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SAMIZDAT18

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Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

COMUNICADO
SAMIZDAT Especial de Mistério e Suspense

ENTREVISTA
Goulart Gomes, o criador do Poetrix

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom, Henry Alfred Bugalho

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Uma Galinha, Clarice Lispector

CONTOS
Boa noite, minha princesa. Te amo!, Carlos Alberto Barros
O Primeiro Passo, Joaquim Bispo
O Lobo Vermelho (primeira parte), Volmar Camargo Junior
7/8 em 1/4, Jú Blasina
Janela pra rua, Henry Alfred Bugalho
Prisioneiro em si, Léo Borges
Camuflagem, Marcia Szajnbok
O dia em que o farsante encarou o espelho, Barbara Duffles
O Admirador - Parte 4: Rostos, Maristela Deves
Parceiros, Giselle Sato

Autor Convidado
O dito sexo e a tal cidade, Miguel Castro

TRADUÇÃO
Eveline, James Joyce

TEORIA LITERÁRIA
Fluxo de consciência, a literatura dentro da mente, Henry Alfred Bugalho
Algumas pistas para escrever mistérios, Maristela Scheuer Deves
A poética do poema Blavino, Volmar Camargo Junior

CRÔNICA
Um monte de papel, Volmar Camargo Junior
Obama matou a mosca, Maristela Scheuer Deves
Crônica de uma cidade adormecida, Caio Rudá de Oliveira
O que você quer ser quando crescer?, Henry Alfred Bugalho

POESIA
Dois blavinos, José Espírito Santo
Desencanto, José Espírito Santo
Laboratório Poético: o Poema Blavino, Volmar Camargo Junior
Poemas, Mariana Valle
O Lago, Guilherme Augusto Rodrigues
Fale Frei Cappio, fale a vida, Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT
Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

COMUNICADO
SAMIZDAT Especial de Mistério e Suspense

ENTREVISTA
Goulart Gomes, o criador do Poetrix

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom, Henry Alfred Bugalho

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Uma Galinha, Clarice Lispector

CONTOS
Boa noite, minha princesa. Te amo!, Carlos Alberto Barros
O Primeiro Passo, Joaquim Bispo
O Lobo Vermelho (primeira parte), Volmar Camargo Junior
7/8 em 1/4, Jú Blasina
Janela pra rua, Henry Alfred Bugalho
Prisioneiro em si, Léo Borges
Camuflagem, Marcia Szajnbok
O dia em que o farsante encarou o espelho, Barbara Duffles
O Admirador - Parte 4: Rostos, Maristela Deves
Parceiros, Giselle Sato

Autor Convidado
O dito sexo e a tal cidade, Miguel Castro

TRADUÇÃO
Eveline, James Joyce

TEORIA LITERÁRIA
Fluxo de consciência, a literatura dentro da mente, Henry Alfred Bugalho
Algumas pistas para escrever mistérios, Maristela Scheuer Deves
A poética do poema Blavino, Volmar Camargo Junior

CRÔNICA
Um monte de papel, Volmar Camargo Junior
Obama matou a mosca, Maristela Scheuer Deves
Crônica de uma cidade adormecida, Caio Rudá de Oliveira
O que você quer ser quando crescer?, Henry Alfred Bugalho

POESIA
Dois blavinos, José Espírito Santo
Desencanto, José Espírito Santo
Laboratório Poético: o Poema Blavino, Volmar Camargo Junior
Poemas, Mariana Valle
O Lago, Guilherme Augusto Rodrigues
Fale Frei Cappio, fale a vida, Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

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Published by: Henry Alfred Bugalho on Jul 01, 2009
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Yes because he never did a thing like that before as ask to get his breakfast in bed with a couple of eggs since the City Arms hotel when he used to be pretending to be laid up with a sick voice doing his highness to make himself interesting for that old faggot Mrs Riordan

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julho 2009 ano II
ficina

fluxo.de.consciência
a.literatura.dentro.da.mente

SAMIZDAT 18
julho de 2009
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Revisão Geral Léo Borges Assessoria de Imprensa Mariana Valle Autores Barbara Duffles Caio Rudá Carlos Alberto Barros Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Jú Blasina Léo Borges Marcia Szajnbok Mariana Valle Maristela Scheuer Deves Volmar Camargo Junior Autores Convidados Miguel Castro Textos de: Clarice Lispector James Joyce

Editorial
O século XX representou a libertação para a Literatura. Desde há muito, principalmente desde a “Poética” de Aristóteles, a escrita literária era constrangida a obedecer vários princípios formais e estéticos. Obviamente que sempre houve inovações e rupturas, tais como a utilização das línguas vulgares e da prosa, durante a Idade Média e o Renascimento, ou como a febre realista durante a Modernidade; mas poucos momentos históricos foram tão devastadores quanto a contemporaneidade. A crise da racionalidade mostrou o homem como fragmentário, finito e incompleto; na Literatura, esta nova visão se manifestou de maneira bastante evidente através da técnica narrativa conhecida como “fluxo de consciência”, cuja pretensão era representar o caos da mente humana. Alguns autores da SAMIZDAT toparam o desafio de utilizar esta técnica nesta edição, em homenagem aos grandes autores contemporâneos que romperam com vários grilhões formais da Literatura. Também passamos a contar com a participação da escritora Jú Blasina, que, junto com Volmar Camargo Junior, desenvolveu uma forma própria de expressão poética. Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Commons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112). As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores.

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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

6

ComuNiCado SAMIZDAT Especial de Mistério e Suspense 8 ENtrEViSta Goulart Gomes, o criador do Poetrix miCroCoNtoS
Henry Alfred Bugalho

10 14

rEComENdaÇÕES dE LEitura quando Nietzsche chorou, de irvin d. Yalom
Henry Alfred Bugalho

16

autor Em LÍNGua PortuGuESa

uma Galinha

Clarice Lispector

18

CoNtoS Boa noite, minha princesa. te amo!
Carlos Alberto Barros Joaquim Bispo

22 26 28 32 36

o Primeiro Passo
o Lobo Vermelho (primeira parte)
Volmar Camargo Junior Jú Blasina Henry Alfred Bugalho

7/8 em 1/4

Janela pra rua

Prisioneiro em si
Léo Borges

36 42

Camuflagem

Marcia Szajnbok

o dia em que o farsante encarou o espelho
Barbara Duffles

44 46 48

o admirador - Parte 4: rostos
Maristela Deves Giselle Sato

Parceiros

autor CoNVidado o dito sexo e a tal cidade
Miguel Castro

52

traduÇÃo Eveline

James Joyce

54

tEoria LitErÁria

Fluxo de consciência, a literatura dentro da mente 61
Algumas pistas para escrever mistérios 66
Maristela Scheuer Deves Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho

A poética do poema Blavino

72

CrÔNiCa um monte de papel

Volmar Camargo Junior Maristela Scheuer Deves Caio Rudá de Oliveira

75 76 78

obama matou a mosca
Crônica de uma cidade adormecida

o que você quer ser quando crescer?
Henry Alfred Bugalho

80

PoESia dois blavinos desencanto

José Espírito Santo José Espírito Santo Volmar Camargo Junior Mariana Valle Guilherme Augusto Rodrigues Dênis Moura

82 83 84 86

Laboratório Poético: o Poema Blavino Poemas O Lago

88 90

Fale Frei Cappio, fale a vida

SoBrE oS autorES da Samizdat

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo dum samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

www.revistasamizdat.com

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Comunicado

Samizdat Especial

Mistério e Suspense
http://www.flickr.com/photos/ericmorse/454379200/sizes/l/

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SAMIZDAT julho de 2009

Estamos preparando a quinta edição do SAMIZDAT Especial, contemplando o gênero Mistério e Suspense. 1 - Todos os colaboradores fixos do E-Zine podem participar e sugerir autores colaboradores; 2 - Também serão aceitos textos enviado voluntariamente por autores externos, para as seguintes seções do E-Zine: a - Resenha de Livros; b - Teoria Literária ou de Mistério e Suspense; c - Autor convidado (prosa ou poesia); d - Traduções; e - Crônicas; 3 - Serão selecionados, ao todo, entre 3 e 5 textos para cada uma das seções acima, mas a edição do E-Zine possui o direito de selecionar mais ou menos obras. 4 - Não há limites de palavras, mas como se trata duma publicação voltada para o meio digital, solicita-se que não sejam enviados textos mais extensos do que umas 2500 palavras.

5 - Por se tratar duma obra de divulgação, não serão pagos direitos autorais. A publicação e a distribuição do E-Zine não acarretará, tampouco, em custos para os autores participantes. 6 - O SAMIZDAT Especial - Mistério e Suspense será publicado durante o mês de setembro no blog, e na edição em .PDF em 1 de outubro. Por isto, solicita-se aos autores interessados que entrem em contato até o final de agosto, através do e-mail

revistasamizdat@hotmail.com

Indicando, no assunto do e-mail, SAMIZDAT Especial 5, e em qual seção o texto se enquadra (ver item 2).

Abraços a todos, Equipe da SAMIZDAT www.revistasamizdat.com

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GouLart GomES
Goulart Gomes nasceu em

Entrevista

o criador do PoEtriX

Salvador da Bahia, em 1 de maio de 1965. Administrador de Empresas, concluiu pós-graduação em Literatura Brasileira (UCSAL) e em Gestão de Comunicação Integrada (ESPM-RJ). Atua na área de Comunicação Empresarial. Espiritualista e pesquisador de ficção científica. Fundador do Grupo Cultural Pórtico (1995) e criador da linguagem poética Poetrix (1999). Obteve 65 prosa e festivais de música e participou de 48 coletâneas publicadas no Brasil, Cuba, Espanha, USA, Itália, França e Coréia do Sul e tem trabalhos divulgados em vários outros países. Atualmente é o Coordenador Geral do Movimento Internacional Poetrix. Como editor alternativo propiciou a publicação de 53 livros e coletâneas de novos autores. Publicou: Anda Luz (1987), Todo Desejo (1990), Sob a Pele (1994), LinguaJá, o Território Inimigo (2000), Esfinge Lunar e Outros Enigmas (2001), poesias; Trix, Poemetos Tropi-kais (1999) e Minimal, dos males o menor (2007), poetrix; a peça teatral A Greve Geral (1997), o cordel A Divina Comédia (1989); Todo Tipo de Gente, contos (2003), Matrix Revelations – Tudo o que Você Queria Saber sobre o Filme, ensaio (2005) e Deixando de Existir, ficção científica (2009). Homepages: www.goulartgomes. com e www.movimentopoetrix. com
foto: Gustavo Rosario

prêmios em concursos de poesia,

Os tercetos do Poetrix nos remetem, imediatamente, ao Haikai. Em que momento surgiu a decisão de romper com a métrica e com a temática deste gênero poético e inaugurar o Poetrix? Goulart Gomes - No exato mofile:///C:/Users/ henrybugalho/AppData/Local/Temp/InDesign%20Snippets/Snippet_3004DC21E. indsmento em que descobri que os tercetos que

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eu escrevia – assim como vários outros poetas – não eram haikais. Isso se deu quando eu estava prestes a publicar meu livro TRIX POEMETOS TROPI-KAIS, em 1999, e conversei virtualmente com o poeta Aníbal Beça, de Manaus. Ele me fez ver que o haikai tem uma outra proposta, um outro nível de exigência, que eu não percebia. Existem vários entendimentos sobre a feitura do haikai. Eu aliome àqueles que são considerados ortodoxos, que entendem que o haikai, em nosso idioma, deve ter 17 sílabas, distribuídas em três estrofes, com 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente, sem título, além de possuir o “kigo”, que é a imagem ou emoção correlata às estações do ano. Sem isso, não é um haikai. O poetrix é mais “flexível”, com um máximo de 30 sílabas distribuídas à vontade nas três estrofes, título sem limite de sílabas e temática livre. Em verdade ele está mais próximo do Sijô coreano que do haikai japonês. Os três são as grandes formas de tercetos existentes, cada um em seu lugar, com seus objetivos, leitores e praticantes. O poetrix foi acolhido com entusiasmo pelos internautas. Como você percebe a relação entre internet e escrita em nossos dias? GG - A Internet é a Meca da Brevidade. Tudo ali é

rápido, dinâmico, objetivo, fugaz, conciso. E essas também são características do Poetrix. Alguém já chamou o Poetrix de Poeminha da Internet. Esse slogan, que pareceria algo pejorativo, acabou provando o inverso: que o Poetrix é a linguagem poética adequada para essa nova mídia. A Internet é como o mundo: está cheia de coisas maravilhosas e outras banais. Ela está propiciando um surgimento de uma legião de novos escritores. Os que são verdadeiramente bons ficarão para a posteridade. É preciso distinguirmos a Brevidade da Banalidade. A legião de escritores que têm surgido na Internet não torna a literatura ainda mais efêmera do que ela já havia se tornado na modernidade? GG - Não há como se falar em efemeridade na literatura com milhares de livros sendo publicados todos os anos. Os grandes escritores continuam nos brindando com obras sensacionais e novos surgem a cada dia. As vendas de livros pela Internet crescem a cada dia, as editoras de grande porte faturam cada vez mais. A Internet está apenas mostrando tudo que há, de bom e de ruim. Cabe ao leitor separar o joio do trigo. Todo os gêneros bre-

ves - como a crônica e o conto, por exemplo - costumam sofrer de desconfiança por parte dos leitores e editoras, por causa da aparente facilidade em escrevêlos. Você percebe algum tipo de rejeição deste tipo em relação ao poetrix? GG - Evidentemente. É um fato que é mais fácil errar em três linhas que em 3.000, mas também é bem mais difícil acertar. Executar um poetrix perfeito, com um mínimo de palavras e um máximo de concisão e conteúdo é um desafio. Acredito que a rejeição maior seja dos críticos, que admiram mais uma Epopéia ou uma Trilogia que as formas breves. Assim como nas corridas existem os atletas que se especializam em provas curtas ou longas, também na literatura existem os autores da concisão e os autores da verbosidade. E ninguém diz que a Maratona é mais importante que os 100 metros rasos ou que as pequenas telas de Vermeer valem menos que os painéis de Diego Rivera. Em cada uma dessas atividades é preciso ter a competência, o dom, a habilidade própria, nem melhor nem pior que a outra. Estou organizando o Projeto 1001 Poetrix e, uma vez concluído, poderei testar, verdadeiramente, o grau de rejeição das editoras ao Poetrix. Vamos ver...

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O que é necessário para se escrever um bom poetrix? GG - Em meu site (www. goulartgomes.com) há um texto chamado “Dez dicas para um bom poetrix”. Em suma são: evite as orações coordenadas, explore o poder do título, minimalize, pesquise, não confunda poetrix com haikai, utilize figuras de linguagem, acabe com as conjunções adversativas, não force rimas, não faça do poetrix um provérbio e o não-dito fala mais que o dito. Também recomendo a leitura da Bula Poetrix, um conjunto de orientações elaborado pela coordenação do Movimento Internacional Poetrix. Além dele, gosto muito do texto “Para Viver Um Bom Poetrix”, mais poético, que escrevi parafraseando Vinicius de Moraes. Ambos estão disponíveis no site www. movimentopoetrix.com Você costuma ler os poetrix de outros poetas? É possível identificar um grande talento em tão poucas palavras? GG - Bastante. Habitualmente visito sites, como o Recanto das Letras, para apreciar o que os poetrixtas estão publicando por aí e já identifiquei alguns poetrixtas bem talentosos assim. O poetrix requer um talento específico. O bom poetrixta consegue até mesmo definir um estilo próprio apenas em

três linhas. Na Antologia Poetrix 3, que estamos publicando agora, tem alguns poetrixtas que foram resultado dessa nossa “garimpagem”. O Concurso Internacional de Poetrix, que realizamos anualmente, é outra fonte de revelação de novos talentos. Você acha que o Poetrix pode acabar sendo usado por “pseudopoetas” para engrossar suas obras literárias devido à liberdade que ele proporciona a quem escreve, teoricamente assim facilitando a sua escrita? GG - O Poetrix é tão pequeno que não dá para engrossar a obra de ninguém (risos). Eu não sei bem o que seja um pseudopoeta. Para mim, quem escreve poesia é poeta, e fim. Se escreve bem ou mal, certo ou errado, é outra história. E se o autor quer escrever poetrix bem, vai perceber que terá mais dificuldades que facilidades. Na prática a teoria é outra! Até que ponto os prêmios que você recebeu influenciaram sua carreira de escritor? Qual sua opinião sobre os concursos literários? GG - Os concursos literários influenciaram definitivamente a minha história nas Letras. Porque, para mim, eles representaram a validação, por pessoas que entendem

de literatura, do trabalho que eu fazia e faço. Esse “aplauso” serviu de estímulo para que eu continuasse me aprimorando. Existem concursos promovidos por entidades sérias e outros promovidos por outras nem tanto, apenas para ganhar dinheiro com taxas de inscrição e organização de antologias. É sempre preciso estar atento a quem está promovendo o concurso e com que objetivos. Quando você concebeu o poetrix, imaginou que alcançaria as proporções em que hoje se encontra? GG - Para ser sincero, não. O nosso grupo virtual (hoje chamado literatrix@ yahoogrupos.com.br) começou com 300 participantes. Depois, equilibrouse em uma média de 100 integrantes. Mas, a partir dele, da atuação dos Coordenadores Estaduais e da realização dos concursos, o Poetrix foi ganhando amplitude e atingindo autores de todo o Brasil e de outros países, como México, Argentina, Uruguai, Venezuela, Colômbia, Portugal e Espanha. Só na Internet estimo que existam mais de 100.000 poetrix publicados. Isso é algo que me dá muito contentamento. Considerando o que você tem visto, tanto na internet quanto nos meios tradicionais de

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publicação, o que você considera como principal ou principais características da poesia contemporânea no Brasil? Já é possível reunir teoricamente os poetas em “movimentos”? GG - Pelo que vejo, ainda estamos todos fora de lugar, fora da ordem. É a síndrome da pós-modernidade. Não consigo perceber nenhuma unicidade temática ou estilística dentre tudo o que é produzido hoje no Brasil. Ouso dizer que a única novidade, o único Movimento é o Poetrix, com seus Manifestos, a sua Bula e uma proposta concreta de criação literária. Além do MIP, você tem contato com outros grupos de poetas, mais ou menos nos mesmos moldes? GG - Aqui na Bahia nós criamos, em 1995, o Grupo Cultural Pórtico, com a proposta de propiciar a publicação de novos autores. Entre altos e baixos, produzimos 52 livros, realizamos eventos, lançamentos e mostras. Em abril estaremos lançando a Antologia Pórtico 3, na Bienal do Livro da Bahia, reunindo antigos e novos autores. Atualmente estamos procurando estabelecer contatos com autores minimalistas dos EUA, Alemanha e Coréia do Sul.

O poetrix, que tem feito um grande sucesso - basta ver a quantidade de textos no site Recanto das Letras. Você conhece alguma outra linguagem ou forma poética moderna, praticada tão largamente como o poetrix? Por exemplo: no próprio RL tem tido bastante repercussão, e arrebanhando adeptos, o indriso, que é um “derivado contemporâneo” do soneto. GG - Não conheço. Creio que, ao lado de Décio Pignatari e Augusto de Campos, que criaram a Poesia Concreta, somos os únicos escritores criadores de uma linguagem poética de grande abrangência, ainda em atividade – quer dizer, vivos. [Sobre o indriso] É verdade. Já houve até uma proposta de criação do Indrisotrix, uma mistura do Indriso e do Poetrix. O Indriso é uma variação do Soneto tradicional, assim como o Poetrix é uma variação do Haikai e do Sijô. Ambos ainda tem um longo caminho pela frente, até o total reconhecimento. Já mantive contato com o criador do Indriso e temos um respeito mútuo pelas nossas criações. Li, recentemente, o texto “Bula Poetrix”, com as orientações oficiais sobre o que é e como escrever um Poetrix. Este texto surgiu na intenção de apenas normatizar a forma, ou é algum tipo

de resposta a uma apropriação generalizada e por vezes equivocada do Poetrix pelos poetas virtuais? GG - Ambas as coisas. Nós, que coordenamos o Movimento Internacional Poetrix, sempre sentimos a falta de uma instrução oficial do MIP aos poetrixtas. Não queríamos estabelecer um documento nem um conjunto de regras, pois isso iria de encontro à própria proposta libertária do poetrix, nem poderíamos ficar passivos diante da série de enganos e exageros que são cometidos quanto à sua elaboração. Assim, resolvemos criar a BULA POETRIX, que é um consenso do que esse grupo de Coordenadores considera fundamental para a criação do Poetrix. Cada autor tem o direito de classificar a sua obra da forma que desejar, mas é importante que seja do conhecimento geral o que nós consideramos verdadeiramente como Poetrix. Muito grato pelo espaço que nos foi concedido.

Coordenação da entrevista: Volmar Camargo Junior Perguntas feitas por: Carlos Barros Henry Alfred Bugalho Pedro Faria Volmar Camargo Junior

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microcontos

Foi por medo de avião
Henry Alfred Bugalho
Desistiu de voar, tinha medo de avião. Meia hora depois, morria com uma coxinha entalada na garganta, do outro lado da rua do aeroporto.

Henry Alfred Bugalho
Saíra pra comprar cigarro e nunca mais voltou. “Por causa da amante”, ela pensou, mas o real destino dele era um monastério no Tibet.

http://www.flickr.com/photos/oriol_gascon/2571747463/

que menino lerdo!
Henry Alfred Bugalho
A mãe o considerava retardado, mas, em seu silêncio introspectivo, ele estava quase descobrindo a irrefutável e definitiva prova matemática da existência de Deus.

http://www.flickr.com/photos/coolmel/3242477790/

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http://www.flickr.com/photos/zarajay/377865814/

Busca da iluminação

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
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www.oficinaeditora.org

recomendações de Leitura

quando Nietzsche Chorou,

de irvin d. Yalom

Henry Alfred Bugalho

Quando Nietzsche chorou Autor: Irvin D. Yalom Editora: Ediouro

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SAMIZDAT julho de 2009

Eu ainda trabalhava numa livraria na época em que o romance “Quando Nietzsche Chorou”, do escritor americano Irvin D. Yalom se tornou um sucesso no Brasil. Lembro-me de ter sido atraído pela ideia de uma obra de ficção abordando a psique de Friedrich Nietzsche, um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Contudo, o simples fato de ser um best-seller já me deixava um pouco desconfiado. Qualquer um que conhece um pouco da biografia do filósofo já deve ter se deparado com as imensas contradições internas de Nietzsche, um vulcão enquanto teórico, mas um homem fragilizado em sua vida pessoal. Um destruidor de ídolos como filósofo, mas um homem oprimido pelo jugo daqueles que o cercavam: sua irmã Elizabeth, o compositor Richard Wagner, ou a poderosa figura de Lou Salomé. O psicoterapeuta Irvin D. Yalom estreia como romancista unindo dois importantes personagens

da História dos saberes: Josef Breuer, o protagonista, incumbido da tarefa de curar Friedrich Nietzsche de suas dores. A pergunta primordial do livro é: como curar alguém que não deseja ser curado? A segunda pergunta, não menos crucial, é: como desenvolver uma cura para as dores da alma? Josef Breuer foi um dos pioneiros da psicanálise, graças a seus estudos sobre histeria, em parceria com Sigmund Freud, no famoso caso de Anna O. Nietzsche e Breuer nunca se encontraram de fato, apenas na ficção de Yalom, mas a proposta de unir duas das mais brilhantes mentes de seu tempo é instigante. No entanto, Irvin D. Yalom recai em algumas falhas do romancista iniciante. O enredo demora a engrenar, são 50 páginas até à aparição de Nietzsche, que é sem dúvida o charme da obra e está presente nos momentos mais empolgantes; depois disto, “Quando

Nietzsche Chorou” é uma sucessão de altos e baixos, de interessantíssimos diálogos entre Breuer e Nietzsche, e de tediosas digressões sobre a vida pessoal do protagonista. Yalom se esforça demais para demonstrar sua erudição e apresentar o resultado de suas pesquisas para compor a obra, e acaba negligenciando o enredo. O resultado final é um romance bastante desigual, com trechos inspirados, mas recheado de excessos. Todavia, é um primeiro passo interessante para quem deseja se aproximar do pensamento nietzschiano, pois há várias referências a conceitos recorrentes na obra do filósofo, bem como a antecipação do que viria a ser sua obra-prima, “Assim falava Zaratustra”. Ao mesmo tempo, é também uma lição sobre os primórdios da psicanálise e da busca por um método científico para tratar patologias psicológicas. “Quando Nietzsche Chorou” está longe de ser um primor literário, mas certamente Yalom realizou um profundo trabalho de pesquisa histórica.

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Autor em Língua Portuguesa

uma Galinha
http://www.flickr.com/photos/track24/1404943330/sizes/o/

Clarice Lispector

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fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itineráParecia calma. Desrio da galinha: em pulos de sábado encolhera-se cautelosos alcançou o num canto da cozinha. telhado onde esta, hesiNão olhava para nintante e trêmula, escolhia guém, ninguém olhava com urgência outro para ela. Mesmo quando rumo. A perseguição a escolheram, apalpando tornou-se mais intensa. sua intimidade com inDe telhado a telhado foi diferença, não souberam percorrido mais de um dizer se era gorda ou quarteirão da rua. Pouco magra. Nunca se adiviafeita a uma luta mais nharia nela um anseio. selvagem pela vida, a Foi pois uma surpresa galinha tinha que decidir por si mesma os quando a viram abrir as asas de curto voo, inchar caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua o peito e, em dois ou raça. O rapaz, porém, era três lances, alcançar a um caçador adormecido. murada do terraço. Um instante ainda vacilou — E por mais ínfima que fosse a presa o grito de o tempo da cozinheira conquista havia soado. dar um grito — e em breve estava no terraço Sozinha no mundo, do vizinho, de onde, em sem pai nem mãe, ela outro voo desajeitado, corria, arfava, muda, alcançou um telhado. Lá concentrada. Às vezes, ficou em adorno desna fuga, pairava ofegante locado, hesitando ora num beiral de telhado e num, ora noutro pé. A enquanto o rapaz galgafamília foi chamada com va outros com dificulurgência e consternada dade tinha tempo de se viu o almoço junto de refazer por um momenuma chaminé. O dono to. E então parecia tão da casa, lembrando-se livre. da dupla necessidade de Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se so-

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bre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos: — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem! Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida! — Eu também! — jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros. Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: “E dizer que a obriguei a correr naquele estado!” A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto. Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça

a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado. Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos. Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

Extraído do livro “Laços de Família”, Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998

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Clarice Lispector nasceu num navio, quando seus pais viajavam para o Brasil, como imigrantes vindos da Ucrânia. Chegou a Maceió com dois meses de idade, com seus pais e duas irmãs. Em 1924 a família mudou-se para o Recife, e Clarice passou a frequentar o grupo escolar João Barbalho. Aos oito anos, perdeu a mãe. Três anos depois, transferiu-se com seu pai e suas irmãs para o Rio de Janeiro. Em 1939 Clarice Lispector ingressou na Faculdade de Direito, formando-se em 1943. Trabalhou como redatora para a Agência Nacional e como jornalista no jornal “A Noite”. Casou-se em 1943 com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem viveria muitos anos fora do Brasil. O casal teve dois filhos, Pedro e Paulo, este último afilhado do escritor Érico Veríssimo. Seu primeiro romance foi publi-

cado em 1944, “Perto do Coração Selvagem”. No ano seguinte a escritora ganhou o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. Dois anos depois publicou “O Lustre”. Em 1954 saiu a primeira edição francesa de “Perto do Coração Selvagem”, com capa ilustrada por Henri Matisse. Em 1956, Clarice Lispector escreveu o romance “A Maçã no Escuro” e começou a colaborar com a revista “Senhor”, publicando contos. Separada de seu marido, radicouse no Rio de Janeiro. Em 1960 publicou seu primeiro livro de contos, “Laços de Família”, seguido de “A Legião Estrangeira” e de “A Paixão Segundo G. H.”, considerado um marco na literatura brasileira. Em 1967 Clarice Lispector feriu-se gravemente num incêndio em sua casa, provocado por um

cigarro. Sua carreira literária prosseguiu com os contos infantis de “A Mulher que matou os Peixes”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e “Felicidade Clandestina”. Nos anos 1970 Clarice Lispector ainda publicou “Água Viva”, “A Imitação da Rosa”, “Via Crucis do Corpo” e “Onde Estivestes de Noite?”. Reconhecida pelo público e pela crítica, em 1976 recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte publicou “A Hora da Estrela”, seu último romance, que foi adaptado para o cinema, em 1985. Clarice Lispector morreu de câncer, na véspera de seu aniversário de 57 anos. fonte: http://educacao.uol.com.br/ biografias/ult1789u592.jhtm

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http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/a/aa/Clarice_Scanned_Photos_011.jpg

Boa noite,
minha princesa.

Contos

te amo!

Carlos Alberto Barros

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“Isso, pode me olhar com esse seu carão de desprezo, sua vadia. Você nem imagina como eu gosto. Ah, como eu gosto! Tanto que seria capaz de trazer-lhe um lindo buquê de rosas só para lhe enfiar garganta adentro”, pensa Arnaldo, deitado na cama ao lado da esposa, Samantha. E, mesmo sabendo que ela está com raiva por conta de uma conversa que ele teve com a ex-mulher... Tudo bem, ao que ele chama de conversa, outros dão o nome de “brincar com fogo”, “descaramento”, “sem-vergonhice”, ou mesmo – oh, más línguas – “fornicação”. Mas o fato é que ela só está assim por conversas de terceiros, “pelos destruidores de lares” – como sempre enfatiza Arnaldo. Bem, mesmo sabendo do motivo do “carão de desprezo” da mulher, com naturalidade paradisíaca, ele pergunta: – Aconteceu alguma coisa, minha flor? “É claro, seu idiota! Por que acha que estou assim?”, responde, mentalmente, a mulher, porém, prefere resumirse na fala:
http://www.flickr.com/photos/cphotos/2796820522/sizes/l/

falar, ele também não vai dizer. “Odeio esses seus joguinhos, Samantha! Se não tem nada, por que esta cara de velório? Pelo amor de Deus! Como eu pude casar com uma mulher tão feia!”, pensa, indignado, mas apenas diz: – Você fica linda assim séria. – Arnaldo, você sabe como eu amo esse seu cinismo... – Não é cinismo. Você sabe que não. – Eu estou gorda, Arnaldo. Ao ouvir essas últimas palavras, Arnaldo responde prontamente. Tão rápido, que nem se lembra de como, no mês anterior, achou sua cunhada muita mais formosa que a esposa, chegando a pensar que Samantha poderia muito bem perder uns quilinhos frequentando uma academia de ginástica. – Você está ótima, meu amor – diz ele. “Então, por que você vive olhando para outras mulheres, seu cretino?”, imagina-se perguntando Samantha, mas nada fala. Um silêncio se instaura. Arnaldo acha que será gentil de sua parte encontrar algum assunto do agrado da esposa. Ele se lembra de uma notícia que viu recentemente na televisão sobre a morte de Machado de Assis. Como sabe que Samantha gosta de ler, acha que será uma conversa conciliadora, mesmo

ele não conhecendo muito do autor. – Você soube que Machado de Assis morreu? – pergunta ele, com expressão fingida, tentando demonstrar algo entre indignação e tristeza. – Nossa! – responde, irônica, a mulher, enquanto pensa: “burro, idiota, imbecil!”, e continua: – É, eu sei que ele morreu. – Por isso que você está assim? Quer dizer, do jeito que você gosta de leitura e essas coisas... Samantha lembra-se do rosto da ex-mulher de Arnaldo e se imagina esfaqueando-o, mas não, não, nunca teria coragem de fazer uma coisa dessas! Pensa: “Mas, que às vezes dá vontade, dá... só às vezes... ai credo, Deus me livre! Deus me livre!” Sente ainda mais raiva do que antes por perceber a tentativa do marido em agradá-la falando de um assunto que ele domina tanto quanto fala bem da sogra aos amigos. “Maldito homem com quem me casei... Eu te odeio, Arnaldo!”, pensa enfurecida, mas ao falar, parece que muda de opinião: – Arnaldo, meu amor, obrigada pela tentativa da conversa, mas, deixa eu te contar um detalhe: Machado de Assis está morto há cem anos... – “...seu débil mental ignorante”, completa em sua mente. “Senhora sabe tudo, se

– Não, nada. Arnaldo sorri compassivamente e faz um carinho suave no rosto da esposa. Sabe que ela está mentindo. Interiormente, sente vontade de esganá-la para que diga a verdade e deixe de manhas e joguinhos. Ele está ciente de que ela sabe da conversa com a ex-mulher – apenas conversa! –, mas se ela não

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acha a intelectual, a sabichona, não é? Para o inferno com sua arrogância, maldita!”, explode em pensamento Arnaldo, porém, apenas fala: – Minha linda, obrigado a você, por esclarecer, com tanta delicadeza e humildade, que o Machado já está morto há tempos. Cem anos! Meu Deus! E eu aqui pensando que o cara tinha morrido ontem! – e sorri, meio sem graça, tentando entender o porquê de ainda deitar-se com tal mulher. Samantha fica refletindo, inconformada por ainda estar presa a um infeliz como Arnaldo. Sente vontade de socá-lo, atirá-lo dali para longe. “Como Machado de Assis pode ter morrido ontem, seu animal?”, pergunta calmamente ao marido, enquanto imagina-se dizendo: – Tudo bem, meu amor. Ninguém pode saber de tudo. “Melhor ser animal do que uma sabichona ranzinza que, vira e mexe, está derramando feiúra por aí”, diz Arnaldo, julgando ter medido as palavras, e pensa: – Que mulher maravilhosa! Por isso que a amo. “Seu ogro hipócrita! Como pode falar isso de mim, depois de tudo que aguentei? E, inclusive, você sabe muito bem por que estou com esta cara! É a cara de uma chifruda otária que tem um baita de um filho-da-puta de marido que vem, com a cara

mais lavada do mundo, fingir que entende de Machado! Ah, tenha dó!”, fala Samantha, quase sem acreditar em suas próprias palavras, mas sentindo certo alívio de algo que lhe apertava a garganta. Na cabeça, um só pensamento: – Você é o homem da minha vida! – Você é a pessoa mais especial do mundo! – pensa, por sua vez, Arnaldo. “Sua vagabunda fofoqueira! É nisso que dá ficar escutando conversa fiada dessas putinhas que se dizem suas amigas. Amigas do diabo! Bando de putas, isso sim!”, diz, enfurecido, à mulher, mas em seu coração, pergunta: – Vamos ter um filho? – Agradeço a Deus todos os dias por ter você, Arnaldo – pensa ela. – Vamos tornar esta família maior, mais feliz? – indaga-a ele em pensamento. – Te amo do fundo do meu coração – pensa ela. “Não suporto mais essa sua cara de enterro eterno, Samantha!”, fala ele. “E eu não suporto nem mais escutar sua voz! Já esgotei minha conta das merdas que tenho que aguentar de você!”, fala ela enquanto, na mente, diz: – Adoro ouvir suas frases inocentes, meu bebê. “Vadia! É isso que você é: uma vadia orgulhosa! Pensa

que sabe de tudo, sempre se achando a superior. Eu te odeio!”, grita Arnaldo para a mulher, sentindo vontade de estapeá-la. Não contendo o desejo, desfere-lhe um golpe no rosto. Parte da mão espalmada fica desenhada na vermelhidão da face de Samantha. Ele ainda se imagina falando: – Não consigo viver sem você, minha deusa! A bofetada deixa Samantha sem reação. Antes de encerrar a conversa, opta, ainda, por demonstrar um último carinho ao marido. “Filho-daputa”, diz. E vira-se, dando as costas para Arnaldo. Já com os olhos fechados, pensa: – Boa noite, meu anjo. Te amo! Arnaldo, bufando de nervosismo, parece não mais se incomodar com as palavras carinhosas da esposa. “Isso mesmo... Vai dormir, menininha mimada”, diz, e completa num tom sinistro, “E nunca mais me provoque ou eu acabo com você de vez, vagabunda!” Depois, vira-se para o lado oposto de Samantha. Antes de adormecer, ainda pensa: – Boa noite, minha princesa. Te amo!

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Ele tinha diante de si a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

ficina
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O Rei dos

Judeus
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át

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Henry Alfred BugAlHo

Contos

o Primeiro Passo
– E, além do mais, o que é que tens com isso? – Não penses que podes viver como queres, lascivo, descrente e subversivo. Tudo está determinado e o teu lugar está muito bem definido. – Eu posso fazer o que quiser. Desde que não restrinja a liberdade de ninguém. – E não achas que roubar a casa de alguém é atentar contra a sua liberdade? – Não é roubar, é usar para fins humanitários o que alguém desperdiça. Não é a sua casa, é a sua ostentação. – Não vês que tudo isto é – Eu nem sei se quero ir por bons caminhos! – retorqui, desafiador. Quando ele se materializara no meu quarto de solteiro, com ares de arcanjo Gabriel, passava das três da manhã. Estranhei, mais do que me assustei. Tinha estado na associação do bairro a tratar de questões relacionadas com as recentes ocupações de casas desabitadas e, proposta puxa discussão, tinha bebido umas três ou quatro cervejas. O Verão de 75 ia quente em tohttp://www.flickr.com/photos/lauraburlton/2841127273/sizes/l/

Joaquim Bispo

– Não vês que estás a ir por mau caminho, meu filho? – O anjo adoptava uma postura paternal, a face preocupada, o gesto complacente.

dos os sentidos, a Revolução avançava com auto-gestões nas fábricas e nos campos e auto-organização das populações em todos os domínios. Havia um sentimento no ar de que, finalmente, tudo era possível. E tanto que havia para fazer! O mais difícil era a mudança das mentalidades. Todos tínhamos sido condicionados para sermos engrenagens duma sociedade de obedientes, castos e tementes. De repente, tinhamse rompido as comportas que mantiveram a multidão calada e quieta e esta inalava, impertinente, os primeiros aromas da liberdade. Agora, até de replicar a

um anjo eu me sentia capaz:

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apenas um remoinho passageiro!? Não vês qual é a ordem natural das coisas? Quando a poeira assentar, volta tudo ao que era. E então, tu estarás perdido. – Não me vão prender por querer ajudar as pessoas sem casa, está descansado. – Não é dessa perdição que eu estou a falar. – E continuou a pôr água na fervura revolucionária: – Quem me mandou não gosta de rebeldes. Gosta que a hierarquia esteja muito bem definida e que o de baixo não desobedeça ao de cima. Gosta que a moral e a religião sejam o guia das nações e que os seus dirigentes sejam austeros, mas bondosos, como os pais são para os filhos. Agora, tu és um filho pródigo que não respeita o seu pai. – Eu vejo é que o teu ar paternal, de há pouco, está a transformar-se na fúria contida de um mestre-escola autoritário. Por que é que quem te mandou não prefere a liberdade das pessoas e a livre adesão aos seus preceitos? Ou a livre rejeição!? Como é que se pode sentir satisfeito de mandar em autómatos, que se lhe sujeitam apenas pelo medo do castigo? Não repara como são alienadas as pessoas que se lhe submetem, que nem pensamentos de revolta podem ter? – Ele vê é que, com a ordem que instaurou, todos eram felizes. Já viste alguém feliz nesta revolução? – Sim, muitos, loucos de felicidade. Pela primeira vez

são donos das suas vidas. – Loucos, dizes bem. A revolução pôs pais contra filhos, filhos contra pais, marido contra mulher, mulher contra marido. Os partidos, de que até o nome é revelador, destroem a harmonia da sociedade. – Os partidos são a expressão crispada, mas necessária, que faz circular na sociedade os vários conceitos da sua própria organização. Vocês não têm partidos? Os anjos dão-se bem com os querubins? E estes com os serafins? Ou também têm interesses de classe? – Lá, donde eu venho, a harmonia não tem ameaças. Todos conhecem e aceitam o seu nível celeste. – Não será bem assim! Tanto quanto eu sei, já houve revoltas. Não foi lá que Lúcifer bateu o pé ao teu patrão? – Sim, há esse episódio… – E essa tal harmonia de que falas não corre o risco de um dia ser alterada pela tomada do poder por Lúcifer? O anjo, de que não cheguei a saber o nome, riuse com gosto. Perdeu por momentos o ar, umas vezes pedagógico e protector, outras tenso e vagamente ameaçador, e riu-se demorada e maliciosamente. – O Lúcifer foi um caso de sucesso. Foi das revoltas melhor recuperadas de que há memória. Achas que se ele fosse anti-sistema tortu-

rava os que lhe mandamos? Pelo contrário, procuraria tratá-los o melhor possível para ganhar aceitação popular. Não; o trabalho dele é um pouco desagradável, porque tem aquela falta cívica para pagar, mas está tão integrado e é tão necessário ao nosso sistema, como é o sistema prisional em qualquer sociedade humana. Aliás, quem me enviou está muito satisfeito com ele. O seu Inferno é a cúpula que completa o edifício teológico arquitectado. Nesta, eu nunca tinha pensado. Senti uma náusea de repulsa por um desígnio tão totalitário. Em vez de me convencer da perfeição do sistema e de me submeter aos argumentos do anjo, fui invadido por uma onda irreprimível de rejeição, que se transmutou em descrença e não deixava espaço a qualquer mito. Abri a janela e aspirei o ar fresco da noite. – Tretas! Não acredito em nada disso. Nem em anjos. E, mesmo que acreditasse, seria contra. – A minha voz soou com uma tal limpidez, como se eu não tivesse dito nada antes. Ou fosse porque os últimos vapores de álcool abandonaram os meus pulmões, ou porque os mitos só se instalam na cabeça de quem lhes dá guarida, o certo é que, quando me voltei, não vi anjo algum. Acho que nessa noite dei o meu passo revolucionário mais consequente.

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Contos

o Lobo Vermelho
(primeira parte)
Volmar Camargo Junior

Avvena é um lugar inapropriado para quem gosta de sol e calor, porque não há um único dia no ano em que não chova. É úmida, cinzenta, encardida. Nas ruas, perambulam pessoas cabisbaixas e tristonhas. São raros os dias festivos, e ainda assim, preenchidos de solenidades. Durante séculos, Avvena foi um quartel gigantesco, e a maior parte da população era de soldados; os que não

eram militares trabalhavam para eles, e se lhes impunha um regime de ordem e obediência, o que acabava, enfim, sendo a mesma coisa: todos seguiam um regime militar. Depois que as conquistas ao território minguaram e o exército foi incumbido de proteger as fronteiras, muito distantes do Mar, Avvena tornou-se um pólo industrial, porque tinha algo difícil de encontrar em outras provín-

cias: uma massa de trabalhadores obedientes, histórica e culturalmente incapaz de exigir melhores condições de trabalho. Assim, Avvena passou a ser um atrativo, primeiro para as nascentes indústrias, depois, para pessoas que viviam em situação de pobreza e miséria nas áreas rurais desta mesma província, que vinham em busca de trabalho – ou, pelo menos, de um meio de se sustentar - e

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por último, para moradores de outras grandes cidades e do interior de outras províncias ao redor do Mar. Avvena inchou, alastrou-se pelo vale que ocupava, tomou a região acidentada que circundava a cidade-quartel, subiu a montanha e hoje é um monstro cinzento, frio e empoeirado, insensível aos seus quatrocentos mil habitantes, e nada convidativa para os visitantes. Eu era um visitante, mas não fui até lá por causa dos atrativos inexistentes da cidade. Não tive muito tempo para me preocupar com o mau-humor do clima avvenino, nem prestar atenção nas chaminés quilométricas, nem nos rostos infelizes que compunham a classe trabalhadora às seis da manhã e às sete da noite. Fui porque tinha um grande interesse na vida de um cidadão ilustre, sobre o qual estive pesquisando desde que aprendi a ler: General Petro Velasturvo, o Lobo Vermelho. Meu contato físico com Avvena começou na estação de trens. Teria começado antes, se eu estivesse acordado, e teria visto praticamente toda a cidade, de cima, pela janela do vagão: os trilhos fazem um percurso em espiral pelo perímetro da cidade velha, pelas encostas da serra, por sobre a absurda muralha que a circunda. Entretanto, os barbitúricos não recomenda-

dos pelo médico me fizeram dormir feito um degrau das escadarias do Farol, e só fui acordado, a muito custo, pelo fiscal do trem, quando já estávamos parados. Fui o último passageiro a descer. Um funcionário do governo, muito prestativo e jovem, viera buscar-me com um veículo oficial, desses carros sofisticados que se vêem pouco na Capital. O rapaz apresentouse com muita cordialidade, e quase nenhuma formalidade. Chamava-se Platin. Eu teria me enganado se concluísse que todos os avveninos eram como ele. Posteriormente, descobri que Platin era de um lugarejo perdido na imensidão surenha, e que era tão avesso ao modo de viver avvenino quanto eu e outros estrangeiros. O jovem encarregou-se de carregar minha pouca bagagem, apenas duas malas pequenas, rindo da minha falta de cuidado com o frio que costumava fazer, e em poucos minutos, fez comercial de duas lojas de roupas de inverno de conhecidos seus. Convidou-me para entrar no carro, sem nenhuma formalidade especial – não que eu precisasse de qualquer formalidade, apenas achei aquilo estranho e divertido para um lugar que eu sabia ser o mais antipático do mundo. Entrei pela porta lateral, e só então percebi que havia mais alguém lá dentro. Era uma mulher.

— É um prazer, Senhor Plumbeano. Entre. Está muito frio aí — e imediatamente, eu soube de quem se tratava. Era Agatha Pietra Velasturvo, tataraneta e assistente pessoal do General. Ela não parecia um militar, pelo menos, não estava vestida como um. Ao telefone, sua voz era melodiosa e grave, como a das pessoas que estudam técnica vocal. Em sua presença, tive a impressão de que era uma personagem de rádio-romance, à imagem que eu havia feito, quando criança, de heroínas como Semmpat de Ture ou Felixcia Luna – com a diferença óbvia de que estas não eram humanas. Entretanto, Agatha Velasturvo era, definitivamente, uma pessoa diferente, talvez dotada de uma aura não-humana como a das heroínas de minha imaginação. Lendo a respeito da história pessoal do General Petro, chega-se facilmente à conclusão de que nunca confiara em ninguém, e que sempre fora assessorado por um familiar. Ela, Agatha, estava como sua fiel escudeira desde os primeiros passos. A mim, porém, lembrou-me uma diva do rádio. Ao longo dos cinco quilômetros entre a estação e o hotel, Agatha expôs-me a situação toda, de modo muito sucinto, claro e objetivo. Em poucas palavras, agendou

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a primeira entrevista para as sete da manhã em ponto do dia seguinte, durante o desjejum do General. Deixou-me a par do estado de saúde do herói nacional, que já avançava para a casa dos cento e vinte anos. Também deu-me algumas explicações, sem espaço para dúvidas, sobre como referir-me aos tritões na presença do General, porque jamais acatou os acordos de paz assinados mais de cinquenta anos antes. Tampouco considera a confederação das províncias do Mar de Luna uma única nação, e por isso, também é um assunto delicado. Por fim, quando o carro já se encontrava diante das portas do hotel, Agatha estendeu-me a mão, ao que correspondi, recebendo o aperto de mãos mais pesado que já havia recebido na vida. “Amanhã”, disse ela, “Platin virá buscálo bem cedo. Não abuse dos barbitúricos dessa vez”. O ângulo dos seus lábios me fez entender que se tratava de uma piada. Talvez, o mais perto que um militar avvenino tenha chegado de uma. Choveu continuamente durante toda a madrugada. O hotel tinha um sistema de calefação eficaz e moderno, o que me possibilitou uma noite agradável, inevitavelmente sem sono. Dei-me o luxo de pedir para o serviço de quarto levar-me um bule

de café e alguns biscoitos, para começar a esboçar minha entrevista sem precisar descer ao restaurante. Enquanto esperava, tentei olhar pela janela, e tudo o que vi foi a fachada da fábrica de botas que ocupava a metade da quadra do outro lado da rua, e duas vezes a altura do hotel. Também não se via naquele quarteirão mais do que a luz de um poste tímido permitia: uma imensa parede de tijolos, uma guarita, um contêiner de lixo abarrotado, uns quantos gatos de rua embolados em uma caixa de madeira que lhes servia de casa. Assim que o relógio do alto da entrada da fábrica marcou meia-noite, um guarda caminhou de uma esquina até a outra. Era um bovineu, que eram muito respeitados na infantaria do exército avvenino, e ainda mais respeitados na guarda municipal. Já estaria aí o assunto para um tratado, a diferença de tratamento dado aos bovineus, começando nas caçadas da Capital, passando pela escravatura, culminando na posição de destaque no exército e na polícia de Avvena. Certamente trataria deles na biografia do General Petro, já que um de seus companheiros no início da vida de soldado, foi Unmonu, que veio a ser herói tanto de seu próprio povo quanto do nosso, e que lhes garantiu a alforria oficial e definitiva,

mas não o fim do preconceito. Assim que chegaram o café, os biscoitos e potes com geléias – os avveninos são pouco sociáveis, mas sabem comer bem – tomei meu bloco e uma caneta. Esquecime completamente da rua, da chuva fina, do guarda bovineu que caminhava pesada e silenciosamente na calçada em frente, e anotei minhas perguntas. Amanheceu. Tomei o último gole de um café amargo e frio, e nem conseguia mais olhar para biscoitos. Pude ver Platin e o carro oficial – cor-de-madeira-dourada com detalhes em dourado nas extremidades, nos paralamas e nos faróis dianteiros, luxuoso mesmo para um carro do governo – subindo a rua. O dia não estava muito menos escuro nem menos chuvoso que a madrugada, e Avvena não era mais simpática na claridade pálida do dia. Em uma hora eu estaria dentro da mansão Velasturvo. A toca do abominável Lobo Vermelho.

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos

7/8 em 1/4
Tudo começou, como sempre – mensagem anônima no celular: Sexta-feira – 21:00 hs Você sabe o que e aonde.... O champagne é por tua conta. A surpresa é por minha... Ele sorriu, apagando imediatamente a mensagem – já fazia tempo, muito tempo, desde o último encontro. Tanto que a simples menção de “surpresa” associada com a lembrança de Val, seminua em meias 7/8, bastou para excitá-lo. Olhou discretamente as mesas ao redor – era hora de almoço, o escritório quase vazio, silencioso – o som de uma nova mensagem – “Ah, celular barulhento” ele resmunga fazendo ainda mais barulho na tentativa de ser discreto. E então, garanhão? Posso te considerar... dentro?

Jú Blasina

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“Ah... cachorra sem vergonha” – ele ria, sem perceber que pensava alto, enquanto caminhava em direção ao banheiro, apagando, aflito, a nova mensagem. Lá passaria o resto do seu intervalo, lendo e apagando, lendo e apagando, sucessivamente, mais rápido, gradualmente mais excitado, lendo e apagando, lendo e ahh... pagando. Era hora de responder: Confirmando: Mesma hora, local, Pau – ops! (risos) E não esqueça as meias! Bjs - Cris Ele passou o dia tão ansioso, tão absorto em pensamentos obscenos que quase se esqueceu de comprar o champagne. Tudo o que precisava levar era: um bom champagne, o corpo disposto e alguma imaginação – agora a lista estava completa! Val sempre se encarregava dos detalhes – e como era boa nisso... Perfeccionista ao extremo! Ela e sua maleta hermeticamente organizada de onde saiam as mais diversas e inesperadas coisas. Segundo Cris, aquilo era o “chapéu mágico do sexo”. Mal sabia ele quanto tempo e dinheiro ela gastava para

manter seu arsenal abastecido, atualizado e principalmente organizado. E ele ainda insistia em lembretes do tipo “não esqueça as meias” – uma piadinha interna, pois ela nunca esquecia nada. Em cima da hora, ele chegou ao flat. Funcionava como um esconderijo secreto e compartilhado, que há meses alugavam para seus encontros – nunca ao acaso – apenas, sempre e somente mediante aviso por ela enviado, como havia ocorrido hoje pela manhã. Ao abrir a porta, Cris notou as pequenas mudanças que renovavam o ambiente, “como sempre”. Cada vez que visitava o local, encontrava-o redecorado, habito que ela mantinha, não apenas com o flat – Val era cheia de surpresas e a ansiedade por encontrá-la o deixava louco... Havia velas acesas espalhadas por toda a parte, iluminando e perfumando o ambiente. A música já estava tocando. Era algo envolvente, mas não apelativo “Moby? talvez”, pensou ele, largando o champagne no balde de gelo que o aguardava sobre a mesa de centro. Tirou o casaco, tentando aparentar tranqüilidade, até que ouviu o som do salto se aproximando – toc, toc, toc – virou-se e lá estava ela: espartilho, salto agulha e meias... ah... meias 7/8 pretas, arrastão.

O champagne esquentou e não foi o único: a combustão imediata daqueles corpos fez com que as roupas saltassem quase que espontaneamente. Depois de algum tempo, prazeroso tempo, até as amadas meias sumiram. O flat, antes tão arrumado, agora parecia ter sido atingido por um terremoto ou furacão. E de certa forma o foi. Lá estavam os sobreviventes, nus, enrolados em corpos e lençóis, bebendo o champagne já quente, cujo gelo havia ganhado outras finalidades durante o processo. Agora, recuperado o fôlego, conversavam sobre as supostas e postiças vidas que um apresentava de forma mais mirabolante ao outro. E entre mentiras e risadas recíprocas, as coisas pareciam funcionar – e satisfazer muito bem – a ambos. “Mais barato que terapia” dizia ela às amigas “Melhor que uma esposa ou prostituta qualquer” dizia ele a si mesmo. Ao amanhecer, após dormir, comer, mentir, rir, banheira e sexo, em repedidas e desordenadas vezes, era chegada a hora de montar o “quebra-cabeças” do quarto. — Viu minha camisa? — Na sala – respondia ela, enquanto reorganizava sua maleta. — Viu minha cueca?

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— Hum... aqui! Toma aqui – alcançava ela, enquanto terminava de se vestir, de maneira muito mais comportada do que havia se apresentado na noite anterior. — E minha meia, viu? — Qual? Esta que está no seu ombro, Cris? Ele riu — Esta também. E a outra? Olharam em volta e nada da meia. Começou então a procura – ela revirava as cobertas já arrumadas, enquanto ele, parado, olhava para os móveis, sem mover um dedo, como se pudesse enxergar através deles – ela, agora de joelhos, procurava por todo o canto, atrás a cômoda, na poltrona, sob a cama. — Achei! Gritou ele, orgulhoso, de algum lugar da sala. Ela permanecia ajoelhada no mesmo local, apreensiva com algo que trazia nas mãos. Cris voltava ao quarto, já de meias, fechando a camisa, enquanto ela levantava lentamente – uma expressão fria, nenhuma palavra. — O que foi Val? Ah, achou a tua meia também? — Não. — Como não? E o que é isso na tua mão? Parece até eu. Haha, te peguei agora, perdendo coisas!

Ela permanecia com o semblante fechado. Largou a meia 7/8 preta, vagarosamente, no centro da cama, sobre o lençol vermelho. Ainda sem captar o que estava acontecendo, ele se aproximou, analisando de perto a situação. Olhou para Val, para a meia, Val, meia, perguntando-se o porquê de tanto mistério, Val, meia, Val, meia... até que, enfim, percebeu! Quando seus olhos encontraram os dela, que o fitavam atentamente, não se sentia muito seguro quanto ao que dizer. Agarrava-se àquele silêncio, em busca de uma boa explicação, quando o silêncio foi rompido: — E então, Cris? Caso não tenhas escutado, ou entendido, eu repito: Não, essa meia vagabunda não é e nunca foi minha. As minhas, já estão na maleta, e, além disso, coisas vagabundas não fazem o meu estilo, mas, pelo visto, fazem o teu, ou estou enganada? Ele engoliu a seco, arregalou os olhos, “pensa rápido, pensa rápido... ah, merda! Ela sabe ou só tá blefando? Ah, merda! Melhor eu falar a verdade, dane-se” — Não, eu não trouxe ninguém aqui, se é isso que tu tá insinuando. — Ah, sim, claro! Então, acompanhe o meu raciocínio: Se essa meia não é minha, nem de outra qualquer, eu

presumo que seja de quem?... tua? Uma gota de suor ameaçava escorrer denunciando o pavor de Cris diante aquela afirmação. Tentando manter a calma, ele reavaliava a situação: De um lado Val: vestida sobriamente, tailleur cinza, camisa branca, sapatos impecáveis, cabelo perfeitamente arrumado. De outro ele, Cris: calça ainda aberta, camisa mal abotoada, calçando um sapato só, cabelo bagunçado, barba mal feita. Entre eles, sobre a cama, aquela cama, naquele quarto que é dos dois, estava ela: aquela meia – maldita meia – que não podia pertencer a nenhum dos dois. “É isso!” pensa ele “É o que ela espera que eu diga: a resposta lógica - é perfeita!” — Não, claro que não é minha. É de uma amiga... Já faz um tempo, a gente não se encontrava mais, tu não ligavas nunca! Aconteceu... Não achei que isso fosse te incomodar tanto, afinal, a gente não tem compromisso... e foi só sexo.... e... — Chega. Não preciso ouvir mais nada. Primeiro: “só sexo” é o que nós temos. Segundo: pouco me importa o que tu faz ou deixa de fazer aqui, na minha ausência, mas me incomodo, e muito, a tua falta de consideração,

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ao deixar os restos das tuas vagabundas espalhados pelo nosso quarto. — Val... foi só uma meia! — Pois é, Cris. Não é a perna que estava nela que me importa. É o teu descaso. — Desculpa, mas como eu ia adivinhar? — A gente não adivinha Cris, a gente pensa, organiza e se certifica de que tudo esteja perfeito. Sabe o que isso me mostra, Cris? Essa meia é uma mancha no teu caráter! Cris pensa: “Droga, parece até que ela sabe” Val pensa: “Ótimo, acho que fui convincente” —Tá certo Val, se é isso o que tu pensas... Eu já vou... tô atrasado para o trabalho. Vou juntar minhas “manchas” e te deixar aqui no teu “santuário” de organização e retidão. — Ironia não vai ajudar agora, Cris. E DEIXA ESSA MEIA AÍ! Gritou ela, enquanto ele, cuidadosamente, enrolava o precioso achado. — Por quê? Não é minha... minha falta de caráter? — É. E eu vou guardar, de recordação. — Tu é louca, sabia? Gostosa, mas louca. — E tu é burro, sabia, gostoso, mas burro.

Indignado, ele saiu, juntando suas coisas pelo caminho, bufando e batendo com as portas. Já no carro Cris sente-se aliviado, extremamente aliviado, por ela ter engolido a mentira mais sensata. Apesar de todo o drama e ofensas, antes sair de um quarto com fama de mal caráter do que revelar o tamanho de sua paixão por meias 7/8 . Isso seria mais embaraçoso que qualquer coisa! Ainda no flat Val jogase em cima da cama, rindo e brincando com a meia, recém encontrada. Pega o telefone e manda uma mensagem. Dessa vez o remetente é outro: Cherrie, sua cachorra! Eu sei o que tu fez e sei que foi de propósito. E sim, ele foi embora, mas só por enquanto... E se quiser tua meia de volta: Vem pegar - hoje, 21hs. Te espero faminta – E traga o champagne! E assim, ambos seguiram, compartilhando um mesmo alívio ao cobrir as verdades impróprias, com um mesmo pensamento: “A meia de baixo da cama não é minha”

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
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Janela pra rua
Henry Alfred Bugalho

Contos

Christiane não virá. Da minha janela, acompanho o absurdo movimento noturno na rua: táxis, automóveis, gente deixando o cinema, gente bebericando em bares, casais abraçados, assim como eu e Christiane até dias atrás. Acendo um cigarro, o último do maço, e deixo a brisa da noite roçar minha barba. Tudo aqui dentro, na casa e no peito, e lá fora são recordações dela.

Naquele mesmo cinema, eu a beijei pela primeira vez, e quantas outras vezes depois. No restaurante do outro lado da rua, pus-lhe a aliança nos dedos e brindamos com champanha. No sofá da sala, nossas desajeitadas carícias; na cama, confidências que jamais depositei em outros ouvidos. Mas descuidamos, não cultivamos bem o amor — a sorte grande que tivemos na vida — e este frágil sen-

timento secou e morreu. Já conhecia Linda antes, colega de faculdade; ao visitar minha mãe enferma no interior, reencontramonos, jantamos juntos, ela me levou para sua casa e ouvimos alguns discos. Não me recordo se Christiane e eu havíamos brigado antes da viagem, ou se eu me imaginei discutindo com ela, sempre por causa de alguma trivialidade cotidiana — a toalha molhada sobre a cama, esquecer-

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me de baixar o assento da privada, espremer a pasta de dente no meio do tubo e não no fim, calcinhas penduradas no registro do chuveiro, detalhes que deixam de ser detalhes com o passar dos anos —, mas Linda me seduziu (ou deixei-me ser seduzido) e dormimos juntos. Tratei de apagar a memória deste deslize, como se isto fosse possível. Semanas depois, Linda bateu à porta de casa, havia se mudado para a cidade, queria minha companhia para jantar. — Quem é? — Christiane me perguntou, saindo do banho. — Uma amiga de juventude, gritei, convida-nos para jantar. — Estou exausta, dor-decabeça, pode ir se quiser. Eu não queria, porém Linda ameaçou revelar nosso caso a minha esposa se eu não fosse. Convenceu-me. E as camadas de mentira começaram a se acumular, de hotéis a hotéis com Linda, e eu me obrigando sempre a surgir com uma desculpa cada vez mais elaborada para justificar minhas intermináveis escapadas noturnas. Quantas vezes não tentei pôr um ponto-final, mas fui dissuadido pelas ameaças de Linda? Tomei coragem e telefonei para ela. — Acabou. Não quero

mais te ver. Desliguei, para não ter de ouvir a resposta. Meia hora depois, a campainha: era Linda. Ela entrou, dependurou seu casaco no cabide e me beijou. Christiane não estava em casa. Seminus, conduzi Linda a meu quarto e, banhados pelas mesmas luzes e sons desta rua que agora fito, nos amamos. — Você precisa ir... — sussurrei no ouvido dela — precisa ir agora. — Não, não vou — Linda apoiou a cabeça sobre o antebraço, olhar frio. — Por favor — a voz súplice quase me falhou — a Chris logo estará aqui e, dito e feito, pude ouvir a chave lutando contra aquela maldita fechadura emperrada. Apanhei as roupas da Linda e as joguei sobre ela. — Vai agora, puta que pariu! Mas ela não moveu um dedo, deitada, nua, na cama minha e de Christiane. Desesperei-me, segurei-a pelo braço, chacoalhando-a e tentei arrastá-la para fora, para algum lugar, para a sacada, para o armário, para qualquer lugar. Ela se segurou nas barras de ferro da cabeceira, debatia-se, chutandome, grunhindo, resmungando. Subitamente, Linda deixou de resistir, olhar

fixo em algo atrás de mim, risinho sardônico. Uma eternidade transcorreu naquele simples movimento de girar o pescoço e visualizar Christiane parada na porta, mão tapando a boca em assombro. Que explicação dar? Que explicação existe para uma mulher desnuda e o marido só de cuecas na cama? Ganhei um concurso literário uma vez, mas não, não sou tão criativo assim. Christiane partiu naquela noite; Linda foi embora dois dias depois, soube que para reatar um noivado com um moço da sua cidade. Hoje, descobri o hotel onde Christiane está hospedada e enviei-lhe um telegrama, implorando para que viesse e conversasse comigo. Desde então, aguardo. Por horas, por longas e dolorosas horas. O interfone toca e corro, tropeçando em chinelos e livros, para atendê-lo. — Sou eu, Tim. Não me chamo Tim, suponho que o fulano tenha apertado o número errado. Retorno à janela e reviro os bolsos à procura por outro cigarro, lembrome então que não há mais, bolsos tão vazios quanto todo o resto. Isto eu já imaginava, Christiane não virá.

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Contos

Prisioneiro em si
Léo Borges
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– Vou embora. Eu estou namorando a Silvia. Quero que você entenda a minha liberdade, porque estou procurando ser feliz. Com essas palavras minha mulher se despediu de mim, alguns anos atrás. A incompreensão e a dor foram elementos que me acompanharam desde então, intensos como deveriam ser. Mas não foram maiores do que a reflexão que fiz sobre os núcleos daquela estrutura oracional: “liberdade” e “ser feliz”. Naquela época, eu poderia me declarar escritor, romancista de uma literatura esparsa, livre na acepção da palavra, mas que – depois descobri – não era verdadeira. Procurava levar entretenimento às pessoas, prendê-las a minha fantasia frugal. Falava muito

disso, de liberdade, mas Laura propiciou-me, com aquele ato, a oportunidade do meu primeiro livro não-escrito de sucesso, o que mostrava, então, a verdade sobre essa palavra com a qual os poetas iludem os tolos: a derradeira obra sobre a inexistência da liberdade. Laura saiu do matrimônio para poder entrar na vida de outra mulher e acreditou que assim seria feliz. A felicidade, embora seja um agente ilusório, é, paradoxalmente, passível de ser procurada. Liberdade, então, seria algum ânimo misterioso que nos mantém ativos nesta busca. De fato, seria mesmo terrível se todos se descobrissem presos. Por isso minha admiração por Laura nunca acabou, até

porque com o rompimento pude descobrir, enfim, que estar livre é, em verdade, estar mantido sob engano. Ou seja, a liberdade seria o perfeito ópio da humanidade. Estarmos presos a conceitos dimensionais é melhor do que compreendermos as armadilhas de um mundo supostamente livre. E esta clausura transparente é que nos mantém esperançosos em algo que nunca chega, mas que nos auxilia em nossa submissão. A fé nessa liberdade fictícia atrapalha nosso curso natural e nos aprisiona nesse deprimente cenário de falsas alegrias, impedindo que vidas se enveredem por cenas paralelas, fossem estas a plasticidade de um suicídio, conforme bem demonstrou Hemingway,

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ou através do prazer orgíaco, pecador por definição cristã, desde sempre confirmado por Calígula. Nesse sistema perverso onde democracias são impostas e necessidades são criadas, eu era apenas mais uma peça. Toda a cegueira nessa crença mentecapta fazia com que não deixassem de comprar meus livros medíocres sobre esse Mal. O último, então, com um belo e embusteiro título – “A liberdade que nos rege” – vendeu bastante. Assim que Laura foi embora mergulhei no triunvirato que sublima a vida de qualquer escritor de sucesso: álcool, tabaco e bordéis. Essas experiências foram boas para minha metamorfose. Autodestruição, obviamente, não significa liberdade, mas é o melhor caminho para compreender sua inexistência. Chegava carregado por estranhos ao meu apartamento e vomitava sobre rascunhos de minha próxima obra, “Alavancando o sonho de ser livre”. Meu público-alvo, normalmente mulheres na casa dos cinquenta, adora essas picaretagens literárias. E eu, o pilantra maior, preso ciente desta sina cruel de forjar histórias românticas e assépticas com o objetivo espúrio de ser reconhecido como “o escritor da liberdade”. A imprensa soube de minha separação, mas não os detalhes. “Parece que sua esposa mantinha um caso homossexual há anos”. Alguns criticaram pesadamente a decisão de Laura, não conseguindo nem mesmo esconder a homofobia das declarações.

Queriam ser solidários, mas eu sentia pena deles. Por sorte minha, escritores de uma forma geral não têm sua vida tão esmiuçada na mídia como os pobres artistas de TV Estes . sofrem muito mais com fotógrafos amaldiçoados, fãs histéricos e outros entes hediondos. Foi quando resolvi que não iria mais sair do meu apartamento. A partir daí comecei a perceber algumas coisas não identificáveis do tempo em que eu acreditava na liberdade. Nesta pequena sucursal de cárcere da vida entendi melhor o formato deste perverso sistema. Minha sala era claramente claustrofóbica, mas, ao mesmo tempo, eficiente em me dar respostas: com meu corpo confinado, eu podia enxergar melhor a prisão da alma. Meu lar, então, se tornou o escritório ideal para meus livros não-escritos. Não saía para mais absolutamente nada. Abria a porta para pegar a comida com o entregador e pagava com cheques que eram trazidos, por sua vez, pelo contínuo do banco. Ninguém mais me visitava. Minha promotora tratava de minhas publicações através do telefone ou de mensagens pelo computador. Minha sogra, dona Célia, que infantilmente repudiou a idéia separatista de sua filha, morava no mesmo andar e insistia na tese de que eu estaria com a chamada Síndrome do Pânico e que precisava de auxílio médico. Ah, os médicos! Descompromissados com o

calor dos sentimentos, assim como os cientistas que inventam remédios, passam suas vidas trancados em frios e limpos ambientes ministrando pílulas que, pretensiosamente, seriam a cura de todos os males. A indústria farmacêutica é um dos tentáculos desse monstro invisível que aprisiona nossas almas, que fomenta esse massivo ataque a seres inofensivos como a dona Célia. Dava pena ver as suas tentativas de me “salvar” desta doença perniciosa. Como eu não queria encontrá-la, ela, vez por outra, soltava o Guardião, seu gato preto, para que, sorrateiramente, ele viesse me fazer companhia. O que mais me causava comoção, porém, era outra curiosa iniciativa sua: ela comprava e mandava o entregador da farmácia trazer para mim uma caixinha de Rivotril a cada quinze dias. A atitude da Laura fez com que dona Célia se roesse em remorsos e, então, ela procurou esforçar-se para cuidar do maluco aqui. Quando estava cansado de escrever minhas baboseiras líricas sobre liberdade eu deitava no sofá, arrancava uns comprimidos da cartela e ficava tentando acertar Libertad, um pequeno camundongo que resolveu fazer morada entre o amontoado de livros, reboco de parede, papéis rasgados e roupas por lavar que eu zelosamente mantinha num dos cantos da sala. O alvoroço desesperado de Libertad, ao ser incomodado pelo bombardeio de remédios, era sempre angustiante, pois sugeria que ele precisava de alguém o acossando para se manter

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vivo, como se estar sendo perseguido fosse a melhor, ou talvez única, saída para a sua sobrevivência. Uma perfeita parábola sobre liberdade. Na tal “vida livre” que eu levara até poucos anos atrás nunca havia refletido com seriedade sobre a praça em frente ao meu edifício e nem sobre os casais de namorados que esculpiam coraçõezinhos no corpo das árvores rodeadas por cercas metálicas. Para eles, tatuagens como aquelas deveriam significar o chamado “amor infinito”; coisa tão besta quanto a liberdade que os solteiros se regozijam em acreditar que saboreiam. As grades circundando os troncos, antes de serem incongruentes celas para caules depredados, representavam um modelo de prisão empírica, não da planta como estava óbvio, mas de seus reais detratores – nós. A clausura em maior amplitude, aliás, podia ser contemplada com um mínimo de esforço: prédios cercados por telas eletrificadas, o comércio repleto de cadeados e travas eletrônicas, paredes e muros cobertos com arames farpados. A própria alameda se encontrava asfixiada em meio às cinzentas construções, entrecortadas por agressivos neons de publicidade. O mendigo catando lixo para comer, um cachorro acompanhando-o de perto; crianças correndo entre os tubos de ferro do brinquedo enferrujado; o vendedor de algodão-doce com olhar triste; a babá sem expressão empurrando o

carrinho de bebê; o executivo engravatado apressado com sua maleta marrom. Havia ali o espectro de uma sociedade desconfiada, aprisionada dentro de si. Claro estava que aquele imaculado e entediante espaço arborizado necessitava – em caráter de urgência – de uma tragédia que o livrasse da angustiante e demoníaca candura a que fora submetido. Algo que reconduzisse todos aqueles passantes de comportamento mecânico, e as complacentes copas das árvores artesanalmente podadas, a um estado natural; que interrompesse todo aquele burocrático ciclo no qual pessoas lutavam, minuto a minuto, por coisas supostamente indispensáveis, cumprindo destinos como se lobotomizadas estivessem. Mas o conceito de liberdade funciona desta forma, com esse ardil – uma filosofia difícil de ser enxergada e que não admite nenhum tipo de contestação. De minha janela eu passava muitas horas observando aquele aflitivo vai-e-vem de personagens do meu livro não-escrito, principalmente dona Célia, cuja vida era olhar vitrines de lojas. Naquela noite pensei muito em minha sogra enquanto mirava, com um remédio entre o polegar e o indicador, uma camisa roída no chão, local por onde o ratinho aparecia. A gola suja de sangue lembroume do incidente: Libertad já não vivia entre nós. Ele havia sido destruído por Guardião numa de suas visitas, e eu me esquecera

disso. Eu não costumava sentir o coração apertado por qualquer coisa, mas naquela tarde senti. Pela saudade do camundongo e, depois, por dona Célia. Minha cabeça estava presa nela por isso: a frequência de seu gato em meu cárcere diminuíra bastante desde que ele destroçara o pequeno roedor. Teria ela descoberto o assassinato e proibido o bicho de vir-me fazer companhia? Era uma idéia absurda, mas deveria ser respeitada. Notei que o entregador da farmácia também passou a entregar o Rivotril em datas incertas, com espaços maiores. Achei que dona Célia estava, finalmente, esquecendo seu genro escritor. Ela era uma leitora assídua de minhas “liberdades para dondocas” e gostava de mim com uma sinceridade maternal. Estaria certa ela em querer esquecer um cara pessimista, possivelmente doente, intimamente derrotado e ir atrás da pseudo felicidade da filha e seu bonito amor homossexual? Um amor condenado pela sociedade não poderia ser também repudiado por nós. Sabíamos da leviandade dos sentimentos e engrossar essa lista seria seguir o script mundial da hipocrisia. Naquele instante me senti profundamente infeliz; uma tristeza torpe, totalmente incompatível com o que eu vinha descobrindo desde a minha separação. Tentava escrever mais alguma bobagem para preencher o último capítulo de mais uma obra, mas o cursor não saía do lugar e

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deixava estática na tela a única frase daquela página: “E aquela doença parecia livrá-la da prisão conjugal”. Eu não sei se teria coragem de concluir esse livro. Eu não aguentava mais trapaças, desonestidade e incompreensão comigo mesmo. O fim de um escritor miserável estava perto. Despejado de meu cárcere, iria viver como uma das personagens que criei, catando restos para sobreviver. Meus dedos se afastaram do teclado e apertaram meus ouvidos. Aturdido dentro de mim, por pouco não escutei a campainha. Eram três horas da manhã. Quem iria importunar um escritor em pleno horário de trabalho? Todos sabiam que eu não recebia quem eu não esperava – normalmente os entregadores de comida ou de remédio. Porém o barulho da campainha insistiu e uma curiosidade mórbida levou-me até à porta. Não acreditei quando, pelo olho mágico, vi Laura chorando do outro lado. Chorava como se ela própria também houvesse acabado de descobrir que a liberdade realmente não existe. – Minha mãe! Minha mãe... ela está com Alzheimer... meu Deus... ela não lembra da Silvia, nem quando está ao meu

lado... e só lembra de meu nome quando falo dos seus livros. Meu Deus! Ela se tornou uma prisioneira em si... Laura me abraçou apertado. Seu choro era tão estridente e convulsivo que mal conseguia respirar. Tentei acalmá-la levando-a para o sofá e oferecendo um comprimido que ainda não havia sido arremessado sobre o camundongo. Fomos até o apartamento da dona Célia e lá eu tomei uma de suas mãos com carinho. Guardião, cujo penetrante olhar felino era detentor de uma acusatória expressão, acompanhava o pesaroso arrastar de corpos pela sala de sua dona. Silenciosamente e sem lhaneza, éramos apontados pelo taciturno animal como os verdadeiros culpados por toda aquela incômoda situação. Quem sabe culpados até por toda a mesquinhez humana. Minha sogra desenterrou um sorriso como se estivesse diante de alguém que, inadvertidamente, fugira de sua prisão. Naquele quarto de paredes escurecidas pelo tempo eu percebi, com uma alguma felicidade, que novamente Laura errara: dona Célia não estava virando refém de sua doença, não estava se tornando uma prisioneira dentro de si. Ao contrá-

rio, estava ela própria se libertando de toda a uma doutrina nefasta, impiedosamente sistematizada, que nos humilha desde que nascemos. – Trouxe o seu último livro? A pergunta da minha sogra fez com que eu iniciasse meu segundo livro não-escrito. A doença de Célia a estava fazendo entrar em contato com algo que não podemos conquistar por nossa vontade. Na verdade, ela estava me provando que a liberdade, sim, a liberdade existe. O desligamento lento e progressivo da mente daquela mulher me apresentava uma nova percepção do que seria a cristalina possibilidade de se estar livre. Quando questionara – em minha mente – o seu esquecimento sobre os remédios e sobre a soltura do gato, estava, mais uma vez, a serviço desse Império que procura arruinar a verdadeira liberdade, liberdade esta que agora estava sendo provada. A dor de todos a sua volta não iria encontrar alicerce em sua felicidade interior. Dona Célia estava, ela própria, construindo o prefácio de minha nova obra fantasmagórica, enfim, livre de dogmas, culturas, verdades e certezas.

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Contos

Camuflagem
Marcia Szajnbok

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O lugar onde
Horas a fio a observar o pequeno exército de formigas. Marchavam sobre a mesa, capturavam migalhas e restos de açúcar, invadiam o pote mal fechado de geléia. A cabeça apoiada sobre os braços, só os olhos de fora, bem abertos. Imaginava. Persegui-las, esmagá-las uma a uma, afogá-las em leite quente. De onde vinham? Esquadrinhava os azulejos à procura da fresta. Abre-te, sésamo! E se jogasse lá dentro um pouco de álcool, e depois enfiasse um palito de fósforo aceso pelo buraco? Imaginava. Gritos desesperados, as pequenas pernas esturricadas como gravetos em miniatura. Imaginava. Só. Só imaginava. *** Parada diante da estação, vestida de cinza no tom da parede, fazia-se invisível. Gostava de ficar ali, oculta no mimetismo urbano, observando as pessoas. Iam e vinham aos borbotões. Formigas. Casais riam juntos, alguns de mãos dadas. Crianças portando mochilas. Outras, menores, puxadas pela mãe que desfiava aos ouvidos desatentos algum discurso moralizante. Adolescentes em turbas barulhentas esbarravam numa velhinha que precisava do corrimão como apoio. Todos disputando a entrada estreita do trem que, implacável, partia em trinta segundos. Imaginava. Do que riria a moça? Que livros, naquelas mochilas? Que travessura teria feito a pequena que chorava e se lambuzava de lágrimas e chocolate? O que lhe diria, se fosse ela própria aquela mãe? Os olhos procuraram furtivamente o mostrador do relógio. Meia hora de atraso. Imaginava. Na trupe adolescente, devia dar-se uma quadrilha: Carlos amava Dora, que amava Paulo, que amava Lia... A velhinha lembrou-lhe a avó. Saudade.
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a boa Literatura
é fabricada

Uma hora. Tantos rostos, menos aquele. Uma hora e meia de atraso. Ele não vem mais. Imaginava ainda. Haveria, decerto, um bom motivo. Morreu alguém. Foi assaltado. Ele próprio podia estar morto. E se jogasse sobre ele um pouco de álcool e depois um fósforo aceso? Gritos desesperados, o corpo viril retorcido e carbonizado. Um resto. Só. Teria sido um bom encontro, se ele tivesse vindo. Talvez fossem felizes. Talvez tivesse aprendido a amá-la. Talvez tanta coisa. A noite caía e mais cinza a cidade mais a escondia, desfeita de formas junto à rua borrada de chuva e de gente. A vida passava. Continuava só. Só imaginava.

ficina
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Contos

Barbara Duffles

encarou o espelho
Lembrou-se do que dizia às mulheres para conseguir dormir com elas. “Além de escritor, também sou pintor”. Fail, fail, fail. Os quadros mal pintados, ou abandonados por fazer no quartinho dos fundos diziam o oposto. Que feio. Toby agora estava diante de um dilema moral: revelar ou não ao mundo que era uma farsa? Assuhttp://www.flickr.com/photos/cuppini/1075324454/sizes/l/

o dia em que o farsante
centenas de livros de autores consagrados em sua estante, lidos pela metade ou intocados, assinavam embaixo que ele realmente era uma farsa. Longe de ser o intelectual, o culto, o sensível, características que os outros lhe creditavam, e que ele piamente acreditava. Rememorou seus textos, escritos desde a adolescência até então, e percebeu como eram rasos. Todos nada mais eram que variações do mesmo tema, as palavras se repetiam, o estilo se manteve, cansativo. Como puderam comprar seus livros ao longo desse tempo?

Já estava desconfiado há anos. Mas, ao completar seu 40º aniversário, Toby não teve mais como fugir. Definitivamente – e disse isso mirando-se firme no espelho – ele era uma farsa. Que ninguém lá fora me ouça, pensou. A constatação deixou Toby frustrado. Por mais que, vez ou outra, uma vozinha do além tentava convencê-lo de sua inutilidade, a auto-estima sempre lhe disse que ele era o máximo. Agora Toby sabia que estava mais para mínimo, e as

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mir publicamente que é mais raso que um prato de salada, ou seguir fingindo profundidade, causando inveja em amigos, comendo mulheres incríveis, ganhando dinheiro sem derramar uma gota de suor? Toby não tinha coragem de renegar-se. Não aos 40 anos. Não ia manchar sua existência por isso. Afinal, o resto do mundo, pelo menos a maioria, também é de farsantes. Gente que entra para a história com base em mentiras. Ele é que não ia ser bobo de queimar o próprio filme. Resolvido o embate consigo mesmo, Toby deu um sorrisinho cínico para o espelho e desceu para o salão, onde acontecia o lançamento de seu mais novo best seller, “A inteligência é para poucos”. ******* Barbara Sem saber o motivo, começou a pensar no próprio nome. Barbara. Repetiu-o algumas vezes,

estranhando a sonoridade. Barbara. Barbara. “Nome bruto”, pensou. Olhou-se no espelho e encarou a imagem. “Então essa sou eu”. Não se reconheceu. Reparou em cada detalhe do rosto refletido: olhos, nariz, boca. O buraquinho no lado esquerdo da bochecha. Esta pessoa era ela, assim como era ela o nome estranho repetido diversas vezes. Mas nada lhe era familiar, nem o nome, nem a imagem. Em seu mundo interior, Barbara era uma figura sem forma, uma sensação, um buraco negro que ora se esticava, ora se encolhia. Não tinha rosto, muito menos uma palavra que a designasse. Ela era seus sentidos, era o que enxergava, ouvia, pegava, comia e cheirava. O espelho lhe mostrou um ser desconhecido. Um ser chamado Barbara, que, por acaso, ela era mesma. Muito prazer. **** Textos publicados no blog Não Clique e no livro Não Abra

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
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O Guia do Viajante Inteligente

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Contos

o admirador

Parte 4: rostos
Maristela Scheuer Deves

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Acordou do desmaio deitada na cama e tendo ao lado uma aflita camareira, que não sabia o que fazer com aquela hóspede que desmaiava ao receber uma simples rosa. Por mais que perguntasse, não conseguiu descobrir quem deixara a flor na portaria – mesmo resultado dos inquéritos que fizera quando da entrega dos buquês no seu apartamento. A cabeça ainda girando, questionou-se se valia a pena continuar no hotel, uma vez que o esconderijo fora descoberto tão facilmente. Decidida, apanhou a mochila e desceu para fechar a conta. Pensou em almoçar – já era quase meio-dia, o tempo se escoava rapidamente –, mas abandonou a idéia. Sabia que, naquela aflição, nada pararia no seu estômago. Rumou de volta para casa, e, no caminho, jurou que seus últimos resquícios de sanidade tinham se esvaído: o porteiro do hotel, o guarda parado na esquina, o senhor de idade sentado no banco

da praça, o taxista, todos pareciam olhá-la de maneira estranha, furtiva, suspeita. Não foi diferente ao chegar no prédio no qual morava: o homem que saía rapidamente e no qual esbarrou, o zelador, a meia dúzia de vizinhos pelos quais passou no corredor – seria um deles?, perguntava-se ao olhar para cada rosto. Trancou a porta do apê e depois a porta do quarto. Jogou-se na cama, em lágrimas. Não aguentava mais. Acabou adormecendo, e nos sonhos – ou alucinações? – os rostos mais uma vez se sucediam, conhecidos ou desconhecidos, todos ameaçadores. Acordou com o toque insistente da campainha, e assustou-se ao olhar no relógio: já passava das 16h! Ainda semi-adormecida, olhou pelo olho mágico, mas não havia ninguém no corredor. A dormência evaporou-se como num passe de mágica, os últimos aconte-

cimentos voltando como uma torrente. De repente, um dos rostos do sonho fixou-se na sua mente. Claro!, pensou, começando a tremer mais uma vez. Como não pensara nisso antes? Era óbvio, só podia ser... Estranhamente reconfortada agora que sabia quem era seu inimigo – sim, tinha certeza, não havia outra alternativa –, sentiu-se calma pela primeira vez em meses. Foi ao banheiro, lavou o rosto, voltou ao quarto e arrumou-se cuidadosamente. Então, saiu rumo ao Cemitério Municipal. O horário do enterro estava chegando, e ela estava decidida a não perder a festa de jeito nenhum.

(não perca, no próximo mês, o final dessa história!)

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Contos

Parceiros
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Giselle Sato

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A delegacia abarrotada fedia naquela noite típica de verão. O odor entranhava na roupa e pele de quem fosse obrigado a chegar próximo à carceragem. Lotação mais que esgotada, seminus eles alternavam as posições de pé e sentado. Magalhães acendeu um cigarro por pura maldade, inalou e soltou devagar a fumaça. Enquanto observava os olhares cobiçosos, percebeu o olhar de reprovação de Barbosa:Algum problema? - Nenhum . - Já estão trazendo o preso, daqui a pouco sairemos deste inferno. - No final do plantão... Não dá pra acreditar! - Chegou o boneco. Vamos andando. O rapaz chegou algemado, cabeça baixa e bem machucado. Franzino e encolhido como se fosse possível tornar-se ainda menor. Barbosa lançou o famoso olhar de soslaio, mania irritante que apenas ele julgava ameaçadora. O parceiro ignorou com

um sorriso disfarçado e acompanhou o preso até o carro. Naquela noite, não usariam a viatura. Vinte e dois anos trabalhando juntos davam-lhe conhecimento de causa. Eram mais que amigos, um batizou o filho do outro, passavam as folgas com as famílias reunidas em intermináveis churrascos. Todos admiravam a dupla, eram dignos de confiança e respeito. Barbosa sempre agitado e Magalhães ponderado e bonachão.Barbosa estava irritado: Havia brigado com a mulher, o carro enguiçou e o filho estava para ser reprovado. Na realidade, a mulher informou a separação durante o café da manhã e no instante seguinte, deixou a casa com todos os pertences. Barbosa e o filho nada falaram... Cada qual seguiu sua rotina, como se nada houvesse acontecido. Não era a primeira vez que ela ia embora e depois retornava arrependida. Infelizmente daquela vez, Barbosa jurou que seria a última.O amigo sabia que

não era hora de perguntar nada, sentou-se no banco do carona e deixou que Barbosa assumisse a direção: - Porra! Na hora do rush ir pra Caxias é um inferno. - Posso dirigir... - Não! Não confio em ninguém no volante. - Desculpe, quer conversar? Porque está tão irritado? - Nada demais. Coisa da vida, desta vida de merda que vivemos. Deste salário de merda, deste carro bichado e deste boneco, filhinho de papai sentado aí atrás rindo de nós. Motoristas de um moleque riquinho e safado. Viciado da porra! Traficante de merda! Quer que eu explique mais alguma coisa? Magalhães já estava acostumado com as patadas do amigo, acendeu um cigarro e relaxou. O preso sentado no banco de trás, soltava risadinhas de vez em quando... pela primeira vez, Magalhães olhou com atenção. Apesar do desconforto, o jovem exibia

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uma expressão altiva e parecia muito à vontade. Ele sabia que estava sendo transferido para uma delegacia melhor. Naquela hora da noite, Magalhães entendeu que era tudo muito irregular e não devia fazer perguntas. O preso começou a rir alto e Barbosa jogou o carro no acostamento: - Vou dar um jeito neste palhaço. - Calma, o moleque tá doidão. - Eu estou calmo! Não adiantou argumentar, Barbosa desferiu uma série de socos na cabeça do preso, transformando o rosto em uma massa disforme e sanguinolenta. A muito custo, foi contido e jogado no asfalto. Magalhães tentou socorrer , mas o rapaz regurgitava sangue por todas as vias. Em poucos segundos, estremeceu e caiu para o lado. Barbosa certificou-se que o rapaz estava morto, tirou as algemas e calmamente retomou o volante. O parceiro sabia que ele devia estar pensando, não ousou interromper e acen-

deu outro cigarro. A rodovia estava completamente deserta, um vento gelado soprava e Magalhães desejou ter faltado ao plantão. Havia acordado com maus pressentimentos e infelizmente não seguiu o instinto. Finalmente, o detetive Barbosa deu partida no carro e pegou a rodovia: - O que vamos fazer? - Entregar o boneco, não foi para isto que viemos? - Ele está morto, se não percebeu... Irão ver na hora. - Eu sei. - Ei amigo! Está correndo demais, porque esta pressa agora? Barbosa, estamos a 120, 140... Barbosa! Diminua esta porra! Olha a árvore! O carro colidiu contra a árvore e como é do conhecimento geral, o instinto sempre obriga o motorista a se proteger. O preso atravessou o vidro e foi arremessado no matagal à margem da rodovia. Toda a lateral ficou completamente destruída, Magalhães preso às ferragens ainda respirava, mas o

estado era crítico. Barbosa soube imediatamente que tinha quebrado as pernas: - Barbosa! Ajude... Estou morrendo... - Maldito! Era para estar morto! Safado... Pensa que não sei do seu caso com Inês? Pensa que não notei que crio seu filho? Pensa que sou idiota? Todos estes anos... Eu só queria te ver morto, mas você sempre sobreviveu... Nunca levou um tiro! Armei tantas e nunca levou um tiro! Mas hoje ela pediu que você viesse...para não levantar suspeitas. Barbosa testou a porta e conseguiu abrir com dificuldade. Girou o corpo e soltou um grito agudo enquanto jogava as pernas para fora do automóvel. Magalhães arregalou os olhos de puro horror, enquanto Barbosa tirava o maço de cigarros de seu bolso. O fumo acendeu e Barbosa puxou com força, até transformar a ponta em uma brasa viva. Lentamente deixou o cigarro cair no fundo do carro.

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autor Convidado

o dito SEXo E
O esforçado Jojo la Rue não consegue fazer-nos rir. Acredito que o sotaque cerrado dificulte a teatral tarefa, no meio de tantas anedotas de algibeira a sair a ritmo e táctica de coelhos da cartola, impecavelmente brancas e dobradinhas, como lenços prontos a sujar de rompante, e umas piadas de política emoldurada, cujos contextos são para um português vizinho de Espanha, perfeitos estranhos. A restante meia dúzia de clientes pingados presta mais de uma atenção quase reverência às cervejas, do que ao candidato a comediante anunciado à porta deste Otto`s Shrunken Head (a cabeça mirrada do Otto), nome fantástico para um bar algo polinésio na Rua 14, leste, entre as avenidas A e B. Vim cá à procura de

a taL CidadE
uma pequena Meca do rockabilly ao vivo e furioso, num pequenérrimo e suado palco, após uma conversa esta tarde com um empregado da Trash and Vaudeville, uma loja de roupas incríveis em St Marks Place, e rocker amador numa garagem em Brooklyn Heights com uns tais Skinny Boy Jones, promissores, ao que me queria fazer ver. Só não me vou embora por Trisha. Quase uma hora de conversa depois de a ter visto, e tão revisto, na mesa ao fundo, tenho uma daquelas certezas irredutíveis de querer tê-la bem mais perto de mim do que os dois palmos de diálogo e alguns risos entre nós, enevoados pelo fumo do seu cigarro. O sincero desejo de sexo demorado e explícito é-me implícito. Afinal de con-

Miguel Castro
tas, e da sua terceira Budweiser, separei-me em Portugal há dois meses e não é todas as noites de sexta-feira que ando por Nova Iorque e encontro uma ruiva de Queens, não acompanhada, francamente bonita, neta de irlandeses, à beira de um fim de semana sem os dois filhos que andarão a melgar o pai, e ex-marido. – Estás com tempo? Queres andar por aí? Ir a outro sítio qualquer? – pergunta-me com o tal brilhozinho nos olhos que me parece ser aquele de que uma antiga canção do Sérgio Godinho fala. Andar por aí, hang out, como se diz nesta cidade tão viva, onde as noites são tão intensas como sexo, é uma óptima sugestão, para já. Lá fora apercebo-me do esgar da lua, surpreendida, e

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logo depois, à luz da montra de mais uma de prováveis centenas de lojas de conveniência geridas por indianos, entendo o porquê. É que Trisha é mesmo bonita. OK. Jogo. Tudo ou nada, não é? Aposto tudo. Uns passos de silêncio subitamente acanhado à frente, e que ameaça desatar a pigarrear, paro e pergunto-lhe olhos nos olhos, e olhos no passeio, se há algumas expectativas reais, uma probabilidade daquelas bem boas, de… pois… portanto… bom… isto é… ou seja… de em breve irmos para a cama. E até nem estamos nada longe do hotel onde estou hospedado. E os táxis nesta terra, de lentidão têm pouco, são por vezes conduzidos por uns clones do Fittipaldi, regra quase

geral também indianos, e com turbante. – Temos a minha casa em Queens – sorri – quem sabe noutra ocasião qualquer. Estou a gostar demasiado de te conhecer para arriscar estragar tudo com uma rapidinha. Mas quem falou em rapidinhas? A fulana deve estar mal habituada. E muito menos estragar. Argumento e tento. Portuguese do it better. Asseguro e rio. – Olha à tua volta, ó Lisbon guy. – Trisha sorri-me durante mais tempo, e consegue fazerme cócegas no coração. Faço o que me pede. – Gostas do que vês? – pergunta-me depois de eu em para aí cada dez minutos de companhia lhe ter ciclicamente apregoado que adoro Nova Iorque. – E agora deixa-me olhar bem para ti – pede-me com

um ar sério. Aceito e deixo-a ler-me o rosto. Eu próprio começo a achar que valerá a pena ver página a página desta mulher com tanto de rapariga, e dar-lhe uma bem merecida atenção. – Primeiro tens de me deixar gostar de ti, entendes? – oferece-me um beijo surpresa ao meu queixo. – Como tu gostas desta cidade. Entendo. Trisha sugere-me um Rodeo Bar, onde a Country Music acontece, e a Bluegrass arrasa. Sou todo ouvidos, pernas e pés. Trisha pelos vistos, botas e gostos, também. Trisha dá-me o braço. E caminhamos. Algures na 8ª avenida ganho uma noite no sofá da sua sala. Com oferta de pequeno almoço.

Miguel Castro nasceu em Julho de 1967 em Lisboa. Cresceu sempre com vontade de escrever e a alimentar-se de doses maciças de música. Aos 16 anos desistiu de perseguir e atormentar o seu pai quando este finalmente lhe comprou uma guitarra eléctrica e um amplificador. Em 1986 ingressa na Faculdade de Ciências de Lisboa para cursar Geologia. Integrou a formação de várias bandas com as quais, e também a solo, percorreu o circuito universitário dos cafés-concertos e alguns bares em Lisboa. Em 1991 grava a sua primeira canção numa colectânea de novos grupos e artistas, editada ainda em vinil, num LP. De 1992 a 1994 foi professor no ensino secundário e em 1995 formou na Amadora a banda pop

Porquinhos da Ilda com a qual decidiu definitivamente fazer da música uma profissão a tempo inteiro. Graças à irreverência, humor peculiar, sonoridade, e a animada presença em palco que os caracterizava, os Porquinhos da Ilda realizaram centenas de concertos por todo o Portugal e editaram 3 álbuns, destacando-se o hit radiofónico “Canguru” em 1997. Em 2000 fundou a sua primeira empresa de management e produção de espectáculos, a Oink Música, e tornou-se responsável oficial pelas carreiras de Porquinhos da Ilda, Império dos Sentados, e Woodstone. Em 2002, após muitas viagens e experiências, a conselho do médico e de amigo deixou de beber álcool. Um dia ao fim de uma tarde sentou-se e escreveu a sua primeira

de várias pequenas histórias. Um hábito que ainda hoje prevalece. Em 2003 fundou a Espanta Espíritos, empresa de management, agenciamento, e produção, que gere as carreiras de grupos do panorama musical português como Corvos, Verdes Anos, Dina, e Mariária, entre outros. No verão de 2004 começou a escrever o seu primeiro romance ANDA CÁ FAZME TUDO O QUE QUISERES, que foi editado em Setembro de 2005 pela Sete Caminhos. Actualmente Miguel Castro continua a ser músico, como sempre foi e será, coordena os espectáculos infantis da Espanta Espíritos e é co-produtor da cantora e compositora Dina. Adora o seu filho Afonso, o rock`n`roll, ir para a estrada, viajar, e escrever. Está até com ideias de preparar o seu segundo romance.

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tradução

James Joyce

Eveline
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tradução: Henry Alfred Bugalho

Ela se sentou à janela, assistindo a noite invadir a avenida. A cabeça reclinada contra as cortinas da janela e em suas narinas o odor de cretone empoeirada. Ela estava cansada. Pouca gente passava. O homem da última residência passou em seu caminho para casa; ela ouviu os passos dele ressoando pelo chão de concreto e, depois, calcando a trilha cinzenta antes das novas casas vermelhas. Antigamente, havia um campo ali no qual eles costumavam brincar todas as noites com as crianças dos outros vizinhos. Então, um homem de Belfast comprou o campo e construiu as casas nele — não como as casas marrons deles, mas casas de tijolos brilhantes com telhados reluzentes. As crianças da avenida costumavam brincar juntas naquele campo — os Devines, os Waters, os Dunns, o pequeno Keogh o aleijado, ela, os irmãos e irmãs dela. Contudo, Ernest nunca brincava: ele era grande demais. O pai dela costumava caçá-los com frequência pelo campo com sua

varinha de abrunheiro; mas geralmente o pequeno Keogh os alertava e gritava quando via o pai dela vindo. Mesmo assim, eles pareciam ter sido bastante felizes naquela época. O pai dela ainda não era tão ruim; e, além disto, sua mãe ainda vivia. Isto aconteceu há muito tempo; ela, seus irmãos e irmãs haviam crescido, sua mãe estava morta. Tizzie Dunn havia morrido também, e os Waters haviam regressado à Inglaterra. Tudo muda. Agora ela partiria como os outros, deixaria sua casa. Casa! Ela contemplou a sala, examinando todos seus objetos conhecidos, que ela havia espanado uma vez por semana por muitos anos, imaginando de onde na terra vinha toda a poeira. Talvez ela nunca mais visse aqueles objetos conhecidos, dos quais ela nunca sonhou se apartar. E, mesmo assim, durante todos estes anos, ela nunca descobriu o nome do padre cuja fotografia amarelada pendia na parede sobre um harmônico quebrado, ao lado do pôster colorido das promessas feitas

à Abençoada Margaret Mary Alacoque. Ele havia sido um colega de escola de seu pai. Sempre que ele mostrava a fotografia a uma visita, o pai costumava passá-la com uma frase casual: — Ele está em Melbourne agora. Ela havia concordado em partir, em deixar sua casa. Havia sido sábio? Ela tentou pesar cada lado da questão. Em sua casa, de qualquer modo, ela tinha abrigo e comida; ela tinha por perto aqueles a quem conhecia por toda sua vida. É claro que ela tinha de trabalhar duro, tanto em casa quanto no trabalho. O que eles diriam dela na loja quando descobrissem que ela havia fugido com um sujeito? Diriam que ela era uma tola, talvez; e sua vaga seria ocupada através dum anúncio. Senhora Gavan ficaria feliz. Ela sempre a incomodava, especialmente quando havia pessoas ouvindo. — Senhorita Hill, não vê que aquelas senhoras estão esperando? — Anime-se, Senhorita Hill, por favor.

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Ela não verteria muitas lágrimas por deixar a loja. Mas em sua nova casa, num distante país desconhecido, não seria deste jeito. Então ela se casaria — ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito, então. Ela não seria tratada como fora sua mãe. Mesmo agora, apesar de ter mais de dezenove anos, ela sentia-se, às vezes, ameaçada pela violência do pai. Ela sabia que era isto que lhe dava palpitações. Enquanto cresciam, ele nunca havia se voltado contra ela como costumava contra Harry e Ernest, porque ela era uma garota, mas recentemente ele havia começado a ameaçá-la e dizer o que faria com ela se não fosse pela mãe morta. E não havia ninguém para protegê-la. Ernest estava morto e Harry, que estava no ramo de decoração de igrejas, estava quase sempre em algum lugar no sul do país. Além disto, as invariáveis discussões por dinheiro aos sábados à noite havia começado a exauri-la indescritivelmente. Ela sempre entregava seu salário inteiro — sete

xelins — e Harry sempre mandava o que podia, mas o problema era conseguir algum dinheiro de seu pai. Ele dizia que ela desperdiçava o dinheiro, que ela não tinha miolos, que ele não daria a ela o dinheiro suado dela para esbanjar na rua, e muito mais, porque ele estava geralmente muito mal aos sábados à noite. No fim, ele lhe daria o dinheiro e perguntaria a ela se tinha alguma intenção de comprar o jantar do domingo. Então, ela tinha de correr o mais rápido que podia e fazer as compras, segurando com força na mão sua bolsa preta de couro, enquanto ela se acotovelava através da multidão e voltava para casa tarde sob sua carga de provisões. Ela trabalhava duro para manter a casa ajeitada e se certificar se as duas crianças pequenas que haviam sido deixadas a seu encargo iam à escola regularmente e se alimentavam regularmente. Era trabalho duro — uma vida dura —, mas, agora que ela estava prestes a abandoná-la, não lhe parecia de todo uma vida indesejável.

Ela estava prestes a explorar uma outra vida com Frank. Frank era muito gentil, másculo e amoroso. Ela iria embora com ele no barco da noite para ser sua esposa e viver com ele em Buenos Aires, onde ele tinha uma casa esperando por ela. Quão bem ela se lembrava da primeira vez que o vira; ele estava hospedado numa casa na rua principal que ela costumava visitar. Isto parecia ter sido semanas atrás. Ele estava parado no portão, seu chapéu pontudo pendendo para trás da cabeça e seu cabelo tombado para frente do rosto de bronze. Então, eles passaram a se conhecer um ao outro. Ele costumava encontrála fora da loja todas as noites e acompanhá-la até em casa. Ele a levou para assistir à “Garota Boêmia” e ela se sentiu elevada ao se sentar com ele numa parte do teatro na qual não estava acostumada. Ele era tremendamente atraído por música e cantava um pouco. As pessoas sabiam que eles namoravam e, quando ele cantava sobre a rapariga que amava um marujo, ela se sentia sempre agradavelmente

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confusa. Ele costumava chamá-la de Poppens de brincadeira. Inicialmente, foi uma comoção para ela ter um namorado e então ela começou a gostar dele. Ele contava histórias de países distantes. Ele havia começado como moço de convés por uma libra ao mês num navio da Allan Line indo para o Canadá. Ele lhe dizia os nomes dos navios nos quais esteve e os nomes dos diferentes serviços. Ele havia navegado pelo Estreito de Magalhães e contou a ela história dos terríveis patagônios. Ele fincou os pés em Buenos Aires, disse, e havia vindo ao velho país apenas para umas férias. É claro, o pai dela havia descoberto o romance e a proibiu até de falar com ele. — Eu conheço bem estes marujos, ele disse. Um dia, ele discutiu com Frank e, depois disto, ela tinha de encontrar seu amor em segredo. A noite se aprofundava na avenida. O branco das duas cartas em seu colo crescia indistintamente. Uma era para Harry; a outra era para seu pai. Ernest havia sido seu

favorito, mas ela também gostava de Harry. Ultimamente, ela percebeu que seu pai estava envelhecendo; ele sentiria falta dela. Às vezes, ele conseguia ser muito legal. Não muito tempo antes, quando ela ficou de cama por um dia, ele leu para ela uma história de fantasma e preparou uma torrada para ela no fogo. Outro dia, quando a mãe ainda vivia, todos eles haviam ido a um piquenique na Colina de Howth. Ela se lembrava de seu pai vestindo o boné de sua mãe para fazer a crianças rirem. O tempo dela estava se esvaindo, mas ela continuou sentada à janela, reclinando a cabeça contra a cortina da janela, inalando o odor de cretone empoeirada. De lá do fim da avenida ela podia ouvir um realejo tocando. Ela conhecia estes ares. Estranho que aparecesse exatamente nesta noite para relembrá-la da promessa feita à mãe, sua promessa de cuidar da casa o quanto pudesse. Ela se lembrou da última noite da doença de sua mãe; ela estava de novo no quarto escuro fechado

do outro lado da sala e ela ouvia o melancólico ar da Itália vindo de fora. Mandaram o tocador de realejo embora e deram a ele seis pence. Ela se lembrava do pai trotando de volta para o quarto da enferma dizendo: — Malditos italianos! Vindo até aqui! Enquanto ela refletia, a triste visão das condições de sua mãe lançou seu encanto sobre seu ser — aquela vida de sacrifícios medíocres encerrando-se numa sandice final. Ela tremeu ao ouvir novamente a voz de sua mãe dizendo constantemente com tola insistência: — Derevaun Seraun! Derevaun Seraun! Ela se levantou subitamente num impulso de terror. Fugir! Ela deveria fugir! Frank a salvaria. Ele lhe daria uma vida, talvez amor também. Mas ela queria viver. Por que ela deveria ser infeliz? Ela tinha o direito à felicidade. Frank a tomaria em seus braços, ele a envolveria em seus braços. Ele a salvaria.

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Ela estacou em meio à multidão serpenteante na estação de North Wall. Ele segurava sua mão e ela sabia que ele falava com ela, dizendo mais uma vez algo sobre a passagem. A estação estava cheia de soldados com malas marrons. Através das largas portas do barracão, ela capturou um vislumbre da massa negra do barco, jazendo para além do molhe, com iluminadas escotilhas. Ela não respondeu nada. Ela sentiu suas bochechas pálidas e frias, desde um labirinto de ansiedade, ela orou a Deus que a guiasse, que lhe mostrasse qual era sua obrigação. O navio soltou um longo silvo pesaroso em meio à névoa. Se ela partisse, amanhã estaria no mar com Frank, navegando

rumo a Buenos Aires. A passagem estava reservada. Ela poderia desistir depois de tudo que ele havia feito por ela? Sua angústia despertou uma náusea em seu corpo e ela continuou movendo seus lábios numa silenciosa oração fervorosa. Um sino ressoou dentro de seu coração. Ela sentiu ele segurar sua mão: — Venha! Todos os mares do mundo despencaram sobre seu coração. Ele a estava conduzindo em direção a eles: Ele a afogaria. Ela se agarrou com ambas as mãos na grade de ferro. — Venha! Não! Não! Não! Era im-

possível. Suas mãos cravadas no ferro em frenesi. Do interior dos mares ela emitiu um grito de angústia. — Eveline! Evvy! Ele avançou para além da barreira e a chamou para segui-lo. Gritaram para ele prosseguir, mas ele ainda a chamava. Ela lhe voltou o rosto branco, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não lhe davam nenhum sinal de amor, de despedida, ou reconhecimento.

Conto extraído da obra “Dublinenses”

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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James Augustine Aloysius Joyce (Dublin, 2 de Fevereiro de 1882 — Zurique, Suíça, 13 de Janeiro de 1941) foi um escritor irlandês expatriado. É amplamente considerado um dos autores de maior relevância do século XX. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Retrato do Artista Quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake

(1939) - o que se poderia considerar um “cânone joyceano”. Embora Joyce tenha vivido fora de seu país natal pela maior parte da vida adulta, suas experiências irlandesas são essenciais para sua obra e fornecem-lhe toda a ambientação e muito da temática. Seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Du-

blin e reflete sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade. Desta forma, ele é ao mesmo tempo um dos mais cosmopolitas e um dos mais particularistas dos autores modernistas de língua inglesa.

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Teoria Literária

FLuXo dE CoNSCiêNCia
a literatura dentro da mente
Henry Alfred Bugalho

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A Psicologia e suas ramificações influenciaram vários estratos da sociedade e da cultura, e encontraram um solo bastante fértil na Literatura. Imediatamente, os autores deste período de ebulição científica trouxeram para dentro de suas obras conceitos psicológicos e inverteram o eixo que predominava anteriormente, de eventos externos estimulando os personagens à ação para motivações internas compelindo-os a uma tomada de atitude. Raskolnikov e sua intensa vida mental são um grande exemplo desta apropriação; Dostoievski utiliza

A definição básica de William James é a seguinte:
O primeiro e mais importante fato concreto que cada um afirmará pertencer a sua experiência interior é o fato de que a consciência, de algum modo, flui. “Estados mentais” sucedem-se uns aos outros nela. Se pudéssemos dizer “pensa-se”, do mesmo modo que “chove” ou “venta”, estaríamos afirmando o fato da maneira mais simples e com o mínimo de pre-

William James foi o primeiro a utilizar o termo “fluxo de consciência” para definir o turbilhão contínuo de pensamentos superficiais. Posteriormente, o mesmo conceito foi utilizado pela literatura.

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http://faculty.frostburg.edu/mbradley/psyography/james.gif

Os mistérios da mente e dos pensamentos sempre despertaram a atenção dos sábios e filósofos, desde a Antiguidade grega e das primeiras investigações teóricas sobre o Homem e o Universo; no entanto, apenas durante os séculos XIX e XX a ciência se debruçaria, primeiro cautelosamente, depois com um fervor extraordinário, sobre as questões da Psicologia. É neste momento, na virada do século, que pesquisadores basilares como Wilhelm Wundt, William James, C. G. Jung e, principalmente, Sigmund Freud consolidaram suas carreiras e apontaram os rumos desta nova ciência que se engendrava.

com maestria o conhecimento científico de seu tempo para desenvolver um personagem psicologicamente complexo e intrigante, dividido entre a certeza de sua superioridade intelectual e moral e o jugo da medíocre vida comunal. Dostoievski foi, aliás, um dos primeiros autores a utilizar, ainda embrionariamente, o que ficaria conhecido como “fluxo de consciência”.

sunção. Como não podemos, devemos simplesmente dizer que o pensamento flui. (JAMES, William. The Stream of Consciousness. 1892)

as características do fluxo de consciência
O conceito de “fluxo de consciência” foi cunhado por William James e se referia ao turbilhão de pensamentos na mente consciente, isto é, toda a gama de impressões, sensações, raciocínios que se desenrolam superficialmente.

E William James ainda enumera quatro características deste fluxo mental: 1 – cada estado tende a ser parte duma consciência pessoal; 2 – dentro de cada consciência pessoal os estados estão sempre mudando; 3 – cada consciência individual é sensivelmente contínua e 4 – é interessada em algumas partes de seu objeto em detrimento de outras, e acolhe ou rejeita – escolhe-os, numa palavra – o tempo todo.

A grosso modo, o que se propõe é que a consciência está em constante mutação, ininterruptamente, concentrando-se sobre determinadas impressões e sensações, enquanto ignorando outras. A primeira aplicação óbvia na Literatura é através dum narrador em primeira pessoa, que expõe seus pensamentos e vivências numa sequência contínua e abrupta, alternando seu foco de acordo com a corrente mental.

a revolução joyceana
Poucos autores enfeixaram tanto as propriedades do mundo moderno quanto James Joyce. Este autor irlandês, que viveu grande parte de sua vida no exílio, introduziu na Literatura um novo universo de possibilidades estéticas, temáticas e linguísticas, digerindo a tradição e abrindo as portas para toda uma geração futura, que encontraria em Joyce a inspiração para inovar. E o grande diferencial de Joyce foi justamente a apropriação do “fluxo de consciência” como técnica narrativa, que também ficaria conhecido como “monólogo interior”, quando
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os pensamentos do personagem são apresentados, de maneira ilógica, ao contrário do solilóquio, quando um personagem expõe oral e logicamente suas reflexões. Na antologia de contos “Dublinenses”, James Joyce realizou os primeiros experimentos com esta forma, mas ainda com timidez. Mas foi em seu primeiro romance, “Retrato do artista quando jovem”, que narra a juventude de Stephen Dedalus e seu processo de ruptura com a Igreja Católica e com o provincianismo dublinense, que Joyce realmente desenvolveu a sua técnica de “fluxo de consciência”, cujo ápice se deu no romance “Ulisses”, publicado em 1922. Numa espécie de releitura do enredo da “Odisseia” de Homero, “Ulisses” é a história do anti-herói Leopold Bloom, que vaga pelas ruas de Dublin atormentado pela suspeita de que sua esposa o trai, mas sem coragem para tomar atitude. Nesta obra, James Joyce apela para vários recursos narrativos, desde o monólogo interior, passando por um narrador onisciente em terceira pessoa, até à estrutura dramatúrgica. O autor transita por estes

vários registros estilísticos, eliminando os limites do gênero romanesco, e também une a fala da rua e dos bares ao mais sofisticado discurso teórico. “Ulisses” tenta abarcar a totalidade do mundo através da linguagem, e isto passa necessariamente pela dissecação da mente dos personagens. Três momentos antológicos do romance são também três grandes monólogos interiores, ou “fluxos de consciência”: o primeiro deles ocorre no terceiro capítulo e se passa na mente de Stephen Dedalus (o mesmo personagem de “Retrato do artista quando jovem”); o segundo deles no quarto capítulo, no qual Leopold Bloom é mostrado em sua vida cotidiana, despertando e saindo para comprar o café-da-manhã; e o terceiro deles é o gigantesco monólogo interior, sem sinais de pontuação e com pouquíssimos parágrafos, que encerra o livro e se trata dos pensamentos da esposa de Leopold, Molly Bloom. O biógrafo Richard Ellmann, em seu livro “James Joyce”, afirma que o desenvolvimento da técnica joyceana de “fluxo de consciência” ocorreu acidentalmente. Joyce era professor

Oposto e acima: o autor irlandês James Joyce foi um dos mais revolucionários e influentes escritores do século XX. Suas obras, especialmente o romance “Ulisses”, são marcos do modernismo europeu.

“Inelutável modalidade do visível: pelo menos isto, se não mais, pensado através de meus olhos. Assinatura de todas as coisas cá estou para ler, engendrado ou destroçado pelo mar, marés se achegando, aquela bota corroída. Verde-ranho, azul-prateada, ferrugem: sinais coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: em corpos. Então ele estava ciente de seus corpos coloridos diante deles. Como? Ao bater com seu crânio neles, com certeza. Vá com calma. Ele era careca e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se você puder pôr cinco dedos através, é um portão, senão é uma porta. Feche seus olhos e veja.” Excerto de “Ulisses”, James Joyce.

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Outros fluxos de consciência
Paralela e simultaneamente a Joyce, vários outros autores também mergulhavam neste turbilhão interior das psiques de seus personagens, fossem eles influenciados pelos trabalhos de Freud, Jung ou Henri Bergson. Na França, o grande expoente foi Marcel Proust e sua monumental obra “Em Busca do Tempo Perdido”, dispersa em vários volumes e relatando, de maneira bastante pessoal e autobiográfica, as rememorações do narrador, Marcel, desde a infância até à idade adulta. Na Inglaterra, Virginia Woolf experimentava novas formas narrativas através de enredos cotidianos ambientados nos círculos da

alta classe média britânica. Enquanto que, nos EUA, o fluxo de consciência apareceria nos trabalhos de Faulkner e T. S. Eliot. O impacto desta técnica narrativa foi avassalador. Ela se disseminou entre os autores das gerações seguintes, perpassando todo o movimento modernista da década de 20 e chegando até aos nossos dias, acolhida pelos arautos da pós-modernidade. A lista de autores que namoraram “o fluxo de consciência” é imensa: Albert Camus, Hermann Hesse, Salinger, Samuel
Topo à esquerda: William Faulkner.. Abaixo à esquerda: Marcel Proust, autor da gigantesca obra “Em Busca do Tempo Perdido”. Abaixo: Virginia Woolf.

de inglês em Trieste, na Itália, e um de seus alunos, o também escritor Italo Svevo, tinha dificuldade para pontuar suas redações em inglês, escrevendo assim um texto contínuo. Joyce teria achado engraçada esta peculiaridade, mas logo percebeu as implicações literárias duma estrutura como esta, adotando-a em sua escrita quase imediatamente.

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“Pareço conhecer nos menores detalhes essa nordestina, pois se vivo com ela. E com muito adivinhei a seu respeito, ela se me grudou na pele qual melado pegajoso ou lama negra. Quando eu era menino li a história de um velho que estava com medo de atravessar um rio. E foi quando apareceu um homem jovem que também queria passar para a outra margem. O velho aproveitou e disse: – Me leva também? Eu bem montado nos teus ombros?

O moço consentiu e passada a travessia avisou-lhe: – Já chegamos, agora pode descer. Mas aí o velho respondeu muito sonso e sabido. – Ah, essa não! É tão bom estar aqui montado como estou que nunca mais vou sair de você! Pois a datilógrafa não quer sair dos meus ombros. Logo eu que constato que a pobreza é feia e promíscua. Por isso não sei se minha história vai ser – ser o quê? Não sei de nada, para citarmos alguns, dentre inúmeros autores contemporâneos, que se munem deste mergulho ao íntimo do ser humano para expressar o assombro dum sujeito cindido, desorientado, esmagado pela rapidez da era digital.

ainda não me animei a escrevêla. Terá acontecimentos? Terá. Mas quais? Também não sei. Não estou tentando criar em vós uma expectativa aflita e voraz: é que realmente não sei o que me espera, tenho um personagem buliçoso nas mãos e que me escapa a cada instante querendo que eu o recupere.” Excerto de “A Hora da Estrela”, Clarice Lispector.

Beckett (herdeiro direto de Joyce), William Burroughs e vários outros autores da geração beatnik, Milan Kundera, Julio Cortázar e alguns outros escritores do Boom latino-americano. O Brasil também possui os seus representantes, como Clarice Lispector, Paulo Leminski, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa,

Para saber mais:
- ELLMANN, Richard, James Joyce. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1989. - JAMES, William, The Stream of Consciousness. 1892. http://psychclassics.yorku. ca/James/jimmy11.htm - JOYCE, James, Dubliners. New York: Dover Thrifts Editions, 1991. — Portrait of the artist as a young man. New York: Penguin Books, 1982. — Ulysses. New York: Random House, 1946. - Wikipédia: stream of consciousness http://en.wikipedia.org/wiki/ Stream_of_consciousness_ (narrative_mode)

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Teoria Literária

para escrever mistérios
Maristela Scheuer Deves

Algumas pistas

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Embora tenham por muito tempo sido tratados como subliteratura ou como um gênero menor, os livros policiais ultrapassaram esse preconceito e garantiram seu lugar entre os mais vendidos no mundo todo. Mesmo abominando o crime na vida real, o ser humano encontra prazer em ler obras que mostram assassinatos e outros delitos, bem como o esforço de alguém (policial, detetive particular ou mesmo uma pessoa comum) para solucioná-lo. O que atrai o leitor para o livro policial, no entanto, não é somente essa luta entre o bem (representado pelo detetive) e o mal (representado pelo assassino), e sim a forma como essa batalha é narrada. O suspense é fundamental nesse gênero literário e é ele que vai prender o leitor da primeira à última página, sem conseguir dormir antes de saber o final. Mas como esse suspense é construído? O que fazer para prender a atenção do leitor dessa forma? Embora não existam receitas prontas ou garantidas para escrever um romance policial que prenderá o leitor, vários escritores e estudiosos já tentaram estabelecer regras básicas para quem quer se aventurar no gênero. Fran-

çois Fosca, citado por Paulo de Medeiros e Albuquerque na obra O mundo emocionante do romance policial (Francisco Alves Editora, 1979), listou seis delas, que teriam sido aplicadas pelo escritor Edgar Allan Poe, o pai do romance policial: - O caso apresentado é um mistério aparentemente inexplicável. - Uma personagem, ou várias, simultânea e sucessivamente, é considerada erradamente culpada porque os indícios superficiais parecem indicá-lo. - Minuciosa observação dos fatos, materiais e psicológicos, após o depoimento das testemunhas e, acima de tudo, um rigoroso método de raciocínio triunfam sobre as teorias apriorísticas e apressadas; o analista não adivinha, ele raciocina e observa. - A solução que concorda perfeitamente com os fatos é totalmente imprevista. - Quanto mais um caso parece extraordinário, tanto ele é mais fácil de resolver. - Eliminadas todas as impossibilidades, o que resta, se bem que incrível à primeira vista, é a solução justa. Outro autor que publicou um conjunto de regras para se escrever mistério

O autor americano Edgar Allan Poe é considerado o pai do gênero policial moderno, graças a contos como “Os Assassinatos da Rua Morgue”, “A Carta Roubada” e “O Mistério de Marie Rogêt”, protagonizados pelo detetive Auguste Dupin.

http://www.flickr.com/photos/sgw/2742947532/sizes/o/

foi Willard Huntington Wright, mais conhecido como S. S. Van Dine. Para Albuquerque, “algumas dessas regras são válidas; outras, positivamente acacianas; e algumas até mesmo ridículas”. Mesmo assim, vale citar a introdução a elas escrita por Van Dine e reproduzida por Albuquerque: “A história policial é uma espécie de torneio intelectual. Mais do que isso, é um torneio esportivo. E o autor tem de comportar-se corretamente com o leitor. Não pode recorrer a truques e escamoteações sem comprometer a sua sinceridade, assim como

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não pode usar tapeação num jogo de cartas. Tem de superar intelectualmente o leitor e prender o interesse do mesmo usando seu engenho. Existem leis definidas na feitura de entrechos policiais; leis que não foram escritas, talvez, mas ainda assim imperativas, e todo autor de mistérios literários atende a essas leis.” A seguir ele lista 20 leis para o gênero, que, segundo ele, seriam baseadas na prática dos grandes autores. Entre elas, as que se destacam são que o leitor deve ter a mesma oportunidade do detetive, com todas as pistas claramente descritas, e que o culpado deve ser encontrado por meio de deduções lógicas e não por confissão, coincidência ou acidente. Ele também condena as soluções não naturais, como reuniões espiritualistas ou dispositivos fictícios, como o assassinato da vítima por um veneno desconhecido, ou a imputação do crime a um criminoso profissional, a exemplo de um assaltante. Um dos conselhos que mais se aproxima do ideal e que resume inúmeras outras regras talvez seja esse de Nardejac: “é necessário que os enigmas propostos ao detetive sejam, ao mesmo tempo, verdadeiras provas. As situações dramáticas deverão, por conseguinte, ser numerosas e bem con-

duzidas”. Uma outra regra nãooficial mas praticamente institucionalizada entre quem escreve mistério é que o crime em torno do qual se desenvolve a trama deve ser algo com o qual as pessoas se importem, usualmente um homicídio. Ou, como disse Van Dine: “É necessário que haja um cadáver na novela de detetives, e quanto mais defunto esse cadáver, melhor. Afinal, o trabalho que tem o leitor precisa ser recompensado. Os leitores são criaturas humanas e, portanto, um assassinato desperta neles o sentimento de vingança e horror. Desejam levar o assassino à justiça, e com isso se inicia a perseguição com todo o entusiasmo.” Uma vez cometido o crime, seja ele assassinato ou não, entra em cena outro elemento imprescindível, o detetive. Nesse ponto, deverá ser tomada uma das primeiras decisões importantes do escritor de mistério: quem será o seu detetive. Um policial? Um detetive profissional? Um semi-profissional, como um advogado ou um jornalista? Ou um outro personagem qualquer, uma pessoa comum que irá se confrontar com o crime e tentará resolvê-lo?

Cada um tem suas vantagens, entretanto a opção por um investigador que não é profissional tem para o leitor um atrativo a mais – parecer-se com ele. Prova disso é o sucesso de um dos personagens criados pela Rainha do Mistério, Agatha Christie: sua inesquecível Miss Marple é uma solteirona que mora numa cidade pequena e que sempre acaba solucionando crimes e enigmas complicados. Outro fator a ser considerado na escolha do detetive ideal para a história é o público para o qual se escreve. Se em uma obra voltada a adultos a identificação com o protagonista já exerce papel importante na hora de cativar o leitor, isso é ainda mais verdadeiro quando se trata do leitor jovem. Afinal, qual o adolescente que não gosta de ler sobre outros jovens da sua idade envolvidos em aventuras, investigando crimes e solucionando mistérios? Tão importantes quanto o detetive, talvez, são os suspeitos. Eles são todos que podem ter um motivo para cometer o crime, seja esse motivo financeiro, passional ou outro qualquer. Com o desenvolvimento da trama e o surgimento de pistas, novos suspeitos vão sendo acrescentados, enquanto ou-

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tros saem dessa condição. No livro “Prelúdio para matar”, considerado sua obra-prima, a escritora britânica Ngaio Marsh usa esse recurso com maestria. Detetives e leitores desconfiam ora de um, ora de outro personagem. A vítima é uma pessoa, mas acredita-se que o alvo poderia ter sido outra; como alguns envolvidos no caso teriam motivo para matar uma delas e outros, para matar a outra, cria-se um clima de tensão, que aumenta a curiosidade do leitor para saber quem foi, afinal, o perpetrador do assassinato. Essa curiosidade, que faz o leitor virar páginas e mais páginas sem conseguir parar de ler, é um sinônimo do procurado suspense. Para fazer o leitor desconfiar de um ou de outro personagem e mantê-lo preso ao livro até ao final, é preciso fazer uso de pistas. Essas pistas não são apenas elementos concretos, como objetos deixados no local do crime ou pegadas ao lado do corpo da vítima. Podem ser palavras, diálogos, situações. São elas que vão guiar o trabalho do detetive, e também o do leitor, que estará concorrendo com esse detetive (e com o autor) para tentar descobrir o culpado antes da última página.

As pistas podem ser verdadeiras ou falsas (red herrings). Essas pistas falsas podem ser plantadas pelo próprio criminoso ou por algum outro personagem que tenha algo a esconder,

Agatha Christie, a Primeira Dama do Mistério, é uma das mais influentes autoras do gênero e elaborou enredos geniais, muitas vezes recorrendo a certos recursos narrativos para ludibriar o leitor e surpreendê-lo no desfecho.

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ou ainda serem fatos que, mesmo parecendo suspeitos, nada têm a ver com o crime. Isso fará o detetive (e o leitor) ir por determinado tempo para o lado errado, suspeitando de alguém que não tem nada a ver com o crime, até outra pista leválo de volta ao rumo certo. Da mesma forma, algumas pistas devem estar totalmente visíveis para os leitores e para o investigador que é o protagonista da trama, enquanto outras devem estar escondidas em meio a outros fatos ou objetos. O importante, destacam estudiosos e escritores do gênero, é jogar limpo com os leitores, proporcionando a eles as mesmas informações a que o detetive da história tem acesso (embora alguns escritores, como Agatha Christie, por vezes escondam pistas que só são reveladas no final). Outra visão defendida por vários autores é que o desenlace da história deverá se dar a partir das pistas. O autor não deve recorrer a uma saída fácil que se apresenta miraculosamente para solucionar o mistério. Se a solução não vier através das pistas e do trabalho intelectual do detetive, o leitor se sentirá traído, enganado. Como disse Van Dine: “O culpado deve ser encontrado mediante deduções lógicas e

não por acidente, coincidência ou confissão. Solucionar um problema criminal desse modo é como mandar o leitor numa empreitada inútil”. É novamente o conceito de jogar limpo com os leitores, que, dessa forma, têm as mesmas condições do investigador ficcional de descobrir o culpado a partir das pistas que vão sendo apresentadas. Voltando à orientação de Van Dine reproduzida por Albuquerque: “A verdade do problema deve estar à vista, em todos os momentos – desde que o leitor seja arguto o bastante para percebê-la. Com isso quero dizer que se o leitor, depois de tomar conhecimento da explicação para o crime, voltar a ler o livro, perceberá que a solução de certo modo estivera bem clara, que as pistas realmente indicavam o culpado. E que, se tivesse sido tão perspicaz quanto o detetive, poderia ele próprio ter solucionado o mistério antes do último capítulo. Se a história de detetive for legitimamente construída, será impossível manter a solução afastada de todos os leitores antes das páginas finais. Existirá, de modo inevitável, certo número de leitores tão argutos quanto o autor, que poderão, mediante análise, eliminação e raciocínio lógico, indicar o culpado

assim que o detetive o fizer. E aí temos o sabor do torneio.” Paralelamente às pistas, outro elemento é necessário para fazer o leitor desconfiar de um ou de outro personagem e, principalmente, para mantê-lo interessado na história: pontos de virada no decorrer da trama. Como foi dito anteriormente, se o detetive seguir sempre em uma direção, o livro terminará (ou perderá a graça) logo nos primeiros capítulos. Para que ocorra essa virada, um ponto é básico: fazer algo acontecer. Esse fato novo pode ser um outro crime (talvez até mesmo do suspeito), uma nova pista que aponta para uma direção totalmente nova, etc. Outra tática consagrada e usada pela maioria dos autores de romances policiais é encerrar os capítulos com um algo novo, uma informação instigante que fará o leitor começar o capítulo seguinte imediatamente para saber o que vai acontecer. A leitura, no entanto, não pode ser uma contínua tensão. É preciso saber dosar os picos de suspense com momentos em que o clima é aliviado. Isso pode ser feito por meio de tramas paralelas, mostrando outras partes da vida do detetive-protagonista: traba-

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lho, namoro ou até mesmo problemas comuns, como um vizinho chato. Além de todos esses elementos inerentes à história, tão essencial quanto ter uma boa trama para contar é como ela é contada. A escolha da palavra exata é importantíssima para garantir o efeito desejado, ensina Francine Prose em Para ler como um escritor (tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, Jorge Zahar Editor). Por isso, vale reler o texto com atenção, pesando palavras, frases e até mesmo capítulos enquanto se pergunta: era isso mesmo que eu queria dizer? Teria outra palavra, outro verbo, outro adjetivo que poderia exprimir melhor esse momento da trama? Da mesma forma, detalhes por vezes considerados insignificantes podem ser tornar muito importantes para dar verossimilhança e credibilidade à história. “São os detalhes que nos convencem de que alguém está falando a verdade – todo bom mentiroso sabe disso (...) E que alívio é quando um detalhe nos assegura que um escritor está no controle e não caçoa de nós”, diz Prose. Ela cita, para ilustrar, pequenos pontos que tornam mais crível a situação de Gregor Samsa em “Metamorfose”, de Franz Kafka:

uma gravura na parede, roupa espalhada pelo quarto, etc. Acreditando nessas pequenas insignificâncias, salienta, passa-se a também “acreditar” na transformação de Samsa em inseto. Vale lembrar que, no romance policial, é ainda mais importante essa confiança do leitor no autor, essa sensação de “poderia ser verdade”. Para finalizar, uma dica sempre citada em oficinas literárias e que talvez resuma tudo o mais que foi dito aqui: ao sentar-se para escrever seu conto ou romance de mistério, pense no que você gostaria de ler. Recorde seus autores prediletos no gênero, tanto os que são considerados mestres quanto outros menos conhecidos mas que o agradam, e tente precisar o que exatamente torna seus textos interessantes, bem escritos e repletos de suspense. Você terá, então, tudo o que é preciso para dar início à sua história de mistério. O resto só depende de você...

Sherlock Holmes é sem dúvida o personagem símbolo do processo dedutivo de investigação. Criado por Sir Arthur Conan Doyle, Holmes e seu parceiro Dr. Watson já pertencem ao imaginário coletivo.

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Teoria Literária

A poética do Poema Blavino
Juliana Ruas Blasina & Volmar Camargo Junior

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Em um papo madrugado e MSNico entre Jú (Juliana Ruas Blasina) e V (Volmar Camargo Junior.) nasceu o blavino. Discutíamos sobre a possibilidade de criar um poema que fosse sugestivo tanto em sua composição textual quanto na sua aparência gráfica, concreta, sobre a folha. Juliana tinha em mente uma “pirâmide” construída por 13 versos, mas não conseguia concretizar sua divisão em estrofes de modo a alcançar a forma esperada. Após o debate, eis que surgiu a ideia de um modelo que contemplasse as seguintes características: - número de estrofes: 7 - número de versos: 13, distribuídos a partir dessa sequência: 1-2-3-1-3-2-1 - tamanho dos versos: o objetivo é que o poema comece e termine com uma palavra, crescendo até ao verso-estrofe central e maior (7) e decrescendo até ao último. Resultando assim numa aparência piramidal, triangular, ou em seta – sempre alinhado, à esquerda ou à direita (nunca central), conforme a preferência do autor. - decidimos que o “blavino clássico” corresponderia somente às três regras anteriores. O “blavino heróico”, adicionalmente, deve ter como verso central um decassílabo heróico: 10 (6-10) [dez sílabas, acentuando-se a 6ª e a 10ª]. - uma regra adicional seria a de que o “blavino perfeito” seria aquele que pode ser lido na ordem direta e na ordem inversa perfeitamente. - uma variação, criada pela Marcia Szajnbok – que também aderiu ao blavino, é o formato “abismo” (ou “abissal”), cujo verso central, ao contrário da forma padrão, é composto por uma única palavra (assim como ocorre nos versos 1 e 13). Assim, por exemplo, seria um blavino

clássico:

Fugaz
(Juliana Blasina)
Tão Frágil E fugaz Que quebra Ao menor toque, E sem razão se desfaz A beleza que mora em mim Embalada neste corpo É invisível ao olhar Estranho, procuro Resquícios do que ainda Sou

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Já um blavino heróico – ou uma tentativa de - seria algo como este:

[conforma-te]
(Volmar Camargo Junior)
conforma-te ei-la, como pediste, a praia longa e branca basta de ritos funerários

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basta de tormentas marinhas basta de esperar ser consumido conforma-te, é o fim da vida no mar sente, o sol aqui é mesmo o sol o chão caminha com o vento e a paisagem, por si, muda a praia longa e branca ei-la, como pediste conforma-te

Um blavino abissal seria assim:

cat on a hot tin roof
(Marcia Szajnbok)
luzes teus olhos que brilham de mar e de estrelas percorrem-me a pele me buscam, me despem fico um pouco escondida à espreita, à espera do gesto, da vinda do bote da fera faminta

participantes da comunidade Estúdio de Criação Poética, onde foi apresentado. Deste grupo, já produziram blavinos Beatriz Moura, Caio Rudá, Carlos Barros, Marcia Szajnbok, José do Espírito Santo, Renata de Aragão Lopes e Taty Nascimento. Nesta edição da SAMIZDAT é possível encontrar alguns exemplos de blavinos, publicados por Juliana, Volmar e José do Espírito Santo. E, até ao final da edição, talvez haja mais alguns. E se você que está lendo, gosta de escrever poemas e tiver gostado do blavino, sinta-se à vontade. Sirva-se! O blavino está aí, para quem quiser desfrutálo. Apenas gostaríamos que os interessados entrassem em contato conosco aqui na SAMIZDAT, mostrassem seus poemas, para que, quem sabe, esse formato se torne algo tão interessante – e grande! – como o poetrix e o indriso. Para mais informações sobre as criaturas e os criadores, visite: Um resto de café frio (Volmar Camargo Junior): http://restodecafefrio.blogspot.com/ P+2T: Poesia + dois tantos (Juliana Ruas Blasina): http://jublasina.blogspot.com/ Estúdio de Criação Poética http://estudiocriacaopoetica.blogspot.com/

Algo que é digno de nota é que, em pouco tempo, este formato ganhou adesão por parte de vários poetas, notadamente os

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Crônica

Volmar Camargo Junior

um moNtE dE PaPEL
Exame de gravidez “positivo”, exame pré-natal, baixa hospitalar, prontuário médico, teste do pezinho, certidão de nascimento, carteira de vacinas, matrícula escolar, boletim escolar (um a cada dois meses durante onze anos), carteira de identidade, carteira de trabalho, cadastro de pessoa física, título eleitoral, certificado de curso de informática, certificado de curso de datilografia (sim, sim... no meu tempo se fazia isso...), histórico escolar, inscrição para o vestibular, vestibular, divulgação do resultado do vestibular, matrícula na universidade, alistamento militar, certificado de dispensa do serviço militar (excesso de contingente), renovação da matrícula na universidade (4), contrato de financiamento estudantil, contrato de trabalho, contrato de estágio na universidade, caderno do cartório civil como testemunha de casamento, inscrição para concurso público, inscrição para segundo concurso público, certificados de participação em cursos (dezenas), encerramento de contrato de trabalho, encerramento de estágio na universidade, diploma universitário, contrato de trabalho para professor em escola municipal, contrato de trabalho para professor em escola estadual, outro contrato de trabalho para professor em escola municipal, primeiros contracheques com um salário decente, folhas de chamada de dezenas de turmas de alunos, cartãoponto, ata de reunião com professores, ata de reunião com pais de alunos, telegrama “você está sendo convocado para avaliação médica e psicológica referente ao segundo concurso público”, bateria de exames, pedido de demissão de todos os cargos de professor (champanha e foguetes!), contrato de experiência, contrato de trabalho por tempo indeterminado, pedidos de transferência de lotação, efetivação de transferência de lotação, certidão de casamento, contrato de hipoteca de imóvel, novo pedido de transferência de lotação, efetivação de transferência de lotação, contrato de locação de imóvel (outro, não o primeiro), inscrição em segundo vestibular, aprovação em segundo vestibular, matrícula em segunda universidade, mas desta vez, tudo pelo computador. Desistência da vaga na segunda universidade, com firma reconhecida, enviada para o centro de registro acadêmico, por correspondência registrada com confirmação de entrega.

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Crônica

Maristela Scheuer Deves

obama matou a mosca
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, matou uma mosca. E daí? Daí que a imagem desse gesto tão simples e corriqueiro (quem nunca matou, ou ao menos nunca tentou matar, um desses insetos tão inoportunos?) correu o mundo, virou notícia. Notícia lida, comentada e obrigatória em todas as TVs, sites, jornais, rodas de conversa com os amigos... Pois é. Nada contra falar da mosca do Obama, eu também falei, e aqui estou escrevendo sobre ela. Confesso que achei engraçadinho até, quando vi a “notícia” sobre isso na TV ao , meio-dia desta quarta-feira. Jornalista que sou, pensei logo que o tema realmente rendia uma materinha ou nota curiosa - afinal, Obama é nada mais, nada menos do que o homem mais poderoso do planeta, e demonstrou uma pontaria certeira ao liquidar com o inseto. No entanto, o que me assusta é pensar que esse gesto comum e natural, do qual o presidente talvez já tenha até esquecido passadas algumas horas, possa vir a ser outro campeão de

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http://meaningfuldistractions.files.wordpress.com/2008/07/barack_obama_on_the_primary.jpg

acessos na sites de vídeos na internet. Não se trata, repito, de condenar essa curiosidade simples que nos faz querer ver cenas engraçadas ou inusitadas de vez em quando. O que eu estranho é por que essa mesma curiosidade não se repete, na maioria dos casos, quando o que está em pauta são assuntos ditos mais “sérios”. Ou alguém aqui acredita que o pacote que o mesmo Obama anunciou nesta mesma quarta-feira, o maior dos EUA desde os anos 1930, terá o mesmo índice de leitura que a mosca? Da mesma forma, outros assuntos que nós - e por “nós” quero dizer os jornalistas, mas também os intelectuais ou membros de uma camada supostamente detentora de maior conhecimento e cultura - julgamos imprescindíveis muitas vezes são solenemente ignorados pelo público leitor ou telespectador. Que prefere saber quem o ator tal está namorando, quando começam as inscrições para o próximo BBB, quem fez mais gols na rodada de futebol da semana ou simplesmente quem foi que morreu (sim, os obituários continuam figurando entre as seções mais lidas dos jornais, batendo muitas vezes

manchetes de economia e política). Ou que Obama, aquele cara do qual se falou tanto quando se elegeu presidente ano passado e que cada pouco está lá no jornal, matou uma mosca. Isso se repete também na internet, basta ver o que tem mais leitura em sites e blogs. Um exemplo apenas: textos nos quais apareçam, mesmo que incidentalmente, palavras ligadas ao sexo costumam ter índice de leitura várias vezes maior do que outros, mesmo que não sejam tão bem escritos. O que concluir disso tudo? Que o “povo”, esse ente ao qual pertencemos, mas do qual muitas vezes nos excluímos, está errado? Que só se deve falar de coisas mais sisudas? Ou talvez que devemos deslanchar de vez para o circo pedido pela maioria? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Creio que devemos ter, sim, as duas coisas, o”importante” e o inusitado. Devemos publicar, e ler, uma e outra. Afinal, gostos não se discutem, e a vida é feita tanto de momentos sérios quanto de momentos de riso (que graça teria sem eles?). O que não deveria ocorrer, apenas, é usar as mi-

lhões de opções de coisas “interessantes” que existem por aí como desculpa para não ler ou ver outras coisas que talvez não sejam tão engraçadas ou curiosas ou excitantes, mas que influenciam no nosso dia a dia (como a política ou a economia). Se você leu este texto até aqui, independente de como chegou até ele, sugiro apenas que reflita sobre esse assunto. Não deixe de ver o vídeo do Obama matando a mosca, eu também vi e gostei, mas tire um tempinho para ler também sobre a crise mundial ou sobre a situação política da sua cidade. Você vai descobrir que isso pode ser igualmente muito interessante.

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cidade adormecida
Caio Rudá de Oliveira

Crônica de uma

Crônica

Nasce o dia e acordamos, não porque o sono já nos bastou, mas pelas obrigações diárias.

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É quando a cidade dorme que consigo pensar. Quando acordada, é o capitão-do-mato que nos mantém na linha conforme a vontade do senhor; não tolera atraso, desculpas ou ineficiência, e está atenta, regendo uma vida compulsória.

Desempenhamos nossas funções e esquecemos de todo o resto. Eis o viver. Para nos tirar da rotina, nada como uma insônia inesperada. Levanto, vou à janela, tomo emprestado um pouco de ar, agora menos carregado de poluição, e sento em frente à TV - monótona programação aberta. Vou à cozinha, bebo um suco e volto a deitar. Já não

sei se é insônia ou calor. Dessa vez um leite quente com chocolate, enquanto olho uns blogues sem sal. Por fim, uma passada na janela. A avenida lá na frente, vazia. Não é a mesma das horas de sol. Um carro ou outro percorre o asfalto cansado, insone como eu. Tento advinhar para onde vai uma hora dessas. Talvez já esteja retornando. De

todo modo, ambas as alternativas não me dizem respeito. Olho a passarela em que fui assaltado há alguns dias. Agora parece ser um lugar seguro. Mas só parece. Escondido em algum lugar que eu, nem a possível vítima, possamos ver deve estar o bandido, como o que levou meu celular. Ofício de assaltante - hora extra ociosa. E bandido lá sabe o que é ócio? Os pontos de ônibus estão desertos, diferentes dos formigueiros que são durante o dia. Não é o caso dos que vejo, mas algum em outro canto da cidade pode servir de abrigo para um mendigo. Abrigo contra o quê? Nem contra os perigos da madrugada, nem contra o frio. Talvez contra a chuva, porém não chove hoje. Os prédios vizinhos dormem. Sequer uma janela acesa, o que me faz pensar que sou o único acordado da cidade. Isso é falso. Há os motoristas que passam maltratando o asfalto, o assaltante à espreita não se sabe onde e o mendigo que dorme por aí. E há também meu companheiro de apartamento que se levantou agora. Foram os meus

pensamentos? Ele passa, mudo com se ainda dormisse, e vai à cozinha. Também não puxo papo. Esse sou eu, também calado, não dado a conversas desnecessárias. É por isso que respeito o silêncio alheio. Sei o quanto é importante. E aí me dou conta de que pode ter sido a TV dele ligada que tenha colaborado com minha insônia. A princípio sinto raiva, que se esvai. Não fosse ele, ainda que involuntariamente, eu não estaria aqui, pensando, vendo a cidade adormecida. Os capitães-domato também dormem. E enquanto o fazem eu sou livre. Livre para ver, sentir, pensar, perceber cada detalhe de uma paisagem tão costumeira, porém surpreendente. O sol se aproxima. Eu posso vê-lo, não em seus primeiros raios, mas nas luzes que começam a iluminar cômodos nos prédios ao lado, na fumaça da padaria que começa a subir, no caminhão de lixo e seu barulho característico. É quando ouço os capitães vestirem suas roupas e empunharem suas armas. Daqui a pouco eles estarão atentos, colocando-nos nos eixos. Tudo bem. Hoje eu tive minha pequena alforria.

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Crônica

Henry Alfred Bugalho

o quE VoCê quEr SEr

quaNdo CrESCEr?
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Eu pensava muito sobre o que queria ser quando eu crescesse. Afinal de contas, esta é a pergunta que todo adulto faz às crianças; como se nosso destino já tivesse de estar traçado desde sempre. Meu primeiro desejo era que eu pudesse fazer algo que gostasse, que nunca me entediasse, que apresentasse desafios, que fosse instigante. No entanto, não poderia ser trabalho pesado, nada braçal, nada estafante. Assim como para muitos, o trabalho ideal era aquele que pagasse bem e que exigisse pouco esforço. Tirando os projetos absurdos (absurdos hoje, pois à época eram bastante plausíveis), como bombeiro, piloto de caça, astronauta, francoatirador, jogador de videogame profissional, havia uma sensação interior de que, em qualquer ramo que eu seguisse, sempre estaria ligado às artes. Eu até que desenhava bem, mas não bem o bastante; aprendi piano, mas também sem vestígios de genialidade ou talento extraordinário; apenas a escrita parecia estar presente o tempo todo, mesmo que paralelamente, sutilmente. Meu herói da infância era o Indiana Jones, por isto, por um bom tempo também almejei ser arqueólogo. Quando descobri que a realidade da profissão estava

bem longe das aventuras em ruínas, enfrentando nazistas ou povos exóticos, sem tumbas remanescentes de faraós para serem descobertas, o encanto diminuiu, e me enveredei por outro tipo de arqueologia, talvez aquilo que Foucault chamaria de “arqueologia do saber”, a Filosofia. Formei-me, só que não me via naquela profissão que aspirava quando criança. Tornar-me professor não era uma questão de escolha, era a única saída para a minha formação. Ou eu fazia isto, ou ficaria desempregado. Todavia, a vida é cheia de surpresas e tudo pode mudar a qualquer instante. Tudo mudou... “O que eu queria ser quando eu crescesse?”, esta é a pergunta que me fiz hoje, ao terminar de assistir ao programa “Profissão Repórter” na Globo. A candidata que conseguiu ocupar uma das vagas para o programa, ao responder qual era o sonho dela, disse: “fazer, na semana que vem, exatamente isto que estou fazendo hoje”. E não é o que todos nós sonhamos? Encontrar algo na vida que gostaríamos de fazer todos os dias de nossas vidas? Encontrarmos a profissão perfeita para nós, ou a companheira pra toda a vida, a casa do sonhos, a viagem de nossos projetos?

Não nasci para ser bombeiro, nem astronauta, nem sequer arqueólogo como o meu herói de outrora; descobri que o quero fazer por toda a minha a vida era aquilo que estava de lado, tão natural, tão comum, tão instrumental: escrever. Não me tornei o que queria, mas faço justamente aquilo que sei que gostaria de continuar fazendo sempre; não é dinheiro fácil, mas não é trabalho braçal; sem reconhecimento instantâneo, mas tão essencial que, para mim, é impossível me pensar sem exercê-lo. Entre a criança que fui e o homem que sou há anos e separação; somos muito diferentes, com projetos e sonhos diferentes, mas tenho certeza de que o eu-criança se orgulharia de mim agora. E correndo o risco de imitar os maus cronistas ou filósofos, que adoram acabar um texto com uma interrogação para forçar o leitor à reflexão, também lhe pergunto: “E você? O que queria ser quando crescesse? Você-criança teria orgulho de você-adulto? Você faz hoje o que gostaria de fazer amanhã?” Se a resposta for não, não se desespere, nem tudo está perdido... A vida pode mudar a qualquer instante. Às vezes, muda até sem querermos.

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Poesia

dois blavinos
José Espírito Santo

um
Olhar Sussurrar o espaço Ventar rodopiante na mostra de gota Soltar razão, ir de feição em vida que não é Segredo, talvez, dizer-te tempos chegados que partem Ilusória mão definição, e depois está feito - há quem diga sentir... Fruindo Solto desvario, oco o eco, “multidão” que cai embriagante De sons, o tic-tac aberto, a certidão em bater fechado Nada mais é... “mapa-mundi” que se mostra Apenas apertar em mim para sentir horizontes de te ver Ficando

dois
Escreveste Palavras e frases Angústias, lampejos, ausência Pensaste Mar, pensaste Terra Imaginaste-nos uma história com chorar de chuva Definiste-me, deste-me, amiúde, mil planos objectivos Sentiste Um tão menos em continuidade de ausência próxima Um riscar de pensamento no centro-momento Dois vagabundos. Voltar para não ficar Correste, esqueceste, tropeçaste em contradição Deitaste fora todas as páginas e folhas Vivendo

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SAMIZDAT julho de 2009

José Espírito Santo

Desencanta-me a superfície polida do dia, a lembrança vazia, o verbo, o passivo sujeito Não encontro substantivo em jeito Ir de compasso, marcar o passo, ir como quem despe o fa(c)to no acto, ao correr da vida, no espaçar solto dos ritmos, como quem vê e não se sabe de ser... O tempo nada me diz Desencanto-me Imperfeito motivo, Cima-abaixo, não me sou No sim, no não, até no tão, igual normal misteriosa periferia vou, não me acho Desencanto-me feito sem jeito substantivo... Vazia a procura Muda a promessa Na pressa, o mundo é círculo de gritos Desencanto-me O tempo passa a troçar, em baile de redemoinhos, em vórtices de iue saem campos e rios e palavras e pessoas

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desencanto

Poesia

Laboratório Poético:

o PoEma BLaViNo
Volmar Camargo Junior

Colheita
sedutora de invulgar e irresistível beleza planta rara de raizes rotas que dá frutos que não se dão que não matam por seu veneno frutos somente, nenhuma semente colhe-se só iracunda e vil joga ao chão os pomos ignora aos vermes pobres coitados a si apodrece e autodevora conforma-te, é o fim da vida no mar sente, o sol aqui é mesmo o sol o chão caminha com o vento e a paisagem, por si, muda a praia longa e branca ei-la, como pediste conforma-te 84 84 SAMIZDAT julho de 2009 ei-la, como pediste, a praia longa e branca basta de ritos funerários basta de tormentas marinhas basta de esperar ser consumido

[conforma-te]
conforma-te

Siesta
deixo que chegue tenra e morna e que seu hálito tenro dos sonhos dos sonhos morno seja o ritmo de hoje que em meu peito e meus ombros e meus braços desarmônica acomode-se durma
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Poesia

antessala
Quero estar no vão do teu olhar, no intervalo da tua fala, na tua inspiração, quero ser tua antessala. Quero ser teu ato falho e estar no inconsciente. Não quero ser o que você pensa e sim o que você sente.

Mariana Valle
Natural

Não quero ser teu objetivo, tua missão, finalidade, quero me impregnar em tua veia e ser pra sempre tua verdade.

A noite cai. O sol se vai. A chuva molha e a folha chora o orvalho da noite. As flores morrem e o vento corre, varrendo a terra e o caminho. Eu, sozinho ainda choro, mas não imploro por sua volta. Eu sei que o fim é natural.

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Cena do crime
Ainda sinto teus dedos deslizando na minha pele e tua voz ecoando em meus ouvidos. Nas minhas roupas, o teu cheiro, na minha boca, o teu mel. Tuas palavras se repetem na minha mente e no i-Pod ainda tocam as músicas que você gravou pra mim. Os copos na pia continuam rubros, com os restos do nosso vinho, e o cheiro da pizza ainda invade minhas narinas. A cama está desfeita e a banheira continua molhada, e eu tenho a nítida impressão de que você vai me abraçar a qualquer momento. Mas estou totalmente enganada. Você já se foi há muito tempo. E eu ainda não consegui desfazer a cena do crime.

O barulho da água
Enquanto a água escorre e a mágoa percorre meu corpo, eu não escuto. O mundo segue no mute. O tempo passa na surdina.
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Eu me entupo de luto e derramo minha sina. E assim, alagada em minha lágrima, cai a chuva, chora a água, a dor transborda e me enxágua, e eu me inundo de mim. Até o fim.

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Poesia

o LaGo
As estrelas vêm se entapetar na superfície são gotas brancas n’água negra reluzentes, lindas eu as toco com a ponta dos dedos e engelece meu corpo Caminho pelo água de mãos dadas com um vulto vou e venho no farfalhar da maré canto o amor a noite, o lago me renovam O lago cochicha em meus ouvidos me mostra tudo sou uma parte dele ele parte de mim entrelaçados, partimos somos um vivendo noutro.

Guilherme Rodrigues

Perto de onde moro Há um lago Nado, mergulho vejo sentimentos coisas escondidas emaranhados e a água turva Vejo a mim um garoto jovem que pouco sabe mas sonha grandiosas Feliz, se devaneia e vive intensamente Ora enegrece e pela água turva surge flutuando um velho é a própria morte - doentia traz consigo a Tristeza e o redor desseca eu também, me encolho e choro

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Poesia

Fale Frei Cappio, fale a Vida
Dênis Moura

Fala a teia da vida, a alma do Planeta, Fala a alma do Nordestino, a cada fala do Frei. Enquanto fala o olho egoísta, dos papéis investidos Do lucro rápido e fácil à cegueira dos malefícios, A Grande imprensa paga pelos anúncios financistas, pelos dinheiros malditos. Assim segue Canudos sua sina em plena “Democracia” Sem que haja, no entanto, Democracia Plena Em papéis invertidos, quando a vontade do povo, Nas mãos de “representantes”, nunca lhe vira lei. Sendo sempre o povão quem paga, vaga e pena, Enquanto a gana de uma minoria se lhe impõe como um rei. Entre o egoísmo e a coletividade, O individualismo e a solidariedade, Quem ganhará a eterna Guerra, Do bem contra a maldade, do ter mais que o Ser, Do consumir/exaurir contra o (con)(sobre)viver? Que fale a voz do povo explorado em Frei Cappio, Beto e Bofff, Em Sabatella, Comparato, Casaldaliga e Zé Celso, Reverberando em vozes sem fim Como reverberaram as vozes de Gandhi, Cristo, Zumbi, Conselheiro e do grande Martin Luther King.
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OBS: Poesia publicada no contexto da greve de fome de Frei Cappio contra a Transposição do Rio São Francisco que segue irrigando ainda mais as terras dos latifundiários e passam a largo do semi-árido do povo pobre e sofrido, filhos, netos e bisnetos do Arraial de Canudos.

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SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa
Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. henrybugalho@gmail.com www.maosdevaca.com

SOBRE OS AUTORES DA

Henry Alfred Bugalho

Revisão
Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas “Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Léo Borges

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Assessoria de imprensa
Por um amor não correspondido, a carioca de Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o papel com erotismo. E também com seu choro. Em reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade. Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi na TV Globo onde aprimorou as técnicas de redação e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro e outras divulgadas nos links listados em seu blog pessoal: www.marianavalle.com

mariana Valle

Coordenação de Entrevista
Inconformado com a própria inaptidão para dizer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de parte de suas horas diárias de sono, tentando domar a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambular pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa, fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por um cenário natural de extrema beleza – Canela, na Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descendente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indígenas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio, é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo, torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

Volmar Camargo Junior

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SAMIZDAT julho de 2009 SAMIZDAT julho de 2009

Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera um dia entender o ser humano. Enquanto isso não acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enigma da existência. Não tem livro publicado, prêmio, reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

Caio Rudá

Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro “Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das negativas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo escritor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

Barbara Duffles

Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde sempre, artista plástico formado, escritor. Começou sua vida profissional como educador e, desde então, já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagógicos – experiências que têm forte influência sobre seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilustração para crianças, estuda pós-graduação em História da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com http://desnome.blogspot.com

Carlos Barros

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Colaboração

Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a democracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

dênis moura

Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

Giselle Sato

Estudante de Letras na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, onde sempre morou. Nutre grande paixão por Línguas, Literatura e Lingüística, áreas a que se dedica cada vez mais.

Guilherme Rodrigues

Informático com licenciatura e pós graduação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha há largos anos em formação e consultoria, sendo especialista em Bases de Dados, Sistemas de Gestão Transaccional e Middleware de “Messaging”. A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (contos) e “Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a família em Alverca, uma pequena cidade um pouco a 94 94 SAMIZDAT maio de 2009 SAMIZDAT julho de 2009 norte de Lisboa, Portugal. 94

José Espírito Santo

episcopum@hotmail.com

Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar a vida em números (idade, peso, altura, salário). Não se julga muito sã e coleciona papéis - alguns afirmam que é bióloga, mestre em fisiologia animal e etc, mas ela os nega dizendo-se escritora e ponto final. Disso não resta dúvida, mas como nem sempre uma palavra sincera basta, voltou à faculdade como estudante de letras, de onde obterá mais papéis para aumentar a sua pilha. É cronista do Caderno Mulher (Jornal Agora - Rio Grande - RS), mantém atualizado seu blog “P+ 2 T” e participa de fóruns e oficinas virtuais, além de projetos secretos sustentados à base de chocolate e vinho, nas madrugadas da vida.

Jú Blasina

Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, trabalha como psiquiatra e psicanalista. Apaixonada por literatura e línguas estrangeiras, lê sempre que pode e brinca de escrever de vez em quando. Paulistana convicta, vive desde sempre em São Paulo.

marcia Szajnbok

Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, começou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu a ler. Escreve principalmente contos nos gêneros mistério, suspense e terror, além de crônicas.

maristela deves

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Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa.

Joaquim Bispo

Também nesta edição, textos de
Barbara Duffles Caio Rudá Carlos alberto Barros dênis moura
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José Espírito Santo Jú Blasina Léo Borges marcia Szajnbok mariana Valle maristela Scheuer deves Volmar Camargo Junior

Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo

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SAMIZDAT julho de 2009

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