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Auto Da Compadecida

O Auto da Compadecida é uma peça que retrata as peripécias de João Grilo e Chicó, que tentam enganar o Major Antônio Moraes para conseguir a bênção de uma cachorrinha. A história se desenrola com a chegada de cangaceiros e a confusão gerada pela busca de um enterro adequado para a cachorra, culminando em situações cômicas e tensas. O enredo explora temas como fé, esperteza e a luta pela sobrevivência em um contexto de injustiça social.
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Auto Da Compadecida

O Auto da Compadecida é uma peça que retrata as peripécias de João Grilo e Chicó, que tentam enganar o Major Antônio Moraes para conseguir a bênção de uma cachorrinha. A história se desenrola com a chegada de cangaceiros e a confusão gerada pela busca de um enterro adequado para a cachorra, culminando em situações cômicas e tensas. O enredo explora temas como fé, esperteza e a luta pela sobrevivência em um contexto de injustiça social.
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O Auto da Compadecida

Cena 01
(João e Chico entram na sala, meio desconfiado.)

João Grilo: Patrão! Aconteceu algo muito desagradável com um ente muito querido
seu...

Eurico: Pois eu quero é que Dorinha se dane!

João Grilo: Não, eu estou falando é da sua cachorrinha!

Eurico: Ave Maria, o que aconteceu com bolinha?!

Eurico: Vá chamar Padre João pra benzer minha cachorrinha!

Chicó: Benzer?

Cena 02
João Grilo: O Bispo está pra chegar, tenho certeza que Padre João não vai querer
benzer a cachorra!

João Grilo: Padre João, a gente queria lhe pedir um favor.

Padre João: Pode pedir meu filho, se estiver no meu alcance...

Chicó: É que a gente queria que o senhor benzesse uma cachorra...

Padre João: Uma cachorra?! Pra eu benzer?

Chicó: Sim!

Padre João: Que maluquice, Não benzo de jeito nenhum!

João Grilo: Mas Padre João, no dia que chegou o motor novo do Major Antônio
Moraes o Senhor não benzeu?

João Grilo: É, deixa pra lá Chicó, o padre tem razão! Quem vai ficar engraçado é ele
quando eu contar pro MAJOR ANTÔNIO MORAES que o padre não quis benzer a
bichinha dele!

Padre João: Como?!

Padre João: MININO! E o dono da cachorra que vocês estão falando é o Major
Antônio Moraes, é?

Chicó: É!

João Grilo: Então quer dizer que benze né?


Padre João: Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus!

Chicó: Então vamos voltar pra padaria, dar a notícia pra patroa?

(Os dois saem da igreja)


Cena 03
Chicó: João, tu não acha meio perigoso usar o nome de Antônio Moraes nesse teu plano
maluco não? Vai que o homem aparece na cidade.

João Grilo: Se acalme Chicó, porque no dia que esse homem aparecer na cidade
galinha cria dente!

(Nessa hora chega o A.M pra conversar com Eurico. / Chico e J.G veem de longe)

Antônio Moraes (A.M): Isso aqui tá pior que merda de pombo! Se alembra da minha
filha Rosinha? (fala com Eurico)

Eurico: Oxi! É Claro! Cabelos pretos, ombros fortes.

Antônio Moraes: É pois, Rosinha andou meio adoentada e chegou do Recife para
descansar na fazenda, e me pediu que viesse com padre para lhe dar benção.

João Grilo: Eita Chicó, vamos impedir o homem de se encontrar com o padre!

Chicó: Vá você! Não foi tu que inventou essa história? Se gosta de embrulhada, que
resolva.

João Grilo: Mas tu foi mais eu encomendar a benza da cachorra.

Chicó: Antônio Moraes pode até ter o cavalo bento, mas ele de bento não tem é nada.
Não me meta nessa história não.

Cena 04
João Grilo: Ora viva, seu Major Antônio Moraes, veio procurar o padre...? A.M:

Tá perguntando muito!

João Grilo: Vou lhe contar um negócio, não se espante não, é que o padre está meio
doido!

A.M: O padre?! Doido?!

João Grilo: O padre está de um jeito que não respeita mais ninguém. benze tudo e
chama a gente de cachorro!

A.M: Isso é porque foi com você, comigo é diferente.

João Grilo: Se vossa senhoria me permitir penso que não!

A.M: Vamos esclarecer essa história ou alguém vai pagar por isso!
Cena 05
Padre: Ora quanta honra, uma pessoa como o senhor na Igreja. O que te trouxe aqui?
Não me diga eu já sei, a bichinha está doente. A.M:

É, já sabia?

Padre: Já, aqui as coisas se espalham num instante não sabe?! Já está fedendo? A.M:

Fedendo? Quem?!

Padre: A bichinha.

A.M: Não, mas o que é que o senhor quer dizer?

Padre: Nada não, é apenas um modo de falar.

Padre: Qual é a doença Major, rabugem? A.M:

Rabugem?

Padre: Sim, já vi uma morrer disso em poucas horas, começou pelo rabo, e espalhou-se
pelo corpo inteiro. A.M: Pelo rabo?!

Padre: Aí me desculpe, eu devia ter dito pela cauda, devemos respeito aos enfermos,
mesmo sendo dá mais baixa qualidade.

A.M: Baixa qualidade?! Padre!!! Veja bem com quem está falando, a igreja é coisa séria
como garantia da sociedade. Mas tudo tem um limite!!!

Padre: Mas o que foi que eu disse?! A.M:

Baixa qualidade...

A.M: O que o senhor tá querendo insinuar, que por acaso a mãe dela...?

Padre: Uma cachorra...

A.M: O quê...?! Repita!

Padre: Eu vejo mal nenhum em repetir, mas ela não é mesmo uma cachorra? A.M:

Padre, eu só não lhe mato porque o senhor é padre e está louco!

Cena 06
Chicó: Bom dia patroa!

Eurico: E aí?

Chicó: Ah sim, o padre disse que não benzia não. Num foi João?

João Grilo: Foi sim, e disse mais, só benzia se fosse a cachorra do Major Antônio
Moraes!
Eurico: Oxi, mas que negócio é esse?! Chicó fica aqui cuidando de Bolinha que eu vou
falar com o padre!

Cena 7
Eurico: Se o senhor tivesse benzido a bichinha, a essas horas ela ainda estava viva!

Padre: Ah qual, qual! Quem sou eu?

Eurico: Agora tem uma coisa, Padre! O senhor vai enterrar a cachorra.

Padre: Enterrar a cachorra?

Eurico: Vai enterrar e tem que ser em latim, de outro jeito não serve!

Padre: Vocês estão loucos, não enterro de jeito nenhum.

Eurico: Pois está cortado o rendimento da irmandade!

Padre: Se fosse pela lei de Deus a gente dava um jeito, mas com o bispo não tem
conversa.

Cena 8
(João vai atrás do padre)

João Grilo: O padre, esse povo é tudo doido! A cachorra tinha até um testamento onde
deixava uma parte de dinheiro pro padre!

Padre: Que isso, que isso??? Cachorra com testamento?!

João Grilo: Ela queria ser enterrada como cristã e teve que prometer que em troca do
enterro, acrescentaria 3 contos de réis para o padre!

Padre: Que animal inteligente! Que sentimento nobre!

João Grilo: Só que infelizmente o testamento não poderá ser cumprido, agora a
cachorrinha vai ser comida pelos urubus.

Padre: Comida ela? De jeito nenhum!

Cena 9
(Cangaceiros chegam na cidade e sai arrastando todos os personagens pra dentro da
igreja)

Cangaceiro 1 (Severino): 1... 2... 3... 4... Quem vai ser o primeiro?

Eurico: O senhor podia começar por ordem de idade.

Chicó: Os mais velhos primeiro.


Padre: Primeiro os mais jovens.

(A. S): Leve o casalzinho pra fora, que severino não mata ninguém na igreja.

(A.S leva e mata o padeiro)

Severino: E agora chegou a vez do... Padre!

(A. S): Não gosto de matar padre não.

Severino: Você acabe com sua frouxura! (fala olhando pra A.S)

(A.S leva e mata o padre)

Severino: Pois está muito bem, chegou a hora de vossa desgracença João Grilo.

João Grilo: Um momento, antes de morrer eu quero lhe fazer um grande favor.

Severino: Qual é?

João Grilo: Dar-lhe essa gaita de presente.

Severino: Uma gaita? Pra quê que eu quero uma gaita?

João Grilo: É pra nunca mais morrer com os ferimentos que a polícia lhe fizer.

Severino: Que história é essa? Já ouvi falar de chocalho bento que cura mordida de
cobra, mas de gaita benta que cura ferimento de rifle é a primeira vez.

João Grilo: Mas cura, essa gaita foi benzida por Padre Ciço pouco antes de morrer.

Severino: Só acredito vendo.

João Grilo: Pois veja. Queira vossa excelência me ceder o punhal. Agora vou dar uma
apunhalada na barriga de Chicó.

Chicó: Na minha não.

João Grilo: Deixe de moleza Chicó! Depois eu toco a gaita e você fica vivo de novo
(sussurrando) A bexiga, a bexiga.

João Grilo: Homem, sabe do que mais? Vamos deixar de conversa, tome logo! (João

Grilo dá uma apunhalada na bexiga, Chicó se joga no chão fingindo-se de morto) João

Grilo: Está vendo o sangue?

Severino: Estou. Vi você dar a facada, disso nunca duvidei. Agora, quero ver é você
curar o homem.

João Grilo: É já.

(Começa a tocar na gaita e Chicó começa a se mover no ritmo da música, primeiro uma
mão, depois as duas, os braços, até que se levanta como se estivesse com dança de São
Guido)
Severino: Nossa Senhora! Só tendo sido abençoada por Meu Padrinho Padre
Cícero. Você não está sentindo nada?

Chicó: Nadinha.

Severino: E antes?

Chicó: Ah, eu estava morto.

Severino: Morto?

Chicó: Completamente morto. Vi Nossa Senhora e Padre Cícero no céu.

Severino: E que foi que Padre Cícero lhe disse?

Chicó: Disse: "Essa é a gaitinha que eu abençoei antes de morrer. Vocês devem
dála a Severino, que precisa dela mais do que vocês".

Severino: Ah meu Deus, só podia ser Meu Padrinho Padre Cícero mesmo. João me
dê essa gaitinha!

João Grilo: Então me solte e solte Chicó.

Severino: Não pode ser, João. Eu matei o bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e a
mulher e eles morreram esperando por você. Se eu não o matar, vêm-me perseguir
de noite, porque será uma injustiça com eles.

João Grilo: Eu lhe dei uma oportunidade de conhecer Meu Padrinho Padre Cícero e
você me paga desse modo!

Severino: De conhecer Meu Padrinho? Nunca tive essa sorte. Fui uma vez ao
Juazeiro só para conhecê-lo, mas pensaram que eu ia atacar a cidade e fui recebido
a bala.

João Grilo: Mas pode conhecê-lo agora.

Severino: Como?

João Grilo: Seu cabra lhe dá um tiro de rifle, você vai visitá-lo. Então eu toco na gaita e

você volta.

Severino: E se você não tocar?

João Grilo: Não está vendo que eu não faço uma miséria dessa? Garanto que toco.

Severino: Sua idéia é boa, mas por segurança entregue logo a gaita a meu cabra.
Agora eu levo um tiro e vejo Meu Padrinho?

Severino: Ai, eu vou. Atire, atire!

(A.S): Capitão...

Severino: Atira, cabra frouxo, eu não estou mandando?


(A.S): Capitão!

Severino: Atire!

João Grilo: Homem atire logo pelo amor de Deus!

(A.S): Ai eu não gosto de matar chefe não, mas se é o jeito.

Severino: Espere não se esqueça de tocar na gaita.

(A.S): Tenha cuidado não, capitão...

Severino: Então atire!

(A.S): Eita os macacos estão chegando.

(O ajudante do Severino toca a gaita)

João Grilo: Deixe o capitão falar mais um cadinho com Padre Cícero.

(A.S): Capitão, capitão! Ah seu grilo safado, você matou o capitão. É pra matar,
não é...

Chicó: Venha logo homem!

João Grilo: Deixe eu pegar o dinheiro pra pagar a tua dívida...

Chicó: Corre homem!

(A.S): Filho da égua, pela primeira vez na minha vida vou matar alguém com
gosto.

(O ajudante do Severino atira em João Grilo)

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