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Pétalas Podres

O primeiro capítulo apresenta a protagonista, Serena, que relutantemente assiste a filmes de terror com sua mãe, Gina, enquanto se prepara para a visita da família do pai, incluindo seu amigo de infância, Vincente. Serena reflete sobre seu passado com Vincente e suas inseguranças sobre o reencontro, especialmente considerando sua antiga paixão por ele. No segundo capítulo, a expectativa aumenta quando a família de Serena chega, e ela se depara com a aparência ainda mais atraente de Vincente, despertando memórias e emoções antigas.
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Pétalas Podres

O primeiro capítulo apresenta a protagonista, Serena, que relutantemente assiste a filmes de terror com sua mãe, Gina, enquanto se prepara para a visita da família do pai, incluindo seu amigo de infância, Vincente. Serena reflete sobre seu passado com Vincente e suas inseguranças sobre o reencontro, especialmente considerando sua antiga paixão por ele. No segundo capítulo, a expectativa aumenta quando a família de Serena chega, e ela se depara com a aparência ainda mais atraente de Vincente, despertando memórias e emoções antigas.
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CAPÍTULO UM

Ato I - Broto Prematuro

Filmes de terror não eram minha praia, ainda mais aqueles que exibiam violência sem
objetivo nenhum. Desde que minha mãe voltou da viagem, ela tem me mostrado diferentes obras
toda noite incansavelmente em busca de um que me agradasse. Para seu azar, sua coleção de dvds
antigos só possuíam filmes slasher e trash. Enquanto a dona aguardava por um sustinho sequer, eu
mantive a mesma expressão por todas as cenas, sem entender muito do enredo e me questionando
internamente porque estava assistindo aquilo com tantas expectativas, que a cada minuto eram
despedaçadas.
― Esse é o final? Que merda. ― Resmunguei e me ajeitei no sofá para que ficasse mais perto dela
e pudesse deitar em seu ombro, que foi retribuído por um cafuné caloroso.
― Filha, ainda faltam trinta e dois minutos.
Olhei para a cara dela sem sair do lugar incrédula e ela deu um risinho.
― O filme se resume a estériotipos femininos e frases de efeito em todas as cenas, sério mesmo?
― Eu pensei que as mortes iam surpreender você! Não lembrava que o resto era tão…
― Boçal? É, acho que nem se um bando de animais cinéfilos se juntassem para fazer um filme
sairia tão horripilante assim.
Gina caiu naquele tipo de risada que fazia você jogar a cabeça para trás e tapar a boca sem ar, que
continou até que ela tirasse o filme da tela e deixasse em um jornal da noite, ainda negando com a
cabeça e com um sorriso no rosto belo e maduro. Me levanto de seu abraço e ajeito o cabelo,
olhando para ela esperando que desse mais alguma ideia de filme ou algo do tipo, mas ao invés
disso, Regina tinha na face aquela expressão que eu temia. Havia acontecido algo que ela esqueceu
de me contar, e poderia ser qualquer coisa. Um vizinho encontrado morto essa manhã, uma parente
que fugiu do país, ou a plantinha nova que ela comprou e tinha esquecido de regar.
― Meu amor, esqueci de te falar!
Viu? Eu já conheço a peça.
― A família do seu pai tá voltando pra cidade, vão passar o verão aqui!
As palavras e até mesmo folêgo escaparam da minha garganta. Arregalei os olhos e rodei-os por
toda a sala de estar, procurando uma resposta que não fosse a relembrando dos conflitos passados
entre nossas famílias. Naquele momento, mamãe parecia empolgada demais para que minha nuvem
de pessímismo e rancor preenchesse o ambiente.
― Caramba… Eba?
― Como assim, querida? ― Gina saiu da posição que estava para que pudesse ficar de frente para
mim, empurrando seu óculos sobre o nariz e me lançando aquele olhar que quase dizia que minhas
palavras melancólicas tinham pisado em seu entusiasmo. ― Você vai ver sua prima, suas tias, até
mesmo aquele seu amigo que você brincava todo santo dia!
― Espera, o Vicente? O que diabos ele tem a ver com a família do pai?
― Os pais dele eram velhos amigos da família, lembra? Mas há uns anos eles faleceram, e desde
então o Vincente virou super amigo deles! Quase parte da gente.
Não sabia ao certo se rever meu amigo de infância me animava ou só criava mais paranoias ainda.
Vincente era o garoto mais bonito do bairro, da creche e das crianças da família, sempre rodeado de
amigos e de meninas, principalmente. Apesar de toda a atenção que recebia de todos os lados,
Vincente sempre me deixava como prioridade. Recusava a ir em festinha dos amigos, a ir em
passeios da escola porque queria me fazer companhia no hospital e o último dia que nos vimos, algo
que eu nunca pude me esquecer. Naquela noite tempestuosa e cheia de mágoa que se acumulava por
saber que não veria meu melhor amigo tão cedo, ouvimos a buzina familiar do carro de minha tia
ecoar em frente a nossa casa e lá estavam eles, tia Anelise, minha avó paterna Galinda e ele,
Vincente, com duas flores brancas nas mãozinhas de moleque e um sorriso no rostinho mais lindo
que eu já tinha visto. Ele tinha voltado pra me ver. Pra me dar um último selinho na bochecha e
sussurrar um último “Tchau, boneca” no meu ouvido com aquela vozinha de criança empolgada, ele
estava bem ali. Não haviam respostas para minhas perguntas de como seria reencontrar o garoto que
fez de tudo por mim, depois de anos.
― Você não sente saudades?
― O que? Claro que sinto! Mas é que… Você sabe muito bem da paixão que eu tinha por ele.
― E o que tem? Já sei que é por isso que cê nunca namorou desde aquela época.
― Não, mãe! Não é isso! ― Dei um tapinha leve em seu ombro e dei risada, que foi acompanhada
por ela. ― É que… E se ele cresceu e ficou mais lindo do que já era? Já pensou? Deve ter um
monte de mulher caindo em cima dele, se é que ele já não namora?
― Ah, para! Acha mesmo que já não me informei? Ele é solteiro, meu bem! E pelo o que tua tia me
falou, nunca namorou ninguém também!
Se eu estivesse bebendo algo, certamente me engasgaria ao ouvir aquilo. Como um garoto daquele,
agora homem, nunca namorou alguém? Bom, eu duvido. Olhei para ela e entortei a cara em
deboche, deixando os cobertores para trás e me levantando em direção à cozinha.
― Tá, sei. Tá esquecendo que ele já tem tipo uns vinte e dois anos e eu só tenho dezessete né?
Minha mãe, que seguiu meus passos e agora estava sentada no banco em frente a ilha da cozinha,
me observando buscar um suco do fundo da geladeira e encher dois copos. Ela revirou os olhos e
bebeu um gole do copo.
― Seu pai e eu temos vinte anos de diferença. Não queira nem saber a diferença entre seus avós. Cê
vai fazer dezoito daqui uns meses e sendo sincera, quatro anos de diferença, Serena? Tá com medo
disso?
A esse ponto, com minha mãe arranjando mil e uma soluções para as questões que eu dava, ela com
toda certeza queria que eu ficasse com Vincente. Quando éramos crianças, ela pelo menos
disfarçava. Ela respirou fundo e deu um sorrisinho presunçoso ao ver minha cara de derrota, antes
que engajasse a conversa com um provável outro fato que estava préstes a cair no esquecimento.
― Aliás, eles vem almoçar aqui amanhã. Então nem cogite pisar os pés na cozinha e se enfie no seu
quarto pra se produzir toda, ouviu?
Depois do “eles vem almoçar aqui amanhã” tudo soou como borrões distantes para mim. Engoli o
suco rápido o bastante para evitar que cuspisse tudo na cara dela. Não estava dando a mínima para o
resto da família, mais algumas discussões futéis poderiam até me entregar entretenimento, mas
Vincente? Aqui? Na minha casa, amanhã? Pude sentir os pelos da nuca arrepiarem ao sequer cogitar
sua presença, mas pela cara da minha mãe, tudo parecia sério demais.
― Eles vêm e só passou em sua cabeça de me contar um dia antes?! Mãe, amanhã não é dia de
lavar o cabelo! Agh! ― Revirei os olhos e coloquei todo o suco para dentro em uma golada, o
largando na pia e quase correndo em direção às escadas para meu quarto e então poder escolher
minha roupa.
― Só não exagera, tá? Tem que se fazer de difícil no começo! ― Sua voz ficava cada vez mais
distante abafada conforme eu subia os degraus e fechava a porta do quarto.
O cheiro de canela e perfume doce preencheu minhas narinas e só me inspirou a encontrar uma
roupa interessante para o dia seguinte. Depois de algumas horas, estava dobrando as roupas
experimentadas e a escolhida final estava no câbide ao lado da cama, qual eu observava sem parar
até guardar a última peça.
Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, joguei-me na cama e me aconcheguei nas cobertas, me
virando para o lado do vestido que usaria no almoço. Era lindo, simples, perfeito para um almoço
em família que não se vê há um tempo e de brinde com o amigo de infância cuja paixonite nele
nunca se esqueceu.
Em todas situações eu sempre fui a que havia ideias, suposições, até mesmo certezas do que se
esperar. Um passo a frente. Nessa, era um tiro no escuro. Como Vincente estaria? Será que ele ainda
tinha os cabelos pretos longos? Será que tinha feito alguma tatuagem? Minha imaginação era fértil e
diversa. Cogitei dele ter se tornado criminoso, atleta, careca, ou até mesmo um viciado. Não ter o
visto em onze anos certamente era um campo aberto para especulações infinitas.
Apesar de tudo, era um garoto qualquer que viria a minha casa. Poderíamos ser amigos de novo, nos
apaixonar, ou sei lá, rolar um clima estranho e desvíarmos o olhar sempre que eles se encontrassem.
Talvez eu não saísse do quarto amanhã. Ou eu bebesse meio litro de leite vencido e fosse parar no
hospital, deixando o clima pesado o suficiente para que qualquer encontro em família fosse
cancelado e incogitável.
Ao passar do tempo, quanto mais meus olhos se fechavam e mais o silêncio recheava meu redor,
toquei na situação com muita mais calma. Era simples, até mesmo esperançoso. Como um broto de
planta que você sabe que irá crescer, mas não como será seu crescimento. De qualquer maneira, ele
será alguma coisa.
CAPÍTULO DOIS
Campo Fértil

No típico macarrão com queijo que Gina fazia questão de preparar como uma tradição para
sua sogra, pedi que ela adicionasse uma pitada de pimenta preta, a espeçiaria que lembro até hoje
ser a favorita de Vincente. Há muitas coisas que me lembro sobre ele. Até mesmo de seu cheiro,
como seus olhos nunca piscavam quando olhavam pra mim e da sua obsessão por vampiros. Há
muitas que se perderam na memória também, como sua voz, que era minha favorita. Pensamentos
como estes tomaram minha atenção quase o dia inteiro, sendo necessário até mesmo que Gina me
arrancasse dos transes e me relembrasse que sua sogra e toda a família do papai estavam vindo em
menos de algumas horas, o que era suficiente para os pelos de minha nuca arrepiarem.
Podemos dizer que a família de meu pai não era das mais humildes. Seus costumes eram
mesquinhos, suas exigências, ambiciosas. Não era atoa que toda vez que retornavam à cidade, todos
da vizinhança aguardavam sedentos por novos conflitos e fofocas envolvendo a arrogância daquelas
pessoas. Não me entenda mal, amo minha família paterna. Pelo menos em partes. Minhas tias eram
toleráveis, meus primos eram amáveis e bom, meus avós eram de se questionar. Vindos de uma
cidadezinha riquinha da Itália, era de se esperar que seus padrões fossem altos.
Depois de enfeitar a mesa seguindo as ordens de minha mãe, abri as cortinas da casa que faltavam e
espirrei um aromatizante refrescante por todos os cômodos. Saindo para o gramado em frente a
casa, ajeitei as madeixas rebeldes do cabelo e procurei por qualquer vislumbre de quatro carros
luxuosos destoando do resto dos veículos nas ruas. Logo depois de deixar a porta aberta, Gina saiu
também e ficou do meu lado, cruzando os braços cobertos de pulseiras.
― Cê tá linda. ― ela sussurrou, sem tirar os olhos da rua. Deu um sorrisinho quase como se
soubesse que eu retribuiria imediatamente.
― Acho que tô meio nervosa. Ou com medo, não sei dizer. Não sei nem o que esperar.
― Espere que ele esteja bem bonito.
Soltei um riso curto e voltei a encarar a rua da onde o carro deles viria. E lá estava ele, o carro preto
asssustadoramente alto e imponente que avançava pelo asfalto rapidamente até que freiou com força
em frente a nossa casa. Minha mãe e eu trocamos um olhar breve e caminhamos até o veículo,
enquanto a porta do motorista já estava sendo aberta.
― Sogra! Oi, meu Deus que saudades! ― Mamãe agarrou a senhorinha num abraço caloroso assim
que ela se levantou do banco, seguida por seu marido e por todos aqueles no banco de trás.
Enquanto eu cumprimentava meus avós e minhas duas primas e suas duas irmãzinhas que vieram
em fila para nos dar um beijo na bochecha e seguir para a casa, um garoto que eu já sabia quem era
estava aguardando sua vez ao lado do carro. Cabelos longos pretos, a pele pálida quase translúcida e
os olhos que pareciam dois buracos negros préstes a me engolir. Vicente tinha ficado ainda mais
lindo do que eu imaginei. As mãos no bolso da calça moletom, a postura indiferente, a expressão
cansada mas com um sorrisinho ansioso estampado na cara, do mesmo jeitinho do qual eu me
lembrava dele agir. Assim que ele abraçou Regina, seu cabelo se movimentou sob os ventos e sua
face relaxou ao se aconchegar em minha mãe. Ao se afastarem, Gina foi para dentro de casa.
Vicente deu alguns passos e então parou, bem em minha frente. Tirou uma das mechas do cabelo
rebelde de seu rosto e respirou fundo, piscando várias vezes antes de dizer qualquer coisa.

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