0% acharam este documento útil (0 voto)
53 visualizações16 páginas

O Primeiro Olhar

O documento explora a importância do 'primeiro olhar' nas relações iniciais entre o bebê e seu objeto primário, destacando como isso influencia o desenvolvimento psíquico e a noção de si. A autora, Teresa Rocha Leite Haudenschild, utiliza casos clínicos para ilustrar como a falta ou a inadequação desse olhar pode levar a déficits no desenvolvimento, incluindo autismo. A análise enfatiza a necessidade de um olhar que aceite e reconheça a singularidade do sujeito desde os primeiros momentos de vida.

Enviado por

cecilia.lorena
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
53 visualizações16 páginas

O Primeiro Olhar

O documento explora a importância do 'primeiro olhar' nas relações iniciais entre o bebê e seu objeto primário, destacando como isso influencia o desenvolvimento psíquico e a noção de si. A autora, Teresa Rocha Leite Haudenschild, utiliza casos clínicos para ilustrar como a falta ou a inadequação desse olhar pode levar a déficits no desenvolvimento, incluindo autismo. A análise enfatiza a necessidade de um olhar que aceite e reconheça a singularidade do sujeito desde os primeiros momentos de vida.

Enviado por

cecilia.lorena
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

OPRIMEIRO( OLHAI

Desenvolvimento psíquico inicial,


déficit e autismo

Teresa RochaLeite Haudenschild

esCua
by Teresa Rocha Leite Haudenschild
1' edição: outubro/2015

Capa:
Mireille Bellelis, a partir de Louise Nursing her Child, de
Mary Cassat
Produção editorial:
Araide Sanches e Mireille Bellelis

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

H368p Haudenschild, Teresa Rocha Leite.


Oprimeiro olhar : desenvolvimento psíquico inicial, déficit e
autismo/Teresa Rocha Leite Haudenschild. - São Paulo : Escuta,
2015.
248 p.; 14 x21 cm.

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7137-378-5

1. Psicanálise infantil. 2. Autismo em crianças. 3. Crianças - De


senvolvimento psíquico -Déficit. 4. Reverie. I. Título.

CDU159.964.2-053.2
CDD618.928917
Bibliotecáia responsável: Sabrina Leal Araujo - CRB 10/1507

Editora Escuta Ltda.


Rua Ministro Gaståo
05012-010 S£o Paulo, Mesquita,
SP 132
Telefax: (11) 3865-8950 /
e-mail: escuta@uol.com.br3862-6241/3672-8345
www.editoraescuta.com.br
O
primeiro olhar!

Introdução
Neste trabalho focalizo a importância do olhar do primei
ro objeto psiquico, o objeto externo primário, para a noção de
si mesmo pelo sujeito, desde a sua existência e da continuidade
desta (Winnicott, 1951) até a noção da sua singularidade.
Aimportância das primeiras relações de bjeto paraa cons
tituição da vida psíquica do sujeito ésalientada por Klein, Bion
e Winnicott, considerando-se que estes dois
últimos acentuam a
importância psiquismo do objeto primário nessa constituição.
do
Para que o sujeito nasça psiquicamente e possa "se ver",
ele precisa inicialmente "ser visto" pelo objeto (Winnicott, 1971).
Se o primeiro olhar do objeto estiver mediado por
identificações
projetivas massivas deste, ou se esse olhar faltar, a primeira noção
de si mesmo pelo sujeito estará prejudicada desde o início.
O olhar adequado seria o do objeto que, vivamente, pode
se comunicar como sujeito por meio de identificações
projetivas
realísticas, interessado nesse sujeito singular desconhecido que a
ele se oferece para ser desvelado.
Háentão um sujeito que, desde o início singular (com toda
sua peculiaridadeconstitucional), éposto diante de um objeto que
pode ajudá-lo, ou não, a nascer psiquicamente e a se desenvolver.
Isso dependeria de um objeto adequado que, pressupostamente
1. Publicado em Zelaya, C.; Mendoza Talledo, J. y Soto de Dupuy, E. (Eds.). La ma
ternidad y sus vicisitudes hoy. Lima: SIDEA, 2006, p. 123-135. Eem França, M. T.
eHaudenschild, T. (Eds.). Constituiçào da vida psiquica. São Paulo: Hirondel, 2009,
p. 145-155. Apresentado no 15" Congresso Brasileiro de Psicanálise, Recite, 1995 e no
XXI Congresso da Fepal em Monterrey, México, 1996.
22 TERESA ROCHA LEITE
HAUDENSCHILD
oferecer como polo de relações que se de-
desde oinício, teria de se
senvolveriam num contexto triangular, edipiano (Quinodoz, 1991)
Daí a necessidade da
representação psíquica do casal
parental pela måe, da unidade originária, apontada por Pérez
Sanchez e Abelló (1981), representação que permearia toda sua
relação com o pai do beb, com quem forma um casal.
Doexposto, podemos vislumbrar que o primeiro olhar do
objeto, tão primordial para o nascimento psíquico eoevolver do
sujeito, pode se apresentar em inumeráveis modalidades. Desde
oolhar vazio de qualquer afeto até o olhar que pode se abrir para
oimprevisível desabrochar desse sujeito desconhecido que busca
"ser visto" para sentir-se existindo.
Além disso, mesmo que oobjeto possa oferecer um "olhar"
adequado ao sujeito, épreciso que esse
esse "olhar" esteja disponível
num determinado tempo, que corresponda às necessidades do
bebê, nos primeiros meses de vida.
Podemos conjeturar então que, mesmo que o objeto seja
adequado, se, por um motivo temporário, estiver impossibilitado
de oferecer seu olhar" ao sujeito, por depressão ou distancia
achto nsico, por exemplo, poderão ocorrer falhas no desenvol
vimento inicial do bebê.
Vinhetas clínicas serão apresentadas,focalizando modali-
dades do "primeiro olhar" esuas possíveis implicações no desen
volvimento psiquico do sujeito.
Oolhar adequado
Aos 21 dias de vida, Sabrina,' ao ser colocada no banho,
estremece e agarra-se" fortemente aos olhosda mie, fixando
com seu olhar. A mãe, ao que lhe oferece0s
mesmo tempo enm
olhos, ennquanto circunda firmemente o corpinho deSabrina
com seu braço esquerdo, lhe diz: a mame estáagui,filhinhu.
está te segurando, você
não vai cair.
2. Ver
"Metamorfoses" (p. 195).
OPRIMEIRO OLHAR 23

Aos 2 meses, enguanto mama, Sabrina fixa os olhos nos


olhos da mãe. De vez em quando, para de mamar evocaliza alguns
sons, satisfeita, como que "conversando", sempre com os olhos
nos olhos da mãe. Esta "co-responde a Sabrina, falando como se
fosse ela: Estou conversando, viu, mame? Eu gosto de mamar e
olhar nosseus olhos...
Esse olhar que se oferece constantemente, como presen
ça fisica que éextensão da compreensão psíquica da experiência
emocional vivida pelo sujeito no momento, é o olhar do objeto
primário adequado: o primeiro olhar, o olhar primordial. É este
olhar que aos poucos vai sendo introjetado pelo sujeito, que assim
se sente visto",se sente existindo. Pressupostamente, teria que ser
oferecido pelo mesmo objeto, para que o sujeito, sentindo-se em
continuidade com o objeto, possa sentir sua própria continuidade.
E, além disso, esse olhar do objeto teria que se abrir para o
desconhecido do sujeito, para que este pudesse introjetar a acei
tação de suas próprias possibilidades desconhecidas, podendo,
então, acolh-las, à medida que se desvelassem.

O olhar que não vÁ


Eoolhar que nãose abre para odesconhecido do sujeito.
Este évisto ou como a extensão do objeto, ou, se não se encai
Xa nas expectativas deste último, évisto como estranho, como
"maligno" até.
Malu éconsiderada a "princesinha" da casa, aquela "boa"
meninaque sempre fez o que a mamãæ queria. Aliás, Malu éa
"cara" da mãe, no dizer desta, que é única filha e também pre
tende não ter mais filhos. Agora, com 7 anos, ao frequentar pela
primeira vez a escola, Malu começaa dar trabalho, nem parece a
mesma menina, achoque é por causa dasoutras crianças.
Henrique é o segundo filho, sendo o primeiro homenm.
mãe o achou "horroroso" ao nascer: Era muito peludo, nào sei.
Desde oprimeiromomento tive medo dele, era muito diferente da
Jane (primeira filha).
TERESA ROCHA 1LEITE
24

Ouando Henrique vem para anaiiSe, aos 8 anos, và.. HAUDENSCHILD


diz que gostaria de ser
como um menino"mau", como as visto
e, aos poucos, vai se esclarecendo que ele gostaria de serirmås,
comosuas irms o foramn, sem temor, pela mãe
Esse olhar, dirigido ao "mau", é encontrado m
muitas vezes
no cas0 de bebês adotadoS, em que as mães os olham
Como que
com opé atrás, temendo algo "maligno" advindo de suas desco
nhecidas origens (temor ao qual se sobrepõem as projeções hos
tis àmãe biológica da criança, da qual se sabe ao menos que não
éestéril). Esse olharéencontrado também em casos de meninos
autistas que são, em mais de 80% dos casos, ou primogènitos ou
o primeiro menino de uma prole.
Em ambos os casos, quando o primeiro olhar do objeto
equaciona o "bom" com o familiar, o conhecido, e o mau" Com
oestranho, o desconhecido, o sujeito não é visto e aceito em sua
singularidade. Tanto a "princesinha" (que é a extensão das ex
pectativas da mãe) quanto o "horroroso" menino (que de ime
diato mostra a sua diferença da mãe só pelo fato de ser menino)
não podem introjetar, apartir do primeiro olhar do objeto, apos
sibilidade da aceitaço de sua singularidade.
Onão olhar
Gabrieléum menino com défcit de desenvolvimento psl
quico (Alvarez, 1992), cujos pais estavam se separando no peri-
odo em que ele nasce. A mãe então o entregou a uma babá que
fazia tudo por ele, carregando-o no colo até os 3anos, quando
Gabriel foi para a escola. Amãe diz que tinha absoluta confiança
na babá e por isso oentregara totalmente aseus cuidados, pois
trabalhava dia e noite, nessa época. Diz que a babáse dedicava
quecle.
completamente a Gabriel, até dormindo na mesma camapor oca-
uma vez que este "não devido a problemas
sião do nascimento. enxergava" ,

3. Ver "Utilização da capacidade de reverie do analista" (p.43)e "Caso Gabriel"(p. 57).


O PRIMEIRO OLHAR 25

Gabriel não tem um objeto primário que Ihe ofereça os


olhos, como Sabrina. Ele tem uma babáque mantém uma conti
nuidade fisica extensa com ele,deixando-o fazer tudo oquequer,
como diz a mãe.
Pressuponho que Gabriel foi atendido quanto às suas ne
cessidades fisicas, mas praticamente "abandonado" quanto àsua
introdução no mundo humano, pois, considerado pelos pais des
de o início comodeficiente, mal foi olhado por eles (e pela babá,
creio eu), como umn ser singular.
Quando vem para análise, Gabriel tem 6 anose usa uns
óculos grossos,os quais retira quando quer ver algo de perto. Rola
vários lápis paralelos no chão, para assim ouvir o barulho contí
nuo, sentindo-se vivo (Winnicott, 1951). Estica sua baba com os
dedos, até enxergá-la, contente com
om sua produção. Introduzo a
água da torneira, que ele "estica" com as mãos, alegre de poder
manipular o objeto que nomeio como a "água da Teresa",, água
parecida com a "água do Gabriel", que é como nomeio sua baba.
Desde o inícioda análise, falo semnmpre comn entusiasmo das
coisas que estão acontecendo.
Aos poucos, vou conseguindo que Gabriel aceite o meu
olhar, introduzido por um desenho que faço de seu rosto (Gabriel
gosta muito de olhar rostos em revistas), onde aponto os olhos,
Os quais ele toca, tocando em seguida osmeus olhos.
Desenho então o meu rosto, e ele toca os olhos do dese
nho e em seguida os meus.Mostro novamente o desenho do ros
to dele e ele toca os olhos, tocando em seguida os seus próprios
olhos. Eu faço o mesmo com odesenho do meu rosto.
Noto que, ao sair, Gabriel pode me olhar nos olhos, mesmo
que por um lampejo de tempo. E se nesse momento eu não me
coloco em posição de lhe dizer tchau de frente (como fazia desde
ocomeço da análise, háseis meses), ele me puxa para olhá-lo sair.
Agora já se vão dois anos de análise. A novidade é que
Gabriel já põe o pai olhando" os cavalos (pelos quaiso pai real
mente tem paixo), ou "olhando" as crianças (Gabriel e seus
TERESA ROCHA LEITE
26 HAUDENSCHILD
irmåos) nadarem. Gabriel parece já ter introjetado oolhar do
obje-
to, oolhar que se interessa pelo sujeito esuas singulares evolucoes
A retração do olhar
Vitor é um menino de 2 anos emeio, que vem para uma
avaliação psicanalítica, com diagnóstico de autismo pelo neuro
logista. Na entrevista os pais me contam que quando Vítor tinha
10 meses ocasal teve um sério desentendimento, e a mãe relata
que, desde então, não consegue olhar para Vítor, pois ele tem o
rosto e os olhos do pai.
Na primeira sessão de análise, o objeto que mais interes
sa a Vítor éum sapo com os olhos saltados, 0S quais ele chupa,
depois entrega ao analista, como a indicar a este o que lhe falta.
Após um ano e meio de análise e orientação aos pais, Vítor
vai retornando ao mundo humano, do qual, no meu entender, se
sentiu expulso aos 10meses, com a retração do olhar materno,
retraindo-se ele também em seu mundo de manobras autísticas.

A
interrupção do olhar
Marco tem 4 anos e meio quando vem para analise
(Haudenschild, 1987a). Na escola, brinca sozinho esó responde
aprofessora quando ela se dirige exclusivamente a ele. No se
interessa por nenhuma atividade grupal, mas é muito inteligente:
um dia derrubou ocasionalmente uma grande construção0 rella
Por tres colegas e, em muito menos tempo do que eles, a recois
truiu, isolando-se em seguida.
A mãe conta que quando Marco tinha 2 meses e melo, p
ca em que a olhava enquanto0 amamentava, teve queinterromper
aamamentação por uma semana, por ter que acompanhar o mari-
do num que"'se
internamento hospitalar. Desde aí, Marco parece parecia
ausentava da relação, só olhava para ela de soslaio, mas dela.
sempre atento a ela, sondando por onde andava ointeresse
4. Material cedido
por José Carlos de Toledo. Ver "O desvelar da fala"(p. 125).
O
PRIMEIRO OLHAR 27

Na primeira sessão de avaliação, após uma interpretação da


analista em que se sente compreendidopor ela, Marco a olha in
cisivamente (comoquerendo penetrar os olhos dela com os seus)
eanda em sua direção. Depois, constróiuma estrada de barro por
onde pasa um menin0 que quebrou a pernae põe outro menino
sentado na beira da estrada "olhando" para o primeiro.
Ele parece assim representar um objeto que "vê o que
acontece", valorizando a interpretação da analista, com a qual
parece se vincular a partir daí. Marco parece saber o valor desse
objeto, desde o início da análise, enquanto Gabriel só pôde fazer
isso após dois anos de análise. Eo"objeto que vÁ",em ambos os
casos, éo objeto que compreende. Compreender com os olhos
parece corresponder a compreender com a mente.
O olhar intermitente
Amanda tem seis anos quando vem para análise, pois na
éconsiderada muito infantil para a idade, tendo como úni
ca companheira uma menina menor que ela. Apresenta enurese
e rinite constantes e usa óculos de lentes grossas (Haudenschild,
1996 e1997).
Amãe relata que Amanda, durante o primeiro ano de vida,
teve duas babás que se alternavam mês a mês. Eram duas mu
Iheres (mãe e filha), que tinham suas respectivas famílias em ou
tra cidade e que cuidavam ora de Amanda, ora de seus próprios
hlhos. No meu entender, nenhuma das duas podia se vincular
mais completamente a Amanda, pois, se assim o fizessem, po
deriam se sentir desvinculadas de seus próprios flhos. Além da
descontinuidade do olhar primário,devido àalternância de obje
tos, que "olhar" poderiam oferecer a Amanda? O olhar de alguém
que pensa em outro?

5. Ver "Refazendo passos inictais da constitui, ao da real1dade psiquica na análise de uma


criança de 6 anos" (p. 147).
28 TERESA ROCHA LEITE
Apósum semestre de análise, o
HAUDENSCHILD
oftalmologista
menda óculos a Amanda.. Aenurese cessara desde o
não mais reco.
earinite melhorara sensivelmente. Amanda parece início
da análise,
estar se tornan-
do autocontinente de seu mundo emocional, apartir da introjeção
de um objeto que a vêem sua
singularidade, que a compreende.
Oolhar para o outro filho
a) O olhar para o filho morto
Mônica é asegunda filha de um casal, do qual a primeira
morreu ao nascer. A mãe lhe dá o mesmo nome que tinha
à irmãe desde o início a trata
dado
como "a menina que não pode
morrer", e Mônica, então, tem que ser a menina viva", para se
contrapor à"menina morta gerada pela mãe, provando assim
que esta écapaz de dar e manter a vida. Mônica "ajuda" a mãe
comendo além da conta tudo o que ela lhe oferece, tornando
-se obesa, fato que "não évisto pelos pais até
que surjam outras
complicações orgânicas, aos 16 anos, quando Mônica então
inicia um regime.
Mônica tem 28 anos e estáem análise hádois meseS, quan
o me conta um sonho: Engraçado, hoje, pela
nhei comvoce. Não era você. Era uma primeiravez, eu so
mulher. Ela estava Sentadd
de jrente para mim (apontacom amão um lugar à sua
direita e
aireção aos pés do div) e me olhava. Era um olhar firme.
que com ela era paravaler, não tÉnha
Parect
brincadeira.
Relaciono esse "não tinha brincadeira com oseu jeito
brincalhäão de falar das coisas mais sérias, como se menosprezas
se sua própria dor, que éassim desfocada, perdendo a nitidez e
não podendo sequer ser "vista" e nomeada. Sugiro que essa mu-
Iher poderia ser eu, que a olho a sério, para comum olhar
valer,
do qual ela precisaria, para se levar asério, se considerar, consi
derar suas
necessidades e suas
dores.
Após contar osonho, MÙnica m£e
que lhe fala das desventuras com relata umtelefonema da
família dela sobre quemvai
a
cuidar da avó(mãe da uma
reuniäo
mãe)e convoca Mônica para
OPRIMEIRO OLHAR 29

com os tios, para afortalecer. Ela diz que a mãe, que mora em
outra cidade, nem ao menos pergunta como elaestá, ou sea pode
acompanhar, diz apenas que vai passar por láe pegá-la em de
terminado horário: tudo numa linguagem ansiosa e brincalhona.
Orelato do telefonema parece
contrastar com o sonho:
neste aparece uma mulher séria e firme que a olhae
quer com
preender; naquele uma mulher que não a vê(está ao telefone) e
nem quer ouvi-la, mas quer ser ouvida e atendida em
suas ansie
dades, das quais ri, brincando.
Conjeturo que o primeiro olhar que a mãe pôde oferecer a
Mônica foi um olhar mediado pela filha morta: um
que não podia ver a singularidade de olhar ansioso,
Mônica, equacionando-a à
primeira Mônica, aquela que não devia ter morrido. Além dis
So, parece que Mônica deve entrar no
clima brincalho da mãe,
impedindo-a de se entristecer pela morte da irm: se passa a ser
a irmãque agora vive, é
uma garantia para a mãe de que não
haverádoreluto.
Lembro-me de Van Gogh, que nasceu após um filho mor
tode sua mãe, Vincent, do qual
via herdou onome e cuja sepultura
todoS os dias ao ir para a escola,
o cemitério ficava no pois seu pai era pastore
pátio da igreja em cujo recinto
Quando irmão Theo (aquele que o
seu moravam.
que valorizou suas obras), dáo "viu", que oconsiderou,
nome de
ilho, Van Gogh parece sentir que não Vincent a seu próprio
pode mais viver..
b) Oolhar para o
filho doente
Nara tem 18 anos
co irmão, dois anos maisquando vem para análise. T'em um úni-
velho,
desde o nascimento até os 7 anos. que sofre inúmeras operaÇOes
olha nos Nara tem o olhar vago. Nunca
olhos e diz que quando alguém olha
olha para trás, pensando que é para ela sempre
para outra pessoa.
6. Ver "O
desvelar da fala" (p. 125).
30 TERESA ROCHA LEITE HAUDENSCHILD
Conta que desde pequena se lembra de sua måe cuidando
do irmão, e de estar aos cuidados de uma babáque foi de sua mãe
e que, por ocasião de seu nascimento, tinha 86 anos de jdade e
Nara se lembra sempre dela cochilando, embora fosse muito afe.
tiva. Conta que abria os olhos dela para ver se estava viva.
Conta também que adora se sentar em
praças para ver
måes cuidando de seus bebês e gosta muito das
professoras da
escola onde trabalha, pois conversam com ela, lhe dão a
maior
atenção. Conjeturo que Nara não teve, no início da vida, o olhar
contínuo de um objeto interessado nela.
Nas sessões,quando apresenta
descontinuidade de pensar,
espanta-se quando eu me lembro do que ela disse havia pouco,
ajudando-a a reconstituir o fio de seu pensamento.
Após cerca de um ano e meio de análise, o irmão de Nara
se suicida, e sua mãe põe muitas fotografias dele
sobre sua mesa
de cabeceira. Nara nota que a mãe não escolhe
nenhuma fotogra
ha em que ela aparece comno irmãoe me diz ela não
quer me er
nem em foto.
Hoje, após 12 anos de análise, Nara ainda tem dificuldade
de olhar para as pessoas (segundo conta) e ainda se espanta com
Ointeresse de seus amigos por ela: Não sei o que veem em mms
são tão mais
interessantes do que ew...plástica criativa, ganhou al.
Nara revelou-se uma artista
guns prèmios em sua área, o que muito a surpreendeu. Ela
faz lembrar Camille Claudel, que não teve oolhar primordial da
mãe, eque, embora tão talentosa como artista, nunca parece ter
se valorizado o
suiciente.
c)Oolhar para oflho problemático Oirmào
quatro.
Cibele a segunda filha de uma prole de problemnas
é
mais velho era tido pelos pais como "arranjador de A m£c,
onde quarteirão.
quer que fosse: em casa, na escola, no re-
Cibeletentar
sempre muito ocupada, pedia
pedia muitas vezes paara
solver os problemas do irmao.
O PRIMEIRO OLHAR 31

Quando vem para análise, aos 35 anos de idade, Cibele


sente ainda que só tem a atenção da mãe enquanto resolve os
problemas do irmåo. Se eu aparecer numa foto dela, tem que ser
com ele - como querendo dizer - Ela sóme vê se for ao lado dele.
Cibele é casada, tem três filhose é muito bem-sucedida em
sua profissão. Tem um desempenho intelectual excelente, mas
parece que grande parte de seus recursos criativos ainda estão
por vir à luz. Tenho aprendido muito com as crianças Elas me
mostram como é se relacionar.
Esse caminho, ode realizar vínculos primordiais com os
filhos, a meu ver, éa maneira por excelência de recuperar situa
ções emocionais, do inicio da própria vida, ainda não realizadas.
Nos dois anos que estáem análise, nas primeiras sessões
após as férias da analista, Cibele parece precisar "ser vista" pela
analista antes de se deitar: ela chega, senta-se um pouco no divã
e diz alguma coisa.
Em seguida, deita-se e traz sonhos ou situações em que se
sente "estranha", sem saber quemnéou onde está: até sua identi
dade sexual parece sumir.
Num desses sonhos, após as últimas férias, ela me conta
que, por mais que estivesse confusa, havia sempre "atrás dela"
uma pessoa que a olhava, parecia uma mulher, que era como
uma garantia de queela não iriase perder.

Oolhar para o pai


Roberto é único flho, iniciando análise aos 45 anos. Conta
ter dormido no quarto dos pais até 12 anos, quando entao toi
Para seu próprio quarto, de onde a måe o via, pois ela deixava as
portas abertas e colocava a cama dele numa posiço em que o pu
desse enxergar. Só me livrei disso quando saí de casa, aos l8 anos.
Koberto tem o mesmo nome que o pai, e, segundo conta,
ate a avó paterna o achava "a cara do pai". Este é descrito por ele
Comoum "garanhäo" ea mãe, quase como uma "irmà mais velha",
por ter quase a metade da idade do pai. Ela aparece
muitas vezes
TERESA ROCHA LEITE HAUDENSCHILD
32

em sonhos como parceira sexual de oberto, que, ao acordar, diz


sentir-se "paralisado", do mesmo modo que se sentia,quando, vi.
rado para a parede, ouvia os sonsdos pais tendo relações sexuais.
Roberto não teve o lugar adequado para um filho, por par
te do casal parental.
Ele descreve a m£e, até hoje, como sóouvindo a si mesma
sem nunca escutar ninguém: ela parece não enxergar as situações:
já vai chegando efazendo oque acha que tem que ser feito.
Que olhar poderia essa mãe oferecer a Roberto no início de
Sua vida? Parece-me que ele tinha de ir tomando "carona" na vida
dela, na vida dos pais; que ele nunca pôde ter, por parte da mãæ, do
pai, um olhar que opudesse revelar em sua singularidade.
Ahistória de Roberto éa história da procura desse olhar,
casando-se com mulheres mais velhas, que o valorizam, o veem;
procurando parceiros de profissão mais velhos, aos quais se filia.
Quando Roberto vem para análise estáem seu quarto ca
samento e tem seu primeiro filho que está comn 3 anosde idade.
Ea partir das requisições de contato emocional de seu filho
que Roberto sente necessidade de fazer uma análise: muitas vezes
sente-se incapaz de corresponder, vivamente, a essas inesperadas
solicitações.
Acredito que as relações íntimas e vivas a que este trabalho
o Convida éque o levam a ter vontade de recuperar relaçöes ini
Ciais importantes que sempre ansiou por realizar.
Conclusão
teus.
Ter a luz dos olhos
só se podeachar.
Eu acho meuamore se casar."
luz dos olhos meus precisa
(Moraes, 1997)
que a

posterioresv£oderender
O
Penso que todos os "casamentos eodobebe.
da consecução do primeiro: entre oolhar da m£e
O PRIMEIRO OLHAR 33

olhar da nmãe para seubebê é fundante: éele que revela (ou não) o
novoser, que, embora nascido de seu ventre, não é sua extenso.
Para isso, a mãe teria que estar funcionando mentalmente
em nível genital: tendo espaços distintos de representação para
si, para seu marido e para seu bebê, ao mesmo tempo que em
ressonåncia emocional com este. Assim o olhar da mãe, embo
ra percebido como simétrico, inicialmente, pela criança, poderia
se abrir a cada passo, para cada novo desenvolvimento desse ser
singular que lhe foi dado gestar (Haudenschild, 2008).
Oprimeiro olhar, como vimos, é acompanhado da fala e
dos gestos do objeto, traduzindo uma compreensão da experiência
emocional vivida no momento entre o sujeito e ele: é um olhar de
um objeto compreensivo (Bion, 1959, 1962a, 1962b). A introjeção
desse objeto pelo sujeito éque vai permitir que este possa se acei
tar: estar disponível para acolher seus desconhecidos recursos e ir
se tornando aos poucos autocontinente de sua vida mental.
Passo básico para a aquisição da autocontinência, seria a
apreensão da noção de fundo, que, de acordo com Haag (1991b),
seria apreendida a partir de um olhar que foca, um olhar que não
vaga, não se perde no infinito: um olhar que olha para "alguém"
determinado. No decorrer deste trabalho vimos como Gabriel
("O não olhar"), Nara ("O olhar para o irmão doente") e Cibele
(Oolhar para o irmão problemático") careceram desse olhar, o
que prejudicoua noção de simesmos e da identidade sexual.
Osprejuízos das identificações projetivas massivas da måe
que "não vÁ" quem éverdadeiramente o seu beb. poden ser
acompanhados nos casos da "princesinha" e do "mau menino,
que embora tenham uma noção de si, esta éou idealizada ou de
negrida, e também no caso enm que a m£e "foca" o bebè conmo se
losse oanterior morto, levando-0 a uma confusåo de identidade.
Todos os outros casos citados ("O olhar interrompido",
Ointermitente", "O que se retrai"), levam a distúrbios básicos
do narcisismo saudável, dacapacidade de ser autenticamente, de
se conhecer e se estimar.
34
TERESA ROCHA LEITE
Para "se ver como um ser
HAUDENSCHILD
merecedor de
humana, a criança precisa "ser vista" assim pelouma dignidade
jeto. E, subsequentemente, sua identidade sexual primeiro
oh.
teria
que ser
reconhecida também pelo objeto. Qualquer falha no "olhar" do
objeto primário quanto ao ser e depois quanto à
sujeito, redundaria em falha identificatória deste.sexualidade
Não podemos
do
descartar o "olhar do pai,, nos processos identificatórios
teriores. Mas este só poderácumprir o seu papel se o pos
olhar, "olhar da mãe", já tiver feitoo seu.
o primeiro

Você também pode gostar