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Os Melhores Poemas

Mário Quintana

Pela própria natureza de sua obra, qualquer antologia que se faça de Mário Quintana resulta duas
antologias: a do que foi incluído e a do que não foi incluído. Não há necessidade sequer de estabelecer uma
ordem de preferência, uma direção de leitura. O próprio poeta, na antologia de 1981, eliminou a cronologia
dos poemas. A obra de Mário Quintana é um todo indivisível.
Essa obra é bastante peculiar por sua estreita unidade, cada poema é um fragmento do poema
geral que Mário Quintana veio compondo ao longo de toda a sua vida. Dos sonetos de "A Rua dos
Cataventos".
Muitos dos pequenos poemas em prosa ou verso de Quintana, isolados, pouco significam além de
uma distração lúdica, um jogo sutil de percepção das coisas e dos seres. Mas dentro de sua obra, lado a
lado com outras páginas, eles se iluminam - o borrifo irisado da cachoeira vai juntar-se às águas profundas
que correm para o estuário de sua poesia.
Uma antologia de Mário Quintana dificilmente podia deixar de fora todos ou quase todos os sonetos
de seu memorável livro de estréia, "A Rua dos Cataventos", ao qual ele ficou devendo sua instantânea
popularidade. O tempo se encarregou de provar que esses sonetos, longe de refletirem um retarde na
adoção de novos postulados estéticos, mostravam um tratamento novo dessa forma fixa, tornando-a mais
fluida, mais dúctil, mais aberta. O Soneto deixava de ser forma, era um poema liberto das varas rituais.
Outro livro cuja inclusão seria quase obrigatória é o pequenino " O Aprendiz de Feiticeiro". Há
uma admiração muito grande, até uma paixão, talvez, por esse livro, que passou tanto tempo despercebido
da crítica quando de seu lançamento em 1950 (hoje é uma raridade da qual ninguém se desfaz nem a peso
de ouro).
Um terceiro livro de Mário Quintana que é indispensável a quem deseje penetrar no mundo
fascinante de sua obra é o das "Canções", publicado em 1946.
A verdade é que, sob o campo visual da poesia de Mário Quintana, se esconde uma teia infinita de
raízes, um entrançado de sentidos, duplos sentidos, alusões, elipses, subentendidos, um código vivencial
de cuja tradução o poeta é o único a possuir a chave. E sua aparente simplicidade formal, aos olhos de
leitores mais atentos, encobre uma extraordinária riqueza de recursos poéticos, de sutilezas verbais, de
soluções rítmicas e rímicas; revela-se, também, o conhecimento por parte do poeta, das grandes fontes da
poesia universal.
A "Antologia Poética" apresentou mais um importante aspecto: a inclusão dos "Novos Poemas". Em
1976, o poeta voltaria a incluir esses poemas na coletânea "Apontamentos de História Sobrenatural",
dando assim organicidade a sua obra.
Esta antologia - Melhores Poemas - não obedece, a exemplo do próprio poeta, à ordem cronológica
dos poemas, misturando os livros. A idéia era, inicialmente, dividir a antologia segundo uma subjetiva ordem
temática: o poeta fala da poesia, fala do amor e da morte, o poeta lembra a infância, vê a paisagem, o poeta
sorri, o poeta canta... A intenção original foi diluída para evitar o artificialismo numa obra alheia, ou pior, o
didatismo. Procurou-se, no entanto, exemplificar o elegíaco, o lírico, o descritivo, a prosa, o chiste, a
recordação, a saudade. Tudo em Quintana é tão bom que o leitor pode lê-lo em qualquer sentido,
indiferente à numeração das páginas.
Um lirismo quase puro como o de Mário Quintana é raro em nossa poesia moderna. Ele soube
manter-se fiel ao seu gênio poético, a sua vocação lírica, quando tantos em torno dele se esgotavam em
caminhos equivocados. Autêntico, elaborado e musical, ele tornou-se o que é, não só um dos maiores
poetas brasileiros, como também um dos grandes líricos contemporâneos - irmão inteiro dessa família que
se faz compreender em qualquer tempo e em qualquer língua.
Mário Quintana é conhecido como poeta da ternura. Os temas simples e singelos eram refinados
ainda mais sob a pena lírica poeta. Ler Quintana é como ouvir canções ao fundo sob crepúsculo.
Os temas freqüentes de Quintana são: valorização da imaginação, o sonho, a fantasia, o
devaneio, o encanto, o misticismo, a humanidade, a existência, o carinho, o aconchego, a pureza, a
canção e o mundo infantil (escapismo da realidade).
Outra musa inspiradora de Quintana será a própria Poesia. E a Metalinguagem recitará versos sob a voz do
grande poeta Mário Quintana.

Comentários sobre os livros da Antologia

A rua dos cataventos

Sua estréia em livro, como poeta, só ocorre em 1940, com a publicação de A rua dos cataventos,
contendo apenas sonetos, são 35 ao todo.
Lembremos aqui que soneto é uma forma poética fixa, sempre com quatro estrofes, sendo as duas
primeiras com quatro versos e as duas últimas com três versos. Por essa característica, o soneto não foi
muito cultivado pelos modernistas, admiradores do verso livre. Quintana reabilitou, pode-se dizer assim, o
soneto neste volume de poemas. O conjunto poético do livro mostra um poeta com lembranças da infância,
com olhar para uma rua imaginária, olhar este varia entre a ironia e a melancolia.
A poesia de Quintana é a humanidade posta em verso. Daí seu humor não apresentar o traço
racional, intelectualizado, mas aproximar-se de uma visão chapliniana do mundo, não distanciada da que
teria o homem comum.
Em permanente estado poético Quintana parece não escolher assunto: todos lhe servem, tudo o que existe
é poético na sua percepção feiticeira.. Ao fazer poesia como quem respira, Quintana não se situa, como
poeta, acima dos demais ou fora do mundo. Ao contrário, sendo um entre outros (Eu nada entendo da
questão social./ Eu faço parte dela, simplesmente...), como dirá, ele se dilui no contexto geral. Assim, o
social, em Quintana, não está designado pelo poema: é o poema. Leiamos, nesse sentido, o soneto IV, de
A rua dos cataventos, em seu final:

Pra que viver assim num outro plano?


Entremos no bulício cotidiano...
O ritmo da rua nos convida.

Vem! Vamos cair na multidão!


Não é poesia socialista...Não.
Meu pobre Anjo...É...simplesmente...a Vida!..

A poesia de Mario Quintana, desde o aparecimento de A rua dos cataventos em 1940, não cede ao
gosto da época. Em meio ao versilibrismo dominante, herança ainda dos modernistas de 1922, os 35
sonetos rimados que compõem seu primeiro livro testemunham que o poeta já está à procura de uma
expressão própria, comprometido apenas com ele mesmo.
Poeta urbano, desde o início, Quintana movimenta-se nas pequenas ruas da cidade,
surpreendendo-as na inquietação do dia ou no silêncio da noite. Como um habitat natural, as ruas são o
cenário privilegiado dos primeiros versos. Com freqüência ele a chama de ruazinha, empregando o
diminutivo para expressar afetividade. Já ao final do soneto II ela ganha o valor que terá ao longo de toda a
obra:

O vento está dormindo na calçada,


O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha...Não há nada...

Só os meus passos. Mas tão leves são


Que até parecem, pela madrugada,
Os de minha futura assombração...?

Esta imagem inaugural é a mesma que reincide no último soneto do conjunto, o XXXV, sintetizando
a visão da rua como território eleito, lugar ameno:
Deixai-me em paz na minha quieta rua...

A apropriação desse espaço, no poema, está a indicar a inclinação do poeta para reproduzir um
universo particular, em íntima consonância com seu interior.É nesse sentido que se pode ler ainda a
descrição de uma cidadezinha, no soneto XXIII, como desejo manifesto de circunscrever um espaço
reduzido de eleição, um vago País de Trebizonda, sua Pasárgada:
Lá toda a vida poder morar!
Cidadezinha...Tão pequenina
Que cabe toda num só olhar...
A redução de mundo se exprime ainda no movimento em círculo, representado pela ciranda?, cuja
reiteração no obra como ronda, dança de roda ou catavento, repercute no ritmo obtido também pelo efeito
das repetições, simples ou anafóricas, e o emprego do tempo verbal:
Dali a três quadras o mundo acabava.

Dali a três quadras, num valo profundo...


Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo.

A expressão da subjetividade vai fundir-se, assim, nas formas que a cristalizam, manifestando-se
ainda na qualidade da percepção que é sobretudo impressionista, ao adotar uma postura contemplativa e
uma atitude estética na escolha dos processos de representação.
Por outro lado, se adota a forma fixa do soneto, também não se submete a padrões rígidos em seu
emprego. Mesmo que nas primeiras composições predominem os versos decassílabos, esses se combinam
com outros de distinta medida e acento, criando a variedade no interior dos poemas. Assim, os sonetos
apenas obedecem a disposição formal da convenção e adotam esquema rímico tradicional, permitindo-se
uma série de liberdades.

Poemas
A Rua dos Cataventos ( I )

Escrevo diante da janela aberta.


Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas


Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…

Jogos da luz dançando na folhagem!


Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…


E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!

A Rua dos Cataventos - II

Dorme, ruazinha... E tudo escuro...


E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...


Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,


O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são


Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...

A Rua dos Cataventos - X

Eu faço versos como os saltimbancos


Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos


Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

"Meu Deus! Mas tu não tu não mudas o programa!"


Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
"Que tédio!" o coro dos Amigos clama.

"Mas que vos dar de novo e de imprevisto?"


Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:
"Eu sei chorar... eu sei sofrer... Só isto!"

A Rua dos Cataventos - XVII

Da vez primeira em que me assassinaram,


Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou


O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!


Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Canções

Seu segundo livro de poemas, 'Canções', é lançado em 1946. O salto decisivo que Quintana
empreende nesse livro, em termos formais, consiste na utilização do verso livre e na ampla gama de
poemas escritos em verso branco, ou seja, com métrica mas sem rima.
Boa parte desse influxo advém da poesia modernista, com a qual Quintana, em certo sentido, afina
sua escrita. Outra mudança que se observa nesse livro é de ordem temática: a inspiração popular.

Poemas
Canção da Primavera

Primavera cruza o rio


Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,


Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham


Por sobre os muros florido!

Canção do Suicida

De repente, não sei como


Me atirei no contracéu.
À tona d’água ficou
Ficou dançando o chapéu.
E entre cascos afundados,
Entre anênomas azuis,
Minha boca foi beber
Na taça do Rei de tule.

Só minh’alma aqui ficou


Debruçada na amurada,
Olhando os barcos… os barcos!…
Que vão fugindo do cais.

O Aprendiz de Feiticeiro

Considerado pelo público e pela crítica, a obra-prima de Mário Quintana, O Aprendiz de Feiticeiro,
publicado em 1950, mostra a maturidade poética do autor. Uma simples plaquete, mas de grande
repercussão, onde afloram poesias impregnadas de antíteses e paradoxos.
"A lição da poesia ultrapassa o projeto do simples desvelar e esclarecer o mistério do mundo e dos
homens. Guarda sempre intacto um ângulo indecifrável que oculta e com o qual recomeça a lúdica
aprendizagem simbólica da face escondida com que, feiticeiro, o poeta nos atrai e onde nos deixamos
prazeirosamente enclausurar", escreveu Maria Luiza Berwanger da Silva sobre a obra.
Em O aprendiz de feiticeiro, Mário Quintana mantém a visão surreal em poemas de versos livres;
neles a imagética do autor adquire uma feição hermética, exibindo estranhas visões oníricas, e mais uma
vez configura-se o princípio segundo o qual a sua poesia, não obstante pareça nascer de algum lugar
remoto, longínquo, origina-se daqui mesmo, sobretudo quando procura fazer do estranho o familiar, do
distante o próximo.

Textos escolhidos

I. O POEMA

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.


Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

II. OBSESSÃO DO MAR OCEANO

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...


Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto, Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Espelho Mágico

Publicado em 1951, conjunto de ''' quadras ou quartetos em que à filosofia da vida e da arte se
mesclam notas de humor e ceticismo, é pobremente representada nas antologias de Quintana, inclusive
nesta. Várias dessas páginas, sobretudo as mais amargas e as mais pitorescas - inevitável predileção do
público - correm hoje o Brasil anonimamente, o que é uma forma de incorporação à alma e à sabedoria
popular.

Poemas

Do sabor das coisas

Por mais raro que seja,


Ou mais antigo,
Só um vinho é deveras exelentre:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho
E silencioso amigo...
Da amizade entre as mulheres

Dizem-se amigas... Beijam-se... Mas qual!


Haverá quem nisso creia!
Salvo se uma das duas, por sinal,
For muito velha, ou muito feia...

Apontamentos de História Sobrenatural

É o primeiro livro de poemas de Mário Quintana, nascido em Alegrete, RS, e radicado em Porto
Alegre, viveu entre 1906 a 1994. Coletânea de poemas em que Quintana canta desde sentimentos e
aspectos corriqueiros do dia-a-dia até personalidades como Greta Garbo.
Sobre o livro Apontamentos de História Sobrenatural, diz Quintana:
Eis o meu primeiro livro cujos poemas saem mais ou menos na sua ordem cronológica. Porque
antes se reuniam numa ordem lógica: sonetos com seus companheiros de lirismo um tanto boêmio,
canções com suas irmãs de dança, quartetos filosofando uns com os outros, diante da seriedade que se
presume existir num simpósio, poemas em prosa proseando sobre isto ou aquilo, poemas oníricos com
suas perigosas magias de aprendizes de feiticeiros.

Elegia

Há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas...
Uma velhinha sozinha numa gare.
Um sapato preto perdido do seu par: símbolo
da mais absoluta viuvez.
As recordações das solteironas.
Essas gravatas
De um mau-gosto tocante
Que nos dão as velhas tias.
As velhas tias.
Um novo parente que se descobre.
A palavra "quincúncio".
Esses pensamentos que nos chegam de súbito nas ocasiões mais
........................................................................[impróprias.
Um cachorro anônimo que resolve ir seguindo a gente pela madru-
......................................................[gada na cidade deserta.
Este poema, este pobre poema
Sem fim...
POEMA OLHANDO UM MURO
Do
escuro do meu quarto
- imóvel como um felino, espio
a lagartixa imóvel sobre o muro: mal sabe ela
da sua presença ornamental, daquele
verde
intenso
na lividez mortal
da pedra... ah, nem sei eu também o que procuro, há tanto...
nesta minha eterna espreita!
Pertenço acaso à raça dos mutantes?
Ou
sou, talvez
- em meio às espantosas aparências de algum mundo estranho -
um espião que houvesse esquecido seu código, a sua sigla, tudo...
- menos
a gravidade da sua missão!

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos


colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
Baú de espantos

Com Baú de espantos, Mario Quintana revisita sua infância e a própria poesia, buscando a
valorização da experiência do cotidiano. A obra foi publicada em 1986, quando o poeta completou 80 anos.
Não foi sem razão que o próprio Mário Quintana denominasse este livros como Baú de Espantos,
pois confessou também se espantar com o que havia dentro dele. Como escreveu Affonso Romano, ele vai
dizendo coisas líricas e terríveis como essa.
Os poemas contidos no livro são o resultado de uma criteriosa seleção, procurando abranger todas
as fases da produção do poeta e fornecer uma visão abrangente de sua obra. Entre eles estão alguns de
seus versos mais conhecidos, aqueles que caíram no gosto dos leitores e se difundiram de boca em boca.
Poemas como "As mãos de meu pai", "Bucólica", "Dorme ruazinha", "Surpresas" e "Vidas" estão entre eles
e me parecem alguns dos altos momentos do poeta. Os poemas foram colhidos em diversos livros do autor.
A obra tem 99 poemas até aquela data inéditos, havendo inclusive escritos de sua juventude, como
o poema "Maria", de 1923, quando ele tinha 27 anos, o que confere ao livro uma estrutura de rigorosa
montagem e um caráter especial.
Pertencente à segunda geração do Modernismo, Mário Quintana incorporou em sua poesia o bom-
humor, o coloquialismo e a brevidade característicos das vanguardas modernas.
Quase todos os poemas desta coletânea são breves e em versos livres, mas há sonetos (alguns
com métrica e rima) e mesmo poemas em quadras com versos heptassílabos e rimados.

Poemas escolhidos

1. OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho


Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

2. OS ARROIOS

Os arroios são rios guris...


Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...

3. VIVER

Quem nunca quis morrer


Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janelas
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!

4. O VELHO POETA

Um dia o meu cavalo voltará sozinho


E assumindo
Sem saber
A minha própria imagem e semelhança
Ele virá ler
Como sempre
Neste mesmo café
O nosso jornal de cada dia
- inteiramente alheio ao murmurar das gentes...Publicidade
Esconderijos do Tempo

É considerado um livro de maturidade do autor. Publicado em 1980, quando Quintana contava


setenta e quatro anos de idade, o lançamento do livro foi marcado pela concessão à Mario Quintana do
Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra literária. O volume, que contém cinqüenta poemas
breves, quase todos escritos em versos livres ou em forma de prosa poética, mostra-se também um livro de
maturidade por trazer como temas centrais as reflexões do poeta sobre a velhice, a morte, o fazer poético e,
sobretudo, a memória – questões de natural interesse para um escritor que trazia então em si o
conhecimento e a vivência de toda uma longa vida dedicada à literatura.
Um dos traços marcantes de “Esconderijos do Tempo” é a coloquialidade de sua linguagem –
aparentemente um estratagema do poeta para tornar seus poemas ainda mais próximos do que seriam
verdadeiros diálogos com o leitor ao colocar textualmente traços característicos da oralidade. Os poemas
reunidos nessa obra também se mostram ricos em imagens, aparentemente comuns, por meio das quais
Quintana buscava construir o sentido maior de seus textos – mas o uso de objetos de fácil identificação é,
talvez, um dos trunfos da poesia de Mário Quintana que a tornaram amplamente divulgada entre os leitores
de poesia no Brasil.

Poemas

O poeta canta a si mesmo

O poeta canta a si mesmo


porque nele é que os olhos das amadas
têm esse brilho a um tempo inocente e perverso...

O poeta canta a si mesmo


porque num seu único verso
pende - lúcida, amarga -
uma gota fugida a esse mar incessante do tempo...

Porque o seu coração é uma porta batendo


a todos os ventos do universo.

Porque além de si mesmo ele não sabe nada


ou que Deus por nascer está tentando agora ansiosamente respirar
neste seu pobre ritmo disperso!

O poeta canta a si mesmo


porque de si mesmo é diverso.
A canção da vida

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Preparativos de viagem

Um dos charmes particulares deste volume, além de ser uma coletânea organizada pelo autor, é ser
uma edição dupla: cada poema aparece também em fac-símile do manuscrito. Tratando-se do tema que se
trata, isto adquire um significado especial. Pois a “viagem” de Quintana é, na maior parte dos poemas do
livro, metafórica: é a grande viagem, a viagem que se dá através do tempo (quando não é, é a pequena
viagem pelas ruas da cidade). Os “preparativos” para ela são, portanto, a própria vida.
Essa grande viagem temporal é então tratada, como seria de acontecer em Quintana, em diferentes
tons, modos e formas, do poema curtíssimo ao mais extenso, da forma rimada ao verso livre, do tom irônico
ao meditativo, da abordagem visual à emocional. E mesmo sutilmente erótica, como, por exemplo, no tão
belo quanto pequeno “A adolescente”: “Arvorezinha crescendo... / crescendo... / crescendo... / Até brotarem
dois pomos!”.
Mario Quintana é filho do modernismo de 22. Daí seu coloquialismo, sua variedade formal, sua
ironia, sua urbanidade. Mas ele é um filho rebelde ao menos num aspecto: ao eliminar o ceticismo que
marca o movimento. Quintana é um poeta que crê na poesia, que tem na palavra poética uma amiga e uma
aliada. Essa aliança, ele a transmite ao seu público. Não há asperezas em Quintana. Sua suavidade, no
entanto, é temperada por certa esperteza, por certa lucidez, que logra unir o suave ao profundo sem ceder
ao mau-humor. Seus muitos leitores, encantados, agradecem, e o acompanham na viagem.

Poemas

A louca agitação das vésperas de partida!


Com a algazarra das crianças
[ atrapalhando tudo
E a gente esquecendo o que devia trazer,
Trazendo coisas que deviam ficar...
Mas é que as coisas também querem partir,
As coisas também querem chegar
A qualquer parte! - desde que não seja
Este eterno mesmo lugar...
(...)
Só existe no mundo esta grande novidade:
VIAJAR!

POEMINHA SENTIMENTAL

O meu amor, o meu amor, Maria


É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

A cor do invisível

Publicado em 1989. O título surpreende o leitor pelo inusitado da afirmação, que associa dois
termos contraditórios. O conjunto de poemas também o surpreende pela vitalidade da poesia do autor.
É um dos títulos mais felizes do autor, sintetizando sua concepção de poesia e ideal de visibilidade.
O livro recolhe 72 poemas, geralmente breves e em versos livres. Há também diversos haikais, algumas
trovas, novas versões de poemas anteriores, e mesmo um soneto incomum, todo constituído com versos de
uma só sílaba. Na mesma linha de concisão, que sempre caracterizou Quintana, alguns poemas –
minimalistas - são de um único verso, a modo de sentença ou máxima, em busca de uma pequena filosofia
para o cotidiano. Curiosamente, o poeta incluiu quatro poemas com as datas em que foram escritos, todos
muito antigos e que permaneciam inéditos, sendo o mais antigo um soneto de 1923, quando ele contava
com apenas dezesseis anos.
O livro concentra o que identifica o poeta: versos curtos, por vezes uma única frase, alguns sonetos,
poemas longos que contam uma história, algumas trovas ao gosto popular, o traço irônico, a expressão
terna, a reflexão permanente sobre o poema e seu fazer literário.

Poemas

Umbigo

O teu querido umbiguinho,


Doce ninho do meu beijo
Capital do meu desejo,
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo,
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!

Ah! Os relógios

Amigos, não consultem os relógios


quando um dia em for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais um necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:


não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna


somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados


quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...
Eu Escrevi um Poema Triste

Eu escrevi um poema triste


E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Biografia de Mário Quintana

Mario de Miranda Quintana nasceu na cidade de Alegrete (RS), no dia 30 de julho de 1906, quarto
filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e de D. Virgínia de Miranda Quintana. Com 7 anos,
auxiliado pelos pais, aprende a ler tendo como cartilha o jornal Correio do Povo. Seus pais ensinam-lhe,
também, rudimentos de francês. No ano de 1914 inicia seus estudos na Escola Elementar Mista de Dona
Mimi Contino.

Em 1915, ainda em Alegrete, freqüentou a escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, onde
conclui o curso primário. Nessa época trabalhou na farmácia da família. Foi matriculado no Colégio Militar
de Porto Alegre, em regime de internato, no ano de 1919. Começa a produzir seus primeiros trabalhos, que
são publicados na revista Hyloea, órgão da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do Colégio.
Por motivos de saúde, em 1924 deixa o Colégio Militar. Emprega-se na Livraria do Globo, onde
trabalha por três meses com Mansueto Bernardi. A Livraria era uma editora de renome nacional.
No ano seguinte, 1925, retorna a Alegrete e passa a trabalhar na farmácia de seu pai. No ano seguinte sua
mãe falece. Seu conto, A Sétima Personagem, é premiado em concurso promovido pelo jornal Diário de
Notícias, de Porto Alegre.

O pai de Quintana falece em 1927. A revista Para Todos, do Rio de Janeiro, publica um poema de
sua autoria, por iniciativa do cronista Álvaro Moreyra, diretor da citada publicação.

Em 1929, começa a trabalhar na redação do diário O Estado do Rio Grande, que era dirigida por
Raul Pilla. No ano seguinte a Revista do Globo e o Correio do Povo publicam seus poemas.

Vem, em 1930, por seis meses, para o Rio de Janeiro, entusiasmado com a revolução liderada por
Getúlio Vargas, também gaúcho, como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre.
Volta a Porto Alegre, em 1931, e à redação de O Estado do Rio Grande.

O ano de 1934 marca a primeira publicação de uma tradução de sua autoria: Palavras e Sangue,
de Giovanni Papini. Começa a traduzir para a Editora Globo obras de diversos escritores estrangeiros: Fred
Marsyat, Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini,
Maupassant, dentre outros. O poeta deu uma imensa colaboração para que obras como o denso Em Busca
do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust, fossem lidas pelos brasileiros que não dominavam a língua
francesa.

Retorna à Livraria do Globo, onde trabalha sob a direção de Érico Veríssimo, em 1936.

Em 1939, Monteiro Lobato lê doze quartetos de Quintana na revista lbirapuitan, de Alegrete, e


escreve-lhe encomendando um livro. Com o título Espelho Mágico o livro vem a ser publicado em 1951,
pela Editora Globo.

A primeira edição de seu livro A Rua dos Cataventos, é lançada em 1940 pela Editora Globo.
Obtém ótima repercussão e seus sonetos passam a figurar em livros escolares e antologias.

Em 1943, começa a publicar o Do Caderno H, espaço diário na Revista Província de São Pedro.

Canções, seu segundo livro de poemas, é lançado em 1946 pela Editora Globo. O livro traz
ilustrações de Noêmia.

Lança, em 1948, Sapato Florido, poesia e prosa, também editado pela Globo. Nesse mesmo ano é
publicado O Batalhão de Letras, pela mesma editora.

Seu quinto livro, O Aprendiz de Feiticeiro, versos, de 1950, é uma modesta plaquete que, no
entanto, obtém grande repercussão nos meios literários. Foi publicado pela Editora Fronteira, de Porto
Alegre.

Em 1951 é publicado, pela Editora Globo, o livro Espelho Mágico, uma coleção de quartetos, que
trazia na orelha comentários de Monteiro Lobato.

Com seu ingresso no Correio do Povo, em 1953, reinicia a publicação de sua coluna diária Do
Caderno H (até 1967). Publica, também, Inéditos e Esparsos, pela Editora Cadernos de Extremo Sul -
Alegrete (RS).

Em 1962, sob o título Poesias, reúne em um só volume seus livros A Rua dos Cataventos,
Canções, Sapato Florido, espelho Mágico e O Aprendiz de Feiticeiro, tendo a primeira edição, pela Globo,
sido patrocinada pela Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul.

Com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, é publicada sua
Antologia Poética, em 1966, pela Editora do Autor - Rio de Janeiro.

A Antologia Poética recebe em dezembro daquele ano o Prêmio Fernando Chinaglia, por ter sido
considerado o melhor livro do ano. Recebe inúmeras homenagens pelos seus 60 anos, inclusive crônica de
autoria de Paulo Mendes Campos publicada na revista Manchete no dia 30 de julho.
Preso à sua querida Porto Alegre, mesmo assim Quintana fez excelentes amigos entre os grandes
intelectuais da época. Seus trabalhos eram elogiados por Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de
Morais, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, além de Manuel Bandeira. O fato de não ter ocupado
uma vaga na Academia Brasileira de Letras só fez aguçar seu conhecido humor e sarcasmo. Perdida a
terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão


Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
(Prosa e Verso, 1978)

A Câmara de Vereadores da capital do Rio Grande do Sul — Porto Alegre — concede-lhe o título de
Cidadão Honorário, em 1967. Passa a publicar Do Caderno H no Caderno de Sábado do Correio do Povo
(até 1980).

Em 1968, Quintana é homenageado pela Prefeitura de Alegrete com placa de bronze na praça principal da
cidade, onde estão palavras do poeta: "Um engano em bronze, um engano eterno". Falece seu irmão
Milton, o mais velho.
1973. Nesse ano o poeta e prosador lançou, pela Editora Globo — Coleção Sagitário — o livro Do Caderno
H. Nele estão seus pensamentos sobre poesia e literatura, escritos desde os anos 40, selecionados pelo
autor.
Em 1975 publica o poema infanto-juvenil Pé de Pilão, co-edição do Instituto Estadual do Livro com a
Editora Garatuja, com introdução de Érico Veríssimo. Obtém extraordinária acolhida pelas crianças.
Quintanares é impresso em 1976, em edição especial, para ser distribuído aos clientes da empresa de
publicidade e propaganda MPM. Por ocasião de seus 70 anos, o poeta é alvo de excepcionais
homenagens. O Governo do Estado concede-lhe a medalha do Negrinho do Pastoreio — o mais alto
galardão estadual. É lançado o seu livro de poemas Apontamentos de História Sobrenatural, pelo
Instituto Estadual do Livro e Editora Globo.
A Vaca e o Hipogrifo, segunda seleção de crônicas, é publicado em 1977 pela Editora Garatuja. O autor
recebe o Prêmio Pen Club de Poesia Brasileira, pelo seu livro Apontamentos de História Sobrenatural.
Em 1978 falece, aos 83 anos, sua irmã D. Marieta Quintana Leães. Realiza-se o lançamento de Prosa &
Verso, antologia para didática, pela Editora Globo. Publica Chew me up slowly, tradução Do Caderno H
por Maria da Glória Bordini e Diane Grosklaus para a Editora Globo e Riocell (indústria de papel).
Na Volta da Esquina, coletânea de crônicas que constitui o quarto volume da Coleção RBS, é lançado em
1979, Editora Globo. Objetos Perdidos y Otros Poemas é publicado em Buenos Aires, tradução de Estela
dos Santos e organização de Santiago Kovadloff.
Seu novo livro de poemas é publicado pela L&PM Editores - Porto Alegre, em 1980: Esconderijos do
Tempo. Recebe, no dia 17 de julho, o Prêmio Machado de Assis conferido pela Academia Brasileira de
Letras pelo conjunto de sua obra. Participa, com Cecília Meireles, Henrique Lisboa e Vinicius de Moraes, do
sexto volume da coleção didática Para Gostar de Ler, Editora Ática.
Em 1981, participa da Jornada de Literatura Sul Rio-Grandense, uma iniciativa da Universidade de Passo
Fundo e Delegacia da Educação do Rio Grande do Sul. Recebe de quase 200 crianças botões de rosa e
cravos, em homenagem que lhe é prestada, juntamente com José Guimarães e Deonísio da Silva, pela
Câmara de Indústria, Comércio, Agropecuária e Serviços daquela cidade. No Caderno Letras & Livros do
Correio do Povo, reinicia a publicação Do Caderno H. Nova Antologia Poética é publicada pela Editora
Codecri - Rio de Janeiro.
O autor recebe o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, no dia 29 de outubro de 1982.
É publicado, em 1983, o IV volume da coleção Os Melhores Poemas, que homenageia Mario Quintana,
uma seleção de Fausto Cunha para a Global Editora - São Paulo. Na III Festa Nacional do disco, em Canela
(RS), é lançado um álbum duplo: Antologia Poética de Mario Quintana, pela gravadora Polygram.
Publicação de Lili Inventa o Mundo, Editora Mercado Aberto - Porto Alegre, seleção de Mery Weiss de
textos publicado em Letras & Livros e outros livros do autor. Por aprovação unânime da Assembléia
Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, o prédio do antigo Hotel Magestic (onde o autor viveu por
muitos e muitos anos), tombado como patrimônio histórico do Estado em 1982, passa a denominar-se Casa
de Cultura Mário Quintana.
Em 1984 ocorrem os lançamentos de Nariz de Vidro, seleção de textos de Mery Weiss, Editora Moderna -
São Paulo, e O Sapo Amarelo, Editora Mercado Aberto - Porto Alegre.
O álbum Quintana dos 8 aos 80 é publicado em 1985, fazendo parte do Relatório da Diretoria da empresa
SAMRIG, com texto analítico e pesquisa de Tânia Franco Carvalhal, fotos de Liane Neves e ilustrações de
Liana Timm.
Ao completar 80 anos, em 1986, é publicada a coletânea 80 Anos de Poesia, organizada por Tânia
Carvalhal, Editora Globo. Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Vale dos Sinos
(UNISINOS) e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Lança Baú de
Espantos, pela Editora Globo, uma reunião de 99 poemas inéditos.
Em 1987, são publicados Da Preguiça como Método de Trabalho, Editora Globo, uma coletânea de
crônicas publicadas em Do Caderno H, e Preparativos de Viagem, também pela Globo, reflexões do
poeta sobre o mundo.
Porta Giratória, pela Editora Globo - Rio de Janeiro, é lançada em 1988, uma reunião de crônicas sobre o
cotidiano, o tempo, a infância e a morte.
Em 1989 ocorre o lançamento de A Cor do Invisível pela Editora Globo - Rio de Janeiro. Recebe o título de
Doutor Honoris Causa pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). É eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, entre escritores de todo o Brasil.
Velório sem Defunto, poemas inéditos, é lançado pela Mercado Aberto em 1990.
Em 1992, a editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) reedita, em comemoração aos
50 anos de sua primeira publicação, A Rua dos Cataventos.
Poemas inéditos são publicados no primeiro número da Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca
Nacional/Departamento Nacional do Livro, em 1993. Integra a antologia bilíngüe Marco Sul/Sur - Poesia,
publicada Editora Tchê!, que reúne a poesia de brasileiros, uruguaios e argentinos. Seu texto Lili Inventa o
Mundo montado para o teatro infantil, por Dilmar Messias. Treze de seus poemas são musicados pelo
maestro Gil de Rocca Sales, para o recital de canto Coral Quintanares - apresentado pela Madrigal de Porto
Alegre no dia 30 de julho (seu aniversário) na Casa de Cultura Mario Quintana.
Alguns de seus textos são publicados na revista literária Liberté - editada em Montreal, Quebec, Canadá -
que dedicou seu 211o número à literatura brasileira (junto com Assis Brasil e Moacyr Scliar), em 1994.
Publicação de Sapato Furado, pela editora FTD - antologia de poemas e prosas poéticas, infanto - juvenil.
Publicação pelo IEL, de Cantando o Imaginário do Poeta, espetáculo musical apresentado no Teatro Bruno
Kiefer pelo Coral da Casa de Cultura Mário Quintana, constituído de poemas musicados pelo maestro
Adroaldo Cauduro, regente do mesmo Coral.
Falece, em Porto Alegre, no dia 5 de maio de 1994, próximo de seus 87 anos, o poeta e escritor Mario
Quintana.

Escreveu Quintana:

"Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma
invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos
dar a eternidade inteira".

E, brincando com a morte: "A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado
de sapatos".

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