seja a manutenção do fundo de empréstimo e que mesmo que vise a sua ampliação. o faça através de outras iniciativas que .. Eles ganharam o prêmio (20 mil reais) e passaram a fazer empréstimos a cooperativas já existentes. “Queremos uma proposta diferente. que passavam por alguma crise. É o que entendemos como uma instituição que forneça crédito barato. E daí nasceu um manifesto. aquela coisa do desapego. além de professores do ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares) da Uneb (Universidade do Estado da Bahia). Em seguida a gente passou para “finanças solidárias”. foi aí que a gente resolveu deixar de ser um banco solidário. precisamos nos sustentar..A Universidade tem um compromisso social que não é este. apoiar iniciativas solidárias. reproduza injustas relações. e o Bansol tem que se renovar. não uma organização que sirva de ponte para o sistema financeiro já instituído. A idéia era criar um projeto para participar do prêmio Fenead (Federação Nacional dos Estudantes de Administração). (Luíza) — A Bansol teve três denominações.. ajudando o Bansol o quanto for possível.

74 75 ALIANÇA COM O ADOLESCENTE .

que leva a gente até a nossa unidade de criação de tilápias. a República se instalou e de presidente para presidente a construção do açude de Orós foi se adiando. conhecido como o mais seco do mundo. de sede. A carnaúba ainda se vê. Essa beleza é o açude de Orós. Foi aí que D. seja a piranha. algodão só no nome. Aqui é onde todas as famílias do sítio Pereira dos Barbosa tiram as suas rendas. E a história como “a seca do Ceará”. como as plantas da caatinga. desde que não morra mais nenhum cearense. rareando aqui e ali. nem de fome. o açude vingou. mas não é suficiente para resolver a questão da seca por estas paragens. nessa geografia. ou outros peixes. ela precisa do oco das árvores para fazer seu ninho e com tanto pasto seco por aí. Milhares de pessoas morrem de fome. E aqui é a nossa canoa. um grande rio. Depois virão as montanhas de Quixeramobim.76 77 Os novos semeadores strada do Algodão. O Império acabou. Moro no sítio Pereira dos Barbosa. de doenças. (Margleuda) — Eu sou Margleuda. 1877. uma abertura na serra. no Rio de Janeiro. Jandaia por aqui não se vê mais. tenho 19 anos. Lá em cima fica a minha casa. A coroa está inteira no Museu de Petrópolis.Assim chamada em lembrança aos tempos de riqueza do Ceará com o algodão. nos lugares onde os rios são secos e as nuvens no céu não são sinal de chuva. nos tempos em que José de Alencar escreveu Iracema. entrou para . na estrada. é onde nasci. a que nunca falta na nossa mesa. até que em 1956. porque o açude de Orós tem muito peixe. Ao longe já se vêem as rochas de Quixadá. imensas no seu mistério. Hoje. A seca é imensa e atinge principalmente o Ceará. Não se venderam os brilhantes. aqui é o meu lugar. Estamos entrando no semi-árido do Ceará. mas o imperador mandou uma equipe estudar o local onde poderia ser feita uma barragem. as árvores estão raras e ralas. essa palmeira de folhas plissadas. Pedro II disse: “Venda-se o último brilhante da minha coroa. nem de sede”. Estamos chegando na região da bacia do médio Jaguaribe. onde cantava a jandaia. no governo do presidente Juscelino Kubitschek. Até que a praga do bicudo veio e acabou com a plantação. Hoje. Assim surgiu o boqueirão dos Orós. o açude de Orós ainda é um oásis num deserto.

na casa de barro onde moram. Com 22 mil habitantes. uma jaçanã pousa no cercado. 17 anos . coletes. Margleuda terminou o segundo grau no ano passado. ainda eu penso. já tenho bastante material pra trabalhar. O Instituto daqui a dois anos vai ser só o nosso parceiro. E é Margleuda quem fala. O barco vai no rumo da cidade de Orós. Assim que viram as costas. e em pé na canoa alimentam as tilápias. Margleuda e Jaqueline Dentro do açude. minha avó é mouca”. não tem como eu fazer uma faculdade. que financiou o projeto. porque dentro de poucos minutos estava a comunidade em peso ajudando a gente a salvar os peixes... que Margleuda costuma atravessar a nado. esse tipo de coisa. — Então a minha vontade — continua Margleuda — era criar alternativas sustentáveis na minha comunidade. porque assim não vai ser uma coisa só nossa. alevinos... Meu financiamento saiu em setembro. complementar e específico. Assim. que a gente não olhava a dificuldade por conta da distância.. uma comunidade distante daqui. Foi então que começamos a nos dedicar de corpo e alma. aí eu comecei realmente a vender em dezembro.. numa casa sem reboco. Minha mãe ficou com medo quando recebi o financiamento da Aliança para tocar o meu negócio das bonecas. menina magrinha de 17 anos. E eu fico fazendo as bonecas. tem a máquina que já era minha.. Orós é também a padaria Esmeralda. assim. um barco passa ao longe. As meninas (são cinco nesse projeto atualmente) receberam um empréstimo para comprar todo o material necessário: gaiolas. ainda eu imagino. Tem nome a confecção? — Tem sim. onde o açude tem dez metros de profundidade. É o meio de transporte de quem vive nessas comunidades nas margens do açude. Cícera. No alto de uma colina. os tapuias que viviam por aqui. nas festas.” Na beira do açude de Orós. (mãe) — Eu só falava assim: “Cícera não pegue esse dinheiro. diz Margleuda. Estamos fazendo palestras.78 79 Margleuda e Jaqueline remam. na esperança de que sobre algum peixe pro seu bico. a casa do cantor Fagner. mas futuramente com essa renda aqui dos peixes eu sonho fazer faculdade de fisioterapia. ainda mais adolescente. né? Quase que já dupliquei o financiamento. Então é muito gratificante você não precisar ter de sair da sua cidade atrás de uma renda. meu pai trabalha na agricultura e na pesca. Cícera. E a canoa? ( Jaqueline) — Já compramos com o dinheiro do nosso cultivo. ração. caixas e tô sempre me aperfeiçoando. enquanto rema: — A princípio não sabíamos se ia dar certo. “Fale alto.. meu peito não cabe de tanta felicidade. redes. mais gaiolas. (Margleuda) — Nós agora somos referência na comunidade.. No primeiro cultivo teve uma mortandade enorme de peixes e foi. aí quando a gente decidiu criar peixe em tanque rede foi pra ir criar em Santarém. onde criam os peixes para vender. através do Instituto Elo Amigo. mas a vontade era tanta. “olha lá a menina do peixe.. porque o açude de Orós estava seco. Foi a Aliança com o Adolescente. a gente passa na rua. Margleuda e Jaqueline levam a ração para os peixes. Isso de ganhar credibilidade dentro da comunidade acho que era o desafio maior. mas aí Deus é maravilhoso. no meio do açude. vamos comprar mais canoas. ninguém nunca viu mulher criando peixe. o museu da Meirismar – com a história do açude e utensílios da tribo dos Icós e dos Quixelôs. (Cícera) — Eu recebi 591 reais da Aliança. No começo não tivemos muito apoio das nossas famílias. em 15 dias o açude Orós encheu e pudemos fazer o trabalho aqui mesmo. nós já estamos quase com os pés no chão. Quando me chamam de menina do peixe me sinto orgulhosa.”. uma riqueza como o açude de Orós. No caminho conhecemos seus avós. Sorrisos. Saímos do açude e subimos o caminho até a casa de Margleuda onde a mãe dela nos serviu um suco delicioso de manga com goiaba. Nós criamos nossa própria identidade. debates e a comunidade já está ajudando em peso. junto com um trabalho de formação que dura 13 meses e é dividido em três etapas: básico. é CCBL: Cícera Confecções de Bonecas e Lembrancinhas. e de canoa nos levam até o tanque rede. eu não vou ter com que cobrir esse dinheiro”. a responsabilidade era enorme. acenos. faz bonecas. Param o barco ali. se você tem um potencial. surpreendente. “Não vou fazer uma faculdade porque infelizmente a renda é pouca. tanta. Daqui a dois anos começamos a pagar o Instituto e se Deus quiser vamos nos tornar independentes. comércio pouco e muitas ladeiras que ajudam na visão do açude. A minha mãe é agente de saúde.

dona Rosa. Cinquenta e seis porcento de todos os pobres do Ceará vivem na zona rural. ainda com gosto de árvore e paisagem. vem o atravessador e compra de mim por 20 reais o saco. agora em vez de comprar essas florzinhas miúdas pra enfeitar as bonecas.00. você pega o seu dinheirinho e vai ajuntando. O que eu percebo é que os adolescentes do Elo Amigo não são acomodados. Então abri mão do emprego e não me arrependi.416. não dá nem pra andar por aí. até 120 reais pelo mesmo saco. do arroz brotando. um dia. (Ana Nere) — O Instituto Elo Amigo conseguiu mudar completamente minha vida e isso também porque eu quis. E aí o que aconteceu? Eu estudava à tarde. fazer faculdade de Letras. duvidava. de tanto sol. E eu quero continuar morando no campo. (mãe) — O dinheiro pra devolver ela já está guardando. acompanhando o leito do rio Jaguaribe. Eu tenho muita vontade de crescer. vegetação branca e cinza da caatinga. relampejando. meus pais. avós. Mas depois fui aceitando e hoje na minha plantação não tem nada de uréia. ao contrário de muitos eu não tenho vergonha. eles se sentem responsáveis pela vida das suas comunidades.80 81 Fiz um curso de biscuit. tenho muito orgulho. De vez em quando. tirada do pé. Aí Ana começou a trabalhar no projeto Aliança com o Adolescente e através de Ana eu descobri a agricultura ecológica. porque quando a gente não conhece uma coisa a gente se escusa de abraçar. Na paisagem do caminho. Tomamos nosso rumo: volteamos o açude de Orós e. na mais tenra idade. não. sou educadora júnior de outros projetos dentro do Instituto e ajudo a formar jovens na construção de projetos sociais. mas não quero ser agricultora. Obra da natureza. trovejando. todos passando muito sofrimento. É muito lindo. a filha Ana Nere e mais três irmãs. né? Eu sempre falo pra ela:“Cícera. Jornalismo. — Tá com nove mês que não chove por aqui.580. não dá pra conseguir alguma coisa na vida. não podia perder. não é? E eu sou o tipo de pessoa que sou mais aquela parte que eu vejo. de anunciação. porque quando não tem nuvem. de forma alguma. Sábado e domingo oficinas na Aliança. a cidade de Fortaleza R$ 4. o adubo da terra. não é chuva. carrega as nuvens e fica azulzinho. porque não tem investimento por parte dos governos. É aqui o nosso destino. grandes quadrados verdinhos. mas é só passagem de nevoeiro. também não podia perder. eu quero administrar o meu próprio negócio. Meu objetivo é trabalhar com comunicação. Na sexta-feira tinha apresentação de teatro na praça de Orós. A árvore do coité está carregada. Eu trabalhava numa fábrica. mas ela só dá pra gente viver. alguma coisa assim. (pai) — Ela tá certa. eu como atriz não podia perder. muita dificuldade. Só falta a chuva chegar pra molhar a terra. escuras. para as serventias da casa. não é?”. azulzinho. aí a barra começa a subir e começa a desfiar a chuva. frutinha madura. bisavós. não — diz seu Antonio.00. Uma mangueira imensa carregada de fartura e admiração. tirar a minha miniconfecção daqui de dentro do meu quarto e ter um espaço para eu poder mostrar mais a fundo o meu trabalho e dar oportunidade para outras pessoas de aprenderem aquilo que eu aprendi na Aliança. Foi a partir da minha vontade. marca a casa de taipa onde vivem seu Antonio. aí chegou a Aliança. vamos na direção de Jucás. generosa na sua sombra ventilosa. família de Ana Nere . Eu gosto de morar no campo. Quando vai chover faz aquela barra bonita no nascente. num sítio chamado Angicos. para a plantação do arroz. A cidade de Jucás tem um PIB per capita de R$ 1. Lá do fundo do quintal.. eu era bordadeira. Eu fui vítima de embriaguez com veneno. O terreno com degraus. (Ana Nere) — De início entrei no projeto por uma questão mais de poder ajudar meu pai. também está pronto.139. Os índices de Desenvolvimento Humano deixam a cidade de Jucás no limite entre a linha da pobreza e a da miséria. chapéus. pega o bagaço bota numa roça de banana dessas daí. (pai) — Antigamente eu trabalhava com veneno.00 e a cidade de São Paulo R$ 13. Das minhas quatro filhas nenhuma trabalhou na agricultura.A gente gosta quando fica esse nevoeiro. a gente acha mais bonito do que o céu azul. agoa e com oito ou dez dias a gente vira e já tá o estrume feito. Eu abandonei um emprego para estar na Aliança. Eu planto o arroz. os frutos na mais perfeita circunferência. faço os vestidos. Eu acho corajoso quem enfrenta a agricultura. aí minhas colegas da fábrica só me chamavam de importante: “só vive de reunião. pra quando chegar o dia de devolver já está tudo lá. faculdade de administração. aqui na minha plantação. Hoje eu sou um referencial muito grande dentro da minha comunidade. Aqui no nosso município nem uma secretaria de agricultura não tem. essa menina é importante demais”. Cícera terminou o colegial e pretende fazer. casinhas de pau-a-pique. né? E ficava em reunião direto na Aliança. estão quase no ponto de virar cuia. Fonte: IBGE. O céu é de nuvens grandes. de um dia ter a minha confecção. Eu dou muito valor à agricultura. — O tempo tá todo bonito assim. sou eu quem faz as florzinhas. No começo não queria. Daqui a pouco vem o vento. — É. eu tenho orgulho. grandes pastos ressecados com árvores redondas e solitárias para dar abrigo ao gado.. o adubo é orgânico que a gente usa. o pai de Cícera vem com um caldeirão cheinho de serigüela. Eu não quero isso pra mim. não quero trabalhar para os outros. quando sobra e eu quero vender pra ganhar um dinheirinho extra. Eu vejo toda a geração da nossa família aqui no sítio. de tanto calor. nasci e me criei dentro dela. Quando me falta e eu preciso comprar na cidade pago cem.

“É” todos os meninos que estão aqui. os meus sonhos foram todos vendidos”. vem para nos oferecer a água refrescante do coco verde. faz faculdade de Educação Física. Quarto de Aderlúcia. não é só ela que é desse jeito. acostumados que estão com essa iguaria nos seus pratos. vacas deitadas na paisagem. Açude ao fundo.Tudo que você quiser fazer você pode conseguir. as caatingas semi-áridas. É uma líder natural. a mais alta temperatura média anual. Talvez não tenha alcançado o sítio de seu Antonio. o quadro político daqui é muito difícil. 1878. no sentido da cidade de Iguatu. entre irmãos e primos ou na comunidade. onde é líder comunitária. Nacional. . as mais baixas taxas de umidade relativa. onde estamos hospedados.) entre as chuvas habituais de final e de começo de ano. quando comparadas a outras formações naturais brasileiras. Aziz Ab’ Sáber. Ela participa do projeto Adolescentes Solidários da Aliança com o Adolescente. os currais políticos.82 83 . põe pra tocar um CD de Cazuza.Tudo muito organizado e bem cuidado. Nosso destino agora é Quixelô. porque se você for analisar. eu dou leite pra ele na mamadeira — diz Aderlúcia. Paulo Freire e tudo sobre política que cair nas suas mãos. periódicas que assolam o espaço social dos sertões secos (. na estação seca. Enquanto fala de política. além dos livros que gosta de ler agora: Rubem Alves. a gente começou de adolescente. Para o cotidiano do sertanejo e sobrevivência de sua família. — Quando ele fala assim “as ilusões estão todas perdidas. existe a politicagem partidária.. A voz de Cazuza sai forte pela janela do quarto de Aderlúcia: o uma prá viver . o que a gente vive politicamente na microrregião é mais ou menos isso. aquilo de “ou você faz ou morre”. Os domínios de natureza no Brasil. eles são aqueles que dão o brilho. Duas cabras e dois cabritos vêm correndo pela estrada fugindo da chuva. eles são o diferencial na multidão. Mas ela não aceitou. você coloca nessas pessoas uma valorização humana. Seu Antonio vem do quintal com seis cocos na mão.eu quer . pois também está. E quando a minha amiga Solange falou que ela não quer ser só mais uma na multidão. Fonte: IBGE. São Paulo: Ateliê Editorial. enquanto acena pra nossa despedida. O que pode significar a saída dos moradores. Uma pequena boiada passa apressada. atrás de trabalho ou estudo nas cidades grandes. um de seus músicos preferidos e vai falando. um ela enjeita. A. — É burreguinho enjeitado. enquanto ele canta. — ainda diz seu Antonio. que “entrava” também os meninos buchudos.. os ventos regulares se elevam e em sua marcha de 100 a 120 km por hora. A carne macia da fruta já tem outros donos: os gatos da casa já estão de olho. Aves da caatinga. você vai conquistando o seu espaço. Um homem passa na sua bicicleta. Nas últimas eleições. seja na família.. aí ela não quer mais o filho. Ela conserva todos os livros desde a quinta série. o céu amanhece ameaçador e uma chuva grossa cai. Não existe a política pública. Foi uma aguada passageira que caiu em Iguatu. na frente da casa. Eles não são só mais um na multidão. a mãe sente que o cheiro é diferente do dela. Aderlúcia foi convidada por políticos do PSDB da sua região para ser candidata a vereadora. na beira de um dos lados do açude de Orós. Observações sobre as secas no Ceará. carregando a espingarda. Outra coisa que você não pode fazer é pegar no rabinho do burrego quando ele nasce. A natureza semi-árida desta área resulta principalmente da predominância de massas de ar estáveis empurradas para sudeste pelos ventos alísios. para que você não ameace o poder. 2004. István Major. você se sente muito pequeno no mundo. De qualquer forma. em termos de desenvolvimento humano. aí chega assim. entendeu? Pra você ver que nada é impossível na vida. mobilizando moradores e jovens para atividades ambientais e esportivas. No dia seguinte. Porque quando você trabalha com adolescentes e cada um consegue descobrir o seu valor. Na falta de estantes. para nos dias seguintes. Voltamos pela mesma estrada. .. — As ovelhas às vezes dá cria de dois. A cidade de Quixelô não é muito diferente de Jucás. Ideol viver ogia. pilhas de livros em cima de dois banquinhos. encadeiam e arrastam todos os vapores aquosos e deixam o Ceará na mais límpida e serena calmaria. — Aí assim. Aderlúcia tem 21 anos. então quando ela não tem leite suficiente. A chuva espantou caça e caçador. de Macedo. na reunião dos “molequinho buchudo” lá do sítio. a chuva pouca foi suficiente. Typ. se você pegar. Nos despedimos da família.e ma prá Ideol u quero u . Fortaleza: Edições Demócrito Rocha. Onde Aderlúcia vai. se intercalam trágicos anos de secas prolongadas. contanto que tenha vontade mesmo. toda ali. na linha entre a pobreza e a miséria.. isto é. apresentam muitas características extremas: a mais alta radiação solar.. Diz que não tem nenhum partido e que no futuro pretende criar um. Vamos tomar nosso rumo outra vez. Censo 2002.. Tanto Quixelô quanto Orós registraram uma queda no crescimento da população.... todos os meninos da nossa região. ogia. Luís Gonzaga Sales Jr. Assim as pessoas tentam sempre diminuir você. pasto seco. mora com o pai e três irmãos no sítio dos Barroso. a gente ver o sertão reverdecer. — Vai desculpando aí. um carneirinho marrom de dois meses de idade vai atrás. 2003. Vamos para o sítio dos Barroso. de maio a janeiro. o fator interferente mais grave reside nas irregularidades climáticas. qualquer coisa. e Rodrigo Castro.. M.

no largo do açude. . durante o inverno.. outras três.) Tá tudo cismado hoje. Rubeane e o pai enfileiram as cadeiras para a nossa chegada. naquela água cheia de nuvens e de céu. já perto das águas do açude.. é um projeto piloto. beneficia apenas a Zona da Mata. nem pro Rio. op. Às vezes tem gente que compra e já quer que eu entregue morta. que pode ser um passo para a microrregião do médio Jaguaribe.. seis cabras olham fixamente para a janela.. vixe. quando eu vejo que eles tão com o papinho já cheio é só aí que eu vou pra casa.. criação de abelhas em sociedade com o pai. O cuidado que a gente tem com os filho da gente é o cuidado com a criação também. era “bença pai” e mais nada. Eu me considero uma empresária. Mas e na hora de vender? (mãe) — Tem uns que eu não vendo. h eran ç aracatu é guer rei ro. Eu pretendo continuar meus projetos por aqui.“mata uma pra nós ‘comer’”. vamos para Quixelô mais uma vez. eu falo: “Não belisca!”. né? Venha. tchuc.Vamos para Pernambuco.. ande bichinha. tchuc. agora num outro sítio. Zona da Mata. a ONG parceira da Aliança com o Adolescente na formação de jovens agentes de desenvolvimento local. entre a natureza toda verde. É uma responsabilidade muito grande para todos nós adolescentes. e criação de galinhas em sociedade com a mãe. Glória do Goitá. sede do Serta. antigamente ela falava pouco. de jeito nenhum. uma fila de desempregados espera uma senha para tentar conseguir um trabalho. pelo menos. mas vai custar muito pra comer”.. eu respondo:“ah. nem a mata ficando cinza emaranhada nas suas folhas... de onde sai aquele som e aquela luz tênue das casas do sertão. só indo pra São Paulo. Chão de cimento queimado. corre atrás. um bica o outro. de nome Angicos. conversava um pouco comigo. Estamos saindo do Ceará.. (mãe) — São tudo francesa. É a Nação Sementeira que passa cantando o Maracatu pelo Campo da Sementeira. Sete horas da manhã. 17 anos Rubeane e sua mãe nossas mãos conseguir um projeto produtivo para este lado do Ceará. em Pernambuco. Está em Rubeane. — Pode-se dizer que eu sou uma microempresária. são bonitinho demais . Me dá uma alegria.. No momento em que a massa de ar tropical atlântica (incluindo a atuação dos ventos alísios) tem baixa condição de penetrar de leste para oeste. A mãe de Rubeane vai buscá-los. Nesta região da Zona da Mata chove. os bichinho que são mais novinho. como todo mundo. gu Meu M errei ro ad os me us a ncestrais. Todo o grupo do Maracatu é formado por alguns desses jovens. vem comer.. Depois que eu coloco a ração. a gente tem um projeto de piscicultura. Carnaúba não se vê mais. Antigos engenhos apontam suas chaminés. cit. Mas não gosto quando eles “fica” brigando. a estrada do algodão nos levará. Pernambuco. estudante do segundo grau. vem. não quero ir pra São Paulo. umas têm dois meses. não tenho vontade nem de visitar. vem. Aziz Ab’ Sáber. uma mulher. aí tenho de matar. Dia claro. desde que entrou na Aliança. não. o outro vem e belisca o outro. Na praça de Iguatu. São tudo graúda assim por conta da ração.. (Rubeane) — Antes eu pensava assim: estudar pra quê? Quando a gente termina não tem o que fazer mesmo. (mãe) — Essa menina mudou demais. vem Rosinha. A força do Maracatu. A estrada do algodão nos trouxe. ande. região da Zona da Mata. No terreiro. ande. Agora eu não quero nem sair daqui. Rubeane. porque trabalho em três eixos. de chapéu. eles voltam ligeiros quando percebem que é hora do almoço. seis vezes mais do que costuma chover no sertão. estudando. brilhoso. Às vezes meus filhos “fala”.84 85 Do lado de fora. da lu ta da paz. La Belle Rouge. quando a noite começa a vingar. fico aqui sentada no terreiro olhando eles comer. se alimentando e a gente se sente feliz. o pai e a mãe nos esperam na sala. (mãe) — Eu fico conversando com eles. no Campo da Sementeira. igual quando a gente tá com os filhos da gente. Meu Ma racatu verdadeiro. de tão limpo. 17 anos.. lutando com eles e a gente olha tá tudo lindinho ali conversando. vão vir 50 gaiolas. mas me dói demais (. Gigante Negro e Caipirão ciscam no terreiro... Nós passamos direto. lava roupas. mas com o pai. Agora a paisagem são coqueiros. não é? É do jeito dos filho da gente. Duas casas prá arriba... Rubeane é a única adolescente da Aliança que desenvolve três projetos: criação de peixes. — Eu gosto de dizer que eu sou empresária — diz Rubeane. com outros jovens da comunidade. galinhas exuberantes exibem o seu vigor.

lê.. Abecê do folclore. . a gente identificou que a nossa cultura estava morrendo. são assim pequenas frases que alguém canta e o resto do pessoal responde. Então a gente. sou caboclinho do s tam b or es e ag ogôs Cantam os meninos do grupo de teatro do Serta. que foi dada a origem a esse maracatu. São Paulo: Ricordi. já ossa r ainha e coro Já s . para denominá-los. o grupo convergiu para o carnaval.. aí pintou a oportunidade e agora sou eu que estou levando aí a galera pra tocar. (Marilândia.. 18 anos) — A partir da formação que a gente teve aqui no Serta. os africanos do grupo iorubá ou nagô são originários do sul da Nigéria. Perdida a tradição sagrada. não é? (Adriano. para se contrapor a essa influência nefasta das rádios FM. que é a Nação Sementeira. eu e Gerusa. três anos.. — Estava conversando agora com Marilândia e Gerusa que pintaram um mural belíssimo pro palanque dos maracatus — diz Inalda Batista.. tas v erdes de Santa Cruz caboclinho das m sou atas v erdes d o pau-brasil. elas são jovens formadas pelo projeto. conservando elementos distintos de qualquer outro cordão da espécie (em Pernambuco). Chão da Terra.. homenageando Nossa Senhora do Rosário. sou caboclinho lê. agô. Desde que eu entrei aqui no Serta. de resistência popular. também vocábulo do idioma desses negros. lê das Lê. porque assim era chamada a língua que falavam e o reino a que pertenciam. faz uns dois. de uma região que se chamou Costa dos Escravos. nagô. já se coroou. A nossa região é muito rica em maracatu. 1954. aclamados na escravidão e nos exílios dos engenhos de açúcar. 22 anos) — O batuque é pra dar mais um ritmo à nação. de arte e cultura. Esses ritmos são herança dos escravos. . por ser usado. para a coroação nas igrejas e posterior batuque no adro. . e os adolescentes não viam isso como uma riqueza. a nossa rain ha se coroou. E o canto é chamado de entoada. ela não tinha controle. por haver se tornado importante centro de tráfico. n já se cor 87 oou. decidimos retratar a arte e a cultura através de pinturas manuais em camisas.”.86 Nagô. No início nenhum jovem queria saber de ter um caboclo pintado na camisa. vice-presidente do Serta —. Maracatu é chamado de nação. a n ou. coco de roda. Na gô. nos tempos da escravidão.. há muito. mas precisaria fazer mais. pelos franceses. Designam-se eles pelo nome de iorubá. Então a gente tem feito esse trabalho. que temia porque sabia que ali. que trazem a pior música possível. Dicionário do Folclore Brasileiro. só uma reprodução de uma música de três tons.. de espaço de organização. Rossini Tavares de Lima. e nagô. já sabem olhar a partir de uma perspectiva de cultura popular. naquele espaço. Maracatu: visível vestígio dos séquitos negros que acompanham os reis de congos. A gente espera que os jovens tenham acesso democraticamente a outros tipos de música. Rio de Janeiro: MEC/INL. Já não olham para o maracatu com o olhar preconceituoso da casa grande. 1960. agora já tem jovem que chega pra gente e pede:“eu quero um maracatu. porque essa que toca nas rádios FM é uma ditadura. um caboclo. e tenho a certeza de que quando os meninos vão ao encontro daquele desfile de maracatu. lê.. . Câmara Cascudo.. Aí eu fiz várias oficinas de percussão. ma .

Até hoje aqui se planta cana. onde Edna (20 anos) e Estelina (20 anos) desenvolveram um projeto para a construção de cisternas. morador do Engenho) — Esses buracos. não. op. 19 anos E essas marcas. (avô) — Dizer a missa. Diante dele se curvavam. ou se está nessa do chão. dentro do seu domínio.. escrito na parede. Darcy Ribeiro. nos deram uma contribuição de 700 reais e a partir daí começamos a fazer as entrevistas com os moradores do Engenho. religiosa e moral. pesquisas na Internet. agora apenas para fazer o álcool. se penduram pelos cantos mais escuros. Verdes campos. Os morcegos voam pelos corredores da igreja.. né? Pra ver se encontra alguma jóia de valor. homens e crianças estão reunidos em volta da cisterna comunitária feita no quintal de dona Terezinha. era só o trabalho de evangelização. A gente juntou um grupo aqui da comunidade. que mora na casa vizinha e é a coordenadora do projeto Cisternas. exuberantes jaqueiras. o clero e a administração reinol. município de Pombos. Maria Cavalcanti Xavier. vou buscar o dia.88 89 Era uma igrejinha pequena. Mulheres. não é? E fazia às vezes músicas de entrada. quando de madrugada faço minha petição pra rezar o ofício santo da Virgem da Conceição. a paisagem é feita de pequenos roçados de mandioca. O piso do andar de cima está destruído. O açúcar perdeu o espaço. de tanto ver o avô ir lá na igreja do engenho. de onde se avista a moenda. estradinha estreita de terra.A gente não sabe realmente se a pessoa enterrada se está nessa catatumba aqui na parede. Árvores de flores vermelhas.. O senhor de engenho era um empresário nativo. em livros. Ele vivia na casa grande construída para durar e passar a seus herdeiros. 23 anos Manassés. com José e com Maria..”.. bibliotecas. a restauração da história. 19 anos. como o mulungu. onde definimos as prioridades e dentre elas estavam as cisternas. vou buscar o dia. cit. Só o sino ainda está inteiro e os meninos brincam com sua reverberação. que caem sobre o altar. uma mulher e sua filha vão de sombrinha aberta para aliviar o sol. assim. A gente visa a conservação das águas. política. integrados todos num sistema único que regia a ordem econômica. cabras. que eu sou leigo. A cana gerava altas rendas para Portugal. era assim: “vou buscar o dia. O menino Manassés. a caminho da comunidade da Gameleira. pra conversar com Jesus. Vou buscar o dia. dessas de prontidão no antigo engenho de açúcar. Na Gameleira. esses buracos tapados? (seu Arlindo. a casa grande. O poder do senhor de engenho. Uma alameda inteira de palmeiras imperiais. ele visa o social geral daqui do Engenho de São João Novo. Buscar o dia significa a gente se acordar antes do dia amanhecer e a gente ver as coisas da maravilha de Deus. sobrou uma cômoda de gavetas enormes e vazias e um nome de mulher. não é? (Manassés. Quem fala é Edna.. Porque o projeto não visa só a restauração da igreja. a chaminé. Engenho de São João Novo. se estendia à sociedade inteira.. fizemos o projeto e Edna. O senhor de engenho tinha uma autoridade que a própria nobreza jamais tivera no reino. Na sacristia. submissos. puxava muito terço. Tinham privilégios. Estamos em Glória do Goitá. abraçado no avô) — Então. 20 anos . A sombra do nosso carro passa estendida pelo canavial. Uma coruja branca fez um ninho no campanário e agora perde suas penas. assim como todas as portas e o teto. é o pessoal que vê a igreja destruída e se aproveita pra cavar. honrarias da Coroa. é ele quem dá essa inspiração. como um túmulo: 22/12/1921. casinhas de pau-a-pique. Frente a ela só a camada parasitária de armadores e comerciantes exportadores de açúcar e importadores de escravos – que era também quem financiava os senhores de engenho – guardava certa precedência. Nosso projeto foi aprovado pelo Serta. coqueirais. que é outra catatumba aqui embaixo. para descobrir a história dos engenhos de Pernambuco.. (Edna) — A gente fez um encontro microterritorial no município e nesse encontro foi feita uma visão de futuro. Um jegue vai pela estrada. dizer a missa.

eles falam que quem mora no sítio é matuto. quando não chove? (Edna) — É a prefeitura. a gente tira a quantidade da gente e deixa a quantidade da cisterna. Se não existisse a zona rural. De algum quintal do povoado da Gameleira o pessoal da comunidade vem trazendo um carrinho de mão. Ele coloca água todo mês. pelo menos uma vez por mês. como a gente também. que ia ser usado no almoço. uma calha feita especialmente para aparar a água da chuva. A coisa melhor do mundo foi que inventaram esse projeto pra nós todos.Aí pego essa água. (Dona Josefa) — Quando tem pouquinho assim. Aí quando a gente chega no Serta. Que a gente ia muito longe pegar água. a cidade não sobreviveria.500 reais para a construção de três cisternas. de onde vêm os alimentos. a gente deixa pra cisterna. E quem abastece de água. não tem? Só pode ter. E por que põe cloro? (Dona Josefa) — Mor dos micobe. levo lá pra dentro pra coar. não é? Tem que deixar a quantidade dela. tem micobe nas telha. enquanto nos oferece o óleo de cima da pia. Mas vocês não fizeram a calha para pegar a água da chuva? (Dona Terezinha) — É porque a gente ainda não tem o dinheiro pra comprar a bica. para tirar o líquido da jaca. quando não dá pra colocar de 15 em 15 dias.90 91 enviamos para o Serta. mas a partir de quando entrei no Serta eu comecei a resgatar minhas raízes e ver que cada pessoa é importante no processo de desenvolvimento. vê que é totalmente diferente. não é? (Edna) — Até eu entrar no Serta. dona Terezinha nos ensina a passar óleo de cozinha. então a gente vai ao vereador e pede pra ele mandar. na casa da vizinha. E agora vocês estão pegando água aonde? (Dona Josefa) — Chuva. Germano ajuda a descascar e vai nos oferecendo aquela doçura. (Dona Terezinha) — É porque demora pra chegar. eu não me reconhecia como uma pessoa capaz de desenvolver ações em prol da comunidade. E tá vazia a cisterna? (Dona Terezinha) — Tá. choveu a gente aparou lá num balde e tá tomando até que chegue a carrada. Como assim. de lonjura boa. Tem de deixar dar duas chuvada pra amparar depois. barata. Quer dizer. do telhado. não é assim? E ali o que é que tem? Melda de rato. (Dona Josefa) — A gente tem que deixar dar duas chuvada pra pegar a água. Depois. pra ela não rachar.A gente que mora no campo sofre muito preconceito da gente da cidade. que foram feitas em forma de mutirão. cada pessoa tem seu papel. Eu já estou com duas semanas tomando água da chuva. é jeca e a gente vai crescendo. Dona Josefa tem. e agora vamos ter a água aqui pertinho. A cidade sobrevive da zona rural. sentindo e acreditando que a gente é menos do que o povo da cidade. na casa de barro onde vive. a gente não pode tomar uma água dessa.Achava que tudo tinha que ser feito pelos políticos. cheio de jacas. Edna e Dona Josefa . através de um vereador. vereador? (Edna) — É porque aqui os carros-pipa são controlados pelos vereadores. né? Desde a semana passada que a gente pediu e não chegou ainda. mancha a pele quando apanhar o sol – ela diz. que grudou feito cola: (Dona Terezinha) — Se não tirar. mais de uma hora de caminhada. boto um bocadinho de cloro e só aí a gente pode tomar a água. Sabe por quê? A água vai escorrer das telha. na boca e nas mãos. Eles aprovaram e nos deram um financiamento de 1. que tanto vai servir à dona da casa. Comemos a jaca debaixo da mangueira.

Casas pequenas. salamanta. minha mãe”. Junto com Ketma.. qualquer cobra pode lhe atacar. vinhemos con da pes Na terra faze ória. pau-brasil. A loja Lili Modas exibe seus vestidos. não é? Nequinho é dono de um bar que fica atrás do pau-brasil. ele faz rezas e dá bençãos. corde-rosa. eles conseguiram entender a gente e a partir de então nosso diálogo ficou mais fácil. É uma organização da sociedade civil que trabalha com lideranças comunitárias. casco de burro. Nós somos uma organização que não tem vínculo nenhum com a gestão e trabalhamos para que o orçamento público venha a ser democratizado. te. vem lá. Plantei e hoje tem um grande futuro no meu terreno. meu vinhe . Seu principal valor residia na produção de um princípio colorante denominado brasileína. Aqui é veneno puro. várias cobras se enroscam. trinta anos atrás. povo querido. extraído do lenho e antigamente usado para tingir tecidos e fabricar tinta de escrever. 2002. qualquer inseto pode lhe morder. religiosamente puro”. tá entendendo? E pronto. ( Joel) — O que era costume é: o prefeito manda o orçamento. não tenho nada pra lhe dar.. eu trouxe um pé de pau-brasil pra você”. escorpião. que sa mos o sonho be fazer sua hist . presidentes de associações. a caninana e a mariscadeira. lacrau. quem v — Eu sou Ketma Santos. uma alegria. de sete pernas. na paisagem que o olhar já acostumou a reconhecer. os vereadores discutem. depois de eu lhe rezar. eu encarei com muita simplicidade. a madeira atualmente é empregada somente para confecção de arcos de violino. ira. Que co ui vou pe rguntar. É o pau-brasil reencontrado. Faz isso uma vez só e fica curado pro resto da vida. são todas aqui da região. moro em Feira Nova e coordeno o Fórum do Orçamento Público. faço um sino de Salomão. (Nequinho) — É a coral. Joel Gonzaga. Mordida de cobra eu curo assim: boto um crucifixo na sua mão. jararaca. por parte de outros vereadores. não sei se Joel notou nossa dificuldade. que estimulou a adoção do nome Brasil ao nosso país. Palmas. mas a gente conseguiu se colocar. Aí quando as meninas chegaram pra participar do nosso orçamento. de pequenas flores amarelas que se criam em cachos. Nova Odessa: Plantarum. . que é o que tem maior saída. se Pedim s lados. Árvores brasileiras. Seu Nequinho Boa ta amos a t odos da casa rde. só que a coisa foi mudando e desde 1990 eu passei a participar do orçamento participativo do Estado. a oposição rejeita e a situação aprova. rainha. de sindicatos. Feira Nova. de gente ssa licenç cabra a. eu mesmo que pego. Mulheres em cadeiras na calçada. de início. A sua exploração intensa gerou muita riqueza ao reino e caracterizou um período econômico de nossa história. Na prateleira. O armazém faz anúncio do café que vende: “café Santa Clara. Era meu aniversário e ela disse “meu filho. pra não ser mal interpretado.Tudo parece normal. pessoas de grupos jovens. grêmios estudantis. realid las de flores. que mata sete vezes. vamos até a casa do presidente da Câmara de Feira Nova. Outrora foi muito utilizada na construção civil e naval e trabalhos de torno. Eu disse:“muito obrigado. essa árvore que tá aí fora. Harri Lorenzi. Ali. de chãos e p os da e teatro. autônomos. — Ó Nequinho. rtejo é aq uele senhor? Eu aq Quem em lá. teve alguma resistência. Até que uma árvore. em fartura de beleza. dentro de garrafas cheias de pinga.. Ruas de paralelepípedo. sete flor dos sete pios. que nada lhe acontece. enfeitadas com desenhos no frontão. canta o grupo d eninos do Serta. Nequinho é um curandeiro. azuis. Chão da Terr Semente dos m a. saud mos d rtão e da mata e todos o . na sua mão com esse dente de cobra. do agrest os a vo ap tar um rosa.92 93 Vamos voltando pelas estradas dos sítios de Glória do Goitá. Ficamos com medo assim de estar se colocando. No resto da Câmara. amarelas. no éta ade certei s camp ra. mangueiras. dança e balança na sua sombra brasileira.. além da cachaça. marimbondo. . tenho 21 anos. (Ketma) — No primeiro encontro. Essas garrafadas “cura” problema de coluna. q uem vem lá. e. é sua? (Nequinho) — Foi mãe quem deu. roçado de mandioca.

Não é a linguagem do povo. meu vinhe . saud mos d sertão e da mata. — Eu sou Viviane.. q uem vem lá. mas beneficiar a vida de uma forma mais plena: uma educação de qualidade. e esquece a questão do conhecimento. q uem vem lá. Gostaria de responder à primeira pergunta que me causou muito entusiasmo. povo querido.94 95 (Ketma) — E não é fácil entender o orçamento. quem v Casa da Dona Josefa . com os valores. do agr os a vo ap tar um rosa. três são analfabetos. com o ambiente. povo querido. gestores. meu . rodam e como um monjolo fazem a água circular e oxigenar o lago. sou agente de desenvolvimento local e moro na cidade de Lagoa de Itaenga. a gente estudava. saud Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. ( Joel) — Infelizmente a população do nosso município vota de acordo com suas necessidades. tenho 22 anos. a juventude. O vento também é uma energia a ser aproveitada. Boa ta amos a t odos da casa rde. vem lá. deveres e lutar para se inserir no contexto da construção de políticas públicas para. professores. com a questão da cidadania. sou de Glória do Goitá. com a vida do próximo. vinhemos con da pes ória. uma saúde de qualidade. estudava. s lados.. Se você escrever uma palavra e mandar eles lerem. o Campo da Sementeira. Boa ta amos a t odos da casa rde. q uem vem lá. a gente chama de propriedade modelo. quem v Boa ta amos a t odos da casa rde.As nossas preocupações são diversas. mas eu acho que uma preocupação muito sublime é com a vida. Então isso aqui serve pra gente mostrar para o agricultor como ele pode aproveitar as energias externas. (Germano) — Isso aqui é um lago onde tem criação de peixe. povo querido. É você lutar por tudo isso e saber que não luta sozinho.. que é em relação à preocupação do jovem da Zona da Mata aqui de Pernambuco. saud Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. aí eles vão votando em quem dá mais. que sa be fazer sua hist Que co rtejo é aq uele senhor? Quem em lá. Hoje nós temos na Câmara nove vereadores. vem lá. vem lá. tenho 19 anos. em sua forma mais simples.. de gente ssa licenç cabra a. sou agente de desenvolvimento local da primeira turma e hoje sou um dos educadores do Serta. Esse público vem pra cá para aprender essas tecnologias e depois levar para a sua comunidade. também tem as galinhas e serve pra elas tomarem água. Essa propriedade. e todos o Pedim este. Quando o cata-vento gira. dispostas em círculo. Protagonismo juvenil é você lutar por aquilo em que você acredita e através disso você não beneficiar só a si próprio. O Campo da Sementeira é como se fosse uma fonte de inspiração. que você luta com uma multidão de jovens que também acreditam naquilo que você carrega. meu . faço parte da equipe de mobilização social... quem v — Eu sou Germano de Barros. eles não lêem. te. Preocupação com a vida. É um centro de formação tanto de agricultores quanto de jovens. parece que foi feito para o povo não entender. e com. é um monte de códigos. É a questão de lutar pelos direitos. uma oportunidade de emprego. faz a água escorrer dentro das garrafas pet cortadas ao meio que.

vice-presidente do Serta) Em 2003. que vem contribuindo com a produção de conhecimentos e de valores no desenvolvimento das comunidades. Desse modo. tem 500 anos de opressão nesse Brasil. Outra coisa: na equipe do Instituto Elo Amigo. que tem uma estruturação de continuidade. mediante conquista de novos parceiros. Ceará) O Instituto Elo Amigo foi criado em 2001 e entre outros projetos coordena. se afirmam com muita qualidade. no Ceará. adolescentes solidários e central de referência em serviços. mas eles são pessoas muito atentas ao que se diz e ao que se pede a eles. iniciou a disseminação deste projeto no litoral sul da Bahia. mais de 2 mil adolescentes para atuar como agentes de transformação. do Rio ou de São Paulo. formou. fazemos com a ajuda dos jovens e de outros parceiros. A Fundação Odebrecht e o BNDES atuam como entidades financiadoras.Ao entrar no Instituto. não são muito ‘atirados’. projetos maravilhosos que a gente teve a oportunidade de conhecer no nosso Brasil. mas quando eles se afirmam. As relações são muito estáveis. que são os jovens nordestinos. não é? Então. A sede do Serta. mas toda uma formação. em Pernambuco. mas se o clima é de ocupação de espaço. Um conceito que a gente utiliza é a Paidéia. Eles começam agora a trazer no discurso deles essa identidade brasileira. eles são pessoas muito presentes. e Baixo Sul. entre suas ações. em Glória do Goitá. Em junho de 2003 as ações do Projeto na microrregião no Baixo Sul da Bahia foram concluídas. Em cada microrregião foi identificada uma ONG. nós vamos chegar num processo irreversível.. não uma identidade separada do resto do país. a Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (Peads).834 projetos concorrentes que desenvolvem ações complementares à escola em todo o Brasil.96 97 Origens e Propostas “A proposta da Aliança sempre foi contribuir para instalar nessas localidades uma dinâmica de desenvolvimento sustentável. para ser parceira no projeto e executora das ações na região. mudar e mudar para melhor. são aliados estratégicos do Projeto nas microrregiões do Médio Jaguaribe e da Bacia do Goitá. coordenador executivo do Instituto Elo Amigo. Com a conclusão do ciclo de cinco anos (1999-2004) nas microrregiões do Médio Jaguaribe e Bacia do Goitá. Bacia do Goitá. Um sentido das pessoas acreditarem que elas podem. talvez não tivéssemos êxito.. com as outras regiões. coordenador de projetos do Instituto Elo Amigo) Serta O Serta foi fundado em 1989. Mais da metade dos adolescentes formados está inserida em atividades econômicas. K Kellogg Foundation. os jovens de Jucás. não só em técnicas de produção ou de questões sociais. somos todos da mesma comunidade desses jovens. no Ceará. As relações sociais são muito bem definidas. por um grupo de agricultores. em 2000. Eles são pessoas muito discretas. Então eles acrescentam demais à nossa relação pedagógica. Outro conceito é trabalhar uma massa crítica de jovens. políticas ou sociais em suas microrregiões. O Instituto Ayrton Senna e a W. o Serta passou a atuar na Bacia do Goitá com a formação de adolescentes protagonistas. mediante itinerários educativos com duração média de dois anos. Eles esperam. diretora do Instituto Aliança) O Projeto Aliança.A relação pedagógica que eles estabelecem não é de autoritarismo. Uruçuca e Itacaré. o projeto Aliança com o Adolescente. Agora.” (Márcia Campos. os jovens brasileiros. além de apoiar financeiramente a Aliança. o que a gente quer construir com esses jovens é uma identidade brasileira. mediante reuniões com os vários segmentos e setores que formam aquela comunidade. Uma massa crítica. além de uma propriedade agrícola modelo. sediada no local. “O que a gente quer mostrar. Comunicação e Mobilização Social e de Inclusão Digital. E eu digo que o êxito é muito pela educação do jovem rural.” (Inalda Neves Batista. uma base realmente humanista. primeiro eles esperam pra saber como está a situação. mesmo que seja de pais separados. mudar para algo que a própria comunidade reconheça como melhoria de qualidade de vida. O Instituto desenvolve também programas nas áreas de Direito e Cidadania. propiciando a instalação de uma dinâmica de desenvolvimento local. O povo da zona rural é um povo muito ciente dos seus direitos. então nós também tivemos que nos educar e estamos nos educando junto com os jovens. e sim apoiá-los a produzir novas e crescentes riquezas. O projeto Aliança com o Adolescente iniciou sua etapa piloto em três microrregiões do Nordeste: Médio Jaguaribe. Os 70 mil reais do prêmio foram utilizados para financiar projetos de jovens na região da Bacia do Goitá. os jovens de Orós. na Bahia. o Serta conquistou o segundo lugar do Prêmio Itaú Unicef – Muitos lugares para Apreender. Instituto Elo Amigo “O que a gente tenta passar para os jovens e para a comunidade de maneira geral é uma formação realmente contextualizada e uma formação intensa. As crianças e os jovens aprendem a ter muito respeito com as relações humanas que se estabelecem e a valorizar muito as palavras do educador. antes de tudo. O objetivo final do Projeto Aliança não é realizar ações compensatórias ou pontuais nos lugares em que atua. no sentido de que esses jovens vão estar formando outros e outros. mas uma nova postura. Assim. que era a idéia dos gregos de educação integral dos seus cidadãos. em Pernambuco pelo Serta e no Baixo Sul pelo Ides. Uma vontade de mudar. É um conceito da Física Nuclear. Nós aprendemos muito com os outros projetos. “Às vezes eu penso que se nós trabalhássemos esse mesmo projeto com jovens das camadas populares de Recife. porque o jovem rural é um jovem que vive numa família. em Pernambuco. para formar a sociedade que a gente desejaria ver no futuro. numa multiplicação sem fim. de 1999 até junho de 2004. o trabalho é feito pelo Elo Amigo. uma identidade apenas nordestina. uma nova visão. Então o nosso ideal não é fazer prevalecer um projeto. O sentido de autoridade eles aprendem com muita definição dentro de casa. mas que são. . o jovem escolhe a área de atuação: agroecologia familiar.” ( José Eleudson de Queiroz. por meio da mobilização de suas próprias forças. o Campo da Sementeira. uma vez que seria impossível trabalhar com os 43 mil jovens da região. É bonito ver esses meninos se reconhecerem como os jovens de Quixelô. técnicos e educadores que atuavam junto aos produtores familiares. uma nova dinâmica dentro de uma determinada comunidade. formação e campo experimental. o Instituto Aliança. nos municípios de Ilhéus. E não fazemos isso sozinhos. construída e planejada para atividades de pesquisa. Desde 1992 passou a desenvolver. juntas.” (Gilvan David de Souza. no Ceará. de fazer valer os seus direitos. A convite da Aliança com o Adolescente. com 05 hectares e 90 ecotecnologias integradas sob a ótica e os princípios da permacultura. tem uma área de 3 mil metros quadrados. por educação. o Instituto Aliança acredita ser possível que o Litoral Sul possa reviver as histórias imortalizadas nos livros de Jorge Amado a partir de novos tempos. destacando-se entre 1. A partir do momento que começar a haver essa reação em cadeia. de novos valores e de uma nova cidadania. com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Territorial e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

112 PROJETO JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL 113 .

desprezamos a Estrada do Feijão e tomamos rumo pela Estrada do Sisal. longamente azul. Um mulungu com flores vermelhas. . nessa tarde nordestina. a macambira. onde. uma outra bem magrinha também. o gravatá. sou brasileiro D eixamos para trás a Estrada do Coco. Um restaurante: Bode Assado. A caatinga se apresenta.114 115 Sou sertanejo. O céu. É maior que a caatinga. Não há mais céu sem seus braços retorcidos. a quixabeira. Entre campos e caatingas. O semi-árido é maior que o sertão. a pindaíba. a catingueira. como nós. O sertão que começa. Grandes nuvens redondas e inofensivas seguem. O mandacaru agora é constante na paisagem. se exibem as palmeiras: coqueiros. Uma árvore descabelada passa. ouricuris. outra de vestido com losangos coloridos. uma de vestido branco. A sombra do nosso carro vai atravessando os campos baianos. viagem para o semi-árido da Bahia. aumenta na grandeza. vistosas. Casinhas de desenho de criança. o xiquexique. Em cada mandacaru um novo gesto arrebatado em um drama indecifrável. esperam o ônibus debaixo de um juazeiro murmurante de folhagens. Em Feira de Santana. o canudo-de-pito. Duas mulheres.

onde você está sujeito a perder um braço. no distrito de Salgadália. que nos sustenta. ASA. Passam a Rádio Sisal. como você viu ali no quadro. retorcidas. Ailton.. até ficar claro que somos nós passando ali. Jucélia. Numa das paredes. acho que aqui nenhum sabe o preço de um quilo de sisal quando vai para o exterior. Genivaldo.A flor anuncia a morte da planta. fruto da gente. pra tirar as crianças desse trabalho. porque não tem uma única proteção para você que vai desfibrar. quem acaba ganhando são os grandes empresários que compra o “sinzal” aqui nas batedeiras e revende. Conceição do Coité. Todos. a cena é só um borrão. da mão-de-obra da gente.. A gente levantou a questão do êxodo rural e quando a gente sai da zona rural pra vir para a sede ou para outra cidade maior. (Melquisedeque) — E estão exportando o nosso “sinzal”. em cima do homem que vai à caça com a espingarda nas costas. a Pousada do Sisal. Gerusa. O sisal dourado secando no campo. (Marilúcia) — Existe também a máquina que transforma o “sinzal” na fibra e já mutilou várias pessoas. depois que ele sai da batedeira ninguém sabe. em cima das cercas de palha. trabalharam no corte da palha do sisal. Maria Luiza. para cortar folhas pontiagudas e duríssimas. que. O mandacaru outra vez. que já perderam o braço. Clécia. Apesar da ausência de verde no período da estiagem. que a gente faz com tanto carinho. É uma planta que veio do México. A sala escura de lâmpadas de pouca potência tem bancos compridos como os de uma igreja. Zé Carlos. com tanto trabalho. Marilúcia. A máquina moendo a planta. (Melquisedeque) — A gente cortava palha com dez. 2003. não tem segurança. A lua está de quarto. . Vanilda. É uma reunião de trabalhadores rurais. Jailson. Betânia. através do sindicato. recatadas. Gal. quando crianças ou adolescentes. Cláudio. Ana Paula. a caatinga nordestina tem uma fauna e flora riquíssimas. recentemente um rapaz de 16 anos perdeu a mão. Paulo. Joêmia. um distrito de Coité. No borrado a nossa sombra se define. pra depois ele ser comercializado. em varais que se estendem no terreiro.. Graciane. feito com facão. pelo apreço e reconhecimento a nós destinado. Hoje tem um programa. Em nome do Coletivo do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité eu vos saúdo. Alderir. E continuamos caminho. o sisal ainda pequeno brotando nos campos e chegamos ao nosso destino: Salgadália. Como se fosse uma resposta da vida. Hoje é o “sinzal” que traz renda pra gente. Duas casinhas retas passam. Melquisedeque. Mônica. com tanto sacrifício. (Melquisedeque) — Salgadália é conhecida como a região do “sinzal”. Daiane. aí a gente vê na televisão que tal cidade está Caatinga quer dizer mata branca na língua tupi. em cima das árvores secas. pelos jovens que fazem parte do Coletivo Municipal de Jovens.. cada vez mais. Esta é a última beleza da planta do sisal. Eliana. Marta. exporta pra outros países. de tão retas.Aqui em Salgadália.Ai de nós se não fosse o “sinzal”. Que sejam bem-vindos a nossa região sinzaleira. Ficamos gratos por sermos vistos como referência. e ao mesmo tempo uma reunião de jovens. resistentes. Rute. Com a nossa velocidade. Um marco para a nossa história vocês nos concedem. Já é noite. sombreando os campos de sisal com suas flores compridas. Somos nós. no terreiro das casas. a algaroba. Jucilene. um quadro pintado a óleo mostra a plantação do sisal. Gledson. Aqui um quilo de sisal é um real. Um vaqueiro montado num cavalo passa.. fazem relatos dos seus quereres. ( Jucélia) — As nossas sinceras felicitações. depois tem que ir para o campo para secar e aí tem outro processo na batedeira. São cerca de 600 tipos diferentes de árvores e a maior densidade populacional de espécies animais encontrada em regiões semiáridas da Terra. Sérias. das suas conquistas. Estamos em terra do sisal. a mão. o município. Articulação no Semi-árido brasileiro. ( Jailson) — A nossa principal preocupação hoje é a falta de emprego. mas é também um sinal de resistência no meio de terra tão seca.116 117 Arlete. na nossa presença. erguidas em hastes para o céu.. Agora a gente vem debatendo sempre a questão do trabalho infantil no “sinzal”. região “sinzaleira”. 12 anos. Assim somos recebidos na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité. Como se fosse um sertanejo também. Um trabalho perigoso. que dá essa força e estamos lutando aí. ( Jailson) — O maior perigo é na hora do desfibramento. Jamile. um dia.

Na região da gente. Atualmente 5. coordenador técnico e pedagógico do Programa de Políticas Públicas – MOC) As famílias da região sisaleira da Bahia compõem os 5 milhões de brasileiros que declararam ao IBGE não ter nenhuma renda no ano de 2002. Unicef. por isso que eu quero melhorar. não acha emprego e aí não tem mais como voltar pra casa. No semi-árido. O salário dos professores é quase a metade dos professores das áreas urbanas. pensar em emprego é pensar em 5. do nosso cotidiano. o que fica para o grande empresário é algo em torno de 85% do valor que o sisal obteve até chegar no consumidor.118 119 crescendo. o trabalhador consegue tirar o salário mínimo. porque eu não quero sair daqui. tudo está aqui. Censo 2000. (Maria Luzia do Carmo) — O sisal aqui em Salgadália tem uma renda muito grande..8 milhão em situação de extrema pobreza. bebida. não está crescendo. Então há um processo de exploração de renda que é por aí que a gente consegue entender os índices do PNUD. e não de emprego. empresas que gerem trabalho. para que a gente mesmo comece a fazer coisas. É só a população rural que vai pra cidade. futuro da região sisaleira da Bahia? Avaliação Peti – Bahia” In: de Feira de Santana (BA): Movimento de Organização Comunitária (MOC). de estudo. Salgadália vai ter progresso principalmente no sisal. está só inchando. 650 mil vindos da área rural estavam residindo nas cidades. nossa vida. vão pra Conceição do Coité. (Mônica) — Salgadália é meu distrito amado. quando foi realizada a pesquisa nacional por amostra de domicílios. 22. a questão a ser discutida não é como vamos produzir mais sisal. não como forma de estar na mão-de-obra. Nessa luta. por isso é que você tem uma alta concentração de renda e um alto nível de empobrecimento.” (Clodoaldo da Paixão. sendo 1. trabalhadores rurais. Fonte: Unicef. ou continuam a ser. vai se interessar mais pelo sisal. — O nível de pobreza aqui da região é. A nossa luta é justamente essa: pra que a gente jamais precise dizer “olha eu. afinal. Os jovens de Salgadália querem a emancipação política.Agora pense na produção total. (Maria Luzia do Carmo) — A gente se reúne todo mês nas oficinas do PJPS (Projeto Juventude e Participação Social) com os jovens coordenadores dos outros 22 . querem deixar de ser um distrito de Conceição do Coité. Relatório da Situação da Infância e Adolescência Brasileiras. Quanto ao sisal. Não adianta sair daqui. Fonte: MEC. Fonte: IBGE. mas o debate é sobre como vamos aproveitar a matéria-prima do sisal para outros usos. em média. tiveram o apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. não a cidade. mas como uma questão de gestão e tudo mais. uma renda de 534 mil reais. São 534 mil reais que não ficam aqui.9 milhões de jovens entre 15 e 24 anos vivem no campo. que agora buscam novas conquistas. No semi-árido. de família. em termos de escola. de 74% — continua Clodoaldo — e então. Já existem estudos de como aproveitar o resto do sisal para argamassa. Eu sou jovem. pra se habituar em outro ambiente. “A possibilidade de emprego está ligada à existência de entidades. do IBGE. apenas 9% dos professores do campo são formados em universidades. preciso de trabalho. comece a vender.A gente tem que debater a noção de trabalho e renda. de cada cem quilos de fibra verde do sisal.A renda vai ficar aqui e o jovem vai ter emprego.. 2003. “Crianças e adolescentes. Adolescente da área rural tem quase quatro vezes mais possibilidade de ser analfabeto do que da área urbana. ao final de todo o processo de produção. Hoje.A gente tenta se manter aqui porque é nossa realidade. a mostrar o nosso produto. (Betânia) — Salgadália é tudo o que a gente tem. 10% da população.8% dos adolescentes do campo estão fora da escola. alimentação de animais etc. É só a população que cresce. todos eles foram. vou sair daqui porque a minha terra não oferece condições para eu viver”. (Maria Luzia do Carmo) — Uma coisa que nós da juventude pensamos em fazer é conseguir cursos para que as pessoas possam se aperfeiçoar no trabalho do sisal. imagina se ficasse aqui. que tem um papel muito importante junto a esses jovens. para encher mais ainda os bolsos dos grandes empresários. o que a gente sabe fazer para as outras comunidades. João Francisco Souza e Adriana Lenira Souza. então a nossa sede de emancipação política é porque se essa renda ficar aqui. só se aproveita 5%. então.

foi assim bem legal. Os Sertões . Uma oratória bárbara e arrepiadora (. em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão. Estrada do Sisal volteada pelo desenho duro da caatinga. Bom Conselho. dia de domingo. árvores antigas e lá no fundo um carrinho de mão com uma luz acesa. embelezando a estátua que se adivinha: Antonio Conselheiro. passou na Globo. Estamos chegando em Monte Santo. (Maria Luzia do Carmo) — Essa praça pra gente é tudo. Hoje. E a gente percebe a dificuldade de cada município. Inhambupe. com capelas espalhadas pela estrada. isso me enche os olhos. Monte Santo. Paralisavam-se as ocupações normais.. Encaminharam um projeto à Câmara dos Vereadores de Conceição do Coité. seguido pela multidão contrita. Se as comunidades rurais estiverem bem.. a praça foi reconstruída e hoje é o grande orgulho desses jovens. afirmam testemunhas existentes. você vai às duas da tarde e tá um movimento enorme o dia inteiro até o final da noite. até mesmo para namorar.) que os fiéis abandonassem todos os haveres. Prenunciavam-nos anos sucessivos de desgraças:‘. com desenhos no frontão.. Fomos até a praça reconstruída. pelo nosso trabalho.. Ela é uma das coordenadoras do Coletivo Municipal de Jovens e faz parte da coordenação sub-regional.. (Melquisedeque) — Eu posso dizer que essa praça significa tudo pra mim. Pelo vidro do carro só o que balança é a fita azul clarinha de Nosso Senhor do Bonfim. se avista o caminho de três quilômetros na Serra da Santa Cruz por onde passou o Conselheiro. (Marilúcia) — Falando em beneficiamento à população rural. onde as árvores não se alteram com o vento. homem grande.. eu digo que de qualquer forma o jardim da praça aqui da sede de Salgadália também é uma forma de beneficiamento. É uma coisa que nós conseguimos pela vontade do jovem. Lá estavam bancos. já se organizava enquanto juventude dentro do sindicato. o penitente errante e humilde monopolizava o mando.Ao lado um canhão. (Cláudia) — O nosso é um município muito religioso.. inflexível. carrega uma cruz na mão. O Juízo Final aproximava-se... ainda mais. Que abdicassem as venturas mais fugazes e fizessem da vida um purgatório duro. A gente percebe o quanto é bom a juventude estar se organizando. Saímos da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e fomos caminhando pela rua escura: casinhas pequenas. e durante alguns dias.. Era assombroso. Foram atendidos. em toda esta área não há. Mesmo as pessoas que moram na zona rural. a luz azulada da televisão. Aqui em Monte Santo foi gravado O Pagador de Promessas e Deus e o Diabo na Terra do Sol. Da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Monte Santo. Manhã azul-clara de calor. de mandacaru na praça.’ (os dizeres desta profecia estavam escritos em pequenos cadernos encontrados em Canudos). Esses jovens de Salgadália. Na frente. assim. É Cláudia de Jesus. A gente já trabalhava. a sua entrada nos povoados. eles vêm mais no intuito de pagar promessa e tá subindo o Morro da Santa Cruz.. vem muito turista pra cá. quase uma via-crúcis. Todas as fortunas estavam a pique da catástrofe iminente e fora temeridade inútil conservá-las.. era solene e impressionadora.120 121 municípios envolvidos no projeto. cruzes e bandeiras do Divino... fazia-se autoridade única. — Antonio Conselheiro foi e continua sendo um mártir que defendia o povo daquela época e continua na história de Monte Santo e vai ficar aqui pra sempre — continua Cláudia. vêm aqui até a praça de Salgadália para se reunir com amigos. toda bonita. 1898 – São Paulo: Abril Cultural.. Euclides da Cunha. Pelas janelas. Terra do sertão. (Clécia) — Uma questão também de preocupação nossa é conseguir a melhora da qualidade de vida do pessoal que mora na zona rural. O primeiro deles foi a restauração da praça da cidade. Jeremoabo. pendurada no espelho retrovisor. no caminho das igrejinhas construído pelo Antonio Conselheiro e seus seguidores. Alagoinhas. Monte Santo. aos domingos e todos os dias. .. 1979. alevantando imagens. quem nos apresenta a história de seu município. talvez. cabeludo. o muro branco do cemitério. de camisolão comprido. no fim de semana. mas esse projeto veio aprimorar assim. que “fulora” aqui na seca. em silêncio. da guerra de Canudos. e não a manchassem nunca com o sacrilégio de um sorriso.. nós temos a praça. a comunidade urbana também vai estar bem. tudo quanto os maculasse com um leve traço da vaidade.. 20 anos. até então um depósito de lixo. de cada região. a matadeira. ele ali subia e pregava. . depois de um seminário que realizaram (“Jovens Camponeses”).Vende pipoca? Não. Salgadália não tinha divertição e agora. então o certão virará praia e a praia virará certão. Tudo parado pelo caminho. uma cidade ou povoado onde Antonio Conselheiro não tenha aparecido. decidiram trabalhar com alguns projetos bem objetivos. plantas jovens. um dos lugares por onde passou o Conselheiro. acarajé. eclipsando as autoridades locais.

América Latina Eu ade. . A primeira questão que aqui mais alto se alevanta é a questão da identidade. . op. Paraguai. sou e er..66% das crianças e adolescentes do semi-árido vivem em famílias onde a renda per capita é menor que 1 salário mínimo.. Darcy Ribeiro. Censo 2000. Am érica e um dia verei o meu po mérica Latina .. agora está demorando uns seis meses. Falta de incentivo dos pais. às vezes acaba indo até em outro município.. de estar organizando uma rádio comunitária e tem também a questão da geração de emprego e renda..47% das crianças e adolescentes do semi-árido não possuem rede geral de esgoto ou fossa asséptica em suas casas. sem vidraças.. Argen melho de tant ae a b do eu ém sou stou à espera de um mun mágo .38. E aí o que acontece? Quando eu tirei a minha demorou uns 90 dias. A Eu mérica L sou oper atina. A gente vai trabalhar já este ano com o beneficiamento do umbu. Aí a gente insistiu junto à Secretaria de Jovens e fizemos um levantamento e chegamos a um número de 45% de jovens na nossa região que não têm identidade. que recolheram os poucos sobreviventes do morticínio e deles ouviram e guardaram os episódios heróicos de resistência e de luta. dançarinas e uma música.. eu tenho direitos. da Nicarágua. Todos os jovens cantaram uma letra que dizia assim: abastecimento de água adequado.122 123 A memória de Canudos perpetuou-se. três meses. A cidade é grande e tem uma única rádio que é voltada apenas ao poder mesmo.. também. palmas de licuri penduradas como enfeites. (Heraldo) — Tem uma coisa que a gente tinha gosto: era criar a rádio comunitária para estar divulgando os trabalhos sociais que existem aqui em Monte Santo.74. eu so a. Lá dentro nos aguardavam uma cena de Santo Antonio. tá lá na zona rural e pensa assim:“eu moro na zona rural não preciso dessa história de documento”. E sobretudo. ário n tenh alid a grande cidade. então aquele dono coloca só o que ele quer. sem venezianas. chilen o. Co olív V r. Eq o vo Eu ntad so uc lôm Na u da B e. tenh progresso c uador. já tem pessoas do grupo que fizeram o curso prático e já sabem produzir desde o doce. om as própr ias mãos.. cit. o re Eu em faço o suor e tr onhos ansformo meus s o Eu .42. atores cuspindo fogo..2% da população infanto-juvenil do semi-árido não tem acesso a Entramos com Cláudia na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Fonte: IBGE. mas acabam perdendo por não ter documentos de identidade.Tem um dono. a lição de esperança dos ensinamentos do Conselheiro sobre a possibilidade de criar uma ordem social nova. cheio d enc brasi leiro vo v . Peru. na tradição oral das populações sertanejas. a geléia do umbu. nem autoridades. (Cláudia) — Dentro do coletivo mesmo tem alguns projetos que os jovens poderiam participar. idadão bia. Essas são as nossas perspectivas. . não dá oportunidade nenhuma para a comunidade. América Latina. tin o sofrer Tam enezuel ia. os jovens não têm aonde tirar. A Janelas de madeira. Uruguai.. o suco e a polpa. . Pelas paredes brancas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. onde nos esperavam os outros jovens do Coletivo Municipal. sem fazendeiros.

Lucineide. Iolanda. principalmente das comunidades mais carentes que precisam de mais renda para os jovens. grêmio estudantil.A gente tem pessoas que lutam com a gente.56% dos universitários do país são jovens do campo. (Gilmara) — E é bom porque a gente fica sabendo que tem pessoas de fora que se importam com aquilo que a gente tem buscado na região. em parceria com o MOC e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. m-v eja ô. passa. funcionárias públicas da limpeza. não é uma coisa mais de tentar acabar com a seca e sim aprender a conviver com a seca. para fazer direito.Apenas 1.. uma carroça vai. Damião. a sa é sua. Edson. Esta é a nossa casa e vamos falar um pouco sobre as nossas experiências. Adauto. Cinco tigelas de barro no chão. ar. igreja. buscando água. Gilmara. sej em-vind . Na parede do bar. nós queremos jovens na Câmara dos Vereadores. porque a nossa região é semi-árida. que a vida no campo tinha condições de ser melhor para o jovem.. indo seja Ô. de lá Teofilândia e Araci. Gilma. para estar dando aos jovens da zona rural a possibilidade de um trabalho e renda. Ludimila está no centro de um galpão. com suas folhas miúdas. Passam dois com cão e espingarda..A gente não chegou aqui à toa. Traçar um plano de viagem: de Monte Santo para Araci. Saber que a gente não está lutando sozinho. Juarez. soo. Um grupo de jovens com a cara pintada metade branca. lele. Natanael. Lourival. Elielson. .1% dos estudantes rurais encontram-se em situação de defasagem idade/série. Dailson. onde a gente pôde observar que as experiências trabalhadas aqui com os jovens deixou a gente muito esperançoso. Também temos os poços artesianos. É de pessoas assim que a gente precisa para crescer mais e mais. (Dailson) — E também buscar o nosso lugar dentro de todos os Conselhos que existem. galinha e frutas. Numa esquina. Alto o céu. onde participaram os jovens da zona rural e da zona urbana do município de Tucano. saúde. Patrícia. Be do s . que é um projeto nosso. pode ch Cidadania. Um Opala branco passa com massa plástica na lataria e um colchão amarrado no teto. Não só ficar representando outros e sim mostrar nossa identidade. nós jovens fizemos uma viagem de intercâmbio pela região sisaleira. movimento de mulheres trabalhadoras rurais. Logo após. dois dormitórios coletivos onde jovens. (Ludimila) — Nós queremos ver na nossa cidade. sindicatos de trabalhadores rurais. no Conselho da Criança e do Adolescente e também no Fórum de . metade preta. com fita de gorgorão. (Davi) – No ano de 2004. Edmilson. Somos de associações comunitárias. nos ajudando assim a aceitar o que é nosso. a gente promoveu o 10 Congresso Municipal de Jovens. A festa terminou com um grande almoço: baião de dois. Daiane. É Ludimila um dia de festa. Como nas outras localidades.. Censo 2000. é antes de tudo. (Ludimila) — Como conquista. Estrada do Sisal até Barrocas. então a gente tem que ser isso mesmo e não ter medo de dizer “eu sou sertanejo. Rosenilda. desmedidos. fora daqui. com muito orgulho”. dança no meio do fogo. Para que a gente não tenha que estar partindo para outras cidades e que a gente aprenda a conviver com a seca. dias melhores. . perspectivas de trabalho e renda. além de cozinha grande. Verônica. nosso objetivo maior eu acho que é esse. a gente já tinha participado de outros movimentos sociais e também religiosos aqui na nossa cidade. alimentação.. Nelson. associações de pequenos agricultores (Apaeb) e também de jovens comunicadores e comunicação juvenil. altos os mandacarus com seus braços estendidos. po eja a b bemsa é s . Fica aqui o nosso reconhecimento por tanto agrado. -vin ua. homens de chapéu de feltro. “sertanejo. quem sabe. Agora vamos apresentar um teatro feito só por mulheres. o nosso sonho é. só não tem coragem de expor o que está sentindo. Temos também o nosso projeto de reciclagem e nós damos o nome de “Agente do Meio Ambiente”. Uma bicicleta vem. jovens lutando por uma política. Mata espetada da caatinga. Porque a gente sabe que mesmo no campo. jovens ocupando seu espaço. o poeta. como dizia Euclides da Cunha. Planos. mostrar a identidade para o jovem e a cara do jovem. o fogo balança dentro delas. Bruno. por isso a questão do camarão..124 125 A nossa perspectiva pra esse ano é ter jovens trabalhando em sua própria comunidade e sem pensar em querer sair da sua terra. a água não dá para o consumo humano. c ca a a ão ntra eg . E como encaminhamento desse congresso. mas eu acho que a nossa expectativa é que este livro possa levantar ainda mais o nosso coletivo e possa trazer mais e mais os jovens das comunidades. E conseguimos também o curso de políticas públicas e gerenciamento de propriedade. Josi. a gente priorizou um cursinho prévestibular.Araci. para que ele no futuro tenha orgulho de dizer que é sertanejo.a o o. Eu pretendo fazer vestibular o ano que vem. ou seja. Ludimila. apresentações de dança. O prédio da Apaeb – Associação dos Pequenos Agricultores de Araci tem. nós temos a atuação de jovens em Conselhos municipais de educação. Andréa.Agora somos nós que agradecemos. faço parte do grupo gestor do Peti. que é uma coisa que eu amo. de acordo com dados do MEC/Inep. Fonte: IBGE. le. Cláudia.A baraúna. um forte”. le. Eu já faço parte do Conselho da Criança e do Adolescente. Pelas ruas mulheres varrem as folhas da calçada. São mais de 30 jovens. Mireide. das comunidades mais distantes de Araci. porque nos poços perfurados aqui em Araci a água é salgada. (Ludimila) — Bem-vindos. o que está ao nosso alcance. Luzia. ou a vingança de um oponente: Bahia. um bar. teatro. Marcílio. para ir para as grandes cidades. viemos de todos esses movimentos e hoje somos o Coletivo de Jovens de Araci e queremos lutar por dias melhores na nossa região sisaleira. Plantação de palmas. seus galhos esticados. Robervaldo. meu irm de e bem-vindo. Passa homem com seu burro. mas precisamos de uma política pública para viabilizar esse projeto.. até a prefeitura. passaram a noite para poder participar desse encontro. Junior. Passa cruz grande na estrada.A nossa idéia é a criação do camarão. Jailson. Josemar. r. que vão mostrar como é a nossa cultura e como a gente é aqui em Araci. Davi. Um caminhão carregado da fibra dourada do sisal atravessa à nossa frente e deixa poeira no nosso destino. Segunda Divisão. As coisas que a gente precisa para crescer mais. muitas mesinhas. a pichação de um torcedor descrente. a necessidade do jovem ter uma qualificação é de fundamental importância. meu irmão aa. (Ludimila) — Todo mundo tem uma expectativazinha aqui guardada. Márcio. merenda.65.

para fazer faculdade. na merenda. exportam mel. Quênia e Sudão. nós reunimos os jovens do município e estamos começando a trabalhar. não já? Naquela mesa ali estão produtos da nossa terra. criar alternativas para que os jovens sobrevivam aqui e sobrevivam bem. de sol pleno. mas por uma empresa em Salvador. falta educação. locutoras da rádio. com força. “A nossa cidade de Quixabeira fica a 300 quilômetros de Salvador. Será que a juventude não pode ajudar a juventude? A maioria dos jovens não pensa muito em se organizar. E também a questão da agricultura familiar. Projeto Juventude e Participação Social. sendo que a nossa região é principalmente rural.” “Gente. eles que são de São Paulo. ao surgir o projeto PJPS. era necessário que nós jovens tomássemos uma atitude. Eles não pensam na importância. Fonte: Ministério da Saúde. Outra coisa que falta nas escolas é a educação sexual. tem biscoito voador. . E a gente deixa assim ao vivo os nossos agradecimentos. você já passou por lá. Saímos junto com todos os jovens do grupo. atrás do vidro. (Fábio) — Diante de toda essa problemática que o município vive. mas com garra. fizemos as nossas questões e todas foram incluídas. que os jovens de Pé de Serra nos mostram o quadro que trouxeram com a pintura do Pé de Serra e da Serra do Bugio. É uma minoria que está mobilizada. Quixabeira) As taxas de mortalidade infantil nos municípios do semi-árido brasileiro são maiores que as dos países subsaarianos. onde Edisônia e Fernanda. biscoito voador e carequinha. a arrecadação per capita no município é de 60 centavos. A nossa arrecadação é insuficiente.” (Fábio. É quase hora do almoço e precisamos voltar para Salvador. no papel que eles têm dentro da sociedade. orientação. 6632 na zona urbana e 3128 na zona rural. biscoito carequinha. Capim Grosso) — Essas leis orgânicas do município não são elaboradas pelo pessoal do município. depois de Tanquinho. mas lutar sempre” – Projeto Juventude e Participação Social. saudações a nossa presença e algumas frases: “o importante na vida não é vencer todos os dias. (Patrícia. A gente sugeriu que o prefeito desse um auxílio no transporte para aqueles jovens. envolvida num papel celofane. só falta a chuva. que vocês levem pra São Paulo a lembrança de nós. que faz para toda a região. que Edisônia nos entregou uma cesta. nossa satisfação de receber vocês aqui. estão visitando o nosso PJPS. Fernanda e Edisônia o “Em nome de todo o PJPS de Quixabeira. eles não passam nem perto do que nós vivemos. coordenador do PJPS. azul. 18 anos. Os jovens de Capim Grosso estudaram a lei orgânica do município. quem faz a nossa apresentação.” É Edisônia. depois de Riachão do Jacuípe. Pé de Serra. para que a prefeitura comprasse os produtos e distribuísse nas escolas. a gente está recebendo uma visita. a gente quer deixar com vocês lembranças de produtos da nossa terra. nossa alegria. eles não conhecem a nossa realidade. O avião sai às cinco da tarde. rapadura.Até a questão dos recursos. abóbora. Aqui tem cocada de licuri. dessa pobreza. como o céu daquela hora. estão mais curtindo festa. em nome de todo o vale do Jacuípe. É como a gente percebe a pobreza que se alastra e a gente está tentando aprender a conviver melhor com essas situações. eles têm um trabalho com apicultura. fizeram várias emendas e encaminharam para a Câmara de Vereadores. licor de licuri. nos apresentam no estúdio. uma honra muito grande. para que a gente pudesse entender como é linda a cidade onde vivem. E é ali. Capim Grosso. mostrar à juventude o quanto é necessária a sua participação nas políticas públicas. Por exemplo. já exportaram para a Itália. Na nossa pressa. A população de Quixabeira é de 9460 habitantes. daqui da Bahia. nossas cidades são rurais e quem faz a lei orgânica parece que ignora isso. nós estamos participando ao vivo do programa Integração Total. Só temos tempo de agradecer. O projeto Conviver é a Associação dos Pequenos Produtores de Jabuticaba. Pro vale do rio Jacuípe. dobramos a esquina para conhecer a rádio comunitária Quixabeira FM. Saímos da sede do Sindicato. os jovens dessa associação são nossos parceiros. azul. na calçada. é tudo muito precário. para a área da agricultura só destinavam 40 mil reais. Cultivamos aqui mandioca. que são biscoitos da goma da mandioca. essa taxa é maior do que os índices do Congo. mamona. feijão.A gente queria que o prefeito reparasse na questão dos estudantes que saem de Capim Grosso para Jacobina. o nosso rumo é Quixabeira. milho. tem cocada de licuri.126 127 A nossa ida agora é menos pro sertão e mais para a aguada. depois que estudamos toda a lei orgânica. A gente quer deixar para todos os ouvintes da Quixabeira FM a visita da ONG Aracati. tem uma variedade de coisas ali que a gente quer apresentar pra vocês como experiência de geração de trabalho e renda do nosso município. e nos explicam que o município fica entre as duas serras. Edisônia chama a nossa atenção: (Edisônia.Trouxeram uma maquete também. ( Janilde. diversão. painéis com fotos de eventos realizados. dentro da cabine. beiju de tapioca. têm também um trabalho com piscicultura. a gente começa a tocar os outros jovens. não sei se todo mundo reparou na mesa. nós temos solo. O índice de meninas grávidas é muito alto. Foi nessa hora. Então. então eles precisavam de uma bolsa de custos porque o transporte fica muito caro. Pé de Serra) — A nossa maior preocupação é inserir a juventude na sociedade. o município depende das receitas estaduais e federais. nosso muito obrigado. Em dez municípios do nordeste brasileiro.. melancia. coordenadora PJPS–Quixabeira) — Naquela mesa ali. Na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Quixabeira..

Esses quatro são os que têm acesso às capacitações.128 129 E é nessa hora que dizemos adeus a Quixabeira. Bahia. coordenador técnico e pedagógico do Programa de Políticas Públicas. que insere a juventude enquanto segmento social estratégico. MOC) O MOC ajudou na organização. Cansanção. palmeiras de licuris enchiam nossos olhos. têm os mesmos sonhos. Conceição do Coité. a entidade que coordena e acompanha toda a experiência dos grupos de jovens. envolvidos no projeto. Ichu. Araci. Candeal. São Domingos.” (Clodoaldo Paixão. Nós somos jovens de: Queimadas. no silêncio daquela hora que o sol espanta: “Geladinho. . Riachão do Jacuípe. que falam a mesma linguagem. sem paternalismos. Então ninguém melhor do que eles para mobilizar a si próprios. por percorrer esses caminhos semi-áridos da Bahia e conhecer todas essas pessoas em Quixabeira. Quijingue. a juventude se firma como sujeito político próprio. em cada um são quatro coordenadores municipais. dependendo do município. e são eles que vão repassar as vivências que tiveram aos jovens da sua comunidade. Pela estrada. Nordestina. sendo assim. Araci. Pé de Serra. na formação dos grupos. a satisfação do Coletivo Regional de Jovens. que discutam alternativas. seguimos nosso rumo. olhando no sentido estratégico. Quixabeira. que se mobilizem e se articulem em torno de viabilizá-las. que quando dialoga com as entidades. eles próprios. Estavam todos os coordenadores dos 18 municípios da Região do Sisal e do Vale do Jacuípe. com uma visão política mais ampliada. Então acho que essa é a grande novidade do trabalho. E no futuro. já que eles são hoje. dialoga de um lugar de juventude e para que os jovens. Monte Santo. (Clodoaldo) — O que a gente fez na realidade foi reunir essa experiência tentando trabalhar na dimensão de um olhar de juventude.” Assim fomos recebidos em Conceição do Coité. onde se realizou o encontro com os jovens do PJPS. mais de 600 jovens. Onde a juventude visse ela própria. 15 centavos! Picolé. em toda região. na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Coité. A única testemunha é o sorveteiro que passa gritando. Serrinha. pela vinda de vocês. O projeto alcança. Irará. ao vale do Jacuípe. Conscientes da nossa fortuna. O que significa que eles conheçam sua realidade. ao todo. liderados pelo MOC (Movimento de Organização Comunitária). a partir de uma identidade política própria. não cabe num livro. O MOC percebia a juventude como historicamente preterida das decisões políticas. Cada cidade tem o seu Coletivo Municipal de Jovens. possuem as mesmas demandas. Santa Luz. Antonio Cardoso. maioria absoluta. que reúne de 20 a 30 jovens. Capim Grosso. 20 centavos!”. São 22 coletivos de jovens. mobilizem os próprios jovens. Nova Fátima. Valente. Projeto Juventude e Participação Social (PJPS). os jovens se organizem e comecem a se inserir nos processos sociais locais. Tucano. Salgadália e Monte Santo. dando toda a autonomia para que os jovens encontrassem as suas demandas. Conceição do Coité. “A expectativa da gente nesse trabalho com a juventude na região do semi-árido é que. Retirolândia. de volta pra São Paulo. de imediato. é futuramente ter uma renovação de lideranças. Origens e Propostas Estava escrito na lousa: “Sejam bem-vindos.

130 SAÚDE E ALEGRIA 131 .

o capitão do nosso barco. no meio da geografia da recriação do mundo. nesta floresta D aqui da janela do avião. as nuvens cirrus. companheiro. de jeito manso. aqui. Nildo. Nós já não vamos tão sozinhos. Um. Não querem nenhuma parecença. estamos descendo. Só o sol orienta nossa visão desconhecida de principiantes. abaixo de nós. nesta altura do rio. nunca acabará. O rio é parente do tempo. carregador de continentes. aquelas que lembram pinceladas no céu e indicam mudança de tempo. com olhar de tucunaré de mercado.132 133 A gente não sabe se eles sabem que a gente existe. O rio não tem fim. cobertos por uma fina e quase transparente cortina. passar abraçado com uma âncora. estão acima de nós. num estado entre o desmaio e a lucidez. E quando dois rios de orgulho grande se encontram. pela imensidão azul do Tapajós. é que está a nossa atenção. Navegamos para oeste. Mais abaixo ainda. outro. Entendo então que a terra. Está tão quente que mal conseguimos falar ou nos mexer. um socó voa ao longe. Vereda Tropical. enfrentador de oceanos. onde terra. Rio na Amazônia é como o mar: acompanha a curva do mundo. briguento. ali. além da nossa. onde mal e mal se adivinha o encontro das águas desses rios: Amazonas e Tapajós. cada um na sua rede. Querem ser sozinhos no próprio destino. Sete horas de viagem e encontramos apenas uma única embarcação. Foi nesse lugar. vejo Alcino. azul. acolhendo o céu todo no seu lume. Ali. . um não aceita a água do outro. já não é tão funda. mexedor de montanhas. Santarém. corrige a rota alguns graus para sudoeste. na direção do nosso rumo. Estamos todos deitados. Nuvens redondas passam pequenas. rio e floresta dão a mesma impressão. cordilheiras. que escolhemos nosso norte. um dos marinheiros. na direção do sol poente. Já conformada em aceitar nosso destino de navegar para sempre. Um barquinho e dois pescadores vão sozinhos pela imensidão do Amazonas.Tudo é água. barrento. Navegaremos a vida inteira e não alcançaremos a outra margem.

Chico Malta e Lela. E eu me sinto muito satisfeita de ter alguma coisa pra falar para as pessoas que estão me ouvindo. tentam pegar um peixe. para convidar todos os comunitários para uma reunião.. Estamos saindo do ar e esperando todos vocês aqui na frente da rádio. Praia de areia branca. prima de Rivaldo.. com a equipe do Saúde e Alegria e mais uma equipe de São Paulo. o tacacá. na frente da sede da rádio Raio de Sol. Eu me lembro da minha avó quando chamava a gente e queria que a gente fosse depressa. tchau. na frente da rádio. dançam na escuridão. teremos apenas os candeeiros. toda noite. arecatu. num barco pequeno.. assim. aqui não moram outras pessoas a não ser nós mesmos. “Nós somos nativos daqui. mas que também dará a sua ajuda na hora difícil em que a escuridão encurta a paisagem do mundo. antes que as ondas do rio apaguem os passos da sua vidinha de ave do rio Tapajós. a perna tremia. depois que a rádio chegou. a locutora da rádio. montanha escarpada. acho que eles estão querendo conhecer a gente e a gente quer conhecer eles também. feijão. os artistas.134 135 Chegar é poder dizer para si mesmo: terra à vista. O dia já terminou e a luz do gerador não vai durar muito tempo. Domingo vai ser dia de festa aqui em Muratuba.. muito boa noite. Antes eu nem conseguia olhar para o pessoal. ela falava: ‘arecatu curumim.. retornamos. as professoras. não sabia nem falar meu nome. sai forte pelas duas cornetas de alto-falantes. Sob a luz do sol poente.. nascida Maria de Jesus Santos Silva. Nós somos descendentes dos tupinambás. Na cheia do rio a água deve chegar quase lá em cima. fazendo os programas. 19 anos. Coordenador do projeto de implantação de rádios e jornais comunitários em 31 comunidades ribeirinhas do oeste do Pará. apresentando pra todo mundo estar ouvindo ali. os que são jovens e os que já não são jovens. um projeto criado pela ONG Saúde e Alegria. Ela é parente de quase toda a gente que está por aqui nesta noite. ao longo dos rios Tapajós e Arapiuns.. Boa noite. No meio da mata.. amarrados na copa da seringueira. um sinal de quem acordou mais cedo e já passou por aqui. um menino toma banho na beira do rio.. quando pessoas diferentes vêm aqui a gente procura saber qual é o motivo. por causa da reunião e também a gente vai poupar energia para poder ter a reunião. ali no terreiro em frente à rádio. Uma mulher e três crianças. a lua branca crescendo no céu e uma bacia de alumínio com um restinho de água. Uma a uma as pessoas da comunidade se apresentam. Porque antes eu não tinha. quieto. Marquinhos. apenas com uma linha de pesca. uma das locutoras da Raio de Sol.. quem fala: — Quando chegou essa rádio comunitária eu acho que eu mudei muito.A gente tem uma tradição muito enorme. é Fabinho quem nos apresenta à comunidade de Muratuba: — Boa noite. a gente não sabe como são os jovens dos outros lugares. no começo é difícil. Passamos a noite num abrigo. em Muratuba. Clareia o dia na luz ainda pálida da manhã. comanda a dança com apitos regulares marcando o tempo. sem vara. No escuro é o som que serve de guia. é quem fala agora e se diz presente: — Ser jovem aqui na comunidade. 19 anos e Raquel. onde fica a comunidade de Muratuba. ainda frescas.. Nós fazemos o beijú. antes eu sei lá.. não sabia nem o que falar. na margem esquerda do Tapajós. meninos e meninas da comunidade. sentados em cadeiras escolares no terreiro... para outros lugares que precisam saber que tem coisas tão legais acontecendo aqui na Amazônia. .’” Essa é dona Juca. serenoso. É só um ensaio. e que são jovens que estão fazendo isso. uma fita cassete tocada num rádio de pilha. Franciana. Hoje não teremos o programa Educando para o Futuro. pra contar essa história para o Brasil. que deixa a água dourada e brilhosa. esquecida ali no terreiro.. a tapioca. quando acabar. 17 anos A voz de Raquel. mulheres. Raquel. em pares. arroz. a cozinheira.. num passeio matinal: as marcas pequenas das patinhas do maçarico estão por toda parte.. o trapiche todo a descoberto. de 24 anos. já esperava por nós com a mesa posta: surubim frito. a gente não tem conhecimento. igualmente nós. temos uma rotina: saímos até encontrar um igarapé. A escuridão é densa quando descemos a escadaria e atravessamos a praia para jantar e dormir em nosso barco.. sabe. na manhã seguinte. da ONG Aracati. o tarobá. depois que essa rádio chegou aqui eu desenvolvi um pouco. — A gente queria dar uma notícia muito legal para a comunidade: o trabalho da rede Mocoronga foi selecionado como uma das oito experiências de mobilização juvenil num concurso feito por esse pessoal aqui de São Paulo — continua Fabinho. — Boa noite! — respondem homens. Assim. falar pra todo mundo. comunidade de Muratuba. ficava vermelha quando enxergava um monte de gente na minha frente. mas depois com o tempo. floresta. Esses rios da Amazônia podem ser muito perigosos quando o barco está atracado perto da praia. uma da matriarcas da comunidade. tchau. Fim do forró. Pela areia da praia. uma tira fininha e comprida: é uma escadaria enorme.. chegar lá e pegar o microfone. Viemos até aqui pelas mãos de Fabinho. que nos proteja da correnteza do rio e do vento muito forte. cada um toma o rumo de casa. farinha e a beleza das estrelas. que trabalham na coordenação da rede Mocoronga de Comunicação Popular. Começa um forró. — A gente está muito feliz porque vocês também fazem parte da construção dessa história e hoje a gente está vindo aqui para trazer o pessoal que veio documentar tudo isso. no céu de pouca lua. daqui a pouquinho.. que trabalha desde 1987 na Amazônia. estamos mais uma vez nos estúdios da Rádio Raio de Sol. É uma comunidade muito respeitosa. mas eu penso que eles estão trabalhando assim. Os jovens. nessa hora em que o silêncio é de prata e a água é de ouro. Eliana. Agora é Franciana. olhando pra mim. assim. todo mundo quer ir lá pegar o microfone e falar. Rivaldo. Quando perguntavam meu nome eu me enrolava toda e não falava nada. 17 anos. diz Fabinho. e alcança toda a comunidade de 66 famílias. Um dos seus filhos.. que estão chegando em nossa comunidade.. Olá ouvintes.

hoje em dia não se vê mais. que nos chama a atenção por um detalhe: o escudo do Vasco desenhado na parede. o Chico Malta e todos que estão na escuta do nosso programa. A primeira carta que nós vamos atender é da nossa ouvinte Adriana. repórter da rádio) — Dizem que tem uma Cobra Grande aí nesse lado. a Lela. Quem quer contar a história da Cobra Grande? (Rosekelly. aqui a juventude escuta o brega. É assim que acontecem os programas da rádio. uma emissora filiada ao sistema Mocoronga de Comunicação Popular. nossos pais contam. o Marquinhos. como tratar a água para beber. que dizem que tem uma Cobra Grande debaixo dela. ainda hoje. o meu finado avô então falou: “É a Curupira assobiando e protegendo a mata”. o Boto. A mandioca escorre fina pela peneira em cima do girau. para o Fabinho. já sangradas no seu tronco.. (Edmar. — A gente tira o leite delas e vai vender na cidade. ela que escreve e pede a música ‘Chuveiro’.1. o forró que é produzido na comunidade. é uma música muito preconceituosa. 80. a gente fala também sobre educação. nem mexem a cabeça. dão uma idéia. Os mais idosos diziam que a ilha andava de um lado pra outro.Vai comer todos nós. Silêncio. uma coisa muito depreciativa sobre as mulheres. O senhor já viu a Curupira? — Vi com a idade de 13 anos. em desenho de geometria. — É uma longa história que nossos avós.. O brega é um ritmo muito legal. o problema são as letras. Marco Antonio Mota. a apresentadora Raquel nos explica como são os programas. a desfeiteira. Então nós estamos estimulando eles a ouvir os antigos ritmos da comunidade: o carimbó. — Eu apresento mais programas relacionados com educação e saúde. dão entrevista. como se prevenir de doenças. na direção geral Rita dos Anjos. 18 anos. Enquanto a Banda da Lourinha canta “Chuveiro” no estúdio da rádio. como o hip-hop na periferia de São Paulo. — Então. A Curupira era do tamanho desse menino aqui (aponta um garoto de uns seis anos de idade). a FM de Muratuba. dos bichos. Vocês estão na companhia de Roseana e de Raquel. fiuuuu. locutora da rádio) — E se ela sair de lá tudo aquilo vira água. eu já estou com 24 anos — diz Rivaldo. era assim uma coisa invisível. marcando o tempo. 15 anos. alguém deitado numa rede balança. 19 anos. diretor da rádio Mocoronga e responsável pela instalação das rádios comunitárias ribeirinhas —.Agora eu não sei mais o jeito dela. por causa de tanta exploração das matas. (Franciana. essas lendas e até hoje tem pessoas que acreditam e essas histórias nunca vão acabar. desculpe. do vento. uma opinião. a Cobra Grande. eu tento repassar para os ouvintes assim.Três cachorros magros. a Mapinguarí. É a Curupira.. estirados no chão. mas eu enxerguei passar. Mais adiante uma fileira de árvores. é de alguma serventia para essas comunidades da Amazônia.As pessoas que moram aqui também participam. do meu avô.A rádio comunitária tem que ser uma alternativa para as rádios comerciais. Naquela noite ela estava assobiando perto da minha casa.. do lixo. quase nem vale a pena — diz dona Juca. poucas casas (de palha ou de pau-apique) em grandes terreiros. Maria Lúcia e Graciana.. com a Banda da Lourinha.. Por uma porta de palha. quando foi um tempo a ilha parou e diz que é uma Cobra Grande que entrou debaixo dela e mora lá até hoje. técnico da rádio) — Tem uma ilha logo ali. cara... Vamos andando pela comunidade... dos pais.. É a seringueira que. Estamos mais uma vez aqui para apresentar o programa Juventude e Ação. Milton Dona Juca Estamos de volta e a gente gostaria de mandar um grande abraço para as professoras Rosinete. Mas o que ele tem pra dizer não tem nada a ver com futebol. como é a educação da nossa comunidade. Na casa de farinha. (Rosekelly) — E se ela sair.Valmir e a mãe trabalham pra transformar a mandioca em farinha e no caldo do tucupi. das sementes que caem pra gerar novas árvores. Mas é muito pouco o que eles pagam.. um dos repórteres da rádio — e essas histórias já vieram dos pais. no lago. Está entrando no ar a sua rádio Raio de Sol.. Passamos pela casa de seu Milton. O sol já está a um palmo do horizonte. aqui na região o brega é a música que todo mundo escuta — diz Marquinho.136 137 Chegamos em Muratuba.. vai devorar quem mora em Muratuba. só abrem um olho pra espiar quem passa. — Antigamente a gente via a Curupira por aqui. entreaberta. Essas histórias precisam ser relatadas e relembradas. Sons só de gente. na técnica de som Edmar. o funk no Rio de Janeiro. vou ... os homossexuais.

peixe. — diz Rivaldo... lá em casa nossa bateria pifou e a televisão está desligada há mais de três meses.. mesmo a gente sente um pouco. né? O único trabalho da gente aqui é o da mandioca. não só daqui. de descendentes dos tupinambás. das galinhas que ciscam.138 139 entrar no ar agora. estamos de volta agora com o repórter Rivaldo. apesar de que aqui a gente encontra fruta. As pessoas vivem da roça da mandioca. ou algum papel para o nosso jornal. dos técnicos. no rio. Logo uma família inteira de boizinhos faz fila na janela. (Rivaldo) –– Bom dia Raquel. porque a gente era muito indisciplinado e com certeza isso nos ajudou no desenvolvimento das nossas boas qualidades. No prédio de madeira onde funciona a rádio. Dinheiro quase não circula por aqui... da caça. dos repórteres. alguma coisa assim parecida. 21 anos.. Por aqui o rio é muito quieto. O. — O nosso pensamento.....A gente tira a mandioca. o problema é que a bateria quando descarrega. Fale um pouco da sua experiência com o projeto dos esportes coletivos e do game Superação. mas falta ainda.. (Rivaldo) — No mato a gente gosta. assim aquele dinheirinho que ele arrecada já vai pra pensar em comprar o café. — A gente olha pra trás só é floresta. essa farinha pra vender e dar algum retorno para o nosso grupo de jovens — diz Valmir. — Qualquer barco que passa barulhando eles correm ver o que é que está acontecendo no rio. Estamos atrás das locutoras da rádio. Não tem nenhuma loja. rindo. Vamos atravessando os terreiros. nenhum armazém. 16 anos. — continua Rivaldo. um barco grande passa carregado de madeira. assim. Bom.. talvez porque eles pensem que não existe esse lugar aqui. veado. verduras. Nós corremos também. Não são todas as famílias que vivem uma vida boa aqui. Às vezes a gente precisa comprar um caderno... caídas de uma mangueira.. papai e mamãe gostam de assistir os noticiários... álcool para a nossa copiadora. a caça. jabuti e as pessoas às vezes pegam um pouquinho a mais e dá um pouco de vender. como já temos a rádio comunitária. De longe um bichinho de brinquedo. fulano de tal matou outra pessoa naquela comunidade lá. de perto um boizinho feito de mangas pequenas. de também plantar a mandioca e fazer a farinha e vender para conseguir algum recurso.. estão na frente da escola. Do resto do Brasil e até mesmo do resto do mundo. estou aqui no estúdio da rádio Raio de Sol e vou conversar com a jovem Rosekelly. mas não funcionam. ao largo. — Algumas casas têm a televisão. com esse trabalho a maioria das pessoas sobrevive — diz Jander.. e na minha criatividade também. algumas crianças nos espiam e depois se escondem.. — É pouca coisa que acontece aqui — diz Graciana. a maioria das pessoas caça o tatu. quase ninguém passa. no caso comprar alguns CDs. não tem telefone nem posto de saúde. catitu. facões. Na linha do horizonte. o açúcar. paca. a experiência que eu tive foi principalmente no meu desenvolvimento.. ao som de risinhos abafados e olhinhos apertados.. nosso trabalho aqui é roçado. passando perto das casas. da pesca. bom dia Rosiane. só quando acontece alguma coisa assim rápida de urgência. torra a farinha. tudo isso a gente visou ao fazer esse roçado.Todos trabalham juntos no roçado de mandioca. divertidas com a brincadeira.. a gente teve a visão de fazer um benefício. bom dia Rivaldo. mas mundial.. Um menino passa correndo e deixa uma coisa na janela.. — Mas todos nós trabalhamos na roça. nenhum bar... local.K. aí a gente se sente sozinho do resto do Brasil. Televisão tem algumas. lenços e chapéus na cabeça pra aliviar o sol... das mangueiras. As professoras Graciana e Maria Lúcia não vão. E quando você vê o jornal local você se reconhece no noticiário? — Na verdade acho que não vieram ainda fazer uma reportagem dessa área aqui.. da coleta de produtos da floresta. desse lado do rio. debaixo de uma mangueira.. (Rosekelly) — Bom dia Rivaldo e um bom dia todo especial aos ouvintes da rádio Raio de Sol. Pegamos uma estradinha estreita e vamos seguindo. aí passa meses. quando a gente pensou em fazer o roçado. algum microfone.. dos cachorros que dormem. pela janela... pra cá. As crianças correm para a beira do morro pra assistir a sua passagem. E faz falta porque tem um jornal.. olha pra frente só é água. Em Muratuba não existe luz elétrica. desse Tapajós todo aqui pra passar lá para as pessoas conhecerem. das seringueiras. né? Porque a gente não sabe se eles sabem que a gente existe aqui nessa floresta — completa Maria Lúcia. ... tira a farinha. Eles vão com enxadas.

vem com um irmãozinho bebê no colo e encontra no caminho outro menino do mesmo tamanho dela. graças a Deus. a gente tinha uma tevê que era uma caixa de papelão e um rádio também de papelão.. — Antes de chegar a rádio comunitária a gente fazia isso na escola juntamente com os professores. quando alguém fica doente. — Ah sempre vem esse pessoal de fora. todos estão na roça limpando o terreno. um microfone. Maria Lidine..140 141 Raquel. e aí a gente brincava nas aulas de rádio. — A soja até agora. Num terreiro largo de mangueiras. Cleber. e nem faz só microfones. o Mocorongo tem uma turm Circ a que é d O e rachar Saúde e Alegr nha do A turmi ia a turminha você vai gos E ss tar . na mandioca. Frente da rádio Raio de Sol.. dos nossos antepassados. por muito tempo. pelo menos do nosso conhecimento. se for muito grave. se for grave a única opção é Santarém. mais umas duas horas e meia pra voltar. Os instrumentos da bandinha são muito simples: uma lata de óleo. cantor da Amazônia. riem e cada um segue seu caminho. tiraram.. que não esculpe só na mandioca.. 17 anos . As crianças da bandinha de lata. Palco da comunidade. cantam a música do Circo Mocorongo. é porque a gente não tem um posto de qualidade assim. cedro. nele são sete horas de viagem pra ir e sete pra voltar. Valmir encontra uma mandioca do tamanho e formato adequado e com uma faca esculpe. Jander. o tatu. A ambulância demora umas duas horas e meia de viagem pelo rio.. Franciana. com muito vento. Atrás das palmeiras. 21 anos Raquel. da Consciência Indígena. uma Valmir. Conversam. só que é um barquinho pequeno. uma menina. tiraram itaúba. Roseana. de uns seis anos de idade. Quando eu era jovem tinha duas madeireiras aqui atrás que vinham derrubando nossas árvores. de uma entidade chamada Consciência Indígena. de televisão. E se o tempo estiver ruim. tudo soja e falaram pra gente que os moradores saíram pra dar lugar pra soja. fazia o microfone. no grande galpão está acontecendo uma reunião: as pessoas da comunidade e um pessoal de fora. — Eles pensam assim: se a gente resgatar os costumes dos nossos antepassados a gente vai ter muito mais direitos. Anabel. porque a gente fica pensando que alguém pode vir e tomar a nossa terra e se nós nos assumirmos como índios a terra será nossa pra sempre. mas do outro lado do rio a gente já ouviu falar que é de um lado e de outro da estrada. Edmar. Rosekelly. na nossa comunidade. o peixe-boi em extinção. ensaiadas pelo compositor Chico Malta. porque a gente está resgatando a nossa cultura indígena. primeiramente a nossa terra.. Vocês têm um barco da comunidade pra ir a Santarém? — Temos. Nós temos de decidir se queremos ser índios ou não — diz a professora Graciana. mogno. tiraram e nunca replantaram — diz a professora Maria Lúcia.. a gente consegue passar um rádio e chamar uma ambulância. de entrevistas — continua Valmir. também com um bebê no colo. Quem poderia tirar a terra de vocês? — É porque a gente já lutou muito.. Edvandro.. entre as mais altas mangueiras. não chegou aqui. não dá pra arriscar atravessar o rio. dos pés de cupuaçu. cinco horas.. o boto. (Rivaldo) — As dificuldades que a gente tem aqui é em relação à educação e à saúde. Ele faz com perfeição esculturas em madeira.. Rafael.

aqui na presença de. tocados com uma sandália de borracha na boca do bambu. Enquanto os meninos da bandinha cantavam.. a força poderosa do milagre da vida. em primeira mão. na rádio Raio de Sol. Todo mundo caiu na gargalhada. que serve de baqueta. comunicadora do Saúde e Alegria. E estamos sem luz a bordo: a bateria pifou. seis.”. o CD.. Bom.. a voz de ouro de Muratuba. o céu estava caprichoso. comemos manga. por sua vez. a rádio. porque senão vamos passar um perrengue. acumulando nuvens em desenhos de fazer o medo. Estamos navegando há algumas horas. Ali. cantadas por ele mesmo. dança. Correu atrás de todos eles. À noite fomos embora de Muratuba. O dia seguinte foi de festa. antes da tempestade. naquele desassossego de anunciar que a dor pode ser maior. teve jogos. Esse CD faz parte de um trabalho da rádio da Rede Mocoronga de Comunicação. de Muratuba. Já durante a tarde. É um prazer falar aqui no microfone mais ouvido do beiradão do Tapajós. ilumina o próprio rosto com uma lanterna e diz: “Estamos aqui diretamente do rio Tapajós.. paulistana com três anos de rio Tapajós.. de frente para a paisagem do rio. casado com a dona Juca e pai de nove filhos. as vermelhas das palmeiras. batendo violento no barco. todos. do Saúde e Alegria. cantoria.. o seu Hipólito. sem saber onde estamos.. Deixamos nossos contatos para quando o telefone chegar por aqui e fomos para o abrigo passar a noite. o desenho da escadaria. O capitão não encontra o abrigo. Boa tarde a toda comunidade de Muratuba. alguns numa luta de amor. e o Dico Tapajós. comemos mungunzá. o rio. O rio. outros meninos exibiam para a platéia a sua obra de arte: num papelão.142 143 tampa de lata e um cabo de vassoura. no meio da roda das pessoas da comunidade. mostrava que não estava pra peixe. agora eu gostaria que a Lela entregasse para o seu Hipólito os CDs com a gravação das músicas dele. e quatro tubos de bambu amarrados. Lá do rio Amazonas o Antonio Oliveira e do rio Arapiuns o Antonio Ferreira. 60 anos. as árvores. de Piquiatuba. que certamente o pessoal da rádio vai tocar várias vezes durante a programação. No mapa da comunidade. os cachorros da comunidade. onde a gente traz a notícia especial: o lançamento do CD dele. Foi com o programa caça-talentos que a gente acabou fazendo uma primeira seleção e escolhemos dois compositores do Tapajós: o seu Hipólito... E precisamos encontrar logo o abrigo. a planta de Muratuba. ali. um bambu com três garrafas penduradas por um barbante. 25 anos. Dona Juca não gostou nada da cena. nem aonde vamos. juntamente com as 31 comunidades de valorização dos talentos comunitários. Marcela Beltrão. tomamos suco. nervoso. a comunidade inteira feita de sementes. Então a gente tem o prazer de trazer aqui pra rádio Raio de Sol. Seu Hipólito .. As sementes escuras da seringueira. sete cachorros se engalfinhavam. Lela. que foram continuar o romance atrás da vista do pessoal.

na ilusão de que ainda dormiríamos naquela noite. tem onda de todo tamanho. balança do outro e vira. seja qual for a realidade dele. numa seqüência interminável de claridade. como nós. onde todo mundo se conhece. das nossas terras ou do estrangeiro.. enfim para a comunicação popular.. nosso barco parecia ter sobrevivido a um naufrágio. imagine o barquinho do pessoal de Muratuba! Se alguém. que seguram os grandes plásticos que nos protegerão – a nós e a nossas redes. Se nós. depois fui me encaminhando para a rádio e para o jornal. Sejam bem-v . numa noite assim. paulista ou mineiro. porque o barco é todo aberto nas laterais. igual luz estroboscópica. Fábio Pena.. numa comunidade dessas. a mesma praia de areia branca. todos vie dos. então quando aparece alguém de fora e pergunta alguma coisa a gente tem vergonha de falar quem a gente é. quando a chuva começar. nós ficávamos todos no trapiche esperando por eles. participar de eventos sobre juventude pelo Brasil afora e hoje me vejo na situação de coordenar o trabalho do qual eu participei quando era criança. gos ruac grandes ami ui em Aq Sejam bem -vin á.Alcino faz duas amarrações no barco.144 145 Encontramos o abrigo. um de cada lado. não existe o estranho. coordenador geral da Rede Mocoronga de Comunicação. Suruacá é muito parecida com Muratuba. que já estavam encharcadas. ora o rio. Eu tive a oportunidade. o barco balança de um lado. A comunidade parava para aquele evento. precisar de uma emergência. com circo. mostrar o nosso talento. São dois paus. aqui. estava muito tranqüilo. franjas de plástico. O que acontece se a gente pega uma tempestade dessas no meio do rio? — pergunto para Alcino. Os marinheiros deram um jeito em tudo. dois banheiros e capacidade para 40 pessoas. Fabinho. não tem barco que atravesse o Tapajós pra socorrer.. acho que é isso que todo jovem precisa. num ritmo frenético. a mesma escada comprida. É assim que elas recebem todo estranho. num barco de dois andares com cozinha. A paisagem que nos acolheu era uma espécie de enseada. e àquela hora parecia um lugar encantador. gos ocês mos grandes ami Av saud ar. — A impressão que vem na cabeça hoje é de muita festa. não dá pra ver nada. com as cordas estendidas. Corremos para levantar as redes. Dona Martinha e amigas . E assim começou o espetáculo dos raios. E nos cobrimos com toalhas de banho. Dividimos biscoitos. e era um menino de dez anos quando a equipe do Saúde e Alegria passou por lá. uma barra de cereais e um café frio que sobrara do jantar. 26 anos. sapinhos minúsculos cantam nas pequenas lagoas que se formaram na praia por causa da chuva. a mesma montanha escarpada. Nessa época a equipe era quase toda de gente de São Paulo. dona Martinha e duas outras senhoras do Grupo de Mulheres nos recebem com um canto especial de boas-vindas. sem sair do lugar. não tinha ninguém do Pará ou do Amazonas.A única diferença é que. — Vai pro fundo. a cada hora víamos uma cena iluminada pelos relâmpagos. redonda. A força do vento fazia girar nosso barco e assim. E a equipe do Saúde e Alegria chegava na comunidade com muita alegria. em vez de uma só. ora a praia. criavam situações para a gente poder se expressar. fincados na areia da praia do abrigo.A gente esperava muito tempo pra que aquilo acontecesse. O vento vem com força de tufão. Já era bem de madrugada quando os raios e trovões se acalmaram. sentados em um banco. nem parecia que tinha atravessado um temporal. é uma ponta do rio. ora a floresta. nos ligando à terra. na comunidade.A gente convive num ambiente. que passara a noite no andar de baixo. comecei a viajar para outros lugares. a caminho de Suruacá. Comecei no projeto tocando numa bandinha de lata.. igual saia de havaiana. estamos passando por isso. No alto da escadaria. a Eliana preparou o café-da-manhã e logo estávamos navegando de novo. palhaços. Quando o dia amanheceu.. despreza o plástico que nos protege e o reduz a tiras.. uma enseada. na minha comunidade. E vai reforçando as amarras. . — O Amazonas é mais perigoso ainda. Como esse rio é perigoso. Aquela solidariedade de quem sente que está afundando. nosso Su indos.. apaga e acende. O vento também. mas sempre eles buscaram a expressão das pessoas. no rio Amazonas. De longe. cercada pela floresta. como de costume. Ele nasceu na comunidade de Carariacá. onde ficaremos livres da correnteza do Tapajós.

Como é o nome deles? — Esse aqui é o Adison Odilei e este o Alex Odivan. onde dão sombra as seringueiras.A gente escuta bem de dentro de casa. — Eu ouço o “Bom dia. que chamam surucucu de fogo. fraturas. queremos montar uma lojinha nossa mesmo. A maioria delas morre em função da diarréia ou de outra doença infecciosa. onde funciona a rádio. açaí. Suruacá. tem o Henrique.. auxiliar de enfermagem do Posto de Saúde. só encaminhando pra Santarém. dona Adair. está sentada na cadeira. quase o dobro da média nacional... cortes profundos. Boa tarde. Mais perto do prédio da rádio.. tem quatro parteiras. Suruacá parece um vilarejo: a rua larga de terra com casas de palha. paca.. Em Suruacá o serviço médico funciona assim: no caso de parto. das festas religiosas. com seu jeito de rainha… A rádio Japiim de Suruacá está no ar. . este é o programa Desperta Amazônia. com um bebê no colo. isso tá acabando com a nossa Amazônia.. — Tem vez que ela fica muito chiando. E a buriti. . — A que mais morde é a jararaca..7% das mortes.. todas as tardes para ouvir os programas. 15. pra sentar na rua e apreciar o programa da rádio comunitária. o mingau de cará.146 147 Suruacá é uma comunidade maior do que Muratuba. Qual caça? — De tatu. Essa foi a representante da Associação do Grupo de Mulheres. distantes uma das outras. e a mortalidade infantil é bastante alta.. Os índices de desnutrição nessas comunidades da Amazônia atingem quase 10% de todas as crianças até dois anos de idade. picada de cobra. Quem vai atrás? — O pai deles. de babaçu. A vizinha de dona Mercedes. . um de dois.. E quando não tem carne o que comem? — Faz qualquer coisa. Pelo caminho do posto de Saúde até o Telecentro. Suruacá” todos os dias e o programa religioso das tardes. debaixo de uma mangueira. Estão bem.... as palmeiras de tucumã. algumas mulheres trouxeram as cadeiras de dentro de casa. para apresentar nossos artesanatos para os visitantes que chegarem aqui. Esses dados são de uma pesquisa feita em 2002 pelo próprio projeto Saúde e Alegria. mas eu gosto de vir olhar aqui do lado de fora — diz dona Mercedes. . bacabá. são de crianças de até um ano de idade. tem uma vendinha e até um Posto de Saúde.. verificar a pressão arterial. ou um cinema. como se fosse uma televisão. sentadas na frente de casa. aqui em Suruacá. aqui tem um telefone público. uma emissora ligada ao Sistema Mocoronga de Comunicação. mas a mais agressiva aqui na região é essa mesmo.. quando o caso é um corte que precisa de pontos. vamos ouvindo a programação. são mais de 40 espécies por aqui. quando tem. Que carne? — De caça do mato. nós ficamos aqui. Aliene levou os filhos pra pesar. — A alimentação deles é a carne e o peixe. E como é feito o manejo da matéria-prima para não prejudicar o meio ambiente? — Nós tiramos a palha com cuidado para não quebrar aquelas palmeiras que estão brotando e também já estamos fazendo novos plantios da palmeira do tucumã.. Quando o assunto é mais sério.. essa é a sua rádio Japiim. — Quando começa o tempo das chuvas é que aumenta o número de picada de cobra — diz Henrique.. mas tem vez que sai bem. cercadas pelos terreiros... outro de quatro anos. nas comunidades. tá tendo uma doença na Amazônia que é o plantio de soja. mas um pouco magrinhos.

onde fica a rádio. cada um tem seu trabalho. tem agora computador e Internet. 26 anos . Daqui de cima do Telecentro. financiador.. Na parte de cima. eu também vou ter paciência para ensinar quem quiser aprender. que é uma das componentes da dança da Jacutinga. O ar está mais úmido depois da tempestade. né? Suruacá é um lugar privilegiado. que aos poucos foi enredando todo o grupo de mais de 30 pessoas. hoje a gente pode saber notícias do mundo todo — diz Richardson. onde ficam os computadores. Tem muita gente aqui em Suruacá que continua com medo do computador. vamos criar uma rádio que tenha a cara da nossa comunidade. os franguinhos também saltam. mas não alcançam os cupins no seu vôo. os cantos. porque fica na frente da rádio.. Marquinho fez uma oficina com os jovens da comunidade envolvidos com o projeto da rádio comunitária.. É a rádio Japiim de Suruacá.. os cupins estão voando por toda a comunidade. a dança da Jacutinga e uma superentrevista com a dona Palmira. os meninos correm atrás do invisível e batem palmas no ar. 19. as sandálias de borracha ficam todas lá embaixo. Enquanto cada um fazia uma avaliação do trabalho da rádio no último ano... mas a gente vai acabar trazendo essas pessoas aqui pra dentro e assim como o técnico teve paciência de me ensinar. Você vai ficar sabendo um pouco sobre o conjunto das Andirás... varanda em toda volta do segundo andar. dia de quarta.A minha mão parecia um metal. eu vou mexer num computador. sua própria vida. na frente da escada. e televisão aqui só funciona quando tem energia. é uma beleza.. no computador ao lado de Richardson —. Eu cheguei para o técnico e pedi:“eu quero aprender”. — diz Marquinho. Antes que a rádio entrasse no ar. além de telefone. políticos e empresários.. igual teia de aranha. como todo mundo aqui no Suruacá. 19 anos. Já que a gente não é preso a patrocinador. todo em madeira. — Internet pra nós foi um sonho — diz Jardeson. mas a gente acaba se encontrando com o outro. as galinhas saltam pelos terreiros para abocanhar a comida que vem pelo ar. E o prédio do Telecentro. Esse prédio é um orgulho pra comunidade. principalmente em termos de aprendizagem.148 149 Ao lado dela está dona Maria Aldeíde. sabe. eu senti uma emoção. com o programa Raízes da Terra. eu estou maravilhado com a aprendizagem que estou tendo. cada um segura sua própria ponta. eu nunca tinha visto um computador.. porque se um de nós soltar a ponta. Até formar uma teia. enquanto navega na Internet. não conseguia mexer no mouse.. as danças. E você também fica sempre aqui? — Sempre não. não tinha acesso. vamos destruir a teia inteira. Marquinho continua: — Uma coisa que é importante observar é que nós não precisamos ficar copiando o que as FMs comerciais fazem. Quando a gente está trabalhando com a comunidade a gente começa a se entender como uma grande teia e cada um tem uma responsabilidade muito grande. — Pra gente a Internet significou muita coisa. Fabinho. a minha casa fica lá mais pra frente. Marquinho ia passando um microfone com um fio enorme. — Sabe o que é legal nessa teia? É como se fosse a vida da gente. muitas coisas que antes a gente não sabia. o pessoal da comunidade só entra descalço. — Antes do computador a gente só tinha televisão. eu fiquei assim. Eu não sabia fazer nada. Hoje vamos falar sobre a nossa cultura. mas são só duas horas por dia.. sábado e domingo. mas quando eu posso eu venho aqui pra casa dela.. dois andares.

Num tanque. Saci. arquitetura e artesanato. — diz Lela. Em seguida vão todos para o computador analisar. escavado na terra. — Aqui vocês não sentem falta de abaixar mais assim. as fotos que tiraram. inteiras trançadas. olhar. O Circo Mocorongo vai começar. — Isso daqui vai ser a sala. Dona Martinha nos leva até a casa de um de seus filhos. O circo está com a lotação completa. A casa é uma obra de engenharia. não dá. A casa é de quê? — De babaçu. um jacarezinho cresce. Seu Vitalino O Circo Mocorongo. atrás dos ângulos desejados. oita a u tá. No caminho de volta encontramos seu Vitalino de Deus. chegando perto. fazer pra cá uma cozinha e o quarto fica pra lá — continua seu Vitalino. Enquanto as pessoas vão se acomodando em bancos no terreiro. construindo sozinho uma casa nova. mas a noite ainda não acabou. a bandinha de lata. Toda a comunidade está reunida na parte de baixo do Telecentro. utar. Nós vamos atrás. No telecentro as oficinas continuam. no andar de cima. oite á pira imit uru e ando A assobios.150 151 Algumas crianças se aproximam. também.. Chico Malta. sentadas no chão. cheias de risos.. José Edvaldo. — Cada um vai ter 30 segundos. Lá. Careca e Chico Malta vão fazer uma espécie de sarau. cortar essas pernas e pés que aparecem no alto da foto? (…) Essa daqui tá muito boa. No final toda a trupe dança e canta: O grupo se dispersa. vai cantando uma música sua que diz assim: Na selva amaz a ôni nd matas virgens. As paredes de palha. l nhar. olham pra gente querendo fazer amizade. depois é só trocar “as” palha. têm alguma coisa pra contar: — Vem ver um jacarezinho. Tem que abaixar.. As crianças na frente. mas com outro desenho... C ta P rera nhan n t ati í.. Os palhaços se apresentam. Lela dá uma aula prática de fotografia. nem de pau-a-pique. — gritam e saem correndo pelos terreiros. As meninas e os meninos saem todos para o terreiro. n ca tem m e le istérios a as edo de dia . para dar mais espessura. não quero saber de ninguém parado em pé fazendo a foto. ao lado de uma pensativa tartaruga... o Careca. dona Martinha. à n s águas d m os rios. B e acomp gá. Ja M é H n Chico Malta s. vão sendo amarradas umas às outras com uma espécie de corda feita da palha. — Olha. um lavrador com mais de 70 anos. era tudo de palha. procurar um ângulo. junto com Lela.As janelas são de palha de babaçu. sentar no chão. vocês viram que tem um triângulo aqui? Anoiteceu. na . também trançadas.Vão reunir as crianças e naquela noite de céu sombrio vão contar histórias e fazer o medo. em volta do Telecentro. na luz da lamparina. E com quem o senhor aprendeu a fazer casa de palha? — Com os antigo. com Chico Malta. antigamente não tinha esse negócio de telha de barro. fugir. . Quanto tempo dura uma casa de palha? — Oito anos.. as mulheres da comunidade cantam.

Chico Malta uma do boto. da floresta imensa. mas a gente não pode ter medo de nada. agente de saúde. tudo isso um dia será soja. Foi aí que dona Martinha falou: — Aranha caranguejeira..Tudo a gente tem de enfrentar nessa vida.Assunção acendeu uma vela no chão para iluminar o cômodo até que pendurássemos as nossas redes e adormecêssemos. limpa da floresta. preparados para a plantação. no meio do rio imenso.. onde antes era floresta. que estavam ali. cansei de repetir em pensamento o que era preocupação da professora de Muratuba: “Tudo isso um dia será soja. Amanhece. paredes de taipa que não chegam até o teto. pra ver o nosso movimento de ir embora. só nos resta enfrentar a noite.. atravessar os terreiros e chegar valentemente na casa da Assunção. Em 1928. tudo isso um dia. Mas ainda existem bosques de seringueira espalhados pela cidade. tudo isso um dia será soja. estão ficando douradas. onde vamos passar a noite. fomos de carro até Belterra. continuavam a nos dar adeus.500 quilômetros quadrados de seringueiras. O nosso rumo é Santarém. Quando entramos no barco. das palmeiras.. na margem esquerda do Tapajós. tudo isso um dia será soja. como as nuvens. atravessamos para a margem direita. Não tem preço a acolhida quando a gente é o estranho e não tem onde dormir. numa comunidade lá no rio Arapiuns. Depois das sábias palavras de dona Martinha. teto sem forro para entrar a fresca. 12 pessoas da comunidade que acenavam pra nós. E vendo aqueles campos. dona Martinha outra do boto e nessa hora em que o boto virou gente. Duas menininhas acabam de acordar e andam ali pela beira. O sol está nascendo dentro do rio Tapajós. agora devastados. Era o barracão do Posto de Saúde e assim atrás ficava o cemitério. tudo isso um dia será soja. a antiga aldeia dos índios Borari. Alter do Chão . crianças. por causa da escuridão. na beira da praia.As crianças gritaram. Santarém-Cuiabá. na direção de Alter do Chão. mas antes de pegar a estrada principal. Uma boceja. O conselho era para os netos dela. tudo existe.152 153 – Teve uma vez que o Marquinho tava dormindo numa rede. empurrada lá pro fundo. Até onde a vista alcança. já eram umas dez. se fingindo de Curupira.Assim que chegamos. mas caiu como uma luva para os nossos sentimentos. Uma praga acabou com tudo. As histórias vão se sucedendo: Careca contou uma da Curupira. que estão voando pela cidade. rasgada. aqueles pequenos pontinhos coloridos. Djalma. a paisagem foi passando aberta. Careca que tinha saído dali sem que ninguém notasse. voltou assobiando na noite. Ainda não são seis horas. enquanto o carro percorria todo aquele caminho.”. Resolvemos dormir em Suruacá. De Suruacá. traumatizados com a noite anterior. De lá. outra se espreguiça. onde hoje as crianças correm para pegar as saúvas. entramos em estreitas estradas de terra. E enquanto pudemos ver aquela paisagem. Casa de chão de terra batida. a cidade planejada por Henry Ford para fornecer látex à linha de produção da Ford. e outros dois rapazes da comunidade vêm nos ajudar com as malas.. foram plantados mais de 3.. As folhas das copas das mangueiras. vestido de roupa brilhosa. Acordamos com o som da rádio Japiim que entrou no ar. nós gritamos também. Curupira. — diz Chico Malta — Aí eu só lembrei de rezar.

educativas e de renda. porque são eles que detêm o maior conhecimento sobre a Amazônia. realidade. outros não. geração de renda. melhoria na área de produção de alimentos. buscamos promover a formação de novas lideranças antenadas com a luta das populações ribeirinhas por melhores condições de vida e pela proteção da Amazônia. Inclusão Digital: por enquanto implantada em duas comunidades. Nesse contexto. Com o início das oficinas de capacitação. vídeo e jornais comunitários. Através dela. parteiras tradicionais. entre as comunidades envolvidas no projeto. Eles têm que viver a partir do que a natureza dá. o fortalecimento da identidade cultural do ‘jovem da floresta’. Entre os 12 membros eleitos para a nova diretoria do Conselho Intercomunitário dos Rios Tapajós. opções culturais. organização comunitária. extrativistas. A Rede passou a promover a comunicação entre as comunidades e iniciou um amplo processo de difusão da voz. ONG que atua na Amazônia desde 1987. Isso criou uma rede intercomunitária de permanente circulação de informações e conhecimentos.” (Fábio Pena. Através desses trabalhos. Ali não existe farmácia. sair à tarde para caçar o jantar… Então é uma população que tem um patrimônio cultural fantástico e vive um quadro de exclusão tremendo. CD player. produtores rurais. índios. sobretudo. professores. em telecentros culturais com computadores e acesso à Internet. desnutrição –. Foram organizadas nas comunidades oficinas de comunicação onde os jovens eram capacitados como repórteres rurais e aprendiam a produzir programas de rádio. . com o Saúde e Alegria a gente buscava dar poder para essas populações tradicionais de seringueiros. desenvol- vendo outras ações que sejam importantes para eles. O trabalho visa. Ele percebeu que os problemas de saúde eram de origem básica – diarréia. de modo geral. coordenador do Saúde e Alegria) “Atualmente os objetivos da Rede Mocoronga vão além da promoção da comunicação comunitária pelos próprios jovens. Os programas da Rede Mocoronga procuram envolver não só os jovens. A sobrevivência deles depende desses conhecimentos. cotidiano e da cultura regional da população. em programas de saúde. esse movimento busca contribuir para a formação da cidadania da juventude ribeirinha. onde avaliam e planejam estratégias de ação. E era preciso que a população tivesse um apoio em outras áreas: acesso garantido à escola. uma máquina de datilografia e um mimeógrafo. Cada repórter. os jovens viram crescer as próprias possibilidades e potencialidades. cinco são jovens que participam da Rede Mocoronga. jovens e crianças. monitores de saúde. lideranças. eles não têm moeda. em Santarém – e 22 sucursais rurais. A Rede funciona a partir de uma central – o escritório do Saúde e Alegria. Todo trabalho é definido pelos próprios repórteres que fazem matérias ao vivo ou pré-gravadas e montam a grade de programação conforme a identidade de cada local. mulheres. A arte. microfones –. cultura e comunicação. o lúdico e a comunicação são os principais instrumentos de educação. Amazonas e Arapiuns (organização de base comunitária que representa as comunidades da área de atuação do Saúde e Alegria). Aí ele viu que os problemas de saúde eram também problemas de educação. cada locutor é um agente multiplicador. pescadores. têm que sair de manhã para pescar o almoço. inserindo as novas gerações no processo de desenvolvimento das comunidades. o fluxo inverso permite que a população ribeirinha tenha acesso às realidades de outros lugares.” (Caetano Scanavino. Ao mesmo tempo. além da valorização e do reconhecimento dos jovens ribeirinhos como segmento estratégico para a região. apoiar as ações protagonizadas pelos grupos de jovens que foram criados através do trabalho de comunicação. não têm geladeira. fazer o remédio caseiro. tape-deck.154 155 Origens e Propostas A história da Rede Mocoronga de Comunicação Popular começou como parte das estratégias de educação e mobilização social do Projeto Saúde e Alegria. sendo que hoje. “O Saúde e Alegria começou com meu irmão Eugênio. Rádio Mocoronga: as sucursais funcionam nos moldes de rádios comunitárias a partir de um kit de áudio – amplificador. os participantes dos grupos de jovens da Rede Mocoronga criaram a Teia Cabocla de Lideranças Juvenis. médico. mas acabavam ficando graves por falta de intervenção efetiva em tempo hábil. criando espaços de participação comunitária. os jovens passaram a se colocar nas comunidades na condição de agentes multiplicadores. Então. São jovens trabalhadores rurais. coordenador da Rede Mocoronga) Os atores envolvidos nessa história são cerca de 450 jovens entre 14 e 25 anos que formam grupos em cada uma das 31 comunidades ribeirinhas. Todo trabalho é distribuído através de três veículos: Jornal Mocorongo: cada sucursal tem um kit de editoração. Também organiza o fluxo intercomunitário dos programas de comunicação popular e qualifica os materiais produzidos pelas comunidades. desafios mais amplos foram sendo incorporados. alguns estudantes. mas todos os grupos e faixas etárias. e veiculam o material produzido por meio de cornetas espalhadas pela comunidade. eles não têm dinheiro para comprar as coisas. que começou a trabalhar na prefeitura de Santarém para atuar na área rural. educação. articulando políticas públicas onde estes estejam incluídos de forma adequada e protagonista. compostas pelos grupos de jovens repórteres de cada localidade. para avançar na sua participação sociopolítica e comunitária. As produções são veiculadas nas rádios e jornais intercomunitários e difundidas para outras regiões. participação e mobilização. ribeirinhos. mesa. Recentemente. Foi aí que ele saiu da prefeitura e criou a ONG Saúde e Alegria.

homossexualidade. Pág. Descreve o horror a que eram submetidos os africanos na travessia do Oceano Atlântico e clama pelo fim do tráfico negreiro. 25. Pág. autor da mundialmente consagrada ópera O Guarani. na Bahia. escrito em 1868 pelo poeta Castro Alves. Essa polícia funcionava sem tribunal.156 SAIBA MAIS 157 Grupo E-Jovem Gestapo – Foi a polícia política da Alemanha nazista. no final do século 19. Pág. 28. Carlos Gomes – Maestro e compositor brasileiro. Castro Alves – Antonio Frederico de Castro Alves. Pág. nasceu em 1847 na cidade de Curralinho. decidindo sumariamente as punições que deviam ser aplicadas. Geledés “O Navio Negreiro” – Um dos mais importantes poemas abolicionistas da literatura brasileira. Pág. RPG – Sigla de Role Playing Game. Bento Quirino dos Santos – Comerciante abastado da cidade de Campinas. Pág. 29. Mocotó – Pata de bovino. Pág. criada por Adolf Hitler. Pág. Sucão – Lanchonete no Centro de Campinas. 26. SP. Foi um grande poeta romântico e . 37. inspirada no romance homônimo de José de Alencar. 26. É um jogo de aventura e interpretações de papéis. Homossexualismo – Afinidade. atração e/ou comportamento sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. sem o casco. 27. Prestou relevantes serviços à população por ocasião da epidemia de febre amarela. 27.

Foi líder da Inconfidência Mineira e primeiro mártir da Independência do Brasil. UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação. 72. em São Paulo. é um dos clássicos da literatura brasileira e constitui. Criou a Universidade de Brasília. foi tropeiro. residência oficial do Presidente da República. 71. 66. Pág.158 159 abolicionista. foi enforcado e teve seu corpo esquartejado e exposto em praça pública. Reconhecido nacional e internacionalmente como um dos maiores escritores brasileiros. Ações afirmativas – Propostas que pretendem estimular o protagonismo da população negra. 20 (1839-1908). bem como dos órgãos das esferas governamentais federal. literária e científica. ator e folclorista. atendendo às necessidades dos mais diversos segmentos da sociedade civil. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – É o principal provedor de dados e informações sobre o país. Rap – Gênero musical surgido no início da década de 1970 nos Estados Unidos. Foi um grande “retratista” do Brasil e dos brasileiros. Pág. 41. Legislativo e Judiciário. A trama desenvolve-se a partir da mistura entre elementos do real e do ilusório. bem vestidos e que ostentam sua posição social. Pág. irrite. 39. Segundo Jorge Amado. Pág. Pág. sendo chamado “o poeta dos escravos”. Pág. nasceu na Argentina em 14 de maio em 1928. a Ciência e a Cultura) – Organização que conta com mais de 191 Estados-Membros. teve muitos amores. Pág. Pág. e suas músicas abordam temas como violência. Seus contos são verdadeiras obras-primas de contenção e rigor construtivo. Tem como objetivo mobilizar pessoas e recursos para encontrar soluções criativas para os problemas da comunidade. reunidos a cada dois anos para discutir e deliberar sobre importantes questões no âmbito de seu mandato. Pág. Esplanada dos Ministérios – Região localizada no Eixo Principal de Brasília onde estão situados os edifícios de todos os ministérios do Governo Federal. ministro-chefe da Casa Civil e senador. Pág. até hoje. Pirâmide social – Esquema de representação das classes sociais cujo formato se assemelha ao de uma pirâmide. 43. professor. Pág. O povo brasileiro é um livro indispensável para quem procura entender a formação da nossa história e do nosso caráter. nasceu em Montes Claros em 26 outubro de 1922 e faleceu em 17 de fevereiro de 1997. por isso. Nasceu no dia 24 de julho de 1908. Pág. formando uma complexa periferia. Pág. que abrigam as super quadras residenciais e setores de comércio e serviços. Matrix – Filme norte-americano de ficção que conta a história de um jovem programador de computador que é atormentado por estranhos pesadelos. classe ou grupo social. Karl Marx – Economista. Grupo Interagir Praça dos três poderes – Praça idealizada pelo urbanista Lúcio Costa e localizada no início do Eixo Monumental. Pág. Pág. a fim de atender aos princípios da justiça social e ao aumento de produtividade. De todos os escritores negros. em conjunto ou não com a sociedade civil. 50. pessoa. 70. 58. Pág. É um dos idealizadores do Comunismo. Desenvolveu vasta atividade educacional. sua preocupação maior está na reflexão sobre a existência humana. Um de seus últimos livros – Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) narrado a partir do ponto de vista de um defunto. drogas e marginalidade. Capitalismo – Sistema econômico que tem por base o lucro e a propriedade privada dos meios de produção. sociais e ambientais implementadas pelo governo. . 42. foi quem deixou presença mais forte. principalmente na década de 1970. Racionais MC’s – Um dos mais importantes grupos de rap e hip-hop do Brasil. nasceu em 1818 e morreu em 1883. uma grande sensação literária. 68. ou a completa abolição do conceito de classes. 58. Asa Sul e Asa Norte – O projeto da cidade de Brasília tem a forma de um avião. circundam o Plano Piloto. 59. Estresse – Conjunto de reações orgânicas e psíquicas de adaptação que o organismo emite quando é exposto a qualquer estímulo que o incite. teatrólogo. mascate e dentista prático. 65. Pág. Surgiu em 1990. MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) – Movimento político-social brasileiro que busca a reforma agrária. a capital brasileira. Darcy Ribeiro – Antropólogo. apresenta as regiões denominadas Asa Sul e Norte. foi ministro de Educação. 42. Cidades-satélites – Localizadas ao redor de Brasília. doutrina política que prega a formação de uma sociedade sem classes. Pág. 37. Palácio da Alvorada – Primeiro edifício inaugurado em Brasília. 52. no meio situa-se a classe média e no topo da pirâmide estão as chamadas elites. ideologias e práticas políticas que postulam a abolição das desigualdades econômicas entre as classes sociais. uma melhor distribuição das terras mediante modificação no regime de sua posse e uso. Centro de Voluntários – Parte integrante do Programa de Voluntários da Comunidade Solidária. nas suas contradições essenciais. Pág. Juscelino Kubitschek – Presidente do Brasil de 1956 a 1961. Pág. 59. ligados à coletividade negra brasileira. Pág. em Recife. Estereótipo – Imagem padronizada que reflete uma opinião simplificada a respeito de uma situação. Socialismo – Denominação genérica de um conjunto de teorias socioeconômicas. Playboy – Denominação popular que se dá aos jovens de classe alta e média-alta. 37. ensaísta e romancista. 72. amedronte ou o faça muito feliz. 52. Representa a união dos poderes Executivo. Machado de Assis – Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro e viveu na segunda metade do século 19 e início do séc. foi construída e fundada Brasília. política. 52. nos quais encontra-se conectado por cabos em um imenso sistema de computadores do futuro. 69. raça. Núcleo Cultural Força Ativa Tiradentes – Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Minas Gerais em 1746. Pág. acontecimento. Capital Social – Diz respeito aos níveis de organização. 52. mas o maior de todos eles foi a liberdade. Latrocínio – Assassinato com objetivo de roubo. Che Guevara – Ernesto Guevara de la Serna. Políticas Públicas – Conjunto de ações econômicas. para atender demandas específicas de grupos sociais. no sentido de pensar e executar ações pertinentes à desconstrução do racismo e do preconceito. pintor. com igualdade social e econômica para todos. Pág. pessoas excluídas e marginalizadas). sendo seu nome a sigla para rhythm and poetry (ritmo e poesia). 69. No seu governo. O lema de seu governo era: “50 anos em cinco”. filósofo e socialista alemão. em Brasília. Ficou conhecido por ser um guerrilheiro revolucionário e por ter participado da Revolução Cubana e do governo de Fidel Castro em Cuba. Dono de um texto impecável e de um humor refinado. 41. Pág. Pág. Solano Trindade – Poeta. Em 21 de abril de 1792. estadual e municipal. Pág. 66. tornando-se conhecido pela habilidade com que arrancava e colocava novos dentes feitos por ele mesmo. Teve origem na oposição ao modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar. Pág. Pág. de conexão horizontal e de regulamentação democrática de uma sociedade. Pág. além do olhar crítico sobre a sociedade do Rio de Janeiro do século 19. Pág. 53. 71. 65. conhecido por Che Guevara ou El Che. Tem na base as classes mais pobres (trabalhadores.

Nasceu em Recife em 1921 e faleceu em 1997. 78. na época da escravidão. no lugar da jandaia. Iaiás – Nome dado às filhas dos senhores de engenho. Há um vínculo forte entre esse começo e o fim do livro. vítima de Aids. abastecido com água da chuva ou dos caminhões pipa das prefeituras. 80.. ato de livrar-se do poder. 89. Aliança com o Adolescente Carnaúba – Tipo de palmeira com inúmeras finalidades de aproveitamento. Pág 77. Pág. Autor de vários livros e artigos. endêmica do Nordeste. Pág. junto com o dendezeiro. Perdida a tradição religiosa. que aborda o tema das ruas. José de Alencar – Autor de Iracema. Conhecido como canjica em São Paulo. Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) – Conjunto de indicadores que medem a qualidade de vida e o progresso humano em âmbito mundial. CE. feita a base de milho. Cisternas – Espécie de poço. 119. moradoras das casas grandes. 109. PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) – Organização que tem como objetivo principal o combate à pobreza e à miséria no mundo. Foi membro da Academia Brasileira de Letras por 40 anos e vendeu mais de 20 milhões de livros. conta a lenda da índia Iracema que se apaixona por um guerreiro branco. com diferentes denominações e peculiaridades. 115.160 161 Protagonismo Juvenil – É a atuação consciente e criativa do jovem na busca de soluções para desafios dos ambientes em que vive e convive. Cazuza – Cantor e compositor carioca. Bansol Jorge Amado – Grande escritor baiano da cidade de Itabuna. 94. 73. açúcar e canela. após esgotar toda a sua energia na produção de frutos e brotos. Pág. frutos. que para o povo é suspeita. Pág. conhecido como “Boca do Inferno” por sua ironia e pela crítica aos costumes e à política da época. 115. em geral integrantes de uma determinada categoria profissional. surge “E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. da beleza e da pobreza. o lenho e principalmente a cera. Pág. onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. cera. Mulungu – Árvore nativa do Brasil. 101. Pág. contaminados pela memória de Iracema: “No fundo do mato-virgem nasceu” não a virgem dos lábios de mel. Candomblé – Religião Afro-brasileira praticada em grande parte do Brasil. Matuto – Aquele que vive no mato. 120. Pág. a jaqueira. no qual se inscreve a memória do nascimento do Ceará . escrita em 1944. 106. 103. Iracema – Obra de José de Alencar. 78. Pág. dos mistérios e da gente da cidade de São Salvador. Utilizam-se suas folhas. Faz o ninho no oco da carnaúba. 78. Emancipação – Libertação. Pág. Não há a figura do patrão e todos os empregados participam das decisões administrativas em igualdade de condições. financeira e orçamentária. Com a derrubada da carnaúba nativa. No Candomblé. Pág. a pitangueira e a gameleira. Pág. 101. 119. Juazeiro – Árvore de cinco a dez metros de altura que aparece na caatinga e no polígono da seca. 77. Maracatu – Grupo carnavalesco pernambucano. Pág. Monjolo – Engenho primitivo. Pág. Delivery – Entregas em domicílio. são árvores cultuadas pelos orixás-voduns. que no tempo das secas é aproveitada na alimentação do gado. herói de nossa gente” (início). seguem para os centros urbanos. Câmara dos vereadores – Órgão municipal formado por vereadores eleitos. em busca de emprego e melhores condições de vida. Banco Palmas – Banco criado por moradores do Conjunto Palmeira. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói”. a jandaia está em extinção. atingem mais de dois metros de altura. 117. Pág. tendo sido responsável pela construção de um projeto literário de raízes nacionais. Paulo Freire – Um dos grandes educadores contemporâneos. leite de coco. Pág. Pág. a cajazeira. em Macunaíma (1928). PETI (Programa para Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil) – Programa de transferência direta de renda do Governo Federal para famílias de crianças e adolescentes envolvidos no trabalho precoce.. o grupo convergiu para o Carnaval. Pág. 118. O livro começa assim: “Verdes mares bravios de minha terra natal. Pág. Pág. principalmente para dar lugar ao gado. 115. Gameleira – Árvore grande.As inflorescências são imensas. a mangueira. seja pelo início e pelo final. Projeto Juventude e Participação Social/MOC Ouricuri – Palmeira também conhecida como licuri e coqueiro-cabeçudo. Pág. 77. Pág. por suas grandes reservas de água. exerce atribuições de fiscalização externa. Sisal – Planta produtora de fibra. conhecido no mundo todo e falecido em 2001. Multiplica-se na vegetação da caatinga. Pág. mas permanece no canto da jandaia. Bahia de todos os Santos – Obra de Jorge Amado. movido por água.. Um de seus poemas foi musicado por Caetano Veloso nos anos 70. com pequena orquestra de percussão que antigamente acompanhava os séqüitos negros dos reis de congos. 81. falecido em 1990. e diz assim: “Triste Bahia. A floração acontece uma única vez e. Dá nome a uma cidade na Bahia e a outra no Ceará ( Juazeiro do Norte). Gregório de Matos – Poeta nascido na Bahia em 1633. Mouca – Termo regional utilizado para indicar surdez. 101. quando Iracema morre. Pág. provenientes da África e recentemente introduzidos no Brasil. Sindicato – Associação fundada para a defesa de interesses comuns a seus participantes. Pág. uma favela de 30 mil habitantes na periferia de Fortaleza. chegando até o litoral do Nordeste. Pág. 107. Pág. 108. muito apreciada por sua floração vermelho-vivo. Pág. pois dá ótima sombra e alimento ao gado faminto.Tem inúmeras utilidades: alimento. 119. 77. 116. 83. 106. Alevinos – Filhotes de peixes. seja pela dedicatória da 1a edição (“A José de Alencar/pai-de-vivos que brilha no vasto campo/do céu” ).”. Pág. Pág. Autogestão – Forma de gerência em que todos os indivíduos atuam como colaboradores de si mesmos. É uma benção para o sertanejo. 83. os supersticiosos não atravessam sua sombra. traz para esse livro a presença de José Alencar. Munguzá – Comida típica nordestina. Rubem Alves – Escritor mineiro nascido em 1933.Viveu na segunda metade do século 19 e é um dos maiores escritores brasileiros. roceiro. Serigüela – Fruta típica do Nordeste brasileiro. Mário de Andrade. que. 101. Pág. respeitado mundialmente.. 85. Pág. Mandacaru – Planta arborescente. Pág.”. . mas “Macunaíma. Pág. Pág. Pág. fundado sobre a língua e a cultura brasileiras. feito de concreto. Pág. Jandaia – Ave pequena muito parecida com o periquito. a planta mãe morre.Tem funções legislativas. Seu objetivo é fomentar pequenos negócios e estimular a comunidade a consumir o que ela mesma produz. 83. Já ao final. Tilápias – Peixes comestíveis de água doce. Êxodo Rural – Movimento de abandono do campo por seus habitantes. óleo para sabão e artesanato. Pág. 89. ó quão dessemelhante. 91.

133. 136. contando a história da Guerra de Canudos. o nome forró deriva de forrobodó. 139. coco. 121. povoado do alto sertão da Bahia. Seu ninho tem a forma de um cesto. as margens do rio se alargam em até cem quilômetros de extensão. Estariam. Pág. dono da companhia Ford. em que. que o tornam invulnerável a balas. ribeirão. o julgamento de Deus que premiará os justos e condenará os pecadores. após sucessivas derrotas. 137. rojão. sonhavam criar uma nova forma de vida em comum. é um de seus poucos afluentes de águas escuras. jornalista. Os Sertões – Livro-reportagem escrito por Euclides da Cunha. 137. Pág. Carrega para o Oceano Atlântico 800 milhões de toneladas de terra por ano. 135. cozidos juntos numa mesma panela. Pág. Pág. “baile ordinário. Pág. segundo a superstição popular. e deságua no Oceano Atlântico. com manchas amareladas. feito de suco de mandioca fresca. escreveu relatos de viagens que realizou pelo interior do país (entre outras. É o mais longo rio do mundo. sociólogo e engenheiro. Pág. vive em praias arenosas de rios e lagos. Euclides da Cunha foi enviado ao sertão da Bahia como repórter do jornal O Estado de São Paulo. sua carne é muito apreciada em algumas regiões do Brasil. . Catitu – Mamífero não ruminante que apresenta uma faixa de pêlos brancos no pescoço. Atribui-se a ele o ato de curar doenças e salvar vidas. Surubim – Peixe de água doce. Suas águas são verdeazuladas. Carimbó – Dança regional maranhense que se assemelha à capoeira baiana. semelhante a um grande macaco. Socó – Ave de água. querosene ou gás inflamável para iluminação. Pág. 121. 146. Pág. 135. em alguns trechos. Além de Os Sertões. Pág.200 quilômetros. 125. em lugar de floresce. Pág. os pares são obrigados a passar diante dos músicos. Pág. Euclides da Cunha – Escritor. assim. Pág. 133. livres dos comandos dos coronéis e do governo. pendurado nas árvores próximas a rios e lagos. Indicam mudança de tempo. O forrobodó. Paca – Nome comum de um roedor de cor escura. Mapinguarí – Animal lendário. Pág. Henry Ford – Empresário. “divertimento pagodeiro”. Curupira – Ente fabuloso do folclore brasileiro que. 137. sem etiqueta”. Pág. Pág. 121. Faz seu ninho no chão. no Pará. coberto por pêlos densos. também conhecido por arrasta-pé. Lume – O mesmo que luz. Pág. Nosso Senhor do Bonfim – Santo de grande devoção do povo baiano. os batalhões do exército acabaram por destruir o povoado e dizimar a população. Pág. obra-prima que retrata a Guerra de Canudos. com muitos requebrados em face de uma personagem invisível. Pág. Brasil. Pág. Pág. do tamanho de uma garça. atraindo uma multidão de miseráveis sertanejos que. encontradas na região amazônica. Baião de Dois – Prato típico da culinária nordestina. Rio Arapiuns – Um dos braços do rio Tapajós. clarão. Nessa guerra. ribeiro. Pág. Fazia sermões e discursos em praça pública. Igarapé – Canal estreito de água que só dá passagem a canoas ou pequenos barcos. Maçarico – Pequena ave de água. 121. ou seja. Guerra de Canudos – Movimento político-religioso brasileiro que durou de 1896 a 1897. Fulora – Como se fala no sertão. xaxado.162 163 Acarajé – Comida típica baiana com camarões e muita pimenta. sempre com a preocupação de desvendar a terra e o homem do Brasil. os revoltosos contestavam o regime republicano recém-adotado e os desmandos dos coronéis locais. da mesma família do bagre. São nuvens altas e delicadas que lembram pinceladas no céu. o que significa que vêm de formações geológicas mais antigas do que as águas barrentas do rio Amazonas. 135. Pág. 137. 136. Possui vários usos industriais. Pág. que de repente param de tocar. Saúde e Alegria Cirrus – Tipo de nuvem formada por cristais de gelo. Pág. Candeeiro – Utensílio em que se coloca azeite. Pág. a popular sanfona de oito baixos. Ele não tem um leito definido: nos períodos de cheia. Pág. 133. Forró – Segundo o folclorista Câmara Cascudo. Rio Amazonas – Rio sul-americano que nasce na cordilheira dos Andes. Possui variadas formas. 121. penadas. Babaçu – Nome de várias espécies da família das palmeiras. no Peru. no Rio de Janeiro. com enormes unhas viradas para trás. e pés de burro. o Juízo Final será o acontecimento derradeiro do fim deste mundo. sempre foi movido por vários tipos de música nordestina (baião. 121. 120. 135. 133. Nela. com 7. Antonio Conselheiro – Personagem da História brasileira. 152. bate-chinela ou fobó. realizada em festas de família ou populares. Pág. xote) e animado pela “pé de bode”. quadrilha. Pág. líder na indústria automobilística nos Estados Unidos. Isso incomodou as autoridades e deu origem à Guerra de Canudos. Pág. desceu os rios Amazonas e Purus). Tem os calcanhares voltados para diante e os dedos dos pés para trás. riozinho. riacho. 121. feito de feijão e arroz. no Brasil central e no Nordeste. 133. O forró é uma festa que foi transformada em gênero musical. líder espiritual e político do povo de Canudos. liderado por Antonio Conselheiro. o equivalente a uma montanha dez vezes mais alta que o Pão de Açúcar. com longas folhas. habita e protege as matas. aquecido até tomar a consistência e a cor do mel de cana. Rio Tapajós – Afluente da margem direita do rio Amazonas cuja nascente se encontra no Estado do Mato Grosso. Juízo Final – De acordo com algumas denominações cristãs. 134. Tucupi – Molho tradicional da culinária do Norte brasileiro. Desfeiteira – Brincadeira de salão típica do Amazonas. 139. junto com ele.

vem prestando consultoria para o UNICEF. Toro vem formando especialistas em planejamento em toda a América Latina. É Mestre em Investigação e Tecnologias Educativas e Decano da Faculdade de Educação da Universidade Javeriana em Bogotá. formada pela Faculdade de Comunicações e Artes da Fundação Armando Álvares Penteado. Neide apresentou e dirigiu o Programa Caminhos e Parcerias. em São Paulo. Depois de trabalhar três anos como repórter do jornal Folha de S. no governo do Presidente Frei. Participou. o Mídia da Paz. O prefácio José Bernardo Toro é colombiano. Física e Matemática. o Banco Mundial e alguns governos. Neide viajou pelo Brasil para contar a história de projetos sociais.Paulo. Entre 1998 e 2005. Estudou Filosofia. o Prêmio Ethos e o Grande Prêmio Barbosa Lima Sobrinho. Foi Presidente do Conselho Diretivo do Centro Colombiano de Responsabilidade Empresarial e da Confederação Colombiana de ONGs. por exemplo. . o Vladimir Herzog. entre eles o Líbero Badaró. e.164 QUEM SOMOS 165 A autora Neide Duarte é jornalista. na TV Cultura. onde ficou 16 anos fazendo matérias para o Jornal Nacional. da Reforma Educativa de Minas Gerais e do Chile. onde está atualmente. desde os anos 80. o BID. Neide ingressou na Rede Globo. Globo Repórter e Fantástico. Desde os anos 70. Esse seu trabalho com o “Caminhos” foi amplamente reconhecido: o programa ganhou 11 prêmios jornalísticos no Brasil e no exterior. Antes de voltar como repórter especial para a Globo.

com Geledés Rua Santa Isabel. Reitor Miguel Calmon. com o objetivo de influenciar políticas públicas direcionadas à juventude e quebrar o ciclo de reprodução da pobreza. 315 – apt.geledes. Sua missão é ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas.br – www.org. no Caribe).com – www. Desde 2001. conj. a Aracati vem desenvolvendo projetos de comunicação (como este livro) e de educação. 55 Campinas – SP – CEP 13025-000 TEL: 19 9136-1950 grupo@e-jovem. mais de 2 mil projetos receberam apoio na maioria dos países latino-americanos e em alguns países do Caribe. Nordeste do Brasil e região andina da Bolívia.e-jovem.br – www. Sul da África. Centro Comercial – Alphaville CEP 06454-000 – Barueri/SP – Brasil wkkfbr@wkkf. o orçamento anual da instituição para a região é de 24 milhões de dólares. Cruzeiro Feira de Santana/BA – CEP 44017-170 TEL: 75 3221-1393 – FAX: 75 3221-1604 moc@moc.org. sala 1312 Caminho das Árvores – Salvador – BA – CEP 41820-774 TEL: 71 2107-7400 – FAX: 71 2107-7424 ia@institutoalianca. A crença na capacidade dos brasileiros de construir juntos um país melhor para todos fez surgir um outro aracati.br www. como a Gincana da Cidadania. sala 4 Canela – Salvador – BA – CEP 40110-100 TEL: 71 3263-7369 bansol@ufba. Um aracati que é capaz de gerar movimentos de participação. a Fundação Kellogg é hoje uma das maiores financiadoras privadas do mundo. térreo. 153. assim como a brisa que refresca o interior do Nordeste.institutoalianca.org.wkkf-lac.org. Mas a inspiração para o nome da organização vem do Nordeste. s/n.protagonismojuvenil. Edifício Brasília Shopping.saudeealegria. aproximadamente. Torre Norte. Escola de Administração. A América Latina entrou na programação da Fundação Kellogg no início da década de 1940. 1084.br – www.br – www. 697 Santarém – PA – CEP 68005-420 TEL: 93 3523 1083/3522 2161 – FAX: 93 3522-5144 psa@saudeealegria.br – www.org . Grupo E-Jovem Rua Coronel Quirino.Atualmente. com doações nos Estados Unidos. A sede da Aracati fica em São Paulo.geocities. governos locais e sociedade civil (empresas. Um aracati que. que envolveu mais de 300 jovens em escolas de ensino médio da cidade de Santos e foi reconhecida pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) como uma das quatro melhores práticas de voluntariado juvenil da América Latina e Caribe em 2002. sala 1327 Brasília – DF – CEP 70713-000 TEL: 61 3036-9675 portal@protagonismojuvenil.América Latina e Caribe.bansol. A estratégia de trabalho é financiar conjuntos de projetos que envolvam ONGs.org.org.br Bansol Av. através da aplicação prática de conhecimentos e recursos para melhorar a qualidade de vida desta e das futuras gerações. 211 apt. As áreas onde há projetos apoiados pela Fundação Kellogg são: Sul do México e América Central (incluindo Haiti e República Dominicana. 460 – Pinheiros CEP 05417-001 – São Paulo/SP – Brasil Tel: 11 30311133 – Fax: 11 38198593 contato@aracati. 44B São Paulo – SP – CEP 08255-010 TEL: 11 65158223 – 94024447 nucleoforcativa@ig.br – www.br Núcleo Cultural Força Ativa Rua Jardim Tamoio.br Projeto Juventude e Participação Social / MOC Rua Pontal.org.ufba. geralmente nos fins de tarde.aracati. Peru e Equador. comércio. nº 61.br Rua Mourato Coelho.br Saúde e Alegria Travessa Dom Amando. em especial os jovens.org. A Fundação Kellogg Criada nos Estados Unidos pelo pioneiro da indústria de cereais Will Keith Kellogg. 137 – 4º andar – Vila Buarque São Paulo – SP – CEP 01221-000 TEL: 11 3333-3444 geledes@geledes. 31. entre outras regiões.org. Quando o aracati passa as pessoas saem de suas casas e encontram-se nas ruas. de suas casas.com/athens/cyprus/3465/ Grupo Interagir SCN Quadra 5.br Aliança com o Adolescente Rua Frederico Simões.moc. atrás do frescor trazido pelo vento.br – www.com.org. Desde então. Em suma.org.166 CONTATOS 167 A Aracati A Aracati é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de participação juvenil no Brasil. O aracati é uma brisa que se forma no litoral e passa todos os dias.org – www. por cidades e vilas de clima muito quente e seco no interior do Ceará. Bloco A. é capaz de tirar as pessoas. comunidade em geral). um aracati de mobilização social.org.br Escritório Regional da América Latina e Caribe Alameda Rio Negro.

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