CURSO LIVRE TEOLÓGICO ONLINE – NÍVEL BÁSICO: MÓDULO I
SÍNTESE DO ANTIGO TESTAMENTO I
AULA 4
IV. SÍNTESE DOS LIVROS DO PENTATEUCO
Observamos na lição anterior alguns elementos necessários à compreensão
do Pentateuco. Nessa lição, estudaremos de modo resumido alguns aspectos dos
cincos livros que compõem o Pentateuco.
Anteriormente observamos que as narrativas dos cinco livros têm a terra
prometida como eixo para o desenvolvimento das narrativas pentateucais. Nessa
lição faremos uma breve incursão sobre os cinco livros.
1. GÊNESIS
Os hebreus deram-lhe o nome de “berê’shîth”, devido a sua primeira frase
“No princípio”. Os tradutores da Septuaginta (LXX) chamaram-no de “Gênesis”
(origem), em virtude de o livro relatar as origens do Universo, do homem na obra
criativa de Deus, das várias nações da terra e, de modo particular e especial, da
família pela qual o Messias descenderia.
O tema principal do livro de Gênesis é a obra de Deus tanto na criação como
na salvação do homem.
1.1. Autoria
A autoria do livro de Gênesis é atribuída pela mais remota tradição a Moisés.
O livro é obra de um único autor, Moisés. Provavelmente, além da revelação
divina, Moisés tenha se utilizado das histórias e tradições familiares que
preservavam a história remota do povo de Israel, principalmente das histórias dos
patriarcas.
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Embora não haja manifestações pessoais na primeira pessoa de que Moisés
tenha se identificado como autor da obra, o Novo Testamento apela para o fato de
que Moisés tenha sido o autor principal, colocando o conjunto dos cinco rolos
(Gn-Dt), como procedentes dele (cf. Lc 24.27,44; Jo 5.46, entre outros).
Moisés reuniu e compilou através da orientação do Espírito Santo, diversas
histórias e tradições, tanto na forma oral e escrita, que preservavam a gênese de
Israel. Todavia, como todo livro antigo, ao ser copiado e reeditado, foram feitos
alguns acréscimos posteriores, adendos explicativos, como é sugerido pelos textos
de 36.31; 12.6; 13.7; 14.14.
1.2. Data e Local em que foi escrito
O livro de Gênesis provavelmente foi escrito durante a primeira parte da
peregrinação de Israel pelo deserto, em Cades-Barneia, o que o remeteria a uma
data aproximada em 1443 a. C.
1.3. Esfera de Ação
O livro abrange o período compreendido desde a criação até à morte de
José, abrange um período aproximado de 2315 anos, de cerca de 4004 a 1689 a.C.
1.4. Propósito e Temática
Registrar a obra de Deus na criação e na origem da salvação.
1.5. Esboço:
I - História Bíblica Primeva (1.1-11.26)
1. A criação de todas as coisas ................... 1-2
2. A corrupção .......................................... 3-5
3. A condenação através do dilúvio ............. 6-9
4. A confusão e o nascimento das nações .... 10-11.
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II - História Patriarcal (11.27- 50.26)
1. Abraão ................................................ 11.27-25-18
2. Isaque ................................................. 25.19-35.29
3. Jacó .................................................... 27.1-37.1
4. José .................................................... 37.2-50.26.
1.6. Comentário
A estrutura do livro de Gênesis narra a origem de Israel de dois modos.
Primeiro, do capítulo 1 ao capítulo 11 temos a criação e destruição do mundo
(capítulo 1-6), e depois a recriação e ocupação depois do dilúvio (capítulo 7-11).
Segundo, por meio da história dos Patriarcas (12-50). O propósito é mostrar como
Deus elegeu o povo de Israel por meio de Abraão e como os doze filhos de Israel
se tornaram os fundadores das doze tribos de Israel. Todavia, o livro termina com
a expectativa do cumprimento da promessa da terra prometida (12.1), uma vez
que Jacó e seu filho José morrem no Egito, em vez de morrerem na terra
prometida. O livro termina “num caixão no Egito” (50.26).
2. ÊXODO
O título “Êxodo” é oriundo do grego e significa “saída, sair, partida”. Esta
designação atribuída pela Septuaginta está baseada no conteúdo do livro, pois o
livro registra a saída de Israel do Egito. No hebraico é “shemôth”, que pode ser
traduzido por “Nomes” ou “Estes são os nomes”. Êxodo é conhecido como o livro
da redenção. Nele está contida a descrição da maneira como Deus libertou Israel
da escravidão do Egito.
2.1. Autoria
A autoria é atribuída a Moisés.
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2.2. Data e Local em que foi escrito
Provavelmente, escrito cerca de 1440 a.C., sendo assim, durante a primeira
parte da peregrinação dos israelitas pelo deserto de Cades-Barneia.
2.3. Esfera de Ação
O livro abrange um período aproximado de 216 anos, pois registra da morte
de José no Egito à construção do Tabernáculo no deserto, conforme os capítulos
1.6 ao 40.1-38.
2.4. Propósito e Temática
O propósito do livro é descrever a redenção e organização de Israel como o
Povo da Aliança.
2.5. Esboço
I- Opressão no Egito ............................... (1.1-11.10)
II - Israel Sai do Egito ............................... (12.1-15.21)
III - Israel Vai para o Sinai .......................... (15.22-18.27)
IV - Israel no Sinai ..................................... (19.1-40.38)
V - Adoração dos Redimidos no Tabernáculo, no Sacerdócio e no Ritual
(35.1-40.38).
2.6. Comentário
O livro de Êxodo descreve fundamentalmente a libertação de Israel do Egito
e como se organizou como o povo da aliança. Ele parte da perspectiva de que os
descendentes de Jacó cresceram e prosperaram na terra do Egito, vindo depois ser
escravizados pelos egípcios (1.1-11.10). Todavia, a promessa do Senhor era levar
os descendentes de Abraão para a terra prometida (Gn 12). O poder do Senhor é
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demonstrado ao libertar o povo da escravidão (12 – 15), e sua misericórdia
manifestada ao proteger os descendentes de Jacó das calamidades que assolaram o
Egito (5.1-11.10). Deus é o Salvador de Israel. Para que vivam na terra prometida,
de acordo com a vontade de Deus, e não segundo os costumes dos egípcios e
cananeus, o Senhor entrega ao povo o Decálogo. Enquanto peregrinam, o Senhor
concede ao povo uma tenda da revelação (35–40).
3. LEVÍTICO
Os hebreus o chamavam o livro de Levítico de “wayyiqra” devido a sua
primeira frase: “Chamou o Senhor”. O nome Levítico foi dado pelos tradutores
da Septuaginta, pois entenderam que as recomendações do livro se dirigiam
especificamente aos levitas, descendentes de Levi. Trata-se de um manual de
instrução para os sacerdotes. Paradoxalmente o termo “levitas” só aparece num
pequeno trecho do capítulo 25.32-33; em contrapartida, muitos preceitos e leis
são precedidos pela frase: “Fala aos filhos de Levi”.
3.1. Autoria
O próprio livro afirma compor-se das palavras que Deus dirigiu a Moisés.
3.2. Data e Local em que foi escrito
Aproximadamente em 1440 (a.C.), em Cades-Barneia. Dois argumentos
principais são usados para determinar a data da composição de Levítico:
a) - Israel chega ao Sinai no dia 1º de Sivan (junho) ano de 1491 a.C. e deixa o
local no dia 2 de Siv (maio) do ano de 1490 a.C., ou seja, onze meses depois.
b) - A armação do Tabernáculo (Êx 40.17) ocorreu no dia 1º de Nisan (abril)
de 1490 a.C. É acerca desse Tabernáculo que Deus deu as instruções a Moisés (cf.
Lv 1.1; Nm 10.11).
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3.3. Esfera de Ação
O período de abrangência é de menos de um ano da jornada de Israel no
Sinai.
3.4. Propósito e Temática
A Necessidade da Purificação e da Santidade para aproximar-se de Deus.
3.5. Esboço:
I- As ofertas (absolvição) .............................. 1-7
II - O sacerdócio (mediação) ........................... 8-10
III - O povo (purificação) ................................. 11-16
IV - O altar (reconciliação) ............................... 17
V - Regulamentos para o povo ......................... 18-20
VI - Regulamentos para os sacerdotes ............... 21-22
VII - Regulamentos para as festas ..................... 23-24
VIII - Regulamentos para a terra (Canaã) ............ 25-27.
3.6. Comentário
O livro de Levítico é a constituição base para o exercício do sacerdócio da
tribo de Levi. Essas prescrições têm o propósito de manifestar o caráter e a
santidade de Deus. Ele é Santo e, portanto, o povo eleito também deve ser. Todas
as esferas da vida do povo de Israel devem refletir o caráter e a santidade de Deus.
Não há espaço para relutância em seguir o caminho da santidade. O livro ensina
tanto aos sacerdotes quanto ao povo que é necessário purificar-se em todas as
esferas da vida.
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4. NÚMEROS
O quarto livro do Pentateuco é chamado pelos hebreus de “bemidbar”, que
significa “no deserto”, pelo fato de o primeiro versículo afirmar “no deserto”. No
Deserto parece ser um título muito apropriado porque todo o relato do livro põe
em relevo as viagens e experiências de Israel durante a peregrinação no deserto.
Contudo, a Septuaginta intitula o livro como “Arithmoi”, isto é, “Números”,
pelo fato de ser registrado nos capítulos 1-3 e 26 o censo do povo, mas também
por estar inserido de alusões à quantidade. O título em hebraico é mais apropriado
do que o título grego, pois somente uma pequena porção do livro é de natureza
estatística, enquanto toda a ação se dá no deserto.
4.1. Autoria
Moisés.
4.2. Data e Local em que foi escrito
Provavelmente escrito durante a peregrinação de Israel pelo deserto, sendo
concluído aproximadamente em 1405 a.C., portanto, Israel está às margens do rio
Jordão.
4.3. Esfera de Ação
O livro cobre um período de aproximadamente trinta e nove anos de jornada
de Israel pelo deserto, desde 1444 até 1405 a.C.
4.4. Propósito e Temática
Israel havia passado quase um ano no Sinai, recebido a Lei, construído o
Tabernáculo e agora estava prestes a marchar rumo à Terra Prometida. No
entanto, como durante muitos anos fora nação escrava do Egito, era necessário,
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antes de partir, estarem preparados e organizados para atravessarem o deserto,
local onde seriam moldados por Deus. Deste modo, trata dos preparativos para o
serviço na rota do Sinai ao Jordão, logo, seu tema principal é serviço e ordem.
4.5. Esboço
I - Preparação para a Partida do Monte Sinai ... (1.1-10.10)
II - Do Sinai até as Planícies de Moabe ............ (10.11-22.1)
III - Viagem até a Transjordânia........................ (22.2-36.13).
4.6. Comentário
O livro narra a partida de Israel do Sinai, passando mais uma vez pelo
deserto, até chegar na fronteira da terra prometida. O livro descreve esse processo
em três partes principais (vide esboço). Ele descreve um povo desobediente e
contradizente (11.1-14.45). Depois de uma parada de quase um ano no distrito do
Sinai (Êx 19; Nm 10.11), a peregrinação dos hebreus continua. Mas bastam apenas
três dias de viagem para o povo começar a queixar-se. A arca tinha encontrado para
eles um bom local para descansar. Tinham a certeza de que Canaã estava logo à
frente. Experimentaram vários milagres de Deus, pelo que podiam estar certos da
vitória. Tal situação deveria motivá-los a cantar hinos de vitória, no entanto,
preferiram murmurar. Deus estava preste a consumi-los com fogo, por sua ruidosa
murmuração, mas a intercessão de Moisés apazigua a ira de Deus. O lugar fica sendo
chamado Taberá, “porque o fogo do Senhor se acendera entre eles” (Nm 11.1-3). Em
Números 11.4-35, o “populacho”, com saudosismo exacerbado, lembra dos
alimentos do Egito, comparando-os com o maná enviado por Deus. Além de
reclamarem com Deus que os havia guiado, agora reclamam da comida que lhes
deu. Estavam sendo alimentados com pão do céu e queriam alho, cebola e carne.
O próprio Moisés começa a desanimar diante de tantas lamúrias. Para dividir as
cargas com Moisés são escolhidos setenta anciãos. O Espírito de Deus desce sobre
eles e profetizam, provavelmente exortando o povo a confiar em Deus e obedecê-
Lo.
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5. DEUTERONÔMIO
Na Bíblia Hebraica o livro de Deuteronômio é chamado de “’elleh
haddebarîm” ou simplesmente “debarîm”, empregando como título as primeiras
palavras do livro: “São estas as palavras”. A Septuaginta chamou-o
“Deuteronomion”, que significa “Segunda Lei”, “repetição da Lei” ou
“segunda edição da Lei”. Assim chamaram pelo fato de o livro registrar a
repetição das Leis dadas anteriormente no Sinai.
5.1. Autoria
A autoria de Moisés tem forte confirmação, tanto no próprio livro como em
outros.
a) - Moisés refere-se a si mesmo cerca de trinta e oito vezes, e escreveu os
relatos sempre na terceira pessoa.
b) - Jesus e os apóstolos ratificaram a autoria de Moisés (Mc 10.3; Mt 19.8;
Jo 1.17; At 3.22: Rm 10.5).
c) - O último capítulo, que trata sobre a morte de Moisés, não foi escrito por
ele mesmo, porquanto trata-se de um apêndice que teria sido escrito em época
posterior, talvez por Josué, Eleazar ou Samuel.
5.2. Data e Local em que foi escrito
Aproximadamente em 1405 a.C., às margens do Jordão.
5.3. Esfera de Ação
Cobre um período de dois meses nas planícies de Moabe. É perceptível, ao
longo do livro, que Moisés estava prestes a terminar sua carreira e Israel pronto
para cruzar o Jordão e começar a tão desejada conquista de Canaã.
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5.4. Propósito e Temática
Moisés expõe as leis para a vida em Canaã. Este tema contém
resumidamente três exortações bastante contundentes, quais sejam: Recorda!
Obedece! Cuidado!
5.5. Esboço
I - Primeiro Sermão ....................................... (1-4)
II - Segundo Sermão ...................................... (4.44-26)
III - Terceiro Sermão ....................................... (27-28)
IV - Quarto Sermão ......................................... (29-30)
V - As últimas disposições ............................... (31-33)
VI - A Morte de Moisés ..................................... (34).
5.6. Comentário
A estrutura do livro de Deuteronômio apresenta quatro sermões de Moisés,
proferidos nas estepes de Moabe (veja esboço). Podemos destacar principalmente
as maldições do monte Ebal (27.11-26), constituídas de doze maldições dos
versículos 11 a 26. São doze fórmulas, cada uma delas introduzidas pela palavra
maldito. Mas também é importante destacar no livro as bênçãos decorrentes da
obediência (28.1-14). Após a menção das doze maldições são repetidas as bênçãos
decorrentes da obediência já descritas em Levítico 26.3-13 e Deuteronômio 7.12-
26. Essas bênçãos estavam condicionadas a obediência “Se atentamente ouvires
(obedecer) a voz do Senhor (...)” (vs. 1,2). Segue-se então quatro fórmulas de
bênçãos, “Bendito” (vs. 3-6), seguido de outra fórmula incisiva através dos verbos
“fazer” (7), “determinar” (8), “constituir” (9), “dar” (11), “abrir” (12), “pôr” (13).
A desobediência receberá o devido castigo (28.15-68). Esses castigos são uma
repetição de Levítico 26.14-46. Seguem a estrutura exortativa entre bênção e
maldição, obediência e rebeldia. Moisés profere bênçãos sobre os obedientes e
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maldições e castigos sobre os desobedientes. Essa seção está dividida em quatro
parágrafos: 15-19; 20-35; 36-46; 47-68. O quarto Sermão (29-30) descreve o
renovo da aliança divina (29). É o sermão crepuscular de quem está prestes a
despedir-se do povo pelo qual tanto lutou. Nos versículos 10-15, Moisés exorta o
povo ao compromisso com a aliança. Nos versículos 16-21, encontramos uma
advertência contra a hipocrisia, seguida de uma lição para a posteridade (22-28).
Por fim, caso o israelita ainda tivesse alguma dúvida acerca de seu futuro, Moisés,
fala das coisas encobertas e das reveladas (29). As coisas encobertas, futuras ou
além do conhecimento humano pertenciam a Deus, enquanto as reveladas,
pertenciam aos homens e aos seus descendentes. A aliança de Deus com Israel era
suficiente não apenas para o presente e para os assuntos temporais, mas também
para as coisas futuras e espirituais.
6. Conclusão
Os livros que formam o Pentateuco: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e
Deuteronômios formam a base da confissão de fé do povo de Deus do Antigo
Testamento. Por meio dessas cinco obras todo o edifício teológico do Antigo
Testamento é formado. Ignorar ou rejeitar qualquer um desses cinco livros é
amputar as colunas que sustentam todo o edifício Antigo Testamento.
Bibliografia
BENTHO, Esdras C.; PLÁCIDO, Reginaldo. Introdução ao Estudo do Antigo
Testamento. Rio de Janeiro, CPAD, 2019.
HAMILTON, Victor. Manual do Pentateuco. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
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