Tratados Internacionais - Resumo
Tratados Internacionais - Resumo
Os tratados internacionais representam uma das fontes mais importantes do Direito Internacional Público,
constituindo-se como instrumentos fundamentais para a regulamentação das relações entre Estados e organizações
internacionais. Compreender a natureza, o processo de formação e os efeitos jurídicos dos tratados é essencial para
qualquer estudante ou profissional que deseje atuar na área do Direito Internacional.
No contexto das relações internacionais contemporâneas, os tratados assumem papel central na coordenação de
políticas entre nações, na proteção de direitos humanos, na regulação do comércio internacional, na preservação do meio
ambiente e em inúmeras outras áreas de cooperação internacional. Desde acordos bilaterais simples até convenções
multilaterais complexas, os tratados moldam a ordem jurídica internacional e influenciam diretamente o direito interno
dos Estados signatários.
A evolução histórica do direito dos tratados demonstra a progressiva codificação de regras consuetudinárias que,
ao longo dos séculos, foram sendo consolidadas em instrumentos normativos específicos. Esta sistematização culminou
em importantes convenções internacionais que hoje regem a matéria, proporcionando maior segurança jurídica e
previsibilidade nas relações entre os sujeitos de Direito Internacional.
Para compreender adequadamente este instituto jurídico, é necessário iniciar pela análise de sua regulamentação,
evolução histórica e características fundamentais.
A regulamentação dos tratados internacionais passou por um longo processo de desenvolvimento histórico.
Inicialmente, as relações entre Estados eram reguladas apenas pelo direito consuetudinário, ou seja, por práticas
reiteradas e aceitas como obrigatórias pela comunidade internacional. Elas formaram ao longo dos séculos um
conjunto de normas não escritas que orientavam a celebração, a interpretação e a execução dos acordos internacionais.
Com o avanço das relações internacionais e a necessidade de maior segurança jurídica, surgiram as primeiras
convenções destinadas a codificar as regras sobre tratados. A Convenção de Havana sobre Tratados, celebrada em
1929, representou um marco importante nesse processo, sendo o primeiro esforço sistemático de codificação das normas
sobre tratados no continente americano. Embora de âmbito regional, restrita aos países americanos, esta convenção
representou um marco importante ao sistematizar pela primeira vez, de forma escrita, as principais regras aplicáveis aos
tratados internacionais. A iniciativa pan-americana demonstrou a necessidade crescente de estabelecer parâmetros claros
e uniformes para a condução das relações internacionais através de instrumentos convencionais.
Contudo, foi somente com a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, adotada em 1969, que se
alcançou uma codificação verdadeiramente universal e abrangente da matéria. Este instrumento, que entrou em vigor
em 1980, representa hoje a principal fonte normativa sobre o direito dos tratados, sendo considerado um dos pilares do
Direito Internacional contemporâneo. A Convenção de Viena de 1969 estabelece regras detalhadas sobre todos os
aspectos relevantes dos tratados: desde sua definição conceitual, passando pelo processo de conclusão, validade,
interpretação, aplicação, até sua eventual modificação ou extinção e é considerada a "constituição" dos tratados
internacionais. Esta convenção codificou não apenas práticas consuetudinárias, mas também introduziu inovações
significativas.
É importante mencionar ainda a Convenção de 1986 sobre o Direito dos Tratados entre Estados e
Organizações Internacionais. Este instrumento complementar estendeu as regras codificadas em 1969 para abranger
também os acordos celebrados entre Estados e organizações internacionais, ou entre organizações internacionais entre
si, reconhecendo assim o papel crescente dessas entidades como sujeitos de Direito Internacional.
CONCEITO DE TRATADO
A definição de tratado encontra-se consagrada no Art. 2º da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de
1969. Segundo este dispositivo, tratado significa um acordo1 internacional concluído por escrito2 entre Estados3 e
regido pelo Direito Internacional4, quer conste de um instrumento único5, quer de dois ou mais instrumentos
conexos, qualquer que seja sua denominação6 específica.
Esta definição revela diversos elementos essenciais que caracterizam um tratado internacional:
1. Acordo: Trata-se de um encontro de vontades entre sujeitos de Direito Internacional.
2. Por escrito: Embora o Direito Internacional reconheça também a existência de acordos verbais, estes não estão
abrangidos pela Convenção de Viena. A forma escrita confere maior segurança jurídica e facilita a prova da
existência e do conteúdo do acordo.
Resumo: Carlos Weber
Bacharelado em Direito - 10º Período
3. Entre Estados: O acordo deve ser celebrado entre Estados, ressalvando-se que a Convenção de 1986 ampliou
este conceito para incluir também as organizações internacionais.
4. Regido pelo Direito Internacional: O acordo deve ser regido pelo Direito Internacional, distinguindo-se assim
dos contratos comerciais ou outros acordos de natureza privada que possam ser celebrados por Estados mas que
se submetem a ordenamentos jurídicos internos.
5. Instrumento único ou conexos: O tratado pode constar de um instrumento único ou de dois ou mais
instrumentos conexos.
6. Denominação irrelevante: A denominação específica é irrelevante para sua caracterização jurídica. Esta última
observação é particularmente importante, pois na prática internacional encontramos uma grande variedade de
denominações para os acordos internacionais, todas elas tendo, em princípio, o mesmo valor jurídico.
Esta definição estabelece elementos essenciais que caracterizam um tratado: primeiro, trata-se de um acordo
internacional, o que pressupõe o encontro de vontades entre sujeitos de direito internacional; segundo, deve ser
concluído por escrito, embora o direito internacional também reconheça acordos verbais em certas circunstâncias;
terceiro, deve ser celebrado entre Estados, embora as convenções posteriores tenham estendido este conceito; quarto,
deve ser regido pelo Direito Internacional, diferenciando-se assim de contratos comerciais comuns; e quinto, a forma
ou denominação específica é irrelevante para sua caracterização jurídica.
A prática internacional consagrou uma ampla variedade de denominações para os acordos internacionais,
refletindo tanto tradições históricas quanto especificidades relacionadas ao objeto, à solenidade ou ao procedimento de
conclusão. Embora a Convenção de Viena de 1969 tenha estabelecido que a denominação é juridicamente irrelevante,
compreender as nuances terminológicas é importante para a adequada interpretação e aplicação dos instrumentos
internacionais.
O termo "tratado" é utilizado genericamente para designar qualquer acordo internacional, mas também é
empregado em sentido estrito para acordos solenes e de grande importância política. As "convenções" geralmente são
tratados multilaterais que estabelecem normas gerais sobre determinado tema, especialmente quando celebradas sob os
auspícios de organizações internacionais. As "cartas" normalmente designam tratados constitutivos de organizações
internacionais, como a Carta das Nações Unidas. Os "protocolos" podem ser tanto tratados independentes quanto
instrumentos complementares a tratados já existentes, frequentemente estabelecendo procedimentos ou modificações.
Os "pactos" historicamente designavam tratados de grande solenidade, embora hoje sejam menos utilizados. Os
"acordos" podem ser tanto tratados em sentido amplo quanto acordos de caráter menos formal ou sobre matérias
específicas. Os "acordos por troca de notas" representam uma forma simplificada em que as partes trocam documentos
diplomáticos expressando consentimento. Os "acordos em forma simplificada" ou "acordos executivos" são aqueles que
não requerem o procedimento completo de conclusão, especialmente a ratificação parlamentar. O "modus vivendi"
caracteriza-se por ser um acordo temporário ou provisório, frequentemente utilizado enquanto se negocia um acordo
definitivo. A "concordata" é um acordo específico celebrado entre a Santa Sé e um Estado sobre matérias religiosas. As
"reversais" ou "notas reversais" são trocas de documentos entre partes contratantes confirmando acordos ou
interpretações.
RESUMO – Classificação
TRATADO: Termo genérico para qualquer acordo internacional, mas ACORDO POR TROCA DE NOTAS: Forma específica de conclusão de
também pode ser empregado de modo específico para referir-se a tratados, caracterizada pela informalidade e simplicidade do procedimento.
instrumentos de particular importância ou solenidade, geralmente Dois Estados trocam correspondências diplomáticas manifestando suas
multilaterais e que versam sobre matérias de grande relevância política ou vontades concordantes sobre determinada matéria, constituindo-se assim um
jurídica. acordo vinculante.
CONVENÇÃO: Amplamente utilizada, especialmente para designar ACORDO EM FORMA SIMPLIFICADA ou ACORDO DO
acordos multilaterais que estabelecem normas gerais sobre determinada EXECUTIVO: Não requerem aprovação parlamentar ou ratificação formal,
matéria, como a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados ou as entrando em vigor diretamente após a assinatura ou troca de instrumentos.
Convenções de Genebra sobre Direito Humanitário. Esta categoria tem ganhado importância crescente nas relações internacionais
CARTA: Comumente empregada para instrumentos constitutivos de modernas, pela flexibilidade e rapidez que proporciona.
organizações internacionais, como a Carta das Nações Unidas ou a Carta da MODUS VIVENDI: Refere-se tradicionalmente a acordos provisórios ou de
Organização dos Estados Americanos. caráter transitório, destinados a regular temporariamente uma situação até
PROTOCOLO: Designa frequentemente um acordo complementar ou que se alcance uma solução definitiva.
adicional a um tratado anterior, embora também possa referir-se a acordos CONCORDATA: Denominação específica para tratados celebrados entre a
independentes, especialmente em matéria diplomática. Santa Sé e Estados, versando sobre matérias de interesse da Igreja Católica.
PACTO: Termo menos frequente na prática contemporânea, mas muito REVERSAIS ou NOTAS REVERSAIS: Designam declarações escritas
utilizado no período entre guerras. Exemplo: Pacto Internacional sobre mediante as quais um Estado se compromete a adotar determinado
Direitos Civis e Políticos. comportamento ou a reconhecer certa situação jurídica.
ACORDO: Denominação bastante genérica e flexível, podendo designar
tanto instrumentos formais quanto arranjos de menor solenidade.
Resumo: Carlos Weber
Bacharelado em Direito - 10º Período
Os tratados internacionais apresentam, em geral, uma estrutura formal relativamente padronizada, isto porque,
embora não seja rigorosamente uniforme, geralmente segue certos padrões estabelecidos pela prática diplomática, com
variações dependendo da complexidade do instrumento e das tradições jurídicas envolvidas.
O título identifica o tratado e frequentemente indica seu objeto principal e as partes contratantes. O preâmbulo
constitui a parte introdutória que identifica as partes contratantes, seus representantes e os plenos poderes que os
habilitam. Os considerandos enunciam os motivos, objetivos e princípios que inspiraram a celebração do tratado,
servindo como importante elemento interpretativo. O articulado ou cláusulas constitui o corpo normativo propriamente
dito, contendo as obrigações, direitos e disposições substantivas do acordo. O fecho é a fórmula final que precede as
assinaturas, atestando que os representantes firmam em nome de seus Estados. A assinatura dos plenipotenciários
autentica o texto e, dependendo do tipo de tratado, pode expressar o consentimento definitivo ou apenas a autenticação
do texto negociado. O selo de lacre, embora menos comum atualmente, tradicionalmente acompanhava a assinatura
como elemento de autenticação adicional. Os anexos contêm material complementar, como listas, mapas, especificações
técnicas ou disposições detalhadas que, embora parte integrante do tratado, são separados do texto principal por razões
de clareza ou organização.
TÍTULO: Primeiro elemento identificador do tratado, devendo FECHO: Parte final do tratado que antecede as assinaturas,
indicar de forma clara e sintética o objeto principal do acordo e, geralmente contendo fórmula protocolar que confirma a adoção do
frequentemente, as partes envolvidas. texto pelas partes.
PREÂMBULO: Embora não contenha disposições normativas ASSINATURA: Dos representantes plenipotenciários autenticam o
propriamente ditas, desempenha papel importante ao contextualizar texto do tratado, embora, dependendo do procedimento adotado,
o tratado e explicitar as motivações e objetivos das partes possam não representar ainda o consentimento definitivo em
contratantes. É no preâmbulo que geralmente se identificam os obrigar-se.
Estados ou organizações signatários, através da menção aos seus SELO DE LACRE: Tradicionalmente, os tratados eram
representantes devidamente credenciados. acompanhados de selo de lacre, elemento que conferia solenidade e
CONSIDERANDOS: Podem integrar o preâmbulo ou constituir autenticidade ao documento. Embora menos comum na prática
seção autônoma, enumeram as razões e circunstâncias que levaram contemporânea, o selo ainda é utilizado em instrumentos de
à celebração do tratado. Embora não tenham força normativa direta, particular importância.
são extremamente relevantes para a interpretação do tratado, pois ANEXOS: Elementos complementares ao tratado que contêm
revelam a intenção das partes e os objetivos que buscavam alcançar. informações técnicas, listas, especificações ou regulamentos
ARTICULADO ou CLÁUSULAS: Constitui o corpo normativo do detalhados que, por sua extensão ou natureza, não são
tratado, contendo as disposições substantivas e procedimentais que adequadamente incluídos no articulado principal. Os anexos têm, em
efetivamente vinculam as partes. As cláusulas devem ser redigidas princípio, o mesmo valor jurídico que o corpo do tratado, salvo
de forma clara, precisa e sistemática, organizadas logicamente em disposição expressa em contrário.
artigos, parágrafos e incisos quando necessário.
A classificação dos tratados pode ser realizada segundo diversos critérios, cada um revelando aspectos
importantes de sua natureza e regime jurídico. Quanto ao número de partes, os tratados dividem-se em bilaterais, quando
celebrados entre dois sujeitos de direito internacional, e multilaterais, quando envolvem três ou mais partes. Os tratados
multilaterais podem ainda ser classificados como "umbrella treaty", que são tratados-quadro estabelecendo princípios
gerais que serão detalhados por acordos posteriores, ou como convenções-quadro, que estabelecem uma estrutura
normativa básica complementada por protocolos específicos. Esta distinção é importante pois os tratados bilaterais
geralmente estabelecem relações jurídicas recíprocas e específicas entre duas partes, enquanto os multilaterais criam
regimes jurídicos objetivos aplicáveis à comunidade de Estados-partes ou até mesmo à comunidade internacional como
um todo.
Quanto ao procedimento de conclusão, os tratados classificam-se em tratados stricto sensu e tratados de forma
simplificada. Os tratados stricto sensu seguem o procedimento completo de conclusão, incluindo negociação, assinatura,
referendo parlamentar, ratificação e troca ou depósito dos instrumentos de ratificação. Já os tratados de forma
simplificada dispensam alguma dessas formalidades, especialmente o referendo parlamentar e a ratificação, entrando
em vigor com a simples assinatura ou mediante procedimento abreviado. Esta modalidade simplificada tem sido cada
vez mais utilizada na prática internacional contemporânea, especialmente para acordos técnicos, administrativos ou de
execução de tratados anteriores.
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Relativamente à execução no tempo, os tratados podem ser transitórios ou permanentes. Os tratados transitórios
são aqueles cujo objeto se esgota com sua execução, como tratados de cessão territorial ou de paz. Os tratados
permanentes estabelecem relações jurídicas duradouras, não se extinguindo com sua execução, mas mantendo-se em
vigor por tempo determinado ou indeterminado. Ainda quanto a este aspecto temporal, os tratados classificam-se em
mutalizáveis e não-mutalizáveis. Os tratados mutalizáveis são aqueles cujas disposições admitem adaptação às
mudanças de circunstâncias por meio de interpretação evolutiva, enquanto os não-mutalizáveis estabelecem disposições
rígidas que não comportam tal flexibilização interpretativa.
Quanto à natureza jurídica, tradicionalmente distinguem-se os tratados-normativos ou tratados-lei dos tratados-
contrato. Os tratados-normativos ou tratados-lei estabelecem normas gerais de conduta, criando direito objetivo
aplicável aos Estados-partes e, em alguns casos, à comunidade internacional. Exemplos incluem convenções sobre
direitos humanos, direito humanitário e direito do mar. Já os tratados-contrato criam obrigações específicas e recíprocas
entre as partes, assemelhando-se funcionalmente a contratos de direito privado, embora regidos pelo direito
internacional. Exemplos incluem tratados comerciais bilaterais, acordos de fronteira e tratados de aliança. Contudo, essa
distinção é objeto de críticas na doutrina contemporânea, pois muitos tratados apresentam características mistas.
Quanto à possibilidade de adesão, os tratados classificam-se em abertos e fechados. Os tratados abertos permitem
a adesão de Estados que não participaram originalmente de sua negociação e celebração, podendo ser limitados, quando
a adesão depende de convite ou aprovação dos Estados originários, ou ilimitados, quando qualquer Estado pode aderir
mediante procedimento previsto no próprio tratado. Os tratados fechados, por sua vez, não admitem novos participantes
além dos signatários originais, criando um regime jurídico exclusivo entre as partes contratantes.
O processo de formação dos tratados compreende fases distintas que podem ser agrupadas em fase internacional
e fase interna. A fase internacional inicia-se com a negociação, na qual os representantes dos Estados discutem o
conteúdo do futuro tratado. Esta fase pode ser precedida por negociações exploratórias e pode envolver conferências
diplomáticas, especialmente no caso de tratados multilaterais. Assim, as negociações podem ocorrer através de canais
diplomáticos normais, como no caso das conferências internacionais especialmente convocadas, ou no âmbito de
organizações internacionais. A conclusão representa o momento em que os negociadores chegam a um acordo sobre o
texto definitivo. A assinatura autentica o texto acordado e, em alguns casos, expressa o consentimento definitivo
do Estado em obrigar-se pelo tratado, enquanto em outros casos é apenas uma autenticação do texto, dependendo
ainda de posterior ratificação.
A fase interna, por sua vez, compreende o referendo parlamentar e os atos subsequentes de internalização do
tratado. O referendo parlamentar é o procedimento pelo qual o órgão legislativo aprova ou rejeita o tratado negociado
pelo Executivo, manifestando o consentimento do Estado sob a perspectiva de sua ordem constitucional interna. Este
procedimento varia conforme o sistema constitucional de cada Estado, podendo envolver aprovação por maioria simples,
qualificada ou até mesmo unanimidade, dependendo da matéria tratada. Após a aprovação parlamentar, segue-se a
ratificação, que é o ato pelo qual o Chefe de Estado ou de Governo confirma definitivamente o consentimento do Estado
em obrigar-se pelo tratado. A ratificação é geralmente formalizada por meio de um instrumento escrito que é trocado
entre as partes, nos tratados bilaterais, ou depositado junto a um depositário, nos tratados multilaterais. Finalmente, a
promulgação e publicação constituem os atos finais pelos quais o tratado é tornado público internamente e incorporado
à ordem jurídica nacional, tornando-se exigível.
Os requisitos de validade dos tratados são condições essenciais para que o acordo internacional produza efeitos
jurídicos regulares. O primeiro requisito é a capacidade das partes contratantes, que pode ser originária ou derivada. A
capacidade originária pertence aos Estados soberanos, que são os sujeitos primários do direito internacional. A
capacidade derivada é aquela conferida por norma de direito internacional a outros entes, como organizações
internacionais, que podem celebrar tratados dentro dos limites de suas competências funcionais. Estados federados e
outras entidades subnacionais geralmente não possuem capacidade para celebrar tratados internacionais, salvo quando
expressamente autorizado pela Constituição do Estado federal.
A habilitação dos representantes constitui outro requisito fundamental. Os representantes dos Estados devem estar
devidamente autorizados a negociar e concluir tratados em nome de seus governos. Esta autorização é formalizada
mediante plenos poderes, documento expedido pela autoridade competente. Certos representantes, por sua função,
dispensam plenos poderes, como Chefes de Estado, Chefes de Governo e Ministros das Relações Exteriores para todos
os atos relativos à conclusão de tratados, e chefes de missão diplomática para a adoção do texto de tratados entre o
Estado acreditante e o Estado acreditado.
O mútuo consentimento representa a convergência de vontades das partes contratantes, livre de vícios que possam
comprometer sua validade. O consentimento deve ser manifestado de forma clara e inequívoca, podendo ser expresso
através da assinatura, ratificação, adesão ou qualquer outro meio acordado. Os vícios de consentimento, como erro
essencial, dolo, corrupção do representante do Estado ou coação, podem afetar a validade do tratado, tornando-o
anulável.
O objeto lícito e possível constitui requisito material de validade. O tratado não pode ter objeto contrário a uma
norma imperativa de direito internacional geral (jus cogens), sendo nulo de pleno direito se o tiver. Exemplos de normas
imperativas incluem a proibição do uso da força, da escravidão, do genocídio e outras normas fundamentais da
comunidade internacional. O objeto deve também ser possível, tanto física quanto juridicamente, não podendo referir-
se a prestações impossíveis de serem cumpridas.
Outros atos referentes aos tratados complementam o regime jurídico desses instrumentos. A adesão é o ato pelo
qual um Estado que não participou da negociação e assinatura original de um tratado manifesta seu consentimento em
obrigar-se por ele, desde que o tratado seja aberto à adesão. A adesão produz os mesmos efeitos jurídicos que a
ratificação, tornando o Estado aderente parte plena do tratado.
A reserva constitui declaração unilateral feita por um Estado ao assinar, ratificar, aceitar, aprovar ou aderir a um
tratado, pela qual objetiva excluir ou modificar o efeito jurídico de certas disposições do tratado em sua aplicação a esse
Estado. As reservas são importantes instrumentos de flexibilização que permitem a participação mais ampla em tratados
multilaterais, mesmo quando um Estado não pode aceitar integralmente todas as suas disposições. Contudo, as reservas
sofrem limitações: podem ser vedadas expressamente pelo próprio tratado; podem ser restritas a determinadas
disposições; ou podem ser consideradas incompatíveis com o objeto e finalidade do tratado, caso em que serão inválidas.
Resumo: Carlos Weber
Bacharelado em Direito - 10º Período
A formulação de uma reserva gera consequências complexas nas relações entre o Estado reservante e os demais Estados-
partes, que podem aceitar ou objetar a reserva.
A emenda é o procedimento pelo qual as partes de um tratado modificam suas disposições. As regras para emenda
variam conforme o tratado, mas geralmente exigem negociação, acordo e consentimento dos Estados-partes. Em tratados
multilaterais, as emendas frequentemente vinculam apenas os Estados que as aceitarem, permanecendo o texto original
em vigor para os demais.
A interpretação dos tratados é atividade fundamental para determinar o sentido e alcance de suas disposições. A
Convenção de Viena estabelece regras gerais de interpretação que devem ser aplicadas harmonicamente. O princípio
fundamental é a boa-fé, segundo o qual os tratados devem ser interpretados segundo o sentido comum atribuível aos
termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objeto e finalidade. O contexto compreende o texto do tratado, incluindo
seu preâmbulo e anexos, bem como qualquer acordo ou instrumento conexo. A interpretação deve considerar os
objetivos e finalidades que as partes pretenderam alcançar com o tratado, evitando interpretações que frustrem seu
propósito essencial.
Além desses elementos principais, existem meios suplementares de interpretação que podem ser utilizados para
confirmar o sentido resultante da aplicação das regras gerais ou para determinar o sentido quando a interpretação
segundo as regras gerais deixa o significado ambíguo ou obscuro, ou conduz a resultado manifestamente absurdo ou
desarrazoado. Entre os meios suplementares destacam-se os trabalhos preparatórios, que incluem atas de negociações,
projetos preliminares e outros documentos do processo de elaboração do tratado, e as circunstâncias da conclusão, que
permitem compreender o contexto histórico, político e social em que o tratado foi celebrado.
Resumo: Carlos Weber
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A extinção dos tratados pode ocorrer por diversas causas, que podem ser classificadas em normais e anormais.
Entre as causas normais de extinção, encontra-se a ab-rogação, que é a revogação do tratado por acordo entre todas as
partes, podendo ser expressa, quando formalizada em novo tratado ou protocolo, ou tácita, quando resulta da celebração
de tratado posterior incompatível. A expiração do termo pactuado extingue automaticamente os tratados celebrados por
prazo determinado, sem necessidade de qualquer ato adicional. A execução integral do objeto aplica-se aos tratados
transitórios, que se extinguem quando cumprida a prestação que constituía seu objeto. A celebração de tratado posterior
sobre a mesma matéria pode extinguir o tratado anterior por incompatibilidade ou por vontade expressa das partes. A
verificação de condição resolutiva, quando prevista no tratado, determina sua extinção automática.
A suspensão da execução constitui interrupção temporária da vigência do tratado, podendo decorrer de acordo
entre as partes ou de circunstâncias previstas no próprio tratado ou na Convenção de Viena. Durante a suspensão, as
partes ficam desobrigadas de cumprir as disposições do tratado em suas relações mútuas, mas o vínculo jurídico
permanece, podendo a execução ser retomada. A denúncia é o ato unilateral pelo qual uma parte manifesta sua vontade
de deixar de ser vinculada pelo tratado. A possibilidade e as condições para denúncia dependem das disposições do
próprio tratado. Tratados celebrados por prazo indeterminado geralmente admitem denúncia, enquanto tratados por
prazo determinado normalmente não a permitem antes do término do prazo, salvo disposição expressa.
Entre as causas anormais de extinção, a impossibilidade superveniente de execução verifica-se quando desaparece
ou é destruído definitivamente objeto indispensável à execução do tratado. Esta impossibilidade deve ser permanente,
objetiva e não imputável à parte que a invoca. A mudança fundamental das circunstâncias, também conhecida pela
expressão latina "rebus sic stantibus", permite a extinção ou suspensão do tratado quando ocorre mudança fundamental
nas circunstâncias existentes ao tempo da conclusão, desde que: a existência dessas circunstâncias constituiu base
essencial do consentimento das partes; a mudança tenha o efeito de transformar radicalmente o alcance das obrigações;
e a mudança não tenha sido prevista pelas partes. Esta cláusula é aplicada restritivamente pelos tribunais internacionais
para evitar que seja utilizada como pretexto para o descumprimento de tratados.
O rompimento das relações diplomáticas e consulares não afeta, por si só, as relações jurídicas estabelecidas por
tratados entre as partes, salvo na medida em que a existência de relações diplomáticas ou consulares seja indispensável
à aplicação do tratado. A violação substancial do tratado por uma das partes pode autorizar a outra parte a invocá-la
como causa de extinção ou suspensão do tratado, mas esta faculdade não é absoluta e está sujeita a limitações,
especialmente em tratados multilaterais e tratados estabelecendo regimes objetivos. O estado de guerra tradicionalmente
suspendia ou extinguia tratados entre os beligerantes, mas esta regra foi modificada pelo direito internacional
contemporâneo, que estabelece distinções segundo a natureza do tratado, mantendo em vigor durante os conflitos
armados os tratados humanitários e outros considerados essenciais.
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CAPÍTULO DE RESUMO PARA ESTUDO
GABARITO E JUSTIFICATIVAS
1. C - A Convenção de Viena estabelece que a interpretação deve seguir a boa-fé,
sentido comum, contexto e objeto/finalidade como regras principais (art. 31),
sendo os trabalhos preparatórios meios suplementares (art. 32).
2. C- O regime das reservas estabelece que o Estado reservante torna-se parte,
mas as disposições reservadas não se aplicam nas relações com Estados que
objetaram, mantendo-se com os que aceitaram expressa ou tacitamente (art. 20-
21 CVDT).
3. A - A mudança fundamental de circunstâncias (art. 62 CVDT) é excepção ao
pacta sunt servanda, exigindo condições rigorosas e interpretação restritiva, não
sendo qualquer mudança econômica suficiente.
4. B - Reservas incompatíveis com objeto e finalidade do tratado devem ser
rejeitadas (art. 19 CVDT), especialmente quando comprometem a essência do
regime estabelecido.
5. B - Acordos em forma simplificada são válidos conforme o direito
constitucional de cada Estado e a natureza da matéria, podendo dispensar
referendo parlamentar em certas circunstâncias.
6. D - O art. 27 da CVDT estabelece que um Estado não pode invocar seu direito
interno para justificar descumprimento de tratado, sendo responsável
internacionalmente pelos atos de todas suas entidades.
7. D - A corrupção do representante é vício de consentimento (art. 50 CVDT) que
permite anulação, mas exige procedimento específico e prazo razoável.
8. A - Protocolos são tratados autônomos que exigem consentimento específico,
vinculando apenas ratificantes, sem afetar a vigência da convenção-quadro para
não ratificantes.
9. E - A interpretação evolutiva é admitida quando o tratado comporta
flexibilização e é necessária para realizar seu objeto, mas modificações
substanciais exigem emenda formal.
10. E - A retirada de reserva pode ser feita a qualquer tempo (art. 22 CVDT), mas
modificação que amplie o alcance equivale a nova reserva, sujeitando-se ao
regime de aceitação/objeção.