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PAIXÃO E PSICANÁLISE

Considerações a cerca da crítica ao inatismo das ideias, ao dualismo substancial que a concepção empirista/sensualista empreendeu em seu percurso de constituição, entre Hobbes, Locke e Condillac.

Por Wéslley Mageski*

Condillac, Hobbes e Locke, compartilhavam das mesmas ideias na medida em que ambos visualizam uma concepção empirista/sensualista na constituição das ideias. Por exemplo: Condillac, foi responsável pela reorganização definitiva da hierarquia das paixões, reconhecendo no prazer o motor primário da máquina humana, além enfrentava o desafio de postular a anterioridade do par prazer/desprazer, reconhecendo-o como dado primário e não como conseqüência do desejo/aversão, vai fundamentar sua tese nas “sensações”. Enquanto Hobbes deslocava o amor para a condição de uma paixão positiva derivada de um desejo bem sucedido por um objeto causador de deleite. O par prazer/desprazer foi considerado por Locke a questão funcional dos pensamentos e ações, levando em consideração de que o desprazer/dor/inquietação ocupa um lugar predominante em relação ao prazer/deleite, enquanto que para Condillac, as faculdades mentais, como imaginação, juízo, são por ele consideradas inatas, porém para ele "a capacidade é inata, mas o conhecimento é adquirido" (Locke, 1978).

No Tratado das sensações, o método de investigação de Condillac aplica-se até certo ponto com o de Locke, atingindo resultados divergentes. Condillac mostra que não há nenhum conteúdo ou faculdade do espírito que não seja constituído a partir de uma sensação, que não tenha sua origem nela. A posição de Condillac é bem divergente de Locke quando ele afirma que todas as nossas faculdades vêm dos sentidos, isto é, das sensações. Faz um crítica pontual as posições de Locke que não reconhecia que todas as faculdades da alma lhe eram apenas qualidades inatas, não suspeitando que elas poderiam ter sua origem na própria sensação (Condillac, 1993).

Com isso Condillac sustenta sua tese de que não apenas os conteúdos do pensamento, mas igualmente suas faculdades e suas formas operatórias, derivam das transformações das sensações percebidas inicialmente de maneira passiva.

Enquanto Locke distinguia duas fontes de nossas ideias, os sentidos e a reflexão, Condillac vai dizer que a reflexão, em seu princípio, não é senão a própria sensação.

A principal oposição de Condillac a obra de Locke encontra-se na gênese sensorial do pensamento e do conhecimento, distinguindo-se radicalmente de

Locke entre o inatismo e a sensação. Condillac associou a sensação às ideias

e

às faculdades, por meio desse princípio, ele conclui que da sensação deduz

o

entendimento.

No Ensaio acerca do entendimento humano (1690), Locke e Hobbes, sustentavam a origem sensorial do conhecimento, definiram como simples as ideias de prazer e dor "misturadas com quase todas as ideias", em função disso seriam "causas de nossas ações", visando promover a fuga da dor.

Ambos fazem critica ao inatismo das ideias e ao dualismo substancial, pois sustentam a origem sensorial do conhecimento e negam a separação entre corpo e alma, que era um legado da influência cartesiana do século XVII, marcando dessa forma o caráter materialista destas filosofias, em especial a de Condillac que enfrentou o desafio de postular a anterioridade do par prazer/desprazer, reconhecendo-o como dado primário e não como conseqüência do desejo/aversão encontrado em Hobbes.

Ao longo da historia da filosofia a questão da sensação foi se completando no pensamento de Hobbes, Locke e Condillac, inclusive, é baseado nas ideias de Locke que Condillac avança em seus escritos. Assim a importância atribuída ao par prazer/desprazer, é essencial nesta discussão, já que o fato de este ser considerado concomitante às demais idéias imprime nelas marcas diferenciadas que possibilitam, pela memória e pela imaginação, evitar experiências e objetos causadores de desprazer, proporcionando de maneira derivada e adicional à conservação do organismo.

Wéslley Mageski Cursista da pós-graduação em filosofia e psicanálise UAB/UFES