Transumanismo e Edição gênica: do imaginário ficcional à realidade da
técnica
O instinto de sobrevivência do homem ao longo da história fomentou seu
aprendizado como ser em comunidade. A ação no ambiente foi fundamental
nos acontecimentos que marcaram o desenvolvimento das sociedades e,
sobretudo da consolidação das principais organizações sociais. O desejo de
aprimoramento da humanidade enquanto espécie - o trouxe às sociedades até
o momento atual. As espécies menos “aperfeiçoadas” terão tendência a
extinguirem-se até porque a competição é mais dura entre aquelas formas que
são mais próximas em hábitos, constituição e estrutura (DARWIN, 1859/2011).
Nesse contexto, o homem que antes elaborava suas concepções
forjadas no conceito da criação divina agora passa a concentrar nas próprias
mãos o poder de agir e manipular a própria vida. Assim, o filósofo alemão Hans
Jonas destaca o triunfo do Homo faber através do lugar central que a
tecnologia passa a ocupar nos fins da vida humana. As novas formas de agir
desse homem tecnológico solicitam então, em caráter urgente uma nova ética,
que o dimensione em sua responsabilidade na perspectiva das ações do
presente, mas também do futuro (JONAS, 2006). Uma ética reflexiva capaz de
lidar com o homem tecnológico e seus dilemas sociais.
O sentido epistemológico de humano passa a permear outras nuances
que não mais aquelas apenas atreladas à religião como o ser imagem e
semelhança do divino e seu herdeiro no planeta terra. Agora, adquire uma
perspectiva biológica como um mamífero vertebrado que evoluiu de um primata
para a espécie homo sapiens, para o direito de ser dotado de razão e
consciência que possui liberdade e igualdade em dignidade e direitos. Para a
Ciência da Informação o principal emissor e receptor de informações, enquanto
que para os modelos sociais de cultura foi se alterando ao longo do tempo, em
período pregresso mulheres, negros, deficientes outras minorias eram
considerados seres inferiores aos humanos, ou seja, e homens brancos e de
posses. (SALDANHA, 2012; FERREIRA, 2017; BITTAR, 2019).
A humanidade substancia a partir dos avanços tecnológicos um anseio
por ocasionar em sua espécie e também nas extra-humanas o desejo de
alterar o que é naturalmente formado, concebido como uma necessidade que
muitas vezes excede a perspectiva terapêutica e recobre o homem de uma
incessante sagacidade de alterar suas características em prol de “algo melhor”.
No entanto, a própria maquinaria natural do homem já é em sua estrutura um
celeiro de desenvolvimento e aprimoramento de habilidades se comparado às
demais espécies. Alguns autores ainda agregam a esse conceito para o
aspecto biológico, como HAVLÍK (2019):
levando em considerações que o corpo humano não veio
agraciado com um dispositivo fonador, a capacidade
evolutiva de produzir que depois se tornou na linguagem
como a conhecemos, é considerada uma habilidade pós-
humana ou que caracteriza este ser como um “humano
digital”.
A partir do século XIX e a profunda aceleração dos avanços científicos e
tecnológicos a sociedade passa a ser pautada na linguagem oficial da
racionalidade em virtude dos benefícios que esse conhecimento estaria
trazendo ao homem tecnológico. A intensa ação da Revolução Industrial na
Europa promove o surgimento das distopias e temor com o que a ciência e
tecnologia causariam à natureza humana passando a despertar novas
percepções acerca da realidade da técnica. Segundo o dicionário OXFORD
LANGUAGES (2022) distopia se refere em uma primeira definição: a
localização anômala de um órgão, e em uma segunda definição, o lugar ou
estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão,
desespero ou privação; antiutopia.
Esse impacto profundo da tecnologia na vida fez com que o homem
criasse cenários ficcionais que expressam essa revolução tecnológica.
Histórias que refletem como essas técnicas podem impactar a vida das
pessoas e como seria uma sociedade modificada por elas. A possibilidade de
alterar a vida em sua condição genética ou ainda transformar a concepção do
que se tem de humano passou a intrigar e mexer cada vez mais com o
imaginário das pessoas. Cada vez mais nos tornamos máquinas de sociedade
devido ao controle que sobre nós é exercido pelas novas tecnologias de
comunicação e de informação e pela forma como elas consensualizam a nossa
opinião (SERRES, 2001/2004).
Essas obras sejam no formato de filmes, películas ou livros trazem uma
perspectiva distópica na medida em que conduzem o leitor/ expectador a se
redimensionar para um contexto de mudança extrema sobre as consequências
de tais práticas - que seduzem pelo que podem oferecer, mas que despertam o
temor sobre os possíveis danos à espécie humana. Histórias impetradas pelos
ideais de eugenia, busca pelo prolongamento da vida por uma possível
imortalidade, upload de mentes, aperfeiçoamento, e consequente processo de
desumanização.
Nas distopias também é comum haver uma reprovação do reducionismo
humano em função da tecnologia e da ciência, como se essas fossem a única
maneira de conhecimento possível. O mito de Frankenstein é um grande
exemplo de produção mecanicista e desumanizadora. Sua publicação data
ainda do início da Revolução Industrial. O Prometeu Moderno (1818), mais
conhecido simplesmente por Frankenstein trata de um romance de terror
gótico, de autoria de Mary Shelley, escritora britânica Londrina. É considerada
a primeira obra de ficção científica da história. O romance relata a história de
Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que constrói
um monstro em seu laboratório. No século XX o marco das distopias
pessimistas foi o conto “A máquina parou” do romancista britânico Edward
Morgan Forster, publicado em 1909. Essa distopia, do tamanho de um conto é
assombrosa em suas predições: uma espécie de inteligência artificial. Forster
constrói um futuro em que “a máquina” é o cerne do controle e os seres
humanos são meros aparatos manipuláveis. Nessa sociedade futurística, a
natureza assume um segundo plano; a ideia de eugenia modificada no sentido
de que os fortes eram mortos para que a Máquina pudesse progredir. A
Máquina, como um órgão artificial que parece sobre uma Terra devastada e
pós-apocalíptica, se constitui como uma “síndrome de Frankenstein”:
Outro exemplo é a película Gattaca- A experiência genética (1997). Num
futuro no qual os seres humanos são escolhidos geneticamente em
laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são desvalorizadas e
consideradas inválidas ao passo que as que são geneticamente editadas são
consideradas superiores, dotadas de altas habilidades, os válidos. O
protagonista, Vincent Freeman desde pequeno, tem o desejo latente de ser
astronauta, mas como foi concebido naturalmente carrega em seu código
genético alterações que o predispõe a doenças cardíacas, o que o leva a trocar
de identidade para alcançar seu objetivo até que um assassinato põe seu
disfarce em risco. O filme aponta de forma muito contundente a estruturação de
uma sociedade formada por castas genéticas que acabam por determinar
comportamentos de segregação. Na prática já estamos, desta maneira, a
selecionar a forma como as futuras gerações irão nascer ao definirmos um
determinado protótipo de normalidade nos indivíduos (BOSTROM, 2003).
Outro exemplo é a película A.I. Inteligência Artificial (2001). A história de
A.I. Inteligência Artificial se passa num futuro indeterminado, quando a terra
passa por grandes impactos ambientais em virtude do efeito estufa. Assim,
humanos criam um novo tipo de computador com uma inteligência artificial
incrível: os mecas, robôs independentes, conscientes de sua existência. Assim,
a Terra fica dividida entre os orgas (seres orgânicos/humanos) e os mecas
(seres mecânicos/robôs). Os mecas são produzidos com as mais diferentes
finalidades, mecas babás, mecas empregados. No entanto, todos eles têm uma
característica em comum: a de servir aos seres humanos como “escravos”,
incondicionalmente. Na iminência de perder o único filho, doente e em estado
vegetativo, um casal adota o primeiro desses androides. Após a resistência
inicial, a mãe dá ao robô comandos de sentimentos, que farão com que esse a
reconheça como sua mãe e ame-a para sempre. Entretanto, o filho verdadeiro
recupera-se e, num acidente o menino-meca é acusado injustamente de ser
uma ameaça. A visão distópica de A.I. revela-se com as máquinas
sobrevivendo aos seres orgânicos. De acordo com Noma (1998), filmes como
A.I. servem de alerta para o fato de que “a adesão, a aceitação cega, sem
questionamentos, dos produtos da ciência e da tecnologia pode levar à morte,
à desordem e à destruição”. No final, a prova da existência humana fica
registrada na memória de um ser robótico, o resgate de sua memória em uma
perspectiva não de evolução, mas de extinção da espécie. A humanização do
protagonista, um menino-robô apresenta-se na medida em que o conceito de
humanidade torna-se inerente à sua subjetividade, com o que restou de
memória da humanidade.
Tanto a Edição gênica como o Transumanismo dimensionam para a
sociedade o paradigma sobre a utilização indiscriminada da técnica e da
necessidade do estabelecimento de moratória para que os danos não superem
os benefícios já que em ambas, o patrimônio genético do homem está em jogo
bem como sua identidade como espécie. Na verdade, também estamos
perante uma passagem do conceito de perfectibilidade de sociedade para o
conceito de perfectibilidade da vida correspondente a uma despolitização da
sociedade e ao aumento de um novo tipo de individualismo fundado na crença
do superpoder da ciência e na capacidade de intervir em processos vitais
(KNORR CETINA, 2005, in LAFONTAINE, 2009).
Esses processos poderão, cada vez mais, diluir a diferença entre o
biológico e o artificial e mesmo entre o humano e a máquina. A partir do
momento em que criamos sistemas que são capazes de se auto-replicarem ou
de se reproduzirem estamos perante sistemas com uma autonomia que não
dependem da vontade e da intervenção direta humana MAIA (2017). Torna-se
fundamental pensar sobre quais perspectivas estarão regendo o futuro da
humanidade diante de mudanças tão profundas.
Sobre o futuro da humanidade: evolução biológica ou melhoramento
constante da espécie? Dilemas conjecturais
Nessa corrida pelo desenvolvimento e avidez da técnica o homem se vê
diante de um questionamento ético, como ser biológico busca o incessante
melhoramento de sua espécie. Neste sentido, FUKUYAMA (2002) define a
natureza humana como sendo “o somatório dos comportamentos e das
características que são típicos da espécie humana e que tem origem genética e
não ambiental”. No entanto, torna-se imperativo refletir sobre a prudência e a
responsabilidade nos caminhos que serão trilhados pelo homem na sua
existência no futuro. Assim sendo, aquilo que a ciência colocou à nossa
disposição, através da técnica, tem de ser, em sentido inverso, normativamente
indisponibilizado pelo controlo moral HABERMAS, (2001/2006).
No enfoque Transumanista a Máquina acaba prevalecendo sobre a
humanidade enquanto na Edição gênica o ser humano sofre alterações em seu
material genético na busca por uma expressão de características superiores
reforçando os moldes de eugenia. O objetivo Transumanista viabiliza-se pela
mecanização da vida, do comportamento humano, dos animais e da natureza. O
objetivo da Edição gênica baseia-se na modificação de características genéticas
visando um suposto melhoramento da espécie.
Como uma tesoura molecular a Edição gênica recebe esse nome, pois é
capaz de “deletar” trechos específicos do DNA e inserir novos genes no local –
tanto células germinativas quanto somáticas podem ser editadas (TOBITA, 2015).
Pode ser um procedimento feito em linha germinativa em que tais alterações
genéticas são também transmitidas aos descendentes. Alguns pesquisadores
também incluem sob essa designação embriões no estágio inicial de formação e
de forma corretiva em células somáticas suprimindo ou expressando
características ao longo da vida do indivíduo. A evolução legou à humanidade
diversas fraquezas genéticas. Assim, havendo ferramentas científicas, como a
terapia genética, que efetuem nosso melhoramento biológico, devemos utilizá-las
(Smith, Chan & Harris, 2012).
Na perspectiva Transumanista, o homem sofre alterações drásticas em seu
corpo em prol de um melhoramento de suas funções vitais. Pensar que órgãos
podem ser substituídos por um corpo mecânico e tecnológico ou ainda um cérebro
humano disposto numa cúpula evidencia enfaticamente o reducionismo da
natureza humana. Para os autores que apoiam o Transumanismo esse seria o
ideal, quando o ser humano se tornar ele mesmo uma máquina sendo a natureza
vista como limitada, imperfeita e mortal. Para eles, esse aperfeiçoamento da
natureza humana aponta para o desejo cada vez maior dos seres humanos em ter
controle sobre sua existência e, por conseguinte por sua própria evolução . “Talvez
o Transumanismo sirva: o homem permanecendo homem, mas transcendendo a si
mesmo, realizando novas possibilidades de e para sua natureza humana” HUXLEY
(1968).
O debate sobre a prática da Edição gênica e do Transumanismo solicita a
sociedade a se debruçar sobre necessidade de se pensar sobre diferentes
concepções. A necessidade de uma dimensão ético-jurídica que possa resguardar
os direitos humanos. A dimensão de uma concepção naturalista que se baseia na
evolução do que é humano e quais serão os limites acerca do desenvolvimento
como espécie; a concepção de humano baseada no entendimento que existe uma
natureza humana que precisa ser conservada ao longo dos tempos. E ainda uma
concepção baseada na ideia que se o humano pode sempre ser alvo de
melhoramento constante como sendo a melhor opção o que irá lhe conferir
legitimidade? Qual será a definição de humano? Quais serão os princípios que
orientarão esse conceito de humanidade?
A técnica ameaça destruir a essência do que nos define como humanos,
sendo necessário estabelecermos uma normatização ética, protegendo-nos contra
a hybris da manipulação tecnológica (Jonas, 2006). À luz desses questionamentos
vem à tona a dimensão metafísica e o sentido da existência da humanidade sob o
ponto de vista ontológico, isto é, na concepção do Ser como elemento que
evidencia a identidade humana a partir de seu estar no mundo sob diferentes
subjetividades.
A possibilidade de se evitar a manipulação da tecnologia sobre o homem ou
da extinção da natureza em sua primazia seria agir com prudência redirecionando
a tecnologia em seu devido lugar, como um artefato auxiliar, e não no centro da
vida humana. Isto requer adotarmos uma atitude de contenção e humildade diante
do mundo, reconhecendo que a humanidade não ocupa um lugar privilegiado na
Terra, quando comparada aos outros seres, um princípio de responsabilidade
JONAS (2006).
REFERÊNCIAS:
BITTAR, Eduardo C. B. A Teoria do Direito, a Era Digital e o Pós-Humano: o
novo estatuto do corpo sob um regime tecnológico e a emergência do Sujeito
Pós-Humano de Direito. Revista Direito e Práxis, v. 10, n. 2, p. 933–961, 2019.
BOSTROM, Nick. A history of transhumanist thought. Journal of Evolution and
Technology, [s. l.], v. 14, n. 1, pp. 1–25, 2005.
Darwin, C. (2011). A origem das espécies (V. Guerreiro, Trad.). Lisboa: Babel.
(Obra original publicada em 1859).
Distopia In: Oxford Languages Dictionary. 2022. Disponível em:
[Link] Acesso em 08 abr
2022.
FERREIRA, Hugo. Antes do pós-humano: insetos sociais, mamíferos
superiores e a (re)construção de fronteiras entre os humanos e os animais na
modernidade. Ilha do Desterro, v. 70, n. 2, p. 15–27, 2017. Disponível em:
[Link]
80262017000200015&lang=p t. Acesso em: 28 abr. 2022.
FUKUYAMA, Francisco. O nosso futuro pós humano, Lisboa, Quetzal editores,
2002, pág. 374.
Gattaca- Experiência genética. Disponível em
[Link] Acesso em 08 abr 2022.
Habermas, J. (2006). O futuro da natureza humana: a caminho de uma eugenia
liberal (M.B. Bettencourt, Trad.). Coimbra: Edições Almedina. (Obra original
publicada em 2001)
HAVLÍK, Vladimír. The naturalness of artificial intelligence from the evolutionary
perspective. AI and Society, v. 34, n. 4, p. 889–898, 2019. Disponível em:
[Link] Acesso
em: 8 abr. 2022.
HUXLEY, Julian. Transhumanism. In: Journal of Humanistic Psychology, [s. l.],
v. 8, n. 1, pp. 73–76, 1968.
Inteligência artificial. Disponível em [Link] _Intelig
%C3%AAncia_Artificial. Acesso em 08 abr 2022.
Jonas H. O princípio responsabilidade: ensaios de uma ética para a civilização
tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio; 2006.
Lafontaine, C. (2009). The Postmortal Condition: From the Biomedical
Deconstruction of Death to the Extension of Longevity. Science as Culture,
Vol.18, 3, 297-312
MAIA, João Jerónimo Machadinha. Humano, pós-humano e transumano:
fronteiras dúbias e indefinidas num mundo desigual. Revista de História das
Ideias, v. 35, n. 2, p. 47–70, 2017. Disponível em:
[Link] pós-humano
e transumano%3Afronteiras dúbias e indefinidas num mundo [Link].
Acesso em: 6 abr. 2020.
NOMA, Amélia Kimiko. Visualidades da vida
urbana: Metropolis e Blade Runner. São Paulo, 1998. Tese (Doutorado em
História Social)-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
SALDANHA, Gustavo Silva. Humano, Inumano, Pós-humano: o homem na, da
e para a Ciência da Informação. Ponto de Acesso, Salvador, v. 6, n. 3, p. 107,
2012. Disponível em: [Link] Acesso
em: 28 mar. 2022.
Serres, M. (2004). Hominescência (L.C. Feio, Trad.). Lisboa: Instituto Piaget.
(Obra original publicada em 2001)
SGANZERLA, Anor. Hans Jonas e a promoção da Bioética Global de VR
Potter. Pensando-Revista de Filosofia, v. 11, n. 24, p. 60-72, 2020.
Tobita T, Guzman-Lepe J, L’Hortet AC. From hacking the human genome to
editing organs. Organogenesis [Internet]. 2015 [acesso 2 set 2018];11(4):173-
82. Disponível: [Link] [Link]
SMITH, Kevin; CHAN, Sarah; HARRIS, John. Human germline genetic
modification: scientific and bioethical perspectives. Archives of Medical
Research, v. 43, n. 7, p. 491- 513, 2012.
[Link]