Estava chovendo do lado de fora, as gotas de chuva batiam contra a vidraça de forma forte e
sequente dando origem à um som estalado.
A cabana de acampamento não podia ser mais confortável: feita de madeira como a maioria
das instalações locais, possuía uma lareira na ampla sala e dois quartos.
Era mais do que o suficiente para os cinco adolescentes — embora no momento apenas
quatro estivessem presentes — que passariam os próximos cinco dias ali, embora eles não
concordassem com essa afirmação.
A mais nova estava jogada no sofá, lendo um livro, possuía a pele extremamente branca, era
magérrima e de corpo miúdo, tinha os fios de cabelo loiros e cacheados caindo parcialmente
em sua face. Os lábios carnudos e rosados pareciam recitar – embora som algum saísse de sua
boca – algo enquanto os olhos permaneciam concentrados em um livro de capa vermelha.
Outro adolescente, baixo, de cabelos pouco cacheados adornados por uma faixa avermelhada
que contornava sua cabeça, mexia em algumas peças de uma CPU velha jogada ao seu lado,
tinha em mãos uma chave de fenda e mais algumas outras minúsculas e detalhistas
ferramentas.
—Mel, por favor, me alcança esse parafuso aí do seu lado! —Pediu o adolescente mais baixo,
encarando a loira.
Aparentemente desconfortável em se mexer, a garota demorou um pouco para atender o
pedido, até abaixar o livro e soltar um grunhido de pura preguiça e esticar, sem descer do sofá,
seu braço até o pequeno parafuso. Quando a peça escorregou de seus dedos para mais longe,
simplesmente virou-se de lado no sofá, como um gato procrastinador.
O parafuso fora parar nos pés de um adolescente gordo, jogado próximo da lareira apagada,
escorado nos tijolos da mesma. Tinha cabelos loiros e olhos azuis e poucas sardas escuras
espalhadas pelas bochechas.
—Vamos, Gustavo, alcança o parafuso, é sério! —Pediu novamente o rapaz concentrado em
arrumar ou desmontar a “máquina”.
—Por quê você mesmo não pega? — Retrucou o gordo.
—Porque você está mais próximo.
Suspirou pesadamente, como se aquela mínima pecinha exigisse muito esforço de si para
pegá-la. Quando a pegou, jogou-a de modo que fosse parar na testa do garoto pedinte.
—Tu é mais inútil que eu, Wen.
Todos ali pareciam consumidos pelo tédio, fora Wen concentrado em sua máquina e um outro
rapaz que tocava violão. Estava cantarolando alguma música em inglês, enquanto tocava seu
violão, seu tom de voz era pouco rouco, mas agradável aos ouvidos. Tinha o cabelo raspado
nas laterais e tingido de preto e cinza em cima, fora os piercings em sua cara que o
envelheciam de certa forma — sem eles, poderia se dizer que ele era novo demais para botar
qualquer metal na face.
— Last things last, by the grace of the fire and the flames, you're the face of the future, the
blood in my veins.
Iria terminar o trecho quando a porta abriu de súbito deixando chuva e vento adentrarem a
cabana que antes era quente. Entrou por ela uma garota alta, de certa forma, devia ter por
volta de 1,70, cabelos negros e pouco enrolados, em suas pontas, iam pouco abaixo de seus
ombros e possuía sardas bem espalhadas pelas bochechas e até abaixo de seus olhos, atraiu os
olhares quando chegou. Entrou com os coturnos molhados e sujos de barro, deixando um
rastro da cozinha até o inicio da sala, que Melina acompanhara com tristeza no olhar, algo
voltado para “com certeza sou eu que vou ter que limpar depois”, assim que a morena
percebeu o olhar da amiga, voltou para deixar os coturnos sujos na porta — não que agora
adiantasse muito.
—Finalmente chegou, Alex, foi atacada por uma besta selvagem lá fora? —Perguntara o loiro
ainda escorado nos tijolos.
—Felizmente Dylan não estava lá — Respondeu-o com um sorriso sarcástico e malicioso no
rosto.
O gordo estava quase rindo quando recebeu o olhar ameaçador vindo do rapaz que antes
tocava violão.
—Eu não me descreveria como selvagem —Começou, soltando o violão e se espreguiçando e
coçando a barba que crescia em seu queixo — Diria que não tenho paciência com cadelas anãs
mimadas.
Melina que estava no sofá, ajeitou-se nele, percebendo a tensão começar a se criar, era
comum provocações daquele tipo e tanto ela quanto Gustavo tinham de estar atentos para
separar qualquer briga antes mesmo que elas iniciassem — não que Gustavo cumprisse bem
esse papel.
Wen parecia estar realmente cagando e andando, a CPU era mais importante.
—Está me dizendo que não tem paciência com a sua irmã? Ela se encaixa perfeitamente nessa
descrição — A morena sabia que tocar naquele assunto era algo delicado, já que Dylan não se
dava bem com a família, fora a irmã.
—Alexandria... — Houve um rápido tremor abaixo de seus olhos, um tique que indicava o
quanto irritado ele já estava em poucos segundos, a voz dele era incrédula embora houvesse
um tom de sarcasmo enquanto a chamava.
A loira, percebendo a situação, rapidamente interveio.
—Ei! Ela já deve ter trago o jogo, certo? E conseguido achar um orelhão para fazer as ligações,
não é? — O tom era descontraído, tentando quebrar o clima que pairava no ar. Aquilo era tão
rotineiro que a mesma já imaginava que era um tipo de “bem-vindo” dos dois.
—Ah... Não exatamente... Eu trouxe monopoly, foi o que consegui achar na cabana mais
próxima e que concordou em emprestar algo, e sobre as ligações, bom, eu não achei nada,
mas com essa chuva, não garanto que mesmo que se achasse, iria estar funcionando.
—Tem razão... — A outra concordou, ficando estática por poucos segundos até surgir um
sorriso de empolgação em seu rosto — Então, vamos jogar!
Gustavo e Wen — este último, mesmo que arrastado — se levantaram e ajudaram as garotas a
arrumar o jogo, enquanto Dylan sentou-se no sofá.
—Não vai jogar, Day? — Perguntou Melina, encarando o rapaz de cabelos mesclados.
Day era um apelido fofo, assim como todos os outros que Melina se encarregava de dar.
Normalmente, Dylan teria reclamado, mas como era Melina, a menina mais doce do grupo —
completamente diferente de Alexandria— ele havia até gostado.
—Não, valeu, prefiro ficar olhando.
A situação ia agora perfeitamente bem, até Alexandria trazer uma jarra de suco da
cozinha, pelo cheiro forte, devia ser maracujá. Estava feliz, porém, distraída, conversando com
todos presentes —exceto Dylan— enquanto caminhava com o suco.
Não olhando para o chão, tropeçou em uma das peças de Wen, fazendo liquido que estava
dentro da jarra plástica voar atingindo em parte Gustavo (que felizmente por seu tamanho
havia feito uma barreira humana a ponto de não deixar o suco atingir o jogo), o tapete, mas,
principalmente, o meio-punk que estava sentado na ponta do sofá.
Embora desafiadora, Alexandria paralisou por poucos instantes até ver Dylan se erguer.
Um metro e noventa de altura completamente em fúria. Seria o quinto problema com o
mesmo cara naquele dia, olha só! Estavam batendo recordes.
—Qual é Alexandria? Tá de tiração com minha cara, né? —Rosnou o rapaz completamente
irritado e, claro, encharcado.
—Dessa vez foi sem querer, embora eu quisesse que fosse de propósito — Devolveu as
palavras raivosas com sarcasmo, céus, como Dylan odiava aquilo.
A loira de cabelos cacheados por sua vez, paralisou, “estava demorando”, pensou.
Gustavo recusou-se a virar para trás, enquanto Wen, embora parecesse o mais quieto dali,
ajeitou-se no tapete e ergueu a faixa em sua testa que quase caia agora em um de seus olhos
para ver melhor a discussão.
Dylan conforme se aproximava em postura ameaçadora, parecia estranhamente controlado.
Segurou um dos pulsos da garota e o apertou, o que a fez devolver o ato com um tapa em uma
de suas faces, ele então, a soltara bruscamente a empurrando, Alex retribuíra um gesto com
um chute adicional, um golpe forte, carregado de alguma emoção na mesma proporção de
intensidade.
Algo resguardava a relação daqueles dois, um sentimento de rancor, talvez.
O olhar de Dylan se converteu em pura fúria e avançou contra a garota a derrubando
facilmente no chão.
Teve a face arranhada diversas vezes ao mesmo tempo que enforcava com uma única mão a
garota abaixo de si, o único erro fora de aproximar mais, o suficiente para que um arranhão
quase pegasse em seu olho e o fizesse a soltar por reflexo, resultando assim em um soco vindo
dela no lado direito da face que sangrava devido a um dos arranhões. Ele que até agora, havia
pego leve apenas tentando a imobilizar, ferveu, acertando um soco na boca do estômago que
dera ânsia de vomito na garota e falta de ar.
Antes que a mesma compusesse o ritmo de sua respiração fora prensada contra uma parede.
Ele estava próximo, rindo com o nervosismo e tremendo, eles tinham esse efeito um no outro.
—Sua pequena puta... —Proferiu ele antes de ser atingido com um cuspe no meio da face.
O rapaz estava prestes a perder o que lhe restava de controle até que uma delicada mão
segurou seu ombro e o doce tom da voz de Melina o chamou de volta.
—Solta ela, Day! Dayday, solta! — Suplicava em meio a um choro desesperado e temente.
Dylan o fez, dando as costas e deixando a morena que lacrimejava cair no chão, encolhida.
O corpo dele estava coberto de arranhões e parte da camiseta preta havia se rasgado.
Eram dois cães de briga, hostis e descontrolados perto um do outro.
Enquanto isso, no fundo da sala, houve uma exclamação:
—NÃO VALE, WEN! VOCÊ TÁ ROUBANDO! EU VI VOCÊ POR O DINHEIRO DEBAIXO DA PERNA,
SEU MERDINHA —Reclamou Gustavo.
A julgar pela situação, a noite, pelo menos para Melina, seria longa.