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But the stories are confused almost like a dream,

though it is a beautiful dream

The Quest of the Holy Graal

(King Arthur - Tales of the Round Table


Edited by Andrew Lang
1902)
O ultimo homem © 2017, Ricardo de Almeida Rocha
Todos os direitos reservados, incluindo os direitos de reprodução total ou parcial, em qualquer formato
Rocha, Ricardo de Almeida 1. Ficção brasileira. 2. Livros eletrônicos. 3. Título.
Vagões. Vagões. Vagões. Quando um deles cumprirá a promessa de
Marcelino, trazendo seu sucessor? A violência voltou a tomar conta da terra.
Pessoas vão e vêm tentando levar a vida; mas a cada dia se torna mais difícil
levar a vida por aqui. Como naqueles tempos…

Disparos ecoam por toda parte no calor. Enfrentam-se duas quadrilhas


em meio à correria dos moradores do vilarejo. Ali Marcelino iria aparecer e
a poeira baixar por entre os raios da manhã.

Eu mesmo não estava lá. Hilson me contou o começo da história


quando deixávamos o Igapó. Ele também não estava no princípio. Esta é
uma história que passou por muitas vozes até chegar a meus ouvidos. Quem
poderia imaginar que seria eu o único a sobrar para contá-la?

Fagulhas puxam os raios luminosos de quando em quando ante a


solene indiferença da máscara pétrea dos homens que atiravam atrás do
monte de tijolos. O vento varre a poeira pesada de cascalho. Um tem idade
para ser pai do outro e um terceiro vem avisá-los da chegada de alguém. Os
revólveres caem abandonados. Outro homem entra suando num bar cheio de
homens suando. O reboco das paredes externas está amarelado. A sombra
dos respingos é mais escura mas amarela ainda. Pela sala naturalmente mais
fresca há estantes cheias de livros e pó. A mulher encostada num balcão
lembra uma espanhola de filme. A saia comprida verde. A anca direita
inclinada onde o tecido retém a luz fraca da lâmpada. O xale arrogante sobre
os ombros firmes. Os anéis da mão apoiada pingam reflexos do maçarico
agora distante. Ela grita com o velho de olhos tristes e a barba recém-feita
cheirando forte a loção. Ele
observa tudo com o olhar atento. Apesar da emoção ele fala mole como se
estivesse enfermo. Como se fosse um grande esforço separar as sílabas.

-Por que toda essa confusão?

- Venha ver - diz o merceeiro esbaforido.

No zunir das balas dois homens se atracavam no chão com facas. O menino
passou por eles temendo ser visto. Não devia ter mais que uns 13, 14 anos. O
sol que aparecia no horizonte ao fazer luzir em seu pescoço o estranho
crucifixo paralisou os contendores.

-É Marcelino! - um tinha a faca no pescoço do outro a largou. - A lenda é


verdadeira!
Nuvens mancham o azul e se deslocam e dispersam. Os homens
gritam uns com os outros. O menino desaparece enveredando pelo meio das
casas de adobe.
- Você acredita mesmo nesses contos de índios?
- É verdade. Eu também vi - na última sílaba a voz falhou; o sangue
verteu pela boca e ensopou as palavras. - É verdade. ..
- Vamos! Eles estão cercados na fazenda.

Os cavalos atrelados se agitavam. Mulheres tropeçavam nas saias ao


correr. Homens que bebiam se ajuntaram agachados atrás do balcão. Os
moradores se deitavam e oravam dentro das casas para escapar das balas
perdidas.
A mulher dá de ombros como se nada estivesse acontecendo.
O amarelo escuro e as sombras do chapisco estão marrons. As poças
também escureceram. Os cacos não reluzem mais.

Era uma gente acostumada com o cotidiano selvagem onde os assaltos


eram comuns e ninguém merecedor de confiança. Os mais violentos
prevaleciam e o narcotráfico ditava as regras. Quem visse qualquer coisa
estava fadado a desaparecer.
Numa cena semelhante Crisóstomo surgiu.

Ninguém sabe ao certo como tudo começou. A versão mais


considerada é a do exército de 107 homens. Conspiraram contra os coronéis
e políticos corruptos e na madrugada de cinco de julho tomaram a fazenda
de um proprietário que traficava drogas e mulheres. O prefeito e o
governador fugiram.
Cercados pelas tropas oficiais sustentaram a posição até o dia vinte e
sete quando aderiram à guerra móbil ao longo do rio até a fronteira.
Marchavam a pé e a cavalo durante meses e escaparam de todo tipo de
cerco. Ganharam a simpatia da opiniao publica e de parte da policia. A
partir desse novo ambiente se tornou possivel o fim da impunidade e com a
execuçao das penas apos decisao em segunda instancia deputados e
ministros eram presos e o proprio Governo abalado e Crisostomo crescia
diante de todos, das populacoes ribeirinhas e missionarios e chefes indígenas
que lhe davam cobertura aa imprensa internacional que tentava entender os
acontecimentos.
Os poderosos temiam que preso ou morto se tornasse um mártir e,
atarantados, passaram de caçadores a caça.
Logo Crisóstomo tinha suas próprias terras onde famílias se
estabeleciam e passaram a se multiplicar o gado e as culturas. Desertores
dentre os traficantes a ele acorriam e eram assentados. Prostitutas. Escravos.
Mas um dia, em consequência de uma bala que se alojara em seu
pescoço, Crisóstomo morreu sem que pudesse conduzir o processo de
transição. A revolta armada deve - dizia - evoluir para uma sociedade justa;
porém seus homens se dividiram na luta pela sucessão. Sua morte foi o fim
dos dias em que tinham sido banidas a injustiça e a corrupção. E a violência
voltou.

O reboco está marrom e as sombras quase negras e negra também a


estante e o pó dos livros desapareceu.
- O quê é, Marcelino? Que cara é essa?
O menino disse dois homens lá fora estavam lutando, pai, e pararam
quando me viram. Walter olhou-o com expressão indefinida. Entendeu que
afinal chegara o dia.
- É hora de você não mais me chamar de pai.
- Não sou seu filho?
- Me entregaram você chorando. Estava entre os sobreviventes de uma
chacina. Não tinha mais que dois meses de vida.
Após o silêncio que se seguiu, Marcelino respondeu.- Por que esses
homens me chamaram filho de Crisóstomo?
O crucifixo. Na época Walter nada sabia a respeito. Um dia viu uma
mulher que fazia às margens do Guaporé o desenho de uma cruz. Enquanto
falava o velho revia na memoria a revoada de emocoes. - Ela disse chorando
que representava o bem da terra. A fonte da vida. A paz.
- Eu?
- Quem mais?
- Sequer tenho o respeito dos meus amigos.
- Terá.
- E não tenho inimigos.
- Quem for inimigo da paz será seu inimigo também.
A voz de Walter é forte e clara. Sua barba branca treme ligeiramente
quando ele fala.
-E o que devo fazer, meu pai?
- Não me chamar mais de pai. Eu não posso te ensinar a ser o que
você é.
- Tenho medo.
Um rapazinho surgiu do nada
- Marcelino...
- Como você sabe o meu nome?
- Qualquer que conheça o desenho dessa cruz saberá o seu nome.
- E seu nome qual é?
Alonso respondeu e permaneceu quieto em adoração.
Um homem se aproximou e perguntou o que estava acontecendo.
Takeda eh o pai das meninas com quem Marcelino brincara um tempo,
quando crianças; mas por alguma razão elas foram retiradas do convívio
misto.
- Grande serão as provações a que você estará exposto, meu filho - diz
Walter baixinho.
Do outro lado um galope traz a voz de Jerônimo, o braço direito de
Crisóstomo nos tempos antigos. - O que é isso afinal, Walter? - disse ele. -
Vai querer nos impor um bastardo como chefe? - seu cavalo balancando a
cabeca relinchou como se enfatizasse a pergunta.
- Quem estiver com esse menino estará contra Crisóstomo e contra
mim; honrarei sua memória - disse um outro a seu lado.
Takeda olhou para o menino e para Jeronimo, para Walter.
- Então, Jerônimo, estou contra você.
No tiroteio, ninguém se deu conta de que o menino sumira.

O corpo ensanguentado de Takeda entrara carregado por maltrapilhos


. Agora esta deitado e Alice Eiko, a filha adolescente, coloca compressas e
faz curativos. Um outro homem entrou ofegante. Estavam encurralados,
disse. Jerônimo cercara a fazenda. Devem invadir a qualquer momento. As
balas zunem e ricocheteiam. Rastros de fumaça e ecos pela floresta.

Oshieoyá... - Alice Eiko introduziu os dedos da mão direita nos


cabelos desgrenhados do pai. Durante toda a vida teve vergonha de ser filha
de um bandido e agora pede que resistam e Deus será com eles e terei
orgulho de ser filha de um dos homens que levou o filho de Crisóstomo a
seu lugar.
A voz de Takeda soou cheia de dignidade. - Vocês ouviram? Todos a
seus postos!
Os capangas de Jerônimo invadiram a propriedade. Uns eram
atingidos e mortos mas outros continuavam galopando para a casa principal.
O vento se derramava pelas planícies.

No leito do rio os seixos ondulavam. O calor se opunha ao mais


ínfimo bem-estar dos homens sobre os cavalos encarniçados. Pouco a pouco
a fúria do som dos cascos na terra foi arrefecendo. Cessou. Um relincho.
Outro. Do alto da Serra da Esperança, Marcelino e seus seguidores viram a
fazenda de Takeda quase tomada. O combate recrudesceu junto ao rio.
Com o menino dispuseram-se a vir todos os homens do vilarejo que
tinham bom traquejo de armas e alguns que nem tanto. Todos queriam estar
presentes. Nada importava se haviam obtido o privilégio de seguir filho de
Crisóstomo e partilhar sua sorte.
Inicialmente o fator surpresa os favoreceu. Depois a valentia do líder
os inspirou.
Os cavalos sofriam mais que os cavaleiros e para cada cavaleiro morto
havia um cavalo liberto pelos campos.
Os homens de Jerônimo estão perplexos.
-É Marcelino! - festejavam dentro da casa.
Um olhar agradecido e um pouco mais acompanhava o rapazinho.
Alice Eiko quente e fresca na canícula. O menino em seu cavalo... Súbito
não conseguia mais vê-lo. Alguém o derrubara. Lutam no chao.
Poeira sobe e os envolve. Jerônimo não podia crer que estava sendo
subjugado.
- Mande seus homens recuarem e será poupado.
- Para carregar pelo resto da vida a vergonha de ter sido derrotado por
um impostor?
- Para ter a honra de seguir o filho de Crisóstomo.
- Ora o que não se faz no Sul. Pensam que somos ignorantes! Uma
réplica do crucifixo!...
Que Marcelino acredite - diz Jerônimo - isso nada significa para quem
teve a honra de lutar ao lado do próprio Crisóstomo.
Marcelino agarrou o crucifixo. Soltou Jerônimo e deixou o revólver
ao alcance de sua mão. Gerônimo apanhou a arma. Uma voz sobrelevou-se
em meio aos sons.- Jerônimo vai acabar com a lenda!.
- Oh meu Deus... - Alice Eiko tornara a ver o menino. Estava acabado
- um moço apareceu ao lado da filha do patrão. Marcelino era mesmo um
impostor. O filho de Crisóstomo jamais se deixaria vencer numa luta.

Alonso havia passado por Marcelino e deixado um sorriso de amigo


mas isso faz um tempo e agora ve apenas opaca poeira laranja.
Maria cavalgava sem tocar a sela levitando ereta num ponto de
equilibrio todo seu. O rosto quadrado e gozozo. Uma linha reta do brinco
em pendulo ao bico de seu coturno mostarda quase invisivel. Os joelhos de
brim para dentro abraçavam o cavalo. Os dedos dos pes para o alto pertinho
dos sonhos de Alonso.
Ao ve-lo perguntou por Marcelino de cócoras na mesa e as mãos
também apoiadas, uma escultura - leoa eterna se tudo desse certo. Ele
respondeu nao sei, faz uns minutos que nao o vejo.
Ao longo de toda a noite Alice Eiko sentiu calores de mulher
misturados a dores abdominais e instintivamente se ajoelhou numa prece e
com os quadris assim para cima acabou dormindo, gracas a Deus, mas agora
estah alquebrada e sonolenta no tumulto da batalha sob a abóbada azul-
avermelhada e distraiu-se e um cavaleiro em pe na sela levou da esquerda
para a direita direto em seu pescoço um facão desviado pela irmã no último
momento. - Vá para casa, menina! - gritou Maria Yuke. - Proteja-se!

Maria estava longe de quatro e Alonso entrando a ela foi derrubado e


Walter se atirou sobre o agressor e derrubaram outro e mais dois e ainda um
quinto homem no rio que se abriu como se fosse devolvê-lo. E o menino,
onde ele estarah?
Alonso se virou e viu Jeronimo e Marcelino. Alice chorava o fim do
breve sonho. O cavalo de Maria empinou e pinoteou e ela puxou a redea
para o lado com a forca mascula de que frequentemente era possuida e
quando o focinho frio encostou na perna rija ouviu-se o estrondo, na verdade
uma voz. "Larguem as armas!". A voz de Jeronimo. Ele recolheu a mão que
segurava o revólver e estendeu a outra para Marcelino. - Larguem as armas!
- repetiu. - Larguem as armas e socorram os feridos!
A ordem não foi atendida e Jerônimo quebrou o silencio e dirigiu-se a
Marcelino, filho de Crisóstomo sim, à sua frente.
- Você me perdoa? Por favor - implorou. Tal coragem só pode mesmo
ter sido herdada de Crisóstomo. - Permita que eu lute a seu lado - disse.
Marcelino respondeu seria um privilégio.
Ao ver sua quadrilha debandar Jerônimo apontou o revólver e atirou
nos fugitivos a galope no sentido da serra para o lado dos garimpos. Os
cavalos dos atingidos sofreando bufavam. Corpos na terra, os olhos no nada,
as camisas tintas de vermelho, filetes de sangue pelos cantos das bocas.
Marcelino deteve Jerônimo. Diz que os deixe. Haverão de voltar cedo
ou tarde para assaltar e matar e estuprar e queimar e Jerônimo poderia
liquidá-los. Até lá teriam chance de se arrependerem. -Agora vem - disse
Marcelino.
Alonso se aproximou e percebeu que o menino estava ferido mas ele
disse não era nada e disse que entrassem para ver como estava Takeda.
Os que estavam na casa principal instantes depois, inclusive Maria
Yukie, irmã mais velha de Alice, constituíam o núcleo do grupo que
fundaria Nova Lábrea. A ausência de Hilson, então um desconhecido, era
significativa.

As janelas do outro lado da casa de Takeda davam para campos e


cerrados perdidos na floresta estacional. Desembocavam num horizonte
recortado por montes menores antecipando-se à Cordilheira Vassala. A
noroeste a distância escondia a copada densidade da planície fértil e o verdor
dos cedros forasteiros. Junto à casa havia pés de açaí e mangaba, piribá e
tucamã; e uma linha de maracujá. O rio Antarca corria atrás do galpão de
cerca de trezentos e cinqüenta metros quadrados. Barqueiros vinham de
madrugada com frutas da Ilha de Macerva.

Tudo se havia transfigurado aos olhos de Alice Eiko por causa da


presença de Marcelino deitado em sua cama. Costumavam brincar no bosque
e agora outra vez estão isolados do mundo real segundo as flores em torno
do limoeiro e o mel do apiário.
- Olá, meu jovem paciente!... - o vestido de popelina farfalhou um
tantinho enquanto se abaixava. - Vim trazer bálsamos e trocar seus curativos.
- Você é que é um bálsamo - disse ele.
Lisonjeada a menina enrubesceu. Ele não devia falar assim. Ela disse
e baixou o olhar
- Não é normal um líder apreciar a beleza de uma mocinha?
Ele não devia falar assim porque a mocinha podia acreditar e começar
a sonhar...
- Pois acredite: você é um bál...ai! ai!...
A menina pediu por favor que ele a desculpasse. Prometeu que teria
mais cuidado.
- Tudo bem um pouco de dor para ter como recompensa esse jeitinho
de se desculpar.
Marcelino era bem galante - disse ela - para um menino que jamais
saía de casa. Era bem galante - disse ele - para recuperar o tempo perdido.
Também para um menino naquele fim de mundo Marcelino falava
bonito; mas Alice espera que não sejam só palavras. Lembra-lhe que o
crucifixo foi visto pelo pai e Alonso quando ele estava correndo.
Aparentemente, sugeriu, com medo da luta. Marcelino aceitou a repreensão
sem comentá-la. Disse que se o pai de Alice não fosse um grande homem de
nada teria adiantado o que viu. A proximidade dos seios nascentes
protegidos ao longo dos dias dos olhares ávidos dos garimpeiros e
agricultores pela discreta blusa de babados sobrepostos (mas não das
imaginações) - deixava-o tonto mais que o cheiro vivo das ervas.
Ela olhou dentro de seus olhos. - Como se sente? - perguntou.
- Hoje é o grande dia de minha vida.
Ela iria agora trazer uma bela refeição: tempurá com aipim e um
delicioso pavê achocolatado de cupuaçu - tudo ela mesma fizera.
- Não vá ainda, por favor,
- Tenho de ir, só um pouquinho.
- Um pouquinho sem você é uma eternidade.
-Ora - disse ela exultante. - você é bem bobo.
- Você é tão linda.
- Sou não. Por que você fala assim?
- Impossível ficar calado com o que sinto.
-Nao teve tempo de sentir nada.
-Então me diz que não está sentindo nada por mim.
Ela nada disse.
Marcelino aproximou os rostos e beijou-a levemente. Alice Eiko
correspondia quando súbito se afastou. - Somos tão jovens - disse ela..

As estrelas navegavam na música. Noite de convivas em grande


alegria. Ninguém se recordava de tão magnífica festa. Mas Alonso passara
um pouco da conta na aguardente. - Viva Marcelino! - exclamou. Que Deus
abençoe sua missão pacificadora!

Marcelino ergueu seu copo de suco de manga e tirou Alice Eiko para
dançar. Dançaram até próximo da manhã. O exemplo animou outros casais,
como Maria Yukie e Alonso que havia tempo se entreolhavam. Ela chegou
até ele. Fez uma mesura zombeteira e o puxou para o centro do salão.
Ele não sabia dançar
– O que é preciso saber? relaxe e deixe seu corpo acompanhar o
ritmo.
Acompanhar o ritmo tudo bem. Duro foi relaxar com o contato da
irmã de Alice quando a viola parou de tocar rapidamente e ela decidiu
demonstrar como era aquele outro tipo de dança com música lenta de
bandolins.

Sabedor de que falhara demais como pai Takeda pedia a Deus que
suas filhas realizassem seus sonhos. Foi um grande sacrifício educar as
meninas depois da morte da mulher. O ar feliz que as duas exibiam. Ainda
assim preocupou-se quando Alice Eiko desapareceu do salão. Walter teria
visto sua filha?
- Sabemos exatamente onde e com quem ela está.
O casalzinho estava à beira do regato de mãos dadas sentados nas
pedras e os pés imersos na água. Alice Eiko tomou a cruz na palma de sua
outra mão. --É linda -- É sua --Não posso aceitar. É em você que protegerá a
todos de todo mal.
Em si mesma a joia não é nada. Para ele o que havia de sagrado no
mundo era Alice.
-- Você mal me conhece -- ela disse. Ela mesma não se conhecia
direito.
Ele insistiu fazendo menção de tirar a corrente do pescoço. A menina
o impediu. -- Não posso aceitar mas estou envaidecida.
O beijo se alonga. A brisa encrespa a superfície das águas. Hino de
jovens apaixonados. Não podiam imaginar o inferno que os esperava.
Dois anos depois. Meio-dia.
Takeda toma sua sexta dose de aguardente. Amor, por que beber
assim? Não há o que possamos fazer. Não trará nosso menininho de volta.
Deus quis assim. E nos deu como conforto essas duas meninas tão lindas.
Serão a alegria de nossa velhice. - Voce voce voce também me abandonou.
- Desculpe-me, meu velho, disse o forasteiro - mas eu estava sentado
aí.
- Viva Marcelino! - gritou o pai de Alice Eiko e Maria Yukie - Viva
os índios!
- Meu velho, por favor...
Takeda encarou-o e perguntou com os olhos muito vermelhos se ele
não gostava de índios. - Pois saiba que Marcelino é descendente de japurás.
Como Yokomit. A lembrança que supunha esquecida retornava
quando bebia para esquecer, o que aos poucos fez nascer em Takeda um
outro homem, que bebia para lembrar dessa outra encarnação, quando o
casal exultava com os três filhos correndo pela casa.
Também não sabia quem era Marcelino,?
-- Não, não sei quem é Marcelino Só sei que o senhor está sentado em
meu lugar,
Takeda deu uma gargalhada e perguntou se o estranho comprara
aquela banqueta,
--Não, não comprei, mas sentei nela primeiro que o senhor, com
licença...
Segurando Takeda pelas axilas o forasteiro colocou-o sobre a
banqueta ao lado. O velho, tonto, desabou no assoalho. Alice vinha chamar o
pai para o almoço e deparou com o final da cena.
- Covarde! - dirigindo-se ao estranho ela gritou
Ele virou-se. Os olhares se cruzaram em algum ponto além deles daí
resultando um longo silêncio de fascínio.
Takeda deitado resmungava. Os dois se abaixaram para ajudá-lo. O
barulho de passos, solene, precedeu a entrada de Marcelino. Alonso vinha
logo atrás.
- Os tempos estão realmente violentos.-- Marcelino encarou o
estranho. --Não se respeita mais um velho mesmo estando ele em sua própria
cidade e o outro um completo desconhecido.
O estranho diz que nada havia feito de mal.
-De onde você veio derrubar um velho embriagado não é nada?
O estranho diz que não fez isso..
Alice diz a Marcelino que pare. Estava decepcionada com a postura do
forasteiro. Um covarde.
--Acabou, Marcelino - disse ela. -- Está tudo bem,
-- Não, Alice, nem começou você filha relevará a ofensa; eu genro,
não.
Futuro genro, ela pensou.
O estranho perguntou o que Marcelino pretendia fazer a respeito de
tão grande afronta .
-Se vier para fora, saberá.
Um homem que não se conhece. Tinha de sair de casa? Tinha de
matar um homem? Matar. Com que simplicidade se fala disso, se escreve
sobre, como se alguém pudesse - decerto podem - tirar a vida de um
semelhante e seguir a própria vida como se tivesse sido apenas um acidente
de percurso, um dado estatístico. Como é hoje estatística a fuga de uma
esposa com o amante deixando uma criança à mercê de um pai violento.
Essa mesma santa que ajoelhada rezava à beira da cama de um menino que
virá a ser um homem que não se conhece.
O estranho disse que não estava disposto a brigar sem motivo --
Disposto ou não, é o que lhe resta. Eu decido se há ou não motivo. Porque
você está em sua cidade e eu sou um forasteiro --exatamente, --A vergonha
será sua, -- E problema meu, amigo -- Nao tenho amigos. Fez-se silêncio.

A tensão tem poder. Takeda quase sóbrio faz eco às palavras de Alice.
-- Marcelino, pare.
O estranho tem razão. É mesmo um confronto absurdo. Uma loucura.
Apenas Olavo, que fora avisar Marcelino sobre o que estava acontecendo no
bar, parecia disposto a ver o resultado do duelo.
A arma brotou engatilhada. O cano na direção do rosto de Marcelino.
- Quem poderia me culpar? Todos são testemunhas de que você me
provocou.
.Pois atire, desafiou Marcelino. Vê a noiva e o pai implorarem que
não. O estranho afasta a arma. Jamais o faria. Persigna-se a mulher nos
fundos. Guardará na memória o golpe que derrubou o filho de Crisóstomo.
Como um pode um homem erguer-se após? O crucifixo. O crucifixo no
aperto da mão direita.
Marcelino levantou-se e desferiu o golpe. Todos ali terão a sua
história. De como o estranho perdeu os sentidos. Junto ao baque no assoalho,
o arrependimento tardio. Alice se abaixou junto ao corpo.
- Ele dizia a verdade, nada fez de mal
-- Está morto?
Eternidades antecederam a resposta de Alice. Pronuncia a frase que
rezava para ouvir. Graças a Deus não.
- Ele vive.
.

Recobrando os sentidos, o estranho fixou um olhar reverente no


adversário de minutos atrás.
--Procuro trabalho -- disse.
Mas tudo o que sabia era usar os punhos e a arma. Pousando a mão
direita no ombro largo de Hilson, Marcelino contou-lhe. Liderava um grupo
que tentava estabelecer a paz na região. Um dia todos poderiam ter suas
próprias casas e suas próprias terras num mundo mais justo. Era seu sonho.
Enquanto não se tornava realidade defendia a causa de famílias acampadas
no território. Que lhes seja permitido viver e trabalhar em paz. Conte
comigo, disse o estranho. Se achar é claro que mereço um lugar entre seus
homens.
- Será uma honra. Como se chama?
Seu nome era Hilson.
Marcelino envia homens em missões. Com aquela destreza Hilson
será imensamente útil.
- Será uma honra.
No momento em que Alice Eiko se aproximou e Marcelino pôs o
braço ao redor de seus ombros depositando um beijo em seu rosto, Hilson
sentiu-se gelar.
Alice tinha ido passar um tempo na casa de uma tia. Pode ser que o
próprio Takeda tenha sugerido essa visita. Alguns diziam isso. O pai teria
dado essa recomendação à irmã , por favor, faça com que ela ao menos
arrefeça esse gênio; um dia ela chegou a sugerir, imagine, que Marcelino
teve medo quando a luta começou.
- Decerto teve mesmo, é o que eu sempre ouvi dizer, mas um homem
nao precisa que suas fraquezas sejam jogadas em cara o tempo todo, não foi
você que me contou que pedia a seus homens que trocassem as lâmpadas, o
que você sempre fez desde pequena, e abrissem as garrafas pet que você
própria teria aberto sem problema?
A irmã era mulher sábia que nunca o escutava e se dizia independente
de homem e liberta de movimentos feministas, perfeita para orientar Alice a
ser essa que Takeda jamais teve, Um homem assim está condenado a ser ele
próprio sua mulher, o que convenhamos não é nada adequado.
-Vou ver o que posso fazer. Deixe ela aqui amanhã. Mas não garanto.
Aliás nem digo que vá me esforçar para mudá-la. No máximo talvez para
que evite extremos e esteja atenta;
- obrigado, mana. - disse ele - obrigado.
Há quem diga que tudo isso ele pensou influenciado por Ana, mas não
há prova. Eh inegável porem que após a chegada de Ana muitas coisas
ficaram diferentes

Alice escuta atrás da porta. Passou o tempo restante de sua estada


cismando pelos cantos e evitava a tia e não mostrava alegria em vê-la mas
apenas respeito. No dia antes da partida desapareceu na floresta como se
tivesse sido abduzida. Se alguém estivesse olhando não mais poderia vê-la.
As cigarras e o uirapuru misturam timbres como duas camadas de imagem
se absorvem. Ao fundo crescem as águas. Crescem e crescem correndo
sempre em seu inelutável destino. Não há realmente ninguém aqui. Onde ela
terá se metido?
-Alice! Onde você estava?
Ela deu uma resposta vaga qualquer. O casamento é amanhã. É
preciso além de receber com o corpo incorpórea compreender o homem
numa simbiose inverossímil. Então a noiva foi para o quarto pensando e
pensando nas mulheres que viu na vila exuberantes e incontidas. Vestes
velhas e vermelhas e ar de recato nos belos rostos cheios qual um rio corre
atrás dos sons da floresta.

Ele se angustiava pela sorte do homem que derrotara. Como Hilson


recusasse cuidados dizendo ter de sair em viagem para resolver alguns
negócios pendentes em Sonora antes de juntar-se a eles, Marcelino o seguiu
pela rua até a praça e insistiu para que ele não viajasse sem antes consultar
um médico. Por que teimava assim?
Hilson disse que estava bem. Precisava apenas ir à igreja agradecer
por sua vida. Marcelino o acompanhou. Hilson rezava quando uma corrente
de vento apagou as velas do castiçal. Na penumbra a mão tocou o ombro de
Marcelino ajoelhado um pouco atrás de Hilson.
- Por quanto tempo você vai suportar tão longo noivado? - a bela
nissei olhou nos olhos do filho de Crisóstomo que virara o rosto para ver
quem era.
- Você não respeita um lugar sagrado?
- Pois se são os mais excitantes !...
Além disso, ela não estava propondo um adultério. Só uma noite de
alegria. -- Não me olhe assim, é só uma visita ao meu quarto.
- Depressa.

Hilson recolheu cavalgando para Sonora o significado do cochicho na


capela.

Sou o mais novo de três irmãos. Cresci tenso, esperando a idade de


sair de casa. Um verdadeiro homenzinho, minha mãe costumava dizer. Meu
pai enviuvou cedo e eu torcia para que ele refizesse a vida. Ele até
namorava mas quando estava para se juntar acreditava que não podia, que
o dinheiro estava comprometido com os filhos, e meus irmãos achavam a
mesma coisa. Eu gostaria de orientá-lo tanto na parte afetiva quanto na
financeira; esse menino me olha de um jeito, ele parecia pensar, e eu
desistia. Talvez não devesse. Não ia parecer certo dizer pai, o senhor é
jovem, precisa de uma mulher, de um novo amo mas podia perfeitamente
como filho explicar que ele não tinha que nos bancar para sempre.
Conhecendo meus irmãos estava claro para mim que logo logo eles iam
fazer suas escolhas que o pai não faria para si mesmo, e isso com o dinheiro
dele. Fiquei quieto esperando, não queria estar quando acontecesse, não
queria Vê-lo sofrer; e pior ainda caso não sofresse, caso achasse que estava
tudo bem em atrelar sua vida à deles (porque nunca me inclui nessa
história) e até que gostasse - se sentisse importante ou sei lá porque os
filhos eram dependentes dele. Quanto a mim não poderia permitir que esse
paternalismo me impedisse de buscar meu próprio caminho. E é uma vida
rica a que se abre quando um adolescente vive na vila em que nasci, cheia
de cores vívidas e mulheres na estação ferroviária e lojas de aparelhos
eletrônicos e capas de livros e discos nas vitrines e ônibus cheios saindo
sempre para algum lugar. E ali estava eu, vibrando pelo futuro, o que meus
tios atribuíam a uma fraqueza nervosa talvez a um transtorno mental. E
enfim ali estava o futuro estacionando devagar porque a altura dos prédios
da rodoviária foi pessimamente calculada. Ondas sonoras ao ar livre dão
ideia de companhia. Ele ficará sozinho, parecia pensar o pai. Adeus. As
laterais do ônibus eram de um verde vivo que contrastava com os tijolos
aparentes quando parti e eu não tinha a menor ideia para onde.

Eram os últimos dias frios do ano e eu sentia na pele o começo de


outubro. Combinava com o frio a visão da moça um pouco mais velha que
eu - se tornou um espaço necessário à cena. Imaginei a gente no rio que eu
acabava de ver pela janela, tomando banho, pegando fruta no pé, voltando
para casa, a roupa pesada, o cachorro na frente molhado também, as vacas
solenes, os porquinhos no quintal, a mãe nos recebendo com um farnel de
galinha caipira e a gente apertando na boca sentindo nas palmas a tessitura
um pouco áspera do pano de prato, tudo fazendo parte de um ritual a ser
cumprido algum dia mais à frente quando no lago logo além a gente desse
com os patos gingando, eu e ela descalços nos equilibrando nas batidas
distantes das quatro horas da tarde capazes de ver o que em um e outro
possibilitava a harmonia entre o fundo do ser e o ambiente feita agora de
um tipo comum em mim de confusão quando a imaginação parece memória
e eu lembrava do momento exato em que comecei a ficar ereto como se
houvesse eletricidade nos pelinhos descorados do braço dela e acho que até
o momento em que nos sentamos na mesa diante da canjica com amendoim
eu perdera qualquer noção do que fome significava. Mas, quando o pano
rápido da realidade se fez na solidão do acostamento, eu havia perdido
quaisquer perspectivas e toda lembrança. Até tentar roubar o estranho.

Viola e vozerio podiam ser ouvidos junto à serra ao sul de Tumucarate


onde Marcelino e sua gente comemoravam o assentamento de sete mil
famílias. Era quase o paraíso para quem se havia acostumado com os
desertos de borracha e castanha. Arroz e feijão, milho e café, cacau, tudo
podia ser cultivado. A criação bovina não tradicional em muito melhorada.
Árvores frutíferas. As meninas que haviam sido vendidas aos garimpos e
mesmo as que por falta de recursos se prostituíram estavam de volta aos
lares. Grande número de dependentes químicos e alcoólatras regressava de
um período de recuperação para junto dos seus.

Antes de morrer, dois fazendeiros interessam-se pela posteridade.


Chamaram Marcelino e passaram para o nome dele todas as terras de que
eram proprietários. Agora, abençoados por um período climático benfazejo,
os agricultores entravam na posse do futuro. O próprio Marcelino irá se
estabelecer ali após se casar.

Através do complexo de áreas corria o rio Eldorado, de folhagens


densas nas margens e águas cristalinas. As superfícies pétreas estavam
lustradas de verde. O vale se abria em uns duzentos mil hectares. As árvores
que limitavam as terras a oeste, na fronteira da floresta, envolviam-nas
miríades de flores silvestres. E havia a atmosfera de música.
-- Digo a vocês que ouço o Futuro! - clamou Marcelino sobre o
caixote - Fundaremos aqui uma fortaleza não para a guerra. Sairemos
divididos em grupos e voltaremos para compartilhar o sucesso e festejar a
pacificação de extensões cada vez maiores de terra! E chegará um dia
quando não mais sairemos pois todo esse imenso território entre Bosque e
Ibirazu não mais será terra de desespero. Será enxugada dos olhos toda
lágrima.
- Mas não nos iludamos! - prosseguiu, passando o braço no suor que
da testa pingava -As revoluções não podem ser previstas, não podem ser
perfeitas porque são obra de homens imperfeitos. A única revolução que
pode nos levar avante e garantir nossos sonhos se origina dentro de cada um.
E, infelizmente, nem todos tem um interior puro.
Sim. Quantos fugiram quando começou a obra! Quantos se
corromperam junto ao inimigo! Assassinos, cobiçosos que agiam
covardemente e ainda assim mantinham o discurso da paz e da justiça!
Ladrões, cuja honra está à venda! Oportunistas de todo tipo! Hoje são
políticos, autoridades, candidatos a toda sorte de cargos, alguns já em pleno
exercício! Mas não sabem eles que são assim mesmo que nos ensinam!

As pessoas gritavam e lançavam ao ar os seus chapéus.


-- Digo-lhes pois agora o nome da cidade que será o coração de nossas
glebas: Nova Lábrea! Nova e santa Lábrea!
Walter tomou a palavra.
-- Passado e futuro são evocados e do passado glorioso é necessário
que venha o glorioso futuro materializado no sucessor! É hora de Marcelino
e Alice Eiko se casarem! O matrimônio já foi por demais adiado!
Todos concordaram em uníssono.
A área da imagem está distorcida. Efeito decerto das cadeias de
montanhas secundárias derramando-se como óleo na região que ladeia a
cordilheira. A moça caminha à sombra dos tepuis, assoberbada, pisando o
tapete de briófitas. O silêncio e o calor supõem que a absorção do som
atingira um ápice desconhecido em que os latidos de nítidos eram como a
dicção clara de um fantasma inca. A parede da escola absorvia o resto da luz
daquele dia.

Depois que os outros saíram da sala, após uma aula de Man'yōshū que
ministrava, Maria Yukie aproximou-se de seu aluno predileto. -- Estou
grávida - ciciou. E, antecipando-se à reação de Marcelino: -- Mas não se
preocupe. Alonso virá amanhã comunicar nossa partida para nos casarmos.
Portanto, não vá insistir para que fiquemos. Estabeleceremos família na casa
dos pais dele. Bem longe daqui.

Alice Eiko, numa carroça guardada por Hilson e Maria Yukie, entraria
dali a uma semana no centro do complexo das áreas marcelinas, Nova
Lábrea, fundada poucos meses depois. A chegada aconteceu numa noite em
que as águas do rio estavam agitadas pelo vento - era uma noite escura,
muito escura, como a madrugada que precede com a treva mais densa o
amanhecer.

O verão partira. Não havia sido tão árduo como aquele em que se
conheceram, Marcelino e Alice, agora diante do padre Oziel, saudados por
toda aquela gente na cerimônia de sua união. No lugar onde a igreja seria
erguida, eles diziam sim um para o outro. Ela pensou num último olhar de
solteira na direção de Hilson e Hilson assistia a cena como quem morria.
O gutífero arvoredo testemunhou a chegada de uma mulher. Walter
foi discretamente a seu encontro. Cumprimentou-a. Sabe quem sou? Ele
apertou os olhos tentando reconhecer. Ana Carolina Cornwall.
-- Sim, são os olhos Crisóstomo. Como pode ser?
-- Genética, disse ela. -- Você levou meu irmão.
-- Imagino que você está aqui porque quer muito revê-lo.
-- Com certeza.
-- Quem era tua mãe?
Ela contou. Havia mulheres nas terras de Crisóstomo. Um coração
enorme do tamanho de seu apetite sensual. Dentro dos olhos e nos
movimentos da boca da jovem mulher também desabrochava uma velada
concupiscência. Ela balançou a cabeça e os cabelos demonstravam toda a
textura de seda.
-- E havia mulheres. Mulheres dos outros, é claro. E havia crianças.
Alguma teria de ser dele. Pelo menos quanto a duas ela tinha certeza. Uma
delas sou eu mesma. Veja. Herdei muita coisa de meu pai- passou os dedos
nas sobrancelhas.
-- Por acaso você não inveja a celebridade de seu irmão, provinda do
pai de vocês? afinal você é a mais velha.
Ana abriu os braços. O que poderia invejar? Sou apenas uma mulher.
Maria Yukie está entre os melhores homens do grupo, disse Walter. E é uma
mulher atraente.
-- Não faço esse gênero, só quero o que é meu.
-- E o que você julga ser teu?
-- O nome. Um lugar junto a meu irmão.
-- A vida de seu irmão será dolorosa.
-- Ele terá poder.
-- Quanto mais poder, mais dor no final.
-- Mas antes alegria e toda sorte de gozo.
-- Tudo passa.
-- A dor também. Sei que você sofre por causa da solidão.
-- É a vida.
-- Posso amenizar a tua dor. Temos sofrido demais -- ela abaixou o
decote e colocou a mão de Walter em seu seio. -- Faça me sentir bem. Eu te
farei muito bem também -- as mãos de Walter pareciam independentes dele.
-- Me faça uma mulher feliz. Eu te farei o homem mais feliz.
-- Deixa de ser louca. Estamos no meio do casamento.
-- Então depois da recepção. Encontre-me aqui.

Num lugar de sonho e presenteados prodigamente os noivos não


tinham entretanto olhos para a pujança material que os cercava pois
crescendo na proporção em que a tarde diminuía as expectativas do desejo
acabavam por dirimir toda outra pontada que não fosse a do quarto que lhes
estava reservado e os esperava com a substância de que é feita a perpetuação
dos homens e da vida. O mistério da legitimidade de um ato cujo fascínio
reside na interdição.
O mundo esteve aos pés de Alice Eiko quando seu pai de braço dado
levou-a ao pequeno altar de helíconias e fúcsias vermelhas.

Depois da recepção, Marcelino e Alice Eiko estavam no quarto pela


primeira vez oficialmente sozinhos. Reclinou o pescoço para receber os
lábios do marido. Percorreu um caminho de beijos e invadiu os bordados até
o saiote de organza e tateou a cobertura macia do tensor. Tímida cortina de
seda e renda. Desvencilhou-se do laço em que culminava a faixa da cintura
desfazendo-o com paciência monacal e tratou dos botões que o separavam
da plenitude liberta. Para ele, era algo com que sonhara todo aquele tempo
desde o dia em que os dois adolescentes ainda se beijaram na cama da
menina Alice, então sua enfermeira. Por muito tempo, de Alice fora esse
também o sonho.
Por muito tempo.
Até seu olhar se cruzar com o de Hilson.
Amara um dia sim o homem a seu lado. Amara-o sinceramente. O que
havia acontecido? Não era tão volúvel... Marcelino não devia perceber que
ela esteve a chorar. Dentro do coração dele nada se passara entre a atmosfera
antiga e lúdica e sua concretização com o casamento. Buscava agora resgatar
as sensações do primeiro beijo num beijo maduro e de diferentes
conseqüências. Dividida ela manifestava seu prazer com as caríciase os
corações aceleravam. Dado momento ela se esqueceu completamente de
Hilson e nada havia além do desejo que a levou a desabotoar a camisa de
Marcelino, a camisa branca que escolhera para as núpcias. Se ainda havia
dilema em Alice, as mãos de Marcelino eram bem mais velozes.

Herdara Marcelino de seu pai a sensualidade. Chamado a satisfazer a


mulher que amava não mediu esforços e grande era o seu sucesso. Alice
reconhecia sua dedicação e retribuía. Pareceu-lhe num lampejo que jamais
iria pensar em outro homem além de seu homem. Lamentava haver
incentivado o amor de Hilson – um mais que proibido, desnecessário. As
chispas de pensamento morriam entre as pernas que abraçava o corpo que a
possuía sem cessar. A cada investida ele declarava amor eterno e assim fazia
quando se aproximou o momento em que deveria também ele experimentar
o último segredo do matrimônio. Alice fechou os olhos. Durante os
momentos que se seguiram e mesmo alguns dias depois não mais estaria
tentada pelo fogo de um amor pecaminoso.
Para Marcelino apenas se consumara o mais lícito dos amores.

Longe ia o tempo em que as feições do filho de Crisóstomo eram as


de um garoto assustado. Um homem agora, perto de completar vinte e cinco
anos, há três casado com Alice, guardava ainda um segredo que o
angustiava. Isso tornava seu rosto anguloso e vincado de rugas de expressão
ainda mais misterioso. Embora muito claros seus olhos eram reservados
quanto à sua alma. Transparecia apenas o que ele permitia a seus homens
saberem – sua liderança e generosidade e firmeza de caráter.

Enquanto isso, longe dali mas nem tanto, no igapó, eu rendia o


homem de negro com glabela crispada e temporais salientes e jeito de pacato
a fim de subtrair-lhe algum dinheiro ou talvez o mantimento que estivesse
em sua mochila. Sobre os tições, restos de tambaqui.
– Não se mexa. Passe para cá tudo o que tiver.

Percutiam nas entranhas da pluviosidade arbórea os tambores dos uês


e globos, paños e caúras, japurás e todos os demais povos da floresta.
Diziam que estavam salvos, não seriam mais extintos. Imaginava eu que era
o único branco enfurnado naquele território e único a ter me penetrado do
gosto da vida próprio dos silvícolas. Se não era indígena, aquele também não
era um branco. Sua negritude luzia dos restos da fogueira. Estava recostado
na árvore que de altura uns cem dele daria num sono cuja expressão fiava
apenas de Deus o alívio da alma atribulada a enfrentá-lo no peito como um
inimigo.
– Isto serve?
O revólver surgiu em sua mão engatilhado direto no meu rosto.
– Tenha misericórdia de mim. Engoli em seco, assustado. – Toda
minha família morreu naquela chacina de abril nos Jacarés, estou com fome
– Está mentindo – To não to com fome sim eu – Está mentindo sobre sua
família – Como você soube – Olhos não mentem – me perdoe, mas minha
mãe foi mesmo assassinada.
Hilson pensou uns instantes. Talvez tivesse um futuro melhor para
mim do que ficar assaltando gente pacífica para comer.
Não! Eu não como gente, senhor, só queria um dinheirinho para
comprar alguma coisa, ainda não estou desesperado a ponto de me tornar um
canibal, eu não como gente não, moço, eu não –
– Cale a boca!

Toda a tarde fiquei aprendendo a manusear uma arma. Hilson me


incentivava. – Muito bom! Rápido e preciso! – dizia. Eu poderia ir com ele
como um verdadeiro pistoleiro e me tornar membro de seu estranho bando
defensor dos trabalhadores rurais e das prostitutas e dos viciados e todos os
explorados etc.
De quando em quando sabíamo-nos observados. Mas as crianças
índias logo se distraíam com outras coisas e iam embora.
Descemos e continuamos descendo rio abaixo e seguimos no sentido
leste. Desembrenhamo-nos da floresta mais densa. Ao reaver seu cavalo em
Monte Santo, Hilson consegui-me um. Seguimos assim. Foi quando pela vez
vi esta estação ferroviária.

Paramos em Paiopeba para pousar. Perguntei se não ia ao prostíbulo


antes de partirmos. Hilson não costumava fazer isso. – Não costuma estar
com mulheres? – estranhei. – Mas você, é homem, e pistoleiro!
Ele respondeu que era também escravo. Não entendi sua resposta mas
não contestei. Um homem tão bom tem direito a alguma excentricidade.

A grande floresta. Chuva. Seringais. Mangas e mangabas. Tambaquis


e dourados. Enjôo e diarréia. Histórias, muitas histórias. Hilson e eu
conversávamos todo o tempo. Eu acabara de encontrar um verdadeiro
tesouro. Aquele homem era realmente um grande amigo. Desolava-se vê-lo
se martirizar pela mulher, a esposa de seu líder e melhor amigo. Digo
sinceramente que queria ter a honra de ser eu o seu melhor amigo e não um
homem que sem sequer o conhecer, por um motivo fútil, se dispusera a
humilhá-lo e até matá-lo. Ao longo de nossa travessia da floresta até
Paiopeba nem vale a pena mencionar tudo o que ele dizia. A maioria das
coisas era produto da bebida em alguém que não tinha esse costume. Eu nem
conhecia a tal mulherzinha e já a odiava por tornar meu benfeitor um andrajo
de gente. Alice Eiko. Ajoelhar-me-ei diante dela para lhe contar as
derradeiras notícias.
– Eu, que partilho o coração de Marcelino no plano espiritual, sou
afastado daí quando estou perto dela.
Disse a Hilson que ele já bebera demais. – Descanse um pouco –
pedi. – Sabe o que é uma amizade verdadeira, rapaz? É o que há de mais
importante na vida de um homem, a dignificação da existência. A mulher
nos faz perder a alma...
Aí Hilson dormia e no dia seguinte não se lembrava de nada e seguia
em silêncio. Durante um bom tempo a viagem transcorria assim. Arrebatada
pelo dilema que dilacerava o peito daquele extraordinário pistoleiro que,
muito mais que atirar, ensinou-me a ser verdadeiramente um homem.

Um dia afinal eu vi, deslumbrado, Nova Lábrea reluzindo ao longe.


– Adeus Maria Yukie! Adeus Alonso! Vão com Deus! Sejam felizes!
Enquanto os que estavam partindo respondiam – Adeus!
Olhem – disse alguém. – Hilson!
– Há alguém com ele.
Era um entardecer quase sagrado de tão belo. O poente para os lados
de Iomará. Eu estava na idade dos idealismos. Não carregava vícios comigo.
Minha vontade se aperfeiçoava. Meu encontro com Hilson definiu a minha
vida. Antes sonhava ser herói desses que salvam as mocinhas no ultimo
momento. Desdenharia logo esse tipo de celebridade. Tudo o que hei de
querer será exatamente o contrário: uma existência banal sem grandes feitos
e sem missão. Mas não poderia escapar do destino. Estarei com aqueles
homens nas horas em que toda esperança estiver fadada à miséria.
Que se cumpram as coisas escritas.
Os olhos rasgados de Maria Yukie sorriam quando Hilson se
aproximou. – Olá! – Olá, Maria. Pela primeira vez vi Hilson sorrir.
Aonde ela estava indo?
Iam para o Sul se casar. A terra está em paz.
– Espero que sejam felizes!
Seriam – assegurou Alonso. A felicidade em seu rosto.
– E o ferimento?
– Dói um pouco
Alonso lembrou. Todos insistiram que fosse ao médico. – Você
insistiu em não ir. Dizia que não era nada. – Estava errado – disse Hilson.
Marcelino me acertou em cheio.
– Esses retiros para orar no Igapó não têm adiantado muito – a
expressão emprestada por Maria Yukie ao comentário, dir-se-ia, era um
tanto maliciosa.
– Às vezes Deus demora a atender as preces para nos testar
– Quem é o rapaz? – Alonso olhou para mim.
– Um bom rapaz. Estará conosco. Está pronto.
Marcelino aproxima-se. Estende a mão que, com angústia, foi
apertada.
Maria disse que eu tinha pérolas nos olhos enquanto seu cavalo
relinchando girava em torno de si mesmo.
– Pérolas nos olhos e a tempestade nas mãos – um elogio de Hilson
era algo de que alguém poderia se orgulhar.

Alice Eiko correu para fora ao saber que a irmã estava partindo e foi
surpreendida pela presença de Hilson. Seus olhares se cruzaram. Ana
observava. – Que bom que veio, Hilson – disse Marcelino. – Junte-se a nós
nos festejos.
Era uma pena mas ele não podia ficar
– Mas acabou de chegar
–Vim apenas mostrar o caminho ao jovem.
Marcelino se virou para mim. – Seja bem-vindo – disse. E, tornando
o rosto para o amigo, perguntou o que o impedia de ficar
– Estou no tempo de meu retiro.
– Tenho certeza de que Deus não é tão rigoroso. Pernoite hoje e
amanhã retorne a suas orações. Tem certeza de que não quer ir ao médico?
Não havia medicina humana capaz de curar seu ferimento.
– Suas palavras são duras. Sinto-me culpado pela sua dor.
– Você não é culpado.
Ele cresce contra o sol no horizonte. O tempo passou, disse. Agora só
resta conviver com a dor. Abraçou o amigo. Uma lágrima insistia em descer.
Disse adeus a Marcelino, que respondeu Adeus, querido amigo. Uma nuvem
prateada os envolvia, como a deuses.

Partiram Maria Yukie e Alonso para apanhar o trem na estação de


Maceto e partiu Hilson na direção contrária, para noroeste, para seu
santuário pantanoso.

As confraternizações em Nova Lábrea transcorriam com alegria. Não


tão alegres como o desejaria o filho de Crisóstomo, saudoso de uma
companhia duradoura do melhor amigo. Súbito a voz de Marcelino se
ergueu por sobre a música interrompendo as danças.
– O que precisaríamos para ser completa a nossa alegria? A paz e a
justiça reinam. As colheitas são férteis. Há abundância para todos.
– O mal está onde menos se espera – disse Olavo
Marcelino perguntou “Como assim?” estremecendo ante a
possibilidade de ouvir o que de há muito suspeitava.
– Por que Hilson não festeja nossas vitórias senão porque sente-se
derrotado? Por que não comemora a paz a não ser por não estar em paz? E
por quem foi vencido se ninguém pode vencê-lo? – perguntou e respondeu:
– Pelo pecado.
O silêncio permitia ouvir as moscas.
– Não é verdade, Marcelino! – Alice Eiko ajoelhou-se em prantos
– Está disposto a colocar sua acusação em julgamento, Olavo? –
Marcelino estava surpreendentemente sereno.
– Contra Hilson?
–Deus jamais deixará a verdade cair diante da mentira.
– Está bem – concordou Olavo confiando nas precárias condições
físicas de Hilson do que no poder da verdade.
– Meu Deus, amor... – a lágrima rolou pela face de Alice – Você não
podia simplesmente acreditar em mim?
– Ao amanhecer Hilson e Olavo lutarão com facas e a verdade ficará
manifesta.

Nas folhas enormes pendem gotas multicores. Hilson dorme recostado


no pé de cupuaçu. Emaranhamento abafado e úmido. Água abrupta.
Gramíneas supõem a presença de gado. Voltando pela estrada de terra, eu
percebia muito pasto onde deveria haver floresta. Hilson não chegara ainda
ao coração do igapó. Talvez nem estivesse disposto a seguir até lá.
– Hilson... – murmurou Alice, tocando-o para que acordasse. –
Hilson...
Num sobressalto ele trouxe à memória sua inocência. Não a poderia
trazer do coração. Olhou-a em silêncio.
Ali estava Lícia, de delicia, como chamara Alice em seu íntimo desde
aquele primeiro dia quando o pai sentou-se em seu lugar no botequim.
Trazia na face juvenil o sinal do tormento onde os amores proibidos
terminam, quer se consumem ou deixem de se consumar.
Sentou-se. Estranho vê-la assim a seu lado e não sentir culpa.
Percorreu com os olhos o rosto e o corpo enlameado daquela a quem amava
com amor tão cego – Lícia, não Alice – a quem só os seus sonhos
conheciam.
– Somos indignos?
Alice Eiko sentia-se indigna de Hilson. Era um homem nobre, de
caráter, jamais trairia seu melhor amigo, com quem ela era casada. E por que
o era? Por que não confessou aos dois homens o que se passava? Marcelino
era bom, compreenderia. Hilson a amava, ficaria feliz. Tudo terminaria bem.
O que pretendera ao se casar? Ser a mulher do líder? Não ligava para essas
coisas. Por quê? Sentira-se atraída pelo proibido? Passava dias inteiros se
fazendo perguntas, sem resposta. Provocara a situação que caminhava para
um desfecho fora de controle.
– Hilson?
Ele despertou afinal e me fitou durante alguns segundos antes de se
aperceber da situação. Dormira. Sonhara. E agora acordava com o coração
ainda descompassado pela imagem de Alice, que diante de si não estava.
Angustiada, ela temia o amanhecer em Nova Lábrea.
– Hilson? ... Acorde... Você está sendo esperado na cidade ao nascer
do sol.
Contei-lhe o que estava acontecendo. Hilson ouvia, impassível.

Amanhece e os corações batem pesado em Nova Lábrea. Pulsam.


Pulsam. – O sol nasceu – disse Olavo, seu perfil como o de uma estátua.
O silêncio como um tambor fúnebre.
– Deixem-me passar – eu disse. Os cavaleiros enfileirados como um
exército protegiam o espaço da luta. Reflexos dourados nos cabelos –
Deixem-me passar.
– O que você quer– perguntou Marcelino.
– Deixe-me defender a senhora!
Marcelino olhou para Alice Eiko como se pedisse a sua autorização.
Ela olhou em volta e tornou a olhar para ele.
- Que seja - disse Olavo. A justiça necessita se cumprir. Ou o filho de
Crisóstomo tem mais de uma palavra?
O uirapuru emitiu um último e longo gorjeio. O tambor invisível
continuava, tétrico. As mulheres também enfileiradas lembravam um
estranho exército, prontas para carpir. Uma delas, vestida de branco, era
pálida e seu olhar parecia o de uma pomba. Reconheci a pastora, que
cuidava de seu rebanho junto às águas quando eu e Hilson chegamos. É
meio óbvio, lembro que pensei. Suas vestes progrediam no sentido da
cintura, abaulando-se antes ; parecia sofrer e o sofrimento mudava a cor de
seus olhos introduzindo uma flauta na batida do tambor.
Marcelino relanceava os olhos a procurar alguém mais hábil que eu, o
que naturalmente não seria difícil achar; mas o silêncio dizia que não,
ninguém além de mim iria se dispor. A pastora me olhava como quem
semeia e eu me alegrei sem o menor motivo. Quão belas são tuas curvas
nos degraus desse vestido fino; feliz o que habita em tua casa e pode te ver
dia e noite, e sentir os cheiros que tu sentes, e sentir o teu gosto -- Venha,
deixe-me te tocar com o crucifixo. Como é teu nome? E então, depois do
sangue, o fruto. -- Como é teu nome, rapaz? Ahn? Ah! Lourival. As traves
de nossa casa serão de cedro O ritmo de cavalgada se fez ouvir ao longe e
as vozes se ergueram.
– Hilson! – todos se alegraram e eu mais que todos. Ele disse que não
vinha e veio, eu sabia.
O cavaleiro interrompeu o galope à sombra da igrejinha. Parou diante
de Marcelino. Vi que Olavo suava. Hilson desmontou. O burburinho das
pessoas continha grande esperança, logo concretizada. Ninguém derramaria
uma única lágrima caso a faca descesse.
– Tenha misericórdia de mim! – suplicou Olavo.

Hilson convalesceu durante dez dias. Sua ferida piorara após a luta.
Pensou-se que ia morrer. Um dia ele acordou com Alice Eiko sentada a seu
lado. Acabara de ter um de seus pesadelos e despertou com um grito. A
palma da mão amada pousada sobre sua chaga.

A cidade havia sido plenamente edificada. As vísceras do mundo.


Lembro-me do meu espanto com a construção quando cheguei. Ainda hoje é
essa a imagem que evoco durante o vagar com que minhas noites passam
insones e solitárias. Quando me lembro, estremeço. Havia a aura magnífica
nos campos e nas casas, na igreja. A cidade, as ruas da cidade, a casa de
Marcelino. Reciclagem dos resíduos de tijolos e argamassa e madeira e aço;
tanques sépticos para tratamento de efluentes e lodos sedimentados.
Antigos garimpeiros, ao serem assentados, doaram ouro. A decoração fazia
das paredes portais dourados e havia velas e flores secas, enfeites de
porcelana e estatuas, fotos de família e coleções em redomas e luzes de
parede com base das lâmpadas em cobre. Por algum eventual efeito das
luzes de fogo nos lampiões, muitas vezes pensei que estivesse mesmo
sonhando. Como no dia em que Hilson entrou, lentamente, no meio do
banquete. Marcelino se levantou. Tome seu lugar, amigo. Hilson não olhava
para Alice Eiko nem Alice olhava para ele.
– Senhor, disse Hilson.
– Olhem! Hilson está de novo aqui.
O ruído das risadas sem fim era por demais estridente. Olavo
colocava vinho em meu copo, eu me lembro. Releve, disse Marcelino.
– Acho que nos perdemos.
– Não é para tanto. As rotinas são desgastantes e a ociosidade induz a
depressão. Estou pensando em chamar alguém para implantar um programa
de atividade física. Você poderia me ajudar à frente desse programa.
– Preciso voltar para a floresta – disse Hilson.
– Entendo, amigo – olhou-o com um misto de ternura e inveja. –
Perdoe-me por tirá-lo de seu retiro.
– Se você me permite, Marcelino.
Hilson aproximou-se de seu cavalo e fez um afago entre os olhos do
animal e desatrelou-o e montou e partiu.
Naquele dia que Marcelino foi visitado por alguns japurás. Traziam
novas cujo conteúdo de gravidade evidente eu então desconhecia. O filho de
Crisóstomo preparou a montaria e seguiu com os visitantes.

Embora orgulhosos de suas aptidões agrícolas e artísticas, os japurás


eram essencialmente um povo de pastores. Habitavam a terra o tempo
suficiente para plantar e colher. Teciam durante esse tempo cobertores em
ponto-de-cruz e fabricavam bijuterias com prata. Havia muito tempo,
quando se viam hoganas armadas na planície, sabia-se que ali se
encontravam japurás cuidando de seus animais. Haviam se instalado então a
sudeste do Riacho Preto cultivando uma terra desdenhada e criando.
Marcelino reuniu-se a uns dez pastores naquele dia.
– Terei um filho? Isso me assusta.

Alice alcançou Hilson em Monte Santo, antes de Luzilândia. Ali


aconteceu o que estava predestinado pela maneira como se olharam da
primeira vez. Ao chegar em casa de madrugada Marcelino encontrou Walter
na varanda. Perguntou onde Alice estava.
– Você sabe.
Subindo o degrau do passadiço, Takeda interveio. Só pedia que não a
matasse. Até porque a vida com essa culpa será um castigo maior.

Era noite alta quando Marcelino chegou na cidade onde os


trabalhadores assentavam os trilhos. Dirigiu-se ao hotel onde Hilson e Alice
Eiko estavam. Perguntou ao porteiro pelo casal. O homem não teve
constrangimento em dizer o número do quarto nem tentou impedir que ele
subisse. Do lado de fora da porta ouvindo os gemidos pendurou na maçaneta
a corrente com o crucifixo. Ainda destroçado mas sem derramar uma
lágrima ele chegou de volta a Nova Lábrea. Dirigiu-se ao quarto onde
exausto deixou-se cair na cama e logo adormeceu.
Quando Ana foi procurar Alice Eiko para confirmar o boato de que
havia ido encontrar o amante, vibrando, escutou a voz de Marcelino.
Delirava com o nome de Alice nos lábios. – Sim, meu amor, estou aqui...
Por muito tempo não se soube mais de Ana ou Alice e maldita se
tornou Nova Lábrea e maldito Marcelino e seus seguidores e todos os povos
da floresta.
A seca durante metade do ano e as enchentes na outra metade, diz
Walter perante o Conselho. Haviam perdido os desígnios. A violência
voltara a imperar. A terra parecia jamais ter sido fértil. A região tornou-se
inóspita. O gado estava morrendo. Tudo perdeu a cor. O povo sofria sem
trabalho e sem renda. As jazidas se esgotaram. Cabia a ele, Marcelino, tomar
agora uma decisão que os livrasse da morte, a eles e a toda a gente da região.
Amargurado Marcelino protestou. – Eu não sou Deus!
Jamais pretendera, disse, a honra de ser a salvação de todos, de ter a
solução para os problemas do povo. Nao foi ele quem atribuiu poder
sobrenatural ao crucifixo.
Mas sabe melhor do que ninguém que essas desgraças tiveram início
no dia em que perdeu o crucifixo.
– Tudo o que sei é que a minha desgraça começou nesse dia.
Mal completa a frase, Marcelino revira os olhos, tem um colapso e
cai. – Morreu? – perguntavam-se todos.
– Está vivo – disse Walter. – Mas não por muito tempo.
– Buscaremos o médico!
O que precisava não era um médico. Esteve entre os seus
antepassados. Tudo foi profetizado. Os japurás esperavam um redentor que
os livrasse do extermínio. Seu rosto era o rosto que buscavam. O curandeiro
que garantiu que Marcelino era o homem e afirmara também que ele não os
poderia livrar sem antes passar ele mesmo por uma grave doença que
quando o atingisse também atingiria a própria terra.
– O que é, exatamente?
– Uma gravíssima degeneração óssea e muscular.
– Por que não evitou a desgraça se conhecia o futuro?
– Por que não conduziu sua dor pessoal de modo condizente com a
sabedoria de sua extirpe?
– Sim! É o filho de Crisóstomo!
– É um homem – disse eu. E perguntei: – O índio não falou sobre
tratamento?
Sim, havia uma cura. A dose única de um certo chá. Mas a raiz de
Uahú, de que é feito, era muito rara. Nem o próprio curandeiro soube se
poderia ainda ser encontrada. Na verdade, depois que Alice Eiko partiu, o
próprio Marcelino não queria outra coisa senão morrer e jamais se
preocupou em precaver-se
–Não importa – eu disse – Diga como é a raiz e iremos procurá-la.
Seria como agulha no palheiro.
–Não importa – disse Jerônimo.
Que Walter falasse e iríamos todos em busca da cura.
Depois que Walter nos instruiu, dispersamo-nos pelas serras
fronteiriças, do Pico-Mor ao Chapadão, ao longo do Rio Grande até a Ilha
Atlântida, em busca da raiz de Uahú.
Takeda estava à frente quando partimos.

Esquecidos de nós mesmos e em torno de um mesmo ideal, saímos, os


homens de Marcelino, pelo mundo selvagem, comungando a mesma
esperança. A reflexão especular do sol e da lua nos rios caudalosos apontava
os raios à eternidade. Estávamos a princípio em grupos. Mais tarde, cada um
por si. Marcamos encontros em diversas datas e lugares. Alguém dentre nós
haveria de encontrar Uahú? Perguntávamos a qualquer um pelo caminho.
Passávamos por aldeias indígenas, ignorando a ferocidade dos Uruaques,
Gês e Caribós, ferocidade encontramos nos homens brancos das cidades e
vilas ou quando nos apanhavam nas terras incultas de imensos latifúndios.
Muitos fomos tidos por loucos e tratados como tal. Alguns linchados e
outros assassinados em emboscadas.
Procuramos por toda parte.
Passou o tempo. Os homens iam morrendo, um a um.
Tentamos inspiração em plantas alucinógenas, em meditações e
preces, tentamos tudo na procura. Inútil.
Estações e estações de trens. Estações e estações do ano. Ninguém
achou a raiz e a maior parte de nós desaparecera.

O mar, o planalto cretáceo; os rios cheios; ventos quentes e


tempestades; a eletricidade no ar; os pântanos; a umidade entranhando-se
nos ossos; as serras espectrais e os vales nas encostas - eu seguia
cavalgando, caminhando, navegando. E o tempo ia passando, indiferente à
minha exaustão.
Encontrei a morte de muitos em meu caminho e disse a mim mesmo
que aquela busca era loucura, estava acabado, era loucura, não havia
nenhuma raiz.

Um dia, entrando pela rua principal de uma cidade, do passadiço


acenou-me um garoto. Hei, moço. Não era eu, perguntou-me, um dos que
procuravam a raiz de Uahú? Voltei-me e vi o rosto bendito. Respondi que
sim, fora de mim de tanta alegria. Ele sabia onde encontrá-la? Correu à
frente de meu cavalo – Levo o senhor lá.
Saímos de Pés-Pretos e entramos uma casinha de palafita. O garoto
sentou-se à mesa e veio até mim uma mulher metida num vestido de algodão
vermelho com passantes debaixo do busto, muito maquilada, os cabelos
sobre o rosto. Pobrezinho, disse ela.
–Por onde andou? Por quanto tempo tem caminhado?
Eu andara por sertões sem fim. Caminhara entre serpentes. Perdera-
me no meio de florestas tenebrosas. Resvalei e rolei por ravinas abissais.
Percorri durante meses a fio milhares de quilômetros e, sempre, só os mortos
esperavam a minha chegada.
–Portanto, não achou o que procurava...
Tudo o que achei foram crianças brincando em meio a lobos e
menestréis bêbados às portas de botequins e homens ambiciosos e cruéis e
pregadores gritando coisas inaudíveis e disparos pelos motivos mais fúteis e
gente doente e suicidas e puristas desdenhando da pureza e chefes de
família sem ter como sustentá-las e um palhaço chorando e uma cantora se
prostituindo em troca de pão e um negro sendo enforcado e jornalistas no
papel de deuses e artistas vendendo as almas e índios envenenados com
álcool e meninas oferecendo a si mesmas por nada mais terem a oferecer e
sua pureza ninguém queria e poetas queimando versos e o triunfo da traição
e da mentira e velhos servindo de chacota e trovões anunciando a
tempestade.
– Sim, meu querido, é terrível a tempestade que virá...
Mas eu estaria abrigado junto a ela, disse-me. Venha. Descanse.
Junte-se a nós. Ofereceu-me uma caneca de cerveja. Quando ia levá-la à
boca, vi Manuel. É você, Sandro? Yaco? Vocês... acharam a raiz?
–Não existe nenhuma raiz – disse a mulher, que então reconheci.
Sim, Ana... Venha, pois. Ande, beba... Descanse... Junte-se a nós e
alegre-se... Dias de glória estão chegando. Gritei. Não! Tentei alcançar a
porta. Fui impedido. Bem, disse Ana, você teve a sua chance.
– Levem-no para fora – disse o menino que havia me guiado –E que
tenha o mesmo fim dos outros.
Fui arrastado para as margens do Rio Grande. Lá, espancaram-me e
me precipitaram. Não morri no linchamento como julgavam mas estava bem
próximo da morte por água. Lutando contra a corrente, quase desfalecendo,
eu via na morte além da morte e acima ouvi o motor de um barco. Impulsos
sonoros angustiantes. Perturbação em minha alma. Senti que a raiz estava
ali, em algum ponto das margens, mas nada fiz senão tentar me salvar. E,
agarrando-me nuns galhos, consegui.
Saindo do rio, perdi os sentidos.

Visivelmente exausto, à beira de um colapso de exaustão, Takeda


bebia das águas do rio no ponto em que eu havia saído há pouco. Eu estava
atrás de uns arbustos, recuperando-me. Quando o vi, quis deixar o
esconderijo e ir até ele. Tarde demais.
– Renda-se! – disse o menino. Os homens que traíram Marcelino o
seguiam.
Takeda olhou o bando com espanto. Manuel? Sandro? Yako? - Que
fazem aqui? Quem é esse pequeno doido?
– Eu sou Espebeato – disse o garoto. – O chefe de todas as
quadrilhas do Norte.
Era o que Takeda dizia: Era um doido
–Retire o que disse! Envergonhe-se do nome do filho de Crisóstomo,
preste-me tributo e viverá!
Era realmente doido, murmurou Takeda. E, erguendo a voz: –Estou do
lado de Marcelino e assim viverei ou morrerei.
Morrerá, então.
Esvaziaram em Takeda seus revólveres.

Quando partiram, aproximei-me. Agonizava junto às águas. Amigo?...


Sou eu, Val... Ele mal podia sustentar o olhar em minha direção. Mesmo
assim, disse o que pensara ter sido um delírio de Walter, mas não...
–Walter também morreu nas mãos desse ensandecido?
Dignamente. Como sempre viveu. Takeda o encontrou, também
agonizante. Ele lhe contou, mas era difícil imaginar. E Takeda me disse o
que se passava. Coisas que Walter não sabia, o próprio Marcelino mais tarde
me contaria...

Marcelino olhou para Espebeato. -Você é filho de Ana?


- Seu filho!
- Meu filho? Então por que esse ódio?
- O que poderia sentir por um pai assim? -Voce eh patético!
Representa a benção da terra e todas as terras a seu redor estão assoladas.
Diz ser o pacificador e só há violência a sua volta. O povo morre pela fome
e pela lei do mais forte. Isso, aliás, se chama evolução. Você parou no
tempo. Este mundo está destinado a mim, não a você. Os fortes lideram
aqui. Você é uma piada! Ouviu falar das catástrofes? do terrorismo? Este é
o meu mundo!...
Mas o que o rapazinho queria de alguém tão desprezível?
-Num gesto de misericórdia, estou oferecendo sua própria
sobrevivência. Em troca, dê-me essas terras e ordene a esses poucos homens
que se mantém fiéis a você que passem para o meu lado. Eu providenciarei
que a imprensa do Sul venha ouvir de sua boca que sou o legítimo herdeiro
de Crisóstomo.. E você terá garantia de vida. Só uma questão de palavras.
As palavras têm esse poder, você sabe.
Marcelino não poderia lhe dar o que pedia. Quem está comigo, disse,
está por vontade própria, por livre arbítrio. Por terem testemunhado que o
crucifixo estava em meu pescoço.
-Você perdeu o crucifixo quando achou seus chifres!
Mas não a autoridade que Espebeato agora quer. Na verdade, não é
minha, disse Marcelino, não sou nada. Você bem disse, sou patético. Apenas
servira um dia de mediador na região entre a paz e os homens. Quando
meus homens voltarem com a raiz de minha cura, a paz será restabelecida.
-Meu Deus!... Mas que diabo!... Não há mais homens há procura de
raiz. Dos que saíram a procura-la, ou estão mortos ou passaram para meu
lado. A paz não será restabelecida. E, se a violência não serve a seus
propósitos, serve aos meus.
-Não teria nenhum se Deus não permitisse. De fato, não tem nenhum.
-Talvez ainda não. Mas a falta de estrutura familiar e de projetos de
vida, o ter, a desigualdade e a impunidade, o aumento do consumo de
drogas. Armas em lugar de brinquedos. Esse e meu mundo. Esse eh o
futuro, meu pai... Drogas... Armas... Sexo... Muito poder sem risco nenhum.
Uma mina inesgotável. As meninas mais virtuosas entregando seus corpos
por uma nova dose e o preço de seus corpos a seu dono... eu... Trabalharão
de graça no final, todos e farão a riqueza de alguns. -E se eu incluísse você
entre esses, papai?
--Não, obrigado.
- Idiota... É por isso que você parou nas aulas de Literatura. Isso é
vida, meu pai.
Nada sabia de vida. A fonte da é justiça e paz.
-Olhe a seu redor.
-As coisas às vezes não são o que parecem.
-Tudo bem, serei misericordioso. Não precisa receber os jornalistas.
Mas me dê minha parte nas terras e algumas dezenas das filhas de seus
homens para servirem nos garimpos e nas cidades que já conquistei. Você
sabia que há um mundo além de Nova Lábrea, não sabia? ou pensava que
terminasse onde termina a rua principal?... Muito bem, muito bem... Apenas
faça isso, do resto me encarrego.
Providenciaria inclusive um médico decente, continuou o menino, e
Marcelino teria a cura. Ou toda a cocaína, toda a heroína, toda morfina que
precisasse para esquecer. Não parecia caridoso? -Por sua causa, tantas
jovens ficaram sem pai e suas mães sem um homem na casa e a terra sob
maldição. Mas eu restaurarei isso.
- Se não sei mais onde estão a justiça e a paz, com certeza não esta
em seu coração.
Ah, realmente não! Quem poderia ter paz, sabendo que o pai é um
corno mestiço?
-Minha descendência muito me honra. E amo Alice e Hilson é o maior
amigo que um homem poderia ter.
- Por isso mais te odeio. Talvez, se você se envergonhasse... Mas
sente-se honrado! Ah meu Deus que idiota você é, que grande imbecil!
Coisa triste de se ver... E esteja certo de que minha primeira providência
será destruir todos os índios dessa região. Os japurás, é claro, serão os
primeiros. E seus avós os primeiríssimos. Quanto a Alice e Hilson, é por
demais aviltante...
Que trapo de homem!... Meu pai... Que vergonha!
-Sao teus antepassados também.
Um simples acidente.
Verdade. O próprio Espebeato foi um acidente infeliz. Mas que não
contasse transformar aqueles delírios em realidade.
-Se não for por bem, será por mal. O que agora você está me
negando, eu terei de uma forma ou de outra.
-Não creia.
-E como espera me impedir?
Erguer uma prece será um bom começo.
Erguer uma prece... -Ah, papai, titio, grande guerreiro da
paz...Veremos!
-Se achasse mesmo que não sou empecilho para seus planos não
estaria agora aqui me propondo esse vil acordo.
-O motivo principal por que estou aqui é que não queria em minhas
mãos o sangue de um mártir. Mas darei um jeito nisso também. O povo é
inconstante...
-- vah embora. Deixe-me sozinho. Estou cansado.
vou sim mas voltarei
A dourada cidadela de brinquedo onde você se esconde do mundo
será meu quartel-general. E vou mata-lo com minhas próprias mãos...
Ouvi abismado o que Takeda me contava. O menino é o demônio... E
só você, disse-me Takeda, pode ainda livrar a terra, achando a cura para
Marcelino.
Eu via morrer à minha frente o pai de Alice Eiko e Maria Yukie.
Somente eu? Nem Jerônimo?
Ninguém.
Estive muito perto, senhor. Mas falhei.
Não importava. Que eu tentasse. Minha filha, disse-me ele, precisa de
paz.
Sim. Eu o faria. Mal acabei de falar, Takeda expirou.

No vilarejo assolado pela seca, as pessoas me reconheceram como um


dos homens do filho de Crisóstomo. Vejam, diziam. Por isso a miséria e a
peste entre nós! É um dos malditos que quiseram passar por discípulos do
filho de um deus. E como resultado a morte estava viva entre eles. Era o que
herdaram de Marcelino e seus seguidores: a morte. As pessoas que
atravessavam o lugar, de um lado para o outro, iam parando e se
aglomerando num círculo em torno de mim. Mal me recuperara de um
linchamento, e já estava para sofrer outro.
Não de novo, pensei.
As pedras começaram a voar na minha direção.
Fui acuado entre as pessoas enfurecidas e o Rio Preto. Uma pedra e
minha testa começou a inchar. Olhei para trás, tonto. As águas corriam e
desabei na correnteza. Imergindo e emergindo, não me importei com a morte
próxima. Queria apenas discernir nos ramos das margens algo que se
parecesse com uma planta cuja raiz se chamasse Uahú. Tive subita a
intuição. Ali! – era ela!
Socorrendo-me de seus ramos, detive meu corpo. Engoli mais água do
que julguei ser capaz e estava morrendo mas agarrado à planta consegui
subir na beira do rio. Adormeci.

Ao acordar, desarraiguei o ramo e veio com uma coisa barrenta, em


nada parecida com a cura de alguém. Agora eu sabia e tinha nas mãos o que
sabia. Comecei o caminho de volta. Encontrei um velho japurá. Ele me
confirmou a legitimidade da raiz e, junto à cura, eu levaria para Marcelino
uma revelação sobre seus avós e Alice Eiko.
Segui caminho.

Lembrando aquele amanhecer em que vi Nova Lábrea ao longe,


murmuro: Não estará mais deserta a cidade outrora festiva. Despertará.
Sacudirá de sua memória os tempos do luto. Porque um remanescente
descerá o chapadão e as serras e subirá do sul para habitar a cidade com
intensa alegria. Não irão temerosos os que entrarem porque o sucessor de
Marcelino estará adiante deles.
–Quando? –pergunta o menino sentado a meu lado.
Sorrio ao perceber que falo sozinho. –Um dia– eu digo. E penso:
Falando sozinho... Os sintomas estão chegando. Se demorar muito ainda,
quando ele chegar me encontrará chamando de papagaio o abutre...
– Um dia... – respondi
E, esperando esse dia, sou Lourival de Almeida, sentado no banco de
jacarandá da estação, tendo um menino desconhecido e curioso a meu lado,
aguardando que se cumpra a promessa. Talvez hoje. Agora.
O trem pára.
Uma barulheira e, na azáfama, as pessoas começam a descer. Parentes
e amigos aguardam ansiosos. Não. Nada de alguém com uma corrente no
pescoço e luzindo ao sol um belo e estranho crucifixo. Apenas gente comum
derramada pelos vagões para dentro da fumaça. E eu, alegre em minha
esperança, logo a enterro, até o trem seguinte.

Entro na cidade triste.


Resplandecia ao sol a misericórdia de Deus quando passei para o
quarto onde Marcelino estava deitado. A depressão o enfraquecia além da
doença. – Beba, amigo –disse eu ao sentar à cabeceira do filho de
Crisóstomo.
–Será mesmo uma erva milagrosa se me curar – disse Marcelino –
Ponha a caneca em meus lábios, não tenho forças. Tantos anos... estou
acabado...
–Beba, chefe. Depois conversaremos – disse eu. E pensei: Que
coisa... ainda tenho de ficar escutando essas lamentações depois de tudo por
que passei...
Ele tomou o chá e dormiu em seguida. Na praça, eu fiquei
conversando com os homens que haviam permanecido em Nova Lábrea com
Marcelino. Estavam conformados. Não tinham mais esperança. Talvez até
tivessem ido embora se tivessem para onde ir.

Cerca de meia hora depois Marcelino apareceu na soleira que dava


para a rua. Homens! – gritou.
Ai meu Deus... o que ele quer agora? pensei sem me dar conta que ele
estava de pé. – Marcelino, você está bem?
Estaria, se não fosse tão inseguro. Diz: Todos têm feito tudo por
mim!... Até Hilson e Alice carregaram uma culpa que era minha. O que
tenho feito para merecer uma lenda?
Parou um momento, a cabeça baixa, mas logo a ergueu de novo, com
firmeza na voz e no olhar: Um bem há que precisa ser feito e um mal a ser
destruído. E não será um crucifixo que fará isso por mim.
– Mas certamente –ponderei– a cruz o protegeria, se você acreditasse
mesmo que ela o estava protegendo.
–Eu acreditaria se estivesse comigo. Como não está, acredito em mim
mesmo.
–A raiz é mesmo uma maravilha! –exclamei. E, como ele me olhasse
de um jeito esquisito, emendei: –Como você está corado e bem disposto!

Crianças brincam ao lado do fogo. O homem passa por elas. Cabeça


erguida, ombros largos - imponente. Sombras em seu semblante generoso.
No ar, o outono. Seu coração bate mais forte ao entrar na tenda. Uma
lágrima. Beijando a face da anciã, Marcelino chora também. Estava na parte
de trás da hogana. Vá meu filho, disse a velha japurá. Ele soluçou. Apertou a
avó num abraço e seguiu para o lugar indicado.
Alice. Ela sorriu, muito meiga.
–Meu marido.
Ela mostrou a jóia em seu dedo. O passado ressurgiu apontando para o
futuro na luz do crucifixo.
Gostaria de ter sido um homem como outro qualquer.
Não era um homem qualquer?
Gostaria de ter sido amado!...
Alice o amara. Não tanto quanto deveria.
Que ela o perdoasse, pediu Marcelino.
Hilson foi a tortura dum fascínio não recusado.
Hilson, grande amigo... Onde estará?
Quem sabe? Tudo o que ele possuía no mundo era a amizade de
Marcelino e o desejo de lhe ser fiel até a morte.
E o amor que Alice lhe dedicava.
Oh, meu Deus!... Isso também... Mas se ele tinha um lugar no mundo,
não era ao lado de Alice, mas de Marcelino.
A nosso lado. Terá morrido?
Sem dúvida... -Mesmo que esteja vivo.
Marcelino comentou o quanto precisávamos de Hilson naquele
momento, de sua coragem e destreza.
Não, disse Alice a Marcelino -Todos precisam de um líder como você.
Livre, para pacificar o território, salvar o seu o povo e livrar a terra da
ameaça do filho de Ana.
Como Alice sabia disso tudo?
O avô de Marcelino era um homem extraordinário, um profeta. Um
homem com a sabedoria do amor.

O pôr do sol dourava a aldeia. Logo, o crepúsculo legava figuras


purpúreas, cavalos e homens, mulheres e bois, o vulto das serras. Quando a
noite desceu, o filho de Crisóstomo estava partindo.
Alice Eiko estendeu a Marcelino a mão em que pendia a correntinha.
Tome, ela disse. Pelo menos temporariamente acabara aceitando a oferta que
um dia ele lhe fez. Querido. Entre lágrimas, Alice Eiko balbuciava.
Alice... Abraçou-a. Alice...
Se ele ainda quisesse, ela estaria esperando em seu regresso.
Voltaria. Nem que fosse em sonhos.
Depois que ele saiu, a mulher voltou às orações e ao jejum que
entraria pela vigília seguinte. Orava fervorosamente pelas almas de
Marcelino e Hilson.

Chovia na serra e o cheiro da chuva se misturava à voz aguda dos


coelhos e uivos vindos dos ventos e dos zorros. Ao longe, distinguíramos o
acampamento de Espebeato. O filho de Marcelino ultimava os preparativos
para a invasão de Nova Lábrea. Tínhamos uma chance se atacássemos de
surpresa. Agora, precisamos avançar com cuidado. Os mosquitos infernizam
ao redor. Seriam horas delicadas de caminho por lhanos assolados. Guias
nos ajudavam nas trilhas. Reunimos todo nosso exército e acampamos, todos
menos aqueles que seguiram frente, em coluna. Nossa vanguarda aqui e ali
elimina uma vigia inimiga. Conosco, muitos camponeses. Pegavam em
armas pela primeira vez. As mulheres traziam víveres e explosivos. Não era
um apoio absoluto. Espebeato conseguiu seduzir pelo menos uma terça parte
dos lavradores, e todos os antigos latifundiários a quem agora seduzia com
promessas. Naturalmente, logo seríamos traídos. Por isso a pressa se fazia
ainda maior.

Foi no dia 25 de maio. O acampamento de Espebeato era em Graças.


Grande a nossa desvantagem inicial. Cerca de 200 fuzis, duas metralhadoras
de base fixa, uma escopeta e uma espingarda de cano serrado, contra 5.000
armas de toda a espécie. Cruzamos o rio Yucah e finalmente atacamos em
bloco. Tomamos pontos do acampamento depois de lhes cortar toda a
comunicação. Alguns, sentindo-se cercados, prepararam vagões e fugiram
pela via férrea, mas, desgovernados por bombas caseiras, descarrilaram. Da
vantagem inicial, entretanto, gradativamente, quase nada podíamos reter.
Nem percebíamos que éramos, proporcionalmente, apenas alguns fiéis
atacando o poder de todo um exército. Estávamos dispostos a lutar até o
último homem.
Ainda assim, parecia demorar mais do que deveria a nossa derrota. É
bem verdade que alguns valentes entre nós faziam estragos com ataques
suicidas; também a metralhadora manejada por Marcelino e a escopeta que
eu usava assombravam o inimigo. Mas nada que se comparasse ao fuzil, à
pistola e à faca que do nada surgiram, quando a noite descia dos céus.
Hilson?
O nevoeiro e a fumaça impediam a visão plena daquele que apareceu
entre nós, levantando brados mortais de nosso inimigos, espalhando cadáver
sobre cadáver na terra ensangüentada.

Estava frio e chovia. Eu havia posto a velha calça de brim e um boné


para a batalha. Agora, descalçara as luvas preparando a repetição. Senhor
Deus! Somos filhos da guerra!... Amontoavam-se desenhos espectrais entre
as vísceras. Uma estatística diria que a maioria entre nós era de homens
nascidos ao pé das serras, às margens das torrentes, e conservávamos algo de
sua natureza, fluidos e encrespados, enchentes que tudo arrastam. Éramos
senhores e, súbito, precisávamos que soubessem que éramos senhores. A
quem temeríamos? Quem seria contra nós? Entretanto, ai de nós, eles
podiam sim nos vencer, quando quisessem, e queriam isso demonstrar,
alongando a peleja
Hilson?
Os movimentos simétricos dos braços, as leis da compensação e do
equilíbrio, dependiam ainda da habilidade pessoal, da inteireza, do coração.
Não teríamos sido dignos? Senhor, não somos dignos!... Mas devíamos
cumprir o momento, o juramento, um dia pronunciado, em um momento de
delírio, a promessa.
Hilson!? É você?
Talvez um dia eu lembrasse de tudo e escrevesse, quem sabe
escrevesse, não sei bem com que motivo, como elo entre eras, numa aura
abissal de resistência, homem novo dilacerado, homens vivos em pleno
corpo da morte, quem nos livraria do inevitável?
Hilson? Era ele!
Como haveria condenação? O que foi impossível a Marcelino porque
adoecera fez-se possível por um espírito de vida e poder, num lugar onde a
história teria fim. O exército de Espebeato crescia sobre nós desde três
pontos distintos. O cerco se dissipava e o ataque frontal chegava em
fragmentos. Explosões, clarões, fogo. Lâminas ensanguentadas. Patas de
cavalo sobre o chão, relinchos e gritos. clamores. O som dos rifles e
carabinas e o silêncio quase incógnito do Anjo.
Hilson!
Sua arma respondia em seu lugar.
Hilson! Só podia ser ele.
O fogo se alastrara pelas casas do acampamento. Graças ao Anjo
entramos pela escuridão quase em igualdade de forças. Explosões fantásticas
elevavam a potências, duma só vez, as baixas de Espebeato. As habitações
eram fornos. Homens fugiam horrorizados para caírem sob nosso fogo.
víamos morrer amigos queridos a nosso lado. Pensávamos nas famílias
deles, que haviam ficado em Nova Lábrea. Alguns eram pais; outros,
arrimos; garotos imberbes. Vi uma carteira ao lado de um menino e, ao lado,
a foto da namorada se incendiava. Era uma linda menina. Ele a viu também.
Quanta dor...

Às duas da manhã, sob a luz claríssima de uma lua cheia, à beira da


trilha que margeava o pântano, entráramos na fase final da batalha.
Aproximou-se a habitação principal, onde resistiam Espebeato e seus
homens mais íntimos. A ventania uivava, redemoinhava o enxofre. O pasto
estava lilás. Ouvimos de longe um grito agudo e o vulto de uma mulher caiu
perante ao que parecia ser o vulto do filho de Marcelino. Marcelino gritou,
num rompante dolorido, que se rendessem. As mãos em concha à frente da
boca, esperava escutar a resposta que não veio. A hogana ardia. A rajada fez
cair quase todos a nosso lado. A lua apagara-se num rubor sangrento. Não
haveria de ser conseguida a paz senão pela guerra? Ao erguer-se o nevoeiro
azulado, dissipando-se no ar, havia sobre terra vermelha uma quantidade
fabulosa de mortos sem nome.
Marcelino? -o grito irrompeu solitário no silêncio finalmente refeito.
Ali estavam, à minha frente, em meio aos corpos. O filho de Crisóstomo
ajoelhou-se e aconchegou nas mãos a cabeça de Hilson, onde da ferida
escorria sua nobreza vertida também do peito opresso.
Velho amigo, disse Marcelino com ternura. O ar estranhamente gelado
se manifestava pela fumaça em minha respiração.
Poderia morrer em paz, sabendo que ele já o perdoara? -as palavras
saiam vermelhas da voz de Hilson.
Os justo sempre morrem em paz. Que mais poderia dizer?
-Que me perdoa.
Somos todos culpados.
Que Marcelino voltasse, disse Hilson, que voltasse para Alice... Ela
estava...
Marcelino suplicou -Psiu- Nao fale tanto
Então, Marcelino precisa prometer que vol-ta-rá... para...

Alice Eiko morreria um ano depois. Encontrei-a na aldeia quando


voltava da batalha. Não verteu uma lágrima. Sorriu gentilmente e me disse
que já sabia o que acontecera ali no Vale da Morte, ao norte da Chapada
-Sim Val, eu já sei. Sonhei com Marcelino esta noite.

Ao pousar a cabeça de Hilson no chão e cerrar-lhe os olhos com os


dedos em V, Marcelino foi chamado, não pelo nome.
- Paizinho!
Não era irônico?. Só os dois haviam restado.
Não, eu disse. Eu ainda estava ali. Maldito.
Que eu me acalmasse e os deixasse, ordenou Marcelino. Era um
assunto de família. Virando-se de novo para o filho, perguntou pela irmã.
-Minha louca mãezinha? Tive de matá-la. No final ela implorava que
eu me rendesse, que ela havia sido louca em provocar aquela situação,
implorou de joelhos perante mim, tive de matá-la.
Era ainda mais insano do que ela.
Andaram de lado, em torno um do outro. Pai e filho na terra desolada
em meio aos corpos. O solo exalava um odor fétido e triste. Os papagaios,
quero dizer, os abutres, adivinham o cheiro da carne putrefata. Ao olhar do
ódio do filho de Marcelino, seguiu-se seu ataque. Marcelino parecia lutar
consigo mesmo, hesitando em reagir. A faca luziu entre seus olhos. O rumor
oco e surdo da luta ecoava na pradaria e na eternidade. Era um
conhecimento terrível o daquele novo sofrimento que se avizinhava, quando
Marcelino morresse nas mãos do filho. Dolorosas interrogações. Esperava
que a porta se abrisse e aparecesse o carrasco na noite escura que jamais
invoquei. Neblina úmida, treva. Luz de um archote ardendo com as últimas
esperanças da terra. Por que, meu Deus, não poderia ainda filho de
Marcelino num rompante agir bem, arrepender-se, levantar o semblante? o
pecado estava em seu coração; sobre ele se assenhoreara seu desejo, que ele
deveria dominar.

Eu não respirava. Uma brisa espalhou-se pela planície, balançando os


ramos em que alguns pássaros matinais ousavam agitar. As águas do rio. Um
corpo. Maldito seja Espebeato, fruto e disseminador do pecado. Bendito
Marcelino, o futuro por promessa. As lâminas haviam entrado simultâneas.
Ai de nós! Evaporam-se juntos o ideal e a cobiça na cortina funérea que se
abriu.
Espebeato teve morte instantânea. -Val!- Marcelino agonizava.
-Vá até o rio! Tome. Jogue-o nas águas - recomendou-me, devagar
porque mais depressa não podia falar e também para que ficasse claro que
não deveria questionar a sua ordem. Estendeu-me a lendária jóia, que tomei
em minha mão. Montei e fui. Quando voltasse, ali estaria apenas o corpo do
filho de Crisóstomo. Na aldeia, antes do ataque ao acampamento, enquanto
comíamos, Marcelino me havia dito: -Assim como a maldição veio do
pecado em minha casa, virá também a paz. Quando o sangue dos justos
estiver clamando desde a terra, surgirá um homem. Descerá de um vagão de
trem que estiver parado em uma estação onde, casualmente, você estiver.
Então você irá até ele e lhe contará quem ele é.
-E quem é?
- O homem com o crucifixo.
- Com este crucifixo?
-Quem sabe...
-A tradição diz que a cruz deve ser enterrada com o último homem da
linhagem de Crisóstomo. É esse a quem estamos indo matar, não é?
-Não. Mataremos o pecado, a conseqüência do pecado. O homem de
quem falo vem do Sul, para onde foi Maria Yukie. Meu filho.
-Mas...
-Nem pense em me dizer o que está pensando.
- Que seu filho com Maria Yukie também seria um filho do pecado?
Eu jamais diria isso...
-Melhor assim. E o que ia dizer?
-Ia perguntar por que tudo tem de ser assim complicado. Por que
vocês, mitos, não podem simplesmente ter filhos e cria-los normalmente,
para variar?
- Meus olhos não estão mais aqui... - dissera então Marcelino.
Assim, o filho de Crisóstomo expirava. Não na fúria do combate mas
tomando tranqüilamente o seu café.

Decorreram dez longos anos. Outro trem se aproxima. O sucessor de


Marcelino será um dos passageiros? Embora tenha apenas 48 anos, me sinto
velho e cansado. Mas poderei enfim dormir, quando meus olhos o virem.
FIM

©2017 Ricardo de Almeida Rocha


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No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998