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R E P E S C A ISSN 1980-587X
R E P E S C A
ISSN
1980-587X

Revista Brasileira de

Engenharia de Pesca

Volume 3, número 2 - julho de 2008

Pesca, Aqüicultura, Tecnologia do Pescado e Ecologia Aquática

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE VOLUME 3, NÚMERO 1, 2008 EXPEDIENTE Foto Haroldo Barroso
REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE
VOLUME 3, NÚMERO 1, 2008
EXPEDIENTE
Foto Haroldo Barroso

Expediente

Catalografia

Editorial

Artigos

Científicos

Técnicos

Resenhas PESCA

Normas para

Eds.: José Milton Barbosa e Haroldo Gomes Barroso

Publicação

Contatos

Veja:

Vej a: Car p intaria Naval do Maranhão

Carpintaria Naval do Maranhão

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

DIRETOR

COMISSÃO EDITORIAL

Haroldo Gomes Barroso - UEMA

Alex Augusto Gonçalves - Dalhousie University, Canadá Angelo Brás Callou - UFRPE Athiê Jorge Guerra dos Santos - UFRPE Fábio Diniz - Embrapa/PI Fábio Hazin - UFRPE Fernando Porto - UFRPE Eurípedes Alves da Silva Filho - UFAL Heiko Brunken - Hochschule Bremen, Alemanha Israel Hidenburgo Aniceto Cintra - UFRA Joachim Carolsfeld - World Fisheries Trust, Canadá Leonardo Teixeira de Sales - UFPI Maria do Carmo Figueredo Soares - UFRPE Maria do Carmo Gominho Rosa - Unioeste Maria Elisabeth de Araújo - UFPE Maria Nasaré Bona - UFPI Maria Raquel Coimbra - UFRPE Neiva Maria de Almeida - UFPB Paula Gênova de Castro - Instituto de Pesca/SP Paulo de Paula Mendes – UFRPE Petrônio Alves Coelho Filho - UFAL Raimundo Nonato de Lima Conceição - UFC Rosângela Lessa - UFRPE Sérgio Macedo Gomes de Mattos - SEAP/PE Sérgio Makrakis - Unioeste Sigrid Neumann Leitão - UFPE Vanildo Souza de Oliveira - UFRPE Walter Maia Junior - UFPB

EDITORES

José Milton Barbosa - UFRPE

Haroldo Gomes Barroso - UEMA

EDITORES ADJUNTOS

Adierson Erasmo de Azevedo - UFRPE

Emerson Soares - UFAL

ASSISTENTES DE EDIÇÃO

Manlio Ponzi Junior - UFRPE Rogério Bellini - Netuno

Webmaster

Junior Baldez - UEMA

Revisão do texto

Adierson Erasmo de Avezedo - UFRPE

José Milton Barbosa - UFRPE

Erasmo de Avezedo - UFRPE José Milton Barbosa - UFRPE Curso de Engenharia de Pesca Universidade

Curso de Engenharia de Pesca Universidade Estadual do Maranhão

de Engenharia de Pesca Universidade Estadual do Maranhão 2 Departamento de Pesca e Aqüicultura Universidade Federal

2

Departamento de Pesca e Aqüicultura Universidade Federal Rural de Pernambuco

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

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Ficha catalográfica Setor de Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE

R454

Revista Brasileira de Engenharia de Pesca Nacional / editores José Milton Barbosa, Haroldo Gomes Barroso -- São Luís, Ed. UEMA, 2008.

V.3, n.2 :

175p. : il.

Semestral

1. Pesca 2. Aqüicultura 3. Ecossistemas Aquáticos, 4. Pescados – Tecnologia I. Barbosa, José Milton II. Barroso Haroldo Gomes III. Universidade Estadual do Maranhão

CDD 639

3

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

ISSN-1980-587X

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA

Volume 3

julho, 2008

Número 2

EDITORIAL

O setor pesqueiro nacional vive um momento de euforia, com a

almejada criação do um ministério capaz de unificar e avalancar a atividade pesqueira. Setor que a dispeito dos desmazelos instutuionais, passados desde a extinção da SUDEPE, mostra sua pujança e consolidação como atividade produtiva de forte apelo econômico e social. Neste contexto, se fortalece também a Engenharia de Pesca, que tanto clamou por este ministério, e que agora se sente recompensada, não por uma vitória, mas pela certeza que a luta começa agora. Ademais, outro fato marcante é a realização da nossa I Semana Nordestina de Engenharia de Pesca. Assim, na primeira semana de setembro estaremos em São Luis para discutir nossa profissão e os seus rumos na certeza que o Engenheiro de Pesca enquanto profissional e retrata a importância do setor pesqueiro para o crescimento de nosso país.

NOSSOS JAPONESES

No momento em que se comemora os 100 anos da imigração japonesa para o Brasil, não podemos esquecer aqueles que tanto fizeram pelo setor pesqueiro nacional e em especial pela no Engenharia de Pesca. Nomes como Johei Koike (in memoriam), Masayoshi Ogawa, Yasunobu Matsura (in memoriam), Yoshito Motohashi (in memoriam) e Hitoshi Nomura, dentre outros, marcam sua passagem entre nós e deixam seus nomes gravados nas ciências pesqueiras do Brasil.

4

José Milton Barbosa

Editor Chefe

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Sumário

Atenção: Para abrir click em “

ARTIGOS CIENTÍFICOS

Aproveitamento da carne da carcaça de rã-touro gigante no desenvolvimento de hambúrguer Alex Augusto GONÇALVES, Maria Cristina Montin OTTA

7

Purificação e atividade anticoagulante in vitro de galactanas sulfatadas extraídas da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia José Ariévilo Gurgel RODRIGUES, Wladimir Ronald Lobo FARIAS

16

Variação nictemeral do macrozooplâncton na Barra Orange - Canal de Santa Cruz, Estado de Pernambuco (Brasil) Pedro Augusto Mendes de Castro MELO; Sigrid NEUMANN-LEITÃO; Lucia Maria de Oliveira GUSMÃO; Fernando de Figueiredo PORTO-NETO

Polissacarídeos sulfatados da alga Caulerpa sertularioides (Gmel.) Howe análise de metodologias de precipitação José Tarcísio Borges Bezerra NETO; José Ariévilo Gurgel RODRIGUES; Grazielle da Costa

30

PONTES; Wladimir Ronald Lobo FARIAS

Agregando valor ao pescado de água doce: defumação de filés de jundiá (Rhamdia quelen) Alex Augusto GONÇALVES; Renata CEZARINI

50

63

Avaliação dos efeitos da imersão das pós-larvas do camarão Litopenaeus vannamei em águas de cultivo com polissacarídeos sulfatados José Ariévilo Gurgel RODRIGUES; José de Sousa Junior JÚNIOR; Perla Lorena MOREIRA; Diego Silva MELO; Jullyermes Araújo LOURENÇO; Paula Cristina Walger de Camargo LIMA; Valeska Martins TORRES; Grazielle da Costa PONTES; Wladimir Ronald Lobo

FARIAS

80

Efeitos do fotoperíodo e temperatura no crescimento de girinos da rã-touro gigante, Rana

catesbeiana (Shaw, 1802)

92

ARTIGOS TÉCNICOS

Cultivo intensivo de espécies carnivores Emerson Carlos SOARES

Influência da profundidade dos lagos do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, BA e sua limitação ao cultivo de peixes em tanques-rede

100

José Patrocínio LOPES * Luiz Carlos Farias DANTAS; Eloi CERQUEIRA

106

“Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo, conversar com o urubu”: estudo socioeconômico dos catadores de caranguejo no litoral norte de Pernambuco

Roberta Sá Leitão BARBOZA; Sigrid NEUMANN-LEITÃO; Myrian Sá Leitão BARBOZA ; Luciana de Matos Andrade BATISTA-LEITE

5

117

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Digestibilidade de ingredientes alternativos para tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus): revisão Elton Lima SANTOS; Waleska de Melo Costa WINTERLE; Maria do Carmo M. M. LUDKE

José Milton BARBOSA

Desarrollo tecnológico de carne ahumada de esturión (Acispenser spp. ) Bertullo, E.; Campot J.; Fernández, S.; Gómez, F. y Pollak,

RESENHAS

135

150

Carpintaria artesanal no Estado do Maranhão Luiz Phelipe de Carvalho Castro ANDRÈS

163

Tilapicultura Industrial Rogério Bellini

170

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

172

CONTATOS

175

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ARTIGOS CIENTÍFICOS

APROVEITAMENTO DA CARNE DA CARCAÇA DE RÃ-TOURO GIGANTE NO DESENVOLVIMENTO DE HAMBÚRGUER

USE THE BULLFROG CARCASS MEAT TO DEVELOP HAMBURGUER

Alex Augusto GONÇALVES 1* ; Maria Cristina Montin OTTA 2

1 Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul 2 Engenheira de Alimentos, Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

* Email: alaugo@gmail.com

Recebido em: 8 de março de 2008

Resumo - O objetivo deste trabalho foi aproveitar a carne da carcaça da rã-touro gigante (Rana catesbeiana) no desenvolvimento de um produto com valor nutricional e sensorial. Na avaliação físico-química da carne in natura obtiveram-se os seguintes valores: umidade (79,2%), cinzas (0,2%), proteínas (16,6%), lipídios (0,33%) e cálcio (0,01%); enquanto que no produto desenvolvido (hambúrguer) obtiveram-se os seguintes valores: umidade (76,3%), cinzas (2,8%), proteínas (12,6%), lipídios (0,1%) e cálcio (0,02%). Todos os parâmetros analisados na avaliação microbiológica foram negativos, demonstrando que o procedimento higiênico foi satisfatório durante a manipulação e desenvolvimento do produto final. O índice de aceitabilidade do hambúrguer na análise sensorial foi de

88,4%.

Palavras-chave: Rana catesbeiana, carne de rã, desenvolvimento de produto.

.

Abstract - This objective of this work was use of carcass meat from bullfrog (Rana catesbeiana) in development of a product with nutritional and sensorial value. The physical-chemical analysis of in natura meat obtained the following values: moisture (79.2%), ash (0.2%),

protein (16.6%), lipids (0.33%) and calcium (0.01%); while the product developed (hamburger) obtained the following values: moisture (76.3%), ash (2.8%), protein (12.6%), lipids (0.1 %) and calcium (0.02%). All parameters examined in microbiological analysis were negative, showing that the procedure hygiene was satisfactory during handling and final product development. The index of acceptability of the hamburger in sensory analysis was 88.4%.

Key-words: Rana catesbeiana, frog meat, product development.

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INTRODUÇÃO

A rã-touro, Rana catesbeiana (Figura 1) é nativa da América do Norte e foi introduzida no

Brasil em 1935. Sua criação em cativeiro vem cada vez mais se firmando como uma atividade

viável e de grande potencial. Isto se deve, entre outros fatores, à qualidade nutricional da carne de

rãs, que possui um adequado balanceamento de aminoácidos e baixo nível de gordura e colesterol, o que se apresenta como uma importante ferramenta de publicidade (Casali, Moura & Lima, 2005;

Nóbrega et al., 2007).

(Casa li, Moura & Lima, 2005; Nóbrega et al., 2007). Figura 1 - Rã-touro ( Rana

Figura 1 - Rã-touro (Rana catesbeiana).

O desenvolvimento tecnológico do abate de rãs e seu processamento posterior para consumo

humano têm atraído cada vez mais atenção. Em virtude disso, as recomendações do Codex Alimentarius estão sendo adotadas como critério de qualidade da carne da rã, seguindo um padrão

internacional (Ramos et al., 2005; Nóbrega et al., 2007). Os principais produtos comerciais da rã-touro (Rana catesbiana) são: a carne e o couro,

segundo Lima & Agostinho (1992) existe potencialidade de aproveitamento do ovário e do fígado

para preparação de caviar e patê, respectivamente. No entanto, Lima, Cruz & Moura (1999)

constataram que o aproveitamento de subprodutos da rã-touro ainda é inexpressivo, sendo fracamente representado pelo aproveitamento de pele e corpo gorduroso, prevalecendo ainda a

comercialização dos produtos principais, carcaças inteiras e coxas.

A carne de rã é apreciada não só pelo seu sabor requintado e textura, mas também como

fonte de proteína de alto valor biológico. Embora, no Brasil, as rãs sejam comercializadas inteiras, a carne de rã é usualmente comercializada internacionalmente na forma de coxas frescas ou

congeladas, obtendo preços mais elevados (Ramos et al., 2004; Mello et al., 2006).

A carne de rã destaca-se nutricionalmente por sua grande quantidade de proteínas de alto

valor biológico e por seu baixo teor em gorduras, inferiores a 1% (Tabela 1) e, por estas características, é indicada para dietas hipocalóricas. É recomendada para dietas com o objetivo de

combater o colesterol, a obesidade a hipertensão arterial e também para tratamento de distúrbios

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gastrointestinais, na dieta de atletas, convalescentes e crianças em fase de crescimento e alérgicas a

proteína animal. No entanto, as qualidades sensoriais da carne da rã-touro são raramente estudadas

(Conceição, 2000; Mello et al., 2006; Nóbrega et al., 2007).

Tabela 1 - Composição da carne de rã-touro: comparação com outras carnes.

Espécie

Proteínas

Gorduras

Calorias

(g/100g)

(g/100g)

(kcal/100g)

16,4

0,3

68

Frango

18,1

18,7

264

Bovino

19,4

15,8

225

Suíno

16,7

22,7

276

Coelho

21,0

8,0

162

Revista da Terra (2006).

No mercado internacional, o consumo de rã é essencialmente voltado para as pernas (coxas)

que representam a maior parte comestível da rã (52,7%) e são consideradas por muitos como uma

delicatessen”. No Brasil os ranicultores oferecem a carcaça inteira ao mercado interno como forma

de ampliar sua receita. O dianteiro ou “dorso”, composto do tórax e braços geralmente é desprezado

pelos consumidores, pelo grande número de pequenos ossos (baixo rendimento de carne). Com

objetivo de agregar valor ao segmento, várias alternativas estão sendo estudadas, para o melhor

aproveitamento da carne desta parte do corpo das rãs, particularmente utilizando a desossadora

mecânica (Conceição, 2000; Moura, 2003; Lima; Teixeira & Costa, 2006a; 2006b; Mello et al.,

2006; Nóbrega et al., 2007).

Segundo Lima, Teixeira & Costa (2006a), apesar de existir vários consumidores efetivos, a

carne de rã ainda é um produto cercado de preconceito por parte do consumidor doméstico. Além

do aspecto físico nada atraente, o desconhecimento da forma de se preparar esta carne, é um dos

itens que mais desestimula a compra. O aumento do consumo da carne de rã vai continuar restrito,

enquanto não se encontrar formas de atender às facilidades que o mundo moderno oferece.

O objetivo deste trabalho foi aproveitar a carne da carcaça da rã-touro gigante (Rana

catesbeiana) no desenvolvimento de um produto com valor nutricional e sensorial.

MATERIAL E MÉTODOS

Amostras congeladas de rã-touro (Rana catesbeiana) foram recebidas na Mini-usina de

Carne e Derivados (UNISINOS, São Leopoldo, RS) e mantidas em freezer a -18°C até o momento

do desenvolvimento do hambúrguer.

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Após serem descongeladas em refrigerador à temperatura de 4ºC, foram desossadas

manualmente. Foi desenvolvida uma formulação de hambúrguer e seus ingredientes foram

utilizados nas quantidades convencionais para este tipo de produto, conforme Tabela 2.

Tabela 2 - Formulação do hambúrguer de rã-touro.

Matéria-prima

Quantidade (g)

Carne de rã

1000*

Ingredientes

Quantidade (%)

Gelo moído

10,0

Proteína Texturizada de Soja granulado

5,0

Amido de milho

5,0

Farinha de trigo

5,0

Alho em pó

0,2

Coentro

0,2

NaCl

1,5

Pimenta do reino em pó

0,2

Glutamato monossódico

1,0

Tripolifosfato de sódio

0,3

Sorbitol

4,0

* Para cada 1.000 g de carne utiliza-se o percentual dos ingredientes

Em seguida, a carne, parte do gelo e todo sal foram transferidos para o misturador por cerca

de 5 minutos, seguido da adição dos demais ingredientes, que permaneceram no misturador por

mais 3 minutos, até a completa homogeneização. A massa resultante foi retirada do misturador e,

posteriormente, dividida em porções de 70 g. Os hambúrgueres foram formatados, embalados

individualmente em filme de PVC, congelados a –18ºC e armazenados nesta temperatura até o

momento das análises (Figura 2).

ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS

As análises microbiológicas foram realizadas de acordo com metodologia descrita por Silva

et al. (2007), seguindo os parâmetros microbiológicos estabelecidos pela legislação (Brasil, 2001)

para produtos à base de pescado refrigerados ou congelados (hambúrgueres e similares), como:

Salmonella, Coliformes e Staphylococcus aureus.

ANÁLISE SENSORIAL

Para verificar a aceitabilidade do hambúrguer de rã e medir o nível de satisfação do consumidor, a

avaliação sensorial foi efetuada por painelistas não treinados (n = 30) do curso de Gastronomia da

UNISINOS onde foi utilizado o método afetivo mediante escala hedônica de nove pontos, que

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Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008 Figura 2 - Processamento do hambúrguer de rã-touro. variava

Figura 2 - Processamento do hambúrguer de rã-touro.

variava de gostei muitíssimo (9 pontos) a desgostei muitíssimo (1 ponto) seguindo a metodologia de Dutcosky (1996). O índice de aceitabilidade (IA) foi calculado considerando-se a nota máxima alcançada, pelo produto que está sendo analisado, como 100% e a pontuação média, em %, será o IA. O produto atingindo um percentual maior ou igual a 70% será considerado aceito pelos provadores (Teixeira; Meinert & Barbetta, 1987). Os hambúrgueres congelados foram preparados em chapa quente, com pouco óleo vegetal, por cerca de 2 minutos de cada lado e, servidos ainda quentes aos painelistas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O consumo nacional e internacional de carne de rã vem aumentado dia a dia, não só pelo seu paladar, como também por seu valor nutritivo (Ramos et al., 2004). Dessa forma, acredita-se que a disponibilidade de diferentes alimentos elaborados com carne de rã de qualidade contribuirá ainda mais para o consumo. Os empreendedores que fazem a ranicultura comercial precisam estar atentos às várias possibilidades que a carne de rã apresenta e a partir delas, diversificar o leque de ofertas de produtos pré-elaborados de fácil preparo pelo consumidor.

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ANÁLISE FÍSICO-QUÍMICA

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Os aspectos físico-químicos (gordura, proteína, umidade, etc) são muito importantes, pois

todas essas características devem ter um mínimo de perdas durante o processamento da carne e

produtos cárneos (Canhos & Dias, 1983).

O resultado das análises físico-químicas, realizadas nas amostras da carne de rã in natura e

dos hambúrgueres, encontra-se na Tabela 3.

Tabela 3 - Resultados das análises físico-químicas da carne de rã-touro in natura e do hambúrguer

Parâmetro analítico

Carne rã in natura (%)

Hambúrguer de rã (%)

Umidade

79,20

76,30

Cinzas

0,20

2,80

Proteínas

16,60

12,60

Lipídios

0,33

0,10

Carboidratos*

3,67

8,20

Cálcio

0,01

0,02

*Calculado por diferença

O conteúdo de proteína, gordura e cinzas foram abaixo aos valores encontrados por Nóbrega

et al. (2007), para a carne de rã-touro in natura (proteínas: 19,4%; gordura: 0,6% e cinzas: 1%),

provavelmente pela influência do tipo de manejo e alimentação administrada. No entanto, o

conteúdo de gordura está dentro da faixa de 0,3-0,8% encontrada por outros autores para a mesma

espécie (Azevedo & Oliveira, 1988; Corrêa, 1988; Lemos & Antunes, 1993; Lindau & Noll, 1988;

Mello et al., 2006).

ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS

Os resultados das análises microbiológicas do hambúrguer de carne de rã estão apresentados

na Tabela 4.

Tabela 4 - Resultado da análise microbiológica de hambúrguer de carne de rã-touro.

Análise

Hambúrguer de rã

Limites da

Legislação*

Coliformes a 45°C/g

<3

10³

Estaf. Coag. Positiva/g

<100

10³

Salmonella sp/25g

Ausência

Ausência

* Brasil (2001).

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De acordo com os resultados das análises microbiológicas, verificou-se que o hambúrguer produzido atende aos padrões microbiológicos exigidos pela legislação (Brasil, 2001). Analisando todos os procedimentos para a elaboração do hambúrguer, desde a aquisição da carne, correto uso do frio para preservação e emprego dos aditivos, bem como as boas práticas de fabricação, vimos que os procedimentos adotados possibilitaram a obtenção de um produto cárneo saudável e seguro.

AVALIAÇÃO SENSORIAL

O índice de aceitabilidade do hambúrguer de carne de rã foi de 88,4%, o que reflete a alta aceitabilidade desse produto pelos provadores, visto que o produto é considerado aceito sensorialmente quando o IA 70% (Teixeira; Meinert & Barbetta, 1987).

CONCLUSÕES

Com a realização do presente trabalho, obteve-se um hambúrguer de carne de rã com características adequadas para o consumo, tanto no aspecto sensorial, como microbiológico, confirmando a qualidade do produto, com possibilidade de inserção no mercado consumidor. De acordo com as características finais do produto em relação ao valor nutricional, microbiológico e sensorial, recomenda-se a produção de hambúrguer a partir da carne da carcaça de rã-touro gigante, porém recomendam-se futuros estudos de viabilidade econômica.

REFERÊNCIAS

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14

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Revista

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de

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2006

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Silva, N.; Junqueira, V. C. A; Silveira, N. A.; Taniwaki, M. H.; Santos, R. F. S. & Gomes, R. A. R. (2007). Manual de Métodos de Análise Microbiológica de Alimentos. 3ª ed. São Paulo: Varela.

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15

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PURIFICAÇÃO E ATIVIDADE ANTICOAGULANTE IN VITRO DE GALACTANAS SULFATADAS EXTRAÍDAS DA ALGA MARINHA VERMELHA Halymenia pseudofloresia

PURIFICATION AND IN VITRO ANTICOAGULANT ACTIVITY OF SULFATED GALACTANS EXTRACTED FROM THE RED MARINE ALGAE Halymenia pseudofloresia

José Ariévilo Gurgel RODRIGUES * ; Wladimir Ronald Lobo FARIAS

Departamento de Engenharia de Pesca, Laboratório de Bioquímica Marinha, Universidade Federal do Ceará

*Email: arieviloengpesca@yahoo.com.br

Recebido em: 7 de novembro de 2007

Resumo - A bioprospecção de novos agentes anticoagulantes é justificada devido aos efeitos adversos da heparinoterapia. O objetivo deste trabalho foi purificar e avaliar a atividade anticoagulante de galactanas sulfatadas da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia pelo uso da técnica das extrações sucessivas. Inicialmente, os polissacarídeos sulfatados totais foram extraídos através de digestão enzimática, sendo realizadas três extrações durante o processo (1 3 a,ext. ). Os PS foram purificados em coluna de troca iônica DEAE-celulose da qual foram obtidas frações (F n ) em diferentes concentrações de NaCl, sendo então dialisadas, concentradas por liofilização e submetidas à eletroforese em gel de agarose 0,5%. A atividade anticoagulante foi avaliada pelo Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA) no modelo in vitro utilizando plasma de coelho, sendo os resultados expressos em unidades internacionais (UI mg -1 ) utilizando-se um padrão de heparina com 100 UI mg -1 . O rendimento total foi bastante significativo (63,94%) e a coluna de troca iônica foi eficiente no isolamento e purificação das frações, revelando diferenças entre as extrações. A atividade anticoagulante das frações também diferiu entre as extrações da espécie, sendo seu efeito, pelo menos, 4,6 vezes maior na F 4 (1 a,ext ) e menor nas F 2 e F 3 da 3 a,ext , estas últimas com prolongamentos nos tempos de TTPA de apenas 1,87 e 1,73, respectivamente, em relação ao padrão. Entretanto, estudos são necessários a fim de esclarecer as alterações dessa atividade no decorrer do processo de extrações sucessivas, bem como pesquisas referentes ao cultivo e à conservação desses recursos são fundamentais para proteção dos bancos naturais de algas.

Palavras-chave: halymeniaceae, halymeniales, polissacarídeos sulfatados, atividade biológica.

Abstract - The bioprospection of new anticoagulant agents is justified due to adverse effects of heparinization. The aim of this study was to purify and evaluate anticoagulant activity of sulfated galactans of red marine alga Halymenia pseudofloresia by the using the technique of successive extractions. Initially, the crude sulfated polysaccharides were extracted by enzymatic digestion, and made three extractions during the process (1 3 a, ext. ). The PS were purified in an ionic exchange DEAE - cellulose column which were obtained fractions (F n ) in different concentrations of NaCl, and then they were dialyzed, concentrated by liofilization and subjected to electrophoresis agarose’s gel of 0.5%. The anticoagulant activity was evaluated by Activation Partial Thromboplastin Time (APTT) in in vitro model using plasma from rabbits, and the results expressed in international units (IU mg -1 ) using a standard heparin with 100 IU mg -1 . The total yield was significant (63.94%) and the column of ion exchange was effective in the isolation and purification of fractions, revealing differences between the extractions. The anticoagulant activity of fractions also differed between among the extractions of the species, and its effect was at least 4.6 times higher in F 4 (1 a, ext ) and lowest in F 2 and F 3 of 3 a, ext , these last results with extensions in times of APTT of only 1.87 and 1.73, respectively, compared to the standard. However, studies are needed to clarify the changes of this activity during the process of successive extractions, and researches about the cultivation and conservation of resources are essential to protection of the natural banks of algae.

Key words - halymeniaceae, halymeniales, sulfated polysaccharides, biological activity.

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INTRODUÇÃO As algas marinhas são ricas em polissacarídeos sulfatados (PS), principalmente, em muitas

espécies da divisão Rhodophyta. Os PS são polímeros formados por unidades repetitivas de

açúcares e dotados de carga negativa, devido à presença de radicais sulfatos (Mathews, 1975).

Entretanto, os PS não ocorrem isoladamente, os quais podem formar compostos de maior

complexidade denominados de proteoglicanos (Kjellén & Lindahal, 1991). Dentre as formas de PS

mais conhecidas destacam-se as galactanas sulfatadas (GS), as quais ocorrem em invertebrados

marinhos, algas marinhas vermelhas e gramíneas marinhas, este último representado por um grupo

de plantas vasculares que ocorrem em ambientes marinhos (Aquino et al., 2005).

Nas algas marinhas vermelhas, as GS também são conhecidas como carragenanas e agaranas,

compostos que apresentam unidades repetitivas alternadas de ligações β (13) galactopiranose e α

(14) galactopiranose (Van De Velde, Pereira & Rollema, 2004) e que são muito utilizados na

indústria na forma de géis e espessantes (Glicksman, 1983). A presença de vários grupos hidroxil na

molécula permite serem substituídos por ester sulfato, grupo metil e ácido pirúvico, o que contribui

para um alta heterogeneidade e complexidade das GS (Usov, 1998).

Várias frações de PS já foram isoladas e caracterizadas a partir de vegetais e animais com

propósito de avaliar suas atividades biológicas para o interesse biomédico (Zhang et al., 2003;

Souza, Dellias, Melo & Silva, 2007). Dentre elas, a propriedade anticoagulante está entre as

atividades mais investigadas no mundo, principalmente, de algas marinhas (Athukorala, Lee, Kim

& Jeon, 2007), tais como nas espécies Botryocladia occidentalis (Farias, Valente, Pereira &

Mourão, 2000), Gelidium crinale (Pereira et al., 2005), Halymenia floresia (Amorim et al., 2005) e

Lobophora variegata (Alencar, 2007).

O estudo com diferentes espécies de algas marinhas tem demonstrado que a conformação

estrutural varia de espécie para espécie, o que resulta em diferentes atividades anticoagulantes

(Dietrich et al., 1995; Haroun-Bouhedja, Mustafa, Sinquin & Boisson-Vidal, 2000). Rodrigues &

Farias (2006) observaram diferenças marcantes entre frações de PS obtidas a partir de extrações

sucessivas de duas espécies do gênero Halymenia, sugerindo-se que a técnica pode ser mais uma

estratégia importante na identificação de táxons e fármacos. A bioprospecção de novos agentes

anticoagulantes é justificada devido aos efeitos colaterais da heparina (extraída de boi e porco) a

qual pode levar a hemorragia e queda na contagem de plaquetas (Thomas, 1997) em pacientes com

estado de hipercoagulopatia ou sujeitos à trombose causada por diferentes etiologias (Weizt, 1994).

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O presente estudo teve como objetivo extrair, purificar e avaliar a atividade anticoagulante in

vitro em frações de polissacarídeos sulfatados obtidas em diferentes extratos da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia utilizando a técnica das extrações sucessivas.

MATERIAL E MÉTODOS

COLETA DA ALGA MARINHA

A coleta de Halymenia pseudofloresia (Halymeniaceae, Halymeniales) foi realizada na Praia

de Flexeiras, no município de Traíri - CE, em julho de 2005, a partir de exemplares arribados na zona entre-marés. Imediatamente após a coleta, os exemplares foram conduzidos ao Laboratório de Bioquímica Marinha da Universidade Federal do Ceará do Departamento de Engenharia de Pesca, acondicionados em sacos plásticos, onde foram removidos organismos incrustantes e/ou algas epífitas, lavados com água destilada e estocados a – 20 °C. Posteriormente, o material foi seco em estufa (15 h; 40 °C) para a extração dos PS totais (PST).

EXTRAÇÃO DOS PST DA ALGA MARINHA VERMELHA H. PSEUDOFLORESIA

Os PST foram extraídos de acordo com Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000) e otimizados segundo Rodrigues & Farias (2006). Brevemente, cinco gramas de alga desidratada em estufa (15 h; 40 °C) e triturada foram hidratadas com 250 mL de tampão acetato de sódio 0,1 M (pH 5,0) contendo cisteína 5 mM e EDTA 5 mM (AcNa). Em seguida, foram adicionados 17 mL de uma solução de papaína bruta (30 mg mL -1 ), sendo a mistura incubada em banho-maria a 60 °C por

24 horas. Após esse período, o material foi filtrado, centrifugado (8000 x g; 20 min.; 4 ºC) e, ao sobrenadante, foram adicionados três volumes consecutivos de 16 mL de cloreto de cetilpiridínio (CPC) a 10% para a precipitação dos polissacarídeos presentes na mistura por, no mínimo, 24 horas

à temperatura ambiente. Logo após a precipitação, o precipitado foi lavado com 250 mL de CPC

0,05% sendo, em seguida, dissolvido em 174 mL de cloreto de sódio 2 M:etanol absoluto (100:15;

v/v) e submetido a uma nova precipitação por, no mínimo, 24 horas a 4 °C, através da adição de mais 200 mL de etanol absoluto. Posteriormente o material foi centrifugado e submetido a duas lavagens com 250 mL de etanol a 80% e uma com 150 mL de etanol absoluto. Após esta etapa, o

precipitado foi então levado à estufa a 60 °C, por um período aproximado de 24 horas para secagem

e obtenção do extrato bruto. Os resíduos obtidos das extrações foram submetidos a novas extrações

a fim de otimizar o rendimento.

PURIFICAÇÃO DAS GS EM COLUNA DE DEAE-CELULOSE

Os PS brutos (10 mg), de cada extrato, foram dissolvidos em 5 mL de tampão acetato de sódio 0,1 M (pH 5,0) contendo cisteína 5 mM e EDTA 5 mM (AcNa) e aplicados em uma coluna de

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DEAE-celulose de troca iônica (6,5 x 1,5 cm) acoplada a um coletor de frações equilibrada com o mesmo tampão. A coluna foi eluída, passo a passo, com soluções de diferentes concentrações de NaCl (0,25; 0,50; 0,75; 1,0; 1,25; 1,50, 1,75 e 2,0 M) também preparadas no mesmo tampão de equilíbrio. O fluxo da coluna foi de 60 mL h -1 , sendo coletadas frações de 5 mL. Os PS foram monitorados pela propriedade metacromática com 1,9-azul-dimetilmetileno (DMB) utilizando um espectrofotômetro ajustado a 525 nm.

ELETROFORESE EM GEL DE AGAROSE

Após dialisadas exaustivamente contra água destilada, concentradas por liofilização e partindo de alíquotas de 10 µg de PS, as frações foram analisadas em eletroforese em gel de agarose 0,5% em tampão 1,3 - acetato diaminopropano (pH 9,0) de acordo com (Vieira, Mulloy & Mourão, 1991). As frações foram aplicadas no gel e a corrida foi realizada em voltagem constante (110 V) durante 60 min. Após a corrida, os PS presentes no gel foram fixados com uma solução de cetavlon 0,1% por 24 horas. Em seguida, o gel foi corado com azul de toluidina 0,1% e, finalmente, descorado com uma solução de etanol absoluto, água destilada e ácido acético concentrado (5:5:0,1; v/v/v).

DETECÇÃO DE CARBOIDRATO TOTAL (CT)

O CT nas frações foi determinado pelo método fenol-sulfúrico segundo Dubois, Gilles, Hamilton, Rebers & Smith (1956). Brevemente, a amostra de 50 µL de solução de polissacarídeo

foi incubada por 30 minutos com 350 µL de água destilada, 20 µL de fenol ré-destilado 5% e 1 mL de ácido sulfúrico concentrado. Após a incubação, a amostra foi levada ao espectrofotômetro para a leitura em 490 nm.

ENSAIOS ANTICOAGULANTES IN VITRO

Os testes anticoagulantes foram realizados in vitro pelo Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA) segundo Andersson, Barrowcliffe, HolmerJohnson & Sims (1976), utilizando plasma citratado de coelho. Primeiramente, o sangue de coelho foi centrifugado (73,75 x g; 15 min) para a obtenção de um plasma pobre em plaquetas. Para a realização do teste, foram incubados a 37 °C por 3 minutos 50 µL de plasma de coelho, 50 µL de cefalina ativada e 10 µL de solução de PS.

Após a incubação, foram adicionados 50 µL de cloreto de cálcio 0,025 M à mistura para ativar a cascata de coagulação. Os testes foram realizados em duplicata, sendo o tempo de coagulação determinado automaticamente pelo coagulômetro (Drake, modelo Quick-timer). A atividade foi

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expressa em unidades internacionais por mg (UI mg -1 ) utilizando como referência uma curva padrão de heparina (100 UI mg -1 ) da marca comercial Cristália.

RESULTADOS

RENDIMENTO

No total, foram realizadas três extrações e os resultados mostraram que o rendimento foi bastante elevado (63,94%), considerando todas as extrações. Além disso, a maior quantidade de PS foi obtida durante a 1 a extração, sendo decrescentes na 2 a e 3 a extrações, cujos rendimentos foram 58,96; 3,2 e 1,78%, respectivamente.

Os PS de algas marinhas podem ser obtidos através de diferentes metodologias de extração, tais como enzimáticas (Farias, Valente, Pereira & Mourão, 2000), aquosas (Marinho, 2001) e ácidas (Chotigeat, Tongsupa, Supamataya & Phongdara, 2004). O método utilizado neste estudo tem sido empregado para a extração de PS presentes em várias espécies de algas marinhas, sendo os maiores rendimentos obtidos nas Rhodophytas, como nas espécies Champia feldmanii (Torres, 2005), Solieria filiformis (Pontes, 2005) e outras espécies do gênero Halymenia (Rodrigues & Farias, 2006), com rendimentos de 36,2; 46,8; 47,14 e 53,96%, respectivamente. Geralmente, algas verdes (Chlrophytas) têm apresentado rendimentos mais inferiores, como Caulerpa sertularioides (7,1%) (Bezerra-Neto, 2005) e C. racemosa (13%) (Rodrigues & Farias, 2005). A primeira extração resultou no maior rendimento de PS de H. pseudofloresia, o que também foi observado em outras espécies do gênero (Rodrigues & Farias, 2006). Entretanto, o aumento ou diminuição do rendimento no decorrer das extrações tem sido observado em outras espécies, como na alga marinha parda Lobophora variegata (Alencar, 2007), a qual se obteve um rendimento de 28,4% de extrato total. O emprego de diferentes metodologias de extração (Villanueva, Pagba & Montano, 1997), variação sazonal (Bird, 1988) e a utilização de diferentes espécies (Levring, Hoppe & Schmid, 1969) influenciam no rendimento final. Desta forma, o método de extração utilizado foi bastante eficaz na obtenção de PS da alga vermelha H. pseudofloresia.

CROMATOGRAFIA DAS GS EM COLUNA DE DEAE-CELULOSE

Os perfis cromatográficos foram bem diferentes entre as extrações. Na 1 a extração (Figura 1, A) foram separadas cinco frações eluídas com 0,5 (F 1 ); 0,75 (F 2 ); 1,0 (F 3 ); 1,25 (F 4 ) e 1,50 M (F 5 ) de NaCl, das quais as maiores propriedades metacromáticas foram observadas nas frações eluídas com 0,75 e 1,0 M, respectivamente, durante o monitoramento em 525 nm. Na 2 a extração (Figura 1, B) foi possível observar que o perfil cromatográfico se destacou dentre todas as extrações da espécie. O extrato apresentou quatro frações, das quais a F 2 , eluída com

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0,75 M de sal, obteve a maior metacromasia. A referida fração também foi, praticamente, a maior diferença dentre todas as extrações da espécie. Já na Figura 1, C, 3 a extração, houve o desaparecimento de uma das frações no perfil, o que foi uma característica comum no decorrer do processo de otimização do rendimento desta espécie, apresentando metacromasias semelhantes a 1 a e menores em relação à 2 a extrações. As frações eluídas apresentaram como os maiores picos de PS dentre todas as frações obtidas nas diferentes extrações identificadas no monitoramento com DMB da espécie H. pseudofloresia. Em todos os perfis foi observada uma grande presença de carboidratos (Dubois), possivelmente em razão da extração de polissacarídeos neutros.

1 A

0,5 Açúcar F3 F2 Metacromasia 0,4 F4 0,4 F5 0,3 0,3 F1 0,2 0,2 0,1
0,5
Açúcar
F3
F2
Metacromasia
0,4
F4
0,4
F5
0,3
0,3
F1
0,2
0,2
0,1
0,1
0,0
0,0
0
10
20
30
40
50
Dubois 490 nm
Propriedade metacromática 525 nm
0,50 M
0,75 M
1,0 M
1,25 M
1,50 M

Frações (5mL)

1 B

Dubois 490 nm Açúcar 0,25 F2 0,25 Metacromasia 0,20 0,20 0,15 0,15 F4 F1 0,10
Dubois 490 nm
Açúcar
0,25
F2
0,25
Metacromasia
0,20
0,20
0,15
0,15
F4
F1
0,10
F3
0,10
0,05
0,05
0,00
0,00
0
10
20
30
40
Propriedade metacromática 525 nm
0,50 M
0,75 M
1,0 M
1,25 M

1 C

Frações (5mL)

Dubois 490 nm 0,5 0,30 Açúcar F2 Metacromasia F3 0,25 0,4 F1 0,20 0,3 0,15
Dubois 490 nm
0,5
0,30
Açúcar
F2
Metacromasia
F3
0,25
0,4
F1
0,20
0,3
0,15
0,2
0,10
0,1
0,05
0,0
0,00
0
5
10
15
20
25
30
Propriedade metacromática 525 nm
0,50 M
0,75 M
1,0 M

Frações (5 mL)

Figura 1 - Cromatografia em DEAE-celulose, por extração, dos polissacarídeos sulfatados totais da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia. A coluna foi equilibrada e lavada com tampão AcNa. Os PS adsorvidos no gel foram eluídos com o tampão de AcNa contendo NaCl em diferentes concentrações (0,50; 0,75; 1,0; 1,25 e 1,50 M). Os PS foram monitorados com azul dimetilmetileno a 525 nm. ( ) açúcar total ( ) propriedade metacromática.

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As diferenças marcantes nos perfis cromatográficos obtidos nas diferentes extrações da espécie foram semelhantes com outros trabalhos realizados com extrações sucessivas de PS, utilizando algas marinhas verdes, como C. racemosa (Rodrigues & Farias, 2005) e C. sertularioides (Bezerra-Neto, 2005), pardas, como na espécie L. variegata (Alencar, 2007), e vermelhas, como S. filiformis (Pontes, 2005) e outras espécies do gênero Halymenia (Rodrigues & Farias, 2006). O fato de se obter perfis comparativamente bem diferentes entre as extrações talvez seja justificado pela extração de PS mais diferenciados (Rodrigues & Farias, 2006).

ELETROFORESE EM GEL DE AGAROSE DAS FRAÇÕES

A eletroforese em gel de agarose revelou que, no geral, existem diferenças entre o grau de purificação das frações nas diferentes extrações, bem como no padrão de cargas entre o extrato bruto e as frações de PS obtidas de uma mesma extração. As frações F 1 , F 2 e F 3 (1 a extração) apresentaram um padrão de corrida com discreta diferença de cargas entre si, as quais não foram obtidas bandas bem definidas no gel, denotando uma baixa purificação. As frações e os extratos brutos obtidos nas 2 a e 3 a extrações mostraram um maior grau de resolução no decorrer do processo, sendo possível observar a presença de duas bandas bem definidas entre si no terceiro extrato (Figura 2). As frações F 1 , F 2 e F 3 apresentaram o mesmo padrão de cargas e com bandas bem definidas, indicando um alto grau de purificação. As duas bandas obtidas no extrato bruto diferiram entre si, claramente, pela densidade de cargas. A ausência de uma das bandas nas frações pode ser explicada pela falta de interação com a coluna de troca iônica DEAE-celulose, já que praticamente não é carregada.

DEAE-celulose, já que pr aticamente não é carregada. Figura 2 - Eletroforese em gel de agarose

Figura 2 - Eletroforese em gel de agarose 0,5% das frações obtidas na 3 a extração dos polissacarídeos sulfatados da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia. Extrato bruto (EB) e frações (F 1 , F 2 e F 3 ).

Alencar (2007) também obteve resultados semelhantes durante a purificação de fucanas, uma outra forma de PS, da alga marinha parda L. variegata utilizando a técnica. A pesquisa também

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revelou que é possível obter moléculas diferenciadas e com maior grau de purificação ao longo do

processo, uma vez que as fucanas sulfatadas também apresentam uma estrutura química bastante

heterogênea. Assim, a resina de DEAE-celulose foi bastante eficiente na purificação das frações de

PS de H. pseudofloresia e na interação com outros açúcares. As frações obtidas na 3ª extração

talvez possam se traduzir numa vantagem na caracterização dessas moléculas, tendo em vista a

grande complexidade estrutural das galactanas (Farias, Valente, Pereira & Mourão, 2000).

ENSAIOS ANTICOAGULANTES

A espécie apresentou atividade anticoagulante na maioria de suas frações de PS. As frações

mais ativas foram observadas na 1 a extração, sendo maior a F 4 , eluída com 1,25 M de NaCl,

seguida da F 2 (0,75 M) e F 3 (1,0 M), cujas atividades foram 464,2; 211,6 e 103,5 UI mg -1 ,

respectivamente (Tabela 1). A F 4 foi, pelo menos, 4,6 vezes mais potente que o padrão de heparina

utilizado, prolongando o tempo de coagulação do plasma de coelho em, no mínimo, 9 vezes.

Tabela 1 - Atividade anticoagulante (TTPA) das frações de polissacarídeos sulfatados obtidas da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia em relação à heparina não fracionada (HNF).

Extração

Frações

UI mg -1

TTPA (s)

T 1 T 0

-1

 

F

2

211,6

109,4

4,10

1 a

F

3

103,5

53,5

2,00

F

4

464,2

> 240,0 *

9,00

F

5

101,7

52,6

1,97

2 a

F 2

137,1

70,9

2,66

 

F

1

137,1

70,9

2,66

3 a

F

2

96,5

49,9

1,87

F

3

89,2

46,1

1,73

Heparina

HNF

100

51,7

1,94

Controle

-

-

26,7

1,00

Os valores representam a média de duas determinações; * além do limite de detecção em segundos.

Vários compostos anticoagulantes tem sido isolados e caracterizados de algas marinhas

Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000) reportaram acentuada atividade anticoagulante de uma D-

galactana sulfatada extraída da alga marinha vermelha B. occidentalis, onde o polissacarídeo inibiu

a ação da trombina via antitrombina e cofator II da heparina, estes últimos os reguladores

plasmáticos da coagulação sanguínea. Esses PS também apresentaram uma potente atividade

antitrombótica em ratos, quando a dose de 0,2 mg kg -1 expressou seu efeito máximo pelo modelo

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intravenoso (Farias, Nazareth & Mourão, 2001). Fucanas sulfatadas das algas marinhas pardas Laminaria digitata, Pelvetia canaliculata, Fucus vesiculosos, Sargassum muticum e Ascophyllum nodosum também possuem atividade anticoagulante as quais exercem um efeito inibitório direto sobre a trombina independente da antitrombina (Graufell, Kloareg, Mabeu, Durand & Jozefonvicz, 1989). Neste estudo, os PS obtidos da alga marinha vermelha H. pseudofloresia prolongaram significativamente o tempo de coagulação do plasma de coelho, sendo necessário a realização de mais testes a fim de descrever sua via de ação utilizando plasma humano normal. A atividade da F 4 (1 a extração) foi bastante superior comparada as demais frações de PS de H. pseudofloresia, principalmente da 3ª extração, a qual o efeito anticoagulante das F 2 e F 3 foi, praticamente, abolido em comparação a heparina utilizada. Compostos bioativos oriundos de algas podem ser obtidos através de várias técnicas. Torres (2005) relatou que extrações sucessivas utilizando duas metodologias de precipitação de PS (CPC e álcool etílico absoluto) obteve diferentes valores dos tempos de TTPA da espécie vermelha C. feldimanii. As maiores atividades anticoagulantes foram observadas em duas frações eluídas com 1,2 e 1,4 M de NaCl na 4 a extração pelo método CPC, prolongando os tempos de coagulação em cerca de 6,4 e 4,8 vezes, respectivamente. Duas frações de PS (F 5 e F 6 ), eluídas na 4 a extração da macroalga verde C. racemosa, exibiram elevadas atividades anticoagulantes, as quais prolongaram o tempo de coagulação em cerca de 6,5 vezes (Rodrigues & Farias, 2005), utilizando álcool etílico absoluto como agente precipitante de PS. Extrações sucessivas utilizando precipitações com CPC realizadas por Alencar (2007) da alga marinha parda L. variegata mostraram frações de PS com atividades anticoagulantes bem menores, prolongando o tempo de TTPA, no máximo, em apenas 2,1 vezes, quando avaliada in vitro uma fração obtida na 1 a extração utilizando plasma humano. Assim, a técnica das extrações sucessivas permite identificar moléculas bioativas que possam ser exploradas em diversos outros ensaios biológicos de interesse biomédico e expandir sua utilização para outras aplicações biotecnológicas. A baixa atividade anticoagulante de algumas frações de H. pseudofloresia não implica na ausência de outras atividades biológicas. A alga marinha vermelha Cryptonemia crenulata não apresentou atividade anticoagulante (Farias 2000), mas por outro lado, revelou-se como um potente agente antiviral (Talarico et al., 2004). Recentemente, os PS de H. pseudofloresia foram administrados na água de cultivo do camarão marinho Litopenaeus vannamei, reduzindo significativamente a taxa de mortalidade dos animais durante o estresse (Rodrigues, 2006). O uso de imunoestimulantes resulta na melhoria do crescimento e da sobrevivência dos organismos aquáticos quando expostos a condições adversas de estresse (Sakai, 1999).

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As alterações da atividade anticoagulante ao longo do processo talvez possam ser explicadas

pelas diferenças químicas estruturais dessas moléculas. Estudos relatam que a atividade anticoagulante está diretamente ligada à densidade de radicais sulfatos na molécula, pois a presença desses grupos sulfatados é que confere a atividade biológica (Nishino, Aizu & Nagumo, 1991). Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000) observaram que o posicionamento desses radicais também é muito importante para descrever o efeito da atividade. A estrutura conformacional dos PS varia entre espécies (Dietrich et al., 1995) e sugere-se que a obtenção de moléculas diferenciadas a partir do mesmo tecido da espécie H. pseudofloresia resultou em grandes alterações na atividade anticoagulante entre as frações da 1 a extração em relação aos PS obtidos nas extrações 2 a e 3 a , respectivamente. Novos ensaios biológicos mais específicos são necessários a fim de esclarecer as alterações desses efeitos na coagulação ao longo da técnica, relacionando atividade e estrutura. Desta forma, através da otimização do rendimento a partir de extrações sucessivas e da avaliação dos perfis cromatográficos, é possível extrair PS distintos alocados em diferentes camadas do tecido algal, os quais exibiram diferentes valores de TTPA no decorrer das extrações da alga vermelha H. pseudofloresia. No entanto, é necessária uma avaliação mais detalhada dessas moléculas ao longo de um período anual, já que a produção de PS pode variar de acordo com as condições climáticas ambientais, afetando também a ocorrência da atividade biológica. Assim, é de fundamental importância o manejo adequado desses recursos pesqueiros. Para isso, sugerem-se pesquisas referentes ao cultivo desses organismos para fins comerciais com o intuito de minimizar o impacto sobre os estoques naturais.

CONCLUSÃO

O estudo demonstrou que frações de polissacarídeos sulfatados obtidas em diferentes

extrações da alga marinha vermelha H. pseudofloresia resultaram em diferentes atividades anticoagulantes, das quais a F 4 , obtida na 1 a extração, apresentou comparativamente um efeito superior em relação às demais. No entanto, mais estudos são necessários a fim de esclarecer as alterações dessa atividade no decorrer do processo de extrações sucessivas e ações sustentáveis de manejo são extremamente importantes na conservação dos estoques naturais de algas.

AGRADECIMENTOS

O presente trabalho contou com o apoio financeiro do MCT/PADCT/CNPq/CAPES.

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VARIAÇÃO NICTEMERAL DO MACROZOOPLÂNCTON NA BARRA ORANGE - CANAL DE SANTA CRUZ, ESTADO DE PERNAMBUCO (BRASIL)

NYCTEMERAL VARIATION OF THE MACROZOOPLANKTON AT ORANGE - INLET SANTA CRUZ CHANNEL, PERNAMBUCO STATE (BRAZIL)

Pedro Augusto Mendes de Castro MELO 1* ; Sigrid NEUMANN-LEITÃO 1 ; Lucia Maria de Oliveira GUSMÃO 1 ; Fernando de Figueiredo PORTO NETO 2

1 Departamento de Oceanografia, Universidade Federal de Pernambuco

2 Departamento de Zootecnia, Universidade Federal Rural de Pernambuco

*E-mail: pedroamcm@yahoo.com.br

Recebido em: 11 de fevereiro de 2008

Resumo - Estudos sobre o macrozooplâncton foram realizados numa estação fixa localizada entre a desembocadura sul e a linha de recifes no canal de Santa Cruz – PE. O principal objetivo foi avaliar as variações nictemerais ao longo do ciclo de maré. As coletas foram realizadas durante preamares e baixa-mares em maré de sizígia nos dias 10 e 11 de março de 2001. Arrastos sub-superficiais foram realizados com rede de plâncton com 300 µm de abertura de malha. Dados de salinidade e temperatura foram obtidos para comparar com o zooplâncton. Foram identificados 48 taxa, 26 na baixa-mar com uma dominância do holoplâncton, e 40 na preamar, com dominância de zoeas de Brachyura. Copepoda esteve representado por 18 espécies, destacando-se Acartia lilljeborgi, Temora turbinata e Pseudodiaptomus acutus. Foi registrada diferença significativa entre as densidades médias nas duas marés (p=0,04), com maior densidade na baixa-mar e maior diversidade na preamar devido à influência marinha. Não houve diferença significativa entre as amostras diurnas e noturnas (p=0,88), evidenciando que a maré é o principal fator estruturador da comunidade do macrozooplâncton.

Palavras chave: zooplâncton, nictemeral, Canal de Santa Cruz, estuário.

Abstract - Macrozooplankton studies were carried out in a fixed station, located between the south outlet and the reefs at Santa Cruz Channel – PE. The main objective was to assess the nyctemeral variation along to tide cycle. Sampling were done during high and low tides of a spring tide in March 10 th and 11 th , 2001. Subsurface hauls were done with plankton net with 300 µm of mesh size. Salinity and temperature data were obtained to compare with zooplankton. It were identified 48 taxa, 26 at low tide with holoplankton dominance, and 40 at high tide with Brachyura zoeae dominance. Copepoda was present with 18 species, outranking Acartia lilljeborgi, Temora turbinata and Pseudodiaptomus acutus. Density significant differences (p=0,04) were registered between tides, with higher density at low tide and higher diversity during high tide due marine influence. No significant differences were observed between day and night samples (p=0,88), showing that tides are the main factor structuring the macrozooplankton community.

Key words: zooplankton, cictemeral, Santa Cruz channel, estuary.

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INTRODUÇÃO Os ambientes estuarinos são regiões costeiras semi-fechadas nas desembocaduras dos rios, sujeitas aos aportes dos rios e do fluxo marinho. Os nutrientes transportados pelos rios e a rápida troca entre as águas de superfície e sedimentos contribuem para uma produtividade biológica extremamente alta, sendo considerados um dos ecossistemas mais produtivos da Terra. Essa alta produtividade resulta da regeneração rápida e local dos nutrientes bem como dos aportes destes pelos rios e marés. Sua importância se estende aos ecossistemas marinhos através da sua exportação líquida de matéria orgânica, organismos e detritos particulados e dissolvidos (Ricklefs, 2003). Devido à sua alta produtividade e ao abrigo que oferecem aos organismos, os estuários com seus manguezais são áreas de alimentação importantes, sustentando populações abundantes de espécies estuarinas e marinhas, como as diversas fases iniciais do ciclo de vida de muitos peixes e invertebrados, que completam seu ciclo de vida no mar (Silva, 2002).

O zooplâncton, devido às diversidade de tamanho e capacidade natatória, e aos tipos de

alimentação, somadas a uma ampla distribuição, constitui uma comunidade bastante heterogênea (Palma & Kaiser, 1993). Por toda essa diversidade, o zooplâncton possui um papel fundamental,

pois serve como elo entre o fitoplâncton e muitos carnívoros, como crustáceos e peixes de interesse comercial, além de seu papel significativo na ciclagem de nutrientes e no transporte de energia de um ambiente para outro (Day Jr., Hall, Kemp & Yáñes Arancibia, 1989), abrigando, ainda, estágios larvais de alguns organismos não planctônicos.

A exportação do zooplâncton de estuários tropicais para a área costeira adjacente afeta as

teias alimentares pelágicas marinhas. Muitos organismos do zooplâncton, como por exemplo as larvas de crustáceos decápodos, são exportadas de estuários com manguezais para as áreas costeiras (Dittel & Epifanio, 1990; Dittel, Epifanio & Lizano, 1991; Schwamborn & Bonecker, 1996, Schwamborn, Ekau, Silva & Sait-Paul, 1999). Assim, o estudo da comunidade zooplanctônica é de importância fundamental por apresentar espécies indicadoras das condições ambientais dominantes, as quais mostram as características da água de onde foram extraídas (Wickstead, 1979; Margalef, 1983). Além disso, elas fornecem

informações sobre os processos interagentes, uma vez que, por serem influenciadas pelas condições bióticas e abióticas do meio (Fraser, 1962; Longhurst & Pauly, 1987), dão aviso prévio sobre agentes estressores, podendo ser utilizadas como ferramentas de monitoramento ambiental. Dessa forma, em áreas estuarinas sujeitas a múltiplos usos, alterações na estrutura da comunidade e na abundância das espécies podem indicar impactos antropogênicos.

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O estudo da distribuição vertical do zooplâncton coloca em evidência a existência de variações de curtos períodos ligadas à alternância dia/noite, isto é, migrações nictemerais (do grego nuctos=noite; hemera=dia). Muitos organismos realizam migrações verticais com um ritmo circadiano. Segundo Bougis (1974), a principal forma de migração de alguns organismos zooplanctônicos se faz de forma ascendente em direção à superfície durante o pôr do Sol e ao raiar da aurora e de maneira descendente por volta do meio do período noturno e após o nascer do dia, sendo a luz seu maior estímulo. Essas migrações também podem ser realizadas baseadas nas características hidrológicas e de temperatura da coluna d’água. Em áreas estuarinas, a principal variação da composição do zooplâncton depende do fluxo das marés, sendo nescessário coletas em períodos de 24 horas para melhores estimativas (McLusky,

1989).

Dentre os ecossistemas estuarinos do Nordeste do Brasil, destaca-se o Canal de Santa Cruz, pois é o centro do sistema estuarino de Itamaracá e um dos ecossistemas aquáticos mais estudados no Nordeste do Brasil, haja vista a publicação de vários trabalhos desde 1972. Apesar de toda sua importância, os estuários adjacentes ao Canal de Santa Cruz são diretamente afetados pelos resíduos industriais e urbanos, que condicionam o aparecimento de áreas impactadas, provocando um acentuado desequilíbrio neste ecossistema (Macedo, Flores-Montes & Lins, 2000). Desta forma, o conhecimento da dinâmica da comunidade zooplanctônica de Itamaracá (Pernambuco – Brasil) é de grande relevância, por contribuir para um maior conhecimento de um dos mais importantes ecossistemas estuarinos do ponto de vista socio-econômico para o Estado de Pernambuco (Gusmão, Neumann-Leitão, Schwamborn, Silva & Silva, 2004), onde grande parte da população da área depende da pesca. Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo verificar a variação diurna e noturna da comunidade zooplanctônica, além de observar a variação da composição da comunidade zooplanctônica ao longo de um ciclo de maré.

MATERIAL E MÉTODOS

O Canal de Santa Cruz é um braço de mar com 22 km de extensão e largura que varia de 0,6 a 1,5 km. Nele deságuam cinco rios principais. Em direção à plataforma costeira, recifes de arenito delimitam o sistema estuarino. Entre os recifes e a Ilha de Itamaracá, existe uma bacia rasa de aproximadamente 0,5 a 2 m de profundidade. Estudos recentes indicam que bancos de areia formam uma eficiente barreira entre a pluma estuarina e os prados de fanerógamas de Itamaracá

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(Schwamborn & Bonecker, 1996). Além dos arrecifes, algas calcáreas (Halimeda sp.) são abundantes, compondo boa parte do sedimento (Kempf, Mabesoone & Tinoco, 1970).

O sistema estuarino de Itamaracá pode ser classificado segundo Medeiros & Kjerfve (1993),

como tipo estuário-lagoa (tipo1), por apresentar um fluxo líquido de águas dirigidas para o mar (da

superfície ao fundo) e um transporte de sais predominantemente à montante, dominado por processos difusivos.

A área apresenta clima tropical úmido, com duas estações bem marcadas, uma seca (de

setembro a fevereiro) e uma chuvosa (de março a agosto).

DADOS ABIÓTICOS

Os dados de salinidade e temperatura foram obtidos simultaneamente às coletas de plâncton. Os valores de salinidade foram aferidos por meio de condutivímetro da marca WTW, calibrado pelo método de Mohr-Knudsen, como descrito por Strickland & Parsons (1965). A temperatura superficial da água foi medida por meio de termômetro digital. Os dados referentes às marés, amplitude e horário, foram obtidos na tábua de marés publicada pela Diretoria de Hidrografia e Navegação do Ministério da Marinha (DHN) para os dias de coleta. Foram utilizados os dados referentes ao porto do Recife, visto que as áreas apresentam marés semi-diurnas, apresentando uma defasagem de apenas 8 minutos, não sendo considerado como uma diferença marcante.

COLETA DO MACROZOOPLÂNCTON

As amostras do macrozooplâncton foram coletadas no canal de Santa Cruz – PE, numa estação fixa, localizada entre a desembocadura sul e a linha de recifes. Este local sofre influência alternada das águas do canal e da plataforma costeira adjacente, em função da maré predominante (Figura 1). As coletas foram realizadas na lua cheia (maré de sizígia) do mês de março de 2001, correspondendo aos dias 10 e 11, durante os picos de maré preamar (PM) diurna e noturna e baixa- mar (BM) diurna e noturna, durante dois ciclos nictemerais (dois ciclos de maré) consecutivos (Tabela 1). Foram realizados arrastos horizontais sub-superficialmente, durante 3 minutos, com o barco em deslocamento de 2 a 3 nós. Foi utilizada uma rede de plâncton cônica, de náilon, com 300 µm de abertura de malha, 0,60 m de diâmetro de boca e 3 m de comprimento, tendo um fluxômetro acoplado à boca. Após a coleta, cada amostra de plâncton foi colocada em um frasco plástico devidamente etiquetado, com capacidade aproximada de 500 mL, onde foi fixada com formol a 4% e neutralizada com bórax (5 g*L -1 ), de acordo com a técnica descrita por Newell & Newell (1963).

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Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008 Figura 1 - Localização da área estudada e

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Figura 1 - Localização da área estudada e da estação de amostragem, Canal de Santa Cruz, Itamaracá, Pernambuco (em vermalho). (Mapa: Schwamborn, 2004).

Tabela 1 - Código, data, horário, período e maré das amostras coletadas na desembocadura sul do Canal de Santa Cruz, durante os dias 10 e 11 de março de 2001.

Código

Data

Horário

Período

Maré

00h13 BM

10/3/2001

00h13

Noturno

BM

4h50 PM

10/3/2001

04h50

Noturno

PM

10h57 BM

10/3/2001

10h57

Diurno

BM

16h48 PM

10/3/2001

16h48

Diurno

PM

23h36 BM

10/3/2001

23h36

Noturno

BM

5h11 PM

11/3/2001

5h11

Noturno

PM

11h37 BM

11/3/2001

11h37

Diurno

BM

17h13 PM

11/3/2001

17h13

Diurno

PM

23h17 BM

11/3/2001

23h17

Noturno

BM

PROCESSAMENTO DO MATERIAL BIOLÓGICO EM LABORATÓRIO

Em laboratório, foi realizada a contagem do número total de taxa, baseando-se na unidade de

grandes grupos para o macrozooplâncton e na menor unidade taxonômica possível para os

Copepoda. Para a análise quali-quantitativa, cada amostra foi colocada em um béquer, adicionando-

se 2000 mL de água para diluição. Das amostras onde havia alta densidade de organismos foram

retirados 50 mL após a diluição, sendo novamente diluída para volumes diversos entre 200 e 500

mL, de acordo com quantidade de organismos.

34

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Em seguida a amostra foi homogeneizada, retirando-se três subamostras de 5,0 mL, com reposição, com o auxílio de uma pipeta tipo “Stempel” e vertida em uma placa de contagem do tipo Bogorov, analisada em estereomicroscópio composto, sendo os organismos manipulados com o auxílio de estiletes. Para identificação de estruturas morfológicas de caráter sistemático essenciais à identificação dos Copepoda, foram realizadas dissecações, sendo as partes dissecadas observadas em microscópio composto. Na identificação dos organismos zooplanctônicos foram consultadas, entre outras, as seguintes obras: Tregouboff & Rose (1957), Björnberg (1981) e Boltovskoy (1981; 1999).

TRATAMENTO NUMÉRICO DOS DADOS

A densidade dos organismos (ind.m -3 ) foi calculada seguindo a fórmula D = n.V f -1 , onde (n) é

o número total de organismos de cada táxon na amostra e (V f ) Volume total de água filtrado. A

abundância relativa foi calculada de acordo com a fórmula Ar = N.100.Na -1 , onde (N) Densidade total de organismos de cada táxon nas amostras e (Na) Densidade total de organismos nas amostras, com os valores expressos em percentagem e obedecendo a seguinte classificação: Dominante (>70%), abundante (7040%), pouco abundante (4020%) e raros (20%). A freqüência de ocorrência (F) foi calculada por meio da fórmula F = Ta.100.TA -1 , onde: (Ta) Número de amostras em que o táxon ocorre e (TA) Total de amostras. Os resultados, apresentados em percentagem, são considerados: muito freqüente (>70%); freqüente (7040%); pouco freqüente (4020%), esporádico (20%). O índice de diversidade de Shannon foi aplicado para estimar a diversidade da comunidade (Shannon, 1948) e o índice de eqüitabilidade foi calculado segundo Pielou (1966). As análises estatísticas foram baseadas nos dados de densidade (ind.m -3 ), com auxílio do programa PRIMER 5 (Plymouth Routines In Multivariate Ecological Research), para testar a similaridade entre as amostras. Também foi realizado o teste-t para verificar diferenças entre as marés (preamar e baixa-mar) e os períodos do dia (diurna e noturna).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

DADOS ABIÓTICOS

TEMPERATURA SUPERFICIAL DA ÁGUA

A temperatura superficial da água durante os dias de coleta variou com o horário do dia, com um valor mínimo de 29°C durante a preamar às 04h50 e com um valor máximo de 30,5°C durante

a baixa-mar às 10h57, ambas no dia 10/03/2001. Na Figura 2, observa-se que essa temperatura

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possui um padrão ao longo do dia, com um aumento do início da manhã até ao meio dia, seguido de uma gradual diminuição, de acordo com o ritmo de intensidade solar.

A temperatura é um dos principais fatores que controlam a distribuição e a atividade dos

organismos, agindo diretamente sobre a reprodução, crescimento e suas distribuições e alterando, de forma indireta, características da água como densidade, viscosidade, solubilidade de oxigênio e afetando na flutuabilidade, locomoção e respiração dos organismos aquáticos (Day Jr., Hall, Kemp & Yáñes Arancibia, 1989). O padrão de temperatura observado deve afetar a distribuição das espécies ao longo do dia na área estudada, apesar das flutuações serem mínimas. Essa pequena variação de temperatura é comum em estuários tropicais, como é o caso do canal de Santa Cruz (Porto-Neto, 1998; Galdino, 2004). As variações da temperatura em áreas tropicais são mais acentuadas quando se considera os períodos sazonais: seco e chuvoso. Já as diferenças entre as camadas superficial e profunda são pequenas, ocorrendo eventualmente nos estuários tropicais, pouco profundos, pequena estratificação térmica; sendo, também, a variação nictemeral pouco acentuada, com valores máximos durante o período diurno (Flores Montes, 1996; Macedo, Flores-Montes & Lins, 2000).

SALINIDADE

A salinidade variou pouco durante os horários de amostragem, com valor mínimo de 35,4

durante a preamar às 04h50 e o máximo de 37,6 durante a preamar às 16h48, ambas no dia 10/03/2001 (Figura 2). Não foi observado um padrão normal, em função das marés, com salinidades altas nas preamares e menores nas baixa-mares, evidenciando pouca influência na área estudada,

dos rios que desembocam no Canal de Santa Cruz.

31

30,5

30

29,5

29

28,5

28

Temperatura (ºC)

de Santa Cruz. 31 30,5 30 29,5 29 28,5 28 Temperatura (ºC) 38 37,5 37 36,5

38

37,5

37

36,5

36

35,5

35

34,5

34

Salinidade

(ºC) 38 37,5 37 36,5 36 35,5 35 34,5 34 Salinidade 00:13 4:50 10:57 16:48 23:36

00:13

4:50

10:57

16:48

23:36

5:11

11:37

17:13

23:17

00:13

4:50

10:57

16:48

23:36

5:11

11:37

17:13

23:17

BM

PM

BM

PM

BM

PM

BM

PM

BM

BM

PM

BM

PM

BM

PM

BM

PM

BM

Figura 2 - Variação da temperatura (ºC) e salinidade nos respectivos horários de coleta, desembocadura sul do Canal de Santa Cruz (Orange) durante os dias 10 e 11 de março de

2001.

36

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Os valores obtidos permitem caracterizar o ambiente como eualino, corroborando Macedo, Flores-Montes & Lins (2000), que afirmam que o Canal de Santa Cruz é caracterizado por regimes de salinidade que variam do eualino ao mesoalino.

MARÉ

A amplitude média observada durante o período de coleta foi de 2,5 m, com pico máximo de 2,5 m às 16h41 do dia 10 de março de 2001 e pico mínimo de -0,2 m às 22h58 do mesmo dia (Figura 3). Essa grande variação está relacionada à maré de sizígia ocorrente no período. O ambiente estuarino apresenta uma dinâmica complexa, que varia de acordo com a geomorfologia da área, força e direção das correntes e intensidade dos fluxos marinho e fluvial. A presença da Coroa do Avião, banco de areia que vem se transformando em ilha, próximo à área estudada pode estar influenciando a dinâmica das marés, alterando o ciclo normal de seis horas; contudo, estudos detalhados sobre este aspecto são necessários.

3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 04:21 10:28 16:41 22:58 05:02 11:08 17:23 23:38
3
2,5
2
1,5
1
0,5
0
04:21
10:28
16:41
22:58
05:02
11:08
17:23
23:38
-0,5

Figura 3 - Variação da altura da maré durante os dias 10 e 11 de março de 2001. Nível de maré segundo a tábua de marés para o ano de 2001 (Porto do Recife).

ASPECTOS QUALI-QUANTITATIVOS

SINOPSE TAXONÔMICA

O Macrozooplâncton esteve representado pelos Filos Sarcomastigophora, Cnidaria, Mollusca, Annelida, Crustacea, Chaetognatha, Echinodermata e Chordata. Foram observados 48 taxa, com domínio de Copepoda, larvas de Crustacea Decapoda e Chaetognatha. Para as amostras de preamar foram identificados 40 taxa e, para as amostras de baixa-mar, 26 taxa.

37

FREQÜÊNCIA DE OCORRÊNCIA

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

A Tabela 2 apresenta a freqüência de ocorrência do macrozooplâncton na área estudada.

Tabela 2 - Composição e freqüência de ocorrência (FO) do zooplâncton coletado no Canal de Santa Cruz (orange): ****Muito freqüente; ***Freqüente; **Pouco freqüente; *Esporádico.

Taxa

FO

Taxa

FO

FORAMINIFERA CNIDARIA Hydrozoa (pólipo) Hydromedusa Liriope sp. MOLLUSCA Gastropoda (Larva) ANNELIDA Polychaeta (Larva) CRUSTACEA Crustacea (náuplios) Ostracoda Calanoida Nannocalanus minor Paracalanus aculeatus Paracalanidae (outros) Centropages furcatus Pseudodiaptomus Temora turbinata Labidocera fluviatilis Labidocera nerii Calanopia americana Acartia lilljeborgi Cyclopoida Oithona hebes Harparcticoida Microsetella rosea Euterpina acutifrons Longipedia sp. Eudactylopus sp. Poecilostomatoida Corycaeus giesbrechti Farranula gracilis Monstrilloida Cymbasoma sp.

22,2%

22,2%

44,4%

11,1%

100%

44,4%

33,3%

11,1%

22,2%

22,2%

11,1%

22,2%

88,9%

88,9%

44,4%

11,1%

33,3%

100%

11,1%

11,1%

11,1%

11,1%

11,1%

33,3%

11,1%

11,1%

**

**

***

*

****

***

**

*

**

**

*

**

****

****

***

*

**

****

*

*

*

*

*

**

*

*

Cirripedia (náuplio) Cirripedia (cípris) Decapoda Lucifer faxoni () Lucifer faxoni () Lucifer sp. (protozoea) Lucifer sp. (mísis) Caridea (zoea)

Alpheidae (zoea) Peneaeidae (protozoea) 11,1% *

Upogebia sp. Anomura (zoea) Porcellanidae (zoea) Paguridae (zoea) Paleomonidae Dromiidae Hipollitidae Brachyura (zoea I) Brachyura (zoea II) Brachyura (zoea III) Brachyura (megalopa) Stomatopoda (antizoea) Cumacea Isopoda Mysidacea Gammaridea CHAETOGNATHA ECHINODERMATA CHORDATA Appendicularia Teleostei (Ovos) Teleostei (Larvas) Teleostei (Juvenil)

88,9%

****

33,3%

**

88,9%

****

55,5%

***

88,9%

****

100%

****

77,8%

****

44,4%

***

66,6%

22,2%

88,9%

22,2%

11,1%

11,1%

11,1%

100%

88,9%

66,6%

22,2%

11,1%

22,2%

11,1%

11,1%

55,5%

88,9%

11,1%

55,5%

44,4%

55,5%

22,2%

***

**

****

**

*

*

*

****

****

***

**

*

**

*

*

***

****

*

***

***

***

**

Em relação aos Copepoda, observa-se que, dentre os Calanoida, destacaram-se como muito

freqüentes: Acartia lilljeborgi, presente em todas as amostras; Temora turbinata e Pseudodiaptomus

acutus com 88,89%. Apenas Labidocera fluviatilis (44,44%) foi considerada freqüente, enquanto

Calanopia americana (33,33%), Paracalanus aculeatus (22,22%), Centropages furcatus (22,22%),

38

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Nanocalanus minor (22,22%) foram pouco freqüentes e outros Paracalanidae e Labidocera nerii, ambos com 11,11%, foram considerados raros. A ordem Poecilostomatoida foi representada por Corycaeus giesbrechti, pouco freqüente com 33,33%, e Farranula gracilis com 11,11%, sendo considerada esporádico. A ordem Harpacticoida, representada por Euterpina acutifrons, Microsetella rosea, Longipedia sp. e Eudactylopus sp., junto com Oithona hebes (Cyclopoida) e Cymbasoma sp. (Monstrilloida) foram esporádicas, todas com apenas 11,11% de ocorrência. Dentre os demais grupos zooplanctônicos destacaram-se como muito freqüentes mísis de Lucifer sp., zoea I de Brachyura e Heteropoda, presentes em todas as amostras, protozoea de Lucifer sp., Lucifer faxoni (), zoea de Porcellanidae, zoea II de Brachyura, náuplios de Cirripedia e Chaetognatha, todas com 88,89% de ocorrência, além das zoea de outros Caridea (77,78%).

ABUNDÂNCIA RELATIVA

Dentre os grupos mais abundantes, observou-se zoea I de Brachyura como dominante em duas amostras, 17h13 PM e 10h57 BM, abundante nas amostras das 04h50 PM, 16h48 PM e 11h37 BM e pouco abundante nas demais amostras. Acartia lilljeborgi foi considerada abundante nas amostras 23h36 BM e 05h11 PM, e rara nas amostras 16h48 PM e 17h13 PM, sendo pouco abundante nas demais amostras. Temora turbinata foi pouco dominante em duas amostras, 00h13 BM e 23h36 BM, sendo rara nas demais. Todos os demais organismos foram considerados raros em todas as amostras (Figura 4).

100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 00h13 04h50 10h57 16h48
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
00h13
04h50
10h57
16h48
23h36
05h11
11h37
17h13
23h17
BM
PM
BM
PM
BM
PM
BM
PM
BM
Temora turbinata
Acartia lilljeborgi
Brachyura (zoea I )
Outros

Figura 4 - Abundância relativa do zooplâncton no Canal de Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 de março de 2001.

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Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Quando se considera a abundância relativa total, Copepoda foi o grupo dominante com 42,02% dos organismos, seguido pelo estágio inicial de Brachyura (38,80%) e, ainda, com densidades bastante inferiores, por zoea II de Brachyura, Chaetognatha e Lucifer faxoni (), com 2,61%, 2,27% e 1,90%, respectivamente (Figura 5).

1,45% 1,64% 5,30% 1,90% 2,27% 2,61% 4,01% 38,80%
1,45%
1,64%
5,30%
1,90%
2,27%
2,61%
4,01%
38,80%

42,02%

Copepoda1,64% 5,30% 1,90% 2,27% 2,61% 4,01% 38,80% 42,02% Brachyura (zoea I ) Decapoda, outros Brachyura (zoea

Brachyura (zoea I )5,30% 1,90% 2,27% 2,61% 4,01% 38,80% 42,02% Copepoda Decapoda, outros Brachyura (zoea II ) Chaetognatha Lucifer

Decapoda, outros2,61% 4,01% 38,80% 42,02% Copepoda Brachyura (zoea I ) Brachyura (zoea II ) Chaetognatha Lucifer faxoni

Brachyura (zoea II )38,80% 42,02% Copepoda Brachyura (zoea I ) Decapoda, outros Chaetognatha Lucifer faxoni ( ♀ ) Lucifer

ChaetognathaBrachyura (zoea I ) Decapoda, outros Brachyura (zoea II ) Lucifer faxoni ( ♀ ) Lucifer

Lucifer faxoni (♀ ) )

Lucifer sp (protozoea)Brachyura (zoea II ) Chaetognatha Lucifer faxoni ( ♀ ) Gastropoda Outros Figura 5 - Composição

Gastropoda) Chaetognatha Lucifer faxoni ( ♀ ) Lucifer sp (protozoea) Outros Figura 5 - Composição da

OutrosLucifer faxoni ( ♀ ) Lucifer sp (protozoea) Gastropoda Figura 5 - Composição da comunidade zooplanctônica

Figura 5 - Composição da comunidade zooplanctônica no Canal de Santa Cruz, durante os dias 10 e 11 de março de 2001.

DENSIDADE

A densidade média na baixa-mar foi cerca de três vezes maior que na preamar. Segundo Melo Júnior (2005), os organismos do zooplâncton que habitam ambientes com influência das marés têm como pré-requisito uma sincronização das atividades de migração vertical, o que justifica essa grande diferença entre as densidades. Quanto ao período do dia não foi observada uma variação muito grande entre as densidades médias (Figura 6).

3461,98 3500 3000 2500 2000 1500 1199,16 1000 500 0 BM PM
3461,98
3500
3000
2500
2000
1500
1199,16
1000
500
0
BM
PM
2524.34 2371.18 2500 2000 1500 1000 500 0 Diurna Noturna
2524.34
2371.18
2500
2000
1500
1000
500
0
Diurna
Noturna

Figura 6 - Densidade média (ind.m -3 ) quanto à maré (esquerda) e período do dia (direita), do macrozooplâncton no Canal de Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 de março de

2001.

40

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Quanto ao tempo de permanência no ambiente pelágico, as amostras da baixa-mar apresentaram 55,24% de organismos holoplanctônicos e 44,76% de organismos meroplanctônicos. Enquanto que, as amostras da preamar apresentaram-se de forma inversa, com os organismos meroplanctônicos superando quantitativamente os organismos holoplanctônicos, sendo responsáveis por 60,75% e 39,25%, respectivamente (Figura 7).

2000

1800

1600

1400

1200

1000

800

600

400

200

0

1912.28 1549.69 728.52 470.64 BM PM Holoplâncton Meroplâncton
1912.28
1549.69
728.52
470.64
BM
PM
Holoplâncton
Meroplâncton

Figura 7 - Densidade média (ind. m -3 ) do zooplâncton durante a baixa-mar (BM) e a preamar (PM) no Canal de Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 de março de 2001.

A dominância de organismos holoplanctônicos é uma característica da população zooplanctônica estuarina, fato descrito por vários autores para diversos estuários ao longo da costa brasileira (Tundisi, 1970; Matsumura-Tundisi, 1972; Schwamborn & Bonecker, 1996; Porto-Neto, 1998; Paranaguá, Nascimento-Vieira, Gusmão, Neumann-Leitão & Schwamborn, 2004; Silva, Neumann-Leitão, Schwamborn, Gusmão & Nascimento-Vieira, 2003; dentre outros). Este fato foi confirmado para a maioria das amostras presentemente estudadas; entretanto, durante a preamar, provavelmente pela grande migração de Brachyura (meroplâncton) do canal para a área de coleta, houve uma alteração desse padrão. Tundisi (1970) e Day Jr., Hall, Kemp & Yáñes Arancibia (1989) mencionam que, em determinados períodos, há nos estuários o predomínio do meroplâncton, geralmente associado ao período reprodutivo. Muitos estudos sobre fauna planctônica de estuários têm mostrado que a quantidade de espécies pode variar de uma região para outra, mas a predominância numérica dos Copepoda é característica nos estuários brasileiros, representando mais de 70% dos organismos do macrozooplâncton (Tundisi & Matsumura-Tundisi, 1968; Neumann-Leitão, 1995; Paranaguá, Nascimento-Vieira, Gusmão, Neumann-Leitão & Schwamborn, 2004).

41

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Na região estuarina de Itamaracá, essa dominância foi confirmada em trabalhos como Paranaguá & Nascimento (1973), Paranaguá, Nascimento & Macêdo (1979), Nascimento (1980), Por & Almeida-Prado (1982), Paranaguá & Nascimento-Vieira (1984), Silva (1997), Porto-Neto (1998), Silva, Neumann-Leitão, Schwamborn, Gusmão & Nascimento-Vieira (2003), Galdino (2004) e Melo et al. (2005). Foi observada uma alta densidade do estágio inicial de Brachyura (zoea I), com picos de até 3.925,23 ind.m -3 durante a baixa-mar às 10h57 do dia 10 de março (Figura 8). Pelo menos 85% das zoea encontradas nas amostras pertenciam a este estágio. Altas abundâncias numéricas de zoeas de Brachyura são típicas de estuários com manguezais (Dittel & Epifanio, 1990; Schwamborn & Bonecker, 1996). Esses valores podem indicar um período reprodutivo recente, com a liberação das larvas durante a lua cheia para fora do canal de Santa Cruz, para a região próxima a linha de recifes, área das coletas do presente estudo, como sugerido por Silva (2002). Esta exportação das zoeas para a plataforma continental ocorre durante a noite na maré vazante, quando a força da correnteza é maior (Schwamborn & Bonecker, 1996), justificando as altas densidades observadas principalmente nas baixa-mares diurnas, na maré seguinte, na área costeira adjacente. Posteriormente, as megalopas retornam ao ecossistema manguezal onde vivem os adultos, sendo esse padrão de migração comumente utilizado para diminuir a predação das larvas nos estuários (Schwamborn, 1997). Picos sazonais de alguns Decapoda podem mudar os padrões temporariamente, e muitas espécies de Brachyura, Caridea e Sergestoida podem ser registradas como dominantes em estuários da costa brasileira (Tundisi & Matsumura-Tundisi, 1968; Neumann-Leitão, 1995; Schwamborn, 1997; Paranaguá, Nascimento-Vieira, Gusmão, Neumann-Leitão & Schwamborn, 2004).

500

400

300

200

100

0

776,8 3925,2 904,5 642,0 1015,3 00h13 04h50 10h57 16h48 23h36 05h11 11h37 17h13 23h17 BM
776,8
3925,2
904,5
642,0
1015,3
00h13
04h50
10h57
16h48
23h36
05h11
11h37
17h13
23h17
BM
PM
BM
PM
BM
PM
BM
PM
BM
Brachyura (zoea I )
Brachyura (zoea II )
Brachyura (zoea III )

Figura 8 - Densidade (ind. m -3 ) dos Brachyura no Canal de Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 de março de 2001.

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Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Dentre os Copepoda, durante a baixa-mar foi evidenciado um predomínio de Acartia lilljeborgi, com média de 1029,26 ind.m -3 (Figura 9). Esta é uma espécie indicadora de águas costeiras e que suporta uma ampla variação de salinidade, ocorrendo em todos os estuários do Brasil (Neumann-Leitão, 1994), sendo freqüentemente dominante entre os copepoda estuarinos. Silva, Neumann-Leitão, Schwamborn, Gusmão & Nascimento-Vieira (2003), também observaram esse predomínio no canal de Santa Cruz. Temora turbinata, com média de 221,54 ind.m -3 , foi a segunda espécie mais representativa para a baixa-mar. Esta espécie tem grande ocorrência em todo o globo, sendo mais freqüente em águas costeiras e estuarinas (Björnberg, 1981). Pseudotiaptomus acutus apresentou uma média de 49,07 ind.m -3 . Esta é uma espécie muito numerosa e em águas de baías e manguezais, desde a desembocadura do rio Amazonas até a costa sul do Brasil (Björnberg, 1981). Para a preamar também houve um predomínio de Acartia lilljeborgi, com média de 338,70 ind.m -3 , representando 91,78% dos Copepoda. Pseudodiaptomus acutus foi a segunda espécie mais representativa com média de 10,84 ind. m -3 (Figura 9).

3,26% 2,14% 26,31% 68,30% Acartia lilljeborgi Temora turbinata
3,26% 2,14%
26,31%
68,30%
Acartia lilljeborgi
Temora turbinata
2,94% 5,29% 91,78% Pseudodiaptomus acutus Outros
2,94% 5,29%
91,78%
Pseudodiaptomus acutus
Outros

Figura 9 - Composição dos Copepoda na baixa-mar (esquerda) e preamar (direita), no Canal de Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 de março de 2001.

Labidocera fluviatilis apresentou média de 4,44 ind.m -3 . Essa espécie é numerosa e bastante comum em águas costeiras e estuarinas de regiões tropicais e subtropicais da costa sulamericana (Björnberg, 1981). Em ambas as marés, foi observado uma grande quantidade de copepoditos de Acartia lilljeborgi e Pseudotiaptomus acutus, esta última apresentando ainda indivíduos com sacos ovígeros, evidenciando área favorável ao desenvolvimento dessas espécies.

43

ÍNDICES DE DIVERSIDADE E EQÜITABILIDADE

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

A diversidade de espécies nas amostras variou de baixa a média, com máximo de 2,613

bits.ind -1 e mínimo de 1,131 bits.ind -1 , nas amostras das 23h17 BM e 17h13 PM, respectivamente. Outros estudos em estuários pernambucanos mostram valores próximos a estes, podendo também apresentar valores maiores que 3 bits.ind -1 em alguns casos (Figura 10). Segundo Neumann-Leitão (1994) as diversidades mais baixas ocorrem, geralmente, em períodos reprodutivos de determinadas espécies quando uma única espécie passa a dominar a comunidade. Quanto à eqüitabilidade, na maior parte das amostras os valores foram maiores que 0,5 ou estiveram muito próximos a esse valor, demonstrando uma eqüitatividade média das amostras. Também pôde ser observado que as amostras diurnas, quando comparadas com as noturnas, apresentaram-se menos eqüitativas, com valores mais distantes de 0.5, como a estação 17h13 PM, com eqüitabilidade de 0,273 (Figura 10), evidenciando o predomínio de uma ou poucas espécies.

3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 00h13 04h50 10h57 16h48 23h36 5h11 11h37 17h13
3
2,5
2
1,5
1
0,5
0
00h13
04h50
10h57
16h48
23h36
5h11
11h37
17h13
23h17
BM
PM
BM
PM
BM
PM
BM
PM
BM

Figura 10 - Diversidade (bits.ind -1 ) e Eqüitabilidade do zooplâncton no Canal de Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 de março de 2001.

ANÁLISE ESTATÍSTICA

O teste-t realizado para comparação das médias das amostras quanto às marés, mostrou a

existência de uma diferença significativa entre a baixa-mar e preamar (p=0,04). Essa diferença na densidade se faz por uma maior ou menor influência da maré, alterando características importantes na distribuição das espécies, sendo registrado, na baixa-mar, uma densidade muito maior e uma diversidade menor.

44

Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Quanto ao período do dia, não foi observada diferença significativa entre as amostras diurnas e noturnas (p=0,88).

O Cluster feito para análise de similaridade entre as amostras (Figura 11), demonstrou um

forte agrupamento entre as amostras de baixa-mar, diferenciando-as das amostras de preamar, como

observado no teste-t.

das amostras de preamar, como observado no teste-t. Figura 11 - Similaridade das amostras de ma

Figura 11 - Similaridade das amostras de macrozooplâncton na desembocadura sul do Canal de Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 de março de 2001. Índice: Bray e Curtis.

É interessante observar que a maré teve um forte papel estruturador no macrozooplâncton

favorecendo, na baixa-mar, a reprodução e, na preamar, a diversidade, quando espécies marinhas costeiras são introduzidas na área. Por outro lado, a variação nictemeral parece afetar mais as larvas de Decapoda, liberadas geralmente à noite (Dittel & Epifanio, 1990), não havendo diferenças significativas para o restante da comunidade zooplanctônica, principalmente os Copepoda.

CONCLUSÕES

Foram identificados 48 taxa, 40 na preamar e 26 na baixa-mar, com domínio de Copepoda, larvas de Crustacea Decapoda e Chaetognatha. Ocorre a dominância de organismos holoplanctônicos na baixa-mar, característica de população zooplanctônica estuarina. Na preamar há uma alteração desse padrão, pela grande migração de Brachyura para a plataforma adjacente. As altas densidades observadas principalmente nas baixa-mares diurnas evidenciam a exportação das zoeas para a plataforma continental durante a noite na maré vazante.

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Rev. Bras. Enga. Pesca 3(2), jul. 2008

Houve variação significativa entre as densidades médias nas duas marés, com a baixa-mar favorecendo a reprodução e a preamar a diversidade. Não foi observada variação na densidade do zooplâncton quanto ao período do dia, evidenciando a maré como fator estruturador do macrozooplâncton.

REFERÊNCIAS

Björnberg, T.K.S. (1981). Copepoda In: Boltovskoy, D. (ed.). Atlas del zooplancton del Atlantico Sudoocidental y métodos de trabajos com el zooplancton marino. INIDEP, Mar del Plata, 936 p.

Boltovskoy, D. (1981). Atlas del zooplancton del Atlantico Sudoocidental y métodos de trabajos com el zooplancton marino. INIDEP, Mar del Plata, 936 p.

Boltovskoy, D. (1999). South Atlantic Zooplankton. Leiden: Backhuys Publishers, 2 vol., 1706p.

Bougis, P. (1974). Ecologie du plancton marin. Tome II- Le zooplancton. Masson et Cie., Paris:

200p.

Day Jr., J.W., Hall, C.A.J., Kemp, W.M. & Yáñes Arancibia, A. (1989). Estuarine Ecology. New York: J. Willey. 556 p.

Dittel, A.I. & Epifanio, C.E. (1990). Seasonal and tidal abudance of crab larvae in a tropical mangrove system, Gulf of Nicoya, Costa Rica. Mar. Ecol. Prog. Ser. 65: 25-34.

Dittel, A.I., Epifanio, C.E. & Lizano, O. (1991). Flux of crab larvae in a mangrove creek in the Gulf of Nicoya, Costa Rica. Estuar. Coast. Shelf. Sci. p.129-140.

DHN - Diretoria de Hidrografia e Navegação. (2001). Tábuas de marés para o ano de 2001 (Porto do Recife). Ministério da Marinha, Rio de Janeiro.

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