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Capítulo 1 - Ecologia de Ecossistemas Urbanos

Capítulo 1 - Ecologia de Ecossistemas Urbanos

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1º capítulo do Livro PELOS QUINTAIS DE SARANDI: ECOLOGIA URBANA E PLANEJAMENTO AMBIENTAL (cópia integral pode ser obtida em http://www.cch.uem.br/observatorio
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CAPÍTULO 1

Ecologia dos Ecossistemas Urbanos

“Cidades são tão artificiais quanto colméias.” (John Gray, 2006) “De fato, pelo viés direcionado a estudos de ambientes prístinos, muitos ecólogos sentem-se desconfortáveis com a noção de que seres humanos fazem parte da natureza. Assim, mesmo com uma generalizada crise ambiental, a ecologia acadêmica tem pouco a dizer sobre a ecologia do Homo sapiens ou sobre as cidades como fenômeno ecológico.” (Willian E. Rees, 1997)

Ecologia designa uma ciência que investiga as relações entre organismos e seu ambiente. Em contraste com a ecologia geral, a ecologia humana se refere ao estudo das relações dinâmicas entre populações humanas e as características físicas, biológicas, culturais, sociais e econômicas do ambiente (Lawrence, 2003).

Rees (1997) classifica a ecologia urbana como um ramo da ecologia humana. Ecologia urbana é pesquisa ecológica feita em cidades. Há muitas definições para o termo “cidade”, a mais generalista é aquela que define uma cidade como uma área densamente povoada e caracterizada por áreas habitacionais, de comércio, e industriais (Niemela, 1999). São quatro os campos principais de pesquisa no âmbito da ecologia urbana (tabela 1).
Tabela 1: Campos de estudo da ecologia urbana 1) Estudo do meio físico: pesquisas sobre geomorfologia, substrato geológico, clima, como fatores determinantes da atividade biológica nas cidades. Influem em diversas características dos ecossistemas urbanos, como por exemplo na composição vegetal mais adequada à arborização de um bairro. 2) Estudo das populações biológicas: populações humanas podem ser estudadas sob pontos de vista diversos: demografia, etologia, saúde pública. O estudo de outras populações pode ser interessante para fins de controle de animais vetores de enfermidades. Comunidades vegetais podem ser estudadas para fornecer subsídios ao planejamento da arborização. 3) Estudo da estrutura e da evolução do ecossistema no espaço: os ecólogos entendem os ecossistemas como o resultado de processos históricos onde pode intervir o acaso, e de tendências espontâneas de auto-organização. Ecossistemas (urbanos ou não) são heterogêneos,

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como um mosaico, e as partes do mosaico urbano diferem de muitas maneiras: morfologicamente, socialmente, metabolicamente. A evolução da estrutura do ecossistema pode ser estudada sob diferentes escalas. Por exemplo, o grau de impermeabilização de um bairro pode repercutir em escalas superiores (causando inundações). 4) Estudos relativos ao metabolismo material e energético dos ecossistemas: quanta energia, quantos e que tipos de materiais entram, de que forma esses insumos são empregados dentro do ecossistema urbano e quanta energia e resíduos são exportados. Fonte: Terradas, 2001

Odum (1988) define ecossistema ou sistema ecológico como qualquer unidade de área que abranja todos os organismos interagindo com o ambiente físico de tal forma que um fluxo de energia produza: 1) estruturas bióticas claramente discerníveis (os organismos); e 2) uma ciclagem de materiais entre as partes vivas e não vivas do sistema. De acordo com as fontes e o nível do fluxo de energia que perpassa os sistemas ecológicos, podemos dividi-los em quatro categorias (tabela 2).
Tabela 2: Categorias de ecossistemas segundo a fonte e o nível de energia Tipo de ecossistema Fluxo energético anual médio (kcal/m2) 1. Ecossistemas naturais, que dependem de 1.000 – 10.000 energia solar, sem outros subsídios (oceanos abertos, florestas de altitude). Prestam serviços ambientais fundamentais para a manutenção da vida (ciclos biogeoquímicos da água e do carbono, por exemplo). 2. Ecossistemas com subsídios naturais. 10.000 – 40.000 Dependem de energia solar, mas contam com inputs energéticos, o que os torna bastante produtivos. Grande capacidade de sustentação da vida, grande produção de matéria orgânica, as vezes exportada para outros sistemas (estuários de marés, florestas úmidas). 3. Ecossistemas com subsídios antropogênicos. 10.000 – 40.000 Dependem de energia solar, mas recebem inputs energéticos maciços (geralmente de origem fóssil) sendo também muito produtivos (agricultura, aquacultura). 4. Ecossistemas urbano-industriais. Movidos 100.000 – 3.000.000 sobretudo a combustíveis fósseis. Extremamente dependentes dos três outros tipos de ecossistema para a manutenção da vida e obtenção de matérias primas e combustíveis (cidades, bairros residenciais, zonas industriais). Sistemas geradores de riquezas e poluição de variados tipos. Fonte: Odum, 1988; Collins, 2000

Cidades são geralmente definidas como centros de comércio, como centros de sistemas de transporte e comunicação, como fontes de cultura e artes e sede de governos. Algumas vezes, pode se fazer menção à poluição, congestionamentos e outras mazelas

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urbanas. Entretanto, muito raramente se reconhece as cidades como ecossistemas, ou, em outras palavras, poucos reconhecem a urbanização e a as cidades como manifestações da ecologia humana (Rees, 1997).

O ecólogo barcelonês Jaume Terradas (2001), caracteriza as cidades como ecossistemas heterotróficos, dissipativos, que se organizam aumentando a entropia no restante do planeta. Ao contrário dos ecossistemas autotróficos (essencialmente estruturados por cadeias alimentares compostas por organismos fotossintéticos que convertem energia solar em energia química, à qual alimenta grupos de organismos heterótrofos), os ecossistemas heterotróficos (também denominados de ecossistemas incompletos) dependem de grandes áreas externas a eles para a obtenção de energia, alimentos, fibras e outros materiais (Odum, 1988). Pickett (et al, 2004) define a cidade como um sistema ecológico, onde humanos e processos sócio-ambientais estão combinados em uma rede de interações recíprocas.

Cidades não são o único exemplo de ecossistemas heterotróficos. Riachos, e recifes de ostras também o são. Contudo, as cidades diferem de seus congêneres “naturais” por três diferenças principais: 1) um metabolismo muito mais intenso por unidade de área, exigindo assim um influxo muito maior de energia, que em parte é suprida por combustíveis fósseis; 2) uma considerável necessidade de entrada de materiais, como metais, para a produção de bens de consumo não necessariamente conexos à sobrevivência humana; e 3) uma saída muito maior e mais poluidora de dejetos e resíduos (Odum, 1988).

Em suma, cidades são ecossistemas que possuem ambientes de entrada (áreas de onde se retiram matérias primas diversas) e de saída (pontos da biosfera que recebem os resíduos do metabolismo urbano) muito maiores do que outros ecossistemas heterotróficos (Odum, 1988, Wackernagel e Rees, 1996).

A Humanidade não afeta apenas ambientes locais. Muito além disso, ela cooptou a biosfera para seus propósitos. Compreender as implicações deste conjunto de eventos para a sustentabilidade requer um foco nos seres humanos como os maiores organismos consumidores em todos os ecossistemas do planeta (Rees, 1997).

A área ocupada pelos ecossistemas urbanos situa-se entre somente 1 e 5% da parte terrestre do globo. Ocorre que, por possuírem extensos ambientes de entrada e saída,

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estes sistemas alteram sobremaneira a natureza de rios, florestas, campos, oceanos e a própria atmosfera (Odum, 1988, Odum, 2001).

Vários dados atestam a enorme amplitude dos ambientes de entrada e de saída dos ecossistemas urbanos. Mais nitrato artificial é aplicado nas plantações de grãos do mundo, do que a quantidade fixada por atividade bacteriana e outros processos naturais (Rees, 1997). Talvez ainda mais significativa, de uma perspectiva ecossistêmica, é a evidência de que seres humanos, uma espécie entre milhões, consuma, diretamente ou indiretamente, 40% da produção fotossintética primária líquida terrestre, e 35% da produção fotossintética líquida de zonas costeiras e ressurgências (Vitousek, 1994).

Isto significa que embora as cidades sejam descritas como entidades geográficas isoladas, elas dependem dos recursos naturais de vastas regiões muito além de suas fronteiras. Para quantificar o volume de recursos consumidos pelas cidades, Rees e Wackernagel (1996) criaram um conceito, a pegada ecológica (ou ecological footprints) para medir a dependência entre as cidades e seus hinterlands.

A pegada ecológica é definida como o total da área de terra produtiva e água requeridos permanentemente para produzir todos os recursos consumidos e absorver todos os dejetos produzidos por uma determinada população. Desde o começo deste século, a pegada ecológica cresceu 5 vezes nos países industrializados (Alberti, 1997).

A pegada ecológica de cidades como Los Angeles ou Londres provavelmente possui área entre 100 e 300 vezes maior do que a área ocupada pelos próprios assentamentos. A pegada ecológica de Londres, com 12% da população britânica, estende-se por cerca de 20 milhões de hectares, o que equivale ao total de terras produtivas da Grã-Bretanha (Girardet, 1999).

O arquiteto italiano Giulio Carlo Argan (1993), conseguiu, de maneira poética, explicitar como as cidades, com a globalização econômica, espalham suas ramificações por sobre toda a biosfera ao afirmar que

a natureza não esta mais além dos muros da cidade; as cidades não têm mais muros, mas estendem-se em desesperadores labirintos de cimento, desfiam-se nas sórdidas periferias de barracos e, para lá da cidade, ainda é cidade, a cidade das auto-estradas e dos campos cultivados industrialmente.

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1.1 - Crescimento populacional e consumo Nossos padrões de consumo em muito excedem a energia alimentar necessária a manutenção da vida humana, que é de aproximadamente 1 milhão de kcal/ano/indivíduo. Nos Estados Unidos da América, cada cidadão consome em média 87 milhões de kcal/ano (Odum, 1988).

Evidentemente, este enorme consumo de energia extra-somática gera uma cadeia enorme de impactos que surgem da necessidade de se importar energia e matérias primas. Importação que degrada outros ecossistemas, e sistemas de transporte que fragmentam o território. Também são fontes de impactos a produção, consumo e descarte de resíduos relacionados ao consumo.

Como observa o ecólogo Eugene Odum (2001)
A Terra pode suportar mais “corpos quentes” sustentados como muitos animais domésticos num comedouro poluído, do que pode sustentar seres humanos desfrutando do direito a um ambiente livre de poluição, com uma razoável oportunidade de liberdade pessoal e uma variedade de opções para a busca da felicidade. Não é a energia que em si mesma é limitante, mas sim as conseqüências da poluição resultante da exploração da energia. A poluição é agora o fator limitante mais importante para o homem (...) À escala mundial, o crescimento da população apresenta uma correlação positiva com a densidade, num pronunciado contraste com as populações da maioria dos organismos, nas quais a taxa de crescimento decresce com o aumento da densidade (...) Uma vez que para o homem sempre haverá um longo atraso temporal nos efeitos da „auto-aglomeração‟ e também nos efeitos do uso em excesso de um recurso, a densidade da população tenderá a „transbordar‟ a menos que haja fatores que reduzam rapidamente a taxa de crescimento.

Embora as taxas de natalidade venham caindo no planeta, ainda há uma grande disparidade entre mulheres ricas e pobres. No Brasil, por exemplo, mulheres com renda superior a 5 salários têm em média 1,1 filhos, contra 4,6 filhos daquelas com renda de ¼ de salário mínimo (IBGE, 2007).

O declínio da natalidade é uma boa nova, mas que deve ser comemorada com cautela. Há três projeções para o estacionamento do crescimento populacional humano em 2150: a menor, com 8,5 bilhões de pessoas, e a maior, com 13,5 bilhões. Uma população com mais de 10 bilhões de pessoas fatalmente reduziria a qualidade da existência humana, dados os recursos e a capacidade de suporte atuais do globo (Odum, 1988).

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Com a população se aproximando de 7 bilhões de humanos, dificilmente atingiremos a projeção mais baixa para 2150, a menos que lancemos mão de estratégias amplas de planejamento familiar, incluindo aí o direito universal ao aborto. Odum (2001) sugere também restrições ao uso do solo e água, e forte incentivo à reciclagem.

De acordo com Alan Weisman (2007) no final do século XIX éramos 1,6 bilhão de pessoas. O autor especula que, se por um consenso mundial conseguíssemos implantar a política do filho único existente na China, em todos os países, ao final do século XXI teríamos retornado á população do século XIX. Uma redução de mais de 5 bilhões de pessoas, sem guerras, nem atitudes brutais.

Menos pessoas, menor apropriação da produção fotossintética, populações concentradas em menos cidades, planejadas para serem mais autotróficas, e grandes áreas do globo deixadas intactas para a recolonização por outras formas de vida. Uma população menor, com mais oportunidades para a satisfação dos prazeres que o consumo nos traz, como viagens planetárias, sem exceder a capacidade de suporte do planeta. Uma utopia, sem dúvida. Mas, como afirmou Mahatma Ghandi, o planeta pode sustentar as necessidades de todos, mas não as ambições de todos. Através de mecanismos culturais, ou por restrições ambientais, haveremos de reduzir a população humana. 1.2 - O ambiente urbano No desenvolvimento do movimento ambientalista dos anos 60 e 70, tornou-se um modismo considerar tudo o que estivesse relacionado às cidades como ruim, e tudo que fosse ligado à vida silvestre, como algo virtuoso. Ironicamente, embora desdenhar as cidades tenha se tornado modismo, a maioria das pessoas vivem em ambientes urbanos e sofrem com seu declínio (Botkin; Beveridge, 1997).

Geralmente evidenciamos os aspectos negativos do ambiente urbano. Como sociedade, temos perdido de vista a importância das cidades para tornar nossas vidas mais criativas. Certamente, a cidade é uma das maiores invenções da humanidade, senão a maior. O adensamento da população nos permite o desenvolvimento de uma economia que suporta instituições diversas, como universidades, hospitais e museus, por exemplo.

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Do ponto de vista ecológico, é melhor que as pessoas concentrem-se em cidades, pois suas necessidades são atendidas mais facilmente. O uso de energia é mais eficaz nas cidades do que em assentamentos dispersos (Alberti, 1997; Spirn, 1995).

Também é mais fácil corrigir eventuais impactos ambientais, bem como melhorar a qualidade de vida dos urbanitas (Lugo, 1991). Do ponto de vista da sociedade, as cidades produzem uma grande quantidade de informações, conhecimento, cultura e tecnologia, exportando-os para outros sistemas (Celecia, 1994; Celecia, 1997).

As cidades produzem soluções para diversos dilemas da existência humana, mas também produzem muitos problemas. Nas cidades brasileiras predomina uma horrenda estética de concreto, com a vegetação ocupando espaços cada vez menores. Com padrões de controle pouco rigorosos ou inexistentes, a poluição é outro dilema onipresente.

Segundo os pesquisadores Paulo Saldiva, e Jorge Hallack, do Laboratório de Poluição da Universidade de São Paulo, as regiões mais poluídas da cidade de São Paulo registram um menor nascimento de bebês do sexo masculino. A hipótese dos pesquisadores é de que alguns poluentes atuem como desreguladores endócrinos, alterando o mecanismo de regulação hipotálamo-hipófise-gônadas, e assim inibindo a produção de espermatozóides com o cromossomo Y (Collucci, 2008).

Nossa fabulosa capacidade cultural de criar artefatos, não altera nossa fisiologia: continuamos a ser animais homeotérmicos. Temos profundas habilidades para modificar ambientes, criando, porém, frequentemente, impactos nocivos à nossa biologia (como as ilhas de calor). Somos muito hábeis para criar novos ambientes, mas muito menos capazes de lidar com as conseqüências adversas desses câmbios.

As ilhas de calor, decorrentes do excesso de pavimentação, estão correlacionadas com o aumento do número mortes de idosos em dias mais quentes. Há autores inclusive que relacionam o aumento da temperatura nas cidades com o aumento de crimes violentos (assaltos e assassinatos). Em experimentos controlados realizados em laboratório, temperaturas elevadas aumentam a irritabilidade e a agressão entre humanos (Baker, et al, 2002).

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As temperaturas elevadas, comuns nas cidades brasileiras e acentuadas pelas ilhas de calor, também se constituem em um fator de estresse para a vegetação urbana. Sob forte calor e pouca água disponível no solo, algumas espécies fecham seus estômatos (diminutos orifícios existentes nas folhas para captação de CO 2 para fotossíntese), e, por conseqüência, param de liberar vapor d´água para a atmosfera.

Nessas ocasiões, a vegetação urbana perde sua capacidade de diminuir extremos de temperatura, justamente quando esse serviço ambiental se faz mais necessário. Ademais, com o fechamento dos estômatos, ocorre acúmulo de O 2 nas folhas. O excesso de O 2 provoca um fenômeno conhecido como fotorrespiração, o qual interrompe a fotossíntese, privando a planta de obter energia para sua manutenção (Raven, 2001).

A agência de proteção ambiental estadunidense calculou em mais de 1 bilhão de dólares anuais os gastos das cidades norte-americanas com energia elétrica para mitigar o desconforto térmico das ilhas de calor. Ademais, as ilhas de calor aceleram reações químicas que produzem altas concentrações de ozônio, deste modo aumentando a poluição atmosférica urbana, com conseqüências deletérias para humanos e vegetação (Botkin, Beveridge, 1997).

A urbanização tem efeitos favoráveis e adversos sobre as comunidades bióticas. Por um lado, a diversidade da influência humana sobre os ecossistemas urbanos faz surgir uma grande variedade de habitats que não ocorrem fora das cidades. Essa miscelânea de habitats frequentemente suporta uma alta biodiversidade, inclusive a presença de espécies ameaçadas. Por exemplo, rodovias e pilhas de detritos de minas de carvão abrigam 35% das espécies raras de besouros da Grã Bretanha. No reverso da medalha, a urbanização ameaça a integridade de espécies e habitats naturais. Em Munique, Alemanha, durante o século XX, 180 espécies de plantas tornaram-se localmente extintas (Niemela, 1999).

A heterogeneidade é uma das mais importantes características a influenciar os ambientes surgidos com a urbanização. Esse fator cria e barra oportunidades para os organismos, alterando assim a biodiversidade. Como os demais ecossistemas, os sistemas ecológicos urbanos são compostos por mosaicos de ambientes heterogêneos.

Recursos naturais, capital, trabalho, conhecimento se deslocam diferentemente através das diferentes partes do mosaico urbano. Ricos circulam preferencialmente em certas

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áreas de uma cidade, toxinas e detritos tendem a se acumular em outros locais (não raro, onde residem os mais pobres). Essa hierarquia, comum nas sociedades humanas, cria uma heterogeneidade espacial vasta. A variedade de peças dos mosaicos urbanos é enorme (Pickett, et al, 1997).

Da mesma forma em que se observa uma heterogeneidade espacial no mosaico urbano, (áreas vegetadas, áreas densamente construídas, etc) há também uma heterogeneidade social. Essa heterogeneidade pode ser quantificada e espacializada através dados socioeconômicos, censos demográficos e surveys sobre decisões individuais ou familiares ligadas ao meio ambiente (Pickett, et al, 2004).

Água, poluição atmosférica, diferentes tipos de capital, de vegetação e de outras características sócio-ambientais podem se acumular ou se mover por entre as parcelas do mosaico. Quais os mecanismos de alocação social e física existem e como eles restringem ou permitem esses fluxos são questões importantes de pesquisa (Pickett, et al, 2004).

O caráter de mosaico dos ecossistemas urbanos torna a dispersão, uma tarefa difícil e arriscada, ao menos para espécies com menos habilidades locomotoras.

Consequentemente, a extensão de áreas verdes e sua conectividade é um importante fator a influenciar a ocorrência de espécies animais em paisagens urbanas (Niemela, 1999).

O isolamento das parcelas de habitats urbanos leva a variações nos eventos de colonização e extinção. Este fator, somado ao estágio de sucessão primário mantido por perturbações ambientais periódicas (corte da vegetação, por exemplo), contribuem para uma alta riqueza de espécies em algumas paisagens urbanas. Este fato está em consonância com a “hipótese da perturbação intermédia” (Connel, 1978, in Niemela, 1999), a qual prediz que a riqueza de espécies é maior em locais medianamente perturbados, do que naqueles não perturbados, ou severamente perturbados. Por exemplo, a diversidade de pássaros em áreas levemente perturbadas, como vilas era maior (22 espécies) do que em florestas (18 espécies) ou no centro de cidades finlandesas (12 espécies).

A diversidade alfa é usualmente maior em habitats urbanos porque muitas espécies de diferentes origens encontram condições apropriadas nesses locais. Por exemplo, um

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estudo norte-americano encontrou uma maior abundância de espécies de plantas vasculares em lotes urbanos abandonados (412 espécies) do que em florestas seminaturais de coníferas (262 espécies). A diversidade beta também costuma ser maior em cenários urbanos, devido a enorme variedade de tipos de habitat, que vai desde habitats semi-naturais até aqueles altamente antropogênicos. Por exemplo em Helsinki a diversidade beta de plantas é maior entre habitats urbanos do que entre florestas seminaturais contíguas à cidade (Niemela, 1999).

Invasões bem sucedidas de espécies exóticas são mais comuns em ecossistemas humanos do que em outros habitats. Este fenômeno ocorre pelo aumento do número de viajantes (que, voluntariamente ou não, atuam como dispersores), e pelo aumento do cultivo de espécies exóticas. Por exemplo, na cidade argentina de Bariloche a proporção de espécies introduzidas aumenta de 10% em áreas rurais contíguas a cidade para 100% no centro da cidade. Se por um lado a introdução de espécies pode aumentar a riqueza de espécies urbanas, ela também pode diminuir populações de espécies nativas (Niemela, 1999).

A atividade de organismos decompositores de matéria orgânica é diferenciado nos sistemas ecológicos urbanos. Em um estudo sobre a decomposição da serapilheira e sobre o ciclo de nitrogênio em florestas de carvalho (Quercus spp) variando ao longo de um gradiente urbano-rural, chegou-se a conclusão que nas florestas urbanas a decomposição e as taxas de nitrificação eram mais velozes, mesmo tendo essas áreas populações de fungos e microartrópodos menores do aquelas encontradas nas florestas rurais. Essas diferenças foram atribuídas a duas causas antropogênicas: temperaturas mais altas causadas pelas ilhas de calor urbanas (o que apressa a decomposição) e uma bem sucedida colonização do solo por minhocas (Zipperer, 1997). Por possuírem uma nuvem de partículas em suspensão, cidades muitas vezes têm chuvas com mais freqüência que os arredores, já que as partículas funcionam como pontos de condensação de vapor d´água. Em alguns centros urbanos a percentagem de precipitações é de até 10% maior do que no entorno (Baker, 2002). Ao mesmo tempo, cidades usualmente são excessivamente pavimentadas, e portanto impermeáveis à infiltração de água. Em outros ecossistemas, evaporação de água do solo é um importante fator de refrigeração. A excessiva pavimentação pode ocasionar enchentes, como as que ocorrem anualmente durante o verão na cidade de São Paulo.

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1.3 Influências humanas sobre sistemas ecológicos urbanos Os efeitos da influência humana sobre os ecossistemas urbanos podem ser bons (produção de conhecimento e difusão de práticas ambientais positivas), ruins (poluição e outros impactos) e sutis (por exemplo câmbios na competição entre espécies pela introdução de espécies exóticas).

Essas influências são de caráter econômico, social, político, e cultural (dando ao termo “cultural” significação latu sensu). São dinâmicas correlatas, interconectadas: dinâmicas ambientais e humanas. conexões. A religião, por exemplo, pode desempenhar uma dessas

Em Salvador, na Bahia, com população de mais de 80% de negros e pardos, há, registrados pela Febacap (Federação Baiana dos Cultos Afro-brasileiros), mais de 3500 terreiros de Candomblé. Cada terreiro possui uma área verde, com plantas sagradas para seus praticantes. Num contexto de uma cidade tropical, com média de temperatura anual próxima aos 30° C e extremamente mal arborizada, os terreiros muito provavelmente exercem uma influência considerável sobre o conforto térmico dos arredores.

O Candomblé ilustra como as relações entre seres humanos e vegetação não se dão apenas sob influência de fatores socioeconômicos. Em Salvador um fato acontecido nos anos 80 ilustra com vivas cores uma dinâmica cultural mediando um relacionamento ambiental entre pessoas e um bosque. O então prefeito da cidade, Renan Baleeiro, propôs que o Parque Metropolitano de Pirajá (com área de 1500 hectares e uma bacia hidrográfica) fosse parcialmente desmatado e seu solo convertido em moradias para cidadãos pobres da proximidade.

O Parque é uma referência nacional para os praticantes do candomblé, área de culto de diversos Orixás, como Oxumaré e Oxossi, desde o século XIX. A proposta do prefeito foi combatida por intelectuais como Jorge Amado e líderes espirituais do Candomblé, como Mãe Menininha do Gantois. Mas o que mais pesou no recuo do prefeito foi a recusa dos moradores em se mudarem para solo sagrado, e, assim, desagradarem os Orixás (Angeoletto, 2000).

A presença de vegetação nas cidades deve ser analisada também através de outros prismas. Árvores frutíferas atraem morcegos e outros animais dispersores de sementes. Poderíamos construir elos entre fragmentos florestais separados por cidades, para esses

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vetores ambientais? Sabemos que a fragmentação de ecossistemas é um dos mais importantes causadores de perda de biodiversidade. Poderíamos planejar a arborização de uma cidade não apenas para nossos propósitos, mas também para alicerçar dinâmicas ambientais? Essas perguntas ainda estão por serem respondidas.

As relações entre pessoas e ambiente não são apenas espaciais, mas também biológicas e culturais (Boyden, 1987 in Lawrence, 2003). Cenários humanos e seus processos ecológicos não estão circunscritos a limites administrativos, geográficos ou políticos. Cidades estão abertas a influências ecológicas (poluição emitida por outras cidades); biológicas e antropológicas (fluxos migratórios, por exemplo) (Lawrence, 2003; Odum, 1988).

Somos primatas, com necessidades biológicas comuns a outros animais. Em cidades brasileiras com temperatura média de 20° C, o consumo médio diário de água é de 470 litros por família. Se a temperatura média é de 30° C, o consumo aumenta para 570 litros (Moraes, 2008).

Mas também é verdade que somos um amálgama de biologia e cultura: com temperatura média de 25° C, os brasileiros consomem 114 milhões de latas de cerveja por dia. Se a temperatura se eleva para 30° C, o consumo cresce para 120 milhões de latas/dia. A cada 1% de aumento na temperatura atmosférica, o consumo de cerveja cresce 0,28%. As indústrias cervejeiras do Brasil investem pesadamente em serviços de previsão meteorológica com o fito de aumentar a produção para suprir a demanda de dias mais quentes (Mores, 2008).

Os dados acima exemplificam bem nossas complexas relações com o ambiente: dias mais quentes demandam mais água, o que se explica pela biologia dos humanos, mas dias de mais calor também demandam mais cerveja, um produto cultural, cujo consumo obviamente está atrelado a uma cadeia de impactos ambientais negativos muito maior do que aquela ligada ao mero consumo de água potável. Outro complicador no que tange aos estudos de ecossistemas urbanos é a sociobiologia humana, definida como as bases biológicas dos comportamentos sociais (Wilson, 1980). Refletindo sobre o embate natureza x cultura, Foster (2000) e Pinker (2004) descrevem o que denominam de modelo padrão das ciências sociais. De acordo com essa linha de

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argumentação, somos como páginas em branco ao nascer, e vamos adquirindo comportamentos de acordo com os ambientes que freqüentamos.

Seguindo esse raciocínio, poderíamos, por exemplo, concluir que quanto mais renda e educação tivessem acesso um grupo de consumidores, menor uso fariam eles de seus carros, dada a maior consciência a respeito da gravidade dos problemas causados pelo uso dessas máquinas.

O geógrafo Paul Robbins (2001) testou uma hipótese similar à formulada no parágrafo anterior. Investigando o uso de fertilizantes químicos e pesticidas em gramados de residências da cidade de Columbus, estado de Ohio, EUA, Robbins descobriu que: 67,2% dos proprietários com renda anual acima de US$ 75.000,00 usam fertilizantes químicos, ao passo que apenas 28,6% daqueles cuja renda anual é de US$ 20.000,00 o fazem.

Em relação à escolaridade, 53,3% dos que aplicam fertilizantes químicos possuem nível superior, enquanto que apenas 24,1% possuem apenas o ensino médio ou sequer. 73,3% dos usuários de fertilizantes e pesticidas declararam conhecer que esta prática causa impactos ambientais negativos.

Para equacionar a dimensão ambiental do uso generalizado desses produtos nos gramados norte-americanos, basta citar que, em 1984, mais fertilizantes químicos foram aplicados nos gramados norte-americanos do que a Índia aplicou em todas as suas plantações de grãos.

A área ocupada por gramados nos Estados Unidos foi calculada em 16 milhões de hectares, ultrapassando largamente cultivos de exportação como cevada (5 milhões de hectares), algodão (4,5 milhões) e arroz (1,1 milhão). Obviamente, o aumento da área dos gramados, e do uso de produtos químicos relacionado, provoca sérios problemas de qualidade da água para consumo humano. Aproximadamente 74% dos lares americanos usam fertilizantes e pesticidas em seus gramados. São cerca de 70 milhões de moradias injetando esses produtos na biosfera (Robbins, 2001).

Dados como os expostos acima exemplificam bem a complexidade dos ecossistemas urbanos, cujo “funcionamento” está permeado por dinâmicas sócio-ambientais múltiplas. O gerenciamento dos gramados norte-americanos cuja estética é obtida pelo uso de toneladas de produtos nocivos ao ambiente (incluem-se aí os milhões de litros de gasolina

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queimados nos cortadores de grama e as emissões poluentes derivadas) e independe, como vimos, de uma suposta “consciência ambiental” de cidadãos mais educados. Ademais, esse mito politicamente correto da “consciência ambiental” paradoxalmente, esconde um preconceito contra os mais pobres e com menos educação formal. Por dedução, pobres teriam comportamentos ambientais mais inadequados devido ao menor acesso à informação.

Obviamente, não somos autômatos expressando comportamentos ditados por genes, mas também não somos meramente produto de nossas vivências nos ambientes nos quais transitamos. Explicar comportamentos meramente pela genética ou pelo ambiente tem o mesmo sentido de se perguntar de onde vem a música: do instrumentista ou de seu instrumento. Na história evolutiva de nossa espécie, tendências comportamentais foram selecionadas, porque eram adaptativas. Sendo conciso, temos genes que transcrevem proteínas, às quais ativam determinados circuitos neuronais, deflagrando comportamentos, em decorrência de características do ambiente. O antropólogo Donald Brown listou mais de 200 comportamentos universais (tabela 3), o que aponta claramente para uma base genética comum para as diversas culturas humanas. A expressão “base genética” usualmente atrai a ira de setores acadêmicos e da sociedade civil. Para esses segmentos, é indefensável que nossos comportamentos sejam relacionados ao genoma, pois isso poderia municiar idéias e teorias racistas. Intelectuais de esquerda, sobretudo marxistas, têm ojeriza ao fato de que não somos apenas produtos de nossas influências culturais, mas, ao revés, um amálgama intricado de biologia e cultura. Por possuirmos genomas distintos e vivências ambientais únicas, jamais seremos iguais, como almejam os marxistas. Cada ser humano, um amálgama, cada um com capacidades distintas. Em qualquer sociedade haverá os mais e menos inteligentes, os mais extrovertidos, os mais capacitados para a política, os mais reflexivos, pendendo para a produção intelectual. Inexoravelmente, essas diferenças levarão à desigualdades na apropriação de bens e poder.

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De fato, desigualdades econômicas são universais nas culturas humanas, como aponta Brown. Mas a consciência dessas desigualdades, e a ânsia por equidade também o são. Por isso desenvolvemos leis, e se somos desiguais em habilidades, deveríamos em tese ser iguais perante a lei.
Tabela 3. Comportamentos humanos universais Machos dominando a esfera política Cuidados parentais dirigidos às crianças Machos mais engajados em coalizões com Classificação, classificação de fauna e flora propósitos violentos Machos mais agressivos Classificação de parentesco, sexo, espaço, ferramentas, condições climáticas Machos mais propensos ao uso de violência Coalizões letal Machos mais propensos ao roubo Música, mitos, narrativas, poesia Machos viajando em média maiores distâncias Proibição do homicídio ao longo da vida Manipulação de relações sociais Estupro; proibição do estupro Crença no sobrenatural/religião Preferência pelos filhos e parentes (nepotismo) Capacidade de mensurar Estética Medicina Planejamento Mapas mentais Fofoca Cooperação Conflitos; mediação de conflitos Alteração do humor ou consciência por Propriedade ingestão de substâncias psicoativas Sentimentos morais Trocas recíprocas de trabalho, bens, serviços e favores sexuais Reciprocidade negativa (vingança, retaliação) Resistência ao abuso de poder Preocupação com a imagem, perante outros Atração sexual Diferenças sexuais em cognição espacial e Ciúme sexual comportamento Treino para melhorar habilidades Regulação sexual (incluindo prevenção do incesto) Status como forma de distinção de outros Desaprovação da avareza indivíduos Desigualdades econômicas Consciência das desigualdades econômicas; ânsia por equidade Fonte: Brown, 1991; Brown, 2000

Como se percebe, os comportamentos listados por Brown incluem uma mescla interessante de atitudes “nobres” (cooperação, por exemplo), com outros eticamente questionáveis, como o nepotismo.

Um desses comportamentos, a busca por status, está mais diretamente correlacionada com a crise ambiental de nossos dias. O prestígio, seja materializado na forma de bens, de poder, de títulos ou honrarias, é evidentemente um trunfo importante ao seu detentor. Lhe permite a atração de parceiros, ou bem para propósitos sexuais, ou para a formação de coalizões para a conquista de metas.

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De acordo com evidências corroboradas por estudos psicológicos, o bem estar de uma pessoa decorre das diferenças entre o que uma pessoa tem, e o que ela quer (aspirações), o que as outras pessoas possuem (comparação social), o que a pessoa tinha no passado (história), o que ela esperava ter no passado (desapontamentos), o que ela espera obter no futuro (esperança), o que ela merece (equidade), e o que ela precisa. Quanto maiores forem as lacunas entre aspirações, comparações sociais, equidade e necessidades, menor será a sensação de bem estar (Dodds, 1997).

A humanidade sempre viveu, nas palavras do ecólogo espanhol Juan Pedro Ruiz Sanz, uma fuga em direção ao adiante. Nossa história evolutiva nos impulsionou à cooperação. Através da cooperação, desenvolvemos um comportamento gregário (ao contrário de outras espécies de primatas, como os orangotangos, que são essencialmente solitários), o que nos permitiu seguir adiante, e cooptar a biosfera para nossos propósitos.

Na vida social, foram selecionadas tendências comportamentais importantes, como o senso de equidade (que, registre-se, não é exclusivo da espécie humana, tendo sido detectado através de experimentos etológicos em outras espécies de primatas e em cães). Com a primazia absoluta do capitalismo sobre a humanidade, nosso senso de equidade, nossa necessidade de prestígio, e as comparações sociais que cotidianamente fazemos entre o que temos e o que os outros possuem, nos impelem a consumir.

Em larga medida, os impactos ambientais gerados nos ecossistemas urbanos têm sua origem em nossas opções de consumo. E consumir é a forma mais direta de obtermos prestígio. Um automóvel não é apenas uma máquina que nos desloca entre distâncias. Se assim fosse, não haveria tanta diversidade de modelos e preços. É também um objeto e símbolo que conferem prestígio ao seu possuidor. Surveys realizados na Holanda, um país com excelentes sistemas de transporte público e redes de ciclovias, indicam que o status é o principal motivo para a aquisição de automóveis (Mcclintock, 2000). Roupas, adornos, viagens, mobília com um design exclusivo (que a distingue, portanto, dos móveis mais baratos) uma biblioteca repleta de títulos importados, se você é um intelectual. As opções são ilimitadas.

Assim, podemos retomar a discussão sobre os gramados dos subúrbios norteamericanos, afirmando que: os moradores buscam uma estética para seus quintais; esse

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padrão rende aos proprietários algum prestígio (ambos, comportamentos universais), obtido através da aplicação de toneladas anuais de substâncias nocivas, sobretudo aos corpos hídricos do entorno das cidades. 1.4 - Sustentabilidade urbana O conhecimento das características ecológicas das cidades é fundamental para a sustentabilidade global. Infelizmente essas características são invisíveis às análises urbanas convencionais. A maioria dos estudos sobre as cidades está focada em fluxos de investimento, geração de renda, taxas de criação de empregos, estatísticas de crimes e outros indicadores socioeconômicos.

Contudo, essas análises econômicas são de tal modo dissociadas da realidade física, que não revelam nada sobre fatores estruturais, espaciais, e temporais que influenciam os ecossistemas urbanos. O foco dominante na riqueza gerada por cidades “bem sucedidas” é absolutamente omisso no que diz respeito às condições dos ecossistemas dos quais se retiram os recursos para a geração de riquezas (Rees, 1997). Para alguns autores, como Rees (1997-b), a expressão “cidades sustentáveis” é apenas um oxímoro. Outros, como Chambers (2001) defendem o planejamento como forma de torná-las mais sustentáveis.

Para responder à idéia de sustentabilidade, áreas urbanas precisam manter um balanço entre atividades econômicas, crescimento populacional, infra-estrutura e serviços, poluição, entre outros fatores, de modo a limitar, tanto quanto seja possível, impactos ambientais sobre outros ecossistemas (Barredo, et al, 2003). Como reconhecer, mensurar, e interpretar problemas urbanos; e como responder a esses problemas será determinante para que se alcance a sustentabilidade urbana (UNCHS, 1997).

Por seu caráter heterotrófico, nenhuma cidade pode ser sustentável em um sentido absoluto. As cidades não empregam apenas recursos próprios. Logo, para um maior nível de sustentabilidade é necessário incluir nas análises do ecossistema urbano os sistemas mais amplos, onde se geram os recursos e onde se depositam os resíduos. Em outras palavras, em qualquer estratégia de sustentabilidade urbana há que incluir um diagnóstico do metabolismo urbano, de suas dependências e dos impactos provocados (Terradas, 2001).

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A expressão metabolismo urbano ou tecnometabolismo evidentemente é uma metáfora (máquinas não respiram ou fotossintetizam). Todavia, é uma metáfora bastante adequada: de modo análogo ao que ocorre com seres vivos, temos nas cidades um aparato tecnológico vasto (de liquidificadores a máquinas que produzem aviões, bombas atômicas, livros, automóveis...). Essas máquinas, essenciais para a manutenção de nosso estilo de vida, “consomem” matérias primas e energia, produzindo assim bens de consumo e resíduos.

Nas palavras do ecólogo humano Roderick J. Lawrence (2003):

A crescente disparidade entre processos biológicos e ecológicos, e entre produtos está relacionado ao rápido crescimento de populações urbanas, à criação de muitos produtos sintéticos que não podem ser reciclados por processos naturais e pelo aumento do uso de energia não renovável, ou renovável em taxas mais altas do que a capacidade de reposição dessas fontes. As conseqüências negativas dessas tendências incluem a depleção da camada de ozônio, acúmulo de resíduos, aquecimento global e incidência de catástrofes ambientais como enchentes, deslizamentos de terra e fome.

Índices de mensuração econômica como o Produto Interno Bruto escondem uma simplificação bastante grosseira da realidade ambiental, por não calcularem os impactos sócio-ambientais da produção de bens. Converter um manguezal em hotel de luxo pode elevar o PIB, mas certamente isso trará reflexos negativos para os pescadores locais.

As cidades mais abastadas deveriam compensar impactos causados em outros territórios por seus padrões de consumo. E o PIB como medida do vigor de uma economia deveria ser substituído por índices que considerassem também os impactos negativos causados pela produção econômica. 1.5 - Planejamento de ecossistemas urbanos Para Odum (2001), com o crescimento da população humana, a aplicação de princípios ecológicos ao planejamento do uso do solo é sem dúvida o labor mais importante das ciências ambientais. O uso do solo aumenta dramaticamente na falta de controle sobre o desenvolvimento urbano (tabela 4). Como nos adverte o ecólogo, todos sofrem as conseqüências da má utilização e degradação do solo, e todos pagam pela sua recuperação.

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Se, por exemplo, é permitida a criação de bairros residenciais em planícies sujeitas a inundações (mau uso do solo), fatalmente haverá perdas econômicas (e de vidas humanas, como tão frequentemente ocorre nas cidades brasileiras durante a estação chuvosa). Se, ao revés, tais planícies forem usadas para agricultura, silvicultura e lazer, aos impostos será acrescentado valor, e não subtraído (bom uso do solo). Odum lamenta o declínio do interesse público pelo planejamento da cidade, resultante da

sobrevalorização atribuída aos valores econômicos.
Tabela 4 Projeção de aumento da mancha urbana com e sem planificação do uso do solo População de 20.000 110.000 habitantes, 110.000 habitantes, habitantes urbanização urbanização não planificada planificada Área Urbana 5263 hectares 12145 hectares 15384 hectares Fonte: Odum, 2001 (baseado em estudos de caso de cidades estadunidenses).

Desafortunadamente, planejamento é apenas uma quimera em muitas áreas do planeta. Sobretudo, planejamento urbano com um viés ambiental, em áreas de grande biodiversidade do 3° mundo (Angeoletto, et al, 2008). Um clichê muito difundido reza que não há planejamento nas cidades brasileiras. Esta é apenas uma meia verdade, e como tal, prenhe de desinformação. Planejamento há, comumente associado ao crescimento urbano dirigido por grandes empreendimentos, como construções de shopping centers, ou pelo parcelamento de solo para o surgimento de bairros de classe média. O que, efetivamente, não há no Brasil, é o podemos definir como uma categoria de planificação alicerçada em critérios ambientais. Há várias expressões para defini-lo, sendo a mais usual “planejamento ambiental”. Em se tratando de cidades, o termo “planejamento ecossistêmico” poderia também ser usado.

Não se trata de mera questão semântica: ecossistêmico remete ao caráter de sistema ecológico que as cidades possuem. Podemos definir o planejamento ecossistêmico como aquele que considera a ecologia urbana, em suas variadas facetas, como um norteador para a execução de políticas que visem diminuir impactos ambientais e aumentar a qualidade de vida dos cidadãos. Nem a ecologia urbana, nem a ecologia geral foram plenamente incorporadas ao planejamento urbano e econômico. Por um lado, há uma permeabilidade bastante escassa de alguns coletivos profissionais frente à questão ambiental. Mas há que se

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acrescentar também que contribui para a falta de conhecimento ecológico na planificação a insuficiência teórica da ecologia urbana (Terradas, 2001). A virtual inexistência de planejamento urbano ecossistêmico é, em parte, explicada pela falta de informação e conhecimento. Ecossistemas urbanos são pouco estudados. A percentagem de artigos sobre ecologia urbana publicados nos principais periódicos científicos internacionais sobre ecologia é de meros 0,4% (Collins, 2000, Robbins, 2001). Ecossistemas urbanos têm recebido pouca atenção da comunidade acadêmica, sobretudo de pesquisadores das ciências sociais e ciências ambientais (Botkin, Beveridge, 1997; Zipperer, 1997).

Por outro lado, em grande medida, os planejadores comungam do ideário o qual preconiza que as cidades são forjadas principalmente por forças sociais e econômicas, e que a natureza desempenha um papel meramente estético, de embelezamento da urbe, através da criação de parques e espaços arborizados. Entre esses profissionais persiste a crença de que as cidades são a antítese da natureza. Essa crença dominou a forma pela qual a cidade é percebida e continua a afetar a forma como ela é construída (Spirn, 1995).

Nas palavras da bióloga Maria Angela Faggin Pereira Leite (1994):
As práticas do urbanismo (...) não fazem uso do conjunto de características naturais e sociais de um lugar - da natureza desse lugar - para avaliar, selecionar, emitir juízo ou implantar concepções de organização urbana, mas parecem procurar perpetuar, numa atitude temerária, a reprodução de modelos parciais, generalizantes e dogmáticos, que apesar de reduzir a natureza ao urbano, não têm a capacidade de integrar o natural e o construído (...)

Usualmente, as cidades estão localizadas em ambientes-chave: próximas de rios, ao longo de costas oceânicas, entremeadas a florestas. Portanto, cidades tendem a se desenvolver em cenários cruciais para a conservação biológica, o que evidencia a urgência de começarmos a projetar cidades menos hostis à vida silvestre. Segundo Baker (et al, 2002) o planejamento adequado de cidades é tão importante para a conservação quanto a criação de áreas naturais legalmente protegidas.

No que tange às cidades brasileiras, certamente o planejamento urbano ecossistêmico é ainda mais importante do que a criação de reservas naturais. Na região metropolitana de São Paulo, o desmatamento de áreas de mata atlântica cresceu 810% entre 2000 e 2005. Especulação imobiliária e invasão de pobres para construção de favelas são dois fatores que explicam a devastação.

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Contudo, a causa mais importante do desmatamento foi a construção de um complexo de rodovias (o “rodoanel de São Paulo”), construído para desafogar o trânsito. Questionado sobre a destruição de áreas florestais, o secretário municipal de meio ambiente da cidade de São Paulo afirmou que o desmatamento causado pela estrada foi autorizado pelos órgãos ambientais competentes, e seria recompensado com o replantio de árvores e com a criação de quatro parques na cidade (Balazina, 2008).

O raciocínio do secretário de meio ambiente paulistano demonstra a insignificância política que os órgãos ambientais brasileiros possuem na esfera do planejamento das cidades. Ante o imperativo de se converter mais e mais áreas ambientalmente importantes em solo sepultado por concreto, para o deslizar macio de uma frota de veículos já saturada e que não para de aumentar, acena-se com a fantasia de replantio de árvores e criação de parques. Se as árvores serão ou não plantadas, é irrelevante. Centenas de hectares de florestas foram destruídas, e uma floresta é muito mais do que a soma das árvores que por ventura venham a ser replantadas.

A criação de parques, como propõe o secretário, têm pouca efetividade, primeiro porque é impossível protege-los de impactos humanos como o aquecimento global, ou poluição atmosférica. Não se pode murar a atmosfera, estarão cientes as autoridades ambientais brasileiras desse fato?

Ademais, existe uma insuficiência crônica de recursos e pessoal qualificado para gerenciar essas áreas, o que dá margem a ocorrência de toda sorte de desmatamentos e outros impactos. No Brasil, comumente os menores orçamentos são destinados aos

órgãos ambientais, seja na esfera municipal, estadual ou federal, em governos de esquerda ou de direita. As inter-relações entre as diferentes escalas do planejamento urbano, do quarto à moradia; da residência ao quarteirão e à cidade devem ser cuidadosamente considerados, no desenvolvimento urbano (Boyden, 1981, in Lawrence, 2003). A maneira como damos forma às cidades evidentemente repercute na biosfera. Cidades brasileiras como Maringá, descentralizada e altamente dependente do automóvel privado, geram impactos ambientais como a uma maior emissão de gases estufa.

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O desenvolvimento das cidades deve abarcar também um planejamento paisagístico conseqüente, que vá além da maquiagem cosmética de florezinhas coloridas isoladas no mar de concreto das edificações. Um planejamento que permita aos moradores o acesso aos benefícios da arborização, ao mesmo tempo que as facilidades de cidades mais compactas, incluindo aí uma oferta de equipamentos e produtos culturais (teatro, cinemas, música nos bairros, possibilidades de entretenimento paras as diferentes faixas etárias) igualmente sejam oferecidas.

Também é importante discutir, novas formas de taxação do uso dos espaços públicos, muito embora no Brasil esse seja um tema espinhoso e impopular, dado o fato de que nossa carga tributária é uma das mais elevadas do mundo, e os serviços públicos em geral são de baixa qualidade. Não obstante, a questão é: quais são os custos ambientais embutidos na opção de moradia descentralizada e altamente dependente do automóvel? Nos últimos anos têm crescido nas cidades brasileiras o número de condomínios residências fechados em áreas anteriormente rurais.

Aqueles que preferem as periferias verdes das cidades brasileiras, representadas por condomínios de classe média e alta, que buscam qualidade de vida e a proteção dos muros de suas cidadelas, e que pagam por isso, não deveriam também arcar com os impactos ambientais de sua opção? Numa situação ideal, a taxação desse modelo urbanístico poderia ser utilizada para obras de infra-estrutura básicas nas periferias habitadas por aqueles que não estão fugindo da cidade, ao revés, anseiam poder usufruir de serviços urbanos que sempre lhes foram negados.

1.6 - Cidades compactas: desejáveis e mais sustentáveis? Existem pelo mundo vários dados que atestam uma realidade perturbadora. O percentual de aumento de solo urbano nas cidades (conversão de solo ambientalmente relevante em ruas e infra-estrutura de cidades) tem crescido mais do que a população dessas cidades. Nos EUA, por exemplo, entre 1982 e 1997 o aumento foi de inaceitáveis 34% (Grove, et al 2006). Em Barcelona, a ocupação urbana do solo sofreu um incremento de 130% entre 1973 e 1992, ao passo que a população cresceu apenas 16,7% (Terradas, 2001).

Um estudo comparativo entre 15 cidades européias de vários países revelou que em todas as cidades investigadas, a área construída cresceu mais do que a população. Os

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dados cobrem um intervalo de tempo de 50 anos e revelam inequivocamente uma tendência de desenvolvimento de bairros residenciais menos densos (Kasanko, et al, 2006). Em Palermo, por exemplo, enquanto que a população cresceu 38,1%, a área construída cresceu 220%. Deste percentual, 79% destinou-se a áreas residenciais, e 55% da urbanização ocorreu sobre áreas agrícolas (tabela 5).
Tabela 5 Tendências de urbanização de cidades européias Cidade Crescimento Crescimento da Crescimento da Populacional Área área construída Construída residencial Dresden - 9,4% 39% 67% Milão 17,4% 75% 53% Copenhagen 18,7% 52% 63% Porto 23,3% 98% 61% Praga 23,4% 50% 58% Bruxelas 28,8% 85% 75% Lyon 33,8% 75% 62% Palermo 38,1% 220% 79% Fonte: Kasanko, et al, 2006

Urbanização em solos agrícolas 71% 100% 72% 68% 83% 84% 86% 55%

Embora o planejamento de cidades mais compactas seja uma meta da agenda política da União Européia, os esforços governamentais não se traduziram em resultados palpáveis. Com exceção de Helsinque e Talinn, nas cidades estudadas, há uma evidente da urbanização sobre áreas agrícolas.

O fenômeno ocorre principalmente por três fatores: 1) a maior parte do solo disponível para o aumento da área construída é agrícola; 2) em geral solo agrícola é tecnicamente mais desejável para construções do que florestas, em termos econômicos e topográficos e, 3) áreas naturais são usualmente consideradas pelo valor recreativo, e assim protegidas da conversão em solo urbano. Duas tendências explicam a diminuição da compactação urbana nas cidades européias estudadas: uma maior preferência por residências individuais do que por blocos de apartamentos, a qual por sua vez redunda e mais espaço por habitante (Kasanko, et al, 2006).

Há evidências que cidades compactas influem no comportamento dos moradores, fazendo-os caminhar mais, diariamente. Na cidade de Belfast, em bairros de maior densidade, onde a distância de um morador para seu vizinho é de 5 m ou menos, a probabilidade de que um cidadão se desloque a pé para o trabalho é de 7%, para compras, 11%. Em bairros menos densos esses percentuais caem para 2% e 2%,

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respectivamente. Pessoas residindo em bairros densos tendem a usar mais espaços públicos como praças e parques (Cooper, 2001).

Efetivamente, o apoio político e acadêmico à idéia da compactação urbana têm sido entusiástico em algumas nações, como o Reino Unido. Haughton (1997), por exemplo, defende a cidade compacta como um antídoto à conversão de solo agrícola em solo urbano:
Cidades compactas podem conter menos natureza, uma vez que o solo é alocado mais parcimoniosamente para a urbanização, mas possivelmente cidades assim gerarão menos impactos ambientais externos, ao menos, se reduzirá a tomada de solo agrícola para o desenvolvimento urbano.

Na Inglaterra, depois de 10 anos de debates entre políticos, militantes ambientalistas e empresários do setor imobiliário, foi aprovada uma lei que determina que 60% do desenvolvimento de cidades inglesas deve ocorrer dentro de seus limites municipais. Em princípio, uma vitória contra a especulação imobiliária desenfreada. Mas os partidários dessa solução raramente se perguntam se níveis elevados de adensamento urbano podem realmente ser alcançados (Breheny, 1997).

Com a nova legislação inglesa sobre uso do solo, cresceu a urbanização dos chamados “brownfield sites”, antigas áreas industriais abandonadas. Mas essa usualmente é uma tarefa complicada, pois muitas vezes o nível de poluição do solo local é alto, e esses espaços estão localizados em pontos pouco atrativos, e reurbanizá-los demanda um volume bastante elevado de investimentos públicos (Breheny, 1997).

Cidades compactas significam maior densidade populacional. Criar mais moradias em menor área, através, por exemplo, de conjuntos de apartamentos, não é uma tarefa complexa, do ponto de vista de engenharia. Mas acomodar pessoas, animais com necessidades biológicas, sociais e culturais diversas, seguramente é muito mais complicado.

Surveys realizados nas principais cidades da Inglaterra atestam que, em se levando em consideração a opinião dos entrevistados, a compactação é uma solução profundamente impopular. Quanto mais compacto o bairro, menor é nível de satisfação com a moradia (tabela 6). Em áreas de baixa densidade (menos de 5 pessoas/ha), 68% dos entrevistados estão muito satisfeitos com o entorno. Ao revés, em áreas de alta

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densidade (40 pessoas/ha ou mais) apenas 37% estavam muito satisfeito com o bairro (Breheny, 1997).

Seres humanos não possuem apenas uma história social, mas também uma história natural. A maior parte de nossa evolução aconteceu em espaços abertos, próximos a recursos como fontes de água, árvores frutíferas, sítios de caça. Elementos naturais em paisagens urbanas são obviamente apreciados, inclusive porque trazem diversidade visual, quebrando a monotonia do concreto. Para 64% dos entrevistados nos surveys ingleses, uma casa com quintal é considerada muito importante, percentual que sobe para 80% no caso de famílias com crianças. Por outro lado, embora “flats” de um quarto em bairros compactos sejam extremamente impopulares entre os jovens, eles têm a preferência de 55% de moradores idosos e que vivam sós (Breheny, 1997). A preferência dos idosos por esse tipo de moradia é facilmente explicável. Espaços menores requerem menos manutenção, os flats são mais seguros do que casas e facilidades como farmácias e mercados estão mais próximos.

Essas estatísticas demonstram um claro conflito entre os defensores de um maior adensamento urbano e os cidadãos, claramente inclinados a viver em espaços menos densos e mais descentralizados. Medidas de compactação urbana são bem-vindas, mas militantes ambientalistas, planejadores e políticos precisam ter em mente nossa condição animal. Não somos pombas, cuja evolução se deu em paredões rochosos, uma paisagem similar aos muros contínuos formados pelos edifícios das metrópoles (o que explica em parte porque elas, as pombas, se adaptaram bem aos ecossistemas urbanos).

Somos primatas, uma espécie social de comportamento gregário. Precisamos de algum nível de adensamento, mas também são necessárias paisagens que nos ofereçam diversidade visual, que despertem a curiosidade intrínseca aos primatas. É perfeitamente compreensível que pais desejem casas com quintais para filhos que estão descobrindo o mundo. Evidências neurológicas indicam que crianças expostas a ambientes

sensorialmente mais ricos apresentam um desenvolvimento cognitivo maior do que crianças confinadas em apartamentos (Ehrlich, 1974).

Como é freqüente entre militantes ambientalistas, uma idéia transforma-se em panacéia. A realidade nos aponta um outro caminho: os méritos das cidades compactas são

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evidentes, mas a urbanização nesses termos deve ser submetida previamente a uma discussão desapaixonada de prós e contras.

Não é possível, sem estudos similares, apontar que a preferência dos ingleses por residências em bairros menos adensados seja universal. Mas sem dúvida é uma hipótese interessante e bastante plausível. Quanto aos brasileiros, o que preferem? O que levam em conta as famílias ao decidir entre uma moradia adensada (apartamento) e uma que requer mais solo (casas com quintais)? São perguntas que cabem aos ecólogos urbanos responder. No Brasil, provavelmente a violência urbana generalizada seja um fator correlacionado positivamente à escolha por apartamentos.

O impacto maior não está embutido em algum nível de descentralização, mas na expansão regulada por apetites mais e mais intensos por lucro imobiliário, aliada a usual conivência de gestores públicos com o surgimento de bairros cada vez mais afastados, enquanto que, nas cidades brasileiras, muitas vezes vazios urbanos não são ocupados.

Na cidade de Sarandi, por exemplo, com a conivência dos poderes públicos, muitos bairros surgiram nos extremos do município, com escassez de infra-estrutura e serviços (poucas opções de transporte coletivo, por exemplo), a despeito de uma abundância de solo disponível (vazios urbanos) em áreas mais estruturadas (figura 1).
Tabela 6 Satisfação com a moradia em cidades inglesas Muito Medianamente Neutro satisfeito satisfeito (%) Centro da 46% 38% 3% Cidade Áreas 54% 36% 3% residenciais Residências 64% 29% 3% Rurais Fonte: Breheny (1997)

Medianamente insatisfeitos 8% 5% 3%

Muito insatisfeitos 5% 2% 1%

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Figura 1. Vazios urbanos da cidade de Sarandi (em vermelho)

No Brasil, as cidades difusas são e serão tendência predominante. Logo, urge que a voracidade do mercado seja regulada pelo planejamento e pela oposição organizada da sociedade civil contra abusos. Ao seu talante, o mercado optará por um urbanismo padronizado, menos custoso, ambientalmente pobre, visualmente desinteressante, sempre aliado a desperdícios de solo. Como acertadamente se referiu Terradas (2001), a essas questões, algum planejamento, mesmo sujeito a equívocos, é melhor que nenhum. Revistas científicas conceituadas como a Cities, Landscape and Urban Planning e Urban Ecology costumeiramente publicam artigos de autores favoráveis à compactação urbana. Para seus defensores, a expressão “cidade compacta” é praticamente um sinônimo de cidade sustentável. Mas esse ideário de planificação também tem críticos bastante incisivos.

Para Michael Neuman (2005), a literatura sobre cidades compactas é deficiente de dois modos. Primeiro porque não há uma definição consensual sobre a expressão “cidades

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compactas”, a despeito do seu emprego corriqueiro. Ademais, segundo este autor, pouca evidencia suporta a hipótese que as cidades compactas sejam mais sustentáveis.

Outro aspecto problemático das análises sobre cidades compactas é que elas usualmente estão focadas em um único aspecto: densidade populacional. Uma única variável norteando estudos de uma entidade tão complexa quanto uma cidade, o que empobrece as investigações.

A questão correta, segundo Neuman (2005), não é a respeito da suposta maior sustentabilidade das cidades compactas, mas que processos fazem as cidades mais ou menos sustentáveis. Usando de uma metáfora o autor afirma que não faz sentido perguntar se um corpo (a cidade) é sustentável, mas ao invés, se questionar se o ser que habita esse corpo (a população) vive de modo sustentável.

Os defensores da compactação urbana afirmam que essa medida diminui a circulação de veículos, e, portanto, a emissão de poluição. Certamente, a questão do transporte é um fator imprescindível a ser examinado e planejado se o objetivo é alcançar ecossistemas urbanos que perturbem menos a biosfera.

As viagens intra-urbanas têm crescido velozmente nas últimas décadas. No Reino Unido, por exemplo, o aumento, entre 1952 e 1996 foi de 227%, sendo a maior parte desse crescimento atribuído a deslocamentos feitos por automóveis particulares. As distâncias percorridas por automóveis em 1996 eram em média 10 vezes maiores do que aquelas percorridas em 1952 (Cooper, 2001).

Entretanto, estudos realizados por Breheny, Burton e Jenks (2000, in Neuman, 2005) apontam que cidades mais densas podem reduzir deslocamentos curtos para atividades locais, mas que deslocamentos mais longos visando empregos especializados, consumo sofisticado ou formas de lazer não encontradas nos núcleos urbanos são independentes da densidade urbana. Os autores concluem que o crescimento do número de proprietários de automóveis, viagens aéreas de fim de semana, viagens a negócios e padrões de vida crescentemente dispersos tornam inúteis os esforços de racionalizar os deslocamentos através do design urbano.

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Bouwman (2000, in Neuman, 2005) em investigação de cidades holandesas concluiu que a média de uso individual de energia para transporte diferiu apenas 5% em diferentes cenários urbanos (tabela 7).

Tabela 7 Uso médio de energia em distintos cenários espaciais de cidades da Holanda Densidade Urbana Uso médio de energia por pessoa (MJ/dia) Muito fortemente urbanizado 50,9 Fortemente urbanizado 54,5 Urbanizado 54,5 Fracamente urbanizado 48,4 Rural 51 Fonte: Neuman (2005)

De acordo com Hall (2001, in Neuman, 2005), que fez uma apurada revisão de estudos relacionando compactação à diminuição do consumo de petróleo, em âmbito mundial, deslocamentos urbanos estão muito mais ligados aos preços de combustíveis e a renda do que a densidade populacional.

Para Terradas (2001), a discussão em torno de cidades compactas ou difusas está ultrapassada. Este autor prefere a expressão Cidades Intensas, para se referir a cidades que, independentemente de sua maior ou menor compactação, possuem padrões de consumo que implicam num tecnometabolismo elevado, com conseqüências ambientais globais. 1.7 - Sobre a pesquisa em ecologia urbana Usualmente, ecólogos encaram seres humanos meramente como fatores de perturbação e as cidades como ambientes extremos e indesejáveis. Contudo, seria mais efetivo reconceitualizar a teoria para melhor explicar as cidades desde um ponto de vista ecológico.

A conversão de áreas prístinas, estudadas a partir de modelos conceituais tradicionais, em solo urbano, requer uma evidente apreciação do papel dos seres humanos nesse processo. Por exemplo, nos EUA embora a população venha crescendo relativamente devagar, a proporção de população habitando solo urbano, bem como o avanço do solo urbano tem aumentado dramaticamente. A respeito dessas tendências, ecólogos em geral evitam focar estudos em áreas urbanas (Picket, et al, 1994).

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Mesmo a literatura técnica trata a ecologia urbana sobretudo como a ecologia de espécies não humanas habitando as cidades. Certamente há muito interesse científico no estudo das espécies que conseguiram se adaptar às cidades. Entretanto, é chegado o momento para que os ecólogos submetam sua própria espécie às mesmas análises que foram reservadas a outros organismos com os quais dividimos o planeta. Humanos criam cidades, logo, são a espécie-chave em ecossistemas urbanos, dominantes em termos de fluxo de energia e biomassa animal (Rees, 1997).

Ecossistemas urbanos podem ser estudados sob dois enfoques. Por um viés ecossistêmico, se estudam fluxos de matéria e energia, priorizando-se a magnitude e controle de fluxos de nutrientes, toxinas, resíduos e energia nos sistemas.

A segunda abordagem metodológica é focada nas partes do mosaico urbano. A geração do mosaico, via interação e performance dos organismos, ou pela interação e comportamento dos vários segmentos sociais e instituições. Para este paradigma, interessa compreender as causas, estruturas e mudanças de padrões espaciais, e os processos que são afetados pelas dinâmicas espaciais. A pesquisa em ecologia urbana pode combinar essas duas abordagens, gerando mais conhecimento (PIckett, et al, 1997.)

A lacuna de conhecimentos sobre ecologia urbana: 1) priva a ecologia básica do entendimento da mais disseminada e extremada forma de intervenção humana sobre a biosfera; 2) impossibilita à ecologia aplicada o acesso a opções de gestão nos núcleos urbanos; 3) limita a capacidade de prover aos cidadãos mais qualidade de vida, saúde e bem estar. Processos sociais, culturais, e econômicos devem ser relacionados com processos biológicos e físicos, num esforço de compreensão de áreas urbanas como sistemas integrados (Pickett, 1997).

A ecologia urbana necessita de conceitos integrados, para os ecossistemas urbanos, capazes de satisfazer cientistas humanos e naturais. A questão é: como adicionar humanos aos modelos ecológicos usados para entender ecossistemas urbanos? O conceito de ecossistema pode ser usado como base conceitual, mas atributos sociais específicos de seres humanos precisam ser adicionados. Conhecimentos e retroalimentação entre os componentes naturais e humanos dos ecossistemas urbanos são atributos fundamentais para o surgimento de modelos de estudo integrados (Pickett, et al, 1997).

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No que tange à ecologia urbana, algumas questões têm emergido e precisam ser respondidas. Entre elas: “qual é a ligação entre câmbios sociais (mudanças na renda ou porcentagem de pessoas empregadas em um bairro) e características ambientais desse espaço (estrutura da vegetação, erosão do solo, qualidade do ar, etc)”. E ainda: quais são as relações entre os diferentes tipos de uso do solo (agrícola, residencial) e a extensão, distribuição, estrutura, diversidade de espécies, e taxas de regeneração, crescimento e mortalidade da vegetação em dado período de tempo? (Grove e Burch, 1997). Também Grimm (et al, 2004) destaca a escassez de estudos sobre ecossistemas urbanos, todavia evidenciando que esses sistemas possuem uma “vantagem” em relação aos demais. Geralmente, em áreas urbanas, há uma abundância de dados coletados por numerosas agências, embora não sob um paradigma ecológico.

Essa riqueza de dados é tremendamente importante, e deve ser analisada a partir de um quadro conceitual sócio-ecológico. É impossível promover estudos sobre ecossistemas urbanos sem a inclusão de variáveis sociais, além das variáveis ambientais. (Picket et al, 2004). A inclusão de variáveis de outros campos científicos nos leva seguinte questão: em que extensão e de que maneiras os padrões e processos em curso nos sistemas urbanos, para que sejam compreendidos, requerem câmbios na teoria ecológica tradicional?

Para Niemela (1999), os processos que ocorrem em outros ecossistemas também acontecem nos sistemas ecológicos urbanos. Portanto, não haveria necessidade de uma teoria distinta para a ecologia urbana. As teorias da biogeografia de ilhas, da metapopulação e a hipótese da perturbação intermédia seriam suficientes para estudos ecológicos em cenários urbanos.

Por exemplo, Klausnitzer (in Niemela, 1999) descreve vários exemplos de uma correlação positiva entre a riqueza de espécies e a área da parcela urbana estudada, como prevê a teoria biogeográfica de ilhas, isto é, aumento do número de espécies proporcional ao aumento das áreas estudadas. Para estudos ecológicos nas cidades as teorias citadas por Niemela certamente são de grande validade. Mas se o foco é a ecologia das cidades, ecossistemas dominados por primatas complexos, onde dinâmicas ambientais estão inexoravelmente inter-relacionadas a dinâmicas socioeconômicas, políticas e culturais, os resultados das investigações nem sempre estarão em consonância com as teorias.

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Por exemplo, em nossa pesquisa sobre a vegetação de quintais da cidade de Sarandi (relatada no capítulo 2), encontramos uma maior riqueza de espécies em um bairro cuja área média dos quintais era de pouco mais de 100 m 2, e a menor riqueza, no bairro cujos quintais tinham área de 264 m2 em média.

Adicionar ou não humanos ao estudo de ecossistemas é na verdade uma questão irrelevante. De fato, a influência humana se estende por toda a biosfera, e quiçá sequer exista um ecossistema realmente prístino, a salvo de alguma influência humana (poluição ou introdução de espécies exóticas, por exemplo). Por outro lado, simplesmente introduzir humanos como organismos componentes dos ecossistemas e estudá-los meramente a partir de características como sua densidade populacional não é incorreto, mas, certamente, inadequado. Tal enfoque é pobre, porque desconsidera nossas características sociais e culturais (Picket, et al, 1997).

A respeito dos ecossistemas urbanos, é fundamental examinar como dinâmicas biológicas e mecanismos de alocação social tais como intercâmbios econômicos, autoridade, tradições, e conhecimento afetam a distribuição de recursos como energia, materiais, nutrientes, população, informação genética e não genética, trabalho, capital,

organizações, crenças e mitos (May, 2004).

Somos criaturas sociais com muitas capacidades de manipulação do ambiente e adaptação por aprendizagem. Erigimos instituições com enormes subsídios energéticos que nos permitem uma vasta alteração da natureza. Essas características humanas, geralmente estudadas por sociólogos, precisam ser levadas em conta para a compreensão dos ecossistemas urbanos (Pickett, et al, 1997).

Dada a presença e impactos dos humanos não apenas em ecossistemas urbanos, mas em toda a biosfera, necessitamos de uma mudança de mentalidades. E os ecossistemas urbanos, devido às evidentes influências de pessoas, instituições e ambiente construído, são os melhores laboratórios para se examinar possíveis refinamentos da teoria ecológica (Grimm et al, 2004).

Todas as espécies sociais são caracterizadas por possuírem vários níveis de padrões e processos de diferenciação social (Wilson, 1980). O conceito de diferenciação social é importante para compor abordagens metodológicas de estudos de ecossistemas urbanos

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porque esse fator afeta a alocação de recursos críticos (naturais, socioeconômicos e culturais). Deste modo, não se pode compreender a composição de fauna ou flora de uma área urbana sem se conhecer a composição social desse espaço (Grove e Burch, 1997).

Processos e padrões no comportamento de populações urbanas estão profundamente ligados a pressões diretas pela exploração de recursos naturais, respondendo, direta ou indiretamente, por impactos como poluição atmosférica ou introdução de espécies exóticas nocivas. Tais ligações são outra forte motivação para a integração das ciências sociais e ambientais em práticas de gestão dos ecossistemas urbanos.

Para se compreender as mudanças que nós perpetramos na paisagem, é necessário recorrermos à sociologia. Há uma hierarquia opera nas sociedades humanas: renda, conhecimento, status, território, e poder. Alguns grupos têm mais acesso a esses recursos do que outros, o que provoca uma diferenciação espacial conspícua. Tal como os mosaicos naturais afetam a geração, fluxo e concentração de recursos em uma dada região, o mesmo ocorre com os ecossistemas urbanos.

Entretanto, uma confusão comum entre pesquisadores das ciências naturais que não estudam pessoas ou outras espécies sociais é a afirmação de que mensurações de comunidades humanas são muito difíceis ou mesmo impossíveis. Na verdade as dificuldades estão ligadas mais à complexidade das questões levantadas do que aos fenômenos mensurados. Muitos estudos de ecossistemas não humanos possuem questões teóricas que requerem apenas medições simples, elementares, e nos ecossistemas humanos, frequentemente dados diversos possuem acurácia elevada, e revelam facetas importantes desses ecossistemas. (Grove e Burch, 1997).

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