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lon 46 soBre mivopoLocia gue néo entra em choque com quaisquer dos fatos que temos & nossa disposigao. concnusko Nao tentei compilar uma lista completa de problemas motodo- Tégicos ignorados. Poderfamos tentar realizar ieso através de wma andlise légica das fases onvolvidas na pesquisa socioligica, wma anilise que seria, contudo, baseada nas fases que os sovidlogos na realidade atravessam, na modida em que possam ser derivades da exporiéncia de pesquisadores na prética.% Poderiamos simul, taneamente abordar aquelas dificaldades vivenciadas pelos pes. quisadores como problemas préticos, tentando encontrar seu ea. ter genérico © seu lugar om algum esquoma légico. Procisamos, de qualquer modo, continuar a acreseentar a este inventério de problemas, nan vais jgnorando aqueles ye nto oder ser convenientemente enfrentados do manciras conver. cionalmente “rigorasas”. Nao resolvemos ou nos livrammos de wm problema ignorando-o; fazendo-o, apenas deixamos que seus efei. tos operem sem sorem observados e criem dificuldadas desconhe. cldas para o nosso empreendimento cientffica comum, Se ferme frente 0s nossos problemas de métado e de técnica eom uma combinagdo de andlise logicamente rigorosa e de compreensie socioldgiea da pesquisa como um ompreendimento coletiva, talver bossamos finalmonte eriar uma ciéneia vidvel, 3° Vor Blumer, op. oie Howat $. BEckep 1942 Wetedo: da Parque ane Liemu & Sows ROU Cus See Peurslo » Wucitec. NER CAPITULO 2 Problemas de Inferéncia e Prova na Observacao Participantes O cbservador particinante colata dados ateavés de sua Partieipagdo na vida cotidiena do grupa ou erganizapde que ect tada.' Ele observa as pessoas que esté estudando para ver as sittiagoes com que se deparam normalmente ¢ coino se comportam diante delas. Entabula, conversacae com alguns ou com todos 08 Participantes desta situagdo e descobre as interpretapdes que eles ‘8m sobre os acontecimentos que obsorvou, Permitam-me deserever, como um exemplo espectica do tés- nica de observagao, o que meus eolegas e en fizemos ao estudar uma Escola de Medicina. Assistimes seminarios com estudantes: que cursavam seus primeiros dois anos de ciéncia bésica e fre- aentamos os laboratérios nos quais passavam a maior parto de seu tempo, estimularido-os e inieiando conversagées casuais en- * Relmpresso grapas a permisstio da Amerisan Sociological Review, 23 (aszembro de 1958), 652-60. Copyright © 1958 American Socialogiea! Re, * Bete ensaio nasceut de minha experigneia na pesquisa reportada em How- ard 8, Becker, Blanche Guor, Evaratt C, Hughes © Anselm L. Stravse, Boos in White: Student Cultare in Medical School (Ohicaga: University of Chicago Press, 1961), labore o enfoque bétio em parceria com Blanche Gear Depaie © xplieamas an eserevermos nosso estado sabre educagte medica ena equine reportada em Becker, Geer ¢ Hughes, Making the Grade: The Academie Sie of College Life (Nova York: John Wiley and Sons, 1968). Nossa propria exe eritnela so doa, em grande parte, com o papel que Gold denemina de “per. Hicfpante como obsorvador", mas os métodas diseatides aqui deveim ser Fale, ventes para outras situagées de campo. Cf. Raymond L.. Gold, “eles In So. iological Field Observations,” Soolal Forces 36 (mange de 1988), 217-23, 48 PROBLEMAS DE INFERENCIA & PROVA quanto dissecavam cadiveres ou examinavam casos em patologia, Acompanhévamos estes estudantes em suas residéncias univer. sitérias e estdvamos com eles quando discutiam stias exporiéneias na universidade. Acompanhamos estudantes em sous anos de eli. nica em plantdes com médicos que os assistiam, observando-os quando examinavam pacientes em onfermarias ¢ nas elinicas quando participavam de grupos de estudo ou prestavam exames orais. Comemos e dormimos segundo sua rotina, Andamos no en cago de internos o residentes em seus apertados horarios de aula ou de atendimento elinico, Permanecemos om comparhia de um Pequen grupo de estudantes em cada servigo por perfodes que jam de uma semana a dois meses, despendendo com oles muitas Jornadas de tempo integral. Nas situagées de observagéo, havia tempo para conversas, e nds aproveitamos isso para entrevistar estudantes sobre coisas que tinham acontecido 6 que estavam em vias de acontecer, e também sobre suas préprias experiéneias an- teriores e suas aspiragdes, Normalmente, os socidlogos usam este método quando estao especialmente interessados em compreender uma organizagio es. Pecifica ou um problema substantivo, em vez de demonstrar re- lagoes entro variaveis abstratamente definidas. Elos go esforgam para dar um sentido teérico a suas pesquisas, mas presumem gue a priori néo couhecem o bastante sobre a organizagio para identificar problemas e hipstosos relevantes, © que precisam des- cobri-los no decorrer de sua pesquisa. Embora a observagao par. ticipante possa ser utilizada para testar hipéteses a priori e, por conseguinte, ndo precise ser tdéo pouco estruturada quanto no exemple que dei acima, nao é isto que em geral ocorre. Minha discussdo se refere ao tipo de estudo de observarao participante que busca tanto descobrir hipsteses quanto testé-las. A pesquisa baseada em observagdo produz um montante imen- 80 de descrigées detalhadas; nossos arquivos contém aproxima- damente cinco mil paginas em espago um deste tipo de material, Em face desta quantidade de dados “ricos” e variados, 0 pesqui- sador enfrenta o problema de como analisé-los sistematicamente ©, entio, apresentar suas conclusdes de modo tal que convenga outros cientistas de sua validade. A observagio participante (na verdade, a andlise qualitativa de modo geral) no se saiu bom com este problema e, geralmente, as evidéncias completas para NA OBSERVAGAO PARTICIPANTE 49 4s conclusies € os processos através dos quais elas foram alean- gadas nao sao apresentados, de modo que os leitores se véem em dificuldades para fazer sua prépria avaliagéo sobre elas e tem ‘que confiar em sua fé no pesquisador. A seguir, tento deseortinar e deserever as operacdes analiticas bdsicas realizadas na observagio participante, por trés razbes: tornar estas operagses mais claras para aqueles que no estéo familiarizados com 0 método; ao tentar uma deserigéo mais ex- plicita e sistemstica, ajudar aquelos que trabalham com 0 método @ organizar suas préprias pesquisas; e, 0 que é mais importante, Propor algumas mudangas nos procedimentos analiticas e, pa cularmente, no relato dos resultados, mudangas as quais tornarao mais acessiveis ao leitor os processes através dos quais as con. clusdes sao aleangadas ¢ fundamentadas. A primeira coisa que observamos nas pesquisas baseadas em observasio participante 6 que a andlise 6 eonduzida seqiien- cialmente,? partes importantes dela sendo realizadas enquan- to 0 pesquisador esta coletando seus dados. Isto tem duas con- soqiiéneias ébvias: a coleta ulterior de dados toma sua direpao a partir de andlises condieionais; ¢ 0 montante e o tipo de andlise condicional realizado sao limitados pelas exigéncias da situagio do trabalho de campo, de modo que a andlise abrangente final pode nao ser possivel até que o trabalho de campo esteja termi- nado. Podemos distinguir trés estagios distintos de andlise conduzi- dos no préprio campo, ¢ um quarto estaigio, conduzido depois do término do trabalho de campo. Estes estagios séo diferenciados, primeiro, por sua seqtiéncia légica: cada um dos estdgios suces. sivos depende de alguma andliso do estagio precedente. Eles sio diferenciados, além disso, pelo fato de que conclusdes do tipos diferentes so alcangadas em cada estdgio, e de que estas con- clusdes sao destinadas a usos diferentes na continuagdo da pos- auisa. Finalmente, eles sio diferenciados pelos diferentes crité- 2 A cate respeito, os métodos analitcos que diseuto tem uma semelhanga familiar com a técnica de indugdo analitiea, Cf, Alfred Lindesmith, Opiate Addiction (Bloomington: Principia Press, 1947), especialmente pp. §-20, ¢ 8 literatura subseqdente citada in Ralph H. Turner, “The Quest for Univereale in Sociological Rosearch", American Sociological Review 18 (dezenibro de 1958) 604-11. 50 PROBLEMAS DE INFERBNCIA E PROVA ios que sto utilizades para avaliar as evidéncias e para chegar a conelusdes em cada estagio. Os trés estagios da andllise de campo sf: a seleg 1o.de problemas, conceites e {ndices; 0 con trole sobre a freqiléncia ¢ a distribuigad de f Poragdo de descobortas individuais n em estudo.* O quarto estgio de andlise final de apresentagio de evidéncias e provas SEL ‘GAO E DEFINIGAO DE PROBLEMAS, CONCELTOS INDICES Neste estdgio, o observador procura por problemas e conceitos aue oferegam a perspectiva de produzir a maior compreensdo da organizacdo que ele esta estudando, e por itens que possam servi como indicadores titeis de fatos que sejam mais dificeis de obsor- var. A conclusio tipiea que seus dados produzem é, simplesmente, a de que um corto fendmeno existe, que um determinado acon. tecimento ocorreu em dada ocasiio, ou de que dois fendmenos foram observados para serem relacionados em uma instdncia; a conclusio nada diz sobre a freqiiéncia ou distribu observado. Ao colocar uma observagao tal no contexto de uma teoria so- ciolégica, 0 observador seleciona conceitas e define problemas Para maior investigasao, Ble constroi um modelo tedrico para dar conta deste caso especifico, com a intengdo de refind-lo A luz de descobertas subsegiientes. Por exemplo, ele poderia deparar-se com o seguinte: “O estudante de medicina X se referiu hoje a um. de sous pacientes como “pitidtico”.+ O observador pode entdo re- lacionar esta descoberta com uma teoria sociolégica quo sugira gue os ocupantes de uma categoria social numa instituigao dada classificam membros de outras categorias através de critérios de- rivados do tipo de problema quo esta outra categoria coloca no relacionamento. Esta combinagao de fato observado ¢ tooria o con- 8 Minha discussao sobre estes ostagios 6 abstrata ¢ simplifieada, © nao tenta lidar com os problemas prétieos e técnicos do estudo baseado om ob. servagio participante. O leitor deve ter em mente que a pratien da peaguica envolverd todas estas operasdes simultaneamente, com referéncia a proble. mas especticos diferentes. 40s exemplos que nosso absorvador hipotético utiliza foram retirados de Boys in White NA OBSERVAGAO PARTICIPANTE 51 duz a procurar por problemas na interagao estudante-paciente, indicados pelo termo “pitiatieo”. Ao descobrir especificamente o que 0s estudantes tem em mente ao empregar o termo, através do questionamento ¢ da obsorvasao continua, ele pode desenvol- vor hipdteses especificas sobre a natureza destes problemas in- teracionais Conelusdes sobre um acontecimento tinico também conduzem © observador a decidir sobre itens especificos que possam ser uti- lizados como indicadores® de fendmenos menos facilmente obser- vados. Um dado item é, pelo menos numa instancia, relacionado estreitamente a algo menos facilmente observivel; assim, 0 pes- quisador descobre possfveis atalhos que facilmente o quallifieam para observar varisveis abstratamente definidas. Por exemplo, ele pode decidir investigar a hipdtese de que os ealanrax do Mo. dicina sentem que tem mais trabalho do que seria possivel rea- lizar no prazo que thes é concedido, Um estudante, ao discutir este problema, diz enfrentar tanto trabalho que, em contraste com seus dias de estudante de graduagio, é forcado a estudar muitas horas durante os fins de semana e, mesmo assim, nao acha que 6 suficiente, O observador decide, com base neste exem- plo, que poderia utilizar as queixas sobre o trabalho de fim de Semana como um indicador das perspectivas do estudante sobre © montante de trabalho que tem a realizar. A selegio de indica- dores para varidveis mais abstratas ocorrem de duas maneiras: © observador pode, inicialmente, adquirir eonsciéneia de algum fendmeno muito especifico e, depois, perceber que ele pode ser utilizado como indieador de alguma classe mais ampla de fend- menos; ou ele pode ter em mente o problema mais amplo, ¢ buscar indicadores especificos para utilizar em seu estudo, 50 problema de indicadores 6 discntido por Paul F, Lazarsfeld ¢ Allen Barton, “Qualitative Measurement in the Social Seiences: Classification, Ty- pologies, and Indices", in Daniel Lerner o Harold D, Lasswell, organizadores, The Policy Sciences: Recent Developmente in Scope and Method (Stanford Stanford University Pross, 1961), 165-02; "Some Functions of Qualitative Analyets in Sociological Research”, Soeiologica 1 (1958), 324-61 (este impor- tante ensaio se equipara, em muitos aspecios, & diseussio atual; 0 Patricia L. Kendall © Paul F. Lazarsfeld, “Problems of Survey Analysis’, in RK. Morton ¢ P. K. Lazarsfeld, organizadores, Continuitics in Social Research Glencoe: Free Press, 1950), 183-196, 52 PROBLEMAS DE INFERENCIA PROVA Esteja ele definindo problemas ou selecionando conceitos e in- dicadores, 0 pesquisador esti, neste estagio, utilizando seus dados somente para especular sobre possibilidades. Operagées postorio. res nos estdgios seguintes podem forg-lo a abandonar a maioria de suas hipéteses provisérias, Todavia, problemas de evidéncia se colocam mesmo neste ponto, pois o pesquisador precisa avaliar 6s itens individuais nos quais suas especulagées estdo baseadas, de modo a nao desperdigar tempo seguindo pistas falsas, Neces. sitaremos, finalmente, de uma definigio sistematiea de leis para ser aplicada aos itens individuais de evidéncia. Mas, na falta de tal definigao, consideremos alguns testes comumente emproga- dos. (Tipicamente, o observador aplica estes testes A medida gue parecem razodveis durante este estdgio no campo e o sub- sequiente, No estagio final, eles so utilizados, de forma mais sistematica, na avaliagao globul das evidéncias para uma dada conelusao,) A credibilidade de informantes Muitas evidéncias consistem em declaragées feitas por mem- bros do grupo em estudo sobre algum acontecimento que tenha ccorride ou esteja em processo. Assim, estudantes de Medicina fazem declaragées sobre o comportamento do corpo docente que formam parte da base para conclusées sobre as relagées corpo docente/aluno. Elas nao podem ser levadas em conta por seu valor literal; nem tampouco podem ser descartadas como desprovidas de valor. Em primeiro lugar, o observador pode utilizar a decla- ragao como evidéncia sobre o acontecimento, se tiver 0 cuidado de avali-la através dos critérios que um historiador utiliza ao examinar um documento pessoal.’ Teria o informante razdes para TMentir ou esconder uma parte do que considera como sendo a verdade? Vaidade ou conveniéneia 0 levariam a distoreer infor- ‘mages sobre seu préprio papel num acontecimento ou em relagio a ele? Teve ele realmente a oportunidade de testemunhar a ocor- réncia que descreve, ou 6 a boataria a origem de seu conheci. © GF, Louis Gottschalk, Clyde Kluckhohin e Robert Angel, The Use of Pere sonal Documents in History, Anthropology, and Sociclogy (Nova York: Social Science Resoarch Council, 1945) 15-7, 38-47. NA ORSERVAGAO PARTICIPANTE 53 mento? Sous sentimentos sobre as questées ou pessoas em dis- cussio o levam a alterar sua histéria de alguma maneira? Em segundo lugar, mesmo quando uma declaragao assim exa- minada se mostra seriamonte defeituosa como relato minucioso de um acontecimento, ainda pode fornecer evidéncias titeis para um outro tipo de conclusao. Ao accitar a proposi¢ao sociolégica de que as declaragdes © descrigies que um individuo faz sobro um acontecimento sao produzidas a partir de uma perspectiva a qual 6 fungao de sua posigdo no grupo, o observador pode inter: pretar tais declaragses © descrigdes como indicages da perspec- tiva do individuo sobre 0 ponto em questio. Declaragées dirigidas ou espontineas Muitos itens de evidéncia consistem em observagdes feitas pe- los informantes aos observadores sobre eles mesmos ou sobro ou- tros, ou ainda sobre algo que Ihes tenha acontecido; estas decla- rages vao desde aquelas que sfio parte da evolugdo normal do ‘uma conversa casual do grupo até aquelas que surgem num longo € intimo téte-d-1éte* entre o observador ¢ o informante. O pesqui- sador avalia o valor de evidéncia de tais declarages de maneira muito diferenciada, dependendo do fato de terem sido feitas in- dependentemente do observador (espontaneamente) ou terem sido dirigidas por uma pergunta sua. Um calouro de Medicina pode comentar com 0 observador ou com um outro estudante quo tem mais material para estudar do que tempo disponivel para faz8-lo; ou 0 observador pode perguntar, “Vocé acha que te deram mais trabalho do que voed pode agiientar?, ¢ receber uma res- posta afirmativa. Isto levanta uma importante questao: até que ponto a decla- racdo do informante seria a mestna na auséneia do observador, seja ela feita espontaneamente ou em resposta a uma pergunta? A declaragdo espontanea parece menos propensa a refletir as preocupagdes do observador e possiveis biases do que uma decla Fagao feita em resposta a alguma agao do observador, pois a pré- pria questao do observador pode levar o informante a dar uma Fesposta que poderia nunca Ihe ocorrer de outra maneira. Assim, * Em franeds no original (nota dos tradutores), 54 PROBLEMAS DE INFERRNCIA & PROVA no exemplo acima, ficamos mais seguros de que os estudantes estdo preocupados com 0 montante de trabalho que lhes foi con- ferido quando eles o mencionam por iniciativa prépria, © menos quando sentimos que a idéia pode ter sido estimulada pela per- gunta do observador. A equagiio grupo-informante-observador ‘Tomemos dois extremos para estabelecer o problema. Uma pes- soa pode dizer ou fazer alguma coisa quando esta sozinha com 0 observador ou quando outros membros do grupo também estio Presentes. O valor de evidéncia de uma observago doste com: portamento depende do julgamento do observador para determi- Rar se 0 comportamento pode igualmente ocorrer om ambas as situagées. Por ui lado, um informante pode, enquanto esta so. zinho com o observador, dizer ou fazer coisas que reflitam com exatidao sua perspectiva, mas que seriam inibidas pela presenya do grupo. Por outro lado, a presenga de outros pode estimular comportamentos que revelam mais exatamente a perspectiva da essoa, mas que nao seriam verificados exclusivamente na pre- senga do observador. Assim, estudantes de Medicina, em seas anos de internato elinico podem expressar sentimentos profun- damente “idealistas” sobre a Medicina quando a sés com o ob- servador, mas se comportam e falam de modo muito “cinico” quan do cercados por seus companheiros estudantes. Uma alternativa a0 julgamento de uma destas situagdes como mais confidvel do que a outra é ver cada dado como vélido em si mesmo, mas uti- lizé-los de forma relativizada quanto a diferentes conclusées, No exemplo acima, podemos coneluir que os estudantes tém senti mentos “idealistas”, mas que as normas do grupo podem nao san- cionar sua expressio.’ Na avaliagao do valor de itens do evidéncias, também devemos levar em consideragao 0 papel do observador no grupo, pois a maneira como 08 sujeitos de seu estudo definem este papel afeta © que diréo para ele e 0 que o deixarao ver. Se 0 observador realiza sua pesquisa inedgnito, participando como um membro plenamente integrado ao grupo, ele privard de conhecimentos que ‘Ver este volume, pp. 79-83. NA OBSERVAGAO PARTICIPANTE 55. normalmente sto compartilhados por estes membros e que devem ser escondidos de alguém de fora do grupo*, Ele poderia, perti- nentemente, interpretar sua prdpria experiéncia como a de um membro hipotético “tipieo” do grupo. Por outro lado, se sabem que 6 um pesquisador, ele precisa descobrir como os membros do grupo 0 definem e, especificamente, so acreditam ou no que cer- tos tipos de informagao e acontecimentos deveriam ser mantidos em segredo em relagdo a ele, Ele pode intorpretar ovidéncias mais exatamente quando as respostas a estas questées sao conhecidas, CONTROLE DA FREQUENCIA E DA DISTRIBUIGAO DE FENOMENOS © observador, de posse de muitos problomas, conceitos ¢ in cadores provisérios, deseja agora saber quais doles vale a pena perseguir como focos principais de sou ostude, Em parte, cle 0 faz descobrindo se os acontecimentos que incitaram seu desen- volvimento sao tipicos e dissominados, e observando como estes acontecimentos esto distribusdos entre as eategorias de pessoas e subunidades organizacionais. Chega assim a conclusdes que sio essencialmente quantitativas, utilizando-as para deserever a or- ganizagdo que estuda. Observagées participantes tém sido ocasionalmente coletadas numa forma padronizada capaz de ser transformada em dados estatistiens legitimos.* Porém, as exigéncias do campo geralmente impedem a coleta de dados num formato que se adéqie as pre- missas dos testes estatisticos, de tal modo que o observador lida com 0 que tem sido chamado de “quase-estatistiea”®. Suas con- clusées, ainda que implicitamente numéricas, no requerem quantificasao precisa, Por exemplo, ole pode coneluir que os mem- bros das associagves de calouros de Medicina tipicamente se sen- tam juntos durante palestras, ao passo que outros estudantes se sentam em grupos menores menos estaveis. Suas observasies po- dem indiear uma disparidade tao disseminada entre os dois gru- os neste aspecto, que a inferéneia fica garantida sem uma ope- * Outsicter, em inglés (oota da revisors), 8 Ver Peter M. Blau, “Co-operation and Compatition in a Bureaucracy”, American Journal of Sociology 59 (malo de 1964), 630-5. 8 Vor a diseussdo sobre quase-estatistica em Lazarsfeld © Barton, “Some Punetions of Qualitative Analysis..", op. cit, 346-8, 56 PROBLEMAS De INFERENCIA & PROVA tasdo de contagem padronizada. Ocasionalmente, a situagio de campo pode Ihe permitir fazer observagies semelhantes ou per- guntas semelhantes a muitas pessoas, buseando sistematicamen. te um fandamento quase-estatistico para uma conclusio sobre freqiténcia ou distribuigao, Ao avaliar a evidéneia para uma tal conclusio, 0 observador segue o exemplo de seus colegas estatfsticos. Ao invés de ang. mentar que uma conclusdo ou ¢ totalmente verdadeira ou total- mente falsa, ele decide, se possivel, qual a probabilidade de que sua conclusdo sobre a freqiléncia e distribuigéio de um fendmeno qualquer seja uma quase-estatistica precisa, exatamente da mes ridveis de um coeficiente de correlagao ou de um valor de signi ficdneia, que sua conelusdo tem mais ou menos possibilidade de Ser exata. O tipo de ovidéncia pode variar consideravelmente, ¢ © grau de confianga do observador na conclusao variaré de ma. neira concorde. Ao chegar a esta avaliagio, ele langa mio de al. guns dos critérios deseritos acima, assim como daqueles eritérios oriundos adotados das técnicas quantitativas, Suponha, por exemplo, que o observador conclua que 0s estu- dantes de Medicina compartilhem a perspectiva de que sua escola doveria thes fornecer a experiéncia clinica e as praticas técnicas necessdrias para um clinico geral. Sua confiana na conelusao variaria segundo a natureza da evidéncia, a qual poderia assumir cada uma das seguintes formas: (1) Todos 08 membros do grupo disseram, em resposta a wma pergunta direta, que esta era me. neira como viam a questao. (2) Todos os membros do grupo ex. pressaram espontaneamente para um observador que era assim que encaravam a, questao, (3) Uma dada parcela dos membros do grupo ou respondeu uma pergunta direta ou forneceu espon- faneamente a informagao de que compartilhava esta perspectiva, mas néo foi perguntado a nenhum dos outros ou nonhum deles exprimiu espontaneamente alguma informagao sobre este assur to. (4) Todos os membros do grupo foram interrogados ou forne. ceram informasées espontaneamente, mas uma dada parcela dis. se que encarava a questdo a partir da perspectiva diforenciada de uma possivel especializagdo, (5) Perguntas nao foram feitas a ninguém e nem informagdes espontaneas foram fornecidas, porém observou-se que todos os membros adotaram comportamentos ou NA OBSERVAGAO PARTICIPANTE 57 fizeram outras declaragses a partir dos quais 0 analista inferiu que a perspoctiva do clinico geral era utilizada por eles como uma premissa bésiea, embora nao declarada. Por exemplo, todos os estudantes podem ter sido observados queixando-se de quo 0 Hospital Universitario recebou um numero demasiado elevado de doengas raras, que os generalistas raramente encontram. (6) Observou-se que uma dada pareela do grapo utilizava a perspec- tiva do clinico geral como uma premissa bisica em suas ativida- des, mas n&o se observou o restante do grupo envolvendo-se em tais atividades. (7) Observou-se que dada parcela do grupo se on- volvia em atividades que implicavam a perspectiva do generalista, enquanto 0 restante estava envolvido em atividades que implica. vam a perspectiva de uma possivel especializagao. © pesquisador também leva em consideragio a possibilidade de que suas observagdes the fornepam evidéncia de diferontos ti- os sobre o ponto em questo, Do mesmo modo que fica mais convencido se tiver muitas evidéncias do que se tiver poucas, ele ficard mais convencido sobre a validade de uma conclusio se tiver ‘muitos tipos de evidéncia.! Por exemplo, ele pode estar especial- ‘mente persuadido de que uma determinada norma existe e afeta © comportamento do grupo se a norma for nao somente descrita pelos membros do grupo, mas também se puder observar acon- tecimentos nos quais a norma pode ser “Vista” em operapao — se, por exemplo, os estudantes The dizem que esto pensando em se tornar generalistas ¢ so observa, também, suas queixas sobre a falta de casos de doengas comuns no Hospital Universitario. © potencial de gerar conclusées que advém da convergéncia de muitos tipos de evidencia reflete o fato de que variedades se- paradas de evidéneia podem ser reconceituadas como deduges feitas a partir de uma proposigao bisica, que, agora, foram veri- ficadas no eampo. No caso acima, o observador pode ter deduzido o desejo de ter experiéneia com easos do tipo dos que sao tratados or generalistas a partir do desejo de praticar este estilo de Mo- dicina. Ainda que a dedugdo seja feita depois do fato, sua confir- masio reforga o argumento de que a perspectiva do clinieo goral constitui uma norma de grupo, 19 Vor Alvin W. Gouldner, Pasterns of Industrial Bureaucracy (Glencoe, Mls Pree Press, 1954), 247-68, 58 PRO! 'MAS DE INFERENCIA E PROVA Dever-se-ia lembrar que estas operagées, quando levadas a cabo ‘no campo, podem ser obstruidas de tal forma devido a imperatives da situagio de campo, que nao podem ser conduzidas de forma tao sistematica quanto deveriam ser. Quando isto ocorre, a avalliaglio global pode ser adiada até o estégio final da andlise pés-campo. CONSTRUGAO DE MODELOS DB SISTEMAS SOCIAIS estagio final de andlise no campo consiste na incorporagio de descobertas individuais ao modelo generalizado do sistema ou da organizagao social em estudo ou de alguma parte desta orga- nizagdo."" O conceito de sistema social 6 um instramento inte- lectual basico para a sociologia moderna. O tipo de observasao participante discutido aqui esta diretamente relacionado a oste conceito, explicanda fatos sociais especificos através de referéncia explicita a seu envolvimento num complexe de varidveis interso- neetveis que 0 observador constréi como um modelo teérieo da organizacao. Em seu estégio final, o observador concebe um mo- delo descritive que melhor expliea os dados que reunia. A conclusao tipica deste estagio da pesquisa é uma afirmagao sobre um conjunto de complicadas intor-relagées entre muitas va- ridveis, Embora algum progresso venha sendo realizado na for- malizagao desta operagdo, através do uso da andlise fatorial e da andlise de relagdes para dados de “survey”,!? os que trabalham com a observasao geralmento encaram as técnicas estatisticas correntemente dispontveis como inadequadas para expressar suas concepgdes, e acham necessirio utilizar palavras. As conclusées mais comuns neste nivel abranger 1 Fol Alvin W. Gouldner que me chamou s atengdo para a relagio onire ‘worias baseadas no conceito de sistema social e obsorvagso participante, Vor seu “Some Observations on Systematic Theory, 1045-55", in Hans L. Zettor- berg, organizador, Sociology in the United States of America (Paris: UNESCO, 1956), 24-43; e “Theoretical Requirements of the Applied Social Sciences”, American Sociological Review 22 (Teverciro de 1957), 92-102. 32Ver Alvin W, Gouidner, “Casmopolitans and Loeals: Toward an Analysis of Latent Social Roles", Administrative Science Quarterly 2 (dezembro de 1957), 281-806, e 3 (margo de 1958), 444-80; « James Coleman, “Relational Analysis: The Study of Social Structure with Survey Methods", Human Or ganization 17, 28-38. NA OBSERVACAO PARTICIPANTE 59 (2) Afirmagzes complexas sobre as condigées necossdrias ¢ su- ficientes para a existéncia de algum fendmeno. O observador pode concluir, por exemplo, que 05 estudantes de Medicina estabelecem tum consenso acerca dos limites do montante de trabalho que de- verdo realizar porque (a) enfrentam um grande volume de tra- balho, (2) se envolvem em atividades que criam canais de comu- nicagio entre todos os membros da classe e (c) enfrentam perigos imediatos sob a forma de exames definidos pela Escola, (2) Afirmages de que algum fendmeno é um elemento “impor- tante” ou *basico” na organizagto. Tais conelusdes, quando ela- boradas, apontam em geral para o fato de que este fenémeno exerce uma infludneia porsistente ¢ continua sobre diversos acon- tecimentos. O observador pode concluir que a ambigao de tornar- se um generalista é “importante” na Escola de Medicina em es- tudo, querendo com isto dizer que iuitos julyamentos e escolhas especificas sao feitos pelos estudantes em fungao desta ambigio, e que muitos aspectos da organizacdo escolar sao ajustados no sentido de levé-la em consideragao, (8) Afirmagies que identificam uma situagdo como um exemplo de algum processo ou fenémeno deserito mais abstratamente na teoria sociolégica. Teorias postulam relagées entre muitos fené- ‘menos abstratamonte definidos, ¢ conelusdes dosse tipo implicam ue relages postuladas de forma generalizada se sustentem neste exemplo especifico. Por exemplo, 0 observador pode afirmar que expressar um desejo de tornar-se generalista é uma norma eul: tural dos estudantes de Medicina; ao fazé-lo, assevera, com ofeito, que a teoria sociolégica sobre as fungoes das normas e sobre 03 Processos através dos quais s4o mantidas, tida como verdadeira em geral, 6 verdadeira neste easo espeeifico. Para chegar a este tipo de conclusées, o observador caracte- risticamente comega construindo modelos de partes da organiza- glo & medida que entra em contato com elas, que descobre con- ceitos ¢ problemas, assim como a freqiéncia e distribuigao da- queles fendmenos que chamaram sua atenc&o, Depois de construir um modelo que especifique as relagées existentes entre os varios elementos desta parte da organizagao, o observador busca maior precisiio através do sucessivo refinamento do modelo, de modo a levar em consideracao evidéneias que no se encaixavam na sua 60 PROBLEMAS DE INFERENGTA & PROVA (Crmalacio anterior", através da pesquisa de exemplos negatives (evidéncias que entram em contradiga modelo, e pode pesquisar intonsivamente para encontrar tal evidéncia.4 J2ehois que 0 observador tiver acumulado varios modelos par- GLA deste tipo, ele busca as conexdes existentes entre eles s, deste modo, comesa a constrair um modelo global da organizartg como um todo, Um exemplo ratirade de nosso catude musica como CO regeeTate 6 ofetivada durante o porfodo do trabalho de campo (O leitor observard, neste oxomplo, a maneira como sao utilisndes descobertas tipieas dos estagios anteriores da andlise.) Quando, pela primeira vez, escutamos os estudantes de Medi- cina aplicarem o termo “pitidtico” aos pacientes, fizemos um os forso para entender precisamente o que queriam dizer com ise Doscobrimos, através de entrovistas com estudantes sobre oxen, los aos quais tanto eles préprios quanto 0 obsorvador hacia presenciado, que o termo se referia de maneira pojorativa a po. clentes com muitos sintomas subjetivos, mas com patologias f. sicas niio discerniveis. Observases subseqitentes indiearam que este uso da palavra era uma earacteristica sistemitiea do com portamento dos estudantes, e, portanto, que deveriamos incorpo. Tar gste fato a nosso modelo do comportamento estudante/pacien. te. © carter pejorativo do termo sugeria especificamente que in. ‘vestigdssemos as razios pelas quais os estudantos nao gostavam destes pacientes. Descobrimos que osta aversao estava relat nada ao que descobrimos ser a perspectiva dos estudantes da Escola de Medicina: a opiniao de que estavam na universidade {rQbservar novamente a somelhanga com a indupao analtic: Ay Wora diseussio do Alited Lindesmith sobre oste prinefpio en: “Comment QLW S. Robinson's ‘The Logical Structure of Analytic Induction’” Ameriocs Soviologiat Review 17 (agosto de 1952), 4923. NA OBSERVAGAO PARTICIPANTS 61 para ganhar experiéneia no reconhecimento e no tratamento de doengas comuns, que tinham maior probabilidade de serem en- contradas na pratica generalista. Os “pitidticos”, que presumi mente no tinham doengas, no podiam proporcionar tal expe- riéncia, Fomos assim levados a especificar as eonexdes existontes na relagao estudante‘paciente e a visio da proposta de sua eda. cagdo profissional. Questies relativas a génese desta perspectiva levaram a descobertas sobre a organizacao do corpo discente e Sobre a comunicagdo entre estudantes, fendmenos que vinhamos atribuindo a outro modelo parcial. Visto que a aversao polos “pi- tidticos” advinha do fato de que nao davam oportunidade aos es- tudantes de assumirem responsabilidades médicas, podiamos ain- da ligar este aspecto do relacionamento estudante/pacienta com um outro modelo especulativa do sistema de valores e da orsa. nizagdo hierdrquica da universidade, modelo no qual a respon- sabilidade médica desempenha um importante papel, Deve-se destacar, ainda uma vez, que andlises deste tipo so levadas a cabo no campo, a medida que o tempo permite, Visto que a construgao de um modelo ¢ a operagao analitiea mais in- timamente relacionada com as técnicas e 08 interesses do obser- vader, geralmente ele despende um grande perfodo do tempo pen. sando sobre estes problemas. Porém, geralmente nao 6 capaz de ser tao sistemético quanto desejaria até que atinja o estaigio Ginal da anslise, ANALISE FINAL E A APRESENTAGAO DOS RESULTADOS A andlise sistematica final, realizada depois que o trabalho de campo esta completo, consiste na rechecagem © na reconstrugao dos modelos, to cuidadosamente e com tantas salvaguardas quanto permitirem os dados. Por exemplo, ao controlar a preciso de declaragdes sobre a freqtiéncia © a distribuigao de aconteci- mentos, 0 posquisador pode indexar organizar seu material de forma tal que todos os itens de informagao sejam acessiveis ¢ considerados na avaliagao da preciso de qualquer conclusdo, Ele pode se beneficiar da observarao de Lazarsfeld ¢ Barton de que a “anélise de ‘dados quase-estatisticos’ pode provavelmente ser feita de modo mais sistematico do que foi no passado, se se con- seguir pelo menos ter em mente a estrutura légica da pesquisa 62 PROBLEMAS DE INFERENCIA B PROVA quantitativa, que fornece ao pesquisador qualitative direcdes e orientagies gerais.”!> : Um critério adicional para a avaliagéo deste tipo de evidéneia 6 0 estagio de conceitualizagao do problema no qual o observador se encontra no momento em que o'item de evidéncia 6 coletado observador pode ter seu problema bem trabalhado e estar pro. curando ativamente por evidéncias para testar uma hipétese, ou pode nao estar ainda tao eonsciente do problema. O valor de evi- déncia dos itens de suas observagdes de campo vai variar om fungi disto, sendo que a base desta avaliagao seré a possibilidade de descobrir exemplos negatives da proposigéo para cuja formu- Jago ele, subseqitentemente, utiliza o material coletado, A melhor evidéncia pode ser exatamente aquela que foi coletada da maneira mais impensada, quando 0 observador simplesmente registrou item, embora ele nao fizesse parte do sistema de conceitos e hi- péteses que estivesse trabalhando no momenta, pois possivelmen- te contém menos bias produzido pelo desejo de dar substancia ou repudiar uma idéia em particular. Por outro lado, uma hipétese bem formulada possibilita uma busea deliberada por exemplos negativos, particularmente quando outros conhecimentos suge- tem areas provaveis nas quais procurar tais evidéneias. Este tipo de busca requer uma conceitualizagio avangada do problema, ¢ evidéncias coletadas deste modo podem ter um peso maior para certos tipos de conclusdes. Ambos os procedimentos sao relevantes em diferentes estagios da pesquisa. No estagio de andlise pés-trabalho de campo, o observador pros- segue de forma mais sistemdtica na operagiio de construgao do modelo. Considera o cardter de suas conclusdes ¢ decide sobre 0 tipo de evidéncia que poderia causar sua rejeigdo, derivands tes- tes posteriores através da dedugao de conseqiiéncias légicas e da avaliagao sobre se os dados sustentam as dedugdes ou nao. le considera hipsteses alternativas razodveis, e avalia se a evidéncia as refuta ou nao." Finalmente, ele completa sou trabalho do es- 'S “Some Functions of Qualitative Analysis..", op. cit, 248, 16 Um método para fazt-lo, particalarmente adaplado ao teste de hipsteses distintas sobre mudanga om individuos ou pequenas unidades sociais (embera ‘em principio nao limitado a esta aplicarao}, ¢“The Technique of Discerning”, descrita por Mirra Komarovsky in Paul F. Lazarsfeld e Morris Rosenberg, NA OBSERVAGAO PARTICIPANTE 63 tabelecimento de interconexdes entre modelos pareiais, de modo a ultimar uma sintose global que incorpore todas as conclusdes. Depois de completar a andlise, 0 observador enfrenta o com. plicado problema de como apresentar suas conclusdes e stuas res- pectivas evidéncias. & comum e justificdvel quo leitores de reta- térios de pesquisa qualitativa se queixem de que pouco ou nada ¢ dito sobre as evidéncias para conclusées, ou sobre as operagies através das quais elas foram avaliadas. Uma apresentapao mais adequada dos dados, das operagies de pesquisa ¢ das inferéncias do pesquisador pode ajudar a resolver este problema, Porém, dados qualitatives e procedimentos analiticos — em eontraste com os quantitativos — sao dificeis de apresentar ade- quadamente. Dados estatisticos podem ser resumidos em tabelas e medigdes descritivas de varios tipos, assim como os métodos através dos quais elas foram manuseadiis podem, com frequéncia, ser relatados de maneita precisa no ospago necessdrio para im primir uma férmula, Isto ocorre porque, em parte, os métodos foram sistematizados de tal modo que 6 possivel se referir a eles nesta forma reduzida e, em parte, porque os dados foram coleta dos para um mimero fixo e geralmente pequeno de categorias — a apresentagéio dos dados nao precisa ser mais do que um relatério sobre o nimero de exemplos a ser encontrado em cada uma das categorias. Os dados da observagao participante nao se prestam a tal re- sumo pronto, Eles consistem freqiientemente de tipos muito di- ferentes de observasées, as quais nao podem ser simplesmente categorizadas ¢ contadas sem perder algo de seu valor como evi- déneia — pois, como vimos, muitos pontos devem ser levados em consideragio ao se utilizar cada dado. Todavia, esta claramente fora do questo publicar todas as evidéncias. Nem tampouco solugdo, como sugeriu Khuckhohn para o problema semelhante de apresentagao de material relativos a histérias de vida," pu- blicar uma versao reduzida e tornar acessivel todo um conjunto nizadores, The Language of Social Remarch (Glenco, UL: Free Press, 448.57. Ver tambem a endsdouaSconeto sobre hipdtesesaltrnativas butlizapdo de consoqaéneias Jeduridas como prove posterior in Lindeomith, Opiate Actoton, paceims W Gottachall aly op. ci, 15046 64 PROBLEMAS DB INFERENCIA E PROVA de materiais em microfilme ow nalgum outro meio barato, pois assim se ignora 0 problema de como apresentar provas. Ao trabalhar no material sobre o estudo da Escola de Medicina, uma possivel solugio para este problema, com a qual ostamos fazendo uma experiéneia, é uma deserigéo da histéria natural de nossas conclusées, apresentando as evidéncias tais como choga- ram & atengio do observador durante os sucessivos estagias de sua conceitualizagao do problema. O termo “histéria natural” niio implica a aprasentagao de cada um dos dados, mas somente das formas caracteristicas que os dados assumiram em cada estégi da pesquisa. Isso envolve, levando em considerasao as leis dis cutidas acima, a forma que tomaram os dados e qualquer excepo significativa na apresentacdo das varias afirmagbes de doscober. tas, assim como das inferéneias e conclasées esbopadas a partir delas. Desse modo, a evidéncia 6 avaliada a medida quo a anslise substantiva 6 apresentada. Se este método for empregado, o leitor serd capaz de acompanhar os detalhes da anélise © ver como e om que bases se chegou a qualquer das conclusées. Isto daria ao leitor, como dao os métodos estatisticos de apresentagéio atuais, @ oportunidade de fazer seu proprio julgamento quanto A ade. quapdo da prova e ao grau de confiaiga a ser atribufdo & con- clusaio, ‘CONCLUSAO Primeiramente, tentei descrever o campo analitico caractoris- tico da observagao participante, de modo a trazer A tona 0 fato de que a técnica consiste em algo mais do que meramente mor- gulhar em dados ¢ “tor insights”. A discussao pode servir igual- mente para estimular aqueles que trabalham eom estas ¢ outras téenieas somelhantes a tentar uma maior formalizagao e siste- matizagéo das varias operagdes de que fazem uso, de modo que 4 pesquisa qualitativa possa tornar-se um esforgo de tipo mais “cientifico” e menos “artistico”. Finalmente, props que novos mo- delos para relatar os resultados fossem introduzidos, de modo que seja facultado ao leitor maior acesso aos dados ¢ aos proce- dimentos nos quais foram baseadas as conclusdes. CAPITULO 3 Evidéncias de Trabalho de Campo Qual ¢ a credibilidade das conclusios dorivadas de dados coletados pelo trabalho de campo? Se entrarmos, em certa medida, na vida das pessoas que estudamos, participarmos de sua rotina didria de atividades e observarmos os cendrios e locais onde ocor- Tem; se conversarmos com elas tanto informalmente quanto em entrevistas relativamente organizadas; se investigarmos 05 re- gistros da organizacao, os documentos oficiais, os meios de co- municagiio publicos, cartas, agendas e quaisquer outros registros @ artefatos que possamos encontrar; se registrarmos sistemati- camente todas as informagées que adquirirmos por estes meios; e se, finalmente, avaliarmos as informagées sistematicamente Para ver que evidéncias clas fornecem para que conclusées — se fizermos tudo isso, as pessoas devem considerar estas conclusées como de alta credibilidade? Ou devem achar que é arriscado dar muito valor como evidéncia a conclusées assim obtidas?" Os antropélogos podem achar a questo tola, porque fazem uma grande parte de seu trabalho desta mancira e porque tantos de seus classicos dependem deste tipo de evidéncia; mas uma mino- ria dentre eles, possivelmente uma minoria em crescimento, po- | Problemas da validade dos dades de trabalho de campo foram diseutidas em Arthur J. Vidich, “Participant Observation and the Collection and Inter- pretation of Data’, American Journal of Sociology 60 (1856), 264-60; Morris Zelditch, Jr., “Some Methodological Problems of Field Studies", sbi, 67 (2862), 566-76; Arthur J. Vidich e Joseph Bensman, “The Validity of Field Data", Human Organization 13 (1954), 20-7; e Lois R. Dean, “Interaction, Reported and Observed: The Case of One Local Union’, ibid, 17 (1954), 36-44,

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