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Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Clarice Lispector

“...veio afinal o grande choro seco, choro mudo sem som algum até para ela
mesma, aquele que ela não havia adivinhado, aquele que não quisera jamais e não
previra – sacudida como a árvore forte que é mais profundamente abalada que
a árvore frágil...”

“...faz de conta que tudo que tinha não era faz de conta...”

“...embora de olhos secos, o coração estava molhado (...) mas nada se passara
dizível em palavras escritas ou faladas (...) o que não soubesse ou não pudesse
dizer, escrevia e lhe daria o papel mudamente – mas dessa vez não havia sequer
o que contar.”

“apelara histericamente para tantos sentimentos contraditórios e violentos que


o sentimento libertador terminara desprendendo-a da rede, na sua ignorância
animal ela não sabia sequer como,”

“bonita? Não, mulher...”

“...com o perfume de algum modo intensificava o que quer que ela era e por isso
não podia usar perfumes que a contradiziam: perfumar-se era de uma
sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas
aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse um mínimo de
conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso
como húmus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas-professoras:
porque ele era seu, era ela já que para Lóri perfumar-se era um ato secreto e
quase religioso...”

“...embora ela mesma não soubesse ao certo que idéia fazia de ‘ser
protegida’: teria, por acaso, o desejo infantil de ter tudo mas sem a
ansiedade de dever dar algo em troca? Proteção seria presença? (...) ser
tão protegida a ponto de não recear ser livre: pois suas fugidas de
liberdade teria sempre para onde voltar...”

“...E o seu amor que era agora impossível - que era seco como a febre
de quem não transpira era amor sem ópio nem morfina. E ‘eu te amo’ era
uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. (...) ‘Eu vos amo,
pessoas’, era a frase impossível. (...) Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de
lágrima nem suor. Sal nenhum. Só uma doçura pesada...”

“Sensível? Não se sente nada. Senão esta dura falta de ópio que amenize.
Quero que isto que é intolerável continue porque quero a eternidade. (...) Lóri
não percebe que o tremor é seu, como não percebera que aquilo que a queimava
não era o fim da tarde encalorada, e sim o seu calor humano. Ela só percebe
que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não
suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos
se liquefaz em duas lágrimas.
E enfim o céu se branda“.

“ela amava o Nada. A consciência de sua permanente queda humana a levada do


amor ao Nada. E aquelas quedas – como as de Cristo que várias vezes caiu ao
peso da cruz – e aquelas quedas é que começavam a fazer sua vida.”

“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se
de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca
morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de
inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não
tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo
o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer
muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha
medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem
nome: basta chamá-lo e acerta o seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez
chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-
casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o
seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está
relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de
doçura do que é isto pela primeira vez“.

“...O coração tem que se apresentar em diante do Nada sozinho e sozinho bater
em silêncio de uma taquicardia nas trevas.”

“Dissera pouco mas ele, pela atenção que lhe dera, parecia ter ouvido além do
que ela contara...”
“ – É que eu não queria...não queria me casar, queria certo tipo de liberdade que
lá não seria possível sem escândalo...”

“ – Não foram propriamente amantes porque eu não os amava.”

“Sou mulher de cidade grande.”

“ – Você é das que precisam de garantia. Quer saber como eu sou para me
aceitar? Vou me fazer conhecer melhor por você, disse com ironia. Olhe, tenho
uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas
coisas de que eu me lembre. Sou paciente mas profundamente colérico, como a
maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque
eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se
parecem no fundo comigo. Nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, se
as ofensas saem da minha cabeça como se nunca nela tivessem entrado? (...)
Tenho uma paz profunda, continuou ele, somente porque ela é profunda e não
pode sequer ser atingida por mim mesmo. Se fosse alcançável por mim, eu não
teria um minuto de paz. Quanto à minha paz superficial, ela é uma alusão à
verdadeira paz. Outra coisa que esqueci é que há outra alusão em mim – a do
mundo grande e aberto.”

“O melhor modo de despistar é dizer a verdade.”

“Mas sabia que era ambiciosa: desprezaria o sucesso fácil e quereria, mesmo
com medo, subir cada vez mais alto ou descer cada vez mais baixo.”

“ – Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus minha


extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.”

“ Descansou um pouco de ser.”

“ Não. Ninguém lhe daria. Tinha de ser ela própria a procurar ter.”

“ Então iria experimentar o mundo sozinha para ver como era.”

“Aí estava o mar, o mais ininteligível das existências não-humanas. E ali estava
a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera
um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres
onde circulava o sangue. Ela e o mar.”

“...como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto...”

“Ela é a amante que não teme pois sabe que terá tudo de novo.”