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DA REDUÇÃO DAS DISPOSIÇÕES

TESTAMENTÁRIAS
Prof. Ludmila Defaci
Noções introdutórias e conceito
 por força da garantia legal da legítima do herdeiro necessário o
testador não pode dispor em testamento de percentual maior
que 50% do seu patrimônio.

 Em havendo herdeiros necessários e for ultrapassada a legítima, o


testamento não perde sua validade.

 A redução das disposições testamentárias ocorrerá quando for


necessário reduzir a parte que excedeu à legítima.
 Não se anulam as disposições testamentárias, ou o
testamento, apenas se transfere para a legítima bens da quota
disponível.

 As regras também se aplicam à partilha em vida. Artigo 549,


do CC: “Art. 549. Nula é também a doação quanto à parte
que exceder à de que o doador, no momento da liberalidade,
poderia dispor em testamento.”
 AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
DIREITO CIVIL. DOAÇÃO INOFICIOSA. SIMULAÇÃO.
PRESCRIÇÃO. VINTENÁRIA. 1. Recurso especial interposto
contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de
1973 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ). 2. Esta Corte
Superior de Justiça firmou entendimento no sentido de que, no caso
de ação de nulidade de doação inoficiosa, o prazo prescricional é
vintenário e conta-se a partir do registro do ato jurídico que se
pretende anular. Precedentes. 3. Agravo interno não provido.
 (STJ - AgInt no AREsp: 960549 PR 2016/0201842-8, Relator:
Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, Data de Julgamento:
20/02/2018, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe
27/02/2018)
 Há entendimentos de que somente com a abertura da
sucessão podem os herdeiros discutirem a magnitude do
quinhão que lhe cabe, cabendo ao donatário aportar à colação
o bem recebido gratuitamente.
No caso, a doação foi realizada em 19.06.1991 na vigência do Código Civil de
1916 e a ação proposta em 16.06.2011.
Como exposto, sob a égide do referido diploma, a pretensão declaratória de
nulidade de ato jurídico se submetia a prescrição vintenária.
Com a entrada em vigor do Código Civil de 2002 o prazo prescricional foi
reduzido para dez anos, passando a ser previsto no art. 205, considerando a
ausência de regra específica aplicável:
“Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo
menor.”
A solução quanto ao prazo prescricional a ser aplicado para os fatos ocorridos
antes da vigência do novo Código, vem disciplinada pela regra de direito
intertemporal estabelecida em seu art. 2028, pelo qual serão da lei anterior,
os prazos quando forem reduzidos e já houver transcorrido mais da metade
do tempo estabelecido na lei revogada.
A contrario sensu, quando não houver decorrido mais da metade do
prazo serão os prazos da lei nova, sendo que tais prazos reduzidos são
contados a partir da entrada em vigor no Novo Código.

Considerando que já havia decorrido mais da metade do prazo


prescricional quando o novo Código entrou em vigor, aplicável o
prazo vintenário a contar do registro do ato jurídico.

Assim, contando que a doação realizada em 16.06.1991 foi transcrita


no registro de imóveis em 26 de junho de 1991, a ação foi proposta
dentro do prazo legal (16.06.2011).
APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO CIVIL. DOAÇÃO DE
ASCENDENTE A DESCENDENTE. ÚNICO BEM IMÓVEL.
VIOLAÇÃO DA LEGÍTIMA. PEDIDO DECLARATÓRIO DE
NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO. REDUÇÃO DE DOAÇÃO
INOFICIOSA. NATUREZA CONSTITUTIVA NEGATIVA. AÇÃO
AJUIZADA POR HERDEIRA ENQUANTO VIVO O DOADOR.
POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DO CÓDIGO CIVIL DE 1916.
PRAZO PRESCRICIONAL VINTENÁRIO. TERMO INICIAL.
PUBLICIDADE DO ATO. TRANSCRIÇÃO DO TÍTULO NO
REGISTRO DE IMÓVEIS. PRECEDENTES DO STJ. ANULAÇÃO
DA DOAÇÃO NA PARTE QUE VIOLA A LEGÍTIMA DA
HERDEIRA. Sob a égide do Código Civil de 1916, apesar da
referência da lei a nulidade do ato, a invalidade decorrente de doação
inoficiosa era passível
de anulação no prazo prescricional previsto para as ações pessoais.
Prescrição vintenária contada a partir da publicidade do ato, que se dá
com a transcrição do título no registro de imóveis. Prescrição não
verificada. Comprovado que a doação extrapola o limite disponível do
patrimônio do doador existente ao tempo da liberalidade, violando a
legítima da herdeira, cumpre anular o ato jurídico naquilo que a
excede. Conhecimento e provimento do recurso.
(TJ-RJ - APL: 00079274520118190028 RJ 0007927-
45.2011.8.19.0028, Relator: DES. ROGERIO DE OLIVEIRA
SOUZA, Data de Julgamento: 14/01/2014, VIGÉSIMA SEGUNDA
CAMARA CIVEL, Data de Publicação: 10/02/2014 12:07)
 Ao contrário do que entendeu o magistrado de 1º Grau, o herdeiro lesado com
a doação inoficiosa pode pleitear através de ação a redução ou anulação da
liberalidade na parte excedente sem que seja necessário aguardar a abertura
da sucessão.
 Outra não poderia ser a solução, pois, tratando-se de negócio jurídico inter
vivos (contrato de doação), a pretensão de nulidade do negócio nasce no
momento da liberalidade.
 Até por imperativo de segurança jurídica, considerando a possibilidade de que
o bem venha a ser objeto de outros negócios jurídicos, nada aconselha que se
aguarde a morte do doador para que o herdeiro lesado venha pleitear a
nulidade do ato.
 Art. 1.846. Pertence aos herdeiros necessários, de pleno direito, a
metade dos bens da herança, constituindo a legítima.

 Art. 1.847. Calcula-se a legítima sobre o valor dos bens existentes na


abertura da sucessão, abatidas as dívidas e as despesas do funeral,
adicionando-se, em seguida, o valor dos bens sujeitos a colação.
Art. 1.966. O remanescente pertencerá aos herdeiros
legítimos, quando o testador só em parte dispuser da quota
hereditária disponível.

 regra do artigo 1966:


1) a existência de herdeiros necessários pois só nessa
hipótese ocorre a metade disponível;
2) a disposição em parte da metade testável; e
3) a existência de resíduo.
 Se o testador tinha um patrimônio de R$120.000,00, R$
60.000,00 correspondem a legítima. Os outros R$ 60.000,00 à
cota disponível. Se no testamento só dispôs de R$40.000,00 o
restante de R$20.000,00 passam a compor a legítima:

Prof. Eduardo de Oliveira Leite


Lei da redução
 Vigora a lei vigente na data da abertura da sucessão e não
pela lei vigente no momento da feitura do testamento.

 Enquanto vivo o seu autor, o testamento não produz efeitos


jurídicos é necessário a ocorrência da morte para que possa
gerar seus efeitos.
Regras de redução
 Art. 1.967. As disposições que excederem a parte disponível reduzir-se-ão aos
limites dela, de conformidade com o disposto nos parágrafos seguintes.
 § 1o Em se verificando excederem as disposições testamentárias a porção
disponível, serão proporcionalmente reduzidas as quotas do herdeiro ou
herdeiros instituídos, até onde baste, e, não bastando, também os legados, na
proporção do seu valor.
 § 2o Se o testador, prevenindo o caso, dispuser que se inteirem, de preferência,
certos herdeiros e legatários, a redução far-se-á nos outros quinhões ou
legados, observando-se a seu respeito a ordem estabelecida no parágrafo
antecedente.
 O testador dispôs de R$ 80.000,00 no testamento (de um
patrimônio de R$120.000,00). Assim, houve excesso de
R$20.000,00 que deverá sofrer redução – artigo 1967, CC:

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 Art. 1.968. Quando consistir em prédio divisível o legado sujeito a redução,
far-se-á esta dividindo-o proporcionalmente.
 § 1o Se não for possível a divisão, e o excesso do legado montar a mais de um
quarto do valor do prédio, o legatário deixará inteiro na herança o imóvel
legado, ficando com o direito de pedir aos herdeiros o valor que couber na
parte disponível; se o excesso não for de mais de um quarto, aos herdeiros fará
tornar em dinheiro o legatário, que ficará com o prédio.
 § 2o Se o legatário for ao mesmo tempo herdeiro necessário, poderá inteirar
sua legítima no mesmo imóvel, de preferencia aos outros, sempre que ela e a
parte subsistente do legado lhe absorverem o valor.
 Em resumo o artigo 1968 e seus parágrafos 1º e 2º, do CC,
preveem três hipóteses que podem ocorrer:

 1ª se o excesso do legado for superior a um quarto do seu valor, o


legatário deixará o imóvel aos herideiros recebendo o que lhe
couber em dinheiro;

 2ª se a diferença for inferior a um quarto do valor ficará com o


imóvel, pagando a diferença aos herdeiros; e

 3ª se o legatário for simultaneamente herdeiro, terá preferência


para ficar com o imóvel desde que, somados o legado e a herança
totalizem o valor do prédio.
 Primeira hipótese: excesso de legado superior a 1/4 do seu valor.
 Ex.: o prédio indivisível, objetivado no legado vale R$100.000,00, tendo havido
excesso de R$40.000,00 sobre a legítima. Como o excesso ultrapassa mais de 1/4 do
valor (1/4 = R$25.000,00), o imóvel permanece na herança e o legatário recebe dos
herdeiros em dinheiro a quantia de R$60.000,00 – artigo 1.968, §1º, 1ª parte, CC:

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 Segunda hipótese: excesso de legado inferior a 1/4 do seu valor.
 Ex.: o prédio indivisível, objetivado no legado, vale R$100.000,00, tendo havido
excesso de R$20.000,00 sobre a legítima (portanto, menos de 1/4) como o excesso
é menor que 1/4, o imóvel permanece com o legatário, que devolverá aos
herdeiros a parte inoficiosa, no valor de R$20.000,00 – artigo 1.968, §1º, parte
final, do CC:

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 Terceira hipótese: Se o legatário for simultaneamente
herdeiro

 Ex.: o prédio vale R$100.000,00, a redução deve ser de


R$40.000,00, pois o testador somente podia ter legado até o valor de
e a legítima do herdeiro é de R$60.000,00. Somando esse último
valor com a parte subsistente do legado R$60.000,00 +
R$60.000,00 = R$120.000,00 - absorvido fica o valor de todo o
prédio. O interessado receberá assim o imóvel de preferência aos
demais herdeiros, repondo apenas o excesso de R$20.000,00
(R$120.000,00 - R$100.000,00 = R$20.000,00) – artigo 1.968,
§2º do CC:
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Redução nas doações
 Doação de valor em vida.
 Ex.: A falece deixando bens no valor de R$2.000,00. Em vida doou
R$3.000,00. Deve-se então distinguir duas situações diferentes. Se por
ocasião da doação de R$3.000,00 o patrimônio de A era igual ou
superior a R$6.000,00, incluindo-se, assim, a doação nos limites do
disponível, não pode a mesma ser reduzida. Para fins de imputação,
considerar-se-á esgotada a parte disponível, e os R$2.000,00 deverão
ser divididos entre os herdeiros necessários.
 Se, ao contrário, quando fez a doação dos R$3.000,00 A tinha apenas
um patrimônio de R$4.000,00, houve um excesso inoficioso de
R$1.000,00 na doação, cujo limite máximo permitido seria de
R$2.000,00. Cabe, pois, a redução das doações inoficiosas.