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Um Beijo Mais Profundo Que Esse Abismo

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Uma jovem em uma cidade estrangeira. Dois irmãos. O pai
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05/07/2014

UM

BEIJO

UM BEIJO MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO

MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO

Ricardo de Almeida Rocha

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UM BEIJO MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO

Ricardo de Almeida Rocha

NÃO ACHARÁS, AMOR,
NO POÇO EM QUE CAIS O QUE NA ALTURA GUARDO PARA TI: UM RAMO DE JASMINS TODO ORVALHADO, UM BEIJO MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO.

Pablo Neruda (O poço)

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Os ladrilhos das fachadas amarelejam ao longo do caminho para o fim. Bordas de blusa ondulam sob o vôo leve do pássaro de um sonho. As mãos que se juntaram ante o papel de carta qual prece, envoltas em lubricidade atroz, se agitam saindo das mangas de veludo gasto. Dedos desenhados conforme as luzes da noite. A saia cuja textura não permite que se determine a cor, adeja, mansa e inexaurível, tomada de suntuosidade súbita. Os traços do rosto na aura de medo e sofrimento não se atribuem a imponente beleza que os transeuntes detectam. Para o fim. Ela sabe. Escuta nos carros que passam. Está escrito no dia entre os prédios vacilante. Entende com a razão que resta. Em meio ao crepúsculo de

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cimento decidiu seguir e encontrar um sentido para o fim. Faltam alguns dias para o inverno mas digam-me se essa temperatura poderá baixar mais. É friorenta. Seu casaquinho mais quente estava úmido da chuva do dia anterior. Esta saia não é adequada. Mas decerto ainda estaria muito frio. Uma noite dessas. Um dia faz tempo. Não mais que uma semana. A chegada. Disseram que o centro não estava longe. Que seguisse a avenida até o parque e virasse à direita no semáforo. Não disseram quantos quarteirões isso significava. Desembarca. Meio-dia gelado ao desembarcar. É esta avenida. Não vê nada ao redor. Por que mesmo não acompanhou a moça? Medo de pessoas pouco conhecidas. De lugares desconhecidos. O pavor dos recomeços. Horror ante os esquecimentos. Luzes de uma janela. Vozes de crianças. Um vulto recortado contra a sala. Disse aos vizinhos que o emprego estava certo. Não precisa ir, Alice. Não precisa ir, Alice – reiterou o cisco que entrou em seu olho. Você tem tudo aqui. Devia terminar a faculdade sem pressa, fazer um doutorado. Um dia ela achará
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o mesmo. Um dia, como sempre, quando não mais for possível. Ela não conversa há dias. Terá de inventar a salvação em silêncio. Diziam que era bonita antes de não ter para onde ir. Lisonjas. Mentiras e lisonjas – a substância de que o mundo é feito. Está preparada para tudo. Nada de escrúpulo ou remorso. Até porque é tarde. Seu duplo exausto passou pela montra enquanto lá dentro a vendedora apanhava um sapato na vitrine. De que vale a beleza agora? O único poder é o dinheiro. Olhos fechados. Um após outro passam. De Darken Pöbel a Öffner Hilo. Com um ela ficou na ponta dos pés. Com outro deixou o celular cair. As faces se dissolvem na névoa. É a transitoriedade, não um pesadelo como preferiria acreditar. A vigília e o sono. Porque a dor dos sonhos tem hora marcada para acabar, mas quando terá algum descanso?

Segurou-lhe o queixo e a puxou para si. O polegar na face realça a sombra da maçã de seu rosto. Ele está dizendo alguma coisa. Ela

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não faz idéia do que seja. Quer apenas se livrar. Por que então hesitou perante o beijo? por que permitiu ou ao menos não lutou? Assim se constituiu a premissa vicária de um quase sacrifício segundo o qual ela lhe permitirá tudo, o que ele quiser fazer e o que não quis, pomba andando e gemendo inaudivelmente em círculos na praça sobre os farelos de tempos aéreos num mundo de terra inóspita e mais inóspita quanto intensos os sonhos. Se foi com timidez que aceitou a aproximação dele estavam (ela e a timidez) impregnadas de impressões contraditórias que a confortavam e angustiavam, o que sua expressão não traduzia mas veria em seu futuro a forma como estão ligados o conforto e a angústia e nunca podem ser efetivamente expressos pelo semblante como a manutenção artificial do preço dos grãos traz dano que após um tempo terá seus efeitos positivos e transformadores não sem antes levar homens à falência e à morte, o que jamais saberão os que usufruírem dos benefícios dos novos tempos embora ela jamais pudesse vir a esquecer aqueles dias em que um desejo próximo do
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sobrenatural como que a guiava e na verdade determinava os acontecimentos. Não quero voltar àquele tempo e todavia aqui estou diariamente em sua memória. Uma fresta na multidão. Ali está ele. Vindo. Lindo. Não mais ali – junto dela. Aceita tomar um café comigo? Que moça carente, sozinha numa cidade estrangeira, poderia recusar? Tão gentil e muito lindo. Ensina agora como chegar à casa da amiga. Finalmente o livramento. Por causa de um ser que ela não era. Aquela imagem. As aparências. Os dois caminhando juntos fica manifesta a diferença de altura. De longe como o vulto de uma desejável cordilheira. Olhe que sorriso sincero. O sol do fim da tarde em seus cabelos, uma santa aureolada. O ombro esquerdo dela toca-lhe o lado direito do peito rígido, não é mais um rapazola mas está longe de ser tão mais velho como ela a princípio imaginou. Um tecido suave o dessa blusa creme que lhe cai tão bem assim um tanto usada, adere melhor à sua personalidade após um tempo de uso. O que estou dizendo? – não o conheço. Após o teatro, a primeira rua à
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esquerda. Do outro lado irá aparecer uma padaria, costuma ter grande movimento. Se ela quisesse mesmo procurar a casa da amiga. Ele lhe devolve o sorriso com uma franqueza que ambos desconheciam. Um dia ela terá como costume se refugiar naquela padaria para comer gostosamente um sonho achocolatado em meio ao burburinho democrático dos bebedores de cerveja de fim de noite e os madrugadores tomando seu café. Era a última coisa que ela queria na vida. Continuar procurando a casa de uma moça cujos propósitos não ficaram muito claros justamente agora que havia conhecido o amor de sua vida. Por isso não resistiu. Foi um beijo perfeito, o primeiro, sob a lua. Quase perfeito talvez, por terem batido os dentes de um contra os do outro no primeiro momento.

A vitrine reflete a cabeça inclinada para o lado direito. Uma leve dor no movimento, algum resquício da posição no ônibus, que não era uma dor má pois a lembrara de seus sonhos ao tocarem seus cabelos no ombro da

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companheira de viagem. Os fragmentos das conversas se transformam em um discurso lógico na profundeza de si mesma. Meu Deus, quanta gente! Para onde essas pessoas irão daqui a pouco? Não parece haver na cidade habitações suficientes. E num instante sumiram. Sozinha sobre o viaduto. Ao longe o metrô no trecho de superfície. A calma apavora mais que o medo. Identifica cada prédio. Essa que agora sou, eu, nascida da ambição indolente em que a dor substituiu as expectativas mesmo antes que se houvessem de todo frustrado ela não vê mais o trabalho promissor e o lar conquistado. Empregadores poderiam ser acessíveis à suposição de que a presença dela acrescentaria um ornamento de retorno garantido à decoração da empresa. Então, como a onda solitária que entre outras é a única que enche e não arrebenta, na superfície do mar uma orla de espuma abortada, cansada, tensa, sozinha, carregando um mundo destruído em cada fibra do ser, oh Deus, pensou ao focalizar a luz amarelada nos ladrilhos, quisera romper para sempre esse círculo vicioso e deplorável. Encheu os
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pulmões. Música nos rádios dos carros. Diz a si mesma que é possível sim contornar a morte mas não acreditou no que disse a si mesma porque se distraiu com uma rajada debaixo da saia onde a mão dele estará naquela noite depois do café. Ela pensava que sabia quem era e que conhecia os homens. O que fazer com a lembrança de um beijo perfeito quando o casal envolvido não mais existe? Parou em frente da lan-house. Falou com o atendente olhando de soslaio os computadores da sala escura. Tirou da bolsa o livro da biblioteca. Respira como quem sonha e esquece tudo que não tem relação com a sobrevida ou um sentido para a morte. Nos primeiros minutos o planeta girou e se aproximou em mapas, nomes e números, e mares. O fluxo do romance em suas mãos, em diversos pontos de vistas e camadas de tempo, encontrou eco na pesquisa. Não estava sozinha. O vídeo se incorporou a seus anseios. Uma praia e outro mar aludiram a um reconhecimento cada vez mais distante de si mesma como membro da comunidade humana. Permitiu-se sorrir. Dizem que não há
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privacidade na internet. Quem dera. Quisera que alguém soubesse que estava ali e lesse o escrevia. Quisera que alguém a salvasse. Esquecera que alguém a queria ter salvo mas ela recusou a salvação.

A memória determina um caráter e faz supor em suas lacunas propriedades análogas ao que se recorda, do mesmo modo que a fé autêntica com que são lembradas as primeiras impressões serão irreversivelmente danificadas pelo olhar crítico gerado pela usualidade. Sem esse olhar ainda, Alice inventava caminhos percorridos por Meereshimmel. Foi uma revelação. Ele caminha em meios às pessoas como se fosse um espectro que não fizesse parte da multidão nem tivesse qualquer identidade com os seres que o ladeavam. Ela está a seu lado ainda antes de efetivamente estarem próximos e de chegar a ouvir sua voz. Cheira a banho tomado; é um homem com cheiro de homem sem os odores desagradáveis que exalam os homens e sem a obstrução assepticamente sociável dos desodorantes.

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Ouviu o convite para um café. Quão gentil há de ser ao se movimentar ao lado de uma jovem, próximo sem o toque que supõe, impõe uma intimidade inexistente, próximo o bastante para que a tepidez do hálito chegue sem todavia qualquer tipo de odor (o que não deixaria de ser um tipo de assédio também). Seu sorriso responde que sim, que ela aceita, cuidadoso, refreando-se e soltando-se num ritmo de sedução quase marcial. Não deve pensar que sou uma qualquer, que sou fácil; é a última coisa que deve pensar. Dias depois ele a viu na loja, tentando lembrar o seu nome. O que é um nome? Como posso ter esquecido dessa referência quase única de uma mulher que me perturbou assim? Em nenhum momento achou que ela era fácil ou difícil porque estava feliz que ela tivesse dito sim, que teria alguns momentos de novidade em sua vida aborrecível. E então do carro tornou a sentir a luz que a banhava quando ele se aproximou trêmulo para a convidar concedendo-lhe a aura de uma pintura que necessita de um ambiente obscuramente banal para que a fonte de luz, a réstia do sol entre as
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árvores que cobriam os cantos do prédio do biblioteca, pudesse sugerir a energia do intenso fulgor sobre ela durante uma tão curta exposição. E agora o que faço com esse sim? Porque ele não imagina a moça com quem deseja partilhar momentos sublimes possa agir do modo como agiam as moças de sua imaginação.

Esbarraram. Existia algo naquela jovem a que devia se afeiçoar. Uma feminilidade fora de moda como quando inclinou a cabeça. Parecia cansada mas não a ponto de, a esse olhar súbito do desejo, deixar de transmitir algo que amanhã será chamado de amor. Além disso – ele se volta – a simplicidade do vestir é a forma mais eficiente de acentuar a beleza de uma jovem. O céu se aproxima mais vívido e azul trazendo os últimos tons do dia e emoldurando o corpo da moça. Tão sofrida. Porque para a mulher do balcão onde ficavam as chaves dos armários eram ambos muito jovens e sofridos. Apesar da metrópole e dos tempos, da

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multidão indo e vindo no metrô, o mundo não estava perdido. Ainda existia sentimento.

O balcão mais distante cada vez. Não mais visto. Nas escadas rolantes ele se manterá perto. No vagão, chega a sentir o aroma dos cabelos negros e lisos. Estudantes, trabalhadores, alguns cadetes, uma freira e dois atores. E ela. Distante como a mulher do balcão, pensa no dia de sua chegada. Entre perspectiva e desespero. Pessoas em volta percebem o olhar que ela não percebeu. Descem. Ela entra na loja. Um executivo sai sem nada ver além do mundo desabando. Nada a fazer. 2008 não foi uma crise e se acabou, uma outra Depressão. Está aqui desdobrandose na comunidade européia e atingindo os donos do mundo. Não é possível viver de especulação, sem produzir. Escrever é produzir? – ela se pergunta sob o brilho da gravata de bolinhas e diz o nome ao pagar a hora ao atendente. O rapaz que entra em seguida escutou e decerto logo terá uma oportunidade de repetir em voz alta.

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Mulheres sérias dão dicas sobre as novas maravilhas da moda, da cozinha e da tecnologia, deusas das redes sociais. Meninos hipnotizados ante games. A apatia da geração se acentua no computador como belas formas femininas em roupas simples e nem tão simples assim – aliás eis aquelas outras deusas, as especialistas em especulação. Dirão elas que não, que é diferente. Tudo sempre é diferente ou não existiria história. Mas dentro dos padrões contemporâneos da correção em tudo, da mídia ao lado dos necessitados julgando o resto do mundo, sim era um mundo outro e uno que de algum modo juntava mesmo o que compra um apartamento à espera da valorização imobiliária e os que trabalharão toda uma vida e não chegarão a ter dinheiro para alugar uma habitação decente – uma forma sutil de pensamento agindo como um link que faz elo retórico sem jamais unir essas pessoas. Nada de novo mundo. De uma nova forma de pensar e de viver, de trabalhar. Ela não vê ali qualquer sinal de criação, de poesia, só deuses mortos jogando novas partidas entre
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os seres viventes. Está escuro na sala mas os usuários não percebem ou não reclamam. Lado a lado, cada um olha seu monitor como se contemplasse o nascimento do mundo. Riem sozinhos, maravilhados. A cor no rosto da menina vem da tela. O navegador abre página após página que não mais contemplam o objetivo inicial deixando no histórico um rastro de dispersão. Uma e outra vez sem virar a cabeça ele vê o perfil de serenidade e imponência. Se o comportamento humano como tudo supõe alguma necessidade, por que está ali sentado? Enfim está ali e não há o que fazer além de usufruir o momento. Adiante, adiante. O sol se pôs atrás dos prédios mas discerniram apenas alguns reflexos no vidro escuro que os separava da rua. O som do refrigerador onde estão as bebidas se confunde nos momentos de mais silêncio com uma chuva que há muito não cai. No inverno a umidade relativa do ar desce a níveis abaixo dos que a Organização Mundial da Saúde julga adequados mas não há quem pense nisso e não faria diferença se pensasse. Ele os imagina juntos pelas ruas no entorno. Chega a pensar
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num motel mas descarta a idéia. Uma carência afetiva do desejo se despega. O que não conhecia não pôde portanto avaliar. Por que está ali? Já se perguntou antes e não há resposta. De mulheres bonitas seu trabalho está cheio. Talvez o amor da abundância não permita a saciedade. Pensou o quanto agora com um emprego bem remunerado sempre aparecem novas necessidades e a cada dia que passa há menos paz. Um rio corre lá embaixo. Uma linha, segundo quem olha. Profundo e traiçoeiro. Um milhão de olhos na loja de internet. O peso aterrador do silêncio com fones se dissipa. Já que está ali precisa saber de uns livros. Há quanto tempo não aprende algo realmente novo? Sequer percebeu nos braços da moça junto aos seios quando esbarraram romances de um autor comum. É que pegou apenas para ter o que falar na reunião. Para que mais serve um romance? Não deixa de ser um tipo de game. O que faço do tempo ganho contra a luz? Tudo termina no universo interior que teme o silêncio dos espaços infinitos mas não a estética vã ou a libido. O que mesmo
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costumava postar quando atualizava o blog antigamente? Estranho fazer de suas impressões coisa pública. De seus sentimentos mágoa cristalizada em algum outro ser eventual. Ainda mais uma jovem inocente. Uma jovem que ainda sonhe e se iluda com um amanhecer perfeito após uma noite de amor perfeita (e isso seja sexo como se não fosse). Uma ocorrência etérea. Enfim, o que tudo isso importa em relação a uma moça tão linda e inocente, cheia de ilusões, agora diante do computador? Ela acaba de abrir o programa que mostra a terra girando e se aproxima de qualquer lugar que se digite. Procura uma casa, a casa que devia ter procurado no primeiro dia. Mas não. Imagina se iria fazer as coisas do modo mais simples, direto, ela, a menina mais complicada de sua classe, de todas as classes em que havia estudado. Na rua da amiga. Será? Sonja Tuslei. O que dirá o mecanismo de busca? e o que importa agora exceto por um tributo à sua negligência? maior que o desejo de uma nova vida, que a vontade de encontrar um emprego fixo e exercitar as virtudes
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domésticas. Ter um canto seguro onde ler e escrever. Mulheres e homens movimentam esse ser que é a multidão em hora de rush. Estão excluídos os dois resguardados do dia mais frio do ano distantes do maior congestionamento do ano (choveu e os carros saem todos quando chove) babel sons vinda dos carros parados. Populares acompanham as negociações com os policiais em frente à Assembléia Legislativa. Ontem o líder do movimento falou que pode haver confronto. Greve é um direito adquirido do trabalhador, mas greve de pessoas armadas ocupando prédios do Governo beira o absurdo, ameaça as instituições. Alguns profissionais não deveriam ter o direito de greve. Ela pensa que ali poderia trabalhar e ser feliz, o seu sonho, não uma empresa nem um emprego bem remunerado, nem otimamente remunerado. Seu sonho era esse – acordar cedo, preparar as coisas do novo dia – a água para o café, a toalha e as roupas do marido no banheiro, levar o cachorro para passear e o segurança do supermercado 24 horas olhará para ela e pensará Como é bonita. Porque
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ainda que já tenha um casal de filhos, não parece. Não, não parece. Nisso pensava quando entraram. Ele (o lindo rapaz do primeiro dia) não pensava nada parecido. Venha aprender inglês. Deposite. Compre. Viaje. Sonhe. Não seja mais um, venha estudar conosco. Meereshimmel trazia na ruga de expressão a saudade misteriosa que, por sua pureza talvez, não se deixava apanhar e assim permanecia tão incógnita e familiar quanto um rosto de sonho, sem que ele tivesse coragem ou paciência ou amor suficiente para ver o que o irmão estava maravilhado vendo agora com olhos diferentes do habitual e que quando habituais se tornarem o retorno não mais será assim sublime e ele não fará o caso devido exceto talvez com a proximidade da morte e a revelação das coincidências, mas será tarde, será tarde, tão tarde para Haimeard quanto para Meereshimmel o tempo não chegará e o sonho não se materializará. Saias xadrezes luminosas finas demais para um frio assim, ultrabooks por toda a parte sem mais chamar a atenção. Que tempo é esse para o qual quer voltar? O tempo é esse e ponto não se faz mais
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teoria a respeito. Quisera te dizer. Murmúrios se tornam gritos em torno de seu leito de morte. Ah meu irmão. Ah, Alice. Perdoem-me. É tarde. Quem chega pela rodovia federal deve evitar a pista expressa por causa de obras. O frio continua matando. Poucos se lembram de um inverno tão rigoroso. Como tudo, não era para durar e os deuses amanhã terão outros assuntos para tratar.

Na cama o rapaz que a abordou no primeiro dia segurando seus braços alvos e retirando o tênue obstáculo. Ela não fala. Sente-se bem com alguém que lhe mostre o caminho, que antes do amanhecer ainda a prenda. Garantia e amparo. Ele não pensa porque é assim que funciona, quando funciona. A mente esvaziada como um guerrilheiro para não se trair pela consciência das coisas pois a mente branca não acusa senão o registro do olhar. Juntos assim. Tão distantes. Não está funcionando. Relaxe. Concentre-se. Quem poderia imaginar que um outro está para usufruir essa situação. Um outro que agora traça linhas em seu projeto

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sem a menor idéia de que no dia seguinte, não, daqui a poucas horas, esbarrará na moça com os livros. Um outro que não falhará. Ouvirá seu nome. Quase se pode dizer que é para ele que ela se entrega diante desse para quem isso é tudo o que espera. Como a areia sabe exatamente o que esperar das ondas e nada além. Que o desejo seja satisfeito sem depois, esse depois: a casa, o dia, a roupa, o assoalho, o sol nos móveis, e quem sabe os filhos, indubitavelmente os filhos. Ela não poderá censurá-lo amanhã. Nem por uma vez usou tal artifício. Talvez se fosse necessário, mas não foi. Ela estava por demais entranhada de uma vida que jamais existiu. Então vamos, disse ele. E ela sequer percebeu o céu de seus sonhos no crepúsculo, anestesiada, viva mas não para qualquer coisa exterior. Vamos. Então foram. Chegaram ao apartamento, ela ainda entorpecida pelo alívio. Ele tocou o interruptor e um fantasma surgiu onde ela deveria estar. Por um segundo se espantou, mas em seguida estava de novo senhor da situação, o que não lhe conferia a sensibilidade de vislumbrar a seu lado Nossa Senhora iluminada pela lâmpada de
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um nicho. Derramando-se em leite e luz nas partes em que não havia a blusa lilás, um pouco amarrotada mas ainda por dentro da saia curta, agora mais curta por conta do movimento de se abaixar para religar o velcro da sandália. Os cabelos descendo em cataratas negras. Os músculos da panturrilha perfeitamente definidos. Em leite e carne também. O que a ele importava. Mais que qualquer outra implicação da beleza que o outro sentirá sublime num momento semelhante assim que ela deixar a lan-house e se cruzarem no metrô. Um sorriso correspondido. Livros reconhecidos. Aonde ela estava indo. Ele a poderia acompanhar. Mas ao mesmo tempo que se sentiu reconfortada em sua tristeza terminal lembrou imediatamente do outro. Do homem que lhe ofereceu café e abrigo por uma maravilhosa noite que não se consumou. Merecia ser relembrada? Noite iniciada com a luz acendida no pequeno apartamento e o movimento dela se abaixando para religar o velcro da sandália.

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Haviam passado pela ponte imediatamente antes de chegar. Estrutura sáxea correndo ao longo dos reflexos de luz lá embaixo. Ela pensou o quanto tivera sorte. Estava salva ao passarem pela torre do prédio brilhante. Salva ao entrarem no bairro pelas casinhas avermelhadas. Levou a mão à parte de trás do pescoço, abaixou os olhos e apertou-os. Depois os abriu de novo e, como se não tivesse sido nada, levantou de novo o olhar para as janelas e os telhados recortados de um frio azul esmaecendo, esmaecendo até a aparição de Darken Pöbel, em quem pudera um dia confiar. Dirão o seu primeiro amor. Pode ser, não pode? Darken – mas que relação entre ele e esse salvador com quem saíra do café direto para o apartamento, renunciando ao encontro com a amiga? Darken. Um rapaz de bem, sem dúvida. Ali está ele, o carro descendo a rua sinuosa. Pede uma informação a um pedestre e segue. Ela olha. Instantâneo o fascínio. Devia ter ela o quê, uns quatorze anos? Viu quando ele parou e tentou estacionar quase em frente ao prédio. De perto parece mais velho mas que importa? Rapazinhos têm de se estabelecer na vida.
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Assim é melhor. Um homem estabelecido, com dinheiro suficiente para levar a namorada a qualquer programa que ela invente, a qualquer restaurante, a qualquer show (e o teatro, que ela adora, anda tão caro), incluindo o motel ou melhor ainda o apartamento dele. Mais um ou dois anos e ela seria uma mulher feita com esse tipo de necessidade que um menino de sua idade não poderia bancar. Mesmo depois de um ano ou dois ela ainda será menor, pensou Darken após algum tempo de contemplação. O que pode sem dúvida ter sido a causa da ligeira batida no carro da frente. Ah meu Deus tomara que não tenha sido nada, que não tenha amassado. É o que menos ele precisava num dia já cheio de chateações e possivelmente por isso se dá ao luxo de contemplar a menina numa tarde tão pálida e morna em que não se poderia afirmar que o céu limpo estava azul ou era alguma variação do branco. Uma mulher que passa leva as mãos à barriga, é o neném chutando; outra um pouco mais jovem e menos bela leva o carrinho de bebê; e ele, Darken, está falando sozinho, a menina pode perceber. Quem sabe, pensa, não
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esteja justamente falando de mim. E abre um sorriso que, embora estivesse mesmo falando dela, ele não chega a ver. Ela está no banco do carona do carro de Meereshimmel, – no retrovisor de Darken. Vem de um mundo desconhecido e invade com sua íris pincelada e as luzes em seus olhos o torpor acomodado do mundo ao qual me acostumei como o quadro de um pintor que despertou e retratou o sonho a ser eleito como ideal é colocado na sala de alguém que até então desprezava a arte e a partir dali passará a viver em função dela. Passando pela ponte e lembrando como Darken aparentava de perto mais idade. Conversam. Vê com nitidez as linhas de expressão e todavia ainda é um homem atraente – como se ela pudesse saber o que é um homem atraente, como se tivesse tempo de vida para tanto. A curva sabe Deus para onde. Está para acontecer e realmente basta. Ali ao lado de Meereshimmel se dá conta de como se viciara em carros e homens.

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Não se tornou a pessoa íntegra e especial que desejava. Ninguém é o que não é. Mas era ela tamanha dependência – justo ela que ansiava as plenas responsabilidades e direitos do livre arbítrio? Eles falam pela mesma boca, Darken e Meereshimmel. Coisas nem tão diferentes assim. “Estou procurando um apartamento aqui nesse bairro. Você mora aqui há muito tempo?” Na verdade não estava. Hoje ela sabe que Darken tinha essa mania de parecer rico como forma de seduzir. Conseguiu. Não era exatamente no que ela própria estava pensando momentos antes?

Meereshimmel era um homem alto e magro com cerca de trinta anos, a mesma idade de Darken quando ela o conheceu. A eternidade entre ambos. Os cabelos lisos são castanhos e os olhos verdes faíscam. Há uma estranha delicadeza em seu nariz grande e também isso a impressionou num primeiro momento. Pedirá (ou terá mandado?) que ela lhe estenda a curva da praia ainda erma, um refúgio em meio à cidade nervosa e perdida do resto do mundo.

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Pedirá – não ordenará, embora ela até preferisse – que surjam as rochas altas e redondas em meio àquela tempestade e terá tudo o que pedir e mais teria se quisesse e sabe-se lá por que não quis, por que em determinado momento seus olhos se cansaram e todo o desejo. O motivo de tudo não era exatamente o motivo. A azáfama assinalava devaneios debruados alcançando a realidade. Surgiu um horizonte descorado como o que lá fora há pouco baixou do céu e amassou-se nos lençóis, para frustração dele e culpa de Alice – nisso foram iguais embora a seqüência diferisse pois Darken não demorou nada e estava de novo pronto e Meereshimmel demonstrou com seu convite que outra coisa naquele momento não mais queria. Ou não podia. Então vamos, concorda sorrindo tímida enquanto alguém a observa. Vamos tomar alguma coisa.

As luzes que refletiam nos ladrilhos também a coroaram. Haimeard nunca vira cabelos assim. Foi a primeira coisa que notou

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quando se esbarraram na biblioteca. Respira fundo e a segue a uma distância segura ainda que várias vezes fosse tentado a abandonar a cautela e como seu irmão deixar que as coisas acontecessem logo ou não acontecessem mas que fosse logo. Puxa o fecho do casaco e cobre a cabeça com o capuz. Talvez esse ruído atordoante dos carros tenha significado alguma coisa para ambos pois ela se virou e pareceu tê-lo olhado como se respondesse que não, não usava nada nos cabelos há uma semana. Não. Virou-se por causa dos rapazes encostados no carro. Estão mexendo com ela, os inúteis. Gostaria de repreendê-los mas com que autoridade? A nora que a mãe de um deles pedira a Deus. Que coisa mais banal e idiota! Mas ela de fato o vira de soslaio como ele a ela na lan-house. Um rapaz distinto e elegante ainda que esteja a pé. Talvez tenha deixado o carro no mecânico. Talvez o tenha emprestado. Quando ela se virou, aquele perfil não parecia o de Gracile?

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Gracile Stesura agradece. Era mesmo estouvada. Desastrada, reconhecia. Nem imagina em que pensava ao tropeçar. Ao ajudála a se levantar o braço dela provocou um calor desconcertante. O que é isso? não sou tão jovem para que descubra tais sensações a essa altura da vida. Não era tampouco tão velho. O semblante sereno esconde o peso de temores ancestrais mas de nada adianta ele se preocupar. Importa sentir o calor que passa de um corpo a outro e extasia. Mais tarde, ao encontrar a namorada, farão amor de modo antes impensável por causa do calor de uma estranha – estranha não por muito tempo. E por muito tempo, no que estivesse envolvido, estariam envolvidos aquele sorriso pacato, as pestanas oblongas e negras, os lenços na cabeça como véus de uma religião pessoal. Talvez exagere e se disperse na associação de idéias. Esse luminoso (“Internet”) indica o caminho de um novo mundo, um novo tempo, que como todos logo passará. Dobraram a esquina, Haimeard e Alice, com uma diferença de menos de um minuto, bem menos. A saia dela o hipnotizava. Penetrara no tecido. Nas
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possibilidades. Na analogia das cores do xadrez. E nesse transporte em um ambiente visceral um tipo de eco que martela, ai, os movimentos de Gracile. Os castos e belos movimentos de Gracile. Perplexo vê as coisas mortas reviverem. O rosto dele é tão meigo, avalia Alice pelo retrovisor do carro estacionado. Mas está determinada a não mais se envolver para se salvar. Se tiver que haver uma salvação que seja por seus meios. Que seja sozinha. Pensando bem, as roupas dele tampouco são as melhores para esse frio louco. E olha que nasceu ali. Mas o que isso importa quando chega o frio ou os temporais ou os braços das desconhecidas ou os esbarrões à saída das bibliotecas?

Despertando, percebeu estar atrasada. O pássaro à janela parecia querer lhe avisar. Logo no primeiro dia. Corre e no banheiro o espelho engole seu rosto amassado. Ouve o vapor da água. Pelo tipo de barulho, é sua irmã. Não é
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possível que ela vá sair primeiro que eu. Sim, é ela. Essa descarga é tão desagradável. Acredita que uns dois ou três meses serão o bastante para que possa sair da casa de seus pais para um apartamento. Não pretende se acomodar no Serviço Público. Até quanto a um namorado está otimista. Oi, maninha, caiu da cama? Sempre emburrada. Papai e mamãe já devem ter começado a ladainha. “Viu? Sua irmã correu atrás e conseguiu”. E isso ela não pode suportar, ficar para trás e justamente em relação a mim. Quer café? Não é possível que essa seja mesmo minha irmã. Obrigado, só um golinho; já estou atrasada, logo no primeiro dia. – Vai dar tempo, ouvi no rádio que o trânsito hoje não está tão ruim. Ouviu no rádio? A irmã lhe faz um cafuné e lhe beija o alto da cabeça antes de sair. Nem ainda começou seu primeiro dia no emprego e as coisas já estão mudadas por ali.

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A rádio no notebook sobre a escrivaninha. Você pode entrar em contato conosco por email ou pelo site. Dábliu dábliu dábliu. Dezoito horas. Ontem foi apresentado no congresso americano o projeto “Stop Online Piracy Act” que torna crime o ato de distribuir streaming e compartilhar arquivos online, o que na prática torna criminosos um número significativo de usuários da internet e inumeráveis sites e blogs. Não seriam todos? Existirá internet sem algum tipo de pirataria? Sonja passa a flanela no móvel e pensa onde poderá estar a moça. Deveria ter chegado há uma semana. Seu cansaço se manifesta, é natural, o tanto que tem trabalhado nesse expediente triplo de mãe, dona de casa e analista de sistemas. Hoje, uma reação dos mais importantes sítios da rede mundial de computadores, saindo do ar por 24 horas, mobilizou os internautas contra o projeto de lei e fez com que seus principais defensores recuassem. A película de poeira que é trazida na flanela não seria como esses desejos que são tirados de algum canto – de uma alma antiga, por exemplo – e se mantém
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em suspenso até que se lave a flanela e depois o quê?, em que ralo se perderá o êxtase súbito ao recostar, ombro a ombro, com a companheira de viagem – onde poderá estar? Sente sono, é normal. Talvez pudesse amar essa segunda jornada, em casa, mas não: é só cansaço. Seria normal que a filhinha fosse a coisa mais querida deste mundo. Que nada. A criança a cansava. Não nascera para ser mãe, muito menos esposa. Olha, vou te dizer, disse a moça do ônibus, vim procurar um emprego mas meu sonho é mesmo ser dona-de-casa. Eu hen, tem gosto pra tudo neste mundo – mas não fora o da própria Sonja um dia? Tem sono agora, um sono insuportável. Mas não aparenta. Seus membros quase tremem de puro cansaço – e olha que é uma fortaleza, a estar certo o que costumava dizer sua saudosa mãe. Ela até acreditaria ainda, não fosse pelas evidentes camadas quebradiças entre o que ela é e o que aparenta ser e certas tristezas que até recentemente desconhecia. Antevê o final de seu casamento com indiferença. Ainda estava sim cativada (ou simplesmente cativa?) por aquele belo rapaz que um dia a convidou
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para tomar um café na saída do shopping e que tarde agradabilíssima poderia ser programa tão simples. Um café, a pracinha depois e o mesmo banco por alguns dias até o primeiro e inesperado beijo e a ainda mais inesperada mão sob o casaquinho que trazia no colo. Um casamento assim nascido tem poucas chances. Escolhas afetivas devem ser feitas numa pirâmide inversa, passando da afinidade aos pequenos encantos e só então chegar debaixo de um casaquinho no colo. Ela nem percebeu que desligara o computador. De um lado e de outro o que há são interesses econômicos como sempre. Tolos todos os que tomam um partido, resmungou. Isso lembra bem e mal. Sonja afasta imediatamente a questão, nada quer mais com princípios e conceitos. Passa a flanela e Haimeard aproxima. Nunca mais. Se não vai vê-lo de novo, é natural que pense num outro. Rua afora em busca do amante morto. Do início do bairro aos primeiros brilhos das águas da baía, recebe os sinais: o que dependa de dinheiro não será obstáculo. O primeiro foi o pianista da boate. Não a impressiona exceto pela grife de seu terno. A flanela ainda sobre o
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móvel. Um vento. A borda, costurada em linha vermelha forte, içada. A casa vazia. O segundo. Naturalmente um empresário, de menos idade, confessada falsamente na cama que rangia em meio a ruídos de estranhas iniciativas, o tipo de coisa com que Sonja, por causa do amante, havia se acostumado. Ele dirá na delegacia que a encontrou na rua sórdida e que é possível que a tenha confundido mas, imagine doutor, posso ter minhas taras mas não sou um homem violento e só me permito extrapolar quando há consentimento mútuo.

Haimeard aproximou-se de Alice. Não saberá se o novo esbarrão foi forçado. Quer crer que não. Que era o destino. Perdoe-me. Ela sorriu em resposta. Não era da cidade, teve ele a certeza. Chances reforçadas. Você é daqui? Não, cheguei há uma semana. Hun – fez ele, confiante. Não devo me demorar, cometer o mesmo erro de quando cheguei. Irei agora mesmo atrás de Sonja. Então por que se
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demora? Por que diz que está indo ao metrô, que tem como destino a estação tal e de lá ainda pegará o tal ônibus? Por que praticamente repete o que fez quando chegou? Se você permitir, eu posso acompanhá-la. Quando chegar lá será noite alta. A cidade pode ser perigosa à noite. Ademais, acrescentou ele, é mesmo meu caminho. Cedo ou tarde teria de encarar o fato de que não pode passar o resto da vida sem ver o irmão. Que quando a hora de sua mãe chegar terão ambos de estar lá e depois disso brigar por causa do apartamento que ela deixou para que eles tivessem algo no futuro. Alice lê o olhar dele e vê o quanto é gentil, romântico. Um passante contempla seus belos olhos. Não era possível precisar se havia em seu olhar admiração ou desapontamento. O que não é objetivo, prático, de alguma forma a choca. Foi assim com Ingenuer Pendant. Num primeiro momento o que mais poderia uma mulher desejar? Ele sabia conquistar. Mas, como o revolucionário que era, não sabia administrar a conquista. Ali está ele diante do pai de Alice submetendo-se àquele rude
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interrogatório. O que seu pai faz? Onde você estuda? Que faculdade pretende fazer? Como se já estivessem noivos, quando sequer eram namorados. Ela na verdade não tinha certeza se deveriam ser. Mas o calor que sentiu quando ele se aproximou... Acaba de saber o que ele estuda – Letras – e o que pretende fazer no futuro – trabalhar numa Ong com crianças. Qual a mais remota relação? Começou a perder aí o desejo. Um cara sem ambição que decerto não sabia distinguir um Honda de um Mitshubishi. Mas e o calor? E os lábios umedecidos? e a intumescida carne? E a sugestão de conhecerem a parte de trás das pedras lambidas pelo mar atrás do parque? Por que razão um menino assim romântico deveria se interessar por uma menina como ela, Alice não sabia. Nem por que aceitou aquele convite e logo entravam juntos no metrô. De perto Haimeard não discerne o que há de especial na moça. Até seus cabelos são comuns. Seus óculos estão embaçados. Um assunto qualquer. Discordam. A vida precisa ser assim: tese, antítese e síntese. Quando depois mencionou o conhecimento que ele
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tinha de Hegel – De quem? – perguntou ele. Do filósofo? E quem mais seria? disse ela rindo. Não o citara ao falar de síntese? No sacolejo do vagão não pode se permitir mais. Seria constrangedor que pensasse mal dele. Liquidaria suas chances. Seus olhos procuram um nada sempre fugidio. Pensara que a dialética era um bem comum da humanidade. Não sabia que havia direitos autorais. Foi Hegel. Porém ela pensou que a compreensão não se acompanha de palavras e palavras apenas a deturparão. A poesia, construindo reflexões será mais adequada do que a filosofia, que tenta explicar. Mas e o corpo ardente? Por meio também do corpo ardente. Mas valerá a pena, comum ela se tornara? Num movimento do vagão chegaram a se tocar mas ela entendeu que era normal num metrô em horário de rush. Ele se mantém agora calado. Concentrado em não errar. Ela comenta isso e aquilo nas notícias da tv. Quando chegaram a uma estação que parecia de pequeno movimento, Haimeard falou. É aqui.

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Sílabas que não se tornaram efetivamente sua voz. Viu a moça olhar em seus olhos. Hesitou entre estar flertando ou não ter se recuperado da noite anterior. Foi a única vez que pensou na menina naquela noite.

Ela deveria ir procurar trabalho, é o que disse que iria fazer. Até o encontrar nos corredores da empresa, é o que pretendia. Homens bonitos. É como se esses gênero e atributo juntos numa mesma pessoa determinasse uma virtude sem nuances. Servem a quem se satisfaz com a superficialidade. Essa sou eu. O corredor naquele espaço de dia ensolarado em que a irmã estava entrando no novo emprego concedia a Haimeard sua face mais recente e atraente num momento de tempo e a uma pessoa específica, a menina. Terá lutado pelo objetivo com que saiu de casa após o cafuné na irmã? Quem sabe. E alguém cuja virtude tem tão fraca estrutura está ali, imponente naqueles corredores, formado decerto, um

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doutor em tecnologia ou algo assim. E sem ser doutora em nada ela se transmuta num sonho inexorável do rapaz, assim do nada. O que então é que importa nesta vida? Olá, está à procura de alguém? Estava. Da chefe de recursos humanos. Mas pensando bem, pode me servir perfeitamente. É claro que não pode evitar olhar os seios onde tudo começa. O quanto em mãos capazes se tornarão veementes em meio ao alento imponderado, os olhos cegados e os lábios mordidos.

Alice hesitou no próprio beijo. Não tinha ainda sequer a certeza de que era uma experiência agradável. Possivelmente afetada pelo contato recente e ainda cálido com Sonja. Por aquela nova possibilidade. Os homens nada tem mais a dar. Nem mesmo aquela sensação antiga dos primeiros beijos como guloseimas nada mais muito menos portanto virtudes espirituais relacionadas a amor. Se fosse uma outra menina seria menos repugnante e não
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teria a repugnante conotação mítica. Porque qualquer mulher passa por isso. Quer e não quer. Um antes mais sagrado que o durante e menos dilacerado que o depois. Não pensou – deveria, pensará um dia – que ele pudesse resolver o problema vital da moça, a renda, a subsistência digna a que veio. Não fiz nada para ter essa responsabilidade. Os gritos dela se misturam aos gemidos não terminados, gerando um terceiro tipo de som, gutural, satisfeito como quem chega a um abrigo natural durante uma tempestade. Devo reprimir? Estimular? O que faço? Decerto com grande inconseqüência entramos na vida dos outros, sem conhecimento e sem palavras, para todavia preenchermos o mais profundo de um ser. Ele não é afinal senão um homem e homens nada sabem, deduzem que um grito abafa outro, que um gesto violento está próximo de uma solução para a crise. E se parecer que houve solução é que não havia crise exceto as faíscas que se levantam para voar.

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A maioria do comércio ou já estava com as portas fechadas ou estava fechando. Não era um período muito bom. Mesmo entre os que abriam das seis às nove, como os comerciantes chineses. Com as novas medidas econômicas do governo, suspeitavam não ser um bom negócio as luzes acesas por mais uma ou duas horas numa época em que escurece mais cedo e pagar hora-extra aos empregados. Sem falar da violência urbana sempre à espreita na volta para casa. Desconfio que as coisas tendem ainda a piorar, disse o dono do mercado à mulher, que estava no caixa. Ela pensou como era possível piorarem ainda mais, porém nada respondeu. Fez um sinal entendido como um sim, é mesmo, e o que se pode fazer? Na verdade nem concluiu o pensamento. Distraiuse com a passagem do casal pela porta. Haimeard perguntou a Alice se ela não queria tomar alguma coisa. Um suco, um chocolate? A voz da resposta não denunciava a inquietação e ansiedade. Pelo menos ele não percebeu.

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Acho que um suco de laranja, obrigado. O chinês cumprimentou-os. A mulher, antes de passar as caixinhas no leitor ótico, perguntou se era crédito ou débito. Se queriam nota fiscal. Débito, ele disse e acrescentou o número do cadastro. Saíram furando as embalagens com os canudos. Talvez a última refeição de Alice, requinte concedido aos criminosos.

Sei de seus problemas de tempo. Não se preocupe em responder os emails imediatamente. Você faz provas, eu corrijo. Você assiste aulas, eu as dou. Ambos estudamos, pesquisamos. Somente isso já seria o bastante para preencher um dia. Tento administrar o tempo para que reste algum. Entendo também a questão do celular. É isso mesmo: como você justificaria as ligações? Para mim também seria complicado manter um contato tão assíduo com uma aluna. De resto,
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independente disso, sei que você seguirá teu caminho. Não tenho como impedir, nem quero. Como iria querer para quem amo uma vida instável a meu lado, sem mencionar os naturais problemas decorrentes da diferença de idade e o escândalo? Serei feliz quando souber que você encontrou alguém. É a ordem natural das coisas. Alguém que esteja aí por perto. Alguém mais jovem. Com a vida financeira estável. Tudo o que posso ser, já sou: teu amigo.

Mas, em momentos fugidios, chego a pensar que posso ter um final de vida bacana, sendo fiel a você. Assim, se você hoje ainda está sozinha, não creio que faça mal pensar que sou teu e mesmo na distância ser fiel. Talvez o problema seja exatamente esse, a distância que entre nós, desafortunadamente, não existe. Te ver todos os dias, mal podendo te olhar. Vez por outra te tocar, desde que não notem. Sabe, quando casei eu era virgem.

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E quando ela me abandonou, ainda era a única. Acredito que a razão de ter me deixado tenha sido a instabilidade financeira e não me orgulho de não ter sido capaz de lhe oferecer isso e o melhor que o dinheiro pode comprar para nossos dois filhos. Mas me orgulho de ter sido todo o tempo fiel. Gosto de pensar que não houve mácula no casamento enquanto durou.

Agora descubro você, que me aceita e se sente feliz porque estou contigo de alguma forma, mesmo que um leitor silencioso de seus posts, mesmo em emails imensos em sua caixa de entrada, e você não se enfada com isso, antes diz gostar. Para mim é o bastante. E, se você é fiel assim, não posso ser diferente. Se você sempre arranja um tempinho para responder. O quanto vai durar, não sei. Mas enquanto durar quero estar contigo e ser fiel a você.

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Era alta e magra. Simples no vestir. Olhos grandes, atentos, perscrutadores. Em nenhum momento ocorreu ao professor o que se supunha deveria. Não porque fosse ela tão mais jovem. Não porque fosse bonita – até porque ele saberia depois que era algo que ela mesma nunca acreditou (por isso os meios enviesados de sedução, quando tinha a seu dispor o meio perfeito, por não acreditar que a beleza o fizesse). Jovem e todavia extraía das coisas pequenas uma vivência intensa, que fazia fervilhar seu mundo interior. Mas porque era uma irmã. Porque sem qualquer influência sensual se fazia adorar. Porque tal adoração de súbito preencheu a existência que ele imaginava fadada a um final entre livros e convicções sem qualquer alcance prático. E que alcance pode ser esse agora senão encontrar em si o que não existe no mundo exterior, na solidão absoluta do santo? A santidade que de tão grande compreende também toda a tortura da carne – prolongada pela tecnologia farmacêutica – e a condescendência demoníaca da vaidade e os caminhos que ignoram as correções da sociedade em prol do caminho
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único que leva a si mesmo. Que, embora nasça com todos, tão poucos assumem. Parada perante os livros, com um deles às mãos, era como uma estátua de perfeição marmórea e luminosidade única. Um pequeno espaço onde reinava sobre o mundo. O tomo repousa gratificado nas mãos gloriosamente espalmadas. Inadvertido olhar a captou. É o ser esperado, a redenção. Exista, exista pra mim. O inesperado destino. A iluminação nas lombadas testemunha o surgimento da criatura, como as entranhas de uma mãe. Em Savone igualmente o reconhecimento de uma derradeira interação. Um dia a ser lembrado, certamente. Ela sai do som da página recém passada e o encara. O movimento da estátua estremece o que no segundo anterior era concludente. Assédios em lugares públicos se tornaram por demais comuns mas o olhar dela não demonstra medo, antes afronta. O volume como que flutua sobre a pele diáfana. Saberá seu nome num ímpeto que não lhe era comum e, após o escândalo, jamais deveria

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ser. E tamanha espiritualidade ali nascida não deveria conter o mal que todavia continha, não rejeitado, na expressão doce mas longe de ser tímida, na aparente arrogância do porte, no pouco caso evidente que fazia de quem estivesse porventura a seu redor. Tudo porém – sentiu ele – ainda como ensaio, como aura, camuflada pela sublimidade daquele olhar.

Quando escutou a porta, Meereshimmel virou a cabeça. Deixou a cortadeira e caminhou na direção do visitante. Àquela hora não era decerto um cliente. Se bem que alguns saibam que por segurança eles trabalham na gráfica de portas fechadas. Olá? – perguntou. Reconheceu a voz e não se deteve no movimento de destrancar a fechadura. O rapaz entrou e se aproximou da mesa maior, no centro da sala. Apanhou com as duas mãos a pasta que trazia debaixo do braço. Um jovem sempre disposto, ainda que viva na periferia com a mãe doente, pensou Meereshimmel. Ele, cético acerca de
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sacrifícios. Quais os que faria por sua própria mãe? Tinha mulher e filha. A empresa. Seus próprios problemas. A mãe vivera uma vida. Mal ou bem a vivera. Aceite agora a instituição. Há muitas que são quase hotéis e não dos baratos. Mas ela insiste em viver sozinha. Naturalmente cedo ou tarde precisará dele. Prefere não pensar nisso agora. E aí, Ingenuer? o que você tem para mim? O rapaz gosta da forma como Meereshimmel o trata. Sente-se importante. Mas jamais terá algo de si mesmo para oferecer como proposta ao dono da gráfica. Poderia estar melhor de vida; poderia não ser ainda um empregado depois de tantos anos. No final das contas, fazia sentido o interrogatório que o pai daquela sua namorada costumava fazer. Devia ter continuado os estudos. Hoje seria um médico ou um engenheiro. Teria um automóvel, casa própria, um sítio. Aqui poderia ser verde. Aqui você quer assim arredondado? Meereshimmel não fala mais com o rapaz mas com a mulher que se instalara entre eles. Ingenuer acha que ela faz de propósito. Deixa-o entrar antes. Os prestadores de serviço a ele se dirigem. Depois
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ela aparece, ostentando sutil arrogância. Sou eu quem manda. Desde o primeiro dia percebera. Está quase acostumado. Não vê mais o projeto estendido na mesa. Olha a moça que veio lhes trazer café. Lembra-se de Alice. Era o problema dela. Nunca ter trabalhado duro como uma serviçal assim. A moça do cafezinho em vez de a moça dos filhinhos-de-papai. Que não tardaria a ser a moça dos próprios papais. Apertou os olhos e a viu. Perdoe-me, disse ela quando ele descobriu o caso. Não sou mulher para você, não te mereço. Claro que não. Nem o pai merecia o filho obediente e dedicado que ele tinha sido. Ok, disse a mulher. Estavam então combinados: verde e arredondado.

Uma vez ela viu sua mãe no mato seco, amarelado. Longe o verdor quase mofo do bosque que se adivinhava na neblina. Devia ter sido uma bela mulher. Nem tanto talvez mas cheia de artifícios, deve ser hereditário. Para fazer alguém como seu pai se casar, alguma
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coisa deveria ter. Ali estava azul um manequim ao ar livre. Azul, um espantalho de grife para proteger o quê? ou para fugir por um tantinho que fosse da vida por demais exemplar a que se ligara. Brilhando. Era assim. Não ligava para ao que fosse relacionado ao material, ao que fosse convencional. Outra dentro dela porém queria manter tudo em seus lugares. Controladora, chegara a dizer um dia o marido. Imagine ele admitir isso, ser parte do leque do que ela controlava. Um vento. Um som. Se quisesse poderia ter parado o sol naquela posição em que sua sombra não mais que borrava o estalante chão – difícil crer que um dia vivo fora verde. Foi aqui. Ele sabia que eu era fraca. Que o arrebatamento a partir de um beijo mais ousado no pescoço levaria aonde ele queria ir. Tentei resistir o quanto pude, embora até o amasse. Não nasci para ser mãe. Tanto fazia se acontecesse na remota possibilidade ou na regularidade matrimonial. Pode ter sido uma coisa ou outra. O fato é que Alice agora existe. O fato é que os pais não sabem contar aos filhos as coisas da vida e quando descobrem pode ser tarde demais. Ele
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está calado, seu beijo é tão quieto quanto ousado. Como se apenas esperasse. O sol nasce todas as manhãs. O ônibus pode demorar mas chegará no terminal. Homem experiente, ela te compreende. No final das contas um filho será um estorvo também para você. Um dia teve uma vida própria, como ela – a mãe ali parada, a filha observa, admira, inveja, não inveja – a mãe se mexendo (outro som) num passo de estranha e lenta dança. Alice sim escutava a tecla do piano, sua mãe tinha esse poder. Não quer porém terminar como ela. Não quer poder além do caminho interior que lhe foge, que não a leva a seu próprio destino, a seus próprios pecados e virtudes. Estavam cheios de resquícios do mato ao saírem pela trilha de terra tendo adiante deles a visão de uma criança como se ela os observasse e se o fizesse discerniria o rosto tenso do homem que em tese deveria estar ao contrário aliviado e satisfeito como a mulher que nem lembrou de passar na escola como prometera à professora pois seu aproveitamento escolar estava em franca decadência como se o traje de gala da festa se
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tivesse tornado um vestido cinza de chita, descalça como Alice agora escondida e pensativa providenciando também um borrão móvel para o chão seco e amarelado.

Uma luz cortante, uma lâmina sobre eles. Sob as árvores que parecem falar umas com as outras. Olhem, parece que ficarão juntos, se acontecer terá sido um final feliz. E as árvores do outro lado da rua concordam farfalhando logo acima de um olhar deliciado que agora atravessa quase junto ao olhar de Alice. Alice nem pensa nisso. Está mais e mais agitada. Oh calma – diz o gato sobre o muro com um levíssimo tremor de pelos. Haimeard põe o casaco sobre os ombros dela. Diz que ela parece estar com frio. Não tanto assim mas sorriu e agradeceu. Haimeard sente então, após o táxi acima da velocidade máxima permitida – Hei!, gritou – Parecem deuses furiosos quando estão dentro de um carro, refletiu Alice, como se fosse uma questão
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pessoal – Haimeard sente então... o que mesmo sentiu? Tinha a ver com o cavalheirismo ultrapassado que ele demonstrava mas não conseguia lembrar exatamente o que era. Essa fuga do raciocínio o incomodava além da conta como se significasse idade, como se estivesse se aproximando do inexorável momento em que se veria em situação similar à do malfadado pai que tinha cerca de vinte anos mais que ele vividos num tempo tenebroso que Haimeard esperava jamais chegar para si mesmo. O homem que dirigia o carro imagina que já a viu antes. Hoje mesmo, acredita. Não era ela que estava na biblioteca? no setor de literatura francesa? O rapaz, nunca o havia visto. O carro passou. Não deviam estar muito longe agora. Passos imperceptíveis em meio ao som do trânsito. Na padaria Haimeard cumprimenta um rapaz que parece surpreendido. Faz tempo que ele não vem aqui. No instante de sua distração Alice já se havia adiantado. Havia se aproximado da casa. Sim: é esse o número. Um

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sorriso e o questionamento de um sorriso. Toca o botão do interfone, inclinada. A saia acompanha o movimento puro à luz da lâmpada do poste e da lua que no corpo dela se misturam. A voz saída a seguir lembra a voz que acabara de dizer “Próxima estação”. Sim? Alice! estava mesmo pensando em você! onde você se meteu? São momentos como os que a gente após despertar permanece procurando a situação do sonho e tentando descobrir onde se encaixa na realidade que subitamente trouxe o sol na janela. Que sonho? Ele não sabia mais. Alice conhece Sonja. De onde? – Estou com um amigo, ele pode subir? Antes que Sonja respondesse, aliás já está respondendo, dizendo que sim, claro, Haimeard disse que não, obrigado. Ele estava atrasado para seu compromisso.

Ao passar o cadeado na gráfica agachado tenta entender o que aconteceu com seu casamento. O destino decidira não permitir volta. Em que momento aconteceu? Sonja. Com que capricho arruma os armários! As roupas de
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Meereshimmel são triunfais paradas nos cabides. Os cômodos sempre cheirando a talco. Caminha para casa no silêncio que desce sobre a cidade. Passa a mercearia do chinês. O bater do coração. Adiante. Taquicardia? Desde quando? Por quê? Cansaço, provavelmente. Estresse. Muito sono independente de quanto durma e frio interior. Elíptico o passo erigido largo e hesitante segundo a tristeza. Por que tudo termina assim? Aquela Sonja morrera. Solidão de um viúvo. Vivificadas pelo contrate as luzes dos postes parecem dançar e crescer de acordo com o dinâmico desenho da cidade dourada. Na entrada do terminal é seu irmão. Claro que não. Só um cara parecido. Bem parecido. Olha o perfil. A semelhança não some mas se acentua. Deixa-se levar. Momentos da infância: o lago, as meninas, brincadeiras de bola e de médico. Recupera-se. Retorna à idade adulta. Não pode ser ele. Ele me odeia. Com razão. Tantas vezes se odiava. Querer bem é intenção que a prática recusa. Com sua mãe, como pudera agir assim? Praticamente roubar o apartamento dela com aquela conversa mole de estar providenciando seu bem-estar.
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Loteando o apartamento com mulher e filha. Depois sugerir quase impondo – não, impondo mesmo – a instituição. Terá relação o fracasso de seu casamento e a forma como tratara a mãe? Não concordo, diz Haimeard. Não concordo com o que você está fazendo. Aí a própria mãe toma a frente de Meereshimmel e o justifica. Defende seu carrasco. E Haimeard vai tratar da vida. Nunca foi fácil para esse irmão mais velho.

A proprietária de uma livraria está interessada nele. Justo no momento justo que está em vias de uma decisão drástica. Lembra dela com perfeita clareza ao deparar com o cartaz da mulher no fundo da escadaria do metrô. Candente lembrança. Tudo o que sua vida jamais: todas as coisas em seu lugar – horários, hábitos, trabalho, descanso, lazer. Hora determinada para tudo. Tudo com fim determinado. A intenção de Nastássia era fazer de Haimeard uma espécie de sócio ou gerente sem descartar o relacionamento amoroso. Um jantar. Tanto poderia ser romântico ou de

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negócios. Confessou então o plano comercial. E estar apaixonada. Deixou o rapaz tranqüilo e orgulhoso (era uma bela mulher). Ele chegara a temer por sua sorte. Nastássia, mulher feita, experimentada. Seu zelo das coisas é uma espécie de gestão. Acrescentou ao jantarem enquanto passava os dedos na sobrancelha direita (quando adquiriu esse tique?) que sua proposta não era caridosa. Haimeard mostrara nos dias da fábrica merecer uma chance assim. Não especificou mas estava incluído o relacionamento amoroso no pacote. Saindo do restaurante. Ruas totalmente novas. Enveredara por caminhos, os mesmos de sempre, que desconhecia. Mangas arregaçadas sobre um resto de bronzeado adolescente. Fora uma tarde agradável. Ele acreditou que ela queria apenas agradecer assim. Mas Nastássia tinha outros planos. Madame Bovary e Ana Karenina são vestidos fáceis. Muito diferentes do tipo das roupas que o atraíam, como Isabel Archer, Dita Imbar e Catherine Earnshaw. No dia seguinte já não o pode assegurar.

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Um início difícil. A possibilidade de serem descobertos. Talvez por isso não tenha conseguido. Mas verdade seja dita, ela foi paciente e carinhosa. Mais que isso. Criativa. A brincadeira libertadora com o número do quarto. Fingir que dorme enquanto ele a despe, primeiro despe. Aceitar radicalizações de que não gostava, acordada ou não. Os olhos vendados. Sujeitar-se a ser amarrada com meias à cama. Uma escrava. O medo de ser apanhado não é afrodisíaco. Mas Nastássia em tudo mostrou compromisso com as fantasias que inspirava. Exceto – exceto – quando o assunto – no depois cedo ou tarde – desviava para uma possível fuga com Haimeard. Ou simplesmente ficar com ele. Aí surgia uma Nastássia que até o fim seria um mistério para o romântico ingênuo que se manifestava. A questão não era financeira. Não era subsistência. Não era dependência. O adultério é apenas... é apenas... Ele nunca descobriu. O que restou foi obsessão sexual. Desvio do amor pleno que deveria englobar ardor e camaradagem para uma volição que não pode ser atendida.
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A calçada. Hidrantes. Meereshimmel. Não tão ereto quanto em outros tempos. Envelhecido. Preço da dedicação integral ao trabalho. Um túnel sem luz no fundo. Assim é a vida. A liberdade de momentos como os que passara com Alice pesa agora. Não como arrependimento, mas – Quantas vezes pegara essa avenida apenas para ver um outro horizonte, sabedor de que chegaria mais tarde a seu destino! dobrava ali na primeira à direita vindo da Prudente Lins e seguia até a igreja da Perpétua Anunciação. Só pelo prazer de algumas casas novas no caminho à luz do dia. Não ganhava um minuto. Chegava ao contrário muitas vezes atrasado. Era um outro caminho e por isso valia. Terminava por ser uma alegria ver o mundo de um outro prisma. Como se isso pudesse representar uma outra vida. Passando pela loja de esquina. Alegra-se com o som do trânsito, que dizia isso. Não era tarde. Podia ir para casa e quem sabe seria uma noite sem brigas. Quem sabe tempo haveria para que fizessem sexo como costumavam no começo. Sem brigas já será ótimo. Pode pôr um pijama
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e relaxar no sofá, bem coberto, vendo TV. O último hidrante do quarteirão. Já percebera assim de perto e tão atento os desenhos do calçamento? D.H. Lawrence ironizaria. Possivelmente Alice, escritora também, fizesse o mesmo. Ali está o prédio. Se tivesse passado minutos antes, não mais que isso, junto à pilastra de ladrilhos azuis teria visto seu irmão. Teria se lembrado de como um dia há tanto tempo ele o levava ao parque de diversões, à praia, ao cinema. O quanto era o pai que não tinham. Correndo para casa para dar tempo, antes de chegar, ele o viu pronto e sorridente com sua roupa preferida e a mãe disse Ainda bem, não sei o que ia fazer com ele se você não chegasse logo – Mãe, eu vim correndo, tinha uns problemas urgentes, sabe como é, é meu primeiro emprego – Eu sei, filho, só estou falando; vão com Deus – Você já viu esse filme? é bom? – Não, Mee, mas falam muito bem. É proibido para menores de 10 anos. Você fez 10, não é? – Fiz onze.

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As ruas estavam apinhadas e Haimeard não resistiu dar uma parada na loja de eletrônicos, precisava comprar um computador; afinal trabalhava agora com informática. Ah, Hai, vamos! O olhar suplicante era impossível de resistir e eles foram – O que é um Exterminador? – Alguém que será a esperança humana de se livrarem das máquinas – Por que iam querer acabar com as máquinas? – Por que elas ficaram espertas e más demais e saíram de controle. Espero que nada parecido aconteça na vida real. Mais que desempregado eu estaria morto. Ah pára de olhar para as lojas e para as meninas, a gente vai se atrasar. Morto. Que idéia. Agora vai dar tudo certo. Isso de ser subordinado da amante o incomodava. Não era pra sempre. Também não há pressa. Ela é tão linda e eu tão inexperiente. Compra uma pipoca antes. Dinheiro no bolso. Um trabalho é um trabalho. Ninguém devia se queixar. – Oi, mas que coincidência, estava mesmo pensando em você...– Psiu, meu marido está ali. Quem podia imaginar que ela ia querer vir num filme desses?
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–É o gênero preferido dele e de meu filho. – Mee, essa é a dona da empresa em que trabalho. – Oi, dona. Vamos logo, não gosto de entrar com as luzes apagadas. – Ta bem, vamos. Os irmãos entraram. A mulher está aliviada. “E que cara de pestinha esse tem”. – Amor? Vamos comprar um refrigerante e umas pipocas antes – Você nunca foi de levar essas coisas para a sala de projeção – Bem, a gente muda. Você está morta, diz a protagonista do filme. Perto do fim as luzes começam a se acender. “–Olhe! Olhe! Vem uma tormenta!” As refilmagens em terceira dimensão são incomparáveis.Não para qualquer filme. Para os que tenham algum tipo de comprometimento com a tecnologia. Na verdade porém a transformação exterior pouco significa e a interior trabalha na engrenagem da crônica de cada vida. Na verdade, nesse sentido, nenhuma diferença fará o tamanho da tela ou a intromissão da ficção no mundo real porque tudo de uma forma ou de outra terá se

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tornado real. Meereshimmel não encontrou Haimeard. Não reviu Alice. Sonja nada disse sobre a visita que nem chegara de fato a ser, uma vez que Alice não subiu.

O que no último instante a impediu, o que a manteve com Haimeard, foi semelhante ao que a manteve com Öffner. O rosto insosso de galã. Era um galã visto dali no reflexo do vidro escuro de seu automóvel. Haimeard não estava de carro. Se não tivesse carro, tudo bem. Mudança de tempos ou princípios? Öffner só tinha o automóvel a oferecer. Haimeard oferecia amizade, salvação. O que Meereshimmel há uma semana oferecia? Não irá agora comparar. Era diferente. Era diferente. Como costumam dizer pessoas apanhadas em faltas inelutáveis. É diferente. Como tudo na vida.

Caminham. Mal viram a esquina no ímpetos simultâneo os lábios se procuram. Porque há
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beijos e beijos. O de Öffner era insosso, compulsivo, desconfortável. No primeiro num entardecer perfeito exceto pelo próprio beijo, um feixe de luz pousou em seu ombro. Ao lembrar do beijo de Eña Ábaco, Haimeard evocou a umidade tenra às voltas de um lago. Os olhos dela estão fechados e tornarão a se fechar à noite. O namoro não durou dois meses. Como conciliar amor e sensualidade? Um vive da camaradagem, cumplicidade e o outro, ainda entre um homem e uma mulher que se realmente se amem, subsiste de uma certa canalhice. De um quê de patifaria. Na melhor das hipóteses, duma travessura inconseqüente. Eña não pensava assim. Quando a beijou era como ele tivesse confessado o seu amor. Amor? Só queria que existisse algo além da amizade e do amor, algo mais puro que o laço sensual e ainda mais que o platônico. O que a palavra significa para um não significará para outro e quando dizem a mesma coisa estão falando de idéias totalmente diversas. E não existindo quase nada que no meu entendimento esteja compreendido, o que existe de fato e o que é
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representação? A palavra é tudo e nada e essa é sua maldição ou sua glória. Agora, Alice não acha uma coisa nem outra. Simplesmente sentiu o ímpeto de beijar e beijou, aliviada por de novo ter escapado da morte. Por não estar sozinha. Por saber que tem de novo um lugar para comer e dormir.

Segundos depois Meereshimmel passava por aquela esquina. A idéia de que devia ser mais cuidadoso com seu casamento ganha contornos de futuro, ganha ares definitivos. Um bebedouro público. Um gole. Sonja é uma boa mulher. Gotas em sua camisa. Jamais pretendeu se separar. Lembra com carinho do capricho doméstico da esposa. Seu prazer na rotina. Ele a admirava por isso. Ainda que não conseguisse ser assim. Porque não conseguia ser assim. Não há razão de procurar outros rostos. Outros corpos apenas, talvez. Nunca relacionou corpos de mulher a temperamento e caráter antes de Alice. Sedutores em si mesmos. Não queria por sua vida a perder – mas como abrir mão do hedonismo? Culparia

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essas jovens? Culpou Alice e perdeu o controle. Sublimar como? Por isso impérios caem e reputações são destruídas.

Os pensamentos adquirem nova feição. Vêse num futuro afetado por suas aventuras. Alice disse que tinha dezoito anos, mas tinha mesmo? Tão menina... Imaginemos que não, que é menor. Imaginemos que os clientes da gráfica venham a saber. Tinha posto toda sua esperança financeira na empresa. Os investimentos em tecnologia não foram pequenos. Amanhã o próprio nome “gráfica” deveria ser inadequado. Uma igreja, a Igreja de São Sebastião do Empíreo. Virá à missa com Sonja no domingo. O novo feitio. Os atos prevalecem sobre a retórica. Sem tempo para os argumentos com que em tudo se justificava. O reflexo no vidro de seu prédio afirma que é ele quem está entrando e é mas poderia não ser. Poderia ser um sósia mas o vidro continuaria garantindo que era ele. Haimeard e Alice também em todas as janelas do metrô que chega. Haimeard e Alice. Haimeard e Alice.

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Daqui até em casa dá cerca de uma hora. Nesse horário menos, contando a baldeação. Ela não se importa. Estão juntos. Até quando? Não há de se preocupar com isso. Não agora. Os intestinos a absorvem e não permitem. Logo agora.

Meereshimmel no hall. Quem é esse homem? Está à sua espera, senhor. O porteiro procura na expressão do morador se não fez mal de deixar o entrar o visitante. Os olhos de Meereshimmel pesam. Muito sono. É o que diz quando o outro o convida para ir no bar da esquina, tomar uma bebida quente. Quem é? Súbito, cai em si. Só pode ser. O namorado que Alice deixara em sua cidade no interior. Saem juntos. Não, não conheço essa moça. Mas talvez conhecesse Ananda. Um outro nome para o temor. Não o namorado de Alice. Possivelmente o marido – pai? – de – Ananda? Não se lembra quem era essa. Quando? O vento reduzia a sensação térmica e pareceu uma boa idéia afinal a da bebida quente. Sim, claro. Amigo, dois cafés em xícaras grandes, por

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favor. Desde quando os invernos passaram a ser tão frios? Desde quando os verões quentes e chuvosos além de qualquer medida? As folhas rodopiavam e cacos no calçamento reluziam. Linda noite, não é mesmo? Meereshimmel assente. Imagina o que o homem pretende. Certeza de que ele estivera com a jovem mas não utiliza essa certeza como ameaça. Era muito mais velho que ela – lembra agora. Homens muito mais velhos costumam ser doentiamente ciumentos. Homens-pais também. O fundo vazio das xícaras fumegava. Não. Não parece disposto a qualquer tipo de violência.

As pessoas que passam vêem dois vultos contra um céu noturno inacreditavelmente vermelho. A torre da igreja ao longe é também um vulto que se junta ao desenho. Alguém achará que lembra uma cena de filme, sabe, aquelas que indicam a passagem do tempo. Um casal e a torre da igreja. Depois a cidade vista do alto. Depois uma rua específica e uma loja

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específica nessa rua. Subindo as escadas, a porta de um específico apartamento. Que lugarzinho lindo. A cabeça de Alice se virou para o fundo da sala, a escura sala em que os papéis de trabalho de Haimeard se espalham pela mesa. A sombra da metade de seu rosto delineou traços abismados. Nitidez das metades por conta do lusco-fusco nela mesma. O canto da sereia nas pedras ao lado do mar em que ele está agora à deriva. Delineiam-se os seios na blusa. A blusa solta-se aos movimentos.

A luz do abajur. Efeitos concêntricos que se esticam até os pés deles ao riscarem um espaço improvável. Um espelho. Um relógio antigo. Passado e futuro pendulares. Solstício e equinócio perdidos. Alice tensa. Precisa de uma massagem. O desejo impossível de momentos sagrados que não existem nem podem por causa do pecado ou da santidade. O anseio de uma beleza utópica, de prazeres quiméricos. De novo Haimeard rendido. Não pela lascívia. Pela probidade indevida. Logo amanhecerá e o

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ciclo deve continuar narrando a história de uma existência que será esquecida. Terão passado a infâmia e a glória. Então, por favor, aqui há um lugar adequado. Esse divã. Tome um banho e se prepare que logo estarei aqui. A mão esquerda puxa por dentro a manga direita da blusa. É melhor assim que perambular pela rua? Pela primeira vez na vida se pergunta. Essa habilidade das mulheres é a dos mágicos, pensa ele. O assoalho pergunta a Alice quantas vezes prelúdios semelhantes se repetiram. Não houve uma só vez a introdução do amor. Exceto quando não houve, quando nada aconteceu, quando Meereshimmel Delícia do vagar, o amor. Palavras desnecessárias e árduas como diamantes guardados. Não mais. Permitirá que a fronte se turve porque é assim com todo ser humano uma vez ou outra quando não sempre. Aqui e ali, ontem e amanhã. Não estou sozinha, não estou sozinha. Você é linda, mais que linda, além da estética, do físico. Nunca senti isso com

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nenhuma outra. Não estou fingindo, ele pensou, não estou fingindo. Não sou. Deveria agradecer a guarida com alguma coisa parecida com amor verdadeiro, alguma coisa minimamente semelhante ao que começo de fato a sentir. Que seja eterno. És minha irmã. E não pôde. Porque não parecia ser outra experiência. Estava além do cerne da questão e dos limites do jogo. Não quero mais mentir. Arrependimento ou desespero não queria mais e o corpo de Meereshimmel atendeu. Tal era o seu amor. A blusa por cima da cabeça, tratada pela outra mão com muito jeito, como se não fosse para ser uma blusa deixada em qualquer lugar. Quando ela se abaixa o olhar oculto a perde por segundos. Por segundos todo o homem do olhar se perde. O olhar é tudo o que tem. O fecho do meio vai noutro movimento hábil para o lado esquerdo. Aberto. A saia está solta. Uma perna, depois a outra. Que diferença haverá entre esses movimentos e os de uma outra qualquer num outro dia qualquer antes ou depois? Por que agora é tudo quanto
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após deixará de ser? Não é exatamente essa a acusação que Haimeard se especializou em fazer ao pai? Entre dois estalidos de elástico ela diz que está pronta. Ele tarda uns segundos e surge. Não diz nada ao entrar.

Mãos. O contato com a lisa barriga alva, resultado que se verá no brilho da pele. O sorriso no rosto dela pode ser de cócegas ou prazer. Pode não ser nada. Um sorriso nervoso que ainda a acomete depois de todos esses anos. Dezenove. É que ela começou cedo. Todas começam cedo hoje em dia. Antigas etapas são queimadas. Onde antes o sorriso, a mordida no lábio inferior. Certamente ele não tinha essa intenção mas o desconforto na barriga está mesmo passando. A ponto de ela sequer lembrar num ponto de suspensão perfeito só possível na dissipação de alguma dor. Na transição que um filósofo chamaria de prazer. Olhos que se reviram. Lábios se entreabrem. Tão lentamente que ele pode conceder valor a cada um desses deslocamentos como notas numa prova escolar. Faces pálidas e vívidas de

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quem não sofreu o bastante mas pensa que sim. O cheiro de banho tomado. Trouxera algum perfume? Esse ele não reconhecia como um dos seus. Que cílios! Os braços cruzados sobre os seios. Permita-me. Antes derrama mais do óleo sobre as mãos e as esfrega uma na outra. Pingam as folhas orvalhadas. Avançam sobre a proteção que pouco ou nada resistirá. Um passeio. Conversarão os de coração puro sobre as horas amistosas da paixão? O que dirão? Que conforto! Que prazer! Que bons pensamentos de esperança! Por quê? Não pergunte. Segue a vida. Seguem as mãos.

Mais que coxas o reflexo devolve labaredas. O caminho inevitável para um futuro de cuja inexorabilidade Haimeard não estava completamente convencido. Essa parte será cansada submissão? simples recompensa? O que é o desejo? a que exercícios se entregará depois a fim de acalmar a consciência? Não há de ser o caso. Tudo pode ser simples como ela está ensinando. Assim. Plena em uma calcinha que não se sabe quanto ainda durará.

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Prosseguem as mãos de passagem e no instante em que ela fechou os olhos e se aquietou e permitiu que uma despretensão viril o erguesse de uma vez por todas.

Não se lembravam mais do que haviam conversado. Os assuntos mais preciosos são apenas um meio com que se chegar aqui. Não sabem mais nada um do outro. Nem o pouco que sabiam. Alice deitada submissa no divã está agora na porta de casa. Sua saia xadrezada curva-se e se ondula sob as coxas. Hum Énigme a olha deslumbrado. Veio pedi-la em namoro. Se seu pai deixar serei o cara mais feliz do mundo. Ela discretamente olha por cima de seu ombro. A poeira ainda sobe onde houve a freada. Conheceu-o numa festa na noite anterior por meio de um amigo comum. As mãos na parte interna de suas coxas. O momento que por toda a noite ele havia sonhado. No final talvez ela tenha, pensou, outras virtudes. Entre. Você fica bem de azul. Tome um refrigerante comigo na cozinha. Papai já está descendo. Sentaram e ele não resistiu.

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Por debaixo da mesa. Saindo da cozinha, ela toda molhada. Imagina um cara se dar a essas liberdades. Estava reduzindo demais seu nível de exigência. Então o rosto de Haimeard encheu a paisagem fora da casa que a viu crescer no interior. Mantém a pressão das mãos por alguns minutos depois que aproximou-as da umidade.

Ele não diz nada. Guiou-a como quem sabe. Ela se vira, os cotovelos no divã. Óleo derramando-se em suas costas, descendo por suas costas, como se tudo tivesse sido combinado. O quarto amarelado. Palpita. O fogo se alastra pela campina, avermelha o céu da tarde. A pele de Alice. Seu cheiro e textura. Agora. A senhora Chiem diz que a filha não precisa ir fazer as compras. Se ela estudasse e passasse de ano, estaria perfeito. Pensava também que não seria nada mal se ela aprendesse um instrumento. Ela própria, a mãe, era formada e chegou a trabalhar fora e em casa antes de se casar. Não queria isso para Alice. Melhor é ter um diploma, se casar

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com um homem de bem e viver no estrangeiro. Então Alice acabou indo passear para os lados do lago e no caminho viu a queimada. Por que as pessoas fazem isso? Daria tudo para viver num mundo diferente. Como gostaria que fosse? Um mundo mais verde, mais justo. Viu a mãe de longe a mãe indo para o ponto para tomar o ônibus para a cidade. Não esqueça essa imagem. Você também não quer ser como ela. Com certeza um futuro longe dali. Que o “de bem” signifique um homem que possa lhe dar o que precisa. Como, de outra forma, poderia refletir sobre coisas essenciais como a justiça do mundo e o que é ecologicamente correto? Esse homem não tem rosto mas pode imagina-lo. Esse prazer não combina com nada que conhece. Escreva um poema. O vaivém é lento o bastante e favorece todo tipo de devaneio. Nesse posição, Haimeard não consegue se controlar por muito tempo. Você já foi? Ela teria preferido que ele tivesse continuado calado, no comando, sem se importar com ela. Um modo de compensar os homens pela forma como os usava.

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– Oi. Tudo bom? – Haimeard? Tudo sim, quer dizer – Estou incomodando? Interrompo alguma coisa? O que ele poderia estar interrompendo, se ela estava na pensão em que a colocou para não se incomodar mais e tampouco o incomodar uma segunda vez? – Imagina. Nada. Achei que você não ligaria e – Por que não? Ele pergunta mas sabe o porquê. Deixou claro de várias formas. Só uma noite. Ou não deixou? Ele paga o lugar para que eu passe o mês e o deixe em paz assim. – Paguei a pensão porque você não podia e lá em casa você sabe Ela se assusta. Ele ouviu meu pensamento? – Não daria certo, né? Parou junto à porta na tarde de outono. Não fazia mais sentido estar ali e todavia estava. Sentiu vaga e definitivamente a força
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do comodismo humano. Porque nada mais justificaria o desperdício de sua energia já de todo comprometida pela doença com a tentativa de colar os pedaços de um vaso cujas linhas proclamarão para sempre a ruptura. Antes teria recomeçado. Noutro lugar, sozinho. Agora a idéia sequer chegava a se cristalizar em seus pensamentos. Quando ser feliz ou não é menos importante do que subsistir. Ou não. Mas até o suicídio ficou para trás, com a dor e a alegria. Resta apenas para os dois os movimentos de um cotidiano maquinal. No quarto, as batidas e a voz produzem nas feições da mulher deitada o paradoxo de uma desanimada excitação . Não adianta, pensa. Ainda que fique tudo bem de novo, não vai durar. Estava cansada como ele. Mas a estação estava longe o suficiente do calor insuportável e do frio paralisante para que pudessem se dar essa oportunidade, que porém não é filha da paz – Haimeard entende na verdade o que aconteceu com o pai. Entende e consente em viver a mesma situação. – Não, não daria certo. Nunca dá esse

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– Nunca – Mas quero O que poderia querer? O coração dela dispara. – Que bom que você ligou, pensei muito Pensara menos do que poderia. Porque estou abrigada? Sou tão calculista... – Queria te convidar para jantar hoje. – Onde? – Passo aí às oito, está bem para você?

– Está ótimo. – Então até depois. – Até. Um beijo.

Foi na noite em que se reencontraram. Esperou-a alguns minutos na sala da pensão diante da TV. Teria sido muito melhor se, antes da proibição das sacolas plásticas, a população fosse esclarecida a respeito das alternativas. Oi, demorei? Ele sorriu. Claro que não. Tchau, dona Francisca. No restaurante, embora

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conversem, ele olha ao redor. Como se procurasse. E então? como foi o dia hoje? conseguiu alguma coisa? Ela diz que, bem, talvez. Então ele a olha nos olhos, mas não escuta a própria voz com clareza. As pessoas estão vestidas quase a rigor. Ela sempre se torna evasiva quando se trata de trabalho. O silêncio de agora está cheio dessa percepção. Gostaria que ele esticasse o braço mais um pouco e cobrisse sua mão sobre a mesa. Não é nada romântico. Não está interessado. Por que então ligaria? O que mesmo aconteceu, em detalhes, após adormecerem? depois que acordaram na manhã daquela noite? Ela imaginava que ele era agora um amante, colocando-os no livro de conduta para cada situação. Uma rua sem saída. Róseos os prédios. Em algum lugar alguma coisa de vidro caiu. E lá se foi ela para a pensão sem um único beijo. Sequer uma carícia libidinosa de adeus. Se passou com ela pelo amor e pela dor como se não tivesse passado, o que ele quer agora?

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Deixou para outro dia. Mas não pode demorar. Uma jovem como ela não ficará muito tempo sozinha. Tomará alguma coisa antes para dar coragem. Por que será que ela o intimida assim? Hoje não pode mais falhar. Como ela está linda! Uma rosa vermelha no meio da mesa. Dizem perto dela que aquela era uma safra ótima. Casais à beira do compromisso em restaurantes sofisticados parecem crianças nervosas. O ambiente avermelhado está contido para Haimeard no sorriso tímido com que Alice abaixa a cabeça. Ela não tinha roupa adequada mas saiu-se bem com as que tinha. Bebe do cálice com olhos num nada à esquerda dele, quase acreditando. Esses mesmos olhos que agora o encaram enquanto ela fala e depois cala e sorri num mesmo ricto. A rosa, o cálice, a luz avermelhada estão num mesmo enlevamento. O efeito do álcool, o desejo, a beleza de uma mulher. Folga no dia seguinte. Quem sabe uma nova vida a partir do dia seguinte.

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Outra vez em casa e outra vez a tua dolorosa ausência de onde acena a perspectiva de uma vida sem você mesmo no futuro que insiste em não ser idealizado de modo a conter as soluções de nossa vida juntos. Não pretendo usar esse argumento de que estou sendo injustiçado porque nunca soa bem e supõe uma superioridade em relação a esses que agora me condenam, no que de modo algum acredito. Em tese estão corretos. Meu declínio é mesmo lastimável. Teu amor talvez tenha sido uma última compaixão da vida para comigo e isso não poderão me tirar. Por agora nossa correspondência reflete o que me basta da vida e o que não contém não há de ser necessário uma vez que o que provém da partilha de nossos pensamentos é a vida que me basta. Os escritos que me pediu, embora estejam anexos, já não fazem parte de mim e de algo que porventura eu tenha querido um dia expressar porque estão

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intrinsecamente ligados ao vigor que me abandona, sem o qual não pode existir plena relação entre o homem e o que pensa. Não quero que o que eu pense seja tomado por algum tipo de verdade à qual a gente deva uma profissão de fé. Não desejo mais que subsistir o tempo que me resta e se talvez haja algo aproveitável melhor seria que outra pessoa, com energia e convicção num sentido para a vida, alguém como você. Porque se um dia cheguei a escrever e pensar alguma coisa que significasse mais que qualquer um poderia alcançar por experiência própria, são proposições que minha própria experiência não mais respalda. O mundo não precisa de mim e muito menos seus habitantes de minhas reflexões. Se há uma estética apartada de sentido prático por que valha a pena viver, de há muito é uma inspiração que me escapou.

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Ao entrar em casa, Meereshimmel quase disse Um sujeito muito estranho me abordou hoje. Por pouco não disse. Iria se trair. Nem pensara nisso antes porque precisava desabafar e antes de tudo Sonja sempre foi uma boa amiga. Quando ele se aproxima dela, ela enlouquece. Sem perceberem, estavam no andar superior à sala de aula. Ela o puxou para junto de seu corpo, deixando-se pressionar contra a parede. As sombras se misturaram na parede lateral. Lâminas de luz e cheiro de vendaval. Bons amigos também podiam. Quase deviam. Os colegas de classe riam uns para os outros. Finalmente ele entendeu, diz um. Uma hora ela ia conseguir, diz outra. Meu Deus, acho que devemos casar, Sonja; não posso passar um dia que seja sem você. Não sei se é uma boa idéia, diz ela; íamos por em risco nossa amizade, lembra? você mesmo disse isso. É, eu disse, mas era diferente. Será diferente amanhã se nos casarmos, pensa ela. De um modo ou de outro nunca mais será assim. Por outro lado havia aquela parte acomodada dentro dela que queria muito pouco além de ter uma casa e ser
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sossegadamente feliz com seu homem. Ela deixou-se respirar na cama desfeita. Eram casados agora, com todas as implicações que isso significa. Os aborrecimentos. O tédio. Mas ele parece realmente feliz. Se pudesse mantêlo assim. Talvez seja a hora. Agora resta se reconciliar com o irmão, ele pensa, e estará realizado. Talvez queira trabalhar comigo. Como vou disfarçar? pensa ela. O que um analista de sistemas pode fazer numa gráfica? O que mais será preciso para que ele descubra? Um dia estava no banho, quando Haimeard chegou. Foi a última vez que os irmãos se viram. Estava no banho e disse alto que estava. Haimeard preferia que não repetissem assim. Já cobri a minha cama com cobertas de tapeçaria. É meu irmão. Eu o levava aos lugares quando ele era pequeno.

Alice tem um irmão menor. Não tem certeza se falou sobre ele para fugir do assunto, se para desabafar a saudade ou as duas coisas. Era uma lembrança recorrente. Não tinha idéia do porquê. Deve decerto ter um porquê. Era

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como se espreguiçar ao sol. O prazer daquela ociosidade junto ao irmão caçula na cadeirinha de dois lugares na varanda. O assovio displicente dela se misturando ao canto dos sabiás segundo o solene chamado da espécie e a gaiola do melro balançando sobre eles no mesmo ritmo da cadeira de balanço vazia ao lado. O vento suave do amanhecer também os embalando como um gigante cuja função fosse justamente acalentá-los não para o sono mas para o dia inevitável e sem descanso mesmo para dois adolescentes de classe média duma cidade do interior. Jonas e Alice acordavam juntos muito cedo e desciam os degraus do andar de seus quartos um após o outro lentamente como se cuidassem para que ninguém os ouvisse e todavia aprenderam cedo a desdenhar dos pais qualquer que fosse o assunto no exato sentido inverso de pais que dizem “coisas de criança” – eles, aquelas crianças, convictos de vida e amor e solidão e silêncio, que recusavam o pensamento dos mais velhos como “coisa de adultos”. Normalmente naquela cena fios dos cabelos de Alice dançavam aos sons sobre a testa da
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menina não chegando a incomodar, como se fizesse parte da canção assoviada que transportava o menino para muito longe – ali estão seus olhos entorpecidos confirmando a impressão da irmã. Em algum momento ele tentava acompanhar o assovio mas saíam apenas sons ocos e desarmônicos, sopros apenas, que enterneciam Alice quando olhava para ele, mais um órfão de pai vivo sobrevivendo no mundo sem regras.

Você está implicando com a idéia. É meu irmão. Sonja sabia. Pode nos ajudar, disse ele. Ela sabia. Preciso contratar alguém. Tenho um primo, o Marcel – disse ela; é inteligente, prestativo, honesto, perfeito. Agora Meereshimmel vê uma mulher atraente recémsaída do banho, pingando pela casa, falando. Na volta da viagem vim com uma moça, ela acabou de sair, quer dizer, nem entrou. Estava com um amigo, tocou o interfone, disse que ia subir, se o amigo poderia vir junto. Mas nenhum dos dois subiu. Não sei o que aconteceu.

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E agora? Ele comenta sobre a amiga dela? Conta sobre o estranho dele? A vida é estranha, pensou ao olhar as escadas pela porta ainda aberta. E essa sua companheira de viagem, era bonita? Ele poderia ter perguntado mas de novo iria se trair. Assim pela primeira vez no casamento percebeu o quanto a falta de comunicação resultava de suas traições e não o contrário.

A cidade efervescente em volta dele, a existência. O rosto da irmã, o corpo da irmã, as lágrimas dele num anoitecer febril. Jonas, um ótimo aluno a ponto de tomar coragem. Quantas masturbações serão necessárias? Os sons do dia nascendo, os prédios no caminho para a escola, os pontos cheios antes do seu, antes da baldeação, é o dia que começa. Não há solução. Exceto se cedesse e uma idéia impossível o liberasse. Mas não. Não é possível. É pecado. Não é natural. Uma manhã perfeita, a alegria proibida de existir. Nem cabe um bilhete. Diante do inexorável, diante do

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inelutável, a vida sequer é alguma coisa exceto ilusão mas a morte sim algo a ser vivido, alguma coisa que faz sentido, a ser criada como o túnel para a liberdade do prisioneiro. Será por isso que sou assim? Pelo que aconteceu a meu irmão? Faz diferença se for? Se amo em Meereshimmel meu castigo, como poderei amar a felicidade com ele? Uma morte entre outras, a ser abafada como tantas, no metrô ou na escola. Um aluno qualquer, um irmão qualquer, e todavia de uma outra espécie, da possibilidade se levanta, uma indesejada realidade. Ninguém precisa dele. Até Alice tem se afastado ao perceber que as brincadeiras estão indo longe demais. Jamais me afastarei de você. Talvez seja fruto da culpa em seu coração e creia também existe no meu. Mas precisamos superar. Precisamos viver. Preciso de você. Não me abandone. A irmã notou que algo estava para acontecer. Na rua, nas coisas que aconteciam, nas cores do céu, sempre havia uma presságio. O sistema de som do metrô está dizendo que estamos esperando o vagão à frente concluir uma manobra. A escola dirá que lamenta o ocorrido pensando
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em formas de manter ocultos os casos ocorridos com outros alunos sob o peso do rigor do colégio, primeiro nas avaliações nacionais. Pelo menos a motivação de Jonas terá sido outra, menos pecaminosa. Pelo menos isso.

Luzes ruidosas despertam o dia. Uma manhã como as outras. Como se fosse a primeira. Há um mar não distante. Reluzindo. Se visse o mar diria que há esperança. Porque fora a primeira vez. Algo mudou. Se tornou igual ao resto do mundo. Um mundo esperado enfim para um começo. Ela a seu lado. Alguém dedilha um violão assim cedo. Bom sinal. Como as luzes vindas do mar profundo e escuro. A questão é que isso é demais para ele. Não é alguém assim. Não se acostumará com apenas um amor. É uma versão romântica do irmão. A história de ambos é a mesma. Em algum momento se cansará. Finge que não pensou isso. Varre o pensamento para debaixo desse

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tapete mágico que são as emoções do momento. Quieto a contempla adormecida. Alice considerara o desempenho dele perfeito. Deve ter um milhão de amantes. O daria no mesmo considerando que não o amava. Nem poderia. Não há amor no mundo. Segurança material é segurança material e quem a provê a provê. Não há transformação de sapos. Sexo é sexo. Que história é essa de noite de amor? Nem foi uma noite. Sequer uma hora. Talvez nem meia. Estaria tudo relacionado à vida material? Reduzido assim ao prazer? Ela sentou-se na cama sem fazer juízo. Aquele era o mesmo homem que há poucos minutos a agarrara por detrás, as mãos fortes apertando seus seios, a boca em seu pescoço. Calada. Não fez juízo nem havia zombaria em seu olhar. O mesmo olhar com que se afastou dele num impulso. Meereshimmel parece não acreditar. Olha-a perplexo enquanto ela diz para irem devagar. Diz: Não quer comer alguma coisa antes? Não tenho fome, ele respondeu. A voz dele era humilde. Ela se aproximou, encarando-o. Pelo menos me ofereça alguma coisa. Eles tinham
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tomado o cappuccino. Vai se zangar se ainda estou com fome? O que significava aquele olhar, ela se perguntou. Quem era aquele homem? Por que mexia assim dentro dela? Não estou zangado não. Não mesmo? Por que você não se serve na cozinha? Ele adiantou-se e passou por ela. É por aqui. Alice o deteve num abraço por detrás. Deus retribua o teu feito. Deu a volta e passou a desabotoar-lhe a camisa. Você é um homem muito atraente. Sob cujas asas te vieste abrigar. Não a cozinha mas o quarto. Não a geladeira mas a cama. Não para nada que ela tão jovem tem tanta experiência. Na cama sem função. Um homem sem função. Mas ela não o condenava e sequer parecia decepcionada. Por que achei graça em teus olhos? Bem, se você está como fome a hora é essa. Oh me perdoe. Tudo bem; vamos sair e comer alguma coisa. Uma coisa ela sabe: se tivesse um bom trabalho, uma renda, poderia amar. Um trabalho gratificante como sua escrita. Poderia amar. Não é tão má. Vejam, está até chorando. Quando descem para que a leve à pensão, será a primeira coisa que o porteiro notará. Os olhos vermelhos. Brigaram
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com certeza. Nunca esteve antes com mulheres, não soube como tratá-la. Ou ela descobriu a homossexualidade – no caso a bissexualidade. Alice não foi nem um pouco com a cara do homem. Não gosta desse tipo de pessoa, intrometida. Haimeard sequer o viu. Cumprimentou-o sem olhar. Pensava em como iria viver sem aquela sensação percorrendo seu corpo todas as noites. Aquele bem-estar. Tudo o que se subtende do prazer sexual. Da vida a dois entre pessoas afins. Não é por isso que homem e mulher se juntam? O porteiro não pensa assim. Embora há vinte anos casado jamais sentiu nada parecido. O espelho do hall distribui luzes e sons.

Que tipo de homem é esse Haimeard? A análise do pai é triste. Fria, segundo o filho. Como qualquer homem bem adaptado ao mundo resume vida entre casa e trabalho e finais de semana de suposto descanso perdidos na madrugada. Às vezes o salão nobre do clube quando de alguma celebração da

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empresa. É discreto. Suas pequenas aventuras, ninguém as nota. As maiores tampouco. Não tem opinião formada além do juízo geral. Tem perfis em todas as redes sociais e exulta sutilmente quando recebe a aproximação de um ou outro contato de internet. Não acredita que os sites possam usar os dados privados exceto para personalizar a publicidade. Acredita que tem escolha, que quem vê TV aberta é que não. Se a linha dos lucros continuar em queda lenta mas regular será pior que a inconstância dos ganhos e perdas alternados a cada mês, augúrio de inflação ou coisa pior. Bom que tem enfim um bom salário reajustado pela mesma inflação. Entenda então de que está falando quando fala em valores. Nada tem a ver com os que tentei lhe passar. Há um destino pessoal ou todos estão agregados num mesmo link? Um destino para os países além do crescimento? para seus habitantes? E quanto aos que não tem mais essa necessidade, como os nórdicos? Um homem comum, enfim. Desses para quem a questão deixou de há muito a carência mas como o administrar o excesso. No fundo
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concorda com o pai. Suas palavras estão cheia de uma sabedoria em cuja eficiência não crê. Balança a cabeça. Espanta a dúvida de que foi uma grande injustiça o que fizeram com o velho. Jamais maltrataria qualquer ser. Quanto mais um humano feminino adolescente. Logo abandona essa compaixão incômoda e volta a pensar que a vida é um excesso de ser mais do que se pode administrar.

E essa Alice, quem é? Começará a descobrir naquele salão de biblioteca. A tarde do fim de um verão entrando pela clarabóia e um homem, um homem maduro (já o chamam eventualmente de velho) que a observa, isto é contempla, à luz também das lâmpadas frias recém-adquiridas na última licitação que a prefeitura realizou antes do escândalo. É o que ela é: existe segundo os olhos que a contemplam, isto é adoram, não, é outra coisa ou seria apenas o vermelho dos lábios e é algo como a paixão da transcendência – ou seria apenas a mistura do sol com as lâmpadas novas mas tem mais a ver com revelação. Esse

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som de tosse e murmúrio e risos abafados, para a recém-nascida Alice, parece som de seres humanos contrastando com as divindades silenciosas a seu redor. Mantém o livro entre as mãos, ou melhor os dedos, as pontas dos dedos, mal tocando a página que será virada – ah, a página foi virada e nessa nova página pode descortinar a combinação de letras que escrevem algo ainda não inteligível para ela. Mas será. Será. Fulgente assim como a luz refletida pelo papel de qualidade próxima a de um espelho. O vestido tremula ao cair como ondas de um sonho sobre o corpo sereno porque desisti de desejar – nunca mais – quero outro tipo de prazer para mim. Um corpo ainda jovem e fresco como o de Beatrice mas ele não irá sequer lembrar de Beatrice ao olha-la, é outra coisa agora, são luzes e sons de deuses, é um anjo. Ela olhou em volta. Ele estava ali. Olhou o livro. Uma nova página. Uma viagem. E todavia não vou pensar em nada que tenha alguma conotação mística. Esses deuses são racionais porque são livres e livres não porque vagam mas porque vagam sabendo não haver um destino. Os olhos estão abertos e talvez
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pela primeira vez, pela primeira vez pode ver o mundo a seu redor. As pessoas iluminadas pela luz em seus próprios olhos. A página é nova, seu dedo está conhecendo o toque com que a virará. Não toca nada que seja especial. Mal toca, na verdade. A página nova tem a ver com a mudança, daí virá a alegria. Não por nada em particular e por tudo que num segundo se deixa vislumbrar mas não permite a retenção na memória. Como a linha com que o pintor finaliza seu quadro que será o espaço antes do início do próximo. O intervalo entre duas epifanias. Aí está. É você. A pausa explica o movimento.

Ao segundo ou terceiro sinal de que não iria dormir mesmo, levantou-se. Anda como quem vai ao banheiro mas passou e abriu a porta rangente do escritório. Sentou-se e diante do computador imaginou o que poderia ainda dizer que já não houvesse dito. Que era o fim? Que o fim supõe novo começo? Nada acontece quando se depende de outra pessoa.

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Quando acontece não terá mais relação com uma vontade pessoal. O frio é suficiente para que ponha o suéter mas irá aumentar muito. Que dia é hoje? Aliás estamos ainda em maio? O cansaço destrói mais que a morte. A morte sim é um novo começo. Escuta a constância dos componentes. Fala alguma coisa por demais vaga e todavia devastadoramente precisa quanto a si próprio. Estou sozinho. Sou tua amiga, ela costumava dizer. Sou tua amiga, você não está sozinho. Não sabe mais por quanto tempo acreditou. Tempo demais. O bastante para que chegasse nessa encruzilhada. Há alguns meses, ainda teria saúde para recomeçar noutra parte. Forças de arrumar a bagagem sem se cansar desse jeito e ficar ofegante a esse ponto patético. Não é uma encruzilhada. Não há caminho. E mesmo para trás se fechou como uma ponte queimada após a travessia. Renascer é uma licença poética agora proibida. Cinqüenta e cinco anos sem um ontem. Você não está velho, ela costumava dizer. Só entrou numa idade em que são necessários alguns cuidados. Um clique estranho. O computador reiniciou sozinho.
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Desconcentrou-o e sentiu a coluna que doía. Ele minimizava. Nunca disse a ela o quanto. Se o fizesse ela acharia que seria ainda menos. Acreditava piamente em Savone como escritor.

Caminham para pegar o metrô e Alice sabe que ele está fazendo isso para se livrar dela como antes o objetivo era leva-la para casa dele. Devia imaginar, um cara tão gentil. São todos iguais. Bonita. Culta. Inteligente. Por que uma moça assim está sem trabalho mesmo saindo de casa lá no interior com esse objetivo? O mesmo que ela pensou há pouco: O que há de errado com o mercado de trabalho hoje? Tinham alguma afinidade. Ela atravessa a rua após olhar para um e outro lado. No meio da travessia ao se sentir segura dá-se ao luxo de quase desfilar. Todas as mulheres são iguais. Todas obedecem a essa vaidade misturada a sedução não importa a situação em que estejam. Quase caricatas. Ele todavia se consumia por causa dela, como costuma acontecer. A mesma velha história. A
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renovação de caminhos conhecidos e como que esquecidos embora não, não pode ser, o que leva a esse jogo é a saudade de uma volúpia experimentada naturalmente na adolescência e depois sob os pretextos mais diversos mas ainda repetida sob as contradições do tempo. O que antes era o fascínio pela mulher mais velha, ao ganhar o homem idade, irá se inverter até chegar à lamentável condição de seu pai – não isso não, isso nunca, preciso me aquietar. E Alice onde entrava em tudo aquilo? Não mais tão jovem assim e com evidente experiência sem todavia que nada nela fizesse supor uma mulher madura. Nenhum elo com a menina e muito menos com a antiga patroa. Num átimo Haimeard vislumbrou o futuro e sem convicção o rejeitou. Havia descoberto a diferença e não queria assumir a responsabilidade.

Para trabalhar tanto assim deve ter em casa uma mulher gastadeira. Só Meereshimmel sabia que Sonja era muito simples. Um coração

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generoso. Que mudanças houve desde quando e por que, não sabia. Tudo se encaminhara naturalmente. Agora um fato novo, pensou ao olhar as gotas reluzindo nas cores do letreiro. Gráfica. Após levantar a porta para a ampla sala que a lâmpada fria iluminou e deixar o empregado entrar dois passos adiante, não dispunha de outros argumentos para justificar seus casos e os via se aproximando perigosamente de sua vida. Da tranqüilidade de sua vida apesar de tudo. Vira-se para a rua. Ainda é noite. O trânsito na avenida está fluindo como não costuma nesse horário. Por que esse rapaz precisa ligar o rádio tão cedo e tão alto? Chuva fraca ao amanhecer e no final do dia. Temperatura na casa dos quinze graus. Já há movimento na rua. Muita gente começa o dia cedo como ele. Quando os funcionários estiverem entrando no emprego que deixou na Imprensa Oficial, o sol já estará alto caso a garoa realmente pare no meio da manhã. Quando o aviso chega com um convite para o café é sinal inequívoco. Agora tem receio de que o tal namorado de Alice apareça. Ou o pai
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da Ananda. Aproveite o alerta antes que o momento passe. Ficar em paz.

Assim que se conheceram Meereshimmel adorava qualquer momento com Sonja. Não só queria saber de sua vida mas se instalara nesse passado do qual ela queria fugir. É que sofreu muito mas sempre foi uma menina forte. Uma adolescente que enfrentava o mundo. E, mulher, não tinha tempo para perder com coisinhas de mulher. Como ele gostava de saber isso e aquilo! quando menstruou pela primeira vez e o que sentiu no primeiro beijo. Você não é meio depravado? O que quer dizer exatamente “depravado”? Fato é que ele não se chocava nem tinha ciúme. Mas não gostava de falar sobre si mesmo. Ela tampouco se mostrava interessada em ouvir. Casal perfeito. Onde deixaram de ser? Onde estão os quinze anos dela? e dele os dezenove? Meu Deus, esse rádio! A marca de qualidade da emissora. Ajoelhou-se. Acesse e assine. Sonja, perdoe-me. O bairro foi residência e ateliê do artista. Sonja, perdoe-

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me, eu... Duas horas e vinte e cinco minutos. Você precisa acreditar que eu te amo. 14 graus no centro da cidade. Sempre te amei. Táxi com passageiros podem usar as faixas em qualquer horário. Marcel, abaixe isso, por favor! Ponto de encontro dos artis... Ajoelhou-se? Dramático demais. Não soaria confissão autêntica. Não era fácil mas necessário. Afastar-se das tentações. Por que então está lembrando o momento em que viu Alice entre as pessoas e a chamou para um café? Por que seu coração se alegra ao lembrar o beijo? Segura-lhe o queixo e a puxa para si. Seu polegar aperta-lhe a face. Intensifica-se a sombra ao longo da maçã de seu rosto. Ele está dizendo Vamos, gostosinha? Ela deve tê-lo achado inacreditavelmente vulgar. Onde estará agora?

Alice escuta a voz de Haimeard como num sonho. Eu queria que você fosse morar comigo, diz ele. Ela mal pode acreditar. Toque-me, pensa. Veja a minha mão tão perto da sua. Era a vida que sonhou. O seu lar se tornando realidade quando ela menos esperava. Como

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agir agora? simplesmente aquiescer? Parecerá fácil demais. O tipo de mulher que depois o homem não valoriza. Não pode deixar a chance passar. Nem aproveitá-la de modo que amanhã o sonho se desfaça. Está prestes a acontecer ou já aconteceu. Sabe Deus tudo o que escutou a respeito. Tudo o que lhe aconselharam sobre a vida. Filhinha, dizia sua mãe. Amiga, dizia a irmã de Öffner. Minha princesa, dizia o pai. Todos sabiam como agir em qualquer situação. Agora você é mulher, precisa se comportar. E todo aquele palavreado conhecido. Ela se deixou afetar. As vozes se superpõem em seu cérebro. Ecoam. Ecoam. Mas o que importava a qualquer deles e por que na verdade deveriam se importar? quem dentre eles adoecerá se não der certo e quem celebrará caso sim? No fundo sou uma pessoa boa. Não quero enganar ninguém. Quero fazer um homem feliz. Sou responsável. Não era pretexto quando disse que viria procurar trabalho. Procurei. Quando encontrei Meereshimmel tinha procurado. Na semana depois da noite com Haimeard. Em que dia deixei de sair e correr atrás? Meus documentos estão em ordem; abri a conta no
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banco; tirei passaporte, caso a oportunidade surgisse em outro país. Tentei. Por que me sentirei culpada se encontrar um homem que cuide de mim e me dê o teto em que eu possa trabalhar de verdade? Retirando o olhar de Haimeard, respirou fundo e relanceou os olhos para o teto trabalhado. Chorava.

Há essa possibilidade. Nunca soube se moderar nas reações durante o sexo e jamais se curou dos resquícios do ácido. Que vida. Como agora pretender destino de protagonista da santidade? Um tapa para que eu me contivesse? Pode ser. Se for ele estará redimido; e meu amor proibido, justificado. Um leve giro do pulso. O sol onde devia estar. Alice sem sombra. No ouvido de Ingenuer o noticiário do almoço que Meereshimmel não escutava apesar das mesmas ondas em seus ouvidos. Permanecia na ignorância do que se passava na cidade e no mundo, na ignorância de tudo exceto o que ia dentro dele. Onde a poderia encontrar? Não me permito lembrar mais. Só me permito sentir. Como se eu tivesse

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de passar a humilhação. Sem de fato ter de passar, fisicamente. Ou tendo passado em sonho. Jamais saberei. Sei que ela. Ela. Meu pai costumava falar esse tipo de coisa. Jamais acreditei. Precisavam mais que o beijo? Boa parte das meninas dirá que tinha nojo dos beijos quando adolescentes e que não era uma experiência agradável. E foi tudo tudo de bom pela primeira vez uma experiência quase mística. Compreendeu o mundo todo. A vida. Assim, sem querer compreender. Com a serenidade dos que estão morrendo em paz pensando ter ainda muita vida pela frente. Onde? Ela. Ele. Se isso é saudade pode dar crédito agora ao que chamam amor. Se tem a ver com esse calor benigno em suas entranhas. Com o desejo de que ela esteja bem. Estou bem? É esse desconforto o estar bem? a noite escura da alma? a madrugada mais negra próxima do amanhecer? O suor lhe mareja no rosto e súbito mareja dos olhos a certeza distraída. Não queria que tivesse sido assim. Afinal ela era minha amiga, minha única amiga. Me ofereceu sua casa. Sua casa, imagine. Suando e chorando. Pensa que ela queria
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apenas trabalhar e ele tinha uma empresa. Queria apenas um pouco da liberdade que o dinheiro possibilita – a liberdade não a felicidade que aceitara lhe estar vedada. Sufocada pela cidadinha natal. Um pouco de ar. Tudo o que metrópoles não têm para dar. Se ele tivesse oferecido a vaga de secretária de que tanto precisavam por deferentes motivos ainda que contivessem também uma razão comum. Talvez tenha sido ali que ela contou de um ou dois casos passados. Praticamente uma prostituta. Ali terá pensado que ele era mais um? Se tivesse sido um homem generoso, leal. O que mais ele podia fazer senão me seduzir? A sina do macho. E a nossa, as mulheres, usar esse poder de sedução. Ela era uma criança. Talvez ainda seja. Só que agora com uma criança para criar. A criança dele. A minha criança...

Muito frio. Mais do que na noite em que conheceu Alice. Esse tipo de associação, quando não favorece lembranças, termina por levar a descobertas. Ou suspeitas. Ou nem tanto, uma reflexão. Coincidência? Ela disse
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que a amiga morava num bairro que era o bairro onde ele morava. Onde, há dois anos hoje, acertou com Sonja na presença do advogado a compra do apartamento. Não pode ser. É um bairro grande. Sim, coincidência.

Meereshimmel sentou-se na cama. Tentando discernir o que fazia parte do sonho e o que tinha mesmo acontecido. Forçou a mente mas o sonho se esquivou. Deixe pra lá. A luz azulada da TV mais uma vez não desligada banhava o quarto de um céu estranho também onírico. Vale a pena se angustiar assim com tão sublime luz à janela? Essa expressão de alívio está mentindo. Sonja aprendeu a interpretar os sinais. Ele fala. Oi amor, dormiu bem? Sim, e ele? Muito bem. Em que estaria pensando? Sonhei – ele quase disse. Nem conseguiria dizer com certeza o que sonhara e o que era simples recordação. Queima-se etapas por causa do desejo. A parte em que ele abre a porta para Alice, naturalmente era do sonho. O coração dispara.
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Ou ela estaria mesmo ali, a amiga, a companheira de viagem? Alice recentemente chegara. No mesmo dia em que a encontrou? Não, já recusou a idéia. Pense com clareza. As coisas que chegam desse outro mundo se originam no temor. Não sempre. O olhar de Sonja inquisidor paira no quarto. Força passagem pelas fraquezas de Meereshimmel. Esbarra em seus pensamentos. Diariamente um pouquinho. Ele não tem a menor idéia do que ela sabe. Por que temia tanto assim? Amava-a, claro. É porque a amo e isso começa no respeito, na admiração. Então é isso. O amor.

Sonja parece uma moça de dezenove anos e é essa a idade de Alice. Por um momento se perguntou por que era Alice quem estava ali na cama com eles e não Ananda. Seria mais prudente que fosse Ananda. Lembrar-se bem, o suficiente para esquecer de vez. Afinal fora o marido – o pai? – dela quem o ameaçara. E o namorado de Alice pode ser fantasia de uma moça tendente a esse tipo de devaneio. Droga de memória. Não lembra o que deveria e

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esquece o que precisaria mais que lembrar, manter na mente. Como os hábitos formados para evitar a sobrecarga da mente assim deveria ser a relação da memória com a alma. Tanta dor seria evitada. Menos que um clarão na tempestade lá fora, aquele ruído monótono e constante de um chuvisco que se sabe não passará disso sem precisar de ouvir o boletim meteorológico. Todavia faíscam os medos gerados por aqueles simples nomes. Ananda. Alice. Tudo está explicado pelo menos por agora, não, para sempre essa lembrança se manterá, não esquecerei e manterei junto a mim a minha vida sossegada que é de fato o que desejo. Não fantasias eróticas que se esgotam em si mesmas sem levar a lugar nenhum exceto ao fogo que é o único elemento que não existe, que só existe enquanto há a combustão, que deixa de existir quando se consome o que deveria ser consumido. Tudo passou agora. Não foi esquecido, passou. Pode ser lembrado, não assusta mais diante da determinação. Não diferia muito da aspiração de abrir um negócio próprio. Não deixou de pensar jamais nas
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dificuldades e entretanto elas já não assustavam, nem mesmo essa recente pesquisa informando que as pequenas empresas duram em média não mais que dois anos, sim, havia dois anos abrira as portas da gráfica.

Encontra-a após ter comprado a peça da impressora. Era seu dia de sorte. Ali o dispositivo tão difícil no mercado. Alice uma ou duas vezes no futuro olhará o pacote se indagando o que poderia ser. Ela a quem seus pequenos vizinhos no interior zombavam e chamavam de gatinha logo emendando a razão não ligada a beleza mas a curiosidade. Conforme foi crescendo e se tornando moça se reuniam a fim de debater a razão de uma menina sem graça e virtudes chamar a atenção dos meninos mais velhos e – diziam – até de homens casados.

Naquele instante desenvolvido a partir de convicções que de súbito ruíam encontraram-se
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e foram tomar um café. O caminho em que andavam não estava definido. Ela vira um homem belo e altivo emergir da multidão; ele a viu em meio a suas visões de paraíso. Faz um tempo. Agora Haimeard e Alice estão estabilizados no apartamento no subúrbio, pequeno mas suficiente para que cada um tivesse o seu próprio escritório, com pequenas adaptações no quartinho de empregada e no que deveria ser de hóspedes enquanto um filho não vinha. Não pretendiam que viesse tão cedo. Nada mais. Um filho será uma renovação que não pretende. Sentiu que era tudo ao apertar o botão do elevador com o dedo ainda molhado. Porque as coisas acontecem até um determinado momento e há um perímetro para tudo incluindo a coincidência, o desespero e felicidade, e de algum modo estão mais ligados do que se imagina, a felicidade e o desespero, a tristeza e o gozo, um homem que se ama e outro do qual depende. Resta entender o passado como entende o futuro, alguma coisa amorfa encaixada no dia de hoje que não o deve preencher e no fundo sequer motivar ainda que ela possa lembrar da virilidade
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dissipada e imaginar o que seria se tivesse se consumado dentro dela e não seria em nada relacionado a isso o que o marido licitamente poderia fazer todos os dias e entretanto mal e mal o faz nos finais de semana. Ainda estava no corredor quando ouviu o celular tocando dentro do escritório. Não correu mas se dirigiu com firmeza na direção do som pensando que já se dava suficiente descanso do estresse tecnológico ao deixá-lo ali e não levá-lo consigo quando ia almoçar. Alô? Bátegas na clarabóia. Apesar das dificuldades o casal resistia momentos de encanto gratuito. Não faziam parte de uma situação sensual. Só súbitos sonhos que se desprendem de onde quer que estejam e se tornam vida. Ainda posso pensar que um é outro. Por que não? Que mal faço e em que transtornaria nisso a ordem dos mundos? Janelas, persiana, e todos os matizes sobrepostos das luzes vindas do monitor, do visor do móbile, a azulação dos aparelhos e dos pontos de stand-by referenciando o alcance dos passos no escuro enquanto ela traz na roupa o horror dos fumantes na rua, no hálito o café de após o
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almoço e na retina o brilho ofuscante do contraste de ambientes.

Cortinas na sala de jantar. Ninguém à mesa posta. Luzes e sombras na parede. Som de portas. O ambiente era tenso na casa de Meereshimmel e Sonja. A esposa descobrira o caso com a professora da sobrinha que um ou outro ia buscar na escola quando a mãe não podia. Sonja disse que não mais poderiam viver juntos. Pouco depois hesitava. Dizem que é fácil para as mulheres mas seria difícil também para um homem recomeçar a vida caso a passasse cuidando de uma casa. O que Sonja sabe fazer além de cuidar de seu lar? Lembra da moça com quem um dia viajou cujos sonhos eram esses a ponto de ter largado os estudos. Como era mesmo seu nome? Não pode sequer reclamar agora – Alice! – pois ele também largou tudo para ela quando ela precisou. O que você pode querer exceto caprichar no jantar sem reclamar e remover das roupas dele até as manchas mais difíceis? A gráfica

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engrenou e Sonja se tornou prescindível no sonho dos dois. O tormento não se instala de um momento para outro. É concebido, gerado, nasce e dura, dura e vai afetando todo o universo ao redor até não mais restar consciência da vida antiga quando de fato se admiravam e respeitavam, jovens esperando o motivo justo que a vida raramente dá para a união ou para a separação. Preferia estar em casa. Às vezes viajava, normalmente para a casa da mãe mas não passava mais que o final de semana. Um filho a deixaria mais segura de que Meereshimmel não se engraçaria pela cidade mas a gravidez acabou não contemplando essa perspectiva, antes piorou as coisas. Todavia ainda confiava. Quando não confiasse mais iria acontecer o que estava acontecendo. A separação inevitável, contemporizada. A percepção feroz de que não estavam mais juntos exceto por uma aura eventual da memória. Como aragem no calor, passa. Nunca ele deu motivo para que desconfiasse mas não basta. Ausências eram trabalho extra na pequena empresa que apesar da burocracia do Estado e da violência na
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sociedade decidiu abrir. Perto de casa. Próxima de tudo: metrô, mercados, farmácias. Um ponto excelente. Imóvel em ótimo estado. E a experiência anterior do marido. Tudo garantia o sucesso se somado à dedicação. Tudo perfeito. Homem e trabalho em função do lar. Era uma privilegiada. Não entendia. Ter um caso com a santa professorinha. O que impedia que não tivesse também com a cunhada, já que a irmã de Sonja nunca foi santa? Então se sentia justificada. Estava no seu direito. As crianças para lá e para cá no corredor são os sobrinhos.

Alice não faz idéia do que possa ser um presente com tais dimensões e formato. Há algum tempo ela foi abordada na rua por um rapaz elegante e não soube o que fazer quando ele se apresentou e disse que, se ela permitisse, iria lhe mandar flores e talvez alguma coisa mais. Devia ter se antecipado à empregada que duas vezes por semana fazia a faxina e visto ela própria quem estava batendo.
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Agora é tarde. Desliza pela sala com o embrulho. Vivo e móvel o azul enquadrado na janela. Faz um ano que se casou. Deixe-me te contar, disse para a amiga que não via desde os tempos da infância no interior. Então. Eu estava na rua do metrô, próxima das escadas rolantes. Um frio de rachar. Ele estava a meu lado no vagão e conforme as pessoas entravam ia se aproximando. Você o conhece, não dá para não perceber um homem assim a seu lado, não é? A amiga riu e imaginou Haimeard a seu lado. É melhor evitar a tentação e a imagem do marido de Alice se dissipou enquanto ela continuava falando. Confesso que cheguei a pensar em me matar, mas não sabia como. Não suporto dor. Haviam entrado no escritório de Alice, o quarto fresco em cuja decoração não havia fotos e o mural de cortiça servia apenas para colocar as contas, se lembrar de coisas e projetar o trabalho literário. Ainda que gostasse daquela solidão essencial dentre outras coisas para o processo criativo era agradável quando a outra vinha, porque Alice não era anti-social apenas achava que o tempo
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era muito pouco para tantas coisas a fazer que conversas via de regra sabotam os sonhos. Assim que a amiga ia para a aula de música, o escritório retornava a seu estado purgatorial de vozes inaudíveis e imagens de um azul reconhecível, peculiar, invisível exceto para ela, sinóptico em relação aos mundos em que durante as horas anteriores e as seguintes estará mergulhada em seu inexorável silêncio. Em torno do olhar acetinado na direção do monitor despido de qualquer nuvem como o céu lá fora como um habitat de anjos nem sempre serenos mas que volta e meia chegavam a brigar ou cederem a sutis sugestões mefistofélicas sobretudo com a chegada das luzes anunciando a noite e a chegada do marido. Aleksándra, a amiga, estava sinceramente em suspenso. Em seu rosto uma expressão que Alice conhecia bem a partir do espelho. Essa empatia começou a travar a narrativa. O que ela devia estar pensando? e o que pensaria se soubesse toda a verdade? A própria Alice se perguntava qual era toda a verdade. Quando passava pelos prédios e via as luzes dos
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apartamentos, meu coração se apertava. Eu precisava de um lar. Angustiava-me não ter um teto sob o qual passar a noite e paredes entre as quais pudesse me abrigar. Ele? Imagino que estivesse todo o tempo me seguindo. Pra falar a verdade, me esqueci dele. Entrei na lanhouse com o endereço da moça que veio comigo. Sentei diante do computador para saber onde ficava a casa, pelo site de mapas. Quando descobri, já não sabia se deveria mesmo ir. Se não era melhor terminar o meu poema e postá-lo e depois, você sabe, a morte é o melhor agente literário. E ele ali na biblioteca todo o tempo? Ele ali; provavelmente me viu e me seguiu. Você tem sorte, diz a amiga; é um homem bom.

As pernas estão esticadas. Os pés na cadeira da frente. Formigam. Pés queimando nos sapatos de camurça. Tentou uma ou duas vezes se manter ereto mas deslizou de novo, os olhos postos na moça duas mesas adiante. Ele é até bonitinho, pensa Vera, mas não creio que

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valha a pena investir, tem até uma barriguinha, percebi quando entrou. Por minutos, teria sido assim o primeiro contato visual com Alice. Tudo lembra Alice. Uma mancha vermelha no verniz cruza a mesa em ângulos opostos a partir de seu lado esquerdo onde apóia o cotovelo. A fome dá sinais. Uma sirene lá fora. Frases soltas interrompidas de conversas que numa biblioteca não deveriam ser audíveis. Imagine que. Depois eu vou. Então ele disse. Por minutos e por acaso. Não era de ir a bibliotecas o irmão. Mas ali. Dali ela saía quando a convidou para o café. Isso não se parece comigo. Olhou mais uma vez o rosto meigo à sua frente tão distraído em sua leitura, mas isso, sabe, é fácil aparentar. Se ela quisesse alguma coisa com ele, o que iria fazer? Nada. Não iria fazer nada. Essa passou a ser sua virtude e a sua condenação. Maravilhosa. Privar de sua intimidade. Como quem não quer. A forma como ela olha indica que aceitará. Agora é só esperar usufruindo da perspectiva erótica que se origina na admiração. Aceitou. Vamos. Tudo teria dado certo exceto pelo detalhe. E por que
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aconteceu? Desde quando quer uma vida de aventuras esquecendo-se de quem era realmente? Você me amará por toda a vida? Concordaram em muitas coisas. Não foram preliminares perdidas ainda que a atração principal tenha sido cancelada. É muito provável que exista uma virilidade não apenas fora do corpo mas que independa dele. Que se grave de forma mais contundente na feminilidade sensibilizada. A luz sobre as mesas devolvem o salão de leitura. A luz na entrada abre um universo distante a que não se quer voltar. Ali na saída. Árvores plantadas em pleno cimento. A menina da mesa do lado discute com a colega. Não, estão rindo. Se indispõem antes ambas com o crescer, com as responsabilidades chegando implacáveis. Não foi apenas um deslumbre estético. Se tivesse um amigo verdadeiro e não achasse que sobre tais coisas não se conversa, diria a ele como foi e esperaria dele a solução que não achava. Por que, amando-a com um amor puro que desconhecia, desejou-a até consumarem o apartamento e ao ter êxito desistir? Expliqueme direito como foi, diria o amigo.
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Alice caminha. Volta da biblioteca. Tem nos braços dois livros que não sabe se devolverá. Se estará viva para tanto. Sufocava ao omitir também aquilo do companheiro além da chegada que não se permitia por medo partilhar. Não foram preliminares perdidas. Cobriam-no porém não se aquecia. Existe uma outra virilidade. Tenha cuidado dele. Pulava essa parte quando falavam do dia em que se conheceram, quando Haimeard saiu após ela da biblioteca. No vaivém do guarda-volumes se esbarram. Ela sai. Entra no metrô. Ao regressar para o hotel, Aleksándra visualiza a cena. Vê como Haimeard se aproxima e procura entender se ficou a uma distância prudente ou foi mais afoito. Alice pensava então em Meereshimmel, o quanto ao abandoná-la ele a deixou desamparada no mundo. Não é que não tinha mais ninguém ou que não tivesse meios de subsistir. Não é que tinha apenas uma esperança no amor que se frustrou (o amor estava ali independente do que fosse ou fizesse e dos fatos). Tudo isso apenas revestia a morte. As chances que teve de criar, de gerar
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a vida a partir de uma situação extrema e não o fez. Sem essa dimensão de mim, que não sou eu mas de que preciso – como não sou o ar que respiro –, estou fadada a esse fim, a esse desamparo e abandono. Nunca foi brilhante em inteligência nem de longe um ser de rara bondade. Acreditava que se diferenciava pela faculdade de superação que a levava a escrever o que talvez nunca chegasse a ser mas jamais teria escrito sem que o vislumbrasse numa outra dimensão. Quando saiu da lan-house sem ter postado uma única linha, entendeu que não restara mais nada a que se apegar, que o fim era apenas a seqüência natural. Que na verdade já havia morrido como um espelho que se quebra e cujos fragmentos ainda não foram retirados do quadro.

Cada vez mais a rua é seu lar. Quando se mistura aos normais. Especialmente nos fins de dia. De fora deve parecer que faz parte deles. Nesse rio copioso que outrora a afogava em dor é momentaneamente feliz. Paira nesse

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estado fluido em que vê a vida passar sem grandes intervenções. Dor e conforto intrínsecos à idade. Amor e dinheiro. A carne do destino rejeitando um ou outro. Temor. De que a realidade invasiva atravesse a solidão que se basta. Alguém agora que preencha meu vazio me fará dependente de sua presença. As paredes que a protegem, quando protegem, evocadas. Se tornam o quadro guardando uma morta. Estátua em horrorosa mobilidade. Conversas entrecruzadas. É a moça triste no metrô. O velho andrajoso que fez da rua permanente abrigo. E os casais. A mulher pede a informação que pasma ela pode fornecer. O que estou fazendo aqui? Quem espero? Onde? Quem – sou? Os documentos não ajudam. O extrato do banco, a conta de luz, a carta de – quem? A loucura antes da morte. Seu único inexorável compromisso. Aqui. Na rua. Antes das paredes derradeiras e da nota de pé-depágina. Em junho de 2011. Próximo ao dia de seu aniversário. Apesar de toda consciência, ela. Seja feliz assim nesses últimos arrebóis em que escapa do engano que é o desejo de amar. Ter. Vencer na vida.
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Deveria ser melhor isto é menos ruim não tentar ir além do que a intuição lhe indica como limite, voltar antes que as coisas fiquem piores, tornar à paz do interior e à revolta muda contra ao provincianismo cruel das pessoas do interior e apagar aqueles dias de privação como o pesadelo com que chegou a compara-los. Fugir era um termo que não deveria ser usado e ainda que sim a causa era boa, a própria vida – se pudesse chamar aquilo de vida, uma magnitude esdrúxula de pensar pequeno à beira do regato que após a curva viraria no sentido da metrópole. Visão que lhe deu a idéia de partir e, embora fosse a mesma hora, do viaduto em que vislumbrava o trem do metrô no trecho a céu aberto não havia nada que respaldasse isso, que desse a mesma veemência da idéia da vinda. Então ela soube que era irreversível. Para bem ou para mal, não voltaria.

O quanto há nessa moça de consciência? Registra os ladrilhos. O brilho amareleja algo maior, pensante, definitivo. Sou aquela moça.

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Não há como fugir do acaso. Um dia tudo se torna realidade. Não importa o que se faça. Então imaginarei ter desejado o que simplesmente aconteceu. Vi aquelas crianças à janela e agora de minha janela vejo as crianças na rua voltando das aulas. O que mudou? Alguma coisa mudou? O registro. Consciência. Pathos nessa menina gordinha que um dia ela foi. No garoto trágico em seu sorriso, a tragédia de seu irmão. Tinha de seguir. De buscar. Tenho agora? O ser humano se acomoda a qualquer coisa. O quanto Meereshimmel a machucara – em qualquer sentido? Menina má, estava mesmo a merecer umas boas palmadas. Talvez por isso nunca mencionou. Ou Haimeard iria querer tomar satisfações ou ao contrário questionaria o comportamento dela no episódio. Nunca o vi de gravata. Nunca estive num restaurante de luxo. Nunca fui pedida. Então acho que ele merecia aquele altruísmo. Porque coisa estranha essa, com Haimeard não é mesmo prazer. De jeito nenhum. Tudo muito certinho e passível de que contasse semana que vem à mamãe. O que ela dirá, sei com certeza. Oh
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minha filha, parabéns, até que enfim. Pelo amor de Deus, mãe, vou casar, não me tornei uma santa, nem mesmo rica. Então sempre que o assunto se aproximava era o momento em que ela saía da sala ou do quarto ou precisava ir ao toalete se estivessem numa pizzaria. Nunca mencionou Meereshimmel pois quis estar ali com ele como o próprio Meereshimmel quis. Se houve simulação da parte dele, da parte dela igualmente. Mas não, de nenhum dos dois. E ambos profetizaram. Irão se encontrar de novo e será diferente, ilícito e todavia não. Não chegarão a preliminarmente conversar. Saberão que a correção não abençoa. Paz sem a complacência do propósito inocente. Não há inocência e não há o que seja respeitável e resista à perspicácia de um olhar áspero. Não tenho ídolos, ela dizia. Passei a ter? Sim e não. Ainda me basto desde que possa escrever ou até ouvir música. Filhinha, seja feliz, sejam felizes – por todo o sempre, ela pensou, claro, claro. Não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos. Que beijo insosso, como antes não percebi? Então os mares se abriram na lembrança de
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Meereshimmel. Claro, totalmente feliz para sempre. O sol pois se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se quase um dia inteiro. Portanto nem consciência, nem registro. Nem nada que mude isso: não tinha mais dezenove anos. As crises se tornaram menos freqüentes, suportáveis. E nunca esteve tão próxima da estabilidade financeira sem ter se tornado venerável. No futuro poderão dizer que não foi um beijo forçado. O que é necessário para uma jovem mudar não está ligado a sexo ou dinheiro. Quem tanto segregada do degredo forja sutilezas quando oprimida e aprende a ter a vontade executada por meios outros que não ordens.

Ele conhece de algum outro lugar esse guarda com a mão numa arma inexistente. Move os dedos de puro nervosismo. Não se lembrará que uma vez o viu com Sonja quando chegava, mal as portas da biblioteca foram abertas. O homem se recorda dele vagamente, na verdade evocando o irmão. Meereshimmel, cansado dos erros repetidos, estava disposto a

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abandonar tudo embora não soubesse para onde mudar a guerra de que era o campo de batalha. Se havia alguma chance de armistício. Alice o escuta abrir a porta e entrar e seus passos crescendo. A meu lado. Pensa. Está a meu lado. Sem qualquer dúvida. Essa era a nova cena, a definitiva cena que em sua vida seria como quem coloca os sapatos para sair. Irritara-se – até um limite que infelizmente em seus nervos estavam se tornando comuns – ou temera. Refreou a mão. – Como assim, chantagem? – a colega pergunta à atendente do guarda-volumes. Se havia uma pessoa na cidade que poderia saber tudo acerca de como as coisas aconteceram, era a atendente.

O que será este presente? Colocou a caixa sobre a cama e desceu. As escadas. A rua. Para onde? Para Alice, a saída do prédio desde o primeiro dia era como a luz perfeita. A passagem de um para outro mundo. Meereshimmel cumula a esposa de preliminares, de galanteios. Todo o corpo de uma mulher os recebe. Todo o corpo precisará

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de satisfação correspondente. O amor como exultação erógena. Mas ele não consegue mais cumprir o que promete nessas entrelinhas. Tem andado disperso e distante. Entre os dois mundos a luz aponta para um terceiro, provavelmente o único. Do amor sem relações humanas. O mundo do amor sem objeto. Da perfeição intocada. Escrita que não visa publicação. De noite em minha cama, busquei. Por conter em si mesma a espreita cristalizada do que não é perfeito. Busquei-o e não o achei. A natureza fala dentro dela parte de um universo em que o homem ocupa um espaço ainda essencial mas cada vez mais adstrito. Os caminhos desconhecidos desconhecidos permanecem embora já existam destinos.

Não me pergunte sobre o que é certo. Tudo o que diz respeito ao que é certo me deixa sem capacidade de emitir qualquer juízo. Acredito que as opiniões categóricas são confissões e por talvez temer ao que de mim revelem as evito. Quero acreditar que existe algo em nós que foge a esse

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jugo sobretudo quando se liga à criação artística. Uma determinação independente do próprio autor e que em nada a ele se ligue, antes ganha vida própria no decorrer por exemplo da elaboração de um livro. Creio que isso me exime de culpa se eu fracassar num texto e me proíbe a glória se tiver sucesso. Cresce ao longo dessa visão de mundo uma justiça subjetiva que se choca contra regras demasiado claras. Não conheço, Beatrice, nada do mundo e não faço a menor idéia do que seja a verdade. Mal e mal me conheço. Se há em mim um pouco de todos ou de alguns, pode ser que se descobrir alguma coisa há de ser útil e a escrita baseada nesse conhecimento não seja de todo vã. O quanto somos diferentes significa o quanto somos melhores ou piores? Sugerir em vez de explicitar nem devia ser uma escolha. Então não sou a princípio culpado ou inocente. Mas o que senti por você foi totalmente verdadeiro. O que não facilita em nada a minha vida.

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Por favor, não se preocupe caso não haja mensagens em sua caixa de entrada com a mesma freqüência de antes. São as provas de fim de ano. Gostaria que houvesse outra forma de a gente se comunicar. Estou cismado com o ambiente na escola. Você não sente que as pessoas murmuram sobre nós?

Os irmãos conversam no bar e até do tal homem que um dia apareceu no hall eles falaram. Da transitoriedade das coisas. E a gráfica, como vai? Meereshimmel não poderia dizer que ia bem. Que o prendia à imobilidade que detestava e o tirara das ondas e dos brous. Ainda assim tenta. Vai bem. Tudo bem, graças a Deus. Talvez se convença. Ou não. Vontade de ser totalmente franco. É seu irmão afinal e sempre deu valor às relações consangüíneas. Ainda dava? Não podiam é claro deixar de lado o assunto que os juntou ali, a mãe, o Alzheimer. O vidro da janela. Haimeard em tom sobre tom. Estou ficando calvo. Como? Diga o que sabe a

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respeito de Sonja. Tenho escutado coisas. Seja franco. Vamos, pode me dizer. Do que está falando? Haimeard desliga o telefone. Ele tira o óculos e aperta o cenho franzido. Para mim está sobrando apenas consumar o que meu irmão – Tudo bem... Ela vira um fogo. Diz à secretária que desmarque o cliente das 14 horas. A foto de Alice o observa, inócua. Nada mesmo, não sei nada exceto que jamais vi amor tão grande como o dela. O de Alice não era assim (se é que existe amor em Alice exceto o do conforto). Ela procurava trabalho como as meninas esforçadas que não se contentam com a educação formal que se estende sem fim sob às asas dos pais. Como pôde ser tão cruel ao se aproveitar da situação? Ele a beijou contra a parede do corredor e semelhante beijo não podia supor tamanho fracasso. Está bem: Deixemos disso e falemos de mamãe. Mal assim? A esse ponto? Haimeard sequer ouvira a pergunta anterior à interdição, melhor assim. Diga-me, meu irmão, não acha que a doença já vai num

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estágio avançado? Preciso estar com ela. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade. A dor é um elo mais forte que o amor, mais forte que a morte. Dizer no leito de traspasse o quanto ela significou. Um gesto derradeiro de afeição. Quanto alguém impulsivo como ele, rude, que derrubava altares para si construídos, o quanto precisava de um momento assim. Não preciso. Aceite. Realmente não preciso. Por favor aceite. Não obrigado. Meereshimmel pelo amor de Deus, sei que as coisas estão difíceis. Como sabe? Ora, estão para todo mundo. Você não se inclui em “todo mundo”? eu tenho um salário alto, bônus, etc. – não dependo das economias do mundo. Você sabia o quanto uma simples rede social pode fazer seu fundador lucrar? Por isso Meereshimmel não entra mais em nenhuma. Toque sua vida, irmão, vou me virando, é sério. É tudo uma questão de perspectivas. O comércio está fechando. Crianças, entrem! Os bares abrindo. Movimentação também no hotel. A voz de Alice soa ainda como depois que fizeram amor e como quando ainda não haviam feito amor mas prestes. Ela sorriu. Minha mãe queria me
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dar um nome acho que persa, que significa “voz suave”. Ela estava mentindo, pensou ele, mas não disse. Como podia ser tão terna uma mentira. Meu irmão? Outro café? Um tempinho mais para pensar em Alice e seus dilemas de fidelidade enquanto escurece.

Tinha consigo um romance que comprara, o primeiro volume de uma trilogia que era fenômeno de vendas, e nem assim conseguia ficar mais de quinze minutos quieto sentado numa poltrona, por confortável que fosse, lendo. É evidente que ela é mais sensível que eu. É verdadeiramente ligada às artes, sobretudo à literatura, não a usa para espairecer ou reforçar conhecimento didático. Quando estava lendo, ela permanecia como que cercada por uma outra vida. Que era a dela e não ela e de algum modo a prática das teorias do pai deles. E até na cama antes do amor ela visitava esse outro mundo e era isso que o irritava e o deixava com os mais esdrúxulos ciúmes enquanto as lembranças se avivavam trazendo o primeiro dia e toda aquela

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estratégia que usou para leva-la para casa e lá a massagem como preliminar inelutável e para quê? apenas obedecia a um subterrâneo e sutil chamado da espécie?

A véspera dos feriados das grandes cidades as deixa vazias e isso deprime Alice que não quer nada mais com lazer. Lazer é o trabalho. Qualquer trabalho. Qualquer tipo de atividade em que o prazer carnal esteja excluído. No bar olhando através da janela Haimeard pensa que ela não o ama. É a razão de sua indiferença. Mas ela o ama pelo menos o tanto que pode amar. Passou sim a ter repulsa ao sexo. Preciso mais que tudo esquecer, pensou ela levando as mãos ao rosto. Quando ficava assim, às vezes Haimeard tomava suas mãos e as beijava em lágrimas. Tantas que em algum momento não mais a comovia. Era tão linda, tão linda... A suéter aperta seus seios. Soube assim que a provou mas detestava ficar muito tempo nas lojas de roupas. Tornou a ver a luz pela janela e chegou mais perto da réstia de sol. As ruas. Aonde vão todos senão para as estradas onde

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trocarão as tensões do dia-a-dia pelos congestionamentos? Passou os dedos na lã e lembrou que ao comprar pensara que por ser tão barata laceasse . Estavam ela e o marido perdidos em seus mundos que se recusavam a ser um só por categóricas que fossem suas vontades.

Como ele poderá imaginar que a mulher na ausência de amor se dedicará mais à casa e a ele próprio não com um imaginável desagrado mas antes vigorosa e irrepreensível afastando qualquer pensamento impuro que pudesse comprometer sua fidelidade e fazendo determinados seus passos pelo assoalho luzidio ainda que ela se disperse entre as atividades, entre uma notícia no rádio e a luz enviesada que torna um espelho a frente do baú ao longo do corredor e o cheiro dos legumes que começam a ficar cozidos no balanço das ancas tão desejadas outrora e agora com a serventia única de acompanhar seu caminhar de um a outro trabalho doméstico para se aquietar enfim lá pelas três

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da tarde na cadeira giratória do escritório em frente ao computador e ao celular e às caixas de analgésicos diante do monitor, respirando fundo ao lembrar do tempo livre que teria uma vez que o marido fora convocado para uma reunião na cidade em que se será realizada a feira de informática deste ano. Essa consciência quase faz com que ela esqueça que é véspera de um feriado e ali mesmo em meio às frases que digita começa a pensar no que poderá fazer de mais gostoso para que Haimeard coma antes da viagem. Tenho que ir agora, meu irmão. Foi bom te rever. Ele sai do bar sem convicção de que deve ir direto para casa.

Misturada à multidão insiste em pensar que juntando-se às pessoas poderia sentir como elas e que isso talvez servisse a seu poema. Ali está em plena estação em meio a todo tipo de viajantes todos saindo para o litoral ou estações de águas. Sua nova amiga, a máquina fotográfica, a pleno vapor. Clic clic clic. Ainda fazia clic como as antigas, pelo

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menos isso. Estava cansada do mundo digital do qual não tinha forças de fugir. No visor o homem invertido, braços abertos para um último abraço na namorada suspensa no meio das perspectivas do destino. Invertido no vidro com o horário de saída do ônibus atrás aéreo entre lágrimas que julgava por ele. Que ingênuo, pensa Alice. Ou um santo. Por ter sofrido tanto na vida não tinha agora o direito de fazer Haimeard sofrer, pensava Alice enquanto as pessoas esbarravam, indo e vindo e passando na direção transversa. Por ter tanto sofrido aprendera a empatia dolorosa e o consolo da disponibilidade. Admite que sofreu menos do que fizera por onde. Desculpe. É que esbarraram numa moça no meio de todos os caminhos. Quero dizer – meu Deus! Que garota esquisita! Que tipo de fotos tira? Que retratos produz do mundo em que tanto se sofre? Quem é Alice? Como ela é? – pergunta Meereshimmel pisando em ovos. Sabendo que isso não é coisa que se pergunte a uma esposa ainda mais num momento desses. Alice passa a flanela na mesa e a cada aparição liberada sua imagem se torna
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mais nítida. É a jovem esposa a quem Haimeard pensa que ama sem ser correspondido. Por que simplesmente não consegue relaxar e deixar fluir pelo corpo esse desejo de viver que será chamado de amor (a que o verdadeiro amor sobrevive)? O entorno do bar está tranqüilo e tranqüilo permaneceu apesar da aproximação e da passagem da hora do rush. Era tarde e talvez pela primeira vez em seu casamento Haimeard teve essa consciência da hora. Mais de nove. Faz pouco isso era apenas o nascimento da noite dentro dele num arrebol interior como se pulsassem dentro dele indícios de trevas que faziam o limite entre anseios da vida e seus espectros.

Um homem grisalho caminha pelas redondezas. Digamos que tem uns quarenta e poucos mas pode ser mais. Porque em alguns a idade como que se interrompe e ou morrem jovens ou têm a decadência fulminante de que nem o espelho nem o parente próximo darão qualquer alerta. Esse tipo de homem. Desencantado do amor. Desejoso dum último

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projeto que faça enfim sentido. À procura como quem olha letreiros na rua. O que busca? Decerto mais que um barbeiro. É um salão amplo, envidraçado. Através do qual, dessa parede vítrea, verá Alice. Um carrinho de bebê. Depois a mãe ansiosa. A seguir o som do carro de polícia (não mais longo que a inspiração após a falta de ar). E após a mancha azul de um passante apressado – os braços luzidios balançando quase abertos, asas. E o rosto incrivelmente intenso interrompendo a idade. Ao descer do coletivo municipal tentava pensar o quanto era necessário que a encontrasse e fizesse o convite e olhando os tijolos aparentes quase de todo ocultos por umas florezinhas brancas cujo mato alto em redor tornava ainda mais exuberantes àquele sol baixo e frio tomou coragem e encaminhou essa energia para a espera. Tinha isso com ele, a diferença imensa entre a paciência da espera determinada e o engano do mero contemporizar. Decidiu pernoitar num hotel e ir até ela de manhã após concluir que precisava mesmo cortar o cabelo e assim poderia refletir um pouco mais nas coisas essenciais e gozar
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enfim a paz do dever cumprido. Tardou pouco para vinda da esquina da casa de telhado quase oriental e tijolos aparentes e de um breve espreguiçar ao alcance dourado daquele raio, apertando os olhos e alongando os músculos do braço muito branco e comprimir os dedos dos pés, ela passar diante de uma persiana entreaberta por dedos curiosos, sem imaginar estar sendo observada. Como que apartada desse instinto sempiterno das mulheres.

Alice fez esse favor a Haimeard. Despertar nele amor por alguém que não fosse sua mãe. Acho que ela está realmente mal, diz Meereshimmel. Acho que é mesmo caso de internação (o irmão escuta “interdição”). E ele sofria enfim. Não só pela mãe que tanto sofria por ele. Mas por uma moça não consangüínea que lhe tinha tão discreta estima. Houve tempo em que os homens não ligavam para isso. Clic. Era-lhes indiferente o tamanho da afeição ou sequer se afeição havia – cliclic. Nasce outra pessoa? Alguém com os anseios da multidão,

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compassiva com os homens que pretendia amar? Amor: dá para entender com algum esforço e muito desprendimento. Isso se revelaria se fosse uma máquina antiga. Mas ainda que vá ver logo, daqui a minutos no computador, não deixará de ser uma revelação. Esteve quase o dia toda na estação entre partidas e despedidas enquanto ônibus após ônibus encostavam na plataformas após a complicada manobra de contorno das pilastras, muros e outros ônibus já estacionados sob os gemidos das portas e dos motores enquanto a noite azul desce do céu anunciando as estrelas e Alice pensava em sua casa e em sua infância. O tanto que crescer significa tornar distante um ponto ideal ao mesmo tempo em que se distanciar na idade adulta pode não significar rigorosamente nada, pode ser a distância percorrida num mesmo lugar, o que era no fundo o caso de Haimeard. Embora pensando em Alice e em como ela o mudara estar todavia indo se encontrar com a menina na cidade vizinha.

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Se a vida, a dor e a loucura deixarem com ele terminará em paz, realizada. Sem mais culpa. Ansiosa pela noite para agradar seu homem e pelo dia para a posteridade e pelos intervalos para lavar, varrer, arrumar, passar. Que o trabalho doméstico em si mesmo dignifica. Talvez porque dê, só ele, esse sentido do fazer sem recompensa, do fazer como a própria recompensa. Como a literatura devia. Do jeito que a virtude devia ser sua própria recompensa e o vício seu próprio castigo. Trabalhar. Projeto na origem de qualquer nascimento. Água e água. Enfim assim sente Alice, não mais óleo. Apenas sinta e se misture ao mundo. Água e água – o eco ecoa dentro dela na estação aos poucos ficando vazia, no caminho de volta para casa – não a sua de infância porque sequer ela era a mesma pessoa, a casa em que nascera diferia de algo seu na mesma proporção que ela própria já não era aquela. Aquelas ruas e casas passeavam na memória como um filme. Exteriores a ela caminhando pela praça agora entre os carros as pessoas estiradas no vagão do metrô. Como uma criança volta pra casa após a escola e
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sente que nem uma nem outra é o seu lugar. Onde então? Os coadjuvantes estão em casa e os passageiros no ônibus. Tudo o que Alice ouviu e o que não. No ar. A estação esvaziada a faz pensar quanto prefere estreitezas. No apartamento acima do bar as crianças já dormem e sonham com as propagandas mais eficientes para roubar seus sonhos em favor dos sonhos do público-alvo. O extraordinário é que para um desses meninos tudo parece por demais gratuito. Disse ao pai que ele devia vender a TV. Gratuito? Depois que Meereshimmel saiu, o dono do bar pediu por favor que batesse a porta com força ao irmão que a fechava com demasiada delicadeza.

Alice pretende ao chegar em casa escrever a partir das fotos. O que um homem de seus quarenta ou cinquenta anos vê quando a vê passar pela barbearia? Imagina o quadro perfeito (porque é um pintor). Um quadro. Um livro. O impasse. A fidelidade. O que ela disse ao primeiro e com menos ênfase a Haimeard e

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jamais dirá ao homem que pinta nas horas vagas. De olhos fechados, as mãos no rosto, dedos finos, unhas discretamente tratadas, apertando os cantos dos olhos, ela nada vê de olhos abertos, a língua antes em seu ouvido agora lutando contra sua própria língua disposta, as unhas discretamente tratadas praticamente cravadas nos cabelos espessos enquanto rápido ele despe a camisa por trás ficando alguns segundos à mercê dela que morde então a boca do prisioneiro agora ocupado com a blusinha branca de decote em V e logo com a fivela do cinto em L, alcançando-a embaixo e libertando em cima – nem lembra em que momento chegaram a se deitar ali no chão mesmo entre as canetas que caíram do copo, a mão dele sem se dar ao trabalho de retirar a última peça de roupa antes alargando o elástico a fim de entrar e continuar em direção à umidade que como ondas de uma maré que enche modificam a textura da areia e torna possível uma pegada onde antes seria não mais que um vão espalhamento. Agora a mesma língua não parece lógica por onde insinua o que expressa e todavia se faz entender e após
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ela novamente o dedo no desfiladeiro enquanto os dedos dela se agarravam à estante e a alça lembrava um arreio no braço muito branco no momento em que seus olhos param por fim num nada extraordinário produzido pela sensação entre suas coxas apoiadas nos joelhos que nem pareciam estar doendo. Ela balança a cabeça e os dedos finos buscam a caneta que permanece quieta no copo. Chegara e, fantasiando um Meereshimmel que não conheceu, levara o pensamento do homem que deixara a cadeira de barbeiro. A letra redonda perante a primeira foto. A janela sob o luminoso. A varanda num céu cujas estrelas são de impensáveis matizes. O vulto verde agora violáceo de Alice. Não, não voltarei para casa agora, pensa Haimeard. Se tivesse a teria encontrado qual um alaranjado totem. Se eu fosse um pintor, pensou o vizinho ao lado, teria aí o elemento acabado para um quadro perfeito. Não sabia que alguém na janela em frente olhava agora esse objeto vivo e indefeso. O som de sua voz a transtornará. Pensará ela em homens maduros como o seu primeiro deveria ter sido. Não imagina como a
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descobriu nem interessa por que deseja que pose para ele. Não, infelizmente não posso, disse, pensando em como o faria. Chegara seu momento. Dois seres unidos por derradeiros projetos. Como se aproximará dele sem despertar o ciúme de Haimeard? Não se aproximará. Já está próxima. Ligada. Trata-se de administrar o fato consumado. Ela entra. Quase negra. Fecha as cortinas. Negra. Um interstício entre as metades. Azulada pelo monitor. No escuro passa as fotos no notebook. A determinação inspirará seu coração caso do trabalho não se afaste. Nasceu muito tarde. Cresceu com os que apostam na felicidade. Partilhou o deleite dos sentidos pelas mesmas redes e conexões. Uma fase, pensou. Uma passagem. Está convicta que um vívido fragmento justifica uma existência inócua. Bem depois Haimeard entra. De novo a taquicardia, a falta de ar, suor frio, dor no estômago. Não é nada e de nada valerá se queixar com ela. Não pode tomar o comprimido que lhe dará segurança. Seria a morte perfeita. Riu, negro. Quando faltou energia por alguns

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minutos, os dois estiveram frente a frente iluminados apenas pela luz da lua. Escuridão sobre a silhueta ainda polida. Um fragmento de rosto momentos depois. Um nariz acostumado a estranhos elogios (você fez plástica?). Os passos acima dos demais sons. Os passos amados. Está triste ou cansado. Ela pode ouvir. Os vizinhos que costumam ver tudo dessa vez não o viram entrar e por isso o silêncio é ainda maior naquela camada sobreposta do outro silêncio, a dos sons longínquos. Oi, amor. Por que logo hoje resolve me chamar de amor? logo agora, que está inclinada quase decidida, decidida, a se encontrar com o pintor. Como foi com teu irmão? Como poderia ter sido? como se ela não soubesse. A que horas Na mesma em que eu estiver indo ver esse homem você vai? Como poderia ter sido se no dia seguinte ao procurar o pintor que lhe dera o endereço após algum tempo tomando coragem, o homem de seus quarenta ou cinqüenta anos não tivesse morrido naquela mesma manhã?

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Não sei como lidar com isso. Apesar de amar o marido ter esses rasgos de conhecer outros homens como quem gosta de casa mas não resiste a um convite para viajar. Para ele ou se amava a casa ou não o bastante ao aceitar. Discordava calada. Mas agora esse elemento novo. Conhecer outros como ela. Outros como ele, Haimeard, não era. Assim próximas essas árvores formam alguma coisa tão familiar a ponto de inquietar. Tudo muito silencioso. Esse desespero. Ninguém poderia dizer. Uma enxaqueca enlouquecedora para quem a sofre e impossível de ser notada por outra pessoa. Comprometimento com um projeto artístico visto como vadiagem. Não gostar de festas confundido como insociabilidade. Total desapego de parentes avaliado como falta de sentimento familiar.

Calor. Sempre nesses momentos. Suava. Haviam feito amor louca e ternamente. Se a verdade é uma mulher pode mudar, estou mudando. Olhe. Uma jóia perdida na selva inexpugnável. Mas Haimeard não a

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acompanhava. Estava na bagagem quando da queda do vôo. Deixou a pérola fulgente e furiosa para que ele encontrasse. Essa expectativa foi a substância de que o desengano se alimentou. Reabriu o diretório com as fotos da estação. Tinham muito a lhe dizer. Vontade de morrer, como a minha? Só de vê-la, de olhar para Alice, mentalizou ele seu projeto – pintar a estranha, ela, num derradeiro e perfeito quadro. Pintar assim de memória – com sabe Deus que materiais (ela encontrará um esboço no apartamento dele). Morrer não havia sido para o homem a plenitude da vida? Terá encontrado o que ela abandonou em vão para que Haimeard descobrisse? Porque Haimeard imagina as coisas que pensa da própria cabeça como se fossem um fato. Onde está o zelador do prédio? Ela agradece mais esse favor. Ter conseguido, além do desenho, a última carta, destinada ao próprio zelador.

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Querida Beatrice, acredito que você seja a única que possa me compreender. Não sou um homem simples, você é apenas uma menina e me entende. Você caminha destemida nessa estranha senda diária que é de uma distância abissal mesmo na proximidade física entre nós. Ou estarei me enganando ao supor que as coisas são mais profundas do que realmente são? Não pretendo senão fazer com que vingue esse mundo que depois de você conheci, do qual posso enfim falar como uma coisa pessoal e devolver às pessoas como um bem coletivo. Daí ter imaginado que sua compreensão, aliada ao vigor de tua idade, poderia contemplar de modo mais decisivo a realidade, de modo a apontar por meio de uma obra de arte caminhos essenciais. Porque você escreveria sobre isso não só com a mente mas com o corpo. Com tinta e sangue. Não me sinto capaz para tanto. Mas talvez minha experiência te seja de alguma valia. Talvez queira escapar da vida panorâmica e veja em você esse
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cerne. Uma salvação das coisas em que teimo em acreditar . Talvez a gente possa falar a respeito após as aulas de sexta-feira, no café. Você pode? Gostaria?

Sonja mantém o olhar. Está sonolenta. Anda assim. Detesta essa sensação de ter tanto a fazer mas a consciência de que nada fará direito por causa do sono. Tem idéias claras sobre tudo o que – longe de a deixar tranqüila – a angustia. Olha para as mãos ainda ásperas. Pássaro de estranho canto ante as janelas abertas. Retângulo de luz que não ilumina. Quando Meereshimmel entrou em casa, foi com um carinho esquecido que dele se aproximou e sorriu. Talvez estivesse ao lado de um moribundo que caminhava normalmente sem saber que estava à morte ou acreditava ainda num milagre. Demora-se ante as paredes cheia de quadros e pôsteres. Vasos e toda a tranqueira que em tese deveria encher a casa. Dar a cara de um lar de que a dona-decasa sente falta. Prazer. A mulher é

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competente nisso de cuidar de uma casa. O que eu nunca fui. Ou pelo menos não depois de certo dia. Agora terá mais tempo livre para redescobrir o marido. Não redescobrir o príncipe. Meereshimmel jamais será um. Mas olhe que leva jeito. Não por outro aspecto além do físico. Falando em corpo: que vigor para as coisas práticas! para o cotidiano estafante da empresa. Fornecedores, clientes e com quem mais é preciso lidar. Outro tipo de príncipe. Alice geme como a árvore ao vento ao se lembrar. Jamais imaginaria, após beijo tão profundo, tapa tão grotesco. Ficaria com o príncipe. Um outro tipo de príncipe. O homem das coisas práticas que quase conheceu. Mas era pensamento fugidio, sem porquê. O de Sonja ao contrário, obsessivo. Fechou a porta atrás de si. Deixou para trás os cachorros, os encanamentos, as fofocas, a garagem, o play, os filhos e as mães – não cansam de tanto e tanto se amarem? de tanta excelência? Quando bateu por fim à porta do prédio estava livre. Não de todo ainda. Dá uma última olhada na fachada e torna a se perguntar se o apartamento valia o aluguel que pagavam.
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Concluiu que sim considerando a localização e o comércio. E seguiu na direção do metrô. Sente que não está segura de nada em contraste com as certezas mornas feitas de retórica dos que dominam com fantasias o terror de existir. Acabou de amanhecer e a cidade limpa pela chuva noturna guarda o cheiro de asfalto molhado. Agora que tem uma empregada, que pode se dar a esse luxo sem culpa, sairá pela cidade que o sol após secar passa a inflamar e esse vapor é invisível mas seu resultado evidente. Lágrimas nas janelas mais serenas que a paz dos mortos.

Era ou não uma menina ainda? Não parecia. Ao contrário parecia estar no controle, toda curvas, luzes e eternidade. Que canseira partilhar a opinião sensata; se ater a uma visão de vida que é a de todos. Agora que ela praticamente o chamou para a casa dela – que tipo de casa poderia ser, a dos pais, um quarto de albergue? – Haimeard se desprende de si mesmo. Um exílio de si mesmo. Deu-se a

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permissão de ir e não se sentiu culpado ainda que a menos de duas horas estivesse pensando em como passar um tempo maior do final de semana com Alice. – Amor, já estou aqui. Você vai demorar?. – Ah querida olhe só que chato, apareceu um problema. Que coisa horrivelmente banal! Ainda assim não era como o pai. Não! Na verdade era esse o maior pecado de seu desvio, compreenderia um pouco antes de morrer. Não uma culpa sobre a qual haveria mil argumentos contra e a favor mas repetir de forma tão anódina o mundo e os juízos que contra o mundo fazia – não era exatamente o que no começo o seduziu ao estar com ela: estar numa trilha diferente da brutalmente batida? Impressiona a naturalidade da menina diante da situação. Ele registrou a névoa gelada como se contivesse presságios. Sou livre porque minha consciência não me acusa. Quem perderá se eu for adiante? Podia ser até que alguém ganhasse. Ela parece feliz do alto de seus – talvez quinze, dezesseis anos? Quem
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mais no mundo sorria assim para ele ou mesmo dele? Não é caso de se preocupar se o mal está nos outros. Mas há a lei. Se sou inocente perante minha consciência mas não perante a lei, ainda sou inocente? Perante a menina, também inocente assim como ela própria? Uma eternidade entre eles. A porta ultrapassada. Branca. Anunciava terem chegado. Branca, limpa – recém-pintada. Concede-lhe conforto a estranha familiaridade com o que há e ali está: a água que quis beber, o ar à janela, o abajur que acendeu – tudo onde ele sabia que estaria. Até o par de sapatilhas de balés evocavam o mais natural dos mundos. Decerto mais pródigo do que o quarto com Alice. Um quarto sem mácula. Não sem culpa. De quê? Ele não sabe, apenas sente. Mais que culpa há frustração. Quando voltava para casa sentiu a taquicardia forte acompanhada de falta de ar e vertigem. Tentou se lembrar se precisou do comprimido com a menina e se lembrou que não. Tudo correu muito naturalmente quase como uma brincadeira que ela não queria terminar. Mas ele precisava. Tenho de ir. Ah, ela

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entende. E abriu um sorriso imperceptivelmente piedoso.

O homem é digno de pena. Ela lembra a capoeira em torno do cedro-rosa e se deixa ouvir antigos desejos de menina, tocar, envolver, sentir o calor da seiva que enrijece e avermelha os olhos, um animal alucinado atacando. Pensa se fantasiaria assim se tivesse um irmão mais velho, se fosse temporã. Mas era única e na verdade gostava de ser. Quase sempre gostava. Só precisava estar preparada porque a vida se dá não entre os animais enlouquecidos mas na transformação deles em homens de bem. E estes são por demais perigosos. Não convinha passar dos limites e acreditar que tinha as rédeas até porque amanhã seus dezessete anos terão se transformado em trinta, quarenta, e a carne despenhar-se-á e a fila andará com essas que nem nasceram fazendo o papel que ela hoje faz.

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Voltando para casa, o pensamento de estar uma segunda vez com a menina – um pensamento do qual o homem mais velho deveria fugir como o diabo da cruz – fará com que se enleve e imagine-os ao ar livre lá em cima na colina por exemplo entre grandes pedras e pequenos arbustos guiando os pés jovens pela encosta verde e a cada passo o mar distanciando-se lá em baixo e o som do mar – porquanto outros sons já não havia – longe longe longe cada vez na atmosfera de um outro planeta. Por que mentiria? Não era pateticamente apaixonado e absolutamente franco? E Alice fazia algum esforço para ser merecedora de tanto amor? Ele não apareceu hoje de novo. Estará com algum problema que não quer contar? Não quer que eu me preocupe. Deve ser isso. É bem capaz que seja isso. Ele é assim tão diferente de Meereshimmel que só pensa em si mesmo. O pensamento quase confortou Alice da nova ausência do marido sem um aviso que justificasse possuir um celular – pensando bem, quem no mundo de hoje usa o celular de um modo que justifique tanta tecnologia?
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Estava morrendo. Meereshimmel assustouse ao perceber que a velha taquicardia do irmão havia tomado derradeiros caminhos. Ele próprio não percebia? E se não, como lhe dizer? Se consolará com a idéia de que sempre teve isso desde pequeno e que, ora Hai, você também tem e pronto, assunto encerrado, mas o que será da esposa caso aconteça o pior? a idade já conta contra agora. E a inexperiência. E não falar inglês. Tudo isso ele próprio sentiu na pele de um patrão mas o que ele podia fazer sem causar uma grande confusão ainda maior do que a que as coincidências armaram? Ele se permitira abandona-la à própria sorte, que história é essa agora? Via Alice impulsionando a roda da máquina de costura com a mão esquerda que agora cerrada dá pequenos socos laterais à altura de seu próprio pescoço enrijecido e doído pelas horas em que está trabalhando em fronhas coloridas enquanto espera o marido que poderia ser ele, Meereshimmel, se não tivesse levado adiante o

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compromisso com Sonja, um erro, agora sabe, mas as coisas não funcionam assim, não dá pra se manipular o destino. Se de fato o irmão adoecer, o que restará para Alice senão algo como isso, um trabalho de costureira noite adentro e finais de semanas incluídos. Ali está alongando o pescoço para um e outro lado, encostando-o num e noutro ombro, pegando repetidas vezes o celular para ver se não deixou escapar a mensagem de algum cliente, sozinha, e mais sozinha porque Haimeard não só será ausente como é mas nunca mais ali estará para sequer ser alguma coisa. Caixa postal. Um suspiro. Levanta-se. Um banho. O pijama. A noite deixada lá fora. Voltas pela casa. A janela de novo aberta com o sabiá. Pode ter acontecido alguma coisa. Alice cada vez acredita menos nessa hipótese.

O nevoeiro naquela região da cidade é nuvem um pouco mais alta do que na rodovia onde quase cem carros colidiram causando tamanho engavetamento no mesmo dia em que os importados estão mais caros para proteger

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a produção nacional. Já a fábrica do japonês de Meereshimmel funcionando meio-expediente após os estragos do tsunami era fonte de preocupações por conta da reposição de peças. Ia ele assim. Atento ao GPS. O rádio ligado. O braço pendente na porta. Procurando a rua onde diziam talvez encontrasse aquele componente. Tenta um trajeto alternativo quando a vê. Após ter me envolvido de alguma forma na morte daquele bom homem, é tudo o que não preciso agora, encontrar esse cafajeste. Toda alegre e saltitante. Ali. Deixa esse gordo passar. Não é aquela moça ali? como se chama mesmo? – Alice?

Uma música na loja que acaba de abrir. Uma atendente acompanhando canta. O nevoeiro se dissipa. A jovem deixa de cantar e pergunta se pode ajudar. Pode. Nisso exatamente. Em falar com Alice de costas para Meereshimmel. Mas o carro japonês parou. Oh não. Por que estava assim agitada? O pior havia passado. Como assim, passado? A morte estava dentro dela, caminho irreversível. O

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mesmíssimo do dia em que atordoada pela noite fria foi abordada por Haimeard. E o que a agitava então não era o abandono? Um beijo. Sequer resquícios de um tapa na memória. A perspectiva de que o poema seria o último.

Homens passam. Mulheres passam? Pelo vidro a estrada beira a vida. Para ele o andamento é outro. Direto, duro, inquietante. Conhece-a até melhor de costas. Conhece-a melhor do que há um minuto atrás não imaginaria. O abismo em que mergulhou num silêncio sem vestígios. Quando voltou a si ela já não estava ali. A mão direita abriu-se sobre o banco do carona ao longo do percurso eterno do Centro Cultural até o apartamento. A maciez o surpreende. Abatido pela culpa. Ultrajante. Sonja não merecia. Com as mãos sobre o volante morreu em seus pecados e renasceu no beijo etéreo agora que Alice não estava mais e decidira viver – se era preciso –para a esposa. Não se tratava apenas de fidelidade mas do som do vento e dos pés na terra. Das estações, dos hálitos e das pombas. Do silêncio abissal

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da morte. De um beijo. Duas dimensões. Numa ama e noutra vive. Querer que coincidam parece ser a grande utopia da humanidade.

Chegou em casa após o marido. Não o vê e caminha a passos rápidos. Entra no banheiro e fecha a porta. Ele é um homem leal. O pai que não tive. O patrão (bons tempos). O amigo. O marido. Nem podia alegar solidão uma vez que nos últimos tempos ele se esmera em estar presente e disponível. Sabe o quanto com os problemas da gráfica não deve ser fácil. Imagina na verdade pois deixou há muito de se inteirar da coisas da empresa. Em outras palavras – – Sonja? Tudo bem. No olhar da mulher no espelho a luz da lâmpada inunda a lágrima.

Dá por si chorando miudinho. Orvalho numa era abandonada. Há um fragmento tangível de tempo entre o flash de sua última lembrança e o novo chamado do marido. Entreabre a porta após misturar as lágrimas
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com a água da torneira em meio a memória e presente. Meereshimmel está engordando um pouco. Parece ter mais de quarenta. É a gráfica. Enquanto trabalha, engorda e envelhece – Estou bem, diz o sorriso molhado. Ele pergunta se ela quer que ele faça algo para comerem. É demais. Por que está fazendo isso com ela? Não chore. Ele não disse isso. Esses fios brancos lhe dão muito charme. Quando ele se afastou para a cozinha, ela bateu a porta de leve. Abaixou a cabeça, respirou fundo e pensou quando e como isso aconteceu. Por que deveria acontecer? aonde ela pretendia chegar e – Sonja disse a si mesma que talvez tivesse sentido atração pelo irmão mais novo mesmo antes de conhecer Meereshimmel. Se foi ou não assim, qual a relevância disso? Ela está cansada, pensou ele. O trabalho doméstico exercia sobre a mulher um poder terapêutico. Por que abriu mão dele? Isso de trabalhar fora de procurar emprego, de empregada, tudo isso vai acabar com ela. Um pensamento típico que se desenvolve do êxtase ao arrependimento sem escalas.

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Não, não é bobagem pensar como você pensa, que a arte só se legitime a partir da dúvida, que irá gerar possibilidades e interpretações. Acrescentaria que a própria beleza para subsistir deve se afastar do dogma. Ainda assim, uma experiência criadora costuma esbarrar nessa falta de sentido das coisas. Para que escrever? Para quem? Salva-nos do total desespero perante a questão a aparente falta de sentido da própria vida e todos nos esforçamos para viver e encontrar alguma coisa em que trabalhar e no que se ocupar com o objetivo de subsistir. Se uma flor sobrevive apenas um dia e ostenta ainda assim sua pequena majestade a quem quer que passe no caminho, seríamos mais dignos de vida? Por que nosso próprio olhar deveria ser melhor do que o das flores? porque não podemos comungar com esse olhar? Porque é o olhar que, determinando a perspectiva de alguma coisa, determina sua efêmera verdade – pois não há
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verdade perpétua embora possa haver perspectivas se repetindo de acordo com olhares renovados. Decerto aí, ao me ver refletido nos seus olhos amorosos, encontrei a verdade que me guiará ao longo desse restante de vida, dessa espera frutuosa da morte – a busca da palavra adequada e da acabada metáfora que transcende os limites literários e se mistura com o hiato entre memória e espírito em correntes profundas a que poderíamos chamar de amor. Não foi assim segunda-feira, quando pela primeira vez estive aninhado em seus braços pacificadores? Não soube ali tudo o que precisava saber? Não. Pois no caso de ser possível repetirmos, não hei de renovar o meu olhar e saber ainda mais?

A primavera ainda não começou mas o sabiá já está cantando pontualmente às quatro e meia da manhã. O aposentado do final da rua garante ao filho jornalista pelo telefone que na casa em frente à sua é às 4, 4 e 15 no máximo.

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Seja como for esse sabiá vê o movimento começar com seu canto e nunca se saberá se canta por causa do movimento ou se o movimento começa por causa de seu canto. Segunda, quando o mercado vinte e quatro horas está fechado da meia-noite às seis ou sete para balanço, tardou um pouco mais. Só começou com a luz do dia. Alice pôde perceber porque foi a hora em que saiu. Ia ao médico. Teme essa gravidez. Reza para que os indícios sejam falsos. Não está preparada para ser mãe. Talvez nem queira ser mãe algum dia. Será o fim da esperança de seu relacionamento com Haimeard conhecer enfim a alegria. Muito a entristecia agora que era fiel e devotada não encontrar mais o êxtase dos tempos promíscuos. Eram portanto cerca de sete horas e conforme a idéia de ser mãe a inquietava e procurava as alternativas percebia o quanto o bairro era novo e próximo ao parque em que noutra época caminhava para a morte na qual deveria se consolar o que decerto não acontece junto a Haimeard e nunca acontecerá junto àquele a quem amava com esse amor
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transformador. Nunca seria abraçada com lágrimas em olhos de homem porque iam ser pais. Garoa. Cidade cinza. Passos molhados. As flores grenás, conforme a senhora a que pergunta (de onde tirara essa extroversão?) são as buganvílias ou primaveras. É Primavera. O sol nasceu. Entre as pessoas por quem passa, assuntos tão inúteis quanto os ruídos de um elevador enguiçado cujos cabos ainda balançam e roçam um no outro sem levar para cima ou para baixo. Sexta começa a estação. Tocarão Vivaldi no boletim meteorológico como se Vivaldi fosse comum. Como se fosse uma celebridade dessas que a internet faz nascer e a TV embala e no dia seguinte será esquecida. As estações sem sentido do planeta adulterado. Botinhas na calçada molhada subindo na direção do metrô a levarão ao marido ou a momentos antes, a dias antes, ao beijo, a Meereshimmel. Construir uma vida nova. O quanto não é fácil. Segue na direção da manhã alta por ruelas que parecem retardar a inevitável entrada no túnel de vento que a carrega. Um peixe reavivado pela correnteza
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aos pulos pelo futuro que não se descortina. Devo acreditar que ainda é de você que sinto falta? Essa é minha fidelidade? Caminha como se não fosse parar. As imagens em que tropeça terminam num murmúrio desconexo. Meio-dia. O médico disse entre irônico e convicto que não há sinal de criança. Agora é procurar um canto calmo num restaurante e enquanto come refletir ao som do vozerio. Entre uma e outra estação do metrô a fome aumentou. O remédio começou a fazer um efeito incômodo de cansaço e língua pastosa. Está mole, adormecida. Por que todos pensam que exista para tudo um fundo emocional? Trinta e cinco graus e seis. Em alguns casos é normal, disse o médico, como se tentasse acreditar nisso. Depois deu outras alternativas. Diabetes, vesícula, sabedeusoquemais. Talvez haja mesmo uma causa emocional. Seja como for um cadáver fresco é mais quente. Um cadáver que caminha. Seu corpo é mais sábio do que ela. Ele sabe. Deveria ter sido a última noite. Quis ludibriar o destino e eis o resultado dessa sobrevida. Um adultério pra valer mais cedo ou mais tarde. Não. Isso não. Importa
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mais o dever que o bem-estar. Homens e mulheres estão cada vez mais fracos à força de tecnologia, sedentarismo e medicação. A obsessão do conforto. Dilapidadores da catarse. Nem teria ido ao médico se o bom Haimeard não tivesse pago particular, insistido nisso. Os médicos de convênio estavam em greve. Pagou embora não tivesse recebido nada ainda por seu último trabalho já que ainda não o enviara ao cliente porque os correios estavam em greve. Quando enviar ainda demorará a receber porque a quantia é maior do que se permite para transações assim no auto-atendimento e os bancos vão entrar de greve na terça. Não adianta ludibriar o tempo no mundo movido a dinheiro. O tempo não se deixa corromper. O tempo a quer assim decadente em seu físico porque insistiu em continuar no tempo de vida que já acabara e em dias como hoje assim mornos quase deseja a emoção extrema da proximidade do momento derradeiro.

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Na feira as cores transbordam da cena. Chegava a pensar que havia enlouquecido e que limões, bananas e maças contra o branco dos aventais dos feirantes e acima das barracas o vultoso azul do céu primaveril fizessem parte de um desvario contra o qual sequer sabia se deveria lutar acomodando-se àquele rude prazer visual que facilmente lhe chegava ao coração. E logo era mais. Era a mágica do tempo encapsulado no sofrimento escapando pela aceitação de todo detalhe do destino e qualquer de suas nuances permitindo o próprio destino ainda que não rígido mas não totalmente mutável entendido como vida na convicção redentora de um carma que permite o arbítrio. Desculpe. Um sorriso correspondido. Ela não consegue evitar, vive esbarrando. Às vezes isso traz coisas boas. Nem sempre. O restaurante pode bem ser o do centro cultural, por que não? É barato e a comida é boa. Passa a última quadra de barracas e desce pela outra entrada da estação. Bom ser um único bilhete para várias passagens em certo período de tempo. As boas soluções são as mais simples.
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Como um universo estático e infinito iluminando a noite com a luz do sol. Irá ao restaurante do centro cultural e quem sabe no final de seu caminho exista uma estrela. Não está mais à espera de um inesperado salvador. Não mais acredita nessa possibilidade. Encontrara repouso. Levanta-se para pegar a sobremesa. Encontrara a paz. Saboreia o pudim e se pergunta onde foi parar a paixão nesse processo. Se os homens se tornaram figurantes na nova etapa de sua vida, onde está o protagonista? Onde está de fato Haimeard? Os figurantes eu sei que estão sempre sempre ao redor. Uma faca cravada em seu coração, girando. Mas o que há de mais patético do que se queixar? sobretudo se queixar quando tudo está bem. Quando é possível até se dar o luxo de repetir um pudim tão saboroso sem pensar em quanto custará. Seu sorriso não tem qualquer motivo ao se dirigir à biblioteca. Um ricto apenas. Levou o sol da tarde ao ultrapassar a roleta e entrar no salão. Não é permitido entrar com alimentos, disse a funcionária apontando o cartaz. Mordeu o ultimo pedaço do chocolate e entrou no
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espaço dardejante de memórias semelhantes a folhas caídas pelos caminhos que trazem os perigos inerentes à degeneração ainda não consumada apenas retida para ser suportada entre labirintos e sonhos no barulho de passos.

Alice no metrô contra a previsão da chuva na transição de primavera. A meteorologia se engana. É o mais comum aliás mesmo com toda tecnologia a serviço. Ainda na semana passada ainda esperou-se um tufão no Norte e no domingo chegou não mais que uma tempestadezinha. Não será surpresa se na rua de novo só encontrar um chuvisco primaveril. Quando essa preocupação banal passar, estará diante de Haimeard que estará diante da TV e ela se sentirá culpada. Por quê? Não tem porquê. Só culpa, culpa em retrospecto, ainda que se torne santa. É sua segunda pele, a culpa. E Haimeard um santo já. Com tantos homens no mundo para alguém como ela, o atroz Meereshimmel não teria sido melhor? Tais devaneios desapareciam como surgiam, o que supostamente determinava o quanto eram

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irrelevantes, mas não eram assim avaliados sempre, ela duvidava das mesmas coisas de que noutros momentos estava convicta e submetia-se completamente às próprias conjecturas como se ao serem presumidas se transformassem na própria realidade. Como, de resto, acontecem com os sonhos que vivem no sono.

Recusou-se então a continuar questionando seu relacionamento com o marido. Era seu melhor amigo, digno de toda confiança. Se algo faltava, algo que sequer saberia nominar, ora, alguma coisa que sequer pode nominar, isso não existe. Não existe. Haimeard passou quando Alice saíra do restaurante. Na mesma caixa que ela pagara com dinheiro proveniente das idéias dele para usar a internet, ele pediu um café. Grande ou pequeno? A garçonete já vira os dois juntos. Casal bonito fazem.

Sonja. Está ficando sério? Sonja: seu rosto sempre tenso se intensifica. Passa pela rampa que leva à biblioteca e segue para a rua. Vira à
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esquerda e entra no metrô pensando o quanto deprime esse apego ao que não pode durar na mesma proporção em que as pessoas se acomodam e não buscam o que talvez pudesse permanecer, um sentido para a vida, quando nem mesmo existe ânimo de confessar o amor, a falta que o outro faz, o quanto seria bom se fosse diferente, se não fosse um amor proibido, porque talvez o ser proibido seja exatamente o que atraia mesmo tendo de ser pago depois um preço que pode ser de perdição ou puro tédio ou talvez a lembrança vívida do que não se viveu – não houve nem esperança nem receio nem confiança nem desespero nem a liberdade nem a prisão imaginada pois a cela está terrivelmente aberta e a consciência disso é uma descoberta constrangedora denunciada pelo olhar impudente com que Sonja sai do metrô e junto ao sol se revela ao longe exatamente no lugar onde deveria estar o vulto do cunhado.

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Na cama quente e desarrumada o casal está dormindo. Não, ele está acordado. Tenta entender. Foi não mais que um flash. Alice de costas na loja. O silêncio quase se pode tocar. Deixa disso. Você tem a melhor mulher, a mais linda que um homem poderia ter, a mais – não, Sonja anda fria, distante – cansada, ele sabe. Por que não basta saber? Não conseguiu evitar a comoção tensa que fez de seu corpo uma pedra aureolada que descansava no leito de um rio profundo cujas águas escoavam detritos de uma outra vida que jamais chegaria, como alguém experimenta uma roupa cuja cor detesta mas sonha em estar com o modelo que pela tonalidade será sempre insatisfatório exceto naturalmente naquela vida não vivida.

Não tem jeito. Há quanto tempo está deitada? Talvez uma hora, nem meia quem sabe. Deitada satisfeita da satisfação anterior – a vespertina – não é difícil imaginar o olhar de Meereshimmel vaidoso (pelos movimentos ela sabe que ele está acordado e pela respiração que está olhando para o teto). Tudo o que ela

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vê é a noite na janela aberta. Amor, dizia Meereshimmel nos primeiros meses, é essencial para a gente dormir bem. Não o bastante, pensa ela, para impedir a sonolência mórbida ou as sombras do pecado. Contorna a imagem Haimeard sem desfazer o espaço mútuo a que já não podem renunciar, por exemplo, pensa Haimeard ao descer as escadas do metrô, como renunciei à menina. Não a tem visto. Se acontecer a rejeitará? A garçonete também viu Haimeard e Sonja mas não na lanchonete e sim entrando num hotel na periferia. Na verdade também Haimeard e Sonja fazem um belo casal. Mas ele é bem mulherengo, riu consigo mesma.

Ele não é mulherengo. Se tivesse a mínima alternativa não trairia o irmão. Por que ela ficou com ele, não comigo? – perguntava repetidamente. Ela sorri e diz que foi pela mesma razão que ele, mesmo se encontrando regularmente com ela, precisou se casar com outra. Não sabia que era possível isso, ciúme de amante casado. Mais que possível, era o

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comum. O pior dos dois mundos. Junto à janela olhando o metrô à superfície ao longe, ele por um segundo viu o filme de seu encontro e namoro com Alice, o que Sonja imediatamente suspeitou e de pronto decidiu que isso não permitiria, já se sentia humilhada demais.

Debruçado à janela. Respirando com alguma dificuldade por ter subido as escadas correndo. A falta de um elevador é compensada pelo valor do condomínio. Longe a acalentada felicidade. Tormenta de dívidas e apelos extraconjugais. O coração disparado. O tipo de inspiração que o levou a abrir a empresa ou a querer se casar imediatamente com Sonja agora inexiste. Entorpecido. A vida se manifestará outra vez? O garoto impossível que enlouquecia os pais com a bola e as meninas com as mãos bobas no play não sabe para onde foi. Esse homem cujo coração aos poucos se acalma. Calmo hoje até demais. Apático. Nem memória nem jogos. Assaltado pela paz que retira a vontade. Fazendo tudo de forma correta por causa do dever não mais pela

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paixão. Um dia beijou a prima e se surpreendeu por ela não o ameaçar com delação. Procuram um canto nas escadas como se tudo tivesse sido planejado. Sensação mais próxima da alegria que o beijo consentido de Kátia, sua primeira namorada. Olhando-a agora quase entende. Não o prazer do fruto proibido mas o deleite da novidade. Uma coisa que se deseja por inesperada contra o enfado do que a gente sabe jamais irá além do que se espera que vá. Quando o pássaro do meio-dia pousou diante dele soube que o dever pode além das páginas do caderno encher toda folha avulsa.

Do jeito que está se sentindo deve aparentar mais idade do que tem. O que tem suas vantagens. Haimeard insiste que a cada dia ela está mais gostosa. Diz isso do modo grosseiro que ela adorou um dia mas não nele porque não combina com ele. No outro. Notou num flash súbito o rosto do marido. Bem conservado. Quase se diria da mesma idade que ela. Esse meu bondoso esposo. Beijou-o.

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Beijou-o pensando no outro. Beijou-o pensando em ter um lugar onde passar a noite e quem sabe os demais dias. O restaurante do centro cultural do município está cravado no meio de árvores imensas. O Poder Público consegue o que quer quando quer. Um lugar tão lindo e aconchegante. Ela passou por aquele momento, o pior. Passou ou é agora? ou é agora, meu Deus, o que tenho agora? Preciso reencontrar aquela moça que ia postar seu último poema, que não tinha para onde ir. Para ela a vida vale a pena, não para mim. Não para essa ela que me tornei. Pensa em Meereshimmel e ali está ele. Preocupado com o dólar. Preocupado com a entrega. Mantendo um espaço de lembrança. Em meio à multidão Alice aparece, ali no restaurante do centro. Uma sirene onde ele está. Tem a ver com mais um assalto a caixas eletrônicos. São mais de 100 só este ano. O trânsito congestionado por causa dos curiosos. Alice não tenta se desvencilhar, por quê? Ele não é assim tão forte. Pensa enquanto a cortadeira eletrônica segue o compasso dos blocos de hospital que ela poderia ter gritado. Feito ou dito alguma coisa. Não foi um estupro.
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Oi amor, enfim consegui. Você viu? O caixa hoje foi na loja aí do lado. Fiquei preocupada – disse Sonja ao telefone. Alice preocupada vendo no jornal do meio-dia. O que podia fazer? Não havia como se comunicar. Então seu amor quase transbordou de dentro dela como uma gazela foge dos leões.

Ele perdeu um tempo enorme com seus amigos de rede social. Não lembrou da hora do almoço. Era muito solitário comer entre mulheres fúteis e homens grosseiros. Onde poderia encontrá-la, Sonja? Hoje é o dia em que ela disse teria um compromisso? Ele tampouco lembra se é hoje que a menina disse estar de novo livre porque o pai ia viajar. Foi a primeira vez que falou do pai. Deu uma ligada quando a página demorou a carregar. Ah você. Ele percebeu com toda a clareza o abismo. Mesmo assim não lhe passou pela cabeça ligar para Alice. Não lembrou do médico. Dos problemas de saúde dela. Poderia encontra-la para almoçar. Mas não pensou em nada disso exceto muito mais tarde quando a noite caía e

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já estava impregnado do novo projeto da empresa. Só lembrou da mulher para avisar que ia chegar mais tarde. Não pensasse ela que havia mulher envolvida, era trabalho mesmo. Esse trabalho que afinal a sustentava. Ela não tinha do que reclamar. Entendo, fica tranqüilo, dirá Alice e irá para a cozinha deixar a comida pronta para quando ele chegue. Ainda à tarde Sonja passou no cabeleireiro excitada como se tivesse alguma coisa nova em vista. Elegante. E aí, meninas? Tudo bem? Sabem quem eu vi? E por aí. A tarde passou rapidamente. A chuva prevista foi um chuvisco, os camelôs que vendiam guarda-chuva nem tiveram tempo de ganhar algum. Gente, tanta, vultos, cores, sons, de vagões, de máquina de gráfica, vozerio de cabeleireiro, teclado, sons de sistema. Os quatro. Sabedores uns dos outros. Nem todos de todos. Num sentido misterioso em que cabe lógica rígida. E a hora do almoço e a noite nas empresas e nas casas são o tempo que de todos precisa e de todos prescindirá.

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Há um tempo estavam sentados na suave proustiana obscuridade da pequena sala cheirando a livros sem sentir a amenidade da tarde. Para ela fazia frio como em qualquer obscuridade e as iluminações eram também a sensibilidade da pele afetada pela mudança de temperatura embora imune à temperatura em si. Ele suava. Sequer poderia justificar o fato com algum temor relacionado à maledicência dos vizinhos. Era calor talvez proveniente da idade em que menos se está imunizado contra qualquer coisa inclusive o amor impossível ou possível num mundo que não existe e poderia? e até da emoção de em Alice ter reencontrado, não, encontrado a escada pela qual enfim se permite guiar entre a florescência fora de tempo só perceptível pelo cheiro da sala sempre fechada. Partículas delineadas pelos raios da tarde prateando o bule ainda fumegante. Quando ela tornou a encher as xícaras também o negror do café reluziu e pareceu a ambos um sinal. Ele não pretendia nada que pudesse se dar pelas razões convencionais E poderia? Ela sabe. Não por intuição admissível e adequada, ela sabe e
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agora está perto de ter o conforto da convicção do que se sabe e a segurança do que se faz e ali nos põe à vontade como um menino tímido em tudo o que faz e sobretudo deixa de fazer se transforma no piano que domina. Eu o amo. Não como amo o filho, o filho que eu não deveria amar. Mas amo. Eu o amo. Não como o pai que não tive. Não como mentor. Simplesmente o amo. Como o alimento que saciará a fome insuportável é amado antes pelo olhar. Se não houvesse essa refeição a sensação iria ser levada para a eternidade abstrata sem o corpo e todavia real porque a evocação se dá fisicamente através de alguém que viu os olhos do faminto. A noite desceu com um quê de perigosa. Eram essas as pegadas que deixava na imprensa. Sumirá de manhã para os que, como eles, não têm tempo a perder com telejornais. Como um animal vocifera e ameaça e as pessoas que o encararem naturalmente não saberão dizer muito a respeito dele porque diante delas desapareceu. Sabiam as horas pelo espaçar dos transeuntes na rua mais que pelo espaçar dos motores de carro na avenida
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não muito distante. Os dedos dele estavam relaxados e abertos sobre a toalha da mesa, e ela pensa o quanto escreveram até chegarem àquilo, apertar a chama da vela para apaga-la. Não porque houvesse agora lâmpada mas porque o sol naqueles minutos antes do crepúsculo entrando pela janela o justificavam. Nem escuro nem claro nem quente nem frio. Com sorte a gente sobrevive. Com grandes mas não ambicionadas perspectivas. Estão sorrindo. É mais do que mereço, pensaram.

Não há mais passado. Pessoas morrem em torno de pessoas. Não há lembrança sequer. Tudo definitivamente deixou de existir. Os remordimentos que ainda ontem constrangiam a ponto de ela querer sumir, querer que o chão se abrisse e sumir, são nada agora, menos que nada. O que é isso então que traz aqui a tepidez desse raio do sol de inverno? Aonde leva essa rua sem reminiscência e todavia viva no próprio corpo de Alice? Foi aqui. É o corpo quem sabe. Não uma parte específica do ser como o sentimento ou a memória. O corpo.

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Esse mesmo corpo com que atravessou o estacionamento do posto de gasolina. Nesses passos ela avalia despropositamente a importância do professor ao se encaminhar para a casa dele. Como não guarda mais a antiga importância das coisas, não carrega mais a tensão daquele dia ou seu êxtase. Vim até aqui porque ele me notou e acreditou em mim e acreditou inclusive no que eu não acreditava e sequer sabia, a minha importância para a vida de outras pessoas. Se ele não tivesse me notado provavelmente eu própria jamais me descobriria em tudo o que sua fé em mim despertou. Hoje, tantos anos depois, o que sobreviveu, como um fantasma gentil e poderoso, não consta de sua consciência. De sua vontade menos ainda. É um registro instintivo de quem aprendeu em tese com o professor mas na verdade de uma fonte anterior jorrando dentro dela desde que se formara no ventre de sua mãe a desdenhar do que os outros amam e amar o que o resto do mundo sábio a seus próprios olhos odeia. Prudente diante de si mesmo. Se tudo caiu no olvido exceto pelo corpo, por causa do corpo e
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de seu instinto permanecem as coisas essenciais que ela não saberá nomear mas discernirá quando surgirem. – Eu moro ali, naquela casa, a segunda do outro lado da rua – o rosto do professor se torna todos os rostos bondosos que ao longo da vida ela imaginou.

Abandonou-se. A vida está se reciclando, é apenas isso. Dor de um parto. O susto de uma queda. Levantar-se-á. Não pode ser de outra maneira. Sozinho. Porque somos todos sozinhos e não há que se enganar do contrário. Não se manifestará nenhuma revelação. O que é a verdade? O que buscam filósofos e escritores e do que fogem as pessoas normais? O que procuram os cientistas? Não a eternidade. A tecnologia depende da vontade de nosso deus, o mercado. E o que se ganha com a medicina de ponta além de uns anos a mais ou uma qualidade de vida que jamais será de todos? Porque a medicina é tão escrava das diferenças sociais quanto qualquer ciência. Resta cantar as canções que se agarram aos

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ouvidos pela repetição insana das mídias e louvar a honra que jamais alcançaremos. Não questiona mais. É só uma fase. Encontrará o seu caminho. Reencontrará, talvez. Ele diz que ela não faz mais questão do amor que até bem pouco tempo era tudo o que para ela importava. Ele não se cansa de olhar para ela e ver alguma coisa que está além dela. Tão além que não posso alcançar, ela pensa. Na verdade já alcançou. A paz que transmite vive dentro dela e a envolve. É possível? transmitir o que não se sente? Naturalmente é. Eis o estado da maior parte da humanidade. Mas no caso ela é a própria paz e o sentido das coisas. Importa pouco o que sente e menos ainda o que sabe. Com o final da tarde o rosto de Alice se escureceu e avermelhou e sua tênue sombra sobre o assoalho chegou até a janela ainda aberta misturada aos tacos e livros pelo chão que escalava como se fossem escadas. Se um deles olhasse subitamente para cima entenderia que os estalos vinham do ventilador de teto muito lento, numa velocidade quase

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vietnamita. Ele volta e meia lembrava de que esquecera o juramento a si mesmo de abraçar a solidão e não se aproximar de uma jovem. Mas a memória é parente muito próxima do conhecimento. Ele entendia que nela eles se desvinculavam. O conhecimento era vivo e a memória poderia para sempre esquecer em nome da vida, que no final das contas era tudo. O vigor de Alice era isso – a vida de que ele tinha desistido pela mesma razão que ela, ou seja, que podiam estar mortos para o mundo e todavia viver; que poderiam saber e isso não ter a menor relação com ciência.

Não estavam mais juntos. Há porém conveniências a que não se pode ignorar de todo. Se eu sei, o saber tem de se bastar em mim ou irei tropeçar nas palavras, como todos. Longe o dia em que estavam lado a lado no metrô e com o aperto se aproximavam mais. Quando estivessem juntos, haveria o que partilhar. Um autor comum de que gostam. As palavras ditas com um fim que não abordam. E

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– por que não? – o amor após a sedução. Mas o tempo é inexorável. Os dias passam e os sentimentos mudam. Naquele mesmo momento quantos antigos apaixonados não estarão à beira da separação? Uns porque preferem larguras; outros porque não se acostumam com apenas um amor. Acostumam-se ao efêmero como milhares de pageviews elevam a banalidade ao ápice não se sabe de quê. No apartamento vizinho alguém sucumbirá ante essas mesmas angústias. Não é o caso. Suicídio não é nunca solução e é um gravíssimo pecado.

Pela primeira vez na pele de um homem jovem e bem-sucedido, tomou-se de admiração por uma mulher. Não uma colega da faculdade – as quais, por mais fisicamente atraentes, sempre erguem uma parede entre elas e seu desejo com suas conversas enfadonhas sobre interfaces e aplicativos. No fundo sentia que o que dele requeriam é que lhes fosse um igual. Não um homem. Um ser de um outro mundo que eventualmente partilhava aquele mundo comum (o campus) mas realmente um igual.

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Cujas ambições deveriam estar circunscritas à esfera da nova realidade digital das empresas e à nova realidade social dos Recursos Humanos. Reduzido a engrenagem no desgraçado mundo corporativo. Não é isso? Mas uma mulher igualmente diplomada na área, que conhecia a lógica dos efeitos e a interação com um banco de dados, tão logo conheceu o irmão, Sonja, abandonou tudo pela casa. Enquanto essa outra com quem vivia sabe Deus por conta de que loucura, essa mecatrônica Alice, partia dos carros, andava pela música eletrônica e aterrissava na cama de um tecnólogo da informação apenas por interesse. Apaixonado por uma mulher assim? Sem dúvida. Porque ela era linda e sabia muito da arte da sedução. Jamais porém a amaria e ficaria assim pairando sempre por novas possibilidades. Que poderiam estar na adolescente idealista ou na mulher madura, simples e bem-cuidada, sem um passado e cujo presente se limitasse ao dever. Sonja. Não era uma igual. Dentre outras diferenças em relação às demais, era sua cunhada. A quem passara a devotar o coração seu ser primeiro que não era
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nem o profissional nem o doméstico, talvez o homem em sua manifestação menos contaminada pelo ambiente. Um relacionamento sério, pensou, deve subsistir de tal propriedade primitiva.

Vestiu-se e foi à janela. Sonja na cama de olhos fechados segura as lágrimas. Olhou-o recortado contra o prédio da frente. Tarde para arrependimento. Continuidade de seu declínio. É a vida. Costumava discutir com o pai depois de descobrir o adultério dele nas ligações de num celular a que não deveria ter acesso. Pecado revelado por pecado. O senhor quer comparar? Agora ela entendia o que o pai quis dizer.

A questão é o tipo de consciência. É triste porque a faz triste? é externa? ou é empatia que não se explica? Sabia ser questão de tempo mas prefere esperar. Não por qualquer vaga esperança ou medo da ruptura. Apenas comodismo – esse estranho sistema em que os homens imaginam as coisas funcionando bem
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sabendo que qualquer tipo de questionamento o negará. O odor da negação enche o quarto. Se o homem quisesse alguma coisa, se estivesse disposto, ela não só não iria negar como aceitaria qualquer pedido e possivelmente seria capaz de gostar e querer mais. Se todavia não quisesse, ela não faria caso, como se fossem irmão e até pensar nisso fosse proibido. Ela só não se conteria se ele mais que pedisse, mas ele não era capaz de qualquer coisa além de pedir.

Mantendo-se ereto Haimeard olhou mais acima. Céu acinzentando. O carro estacionado sob árvores, um perigo nesta cidade. O vulto se move à janela. Está vestindo a camisa. Ah, você está acordada. Ao se olharem viram um no outro muito de si mesmos. Uma visão indesejada. Agora há silêncio no mundo mas não significa paz. Sequer ausência de ruídos. Remorsos.

Em casa, no quarto preenchido pelo outrora amado ressonar de Meereshimmel que
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agora mal pode suportar, pequenina e ousada como o vulto de uma criança num parquinho, sente-se um fantasma de si mesma diante das paredes úmidas dos fundos do prédio onde da mesma janela um dia por muito tempo vira apenas o azul do céu acima. Mas como se sinceramente o amava? por que não pode partilhar o mesmo teto? Graças a ele não tinha que temer as noites ao relento que profetizara quando a empresa de jogos eletrônicos faliu. E ali estava, dependendo de alguém para subsistir nesse mundo protegido das ruas bêbadas da madrugada. A rua dos mendigos, das prostitutas e dos filhinhos-de-papai em intermináveis baladas. Essa redoma contra a sordidez dos vícios também seus um dia. Protegida da miséria que testemunha. Protegida, pensa, onde outros não estão. Alguma coisa está errada com o progresso da humanidade.

A filhinha de Meereshimmel e Sonja nasceu num domingo ao som dos sinos da igreja. Passou a infância tranqüila num lugar tranqüilo

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que só quando já era uma mocinha passou a ser conhecido como reduto de prédios luxuosos e amplos condomínios. É aqui. Foi bem clara a explicação de Alice. O carro do vizinho dos Ivanossilva manobrava para entrar tangendo o poste principal da rede elétrica no qual desbotado e majestoso em sua permanência estava o discreto gravite M&S. Não sei o que fazer. Por mais que escute os boletins econômicos do rádio na internet, não consigo entender o que é melhor em se tratando de um imóvel. – Por favor... Com seu passo firme herdado da mãe e um toque sensual aprendido de Alice já havia chamado a atenção do porteiro e agora ela o chama. Um cãozinho latiu e rosnou para Bianca que lhe devolveu um sorriso carinhoso. O homem se aproxima sem conseguir disfarçar de todo quanto o impressionava tamanha beleza e elegância. Espero que Alice não tenha exagerado na produção. Olha esse homem. Decerto está achando que eu sou uma perua emperiquitada.

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O calor da tarde foi sofreado por um deus benigno que ofereceu algumas sugestões para que Alice pudesse pensar em como chegar no endereço sem ser detida a cada segundo pela canícula. Dentro do apartamento a primeira impressão causada foi de obscuridade e pouca ventilação. O advogado acreditava que eram sucedâneos do tempo em que as janelas estiveram fechadas. Porém quando as abriram pouco melhorou a iluminação e o ar permanecia sufocante.

Foram as pombas. Dê uma chance aos que erram. Imagine o conteúdo de seus sonos. Tente acreditar que é possível que o que é inegável esteja tão errado quanto boas são as intenções que falham. Em como boa parte dos poliglotas não sabem o próprio idioma. O quanto ver pode não ser suficiente para acreditar da maneira que o não-ver será capaz. Dê-se uma chance. Tape os ouvidos. Não leia exceto quando possa ao fechar o livro viver o
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que estiver escrito. Repetir o que se sabe de cor é a tragédia da humanidade. Foi a debandada das pombas que juntas abandonaram o telhado em frente rumo às luzes da fonte num caleidoscópio que se afigurou profético em sua beleza aos olhos de Bianca. Que a levou à decisão de querer morar ali. Quando mais tarde lhe conta, Alice lembra da cena que Meereshimmel lhe descrevera – a filhinha soltando-se dos pais e perseguindo as aves pela praça, recortadas, menina e aves, pelas águas luminosas de uma fonte e o som do sino – o mesmo que tocara enquanto ela nascia. Talvez fosse mesmo um bom presságio esse das pombas. Mas a esse ponto de querer que fossem viver ali? de abrir mão da renda do aluguel que decerto seria de inestimável valor para os estudos dela? Nunca me queixei. Pode ser que por algum outro meio a menina tenha sabido das dificuldades quando ela era bem pequena e eu a tinha de deixar na creche para ir trabalhar de diarista? Quando Bruna abriu a porta para o advogado, já segura do que queria, sentiu um arrepio na pele como se
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tivessem depositado ali camadas de passado e futuro – a trágica morte da mãe, a da avó, a do tio e do pai, mas também um elemento cuja textura era firme e a cor viva como a da fonte, os vôos que lhe proporcionavam a companhia de Alice como tutora.

Quando deu por si estava na ladeira do centro cultural. Faz calor mas ela treme. Está só e tem receio de olhar para o lado e o ver. As conversas das pessoas passam entrecortadas sem fazer sentido. É porém como se gritassem com ela. Por que agiu assim? por que se entregou por um abrigo noturno? por que se apaixonou? Espera que a qualquer momento as vozes sejam a de seus pais que morreram ambos naquele ano. Você. Tenho pensado. Um abraço que jamais me libertou. Então um sentimento arruinado a tomou. Devia ter evitado esse caminho. Duas vezes o encontrou nesse lugar. Possível portanto tornar a acontecer. Ele jamais acreditará que não resisti a seu beijo o tanto que deveria porque estava

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de fato apaixonada. Há quanto tempo a luz doura aquele detalhe do prédio? O que existe, existe entre a alma e o objeto no corredor que liga os olhares. O sino tocou assustando as pombas pela terceira vez embora fosse a primeira vez que Alice o ouvia. Esse momento soaria na memória enquanto o sino vibrasse. Você. Conseqüência da luz na frincha sob a porta. Do toque do sino. Do cheiro das damas da noite exageradamente sedutor. A luz que contorna a edificação harmonizando o impossível de ser harmonizado. Nuvem iluminada e firmeza geométrica. No peito de Meereshimmel a delicadeza vespertina e o coração de Alice a palpitar uma vaga cumplicidade com o esforço. Não estavam com fome, a rua estava gravemente agradável. Não tinham uma única razão para pensarem em se aproximar e ser sugerido o encontro num lugar mais reservado. Você. Tensa e feliz. Você, pensou Meereshimmel, a vida à minha volta. A razão pela qual se alegra e sufoca o viver por causa da sublimidade da vida imaginada. É o que pode fazer. Não há mais idealizações puras e todo desejo de viver está comprometido por
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um cansaço que seria até evocação de dignidade chamar depressão. Atravessa o sinal descuidado e o motorista lança o anátema, ainda assim não chega despertar de si. Quem sabe seja uma possibilidade viver sem desejo, não é assim o nirvana? Vejo essa árvore todos os dias e hoje parece tão diferente, parece quase falar comigo em seu magníloquo silêncio.

Nunca brigavam. O que aconteceu? Que palavras duras! De onde Haimeard as desencavou? de onde desencavou tantas verdades a respeito dela? (mas não acerca de sua esposa, de uma outra mulher, antiga, deixada no tempo, no cheiro de gasolina). Como me desnuda assim? – não a mim mas àquela que fui. Não com gritos mas com palavras brandas. Murmúrios do Juízo? Mas a outra e única ira de Haimeard, com Sonja, com quem sempre brigava e a cada reconciliação o amor era melhor, estava sim ligada à forte possibilidade de ser o pai de Bianca.

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Acaba de entrar no quarto. Pela luz que clareia o móvel entrevisto e ilumina a lombada dos livros na estante, como sempre a primeira coisa que fez foi abrir a janela. Dia lindo. E lindo o perfil de Sonja recortado, as mãos no fecho do vestido. Anseio de liberdade. De janelas abertas. De nudez ou pelo menos roupas mais leves. De seduzir. Liberdade é um instinto de sedução. Girou. Os pequenos seios desejáveis. A insensatez com que vinha se comportando naqueles dias após a contratação da empregada não apontava para um indício de leviandade. Não valia a pena agora imaginar o que poderiam ter sido, esse casal impetuoso e pujante, caso não houvessem sido aprisionados numa banal normalidade. Ela escuta o que ele diz e responde qualquer coisa sentando-se na beira da cama. Realmente ainda é linda. Linda e calma. O vermelho dos olhos dele e o vermelho dos lábios dela. Menos linda que Alice mas muito mais digna. O fecho sob o pequenino colar havia resistido e ela lhe pede

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que abra, por favor. Ele pergunta alguma coisa sobre aonde fora mas quando os olhares se cruzam já está arrependido. Não quer dar a entender alguma suspeita. É a última coisa que poderia ter em relação a ela. Com esse olhar está ela lhe garantindo isso. Estava realmente confusa. Há pouco tempo um toque desses de Meereshimmel a teria enlouquecido. Fica evidente a distinção das coisas. De um lado um prazer no qual não confiava; de outro, um movimento que se perdia, como nas sinfonias, a que nos habituamos e do qual jamais duvidaremos. Será por todo o sempre deleite, uma assegurada delícia. Fecha a janela. Pingos de luz ainda entram pelos furinhos da persiana como notas do vento que transforma a leve cortina numa exímia dançarina oriental. Luz e vento, uma música imaginada. A cortina se inquieta mais e mais, arfa. Uma vela. Quase não falam. Não é um mal. Foi a melhor época da vida a que menos conversavam. Em que nada precisava de um discurso lógico, como agora. A vela de um velho barco capaz de atravessar os mares mais tormentosos.
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Quanto tempo depois de estar tirando a poeira dos móveis e pensara na moça ela viu Haimeard naquela situação nova? Estaria aqui agora se não fosse tão tímida antes? Os móveis estão limpos e luzidios. Ele lhe dirá que ter uma empregada faz toda a diferença para um homem sozinho. Para uma mulher também, pensará ela pela primeira vez. E viver o seu momento. Se tivesse vivido não teria por que ficar agora se culpando ou notando o brilho dos móveis. Ela corre na sua direção, abraça-o. Beija-o. Quando o solta ele ainda sente as marcas do aperto nos braços. Um menininho perdido e solitário. Desvia o olhar. Esses arroubos de Sonja o incomodam. Não pretende uma vida assim intensa. A lógica do projetista determinou um futuro calmo, sem inquietações evitáveis. Mas está ali. Se encontram há seis semanas mais ou menos. Cinco semanas e meia, ela sabe, anotou em algum lugar. Essa lembrança. Esse beijo quando se abaixaram para apanhar o mesmo lápis. Ainda servem

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para alguma coisa nesse mundo digital. O legado da maçã. O mundo jamais será o mesmo sem Jobs, diz alguém na matéria de seu falecimento. Faz sentido. Não foi o mesmo depois da automação nas fábricas de automóveis. A questão era outra: em que seu mundo se beneficiava das revoluções tecnológicas do mundo?

Não raro imaginava um amor sublime e às vezes se deixava arrebatar. O ardor de seu corpo correspondia à luminosidade das esferas a que era levada. Entre requintadas árvores protegia os montes sagrados em silêncio desnudo e denso e a memória e os projetos se dissolviam na ausência de bem-estar ou de dor. Não se engane. O êxtase desse sonho não resistirá ao toque do telefone ou ao girar da chave. Não se alegre. Ele chegará – se chegar – falando das promoções injustas de colegas da empresa. Não se transformará nesse deus crepuscular que te toca. Solta-se, descendo. Arruma a mesa, acende o fogo. Bem a tempo. A

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chave estala, Haimeard entra. Imagina, amor, que deram a chefia àquele idiota do – Até religiosa ela chegara a ser mas orações não evitam o odor perverso da realidade.

Cheiros antigos tanto que acolhiam não apenas a infância traidora e fraca que lhe permitiria sem resistir um início de adolescência doentio bem como a velhice não mais temida e até um aroma vago de tempos mais remotos anteriores e posteriores a seu nascimento inócuo e tendente a não durar como tudo segundo o princípio básico de um planeta que sequer teve a delicadeza de perceber que ela não se adaptara e ter retirado de algum modo o convite. Sonha com isso na poltrona do avião ao som de seus fones bloqueadores do redor, naves para esse outro mundo que quão mais ideal mais fugidio se tornava no toque da aeromoça em seu ombro ou na turbulência que assustou o passageiro ao lado. Essa era a perversidade. Antes do casamento nem imaginava estar num vôo para

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outro país para não mais ficar que algumas horas em nome do marido, fechar o contrato que ele não pôde pessoalmente e ainda assim em que isso mudava isso as coisas? A criatividade da esperança está muito além da mais bela materialização de um sonho. O avião restabelece o murmúrio de mar e ela de novo adormece sequer ouvindo o choro da criança à frente.

Ele adormeceu. Quem é essa? quem sou? Fagulhas em sua camisola. Seu corpo cálido a aprisiona em sua tensão e a liberta para desconhecidas eras. Para que serve um homem? Subitamente enganou as sentinelas e se livrou de todo véu cinzento da culpa. Eis a cortina obediente ao vento. Eis a luz ludibriando as persianas fechadas através de cada mínimo interstício. Nada tenho a dizer. Nenhum plano ou esperada surpresa. Ainda assim freme e suspira. E imóvel morre e dos resquícios dessa morte motivará a vida e os afazeres da manhã com um sussurro, prece

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acima da compreensão do próprio Deus, olhando-os como naquele dia gelado e angustiante sem qualquer expectativa de amanhã e todavia aqui está o amanhã além de todo o esperado – devia ser grata estar feliz por ter encontrado essa mulher nas condições em que encontrei, deveria entretanto os filmes trarão mensagens duvidosas, os livros irão conter o conselho implícito nas entrelinhas fluídas. O que será a paixão além de um amor pelo que não existe – embora os mais vis pensamentos deserdem por um momento ao melhor de sua alma como o amante vislumbra quem lhe proporciona o instante do gozo – pelo ser de nossa própria mente e não será o amor antes isso, a paixão pela imperfeição do outro, que será necessariamente a paixão pelo outro, pelo que é no cotidiano e não por uma fantasia de si mesmo fulgurando em mentes alheias porque o homem cada vez mais reconhecido profissionalmente como Haimeard se deixa subjugar por seu sexo e pensa com seu sexo seus pensamentos mais profundos, deixando a sabedoria para um outro que nada faz senão

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atuar. Depois de uma suspensão, a cortina tornou a tremular. Se a luz pode determinar o espaço como nitidamente demonstra o caminho do sol na parede oposta do quarto assim como a textura agora que o feixe molha o cortinado e por ele desce, não há luminosidade possível quando esses sentimentos decompostos roem a alma nos corredores improvisados pelo desejo recurvo e o ímpeto em que caminham ou deixam de caminhar as melhores coisas da vida. Como então a gente as discernirá no espreguiçar secreto que jura ter ouvido o lamento e o grito de júbilo da floresta em que os amores se perdem em meio às folhas estalantes de passos renegados pelo dia e grandezas a que o pleno despertar dará outro nome? Ela entreabre os olhos. Acredita que é sábado sem descrer da treva onírica. Caso esteja certa – se ao menos tivesse força suficiente para esticar o braço e alcançar o celular na cabeceira... – há uma conflito sintático que precisa ser reduzido no rascunho da monografia. Finalmente cansada de contemplar entre a consciência e o torpor os
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mistérios da vida e da morte dentro da caverna em chamas, Alice respirou fundo para que a ordem fosse dada a seu braço. O desenho da janela continuava se movendo no sentido de novos feitios. Quadriculou o teto. Fez com que o livro à cabeceira se incendiasse. Coloriu de vermelho escuro a mochila marrom jogada na cadeira. Sim. Amanhece. Como foi mesmo que aconteceu? Um professor na cantina da universidade. Um convite. Primeiro a visão desconfiada. Logo eu? Imagina. Mas deve admitir que está mudando. Como gostaria que alguém esperasse dela uma mudança! Como gostaria de presentear esse alguém! Mas quem? Cada vez menos Haimeard parece ser essa pessoa. Ele preferia a outra, a morta. O céu estrelado à janela diz para ela não perder as esperanças. Para não se acomodar. Se há estrelas na manhã de um aposento fechado, quão intensas serão as estrelas do céu. Ganha então vigor. Pega o celular e vê que são horas de se levantar ainda refletindo se deve ou não corrigir o rascunho. Talvez não. Talvez a sintaxe viva de conflitos e o conflito demonstre o quanto está viva. E com a sintaxe, ela. Com o
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sol na cortina e nos interstícios da persiana. Como em algum outra parte da manhã o professor.

O que posso te dizer é que com as antigas cartas e hoje as mensagens de internet ocorre algo muito semelhante à própria literatura. A força maior não se dá quando quem escreve fala de coisas fora de si, as quais não vivenciou; nem quando simplesmente fala sobre seus anseios e receios – sua vida enfim – conscientes. Mas (é o que parece ser aqui) no que tenta expressar coisas sobre as quais a consciência preferiria se acomodar e manter quietas, ocultas. Ninguém resolve do nada escrever para um professor que não conhece além da sala de aula, como você fez. As noites insones de que fala interpretam decerto um papel importante. É espantoso que exista uma menina com sua capacidade de se espantar e tamanho desejo de compreender. O mundo
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a nosso redor parece diferente visto após as coisas que li de você. Possivelmente, também meu espírito sofreu algum tipo de alteração. Significará, imagino, que nossos corpos possam sofrer algum tipo de evento; porque tudo o que há no mundo e no espírito passa pelo corpo. Quisera possuir ainda os poderes que muitas noites insones me concederam para responder suas perguntas. Quisera não estar demasiado envelhecido e doente. O cansaço afeta a lucidez como o calor o faz, embora no meu caso possa ainda haver algum equilíbrio por conta da solidão e do silêncio. Entendo, Beatrice, que depois de tudo o que aconteceu, vc precisa se afastar. Afinal tem toda uma vida pela frente e não merecia começá-la com tamanho estresse trazido pelo nosso caso, e continuá-la com as conseqüências advindas daí. Tudo bem. Quem sabe um dia a gente se reencontre e as coisas possam ser diferentes. Mas deixa eu te contar: conheci alguém. Uma princesa. Se houvesse algo a ser dito,
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como cheguei ingenuamente a imaginar, se valesse a pena a posteridade, se não fosse exceto vaidade, seria ela a pessoa perfeita para dizer. A escolhida. Tem vida, sabedoria e vigor, não está maculada por seus defeitos nem fragilizada por suas virtudes. A questão é que não há, não há o que ser dito. Dizer é esperar e como para tudo há um tempo de esperar. A vida é indizível. O abismo, comum. e ainda assim ninguém proclama o que sabe para que alguém ouça e aprenda. Não é assim. O que se sabe e talvez se espalhe pelo inconsciente coletivo é a solidão inerente. Entre o nascimento e a morte a gente pensa que tem algum poder sobre a condução do destino, mas, por nãoinexorável que ele seja, não é verdade. Aliás, o que é a verdade? E se dizer é esperar, torna-se propagador dessa crença, é esperança? Perdi de há muito tal fé. Não na esperança em si: na sua eficiência. Em que sentido? Como componente essencial de um estado ainda mais absurdo: a ventura. Ela sabe essas coisas. Escreve
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maravilhosamente sobre elas. Vive o que escreve. Talvez não escreva sobre tudo - a falsidade de toda esperança, a incapacidade funcional do dizer, a solidez da alegria perene (solidez no sentido de não-flexibilidade) -, talvez não tenha ainda desenvolvido o dom de criar em meio a toda essa ferocidade de conceitos porque o que tem em vigor lhe falta em idade e experiência. Pensei por um momento que pudesse preencher essa lacuna com a minha própria experiência e assim resgatar por meio dela e da escrita o meu vigor. Quanta pretensão! Ninguém conduz, nem resgata, nem alerta. A única virtude da poesia além da estética é levantar questões, não respondê-las. e ainda assim só valerá para quem já possuir essas questões e com essa poesia possa recriálas de uma forma artística, melhor desenvolta, mais técnica e não por isso mais prática, dramática, com o poder da cena, de sua concepção e desdobramentos, que cabem, e pouco mais que isso, na solidão original. Há, pois, um tempo.
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Esperar é preciso, mas não demais. Como a fome e o sono, o dinheiro e o amor, a necessidade de ser lúdico ao lidar com coisas que não têm a mínima graça. Desespera-se antes de dizer. E a palavra é um murmúrio ouvido apenas por quem murmura.

O rapaz não parecia interessado no que ela sentia, pelo menos não agora, mas a própria Bianca mal sentia a insistência de suas carícias, imersa que estava. Ele se deu por vencido. Seria a terceira vez aquela tarde embora nunca de modo completo. Bianca ali, algo muito próximo de uma estátua de mulher sob a chuva de um entardecer. Resquícios da segunda no corpo embora a mente trabalhasse de forma a trazer logo o esquecimento. Estava cansada. E nem decidira ainda se gostava dele tanto assim ou pelo menos assim. Era um bom amigo, o melhor. Desses que raramente se transformam em alguma outra coisa no relacionamento entre pessoas de sexo

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diferente. De modo semelhante a meia-luz incide ao longo da parte abaixo dos joelho que naquela posição crescia e brilhava também. Talvez fosse melhor puxar de novo conversa. Mas como foi? – Minha mãe chegou no mesmo ônibus que Alice. Deixou com ela o endereço, caso ela porventura precisasse de alguma coisa. Era muito provável que precisasse pois viera procurar trabalho numa cidade em que não conhecia ninguém. Mas conheceu meu pai também, por uma ironia do destino. Quase se arrependeu de ter dito aquilo, mas logo viu que estava enganada, que ele era um bom amigo, um rapaz de inteira confiança e que a levava a sério quando ela falava que as coisas que lhe contava não deviam sair do quarto. Todavia não podia simplesmente deixar de contar. A alça do sutiã pendia na cadeira e a blusa escorregara até o assoalho. E a ironia maior ainda estava por vir, a coincidência maior.

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– Meu tio a conheceu na rua alguns dias depois de ela ter estado com meu pai. E acabaram se casando. Nesse ponto o interesse dele despertou. Realmente era muita coincidência. Quis saber o que aconteceu, se eles souberam um do outro na mesma época da vida de Alice. E se eu disser que não é tudo? Que vovô, que mal tinha contato com os filhos, acabou se tornando o melhor amigo de Alice? que soube, ele sim, antes que todos, de tudo? E com tudo ela queria dizer alguma coisa mais ampla, viva como o marulhar à janela, como os pássaros da noite, como os pequenos insetos em torno das plantas dos vasos da varanda. Não. Eu não devia ter falado nem o que falei. Até porque quem poderia entender? É mais do que eu mesma consigo. – Seu avô não é aquele professor que teve problemas na escola com uma aluna? Ela não irá responder a verdade, pelo menos omitirá alguma coisa que julgue denegrir a imagem do velho, que adora. Está agora sentada na cama. A cadeira está vazia

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por um escrúpulo inelutável. As mãos entrelaçadas pendentes entre as coxas morenas, a luz incidindo sobre a pele elástica dos joelhos luzidios exceto pelo arroxeado de uma queda quando ela lavava o piso da cozinha. Diz que o avô amava mesmo a garota e mais não digo por que não entendo direito esse desejo dele de que ela fosse uma espécie de porta-voz dele – não, não é isso. – Ele amava mesmo a menina, achava que poderiam viver uma história de amor e cumplicidade antes de ele morrer e depois ela ainda teria toda a vida pela frente – algo assim, nunca vou mesmo conseguir expressar o que sequer consigo captar mesmo no meu mais profundo silêncio. O assunto havia ido longe demais. O assunto era demais para ela. Mas agora já disse que vovô conheceu Alice e se deixar assim no ar aí é que ele vai mesmo pensar mal deles, então – Ele a conheceu numa biblioteca Parece que toda a família dela carrega essa sina de

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conhecer Alice numa biblioteca e ficaram muito amigos. O rapaz diz que Bianca quase não falava da mãe nem da avó. Ela admitiu de imediato. Pensou que realmente tinha esse bloqueio com relação a Sonja e a mãe dela. Estragaram as vidas de seu pai e seu avô mas se uma pessoa não confiar em alguém nessa vida, se não tiver um confidente, acaba enlouquecendo. Então ela contou sobre a separação dos avós. Sobre a relação difícil do avô com os filhos. Sobre se era legítimo o argumento do quanto envergonhou os dois diante dos colegas. Ela disse, como para dar também um fim à conversa que tinha ido longe demais: – Se encontraram todos no casamento de meus pais – Nossa, isso está longe de terminar o assunto. – Que situação constrangedora para todos não deve ter sido. A única situação realmente constrangedora para mim é o caso de minha mãe e meu tio. É como minha mãe morreu. Disso ela não iria falar. Subitamente viu o rosto fresco do amigo
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e nos olhos dele a frescura do próprio rosto e dos próprios olhos. Eram tão jovens... – Você me ama? Meu Deus, essa menina é bem louquinha, por que de repente se preocupa com isso se a um minuto praticamente me rejeitou? – Me ama? Ele não respondeu logo. O que eu posso dizer? Ela aproximou os lábios dos lábios dele. Eu acho que amo, apesar desse jeito louco que ela tem. Ele correspondeu de um jeito mais delicado do que de costume. Parece que ela gosta de delicadeza; quando sou mais afoito em geral me dou mal. – Amo. Te amo de verdade. – Bem, ela disse. – Vou acreditar. Preciso. Podemos ir até o fim agora. As aves revoluteando na varanda se tornaram mais vívidas. O próprio ar entrou nos pulmões dele de um jeito diferente, mais pleno, como se realmente a respiração tivesse algo a ver com a vida, como se fosse necessário ter essa consciência. A brincadeira estava

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chegando ao final e agora ele não sabia o que devia acontecer depois, ele que no antes era tão eficiente. Eu pensava que esse tipo de coisa devia acontecer com algum tempo de preparação mas era mesmo sério, ela falara sério. A língua dele de súbito se tornou mais áspera. Parece tenso com a decisão repentina. Na verdade eu também. Precisamos de um tempo. Pelo menos de uns minutos. Ela se afastou e sentou-se na beira da cama. Imagine. Não foi eu mas ela . Quanto mais a gente vive menos entende a vida e menos ainda as mulheres e desde pequenas. Não tinha sido por amor nem por desejo nem por qualquer coisa relacionada ao que estava prestes a acontecer. Ela entendeu o acaso que liga as mais importantes decisões. Como uma luz na escuridão. Porque era uma total escuridão, pensava ela ao olhar o crepúsculo na janela enquanto continuava desabotoando a blusa branca do uniforme. Um branco vívido e aromático cheirando ainda ao produto que Alice havia usado para passar e lembrando vagamente aqueles tons amadeirados de perfumes cuja função primeira é induzir a
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pessoa próxima a pensar que tinha a ver com o cheiro doce da maconha misturando-se ao perfume das flores lá fora. O pai do amigo dele deve ser um homem bem rico e liberal. Mas por mais que tentasse se forçar a desviar o pensamento sempre recaía na figura materna, em Sonja se desnudando para Haimeard e se entregando ao tio, aquele mesmo com quem terá um contato muito pequeno mas extraordinário depois do qual não conseguirá deixar de pensar que ela fora fruto da relação errada e todas as implicações que isso terá na vida de seu espírito. A camisa finalmente abandonou a beleza de seu torso Que coisa linda em meio aos ruídos abafados do pano lembrando uma bandeira cuja razão do hasteamento ela não compreendia mas não dava mais para parar. Ela usa esmalte quase cinza, só agora ele percebe, quando os dedos desengatam pelas costas o sutiã Que coisa mais linda. Ela não desvia o rosto para ele. Não há sombra de sedução em seu comportamento. Parecendo antes que está sozinha apenas se despindo para dormir.

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O professor Savone se tornou conhecido entre os universitários, mais do que por ser um homem probo e educador competente, por um outro talento. Era o que qualquer um sabia dele. Vejam, o Savone – diziam, decerto, respondia um dentre os outros – em busca de sua mais recente descoberta. Quem não estudava na universidade, como Alice, tendia a acreditar. Ao procurar ela um livro nas estantes, embora impossível deixar de admirar seu corpo nos trajes leves, não passou pela cabeça dele o pujante o caráter provisório que toda roupa necessariamente tem. Em virtude da péssima disposição dos móveis ele sentiu o sol lá fora dentro de seu peito tocado pela maciez dos dedos que percorriam as lombadas predestinados a registrar grandes coisas para a posteridade. Sentimentos duradouros. Encantos em que se basearia o êxtase de descobertas mas que em arte, por causa do artista, nunca é uma coisa que vem do nada.

Como acontece?

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Ela tenta se afastar para outro corredor de estantes. Ele a olha, sereno. Ela não consegue simplesmente não consegue se afastar. Se houvesse alguém do lado oposto da estante entre dois livros inclinados veria o rosto dela fresco e quieto igualmente inclinado. Após alguns ensaios os olhos se desviam para o lado onde sente a presença do professor. Essa pessoa do outro lado da estante não o estaria vendo exceto pelo pestanejar e pelos rictos mas não saberia que tipo de sentimento expressavam porque ela havia retirado do rosto qualquer desenho de confissão. A mão quente agora em seu ombro produzirá um choque de futuro. Sombra sobre sombra nas lombadas. Ela não escutou direito mas acredita. Na história da vida dele há visões, humilhação, lágrimas, inconformismo. Ela acredita. Não há segunda intenção em seu convite. Mas será ela capaz? É só uma mesa de trabalho com estudantes do secundário. Mesmo assim um desafio. Quando deixaram o balcão de empréstimo Alice afinal sorriu e o professor sorriu realizado. Conseguira a palestrante perfeita para seus antigos alunos.
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A garantia do saber de espaço e tempo, pessoas e seu comportamento, o fundamento de não depender das circunstâncias e o modo como tudo mutuamente se condiciona determina o parentesco entre o que se escreve e o que se vive. De uma forma ou outra a hora está próxima. A sombra no espelho será iluminada quando mãos preparadas abrirem a janela no momento devido.

A casa foi construída num terreno sombrio à prova de enchentes. O engenheiro a encontrou pronta em sua mente ao contemplar o espaço. Determinou naquele único momento onde seria o quarto e a sala, o banheiro e o escritório, e como as pessoas se deslocariam ali dentro. Ouvia seus passos como um escultor cinzela uma forma a partir de um lampejo que se modificará com o andamento do trabalho mas manterá aquela forma original tosca e eterna em sua imaterialidade. Aos poucos adquire contornos quase humanos. Todos que passam pela construção sabem que tipo de pessoa irá viver ali. Não pode ser alguém em

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que o consenso indique normalidade. Ali está ela recém pintada e já com um aspecto escuro de antiguidade. Bela em seus quês mefistotélicos. Há musgo revestindo o muro e as campânulas envolvem as ruas em torno de uma flagrância doce, sobrenatural. Um regato passa pelo fundo da casa. Um sol morno de fim de primavera se põe e no crepúsculo as paredes rosadas adquirem eternidade quando dos raios desviados pelas águas. O homem sai à janela e pensa que é hora. Alguns dos gatos se enroscam em suas pernas; outros passeiam pela pia da cozinha sem qualquer objetivo. Passaram-se os tempos glamourosos. A mágoa se dissipava. Era preciso distinguir da decadência uma circunspeção que não cabe no convívio social. Não há mais auréola concedida por vaidades. Permaneceu apenas a beleza nua da sabedoria que precisa se concretizar como esse tronco mal iluminado quase sem cor. Se a morte está às portas, ele haverá de retirar a mais pura vida que apenas a jovem pode oferecer. Por meio dessa realidade que só jovens possuem e da qual são na maioria das vezes inconscientes
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– a perfeição. Alguém em algum momento teria de entender.

Um homem de palavra. Uma pessoa confiável. Generosidade à toda prova. De que servirá no final? Da varanda da casa havia pouco habitada e dos pensamentos piedosos o sol atinge um momento não mais esperado que terá de dar um jeito na bagunça dos aposentos do moribundo no qual se escondia a probidade de outrora ali mesmo onde estava também a antiga loucura, esse caos interior do que a casa era apenas o fiel reflexo que era a total desesperança vestida de duvidosa inexorabilidade. Melhor sentir-se assim lúcido do que como uma raposa estulta chamar de verde a uva desejada entre todas a mais deliciosa porque acima de qualquer delícia que possa implicar em perda da honra, antes concedendo enfim a paz após o tumulto. Amanhã ela estará aqui. A luz que se apagou iluminou a chegada da improvável ninfa duma ainda mais improvável derradeira sabedoria feliz.

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Pensamentos à janela. Cães, portas, passos que se acompanham de fragmentos de frases, toras serradas especialmente para a construção da torre a que ele se propôs. Não sabe que horas são e o dia inteiro chuvoso lhe tirou as referências da luz. Mas há outras. Aquela moça costuma passar ao meio-dia, provavelmente intervalo para o almoço. Cheiro de comida permeia o ar por volta das onze. Quando do caminhão de gás começarem a descer os botijões em baques metálicos antecedidos pela musiquinha do falso sino, já será meio da tarde. Melhor fechar a janela. Logo começa a trovejar, depois o vento e as religiosas chuvas de verão. Janela emperrada como ele. A tempestade pontual – a seu modo confiável também. Compreendeu do modo mais trágico a inutilidade de suas virtudes mais ou menos quando discerniu o que era o altruísmo autêntico que buscava e desatrelou dele algum resquício de vaidade mascarada. Cada móvel da casa sob as bátegas, cada utensílio, os detalhes da decoração que se fez sozinha. Objetos que se distribuíram na inconsciência
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desesperada quando soube que havia sido expulso e sob que acusação. Se tivesse dado ouvidos aos colegas e feito o mestrado e só pensado em casamento quando sua situação financeira estivesse definida, as coisas teriam sido diferentes. Não há dúvida. Foi quando pensou se essa realização não comprometeria seu destino maior. Desde muito cedo pautou a vida segundo um tipo de raciocínio que não encontrava qualquer respaldo na realidade. Tornou sua verdade mais pura inverossímil. Em sonhos viu a grandiosidade da cidade cujo relevo diferia de qualquer importância conhecida. No momento em que a reconhecessem seriam como Adão em meio aos animais. Não pode ter o orgulho de pensar numa nobre determinação. As coisas simplesmente iam acontecendo. Independente de vontade ou fé ele era levado, arrebatado – arrebatado! – uma, duas, três vezes, todos os dias. A tibieza do hábito não prevalecia. Casou cedo. Precisou autorização da mãe para se casar. Casou para não se separar. Menos que uma crença era a convicção leiga de um rapaz
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que sempre teve problemas com deuses. Na noite em que se sentaram para discutir os detalhes do divórcio era como se ele não estivesse ali. Ali estava outro enquanto ele de novo arrebatado vagueava por mundos que com o tempo se fariam familiares, onde se erra por lei e não há normalidade. Quando os homens perderem a noção do bom-senso em favor de significados desconhecidos, a terra não mais será regida pela tirania dos valores da vigília e da consciência. Mas seu coração não estava ainda pronto. Só à noite os arredores adquiriam a atmosfera licenciosa como se chegasse na proporção inversa dos sons dos trovões que se afastavam medindo o afastamento da tempestade. Portanto ele foi enganado ao escolher a casa para lar. Nem tinha tempo de perceber. Saía cedo. Levava a recém-esposa à universidade e ia para o jornal. Lá ficava até a impressão e de madrugada os vícios estavam guardados na vizinhança de aparência tão inocente. Casinhas que pareciam saídas de contos de fadas. E chegava tão cansado que caía na cama exausto. Ainda assim talvez
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estivesse nascendo aí sua perplexidade ante o mundo representada sobretudo pelos seus relacionamentos com as mulheres. A esposa passou a arranjar desculpas para se furtar ao que a levara ao desvario de querer casar. Mais tarde, no final da vida, ele é que se via necessitado de desculpas, tal a insaciabilidade da última amante, única após a aluna chamada Beatrice. Quando jovem pensava não só que poderia como era tudo que queria. Hoje, nem sempre pode e, quando sim, já não é algo que interesse tanto. Da carne pode nascer o que é espiritual? Nascem juntos. O sentimento de missão que primeiro relacionou a si mesmo passou a viver numa escolhida. Se tinha que legar alguma coisa a um mundo em tamanha transição devia ser por meio de uma jovem que a tal mundo pertencesse. Nascera cedo demais. Era talvez mestre, jamais um executor. Sabia o que precisava ser dito, não como dizer. E era homem. Só uma mulher terá a autoridade de se fazer compreender num tempo assim. A um homem resta a memória que deve florescer na carne como vida. Nas palavras de uma mulher. De uma jovem daquela geração. Há abertas no
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céu. Hoje deu tempo, irá à Biblioteca. Pena nenhum dos filhos tomou esse gosto embora desde o começo soubesse que não seria por meio dos filhos que alcançaria a meta visionária e imprecisa. Porque era preciso além de transmitir, aprender para transmitir mais. Isso não é algo que se deva esperar de filhos. De filhos se espera ou tirania ou acomodação. E enfim tinha apenas filhos homens, o que de antemão os reprovava. É verdade que Haimeard conheceu a esposa num Centro Cultural e a isso se devia a cristalização da fama de Savone, sabem como é pai, tal filho, diziam sem saber de nada. Savone e o filho nada tinham em comum. Com Meereshimmel talvez alguma coisa. Nada de que devesse se orgulhar ou que o inspirasse.

O que pode interessar o que eu acho? Se você insiste, meu filho, acho naturalmente que você poderia ter lhe ajudado, dado a ela um lugar na gráfica até porque o primo de Sonja não é uma pessoa de confiança e sequer estava interessado no lugar e no final você

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teve mesmo de contratar um estranho. É verdade, nesse sentido você deu sorte, o Ingenuer é um ótimo rapaz. Mas não teria sido o mesmo com ela? No final das contas ela também não está demonstrando o quanto é de confiança e o quanto é competente em tudo o que faz, sem falar na virtude misericordiosa com que suporta a instabilidade emocional de seu irmão? Nesse sentido, o que pode fazer ainda depois de tudo, eu diria que não é tarde. Eu diria que, se não foi tarde para mim, não pode ser para você. Eu diria que você teve essa sorte de poder se redimir.

O maior problema das pessoas, costumava pensar, o maior problema das pessoas é que ao tomarem decisões julgam a vida estática e naturalmente não é. Silêncio – puro, perfeito silêncio. Naquela noite, embora verão, não choveu. Decidiram. Os filhos, os dois filhos com a mãe, na verdade com os avós, que arcariam com as despesas. Savone não precisava se preocupar e em tese os filhos eram o único problema da separação. Temporária. Sim,

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entendemos. Você precisa ir atrás de seus sonhos. Tudo resolvido. Ninguém cogitou o quanto um casamento desfeito pode ser devastador na vida de um homem em quaisquer termos. Legais, profissionais, afetivos. Sobretudo quando se é um homem jovem alguns anos mais jovem que a média dos divorciados e alguns anos mais velho dos que andavam à procura de emprego. Ninguém cogitou (ou a esposa já naquela noite sabia?) o quanto a vingança de uma mulher pode ser funesta. Ou o quanto seus dois filhos pudessem ser influenciados pelo ódio da mãe como se fossem garotinhos. Por vinte anos o professor esteve sem vê-los e agora o posto de trabalho na universidade tão arduamente conseguido lhe fora tirado. Tudo estará porém esquecido quando estiver entrando no velório do filho, tremendo. A jovem olhará para ele, incrédula e comovida. Mais talvez por ele mesmo, pelo professor, do que pelo morto. Sou eu, ali na biblioteca, paralisada. É ele, quem confiou em mim, quem através da mão do destino me escolheu. Num dia, um tapa no rosto; noutro, a mão em seu ombro. Quantos beijos há? Não
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apenas o sensual. Há o que quer sugar a vida do outro, o que quer conter, manter o silêncio. Tantos. Tantos tapas também.

Seu pai pensaria decerto, ao saber que ele ergueu as mãos contra uma mulher, que gerara um monstro. Monstro! Podia ouvir sua calma voz veemente enveredando pelos labirintos da alma lacerada. Isso ele não imagina. Que desde que a reviu sem conseguir lhe falar está assim. Pungido. Lacerado. O professor não saberá nada além de que ela se apaixonou desde o primeiro beijo. O tapa, como furacões rebaixados a tempestade tropical, não será digno de menção.

Saíram. Dois passos dela para um de Savone. A atendente do guarda-volumes observa o quanto os ombros dele e os quadris dela são largos. O andar do homem, associado a seu poder de sedução perante as jovens, supõe determinação. O andar da jovem não demonstra afetação de sensualidade. Quer apenas agradar o homem sem saber a razão.
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Acreditando haver uma razão. O que é tudo o que ele precisa que ela acredite para que o mal-entendido não destrua essa oportunidade única da arte e da dor. Passam pelos estudantes sentados no café. Ela tira da bolsa o celular e desliga. Foi apenas para ter o que fazer com as mãos mas ele vê algo mais que isso, uma deferência. Outra letra em sua lápide. Um outro achado no microscópio. Viverá. Ele, rejeitado pelos filhos e desprezando todo dever da honra nada mais que sanguínea e orientada pelos editoriais ladeados por anunciantes vips no Dia das mães. Viverá. Para tanto será preciso que ela desenvolva suas potencialidades. Terá de aprender o que já sabe e ele de lhe contar os segredos contra as fugas e a acomodação. Mas ao longo dos encontros e dos emails, dos telefonemas, revelar-se-á que ela está adiante. É mais pura do que ele jamais será. Tem a autenticidade da vida em sua idade aliada ao discernimento que deveria haver na dele. A espontaneidade da geração prevalecendo sobre a sabedoria dos livros.

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Entraram rente ao plástico junto à mureta improvisado como proteção contra a chuva. Sentaram-se na mesa com migalhas dos clientes anteriores. As luzes acompanham os movimentos de um e de outro e logo novas luzes nascem a partir da aproximação da garçonete. São dois cafés e – você quer comer alguma coisa? Ela não estava com fome. Até estava um pouquinho mas acaba ficando enjoada ao comer entre as refeições. Aqui também servem jantar, prefere? O olhar da garçonete começa a demonstrar irritação. As refeições são self-service. Alice se sentia muito à vontade. Um café está ótimo, sorriu. Olharam-se nos olhos pela primeira vez. As mãos dela são bonitas, as unhas cortadas rente, nenhum sinal de esmalte. Sobre a mesa também a cestinha de saches sobre a qual as vozes passavam. As mãos dele são grandes, os dedos crispados junto à borda. Falam de recordações que podem ser esperanças. Para o pessoal das mesas vizinhas são pai e filha. Talvez colegas de aula. O tempo entre os nascimentos não impediu a partilha de crepúsculos. Parques. Praças. Mesas de
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biblioteca. Música clássica e contemporânea. São parte do desejo de alegria que aceita o sofrimento e da viagem que implica em viajantes, não em destino. É uma moça linda. Realmente muito atraente e simpática. E que inteligência! Que sensibilidade! Com Beatrice essa ordem estava invertida. A sensibilidade como que legitimou a beleza. E havia o vínculo hoje indesejado, partilha de outra ordem, a sala de aula. As moças da mesa do lado não incluem agora sequer a possibilidade de serem professor e aluna. Savone teria gostado de saber. Precisa ainda acreditar que é um homem sábio e bom embora impedido de continuar lecionando por um mal-feito segundo todos indigno de um professor.

Foi à janela e viu a rua molhada. Um transeunte olha para cima e se assusta. Pensava que não ninguém morasse ali. Ele lembra como Alice o abraçou ao se despedirem. Algo tão inusitado e comovente. O vento sopra e as copas respondem. Lembra agora os sons da madrugada que horrorizaram a esposa. As

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paredes, a descarga de caixa e a pobreza em geral. Que não seja uma região respeitável é culpa também das associações de moradores da vizinhança nobre que para ali empurrou o albergue, donde se originou a licenciosidade, possivelmente. Pessoas que não tinham como voltar para as casas distantes, na periferia, a tempo de entrar no trabalho no dia seguinte. Dentre elas algumas mulheres com quem Savone eventualmente se unia para certificarse dos valores enraizados na carne da qual quase sempre a esposa parecia prescindir. Diferente do que ela supunha é a integridade que faz de alguém uma pessoa. A iniciação no ser que se desenvolve no sentido das primeiras descobertas. Não o entulhamento de informações sobre o que seja tudo e qualquer coisa. As elites teocráticas determinam a arquitetura mesoamericana mas sua essência é a simetria dura e rude da pedra crua e se esse tipo de elite que o expulsara agora o monitora (lembra ao fechar a janela) amanhã terão de admirar sua jovem – ser e tempo desenrolados como um tecido que exporá a beleza tanto no desenho da origem quanto na cor da busca. O
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avanço tecnológico reduzido a seu lugar – um acessório irrelevante se não houver pessoas de ponta os usando. Cheiro de amor entra pelo corredor. Insensatez do cio humano. Morre em si mesmo. A paixão autêntica faz desejo e amor permanecerem uma coisa só. Após a espera interminável a ponto de não mais se lembrar de onde estava e a quem esperava, ela está enfim ao lado dele. Espero que ele acredite que confio em sua pureza de intenção. Seguirão juntos pisando a pedra confiável que leva à rua. Espero que ela acredite na grandeza de algo que eu próprio não entendo muito bem. Ah! ela entendia sim mais até do que ele poderia supor. Intuição ou desespero. Era a época de sua vida em que enfim descobriu que um teto à noite não é tudo que se deva desejar graças ao malogro do casamento com Haimeard e um pouco à saudade de Meereshimmel. De tudo conservou a aspiração do poema perfeito. O desejo da inspiração que levasse ao poema perfeito. Algo de que se orgulhe nos momentos derradeiros. Que a motive. Entende portanto o que ele fala, diz. Está lisonjeada que ele a tenha notado.
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Sente-se rica e até feliz. O som da persiana responde ao vento que Savone não crê que tenha conhecido qualquer coisa parecida com felicidade e agora ele o repete para Alice. Antes de hoje eu tampouco, ela responde. Mas nenhum dos dois pensou num relacionamento romântico ou em sexo ou qualquer clichê que poderia se seguir e a moça à vontade e sábia era sem dúvida a mesma Alice e o homem rejuvenescido e tranqüilo era o mesmo professor. Acreditando um no outro no momento em que a luz – gelada embora o inverno tivesse passado e ainda estivessem no meio do dia – liquefizera-se em cacos à beira da cerca. Só assim prosseguiriam. Emana luz do arbítrio e a aura de santa não consegue evitar um espirro que entremete-se no som incerto dos passos que subitamente estaca. Parados diante da avenida. Vão para a casa dele sem qualquer consideração a respeito e sem qualquer dúvida há aí algo explicito. Do tamanho de uma fúria ancestral. Grandes pensadores e artistas dignificam a mitologia, não há lugar para o conservadorismo nos dias que correm. As mais longas ditaduras caem a
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partir de movimentos em redes sociais. O que será do planeta sem os recursos renováveis? A propósito: não foi para isso que ela veio. Muito menos para que aquele roçar casual explodisse em intimidades. Vi você. Li o que escreve. O que acredito com a razão necessita da liberdade de querer o querer e não saberia mais viver ou escrever como acredito. Decerto nem tempo mais terei. Estão desejosos de saber do que se trata exatamente aquele encontro. Quando pensa que não pode retomar um êxtase de onde estava – um trecho de livro, por exemplo – descobre em Alice um êxtase virtualmente desenvolvido. Em sua poesia há vida e arbítrio como jamais ele conhecera. Da possibilidade de ser bom segue-se a bondade. Da vontade o fazer. Na calçada manchada pela sombra das árvores alargam imperceptivelmente os passos como se tivessem pressa junto às varandas e vitrines. Mesinhas fora da sorveteria. Uma bicicleta alaranjada. O vermelho do semáforo. Reflexo do pôr-do-sol no espelho do automóvel. Toldos. Letreiros. Na calçada em que todos os tipos de passos se misturam, harmonizam-se
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com a trepidação dos caminhões. Em percussão que sobe e se embrenha neles até encontrar as batidas de um mesmo coração. O ser humano miserável diz respeito a não querermos verdadeiramente querer. É preciso mais que silêncio e solidão. Não um livro mas levantar-se após a leitura. Se ele fosse um sedutor sua decisão indicaria egoísmo. Ela não se sente coagida por magia ou vítima de encantamento. As narinas delicadas mostram a excitação da novidade. Dos novos rumos. Algo intrínseco a ela e ligado ao professor. Se encantamento houvesse seria o mesmo que a ligava às galáxias e às estrelas. Aprendera com ele assim. Sem discurso e sem prática. O que ele guardava, só ela poderia dispor.

À janela, disperso pelas lâmpadas, viu a chegada do vigia noturno. A temperatura agradável do inverno que ele tanto amava. Transição. O verão causticante chegando desnecessariamente cíclico como a morte inexoravelmente necessária. Desde que foi expulso da escola ficava perambulando pela

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casa, alternando afazeres domésticos. Agora ela iria aparecer ali. É importante que tenha boa opinião do lugar pois será a tendência da opinião que fará dele. Eretos num andar calcinado pelo entusiasmo súbito aos dois tão estranho, se aproximam. Não precisam qualquer representação social. As coisas se encaminharão. Motores. A música do conservatório próximo. Prédios sufocados pelo dia supõem semblantes fatigados e tensos, refratários a todo peso de luz e vida que o firmamento irradia. Professor, não sei o que se passa dentro de mim mas sei que tem a ver com o que passa dentro de você. Os extremos da idade. O tempo no que tem de mais personalizado.

Deitado relembra a visita sagrada nesses que são os únicos momentos sagrados que se permitem a um homem que ama a solidão e o silêncio. Doces frágeis madrugadas insones. Quando ela entrou as mãos dele suavam muito e a cabeça estava envolta na névoa da

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enxaqueca. Os passos dela são amenos e mesmo um soalho tão sonoro reduz o som a flocos de uma neve imaginada. Brilho andino à sala lúgubre. Vieste ter comigo. Alice intui o que isso representa e o cheiro dela é agora o cheiro da casa. Soubeste que era verdade uma verdade que ainda não conheço. O biombo tem desenhos estranhos que Savone nunca soube do que se tratavam. Ela diz que adora os kanjis. Ele hesita em dizer que não sabe o que são kanjis. Ela emenda: São esses ideogramas usados na escrita japonesa. Ah. Os do biombo. Ela lhe dá a mão esquerda que morna na sua o leva por prados lampejantes. O vizinho está tomando água na cozinha e escuta o murmúrio. Imagina só, o velhote com uma menina. Eles não ouvem e sobem a colina íngreme como se fosse a coisa mais plana do mundo. Ele não deveria fazer um esforço tal. Quem está dizendo isso? Não é esforço algum. Estava feliz depois de muito tempo. Talvez pela primeira vez na vida. Sobem, descem, correm, riem. Ela diz: O senhor tem uma linda casa. Ele desperta. Senta-se na cama, levanta. Só podia mesmo ser um sonho. Ou está vivendo um sonho. Onde
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estará ela agora? O professor a havia deixado onde as ruas são longas e estreitas como um rio e todas as formas ao redor figuras amanteigadas como os bonecos que o pai de Savone costumava lhe dar antes de subterfugir em momentos os mais inadequados. Era como um acordo tácito para que ficasse quietinho. Não dizer à mãe que ele subterfugiu. Subterfugiu é a palavra perfeita. Foi esse tipo de exemplo que teve e olha o homem generoso e fiel que se tornou. Na calma das madrugadas ele voltava aos lugares excelentes que subitamente teve de abandonar.

Tanto um quanto outro escapavam. Ela sabia de que. Sabia a quem amava e com quem se casou. Ele não sabia. Amor e casamento não eram palavras adequadas para definir qualquer coisa na vida dele. E todavia amainou a febre de Alice. Coisa que nem Meereshimmel em seus melhores momentos conseguiu. Não seria inverossímil que fossem aqueles vultos à sua volta anjos de sonho protegendo sua nova existência quase missionária?

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Em algum momento ela sentiu que ele estava chorando. Que ele estava chorando por dentro. Pode ter sido quando ele abriu a porta e eu vi toda a sala e a janela no lado oposto. É. Foi exatamente naquele momento. Mais tarde ela saberia que era ali que ele costumava ficar horas e horas. A casa de um homem, a porta fechada e nenhuma implicação. Cheiro de homem, de coisas de homem, de casa de homem. Agradeço por você ter vindo, Alice, gostaria de saber o que dizer agora, mas não sei. Tenho lido, buscado, pesquisado, tenho tentado entender. Chegara a ensaiar. Alice, eu. Sabe, queria. Quando vi você pela primeira vez. Branco branco. Branco. Alice... Alice... Inútil insistir. Tristeza. Frustração. De novo? Melhor não. Quem sabe então dizer a verdade toda. Que não sabe o que dizer. Mas há alguma coisa a dizer. A viver. Não para ele, não mais. Então. Leu livros e livros, ainda no sábado passei a tarde e um pedaço da noite na biblioteca e não descobri. Ela respondeu que sabia ser algo assim. Que ele estava chorando por dentro por ainda não saber, ela sabia mas não disse.
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Apenas sorriu e se sentou. Ele pegou um copo de água e colocou na frente dela. Estarei por perto quando você descobrir. Quando realmente souber. Estarei aqui quando precisar. Ele continuava chorando e rindo por dentro como se os fenômenos do dia estivessem se transportado todos para dentro dele. Tocou a mão dela quando soltou o copo. Olhou nos seus olhos. Há algo. Liberdade. Significado. Profundeza. Alturas. Levantar todas as manhãs. Mas não sabe ainda dizer o que é. É uma procura, não sabe do que. Eu sei – disse ela. Vem aqui na janela um pouco – ele pediu. Debruçaram-se. O sol se punha na vermelhidão do céu. Estavam próximos a ponto de sentirem a presença um do outro sem se tocarem. Ela nunca esquecerá esse momento. Será a primeira coisa que dirá à senhora na praça. Uma vez um professor pediu para que eu fosse em sua casa e ficamos debruçados na janela até a noite descer dos céus. A mulher olhará para ela sem mover um músculo que denotasse sua incredulidade. Precisava apenas falar. Foi ali que tudo começou se é que se pode dizer que tenha havido um início. Se é
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que não estava escrito. Foi a primeira e última casa em que ela viu uma lareira. O fogo teve seu papel para que a memória de Alice guardasse tamanha intensidade. Como se fosse ontem, disse ela. A mulher sorriu e disse que era uma bela história.

Conforme a voz estão aterrissando em meio à calma teatral do ambiente temperado produzido sob o som das turbinas. Diferente e igual entre os demais passageiros ela procura fazer as coisas de acordo com os demais. Permita-me que eu te ajude, diz uma outra aeromoça. Ela sorri. Afinal não está tão só. Uma amiga de infância vela por ela todo o tempo das nove horas ao longo da viagem. Quanto a ele chegara à cidade no dia anterior. Não fala o idioma local portanto pode se dar ao luxo de enfim parar de estudar e trabalhar como sempre sonhou. Ajudaria o pai. Sobre a bicicleta sente grande alegria entre as árvores do parque. A humanidade não poderia ser assim feliz? Ela estava inquieta. Um amigo lhe

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disse que a tranquilidade contém um pouco de felicidade. Esse tanto ela não usufrui. Ao telefone manuseia sua agenda, ansiosa. Uma amiga recente. No começo do inverno, nas longas noites de sua procura, lá está ele ao gélido luar perguntando e correndo ao pensar tê-la visto. Quem está entre um lugar e outro sem ciência de como as coisas se constroem e cristalizam, sozinho, sem esse amparo geralmente falso que são os outros, de onde menos espera aparece a paz. Está aqui agora na esperança de uma cidade nova. O hoje finalmente sendo também amanhã. O doce chegar. Não estará mais procurando; saberão do que ele é capaz. Precisa agora comer alguma coisa. Um sanduíche com um refrigerante bastará. A tranqüilidade também pode ser a não estarmos prontos para o inesperado. Os murros na porta da amiga. O namorado violento. Por favor, ele não deve saber que estou em casa. A progressão das batidas repercutindo no coração. Esconda-se, diz a amiga. Ela o faz atrás do horror de testemunha.
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O rapaz está deslumbrado com a casa do tio. Da vidraça do andar dá para ver toda a cidade, ou quase. Gosta dessa hora da tarde em que a vida se amplia em torno abrigando o tempo e o lugar como se estivessem dentro e nos pertencessem. Um anoitecer iluminado, oriental, de calçadas limpas, diálogos chiados e prédios baixos não distantes das praças do shopping. Que céu! Não há nada semelhante em sua vila. Acho que a tal sala onde guardam as bicicletas é por aqui, pensa ele enquanto imagina quanto o tio pagará de aluguel. Nesses passos escuta os gritos. Os mesmos que a recém-chegada escuta, do closet. Se outros no andar estavam ouvindo, fingiram que não. Um longo percurso até perceber de onde vinham. Gritos são rasgos na alma. Quando se aproxima, o casal está saindo. O namorado leva a jovem para o carro. Entre ameaças e juras de amor chegarão à joalheria. Chocado e sem ação ele percebe: ainda há alguém no apartamento. Está chorando. Como soube? Precisava saber alguma coisa naquela cidade. Era seu jeito de seguir vivendo. Curioso, alguns
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diziam. Ele preferia pensar que para se agir no mundo é preciso estar atento. Mas não agiu quando viu a jovem visivelmente oprimida quase arrastada para o elevador. Agora tem outra chance. Ela escuta as batidas e instintivamente se apavora mas logo entende que é outra pessoa. Desculpe, ele diz quando ela abre. É que lhe pareceu haver alguém ali chorando. Disse isso percebendo que era ela mesma. Suspiro. Silêncio. O que aconteceu? Após usufruir cada detalhe da dicção da professora cujas entonações evocam anjos, sabe que ela acabara de chegar. Veio de avião. Para a casa da amiga. Fazia um treinamento numa empresa de aviação. Mal chegara o namorado apareceu, sabe, justamente quando ela estava me contando que precisava descobrir um meio de se livrar dele para voltar a viver. A professora disse isso sem perceber que falava de si mesma. Precisava encontrar alguém com quem partilhar a vida. Sentia-se insuportavelmente sozinha. Lamentava ter magoado Sonja com seu marido. Não sabia. Um homem tão bom. Depois dele ninguém. Caso tivesse dito o rapaz teria entendido pois sentia
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o mesmo. Acreditava que esse acréscimo de um ser feminino ao homem justando com outra parte de si mesmo consolida uma sabedoria que, como diria o pai, só os deuses possuem. Talvez nem mesmo os deuses. O que farão agora? O elevador pára no andar de cima. Um toque de campainha. Amor, esqueci a chave! Não: dois, três toques. No segundo eles já não escutam.

No dia em que chegou à cidade, estava muito abatida. Alguém que gastou todas as forças sobrevivendo socialmente em meio a homens e mulheres. Dizem que isso é o normal. É dizer que ela não é normal. Naquele dia devia morrer, sozinha como tinha que ser; sozinha como sempre viveu. Uma mulher ainda bela. Alguns dirão ainda jovem. Uma mulher com um passado. Cujo futuro não compartilhará com os contemporâneos. Entrando com a criança pela avenida principal da pequena cidade irradia placidez. Olha tudo como se nunca tivesse visto nada. Carros. Casas. Pessoas. O céu e o sol. As

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árvores. Uma igreja. A velha senhora lhe fala sobre a beleza do momento impregnado do ar matinal do início de primavera. Estavam sentadas no mesmo banco. A menina brincava pela praça. Conta a história de sua vida. Pela primeira vez o fazia. As omissões que lhe permitiam enriquecer a trama não eram propositais. Algumas coisas esquecera; outras não julgava relevantes. Não disse, por exemplo, que Bianca não era sua filha. É uma bela história, minha filha. Alice sorriu. Sempre esperou ouvir que a sua vida dava uma bela história muito mais que escrever um poema sobre uma. Ao atravessar a rua se deteve. Olhando-a já de longe a mulher pensou Que linda moça. Pena que um tantinho mentirosa. Talvez nem regule direito. Mas a beleza é inegável. E até a simpatia, a sagacidade. Atravessou. A mão bem pegada à mãozinha. Passará logo na loja e lhe comprará o presente pelos sete anos. Sente-se quase normal. A senhora deve ter pensado que ela não batia muito bem e decerto inventara a maior parte daquelas coisas. Capaz. Estar na casa de um homem, dormir sob o mesmo teto e
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nada acontecer. Em meio à saída de escola e de expediente, se dava o que acontecia com Savone de madrugada. Ver a vida com uma grandeza que a maior parte das pessoas desconhece. O reconhecimento de algo que precisa ser desenvolvido a partir do êxtase, não desvanecer ou amornar. Um carro assovia. Ela riu ao pensar não ter mais idade mas a insistência do assovio repetiu que sim. Mais talvez do que quando muito jovem. A menina perguntou: Tia, por que ele está assoviando? Alice olhou-a e viu Sonja e o ônibus e a paisagem correndo à janela, meu Deus, como o tempo passa.

Chegou ao apartamento de Meereshimmel. Achou que era essencialmente alívio o que a entorpecia ali parada vendo-se no espelho branca como um fantasma e logo não mais se vendo mas a ele, sólido na frente dela. Ocultando-a de si mesma e começando a se revelar. Mais que alívio. Para sempre. Tardou um tantinho e sacudiu a cabeça

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imperceptivelmente ao tomar consciência da respiração de Bianca a seu lado. É tarde. Vou perder a hora. Nunca foi santa, não é o que pediu a Deus. Mas leal sim. Bem, estou pronta. Vamos, Bianca. O metrô sempre cheio. Rostos amargos ao redor. A vida é trabalho, não é isso? A rua florida. O porteiro lhe dirige os olhares de sempre e não abre o portão. Senhora Martha? Sou eu, disse ao interfone e a porta se abriu. Era mais que alívio, pensou ao esperar ao elevador. E o que senti quando me deu aquele tapa estava longe de raiva. Faz tanto tempo. Como o tempo passa, ainda pensava quando abriu a porta já no andar da senhora Martha Pöbel. Então o senhor Pöbel entrou no prédio. Esquecera as chaves. Ainda ouvia o gemido enferrujado da dobradiça quando deparou com a nova empregada e as lembranças de ambos se fundiram numa mesma memória a princípio abrasada, logo serena. Tudo se esvazia com o tempo. Ainda assim. Instantes em que comungaram as mesmas imagens. Uma mulher vivida agora. Ele tinha sido mesmo um homem atraente? O que ontem era uma tentação para
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a adolescente e para o homem maduro se tornara ecos distantes da carne hoje nos dois amortecida. O sangue em mornos labirintos. Quando a viu, Meu Deus, pensou, não posso mais viver assim. E como os olhos de Alice menina estão distantes ele imagina que ali existe apenas o seu problema e não conseguirá evitar. Passa por esses conflitos e a segurança material os alimenta embora se julgue maduro e seja tido como um exemplo de sabedoria. A jovem do mês anterior estava certa quando o alertou quase como se estivesse vendo a situação de fora. Você é um homem bom e acabará arruinando sua vida porque é o que as pessoas fazem, ninguém usufrui de sua bondade mas todos estarão a postos para o acusar. E mulheres como eu gosto de pensar que sou estarão na linha de frente, não haverá misericórdia. Estava certa e não estava. A presença da empregada o declarava. Alice era toda bondade e talvez estivesse até grata por ter sido Darken e não um cafajeste, que à época não saberia discernir.

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Quando o despertador tocou a cidade azul com pontos amarelos apareceu na janela. Parou a campainha com a mão direita azul como o quarto. O silêncio abriga a respiração e as pombas. As mãos pousam no rosto e os dedos nos olhos em meio a um bocejo contido, movimentos pelos quais Darken, pela primeira vez acordando a seu lado, se apaixonara – pois até ali ainda não tivera tempo de entender o que havia acontecido. Como a seduzira tão facilmente. Ele que nunca fora bom nesse tipo de coisa, apesar das tentações, graças a Deus. Ela aproximou a face da janela como um cãozinho sente a chuva para captar a lembrança. Adolescência, época de divindades e bestas. Mais tarde na porta do apartamento, olhando a empregada, ele percebe o quanto ela envelheceu. Talvez mais que ele. O quanto deve ter sofrido. Se é que a dor envelhece. Está pensativa agora, sentada na cama. Cedera tão facilmente. Mas faz tanto tempo. Não há mais virgindade mas sim, o sangue.

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Sim. Cedi fácil demais. Como era ingênua! Um dia mais cedo ou mais tarde todos pensamos assim. Os maus e os bons. Todos atribuem à passagem do tempo essa duvidosa virtude de nos tornar realistas. Configuração impressionante em abrangência. Entreolham-se e retornam ainda outra vez à mesma lembrança. Com poucas modificações foi a cena do amanhecer de hoje. A cidade azul. O quarto azul. Alice esfregando os olhos. Ele se apaixonara. O que até ali era um vício (há controvérsia quanto a isso pois aqui não haverá qualquer síndrome na abstinência, antes um desconhecido bem-estar) se cristalizou no fundo dessa xícara, a alma. Depois naquela manhã Alice saiu de casa e entrou no azul mais claro cada vez, de pontos amarelos menos brilhantes cada vez. Levava Bianca meio adormecida nos braços. Os passos ecoam na calçada como um reloginho ignorado. A cidade não é grande mas famosa pela qualidade de vida. Uma das primeiras da região a ter uma creche. A tia deixa a menina com a outra tia. Deixa, com o coração apertado. Nesse momento ela é a mãe, com todos os
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direitos e todas as dores. Bianca despertou e está chorando. Alice aprendeu que é melhor que Gracile a acalme. Não, não; não chore. Mamãe virá te buscar de tardinha, você sabe. Hoje tem aquele papá que você gosta. Hoje a gente vai brincar de. Uma vez Gracile imaginou uma criança dela. Não. Do jeito que era desastrada com as próprias coisas, o que não aprontaria. Um bebê! Tinha medo só de imaginar. O namorado também deixou claro que não queria. As crianças dos outros passaram a bastar. Encarou com valentia esse último tabu: era uma mulher bonita que amava crianças mas não queria ser mãe e ponto. Ainda jovem e nem mais tão desastrada porém nunca mais gostou tanto de alguém a esse ponto. Depois que soube que ele havia morrido, desistiu de formar família. Eram a sua família ali na creche.

Alice aperta o botão do interfone outra vez e agora Martha atende e ela entra. Depois o senhor Pöbel. Ela acha ao vê-lo que está envelhecida pois ele não mudou nada. O que

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foi querido, você voltou? Esquecera as chaves do escritório. O carro amassado. A mulher grávida. A jovem mãe. É de você que Martha fala. De como é uma mulher virtuosa. Uma mãe extremada. De você, imagine. Se ela soubesse. Mas aí está você em silêncio, virtuosa sem dúvida. Porque sabe a essa altura de que eu tenho condições perfeitas para ser vítima de chantagem. E aqui estou em silêncio te dizendo que sei que não fará. Está em seus olhos. Aliás o olhar de Alice está mudado, pensa Darken. Com ela aprendeu que a impotência pode ser circunstancial e quanto a partir de então economizou em comprimidos e poupou a saúde. Pela aparência fogosa de Martha e pelas revistas femininas espalhadas pela casa ensinando a como obter mais prazer, pensa Alice, ele sem dúvida deve ter se curado. Pode ser porque da primeira vez tenham tomado muito vinho. Meu Deus, há quanto tempo!... Estava com a mesma roupa do dia há muito tempo, pensou ao abaixar a cabeça no sorriso tímido. Pediu licença e foi para os fundos do apartamento. Sim, o tempo passou. Sua passagem está escrita na gola puída da bela
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blusa quando ainda branca e nas cores não mais vivas do xadrez da saia. Com essa constatação do tempo às vezes vem o medo mas ao deixar-se sentir e não temer o temor nasce a felicidade que permite tristezas e angústias.

A mesa lembra um lago. O sol na torneira do tanque transforma a lágrima em gota de orvalho. De passagem, pôs água para ferver. Faltam cheiros àquele mundo. A casa da senhora Martha é linda e asséptica como a própria patroa. Abre o pote de café. Aos poucos é sua casa, sua vida. Escapara do mundo e deixara de ser relevante onde estava ou como se sentia pois o sentimento é maleável e se ajusta à felicidade – não há outro nome a dar a esse movimento constante que, como a lua afeta as marés, o professor provocou. Mas o mar é o mar.

Não sabe onde começou. Súbito, de algum ponto de si mesma, de sua trajetória de vida, houve a destruição. Dos entulhos renasceu.
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Ora pássaro, ora fogo, ora mulher. A nova casa construída não do conceito de conforto mas da perda e do sacrifício. Das ruas em que andou. Das casas em que entrou para zelar. O brilho da mesa de café na cozinha. Um espelho em forma de L. Os armários luzentes guardam irrepreensíveis louças e talheres. Com grandes olhos atentos escuta as recomendações da senhora Martha. Não sabe mais quem foi um dia – um rosto que se esquece ao deixar o espelho. Ela própria foi uma casa com paredes espelhadas. Não sabe mais. Exceto por eventuais e inócuas referências. O primeiro amor. O beijo abissal. O homem. O pai. A filha (que é sobrinha). O que não foi destruído pelas tormentas é forte o bastante para servir de apoio no tempo que restar entre gozo e a agonia. A porta ecoa pela casa. O casal saiu. Na luz que entra há prenúncio de tempestade. Bianca tem medo de trovões. Um coração confrangido e logo um choro. Quarto de criança. Filha de Darken, imagine. Terá saído um bom pai? Levantar-se-á à noite para dar uma mamadeira ou ver a razão de um choro como outrora
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fantasiara? Caminha pelo corredor ressonante. Entra. Demora-se não muito, o tempo do choro parar. Deixará o jantar pronto. Deverá ser reaquecido se vierem almoçar, diz no bilhete. Amanhã precisa faltar.

Sentada à escrivaninha, um coque de cabelos negros luzidios contra as fotos iluminadas no mural, ela via os registros inelutáveis dos momentos com Meereshimmel em seus passeios de bicicleta no parque e pelas ruas planas ao redor de onde era possível sentir a refulgência miúda da miríade de pontos solares nas águas do lago em meio a bilhetes e contas e canhotos de entradas de cinema que ela fixava com a paciência do novo ser herdado após os tempos maus enquanto a porta se abria e em seguida novamente se ouvia o ruído acompanhado de um leve tremor nos papéis pelo qual ela soube que ele trazia mais uma caixa de livros para o apartamento batido pelo sol da manhã segurando-a com as mãos e equilibrando-se em um pé para

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amortecer a batida e juntando ao som seu próprio gemido numa manobra que aos ouvidos dela soava altamente erótica e as fotos eram vivificadas, renovadas por câmera mental muito mais confiável, infalível como o próprio sorriso de Alice ao agradecer. Acho que são todos, ela disse, só não sei onde poderemos colocar, prevendo que no dia seguinte uma loja de móveis bateria à porta para entregar estantes novas, exatamente no que ele pensava ao se postar diante do ventilador, o suor gelado lembrando muito seus mal-estares porém assim era agradável, entendendo mais uma vez além do testemunho da nova vida que deveriam começar a partir daquela noite que o abismo e o paraíso estão muito mais próximos do que se imagina, o que será confirmado quando ela se afastar do mural e levantar e se aproximar para se sentar ao lado dele na cama dizendo-lhe o quanto ele cheira bem ao que naturalmente envaidecido ele projetará também nas palavras o óbvio, estava todo suado, as mãos delas dentro da camiseta sentindo a afirmação, melando-se nela, insistindo que não precisa quando ele diz que
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vai tomar um banho antes, não precisa, repete, fechando a cara de brincadeira num ar teimoso que se tornava incompreensivelmente feliz ao alcançar alguma coisa sob o moletom uma vez que ele também levara a própria mão à paisagem anoitecida sob a calcinha como uma terra a ser preparada para a época do plantio sob os intermináveis temporais da juventude que parecem se alongar quando a juventude se aproxima do final como a dizerem-se agora, agora porque amanhã poderá ser muito tarde, ou talvez até nem fosse uma possibilidade temida mas uma certeza com a qual aprenderam a conviver, o dedo ameaçando alguma coisa mais licenciosa mas se mantendo romântico em meio às risadas de ambos. Sonja era a casa na rocha mas se Alice não foi jamais a tempestade isso se deu não por esses fortes alicerces mas porque ela era apenas a flagrância perfeita de uma liberdade segura em algum lugar fora do mundo. Que não só não oferecia perigo à integridade do ser que Meereshimmel era mas permitiu que ele o chegasse a ser numa plenitude sem ela impensável. Quem saberá amanhã se esses
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foram os dias da plenitude deles, o que será atestado por vizinhos como as risadas e os gritos, os gemidos que desde a batida da porta haviam se transportado para uma outra, imensurável e – romântica ou obscena? – dimensão? Provavelmente nem uma coisa nem outra. Apenas um momento de amor que como qualquer outro momento legítimo de amor pode ser breve e todavia jamais será destruído.

A caminho da creche Alice se deteve numa esquina esperando a passagem de um caminhão. Nunca vira aquela casa. Uma igreja. Como se multiplicavam! A verdade que liberta não é religiosa. Soube-o por meio do professor porque sempre o soubera. O caminho é como ruas assim dobrando nas esquinas mais improváveis por obra da mão do trânsito ou da hora do compromisso. De súbito eis o momento crucial até ali clandestino rebentando como a onda que cresce demais e assim tarda para quebrar o tempo proporcional à sua grandeza

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ocultando o horizonte para devolvê-lo mais belo e imponderável – o instante vivo que nasce magnífico de seu recôndito em cada um, atrevido porque indispensável ainda que por tanto tempo sua ausência não tenha sido sentida. Faminto, primitivo e brando. Pacificador. A revelação se dá junto ao vigor e à inocência, ao espanto, como dizia o professor a quem o ator na capa desse filme tanto lembra. Gostaria mas não pode alugar o dvd. Devia comprar um aparelho. Sempre sobra um tempinho em seu dia cheio. A devolução no dia seguinte é que é o problema mas dá para copiar e ficar com a mídia para uso pessoal, ainda não é crime, crime é o preço que o comércio do entretenimento pratica. Entretenimento? Um filme assim denso parece próximo desse predicado que faz com que a morte adormecida se alastre até o ponto em que tudo se encontre embebido da noção mais nítida de transitoriedade. Em última análise, a própria ciência de tudo em que consiste a vida – o contrário de entretenimento portanto, pensava, quando o olhar do atendente da loja a fez seguir e sem perceber apressar o passo –
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tipo da resposta inconsciente que o corpo dá a uma sensação ainda vaga. Um desejo anterior à vontade. É melhor pôr Bianca para dormir e descansar.

Que poder concede essa tranqüilidade em hora terrível? Por que ainda ama, como se não tivesse vivido numa esfera acima inclusive do amor? A dimensão em que voltando de um sonho no qual se morreu em pleno êxtase da carne continua-se vivendo sem que o sonho nos abandone. Êxtase! Trevas e sombras. Gemidos. Fala quieta dos instantes diários com a ultravida! Meereshimmel a via dormir naquela manhã. Passou os dedos na mecha de seus cabelos tirando-a de sua testa. Sonha os mais doces sonhos. Quem poderá dizer que não sejam doces os sonhos em que já não é neste mundo que se vive e num momento de arrebatamento se trocou de domínio? Ele a amava. Amava como não imaginava ser possível. Pensando a princípio que houve um mal-entendido quando olhou para ela, dormindo. Descobriu nessa segunda noite que

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precederá a mudança o que foi abandonado na primeira quando a abordou sem impedir que buscasse a guarida de Sonja, impraticável depois daquele beijo. Mas quem descobriu? Talvez o professor Savone com o discernimento que nem seria preciso ao ouvir de um ou de outro o episódio. Então o crepúsculo à janela se tornou agonizante e febril, peremptória incumbência. Crepúsculo – o mesmo do sonho de Alice – cheirando a húmus e menina. Ali no solo fértil do desejo apaziguado; na proximidade do que não estava afinal tão longe; na sabedoria da convalescença mais pura. A luz morna no quarto traceja o rosto sereno que guarda o gozo e a morte. Os lábios vaporosos e a frase ininteligível. Ela começa a se espreguiçar. Sem qualquer resquício de tristeza ou morbidez, ainda adormecida. Ele, que à janela se exercitava, aproxima-se. Alice? Das profundezas de um mar improvável chegaram as vozes. Ela se assusta num primeiro momento. Depois escuta um som familiar e sorri aliviada. Nos dias que se seguiram, as vozes voltam. Permanecem. Em cada crepúsculo devolvem o sonho em sua
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extraordinária imprecisão. Chegarei um dia a pensar que vivi esse momento? que ouvi de fato essas vozes? que estas lágrimas fazem sentido? Isso ela pensou ao sair da casa de Darken e Martha. Nem precisa responder. A paz encontrada tinha a ver com o sonho, as vozes, com Meereshimmel e Savone, com os gritos do passado que acusavam o mundo e a benignidade com que o perdoou.

Vive nesse apartamento há dois anos e meio. Privilegiada. Escapou da sorte infame das pessoas que trabalham muito e moram mal. É a parte do dia que anseia. Recostar a cabeça no travesseiro e relaxar. Cresce do passado essa ansiada hora solitária, única que restou desejada pois não quero mais senão calar e estar só, embora moça, para ser uma com o estalar da madeira no calor e ninguém na humanidade distraída e facilmente desviada do singular jardim onde a criança não cresce e o mundo que se alarga não termina. A respiração da menina a seu lado acompanha os pensamentos ondulados pelo colchão. Seu

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mundo anterior está destruído, o que tem por bem. Ela igualmente. Não mudou: morreu. Precisou. De outra forma, como ajustar sua juventude à sabedoria que provém da passagem do tempo? O mundo e seu mundo se tornaram uma coisa só. A vida e a morte. A senhora Martha ao revelar a doença de Darken e seu sofrimento permitiu um pensamento até então interdito. Sabia da gravidade do estado da mãe e do que causava em seu pai mas agora está nessa dimensão de alma em que se refletem as luzes de uma nova consciência, como o sol numa casa de praia em que as imensas janelas estão todas abertas. Podia ser feliz. Podia ser qualquer coisa apesar da dor humana, que era dela também. Ali estava o segredo. Superar essa sensibilidade mórbida que nobre se imagina por doer-se pela dor de outrem. Tem acaso prazer no prazer de outrem? Imagina quão grande pode ser esse prazer numa alma liberta? Não tinha necessidade de compreender para viver. O vizinho grita que está com a razão. A mulher devolve a justificativa perfeita para agir como agiu. O vento levanta as cortinas e na janela
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nasce o céu noturno. Alguém canta na rua. Se menosprezada fugiu dos homens, de um homem recebeu de volta o fascínio de viver. Antes do êxtase, o temor. No silêncio do adormecer, sabe. Depois de muito tempo entre os homens a companhia de um único homem permitiu que ficasse enfim a sós consigo mesma.

Ananda saiu do hospital faz sete dias e Öffner ainda não passa de uma criança assustada. Que alívio ter ela sobrevivido. Dizem que foi um milagre. Pouco ouve a respeito das razões que a teriam levado àquele ato. Levantou. É quase de manhã mas não há indício exceto talvez pelo eco do copo na pia e indecisos passos no corredor. Terá ela voltado ao trabalho, imagina. Ouve o seu nome. Öffner? Sai e a escuridão torna-se mais vívida e tolerável embora não menos densa de quando a realidade se destaca do pavor. As flores lentamente tornam-se visíveis; o aroma delas, a atmosfera respirada. São as flores que

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ladeavam o caminho pelo qual passaram naquele primeiro dia. Ela pergunta e ele responde com um sorriso indulgente. Demorei? A mão toca-lhe no ombro. Suave e fria, branca a não ser pelas veiazinhas azuis. Imerso no mesmo silêncio que com ela sonhara, agora porém continua ali, filha do sonho e parte mais pulsante da vigília. O saber de Ananda era o seu. Transmitia o que ao longo da vida adquiriu. A divisão entre os apartamentos perde a razão de ser quando voltam da caminhada quase ao meio-dia. Brilham os corpos sob as camisas finas. Há uma biografia e está em seus lábios, uma nova suscetibilidade na ponta de sua língua. O universo recluso em seus dedos entre vocábulos inauditos. Não esperar que a luz seja estável em seu movimento pois num momento você vai a seu encontro e noutro retira-se no sentido inverso. O mesmo movimento e a mesma luz – a luz não depende dessa sucção ou desse polimento. Um olho mágico. Posso por isso decifrar o mistério desse muro erguido do nada, sei o

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segredo, está aqui, na magia de nosso contato. Mas estou inquieto com a forma como seu contorno se torna fosco e a aura das flores imerge em denso nevoeiro. Se evade e eu não consigo pensar o que devo nem dizer a palavra. Ananda, flor de luz pela qual reduzi minha vida a uma doce escravidão. Não pode partir assim e me deixar órfão outra vez. Caso o faça, insistirei no pensamento que foi nosso? Ananda, Ananda. Öffner ouve a alma lacerada na despedida. Espaço e tempo se expandem. É a fuga da noite que se transformará em realidade no apartamento vizinho. De joelhos. Ananda. Santa, inocente. Esses dedos deveriam ser os meus a retirar santidade do ícone. Essa boca deveria ser a minha a buscar as gotas entre os bancos do templo espargidas. Engolir o poder eterno desse desvio para o azul. Um olho mágico cruel. Os pais estão chegando agora. Continuam naturalmente arrasados. Quem dera pudesse dar-lhes algum consolo, desse que ela própria me deu. Soube que havia muitos amigos na igreja mas nunca onde foram jogadas as cinzas. Não faria a menor diferença.
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Mal pisa e sim flutua sobre o tapete escurecido quando os dedos gordinhos são guiados aos sapatos desertos. Brancos de fivelas prateadas. Que recebem com cerimônia os pés pelo sono enlanguescidos. Ao ajustarem a meia elástica as mãos acarinham a panturrilha sob a luz que reconhece o forro multicolorido da poltrona. Sem hesitação pisaram esses pés pela primeira vez aquela casa – mais tarde porém quão receosos. Dedos no botão do velho aparelho. Cortadas rente unhas que não mais se pintam. Música clássica calma envolve a criança deitada sobre a cama. Contorno dos móveis. Silhueta dourada e cheia no espelho. O último e casto botão sela o pacto com o dia exceto pela alça íntima que insiste antes que chame a menina. Bianca, está na hora. Bianca, filhinha, vou fazer o café. Alonga o pescoço. Em meio ao amanhecer do bairro onde Meereshimmel não mais habita, estava consumado o reencontro.

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A anágua retrata uma época e lisas ondulações brilhantes acarinham as pernas. Bolinhas multicores e linhas de pesca. Não poderia reclamar jamais da sorte, não poderia. Teve por alguns meses consigo o verdadeiro amor – o verdadeiro amor! Lícito! Não poderia se queixar. Não bastasse, num repente, o professor. Não abandonou a vida, transformoua.

Recosta-se e abre o livro. Fechou os olhos. Arfava. A respiração a enchia de vida exterior. O ar cortado pelas cigarras recém-chegadas do fundo da terra dividia a madrugada embebida em barulho de mar. Tornava-a multíplice em sua lucidez dilacerada. O mar ao longe. Parece aqui. Dentro do quarto. Nos pensamentos relativos ao momento imediato imprimiu-se um colorido digressivo. No pio da ave noturna há um desenho aos pés da freira no colégio; o raio lunar em que nasce o cântico das contrações retroage à primeira varanda ao luar, à
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madrugada em que a menina sai à luz vinda do ventre de sua mãe. E como ouvisse do lado de fora céleres os morcegos, ao som da inspiração profunda ansiou a antiga liberdade. Coisas que ela mesma poderia ter escrito.

Meereshimmel preferia que ela não tivesse vindo. Sabe agora a diferença entre amor e paixão e onde entra o sexo num caso e noutro. Mas ela veio. O que pode fazer? Cerca de um ano depois que a encontrou vagando na cidade à procurando da amiga que mal conhecia, sem ter para onde ir. Agora tem. Ao menos acreditou que sim e ali estava porque escutou o pulsar do próprio coração. Está escrito nas paredes relampejadas de sombras. O marido morrera há não muito tempo e ela se sentia de certo modo culpada. Há não muito tempo Meereshimmel soube do caso. Impediuse de qualquer palavra de acusação. Se ela mesma não tivesse pedido o divórcio ainda estariam juntos. Separados, estavam garantidos os seus direitos. Até porque ela não usaria o dinheiro para superfluidades e luxo.

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Paixão não se enquadra aqui. O homem com quem se envolveu (culpa que o próprio Meereshimmel se atribuía) na consumação de um sentimento antigo – seu próprio irmão – estava morto. De resto, se alegrava em dar à ex-companheira uma vida digna. Um sentimento verdadeiro um dia os uniu. Um dia. Hoje, a porta do elevador se abre. A porta espelhada mostra a jovem mulher que ao reflexo dele se uniu. Metalino som profético. Em um ano quanta coisa aconteceu. Preferia que ela não tivesse vindo. Agora beija em desespero a sua testa. Alfazema não mais gardênia e um olhar cuja experiência não se acresce de mediocridade. Em tudo desde então também Alice esperava o olhar de Meereshimmel. Como me achou aqui ou perguntas tais são irrelevantes. Esperava teu olhar e aqui está. Não devia ter vindo mas veio e se alegrará por ela ter vindo e pelo tempo em que ele ainda viver estarão juntos.

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Um olhar sobre ela atento. Continuou. Falou então sobre Ernesto Savone. Ele espera que eu escreva com o corpo todo. Com toda a alma. Do jeito que segundo ele eu vivo. Que minha escrita seja uma espécie de confissão da humanidade, de uma parte da humanidade. É alguma coisa em que acredita embora seu próprio corpo não o confirme. Agora – embora creia ainda – não há mais tempo. Arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça, pediu-me que fizesse. Seu olhar é doce e parece saber mais de mim do que seria possível. Digo-lhe que um dia também acreditei em algo assim, um ministério. Não mais? – ele pergunta. Não sei o que responder. Estávamos jantando. Ele acabara de pôr a panela na mesa e se sentar. Hoje ando em busca talvez de uma resposta. Se dissesse que jamais deixei de intuir essa missão estaria confirmando a intuição dele que eu tentava impugnar. Disse-lhe de uma outra forma. Disse que esperava algo mais do que vivia e escrevia. Como se ao escrever vivesse e não pudesse viver se não escrevesse. Como se ao escrever de algum modo já estivesse morta. O olhar dele era atento como se eu fosse
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proclamar o sentido da vida. Mais tarde me diria que era isso mesmo. O sentido da vida para algumas pessoas. O sentido que tantos procuram na beleza, na arte, ou dele fogem por meio da distração ou do trabalho. O mundo não existe. O mundo consiste das pessoas e coisas que o compõem. Como elas o vêem. Naquela noite ele chegou a ensaiar esse argumento. Naquela noite seus filhos ainda viviam. Mencionou-os uma ou duas vezes de passagem. Mas por que procura essas coisas em mim? Na minha sombra. No meu olhar. Em partes de mim que nunca imaginei pudessem chamar a atenção de alguém. Nos nós de meus dedos. Na minha voz que escutava com quem escuta o mar. Eu sei porque assim passei a também a vê-lo e ouvi-lo. Não. Nunca houve qualquer outra intenção entre nós. Direi com isso que não havia um desejo? Havia sim um desejo. Não tinha relação com a atração com um fim bem definido e pelo qual em tudo nos enganamos dizendo coisas que não visam exceto a satisfação desse desejo. O desejo que havia, para permanecer, não devia ser satisfeito. “Mãe, eu não entendo”. Então,
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apesar de todo o amor, percebeu pela primeira vez que as diferenças precisam ser respeitadas tanto quanto mitigadas as afinidades. Não é questão de sentimento. Seu amor pelo pai dela era um sentimento autêntico mas diferia em que, exatamente? Também amava sua sombra precedida por passos igualmente amados. E o som de sua voz. E sim os nós de seus dedos. Mas esse amor era o amor cujo desejo para se renovar precisa morrer ao ser satisfeito.

Está deitada no escuro. Envolvem a madrugada os sons da manhã próxima. Não é possível divisar as estrelas. Pode realizar muitas coisas se não hesitar. Se partir logo. Mas o beijo na avó é indispensável, esperar que ela diga “Vá com Deus, sol da minha velhice”. Esse é agora seu desejo. Um trabalho gratificante. Um cotidiano estimado. Um sentido para a vida. Tudo vívido como uma pintura. Devem ser umas cinco e meia. Com sorte chegará com o sol ainda ameno. Não gosta de calor, definitivamente. É mais

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incapacitante do que sua enxaqueca. A estrada está rósea e reflexos a ladeiam de dourado. É uma velocidade boa para viajar e um alívio dirigir assim sozinha. Partindo, não voltando. Talvez por isso pareça ser tão independente: está sempre partindo para que alguém possa fazer algum outro juízo. Não demorou nada. Aqui está defronte a um hotel que parece adequado para a primeira noite. Só não esperava que o tempo fosse virar assim. Uma trovoada. Outra. Precisa correr. Um hotel antigo. De boa aparência. Posso ficar aqui a primeira noite, amanhã consigo uma casa. Não mais que um minuto na chuva. Quando entrou, encharcada, Hum Énigme falava com o porteiro. Ela chegou por detrás. Ele sentiu a umidade junto à abotoadura. A parte de trás do vestido de Beatrice está salpicada e ele vê que é por causa da sandália. Como quando se anda de bicicleta numa poça. Faz perguntas ao porteiro e acha que uma pessoa educada deveria ao menos ter pedido licença. Talvez ela o tenha feito. Ele estava distraído com a história da moça que chegaria

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para trabalhar no escritório da fábrica de móveis. Quando ele estava na sala de estar vendo o noticiário ela disse Boa noite. É o tipo de comportamento que ele exigia, não é? O que me trouxe aqui foi essa memória de coisas futuras que profetizava uma jovem assim solicitando minha atenção. Então eram mesmo fragmentos de passado que construíram a desconhecida imagem dela. Eu sabia. Eu sabia. Ela perguntou se ali costuma chover assim de repente e ele respondeu que sim, é uma característica da região. Então calaram-se. Resolveram juntos subir para os quartos. Os lábios dela são convincentes no silêncio quebrado apenas pelos cabos do elevador. Ele se encaminha para ver se realmente a chuva parou. Beatrice ainda não sabia que seria seu chefe e que assim que estivesse se estabelecido sua mulher viria também. Tudo o que sabia dele resumia-se no dorso cujos músculos eram visíveis sob a camisa e a pele queimada com que a luz da janela se chocava. Vira-se. O beijo até então contido. Há uma

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fronteira que os iniciados em Beatrice nunca passaram. Está ela disposta a que afinal aconteça. O que esse homem tem de tão especial para tanto? Há algo que ele não sabe bem. Toda sedução carrega uma nuance misteriosa. Diz a si mesmo que prefere não saber. Que seu casamento é sólido. Que é a primeira vez. O que não impede que o sentimento transborde limites determinados, apesar de insistir que ela é vulgar por ter se entregado tão facilmente. Beatrice prefere imaginar a lua lá fora enquanto ele dorme. Um dia inteiro. 24 horas. O tempo em que está ali. Parece uma eternidade. O amor e o trabalho são a estrutura da vida. Um mandamento divino partilhado por toda a terra. Uma coisa sagrada, talvez a única que ainda reste. Durante o café na mesa da cozinha quase caseira lá embaixo ela estará pensando no quanto havia de luz naquela proximidade de manhã. Uma luz avassaladora permeando sua insônia num momento em que deveria estar entorpecida e satisfeita mas não: estava desperta e ansiosa como se em si mesma houvesse um pouco
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daquela escuridão prestes a ser dissipada pelo amanhecer.

Digita a senha no caixa eletrônico. Devia ser mais cuidadosa, pensa, ao também manusear documentos na bolsa aberta. As preocupações mudam, apenas mudam, nunca terminam. Coisa humana. Cálices se erguem junto ao animal. Eros há de querer ali o de sempre? No aperto do rosto ou nos lábios que não resistem ela admirou como alguém passava do que queria à ação correspondente sem delongas com tamanha determinação. Nunca se imaginou tímida antes a ponto de esperar um milagre na cama mas agora nem uma coisa nem outra. Só outra cama. Ela pensa se de algum modo estimulou o desembaraço. Se exercia algum controle sobre ele ou se era exatamente o contrário. Disso dependia o auge dramático de não ter mais um centavo na bolsa. Pensar nos projetos que tinha. No espírito nobre. Cogitando todo tipo de trabalho altruísta sem o que não se sentiria realizada. O

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tempo cura tudo e transforma o que não pode curar. Transformou a maldição em benção. O sedutor egoísta do primeiro dia num homem generoso. Nesse segundo dia Meereshimmel não erguerá um brinde e sim a mão. Já estava louca. Menina má, mereceu. Menina boa, precisava. Não mais era contida pela normalidade. Um trem vagão de metrô com destino ao terminal. Algumas coisas mudam. Finalmente amava.

O reflexo dela trabalhando à janela interrompe o campo de visão através da janela no sentido das luzes da cidade. Buscava sem saber que buscava. O dom. Como hoje ainda ignorando em que exatamente consiste a não ser que tem a ver com vozes que se recusam a calar mesmo não sabendo exatamente o que dizer. Com mãos que tateiam e dedos que podem substituir a luz. É uma mulher única. Ele mal percebeu da primeira vez. A mulher por quem sempre procurou cuja não aparição implicou na sua aceitação de que era melhor estar só e só o confirmou após o casamento. E

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agora está ali de novo. E agora recebe na testa o seu beijo. Ali ela soube que deveria viver com ele. Não seria tanto tempo e a susteria nas épocas más do futuro. Seria transformada – ou curada? – pela lembrança do filho e pela sabedoria do pai. Ele estenderá a mão no leito de morte. Ela a apertará segurando-se à salvação. Não fale, dirá. Não se esforce. Mas sabe que chegou na hora. Savone vê a cena da porta do quarto. Um pungente sorriso. Olha para eles, para ela. Talvez entenda. Tem uma visão da sua semente, das árvores futuras, das asas, do coração da noite. Não há desinteresse nessa abnegação, precisa dela para sobreviver seus últimos meses. Não há desinteresse no desinteresse mas sempre algum interesse pessoal por sutil que seja envolvido. Aí está você. Savone ressuscitado. Mas tardará ainda um tempo. Por agora Meereshimmel e Alice se reencontram. Ele está divorciado, ela viúva. Beijam-se. Não se põe mais a questão se ela devia ou não estar ali. Está e estará por quase três anos. Durante esse tempo pouco escreverá. Nada de notas, não mais. Vez por
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outra ele entrará e ela estará diante do computador traduzindo alguma coisa para enviar antes da noite. Ela lhe pedirá apenas mais uns minutinhos com um sorriso irresistível e ele responderá que não se preocupe, que faça de conta que ele não chegou ainda contemplando o ar sério e sexy que o cabelo preso, o coque e a concentração no monitor lhe davam, não se esquecendo totalmente do avanço das negociações para a venda e todavia era como se já tivessem sido consumadas, a visão dela ali se perpetuando após a morte dele, sem preocupações materiais e portanto com tempo para a saudade que de algum modo o eternizaria enquanto ela vivesse. Quando chegar a hora sobre o assoalho reluzente iluminada abrirá os braços e aspirará o dia aérea na aura áurea dentro e em torno. Uma mulher como qualquer outra contra a opressão com a qual cooperava. Naturalmente não perceberá logo o paradoxo. Ao perceber precisa mudar. Nada de publicação ou de morte. Estarão juntos. Fases da lua após fases da lua. Beijos perfeitos se sucedendo. Dia após dia olhando para além dos dias. Êxtases
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interrompidos e retomados no tempo que para tudo há. Aonde irá: questão adiada. Sobre o viaduto respira fundo e olha a cidade. Tudo faz sentido ainda que não saiba tanto assim. Pirilampos no primeiro dia. A gota da primeira chuva de outono no rosto da estátua. Não vou mais chorar. Não tenho por que chorar. O frio e a chuva. Gostava do inverno por serem dias frios de sol. Não importa. É assim este ano. Não tenho porque reclamar. Haverá pirilampos quando chegarem. Chegará como sempre o tempo frio e seco Subiu a rua até a igreja e não vou trocar minha incredulidade por um teto e um prato de comida regado a um sermão sobre o amor de Deus que no fundo é igual ao dos homens. O homem andava ligeiramente adiante da menina. Tiraram juntos os casacos e num baile de tecidos esvoaçando deram um beijo. Ele colocará o agasalho na mochila e ela enrolará as mangas compridas na cintura e tornarão a se beijar com as ousadia das mãos livres. O trânsito está em seus pés. Um ônibus. Um caminhão. Um veiculo mais leve, desses que costumava amar. O casal retomou a caminhada de mãos dadas agora seguindo na
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direção do metrô. Um olha para o outro e ri e o outro devolve a risada. Jamais Haimeard e eu rimos na rua. Ela ergue a cabeça sobre a qual põe os óculos e ao levantar deixa no olhar dele apenas as luzes da cidade e as estrelas através da vidraça.

Se fosse há uns tempos iria tirar uma foto com o celular e postar na rede social para criar um significado. Agora, estar ali transcende essa presença. Hirta como o viaduto. A sombra se derrama na calçada e tinge as pedras do tênue acinzentado que faz a curva dos seios no tremor da blusa como um movimento de pintor. Está morena como nunca foi. Deliciosa, segundo o pedestre que passa por trás. A rua se alonga ante seus passos na descida iluminada. Depois de pegar Bianca irá para onde eles a levarem agora que os três homens estão mortos. Um pai que foi mais que isso para ela e seus dois filhos. Um dos quais faz com que ela ao amor enfim se atreva.

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Ali. Sobre a ponte. Vi o mundo que deixava e o por vir. Em pouco menos de meia-hora, como quem passa fotografias de uma mão para outra, pesquisei para saber os passos que deveria dar para encontrar Meereshimmel e o que diria. Caminhamos juntos pela noite deserta. Estávamos de braços dados e eu me sentia totalmente feliz. Não sentia qualquer tristeza pela morte de Haimeard. Um homem bom a quem seria sempre devedora. Mas eu não estava triste. Meereshimmel pouco falava e quando o fazia dizia coisas engraçadas, pelo menos me davam vontade de rir, e eu estava adorando rir, rir tanto, rir com tamanho prazer. Ele estava com a barba por fazer. Um detalhe que parecia muito para mim. Era outro homem. O mesmo mas agora o meu amor. Também ele ria e também o riso eu não conhecia em sua face. Tomamos refrigerantes e conversamos até cerca de meia-noite. Foi quando ele me falou de você, Bianca. Você estava com três anos. Não fique com raiva de sua mãe. Por que uma mulher seria necessariamente perversa por deixar a filha com o pai? Sei que ela

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voltaria pra você se não tivesse sido assassinada. Naquela manhã tomei um susto. Ouvi um barulho e não vi teu pai a meu lado. Ele tinha caído da cama. Rimos muito de novo. Ele ficou algum tempo estendido no assoalho e eu com a cabeça reclinada. Não falamos sobre o futuro, jamais falamos sobre o futuro. Tampouco sobre o passado. Um dia perguntei sobre como descobriu meu endereço para mandar aquele pequenino tablet. Disse que não adivinhou. Que deixou com a rapaz da lan-house para que entregasse para mim. Tinham meu endereço mas ele não queria que lhe dissessem. Você precisava deixar isso de lan-house, disse. Era verdade. Cansei de internet, pelo menos da internet como a transformaram, um substituto da vida, um exibicionismo coletivo, um lugar em que as relações são assim superficiais. Quem sou eu para que me sigam e saibam de meus pensamentos? se há algum que mereça, não será em meio à avalanche de entretenimentos, imagino. Em meio a essa implacável dispersão. Eu e você agora caminhando em silêncio após a cerimônia em
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que nos despedimos de Meereshimmel. Você tem nove anos e é uma menina saudável. Sinto que irei logo te perder para as mesmas tentações que na adolescência me tragaram. A moça escuta e sente medo da mulher que a criou. Prefere assim. Prefere o medo à apatia da sua geração. Sentir esse terror que a impulsiona do que simplesmente estagnar. Foi como se naquele dia tivesse sido retomado o dia em que procurava minha companheira de viagem para me hospedar por uns dias. Meu sorriso restaurado. Porque eu desaprendera de sorrir quando conheci o homem que seria meu marido ao esbarrarmos na saída da biblioteca e ter notado que estávamos os dois com um mesmo título nas mãos. Estava tão atormentada que não fui além de perceber mas afinal aprendi que afinidades não levam a grande coisa nos relacionamentos exceto aliás pela própria internet. Acontece, é claro, como o contrário acontece também. Cheguei a temer que se tratasse de um tarado ou coisa assim quando ele se encostou em mim no metrô. Olhei uma ou duas vezes e lá estava atrás de mim quando
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eu ia para a lan. Meu Deus, era o que faltava... Mas não. Ele foi muito gentil. Ofereceu-se para me acompanhar embora não quisesse subir quando sua mãe nos convidou. Entre essa noite e o dia em que jantamos passei uma noite com um homem que dizia me conhecer. De onde? Era um empresário que me vira entrar na lan-house quando ele saía. Um homem charmoso calado porque quando falava só falava em negócios, em como a Grécia era apenas a ponta do iceberg e tudo iria ruir cedo ou tarde, o perigo dos crescimento econômicos acompanhados de perspectivas desmedidas mas ninguém deixa de jogar na Bolsa por causa disso nem de gerar a euforia dos mercados por meios artificiais ou apostar no dinheiro como em tulipas. Que o mundo como o conhecemos pudesse mesmo ruir, pensava, que bom o mais cedo possível, assim cada um se vê diante de si mesmo e o pecado deixa de ter essa conotação despersonalizada de hoje quando há humor de mercado e as pessoas parecem que o perderam, que perderam a si próprias. Bianca pergunta se ela tornou a vê-lo, ao tal

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executivo, com olhos dum interesse que Alice podia imaginar.

Albert tornou a ver Alice. Como o mundo é pequeno, pensou ao vê-la atravessar a rua principal daquela cidade na praça em que conversara com a mulher. Albert? – disse sua mulher. Tenha respeito diante das crianças. É mesmo uma bela fêmeazinha. Mas olhe pra frente ou além de me humilhar ainda pode bater com esse carro num poste. Então Nastássia se arrependeu amargamente de ter renunciado a seus princípios e ter feito da aventura sensual uma brincadeira de casinha. O cotidiano tornara o atraente empresário (que a fizera perder noites e noites imaginando como o abordar) intoleravelmente enfadonho como ela é execrável em comparação à mulher deslumbrante que conheci e com que me casei. E para tê-la – pensava ainda ele ao escutar a voz que cortava seu olhar de ternura direcionado à moça vinda da praça – não desenvolvi o universo que me esperava na vida profissional. Olhou para Nastássia e sorriu ao

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reconhecer o quanto ela ainda era atraente. Ela a abaixou a cabeça ao certificar-se que no banco de trás as crianças dormiam. Pelo menos era uma razão legítima de baterem em algum poste.

Nunca disse nada do que te digo a ninguém. Falar contigo me faz feliz e agora vejo que não precisávamos ir além. Tudo está nessa correspondência. Estarmos juntos pouco acrescentou. Fazermos disso um hábito maculou o que era puro. Escrever para você, te enviar músicas e poemas, fez de mim alguém mais confiante. Amar você fisicamente e as conseqüências disso me jogaram de novo na depressão que quando você noivou com seu supervisor em muito se acentuou. Não há portanto remédio. Sei que me engano também com essa moça. Amanhã ou depois eu passarei para ela, se é que mesmo hoje represento alguma coisa. Com ela porém as coisas transcorrem de uma forma diferente, o

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que me dá uma leve esperança que seja diferente. Será na verdade diferente pois nada tenho mais a perder uma vez que não tenho mais nada. Mas além disso há uma busca mútua, o que não existia conosco. Você foi tudo para mim mas eu não era mais que um professor apaixonado que talvez a envaidecesse ou simplesmente achava patético, no que não estaria errada. Agora devo te dizer adeus. Espero que seja feliz, Beatrice. De nada me arrependo. Poderia ter evitado uma situação mas não todas. Fui feliz graças a você.

Sentou-se no parapeito largo. Onde? Talvez no hospital. As lembranças dessa época fugiam. A memória de seu corpo parece concordar. Sim no hospital. Ali ficou sabendo a verdade. Que não há uma verdade. Que não há o homem fixo sobre o qual nos debruçamos. Nem a veracidade definida que a passagem do tempo contraria. Não sabe quanto tempo ficou

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ali ao lado de Meereshimmel. Um relógio no corredor branco não leva a nenhum lugar porque as pessoas não são fixas e não se completam ou a chama da vida supõe não uma outra chama que a venha levar para o azul eterno mas ao contrário andam em círculos esses corredores brancos agora acinzentados quase negros pela luz apagada na noite chuvosa imaginando-se talvez a própria escuridão – o que será negado pela manhã ou pela eventual lâmpada da emergência na UTI –
apenas paredes guardando o cheiro de coisas que não apodrecem como talvez devessem, como seria talvez melhor, mas se mantém preservadas como uma dor que não será curada mas um analgésico a falseia e entrega ao sofredor a ilusão de que será feliz. Ele perdera de todo a virilidade após o

acidente. Que amor era aquele? A seu lado esteve satisfeita e de nada sentiu falta. Claro que não é verdade. O corpo se ressentia, algo a seu corpo faltava. Mas não a mim. E o que me faltava não era algo que pudesse receber de outro homem. Então ao se reclinar sobre ele percebeu que o professor havia entrado, como se todas as coisas estivessem ilustrando suas

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conversas. Tudo cheira a formol. Que fim para um homem que ansiou o aroma másculo de um amor verdadeiro escorrendo de seus dedos ainda há pouco exploradores! É o fim dele e mais cedo do que possa imaginar também o meu cujo sangue ainda corre quente sabe Deus por que misericórdia, talvez para que discorra num poema delirante sobre um mar inexistente exceto pela paixão louca que recusa a normalidade e o mal como normal, e o costume, e a conformação do século.

O cobertor quadriculado evoca a saia que uma vez cumpriu um papel na história deles. Ela aproxima o copo. Não há de ser nada grave. Ele é um homem forte, mais do que eu poderia imaginar. Nunca mais por exemplo o monstro assombrou como na primeira vez quando da tentativa de uma segunda. É outra vida. Agonizante? A desesperança assalta seu peito. O copo nos lábios de Meereshimmel. O que será da menina? Embora estivesse determinada a crer que ele se salvaria, imaginava a categórica possibilidade diante de seus olhos.

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Conforme ia fazer uma e outra coisa captava os fragmentos do filme na TV e se deu conta de que mesmo um filme comercial deixa lacunas onde pode se infiltrar a arte num pensamento criativo que as preencha. Tanto sono mas como dormir? Buscar. E ao encontrar nada ter. Ingenuer ligou para perguntar sobre o patrão. Um pai para ele. Como você está, amor? Onde você está? Não poderei ter contigo? A enfermeira havia entrado e trocava o soro. Quando desligou, devolveu o seu sorriso. Obrigado, Eña.

Não tinha mais vergonha. Nem mesmo evitou a declaração de amor no final como na adolescência fazia aos meninos. Não pensou se havia ou não alguma coisa em risco. A expressão serena em meio aos pesados dilemas perdura. Desliga o celular e olha o aparelho com ironia. Uma piscadela para a interlocutora. Os óculos embaçam de sono. É o que de melhor está agora a seu alcance. Mas e
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quanto à outra – pensou – tão castiça e inocente, insegura? Em algum momento terá a mesma sensação de liberdade? Uma aragem sinuosa a sua voz abrindo as silabas e derramando dentro delas pacíficos lagos. A tranqüilidade esperada ao longo de uma vida. Uma donzela para servir de amor. Fechou os olhos e não precisou esperar muito. Foi assim, disse à menina. O mar rumoreja em sinuosos movimentos cruzados. A voz amada. Mas e o sonho? De repente se deram conta por que estavam ali e se fez dia e silêncio exceto pelo mar rumorejando. A respiração de uma pela outra; a mão acolhedora que rodeava quase atingindo o outro lado; a luz fosca do dia; a necessidade de pensar no dia seguinte. Tudo o sonho contemplara. Uma mudança de atitude reflete imediatamente no mundo. Um dia enquanto esse mesmo sol iluminar a outra, sentirá na própria pele a angulação de seus raios como se concentrassem à flor de si um chamado irrevogável.

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Passado e futuro. O conhecimento que se segue à ingenuidade e logo será uma outra ignorância. A vida vivida e a vida esperada. A mesma vida. É que não tenho coragem de dizer tudo, pensa, ou talvez não saiba o que é tudo e se há um tudo, se tem a ver com tudo esse encontro na praia, combinado ao acordarem num sábado cheio de presságios. Quase não é preciso contar o sonho. Estão vivas no mesmo sentimento ou simplesmente porque estão vivas. Suas versaletes ainda fazem sentido num mundo conectado. Tudo é memória. Tudo é o significado de uma flor. Ah! Lembrança viva! Sentir-se viva, amada. Estrelas de cilício sob os pés. Vaguear na agonia e chegar ao descanso. Saber-se protegida, alimentada por um sol que sequer apareceu. Que ninguém exceto ela verá. A moça a seu lado, a quem conta seus caminhos noturnos, escutando-lhe as feições. Eña e Maria, sentadas, viajam num azul que não existe. Uma ao lado da outra, abraçada à outra. Partilhando o sonho. Quem as visse do mar (quem sabe a sereia do sonho), veria que a outra olhou mais além quando Eña mencionou
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como se deve agir em relação à opinião das pessoas. Seu vestido quebrou-se à altura das coxas. A praia estava deserta. Passos na areia. Linha da força das ondas. Quando? Nem por isso dizer que ali não havia dose segura de precisão. Os perfis se sobrepunham como se fossem uma só. Eña se arrepende de ter dito acerca do que deve ser feito. Não. Decide não mais se arrepender. O olhar da outra agora busca ainda mais longe. A conversa se nutre do silêncio. Do toque. Das certezas do que nunca será dito. O horizonte não é discernível. Dois céus, como no princípio. Ou dois mares. Uma coisa só.

O pai da menina gostava de cantar e ela o acompanhava no violão. Um dia estavam assim – ela olhava os próprios dedos no braço do instrumento e cantava com ele um refrão embora ela soubesse que ele estava preocupado com as contas e não a queria desassossegar mais. Mas que importa a tranqüilidade? Quer partilhar com ele também
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essa inquietação. De súbito interrompeu a música para lhe dizer isso mas não disse. Acabaram falando de outras coisas e rindo. Travessuras que com o irmão aprontavam na infância, o quanto enlouqueciam seus avós. Seus avós. Era como se estivesse falando de um casal que tivesse sido muito feliz. Ou como se a infância fizesse parte de uma outra vida e o que quer que tivesse vindo depois não contasse mais. Mandaram vir uma pizza e um refrigerante. Na manhã do dia seguinte ela foi procurar a senhora Martha. Precisava ajudá-lo de alguma forma. Na época ela era a diretora da escola.

Uma interrupção que paralisa inelutavelmente o ânimo. Mas Alice, com o material de limpeza transbordando dos braços, ainda assim caminha sobre os tacos estalantes. O que é isso, uma sapatilha de balé? Estranho. Seu olhar é lento e sereno. Os óculos deslizam para a ponta do nariz a fim de que veja por cima o que não necessita grau. Aconchego é a primeira coisa que lhe ocorre ao ver o tapete

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do escritório. Um aconchego morno. Uma vida morna. Bom dia. Bom dia. Quando ela passa ainda provoca excitação e inveja. Não está tão acabada quando pensa. Prefere chegar quando não há ainda ninguém. Dispersa-se facilmente quando o expediente começa. Vozes, passos. Basta. Como suportam? E sorriu novamente ao responder outra saudação. Prepara então seu melhor semblante. Assim. É preciso. Noutros momentos – quase diria noutra dimensões – deusas jubilosas esperam uma liberdade real. Não estão algumas ali na chuva agora mesmo espreitando a felicidade que constantemente lhes foge? Por algum tempo ao ouvir esse arfar molhado das folhas, aquela sapatilha na entrada representou o apelo de outra vida. É nessa memória paralela que o guarda. A chuva pergunta como é possível aos mortos incomodarem a serenidade dos vivos e como o que passou não passa mas se desenvolve em todas as direções. Um toque são todos os toques e todas as carícias e todo repouso após

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o amor. E antes fosse apenas isso, a tortura e o apaziguamento da carne. Mas há o enigma do mundo. Não pode compreender seus colegas decerto por isso: porque estão vivos. Achegou-se à luz direta da luminária receosa das sombras do dia escuro. Mas eis o sol com força tal que atravessa as nuvens e a chuva. Estará sempre ali. Imagina que o tempo irá firmar logo, talvez já à noite. Prefere não pensar na noite. Um dia nublado, uma manhã assim se parece demais com a hora temida da volta para casa. Não pode se dar ao luxo de uma crise noturna, há esse trabalho urgente. Precisa ser entregue no dia seguinte. Inevitável lance ao infinito a pergunta. Por quê? Se pudesse responder, a sapatilha de balé não guardaria o silêncio daquela paixão furiosa e o carro semelhante não atrairia seu olhar como um imã a magnificar as lembranças jamais gastas que permitiam tudo a não ser o reflexo de seu próprio rosto e a visão parcial de seu corpo ainda jovem mas crepuscular molhado por um iluminamento natural de tempos suspensos na memória e esperanças transformadas para que pudessem perdurar
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sobre o cotidiano implacável cuja estrada não leva a lugar algum mas está sinalizada como se fosse uma bifurcação que antecedesse paraísos; e o riso, o dever, a vida enfim, tudo estaria naqueles pingos que escorriam na janela.

Olhem ali a jovem mulher. Branca, triste, se destaca dos demais passageiros, que não a percebem. Passou a roleta ainda agora. Pela janela do ônibus, desdobram-se partes da cidade em que nunca pisou. Sua beleza de vida: o olhar, a imaginação que guarda atrás daquele muro bichinhos na grama e gotículas nas folhas da madrugada. Nessa praça um namoro ao entardecer – ela mesma talvez. Homem vivo algum se deleitará mais sob esse vestido e o que morreu permanecerá morto. Portanto apenas ali ainda persistia o beijo no acamado e um pouco mais que isso à guisa de maior conforto. Derramou muitas lágrimas depois, é bem verdade, na perseguição de um rastro de sonho naquela face em que brilharam

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virtudes que nem as feições meigas nem a enfermidade poderiam dar a ele. Levaram aquele ocaso pelos anos seguintes e não parecia haver tempo que pudesse esmaecer os seus efeitos. O que realmente significa alguma coisa agora é o lençol branco de uma enfermidade cujo desdobramento bem poderia ter sido no banco dessa praça. Mais tarde entre os muros dessa casa e domingos na grama sob a árvore. Envelhecendo juntos. Encosta o nariz no vidro. Contempla a cena.

Um estranhamento na longa avenida. A luz da manhã que cega. O homem que entra na parada brusca – sua imaginação longe demais será sempre túmulo de possibilidades futuras ainda que o porte lhe roube a atenção. Capa e gorro tornam todos iguais. Tanto assim? O bilhete da passagem está em dedos inconfundíveis. A braguilha do pijama aberta. Preenche o vão. Lembranças vermelhas esmaecidas nos dedos de unhas cortadas rente que apóiam seu queixo à janela. Afasta a fazenda. Zunir de automóveis na via expressa.

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Um transporte para sempre simples como jamais. Ele nem parecia assim tão deslumbrado mas estava. Boquiaberto ante a perícia dos dedos com a cura essencial. Três amparos e o mindinho numa importante função de fetiche. Esse mindinho. Estou vendo o que estou vendo? – ele se pergunta. Agora, depois do fracasso de manter o casamento, da morte dos adúlteros a quem amava, o crescimento impensável da empresa que nem se podia dizer mais pequena, a doença o derruba e não há com quem contar. Não pensa em Alice. Não poderia. – É você? – nem sabe se chegou a articular as palavras. Vantagens de jamais ter deixado de usar o transporte coletivo. Sente a misericordiosa boca acrescentando variações à misericordiosa ária. Essa boca. Uma nuvem carregada de velhos presságios ganha tons de uma aparição: o que ele disser ela ouvirá sem fazer idéia de como os mortos ressurgem entre os vivos. Também a morte tem fim? O sol se derrama pelos prédios que ladeiam o percurso. Gumes de luz sim, luzes cortantes. Um raio se alonga a partir do final visível da avenida para colorir os tetos dos carros tornados ouro.
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Desse ouro ela faz questão. A pureza do fulgor que se alojara no rosto dele tocou-a bem fundo. Recortou como papéis todas as lembranças da tarde. Agora esperança no vozerio dos passageiros.

Enquanto dava a informação pedida pela mulher à sua frente (a senhora tem de descer no próximo ponto), ele se perguntou o que teria acontecido caso conseguisse o visto e tivesse feito a viagem e tivesse abandonado tudo. Se vivo haveria de se orgulhar – ou que outra palavra exista para descrever esse sentimento – pela maneira como Alice cuidara dele, da filha, do negócio. Somos o que fazemos do que recebemos da vida. Simples assim. Sem sorte ou azar. Ao descerem, rodeou-a com o braço inicialmente coberto na visita daquela tarde. As pessoas os ultrapassavam pela calçada com uma pressa que juntos em silêncio decidiram não perceber. Por isso, diz ela a Aleksándra, não acredito em coincidência, tudo está determinado. Talvez digamos que não existe um destino assim, sei

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lá, absoluto, mas tem de existir esse outro, tipo um destino básico, ao que contingências podem ser acrescentadas ou retiradas dependendo de nós, dos fatos ao redor, enfim, de como reagimos às coisas. Pode ser, pensa a amiga, olhando para Alice com uma admiração que só faz crescer.

Desde o dia em que Ingenuer a conheceu, nada mais foi como antes. Todas as coisas renasceram após a presença dela em sua vida emprestando luz de seu olhar a cada nuance do que o cercava. Era musicista. Soube-o quando voltavam da primeira aula de dublagem. Convidou-o a entrar na casa de seus pais após um pequeno contato através de um motivo qualquer durante o percurso do estúdio ao bairro em que viviam. Estão sentados longe durante a explanação do professor. Comentando a aula, falam de cinema e da arte em geral. O que realmente o levou ao curso foi o desemprego e a falta de profissionais

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naquele ramo. Esqueceu. Contempla-a recortada pelos cenários à janela.

O rosto dela se destaca como uma flor no terreno baldio e as mãos muito alvas contrastam com o sol. Os pés nas sandálias são suaves serranias enevoadas. Ele quer estar em seu quarto e descobrir seus segredos. Uma perspectiva essencial quase dolorosa se apossa de mim. Um pouco além da porta já se vê as cenas que não podem ser entendidas na tarde fresca. Não sei o que é vida e o que desejo. Sei que esse sol é o sol de um sonho antigo. A fachada do prédio em frente é amarela. Essas linhas são os raios inclinados. A luz viaja desde muito longe e choca-se com o cimento.

O jardim limítrofe de dois eus. Não que isso seja novidade, mas nada mais é como antes, jamais viu uma tarde sob essa luz rósea fulgindo do arvoredo ou essas frestas atravessadas que pulsam e erguem a imensa barra de ouro. A umidade da grama fala
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alguma coisa. Diz respeito a mudança, beleza. Parede que deixa de separar e passa a ser a referência de união. Entrando, os passos ecoam no vestíbulo espelhado. Porque há renascimento são tantas essas partes dele morrendo em Aleksándra. Ela pergunta o que ele faz. Ele diz. Trabalho num escritório de arquitetura. Como não sabe o que acontecerá depois da crise que a proprietária atravessa a ponto de falência, com os salários atrasados, não está trabalhando.

Ele a abraça com seus olhos com tal intensidade que a sente estremecer. Está de costas à janela e ali bate o seu coração ligado à realidade apenas por meio daquele corpo. Vozes. De onde? Se indagar de si mesmo dirá que seus pais não estão em casa, que são empregados na cozinha. O quarto é diáfano como ela mesma, azulado pelo filtro de cetim. Ao lado da janela, esperando um ser cansado como ele, uma cadeira de balanço de madeira nobre e na mesinha sobre o tripé duas xícaras de chá e um bule sobre a toalhinha branca. Um

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vaso de flores multicoloridas. Cenário de amor para um coração de inocência com o de Aleksándra e um outro de desamores como o de Ingenuer. Caminhando próxima marcando o tapete com suaves círculos. Adianta-se até o peitoril onde findam os taques revestidos e os músculos das pernas se colocam em descanso. Gostaria de falar com você mas não sei como começar e nem se é preciso.

Estar entre aquelas paredes é ter entrado num templo. A cada momento e a cada movimento, a posse física enquanto desejo cede a uma emoção mais sutil. Há no espaço intermediário um mundo outro que paira nessa aura. Tocar em seus objetos é estar certo de que a ama. É possível a recíproca? Vira-se e seu perfume impregna a contemplação. Apalpa o violão sobre a cama, encostado à parede. A viração vespertina tremula o cetim. Será feliz? As maiores questões da vida e do universo estão contidas nessa resposta.

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Pega o violão e experimenta as cordas. Sou feliz quando toco. Quer ajoelhar-se diante dela. Abraçar seus joelhos remido na passagem de mundos. Beijar-lhe os pés. Passar a lenta língua ao longo de suas pernas. Beijá-la toda, no meio dos seios, no meio do ventre, em todos os lugares. Olhando-a, vê o infinito; ouvindo-a, escuta o além. Nessa dimensão ele pode. Ela geme no mesmo compasso do coro superposto ao oficium de Preisner que tudo sabia acerca da unidade de vidas. Em Aleksándra tocava a tarde encravada no milagre.

Distraída pelos sons que executa, permitelhe contemplá-la com dedos incansáveis nas auréolas. Um colo tão branco. Meu êxtase será teu também. Disse que era uma família de artistas. Um pintor, um escritor, a mãe pianista. Saberão eles algo dessa perfeita destreza? Aproxime-se, deixe-se. Não encontrará o essencial em uma biblioteca. Nem em Mozart. Mas aqui há alguma coisa além. Seios cuja engenhosa redondeza o próprio Deus será incapaz de reproduzir. Tremores de vestido à

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mesma aragem nas cortinas. O limite do tecido na coxa levemente pressionada onde repousa o instrumento. Virginal melodia de apetência. Não falaremos jamais sobre essas coisas, não falaremos. Jamais. Não seremos francos nessas horas em que coxas devolverem as lâmpadas do quarto. Palavras não terão lugar.

Do lado de lá da cortina o que se vê é ainda Aleksándra distraída com a música, concentrada na música, de perfil, inclinada para o lado. A seus pés alguém a venera com a língua e com os dedos. Solfejos se agravam pelo roseiral íngreme. A proximidade sugerida é a do próprio Deus. Ele não sabe se em algum momento falou sobre seu amor. Talvez não pois o som da voz enche o quarto, multiplicando-se pelas paredes, permeando todos os objetos em que os olhos pousavam. Seu canto, meu fértil silêncio. Subia oitavas. Salmões e a preservação da espécie, perpetuação. O som da rua invadiu o quarto violentamente quando ele acabara de descer uma das alças do vestido. Havia chegado à janela.

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Da posição no parapeito dava para ver a rua e Aleksándra. Os olhares se cruzam numa região de pactos silenciosos e desejos sublimados. Ele não suporta a luz do olhar de Aleksándra e desvia o seu para a azáfama lá embaixo. Mulheres aproveitam a temperatura em declínio para sair às compras. Matizam as ruas de creme, cinza e azul-escuro. As que voltam, de braços cruzados e ombros encolhidos, lamentam não terem previsto o frio em pensamentos de lã, saias refinadas de gabardine e novas blusas de elegância mais espessa. Nas galerias há frutas chamando aos sucos. Seu corpo permanece em flor diante dele, delicioso e desejável como no ônibus, como sempre. As últimas nuvens brancas de um céu róseo caminhavam no jardim sobre a grama úmida. Estarei ali em seguida. De fato, a galeria.

Ao lado da loja de roupas, bares e farmácias; diante da livraria, seringas descartáveis; parado à porta do cinema o

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amante cujo nome a mulher lá dentro se esqueceu. Na loja de discos cheia de rostos célebres por nada eram evidentes os sinais do silêncio porque Aleksándra ainda cantava a seu lado. Está decidido a declarar a sinceridade de seus sentimentos. Mas antes que possa começar ela pergunta se quer tomar um lanche. Não pode senão aceitar. Dirige-se à porta do quarto e pede que ele espere. Irá à cozinha um minuto.

Pelos instantes em que está sozinho nesse santuário, sentado à beira da cama onde ela estava sentada, seu perfume exala promessas de futuro onde os dedos dele terão fundamental papel no lacrimante gozo. Acompanhará os movimentos do tempo e seu sorriso agradecido será o êxtase das formas ainda ocultas, como de seu comportamento exterior deduz a grandeza da alma de Aleksándra. Quando volta e de novo fixa seus olhos nos dela, percebe que havia chorado. Pede que vá, por favor, buscar café e pão. É logo ali em frente, se pudesse fazer essa

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gentileza. Mas do que está falando? O que não faria por ela?

Deixou-o na porta. O elevador atendeu o movimento do dedo como um animal se ergue a um chamado. A respiração e os cabos se misturam às indagações. Deus, sobreviverei? O desejo flutua serenamente nas pausas; a obscuridade do corredor surge como luz. A rua. Novos caminhos. A música convertida nos sons do trânsito e nos gritos dos camelôs. Despertar de um sonho. Mesmo triste ele se manteve em paz e pensou que talvez o amor seja a harmonia, o estar ao lado em silêncio; e o sexo o horário de almoço da empresa mútua. Mais que objetivos carnais e menos que ideais românticos.

Na flama vermelha atravessa o imenso mundo que reflete em seus olhos temível encanto. Dói. Fere com um sentido preciso. Sem esse jeito calmamente inútil das coisas do cotidiano sem perigos. Jovem adorável! Mesmo escravo de insegurança mórbida tão sutil,
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aprendia que o pior medo é o temor do medo em si. Que o medo em si não é senão a matéria prima de uma doce e longa canção não cantada.

A balconista e uma sofreada emoção. Quase uma menina, de tranças, consiste numa evidente saudade. Almoço de domingo com família reunida. Ah sim vivi esse tipo de coisa também. Anseio não discernido. Os prédios em chama dourada espelham a rua em que a noite se avizinha. Essa expressão não é a de quem percebe dilemas. Melhor seguir adiante. É sempre melhor seguir adiante. A fraqueza às vezes chega a dar idéia de desmaio. Deseja alguma coisa?

Pede os pães e o queijo. Trabalhadeira, admira moças assim. Mas Aleksándra – o que faz além de estudar e tocar? Olha para a janela quase chora. Não, devo me recompor se quero pensar em algo além da fantasia pois se continuar a me comportar como um adolescente apaixonado terei apenas o que
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está reservado aos adolescentes apaixonados. Seja o que for que faça manterá a reputação adequada que Ingenuer de há muito despreza e todavia tanto o fustiga. Assim devem se perder as questões sem solução. No aroma de um pão quente à luz do total da despesa.

De volta, seus cabelos se agitam nas vitrines molhadas de crepúsculo. Nos cartazes de filmes, nos livros, nas flores da praça, impregna-se a primeira estrela cuja majestade solitária povoa uma folha caída na calçada. Na sala a mesa está posta. Lá está Aleksándra sentada em sua tristeza Em meio à beleza de que não pode fugir, a respiração suave no decote. Nos olhos um brilho que jamais ele se esquecerá. Olha para ele ao entrar como o combinado sem bater, como se, mais que um pequenino acordo, fosse um hábito. Estará com ele pelo resto da vida o juízo desse olhar. Darlhe-á a motivação para levantar todos os dias. E será por meio desse olhar o sinal. Dirá que já não tem motivos para chorar. Pedirá que ele fique.

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O sofá junto à janela será um local propício. Tudo se afastou no seu vestidinho. O novo mundo chega com seios nas mãos dele. Servidos pela governanta. Pernas em pernas. Ela fala algo sobre o mercado de dublagem. Deve ser algo perspicaz, mas ele não ouve porque há dedos vitoriosos no elástico, há limites e divisas, sombras e coxas e cabelos. O embriagante calor de um abraço íntimo. Os dedos que nele se cravam de súbito aparecem num gesto amplo na nuvem do café. Unhas inocentes. A nuvem se dissipa e Aleksándra aparece.

A dublagem exige mais do artista do que a maioria das artes. Toda a expressão só tem a voz para se expressar. Não há gesto, não há cor. Palavra só a que servirá de meio. Nenhum espaço para as notas musicais. Respondeu ele que infelizmente, como ela mesma testemunhara, o professor não parecia nem um pouco insatisfeito com seu anonimato muito bem pago. Afinal não é o que nós próprios

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buscamos? Mal acabou de falar, pensou que tinha sido grosseiro. Nunca sei o que fazer nessas horas. Tentar consertar pode ser sempre pior. É verdade, diz ela. Tantos seriados e tantos canais de filmes na TV paga tornaram a dublagem antes de tudo um requisito para o dinheiro que move a mídia. O dinheiro. Não há arte na mídia, não mais, é o que ela está dizendo. Estalar crocante na boca, queijo com gosto de infância. A inocência resgatada. Mas realmente Ingenuer não crê nisso. Por um momento parece que ela está na dificuldade que é falar de uma coisa pensando em outra e em que estará pensando? Com certeza me superestima e não sei se isso é bom mas sei que me leva longe, ao meu prazer idealizado como as bandeiras falam das virtudes que os países geralmente não têm, e todavia têm esse status de bandeiras, são a representação dos países, talvez eu tenha um pouco dessa que pensa ele que sou e poderei assim continuar sonhando em ser confortada e mimada e depois disso não o rejeitarei como é o costume mas me embriagarei também de amor quando nossos dedos se entrelaçarem no primeiro
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beijo. É que não existem mais arte nos dias que correm. Apenas o negócio da arte. Bem, não é uma questão nova. De fato, ratificou após passar o guardanapo, não existia mais o valor puramente subjetivo do exercício artístico. O que há é quanto pode render essa concepção. Veja Van Gogh. Atingiu o ápice do reconhecimento morto e a tragédia da morte junta-se aos requisitos do reconhecimento. Com a tecnologia, diz ele, quem precisa de reconhecimento hoje? Quem queira viver da arte é mais ou menos a mesma deturpação material porque a arte tem de ser uma motivação de subsistência em si, à parte da questão financeira. É uma pena, diz ela, gostaria que não fosse uma regra sem exceção. Eu lhe mostrarei o meu amor e as criações que um dia dele haveriam de provir.

Mais tarde Ingenuer saberá que ela havia chorado por causa do filhote de pastor belga que ganhara em seu aniversário – era o tema da conversa dos empregados quando entramos, como iria ela reagir – e ele ficará

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sem saber da reação de Aleksándra diante da sua declaração de seu amor. Duas semanas mais tarde ela conseguirá uma bolsa para estudar música em Milão e ele não mais a verá. Quando soube da noticia nos estúdios, fulminado saiu da sala e tomou o mesmo ônibus onde seu amor encontrou campo para se desenvolver ao saírem e passarem aquele tempo juntos no primeiro dia.

Chegou ao edifício. Também o silêncio quando ela o beijou no elevador. Adeus, então, disse ao sair. Atrás dela, os empregados levavam as malas. Eu te amo, ele disse enfim. Silêncio. Então me espere. Ele sentiu de novo os seus lábios e dessa vez a trouxe para junto da grandeza de sua paixão.

Alguém a chamou do lado de fora do prédio. Tenho de ir – disse ela. Você vai me esperar?

Duas lágrimas rondam os olhos dele nos momentos em que olha o homem que ousara
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pronunciar com tal desembaraço o nome com que somente ele devia privar de intimidade. Era seu pai. Ingenuer responde sua pergunta com um beijo ambíguo entre o azul de seus olhos também prestes a molharem-se. Um pastor belga está ganindo de dor.

Ele voltou-se e deu com a luz forte do dia se irradiando por tudo. A opressão natural ante tanta luminosidade dá lugar a um elemento de paz. Desejo de vida restituído a seu mundo desde que ela emprestou a luz de seu olhar a cada nuança que o cercava. Todas as coisas renascem e o desemprego passa a ser um problema que pede solução rápida, não motivo de fatal depressão. Os conhecidos dele acharão sua mudança inacreditável. Seguiria em seu caminho. Haverá um abrigo da noite fria. Haverá trabalho e ele será a pessoa indicada. Uma luz no jardim bruxuleava ao sair após a partida de Aleksándra e dali se vislumbravam os aposentos da casa que iria comprar, no bairro preferido de Aleksándra, onde a névoa envolvia o prédio do estúdio de dublagem,

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quando saíam da aula mais tarde. Tudo fora pensado, inclusive a localização próxima aos melhores cinemas da cidade – caótica megalópole a que não seria permitido englobar o destino deles num outro, coletivo, próprio dos novos tempos. Se uniriam e se desconectariam. Porque ele a amava e ela haveria de o amar tanto também. Sim – diz ela. Eu te esperarei.

Meereshimmel pede que Marcel abra a gráfica. Precisa fazer um pagamento no banco, justifica. Senta-se no banco da praça. Olha a foto no celular. Que chance havia de salvar seu casamento? Se Sonja quisesse. A cada dia mais evidente que não quer... Ao olhar o rosto de medo e sofrimento vê que a jovem não percebe sua imponente beleza mais que bela porque não apenas bela, não apenas possuidora da beleza que se basta, que não faz se acompanhar de caráter, entre os motivos do fracasso de um mundo que naufraga em
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aparências e palavras. Terá sido por isso que fracassou junto dela? Que vergonha! Mais por sua canalhice do que pelo fracasso. Agora está tão só quanto ela que decerto terá encontrado alguém. Que seja. Que não tenha acontecido a ela nada de mau. Quisera encontrá-la. Ser o amigo de que ela precisava. Por que me transtornei àquele ponto? Por que a abandonei sozinha por causa do olhar de um desconhecido que ela provavelmente não correspondeu? Mas achou que sim. Por ciúme louco como o ciúme costuma ser. Ela não precisava do carro nem da vida que poderia lhe oferecer e não ofereceria, mas de uma amizade que tampouco ofereceu. Só precisava dele. Eu só preciso de você – pensaria Alice ainda por muito tempo e mais ainda ao ser apresentada por Savone ao filho, no velório de Haimeard.

A partir daquele dia, tudo o que ela precisava era de seu amor. O homem que olhou para ela e adivinhou sua dor e a convidou para um café e confessou ser casado e portanto não poderia ser o amigo de que ela precisava. São

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tão confusas essas coisas. Por que não, exatamente? Depois daquele beijo só uma pessoa poderia lhe oferecer a salvação. Só precisa dele. Só pensa nele na cama de pensão. Em como ele chegaria e perguntaria por ela após descobrir o endereço de um modo que não ficara muito claro. Nem era aquele endereço. Na sua imaginação havia um apartamento próprio, uma vida independente, porque só assim alguém pode amar e escrever. Precisa que ele chegue, ela lhe oferecerá um café. Terminará a noite em sua cama beijando apaixonadamente o seu corpo. Sua voz umedece-lhe as roupas. Suas mãos se movem em torno dos pequenos mamilos, não tão pequenos agora, lentamente, suas mãos são as minhas mãos, seus dedos os meus, mais e mais, tire o meu vestido, deixe que eu te acolha entre os montes, no vale escuro, tente de novo, assim, mais fundo, assim, chegue comigo. Então a senhora ao lado lança olhares curiosos para o celular e Meereshimmel volta ao parque, ao banco do parque. No mesmo instante, com as batidas na porta, Alice regressa a seu quarto no albergue.
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Quem é, Bianca? A mulher do balcão onde ficavam as chaves dos armários. Vê o casal perfeito quando saem do café. Agora já não tem certeza. É o mesmo rapaz? Bem, é o mesmo tipo. Mas não tem certeza. Esse de hoje tem um olhar mais franco. Um dia ela me viu com Alice e meu pai e pensou que era minha mãe. Como todos pensam. Eles formavam mesmo um casal muito lindo, diz Elisuki. Ele vivia repetindo isso, desde pequeno, quando ia brincar na casa da amiga. Agora, pelo jeito, vão brincar ainda, no apartamento que ela herdou da avó, onde mora com Alice. Ela gostava de pensar nisso como brincar, não queria como suas amigas queimar antigas etapas que passam pelo primeiro olhar mais significativo e as mãos dadas. Queria que fosse assim e que seus gemidos fossem inaudíveis, que os rumores e visões que súbito se descortinavam faziam parte de um caminho inocente que se iniciou naquele dia quando ouviu os pais do outro lado da porta e não fazia idéia do que

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estavam fazendo. Que ingenuidade, que paz, que agitação mais agradável, como beber um achocolatado direto da caixinha. Quando passam pelo mercado, a mulher no caixa olha e sussurra para o marido: Aquele segundo rapaz era mesmo o irmão desse, não te falei?

As aves cujo canto lembra um mantra, como o Bem-te-vi, são as de que Bianca mais gosta. Evocam concentração, disciplina, paciência – virtudes que tão dispersa persegue. Essa que chilreia agora ela não conhece. Assim que ouviu não gostou. Uma sonoridade sinuosa, sofisticada, em busca de novas oitavas. Procura seu máximo e não usufrui do mínimo que já alcançou. Infrutífera glória partilhada. Sua veleidade não muda o mundo. O mundo está tão errado porque todos são iguais, gostam do que é facilmente apreciável. Do que exige pouco do próprio gosto. Está com Elisuki – sempre está com ele – porque há um outro mundo quando estão juntos. Aspiração de vida melhor e mais árdua.

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O sol se põe no céu próximo. No distante trovão há um presságio. Elisuki hoje está calado. Não quer mais falar sobre esse assunto. É desgastante. Talvez seja ilusório pensar em coisas eternas e integras. Aí estão eles por toda a parte, os normais, fazendo planos e se dando bem. E o que hoje desponta não haverá de querer mudar esse cenário.

Está esfriando. Você vai para casa? Será um anjo nos céus pois aqui já é. Ela sorri em resposta ao olhar amoroso do amigo. Quando voltar ali Bianca lembrará esse sorriso. São o lar um do outro. Suplica. Não me abandone. No canto dos pássaros um presságio. Ser amada assim tem um peso. Não irá decidir agora. Apenas manter esse contato com o verde até a saída. Há de pensar em alguma coisa. De um modo ou de outro todas as coisas hão de passar um dia. Não tem certeza de nada mas vale a pena seguir o caminho. Está escrito no dia vacilante entre os prédios. Chegaram ao

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prédio caminhando, e ele caminhando prosseguiu.

Deitada de lado ressonava. Agora escuta. Ele chegou andando devagar e tocou sua própria foto emoldurada. A parede tem uma cor incomum e produz um som raro e contínuo. Como se devolvesse ao apartamento o que ouvia do resto do prédio. Por instantes ela cochilou. Os passos, a respiração e os toques de Meereshimmel. A um tempo a resposta e a questão. Um discernimento improvável à procura de correspondências que fugiam e voltavam às vezes, de acordo com os movimentos no quarto, reduzidas ao próprio sono tênue. Num dos intervalos Alice acordará. Talvez acordasse espontaneamente. Decerto o sino ajudou. Seis horas. Demorei menos de vinte minutos. Um raio oblíquo perpassou morno o tecido entre a abertura das cortinas. O quarto é violáceo agora. Você veio. Como poderia não vir? Obrigado. Você está doente?

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Achava que ela parecia doente?

Outra vez o sino tocou e ela percebeu que vibrava diretamente da sua cabeça projetando uma nova enxaqueca para o novo dia. Nada. Não é nada. Estou só com um pouco de dor de cabeça. Não está mais tomando analgésico, não é? Deixara a medicação desde que teve umas crises estranhas. Um suor gelado gerando insuportável calor. Antes que piore precisa falar. Meereshimmel... Dizer que o amava. Que não tinha intenção de ofendê-lo ou fazer qualquer tipo de maldade. Menos ainda chantagem. Chegou a escrever uma carta. Não enviou. Não queria arruinar a vida dele.

Ele diz que sabia. Que a conhecia e ela não seria capaz mas se fizesse isso ele teria merecido. Numa súbita mudança de expressão, com um franzir de testa, acrescentou que não tinha o direito de ameaçar. Foi patético. Ela sorriu. Estive ali. Estivemos ali (parece um sonho) e agora com a morte do irmão e da mulher ainda que não estivessem felizes (antes
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culpados) respiravam juntos. Eram livres. Não sabem ler o futuro nas estrelas. Se estão numa trama assim projetada a consciência deve ceder. Se abraçaram e se olharam nos olhos. Vamos resistir. Vamos começar uma vida em comum. Vamos ao centro ver se aquele apartamento ainda não foi alugado. O que era aquilo? estava propondo que vivessem no apartamento do primeiro encontro? Então saíram e a praia pareceu mais brilhante mesmo sem sol. Dançaram molhando os pés. Beijaramse ao som das ondas. Se amavam segundo a profecia remota que ele imaginou ouvir quando a entreviu na multidão. Teriam uma vida. Sabiam seria curta. Mas restariam as lembranças e mais tarde o insight – essa iluminação que Savone despertara. Mas Alice não fará de uma menininha a sua vida. Filha de quem fosse. Não iria de um a outro extremo. Precisava de Meereshimmel na memória. Das palavras de Savone. Dos questionamentos de Bianca. Da humilhação de ser um empregada doméstica assim como antes do fato de ser uma mulher visivelmente sem tino para negócios em meio a raposas. Olhou para
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Bianca. Não estou te passando essa carga, meu amor. Vive tua vida.

Lá fora a chuva murmurava apenas, mal tocava no vidro, como alguém que se constrange em conhecer segredos alheios. O senhor Pöbel não rebatia as acusações de que assediava a empregada, mas pacientemente esperava que a mulher se acalmasse e então pudesse explicar. O problema é que ela não se acalmava, emendando uma acusação noutra e a maioria nada tinha a ver com assédios, ia da conta da luz aos cachorros do vizinho, mal tocando, como a garoa no dia quente, a frágil janela daquele relacionamento em quem ninguém ousava colocar as suas fichas porém todos foram à cerimônia cheios de palavras boas uma vez que o casamento ainda é muito importante mesmo nesse novo milênio. Tenho de casar, Martha pensava antes de conhecer Darken e se apaixonar de fato, donde, pensava ele, não fazia o menor sentido as suas reclamações, inclusive quanto a ser

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mulherengo, pois o conheceu assim e em que queria converter aquilo por que um dia se apaixonou? Ele esperou pacientemente a oportunidade de falar de Alice mas talvez não tenha sido uma boa idéia a franqueza porque numa conta simples a mulher constatou a diferença de idade entre eles e portanto na época que dizia ela era menor e ele um homem feito, isso é crime, meu Deus, não poderia jamais imaginar que tenho dormido toda a minha vida do lado de um pedófilo nojento – mas ele a amava, Darken disse candidamente, ele amava Alice de verdade. Eu sei exatamente o que você amava nela, retrucou a mulher. Por alguns instantes ele se calou e hesitou em seguir contando a história de Alice e vá saber o que exatamente o manteve nessa disposição. O fato é que contou a história e aos poucos viu o rosto de Martha se transformando a cada frase, como várias máscaras que iam caindo conforme as novas revelações até que chegou à última, uma máscara cinzenta, inefável, a camada original de uma perplexidade desiludida, a desilusão em seu estado puro, um estado em que se transita do que se espera ao que refuta
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essa esperança e de repente sequer sabe-se dizer qual era a esperança. Por que consentir com a vida? por que insistir na sua preservação? se para tanto é preciso antes preservar valores que ele não mais podia pregar, para bem ou para mal, porque simplesmente não saberia dizer se era um bem ou um mal, sequer poderia continuar se enganando de que faziam parte de seus valores, não conseguia mais manter essa idéia de que era assim especial a ponto de ter essa autoridade de falar em seus valores ou princípios e, de resto, sequer gostos, opiniões ou qualquer coisa que o diferenciasse do murmúrio em nada funcional da chuva rabiscando, se tanto, o vidro da janela.

Cheio de armário, de livros, agasalhos e jovens de banho tomado e jovens suados de fim de tarde após o estudo. Nesse cenário de pesquisas, provas, trimestres e descompromisso com a realidade da vida, desenhou-se o vulto de Alice na voz da

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atendente. O que ouvia batia com o que a colega de trabalho um dia lhe contara. Então ela soube ou talvez tenha imaginado mas tão intensamente que tudo assumiu ares de verdade. Alice era a moça que chegara do interior para procurar trabalho e logo no primeiro dia encontrou Meereshimmel e por ele se apaixonou não por causa da paixão do sexo, não consumado, mas por uma sabedoria inerente a muitas mulheres, um instinto de futuro que mais adiante terá sua recompensa.

O que ela não sabia, o que ninguém sabia – exceto a enfermeira que deveria acompanhar Meereshimmel ao estrangeiro – é que ele teve ali talvez idéia mirabolante um tipo de rasgo de generosidade louca sabendo que estava condenado e que a filha estaria melhor com Alice ou, por outra, que Alice estaria salva de todos os seus males materiais e que poderia a partir daí ser enfim ela mesma, a partir do momento em que fosse a responsável por Bianca, o que Sonja a cada dia deixava transparecer que não seria. O que nem ele

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próprio em seu delírio poderia supor é que aquele vôo teria seu nome na lista de passageiros mas não sua presença na poltrona do avião.

Como o descobrira ali?

Ele mesmo dissera, ele lembrou, que esse seria o lugar deles.

Mas se passaram dois anos e para todos efeitos ele estava mesmo morto.

Por que ele fez isso?

Para ela ter um lugar seu como sempre sonhou, para que pudesse escrever quando quisesse e não precisasse mais se submeter a tantas humilhações de homens e patroas.

Mas não podia saber que o avião ia cair.

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Não sabia. Apenas se apropriou do momento. Estava morto mesmo. Nunca quisera fazer tratamento no exterior. O único tratamento que precisava era interior e esse Alice providenciara para ele.

– É uma história absolutamente louca – disse o rapaz a Bianca. – Então você fez o caminho inverso. Primeiro foi órfã e depois teve um pai.

Pensei que jamais iria segurar a sua mão novamente, pensou Alice na mesma cadeira do café. É quase como se eu o estivesse reinventando. Descobrindo agora por exemplo que a paixão que não aconteceu naquele primeiro dia foi por amor. Foi por amor. Foi cruel, pensou ele, conhecer Alice naquelas condições, ela menor de idade e ele depois de casado. Ela então soube que o tapa para que ela se contivesse deveria arrefecer e não exaltar o amor que ela começava a sentir por
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ele. Mas ela não se comoveu com isso. Pela primeira vez na vida teve raiva de Meereshimmel. Ali, dois anos depois de sua morte, diante dele ressuscitado, sentiu raiva dele. Ora, deixasse ela escolher, quem ele pensava que era? E sua raiva continha essa falta de qualquer ponderação absurda das mulheres diante de situações que envolvem seu amor. Como se ao amar se tornassem Deus em relação a qualquer coisa que dissesse respeito ao homem a quem amam. O amor é o único sentimento capaz de fazer uma mulher perder sua sensatez natural. Ele não queria mas não pôde evitar pensar assim. Então sorriu e ela teve a confirmação de que sim ele estava vivo, estava ali de novo para ela, sem passado, sem sequer presente, e seu futuro haveria de ser ela. Então a raiva por ele não ter permitido que ela tivesse alguns momentos de prazer como lembrança de seu amor tornou-se a alegria da lembrança singela de um simples beijo em plena rua, se aquilo era uma rua, não era, era um abismo no qual se lançou e só agora saía dele completamente. Ele quis dizer que era um inválido, que piorara muito, que
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esse tipo de doença é assim cruel, não é terminal embora termine a vida da pessoa. Isso ele queria pensar. Mas o olhar de Alice era duro, auto-indulgência não combinava com ele. Olhe para mim, ela disse. Olhe nos meus olhos. Ele olhou e logo a imagem dela estava desfocada e trêmula como se fosse o reflexo num lado, um rosto impreciso de sonho. E dos lábios da imagem trêmula saíram as palavras. Agora ela entende o que o pai dele queria dizer. A energia de que se precisa para partilhar uma verdade profunda com as pessoas. A força física de que se precisa para viver a verdade que se sabe. Ela sabe. Escuta nas vozes vindas das outras mesas. Está escrito no azul recortado pelo telhado do centro cultural e pelas copas das árvores fulgurando o contraste com o cinza do prédio.

A rua submergiu na névoa. Despertar assustado. Latido. O cão está dormindo. Passou. Tudo passa rápido. Um cheiro de chuva no asfalto. O olhar que se ergue encontra a

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abertura. Um pingo. Roupas que se pegam à pele, dores na região lombar. Um homem sem sombra. Só mais um pouquinho. Uma vez quando criança esteve aqui, lembra dessa fábrica. Precisa arrumar as coisas, o terminal fica perto. Hei. A outra se assusta imperceptivelmente com o cutucão. Estamos chegando. O olhar que se ergue encontra a amiga. Não diria que é amiga. Uma conhecida. Companheira de viagem. O trânsito carregado como sempre. Cartazes de um lado e do outro. Passam mais lentamente. Do fundo espelhado da armação feita de luz ela se dá conta de um prisma enviesado das coisas que a outra via. Vivas nuvens. Realce azul. O calor do braço encostado como um sol particular. Por isso terá distinguido o desenho nítido dos lábios, mal entendendo que o movimento das pessoas e bagagens atrás delas confirmava o som que a tirara de um mundo díspar. Alguém abre a divisória e fala com o motorista. Aos sacolejos o ônibus encosta e o mundo pára no cheiro do outro corpo. Está feliz, cansada e ansiosa. Um outro cachorro está latindo mas não dá pra ouvir por causa do motor. O azul desce um
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pouco e confronta os telhados. Não raro meiodia era uma passagem que a deixava deprimida. Tanta luz. Mas agora não. A vida a recebe de braços abertos. Você vai? Claro. Preciso. Sim. Posso esperar? Se não for incômodo. Longe disso. As casas continuam passando lentamente. Agora a marcha para a última curva enquanto ela sente a felicidade daquela resposta e a fome se insinua. Uma dor antecipada pelo afastamento inevitável da mornura do outro corpo. Fique. Venha comigo. Não pode. Então o muro quase roçou na lataria. A pichação flutuava e cada uma lia as próprias emoções. Você é tão bonita. Tipo de um ardil para não ser esquecida. Abraçaram-se no ecoar dos passos pelo corredor em direção à porta aberta.

As luzes do começo da tarde misturadas aos movimentos do terminal assumiram formas oníricas como aquelas de onde Alice vinha. Estava ali. Tinha chegado. Não desceu logo por causa do medo maior que o desejo, mas havia o prazer e o tentar prolongá-lo. Algo no ar a

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preenche de intensa agitação apesar do resquício de sono. A vigília e o sono. Não havia culpados, pensou, esperando que houvesse. Alguém a quem pudesse responsabilizar pela decisão de deixar a casa à procura de trabalho noutra cidade. Não precisava desse tipo de estresse tão cedo na vida. Mas não havia culpados. Sua existência era única. Súbito sentiu o peso quase insuportável da liberdade.

FIM
©2001,2006 Ricardo de Almeida Rocha ricardrbrsp@gmail.com.br Copyright by Ricardo Rocha Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 Versão para eBook Scribd.com Issuui.com Bookness.com __________________ Junho 2001 eBooksBrasil Versões para pdf e eBookLibris abril 2006 eBookLibris © 2006 eBooksBrasil.org @ 2010 Ricardo de Almeida Rochai

Cenas que faltam:

Cena do carro em que se diz a Hai que quer se separar. À noite, quando ele tiver a síncope e morrer, surpreendentemente ela não se sentirá culpada.

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A voz mais e mais baixa. Os passos mais lentos. O rosto na vidraça do café. Expressão de quem sonha. O que a senhorita deseja? Agora, na luz do vidro, cabelos muito negros. Brilham. Ela olha a garçonete com respostas que não pode dar. Logo a xícara aquecerá as mãos em concha. Depois o pescoço que se estica e pende. O olhar é ansioso outra vez. Bom assim. Melhor que o vazio da falsa serenidade. Ao outro vazio, na entrada, segue-se a lembrança e seus olhos não estão mais ali. Bibelôs na cabeceira onde devia haver um relógio. Melhor assim. Bons tempos. Quando as coisas retornam ao lugar a que se adequaram? Ou jamais? Jamais como um dia de infância. Então jamais. Pois se o tempo não volta, feixes de luz se reencontram. A cabeceira perdida no tempo. A menininha, deixa-a lá e aparece diante de seu armário, falando ao celular, a outra mão pelos cabides. Rosas a maioria. Ama a beleza simples de um toque de mocinha no quarto. Felicidade é uma meta legítima de vida? E o que era aquele êxtase da menina? Enfim, ei-la aqui. Diante das roupas. Combinando a saída. Diante do espelho cujo papel no dia seguinte será feito pela vidraça do café. Ela. Refletida. No significado de todo reflexo – reproduzir sem ser. O armário se fecha. O reflexo desaparecido. Um vestido. O rapaz. Companhia para a saída. Nada sabe dele nem haverá de querer saber amanhã. Sempre será assim? A voz ainda possuía quando o encontrou alguma firmeza. Chegou a dar uma corridinha quando o viu ali parado. Num trecho do caminho para casa, um local mais escondido, a vazão do desejo. Embora mútuo, a impressão seria de que ele a ofendeu. Claro que não. Aleksándra nem imaginava um rapaz tão bondoso e romântico. Por isso chorou. Outra caminhada solitária passando por casais apaixonados. Outro café abrindo ou que ainda não fechou.

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