Resumos de Português
Conto - “O Batola”
O conto tem lugar na aldeia alentejana de Alcaria: um casal é proprietário de uma
venda .
Antonio Barrasquinho, o Batola, passa o dia arrastando-se da cama para a venda e
da venda para a cama, embebedando-se frequentemente. A mulher é determinada e
lutadora e percebe-se “que é ela que ali põe e dispões” contra a vontade de Batola, que
“quase lhe não chega ao ombro atarracado, as pernas arqueadas”.
A sonolência de Batola acompanha a solidão da aldeia e da planície que o rodeia.
Os restantes habitantes, ceifeiros, trabalham todo o dia e regressam à noite, diretamente
para suas casas, exausto, sem passar na venda.
Numa dessas longas horas de solidão, Batola lembra-se do mendigo, “o velho Rata”.
Este homem percorre quilómetros (por Ourique, Castro, Messejana, Beja) a pedir e
regressa a contar novidades ao dono da venda. Atacado pelo reumatismo, o velho Rata fica
circunscrito ao seu “casebre” e, passado um tempo, suicida-se, atirando-se “para dentro do
pego da ribeira da Alcaria”.
Certo dia, estando Batola à sua porta, que dá para a estrada de Ourique em direção
ao sul, chega um carro com dois homens: trata-se de um vendedor e do seu funcionário,
que trazem uma “caixa do modelo pequeno”- uma “telefonia” para vender.
Batola tudo faz para ficar com o rádio, embora a sua mulher não aprove a sua
decisão. A partir da experiência por um mês desta telefonia, a vida de Alcaria muda
completamente: da rádio saem notícias de todo o mundo português e estrangeiros, assim
como música e as suas belas melodias, que encantam a aldeia, passando a ser a venda de
Batola o ponto de encontro daquela localidade.
A sonoridade da telefonia traz muitos benefícios, quebra o “silêncio” e a “solidão dos
campos”, aproxima a população, ajuda-a a divertir-se, acabando mesmo por pacificar o
casamento de Batola e da mulher.
Solidão e convivialidade
O título «Sempre é uma companhia» remete para a companhia que o rádio vinha
trazer à população isolada, invadindo a taberna e as suas vidas, com as nóticias da II
Guerra Mundial.
No conto de Manuel Fonseca, as primeiras páginas anunciam o isolamento
geográfico, a solidão e o silêncio, bem como referem a chegada do automóvel.
Os habitantes de Alcaria viviam em condições indignas, de tão forma que perderam,
praticamente, as suas características humanas.
A chegada da rádio viria a permitir a ligação com o mundo, a tomada de contato com
informação nova e que permitia aos habitantes ter novos assuntos de conversa. Até mesmo
mulheres, que não costumavam frequentar a taberna, passaram a fazê -lo.
Se a vinda do rádio havia interferido com a vida do casal, a possibilidade de ficarem
sem a rádio era dolorosa, pois os habitantes regressaram novamente ao seu isolamento. A
mulher de Batola, apresenta-se, no final, com um ar ternurento, contrastando com a altitude
altiva inicial, afirmando que a radiofonia «sempre é uma companhia neste deserto».
A planície alentejana como símbolo não só de silêncio e pacatez, mas como um
“deserto” em que as pessoas fazem a sua vida de camponeses - “ceifeiros” -
maquinalmente, trabalhando desde de manhã até à noite, não tendo vida social. O convívio
dá-se, porventura, dentro de casa. A solidão está espelhada no protagonista, o Batola, e no
mendigo “ velho Rata ”.
Com a chegada da telefonia, tudo muda: as pessoas passam a juntar-se na venda
de Batola para ouvir as notícias do mundo e as belas melodias que motivam festas e bailes.
O convívio passa a ser evidente, aproximando as pessoas e ligando-as ao resto do mundo.
Caracterização das personagens: relação entre elas
● António Barrasquinho, o Batola - Preguiçoso, improdutivo, sonolento,
bêbado, bate na mulher, tem nome e alcunha típica do Alentejo; a sua
indumentária é própria do Homem alentejano. A morte do seu amigo Rata,
acentua a sua solidão. É «atarracado, as pernas arqueadas», usa
«chapeirão» e um «lenço vermelho atado ao pescoço».
● Mulher de Batola - Expedita, trabalhadora, incansável, é ela quem abre a
venda e atende os clientes, voltando depois para a lida da casa; ele é «alta,
grave, um rosto ossudo», dotada de um sossego único, características
advinha da sua possibilidade de pôr e dispor do governo da casa e do
negócio.
● Rata - Era mendigo e viajante, uma espécie de mensageiro. Quando Batola o
escutava a tarde inteira, parecia que também ele havia viajado pelo mundo.
Quando deixou de poder viajar, suicidou-se.
● Caixeiro-viajante - vendedor de aparelhos radiofónicos, comerciante e
amigo de vender.
● Os homens de Alcaria - Figuras metaforicamente apresentadas com gado e
que vivem em casas «tresmalhadas»: «o rebanho que se levanta com o dia,
lavra, cava a terra, ceifa e recolhe vergado pelo cansaço e pela noite. Mais
nada que o abandono e a solidão» Têm falta de esperança numa vida
melhor. Batola contrasta com estes, pois pode preguiçar, bebe o melhor
vinho da venda, tem um fio de ouro no colete, mas é solidário com os
aldeãos. Partilha com este, a condição animalesca dos conterrâneos:
“rumina” a revolta; os suspiros saem-lhe “como um uivo de animal solitário”
A intiga
● Peripécia banal: um engano de percurso leva um vendedor a Alcaria.
● Isolamento geográfico da aldeia e ausência de comunicação: abandono, solidão e
desumanização da população. Chegada do novo aparelho: a radiotelefonia
● Ligação ao mundo: música e notícias
● Alteração de comportamentos : devolução da humanidade.
O espaço:
● Aldeia de Alcaria: “quize casinhas desgarradas e ruas”
● Estabelecimento do casal Barrasquinho: “a venda” é um local onde reina o desleixo.
● “Fundos da casa”: espaço de habitação sombrio separado da venda
● Locais “longínquos” por onde viajava Rata: Ourique, Castro Marim, Beja.
O tempo
● Tempo histórico: anos 40 do século XX (referência à eletricidade e à telefonia)
● Passagem do tempo condensada: “há trinta anos para cá”, “todas as manhãzinhas”.
● Tempo sintetizado: da chegada do vendedor à partida do vendedor e prazo de
entrega do aparelho - um mês.
O narrador
● O narrador de terceira pessoa narra os acontecimentos comenta, conhece o
passado e o mundo interior das personagens (presença: não participante; ponto de
vista; subjetivo; focalização: omnisciente)
● O narrador centra a atenção do leitor no abandono e solidão sentidos pelo
protagonista
● O narrador conhece os pensamentos de Batola e desvenda como se vão formando:
o desgosto leva-o a fechar-se num mundo de evocações
A atualidade
● Isolamento e falta de convivialidade
● Relações entre homem e mulher
● Vícios sociais: o alcoolismo, a violência doméstica
● As inovações tecnológicas e alterações de hábitos sociais.
Caracterização do espaço: físico, psicológico e sociopolitico
O espaço físico é a planície alentejana que rodeia a aldeia de Alcaria e acaba por
ser propício ao espaço psicológico, pois é a partir do espaço desértico que as
personagens pensam e se transportam psicologicamente para outros lugares.
O espaço sociopolítico é o de uma aldeia cuja sociedade, feita de ceifeiros, não
convivia, não dialogava, nem se divertia por estar geograficamente muito distante de
grandes cidades e mergulhada num quotidiano maquinalmente dividido entre campo e casa.
A telefonia aproxima metaforicamente os camponeses do resto do mundo, numa época
histórica marcada pela ditadura do Estado Novo.
Importância dos episódios e da peripécia final
No conto, sucedem-se episódios que vão ajudando a avançar a ação e servem para
caracterizar personagens e espaços, como, por exemplo: a descrição da rotina na venda, a
vida e morte do mendigo “velho Rata”, os homens que trazem telefonia e a mudança social
que se opera na aldeia de Alcaria, que acaba quando Batola desliga o aparelho no fim do
mês.
A peripécia final corresponde ao momento em que Batola desliga a telefonia,
pensando que a mulher seria sempre contra ela, porém esta pede-lhe que fiquem com a
telefonia porque esta “sempre é uma companhia”.
Em síntese
George
Resumo
Contexto da produção:
● 1987: publicação do conto “George” na revista Colóquio Letras;
● 1995: publicação de Seta Despedida, obra composta por doze contos,
incluindo “George”;
1. Tema do conto
O conto centra-se nas três fases da vida: a juventude, a maturidade e a velhice. Estas
idades não são, porém, apresentadas no texto de forma linear, mas sim de acordo com a
“viagem” empreendida com o narrador, a partir da sua memória
2. Análises do conto
A ação do conto está centrada em George, uma personagem feminina focada em
três momentos distintos (menina, mulher e velha), que representam as três idades da sua
vida.
George saiu de casa quando tinha cerca de 18 anos, rumo a Amesterdão, em busca
de liberdade e fugindo da sua realidade e da incompreensão dos pais, visto que ela tinha
talento para o desenho e os seus pais desvalorizavam as artes.
Aos 45 anos, é uma mulher de sucesso: pintora reconhecida, viajada e uma mulher
de muitos amores (“casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar”). A
nível físico, tinha os cabelos sempre pintados de cor diferente, uma forma de representar a
falta de estabilidade na sua vida, usava “malas ricas” e tinha possuía uma casa holandesa.
A personagem regressa à sua terra natal, após cerca de 20 anos de ausência, e
desse regresso resulta a convivência imaginária entre George adulta e a Gi adolescente
George e Gi reencontram-se à saída da estação, quando a primeira vem para
vender a casa da família (os seus pais já tinham falecido). Trata-se de um diálogo
imaginado, que mostra ao leitor a menina de outrora, indecisa entre ficar na terra e sair de
casa. Faz referência a um antigo namorado, chamado Carlos, e ao enxoval que a mãe lhe
andava a fazer para ser uma mulher igual a tantas outras, votada à lida da casa. Gi finaliza
entre diálogo e despedem-se, sem nunca se tocar, pois “nem tal seria possível”
De regresso ao comboio para voltar a Amesterdão, George relembra certas
memórias e afasta-se desse passado, à medida que o veículo se afasta fisicamente da
estação.
No comboio, fecha os olhos e pensa. Quando os abre, vê sentada à sua frente
Georgina, uma mulher de 70 anos e segura de que a vida passa rapidamente,
aconselhando George a não ser dramática, pois viverá feliz na sua casa até morrer. Esta
confirma o retrato dela mesma enquanto “rapariguinha”, conversando na mala a vida inteira.
George fecha os olhos de novo e, quando os reabre, Georgina desaparecerá.
Mostra alguma preocupação com o futuro, mas, no fim, encontra a sua estabilidade (“casa
mobilada”)
3. O retrato de George:
➢ Pintora consagrada de 45 anos;
➢ O seu nome é inusitado para uma personagem feminina, remetendo para a sua
independência económica, fruto do seu próprio esforço. Está também associado ao
escândalo das ligações sentimentais à margem das convenções da época: o hábito
de fumar em público, o uso frequente de indumentária masculina e as cores
extravagantes do cabelo de George;
➢ É uma personalidade bem sucedida num universo predominantemente masculino
➢ Leva um estilo de vida normalmente interdito às mulheres, como é o caso do seu
bem- estar económico;
➢ Constitui o protótipo da mulher independência profissionalmente e realizada;
➢ Tem plena consciência do envelhecimento e da solidão
➢ Vive uma solidão combatida pela presença do dinheiro acumulado;
4. As três idades da vida
O fio condutor do conto é o diálogo entre a realidade, a memória e a imaginação.
5. A complexidade da natureza humana:
Este conto constitui uma profunda reflexão sobre a complexidade da natureza
humana: o fracasso do amor, a separação, a dificuldade de atingir a realização profissional,
a condição feminina, a efemeridade da vida, a solidão, o vazio e a morte. Por outro lado,
compreende uma reflexão sobre a intemporalidade da arte e a imortalização do artista.
Através do desdobramento da protagonista, bem como da duplicidade do seu nome,
o conto possibilita uma reflexão sobre as diferentes fases de vida e sobre os caminhos que
o ser humano trilha, uma vez por opção, outras por imposição das circunstâncias que o
rodeiam.
Quando jovem, vivia conformada com as limitações da conceção de vida que a
familia e a sociedade lhe ofereciam, decidindo partir sozinha para uma cidade e um pais
desconhecidos. O seu enorme desejo de liberdade e de indepêndencia, bem como a
vontade de diversificar ao máximo as suas experiencias de vida levaram-na a alterar
constantemente o seu aspeto físico, a viver o amor com grande desprendimento e
superficialidade e a mudar frequentemente o local de residência. Evitava o apego aos
objetos, apesar de conversar uma foto sua da adolescência, preferindo o esquecimento e
não chorar pelo passado. Quando se encontra perante a sua imagem futura e encara a
velhice e solidão que a espera, mostra-se incomodada, optando por pensar que o dinheiro
será a sua salvação. Mesmo sendo uma independente e profissionalmente bem sucedida e
não tenho nenhuma razão aparente para lamentar o passado nem recear o futuro, ela sente
medo. Esse medo apodera-se dela de uma forma imprevista no momento em que ela
regressa à sua terra natal, o que suscita um confronto tanto com o seu passado, como com
o seu futuro.
6. Metamorfose da figura feminina
George vai se transformando ao longo do tempo, de acordo com diversos fatores: as suas
opções de vida, os lugares onde habita, a idade.
Nível físico: Juventude, amadurecimento e envelhecimento
Nível Psicológico: Ilusão, tédio e cansaço existencial desengano, solidão
7. Símbolos e características gerais:
● O tempo e a personagem principal - Afastamento progressivo da infância e
aproximação da velhice.
○ George e Gi movem-se lentamente, como a simbolizar a impossibilidade de
George ressuscitar o passado e de se despedir dele. O segundo encontro é
marcado pela velocidade do comboio e pela sua marcha sem retorno,
simbolizando a morte definitiva do passado e a aceleração da marcha do
tempo em direção à velhice.
● O narrador localiza, na terceira pessoa, os acontecimentos, conhece o passado e o
mundo interior das personagens - é omnisciente. Mistura a sua voz com os
pensamentos da personagem principal e com as suas falhas de memória e
apresente uma visão cítica e desprovida de autopiedade que a protagonista tem de
si própria
● A fotografia simboliza a ligação ao passado, a fixação da juventude perdida e a
imagem ideal da juventude intocada e de sonhos por cumprir.
● O comboio simboliza a marcha rápida para a velhice e a viagem do passado para o
futuro.
8. A atualidade do conto
● A condição feminina: a situação e o sucesso profissional, a independência
econômica e o amor
● A reflexão sobre a morte e sobre a passagem do tempo
● A reflexão sobre a complexidade da natureza humana
● A fusão da arte narrativa com diversas formas de arte, como a pintura e a fotografia
● A desvalorização da arte.