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BARBOT 2015 Conduzir Uma Entrevista

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Alexandre Junges
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Serge Paugam (coord.) A pesquisa socioldgica Tradugao de Francisco Moras y EDITORA VOZES Petropolis 6 Conduzir uma entrevista de face a face Janine Barbot ‘A pesquisa por entrevista € um modo de investigacao cujo enunciado en- contra dificuldades especificas. Pelo fato de ter-se largamente expandido em uma diversidade de abordagens sociol6gicas, hoje a entrevista mio parece mais dlistintiva de uma corrente de pesquisa particular. Seus usos se multiplicaram e, em um bom nuimero de pesquisas, a entrevista tornou-se uma referéncia padrao, suposta a prestar contas de modalidades de coleta dos materiais que, de fato, mostram-se muito heterogeneos. E dificil, no quadro limitado de um capitulo, apresentar a diversidade dos usos da entrevista e esclarecer os debates parti- ccularmente vives suscitados”. Trata-se especialmente de propor uma maneira de construir uma postura de pesquisador na entrevista le face a face, tornando s as consideracdes tedricas que sustentam esta postura, € de explorar explic suas consequéncias praticas itacao" da entrevista A postura do pesquisador e a dupla A postura do pesquisador na entrevista de face a face foi frequentemente abordada em referencia a uma dupla “filiaca0”. A da psicologia clinica, prim: ramente, com os principios do client-centered-interwuew, formulados por Carl Rogers, Rompendo com a pratica do interrogatorio elinico que visa a recen- sear junto ao paciente os dados julgados necessérios ao estabelecimento de um 7. Varias obras oferecem sobre este posto recursos importantes, notadamente DEMAZIERES, D. {& DUBAR,C. Analyser les entreien biographiqus, Paris Nathan, 1997, Por out lado, o estado das rages concernindo a obra coletiva ding por Pierre Bourdieu (La misee du monde, Pari: Le Seuil, 1993 [Petropols: Vozes, 9. ed, 2012] dd um apanhado das implicacoesteorieas quammo 0 uso da entrevists, 38, A releéncia a Carl Rogers impos-se apos a publicaeto, na American Journal of Socotogy, de ‘eu argo inttalado "The nondivetive method asa technique for social research, vel. 50,4, 1945, p 270-283 102 diagnéstico, tratava-se doravante, para o terapeuta, de construir as condigdes mais ajustadas a fim de tornar o paciente ativo na exploracao dos problemas dos quais ele era acometido. E construindo um “espelho verbal”, manifestando 4 seu paciente uma atencao positiva e incondicional, provando empatia, que o terapeuta deve permitir-Ihe 0 acesso “a sua propria verdade”. A referencia aos principios da entrevista rogerianos contribu para equipar utilmente a postura do entrevistador. No entanto, ¢ comparando os dois tipos de entrevistas que gs facetas, bem particulares, da entrevista sociologica aparecem. Enquanto a relacio terapeutica € iniciada a pedido do paciente, na pesquisa sociolégica é 6 pesquisador que provoca 0 encontro. Assim provedendo, ele deve preparar vyerdadeiras estrategias de interesse, notadamente para obter © consentimento do entrevistado, O pesquisador deve igualmente construir 0 quadro de um en contro que, como ainda o veremos, nao tem nada de andlogo com o dispositive colocado a0 recor do gabinete médico do terapeuta. Contrariamente ao esque sma da cura, a entrevista sociol6gica se inscreve, alids, em uma gestao do tempo limitado, e o pesquisador devera organizar, o mais frequentemente no espaco de tum nico encontro, a coleta de um material denso. Ele ser4 confrontado com uma tensio maior entre deixar entrevistado explorar & sua guisa o tema que Ihe € proposto e tornar a enquadra-lo, se ele parece afastar-se demasiadamente do tema, Pois a entrevista socioldgica nao persegue uma finalidade terapeutica, mas um objetivo de pesquisa determinado. E para tanto o entrevisiador devera pado de instrumentos espectficos estar eq {A postura do pesquisador tem igualmente sido abordada em referéncia 4 uma segunda filiagao da entrevista: a das grandes pesquisas sociais que, no final do século XIX, se dedicaram, na Europa e nos Estados Unidos, as condicaes de vida dos pobres citadinos. Rompendo com a tradicdo do inter rogatorio social pelo qual 0 observador “visitava” os pobres em companhia de um representante da ordem, a fim de avaliar suas condicoes de higiene ¢ sas priticas educativas, a pesquisa social deslocou-se na diredo das formas de interrogacdo mais abertas. O consentimento dos pesquisados impos-se, la onde a coer¢ao reinava. E concedendo aos pesquisados tum papel mais ativo na definigao do sentido que eles davam as suas praticas, a entrevista surgi ‘como um instrumento mais ajustado que o interrogatorio para obier informa- 8es nao falsificadas. Mas a pesquisa social permaneceu longamente ancorada numa perspectiva bastante descritiva¢ os prineipios da entrevista sociologica foram pouco formalizados, inclusive pela primeira Escola de Chicago que fez deles um uso intensivo”. 39. Esas evolugées foram analsadas notadamemte a obra recente de Daniel fat Lenqute de tenain, Paris: La Découvere, 2003 A postura do pesquisador na perspectiva indutiva Sto 0s promotores da Grounded Theory que, em ruptura com 0 modelo hi- potético-dedutivo, vao formular os principios da perspectiva indutiva na qual se ancora a abordagem da postura clo pesquisador que aqui desenvolveremos*. Contrariamente ao raciocinio hipotético-dedutivo segundo © qual a pesquisa se desenvolve por etapas sucessivas (Formulacao de hipoteses, coleta de infor. rmacdes, validacao), a postura indutiva responde a uma dinamica de idas e vine das, de ajustamentos constantes entre a formulacao das hipoteses de pesquisa, a elaboracto das categorias conceituais, a andlise e a acumulacao progressiva, dos dados oriundos do campo de pesquisa. Para os defensores da postura indu- tiva, € impossivel definir a priori 0 mtimero ¢ as caracteristicas dos pesquisados a selecionar para as entrevistas. O principio a reter € o dla amostragem tedrica. Na escolha das pessoas a entrevistar, 0 pesquisador nao esta em busca de uma representatividade no sentido estatistico; ele busca antes identificare explorar, a medida da acurnulac3o dos dados ¢ do trabalho de anise, as sicuacdes contras- tadas que vao Ihe permitir arquitetar um quadro teérico, Nesta dtica, a pesquisa se desloca a medida que cada nova situacao explorada produz um conjunto de clementos pertinentes a analise. A pesquisa para, a0 ponto de saturagao, quando, (0s dados novos nao parecem mais inflectir 0 quadto te6rico progressivamente elaborado. Seguindo estes desenvolvimentos, doravante 0 pesquisador poder apoiar-se em um conjunto de principios suscetiveis de orientar suas praticas Falta, no entanto, dotar este pesquisador de instramentos que the permitirio abordar concretamente seu campo de pesquisa e conduzit suas entrevistas, Trae ta-se entio de evitar um duplo perige. A postura do pesquisador: evitar um duplo perigo Urge evitar, de um lado, o metodologismo que, frequentemente guiado pela preocupacao de neutralizar as obliquidades ligadas ao contexto de enunciagao © & posicao do pesquisidor®, levar a prescricao de praticas dificilmente com pativeis com este modo de investigacio. Planificar estritamente 0 quadro de lum encontro, montar 0 caderno de encargos dos temas a escolher, focalizarse nna matriz tecnica de cada uma de suas intervencoes revela-se contraproducen te quando o pesquisaclor deve empenhar-se em tornar 0 pesquisado ativo € & 40.05 wabalhos apolando-se em uma postra indutiva se referem o mais frequente fundador” de Anselm Straus e Barney Glaser: The Discovery of Grounded Theory ~ Strategies for Quallative Research. Chicago: Aldine, 196 4, Esta preocupagao com a newtralizacao das obiquidades fo prospeetada, noadamente, por Jean Poupar ("Discourse debatssuitour de la sientfiie des entretients de recherche" Sociolgie Societe, vol. 25, n. 2, 1993, 95-110) e Lote Blondiaux (Linvention des sondages dopinion experiences criques et intereogatons methodologiques (1933-1950) Revue Francaise de Scien Thm 6, 1941, 736-780) Politique, vol explorar progressivamente as perspectivas emergentes. Por outro lado trata-se, ‘em nome da critica 20 metodologismo, de evitar enclausurar o discurso sobre a entrevista em uma perspectiva relacional e experiencial na qual o pesquisador calejado, evocando a irredutibilidade das condigoes do campo e a natureza es pecifica de cada objeto de pesquisa, simplesmente empenha-se em dispensar 205, novicos conselhos bascados em uma pratica sempre considerada singular. As formas de generalizacao se Himitam entao em afirmar a primazia das qualidades humans” do pesquisador nas interagoes do face a face e em acentuar a expe- riencia de campo como o rinico modo de aquisicao de uma habilidade (savoir- faire) toda pessoal. Abordaremos a postura do pesquisador como um conjunto estavel e coerente de instrumentos e de praticas mobilizaveis para cada pesqui- sa: da definicao do quadro da entrevista sua preparacao e ao seu desenrolar Ajustar e negociar: a definigao do quadro da entrevista Apresentar-se ¢ apresentar scu objeto de estusto, conseguir o consentimento do pesquisado ou fixar 0 lugar e © momento do encontro: nos diferentes esta gios da pesquisa por entrevista, a linguagem do ajustamento e a linguagem da rnegociaco progressivamente s¢ impuseram na qualificagdo da postura do pes {quisador, Examinemos algumas destas operacoes, Apresentar sua postura ¢ tornar seu objeto de estude apresentavel ‘A maneira de apresentar-se depende das modalidades de contato com os pesquisados. Estas podem ser muito diversas. Podlemos distinguir os contatos feitos, notadamente, quando 0 pesquisador e © pesquisado compartilham um determinado grau de proximidade, Esta proximidade ¢ vinculada, por exemplo, a0 fato de eles se encontrarem em lugares que constituem, para o pesquisador, locais de observacies etnograficas. Neste quadro, a entrevista se inscreve em ‘uma dinamica particular, em continuidace de uma copresenga"’. Abordaremos aqui a situagio na qual 0 contato € feito, ao contratio, com um grau de distancia importante entre pesquisador e pesquisado: quando, por exemplo, o pesquisa- dor tenta marear um encontro, por telefone, com uma pessoa da qual ele € até entio totalmente deseonhecido e sem poder prevalecer-se de qualquer vinculo. Alguns manuais tentaram montar © cademno dos encargos que pesquisador deveria ento preencher para fornever a0 pesquisado todas as informacbes re- queridas a fim de obter seu acordo para um encontto: ‘Bom dia! Eu me chamo,.. Sou estudante de. Trabalho sobre... Gosta- tia de falacthe de... Obviamente, a entrevista sera confidencial.. Seu nome nao seri... entrevista deve durar em torno de... Ela sera grava da, mas voe# pode... Voc’ aceitaria.? 42. Reenviamos aqu a obra de Stephane Beaud e Florence Weber: Guide de Fengute de terrain Pus: La Decouvere, 2005 10s Podemos ficar impressionados com o grande formalismo desta apresentas ‘40, Como se # ausencia de interconhecimento previo levasse (ow reduzisse) 6 pesquisador a usar um procedimento padronizado para fazer contato com 0 pesquisaclo, Se, desde as primeiras palavras, 0 pesquisado consegue entrever ‘0 motivo de um convite, todos os elementos de um caderno de encargos nao precisam ser apresentados de cara. O acordo do pesquisado sobre o prinetpio da entrevista nao supde uma adesto imediata a todas as modalidades da pesquisa, € zgeralmente sera mais facil introduzir a eventualidade de uma gravagao somente 4 partir do momento em que o acordo for consentido ¢ a relagio da pesquisa for bem-compreendida, Assim, desde 0 contato feito, o pesquisador devera tentar ‘engajar tum intercambio com o pesquisado. Para tanto, ele pode antecipar as {questdes que necessariamente vém a mente do pesquisado, notadamente: 0 “Por que eu?” O pesquisedor pode tentar personalizar a expectativa do entrevistado, as vezes sob a base de fracos indicios: "Eu o estou contatando porque encontrei stias coordenadas no site/internet da associacao de fulano. ~ Vocé esti engajado na... Eu sou sociélogo e gostaria de falar com voc® sobre...” No entanto, todas as razoes de contatar o pesquisado nao seriam igualmente apresentaveis, da mesma forma que a apresentagao de todo objeto de estudo nao transcorreria necessaria- ‘mente de forma evidente. Far-se-ia necessirio ajusti-las. Assim, em minha pes- quisa sobre o impacto dos processos sobre as pritieas dos profissionais da sade, a fim de nao induzir um discurso reativo (de nao construir eu mesma 0 objeto {que pretendia estudar), optei por fazer contato com médicos, falando de um estudo sobre as transformagées das condigies de trabalho em sua profissio”, Fazer frente as “propostas de recusa” de entrevista Desde o momento em que um pesquisado ¢ identificado dentre as “pessoas ‘a contatar”,o pesquisador deve empenhar-se a fim de obter seu consentimento, Nio conseguindo, cle podera tentar esclarecer as razdes ow as circunstancias de sua recusa, engajando o intercambio, De fato, 0s individuos nao sto inter- cambiaveis e as recusas de entrevista podem recobrir situagdes particulares a propdsito do objeto da pesquisa". Mas ¢ importante, desde o inicio, que 0 pes- 4. Esta escolha apoiava-se igualmente em ua anise critica dos métodes empregads em um ‘bom nomero de trabalhos que forjaram o conceito de *medicina defersiva™ para prestarcontas das reacdes dos medicos diame dos process Judiciais nos Estados Unidos. Cl. BARBOTT, J. [6 FILLION, F La ‘medicine defensive" entque d'un concept & success. Sciences Sociales e Sant, vol. 24, n. 2, 2006, p. 7-33. + BARBOT, J. “Soigner en situation de risque judiciate ~ Responsable médicale et ves de transfusion”: Revue Francaise de Science Paique, vol. 8, 6 2008, p. 985-1 014 44. Poderiamos reenviar a0 trabalho de Gerard Mauger que, apolando-se em sua pesquise jinto aos jovens das eidades, analsou as recusas de entrevista interpretadis por ele como ums ‘maneica dos ovens mats necesitados de fugir de uma stuagao de quaseexame que, a seus olhos, Consitula entrevista CEnqueter en millien poplar” Geneses, . 6, 1991, p. 125-143). Em outra {quisador nao considere muito precipitadamente encontrar-se diante de uma re- ‘usa, da parte do pesquisado. Embora existam sinais que nao enganam (quando alguem desliga o telefone na cara, ou poe pesquisador porta afora), © mais frequentemente os pesquisados mais sinalizam propostas de recusa que recusas categéricas. Quando o tom permanece cordial, diante de um “ew nao acredito fer Ihe aportar alguma coisa”, “tudo isso nao serve pra nada”, “O que me sgerescenta sua pesquisa?” o pesquisador nunca deve abandlonar este intercam- ee. se uma propos de recs se cnfimar « 0 pesqusador nd conseguir exercer um papel ativo nesta confirmacao? Vale lembrar que, em sua proposta ie de recusa, 0 pesquisado frequentemente fornece elementos de informagoes que peritem ao pesquisador ganhar um novo impulso. Assim ocorre, por exem- | plo, nos enunciaclos frequentes através dos quais as pessoas evidenciam nao ter competéncia para falar de...", que é melhor “dirigit-se a..” (tal sindicato, tal ~associagao, tal perito). Estes enunciados podem ser facilmente contrariados. O pesquisador deve tentar entao convencer 0 pesquisado: “O que me interessa realmente ¢ saber como os médicos vivem cotidianamente em um hospital”, "€ a vida cotidiana das pessoas no hospital que me interessa..." etc. O pesquisador faz assim compreender que ele nao situa as “competéncias” em uma escala so- cial, ou em uma alternativa entre os que sabem e os que nao sabem, mas que 0 pesquisado dispoe, para dize-lo naturalmente, do tipo de competéncias requeri- das pela pesquisa. Se nem sempre ele conseguee convencer o pesquisado a acei- tar a entrevista, o pesquisador sempre acaba dispondo de matéria para melhor compreender a recusa do pesquisado. Por isso ele nao deve sentir-se petrificado 4 priori diamte da inconveniencia de dever insistir: a entrevista sociologica & ‘uma forma de investigacao inabitual, € € no intercambio com o pesquisado que ‘ pesquisador podera precisar melhor sua natureza, Alids, a propostas de recu- sa sao de ordem muito diversa, eas maneiras de insistir igualmente, Assim, em outros casos, diante de um pesquisado reticente e que nao “dispde de tempo", € frequentemente insistindo que o pesquisador testard certas qualidades que acabam tornando-se decisivas aos olhos do pesquisado (convicgio, tenacidade, ‘engajamento), Entio, insistir ou nao insistir? A nao insisténcia nao deve mas- carar, a pretexto de respeito, a condescendéncia social ou a falta de habilidade do pesquisador. A insisténcia igualmente nunca deve servirse, a pretexto de jacdo, da moralizagao do pesquisado ou das estratégias de imtimidacao expli Negociar 0 quadra do encontro Uma vez a entrevista aceita, o pesquisador, outorgando, por principio, 20 pesquisado, a liberdade de fixar 0 quadro do encontro, o orienta de modo fle perspectiva, Muriel Darmon estabeleceu um vinculo entze a recusa de entrevista cle um psiquiatra {a maneira com a qual o segmento da psiquiattia, epresentado pelo pesquisado,aborda o lugar da sociologia no discurso sobre a deenga mental ("Le psychiatre, le socologue et la boulangée: analyse dum refs de terrain”. Geneses,n_ 38, 2005, p. 98112). aivel na ditecdo das opgdes que lhe parecem mais adapradas. Desde o primeitg contato, o pesquisador evitara, com efeito, formular prescricdes sobre o lugar, a hora e a duragao da entrevista. Entretanto, ele deve empenhar-se a fim de demonstrar ao pesquisado uma certa disponibilidade e para torna-lo ativo na ‘organizacao do encontro; ele manifestara suas preferencias no ajustamento das datas € dos locals do encontro. E este sentido que damos ao verbo negociar. 0 quadro da entrevista e mais particularmente o lugar e 0 momento do encontro influenciam efetivamente na relagdo que vai se estabelecer entre o pesquisador¢ © pesquisado e, portanto, na natureza dos materia recolhidos. Estes elementos foram objeto de intimeras investigacdes, notadamente no dominio da psicologia experimental, Um estuco de Blanchet, frequentemente citado, abordou o efeito do lugar do encontro sobre a producao discursiva da crianca". Nesse estudo, criangas sorteadas a0 acaso foram divididas em tres grupos e entrevistadas, se- gundo um protocolo estrito, em trés espacos escolares diferentes: na sala de aula, no gabinete médico e no patio de recteagdo, O mesmo pesquisador Ihes tinha pedido que falassem de sua relacio com a escola, empregando rigorosamente as ‘mesmas instrugdes formais e os mesmos estimulos. Os resultados mostraram di- ferencas importantes tanto na quantidade das falas recolhidas quanto nos temas abordados e na estrutura dos discursos. Foi igualmente feita a demonstracao do impacto do momento da entrevista sobre as conversas recolhidas. Para a soci: logia € imutil trabalhar na obsessio das obliquidades, uma situacao de pesquisa no persegue 0 mesmo objetivo que um protocolo experimental visando a ava- liar 0 impacto de um fator pela tentativa de neutralizacao dos que participam, na definigdo da situacio. No entanto, o pesquisadlor néo pode fazer economia de uma reflexao, a partir de seu objeto de estudo singular, sobre o conjunto de coergoes que pesam sobre o ato de assumir a palavra do pesquisado ou favore- ccem a enunciacao e sobre as condigdes materiais e morais do encontro”. Negociar o local da entrevista: como tornar-se “convidadlo” Uma vez delimitas suas preferencias, como o entrevistador poderia negociar © quadro do encontro? Inumeros sao os entrevistadores iniciantes que realizar centrevistas em cafés indicados pelos entrevistados, por nao terem sabido nego ciar outros locas. Fazendo das tripas coragao, eles veem no cafe um lugar ins taurando em si uma familiaidade propicia ao desbloqueio das falas, Esta expee- tativa se revelafrequentemente decepcionante: o lugar mostra-se barulhento, as 49. Pesquisa ctada na obra de referencia de Alain Blanchet © Anne Gotman: Henguéte e es rmethodes:Fentretien, Paris: Nathan, 1992, p. 63-64 ("Collection 128"] 46. Michael Pollak analisa assim o que o levou a enteevstar pessoas, fugkls dos campos de

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