Capítulo 7 – Libertação
A terça-feira amanheceu com um peso diferente sobre Luna. Ela acordou revivendo o
som dos disparos da operação, a imagem de Nascimento a protegendo, as palavras dele
martelando sua mente: "Você nunca mais vai sair pra campo sem mim. Você é minha."
Ela se sentia envolta em um misto de alívio e culpa. Ainda não havia terminado com
Gabriel, e aquilo a corroía. Mesmo que o amor por ele já tivesse morrido, a
responsabilidade emocional ainda pesava. Ela precisava encerrar aquilo de vez.
Estava vivendo uma traição emocional, e, para Luna, isso já era mais do que
suficiente para tirar seu sono.
O celular vibrava com novas mensagens de Gabriel: "A gente precisa conversar, por
favor."
Ela respirou fundo e respondeu, marcando o encontro para depois do expediente.
Estava decidido. Não havia mais espaço para dúvida.
Na sede da Polícia Federal, Luna chegou tentando manter o foco no trabalho, mas os
olhos de Nascimento pareciam persegui-la em cada corredor. O olhar dele a
atravessava, e por mais que ela tentasse se manter firme, se sentia exposta,
entregue. Era como se ele enxergasse tudo o que ela tentava esconder.
Júlia continuava com suas investidas, trazendo café, puxando assuntos banais,
tentando forçar uma proximidade que não existia. As amigas de Luna, especialmente
Lavínia e Bhianca, notaram e logo começaram a provocar.
— Você viu a Júlia? Tá plantada ali do lado dele o dia inteiro. — Lavínia comentou,
sorrindo.
— Deve estar tentando arrumar uma vaga permanente no coração dele. — Bhianca
acrescentou, rindo.
Luna apenas sorriu de canto, mas por dentro, o incômodo era real.
No final da manhã, Lavínia a chamou para um café.
— Luna, você precisa parar de carregar essa culpa. Você se anulou por anos. Você
deu tudo. O que você sente agora é o que você merece: ser amada, ser desejada, ser
vista.
— Eu sei, Lavínia. Mas eu ainda sinto como se estivesse traindo Gabriel. É
irracional, mas está aqui. — Luna tocou o peito, sentindo o peso.
— Sabe o que você está traindo? Você mesma. Está na hora de se escolher. — Lavínia
disse, com firmeza.
A conversa fez Luna refletir. Ela sabia que não podia mais se arrastar naquele
relacionamento. Era hora de se libertar.
Rossi convocou uma reunião de urgência no início da tarde. Novas pistas sobre a
organização criminosa haviam surgido. Informantes apontaram um novo depósito
clandestino, localizado em uma cidade vizinha, onde armamentos pesados estariam
escondidos. Era uma oportunidade de ouro para desmantelar a quadrilha. A missão
exigiria deslocamento e vigilância detalhada durante três dias.
— Luna, você lidera a equipe. Nascimento, você vai com ela. Vocês precisam viajar
hoje à noite e iniciar o reconhecimento amanhã cedo. O local é discreto, mas
precisamos ser rápidos. — Rossi determinou.
O coração de Luna disparou. Esta seria a primeira viagem deles juntos. Mais tempo
ao lado dele. Mais tensão.
Ela seguiu para o estacionamento para pegar um relatório que havia esquecido no
carro. De repente, Nascimento surgiu ao seu lado de forma tão silenciosa que Luna
se assustou.
— Meu Deus, você parece um fantasma! Só sabe me assustar? — Ela exclamou, levando a
mão ao peito.
— Relaxa, só vim combinar a hora que vamos sair. Te busco em casa às cinco da
manhã. E, Luna… — Ele se aproximou, sua voz grave roçando no ouvido dela. — Quando
você for só minha, vou te buscar de todas as formas possíveis. Porque eu não divido
o que é meu. Nunca.
Ela sentiu o corpo estremecer, mas ele apenas se afastou, deixando-a em estado de
alerta, perdida no próprio desejo.
No final do dia, Luna foi até a casa de Gabriel. O caminho foi pesado, as
lembranças dos anos juntos invadiam sua mente, mas ela estava decidida.
Gabriel a recebeu de forma fria, como se já soubesse o que estava por vir. Tentou
disfarçar, oferecer um café, iniciar uma conversa leve, mas Luna foi direta.
— Gabriel, a gente precisa encerrar isso. Eu não estou mais aqui. Eu tentei. Por
anos. Mas acabou.
— Você vai me abandonar? Depois de tudo? Depois de tudo o que a gente viveu? Eu te
esperei. Você era minha! — Ele se exaltou, a voz carregada de mágoa.
— Eu fui sua. Por muito tempo. Mas você me perdeu quando decidiu que eu não merecia
mais carinho, quando decidiu que eu era substituível. Eu também mereço ser amada,
Gabriel. — Ela disse, a voz firme, mas os olhos marejados.
— Você já está com outro? É isso? Você deve estar se oferecendo pra alguém que nem
te conhece direito! Quem é ele, Luna? Aposto que nem te ama. — Ele cuspiu as
palavras, agressivo e cruel.
— Eu não preciso me justificar. Eu estou terminando porque é o certo. Porque você
me perdeu faz tempo. Eu só demorei para aceitar.
— Você é só mais uma. Vai ser descartada como todo mundo. E quando ele te jogar
fora, vai se lembrar que eu era quem realmente te queria.
Luna sentiu o golpe como uma facada. Suas mãos tremiam, mas ela se manteve de pé.
— Eu mereço muito mais do que o que você me ofereceu. E é isso que vou buscar. —
Disse, com lágrimas nos olhos.
Ela saiu dali com o coração dilacerado, as palavras de Gabriel ecoando na mente,
humilhada, sentindo uma dor que ela não queria sentir, mesmo sabendo que era o
certo.
No carro, lágrimas escorriam sem controle. Mesmo assim, ela tomou uma decisão: não
contaria para ninguém que havia terminado. Nem para Lavínia, nem para Nascimento.
Ela queria tempo. Queria viver o luto daquela história e, mais do que isso, não
queria parecer tão fácil, tão pronta para se entregar. Ela precisava de espaço para
respirar. E precisava focar na missão, que era sua prioridade.
Enquanto dirigia de volta para casa, sentiu o celular vibrar com uma nova mensagem.
Era Nascimento: "Você ainda não entendeu o quanto já é minha."
Ela sorriu, mesmo com os olhos ainda marejados. Pela primeira vez em muito tempo,
ela se sentia viva.
E pronta para se entregar ao que a consumia.