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1904 - José da Silva Picão - Através dos Campos

1904 - José da Silva Picão - Através dos Campos

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Versão OCR - Esta obra, cuja reprodução é a da segunda edição, foi elaborada cerca de 40 anos antes desta data (1947). A sua primeira impressão foi saindo em folhetins de um jornal elvense, uma vez que o autor era de Santa Eulália, freguesia de Elvas. Depois, foi editado pela primeira vez entre 1903-1095 sob a responsabilidade de António José Torres de Carvalho. Rapidamente esta edição se esgotou, havendo a necessidade de se fazer esta segunda. A segunda edição contou com a participação de João Corrêa d Oliveira no Prefácio, de Domingos Lavadinho na Bio-Bibliografia do autor e de José Nunes Tierno da Silva (editor) na Introdução.
Versão OCR - Esta obra, cuja reprodução é a da segunda edição, foi elaborada cerca de 40 anos antes desta data (1947). A sua primeira impressão foi saindo em folhetins de um jornal elvense, uma vez que o autor era de Santa Eulália, freguesia de Elvas. Depois, foi editado pela primeira vez entre 1903-1095 sob a responsabilidade de António José Torres de Carvalho. Rapidamente esta edição se esgotou, havendo a necessidade de se fazer esta segunda. A segunda edição contou com a participação de João Corrêa d Oliveira no Prefácio, de Domingos Lavadinho na Bio-Bibliografia do autor e de José Nunes Tierno da Silva (editor) na Introdução.

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J OSÉ

DA SILVA PI cA O
AT RA VÉS
DOS
CAMPOS
JOdt da <SIlva 'P/CãO
JOS É DA S I LV A P ICÃO
ATRAVÉS
DO S
CAMPOS
U SO S E COST UM ES A GRI COL O.AL ENT EJ A NOS
(CONCELHO DE ELVAS)
2.° EDIÇÃO
LISBOA
NEO(: RAV UH:A, LIMI 'I' .\ D A
)
Travessa da Oliveira (à Estrêla), G
1 9 ~ 7
À G U I S A D E INTROD UÇÃO
f}1111 EU caro Dr. Ti erno da Silva: - Confesso-Lhe: - mio sei bem por qae
I I L tl tulos, (afora os que me empresta o seu solido e velho afect o. e o
consequente desej o ele me ver aqui) eu dou. comigo na larga por-
tada deste sério e belo livro. em fanções de reposteiro-mor, Confesso-the,
ainda e mai s llma l)ez : - afiqura-se-me um [eio acto de usurpação aceitar
um p 0 8 t O ~ p or direito pert encente a outrem que, p or mérito prôprio, mais o
merecesse e com eLe melhor se hou vesse. Ma» confesso-lhe, tam bém com a
mesma franqueza: - desvaneci dos 08 men·s escrúpulos pelo imperati vo da
sua insistência, dá-me uuz tríplice prazer este cargo de introdut or em que a
sua amizade me investiu.
Em p rimeiro lugar, o ensejo de poder p restar homenag em a quem, como
o Autor desta obra, soube di gnificar a nobre arte de escrever p elo bom. uso
que dela [ez , e p ara o mell gosto de a dmirar lima consolaç ão enorme,
Em sequndo, desoanece-me a p ossibilidade de colaborar, (ainda que t ão
pobre e apaqadamente) num acto de reparação mental, comOé o desta cari-
nhosa ex umaçào ás inércias do esquecimento e111 que a inqratid ão dos vivos
o havia sep ultado, de nm LivI'O que, pela riqueza da su a substância e pela
sagestividade da saa for ma, nào so tem todo o direito a ser- lido pelos que o
ignorarem e relido p elos que j á o conhecem, ma s, ainda e também , todos as
condições p ara continuar a ser, pela constância da l ei tura, nmzr {orça
actuante e fecunda de cultu ra e de amor ri Terra, Em terceiro Iuqar, (este t«
de natureza pessoal e subjectiva), o f alar deste Livro r epresent a para mim
um retorno p elos atalhos da memória a tempos di stantes, que as primeiras
saudades da velh ice começam a redourar de pungente encanto . " "
Eu lhe conto :
/{"'\ OBRARr1. o cabo dos vin te a nos - verdes e seicosos vi nte anos, meninos
U e moços, amimados pelos afag os mat ernais dessa suavissima paisaq eni
da beira- Voug a que os trouxera aos peit os e ao colo _ qua ndo 08 a8a1'e8
de urna mal-encetada burocracia atiraram comigo, de 8urp resa, par a as
extremas do Alto Alentejo, rás-cée das Espanhas.
O Alentejo I . . .
Para a minlia imaqinaç ão de beirão confi nado nos horizontes limi tados
da sua p rooincia ni ontezinha, e nesses bons t empos , em que a velocidade
desfloradora do s transportes modernos lido havia, ainda, obli ter ado a
noçào e o mistério das distâncias, es ta palavra sugeria o quer que fosse de
aventura - de tal sorte ela soava dentro de mim. a l onge. a [im-de-mundo . . ,
v
Conservo, viva e chocante como se {ora de ontem, a lembrança da emoção
com que desgarrei da terra e dos aluoroços de iniciação em que fiz a pri-
meira viagem para lã.-começos de um est nante e atriçareiro Lunlio, ao longo
de um comprido dia oistoeamonte amanhecido por ent re os viços primaveris
do meu r eflorido rincão e desoladamente anoitecido 1108 longes enigmáticos
da savana. por ent re searas já retisnadas p elo 8 0 l ~ campinas desertas de
povoado e e:'!I:angues, de cor, a caminho de Eloae.
Ainda me sangra nos olhos e na alma o exaspero violento desse cre-
p úscuto 1 Aos seus reverberas de {ogo entrei as portas da cidade. p or onde.
já noite. diambulei , esbarrando a cada esquina de ruela esgalg ada. já mer-
gulhada na sombra. com os espect roe do Passado de que as sombras
enchiam o vel ho burgo prenhe de História.
Reoejo-me, mais tarde. por horas altas de uma ardente velada de «t r a -
vessia», l ZO t erraço alcandorado do hot elzit o em que me Iiospedei .. e revivo a
curiosidade qua8e dolorosa de min úcias com que os meus olhos excitados e
inson es perscrutaram a novidade est ranha de tudo o qu e me rode aoa i-s desde O
casari o apinhoado e miudinho do mumificado burgo mourisco, est orceqado
pelo abraço negro das muralhas. lodo caiado de um branco que sugeria albor-
nozes. dentro da noite aluarada e branca. atê 0.'3 conf ins vagos da linha do
horiz onte. cortando em. r ecta o cé u translü cido, como as do mar-alto . . .
Tonto de fadiga. de calma. de luminosidade, de amplidão. ali mesmo
adormeci sob a mais desconsertante das iutpre sôes : - a de nas curtae haras
de um dia de j ornada. ndo me haver apenas deslocado UUla centena de léguas
110 espaço, mas dado. também , o salto de atquus meses no t empo. tal a sen-
saçào violent a de outono com. que a atn areidão dos campos, a sequidão do
ar. haviam agredido os meu.'3 sentidos. pela tarde {ora. e a noite, e l l t â o ~
completava. enooloendo-tne no estagnamento cá lido da sua flvida agonia. paz'
sobre tanta coisa llova em qu e o meu olhar se est reava.
Essa sensação. agravou-se no dia seguin/e. quando, ao desabrochar do
sol em brasa por sobre lon jurae descampadas de messes ourescentee ou de lO
charnecas adustas. [erre teadas pelo ritue amargo da esterilidade. atra vessei.
balaceando-me num churri ão de molas de aziulio, ao cho uto sonolento de uns
corpulentos muares. os «barros» d e Elvas. caminho de Campo Moior.
Tal jornada [oi, por assim diz er. o meu primeiro corpo-a-corpo de
homem do Norte e do Vale com o Sul e a Planíci e.
Oh 1 E como tudo o que eu ia vendo era estranhamente hostil ao senti-
VI
..
menta da natureza arreigado dentro de mim pela t erra em que me criara-
com seus horizontes fechados cm abraços sobre nós; sua qrandeza suave de
montanhas .. a do çura idIlica dos seus vales ; a gama infinita e aleqre das
suas tintas; a variedade continua das suas perspecti va s; a poesia misterioea
das suas alfombras, das suas levadas e dos seus rios . . .
A toda a roda, por entre farrapos de mato arborescente, de esteoas vir-
gens, de olioedos e cliaparrais, estiravam-se léguas e léguas de t erras de
amanho e de pousio, em chão raso. Um leve encrespar de colinas t entava,
aqui, mai.Q além, illtumecer a crosta do 8010; mas breve abatia como vagas
quebradas. na planura te imosa, nivelando-se e empastando-se com a distdn-
cia nas pi nceladas indecisas dos Últimos planos,
O quadro que me rodeava era 'em d úoida grandioso; mas pobre de
g raça e de ritmo, de pormenores, de variedade e de cor, para além dos
amarelos do sol e das ervagens secas, do verde cin zento dos olivedos e dos
azinhais, do azul cril e envolvente da at mos fera, Outros t ons, se os havia ,
perdiam-se. Iundidos na cenograf ia baça dos longes.
Lés a lés do horiz on te, o desp ovoado alastrava. Aqui, além, emerqiom
da lisura obstinada do solo, projectando- se no infinito, as silhuetas rara s
e extáticae de pastores, contorno» t riang ulares de «medas», o volume
branco de algum «monte», em cujos tijol os ru bros a luz se enlabaredava ,
Esses traços e esses volumes, ganhavam relevos de itnpreuisto, em que a
vista repousaoa momeut áneamente, -para logo tombar, desamparada, nos
prainos douradas da estepa. Mourej aoa-ee esforçadamente no pelejar das
«assefas», «folhas» além, sob a chicotada candente da Iuz: Um silêncio a rdente,
ofegante. pesava sobre as coisas, apenas cortado, aqui. alem, por u m choca-
lhar de boiada inoisioel, o vo zei rar longinquo de alquma «camarada» de
ceifeiros, o ruido de um moinho de vento, mooendo-se com esforço li passagell1
do traoeesio, o matraquear de uma cegonha, desenhando {u,g id iae sombras de
asae sobre {[ palidez da imensa e IÜJa paisagem sem sombras . . .
Doiam-me os olhos, de t anto olhal' aquela oastid ão, se m um monte, 11111
colo de nerdura, um regaço de à[Jua.9 em que pousarem e descansarem, até
qu e, manhã jú alta, a vi/azinha fronteiriça. 81l1'9iu, enf im ! do er mo.
Revejo-a com os olhos desgostosos dessa hora: -li brotar do descampado
deserto de gcntes e mal-trapido de vegetações e li acolher-me, p or detrás do
seu casteli to em ruinas e das 8ua8 muralhas escalauradus de f ortaleza in útil,
com o mesmo e vetusto ar de desconfiança com que, havia seculos, escoldri-
níunsa 08 plainas incertos de Castela . . .
Ali me destinaca. Por ali fiquei.
Espéci e de «rati nho» sentiment al, sem «guantes» de cana nezn ceitoira
afiada nos dedos, mas de p ena na mào e odient o manga de alpaca no braço.
ali fiquei - desenraizado e triste J
Em cada dia que passava, mais se acentuava dentro de mim. entrado
de noetalqia, o apego aos lunges do meu vergel natal, cujo Iiumos se diria ir
secando e esf'arelando nas rai zes profundas do meu ser como a terra dos
vivei ros seca e se esfarela nas rai zes das árvores que se t reeplantam, long e
do Iuunos onde brotaram . . .

A minha volta. exacerbando-se de agrestia em agressividade, com os
desesperos do estio que a morti ficava, sempre. aquela desamparada vas·
t idâo dos horizontes ; aquela monotonia obsedia11te da planura e suas
vastas per sp ectivas sem paisagem. cenoqrafadas a amarelos de searas
e azul de céus : aqueles intermináveis de sdobramentos de argila oermetlia
e enxuta, poluorenta, sangrando á.1J mordeduras inclementes do sol, sem um
entreluzir de àquae, que lhe matasse a sede ; aquela lividez h ôstil dos ras-
tollios, de gumes em riste ; aquela carência de ramaqeus, reduzidas.
limitadas ao verde cinzento ou metálico dos olivedos, do s sobreiros, do
chaparrais retorcidos; aquele len t o rolar. p or cima das cois as atónitas .
das horas rutilas de calma ou cios tetarqos of egantes das noites requeima.
das ; aqueles abismados silêncios de morte. que constantemente p esavam
sobre a aflitiva imobilidade dos campos _ continuaram a desorqanizar-me
oS)lerv08. A t al pont o, meu Amigo. que, acicatado por uma saudade. tornada
pela solidão de puro ressentiment o da alma em anq úetia do próprio sang ue,
[ui estendendo das coisas da natureza à natureza das criatur as, que me
rodeavam. scm me acolherem. um tal ressaibo de estranheza, de descon-
fi ança. de desentendimento, que. pOI' um tris, me lui o ia incompatibilizando
com tudo e com todos : - terra e gente . clima e costumes.
B roi, então. que conheci este Livro.
Li-o ávidamen te. nas minhas horas de madorna,
O Autor vivia ali perto, na aldeia de Santa Eulá lia, Não o conheci.
Nu nca pelo seu braço seguro e rijo. passeei at ravés dos campos, Aj as supo-
nho que, melhor do que conhecê-lo, a leitura da sua obra teve o concilio
de intervir apasiquadorameute lI O mal-entendido esboçado entre mim e o
meio IlOVO. E que, desentranhando li minha sensibilidade a alma das coisa»,
até ai só conhecidas de fora e por fora. a sua arte in sinuou-me, com o poder
VlIl

de simpatia e de comunicabilidade do seu próprio entusiasmo, ndo so ao
longo DIas na intimidade de tudo O que de caracterts tico, d e ttpi co, de ort-
gi.nal, d e pintores co, de de bel o, de inspirador, existe sobre o solo alen-
t ejano. Apresent ou-me a Prouincia ; p ôs-me em contacto co m a alma da sua
g ente, tã o acolhedo ra e lhana, desde que ultrapassemos, p el a confiança, a
crosta d e ret raimento com. que se defende de estran hos .. f ez -me se ntir, em
t oda aSIla plenitude, a {Jeól"{Ji ca épica do ."" e..fo rço aqrlcola, ii [Ior da
g leb a dura e avar a .. a p oesia semi-poqã das s uas das .suas t r adi-
ções, das suas [est as, da s ua religiosidade auete ra, quase despida de cu lto
externo " desvendou-me, faz endo-ma senti r, a beleza maq es t àtica,
solene. da natureza que me envolvia e ate. ali, meu s ol hos enamorados
da doçura li rica de nm vale r ibeirinho de Lafôee, nào haviam sabido deei·
[ rar e entender .. .
Foi, es te Livro. enf im, que . revelando-me na profundidade d a s ua s ubs-
tância ínt ima, um A lentejo, que eu apenas conhecera até ali c/n e:'l; te nsào,
ndo so me reconciliou com ele, como m.e ensinou a s enti-lo, e a querer-Ihe
como V. sabe que hoje lhe quero.
Como o ê, bom Amig o, este r eevoca r eetitimental de um trecho da vida
que paesou, com ( IS suas horas de emocionismo e todas as record a ções de
mocida de que ele bastaria, só por si, para justificar o g rande p ra-
zer de ( alar do «A t raves dos Campos».
Mais do que um simp les pra zer, isso seria a alegria de pagar uma
divida em a berto.
N ão carece, porem, est a bela ob ra de qualque r es t imulo de lndole afec-
tiva, pa ra que, em plena isen çào cr it ica, se fa le del a - e se {ale com entu-
siástico l ou vor.
Acabo de a r eler. Reuerefico qlle ela se nos impõe pelo que em si 11leSlllU
contem, e ndo pel o que p ossa de suger ir . no8 de estranho ao seu contendo.
C
O.MO etnográficas, iniciado.r
das curiosidades da inteliq ênci a e dos sentidos nos r ecess os m al S
intimas de lima região e do agreg ado r ácico que o h abita, não conheço entre
nós nada que o igliale.
A maneira como zr os r evela o Alentej o, ê perfei ta, cabal.
Não ll OS f az, es quecer, clar amente, de que entre outros. um genial escr i-
t or - o qrande e esquecido Fialho - j á nos dera des se A lentejo, ep isódios e
[X
páginas sup remas. Fi alho, porem . fê-lo fragmentariamente. eruptioatnente,
fo ra de qualquer unida de de plano. em ampliações de exaltação literária,
que, por vez es, deformam p ela ânsia t ras cenden t e da beleza plástica, a
exacta e media t a obj ectividade das coisas. Silva Picão, ao con t ra r io, ci ng e. se
li «ve rdade» limitad a dos t emas; e t rata-os neio apenas com a ex a t idão
objectiva de uma obser vação escr up ulos a e de um conh ecimento p erfeito,
minude nte. mas ainda com aquele sentimento de so lidariezante s imp a tia . d e
ent er necimento a fecuuo , que 8Ó o amaI às coisa» descritas por si mesmas e
ndc p elo que possam sugerir, pode comunicar à pena de quem a s descreoe,
08 mot ioos t ranetaçanoe que. no sobe r bo àq ua-ofr t ista de «08 Cei fe i ros»,
nà o passaoam, COIll O qnaiequer out ro s, d e mer08 ensejos tematicos sobre que
a ,sua desbordante imaq ina ç ão pt âsüca se expandia e complicava em neuro-
ses de es t ilo, sào para Silva Pic ão, de t emperamento mais realista, sereno
e concent rado, nÚo um «meio», mas um «f i m», a atingir ; n ào um pret exto
para sinfo niza r e orq ues t r ar pala vras c di vagações -ma. sim «factos» que,
acima de tudo. pret ende historiar, descrever e Enquanto
aquele - estet a-lavr ador - p ós os aesuntoe ao serviço da literatura. este -
la vrador - artista - p ô . a linguag em e a a r te ele bem a traballiar ao serviço
dos as suntos. O que [undantentaltnente lh e interessa ti moetrar- noe a 811a
proolncia, as [eicóes caracte r leticae du sua fisionomia, a [enomoloqia tipica
e r epresentativa da sua «ma nei ra d e ser» como unidade colectiva, [ocaudo-a
e reproduz indo-u, p ormen or a pormenor, traço a t raço.
Merc ê des se intento, a centuadamente etaq nost ico , a _sua obra result ou,
1111te.'I de mais nada e acima d e t ud o, repositôrio inesq otá oet de informes
realistae e práticos sobre li t erra e a vida transtaqanae, em t odo!'; 0 8 .seuf'i:
aspectos: -pais ayistico, social, agrário, agricolo, [olctàrico, domestico.
ético, etc . Não [allta um p ormen or. Conhece tudo o que nos conta, como o
dono da casa lhe conhece os cantos, ao mO.'Jtra-la ao uindiço que cheg a,
á vido de l he esoicerar os recessos mai« intimas .. .
Cem p or cento alentejano, aferrado ti terra, ti {omitia e ci tradicão
étnicas pelos laços gregários do e da vocaçào. S ilva Pi c ão r ealiz ou
o tipo ideal do camponês d e elite. consciente, artstocratizado p ela intelig ência ,
a quem nil o é estranho, em teoria e exercici o, nenhum dos sent imento», d as
tendências temp erament ais, d os usos. d os costumes, d ue actividades, das
alegrias e das dores , de que, e para que vive a sua casta. E dai , a domi-
nant e imprese ào que. a o lê-lo, t emos de quase o ve l'/ll.Os [ieicamente p or
de t rás de tudo o que 110 S relata - patrão-laorador, p erc orrendo co nosco, de
x
j aleca e chapéú rodado, sobre o seu. cavalo, a e:densào das «Herdadess :
maioral de safões e samarra, p or entre 08 r ebanhos e as manadas dos
«Morüados» ; ceifeiro -abost e/ado de p oj eiras e suor-es, to rso ao sol, avental
de pele apresilliado à cintura, f oice reluz ent e nos dedos, se revive conosco a
epopeia esf orçada e obscura de «Os Rat inhos». Ór1 em.oçâo directa que nos
dá das coisa s resulta nd c da sua observação exterior, ma s do profundo e
vivido conhecimento que delas tem .
No f ondo ancestral, atávico, do Seu ser, se ele nào [oi tu do aquilo - de
pastor a patrão _ sabia, pelo men os. como se g oza Oll sofre, (la s ê-lo. Sabia-o
como homem e sabia-o como Artista, que O era : _ autênticamente e comple-
xamente: -s- p intor de p ulso. quando nos dá a pinceladas la rgas o desenho e
a cor dos cenários em que a acçcio viv a se mouimenta ; quando
em cinseladuras de carne, cotistroi o vulto das figuras; compositor,
quando . uqere as mÚsicas erradias dos campos, desde o mat raquia r momj·
t OIlO das cegonh as , às melodias do trauessio na8 velas dos moinhos ; das
rapsôdiae pagàs das [estas e das t ouradas ao chocalhar orquestrado das
boiadas . /la tnisteri oea invisibilidade dos longes; poeta, quando viola e
entende a alma sensível das criaturas, e das coisas, para lá das apar éncias
cerradas e agrestes em que, muna s e noutras, a atina se eI1Cerl'fl .
Sim TSilva Pic âo, sem pret ensões taluez a sé -lo na acepção r equintada
do t ermo, [oi, sem duoíâa, n dc apenas um estudioso, lI1l1 monôgrafo limit ado
mas um Escritor de boa linhagem, a quem um feli z auto-didatietno conservou
t oda a f rescura original do fort e t emperamento.
Sente-se-o bem na facilidade com que o descritivo lh e corre da pena; no
p od er de comunicaçào com qne 1108 leva at rà.s de si, ao long o dos assuntos
áridos de que trat a; no senti do de equitib rio com que dimensiona as p ropor-
ções do pormenor comezinho, na mancha geral da descritivo .. no interesse
que conseque despertar e111 nós p or miuú cias de «especialidades» a que
somos est ranhos - desde os incidentes. regras e p re ceit os da lavoura , ao
qu otodiano r otineiro da exist ência domestica; dent e, aos p ormenores e:.<: aus-
tioos sobre jornas, soldadas, preç ário de {Jé ne ro.'3, etc ., li aritmética indigesta
dos nÚmeros e das conclusõ es est at ls ticas da economia rural,
Como o consegue ? Por esse poder de comunicabilidade aliciadora, qu e
é a caracteristica esse ncial de t odo o grande Escritor. Pelo milagre da sua
prosa. Ê que dá gosto lê-la' Isenta ele qu alquer afectação. com unica tiva.
arejada. permeável, [Iuente, sempre singela. mas nunca descuidada, ajus-
ta-s e, envolve ou penetra os assuntos. com a ani mada leueza de uma larga
Xl
conversa, ri ca de ensinamentos, de novidades, e, dai , de interesse para a
curiosidade do leitor. I sto, quando a substância t emática é, por força das
circunstância s, de car ácter mera mente dis sertativo OlI monoqráf'ico : mas.
semp re que os moti vos se alarqam, e 110S descreve certos aspectos da nata-
re:a, o pi to I esco colorido de certos costumes ou fainas cczno, por exemp lo
«A Vida [lOS Montes» e «08 Ratinhos», a prosa alarqa-se, tamb ém, Directa
e f á cil, aqui remordida pelo sol . alem ondulando -se como as searas .. nesta
p ágina, p icada pelo sal das expressôes regionais ; naquela, vestindo o b om
p ano da linguagem culta - sabe a t erra, cheira ao serpol e ao leit e dos m on-
tados, soa a alentejano e a português . ..
Nes tes t empos , eaz q ue a nos sa linqua e a nos sa prosa andam a r espirar
teia mal ler o «Através d os Campos» é fa z er uma cura de ares T
í/)OR tudo isto, mell A migo, e , ainda, pela boa acção que rep resenta n108-
I trar documentalmente que a vida dos n0880s campos neio é, apenas
aquele drama de seruidão espezinhada e de patronato espoli ador que o [also
r egionalismo d e uma li t eratura de neo-realiemos diriqidos anda por ai a
apregoar, a sua iniciati va de [azer ressurgir do esquecimento publicit ário
o «Atraves dos Campos», é caso para lh e dar um grande abraço 1 A hora
em q ue se letn brou: de o fa::e r, deve conta-la entre as horas mais f ecundas
da sua ex isténcia de Lain-ador-ínte íect nol.
Nem só se fertiliza a terra, lançand o nos regos da a rada 08 9 1'liOS da
semente. O Espirita e a sua herdade mais rica, que é a Literatura, t êui
também a sua lavour a e as :.mas . earas,
Cultivá-Ia é mais do que [e rtiliz.ar o solo: é f ertilizar a Vida.
EMnome das boas-letras por t uguesas -bem haja l-Amiq o.
J Oâo COrrêa d'Oliveira
-
1 o

s e d a s

1 I v a
p

1 c - a o

B IO -B IBL IOGRAF IA
C
OM António Tomás Pires - contemporâneo e amigo de J ose Leite de
Vasconcelos, Adolfo Coelho e Teófilo Braga - iniciou-ee em El vas,
al por 1880, um notável p er iodo d e actividade mental 110 campo da
Etnoqrafia, como outro ndo se revelou , em pequenos meios provincianos .
Toarás Pires { Di um grande e incansável rebuscador das Ilossas riquezas
f ol clóricas qu e, como escreve Leite de Vascollce[os, «p ercorreu a maior p arte
dos sectores da Etnografia». Conhecendo que duas literatu ras diferentes
f lorescem lado a lado - a literatura oral e a literatura escrita, a dos si mp les
e a dos letrados - decotou-se pacientement e ti coordenação met ódica das ca n-
ções e rimas pop ulares, das adivinhas e compara ções, dos adàqios, rifões e
anexlns, dos costumes e da paremioloqia, das cantiqas hist ôricae e p oliticas,
dos r omances e das dos contos e das r imas e jogos infa ntis, enf'im,
de tantas admiráveis facetas do géner o, que nào se descr evem em curt as
finitas. Foi um emêrito trabalhador , que nos legou obra llotà vel- e mon u-
mental a Slla colecçào de 10.600 Ca ntos Popula r es Por-tug ues es - e que teve
a seu lado, embora em condição modesta e sem r enome, os escritores Vito -
rino d e Almada e Soeiro de Brito. a o produzirem os apreci ánein estudos
Reque bros ou r ema t es de a lgumas modas de r oda com a músi ca respectiva
e Di tados tópicos a len teja nos.
O certo é qu e em Elvas se manteve firme o cult o p elas i nvestigações
etnogr á f icas e assim nos s urgiu mais t arde, de f orma origi nal e itn p r eoi sta,
o aut or do Através dos Campos.
Alas a esti rpe nào f eneceu, pois que ainda agora aparece J osé A lves da
Capela e Silva - beir ão de nasciment o e elvense por adaptação - com 08 seus
brilhant es t rabalhos Ga nhar ias e A Linguagem rústica no concelho de Elvas.
José da Silva Picão, discipulo inconcus80 da mesma escola, ( ai pr ofundo
admirado r d o eru dito Tomás Pires . Prooa-o a car ta inédita, que a sequir
transcrevemos , em homenaqem aos dois ilustres prôceres :
«Ex .
lH O
Snr . Dominqos Lauadinh o, Consta-me que amanhã se ef f ect uará
cidade uma mani festação de homenagem á memoria do l lOS S O saudoso
Amigo António Th omaz Pires . Este [a ct o, a que dever as me associo em
csp i r ito, como preito devido à memoria de um dos mais ilustres elvenses da
nos sa época, veio recordar-me outro que ligando-se com aquele na idei a pelo
menos - t raduz um descuido i mper doavel da minha parte, posto não f osse,
COUlO nã o f oi, intencional. Refiro-me ti: fal ta de resp osta minha, por eecript o,
ao postal, e li oro, que V. Ex:" me enviou li a t empos, para eu me associar as
homenag ens p roj ectadas em h onra do q rand e cidad ão, Asseguro p orém a
XlI I
V. E.\:."que esse mell descuido, deg enerado dep ois em. olvido tempor ário, nem
p or sombr as significa mingu a de consideração p or V. Ex» Oll menosprezo
pela memoria de Antonio T'h otnoz Pires, com quem privei durante muitos
an08 e a cuj a memoria sou q rot ieeimo. O meu alludido esquecimento, derivou
sim de ser criatura dietrahida , algo abstrat a, cheia de affazeres e soffrendo
ao tempo de Lima pertina z doença que muito me abalou.
«Ainda a s s i m ~ Ilii o t endo p achorra para escrever , incumbi então mell
sobr inho Augusto Tello de pessoalmente comunicar a V. Ex." a minha
adli es ão ao seu 11Onr080 con ci t e, o qu e elle f ez. Eu e que faltei depois! . . .
Consequentemente, e penitenciando-me da {alta, venho remediai-a quanto
p ossi oel : na p róxima 2." [eira, zn eu sobrinho Augusto Tello irá ent req ar a
V. Ex:" a modesta verba com que desde o seu convite resolvi contr ibuir paZ'a
a obra iniciada louvavelmente por V. E:'C.
fJ
e outros cavalheiros. Pedindo
desculpa da demora subscrevo-me de V. Ex;" tu ," att » e cr ." obg. - José da
Silva Picão - Santa Eul ália 3 de Out ," de 9 14».
Jose da Silva Pic ão, filho de D. Maria Francisca da il va Lobão Tela e
de Francisco de Assis Picão, na sceu em Santa Eulá lia, ll O concelho de Eluae,
a 10 de Março de 1859 e faleceu a 18 de Maio de 1922.
Auto-didata de condição (teve de se sujeitar, [à em idade madura, a
[a zer exame de instrução p rimár ia, p ara p oder ser eleito vereador T). haoia
adquirido hábitos inveterados de leitura . Dedicava -se ao estudo dos tra tad os
agricol as e pecuários e, nas horas de remanso, nào lia, devorava as obr a s
de Vitor Hugo, Co mi/o, Baiz ac, Eça e Zola, de que p or vezes, em animada
conversa intima. citava, com a sua voz um p ouco gaguejal1te, 0 8 p eriodos
que mais o impressionavam.
Era um esp irita arguto e esclarecido. Foi lavrador e es critor. Fruto
espoutdneo do meio em que nasceu e labutou. sem preparação literária eru-
dita. p ôs-se a escrever àcel'ca da sua terra e da sua gente CODI o à- ooutade
de quem para além daquele Inundo nã o vislumbrava mais mundo e foi a 8 s i m ~
no rude contacto com a natureza e os homens que vivem à semelhança desta,
que produziu prosa fo rte e sadia. despida de gala.• postiças, mas realista e
s aborosa como géner o outra não houve em Portugal.
Depois de t er colaborado em O Elvense, com o p seudónimo de «João
Chaparro» e de lunier brilhado 110 Portugália. a l'evista monumental d e
Ricardo Severo, onde publicou alguns artigos subordinados ao titulo Etno-
g rafia do Alto Alentejo (concelho de Elvas). José da Si lva Pic ão tenta obra
XIV
de vulto e sob os aUSptCIOS edito riais do bi bli ófilo António [oeé T orres de
Caroalho lança a p úblico () li vr o A t ravés dos Campos - Usos e costumes
agr ícolo-a lenteja noa (concelho de Elvas) .
Quando a obra apareceu, em 1903. a critica [oi u llânime em tecer -lhe os
maiores elogios.
Trindade Coelho escreoia ao editor:
«Diga ao Picão qu e est á f az endo uma verdadeira obra prima, uma rea-
liseitna e completa maravilha ] Que sur preendente verdade em tudo o que ele
descreve, e a maneira como descreue I Qu e a dmi rável artista é esse h omem,
e como tudo Uz e sa i espont âneo. vivo.. abundante. colorido e cheio de pito-
resco, da Bu a pena desafectada! C ODI OH notas - t ão minuciosa s e tão pre-
ciosas - da vida r eal, positi oa, At ravés dos Campos . que abund ância de
ano tações psicológicas para o estudo da alma do Povo! Este livro não é só
sinqutariseimo /l O assunto p orque nào hã out ro que se lhe pareça sequer : e
oriqinallseimo na maneira como trata O a ssunto, Única a meu ver, que se lhe
adapta, chega ndo. debaixo deste aspect o, a ser UDt trabalho literário de
attlss imo valor 1 Qu er acreditarvl Produ-z-me emoçào absolutamente idêntica
ti que me causa a leitura dos li oros de Jlili o Diuiz, N ão sei diz er-lhe, meu
caro António Carvalho, toda a m in ha admiraç ão p or est a obra surpr een-
dente. Eis aqui um. li vro que [ica, um. li vro que os s ábios e os artistae li ão- d e
adora]' sempre com enternecimento. Já {alei no li vro ao Fi alho de A lmeida.
VOll -O procurar para lhe ralhar: se ainda IUI O O leu T»
No diário lisboet a O Popular o grande jornalista e est adis t a Mariano
de Ca rvalho classificava o estudo de [ose da Silva Pic ão «como o principal
e mais perfeito que até agora se t em escrito /10 nOS80 p ais , com respeito a
tão importante assunto».
O publicista Tude Mendes de Sousa escreve na P lebe:
«Muito têm a aprender no livro do sr. Silva Picão, aqueles que p or qual-
quer circunstancia, tenham a necessidaae de conhecer a estrut ur a intima da
lavoura alentejana e aqueles que, p or ou t ra or dem de estudos se dediquem
à investigação de costumes e tradições dominantes nest a região.»
Anos mais tarde, o escritor dr. Eduar do Pimenta r ef eria-se a J osé Picão
/l OS segui ntes termos :
«Com uma instruçào a dqui ri da na modesta escola de Santa Eulália
educou-se a si mesmo, de muito novo, cultivando a s qualidades invulgares
de observador cui dado so.
«Lacrado r e fil ho de lavrador es, lembro-me dele ainda maço montando
xv
uma eg ua preta, nascida nas manadas marcadas com o ferro de sua casa e
percorrendo a la voura atento aos menores detalhes, agasalhado lUlIn
forte capot ão, nas épocas em que os rios engl'ossam e a chuva ensopa 08
alqueives, ou de jaleca e sombrei ro nos dias em que o sol aperta e as pare-
lhas redop iam. IlDS catcadonros das eiras inundadas de est onteante luz .
«Al ais tarde, um grupo de es tudiosos, consag rados intentar-am
o árduo encargo de ensinar li grei o que ela (ora e o que ela ainda é. Cotiti-
nuaçào do a dmirável es forço do maravilhoso escritor Oliveira Martins ,
Fundara-se a Port ug ál ia. sequência natural da tentativa da «Sociedade
Ca rlos Ribeiro». Faltava o etnogra{ista com a conhecimento perfeito do
Alentejo p ara descrever a vida r ústica desta interessante proulncia,
«Silva Pic ão foi escolhido . As paginas que escreveu sào modelares de
sobriedade, rigorosa observação. COlll. um sabor popular, mas de luna ral'a
clareza e requintada elegância. i1Jais t arde O editor Antonio Carvalho, o
erudito bibli ófilu de El vas, lançou no mercado o primeiro volume da obra
celebre - At ravés doa Campos.»
j l identificacào do valor da obra encont ra-se porem no monumental
trabalho do grande mestre. dr. J . Leite de Vasconcelos, Etnografia Portu-
g uesa. onde a p aginas 282 do volume I s e lê:
«Silou Pic ão [aleceú em 1922. deixando incompleta a sua obra, de
ainda assim o editor dela. T orres de Caroalho, conseqaiu formar dois volu-
mes: I , 1903; II. 1905 ; ao t odo nove capitulas. que passam de um volume
para o outro, isto e. 1) as herdades ; 2) os «montes» (em sentido rural};
3) os mont ados : 4) pessoal d e u rna lavoura; 5) cos tu mes dos campónios;
fi) os Ratinhos ; 7) alfaia. agrí colas ; 8) searas : 9) lavour as (muito ex tens o e
sem numeração: começa a p. 11 do vai . II, e vai ate p, 100, a últ ima}»,
E acres cen ta llllma chamada:
«Prestaria valioso serviço li Etnografia quem desta obra fizesse Uln
índice metódico (d esen volvido), e outro alfab éticos
O senhor general Lacerda Machado. escritor ilustre. di z de J ose da
Si/va Picào:
«Talento espontâneo, Auto-didata, adqui riu uma cultura oa riada, que
raramente se alcança por esforço próprio. As páginas vi rgili anas do s eu
li vro Através dos Campos. sào um poema campestre, O hino triunfal da
la voura alentej ana.
«. . . POI" estas e análogas é de admirar e merece reqist o,
a circunst ância singular de tendo José da Silva Picão nascido e vivi do

XVI
no meio rural que nos descreve. nada de interessante lhe escapou a o espirita
observador. ti slla intuiç ão de etnógrafo. Os p ormenores minimos q ue relata
e define. sem aridez sempre com precis ão e inteligência, por uezes levemente
tocados de ironia. t eriam [àcitmente passado despercebidos. velados pelo
hábito. nã o só a um espirita menos observador. mas a quem não sentisse o
bucolismo que o enfeiti çaoa».
António Sardin ha tinha por José Pic ão uma {arte admiração li terári a,
aliada a uma est reit a amizade p essoal, clar ament e tradu-zida na dedicatória
da poesia Canção do espeto no lume. do li vro Quando as nascentes desper tam,
Sardinha con siderou J osé Picão, num a rtigo inserto no Diário de Lisboa
(1924), o «fundador da literatura r egion alista p ortuguesa».
E di z o escrit or :
«O seu único li vro publicado. Através dos Cam poso nunca saiu de um
circulo est reito de agricultores. na sua maioria os menos preparados para
lhe abranger a larga e admirti vel intensão. Não ri só um trabalho de et no -
graf ia - detalhado e cheio de cor . Com o s er um breviário perfeito de econo-
mia agrária d o Alto Alentejo, 9uar da tamb ém nas suas p áginas alguns d08
mais belos e crist alinos pedaços de prosa p ortuguesa nos Últimos trinta all os .
Bspressão castiça e sem requintes atormentados, borbulha como UnI fi o de
dgua na cor rente. E. brotada do convivi a imediato d o povo, por ela se ver i-
fi ca qu e h á em cada llngua um como que cl ass icis mo. que tanto é da aristo-
cracia liter ária, como da gente r ude das atdeias . . .
«Em J ose da Silva Picão ex isti a um temp eramento d e barrista sin cer o e
ínqenuo, que modela va de um sopro as suas t ocadas por ve Zes de
uma encantadora e inimitável gaucherie.
• Não possu indo o pituralismo alucinant e de Fialho de Almeida. 1108 seus
Ratinhos. J osé da S i/va Picã o conseg ue, Sem esfo rço, sob repõe-se a os Ceifei-
ros; o tema e o mesmo. pela harmonia das prop orções e ainda pelo condoido
sentido humano com que a s almas se abraçam e fundem na agonia crispada
dos rastollios , Pena é que Através dos Campos não obtivesse uma irradiaçã o
maior, porque. se na nossa t erra p alpita qualquer est remecimento regi ona-
lista. é ali qu e lhe t eremos de buscar a origem e a li ç ão, Desde a riquez a do
oocabul ário, ao movimento da [rase e li precisão das imagens. J osé da S ilva
Picão é mestre que rica - e que {ica COJll poderosa indi vidualidade . . .
«Livro tll1ico, li vro claro. sadio, o livro de j ose da Silca Pic ão há-de
ser arrolado entre os melhores padrões da nossa literatura contemporâ nea» ,
Eis o depoi men to de António Sardinha,
-.
XVll
Um outro trabalho de j ose da Silva Pic ào, A caminho d a Cegon ha, foi
das primei ras rutila ç õee elo seu talent o.
Nele se descre ve a odis .•eia de uma aldeia alentej ana _ Santa Eulãlia-
condena da ao martlrio periódico da falta de áglla, que dif icilmente se adqui-
r ia ezn p oços ou em eecaesos mananciais, de ond e era tirada p or meio de um
chocalho. Acerca deste costume - que José Pic áo descreve pitorescamente -
di z Antó nio Tomás Pires, no seu interessante op úsculo Tradições Popul ares
Transtag a nas :
«A' beira dos p oços , em ce:C de caldeiros para t irar água, véem-se fre-
quentemente qrandes cltocallr os a iss o destinados». P or isso o povo opina.
em seus mot ej os , lJ ue em Santa Eul ália quem nào tem choca lho nào bebe . . .
A Cami nho da Cegonha é ullIa p equena obra-prima da literatura r egional,
pelo valor d o estilo, a certo no emp rego dos vocábulos e rigor descritioo,
Fo i p ela primeira ve = publicada Ilum cotumezinho intitutado «O Elvense»
- Número brinde aos senhores as s i na ntes em 1894: .
Em 1940 o autor dest as linlra.• promoveu a publicação de uma nova
edição desta bela novela reqionalista,
E o que ainda lui a dizer ? Parece-nos que mais nad a . Eis o pouco-
aliás avantajado - que nos sllgere a figura do singular escritor -et nógr afo .
Atr avés dos Campos esgotou-s e. Depois, es t abeleceu-se em volt a da ob ra,
lançada lla santa paz sep ulcr a l d o olvido, uma e sp écie d e alheamento ". . ou
de indi f erença.
Preci sava-se de uma r eparaçã o. T'omou-a a p eito o s r . d outor J ose
Nunes Tierno da Silva, sob cuj os auspici os se publica hoj e a 2.· ediçcio do
Através dos Campos . Bem haja S. E.-..; .", p ela sua bela inici ativa - diria um
grave apologista. Sem repetirmos a f rase - porque o verbalismo estéril e
[a lso, llão se co nforma com a nossa maneira d e ser - acreecentaremos que
a iniciativa d ignifica a ilustre personalidade que a efect uou. Fica exuberan-
temente demonstrado que o s r . Dr. J os é T i erno - p essoa primoros a, l lO8
co nceitos, nas fórmulas e nas maneira s - possui uma alt a intui ç ão d e idola-
tria reqionalista - de amor ti s ua terra e de acrisolada dedicação ti s ua grei.
DOMINGOS LAVADINHO
Da A' $OCÚI1"ÜO dOI Arqueólogos PorturJuclu
A t r a v
,
e s d o s Campos
,
A
generosa condescendência do insi gne escritor e meu bom A 1 l l i g o ~
J oão Corrêa d'Otivei ra, um dos mais altos expoentee da mentalidade
portuguesa e da mais requintada sensibilidade artietica, se deve o
precioso prefácio desta verdadeira ob ra-p rima da literatura region al, de que
José da Si/va Pic ão [oi por as sim di zer o genuino cr iador e O maior ap ôs-
tolo de amor li terra mater, realizando o que, e ll l siutese, se poderá conside-
rar a mai or e melhor definiç ão do Alentejo.
O leitor, antes mesmo da apreciaç ão di rect a deste li vro, senti u-ee, de-
certo, atraido p elo deleite da cr it ica empolgante da Introdu ção, onde com
tanto carinho e delicadeza se denuncia ex ube rantemente o alto valor de
quem a escreveu. Igualmente se associa ao mesmo objectivo, llUlll admirável
estudo bi o-bibtioqràfico, Dominqos Lavadiuli o, um dos melhores valores
intelectuais da qeraç ão actual e um profundo e escrupuloso in vestigador
cultural em todas as modalidades e actividades do esplrit o, e que tão bri-
lhantemente dirige a Biblioteca Municipal de Elvas.
Rendemos a nossa enorme gratidtio pelo esf orço, justiça e talent o dis-
pendidos pelos doi s f ormidávei s escritores, cuja dedicação ti causa alentejana
eu creio que os leitores verão ex uber antemente confirmada nos primorosos
capitulas, que antecedem esta minha li geira referéncia.
Omeu papel fica, assim, reduzido à mais simples expreesão, limita ndo-me
a avivar algumas reminiscências. j á desbotadas uuz pou co pela nevoa do
tempo, de um. passado que muitos se apostam em cre r qu e nda mais pode
voltar, mas que se me afigura possi oel trazer ate nós, sempre qu e o t enuts-
sitno ri o da esp i ritualidade que liga as almas ete rnamente, impere e p resida
aos nossos pen samentos.
Algumas impress ões pessoais deixar ão ent rever a minha f ervorosa
admiraçào e indesbot ãcet saudade p or essa estranha personalidade, que f oi
o autor deste lioro, Jose da Sil va Pic ão, o mais modes t o de t odos os escrito-
res, de uma inqénua simplicidade, que f eria e enca ntava todos os que o
conheciam e qu e lhe roubava por comp leto a mais ligeira visito do que viria
a ser a sua obra, projectada at ravés do t empo e do futuro. Nun ca t eve a
consciéncia do valor da sua ob ra '
Mais de 40 anos sào passados qu e o admirável arquitect o da literatura
regional trouxe a lume. primeiro num alvoroçante f olhetim em j ornal elve nse
e. seguidamente, em livro editado p elo saudoso bibliografo A ntonio J osé
Torres de Carvalho, esta obra magistral. que é o «A t rave8 dos Campos».
Esse trabalho causou já entâo o maior assombro. p oi s ninguém divisara
XIX
que dentro daquela frágil fi,qurillha do seu autor ardesse a mais rubra
chama do talento, numa afirmação intelectual onde a garra do escrit or
dominuoa triunfalmente.
Depressa se esgotou a edi ção e com o dobar do tempo cavou-se a 8 0 1 u ~
çào d e continuidade, qu e conduziu. insensioetmente ao olvido. sendo ] 'a1'0 8 os
que fi caram {ieis ci lembrança desse [ormosl ssuno estudo da vida l'listlea.
Contudo. alqune admiradores mais persecerantee e esperançosos soube-
ram esperar a oportunidade do ressurgiment o dessa bela obra. onde Ii á
lJluito qu e aprender e ainda muito mais que senti r o vibrar da alma do que
poderemos chamar a pedra angular do valor da grei, na sua mais { DI'te
ligaçdo p siquica e econó mica li celula da Nação.
E essa hora abençoada clieqou, envolvida na saudade indelével que o
grande escritor e ndo menol' 01111,gO soube conquis t ar ao nosso espirito, e
até ao 11 0 8 80 orqultio, que a joelha em êx t ases perante esse mago decantado]"
dos lindos seg redos do prodigioso viver rúetico, p onto de partida de t od a a
bele za e de toda a riqueza que informa a vida camp esina. que nunca é antiga
nem moderna, porque é se mp re a const ante e p erpétua tranefiquraç ão da
natureza, no seu ineeqot àoel desdobramento humano.
N ão [uzia, pois, sentido, neste alto de curva cult ural, deixar j azer 110
abandono. pelo menos - já que a obra é in corrupto e [i carà eter namente
embalsamada no 'eu próprio valor intrínseco - a assombrosa li ç ão e pre-
cioso ensinamento que dela irradia. li a seu amor exasperado pela grandeza
do.• campos e pela do Alentejo, out rora a malfadada cha rneca e, no diz er
de Léon. Poinsard, a regíno menos conhecida da Europa.
Ho]e, essa grandeza alent ejana já ent r a p elos olhos do português, can-
tada em todos os tons por escritores ilustres, com a mais nltida comp reens ão
da s ua riqueza multiforme,
Desde António T' omaz Pires, glorioso Elvense, um colosso do [olclorismo
alent ejano, com as suas dez mil quadras populares-s-possuselmente o primeiro
da Europa - desde Vit orino de Almada, o ex austivo investigador geográfiCO
do Concelho de El vas e alquns out ros devotados cultores do «Mi sté r io da
Campina», até ao doutor Celestino David, incansável e brilhanttssimo nos
seus estudos históricos e Jose A lves Ca pela e Silva, t alentoso e in vulgar
interpretador e re ctificador da linguagem_ l'Ll stica alentej ana - t oda essa
pleiade se lançou na cruzada bendita de alTQnCal' o 1lDS80 Alentejo ao encra-
vada e imerecido obscurantismo em que jaz eu tanto t empo.
Para tant o, J osé Pic ão deu um belo e salutar tributo, ele que, ,uio dispondo
senão de lima inst ruç ão eiementar
l
soube por matiz próprio ilustrar-se suf'i-
cientement e, aproveitando o seu inato génio assimilador e esmer alzdo-se por
escrever num estilo t ão pr ôx imo da natureza e numa identi f i cação t ão ajust ada
com ela, que sem o mais pequen o esforço a copiava com t amanha per f eição.
Era a par disso um cavaqueado r de rara vivacidade deleitando -se na s
sugestivas leitura s do di vino Ca milo, que adorava no mais alto gr au, do
encantador Eça, que o deslumbrava com a sua prosa delici osa. do admirá-
vel Trindade Coelho, que o cativava deveras, do escaldant e Fialho. que o
empolgava e até Balzac lh e era [a miliar, comprazendo-se em mergulhar o
espirita nessa nebulose romântica do grande mes tre.
Uma das suas facetas mais ex pressivas era a maneira como esquadri -
nhava a p sicologia rúetica, até aos seus refolhas mai s intimas, e assim bem
sabia que a vida dos campos se equilibr a entre os maiores deslumbramentos
da alegria e as maiores inquietações da tristeza, tilo perturbante e in stável
eo cenário desse ambiente inconfundl oel, que um poeta humilde e igll orado
traduziu nesta einqela quadra :
Mar ou terra, tanto faz
Pr' ós portos de salvamento:
Marinheiros e l avradores
Todos têm o seu tormento,
E p ara nào [atiqar mais o leitor permito-me ta mbém condensar numa
quadra, para frasea da de uma out ra de um g rande poet a alente jano. t ão
prematuramente falecido - José Duro - a obra gr andiosa deste benemérito
escritor ,
o livro que ai vai, obr a de Arte e de Devoção,
E' um livro genial. um poema de Beleza :
Pensou-o pelos campos. contemplando a Cr-ia ção,
Esculturou-o na prosa, olhando a Natureza.
A nós, o prazer de acudirmos à consci ência no cump rimento ele unI
dever. I S80 nos basta esperando que coevos e vindouros aproveitem a li ção
do Mest re .
o EDI TOR
J oJé lJi// n<ó Cimlo d a <5ilva
ATRAVÉS
DOS
CAMPOS
I
M geral, os campos do Alent ej o, à parte os arredores das po voações,
são divididos em gra nde s trat os de terren o que se denomi nam herde-
des. P or vi a de r egra, ca da herdade ou gr upo de h erdades anexas
sustenta uma exploração agelcola-pecuár ie chamada l avoura.
O dono da lavoura con hece-se pel o nome de l avrador, e cr escen ta n dc-s e-Ih e
o sub-t ít ulo de rendeiro se as herdades que disfr u ta sã o propei edede de outrem
a quem ele as arrendou. O lavrador t ípi co al enteja n o é o lavrador rendeiro.
Ao proprietári o da herdade, que não é l avrador. chama - s e-lhe senh or io.
O conjun to de h erdades que constituem uma lavoura desi gna-se p OI cómodo.
A sede do cómodo é o «mont e», que assi m se chama a casa d e h abitação de
qualquer herdade . O mont e es colh ido par a sede do g'ra n geio, aco moda em si o
casco da lavoura, isto é, t oda a uclxorie, representada po r mantimentos, cereais,
forragen s, alf aias a grícolas, a nimai s domésticos, et c., etc.
Das h erdades em que se n ão i n stalam centros de la voura por estarem distan-
tes da qu e o la vrador es colheu par a esse fim, di z- s e que andam de cavalaria.
Das qu e s e a nunciam para arrendamento, e q u e fi cam po r a r r en de r, usa-se
dizer: - cestão à var a».
Todas as herdades têm nome pr ôpr !o, algumas bastante a du lte rado. Exem-
plo : M ei moas por Amimoas; Al varo Anes por A lva ra nha j C ochixola por
Quexol• .
O nome de muitas de r iva dos primitivos possu idores. Exemplo: os Falcatas ;
8 do Bri t o j a do Chaves; a do Pintoj monte dos Frades; a da Miseric6rdia; et c.
D e uma sei que, pelo fa cto de há sé cu los estar arrendada a descendente s
do antiquíssi mo rendeiro, o vulgo s6 a conhece p elo apelido de f amília dos
arrendatários e não pelo prôpri o que é igua l men te O nome do senhorio. E,' a
Torre do S iqueira, con h ecida por T orre do P icã o.
-1 -
A TRAv ts DO S C ;>. MP OS
O u tra s distinguem-se pelo diminuitivo da herdade vizinha mais em evi dên-
cia. Exemplo: Alcobaça. Alcobacinha; P aço, P assi nh oi Cangoas, Cagoinhas. et c.
E' frequente haver duas contíguas com isual nome. Exemplo: P erei ra de
Cima, Pereira de Baixo. Àbegoaria de Cima, A begoar ia de Baixo. etc.
N a nomenclatura das herdades, assim como se notam nomes est r e.vegan tes
e singulares, também se regi st am outros vulgaríssimos a ponto de se empr e-
gar em em duas ou três do mesmo concelho. Nos vulgares predominam as
«P er ei r as», os «À z in h ais», as «Casas Bran cas», os cR es uensosAo , etc. H á t ambém
muitas Torres que se disti nguem p OI sub-título qualifi cativo. Exemplo: T orre
do Mouro ; Torre de P a l m a ; T orre das À rcas ; T orre elos Cl ér igos, etc.
Topografia C omo em quase todo o Alentejo, as herdades da r egião elvense
abrangem vast as planícies e en cost a s de t errenos cortados pelo rio
Caia e se us a íluentes, como A lgalé, Torrão, Cai ola e Varche.
T odas deixam de correr no r igor do es tio . ap esa r de o primeiro ser cauda-
l oso n o inverno. O Guadiana, on de aflui o C ai a, a inda banha extensas e
f er t ilíssi mos várzeas servindo de baliza a P ortugal e E span h a .
À s margens do C ai a, e as de vári os ribeiros sã o em parte guar neci da s de
fr ondosos eloen dr os, muito flo r idos em j unh o e julho. C om flores aos cachos,
oc ultando a ramagem, transformam-se en t ã o em lindos r oseirai s, de fa x es
enca.rnadas, a cont ras tar em com a veget a çã o vi zinha s eca ou am ortecida pelos
calores estivais. Às planíci es que ficam a Leste, entre Elvas e Ba dajoz e aquela
cidade e C ampo Maior, chamam... se-lhes barros em virtude do solo ser em geral
bastante ar giloso. E stes campos, nus e secos no fi m do verão. são si ngul a r m en t e
propícios à cultura cerealífera que n el es se explo ra com vantagem e em larga
es cala. E por que eles dão trigo e cevada em abundância, entende-se com j usto
critério que n ã o va le a pena arborizá-los o u util i zá-los com outra cultura mai s
dispendiosa e menos lucrativa.
E.' isto o que o bom senso a conselha, embora n ão agrade aos estranhos que
os atravessam n o cami n h o de ferro em agosto, por ocasião dos t ouros em
Badajoz. A es ses viajant es, 80 nota r em a aparente esterilidade daquela zona,
por vezes temos ouvido comentarem assi m : «Q u e vergonha haver ainda em
Portugal tanta t erra inculta I. .. » «Que de serto I. . . li «N em u ma á rvor e,
sequer l . . . » «Este Àlentejo é pior que a Âfri ca!» E por e qu ! f ora com díslates
semelhant es, sem suspeitarem que o qu e se lhes afi gura «u m vergonhoso deserto
inculto», é terra excelente, se meada qu ase t odos os anos. E ' nada menos que a
te rceira r egiã o cerealí fer a do p aís, pr oduzi n do a n ual mente al guns milhares de
moios de trigo e outros ce reais e l egumes I. .. À qui está um exemplo f risante
da consciênci a com q ue se faz cr ftica em Portugal.
P ar a o sul e poente apresentam-se terrenos de n atureza diversa, ven do-se
herdades de montado de azi n h o e algum sobro; simultaneamente produze m
cereais e pastagens. Ao noroest e e norte observam-se planícies e encostas d e
terrenos mais delgados, de a nã l ogss produções, que se prolongam até a os limites
2
ATRAvts DOS CAMPOS
de Barbacens, S. Vicente e Ventosa, com a vizinha freguesia de Santa Eulália.
vasta zona um pouco acidentada, granítica e arenosa. As herdades aqui são as
maiores do termo. Ao norte, nordeste e leste de Santa Eulália, os montados
estão velhos e caducos, quase extintos, sem arvoredo novo que os substitua.
Ao sul e poente escasseiam, e ao sudoeste ostentam-se vigorosos, com tendência
a aumentarem pela criação espontânea de milhares de chnperros.
O terreno é, como já vimos, essencialmente arenoso, produzindo bem em
centeio e pastagens de bamburraI. Às folhas das herdades, estas, são cortadas
por vales pantanosos, na maior parte incultos; noutras esses vales arroteiam-se
e esgotam-se para melencíais e meloe ís, t rígo, cevada e aveia
no outono seguinte.
Por este processo bastantes se têm «metido a pão» nos últimos tempos, e
com vantagem, sobretudo nos anos secos ou de pouca chuva.
De qualquer maneira as herdades a que nos vimos referindo estão limpas
de matagais, se exceptuarmos pequeníssimas nódoas de esteve em terrenos infe-
riores da freguesia de 'I' eerugem e o piornel basto de certas folhas do Reguengo
de Barbacena.
Tudo mais encontra-se livre de manchas não havendo terras que se possam
considerar i ncul t as ou maninhas. Às moitas de piorno e giesta, que muitas
havia, em maior ou menor escala. e que outrora con stit u iam couto de caça e
fer8s
1
estão reduzidas a proporções mínimas. quase nulas. Das que ainda exis-
tem, só medram nas anifes pedregosos, inacessíveis à lavoura. Isto, entende-se,
pelo que respeita as herdades do concelho de Elvas. Nas dos outros concelhos
vizinhos, ainda há extensos matagais de carrasco, pl orno e outros arbustos
silvestres, principalmente nas termos de Àrronches e Campo Maícr.
No de A'tronches. na herdade da Chainça, persistem enormes manchas de
esteve, {xere ) medronheiro, aroeira, jorna, murtinheiro, alecrim, et c., que dão
uma feição selvagem àquele zona agreste, ainda habitada por javalis e lobos.
Resumindo: as herdades do Àlentejo, analisadas de relance sobre um ponto
de vista geral, constituem vastíssimos horizontes em que, a par dos arvoredos
de azinha e sobro nos terrenos «dobrados» e montuosos, se vêem planícies enor-
mes aplicadas às cultur as cerealíferas ou a pastagens para gados manadios.
De verão a água escasseia em quase toda a parte, encontrando-se apenas
de longe em longe nos pegos das ribeiras maiores, num ou noutro poço e nas
nascentes que regam as hortas. Por esta circunstânC'Ía as terras trenstaganas
tornam-se áridas e monótonas no rigor do estie, tristes no inverno e floridas na
primavera. Entre abril e maio a natureza perde o tom severo que a caracteriza
para se exibir sorridente e enge leda com o verdejar opulento das searas, que
se estendem pelos campos fora, e com a metisagem das flores que realçam aos
montões nas pastagens dos pousios : quadro festivo de pouca duração que se
perde aos primeiros calores de junho.
Em cada herdade de vulto, geralmente, existem as edificações próprias e
-3-

ATRAv t S DOS CAMP O S
indispensáveis à exploração da lavoura. Passando-as em revista, encontram-se:
o «mont e» e suas dependências, a eira ou eiras para debulha dos cereais, o
bardo das cabras e as malhadas dos porcos em número de duas ou mais. cada
qual em folha diferente.
Em algumas existem atalaias antigas, que o povo atribui ao tempo dos
mouros. Afi gura-se-me crença errónea, pelo m enos em p arte. D e uma destas
atalaias ergu ida na herdade de Almeida, freguesia de Santa Eulália, sabe-se
qu e foi constr uí da á custa do município de El vas, no tempo da guer ra da
restauração, e a requerimento dos habitantes da aldei a, com o fim de estabele-
cerem vigias que os avisassem das invas ões dos espan hoi s vizinhos, en tã o f re-
quentes, com miro. em roubos e devastaç ões. Mas volt emos ao assunto principal.
P erto do monte, como acessório útil bastant e apreciado, ca da h erdade de
vulto tem em geral anexa uma horta ou quint a e, po r vez es, oliva l e vinha .
E.sta última é contudo raríssima. Ás t erras que cercam o «mon te» ch a ma-se- lhes
Ierregiai s. S emeiam- se t odos os anos, por s erem adubados com os est r umes das
ca valariças e lixo da Iimpe sa. São os monturos, como se d iz em cer tas escri tu-
r as d e arrend amento.
C onvém n otar que em h erdades atravessadas por ribeiras de importânci a
existe m, nas margens r espect ivas, moinhos. azenhas, hortas e quintas, que per-
te ncem a sen horios es t ran h os e d iversos.
Doi habitant es des ta s vivenda s mantêm os melhores r elaçõ es com o vizinho
lavra dor, de qu e precisa m. E.m ge ra l obtêm del es terras para semearem p eque-
nas se aras de que pa gam quert o ou quinto, e a inda a. concessão gr a tuita ou
oner osa de l hes consentirem os vivos n a s te rras do seu cómodo. P elo t erm o de
«vi vos". designa m-se gene rica mente os gados e aves que pos suem: - umas besti-
t a s quaisquer, al gu ns p o rcos, uma o u duas ove l has. gali nhas. patos, per-ás, etc.
Divisão territorial A s divisór Ías que limi t am e separ am as h erdades cha-
mam-se linhas ou ext remas. C onsi stem numa est reita fa cha
de te r ra i nculta. u m pouco saliente sob re os t errenos marginai s. P ara m elhor
escla recer queisquer dú vidas, mui tas her dades são também li mitada s po r marcos
de ca n taria, a os centros d as li n das, com as ini ciai s d o senhor io ou a s do nome
do prédi o. Geralment e cada herda de divi de-s e entre três a seis par celas que se
semei am alternada ment e e que s e denominam folhas. S e a h erda de é gra n de, a s
folhas costumam ser de S a 6 a plica n do -se mais ao sustento dos rebanh os do que
à produção de searas. S e. pelo contrári o, é pequena ou mesmo gra nde, mas apro-
pri ada às cul tu r a s cerealíferas. o a f olhamento é menor limitando-se a duas ou
três, quando muito quatro. Nesta h ipótese, a seara prcdo m'ina sob re o ga d o. A
delimitação das folhas n em sempre obedece a r egras fi xa s, i nva r iáveis.
Causas múltiplas, como alargar ou r estringir a seara, d iminuir ou aumentar
os gados, modifi cam acidentalmen t e o afolhament o das t erra s. que, em t odo o
caso, é demarcado por ribeiros, estradas, e rrifes, et c.
Nas herdades de três folhas cultivam-se e disfrutam-se por forma que, em
-4-
ATRAvtS DOS CAMPOS
cada ano uma das folhas s e lavr a de al quei ve na pr imavera para se se m ea r n o
outono seguiute , outra est á semeada Ou de rastol hice e a terceira fica de pousio
e de pastagens para os gados afim de n o ano segui nte ser lavrada. alter nando
assi m com 85 out ras. N as que se div idem em maior númer o, cada ODO semeiam-se
uma ou duas folhas" elqveivem-se e r oçam-se outras tantas, e as excedentes
ficam pousias dlsfrutando-se-l hes os pastos c roedornos com gados manadios,
a té lhes chegar a vez de serem limpas e cu ltivadas. A o t retar da l a vour a expli-
carei des envol vi damente este assunto. de que, pOI agor a , s6 basta dar u ece ideia.
As fol has subdividem-se em t ornas. Torna é a classificação dada às fracções
de terreno em que se reparte uma fo lha por vontade do la vra dor ou por efeito
de di visóri as naturais ou es t ranhas, como regatos. vales. vertentes, es tradas, etc.
Chame-se- lhes tornas porque cada uma é la vrada em separado, t ornando o
arado ou charr ua a o sítio onde começou.
A maior part e das folhas e tornas têm nome próprio que as di sti ngu e. A
or igem desses nomes provém da topografia local o u de circunstâncias correluti-
v... Exemplo: a fo lha do Curral ; a da À t a lai a : a do Outei ro da Moira. et c.
Area e lotação Há herdades muito grandes, medianas e pequenas. Entre as
maiores, a lgumas conhecem-se pe lo a umentativo de defesa,
ou per tal se denominam quando se querem engrandecer. As pequenas distin-
guem-se pelo dimi nuitivo de mal at ecas ou choreviscsís, quando por ventura se
pretende amesquinhá-las.
N o grupo das primeiras há al gumas de m il hectares, muitas de s ei scen t os a
novecentos e daí para baixo. D e entr e as últ imas, poucas são inferior es a
70 he ctares. Mas qualquer que seja o t am a n h o da herdade usa-s e compuá-Ia
não em hectares, mas em moios de semeadu ra de tri go. cereal tipo.
De u ma herdade enorme diz-se : «Aquilo é uma defesa ; l eva oi tenta maios
ou mais». E. para gado então : «bem lhe podem cair r ebanhos I . . . » D e
outra de menores di mensões com enta- s e: «É muito grande; dá para 60 moios
cobertos; faz oito o u dez reba n hos sem se verem uns aos ou tros.» D a s
pequenas desdenha-se assim: «Uma m ele t ece , l eva dois moios se l evar; um
chap éu de terra, que não lhe cabe dentro um cbafardel de ovelhas.»
A' lotação em semeadura a diciona-se- lhe qualquer outra específica, como,
por exemplo. os montados ( arvor edo de a zin h o e sobro) e pastagens. que em
muitas herdades é a receita principal, senão a ú nica importante.
A avaliação dos montados faz-se por cabeças, quer dizer, pelo n úmero de
porcos adultos que engorda a bolota de cada e no. Os montados de herdades
excepcionalmente grandes costumam fazer, em média, 100 a 150 cabeças : ou tras
Bo a 100; as pequenas daí para baixo, até as menores que oscilam en tre 10 e ZO.
À s pastagens avalfam-se pelo n úm er o de r ebanh os e cabeças de tal ou tal
espécie, que podem sustentar em cada a no, du rante determinada época. O r di-
n àriamente as maiores herdades são as dos montados e t err en os i nfe riores.
assi m cama as pequenas constam quase sempre de t errenos cer ealíferos de pro-
- 5-
ATRAV J'. S D O S C A M POS
dução superior. Isto, porém, r epito, é r egra geral que. de resto. tem muitas
excepções em qualquer das hipóteses.
Dimensões :L' tudo quanto se pode conceber de mais irr egular e arbitrário.
Há a té herdades que a certa altur a es t reitam bastante, prolongan-
do-se por entre duas vizinhas. A estes pr ol ongament os chama-se-lhes mangas
ou Bsuilhões. Em outras notam- se particularidades mai s curiosas, ve rdadeiras
anomalias que devem desaparecer.
E' O caso da herdade À ter dentro encravada de todo uma ecurela perten-
cente à vizinha herdade B. E a B é por sua vez devassada por uma outra
courele n as mesmas condições que perten ce intei r ame n t e à herdade A .
Po ssuidores Antigamente os donos das herdades r esumi am-se, a bem di zer,
nas t rês classes predominantes: as ordens religiosas. os t itulares
e os morgados. C om a abolição dos vínculos e l eis de desamortização ext i n-
gui u- se o monopólio da propr iedade. e, consequentemente, te r mi n aram t odos 09
seus defeitos e van t agen s : que uma e outra coi sa havia nesse regime, por
muitos guer r eado. por alguns defendido. A enfiteuse te m diminuído bastante,
embora subsista nas her dades de domínio directo pertencente a particulares. O s
das m isericórdias e outras corporações de beneficência e piedade es t ã o vendidos
quase t odos . poucos pelo se u valor real, muitíssimos com reduções de 10, 20 e
30 por cento. Uma insensatez (para não lhe chamar outra coisa) que as l eis
perm ite m mas que se não coaduna com os ditames da razão . ..
Hoje vemos as herdades nas mãos de sen hor ios de diferente s camadas
sociais, pertencendo a in da muitas a vários representantes da an ti ga n obr eza
que as h erdaram dos seus maiores. Em virtude desta circunst ânci a hã tit ular
q ue n ão .... ende as s uas herdades por coisa al guma . Mas a mai oria delas es t á n a
posse dos grandes capitalistas de Lisb oa, dos proprietários ricos da prov íncia e
de um ou outro lavrador da zo na r espectiva.
O s upr emo desejo do la vr ador r emediado é adquirir um dia uma herdadita
que o ponha ao abri go de certas contingências. Todos os seus esforços e sacr i-
fíci os convergem para esse desideretum que alguns l ogram obter. mas que
muitos não conseguem. O lavrador empenha-se tanto em possuir uma h erdade
qu e não h esita em recorrer ao empréstimo para a comprar, pagando-a mesmo
por preço s uperior a o seu valor intrínseco. Acima de quaisquer considerações
fas éina-o a ideia, ali ás louvável, de cultivar terras suas que possa melhorar à
vontade, sem r eceio de que esse melhoramento r edun de em prejuizo próprio, p or
efeito da cubiça desalmada e menos escrupulosa do colega assambarcador.
Que, not e- se, entre lavradores, os vizinhos ou colegas amigos constituem o
maior número. dispensando-se obs équios recíprocos. respei tando-se mutuamente
e dando-se vizinhança un s aos outros. «Dar vizinhança» é tolerar e permitir
que os gados de cada q ual entrem u ma ou outra vez nas terras do vizinho que
não estejam guar dadas. E nfi m. a maioria dos lavradores alentejanos guar da a s
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ATRAv tS DOS C A M P O S
conveniências de classe, o que lhes é honroso. Mas a par dos que cumprem com
esses deveres, há quase sempre o ambicioso desmedido para quem t odas as
herdades parecem poucas afim de satisfazer os seus planos vingativos, egoístas
e absorventes.
Àparte excepções, 09 grandes senhorios fidalgos e capitalistas ainda têm
umas certas e valiosas considerações pelos seus rendeiros, que é de justiça
reconhecer e registar. Se os há que não escrupultaam em aceitar «levan t es» de
rendas propostas para satisfação de vinganças odientas, ou por ambiçõe!J des-
vairadas e egoístas, muitos mais se conhecem que repelem com nobre altivez
essas propostas aviltantes.
As cas as Cadaval. C onde de S. Martinho. Marquês de P enalva. D uqu e de
Albuquerque e outras timbram em conservar e proteger os seus rendeiros anti-
' os como procedimento que carecteeieave a velha fidalguia portuguesa.
De entre os grandes proprietários modernos também se encontram espíritos
guiados pela mesma louvável orientação. O falecido capitalista de Lisboa,
António J os é de Andrade, foi um gr an de protector dos seus arrendatários
lavrador es, exemplo n obremente seguido pelos seus di gnos descendentes.
J acinto da Silva Falcã o, também de Lisboa, era outro amigo valioso da.
lavoura a len t ejana. E. co mo est es. mais alguns que não quere re tudo para si,
entend endo, com r azão, que o rendeiro deve auferir l ucros proporcionais ao
seu trabalho e capital.
Arrendamentos R eali zam-s e por escrit ur a pública, o. prazos curtos de 2 a
6 anos. PaTa interesse reciproco do senhorio e rendeiro deviam
ser mais duradcíros, nunca inferiores a dez an os. A extensão do prazo garantia
ao lavrador a estabilidade, e. consequentemente. este abalançava- se a empreen-
dimen tos dispendiosos, como plantações, limpeza, ar r'otea'mentos, drenagens,
tudo na. mira em lucros maiores, que também melhorariam a propriedade valo-
rizando-a mui to mai s.
Com os arrendamentos a curto pr azo os rendeiros receiam entrar em ten-
tativas de t ardio resultado, cu jos lucr os t al vez a proveitassem a outro que não
fosse ele, visto não ter a cer t eza de continuar na herdade. Isto é Íntuiúvo. N ão
carece . de demonstrações. Nos arrendamentos figura um Ii edor e principal
pagador, que t oma t oda a responsabiüdade da renda e outros compromis sos.
Alguns senhorios, po ucos, exi gem, al ém da escritura, letras de câmbio a ceites
pelo rendei ro, a pagar no dia do vencimento da renda em cada ano.
Às condi ções da escr it ur a variam muito. sendo feitas ao sabor e vontade
do senhorio com a aqui escênci a do rendeiro. H á escrituras de 20 e 30 condições ;
e algumas são assás violen t as. podendo servir de pretexto do senhorio para se
desfazer do r endeiro, toda a vez que assim o queira.
A s principais condições impostas ao rendeiro são: pagamento da renda em
determinado prazo, em casa do senhorio ou seu r epresen t an t e ; l avrar e semear
as folhas correspondentes a cada ano; fazer os cort es dos montados na época
-7 -
AT RAV e S DOS C AMPOS
própria e Das folhas respe ctivas, n ã o podendo cortar e desbast ar á r vor es, eha-
parros e pernadas r eais sem licença do senhorio, e, quando o fa ça, pagar t al ou
Qual multa; conservar as lindas bem visívei s, aceirando-as de verão, quando
seja herdade de pastagen s e arvoredos; trazer o monte assea do e os p rej uízos
que nele causar r epará-l os à sua cu s ta ; responsabili zar-se pelos prej uízos oca-
sionados pel os se us domésticos; concorrer para os concertos e me l horamentos
que haja a faze r n os montes rr e n s portando t odos os materiais à su a custa
e dando pousada a os operár ios ; n ã o reclamar benfeitorias ; n ão poder s ubloca r
ou encampa r sem licença do senhorio; não entrar com r elvas e monturos mas
sair com eles ; n ão pode r al egar ester i li dade, incêndios, secas, inundações: inva-
sões de guerra ou outro qualquer s ucesso previsto ou imprevisto que o possa exi -
mir 80 pa gament o da r enda n o t odo ou em parte; renunciar ao f oro do seu domi-
cíli o obri ga ndo-se a r esponder no juizo da comarca em que reside o senhor io
quando dê lugar a pleitos judiciais; considerar-se desped ido t oda a vez que n ão
cumpra pon t ualmen te as condições do contrato, et c. N alguns arrendamen t os
de h erdades com sobreiros, a cortiça é para o senh ori o, se isso r e pr esen t a verba
a vultada; se ndo coisa pouca, quase s em pr e nco. para o r endeiro.
As r endas vencem- se no dia 31 de dezembro de cada ano. Quant o à época
do pagamento é confor me a s cláusu l as do co n tr ato. As das h erdades de mon-
tados e pastagens obr igam-se os r en deiros 8 sa t is fazê-las n o dia do vencimen t o,
embo ra al guD3 a s paguem dias, semanas ou meses de pois, por condesc endênci a
obsequ iosa do s enhorio. As das herdades que só pr oduzem cereais, apesar d os
arrendamentos serem também por anos civis, s ó se vencem no dia de Santa
Maria de Agost o, imediato ao ano fi ndo em 31 de dezembro último. Exemplo :
o r endeiro Fulano, que completou um ano de arrendamento a 31 de dez embro
de 1899, paga essa renda no dia 1:; de agosto de 1900. A mora dos 7 mes es jus-
t ifica-se pela natureza da herdade, que tendo por única pr od ução 8 s eara, só em
esta se colhendo se pode obter receita para satisfazer o encargo. A i nda mais:
antigamente todas 8S herdades de produção cer ealífera eram arrendadas a moios
de pão. Daí o costume de se sa t isfazer em nas colheitas.
Hoie ai n da se realizam muit os arrendamentos por este modo, que, de resto,
é um sís t ema r acional que por vezes equilibra os interesses do senhorio e ren-
deiro. Q ua n do o cereal colhido é inferior ou mi sturado de impuridades, n ão se
considera c: de r eci bo»; portanto o rendeiro t em de ir comprá-lo bo m, ou satis-
fazer a renda a dinheiro, r eputando o gr ã o p el o preço da estiva camarária o u
por outro que convencione co m o senhorio. A s escrituras pr evinem estas hipó-
teses, consignando a forma de as r esol ver .
A maioria dos senhorios impõe ao r endeiro a obrigação de paga r t odas as
contribuíções, for os e outros en ca rgos que pesam sobr e o prédio a r r endado .
sem que sejam abandonados ou descontados n a r enda. Outros, poucos, engloba m
a r enda e 05 encargos, pagando o r endeiro u ma verba só.
A s pitençes, que outro ra se estat uíam na maioria dos arrendamentos pouco
se usam hoje. Em geral constam do seguinte : carradas de lenh a, de duas a sei s
- 8 -


I
ATRAvtS DOS CAMPOS
no tempo do cor te " um ou dois porcos go rdos ou artoubas de carne cheia por
ocasião das ma tanças e fumeiros ( entrudo): um borrego ou chibo pel a Páscoa ;
peru pelo N a t a l ; queijos n a primavera; galinhas e frangões em indeterminada
época; carradas de palha pela colheita; veIos de lã churra para enchime n tos
pela tosquie, etc.
É claro que isto tudo não se afigura na pitança que pesa sobre qualquer
arrendamento. antes são raras as que constam de mais de dois ou três artigos.
Mas como quer que seja essa u se n çe está caduca, prestes a desaparecer .
A entrada e saida de um rendeiro para qualquer herdade regula-se pelos
usos e costumes locais, que constituem lei atacada por todos. N a r egiã o de que
principalmente me venho ocupando. e nas outras limítrofes. observa-se o
seguinte: 05 de spedimentos e alteração de rendoso do senhorio da herdade par a
com O rendeiro. ou do rendeiro para com o senhorio, é de uso secular, assent e
e aceite por todos, participarem-se 'respecrivemente durante o mês de maio do
ano em que termina o arrendamento.
N"ão havendo de parte a parte nenhuma participação nesse sentido.
subentende-se prorrogado o contrato por um ano mais, pois que, legalmente.
em passando maio, nem o rendeiro se pode despedir do senhorio. nem o senho-
rio despedir o rendeiro. Sobre este ponto têm-se suscitado questões civeis resol-
vidas par sentença que se conformam em absoluto com esses usos e costumes.
O novo rendei ro toma posse n o dia 1.° de j an ei r o saindo o antigo na vés-
pera, 31 de dezembro. O novo entra para o. herdade encontrando-a devol uta,
mas com a folha cor repondente semeada pelo re ndei ro anti go, para lhe
colher o produto no próximo verão, sem que po r isso t enha de pagar quan t i a
ao senhorio ou ao novo r endei r o. I st o n ão excedendo os limites da praxe. Abu-
sando arrisca-se e pagar quart o ou quinto da pro dução obtida na te r r a que
semeou o. mais, se não sofrer ccrrecti vos m aior es preceituados n as escritu r as de
arrendamento. Além da fo lha do est ilo que o ren deiro despedido t em dir ei to a
deixar semeada (um terço da herdade ou menos. segu ndo as fol h as em que ela
se divide) o mesmo rendeiro, n a maioria dos CBSOS e em análogas circunstâncias,
pode também semear as «relvas e monturos» de área igual à que encont ro u
ocupada pelo seu antecessor. P or isso dizem as escrituras: «entra sem relvas e
monturos mas sai com eles».
Como relvas, no caso em questão. enfeude-se a t erra de rastclbíce. que por
ter sido estrumada no alqueive se l he queima o restolho no ano segui nte per a
de novo se semear no próximo outono, produzindo assim dois anos consecuti-
vos. As relvas em semeadura só devem abranger uma torna contígua à folh a
do alquei ve.
Por monturos dassi6cam-se os ferragiais contíguos ao mon t e ; ou os bafos
do monte. com o também alguns lhes chamam, se não lhe encontram a feição
própria dos [et ragie is. De maneira que o novo rendeiro tem de respeitar a
seara do antigo. não se op ondo aos serviços de que ela carecer até estar ceifada
e retirada do restolho.
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ATRAVfs DOS CAMPO S
Por sua vez o antigo, i sto é e quele que sai u em 31 de dez embro, cumpre-
- Lh e retirar a sua sear a em r ama at é ao dia 15 de agosto. Digo «em ra ma», por -
que o mesmo antigo r endeiro n ão t em di r eito de debulhar a seara dentro da
herdade que deixou. Só o pode faze r mediante li cença do ren de iro n ovo, o que
n unca se pede por n ão convir a o dono da seara, qu e precisa de palhas no local
para onde se mudou.
D e qualqu er for ma o r endei r o antigo só tem d ir eito a u m corte n a ter ra
que semeou. Quer dizer: n ão pode cor t er a r estolho o u ham burraI q ue esca pou
à ceifa, o que s eria evide ntemen te segu ndo cor te. P ode porém gadanhar os
fenos criados n os val es, n esgas, san jas das t erras pantanosas, incultas, existen-
tes na folha da sea r a e Das n ódoas da mesma sear a em que n ão ceifou coisa
alguma. Em r esumo : n o sí t io em que ceifou não pode gadanhar; n o l ocal onde
gadanh ou não pode ceifar.
Entretanto o r endeiro antigo te m ainda o direito de aprovei t ar o agosta-
dout o da sear a últ ima a que me 'Tenho referindo, comen do-l h e a espiga e
sementes com O gado suino que entender. e bem assim com o número de bois ou
bestas estritamente n ecessárias ao acarreto respectivo.
Na hipót ese de se empregarem bois n o acarreto t êm eles de ser no qu ãdru-
pIo do número de carros ocupados. P or exempl o, se os ca rros forem quatro, e o
servi ço se efectuar de r evezo, como se cost uma, podem pastar n o r estolho 16
bois, metade de dia e todos de noite.
S e, porém, O t ransporte se efectuar com muares ou ca valares estes s6 podem
comer no agcstadouro dur an t e a noite, visto trabalharem o dia t odo, excepto à
hora da merenda, ao meio dia, em que é de uso selem arreçoedcs.
P assado o di a 15 de agos to tem que estar a restolhice despejada e o
gado fora, para o novo rendeiro ficar no pleno disfruto de t oda a herdade.
Nas herdades de montados ao re ndeiro que sai cumpr e-lhe levantar a.
bo lota at é ao dia 31 de dezembro, salvo se há q ualquer acordo ou contrato
especial que prolo ngam esse prazo.
II
U
M dos ca rac ter ísticos mais notáveis da proví nci a t ren stagane, sã o os
mon tes, isto é. as casa s de r esid ência Das her dades, que simul tan ea-
me nte e por vi a de regra se aplicam t ambém a sedes das lavouras
qu e se exploram nas mesmas herdades. São, po r assi m dizer, aquilo
a que noutr as províncias se chama granjas, casais , qui ntas, etc.
À contece porém haver herdades. pequenas, sem monte, j á por nunca n elas
existir, j á por terem caído à mer cê de abandono, como consequência da a nexa-
ção d.e he r dades, r espectiva a ou tra ou ou tr a s d e su perior importância .
Em épocas remotas qua n do as lavouras estavam mais divididas e menos
adiantadas, quero dizer, quan do , ger almente, cada lavrador r endeiro vi via s6 de
uma h er dade em que s emea va pouco e mal, todas ou q uas e t odas tinham monte
própri o, embor a defictenríssimo. Ainda h oje quem p ercorre o Alentej o vê de
longe em longe as ruinas dess es casebres, observan do também com maior fr e-
quência out ros de i gual inferioridade que se mantêm intact os, at é bem conser-
vades, sem con t udo se n otar n eles a animação própria de um centro de lavoure.
Porque assim como há herdades se m monte, também exist em montes que n ão
são cómodos de lavoura. Estes, de proporções modestíssimas, como at r ás disse,
habitam-nos os guardas ou outros criados, principalment e 8snadeíros. À.s
vezes, porém, residem neles csse íros estranhos 8 0 la vrador da h erdade - seorei-
TOJ que lavram por sua conta, a quarto ou quinto, te rras cedidas pelo proprie-
tário ou r endeiro ger al. Em contras t e com a ruina e decadência dos mont es
humildes, muitos outros se têm re construido e ampliado, sendo h oje bons alo-
jament os rurais, onde, a par da soli dez, r ennem as acomodações n ecess árias aos
diversos ramos da vida agrícola. Pelo que t oca a asseio, ocioso é not á-lo. De
qual quer importân cia que os montes sejam, velhos ou novos, gr an des ou peque-
nos, todos o atestam em aIta evidência, quer de portas adentro, quer nos muros
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AT RA V !'. S DOS C AMPO S
exteriores, de uma alvura resplandecente. destacando-se ao longe por entre o
verde escuro das azinheiras ou so bre a t erra campa das searas e pousios.
Pelo exposto se compr eende que os mont es, embora se construíssem todos
para o mesmo fim, s e disti nguem bastante, tanto n a capacidade como n a co ns -
trução. Nada exagera mos divi dindo-os em cinco classes:
P rimeira: os da apa rê nci a acastelada. solarengas, co m torres e ameias, d e
doi s an dares, cer ca dos por alto muro, que dei xa de permeio o pá tio de en trada.
São os mais anti gos e en tr a m n o número dos melhores. - Segunda: aquele s
que, n ão t endo vet usta imponência dos primeiros, possuem contudo os requi si-
to s n ecessári os à s ed e de uma gran de lavoura e à habitação confort ável do
lavrador e sua famí li a . «C ómodos» há deste gén ero cuj a superioridade em a lo-
jamentos é ma nifesta sobre os out ros. O s mon tes deste segundo tipo d enotam
no se u t odo u m a fe ição mais a legre e moderna. Compõem-se ge ralmen t e d e
casas a ltas e ba i xas, com janelas e por ta do s r ectangulares, sem que em volta os
r esguar de qualquer espécie de muro . À s port a s exteriores dão para t er rei ros
sem veda ção, q ue se prolonga m indefin ida mente pela her dade. - T erceira: os de
m en os a comodações que os precedent es. C om páti o m u r ado ou sem ele. uns
ao r és-da-chão, e ou tros com sobrados, p ossuem em ger al al ojo sufi ciente
para u ma lavoura mediano. Mui tos montes des t es três grupos têm o p ortado
p rin cipal encima do por brazões il ust res da velha aristocracia por tuguesa.v--
Quart a: os de po uca s ca sas ao r és- do-chão, e m número restrito a o indispen -
sável a u m a l avoura r el ati vament e pequena. Se possuem compartiment os para
a r es id ência do l avrador, são tão exíguos e diminutos que raríssimas vezes s e
desti nam a t al u so. - Quinta: os dos t r ês a seis casitas baixas, i n cl u in do depen-
dên cia s. C omo di ssemos n outro lugar. estes montarecos habitam-nos os guardas,
pastor es, caseiros, etc.
P ovoam t ambém algumas h erda des out ras vi vendas a grícolas que, pela sua
sumptuosi dade e con diçõ es excep cion ais, nada se confundem com os montes.
Aludo a a lgum as quintas de r ecreio, cumulati vamente sedes de lavour a , para o
que reunem os eleme ntos precis os, a lém dos que lhe sobejam para a r esidência
aprazível de um op ulen to propri et ári o.
SITUAÇÃO E ASPECTO
E.m gera l os m on t es Iieam nu m dos ex tremos da h erdade, nã o s e con h e-
cendo motivo plausível q ue j usti fiq ue esta a nom alia.
Erguidos no alto de qualquer colina ou na vertente de uma encosta, domi-
na m vast os h orizont es. cuj o p a nora ma, se é escasso, das su r preen de ntes belezas
n aturais que se admiram nas t erra s do n orte, a grada contudo, pela f ertiHdade
do solo extensíssimo e pel o avultado númer o de ga do s diversos que o povoam
e animam.
E m volta dos montes não há, é certo, os encantos própri os das paisagens
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AT R AVÉS DOS CAMPOS
pitorescas. Falta-lhes o principal. a a r borização, nula o ut ror a, mas que ao
pr esent e já se obser va em a lg uns, e que t ende a generalizar-se pelo empr ego de
eucali ptos e acácias. Mas, à falta de a rvo'redo de embel ezamen to, e como com-
pen sação de a p reço, m ost ra m à larga u m cunho a legre e típico que se destaca
principalmente do al vejar dos seus muros, do bulí cio dos seus hab itantes e da
impon ência das almen aras de palha e fe no que se lhes erguem próximo. Ànti-
gumente eram ainda afor moseados pelas medas de Lenha, núcl eo de pirâmides
monumentais, caprichosas e correctas, que de lon ge ch ama va m a at enção do
viadante. O bra pacíente e cuidadosa do s cr iado s da lavoura nas m arés vogerüis.s
(épocas de poucos afazeres) em que os t rabalhos agrícolas estavam paralíaados
por in ver nias ou estiagens.
Ergui a m-se para assim se acomodarem os ma deiros e achas que se a cumu-
lavam em frente dos montes por sobejarem do consumo e procura. H oj e é raro
cons truirem-se mede s. O vage r é po uco e a l en ha não sobeja.
,. . .
O s montes considera m-se albergarias fran cas pera caminhantes e mendigos.
hospício de necessitados, e a té por vezes refúgio de perseguidos . Encarados por
outro prisma sirnbolíznm o rrabs lhc e a abastança por que reunem e exibem à
larga os melhores produtos da t erra. D e feição essenci almente criadora, sinre-
ti.. em si toda a vida agrícola alentejana. T oda. desde as messes de lavoura até
às aves domésti cas, que a li se multiplicam livremente em viveiro fecundo e
constante. Às aves pel os cantos e estrídulos de suas voz es, r epetidas por cente-
nas de ga l.in âcios e dezenas de palmípedes, cons t it uem a nota mais alegre e
animad ora desses centros rurai s, sobremodo interessantes.
........ .... . . . . . . .. . .. . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . .. . ... ... . . . .. .. . . . . .. . . . ..
A s con st r uções de cada m onte moldam- se geral mente nas dos sistemas
vulgares das t er ra s pequenas da provfnciu, e comp õem-se de h abitações para
uso domésti co, de casas para fins diversos e de várias dependênci as exterior es.
Entre os maiores, há-os provid os de ca pela para exercício do cult o divino, que
outrora tinham capelão. Hoje n ão O têm e em p oucas se diz misso. Só por a caso
em alguma que fi ca próxima de sede de fresuezia de ca mpo (paróquia er ma, sem
povoado junto), onde o pároco não encon t r a ouvíntes quando n o domingo l á
aparece, vindo da vila. dispos to a cel ebr a r . Em t ai s circunstâncias. o pri or
vendo-se a penas com o sacristão, r esol ve ir dize r missa à capela do mont e. Ali,
pelo menos t erá meia dúzi a de a ssistent es que O esc ut em.
CASA DE HABITAÇÃO
A que especíalraente se destina ao lavrador e s ua f amília compcende :
casa de entrada, um indet ermi n ado número de quartos, sa la de j antar, dispensa.
cozinha, amassaria, casa de pão, etc.
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AT RAv t s DOS CAMPO S
Casa de entrada Só tem de notável as cantareiras de loiça, estanho, arame
e cobr e que ornamen t a m as paredes, de alto a baixo, em
:fiamantt"s esta nheiras e sa nefas de pin ho. tintas de azul e encarnado.
Por est anho, ar ame e cobre, designam-se genêr-icemente os tachos, prat os,
panelas. bacias. al mofari zes e outros utensílios de cozinha, de variadas dimen-
sões, que n outros t empos se a plicava m habitualmente aos usos própr ios. H oj e
só se u t ilizam a lguns dos maiores como tachos gran des e asadas. T udo mais.
que é basta nte e de val or considerável, conserva-se e aumenta-se para figu r a r
apenas n as centereírs s, a compor a casa num luzido e brilhante a puro. t o
fracasso da l avradora - o seu lux o caseir o, que a vanglor i a basta nte quando
es tr anhos l h o gabem.
Dispensa Vasto compart imen to abarrotado de comestívei s. Ali se armazena
o f umeiro dos s umos. i st o é, o produt o das mat anças de oito a doze
cabeças gran des. as melhor es que saíra m do montado.
O f umei r o compreen de : gro ssas mantas de to ucinho em pil h ado em
salmouras pr óp-ries ou em potes de barro e cai xot es ; as varas de enchido
como paios. ch ouriços, li ngui ças, morcelas, cacholeiras e fa ri nheir as. ca da
qual em separado, e t odas suspensas po r cor das presas ao t ect o, fo r ma n do
por este modo a par reir a ou l at ada de carne cheia. previamente d efumada
n os vãos da chaminé. Se a carne já enxugou, a latada nã o aparece pois que
o enchido pass ou a armazena r -se em potes de b arro ou l ata. Em vazilhas
a nálogas e semel han tes, conserva -se igua lment e a man teiga ou banha, e os
pêzinhos e lacões.
D efron ta n do com a ca r n e d e porco e s eus a ces sórios, estão os potes do azeite
e os das azeitonas ; as asadas do que ijo, os caixotes dos legumes, os t abul eiros
de pã o d e t rigo - ralo e bra n co - os ovos. arroz, frut as. etc. E, todos estes m a n-
t imentos ali fi guram, entre bal a n ças, pesos e medi das, nã o por ostentação de
abundância, m as como pr evidênci a económica de primeir a i n tuição - alimen tar
com barateza uma cri adagem avu l tada, que osci la ent r e 60 a 100 ou 200 h omens.
E par a essa a limentação sai r barata. necessit a -se reunir por junto e em condi-
ções van taj osas os gé neros alimentícios de primeira n ecessi da de. É. o que fazem
os gra n des la vradores, qua n do lho permit em os s eus recurs os pecun i á ri os. Que
n em t odo s os possuem às ve ze s, cumpre também acrescentar.
Cozinha Numas partes é de caráct er excl usivo, n outras serve simulta n eam en te
para amos e criados. E m qualquer das h ipót eses, consist e num vasto
compartimento de lareira descomunal, s empr e de lume aceso, s ej a de di a ou de
noite. Em volta da cas a, pelas paredes t odas d e a lto a baixo, como n a casa de
entrada, ostentam-se igualmente as or namentações característ icas dos domi ci-
lias rurais alentejanos.
Nas gutrlendas e est an h ei ras, lá s e vêem também os se rviços de cobr e,
arame, estanho, ferro e barro, onde se destacam tach os e asa das monstruosas,
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ATRAv t S DOS CAM PO S
por entre pratos, fdgideiras e panelas de lotes diversos, t udo realçando pel o
brilho. di sposição e apu ro de um cuidado inexcedível.
À um dos cantos depara-se com o pote da água. elemento que também
existe nos cânt ar os de cobre, l at a e barro. que figuram n os poiais. À cozinha, em
certas partes. t ambém serve de refei tório da ganbaria e r estante pessoa l, como
carpi nteiros, ferrador. etc. Noutras, porém, as r efeições a os cdados t êm lugar
na casa de enteada, junto à p orta pri n ci pa l. À mesa cost uma s er comprida e
estr eite, de madeira em gers l, e de pedra por excepção.
Amassaria t a oficina do fa brico de pão das diferentes qualidades que se
consomem. T omando p or base a importância do consu mo. temos
em pri meiro lugar o pão de centeio, denominado mnrrocete, que se dá aos
criados e ema.l te sese ; em s egundo, o pão de tri go - branco e ralo - que é r es-
pectivamen te para a mos e criados d e por tas a dent ro; em terceiro e último, a s
perruma$, pão d e farel os d e centei o com que alimentam os cães de gado. O
msrrocete fabri ca- se em. escala muitíssimo s uperior à dos out ros pães: À s
«casas grandes» consomem anualmente se ten t a a cem moi as d e far in h a.
A amassaria es tá provida de todos os seus pertences: altezas d e madeira e
alguidares de barro pa r a os a massilhos ; ca ixotes, saca s ou t ulh as par u as fari-
nhas e farelos j caniços pa ra os marrocates e perrumas, penei r as, t oalhas,
tabuleiros, et c. Se o moviment o é gra nde, a farinha e o pã o oc upam uma
segunda casa contígua ou sepa rada.
Há montes em que a cozi n ha e amassari a par a a cr i adagem fica m fora da
casa de habitação.
ACOMODAÇÕES AGRfCOLAS E PECUÁRI AS
Resumem-se Das seguintes : C8Sa. d e r ações para ca va lgadu r a s e bestas,
celeiros, queijeira, fomo, casa de lã, ca valariças, palheiros, cocheira, atafona,
casinha dos ga n hões, casinha do abegão, loj a d os ferreiros, galin h eiro, casa dos
pintos, chiqueiro, cabanas, curral, etc. Às t r ês primeiras, tanto se instalam em
divisórias interiores, contíguas às da habitação fa m il ia r , como em ca sas ext e-
riores separadas. As r estantes são, por via de regra, ed ificações is oladas, e loios
de portas af or a, como vulgarmente se diz. P orm en oriza r ei t odas que m ereçam
especial menção.
Ce1eiros Divergem muito em número e ca pacidade. À lotação dos maiores
não va i al ém de duzentos moios. Localiz ados ao rés-do-chão ou em
al tos, o seu piso é de tijol o ou asfalto. O asfalto introduzi u-se há uns vinte
anos, sendo decerto o mel h or sistema para a boa conservação dos géneros.
Os ant igos si los (círios) ou tulhas s ubterrâneas abertas nas cercanias dos
mont es para depósito de cereais, suponho já não existirem em nenhuma herdade
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A T RA v t S DOS C AMPOS
do Alentejo. No concelho de El vas t êm-se encont r ado vestígi os bast antes dessa
u se nçe ára be, a inda em voga há poucos anos em a lguma s terra s de Espa n ha.
Q uei j e ir a Casa onde se prepara o queijo e outros lacti cíni os. Costuma ser
um amplo compartimento provido de lareira espaçosa que impro-
priamente denominam chaminé. Ali se ac ende o l um e para a confecção do
e rebefe conse rvação de u ma t emperatura el evada, necess ária a coagul e çâo do
leite e à mani pul ação do queij o n os dias frios. Pelo tecto da casa p endem
mo lhos de f olhagem de sabugueiro ou freixo, a que chamam mosqueiros, Ser-
vem P S'C8 atrairem a si as mosca s, que e m enx ames acodem às queijeiras, on de,
como em t oda a parte, se tornam importunas e n ocivas, pelo menos aparente-
mente. Dizimam-nas en tão com o auxíli o do folhedo" onde se a coitam" a r ti ma-
nha s imples de excelent es r esultados.
A' n oite. q uando tudo está em sossego, o roupeiro, (enca rregado da
que ijeir a), chega-se a os mosque'ir os, e, a ca da qual, depois de lh e enfia r um saco
que segur a pela bo ca, agita-o com viol ência para a mosca ri a se desalo jar . O
efeito manifes ta-se Logo por um sussurre e lvorotedc, indicio de boa ca çada.
Imedi atament e va i -se tirando O sa co. devagarinho, sacudindo-o a miudc, a t e
ficar de fora com a bicharia no fundo e al guns fragmentos da folhagem. Sem-
pre fec hado pela boca é batido no cb.âo. despejando-se n o lume. Reconhece-se
en tão a importância do apanho. que freque nteme nt e atinge porções consideráveis.
A q ueijeira é guarneci da co m os móvei s e apr es tos próprios. Eis os princi-
pais : barr el ei ea ou banca em que se faz O queí i o : asadas pa r a a coagulação do
leite, para a coalhada, como vul ga rmente se di z; t acho gra nde de cobre para o
almei ce (soro) i r ao lume e produzi r o a t abefe; esc u madei ra , panela par a a água
quen t e; formas de queijos (sinchos de lata) ; di tas para requei jões (cest inhas de
verga e l a t a); p edras co mp resso t as para espremerem O queijo grande de ovelhas;
va sil h a do car do, saleiro. coado res. esfregões, etc.
O rdinàriamente, o queijo enx uga e fermen t a n outra casa. E m artigo próprio
referirei o mai s que diz r esp eito à i ndús tr ia de l acti cí ni os.
Forno de cozer pão E di fi cação tosca e gr ossei ra" Dada not ável quanto à s ua
a plicação principal. Mas como sob a designa çã o gené-
rica de fo rno se us a compree nder a elpedrade que o precede, impõe- se a r eferência.
atendendo a que este l ocal é o agasalho ou al bergue habitual de mendigos e vaga-
bun dos que, n o ge ral do Alentej o, são con h ecido s por maItes es. Que cenas de
vadiagem e perversão se n ã o projecta m nesses to scos pardi eiros, atulhados n as n oi-
tes de inverno por dezen as de m al andros. entre um ou out ro i nfeliz di Ana de
mel hor sorte l . .. Quem conhece o Alen tej o sabe perfeitame n te como os fornos
são teat ros de planos crimi nosos e outras vergonh a s sociai s que ninguém trat a de
extinguir. . . Em alguns montes o forno comunica co m a h abit aç ão familiar. N este
caso a maltess ri a acoita-se em albergue próprio. mais ou m en os distanciado.
O s ciganos não pernoita m junto dos maItes es, com os quais não gostam de
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A TRA v t S DOS CAHPOS
conviver. Acampam e d ormem a ce r ta dist ância, a o abri go de muros, penedos
ou árvores.
Já ago ra, e por coe rê n ci a, a l u di rei ta m bém à h ospedagem que se dispensa
aos tra nseunt es d e confiança, como Iutríquei eos, m a rcha n tes, ce ldei r eieos, etc.
Á estes d é- se-Ihes pous ada melhor em qual quer d ependência. ou mes mo nas
casas de h abit a çã o, se merecem co nfia nça. Enfim a hos pit alidade a ni nguém s e
recusa, dispen sando-se con forme a posição do que a r eceb e. E st a prá ti ca anti-
quíssima impõe-se p ela s ci rcunstân ci as inerentes a o meio e à víds agrí col a,
cumprindo-se gostosam en te com t odos, que m erecem u sufruí-la.
Casa da lã ou laneiro S erve par a diver sa s aplicações, a lém daquela por que
se menciona. D e r es t o, a lã é a coisa que m enos t empo
8 ocupa , por ser cost ume ve nder -se e exp ort ar-se no verão, l ogo depois da t os-
quia. Mas como em a lgu ns anos se n ã o vende de p ronto e é fo rçoso eo nse rvé -I e,
destina- se- I b, e uma ce se para armaa êm .
Cavalar iças C ost um a m ser dua s ou três, de rou ngedcurus de a lvenaria e pi so
- - de ca lça da . G eralmen t e falta -l hes a cubagem e ve nt ilação, o q ue é
J)8r8 lament a r pelos óbvi os i n conven i ent es que r esultam. Sen do três as es t r eb a -
rias, u ma dest ina-se à s pa r el h a s de mu ares, outra às cava lgaduras de s ela e
e a o utro , a pi or, para as b estas de ce rga. S endo duas ou uma só,
o gado aq uartela-s e todo j u n t o ou pouco repartido, con for me a s circ unstâncias.
Às cav a la ri ça s servem também para d epósi to dos a prest os d as ca valgadu-
ras e dos ho me ns que com elas t r a balham: ce rreiros ou al mocr eves, pa qu et es,
caveli st e, le n çe r ot e, e te.
Palheiro Casa em que se armazena pal ha pa ra O cons umo imediato do gado
cavalar, mua r e asi n i n o que pe r noita recol hi do . N os palheiros dor -
mem excepcionalmen te alguns t ranseuntes, quando por a ca so não ca bem DOS
aloics próprios.
Cocheira Só se encont ra em m on t es de pri mei ra ordem. A qu art ela o ch ur -
dão e qua lque r ou tro ca rro d e maior va lo r para cómodo pessoal.
Atafona É a m oenda de ce rea is p or «mot ores de sangue» (bestas ou cava lga-
duras) que a ntigamente h avia em todas as sedes de la vouras. Hoje vai
desaparecendo p or s e con s ide r ar engenhoca i m perfeita, at ent a a superi oridade
das fábricas de moagens a vapor e dos moinhos das r ibeiras. Os moinhos
fornecem de f a rinhas a quase t otalidade dos la vradores.
Casinha dos ganhões Sob este título se desi gna o dormi t ório e casa de
des canso dos «ga n hões» ou moços d a la voura, que cons-
tituem a ganharia. Como se po de s upo r , te m o se u quê de se mel hante às
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ATRAvt S D O S C A M POS
casernas dos soldados, conquanto delas contraste bastante pelo que r es pei t a ao
arranj o e a sseio.
O nome de «ca si n h a» consíderamo-Io impróprio. Na maioria dos montes,
a alojo, esse, longe de ser um pequeno cubículo, é pelo contrário uma cese
ampla que acomoda à vontade vint e e trinta homens. Às ecaaí n bas», especial -
mente as das lavouras distantes dos po voados, em que os ganhões não tê m e
f acilidade de ir todas as noites às s uas residências, se ndo, por isso, for çados a
pernoitar no monte, oferecem aspecto curioso digno de menção. A par da
desordem e estravagância que se nota n o rústico mobiliário. ouvem-se colóquios
est u pe n dos e cenas engraçadas que definem perfeita mente os insti ntos e senti-
mentos das pessoas que ali pernoitam.
Qualquer que seja a fo rma de uma «ca sin ha » possuí sempre lareira aspa -
çosa (a que designam por chaminé) construída a um elos cantos da casa, ou ao
centro. Junto da ch ami n é meia pejada pe las cinzas de lumes fortíssimos, aglo-
mera-se a cr iadagem que ali passa os serões, primeiro aquecendo-se ou enchu-
gando-se das molhas que por acaso sofreram durante o dia, de poi s travando
palestras ou entretendo-se em distracções diversas. P erto da chaminé estão os
burros (bancos r ú s ti cos de pernadas de azinheira) que servem de assent os e que
permanecem es t at el ados ou de pernas a o ar toda a vez que os não utilizam.
Idêntico abandono ressalta das tari mbas que se erguem em redor das pare-
des. F ormades por leitos de car ros velhos, portas inutilizadas, tábuas, etc.,
r evestidas com rama de piorno, gíe ata e palha, tudo aquilo está em de sordem,
assim como a copa (vestuário) de reserva dos que as ocupam. Roupas, safões.
ca lçado, ch a pé us, est eiras, paus, etc ., para ali s e a mont oa m, sem que mã o cui-
dadosa se l embre de os arrenfar.
Para a coe rê ncia ser completa, o ladrilhado ou calçada do piso conser va -se
meia oculta pelas Ironçes e gra vet as do p ior -no que, em feixota s, se aplica a
combustível de lareira. Enfim um desarranjo absoluto, digno de reparo. M as
que lhe importa aos gan hões semenh an t es bagatelas Pl No se u modo de ver, est á
bem assim. O arran jo, a compost ur a e a limpeza, dizem eles, compete às
mulheres, lá n as casitas da vila ou aldeia próxima onde residem. À í, sim; aí ,
é que eles gostam de ver o asseio, a comodidade e luxo mesmo com que a s
esposas, mães e irmã s or namentam o interio:r das habitações, e de que j ust a-
mente se vangloriem por que nada se lhes ass emelha, sequer, n as o ut ras pro-
víncias de P ortugal. Só vendo-se é que se avalia bem. Mas fora dos domicílios, no
campo e nos dormitóri os dos montes.. . «era o que faltava, perder em-se a s horas
de buena a compor a tari mba e arranjar a cama. . , Q uem passa o di a agarrado
a o tango, à noite de t odos os modos dorme bem. . . Inda que sej a em riba de
pedras ou em pontas de alfi netes ', . . » E com estas fras es justi:6cam o
desali nho.
A s paredes da ca sa condizem com o desalinho da :roupa e trsbecos. Àpesal:
de serem cai adas de branco es tão em parte enegrecidas pel o fumo da lareira.
As r es tantes menos sujas vêem-se mascaradas de desenhos estapafúrdios, rus-
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ATRAVt.S DOS CAMPOS
ticissimos, feitos a carvão, destacando-se u m ou outro que revela traços firmes
e vocação artística do autor.
Tudo aquilo é obra dos ganhões arteiros, que têm queda para as pintorices,
e que ni sso se entretêm algumas noites, distraindo-se a si e a os camaradas.
Traça m então j un t a s de bois com o ferro de casa; cenas tauromáquicas;
tipos das cidades ; as fig uras do sol e da l ua, monstros marinhos. neptunos,
sereias, nav ios, pavões, cegonhas, lobos, vasos de flo res. o sino saimão, etc., etc.
Compl etan do o quadro, é frequente penderem do tecto cordas e paus com
que i mprovisam erap ésios. São para a rapaziada fazer ertemsge», o que
em calão local significa exercícios gi n âst'icos e acrobáticos. Ali pois espino-
team à vontade com o seu t rambulhão, à mis t ur a, unanimemente festejado.
Ora, o conjunto de tudo isto, casa e habitantes, dá à casinha dos ganhões uma
aparência original, que se torna fantástica. quando à noite a s chamas da
lareira projectam a sua luz esf umaçada e indecisa sobre os vultos da habitação.
A tristeza raro se nota n aqueles r eci n t os originais. Ali a s noites deconem
alegres. se a maioria dos assistentes se co mpõe de r apaaes solteiros, exuber an-
tes de vida. alheios a cui dados. Então t udo se ani ma a valer l Simúlacros
de t ouradas; artemagesi jogos de brincadeiras para logro dos novatos; tudo
enfim que revela despreocupação de espírito. O s velhos. coitados. q ue já não
podem tomar parte naquelas pândegas. sentem-se rejuvenescer, e lá do canto
da «chaminé». onde acalentam o sangue amortecido. aplaudem os divertimentos
da família moça e estúrdia - partidas que eles também já fizeram e de que se
recor dam com saudade.
Noutras noites não há s.rtemsges, nem touradas. nem jogos. nem desenhos;
mas o serão passa-se divertido. se não de alegria ruidosa, pelo menos com o
praze r suavíssimo que disfrutam as almas simples ao ouvirem narr ações estra-
nhas, maravilhosas. Nestas n oi tes os papeis inver t em-se: são os velhos que
distraem os novos. Àqueles, tomando ares de superioridade paternal, propõem
adi V' inhações, recitam décimas, narram contos de princesas e mouras encantadas,
casos de bruxedos, e até episódios das guert'as da primeira metade do século, de
que eles ou os ascendentes foram testemunhas oculares.
Com que atenção os moços os escutam, e com que ufania os velhos referem
aquelas histórias variadas. de exageros manifestos I Os que as ouvem, ficam
embasbacados a ponto de um ou ou t r o exclamar: «Ca r a mb a, rapaaes l Sempre
o tio Fulano sabe muito!. .. t um poço sem fundai Não sei como lhe cabe
na cabeça tanta coisalll Se fosse homem de letras era um doutor!. . .
Nas noites grandes, quando se esgota o reportório de historietas e mouras
encantadas, muda-se de assunto até que se chega à coscovflhtce r eles. N es t a
altura , diz-se mal dos amos, dos abegões, do prior da freguezia. do exagero das
contri bui ções, e por associação de ideias. dos poderes constituidos. D iscut e- se
enfim, incluindo mesmo a astronomia, que lhes merece comentários e aprecia-
ções originais em que abundam os disparates. Mas quem os dia, fica muito
ufano COmo se proferisse uma sentença " " .
- 19 -
ATRAvtS DOS CAHPOS
Casinha do abegão D or mi tóri o e alojo do encarregado da lavoura e do seu
imediato substituto-o sot e, S er V" e também para arrecada-
ção das apei ra gena e outros utensilios confiados aos didg.?ntes da lavoura.
Cabanas Por este nome designam as seguintes diferentes acomodações :
a loja dos ca rpinteiros de carros e a rados. o depósito de ma-
deiras, as arrecadações de veículos e u charia de l a voura, as e rrtbanas para
gados, etc., etc.
N o A lentej o o ter mo de cabana é u m n-tme genérico que se aplica indis-
tint amen t e a todos os casarões toscos e espaçosos que se a da p t am a quaisquer
u sos. A cabana q ue se a dapta à oficina dos carpintei ros acomoda muitas vezes
as madei ras n ecessárias 80 movimento da lavour a, por n ão h aver cas a apro -
priada para semelhante Em. D e qualquer maneira é curioso o seu aspecto:
ao centro da casa, sobre o solo coalhado de cavacas e aparas, firmam-se os
gast al bos onde. enchó em punho, e assentados. trabalham os mestres, concluindo
a execução dos ara dos e outras ferramentas agi ícolas. Se trabalham em pé
vemo-los com o machado. vibrando golpes certeiros na madeira, dando-lhes 85
formas gerais de que precisa. desbastando-a assim de i slqueio para depois a
aperfeiçoarem à encbô . Isto ao meio da oficina. Em redor das paredes
levantam-se pilhas gigantescas de arados e timões, t endo pela fr ente outros
similares, que por seu turno ainda são amparadas por rimas de e lve ca s, cangu-
lhos, raios, pinas, etc. Cen te na s de peças em bruto ou Ée lquejedas, umas di s-
postas em simetria. outras amontoadas a esmo.
A carpi ntaria é o centro do cavaco nas escapudeles aos afazeres e às horas
de descanso. A pretexto de qualquer coisa entra-se ali para se receberem ou
darem novi dades, ou para se comentar este ou aquele assunto. A par da car-
pintar ia, t ambém em cer tos montes funcionam l oj as de fe rrei ros, inovação
r ecent e. que n ão parece gene ralizar-se . S e alguns l avrador es opul entos entretêm
forj as a trabal har para as precisões da sua lavoura e das de a lguns vizinhos, o
maior n úmero não ent ra nessa especulação. A maioria mantém o uso tradicio-
n al, avençando por a no ou temporada com os ferreiros das povoações
próximas.
Prossegui n do nas referências às cabanas. convém acrescentar que todos os
montes as têm para uso dos gados. E naqueles em que as há. os únicos ani-
mais que as utilizam são os bois de t rabalho, durante o inverno. e as éguas e
crias de ma nadas. no fim do verão, às horas da calmo. . Quando estes gados as
não ocupam, servem para arrecadação de carros, palha, fenos, etc.
A's cabanas mais rústicas, construidas de madeira com tectos de colmo,
piomo em giesta, cha ma-m-se-lhe ramadas . 0 :1 termos de «est áb ul o» e eeeel -
bana», tão adoptados n outros sfeios, são desconhecidos pelos campónios
do Alentej o. a náloga se nota também com o vocábulo ebegoaeie.
Este nome aprcpriadfsaimo aos depó sitos de tren s de l a voura e out ras f erra -
mentas agtícolas. maio conhecem os habitantes da s n ossas aldeias.
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ATR AVÉ S DOS C AMPO S
Ga li n he ir o U ma casa qualquer, em que pernoitam e põem as a ves d omésticas
do monte, com excepção dos pavões e patos reais que dormem e ni-
dHicam fora ou ao ar livre e à solto. O é provido de poleiros 5U6.-
cient es pa ro. repouso dos bicos, e de casi nhol as ou cestos para a postura dos
ovos. D e n oite ali se recolhem dezenas ou centenas de aves diferentes, que se
sol tam ao acla r ar do dia, com excepção das que t êm ovo, q ue continuam reco-
lhidas algumas horas mais, afim de pôrem n esse entretanto. Mas antes. sofrem
todas o devido exame, a uma por uma, pelo processo vulgsrl seralmente conhecido.
Em alguns montes o galinhei ro serve t a mbém de pombal, para o que t em
na s paredes as casinholas indispensáveis para a criação dos pombos. Neste
caso o tecto é provido de uma fresta ou água furtada que permite a entrada e
saída dos pombos. Mas o mais comum é o pombal Gear ele fora , encostado o.
qualquer chaminé.
Casa dos pi ntos Espécie de sucursal do ga li n h eiro, q ue a comoda as galinhas
e peruas chocas com as n inhadas em incubação, e ainda ou tra s
que já tiraram e que ali pernoitam com os pintos.
Chiquei ro Cu rra l6ri o que en cerra dois ou três porcos adultos p ar a se irem
engordando a po uco e pouco com os so be jos d as comi das, sementes
a variadas, bagaço, frutas, etc. Um mealh eiro aproveitador de desperdíci os.
O chiqueiro abrange o espaço d e uns 20 m et ros quadr ados, cm parte r es guar-
dado das inclemências do tempo por uma alpendrada ou choço, onde se abrigam
os cev ões - nome específico porque se d esi gnam os su ínos assim sustentados.
N o recinto a descoberto, v êem-se os maceirões e pias, onde comem e bebem
os porcos, anafados bichos que devem conaiderex-se fe lizes pe la abastança, sos-
sego e re pouso que ali disfrutam. N o interior do pocil gão ou cá f ora, no
chiqueiro a de scoberto, mete i n veja ouvi -los r on cer forte, a sono solto e ban-
dulho farto, sem preocupações de nenhuma ordem. Quantas criat uras humanas
dari am um dinheirão por dormirem assiml
ARREDORES
Os a rredores dos montes carectertzem-se por certas de pendências indispen-
sáveis ou convenientes aos l abores a grícol as e pecuários. Nestas condições
est ão: a eira , o poço da água potável, os chafarizes para os gados beberem, as
malhadas dos porcos, o bardo d as cabras, e fi nalmente a quinta, horta ou quinchoso.
Ei ra to te rmdc em que se debul ha e limpa t oda a casta de cereaís e legumes.
-- Fica geralmente a curta dis tãncia do monte, n uma da s colinas próximas
mais vau i da s do vento oeste, ou seja «bem lavada de t revesaiae, como se diz
em frase plebeia. A s eiras apropriadas a debulhas de pouca monta, m edem a
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A T RA v t S DO S CA MP OS
superfície de 100 metros quadrados, aproximadamente. As das herdades de
grandes colheítas, em que se acumulam muitos e vastos calcedciros, a brangem
capacidade bastante maior - mil a dois mil metros quadrados . E, há-as de
grandeza tão excepclonal, que ocupam a importante área de cin co mil metros
quadrados. Dest as dimensões é a h erdade do Falcato (concelho de Elvas).
propriedade dos srs. Bagulhos.
O so lo ou casco da maioria das ei ras, consiste num si mples terrado batido
a maço, ou somente gadan hado e varrido da erva, se de h á muito se aplica a
esse fim. Vêem-se, poré m. muite.e ei ras cal çada s modernamente e algumas sem
O cen tro lageado de ardósias ou pedr as de gr a nit o.
Nas h er dade s em q ue predomina a cultura do centeio, a eir a m uda de local
quase todos os anos. por medida económica na arrecadação e a provei tament o
da palh a, que, sen do como é, exclusivamente apli cada a fo r rage ns do ~ a d o
bovino. e comida nas próprias al me nar a s, convém ficar desde l ogo na fo lha
onde os bo is e vacas past am dur ante o Out ono e Inver n o, ou pelo menos
noutra cont ígua. Portant o, em cada a no, numa das fo lhas de «rastolholt ou de
«pousio» - a do invernadouro as mai s das vezes - escolhe-se u m vale inculto
bem ven tilado, e é ai q ue se pr ep ara a eira do centeio. P re paro simples e de
ocasião, visto o seu ca r ácter ser transi tório.
Às almenar as de palha e os etlb.eieos dos cereais em ramo, aguardando
debulha, constit uem o princi pal embelezamento das eiras. R ilh eiros e almena-
ras, erg uidos a ca pri ch o pelo pessoal da ei r a, dão ao l ocal um tom i mponente
bastante caract erísti co.
Poços-chafarizes Cada monte t em proxrmo um ou mais poços, de três a
cinco metros de profundidade, de onde se extrai a água para
o consumo da casa e abastecimento dos gados, empregan do-se para isso o ca l-
deiro e a corda. As bombas pouco se usam por enquanto. O s poços de boas
nascent es valori zam muito as herdades r espect i va s, atenta a fa lta de ág ua que
se n ota em quase toda a p rovíncia, dur ante a quadra estival. P oço abundante
de água, r eput a-se regalia de incalculável valor. sobret udo se a herdade não é
atravessada por alguma r ibei ra boa. onde os gados possam beber no verão.
Assim sucede que, n a ma ior ia dos poços de nascentes medianas e abun dantes,
há um chafariz para bebedouro do gado gra n de, como boi s, vacas e éguas, e
ainda alguns emecefrôes» (gamelões) de madeira para as r ezes miudas, como
ovelhas, cabras, porcos, etc. À água é ti rada pel os «gan o. dei ros» (g ua r dadores
dos gados) empr egan do também o caldeiro e a cor da . P ois n ão obs tante a
rudeza do processo, há ge.nadeir o que sem dificul dade extrai todos os dias, às
horas da calma, a água precisa para se saciar em à vontade 60 a 80 bois.
Como nota significativa da escassez e apreço da água nas terras transtaga-
nas, basta dizer que certas herdades que n ão t êm água dentro, pagam foro ou
pensão a outra vizinha onde há poços, e que p or seu turno estão sujeitas e o-
encargo de admitirem a beber os gados que naquelas pasta m.
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A.TRA.V e S D O S CAMPO S
Malhada do s porcos Edi6.cações rústicas" primitivas, de forma cónica, com
os tectos de piorno, giesta e outros arbustos. Servem.
para 8 criação e dormida dos s uínos, compreendendo-se também por esta desi-
gnação da choça dos ganadeiros que os guardam - os porqueiros. Em geral há
mais de uma malhada em cada cómodo de la vour a, vendo-se já algumas moder-
nas de construção aperfeiçoada. que divergem bastante elo sistema comum.
Q uando tratar da criação dos porcos farei descrição mais desenvolvida sobre as
malhadas respectivas.
Bardo das cabras N ome por que se con h ece o redil ou cur ral em que se
or de nham aquel es animais. A sua construção é de carácter
transitóri o, po rqu e t odos os anos muda de Iccal, 6.eando sempre próximo do
monte e de modo que da porta principal se veja bem. Convém i sso para, às
horas do or denho. o pessoal do monte dar notícia da chegada das cabras e
assim seguir l ogo o encarregado de trazer o leite, montado na r espectiva beste ,
entre 8S cangal has com os cântaros.
O bardo vulgar é construído com fei xes de mato, como est ev e, aloendro,
piemo, et c. : uma espéci e d e paliss ada em s emi -círc ulo, com en tra da expost a ao
nascente. Contíguos ao bardo, da parte d e cima, erguem- se os chiqueiros ou
ebocos em que se r ecolhem os chibos n ovos, enqua nto n ão acompanham 8 5
mães. N a actualidade estes bardos inutiliza m-se no mea do da pri mavera,
substituindo- se por outros si mples, portáteis, formados por cancelas de madeira
de castanh o, qc e se muda de dias a dias para mel hor se a proveitarem os estru-
mes. U ma semelhança do q ue se p ra tica com as ovelhas.
Quinta, horta ou quinchoso Por qualquer destes nomes se de si gna o cer-
cado hortícola e pomífero, que produz hortali-
ças e frut as para consumo do monte. Se a sua ár ea e valor é gr an de, ou para
melhor dizer, se con té m pomares de vul to como l aranjais, ameixiais, etc. , e se
sào vedados por bons muros de alvenar ia chama-se-l h e quinta. S e porém o s eu
todo é peque no, ou se mesmo grande, ma s que não esteja povoado d e muit o
arvoredo frutífero. e se sobretudo a vedação se reduz a uns simples valados,
denomina-se horta. No revestimento das sebes empregam-se as pi te i r as, figue i-
ras da índia, canas, silvas, etc. Quando o hortejo se r eduz a proporções mini-
mas toma O nome de quinchoso,
Apesar de haver herdades com quintas e hortas encravadas na sua arca,
mas pertencendo a donos diferentes, é também certo que quase t odas, que são
centros de l avoura, têm anexa uma quinta , horta ou qu'inchoso, disfruredo por
conta do lavrador. com o fim de ter h ortaliça e fr ut as para o cons umo da casa.
E. algumas maiores, além de produzirem o suficiente para o pessoal da lavoura,
ainda ahastecem os mercados diári os das p ov oações vizinhas. Várias proce ssos
se usam para obter a água que alimenta as q uinta e as hortas. Numas fazendas
a água corre de pé, nascendo ali mesmo, ou vindo canalisada de f ora, de mai or

23
ATRA v t S DOS CAMPOS
o u m enor distância; nout ras, embo ra exis t a n o próprio l ocal, h á que extrai-la
por m eio de noras mouriscas, ou de ou t ros sis t emas. como el evadores automátí-
cos, cegonbas, bombas, etc. O processo mais vulgarizado é o das n ores de diver-
sos tipos, e o menos é o das cego nhas e o dos eleva dores ou moinh os de vento.
P ara o trabalho das n oras empregam- se muares e jumentos de pouco valor , qu e
s e aplicam também a outr os se r viços .
Por qualquer pr ocesso que a água se tira vai t oda dep ositar-s e em tanques
ou l agos, de on de se solt a uma ou duas vezes por di a no t empo es tio, para r egar
a s tabuadas, cantei ros e l eiraa em q u e se di vide a terra preparada . À. água que
sobeja das r egas dá-se- l he saída para fora, indo afluir aos r íbetros.
Muitas quintas e hortas a br angem duas a três ge iras de t errenos inacessí-
veis às regas e que po r i sso se lhe chamam seque ieos. Dlsfrutem-se com olivei -
r as. figueiras. amendoeiras. etc.
Em r esumo, as quintas alentejanas. na su a quase t otalidade, quer sejam
acessóri o da her dade. q uer cons tituam prédio indep endent e, são terrenos de
exclusiv a ex plor ação hort i cola e po mífeca, n ão se assemelhando. portanto, às
quintas que povoam os campos das out ras províncías. As n ossas produzem
somen t e hortali ças e frutas; as ou tras abra ngem grangeios agrícolas e pecuários
que n o Alentejo são pr ôprios das herdades.
Como n ot a compl emen t ar convém di zer que. se efectivamente alguns m on-
tes t êm anexa um a pitoresca q ui n ta l ou uma boa horta t idas. justamente, como
oásis de l íciosos em regi ões t ão monótonas e abrasadoras, não poucos se nos
de pa ram também que s6 poss uem rel es hor rejos, mal dando umas couves Das
époc as pluviai s.
A VIDA NOS MONTES
A vida n os mon tes dec orre t r a nquila me nt e, alheia 00 bulício das cidades e
aos mexericos das ald eias. Os suc essos do dia e os casos de sensa çã o ocorridos
n os gr an des centros s6 ecoam no campo por intermédio de q ualquer gazeta
lida por ac aso nas horas vagas. ou pela narrativa fant asiosa dos transeuntes e
ch egadiços.
Com efeito ao i solamento do lugar alia-se a si mpli cidade dos hábit os con-
traidos em mil ocupações, que sugerem ideias e pressentimentos oposto s. que
por i sso mesmo se conf un dem e equtl ibrem, evi ta ndo alegrias ruidosa s ou alu-
ci nações de desespero. O t empo passa quase desapercebido. ta nt a.s são as li das
que o t oma m desde o raiar da aurora até pela n oite adiante.
* * *
Logo de madrugada principia a azáfama. Os primeiros a l evantarem- se
são os cri ados de portas adentro. isto é. o cozinheiro e o amassador de há
muito acor dados pelo cantar dos gal os.
À s duas e meia ou t r ês da manh ã no O utono e começo do Inverno e às
- 24
N as ccaianças:.
AT RA V e S DOS C A ~ 1 P O S
quatro no restant e do ano vêem- se j á erguidos aqueles homens. O amassador
para de spachar os amaasilhos - doi s e três por dia, confor me as precisões.
O cozinheiro para cu ider do lume, das a sad as com água a aquecer, do ordenho
das ('8bras, etc.
E.ntret anto os do is bocej am. trocan do as impr essões próprias da hora e do
meio. bate -lhes à porta O a begão e preparar o al moço para a ganharia. Abrem-
-lha l ogo, entra e diz: - D eus os salve I» cSalve-o D eus I. respondem os que
estavam, ret ribui ndo a sau dação.
O s três dirigem-se para a chami n é e ai a o lume matam o bicho, fazem O
cigarro e falam do t empo. O seu pa l a vr iado, a ebulição da água e o crepitar
das chamas do azinha que iluminam em chei o t oda a casa, denunciam os pri-
meiros rumores da labuta em começo.
É curta a parola . Sat isf eito o ví cio ou o hâb íto, cada q ual t rata dos seus
deve res. O cozinheiro prossegue n os j á iní ciados, O a massador põe o f orno a
arder; e o abegão, enquanto a água abre a I er vure, põe a mesa colocando - lhe a
toalha, os m err ocetes e as azei ton as.
Ao fer ver a óg ua em cac hão, vaza -se a escaldar das asa das para os barra-
nhões já temperados de azei te. sa l e alho, p reparundo - se a ssim o caldo da
essc rdu , que deste modo imediatament e conduz par a a mesa. D epoi s sai à rua
e, em t om forte e pr ol ongado. gríta :- «A o a l moço l .. . » A criadagem acode,
entra, almoça e sai. Ch ega então a vez de se a centuar o movimento. T odos dão
rumor de si tratando de mar char pa r a as ocupações, por en tr e uma VOzearia de
ditos. entremiados de perguntas e r espostas.
O s almoc reves de i tam fo ra as parel h as, engatam os carros e gi ra; a gan haria
(moços de lavoura) também se põem a cami n ho do trabalho; os m alt eses esguei-
ram-se à f ormiga receando empr naament os importunos, e por último os
domés ticos do mon t e a pouco e pouco aparecem também. Carros e ganhões
saem ainda d e n oi t e duran t e a sementeira do Outo n o, e a o ser do di a n o
tempo do alqueive. Entretanto ergue m-se os l avradores, chegam dif erent es
ganadetros a r eceberem o a lmoço e al gumas ordens, e assi m, num vai-vem de
saidas e ent radas, a ani mação ge neral iza-se. A o nascer do sol t udo está a
postos, no mourejar do es ti lo.
D es pachado dos afazeres do mont e, o lavrador monta a cavalo e parte a
dar volta aos arados, 8 0S rebanhos e ao mais que tem es pal h ado pelos campos.
Quer endo, n ã o lhe falta que ver e providenciar.
A sua a ssi st ência no monte é menos necessária. A esposa subs ti t ui- o aí
com vantagem, tant o mai s que, por direit o tradicional, é ela que t em o mando
nos labores casei ros inerentes a o grangeí o a grícola.
Nesta s circun stân cias a lavradora põe e dispõe o s eu talante. Logo ao
levantar merece-lhe parti cular interesse, a s olta das ga linhas, o serviço da
casa, e o tratamento da Aadez8, como cruem diz dos bicos de criação e dos
porcos do chiqueieo. Neste propósito e noutros q ue o decorrer do dia lhe sugere,
farta- se de estí mular o zelo de criados e criadas, entregando-se ela própria a os
25 -
ATRAvtS DOS C AMPOS
serviços de maior urgência. Esgotada a pachorra, per de o bom humor e desata
a ralhar com todos, ou por falt as que nota, ou por hábito contraído. Que aa
há que r alham por vícío e por desfastiol Sem embargo, todas são protectoras
da cr iadagem. E quant o mais ralhon as, mais bizarras e benfaaeies, inclusive para
esses fi quem n õtam os def ei tos e que l hes at u ram as rebufices. Parecem-se
imenso com e cuele boa D . Vitória que Júlio Di niz r et ra t ou admiràvelmente
n a MOT8sdinha dos Canal/fsis . Cá pelo ALentejo há também donas Vit ória s . . .
.. .... . .. .... . . . - .
Pelo dia adiante prosseguem os l abor es da comida, dos avias, do fabrico e
limpeza do queijo, da remendagem dos sacos, das ve r r ições, dos «esfregados", no
arame e cobre do trem da ccaínba, e, sobretudo dos lavados e caiad os nas casas.
e ela praxe estarem sempre brancas de neve com os pis os de tij olo muito lim-
pos, tão limpos que se lhes possa «lamber mel • . ( E.xpressão corrente). E afora
isso muitos outros trabalhos. I n t er val os de descanso. s6 às horas do almoço e
do jantar, que demoram mais ou menos tempo con for me os afazeres. Isto pel o
que respeita aos criados caseiros. Os de fora r egulam- se por usanças invariáveis
que noutro lugar exporei.
Entre as ocorrências características dos mont es evidencia-se a afluência de
transeunt es e visitantes de classes e procedências diversas.
A gora aparece o emp oado moleiro e os seus médios jumentos. com o do
chocalho à fre nte, carregados de farinha para o cons umo de casa. Logo é o
astuto e rei et ro, de vara na cinta e :6.0 e agulha enrolado na aba do chapéu a
oferecer a venda do csrreguío trazido em machos e burros, ou o i n ve rso, com a
r écua descarregada, a propor compra de cer eais para ir vender.
a arxiei ro - diga-se de passagem - é um bacharel de argúci as e subtilezas,
timbrando em il udir os incautos. Não pretende gan ha r muito. assevera ele.
Basta m-l h e as crescences. E xplicando : se comprar, irá l ogo batisar o grão.
encharcando-o nos ribeiros. D e trinta alqueires obterá quarenta ... Uma fraude
como tantas que por aí se praticam à sombra de impunidade relaxi sta. senão
toleradas por usos velhos.
Possuido de vel h acari a semelha nte, também o moleiro procura trapacear
a medição da farinha que entrega, peneirando-a com as mãos ao encher a
raaoi ra. Mas tanto al mocreves como moleiros estão a perder terreno nestas
endróminas que, por velhas e conhecidas, po uco ou nada se consentem já.
Adiante.
Como os a rxi eiros, chegam igualmente muitas outras entidades: o peneiro,
o futr iqueiro, o amola-tesouras, o da loiça, o caldeireir o, o gateiro e vários
quejan dos, gal egos alguns a ofe recerem os seus serviços e a proporem n eg óci o.
F.. si multan eamete, a mai ori a, pede e obtém comida pa ra ele" e para as bestas.
A par desta gente concorrem igual mente os «velhos com sa ntos», espécie de
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ATR Avt S DO S C A M P OS
ermrtoes andado res" a quem os párocos entregam n i chos de lata com uma
imagem pequena, para esmolar em pelos montes e a l deias. oferecendo-a a beiiar
aos devotos. O produto das es molas divide-se pelo ermitão e pelas despesas
do culto, diz-se.
Tant o as imagens como as caixas que as en cerram primam pelo gr osseiro
do fabri co, salientando -se principalmente a porcaria que as enfar rusca. Pela
sua rusticidade tornam-se a lvo de montejoa e gr a çol as pouco ed i 6.cantes. H á
quem lhes chame l atas de fu.rões qu e entram nas habit ações. para, a troca de
beii oces abeatedas, caçarem boas esmolas .. .
Ver dade. verdade a tal caixa e o santinho nas mãos de mendigo sujo, às
vezes piol hoso ratoneiro, r epresenta uma ver gonha p ara o decoro da r eligião.
Os promotores de festas nas l ocalidades vizinhas t ambém assediam os
montes duas vezes por ano com os peditórios do est ilo : o de car ne pel o entrudo
e o do pão n o tempo das eiras. A es mola dá-se e afer e-se do seu valor não pela
fama do santo invocado, mas conforme a import ância e repres enta ção dos que a
pedem. O s festeiros humildes recebem uma insigni 6cân cia; os de maior cat e-
goria, l aV"r adores abastados quase sempre, apanham dádivas gen er osa s.
Mas entretanto ouvem e dizem muita p iada a propósi to, r indo e t ro çando
O caso. Em ge ral o peditório é efectu ado por rapazes n ov os, so lteiros, que
tomam isso como u ma pândega. V ão à esfola, diz-se por g ra cejo.
....... .... ... . ... .. ....... . . . .... . .... . .. .. .. . ..... .. . .. . .. . .. .. . . . ..... . . ..
Aí pela cres cença do di a, n as sextas-feiras sobre t udo, vi si t am os montes as
«velhas comadres» e «afi lhadas. que se entregam à pedincha no campo uma vez
por semana, pelo men os. Umas são vi úvas, real mente pobrí ssi mas; outras casa-
das e em condições que a s ua mendici dade pouco se justifi ca. A maiori a ufana-s e
de pedría hagem e compadri o com os lavradores a quem trat am por sen h ores
padrinhos, senhoras madri n has, se nhores compadres e sen horas co madres. N em
sempre são legítimos estes tratamentos, antes COm frequência deri vam de afini-
dade. muito forçadas .
Mas como quer que seja, lá a parecem a pedir. Vão à falca, comenta o povo"
que também chama eseorche a este género de mendicidade. A falea consiste em
a metade de um marrocate (pão de centei o). Ora o termo aquele carece de fun-
dament o. À esmola a que se alude consiste não em uma fa t ia mas num pão
inteiro pelo menos.
E sendo donativo maior, como acontece em muitos casos - farinha, carne,
legumes e azeite - chamam-lhe elloried« ou saquiJada, por ser r ecol hido em
saco ou alforj e.
As sequ'ilades só as apanham as comadres e o.6lhadas de direito, ou as b em
cabidas na casa. As «de levar e trazer», como por inveja comentam os menos
contemplados.
N o entr udo, a tradicional esmola de carne dá-se indistintament e em vários
montes às pobres que a vão pedir, variando de valor e quantidade conforme a
- 27 -
x r n x v z s DOS C A M POS
pobreza e afeição das pedintes. P elo que estas procura m ce tequi sar a s lavrado-
Ias pOI todos os meios imagináveis. MoI chega m à p orta oferecem-se pare varrer
e lavar" adicionando 80S oferecimentos de serviços, vários presentes de ninha-
rias r el es como trapos para esfregões, molhos de ervas para mist uras, etc.
O s serviços recusam-se as mais das vezes; os p resentes aceitam-se por
complacência. remunerando-se à larga por meio de comestíveis.
D a parte das mulherzinhas beneficiadas ret umbam os agradecimentos e as
baj ulações ê s lavradoras, j á Ba ba ndo- lh es as qualidades, já nar r ando-lhes com
exagero e a seu sabor as ocorrências das aldeias de onde são e es dos montes
por on de passam. E spécie ele gazetas fa lantes pródigas em bi sbilhotice. M as
coitadas procedem assim por n ecessi dades de estômago. E que n ecessidades, em
algumas, Sant o D eus I. . .
Ao cair da tarde out ra ordem de individuas aborda os montes, ora em gru-
pos de t rês e quatro, ora isol ados, a um e um, t odos com manifesto desembaraço.
Novos e ágeis pela maior parte. não inspiram simpatia a quem os vê. antes
causam asco e repulsão. pelos seus tipos hediondos, sujos e esfarra pados.
Estes párias desprestveis, são os ch amados' malteses.
- cEs mola e agasal ho a um pobre. senhora lavradora» - dizem em t om alta-
neiro os ma is a t r evidos. arrimando à porta de cacet e na mão e manta às cos ta s.
- cVá para o forno. . . logo cea rá» - respon dem- lhe de dentro com si ngular
fri esa. E o fa rroupiLha lá segue pa ra o fo rno. r esmungando insolências. E a ssim
acontece com outro e outros nas mesmas condições até noit e cerrada.
Os rafeiros, ladrando de contínuo e arremetendo com fúria, protestam a
seu modo contra tais visitantes. Mas os ch.egedtços repelem-lhes os ataques
afagando- os. ou ameaçando-os com pauladas, confor me as circunstâncias. E-
desta maneira chegam in cólumes ao forno. indo engrossar D. matilha que iá ali se
a coita. Mais adiante farei uma r esenha desenvolvida sobre esta súcia de vadi os;
* * *
À. volt a do sol posto. mulheres e homens. amos e criados d omésti cos, t odos
em fraternal convívio. sem preocupe ç âo de classes. reunem-se cá fora n o terreiro
do monte em misteres secundários. se O tempo o permite. Ali. ao ar livre.
escolhem-se legumes, debul ham-se batatas. migam-se couves e ou'tras hortaliças.
escerpeia-se lã. etc. E de mistura. sustentam-se palestras alegres, famili aríssi-
mas. animadas por umas r estea zin has de sol a m eno que a pouco e pouco vai
de saparecendo até se mergulhar de t odo.
Com o ocaso do sol esvai- se a animaçã o dos assistentes. que passam a con-
cen tr ar-se num remanso d e mutismo e quietude mística. sugestionada sem
dúvi da pelos tons da natureza. infundindo mela ncolias.
Ao longe so am os chocalhos dos r ebanhos. o coaxar das r ãs. e o mat raquear
das cegon has. E como se t udo isto não fosse suficiente para t r ansporta r a s almas
dos simples ao maravil hoso e indefi nido, do al vej ant e campanário da ermida
próxima, tangem de espaço as tri nda des da noit e. anunci an do o d esca nso. in ci-
- 28 -
ATRAVeS DOS C A ~ I P O S
tando à oração. Imediatamente os ci rcuns tantes lar ge m o t rabalho. descobre m-
-se, e excla mam em r ecol h imen t o: - «Àve M arial . .. .. E todos rezam baixinho,
nu ma religi osidade cont rita que se impõe D05 cépticos e consola os crentes. (1)
• • •
E ntretanto anoitece.
À pequena distância di stinguem- se as parelhas de muares, que tilíntando -
-lhes as esquilas e guisos recolhem ao monte, u mas de canga com o carreiro a
cavalo, outras engatadas.
À medida que se aproximam aumenta o som dos 41jorges at é os carros
rodarem pela calçada do terreiro e es tacarem para a soLta.
O barulho do desengate e recolhimento das bestas com a vozearia dos que
chegam a pé ocasiona certo bulíci o momentâneo. Instantes depois, ceia a cria-
dagem, medem-se as rações e a r raçoem-se as bestas. E em seguida cada um
entretem- se como pode «com os da sua ígualha». Ent retengas predilectas. O
jogo da bisca lambida. contos, adivinhações, etc.
Por volta das nove horas reina o sossego. À esse t empo vai o serão decor-
rido ap ós demoradas combinaçôea entre lavrador e governos sobre os se rviços a
efectuar. Mais dois d edos de ce va co com a ci garrada da praxe que o amo lhes
oferece e eis tudo concluído. Depois trocam- se as . boas n oites... e cada qua l
recolhe à ca ma para se entregar a M orfeu n um r epous o r eparador.
Se o monte fi ca próximo da vil a ou aldeia, os moços solteiros, mal ceam,
giram a caminho do povoado a conversar em com os namoros, ou a passearem
pelas rue.e, cantando em magores. .E. por lá andam o melho r da noite, até
regressarem à obrigaçao.
(s) Er .. .....lm "nlU . hnu 4 "l",u ""'o' . Agor a lá ",i o • L.m . " im. lIJ o llar.,). em H Z di or.;i5 u . tUI ..-n d. 0:01....
1II11lfld.D....


III
UITAS herdades do Alent ej o, a maio ri a talvez, BBO povoadasç n o
todo ou em parte, de impor tantes ar voredos de azinha e sobro
de diferentes idades. valor e ext en são, a que se dá o n ome de
montados. h)
Est e é o termo próprio, clássico por assim dizer, mas não o cor r en t e em
linguagem po pular, pelo menos no di strit o de Portalegre. on de frequentemen te
O substituem por outro - o de m atos - sobretudo se se trata apenas do arvor edo
e não dos seus r espect ivos produtos ou aplicações. O qu e n ão i mpede que na
mesma r egião, seguindo o uso ger al, igual ment e se denominem matos os mata-
gais de est eve, e outros arbust os silvest res. que a bundam em mai or ou menor
quant idade nos t errenos bravios. i ncultos, ou de cult ura q ui nqu enal, com ou
sem arvoredo.
Por conseguint e, n o ca m po e po r vi a ele r egra, o te r mo ele - montado -
emprega-se num sentido quase res tr it o à novidade da bolota, ou para melhor,
nas frases alusívei s à engorda do s pOlCOS com aquel e fruto. E xemplilicarei :
Quando se passa por um mon tado e se lhe a precia a novidade pe ndente,
diz-se : «este montado está bom (o u mau, conforme o caso)».
Todavia se se atravessa a mesma ou ou t ra acne, e se se trata do arvoredo
exclusivament e, já se empregam outros termos. Exemplo: «Mato vel ho; sim
senhor, mas sãdio• . • Mato assim está para VIver».
• •
Às ár vor es de azinho e sobro representam duas espécies distintas com muitos
d Em hlldldu nttl nb .. lO 10llulho de EI ..... tlmbim ..IUl m u rnlholl por .1 11'1. bol otl Iju. I. . .. t e I I Inchar.
II " ..oel.d... M.... . 101l 40 llnddada i b ll l&ll. (& di mí l: uh Cm ul. çlo l O uillbo • 1 0b10.
Ai nda 1.lD minor utll. "Il to.. tu.... 'rII um ou oouo mo.. hdo 11m.. 'IVOI ,. ru• • q UI o ,,01'0 ch.=•••, iqu ci, o, . Sio
11I11' I ""u lfh do n i nbo pu. o .obro. A CIIU da 1...ha • a boJot a, ...,=,,11..=-• • li d. n l nh.lu. mil • folh.
com a do IlObce.bo. Dio pooca boJota .
31
ATRA V e S DOS CAMPOS
pontos de contact o. Àmbas sã o de folha permanente. áspera, de pu as agudas
(men os no sobro) de côr verde escuro (muito carregado no azinha). de tronco e
pe r n a da s r cbustfssimes, q ue chegam a atingi r proporções gigan tescas, mege ato-
sas. O a zin ha predomina n o so bro, pel o menos no distrito de P ortal egre. o nd e
os montados exclusivos de azinheiras são em quantidade muito eupert or.
Enquanto n ovas, o u melhor di zendo, até adquirirem mai s d e metade do
seu desenvol viment o, 8S árvores das duas espécies têm o n ome comum de eha-
porres, Em a dult as cham a m-se- l h e azinheiras, à s de a zi n h a , e sobreiros ou
sobreiras, às de sobro . Em caducas, os sobrei ros conhecem-se por elcornoques
e a s azin heiras p or vár ios qualificativos. E x empl os: azinheira t ouqueirose (a
de tronco õco}, enraivada (a d ~ es galhas ou per nadas s ecas o u musgosas) ; remel-
gosas ou molgue íres ( a s muito decc ép it as, de pouca r ama e lenha); cabreiras
(as de tro nco ba i xo, cur vo , por o nde as ca bras trepam, 'roendo-as, etc.) O s cha-
pa rcos de azi n ho ba stante desenvolvidos, q ue t omam a r od a o u copa de e ai-
nheira, desig nam-se também por cheimrrss ,
U ma t erra p OVOEI da de chapa r ros r essalvados, chama-ee-Ihe cheperrel : e a
de azinhei ras azinhal. n ome que em boa verdade pouco se empr ege, p refer i n-
do-se o de «ma to», aliás impróprio e nada específi co. Mas há q ue acei t a r as
cost u mei ras. Em todo ca so, quando as árvores se mostrare copadas, grandes e
sadias, ch a ma -se- I hes mato real. S e estã o velhas ou raquíticas, galego o u ratinh o.
D á-se o nome de frade a o co to r estant e das p ernadas t r onchadas ou p ar ri -
das pelo vent o, assi m com o o d e f aro a os detrit os do f olhedo e ou t r os fragmen -
t os vegetai s que se depos it am e acumulam n o int eri or dos mesmos t oc os . E ss es
r esíduos, de combus tão fa cí lima, apressam a dest r u ição do a rvore do velho por
ocasi ão de incên di os.
espa n-
o s eu
s e cr ia ram qu ase
do homem para
Cr iação Tudo fa z s upor q ue os monta d os antigos
t on enmente, co ncorren do pouco a a cçã o
desenvol vimento.
P elo que se obser va ainda h oj e em terrenos incultos. cheios de C8 y raSCOS e
cha parcos, d epreende- se q u e as az i n heiras e sobreiros q ue a i vemos aos milha-
res. dist anci ados ou próximos, em pequen os e gr a n des a grupa ment os, sem a
mínima regc laride de, an tes em di sposiçã o ce peichosfssima e variada - provêm
de anti gos ce r ras ceis, que dant es ocupavam a s terras bravias, D eu s sabe d esde
quando.
À hipótese dos montados s er em o produ to de b olotas semeadas, ou d eixa-
das pelas aves, efigura -se-ci e inverosímil sob o ponto de vista ger al. Quando
muito, pode iss o adm i ti r- s e para casos i solados de somenos i mportância.
O s ceernsce.ie ocupa vam área s enormes, incult as, d e mistura com outros
me.tos silvest res, exacta mente como ai n da h oj e exi st em em zonas r eduzidas. E
en t r e uma vegeta ção tão espessa. natural era q ue à mais vigorosa - a do car -
rasco - fosse t ri unfando das ou t r as e cr ian do g ra n des moitas, quase inacessíveis
a os gu des. Disposiçã o q ue da va ensejo a que os r ebentões maiores e mais defen-
32
Suinos no montado - A matança
A TRAVÉ S DO S CAMPO S
dídos, fossem cres cendo a pouco e pouco, ao embate de mil co n t i ngên ci a s e
destroços, até se destacarem tanto, que desper1avam a atenção do lavrador.
Fraca a t enção, que se r estringia a limpá-los antes ou depois das queimadas,
que de 8 em 8 ou de 10 em 10 anos cost uma varo fazer nas terras sujas, a fim de
as semea re m e l avrarem «à face». Mas a s r oça s r epresentam um vandalismo
inaudit o.
Cha parrai s imensos h a vi a, e at é sobreirais e azi n h a is , en t re manchas
enormes de extra ordinária al tura, que s e r oçavam imprudentemente, não se
resguardando o arvoredo com ac ei r os e arruadas es pa çosas, que os defendessem,
ou sequer poupassem, dos estragos do fogo. O lume largava-se «à valen t on a», e
t udo a quilo s e transformava em chamas gigan t escas. sob o s ol ardente d e
agosto, por en t re nuvens de fumo n egro. que se a vi stava a dezena s de l éguas .
Era medonho I O s pobr es dos chaparros, uns morriam l ogo, o ut r os fica vam
mei os queimados, e os mais r esi stentes, l á conseguiam es ca par, mas com a r ama
afogueada, em aspe cto desol ador.
Mos n i nguém estranhava. Era estil o. E por ser costume, pouco importa va
que ardessem. P or mui t as que se qu ei masse m algumas es ca pariam. E, se todas
se per de ssem, l á fica va a ce pa vi goros a, que outros cri ari a t ão bon s ou melho-
r es. E a cepa cria va-os efec tiva m ente. embor a com a rr aa o. P orque f osse como
foss e. e a despeito de t odas as s el vajarias, os montados vetustos existem em
larguí ssima escala por toda a provín ci a, atestando o triunfo da natureza sobre
o vandalismo dos h omens. Triunfo rel ativo, porque, certamente, se não h ouvesse
deva stações. maior es e melhores a rvoredos existi r iam.
Com os montados m oder nos. pouco se praticam os sist emas bá rbaros, pri-
mitivos, ainda muito em voga h á cerca d e 2.5 anos. Mas a su a o rigem é a mesma
que a dos a n t igos. À pa r t e excepções insi gni fica n t es, h) são fil hos do carrasco e
desenvol vem- se onde por acaso nascer am. C om a diferença que s e tratam
melhor que antes. beneficiando-se com arroteamentos e limpezas que os pr eser-
vam de estragos sensíveis.
TRATAMENTO
Consiste nos segui nt es serviços: la voura ; limpeza das t er ras; li mpeza das
ár vor es. e nos desbast es.
Lavoura Se não for a o i nconveniente de es t r a ga r pastagens e ocasíonar despe-
sas de v ol to. conviria praticar-se anualm en t e nos montad os, pois
qu anto mais a miudo s e l avra m, mais se d esenvolvem e mel h or fr uto dão.
Como porém há que atender t a mb ém a razões económicas, lavram-se ape-
nus de ;; em 3, de 4 em 4, ou de 5 em 5 anos. conforme o maior ou m enor efc-
(I) [ u .. cCl1u b ltm n.. I nm.... tili.. d• •obnl.l'o, qla' . a ti. ru Uzad o flll. .I'II Da PODtO' . como
"' UI., lo II' I. p. d. rui d. VII. Vho•• • 1m ama OD.lu.. L.nd. d.. do CODUlL.O d. [!T.... N.d•• cOlDp. n llu lD•• 'I. com
• <1•• • ad. llPOfl.tlIl U .
- 33 -
A T R A v t S DOS CAMPOS
lhameoto em que a herdade se divide. A l a voura re pete-se uma e duas vezes
contando-s e os efer r os» do al queive e o da sementei r a de cer eai s.
N as r oças, limi ta-se a o «fer ro» da sement ei r a. E h á montados de t errenos
tão ordinários que se l avra m somente pa r a s eu exclusi vo benefí ci o.
Limp eza d a s terras E xecuta m-se desde o princípio d e janeiro a 6ns de m aio,
precedendo a l avoura de al queive. ou depois, de 8g0 St O
ao S . M i guel. Con si s te n a destruição total ou parci al do mato p r õpr 'ia m en.te
d i t o. Faz-se por três sist emas : um radical - o arranque ou arroteamento - ; dois
s u pe r ficia is - a desmoita e a roça.
Arroteamento Signilica a ext racção de todo o r aizame de arbustos daninh os.
Espéci e de sUlriba por m ei o do a lvião em qu e a terra s e des-
brava e se deixa povoada de ce rra squeí res, que pelo seu vigor possam criar os
eh aperros n ecess ári os à co nstit uição do m ont a do, ao seu aumento. r enovação e
substitui çã o.
D es te t rabal h o. moroso. f eito a br aço de h omem possan te e experi ente, pago
a o salário de 360 a 400 e tantos reis. s ecos, colhe- se m ui ta cepa.. que s e aproveita
para carvão. O restante r e.ieame, bem como o folhed o e ch amíçcs, j untam-se
em cemin heires distanci adas das á rvores. e a í se queimam a descoberto ou
p r eviamente tapadas com terra. t omando nest e caso a denominação de moreias.
A ssi m, a c{ueima t orna-se i nofensiva e mais útil por que se i m p ede em abso-
luto o de s envolvimento e estrago resultante das chamas. com a va ntagem de se
obter muito sísco e cinza, q ue depoi s se es palha pela terra como a d ubo p rovei -
toso. E.nfim, o arvoredo benefi ci a do com arroteament os, r a dícu l a - s e e cresce à
von t ad e, a po nto de n os cor t es subseq uent es s e poder em reduzir as moitas
r essalvadas, deixando-lhes a penas as vergônt eas escolhidas p a r a vingarem. isto
é, 0 5 chepar ei c h os. O s quais. ressalvados de vez, vão a d qu i r ind o as formas
consent ânea s às limpezas qu e r ecebem.
P or outro laelo a s á r vor es gr a n des e pequen as, livres de to da a i m un d í ci e,
cre s cem a palmos. rejuvenes cem, e a cortiça e bolota melhoram de vol ume e
qualidade.
Tudo lucra, incl uindo a terra, que as sim agricultada a proveita-se também
na cultura dos cereais. N ão obstante - convém acentuar- os arroteamentos
absorvem capitais avul t ados, que não possuem muitos d os pequenos lavradores.
E de entre os que dispõem de dinheiro, há os q u e receara empr egá- l o em tais
em pr een di men t os. por n ão t erem a certeza da estabilidade. sendo como são
simpl es rendeiros, p or períodos de dois e três anos.
As va ntagen s man ifestam-s e. é cer t o ; m as s6 remuneram ca bal ment e pas-
sados mui tos a n os, e p ersistindo-s e no propósito, E. entretanto se não al cança
o fim almej ad o. o r en d ei r o pode s er despe di do para dar l uga r a o vizinho inve-
joso e vil que lhe foi subir a r enda para lhe es camotear as benfeitorias. S obe-
j am os exemplos.
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ATRAv t S DO S C AM POS
Por conseguint e, da incerteza deriva em parte a relutância dos l avr adores
tímidos e des confiados para empresas duvidosas, 80 pass o que os resolutos as
empreendem, arri scando-se às contingências.
Aqui ressalta claramente a vant agem dos arren da men t os das herdades a
longo prazo, pelo menos por p eríodos n ã o inf eriores a 10 anos. Lucravam
todos: o senhorio e o rendeiro.
P ode-se obj ectar que às vezes se of er ecem seareiros par a, à sua custa, arro-
tearem e limparem terras, mediante a concessão de as dísfr utarem com seara s
por dois e três anos con secutivos, e que portanto se de vi am aceitar essas pro-
postas va n tajosas, como processo de limpeza r a dical, fácil e económico.
Admi tida a objecção. respondo :
O oferecimento des se concurso acei tam- n o do mel hor grado os lavradores
i nteligen tes que se l hes proporcion o. com êx ito, e p or semelhant e m ei o vai-se
desbravando muito. t erra e mel hora ndo muitos mont ados. Mas t amb ém existem
outros sujos, em terrenos de pobresa tal , que n en h u m see eeiro os p ede ou
aceita. E para tomarem os m elhores, é preciso dá-l os por 2 e 3 a nos, como já
disse. Ora os arrendamentos cur t os em baraçam ou impedem esses contratos que
para tere m plena ex ecuçã o e se rem proveitosos ao lavrador rendeiro, ca r ecem
em muitos casos de prazo maior qu e o do arrendamento. I st o fo r a outros incon -
venientes, como por exemplo a herdade ser invadida por estranh os pouco
conscienciosos que entende m es tar em país conqui stado.
Por tais contra s, alguns arren datá ri os prefe re m ma nter a r otina a di spensa-
rem concessões a terceiro, com que eles rendeiros nada lucram, caso saiam da
herdade.
....... .......... ... ... .. .. . . . ... ... .. .... ... . . ......... . . .. .. ...... ...... ...
Desmoita C ort e su perficial, de ligeiro des cabeçamento no piorno, giesta, tro-
- visco, etc. Á m edi da que o m at o se va i cor ta nd o junta-se com forca-
dos, aos montes ou caminheir as, n os intervalos da s á rvores onde se queima,
com as cautelas n ecessáTias. À desmoita cost uma ser feita por trabalhadores
justos a jornal, ou de empreit ada.
N esta hi pótese avalia-s e o trabalho pelo n ú mero de dia s que pode ent reter
um homem. Supondo que demorará vinte dia s diz-s e: «h á aqui vinte homens
de desmoita». Cada jor nal ou «homem» ajusta-se a 120 ou 1SO reis com a s r es-
pectivas comedorias.
Roça Processo primitivo, q ue t en de a desapar ecer, mas antes mui to usa do para
destruir t emporàriament e a s manchas de esteva e ou tros arbust os que
infestam as te rras i ncultas por mai s de cinco anos.
Por este uso, o matagal é t ombado à roçadoira - roçado- ficando no ch ão
conforme cai - estendido a es mo, a sec ar em esteira farta e i nterr upto. at é a
época em que se per mit em as queimadas.. de 15 de agost o em d iant e. Ent ão
larga-se-lhe fo so e tudo arde em poucas horas.
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A T RA v t S DOS CAMPOS
Antillamente, repito, pouco ou nada se defendia o arvoredo, das queimas.
Hoje já se adoptam precauções de aceiros, i nsufi cien t es em todo o caso.
Por que a despeito de cuida dos p r eventivos, as r oça s deixam sempre vea ti-
gi os destruidores, p rópri os de uma velharia est ú pida e vandálica, verdadeiro
fla gel o dos montados. D os que a sofrem, quase se pode dizer como daqueles
enfermos que melhoram da moléstia mas que morrem da cura.
Na mel hor das previ sões não passam de limpezas temporárias imperfeitís-
simas. À te rra continua com o r a i za me do matagal ardido. qu e ren ova na
prim avera seguin t e com maior pu j a n ça numa r ápida v egeta ção e que em br eve
avassala 0 9 cha parr os. O cont rár io da arroteada que ext i ngue de vez o mat o de
cepa e reduz muitíssimo a renovação do se.rageço e esteve, Esta a caba de todo,
se se persi st e no se u aniquilamento. Basta arra n cá-Ia à mão em pel as sucessivas.
anuai s, durante três anos. S erviço barat o que se execu ta com mulheres na s
épocas i nvernosas de salários baixos.
-R esumi ndo : os mon ta dos que se beneficiam com limpezas radicai s e persis-
t ente s mostram aspecto vi çoso. luxuriant e" que cont rasta com o raquitismo
avariado dos que estrebucha m a o a bandono, enegr ecidos e dizi mados pelo fogo
das quei ma das. .,
...... .. .... .... ... .. ...... .... ... ..... ... ... ..... .... .... ... ... ....... . .. . ..
D as limpezas das terras, paearei à das árvores, designada pelo nome de
cortes. U ma é o compl ement o da outra. Em ge ral a de cima (a das é rv ores] pre-
cede a debaixo (a da t erra). Mas também se efectuam as duas si multaneamente.
Os «cort es) R en ovam-se de 5 em 5 anos, de 6 em 6. ou de 7 em 7, começando
em dezembro e concluindo- se em março ou abril.
Àyvoredo por limpar mais de um sex énio, notoriamente se prejudica. As
ár vores definham- se, enchem- se de musgo, enrai vecem-se e sobretudo escassei a-
-lhes a bolota, que chega a faltar de todo.
T orna-se por conseguinte i ndi spensável a li mpeza q uadri enal ou quf nquie-
nal, a malho ( machado) que. aplicada com pr udência e crit ério. é t ão útil como
a do a rado e enxadão.
Há vários sistemas de cortar. cada quel útil e apropriado às diversas
circunstâncias em que se encont ra o cma to» e at é a cada árvore em especial. O
que é excelente num dado caso, pode ser noci vo noutr o de condi ções opostas.
N as azin hei ra s altas. sê dias e vigorosas. a experiência a conselha que se
abram apen as, deixando-lhe as pernadas r ea is e outras que n ão sobrecar regue m
em excesso. todas providas de su6cientes polas ou r amos. C opadas e enramea-
des, aptas a produzirem bolota no a no seguinte.
Se são novas mas baixas por n ão t erem si do s uiadas em chaparIos. des-
pontam-se um pouco, l ogo adiante do s vergont ôes - veriSDlhões - que tende m
a elevar-se, para readquirirem a precisa altura e a copa qu e per dera m.
N as <r ue mostram decadên cia , com r a mos secos e arej ados, recuam-se ou
tronchem-se sem dõ, como pr ocesso único de se lhe atalhar a de crepitude. D a
- 36 -
AT RAvt S DOS CAMPOS
mesma forma que ao enfermo que t em uma per na ga ngr ena da, o cirurgião lha
amputa como remédio heróico para lhe salva r a exist ência, assim a árvore
decr épfte necessita que lhe inutilizem as pernadas doentes para ficar só cn o s ão.
e r ejuvenescer. embora não mais al cance a p rimitiva corpul ên ci a. Mas antes
pequena e vi çosa do que gra n de e doente, condenada a m orrer breve. Que só
n estes casos extremos s e impõe a troncharia. Noutros é um crime despojar as
árvores , no todo ou em parte. das pernadas s ã s com qu e mui to bem podem e
que tantos anos demoram a cri ar .
Nas azinheiras velhas, ocas e nudosas, de há muito recuadas, a limpeza
restringe-se ao indi sp ensável.
Os sobreiros deixam-se com aspernac1. as mais nuas e Auiadas. quero dizer,
men os compostas de ramos, que a s out ra s do azinha.
Os velhos elcornoques, prestes a extinguirem raras vezes permit em limpeza
vistosa; assim a contece com a a zinheira de análoga vetustez.
• • •
O s homens empr egados n os cortes designam-s e por corta- ramas.
Uns saem da ganharia, outros a justam-s e ex pr essa m en t e a r azão de cinco
a seis mil reis por m ês, comi da e u mas duas carradas d e lenha. O manageí ro
ga n ha um pouco mais.
O corta - r a m a a n t es de subir para a ár vor e que se propõe li mpar, en costa-
-lhe 8 0 t ronco o burro (esteio chanfr ado a servir de escada) e por ele trepa a
galgar o ponto desejado. S emp re de pé. e munido do machado, procede à lim-
peza saltan do de u mas para ou t ras perna das, como pode e sabe. Em que di spo-
sições difí cei s, incómodas e perigos a! el e tem de se aguentar muitas veze s pa r a
se sai r do erebalho com de sembara ço proveitos o I
D o al to da a zinheira. no quase extremo de uma das h ast es, sem ou t ro
apoio, além d os p rópr ios pés; mal se concebe como esse h om em se equili br e e
poss a vi bra r o m achado sobr e a l en h a num vai-vem sonoro e cadenci a do.
Mas vi bra e com fouteza. Os go lpes sucedem-se certei ros e rijos, t anto que
o madeiro, fen di do em volta, num instante estal a, esge r ra e cai. vencido de todo
pelo ousado trabalhador. D est emi da criat ura que n em sequer pe nsa no per igo,
Um ligeiro descuido ou imprevista casua ü da de, e eí -Io da árvore abaixo, a os
trambulhões. À quantos têm s ucedido desses precalços que alguns pagam com
a invalidez ou a morte. C oita dos, fazem parte do martirológio do t rabalho rude
e obscuro, ig n orados das multidões sem os elogios das gazetas .
• • •
À boa conservação e aumento dos montados merece es pecial protecção das
municipalidades a le ntejanas. Nos códigos de posturas de todas ou quase todas,
cominam-se multas aos que de rri barem á rvores. chaparros e pernadas 'leais,
sem mo t ivo j usto. Nas escrituras de arrendamento também os senhorios se
acautel a m dos rendeiros por a busos semelh unres.
- 37 -
ATRAv t S D O S CAMPOS
O s senhorios mandam examiner os cor tes por pessoas de sua confiança. O s
munícipes incubem igualmente de s emelh ante serviço os rendeiros ou zelador es.
Q uan do uns e outros en contram t ransgr essões, entendem-se com o la vrador ,
resolvendo-se a questão e migêvelmente, por indemnizações pecuniárias ao
senhorio. Mas se a conciliação se terna i mpossível r ecorre-s e aos meios judi-
ciais, com a vistoria de peritos ajuramentados. R.ecurso extremo pouco u sado
por receio de chicanas e incómod os. O al ent ejano tem horror às demandas.
Prefere pagar às boas, a meter-se com li justiça.
Como curiosidade oportuna, eis algumas frases conent es na apreciação dos
cortes. ao serem vistos por ent endedores.
D os que se limpar am com demasiada cautela : «Foi muito poupado . .• cor-
taram a medo . . . podiam mais .. . • , et c.
Dos bastante castigados : . Que Brande t roncharia} que esnocs l . . . por
pouco que as não dei xam pela5 trepas/ ... Foi a matar/ sem dó}
Dos r ecuados por n ecessidade absoluta : de fi r me, mas pre-
cis avam disto ... Estavam que metiam medo... velhas ... musgue ntas . .. areja-
das .. . Verão como agora reverdecem . . . Para o ano estio como repolhos . . .
Com bolera à esgarra . . , Mato assim quer malho.•
Dos cortes boni tos, apurados, em arvore dos vi çosos : «Si m, senhor, n ão bá
que diz er ... fartas de rama . .. golpe a preceito.. . bem rodadas . .. t odas com-
postas . . . Quem por aqui andou sabia da poda . . . •
Desbastes J usti fica m-se e i mpõem-se sempre que a s ár vo re s existam em dema-
sia, a t ocarem-se umas nas outras. O arvoredo intenso, sombrio e
excessivo, defin ha, envelhece e quase se esteriliza produzindo menos e pior
bolota do que produziria regular mente di stanciado, em condições de se desen-
vol ver e bracejar ii vont ade. A cr esce ainda, que o «mat o» bast o em excesso,
sombr eia a terra, inut ilízando-a para sear as e pastagens.
H á poi s vantagens i ncontestáveis n os desbastes q uando as circu nstâncias os
recl amam e se re alizam sob um plano metódico e r acion al. I sto é, arrancando-se
o arvoredo caduco, para dar espaço ao n ovo, e do n ovo dizimu o s upérfluo e
pior pua vingar o melhor, sacrificando-se 8 azinh eira ao sobr eiro, cuj a supe-
rioridade produtiva ningué m con testa .
A s J is tânci as de umas para outras á rvor es r egulam de 6 a 10 metros, se
assim o permite a disposição do ar vor edo . D esbastam-se, cor tando o tronco da
árvore uns 60 cen tímetros acima da base, ou derruban do .. a pela raiz, depois de
paciente escavação em volta do pé.
Os cotos dos pés cor tados chamam- se-lhes pitões.
PRODUTOS
Consistem na bolote, lenha e rama, pe lo que respeita ao azinho. O sobro
dá a mais a cort iça e a cesce ou entrecasco.
- 38 -
ATRAvtS DOS CAMPOS
Bolota Fruto seco, oleoso, de côr esc ura e forma oblonga. A d e azinha avan-
te ia- se à de sobro em sa bo r e quali dades nutritivas . C on st i tui a prin-
cipal receita da azin h eira e a s egunda do sobreiro. Tem alta i mportância para
a economia r u r al da província. Além de ser um bom alimen to para gados de
todas as espécies que, como tal, o procuram com avidez em cima e por baixo do
arvoredo - Aplica -se principalmente, com n ot ória vantagem, na criação, s ust ento
e r ápi da engorda de muitos milhares de suínos. Para estes é sem dúvida o
melhor dos alimentos. Com r azão se diz que a Natureza criou a bolota para os
porcos, e que os porcos nas cem para a bolota.
Con siderada sob o ponto de vista gera l, a sua col h ei t a, é, em regra, dimi-
nuta, comparada COm a das outras á r vor es.
No sobro predominam as produções peri6dicas : n uns anos n ovida de ch eia ;
noutros nada.
Com o azinha observa-se menos esse f enómeno. Em regra, e em maior ou
menor escala, num mesmo «ma t o» há em abundância árvores ventureiras e
estéreis por entre algumas castiças. D est a ca n do sempre as d e p rodução escassa
insignifi cante.
Com ef eito, se r epararmos bem n a enorme quantidade de azinheiras de um
montado gr an de. e depois sou ber mos da sua produção. m esmo nos a nos abun-
dant es. reconhece-se l ogo quanto é fraca. Só d ois alqueires que desse ca da árvore.
os montados produziriam três ou qua tr o vezes mais da média habitual. M as
assim como sã o, se por acaso uma a zinheira gra n de. excepcional e castiça, pro-
duz 30 ou 40 decalitros, centen a s existem qu e nem meio dão, e muit as n ada
mesmo em a n os con se cut i vos. A que dá dez al queires de b olota j á s e consi dera
muito b oa. E pois dif ícil calcular a p rodução média de cada á r vo re mesm o p or
que o s eu número t otal em cada montado, ignora-se ordinàr i amente.
* * *
...
o azinha produz uma s6 camada de bolota, vari ando muito em t am an ho e
qualidade, conforme as ca st as, a natureza da terreno e os cui dados de cu lt u ra s.
A bol ot a criada nas terras bravias é amargu e miuda, sob r et u do n o a r vo r edo
basto, assim como é grossa e de melhor sabor nas t erras cultivadas, de «ma to»
ralo. A bolota miuda chama-se pombeira p or ser a preferida dos p ombos
bravos, pel a facilidade com qu e a ingerem.
Em igual dade d e circunstâncias, quanto a t errenos e tratamentos, os arvo-
redos velhos produzem fruto superior aos novos.
A bolota de sobremesa, apreci ada por muita gente, es casseia bastante. S ó
pOI' entr e dezenas e dezenas de azinheiras se encontra uma ou outr a de frutos
saborosos e POI' a caso alguma doce, no rigoroso sentido da pe.l a vre. Estas são
estimadíssimas, ten do n omes próprios, como amendoi nbas, a dos malteses, a
do pé caiado. etc.
- 39 -
ATRAvtS DOS CAMPO S
Às lebres denunciam a bolota do ce. Onde 8 haja r oida por elas é com cer-
teza de s uperior qualidade.
• • •
À azinheira principia a florir ao despontar da pri mavera, pouco depois dos
mar meleiros. Pela novidade dos marmelos formulam-se j uizos sobre a produção
dos montados. No conceito po pular a fl oração dos marmelos aparece s empr e em
abundância ou escassez igual à q ue se verifice, semanas depois n as azinheiras
e sobreiros.
Como quer que seja, n o fim de maio ou começo de junho, reparando-se
bem, já se divi sa a bolota como cabeças de alfinetes. A que traz O pé curto
con sidera-se viável- vivedo ura - sã e resi sten te j se mostra pé comprido, r epu-
ta-se inferior de péss imo augúrio, propensa a estragar-se por contingências
atmosféricas, como chuvas no verão, seguidas de calores intensos, et c. Mela e
perde-se bastante.
Em ag osto a bol ota de azinha é do tamanho de a velãs, meia envolvi da n o
csscsbnlho, mantendo a côr verde, primitiva, que em s etembro se modi6 ca,
amarelando um pouco, ao atingÍ:I maio:r desenvolviment o, para em outubro se
comple tar, raiando de escur o - pintona -. Em novembro escurece por inteiro,
com a côr semelhan t e à das cas tanhas.
D epoi s, em princípios de dezembro, abrilhanta- se e aloira, após a que da em
perfeito estado de maturação. A cai da é morosa. varian do de ár vor e para árvor e.
em anál ogas condições, aparentes pelo menos. A o passo que a de umas azinhei-
ras cai l ogo que amadurece, a de out ras conser va-se por dezembro fora e at é
janeiro, e ai nda inde6nidamente precisando varejar-se para se não avelar e
recozer-se em cima.
Mas desde que nasce a té amadurecer, quant a se: inutiliza com o g'ran'iso
das saraivadas - pedrisco - ou por efei to de doen ças, prin cipalmente n a período
6nal da criação, em que síngn (cai) evarí ede,
A s ch uvadas de se tembro e outubro açoitam o emet os, derrubando-lhes pre-
maturamente muita bolo ta em ssrás - meia verde. Mas nesta a ltura, já se n ão
estraga em absolut o, po rque Q. aproveita com apet ite toda a espécie de gados.
N enhum a des den ha. embora com peco - (deteriorada). E ainda um madura,
mas pe ndente das ár vo res, sofre imenso com a s geadas grandes acompa nh adas
de vento do suão. E scaneves (como lhe chama o vulgo) que deixam a bolot a
como que a rd íde . R.ecozida, dia -se também. M as só a pendente, xepi to. A já
caida nada sofre, antes se conserva perfei tamente no chão não lhe chovendo
muito. Q ua ndo se molha grela, sim, um pouco mas estraga-se menos do que
est ando ar recadada e amontoada em casa de pouca ventilação. Aí arde e sue,
i sto é, ferment a e apodrece se não se beneficia com voltas amiudadas.

.. ..
o so brei ro produz três ca madas de bo lo ta : bas tão, Jande e ieneirinlxs, q ue
se distinguem pelo tamanho e época em q ue sazon am. O bastão é grosso,
40
ATRAvtS DOS C A M P OS
escasso, temporão, vindo em outubro e novembro. A Jande. menos volumosa.
constitui a melhor camada, por em regra abundar como nenhuma. Amadurece
em dezembro. Resta a ieneirinhe, assim conhecida por vir em janeiro. É a
menos importante por miuda e t ardiaj Às três passam por fases e contingências
i guais às do azinha. salvo nos estragos do burgo, que, pelo visto, não ataca o
sobreiro, sensivelmente.
Cortiça Casca gr ossa, fendida e bastante leve que reveste o tronco e pernadas
do sobreiro. Em atingindo um cert o desenvolvimento, perde n a época
própria. (maio a agosto) as propriedades de ader ência, desagregando- se f àcil-
mente sem prejuízo da árvore. À qua l, descortiçada u ma vez, passa a dar cortiça
melhor, demorando a. criação de cada t iragem 8 ou 9 anos nos sobreiros novos
e 10 ou 11 nos v e l h o s ~ A p rimitiva chema-s e-Ihe virgem. e assás ordinária por
gr ossei ra. muito rugosa, servindo apenas para combustí vel, inferior e desagra-
dável. e para corti ços d e abelhas, na melhor das hipóteses. A das t ira gen s
subs equentes à virgem. denomina-se amadia. t a corti ça p or ex celê n cia, aprecia-
d issima para diversas aplicações. tendo p or i sso alt o valor n o mercado.
Entre a. amadia e o cor po lenhoso da á rvore, existe um segundo r ev esti-
ment o menos gro ssa que o primeiro. que ve m a ser a casca propri amen t e dita,
também conhecida por ent re-casco.
• • •
Logo que o t ro n co do sobreiro alcança a gross u ra igual à àa p er n a de um
h omem ou m ais, usa-s e des cor ti çá-lo da virgem no tempo próprio, p reparando- o
assim para a b oa produçã o corticeira. N o p é entende- se, e n ã o nas per nadas
que continuam n o es tado prim i ti vo, para só r eceberem aquele ben efí ci o anos
depois, a pouco e pouco. à medida que se r obust ecem. O descorriçamen to per-
matu ro r etarda e prejudica o desenvolvimento da árvore.
D o principio de junh o a fim de agosto procede-se à tiragem da cortiça por
conta dos compradores, geralmente. com h omens experie ntes assalar i a dos a 400
ou 420 r eis. Tra balho s imples a que se procede com o auxílio do machado.
Aproveitando qu anto p ossível a s Fendas n a t ura i s. go lpeiam perpendicularmente
nos sí tios a desco r tiçar e. à ca ut ela. de modo a não feri r em o entre-ca sco. E m
segui da com o cabo do machado e um pequeno impulso desagregam a cor tiça
que. dando bem, sal ta em ca nudos e pranchas de maior ou m enor volume.
À pós a tiragem, reune-se em grandes montões em can os o u à ca r ga e fic a
ai a enxugar uns 15 dias, sendo depois aferida (aparada) e enfardada em ccseais,
que, pesados ou não, seguem para as fábricas e estações do ca minho de f erro.
P or vi a de r egra este produto per ten ce aos senhorios das herdades. e n ão
aos rendeiros que só por acaso dele dispõem, se representa quantidade insi gni-
Êcante.
C ostum a ser a cs rAs a unidade aceite par a os cálculos da produção. e tam-
bém. às vezes, para o preço da venda. C a da carga regula pOI 8 a 10 arrobas.
- 4.1-

ATRAV J'. S DOS CAM POS
variando o preço, segundo a qualida de, a procura e a cotaçã o. A primeira
circunstância varia muitíssimo, dependendo bastante da natureza do te rreno
que sustenta o sobreiro, se u estado, etc. Mas parece-me não s e errar m uit o
atribuindo-se o va lo r em média de 700 a 800 reis por arroba, justa na á r vo r e
sem mais despe sas par a o vendedor primitivo.
Também se usa, e t alvez em m aior escala, e sistema de venda « 8 ol ho», em
globo. para sair de um a vez ou por diferentes tiragens. algumas em fut u r o
distante - dez an05 e mais.
A s vendas adianta das gar an tem- se p OI escritura pública e sinal avult ado-
um t erço, metade ou cois a qu e gara n ta hemo Está claro que quanto mai or fôr o
adiantamento em dinheiro e o prazo para a ti ragem, mais depreci a da fica a
m ercadoria.
Ag grandes tiragens são compradas pel os gran des i n dustriai s e fa bricant es.
e a s pequen as po r uma aluvião de compr adores algarvios, que de muitas parce-
las adquiri das em várias herdades ch egam a dis por de porções importantes.
Em abril e ma io começam a a parecer os a lgarvi os. chouteando em anafados
machos, aos gr upos de 2 e 3. de herda de em her dade. a fa r ej a r em o negócio e a
comprarem quan to podem. P or veze s se gcer.eeam uns 80S outros, sem escrú-
pulos ou considerações.
Há coisa de 15 anos toda essa gente fazia cont ratos esplêndidos, emba rri-
le n do os vendedores. que, ao tempo, por inexperientes, desconheciam a i mpor-
t ân cia do artigo. Tal houve então que, julgando vender por u ma exorbit ância.
vinha dep oi s a saber que transaci on ara por metade ou dois terços menos do
valor real. Imagine-se o desapontamento.
H oj e em dia já se con h ece melhor semelhànte especulaçã o. N i ngu ém ignor a
quanto a corti ça é procu rada e paga p or preços que pareceriam fant ástica s aos
n ossos av ós, se eles porventura sonhassem semelhante coisa. Porque anti ga-
m ente quas e se lhe não dava a pr eço. Era tão ínfimo o seu valor que muitos
sobreiros velhos, secu lares, pe rmaneciam com o t ronco e pernadas coberta s de
corti ça vir ge m, cheia de musgo, atestando bem o abandono e d esprezo a qu e os
votavam.
À ssim compreen de- se que outr ora se preferissem a s herdades de azinha às
de sobro, exactamente o inver so do que s e passa na a ctualidad e. H oj e o sobrei ro
é u m símbolo d e pr odução. Está para com os a r vo r edos com o a ovelha para
com os gados. Uma e outra, despe m-se para vestir o dono . ..
D os antigos sobrei rais a lgu ns têm s ido der r ubados para lhes extrairem e
venderem o entre-ca sco, que também va le um dinheirão.
Mas para contrabalança r esses arranques - que nem s empre se justi ficam
em absoluto, antes, algumas vezes, representam um expedien te d e apuros finan-
ceiros, para remover embaraços - surgem em quan t ida de bastante maior,
sobreirais novos, extens íssi mos, l uxuriant es, que aumentam e progr idem d ia a
dia num crescendo espant oso.
D evo porém advertir qu e no concelh o de El vas não há esse aumento de
- 42 -
ATR AvtS DO S CAMPO S
r iqueee . Os sobreirais a qui , tanto velhos como novos, r est r fng e m -se a pe rcelae
minúscul as, insignifica ntes, r elat iva men t e.
O sten ta m- se, con t udo. em grande escala nos vizinhos termos de Arron ches
e Monforte. e a inda em i m por t â n cia maior n os de P ortalegre, C rato, P on t e de
Sor e ou tr os. E como r iqu eae de vi zinh os, tão caracteristicamente al entefanes,
n ão julgo de s cabi d as es tas ligei r as e i ncompletas referências.
Len has R esult am dos cortes, dos desbastes, das árvores secas e do raizeme das
arrot eadas. Há diversas classes d e lenhas, que se podem englobar em
tr ês: a gr ossa, como madeiros, pít ões, r achas, etc.j a mediana. compreendendo,.
schões, achas e raízes ou cepa - e a miuda, representada por achas, pequenas,
delgadas. Isto sem falar do chamiço ou cbapoia que fica da traça, à r oçadoi r a..
rebotalho de tudo.
O s madeiros e pítões s ão partidos a machado, serr otes e cunhas ; as acha s
e achões, a machado, apenas, e a miuda à r oçadoir e o u pedes.
Como s e sabe, as lenhas d estinam- se a com b ustível, já no estado n a tural,
mas ef ei t a" (traçada) já reduzida a carvã o para o gasto l ocal e abastecimento
dos mercados de Lisboa e out r os.
O gasto da lavoura, compreendendo monte e dependências, consome part e
importante, s enão t oda, co mo a cont ece nas h erdades de montados pequenos. Só
quem presenceia esse dispêndio pode fazer ideia da sua i mpor t â n ci a .
N outros t empos em q u e havi a muito mais l enha e bem menos compradores,
os t erraços dos montes era m o r namentados com medas gigantescas, pi t:âmidais,
de t OTOS d e todas a s dimensões, arti sticament e erguidas pelos criados de lavoura
nas vaSaturas. P or este meio armazenavam-se p orções a vultad íssimas, que a ssim
permaneciam anos, até se derribarem por ne cessi da de d e con su mo. E a lém da s
medas, amontoavam-se a esmo quantidades semel h a n t es par a queimar n os
primeiros tempos. Calcule-se, pois, a qua n to montaria a t o tal i dade.
Àctual mente acumula-se muit o menos lenha e economi za-se um pouco
mais, mas ainda s e gasta bast ante nas lareiras dos montes e na q u e s e dá e os
criados, por costume, f avor ou condi çã o. E a es ta temos de a dicionar a que os
matei r os furtam de fugida.
À s lenhas de azinho são as melhores q ue se co nhecem. A sua combustão é
duradoíra, intensa e odorífera.
Nada mais atraent e no Alentejo do que passa r o s erão de uma n oite frí gi-
dí9Sima em vol ta da clássica chaminé, provida do bom l u me de azinho. Conforto
delici oso que deixa a perder de vis ta quantos fo gões se inventem.
Já li algures que a lareira u ne a lamílis e que o l ogão separa- a. Deve ser
assim.. . máxi mo se o lume f ôr de azinha .
• • •
Ant es de se despej ar o co rte, o carpinteir o, ou outro h omem habilitado, vai
assinar os pecs que pela s ua configuração especial s ervem pa r a «ma dei r a» - isto
- 43
AT tl.AVt. S D OS CAM PO S
é as peças apropriadas a empregar no fabrico de cerrcs e out r as alfaias a grícolas.
P or mui t o necessárias e irem escasseando. sempre se procuram com t odo o
afã e interesse. Eis a lista das prin ci pais :
P ar a ce r r os : massas, pinos, raios, miulos, cãibas, eixos, limões, traves sas,
ca ngas (meios e suadoíros), et c.
P ara arados : gargantas e pontas (timão) j arados (dentes) rebeneios, eiveces,
cangas direitas. et c.
Para diver sas alfaias - grades, pegões. esteios, forcados, cangslhos. etc. N o
capítulo - Alfaias a grícolas - encont rar-se-á a descrição cor r espon den t e a estes
u tensílios.
P or agora basta di zer que sem.elhante madeira segue em bruto para o
monte a/im de ser fal queiada (desbastada). S e sobeja das precisões da «casa', a
de excesso é vendida aos lavradores que a precisam. Mal chega para as
encomendas.
Às l enhas a mais do consumo da respecti va l avoura e corresponden tes
encargos, são vendidas ao industrial de carvão ou «feitas» por cont a do próprio
lavrador. O carvo eiro cont rata por v é.rioa processos: ou compra por junto «à
carga cer rada» t al qual a lenha caiu das ár vor es, ou por uns tantos r eis fixos
sobre cada saca ou arroba de carvão que se venha a produair, ficando a seu
cargo as despesas todas. A s sacas variam de capacidade,
Se o lavrador faz lenha por sua con t a e risco, ou vende-a às carradas para
as povoações próximas, ou r eduae-a a carvão, que f ornece directamente a os
gran des ar mazéns, de 140 a 200 reis por arroba, po st o no caminho de fe rro ou
n o centro do con sumo.
H á a inda out ro sistema, misto dos me ncionados, que vem a ser o l avrador
preparar, reuníe e empinar a le nha em for nos, e nes ta altura vendê-Ia em globo
ou por for nos aos grandes car voeiros que por seu t urn o completam o fabri co.
À s lenhas tinham antigamente valor baixo, quase n ulo. M a s ai por 1876 a
1878 subiram bastante, ati ngi ndo preços el evados, n unca vistos, que depoi s
decairam a té ch egar em à barat eza em q ue estavam há pouco. Present emen t e
voltaram a s ubir.
É de notar que semelhantes oscilações, dão-se apen as Das zonas próxi mas
dos caminhos de ferro, por efeito da maior ou men or aflu ên cia de car vã o ao
mercado de Li sboa, e quiçá das combinações e acor dos dos carvoei ros a çambar -
cadores. Q uanto às lenhas distantes das vias acele radas, os seus preços são
sempre insigni ficant es, assim como pe rmanecem altos nas das regiões muito
populosas escassas ou folhas de arvoredo. De onde se deduz serem as lenhas
um ar ti go de valor i n stável e relativo.
D á- se at é o seguinte curioso fa cto: - a chamiça que sobeja da t raça, dá
re ceit a impor tante nas zonas escassas de combustível, como s e observa nos
arredore s de Elvas, onde toda é pouca para a comprarem os burxiqueí ros do
sítio, que em cargas e ca rros, a vão revender à cidade.
P ois este mesmo arti go, nou tros pontos em qu e superabun da e a pop ula ção
- 44-
A TRA v t S DOS C A M P O S
escasseia, como sucede em grande parte do concelho de Àrronches, l onge de
produzi r receita, ocasiona despesas. Aí, a chemiça, não obstante f acul t ar - s e
g r e ri s a qu em a queire, ecbeie, na quase t ota lidade. tendo q u e s e a juntaI e
quei mar para a t erra ser limpa e lavrada sem impedimento.
Como qu er que sej a uma car ra da de lenha comprada n o corte, já «f ei t a», é
barata, por mil r ei s, se fô r de acha s e e chões, e n ã o de madeiros e r achas.
À chami ça ou ch apa ta. vai e uns 300 a 600 reis a carrada, quan do muito,
onde tem valor, en t en de-se.
* * *
Nas l enh a s e carvão - carvoarias - empregam-s e centenas dos melhores
jornaleiros das freguesias pr óx imas, como S ant a E u láli a, Assumar, A legr et e,
Arr on ches, et c., e também os de ou tras di stant es, s obr et udo os do que
t êm o epíteto de peAachos.
O s d e Santa Eulália passa m por muito des embaraçados e sabedor es, a.
ponto de serem tradi cionais a s SU8S a ptidões n o género. Tanto, que, desde
tempos r emotos, os habitantes da quela freguesia são a podados de carvoeiros.
A podo com que a lguns bisonh os encor do a m, e de que os s ensa tos se r i em por
conhecere m ou t ros mai s depriment es, apli ca dos a os mor adores de povoações
vizinh as.
* * *
D e j a neiro a junho, efe aem-se» as l enh as. Cada negociante carvoei ro di spõe
de uma, duas e três ( amarado s de 15 a 30 homens, ao salário de 360 a 420 r ei s
secos por eq ui meen a s» ou t em poradas de 13 ou 21 di as. A a lt eração de preços
56 se efectua no começo da qui nzena à segun da-fei ra de manhã. A s tabe r nas
das localidades a cumulam n esse di a as f u nções d e bolsa para a cotação do sel ã-
tio. P or ent re a matadela do bicho, com um Aoverno de aAuardente ou duas
decilitradas, so be m ou des cem as ofe rtas dos manageiros. r egulada s pele. ca rê n-
cia do pessoal ou pela abundância. n o caso de baixa.
A alta também às vezes deriva do álcool que esquen ta o m iol o dos encar-
re gados basõfias . A pinga e a emula ção predi spõe-os a. despiques de ofertas. a
ver qual apa n h a melhor familha, sobretudo se têm ousadia (carta br anca) dos
a mos. O s a ss istente s ouvem as propos tas mas m oucos, para entrete-
rem te mpo e fazer jogo. Quando m ui to, dizem : «Vou para qu em mais me
de r . .. » «Q ua n do o pau dá, ti r a-se- l h e a casca, etc .».
E n i sto passam a manhã, a «fazer em praça» e bebenicarem em grande
al g8zaII8, at é que, meios tort os, se decidem a sair, seguros de que o preço não
trepa mais.
Ajustados finalment e, vão a casa, aviam os man timen tos, e, em conclusão,
lá marcha m para o t rabalho, de sertã na mão, e saco às costas. A sertã é
utensílio típico.
As mulheres e mã es de alguns acompanham-nos à saída pa-ra se cert ifica-
- 45-
ATRAvtS DO S C AM P OS
rem em absol uto do destino que tomara m. E ao verem-nos já distantes, fa zem
comentár ios sobre os g 8 StOS de cada qual, n o vinho e n o tabaco.
Entretanto. aguardam-nos saudosas at é ao r egresso, que se ef ectua na
manhã de sábado, 6m de quinzena, ou na última sex ta-fei r a se foram por
temporada de três s emanas.
Carvão Cada camarada, com seu mana gei.ro, faz a traça para carvão, dividida
em grupos a trabal harem n o mesmo corte. Um deles munido de
c unhas, e lvl ôes, marrã o, serrot e e «malhos» (machados), cor ta a lenh a grossa,
como madeiros, pitões, pernadas, etc. O s madeiros custam um tra balh ã o insano
e paciente, qu e só a veríeis consuma da consegue abrevi ar.
O utr o grupo, s õmente com os machado s, prepara de pronto e a gol pe
certeiro os a ch ões e achas, e ain da outro ou o mesmo, mas à r oçadoir a (pcdoa),
l eva a ei to e de firme a r estante SQndaia miuda e o que se pode apu r a r da
chamiça.
Simultaneamente, ou n o fim, t od a a l en ha pr epa r ada acarreta-se em carros
de muares e bois par a os diferent es sít ios de «boa cai da » ( baixas) em que se
hão-de erguer os re spectivos fornos. P ara ca da um di st ribuem-se de 30 a
60 ce rre dee.
O s que :fi cam com vint e ou menos, chamam-se-l hes bagageir os. Cada f or no
empina-se pel o seguinte modo : Primeiro [ee- se- lhe a «ca ma» col o ca n do na base
os gra n des madeiros, cuj os inter val os são preenchidos pel os peq uenos. D epoi s,
sobre a l enha grossa, os e ch ões, 8 S achas, e p or último a gandaia miuds, pre-
viamente desbilrada, i st o é, cortada em pe dacinhos, ali mesmo no acto da enfcr-
n a cã o. Com eles se preench e e remata artisticamen te a superfície do forno-
fig ura oblongo com um pequeno vão n a base que «r es pira» p ela eboees e ecc ed e» .
Concl uí da a empi na ção, aterram-se ou tapam-s e os for nos em t ermos de s e
l h es largar lume e ee rdeeem» por 15 a 20 dias, que t anto d emora o período da
ca r bonização, chamada cozimenta. D ur ante esse tempo adoptam -se a s precisas
ca utelas e vigilância s, de manei ra que, s e por acaso r ebenta o f orno, i rrom-
pendo as cha m as, se possa a bafa r i mediat amente com mais teua, para evitar
prej uízos totais ou parciais.
Após a cozi men ta, extrai -se o carvão a p ouco e p ouco, sepa r ando-o dos
t Íç os para i r a r refecendo e se aprontar a imediat o t ran sporte em sacas ou a g ra nel.
'I'í eos, chamam-se aos peda ços de lenha mal carboniza da que por Isso tem
de ser r ecozida.
P ara o car vã o sair bom é necessário ficar bem cozido, o q ue se conh ece s e
de r toada de si neta quando cair um no outr o. E o superior, é o de canudo, de
a ch as medianas, prefer i nd o- se o de a zi n ho ao de s obr o. P odendo ser , as l en h a s
de cada, são enf ornadas ê pa r t e.
Desde o largar d o l ume até fin al, este f abrico con fia-se a homens exper i-
ment ados - os Iornei ros - sendo o de mais con.6ança a rvorado em mestre. Cada
negoci ant e emprega doi s ou três fo rnei ros, à i orn« de 450 a 600 reis se cos.
- 46 -
ATRAvts D O S CAMPO S
E scuso de frisar O a specto desses home ns ch ei os de pó escuro, ac umulado
durant e semanas, sem li mpezas de n enhuma ordem. Excedem em r epulsão
qualquer negro da Cafraria. Mas t rabalham satisfeitos, comendo e dormindo
admi r àvel men t e, como se estivessem m ui to limpinhos.
Rama É o folhedo da le nha. E n qu an t o verde e tenra, aprovei ta-se para f orra-
ge m dos gados bovino, caprino e lanígero, que, de propósito e em deter-
minadas horas, se conduz e «chega. a comê-la pendente dos ramos, caídos no
próprio local do corte, DOS meses de dezembro 8 março. À fome obriga as rezes
a aceitar com avidez ess e parco sustento, q:uando passam « 8 meia tripa». Mas
'reg eifam..no ou d esperdiçam-no se se abastecem com melhor coisa. Sa l vo os
caprinos. que nunca a desdenham em absoluto. r-elas suas tendências roedouras.
Se como alimentação exclusiva. é insuficiente. como acessório e aperitivo
de out ras medi anas e melhores. tem valor apreciável. Aquece o gado. a6rma-se
no campo.
Que para a s cabras. crê-se ser o complemento de uma boa pastaria. Com erva
bastant e e rama em Iartura, põem-se em condições de produzirem muito leite.
N os grandes cortes de ematose intensos. sobeja a maior parte da -rama, A
sua enorme quenrídede nunca estê em relação com os Jtados do lavrador. e
nem com o de alguns vizinhos que, não a possuindo, aproveitam a alheia que
lhes facultam.
Precisamente o inverso do que se passa nos mont ados pequenos de pouco
«mato». Àí a rama é comida «por conduto» derribando-se a pouco e pouco..
com receio de que não chegue para as n ecessidades do inverno, agravadas pela
escassez de pastos.
A de sobro é melhor e mais tenra que a do azi nh a . Mais macia, dizem os
gnnadefros. E entre a de azinh a prefere-se a das azinheiras à dos chaparros,
que por ser áspera chama-se- lhe cerrosquenhe.
Encabeçamentos ou lotação P ar a se aquilatar da sua i mportância . e tam-
bém para o disfr uto ou venda das novidades
em criação.. os montados a vali am- se p elo número de «cabeças» de porcos adul-
tos que a bolota respectiva pode enger dar . Por isso, a tais avaliações, chamam-
-se-lhe encabeçsmentos.
Por «cabeça» ou «cabeça inteira» considera-se o porco já criado, não in fe ri or
a dois aDOS; o de ano a 18 meses passa por «meia cabeça».
Para a completa engorda da cabeça inteira julgava-se outrora bastante um
moio de bolota. Era insuficiente para o porco grande sair « f e i t o ~ - a tombar
ele gordo. Hoje está reconhecido serem necessários 90 alqueires.
A bolota calculada para a engorda de cada meia cabeça parece que devia
ser a metade da da cabeça inteira. Mas não é. Bem averiguado reconhece-se
que monta apr oximadament e a dois terços, como também a scen de a dois terços
o valor e peso do bácoro de ano a 18 meses, comparado com o do farroupo
- 47 -
ATR AV t. S D OS CAMPOS
su peri or a dois anos, se o desenvol vi mento e corpul ência de ambos estiver
em relação com a idade.
Em ri gor, isto de cabeças e meias cabeça" não passa de uni dade convencio-
ná], arbitrári a, como farei ver n o capít ulo referente a o gado suí no.
A bol ot a atribuída a cada cabeça de montado val e doze mil reis a proxi ma-
damente. N os a nos e SCa SSQ9 pode el e var - se até a catorze ou q uinze.
Como obser vei n o capít ul o - H erdades - cada montado grande pode fazer
em média 100 a 150 cabeç as ; outros 80 a 100, os vulgar es 50 a so, e os pequenos
de 20 a so. M enos de vin te, n ão se consi deram montados de lote. U m montedieo,
a pen as. E, se o arvoredo peca po r ral o, diminut o, muito di sperso, n em por
montadit o passa . Chamam-se- Ihes á r vores arredias s em importância d e maior.
T odos os montados e árvores que se di stinguem em p ro dução cer t a . media n a
ou a bundant e. classlfice m-se de cast iços. O s de natureza oposta, de ventur eiros.
• • •
Nout ros t empos havia h om en s «en te nd idos», af amados, a quem os l avrado-
res i n cum bi am a avaliação das bol et inhas.
Era quase sempre trabalh o gr a t ui to. mas honroso. O v ulgo qu e via os
avaliadores atravessando os montados a. mirarem as azinhei ras «con t r a o sol»
para. l he ve rem bem o frut o. olhava - os com respei to como homens de ti n o, d e
lume no ol ho e tacto na cabeça. E eles, ven do -se a l vo de r ep ar os Hscnge i eos,
s en tiam-se ufa n os a f az er os en cabeça men t os. D epois davam conta da i n cum -
bênci a. em t er mos claros ou ambíg uos conforme ss con vicções q ue sentiam.
S e acer t a va m, cres ciam-lhe os crédit os; se erravam, h aviam pr et ext os de
sobej o p ara j ustifi ca r O en gano.
José Fran cis co M oura, lavrador no te r mo de Arronch es. foi o avali ador de
maior n omeada no seu t empo em todo o distri to de Portal egre. E.ra um h omen-
zar r ão. sobre-negro, de meter medo a um exército, com força prodigios a, q ue
só se emparel h ava à s ua gran de bonomia e gén i o gal h of eiro. Con t a-se que d e
uma vez tirara a pul so de um po ço um novilho de 2 anos que para lá havi a ca i do.
P elos introítos do S. M iguel e depois er a curios o ouvi-lo e vê- lo escarra n -
chado em bojuda égua, de monte em mont e a i n for mar os compadres e ami gos.
T odos o escu tavam com particular a grado n ão tant o pel os i n f or m es que pres -
t ava como pelas f a céci as que dizia. P or en tr e 09 pinches (comput os] que botava
a est e ou aque l e montado, saiam- l he àper t es picarescos e historietas das suas
ealervidades» em fo rça s. como el e própri o as elassiíi eave. Um a legr iste original,
faz endo gala em p assar por «bruto», sem o s er. O i nverso de mui t os . . •
A o pr es ente procedem às avaliações os guar das das h erdades r espectivas. 0 5
porqu ei r a s betídos, n os t erren os. e até o l avrador.
A práti ca, como o estar- se mu i to visto n os matos, a observação const a nte,
e, sobretudo, a comparação da novi dade exist en te com outras ant eriores, habi-
lit a a cálculos melhores do que o do avali ador de ocasi ã o que, embora, peri to,
erra com fa cili da de.
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ATR AV-tS DO S C A MP OS
Eis u ma nota d as fras es us u ai s na a preci a çã o d os mon ta dos por motivo d e
encabeçamen t os. D o concei to de cada urna, res salta evid en temen te o caso a q u e
se aplica.
Nas n ovid ades escassas: - «azinheiras, sim . . . mas bolota. . . v iste-e . ..
Nada de s ei t a . . . Um «pingo», nas melhores ... não, em todas .. . Muitas, n em
raça . . . Vá- se l á avaliar isto . . . Se lhe botarem t rinta, não faz quinze . ..
Assim vê-se u m homem «at ól ico»...
Nas m edia na s : - ", Escapa... podia estar melhor mas consola . . . Está
às ccor das» . .. Numas part es. n ada, noutras muit a Não é car,g8 geral .. .
Meia n ovidade .. . Mas vamos tomaram muit os ~ )
N as boas: - «Tem bast an te vê-se uma à ou tra.. , E sàdia . .. segura . . .
Todas têm.. . Nalgumas. é ã esgar ra . .. »
Na.!! abundantes : - «Coisa assead a. .. Es tá «revi radinho» . . . Em muitas
aos cachos . . . a nã o poderem com ela . . . mais do que f o l l ~ a s J• . . E' uma «n o-
breeis». . . Um «esbs rranro».. . es te e n c põe mercol . . . Vê -s e de longe, às
pínhotss •. . Be m podem vir porcos . .. Se lhe fize ram cem, mete m- l he duzentos . . .
Chega a tudo! . . . »
fRUiÇÃO
D o «5 . Migu eb> aos «Santos» a bolo ta q ue vai cai nd o é co mida por t odo o
gado indist intament e, sem est orvo d e n i nguém. Mas o melhor q uinhão cabe a os
suinos. Em vindo ou t u bro os po rq u ei r a s l argam-lhe brocha, e el es , os da t rom ba,
senti ndo- se à vontade, ei-Ics à vàdia, a baldão, em gr u pos e a sós, a correrem
como ga lgos p or essas h erdades fo r a , dos donos e das alhei as. E' a malta.
C ada porco co me p or on d e quer, estragando o qu e lhe apr és. 5e se enx otam
uns, aparecem ou t ros e ou t ros, cruzando-se por toda a parte, ao cheiro da
moleza (bo leta) . Os que. à n oite r ecolhem à malh ada, f azem-no por instinto,
livremente. M as a mai oria 6.ca «a mont e», o n de lhe anoitece, exactamente como
os a nimais bravios I
I Ba sta n t e primitivo es t e costume de m alta, com os seus ressaibos de socia-
lismo. que muitos lavradores reprovam, mas q ue out ros aplaudem.
Tem acabado n alguns concelhos, mas noutros, como O de A rron ch es,
mant ém- se inalterável. E' estilo, diz-se.
G e ra l me nt e fal an do, rodos os porcos lucram co m a malta, que os melhora
a valer , s em d espesas sensíveis. M a s em troco ext raviam-se alguns, cuj o falta só
se reconhece quando se acaz-eem no final d a época. Os lavradores que por este
motivo pe rde m um o u outro, pagam assim as custas dos seus e as dos vizinhos
feli zes, q ue nenhum se lhes sumi u. Vai a quem toca. E' o caso do Deus disse :
«quem genhasse q u e se r i sse».
* * *
P or diferentes sistemas se us u frui a boleia .
P rimeir o: - na engorda dos porcos - varas. E' o mars comum, principal-
- 49-
AT RA v t S DOS CAMPO S
mente nos arvoredos de ímportância. Segundo : - com O gado suino «de vida:.
- corridas. A dopt a-se n os montados peque nos. de árvores arred ias. T erceiro :
- apanha-se para venda ou consumo do prôpr'io lavrador. Apanha-se geral-
mente em todos os montados, mas s6 em parcelas pequenas, relativamente.
Quarto : - vendendo-se a novidade pendente em globo, no todo ou em parte,
por a just e particular, ou em hasta pública, aos l avrador es da província e aos
eapen ho'is, em resultado de anúncios nos jor n ais e nas portas das i grejas. N a.
f eira de S. Miguel, em Sousel, cos t uma h a ver bastan tes anúnci os de ste gé nero,
anxados n o exterior das i grej as próximas do r ecinto da feir a. As t ransacções
desta nat ur eza usam-se p ri ncip al men te com os montados das cout adas dos
municípios e dos da Casa de Bragança. Dos de particular es, só se vende m
alguns de lavradores pequenos ou medianos, que não q uerem ou n ã o po de m t er
porcos. Ai nda há outro processo de aprov eitamen t o, consequência f orçosa de ci r-
cunst âncias ex tr a or di n ári as em anos anor mais , escassos de ervas e pastos. Ren-
ro-me aos mon tados que se lhes disfr uta a n ovidade com gado de q ualq uer
espécie, ou de algumas si mul taneamen t e, para os mel hor ar com rapidez. ou
sal var de uma crise de forragens que lhes compro meta a existênci a. E' por
conseguinte u m facto excepcional que não con sti tui uso. D a das es tas noções,
entrarei DOS pormen or es indispensáveis ao exacto conhecimento dos costumes
vulgares. D os mais comuns, que do s restant es basta o que n cou dito.
Primeiro: - Engorda de pOTCOS em r ebanhos de maior ou menor nú mero
com O nome de varas.
No primeiro de N ovembro, começa a guar dar i a da bol ota , que annal só se
executa a rigor uns três dias de pois. E.ntretanto há que fechar os olhos a uma
ou outra cabeça tresveírede - pe rdida - que ainda. se não SArilhou ao rebanho,
em regresso da ms.lts. . Con segui da enfim a evacuação, dispõem-se as coisas de
modo que as «folhas» fracas em bol ota, destinam- se ao piso, e as melhores
ncam de solo, guardando-se a rigor máximo.
Às do piso passam 1080 a ser corridas pelos porcos, motivo porque se l h es
dá aquel a c1assHi caçiío. r: a traita habitual.
À s do solo dei xam-se de reser va até acabar a comida das out r as. D epois
largam- se-lhes também. mas em t ermos de aproveitamento r el ativo, s omente às
h oras do almoço e cei a para comerem «à farta•.
N o final da época, ou antes, se se reconhece que a bolota sobej a da vs.ra,
ou se mesmo n ão s obej an do, é i ndispensável alguma para out ra s aplicações,
apanha-se a que excede ou a que se precisa. T oda a r est ant e que os porcos
est rsç oem ou que r egeit am por muito amarga, miude, ou podre, consti t ui a
migalha. que se aproveit a com suínos «de ví da., os quais, a í dos meados da
época em diante. entram também n o emat o.. atrás da vara, mas «cor r endo.
SOmente a t erra de que j á fo ge o gado gor do.
.. .. ..
Os por cos da vara saem «feitos. (gordos) de quinze de jan eir o em diante,
50 -
ATRAvt s DOS CAMPOS
até dez ou vinte de fevereíro1 Se demoram mais, entraram tarde, ou lhe encur-
taram a comida em principio.
Quando a bolota a caba antes do m eado de janeiro, o ga do sai ordinària-
mente «por fazer », em nutrição incompleta. Ou a comida foi menos do que se
calculava, ou os porcos excede ram ao en ca beça men to.
Segundo uso: - Aproveitamento com «s ado de vida», corridas e porcas
de criação.
N estas circun stâncias n ão se destina piso nem solu.
O s rebanhos correm o «ma to» em voltas con stant es. a t r ás ou a di ant e d os
porqueiros, que d e varejã o ou manganilha em punho bate m o arvoredo, q ua n do
a boleia l h es es casaeie. N ecessidades bastante elást icas por vi a de regca, m as
sempre de valor e import â n ci a mui tf sairno m enor que a s d o da «vere».
Aos bécoros dâ- se-Ihes a manterem-se r egul a r mente, para crescerem e
medra r em. Com os Jarroupos e porcas n ão há sombras d e gener osida de. C omem
«por tempero», «a consolar». O bastante para se irem «sustendo» em ter m os de
passa di o sofrível. Tant o, que em a bolota ca i ndo m uita d e r epent e. ao efeito de
ventani as e chuvad as, encurtam-se as voltas, rest ringi n do-as q uanto possí vel.
Mais podia acrescentar s obre a criação e engor da d os porcos n os «matos».
Mas isso cabe melhor na parte que t en ci ono d edi ca r a os gados. Aí relatarei
pois esses detalhes com o des envolvi men to q ue merecem. O s que deixo referi-
dos, sai r a m por a s soci a ção de ideias e f actos que não podi a esquecer a gora.
R esta o a pa n ho.
A l ém da bolota existe nte nas parcelas do solo. evitadas dos porcos,
recolhe-se mais a seguinte : a das ribanceiras dos r i beiros, para não ser a rras-
tada pe las cheias j a das est radas, subt raindo-a à cubiça dos tra nseuntes, e por
último a das semeadas (searas), se o d on o não manda «comê-la» com os porcos,
pelas manhãs de geadas intensas em que a terra está d ur a, inacessível à f ossa.
P or t ant o em condições de se n ão est ragar a sementeir a com a passagem dos s ui n os.
O apan ho efectua-se com mulh eres, de dezembro a fevereiro, a o j ornal de
140 reis (secos), ou de emprei tada a 15 o u 20 r ei s o a lqueir e. P or emprei t ada s6
s e t oma no arvoredo basto d e boas soladas.
P or u m ou outr o aj uste. f ormam- se r anch os nas al dei as, que saem par a os
montes durant e semanas e quinzena s. O mulh erio m a r cha se ri ef eitc, pr inci -
palmen t e as solteiras. Bem sabem que o se rviço l h es propor ci on a rá ser ões
estú rdias e baila r ico! a legr es com os ra pa z es que namoram. F dizes criaturas
que apôs um dia de t rabalho, m uitas vezes de ch uva e fr ic .intens ísai mo, ainda
s ente m pachorra, pa ra se entreter em com fo lias 1. ....... . . ....... •. ... . . .. . ...
À maneira que a bolo ta s e apa nhe e nt ra para cestos, que s e despejam n os
sacos, os quais seguem em ce eros de muares pa r a os cel eiros do monte de onde
se vai consumindo o u vendendo. Para a venda sobej a m os compradores , desde
que o preço n ão sej a
Antigamente alguns produtores important es p ossu iam casas - secsdeiros -
- 51 -
ATRAvtS DOS C A H P O S
para secarem a bolo t a ao calor de lumes brandos. Avelavam-na, e por conse-
guint e preparavam-n a em condições de conser vação demor ada. Viam ni sso
melhor sist ema de apr ovei tament o pelo ano fora.
Hoje est á banida a usança, por ser desnecessária, atenta O aumento do
consumo.
PREJUDICIAIS
Como todas as coisas, os montados e suas r espectivas novidades, estão
sujeitos a pr ej uí zos grandes, além dos referidos. Os mais sensíveis, são os r ou-
bos dos boleteiros, as invasões dos pombos bravos, e a doença chamada burgo.
8ol et ei ros Assim se classificam os homens que, no tempo próprio, t omam por
indústria os assaltos aos montados para furt os importantes de
bol ot a que depois vendem como sua. P or enquanto só lhes dedico a referência.
No capítulo Mal/eitores terão as h onras dos pormenores.
Pombos Causa m perdas extraordinárias. Ànos vêm, em que de dezembro em
diante arribam a os bandos sobre os montados cuja bolota devor a m
audaciosamente em quantidades incríveis.
S ó s e pode avaliar sabendo-se que um pomb o ingere em m édia seis a oito
bolot as. Calcule-s e por aqui quantas comerão milhares deles. O que vale é qu e
semelhantes arribações são pouco fr equentes e nunca demoradas. Quando os
pombos se mostram assim. mudam de poiso a toda a hora, t omando r umos
di versos em voos altí ssimos de caprichosas evolu ções. As dormidas no mesmo
sítio pouco s e repetem.
Nos :fins do ano de 1870 e p ri ncipias de 1871, o concelho de Elvas e limí-
trofes foram acometidos por uma t al invasã o de pombos bravos qu e os nascidos
não s e lembravam de outra igual ou s emelhan t e, s equ er. Nuvens deles cai a m
como avalanches sobre as azinheiras e solos, levantando em algumas h oras
dezenas de moias de bol ot a I
Por t oda a par te se viam nuvens de pombos n os montados e fora d eles,
como praga se melha n t e às do E gito. O s lavradores traziam criados a espa n -
tá-l os com tiros e foguetes. Por seu t urno os ca çador es não cessa vam de atirar
também. obt endo resultados espantosos ainda hoje memorá vei s.
Foi u m a contecimento sensacional que aterrou os lavradores. F elizment e
nunca mais se viu outro semelhante. A gente do povo, que t udo quer explicar ,
atribuia o caso à gue rra franco-prussiana. cLá pelo t eatro da gu erra os pombos
sentiram-se tão apavorados com o t irot eio do s be liger antes qu e em massa
debandaram para cá ». N ão podia ser outra coi sa, dizia o povo .
o burgo D e há muito que os montados de azinho (nã o os d e sobro) de cert as
regi ões e limitadas zonas, sofrem uma doe nça devastadora, motivada
por um pequeno i nsecto a que vulgarmente se ch a ma burgo. O bichinho, esse
- 52 -
ATRAvtS DOS C A ~ I P O S
des envol ve-s e n as árvores. durante a primavera, por entre O eolho» ou gomo
do folhedo tenro, e de aí, passando por diferentes metamorfoses, gen eraliza-se
pelo aevoredo t odo, es tragando-lhe o fr uto embrioná rio - a bol ota - e as pró-
prias folhas. E. prossegue na sua m arch a dest r ui dora, a té ao verão, em que
mone, deixando JU azinheiras semi-nuas e enegrecidas. A tal ponto estragada s
que a produção re duz- se a menos da dé ci ma parte da média ordinár ia senão a
zero, por dois ou três anos consecuti vos.
O burAo que se manifesta numa dada zona a umenta pr ogr esei va ment e nos
primeiros anos, at ingindo pr opor ções fabulosas nuns, r eduzin do -se nout.ros, a t é
que 80 cabo de 8, 10 ou 12 anos declina manisfestament e, a caba ndo por se
exti nguir de todo, sem se saber por quê. Ol'Levanta», diz-se.
O s montados no vedi os de terras vermelhas, são os mais a tacados, e me nos
os das arenosas.
Supomos que s e desconhecem as causas primordiais que determi nam o
burgo, e não nos const a que haja antídot o eficaz para o combater e destr uir.
Quan do entre a população r ural se comenta o caso e se procura conhecer
a sua origem. após mil conject uras fantasiosas conclui-se assim:
- «O ra, que sabemos n 6s : é calibre do ano ... I» E fica -se nisso, concor-
dando todos. E u também concor do. à falta de melhor razão ...
De positivo, s ô se sabe que, tendo alguns agr ônomos visto os montados
invadidos, nada consta lhes fiz essem de proveit oso, ou que pelo menos e conse-
Ihe ssem os la vradores a qualquer providência de geito.
O que, a meu ver, ninguém considera desdouro para os ilustres profissio-
nai s. Em a ssuntos de t al ordem, sem dúvida complexos, quaisquer t entativas
para tratament o prático, exequível e vantajoso, sob o po nto de vista económico,
hão-de es barrar em dificuldades e embaraços invencíveis, que esterilizam os
melhores desejos.
Nota curiosa -An ti gament e, havi a lavrador es que pedia m e consegui am
dos pá rocos irem benzer· lhes e exorcizar os montados para os pr es ervar em
do burgo.
«Er a uma fé» - expl icavam eles a quem mofava da esconjur a ção f •• • Gent e
ingénua, se mpre propensa ao sobrenatural e ma ravilhoso ...
........... ..... .. ........ ..... . .. .. .. . .. .. ...... . .. ....... .... ..............
Outras doenças de somenos importânci a a com et em as azin h eiras e sobrei-
ros, sobret udo estes.
De r esto em todos os mon ta dos, e nuns mais que outros, morrem a nua l-
me nt e algumas á rvores - facto normal a que se n ão li ga impor tância.
LONGEVIDADE
E' bastente longa a vi da das azinheiras e sobr eiros. Con sequentement e, a
sua criação e desenvolviment o é ass âs de morada.
- 53-

ATRAv t S DOS C AMP OS
No quase es tacionamento da i da de adult a permanecem dezen as e dezenas
de anos, e mais l ongo ainda é o período da decadência qce decorre lent amente
através de séculos. A azinheira sobr et u do. é de uma longevidade incalculável,
se causas fortuitas 'ou estranhas lhe não cortam a existência. Velha, mutilada,
cauomida e se mi-n ua - um giga n t e reduzido a pigmeu. corcunda e manco-
exibe a sua decrepitude grot es ca, a n t e o desfilar de muitas ge rações. Por ú .l ri mo,
já sem préstimo. com as raizes podres e o esquel et o escalavrado, cai enfim ago-
n izan t e, a o i mpu lso de um vendaval de inverno ou ao golpe :rijo do macha do
vulgar. Desse mesmo instrumento que tantas vezes a limpou durante séculos,
que lhe robuste ceu a vida nas épocas de prosperi dade, mas que depois a foi
reduzindo, at'é por último lhe abat er o tron co e a sua valetudinária existência .
De 400 anos talvez, e quem sabe se de muitos maÍlJ .. .
IV
D
I VE R S O e numer os o é o pe ssoal que s e empr ega em cada l avoura.
a umentando ou di mi n ui n do conforme as necessi dades do Srangeio. o
estado do t empo e a exist ência. de br aços. À quase totalida d e dess a
ge nte acomoda-se por a n o, te mporada, mês ou dias, segundo o tra-
balho a que s e d est ina e outras ci r cunstâncias consequentes d e usai l ocais e
vontade dos contrat an tes. Por excepção e pa t a det erminados serviços d e natu-
reza muito especial, usa-se também o a just e por emprei tadas.
O pessoal contratado por a no, m ês ou dias. sai quase t odo das vilas e aldei a s
próximas, onde te m os s eus domi cílios. O das empreitadas é. pela maior parte,
gent e estranha à região.
Aos cria dos de ano. ch ama m- se-l h es anuais i 8 0 S de tempor ada, t emperei-
TOS ; aos de meses, mensais, e aos de dias, jor naleiros, t raba lha dores, ou
homens a dias.
Mas estas nomenclaturas são muito genéri cas e comuns a diferent es classes
e entidades. P or i sso, para se destrinçar bem ca da mist er adoptam-se n omes
qualificativos, es peciai s e especialíssimos correspondentes à ca t egor ia e ocupação
de cada individuo.
Aos vencimen t os dos enusds, t em poreir os e mensais chama-se-lhes sol dada ;
ao dos jornaleiros - iorns, jornal ou sal ário.
Salvo excepções raríssimas, todos os criados se alimentam por conta da
lavoura, que r seja p on do-se- l he a mesa conforme o costume do sítio, qu er pelo
sistema de comedorias ou m antimentos do est il o, aviados no fim de cada sema n a,
quinzena ou mês. D os poucos que por acaso nã o vencem comida, diz- se que
trabalham ca seco», Os esclarecimentos relativos à aliment ação, dão matéria
paTa um parágrafo próprio de que opor t un a ment e tratarei.
R eflectindo um pouco, vê-se que to da a criadagem se divide em quatro
- 55 -
ATR A VeS DOS CAMPOS
agrupamentos, que de modo al gum sig nincam classes nem categori as mas
núcleos distintos pela natureza dos s er vi ços que desempenham.
O pr imei r o agrupa mento compr eende toda a família empregada no ama-
nho das terras, acar re tas. eiras, desmoita s e out ros trabalhos, com exclusão das
ceifas e gadanhas. Engloba p ortanto a ABnitaTia, os cerreiros ou almocreves e
a carraça.
Por Aan b aTÍB ou malta, entende- se o troço de homens - Aa.nb.ões - em
número indeterminado, qu e em todo o a no se ocupa prin cipalmen t e n os servi-
ços cultu rai s e cor r ela tivas, à exce pção das ceifas. T opa a tudo por assi m dizer,
não obstante ter a seu exclusivo en ca rg o, as fainas j á aludidas. O chefe da
8anbaria é o abegão, qu e te m por imediato substit uto, o s ota.
O s carreiras tra balham com as par el has de muares, nos labores do carro e
arado. A o encar r ega do, chama- se maioral das mul as, e ao imediato. ajuda. Os
restant es são caueiros rasos.
R esta a carraça. qu e é a penas um desdo bra mento da ganharia, mai s ou
menos te mporár io . Organi za-se com a ge nte menos válida - r apazes e velhos
q ue se aprovei t am, em s eparado, para afazer es de pouca monta a que a malts
não pode atender. Tem po r governante o sota ou qual quer de confiança e
prést i mo.
A constituir o segundo agrupamento estã o aqueles que n ão intervêm DOS
t ra balhos agrícolas mas em outros diversos e i mpor tan tíssimos, como o gua rda
de herdades, carpinteiros, cozi n hei ro. amassador, et c.• etc.
No terceiro, figura o pess oal transit ório, ou melhor diz endo a quel e qu e só
desempenha misteres especiais, de ocasião. restringidos a determina das épocas.
D os Aanadeiros (homens ocupados exclusivament e na pastoreação dos
gados manadíos) forma-se o quarto grupo, que s e por ventura é menos n ume-
r os o, nem por iss o di mi n ui de importância quanto à escolha e responsabilidade
dos 'lu e o r epresentam.
R esumindo: uma lavoura bem montada, compl et a e composta de «t udo
que lhe é dado» ocupa o seguinte gentio:
CRIADAGEM PERMANENTE
Um guar da de her dades. um ou dois ca r pinte i ros, um a begãc, um so ta, dois
boieir os, um cozinhei ro, um amassador, quatro a seis carr eiras, dez a q uinze
ganhões, um hortelão. u m tratador de cavalos, e um paquete. Ganadeiros -
Pastores : um maioral de ovelhas e diferent es entregues, um para cada r ebanh o,
com o seu respectivo ajuda. P orqueiras : um maioral de porcas e dois ou mais
entregues e correspondent es ajudas. D ois vaqueiros ; um eguer i çc e um cabr ei r o.
O guarda, o abegâc, sota, mai oral das mulas, boieiros e ganadei ros-maiorais,
são sempr e anuais, de pensão. E a t odos es tes, exceptuando o guarda, dé-se-Ihes
o título de governos ou cabeças. Nas rest ant es ocupações (quadro permanente)
encont ram-se anuais, temporeiros, mensais e a dias. Vej amos agor a os do
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A T RAv t s D O S C AMP OS
PESSOAL TRANSITÓRIO
Dois ccrta-ramae r um rancho de 20 a 40 mondadeira s ; uma ca marada de
ceifeiros-ratinhos (30 a 40) com os seus respect ivos enri lheiredo res e tardão ;
uma camarada de 12 a 20 tosqui adores de gado laníger o ; um gr upo de 2 a 6
gadanheíros de f eno ; um ou dois roupeiros ; um lançarote ; doi s ccr dceircs , u m
melanci eir a ou meloeiro ; um gua r da da ei ra; u m se meador; um embel gador :
dois valadeiros ; um r anch o de mulhere s n o a panho da az eitona e da bolota j
Um. assoutueiro " doi s elevoeir os , um perunzeiro, etc.
Deste modo fica enumerado o pessoal p ermanent e, transit ório e acident al
de uma lavoura i mpo rtant e. Si mples en u meração porque o mais que lhe r espeita
vai largamente ccnsígnedo nas «Particu laridades de cada ocupação»> .
As lavouras pe quena s ocupam menos gente, como é bastan t e maio r nas
excepcionalment e gr an des, que susten t a dois abegões, t rês guar da s, et c. Desde o
pequeno l avrador - o cbarepe - de duas ou três j untinhas e mei a dúzia de
rezes, até ao agricul tor opul ento de SO a 60 arados e muitos e numerosos reba-
nhos de t odas as espécies - há margem para h i pótese s t ão variadas e di versas,
que para o cas o presen t e a proveito a que melhor r epresenta a cultura ex ten si va.
O mai or núm er o de l avouras ocupa sem dú vida menos f amília qu e o refe-
rido, mas como nas de entre essa ma io ria não há, pelo men os, uma que execute
todas as prática s e sistemas das gr an de s «ca sas» são es t as que me servem de
ponto de referência, porque, repito, é só nelas que se en contr am t odas as nume-
tosas enti dades que const it uem em a bsolut o o pessoal agrícolo-pecuário de um
quadro compl et o. A s outras m enores, embora importantes, cada qual restrin-
Ae·se a determinadas es pecialidades, o que lhe reduz bastante o número de
ocupações.
SOLDADAS E SALÁRIOS
Há sol dadas de duas classes : uma e rrtigu, tradicional, exclusiva do s criados
de ano, de pensão. Compreende verba em reis e vár ios acneAas ou avenças de
cobiçado apreço com searas, pão na eíra, l en ha, pegulheis, etc. O que tudo se
designa t ambém por adições, propinas, squidedes, forras, etc.
A outra usan ça, de sol da da a dinheiro somente, restringe- se a uma quantia
fixa em reis , e está mais em voga para com os t emporeiros men sais. e alguns
àe ano sem pensão de vulto.
Os vencimentos em r ei s, ainda se baseiam numas tantas moedas de ouro
(valor antigo de 4$800), unidade s de h á muito abolidas mas que parece eterni-
zarem·se pr õ-Ier ma nos aj us t es dos criados de lavoura. Principalmente nos «de
ano•. Nos de tempora da e meses já se convenciona por mü reis. E. n os de entre
uns e outros, também sucede falar-se em libras, costume que deverá perder-se
brevement e porque nunca chegou a arreigar-se, nesta ordem de contratos.
As soldadas com searas e adições várias, são as preferidas pelos serviçai s,
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A T RAv t s D O S C AMP OS
PESSOAL TRANSITÓRIO
Dois ccrta-ramae r um rancho de 20 a 40 mondadeira s ; uma ca marada de
ceifeiros-ratinhos (30 a 40) com os seus respect ivos enri lheiredo res e tardão ;
uma camarada de 12 a 20 tosqui adores de gado laníger o ; um gr upo de 2 a 6
gadanheíros de f eno ; um ou dois roupeiros ; um lançarote ; doi s ccr dceircs , u m
melanci eir a ou meloeiro ; um gua r da da ei ra; u m se meador; um embel gador :
dois valadeiros ; um r anch o de mulhere s n o a panho da az eitona e da bolota j
Um. assoutueiro " doi s elevoeir os , um perunzeiro, etc.
Deste modo fica enumerado o pessoal p ermanent e, transit ório e acident al
de uma lavoura i mpo rtant e. Si mples en u meração porque o mais que lhe r espeita
vai largamente ccnsígnedo nas «Particu laridades de cada ocupação»> .
As lavouras pe quena s ocupam menos gente, como é bastan t e maio r nas
excepcionalment e gr an des, que susten t a dois abegões, t rês guar da s, et c. Desde o
pequeno l avrador - o cbarepe - de duas ou três j untinhas e mei a dúzia de
rezes, até ao agricul tor opul ento de SO a 60 arados e muitos e numerosos reba-
nhos de t odas as espécies - há margem para h i pótese s t ão variadas e di versas,
que para o cas o presen t e a proveito a que melhor r epresenta a cultura ex ten si va.
O mai or núm er o de l avouras ocupa sem dú vida menos f amília qu e o refe-
rido, mas como nas de entre essa ma io ria não há, pelo men os, uma que execute
todas as prática s e sistemas das gr an de s «ca sas» são es t as que me servem de
ponto de referência, porque, repito, é só nelas que se en contr am t odas as nume-
tosas enti dades que const it uem em a bsolut o o pessoal agrícolo-pecuário de um
quadro compl et o. A s outras m enores, embora importantes, cada qual restrin-
Ae·se a determinadas es pecialidades, o que lhe reduz bastante o número de
ocupações.
SOLDADAS E SALÁRIOS
Há sol dadas de duas classes : uma e rrtigu, tradicional, exclusiva do s criados
de ano, de pensão. Compreende verba em reis e vár ios acneAas ou avenças de
cobiçado apreço com searas, pão na eíra, l en ha, pegulheis, etc. O que tudo se
designa t ambém por adições, propinas, squidedes, forras, etc.
A outra usan ça, de sol da da a dinheiro somente, restringe- se a uma quantia
fixa em reis , e está mais em voga para com os t emporeiros men sais. e alguns
àe ano sem pensão de vulto.
Os vencimentos em r ei s, ainda se baseiam numas tantas moedas de ouro
(valor antigo de 4$800), unidade s de h á muito abolidas mas que parece eterni-
zarem·se pr õ-Ier ma nos aj us t es dos criados de lavoura. Principalmente nos «de
ano•. Nos de tempora da e meses já se convenciona por mü reis. E. n os de entre
uns e outros, também sucede falar-se em libras, costume que deverá perder-se
brevement e porque nunca chegou a arreigar-se, nesta ordem de contratos.
As soldadas com searas e adições várias, são as preferidas pelos serviçai s,
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ATR AvtS DOS CAMPOS
embota suj eitas a contingências. M as no joso se conhece a sorte, dizem eles. E
portanto joAsm, arriscando-se às eve ntualidade s. Se num ano pe rderem, outro
virá melhor que os i ndemnize em cheio. D epoi s - e a qui é que es tá o busilis-
nos anos t ort os, em que i ulgam sa i r -se mal por as searas mostrarem mau
aspecto, t r ata m a te mpo de melhorar a sua si tuação, pelo menos al guns. A í
por março ou abri l, aqueles a quem o caso se anáuta sério e qu e n ã o t êm con-
si der ações a s uar da r , a balam a pretexto de qualquer coisa, ou se confiam na
benevolên cia do amo fazem- lh e chor adei r a pedindo lhes ga r a nta a seara em
cert a quanti dade, um pouco inferior à produção mediana. O amo anui, se estima
o crí a do, e tudo se con cili a, tanto melhor que se a colheita exced e ao conven-
cionado e ga rantido, o excesso revert e para o serviçal.
Variam as eoldadas an uais e especialmente as dos governos. O s que a s
arrancam ma ior es, gan ham de seis a doze moedas, seara de t rigo ou de centeio
de seis a dez alqueires de semeadura e de dois a quatro de l egumes. E mais 40
a 90 alq ueir es de «pã o n a eira», lenha, forra de égua, etc. C ent ei o n a eira ou
em searas, em lugar de trigo, só se usa na freguesia de San t a E ul ália. onde se
n ão con cedem searas de legumes. mas si m de melanciai s, cultura vul gar íssima
no sí tio.
A s de cereais semeiam-se com semente fo rnecida pelo lavrador. que a r ecebe
n a futura colh eita. Cultivam-se como 8S do amo e à custa deste n a t orna do
cost ume da respecti va lolha. realizando-se a semen t eir a e ceifa n o meado das
correspondentes épocas. À malha ou debul ha efectua- se n o final do período das
eiras. A monda corr e por conta do interess ado, levada a efe ito por mulher es de
sua família. ou outras a quem paga.
P ara as sear as de l egumes n ão há tornas especiais. nem o lavrador contrai
outros compromi ssos al ém de as lavrar , seme ar e recolher , quando e como lh e
a praz. O cost ume das sear as de tri go ou de centeio est á quase r estringido aos
abegões. T em inconvenien tes para o l avrador mas t amb ém l h e a ssegura van t a-
gens. Dos abegões que as ganham há a esper ar mai or zelo e estabilidade do
que se a s n ão vencessem.
À sesrinh« é O elo que liga o serviçal ao amo. E este concedendo-lha em
soldada associe-o às suas prosperidades e desventuras.
P or outro lado. crê-se com fundamento que u ma seara de qualqu er criado
junt a na eira. em r iiheíro, arrumada à do l avrador (como se usa) torna-se um
bom seguro contra incêndios. Em primeiro lugar há da parte do possuidor, e
por inter esse próprio, maiores cautelas; em segundo a malvadez dos incendiá-
rios hesi ta e desist e dos propósitos infames contra o lavrador quando sabe que.
lançando-lhe fogo à seara, vai igualmente desrr ulr a do criado. que não odeia.
r. então. para «não l azer mal a um pobre deixa de se vinAar no rico». S e deixa
por que nem sempre lhes vêem os escrúpul os .
Das outras acheAas, as que persistem mai s. são O pão na eira, a lenha. etc.
À s r estantes, como fo r r as de éguas. vacas, ctc., limitam-se a deter minadas
lavouras antigas, onde se conser va m por respeito de tradição.
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ATRAVI!. S DO S CAMPOS
Em resum o, quanto maior valor representam as squidedes menor é a verba
em dinheiro. E m cada emprego predomina determinada í orrs, como fris arei
em sua altura.
Outra advertência : as usanças a ludidas não contendem com os AansdeÍros,
cujas soldadas e costumes divergem sensivelmente.
P or est a e out ras 1'8ZÕeS omito por agora os vencimentos e cos t u mes de tais
criaturas. A diversidade da sua profissão dá-lhes direi t o a um art180 próprio d e
que oportunamente t rat arei.
Época do ajuste Os cri ados d e ano, entram e enci mam pelo «5 . M a t eus»
( ~ 1 de setembro), fi m e p rincípio do a no agrícola no concelho
de E.lvas e parte do de A rronches . N ade Campo Mai or é a 15 d e a gosto e
noutros pelo . 5. M i guel•.
Como quer qu e s eja, àqueles de que s e pretende a continuaçã o, o amo
fala-l hes, pe rg untando- l hes se ficam ou não. O consul ta do, se d es eja ficar,
responde : - . S e é da sua von tade, :6. co». E não quer endo, diz : - «Não senhor;
c.omigo não faça conta»,
Pelo que o l avr ador t rata de a comoda r a tempo outro que o substitua.
No caso de o criado pedir a umento de soldada ou o amo redução, a mbos se
ent endem oportunamente e decidem qualquer coise. A rebaixa de soldada,
toma- a o criado como sintoma de descontentamento ou enfado do l avrador e
nessa convi cção n ã o a a ceita, despedindo-se. Que os há que se resignam e vão
fi cando. Mas são os menos. Só os zor ras mat reiros.
No termo de Elvas é da praxe os lavradores «fa l arem» ou apal avrarem os
criados pelas vésperas e feira de Barbacena (8 d e setembro). S e a t é então nada
lhes diz, suben t ende- s e que os não quer. E. por conseguinte, os «esquecidos»
procur am novo amo.
A pra xe est a já não é u sada por todos os lavradores. Alguns adoptaram o
sistema de não . fa la r em» aos que os vêm s ervi n do. Mas para que saibam o
costume, previnem-nos por uma vez de que os despedirão a tempo quando lhes
não convenham.
Aos cria dos antigos, que, por seus m erecimentos ou particular afeição, se
COnservam n uma lavoura 20 e 30 anos, a dquirin do foros de vitalícios, o lavrador
não lhes «fala», tão certo está da s ua permanência e dedicação. Eles nem por
sombras se consi de ra m despedidos ou desfeiteados, antes tomam o silêncio como
testemunho de confia n ça e amizade.
Quase se consider a m pessoas de família com o direito e dever de a servi-
rem até à mor te. Existem al guns de permanência t ão a n t iga que, por assim
di zer, viram nascer ' os amos, tendo-lh e s ervi do os pai s e avós I Curiosa cena.
obser var um desses velhot es qua n do os patrões s e zanga m com eles. Entre
outro. arrazoados, sai-lh es o s eg uinte :
- «Olbe lá meu amo: quando vocemecê nasceu já eu cá estava . .. Tem de
me 8guentar, inda que não queira.•
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A T R A v t s DOS C AMPOS
Ou pOI outr a : - cOra deixe-se de coisas . . . quem me comeu a carne há-de
roer -me os ossos / ... » E. o amo, ouve, cala - se e r i pa ta consigo . ..
Vão r at ean do essa s boa s cri at ur a s, modelos de probi dade e abnegação.
credores de respeitosa est ima e ampar o. Vã o desaparecendo e infeli zmen te,
quase ninguém os substi tu i . O s n ovos a cu sam uma tal i nstabilidade e indife-
rença pelos amos. que poucos «criam raizes» em qualquer casa.
* * *
Como di sse, são os amos ou seus representant es qu em acomodam os cr iados.
O s que t êm e desejam conser ve r, e ai nda os estranhos que precisam a dquirir.
Quant o aos que saem de uma lavoura e pensam servir nout ra, par a onde
ninguém lhes «falou», usa-se irem el es à cata de arranjo. oferecendo-se e tra-
l an do..se com O novo amo. Mas ta n to l avradores como serviçais não se di rigem
logo dir ect amen te uns aos outros para o efei t o do aj uste. Em dadas circunst ên -
eias o negócio car ece de segredo para qualquer dos contrat an t es ou para os doi s
mesmo, já porque o l avrador suspeita de um colega com análogos pr opósitos,
já porq ue o serv o r eceia não obter o lugar cubi çado e depois Êcar t a mbém sem
a quele em qu e se emprega. C omo os cães de Borba . . . C oisa prová vel se O seu
anti go amo souber que procurou outro.
P or consequênci a, quando oco r rem tai s d ú v i d a ~ e receios. servem de inter-
mediári os nos perliminares do ajuste os serviçais de confiança que «ncam'»l
como abegão, mai oral das mulas, etc. C omi ssi onados estes que se pelam por tais
incumbê n ci as . T od os a aceitam, procurando facilitar ou impedit o contrato. con-
f orme os sentimentos que nutrem pelo fut uro camarada. O amo dá- lhe o devido
descont o e faz o que lhe parece.
t dos bo ns costumes n enhum l avrador sério «desafiar » criados de confian çe
de out r em para os empregar n a mesma ou semelhante ocupação. O estilo manda
q ue só se «fale» na maré pró pr ia a que m se sabe ou const a que sai. Antes e
nou tr as circunstân cias é fei o e dá nas vi stas.
Mas se n o decorrer do an o um lavrador precisa de algu ém par a pr eench er
vaga ext raor di nár ia e para isso se lembra de um jeit oso acomodado por fora em
ob riga ção de categoria inferior, pede ao amo respectivo lho dispense. e só depois
da ced ência l h e manda falar. O procurado. «se sabe on de ca em 8S coi sas» (ser
cortês) não se ajusta definitivament e sem ter «uma at ençã o» com o Brno antigo.
Na região elvense qu an do um serviçal se a justa e fala no a ssunto, di z: -
«Est ou acomodado. ( ou tretedo),
N outras variam de termo, exprimin do- se assim : - «E st ou concertado». De
maneira que acomodar e concertar signíji cam em dialect o rural al entejano, o
ajuste dos criados com os lavradores.
.. .. ..
Àos anuais. seguem-se os temporeiros, Para o efeit o da sua acomodação o
ano agrícol a divide-se em três t empor adas : a pr im ei r a - a da sementeira outo-
- 60 -
ATRAVÉS DOS C AMPOS
nal - pri n cipia pelo S. Mateus (de 21 a Z;l de setembro) e li n aliza ai pel..
•Senhora da Concei ção ou N a t al.; a segunda - a do alquei ve e sementeiras de
tremeses - pri ncipia imediat a men t e à out ra e t ermina n o cabo de maio; a ter-
ceira e última - a do verão ou das eiras - va i desde o começo de junho até 20
de set embro à noite.
A temporada do alqu eive u sa-se subdividi -la em duas épocas : a primeira
desde o começo até fins de Ievereíro ou março, qua ndo mui t o ; a segunda todo-
o período testan t e. A sub-di visão t em por único :fim a diferença do preço por
mensalidades - menos n a p ri meira época e maior n a segunda.
Eis os preços correspondentes às três tempor adas por cada ganhão e mês:
Sementeir a: - 4$800 a 5$500 rei s. Alquei ve : - 3$600 a 4$000 r eis de deze m-
bro a fins de fevereiro e 4$500 a .5$000 r ei s em março, abril e maio . Verão -
cinco mil e quin h entos li se is mil r ei s.
P r eços estes que se referem a 8anhões rasos de mâosei ra e não aos de
maior es responsabilidades, que vencem mais e em proporção com a im port ân ci a
do encargo.
O ajuste realiza-se dias antes da temporada ou já em principio. Às contas-
ou pagamentos finais, efectuam-se no primeiro dia feriado subsequente ao fim
da época, excepto nos que respeitam à do verão que invariàvelmente têm lugar
no dia 21 de setembro ou na véspera à noite. Assim como aos anuais de pensão
costuma falar o lavrador, os de temporada são apalavrados e justos pelos
f*overnos» respectivos (com prévia autor iza ção do amo). D e maneira que aos
*anhões fala o abegâo ou o sote, e aos carrei ros, o maioral das mu las. O preço
é ou não estipulado no acto do ajuste. À n tigam ent e t odos se acomodavam sem
preço, sujeitando-se ao que 05 lavradores fizessem no fim. Hoje adoptam-se
outras normas mais racionais. Ou se a comodam a «preço f ei to» ou se conven ciona
: P B ~ 9 . t e receber pelo maior que se «abra» de entre os das lavouras vizinhas.
Par a o serviçal o ajuste fixo e antecipado não passa de uma ficção. S e depois
subir para os companheiros da mesma lavoura ou dos de outras próximas, ele
abala ou exige o excesso. E. não se estranha por ser co r rente. O criado «é pobre
e não pode perder».
Mas se se der o inverso, isto é, se o amo ajustar por exemplo a cinco mil
reis, e depois outros pagarem a quatro, o dos cinco tem de cumprir a palavra.
Não será coerente mas é corrente. E por isso também se não estranha. À pro-
-pósito: notando-se um dia em palestra de lavradores, esta falta de reciprocidade,
um dos mais velhos, observou com espírito: - «N ós tratamos, mas eles os
criados) conversem. Portanto as «fal as. deles são vozes ao vento» I. . .
Anuais e temporeiros, embora se ajustem por épocas fixas que em bom
direito tinham obrigação de cumprir e encimar, abalam quando querem por
futi lidades e caprichos, sem atenções para com os amos ou quem os representa.
P or isso 05 que assim saem não têm direito a receber a soldada vencida antes
do d ia das contas gerais.
Os chamados governos só «par t em o an o» por motivo forte, excepcional.
- 61 -
ATRAvtS DO S CA MPOS
Por seu turno também o lavrador precisa escudar-se em razões imperiosas
'Para pelo ano adiante despedir qualquer, sem incorrer nas censuras gerai s. Mas
se ema n da embora» algum paga-lhe imediatamente sem aguardar pelo cabo do
ano ou da temporada.
Enqua nt o servem e pelo aDO Iora, todos os criados obtêm do lavrador os
abonos de qu e precisam, correspondentes às soldadas. A lguns chegam a estar
adiantados e raros são os que não pedem por conta.
D os que venceram pOI inteiro, sem abonos nem dias perdidos, diz-se que
ganhar am a «sol da da direita». São p oucos. A maioria é chapa vencida ... chapa
derretida. P or est a e out ras circunstâncias de fácil intuição, cada lavrador tem
o ch a mado livro dos assentos, on de procedem à inscrição dos criados e corres-
p ondent es soldada s. t endo cada inscrição colunas própri a s para a anotação dos
abon os e di a s perdidos. Com este livro, tudo se explica e a clar a no a cto das
contes .
* * *
À o aproximar- se o S. M ateus as parolices n as herda des e al deias versam
principalmen te sobre a mudan ça ou con tinuação da família anua l n as lavou ras
do sítio.
Sobre tão moment os o e palpitante assunto, fa nt a siam-se con jectur as, auge-
rem-se mexeeices, a volumam-se despeitos, p ropala m -se boa tos e inventam-se
ce.rapetêes, tu do a propó sito de saidas e ent ra das do n umeroso pessoa l que
então encima.
T odos os que ser vem no campo ( e at é os estranhos) quer em saber u n s dos
out ros e daí o a cer vo de petas que voam de her dade em herdade num t orveli-
n ho d e comentários. T a nto s e inven ta e fantasia sobre este assunto, que à época
essa cham am-lh e o t empo d S 5 m entiras. «5 . M a t eus à porta, trapacices às
carradas».
Mas as mentirolas só m ed ram até ao di a de conta s, em que tudo se es cla-
rece. G r an de dia ; com que i mpa ciên cia se a guarda I A:finaI, cheae, É. como
disse, a 21 de s etembro.
L ogo ao nasce, do sol, os de ano, que saem, l argam as ocupações de que
imediatamen t e t omam posse os que entram de novo. P osse a penas, q u e o dia
consagra- se às conta s.
De m an h ã cedo (senão de véspera à n oite), o lavrador assentado à banca,
munido do livr o dos a ssentos e da folhinha, faz a s con t as aos cr ia dos, pagan do
a um p or um, à ma nei r a que vão chegando. O s que p el o se u comportamento ou
serviços es peciais m ere cem galar dão, costu mam r eceber maior ou menor gor-
geta, que se dá s egundo a ocu pação, o mérit o e e s impati a . Os gr a tifica dos usam
dizer: - «M eu amo t eve um olhamento comigo».
O a b e ~ ã o e o maioral das m ulas a ssistem r espect ivament e à s dos seus
subordinados para esclarecerem q uaisqu er dú vidas s obre adiantamentos e dias
perdidos. Se assim. mesmo surge alguma que s e n ã o co n segue aclarar resolve-se
geralmente a favor do serviçal para cor ta r atritos.
- 62 -
ATRAvk: s DOS C AMPOS
Os que saem a bem, quando recebem a soldada, dizem paro. o lavrador :-
«Queira deseulpar meu amo, s e o não servi à sua vontade». O lavrador res-
pond.e como julga apropositado. E se fica com saudades dele, acrescenta: - «Vai
com Deus . . . a porta fica aberta ». Fee- Ib e perce ber que pod e volta e n a primeira
oportunidade.
Outros cria dos re cebem e cumprimentam com as seguin t es pela vres e r-'
«Nosso Senhor lhe dê mui t o p ala der a ganh ar aos pobres». Ou por este out ro
modo: - . Deus nos dê saude, meu a mo : a vocemecê para o dST, e a mim para
O ganhar». E o amo redarg ue-I h e : - . O br igado. D eus te o uça>.
Se alé m das soldadas têm recebi do do amo quaisquer favores importantes
usam muito da seguinte frase: - cN 05S0 Sen hor l he pague. que eu não sou
capaz. - E como não é capaz, endossa a le t ra à Divindade, :ficando qu ite com o
amo e de consciência tran quil a para não mais se lembrar do obséquio. Inter-
pretação chistosa de um falecido lavrado r qu e muitos factos corroboram.
N ão obstante é claro que agrada sempre toda e qualquer expressão de r es-
peit o e reconhecimento, por banal que seja. Os cri ados antigos não se exi mem
ao cumprimento desses deveres. O s novos já afinam noutro diapasão. O maio r
número e$tá nas t in t as. para semelhantes etiquetas.
• • •
U lt imadas as cantas todos se vêem com O se u pecúlio. Mui tos vão 1080
pagar o rol ao sapateiro e os bicos que devem pelas vendas e lojas. t um dia
de pagament os e cobranças em que o dinheiro gi ra a rodo n as aldeias como em
nenhum outro do ano. Abençoado S. Mateus I. . .
À tarde ou no dia seguinte de mad rugada, a mos e criados t od os marcham
pua a romaria e feira do S. Mateus, em Elvas. O s serviçais vão celebrar com
fol guedos e farneis o mourejar de u m an o inteiro. A li , nos subúr bios de E l vas,
no Senhor da Piedade e no rocio do Calvá rio, expande-se em grupos mulríccres,
um povo trabalhador, n a legítima folgança d e h oras fullidias que lhe parecem
minut os. Junto dos churriões e ou t ros «ca rros t a pados» que pejam a te r rado.
estendem-se os panos alvíssimos e come-se à farta. em grupos de famílias, com
íntima satisfação. À noi t e r egressam aos lares, e a 23, de manhã, i niciam- se as
lidas elo novo ano agr í cola, volta ndo todo s aos hábitos no:rmais.
Os moços começam l ogo a pensa r na pând ega do «S. Mateus» que vem.
Sal ári os Regulam-se pelos seguintes, po r día e homem : D e 21 de set embr o
a 8 de dezembro (sementeira) 160 a 220 r eis. D e 9 de dezembro a fim
de feveteit o (primeira época do alqueive ) 120 a 140 reis. D e março a mai o,
inclusive (segunda época do a lqueíve) 160 a 200 r ei s. D e j un ho a meados de
agosto (eiras) 160 a 280 rete. D e meados de a gost o a 20 de setembro (palhas e
desmoitas) 140 a 180 reis.
O jornal vence-se di àÚamente, ma s est ipula-se e paga-se às seman as ou
quínaenas. O tr ato por quinzena de trabal ho sem interrupção do doming o
- 63 -
ATRA V t. S DO S C A MP OS
intermediário, é uso geral durante as s emen t eir as e também n o tempo das eiras
em algumas zonas. No resto do ano ajusta-se e paga-se no fim das semanas e
à forne, fixa po r cada dia, pagando o lavrador ou o abegão, se est e recebeu do
amo. Como quer que sej a o a begão assi ste ao pagamento e, sendo preciso,
informa dos dias que t em cada jor n alei ro . Ào mesmo tempo. 80 ent regar-lhes
a [orrre despede-os l ogo, se 05 n ão quer, Mas se pel o contTário Ain da os preci sa,
troca impressõe s com el es. para lhes conh ecer o prop ósito. Cost umeir a banal
de si mples palavriado. S ó depois, pelo dia fo r a e à tarde. nas t aber nas e pon tos
de r eunião das al de ias, é que ebegfies e sot as falam a «precei to» à gent e de que
precisam, abri ndo- lh es ou não o preço por que h ão-de sair.
No tempo das sementeiras e D O do verão é demorado o aj ust e. O trabalha-
dor, ou só se decide à última da hora, aguardando maio r ofer ta, ou trata-se
sem preço, mas com a condição de receber pe lo mai s alto que se pagar. A maio-
r ia não sai sem preço feito e assim mesmo só o aceita quando vê que não pode
obter mais.
N o ve rão, e n a freguesia de Santa E ul áli a, os salários n ão se dett.n.em
antes da manhã do di a seguint e a o da folga, na pr aça da ald ei a, on de a f amília
se jun ta a discutir o caso. Ali «fazem pr aça», ouvindo as ofer tas dos governos.
por ent re os come n t ári os de ocasião. Dura isto at é às sete ou oito hor as da
manhã em q ue se decidem a sair para onde mel hor lhes apré s. O trabalho pré-
ximo, a si mpat ia pelo abegão, e o bom trato em alimen taçã o constituem moti-
vos de preferência.
C h egados aos ser viços consideram-se just os, mas por qual quer nin ha r ia
quebram o compromis so e part em a semana ou quinzena, abalando à. surdi na
sem se quer participarem ao abegão. O que às vezes motiva transtorno. Mas
como é usual pouco se estranha, e tanto me nos porq u e os que saem hoj e' de
uma casa, dia s ou seman as depoi s vo ltam para lá com igual semcerim6nia. E-
como as abaladas são frequentes em todas, e os que dese rtam de umas lavouras
vão logo para outras, subarituí ndo-se assim reci procamente, as vagas depress a
se preenchem. H á a penas mutuação de caras, sem vantagem para ninguém.
D e inverno acentua-se a estabilidade. n ão se discutindo preços. Vai-se com
o tempo, que é o do. ebibe - uma aveaira, magei sel a e humilde, que em bandos
arriba ent ã o ao Alentej o. Depois, de a bril em diante, «quan do vem a rola e
canta o cuco», à família pica-lhe a mosca n ão parando em reme verde. De
mansa que est ava passou a bra va, t ão brava, que aos adjuntos dos do mingos e
segundas-feira s para os ajust es da semana. por vezes se lhe ch ama m touradas.
Força de ex pressão, es t á claro.
AUMENTO DAS SOLDADAS E SALÁRIOS
N os últ i mos anos e por efe i to do desen vol viment o da cultura cer ealíf era,
a s soldadas e salári os têm a umen tado bastant e, s endo de presumir que ainda
se elevem mais nos anos de boas colheitas.
- 64-
PESSO AL D A
(E..cuhuru cm madeira
LAVOUR A
de CapeI. c Silu)
ATRAv tS DO S CAMPOS
N os salários é onde a subida se acentua em maior escala. S endo como são
pagos em dinh eir o, de contado , apenas, a diferença parece maior do que n as
soldadas a nuais com outras avenças. N est as a subida é r elat ivamente men or
em reis. Mas como ao di nheiro se adiciona m forras de géner os, searas e pastos ,
cujo va lor também se elevou, não diminui ndo 8 S u nida d es que os r epr esen t am,
os venci ment os r especri vos igualmente s e avolumara m, embora continuem repre-
sentados po r r egal ias idên ti cas às an teriorme nte gan has. Um moio de tri go é
sempr e um moi o de tri go, mas o seu r endimento de h oje é ma ior que outrora.
E o m esmo sucede COm a forra de uma vaca. d e u ms égua, etc.
Com as soldadas a dinh ei r o s ómen te, a alta dá-se em proporção idêntica à
do sal ário. Em ambos os casos é grande, máximo nas semen t eiras e col heitas,
que se eleva a 40 % a mai s dos preços antigos de épocas análogas. De in ver n o
também se n ota o a umento mas em escal a me nor-20 a 30 °,'0 se ta nto.
O lavrador sen sato n ão se r evolta cont r a es ta melhoria de venciment os. P el o
contrári o, aceita o fac t o como j ust o e lógico na act ua lidade em que tudo vale
mais que nos te mpos passados. O que o agric ultor deplora é a escassez do pes-
soal para a s fa inas agrí colas, que duplicaram ou tri plicaram de intensida de,
ganhando em aperfei çoament o.
De verão sobretudo. seri a impossí vel t erminar as colhei t a s a t empo se não
fossem os ceifador es das Beiras - os ratinhos, que afluem aos milhares, e as
debulhadoras a va por. Às debulh adoras generalizam-s e e faci litam-se de ano
para ano. e não obstante. em cada nova colheita mais se nota a fal ta de braços.
e consequentemente a subida do salário.
PARTICULARIDADES DE CADA OCUPAÇÃO
Guarda de herdades Entidade inconfundí vel, essen cía l me nt e típica. Cara de
po uco s amigos, emoldurada por su issa s fartas, r espei-
tosas, a quadrarem com o t od o da estettrru possante e autoritária.
Traz quase sempr e mochila às cos tas e por vezes cartucheira à cinta e cara-
bina ao ombro. Que a espingarda não a u sa const antemente, por lhe parecer
hast e espaventoso, revela dor de preocupações de de fesa, que o mundo pode
c:1assincar de receio ou cobardia. Por i sso o que é «ho me m» para mostrar o que
'Pode e vale, empunh a de preferência um nodoso pau ferrado, distint iv o elo-
quente do seu famoso poder io . V erdadeira var a de justiça, mas de justiça sumá-
ria, temida como n enhuma pelos rat oneiros elos pov oados.
O guarda de herdades t em como princi pal encargo a guar daria das sea ra s,
pastagens e montados das her dades «à sua cont u», cu mprindo-lhe coibir os
abusos e invasões de toda a ordem, tanto dos se rviçai s e ga dos de seu amo,
como do dos vizinhos e est ranhos. I n cu mbe- lhe por conseguinte: vigiar com
frequência dando voltas repeti das e t ro cada s. com int ervalos de obs er vação
atenta - à espreita - n as melhores Bvistada.s (out eiros de largos horizontes).
Repreender os ganadeiros que a busam por si ou pel os gados qu e pastoreiam.
- 65 -
ATRAVltS DOS CAMPOS
A companhar, até sair da guardaria, qualquer r ebanh o alheio que vá de passa-
gem e «de ca nada», apressando-lhe a marcha para evitar logro de pastagens,
com dem or a s ceviloaes e chupistas. Participar 80 amo as faltas dos ge nedei.ros
e de outros que lhe estejam incumbidos. Largar ou guardar terra aos reban hos
com prévia consulta e assentimento do lavrador. Não consentir que os «matei-
ros» levantem chamiça, pl orno, ou 8TreíAotas de que se careça pata o consumo
da casa, ou que representem valor considerável. Governar as mulheres da
monda, da bolota eu de outro serviço, não incumbido a encacregedo especial.
Fiscalizar as ceifas e gadanhas, sobretudo as ceifas, r epa r a n do na maneira
por que vai o corte, 8 at ada, a enrilbeiração e o aproveitamento das espigas.
Cont a r os fe ixes de feno nas gadanhas de em pr eitada, para dar conta ao lavra-
d or das carradas a pagar. Manter em t er mos de reciproca vantagem a boa vizi-
nhança estabelecida entre seu amo e os vizinhos, pelo que respeita aos limites
de tolerância n a entrada e permanência dos gados de uns nas terras dos outros.
E finalmente olhar por tudo de que o encarreguem, procedendo com circuns-
pecção, probidade e firmeza.
Poucos reunem todos os requisitos n ecessá ri os para o bom desempenho do
lugar. Mas aquele que revela os mais essenciais já goza da estima dos amos.
I sto de guar das de h er da des é ocupação em que se observam feitios diferen -
tes, posto que em todos predomina a nota de valentia e sisudez. Alguns pecam
por brigões e autoritários em excesso, u lt ra pa ssan do os deveres da prudência
com f utilidades que chegam a degener ar em confli tos graves. Mas a par des t es,
en contram-s e ig u almente m u i t os outros d e cri tério oposto, bem orientados,
corajosos e sensatos. S em alardearem pi mponices d e estrondo, mas colocan do- se
no seu l ugar e a sério, r espeitam- nos mais que os bosóM.as petulantes e comi"
ch osos. E ainda s e vê outro género, contraste dos dois referidos. mas não menos
curioso. P er t en cem-I b. e aqueles em que os actos desmentem as palavras. P ânde-
ga s, qu e «não vê em l obos pequenos», que só falam em f erir e esp ancar, mas que
fogem às ocasiões como o diabo da cr uz. S e por acaso, e contra s ua vontade, s e
lhes depa r a ensejo para demonstrarem o que a paren t am, esquecem logo a s bra-
va tas e eí- Ios mansos como borregos. E m geral ta m bém olvidam os deveres com
i gual f acilidade. D o que resulta não criarem raiz es na gu e rdar ie. M a l se den un-
ciam, os amos põem-nos ao fresco para qu e procurem outra vida.
Que a oc upação é b astante espinhosa e a mais arriscada das do ca mpo n ão
resta dúvi da . T odavi a n enhu ma h á tão a petitos a e invejada. Cubi ça que se
compreende, d ecif r ando o enigma.
O gu ar da de herdades, a p esar dos perigos e ódios que o rodeiam e das r es-
ponsabilidades constant es que sobre si pesa m, goza a o mesmo t empo de certa
importância qu e o envai dece. Livr e do rigor dos traba l h os b raçais, em que,
geral men t e. se empr ega va an t es, p assa a viver de «cor po d ireito. e a a u ferir
ganâncias de alto va l or, como n enhum outro criado. O que j ustifi ca o afã com
que o emprego é disputado mal s e sus pei ta a vacatura.
O l avrador de que se presume carecer d e gu ar da novo, vê-se a ssediado por
- 66-
A TRAVt.S DOS CA M P O S
toda a casta de empen hos e oferecimentos, a p onto de se sentir per plexo e ató-
nito com a preferência. Por nm es colhe ou acei ta um, sabendo de antemã o que
os preteridos ficam despei tados e quem sabe se i ni migo s seus. P el o menos vin-
gar·se·ão, motejando da escolha e do escolhido em coro com os que po r h ábito
e sistema se r egalam em r i dicularizar os guar da s na ausência, sej am eles quem
fOI. Chamam. l hes impos tores, brut os, p regui çosos, et c. E coment am-nos a ssi m:
-cParece·lhes que t êm o rei n a bar r iga l. .. » «Barofões impostores ... já se n ão
lembram do que eram. . . » «Bom ofí cio mas neja para mim . . . t enho bom corpo
para rrabalhar . .. » Estamos no C8S0 da r aposa às uvas ...
................... .. .. ...... ... . . .. .. ... ... ........ ..... ...... ..............
A soldada do guarda consiste n uns vi n t e a trint a e seis mil reis po r ano,
30 a 40 alqueires de t rigo ou 50 de centei o, os pastos de uma égua e os de uma
burra, a resid ência grat ui ta dele e da família num monte pequeno dos do
cómodo e o usufruto de qualquer qu'in chcso t apadejo ou curral6rio contíguo
para a cultura de umas batatas, favas, couves , et c.
Mas o essencial é a fo rra da égua, que todos solicitam como princi pal obj ec-
tivo das suas aspirações. Uma égua nas mãos de um guar da é um t esour o incal-
culável. Tratada a ca pr icho n as melh or es pastagens e at é nos solos de bol ota,
esse égua, que pouco ou n ada trabalha, 'Pare quase t odos os anos uma excelente
cria muar, que rende 80S 14 meses n oventa a cento e quarenta mil r eis.
As muares de a no mais desenvolvidas que a parecem na afamada f eir a de
maio de Vila Viçosa, são por certo as dos guardas. Aí as vendem el es crdínâ-
riamente, se antes l has n ão foram comprar à pró pria gaardarfu,
Na feira citada torna-se curi oso ouvi-los aos gr upos em aporfias e con-
frontos sobre os molos de cada um.
A burra serve-lhes para cómodo pe ssoal e rendimento das crias. É pequeno,
comparado com o da égua, mas ainda vale uns vinte a trinta mil reis.
Portanto, verba em dinheiro, crias e etc., etc., somam uma continha bem
boa, própria a aguçar o apetite dos est ranh os e fazer as delícias dos que a
ganham. O que tem sorte com a égua, sai-se em média por cento e cinquenta
mil reis, e anos há que topa a duzentos e arriba. t questão de cria. Se fa lha,
se se aleija ou morre r eduz-se a metade ou menos. Questão de sorte também.
Uma aventura, como eles dizem. E acr esce ntam: - «A fort una de u m pobre
está no traseiro de uma égua velha».
Os guardas arriscam a vida no exacto cumpriment o dos seus deveres, mas
sendo felizes, prudentes e cautelosos, vencem todos os atritos, e jun tam sufi-
ciente pecúlio para vel hice descansada. Con h ecem- se muitos que compram
pequenas propriedades.
Há porém que distinguir entre Aqueles que gan ham o que já disse e que são
evidentemente os guardas típicos, e outros mais humildes de guarda r ias peque-
nas ou mal pagas, que só vencem quatro ou cinco mil reis mensa is. G uar das
de emanta às costas. no dizer picaresco do povinho. Como se dissessem r -r-
- 67-
ATRAvts DOS CAMPOS
«Homens sem eira nem beira, que só possuem pau e manta». Uns valdevinos,
que nada têm a perder.
No concelho de Elvas todos os guardas de herdades possuem alvará de
guarda rural passado pela municipalidade, o que lhes dá o direito de acoima-
rem por transgressão de posturas. Por esse facto gozam o privilégio do porte
de armas gratuito.
As lavouras muito grandes, ou de herdades dispersas. sustentam dois e
três guardas.
Abegão (d Encarregado principal de t odos os serviços desempenhados pela
ganharia de que é mandante e cabeça. «Ch avão da lavoura» no
dizer de elgwns campóni os.
P orque o lugar é de alta responsabilidade, o lavrador preenche-o com pes-
soa capaz já exercitada no ofício, ou mete um novo, desembaraçado e fiel, que
tenha «sentido» e revele ebom risco». A experimentar, entende-se: se dá, con-
ti nua, e faz dele «um homem»; se não, despede-o no fim do ano.
O abegão só recebe ordens do amo. que o considera seu imediato represen-
tante nas fainas respectivas.
Trabalha conjuntamente com os camaradas, come com eles. mas pernoita
àparte em casa. própria, como referi na descrição dos montes.
No trabalhe braçal o seu lugar é à direita da gente que dirige. mas às vezes
coloca-se no meio para dar saida ao serviço com «o seu corpo» e o dos outros.
Na lavoura toma a frente da piscole dianteira, escolhendo para si as duas
melhores juntas de bois.
Em geral não alardeia exageros de superioridade afrontasa sobre 08 subor-
dinados. Deles saiu e com eles labuta, dando-se ao respeit o mas sem grandes
reserves e até com familiaridade.
N estas circunstâncias compete-lhe:
Governar e dirigir a lavoura prõpriamente dita. as caves, acarretas, eiras,
desmoitas, etc. Dar as horas de e gerra, as da comida e as da solta. Pôr a mesa,
partir a bois, distribuir as merendas e bradar ao almoço e ceia no outono e no
inverno.
Intervir na a comodação. abonos e pagas do pessoal, pela. forma que enun-
ciei nas soldadas e salários. e belh assim no reparo e assento dos dias perdidos.
Estimular O brio dos ganhões. animando-os no trabalho, captando-lhe as
simpatias, dando-lhe bons exemplos. e sendo preciso, arrumando-lhe ferroadas
a t empo. conforme as círcunstâncias. Numa palavra, «saber lidar com 8 ismílie,
l evando-a com seita».
Cumpr e-lhe mais :
Com a ajuda do carpinteiro ou só por si, proceder à armação ou enganche
das enteichaduras, nas vésperas de se principiar a lavoura «às áAuas novas».
h) b C..... po MaJor clllllll-.t-lh••ptindor. d'll ilo·..., o 11 011111 1111 . lId l 0 ' 0 cupfAtd r o 1111 cu:ro• •
- 68-
ATRAVÉS DOS CAMPO S
Àmanhar as mesmas enteichaduras n o local da lavoura, su bst i t ui ndo as
peças partidas ou gasta s, por out r as n ovas ou concertadas, que de prop ósito há
ele. reserva. Talhar speiros, corneiras e brochas. do s cour os destinados à reno-
vação da speiraAem, distribuindo a neve correeme pela gan haria. afim de cada
qual amaciar (surrar ) as peças que lhe t ocam.
Encozer os Icrcados de madeira. 1080 q u e se t iram da lenha. Preparar os
manAuais e encabar as enxadas. en xadões e machados. lembrando a o amo a
aquisição destes e outros utensílios. T omaI à sua con t a a guar da e conservação
da apeiragem e ferramentas. Acudir com a ganharia e com prontidão. seja a
que hora s for, a to do o in cên dio que se manifeste nas h erdades do cómodo ou
nas dos vizinhos, ainda que est ej am de mal com seu amo.
Prestar igualmente auxílio e socorro aos criados da casa que lho reclamem
por motivo de doença. desastre ou morte de pessoas. reses e cavalgaduras.
Prover quanto possa às ocor rên ci as inespet'adas. mandando participar a o lavra-
dor, se o caso tiver importância. E, en6 m delegar n o sora, bcieiro ou ganhão de
ano, qua isquer at ribuições a que n ão possa atender e que el es saibam desem-
penhar. Como cria do dos que mais se evidenciam, os abegôes são discutidos
por todo o pessoal. consoante as simpatias ou antipatias de cada um.
Eis uma amostra dessas apreciações:
Do que r eputam desembaraçado e inteligente: - «P ar a gover n ar piscoles e
entender de terras. t em ol ho e sentido.. . Nenhum lh es dá melhor saida...
sabe-lhe das voltas e das quedas como o pri meiro . . . E apurado ... neia como
alguns de mãos gr an des que atrapalham, sem preceito ... E para car r egar I. ..
É cada carrada como slmís.ras! . . . direitas como fusos I. . . P oi s n u ma eira é
que se Lhe vê o risco . .. Ele e quaisquer dois gatos voltam um calca doiro n um
assopro 1. . . E então com a pá nas unhas. fuma-lhe a venta a passar um moi-
tão!. .. Liberal at é ali II 1. . . •
Do sabedor. mas de fraco expediente : - cS ab e mas muito atadinho ...
Um coquinhas que se enfeza por dá cá aquela palha N ão tem fi gados para
acharias grandes . .. P oi s par a mandar. nunca se entende ... tão depressa
manda como desmanda . .. »
Do incom pet ent e: - «E l e sa be l á ser go vern o I». . . E. t al h s x ser vi ços. como
pachsste Sempr e contra a direitura. .. a nunca encarrilhar. P ara tudo se
quer sorte N unca passou de ga nh ã o rel es e agora a man dar f ami l ha/. ..
Valeu- lhe o paleio .. . e a s imposturices . . . M as d eixem-no, qu e h á-de perder a
aceitação I... »
A contece que semel han t es j uizos sofre m contest ação dos que pensam O
contrário, disputas a caloradas. Mas lá diz o rifão: Cada cabeça.
cada sentença. . .
.. .. ..
Vale de 150 a 170$000 r eis a soldada do ahegão de uma lavoura grande.
E em geral, baseia-se no seguinte: cinco a doze moedas, ou sejam 24 a .57$600
- 69
A TRAV :t S DOS CAMPOS
r eis , duas s ear as, uma de 6 a 8 alqueires de trigo ou centeio em semeadura e
outra de dois a quat ro alqueires d e trigo ribeiro ou legumes ; «pão» na eira
entre 40 a 70 alqueires de trigo ou centeio ; duas ou três car r a das de l enha;
uma ou «m ei a» cabeça n a vara; pastos para u ma. égua , vaca ou burra. Em
alguns con cel h os vizinhos do de E l vas. também vigor a a f orr a de pastos para
uma junta de novilhos.
Em cada l a voura divergem as adições da soldada, devendo n otar-se que
por maior que sej a, n enh uma abr ange t odos os porverrtos acima m encionados.
O uso geral resume-se em dinheiro, seara, «pão na eira» e le nha. T udo mais
constitui excepção e r esto de costumes antigos caí dos em des uso.
S er á escusado r epetir qu e qua n t o mai or é o ganho em r eis, menos impor-
tant es são as forras e sea ras, assi m como s e as achegas são avultadas, reduz- se
muito a ve rba a d.in heiro. Regra invariável, sa bida, tanto para a soldada de
abegão, como nas d e outros serviçais.
Sota É o substituto do ebegêo e coadj uva-o em tudo que possa e saiba. P or
- - sua vez o ebegão t ambém o deve orientar nos serviços que desconheça.
N os trabalhos coloca-se n a ponta esquerda, e n a lavou ra governa uma das
píscolas à fren t e da po n t a Buiada.
N ã o have n do semeado r p rópri o, é el e quem semei a e embelg8, ou s emeia
somente. E t ambém se incumbe de gover n a r o corte das lenhas se para isso não
h á encar regado extraordi nári o.
D e ve rão, se as eiras são duas, ele encarrega-se de uma, É afinal uma
espécie de v íce-abegão com as atribuições e responsabilidades iner entes.
A soldada do sere pode-se computar em 80 a 85$000 r ei s, p r ovenien tes da
verba em dinheiro e do «pão na eira».
Em g er a l o cargo de s ota serve de degrau para ebegão, post o que o n ão s ej a
para os apoucados qu e nunca trepam arriba. Àetuel e que apanha a chefatura na
própria casa onde serve, por ef eito de o amo despedir o abegâo a n t ig o, con t a
logo com um inimigo no s eu ex- superior. O qua l, despeitado, diz dele o segui n t e :
«Maroto. . . onzen ei r o . . . não descansou enquanto me n ão arreben t ou / ...
A lguém o errebenter« a el e J. • •lO> Desabafos do estilo, tanto no caso present e
como em outros semelhantes. Os criados de pen são despedidos pelos amos
atribuem s empre o despedimento a intrigas dos companheiros de gr a d uação.
A rrebentam-nos, dizem.
Boiei r o s Cos tuma m s er dois : maioral e a juda . O cu pam-s e na guar da r ia,
apascen t ação e t ra ta mento dos boi s e n ovil h os de trabalho que com-
põem a boiada, e a inda n os serviços d a ganharia, como adiante expli car ei.
O maioral d ísefngue-s e do a j uda por se r o princi pal res ponsável na guar -
daria dos bois e por gan har um pouco m ais. F ora isto os direitos e de veres dos
doi s são análogos. A ambos e por s ua alt ura, conf orme a ocasião, compete-l hes
dirigir a lavou r a n a ausência do abegão e do so t a.
- 70 -
ATRAV J'. S DO S CAMPOS
Apesar de ganadei ros, 8S suas referências t êm melhor oportunidade entre
os serviçai s da lavoura, a que de r est o pertencem também. e com quem estão
em maior e mais fr eq uen t e convívio. O facto de guar darem reses bovinas e
trabalharem braçalmente, explica-se da seguinte forma:
à apae centa çâo da boiada r equer apenas um homem durante o dia. M as
como em algumas horas da noite n09 meses de out ubr o a março são indispen-
sáveis doi s. e como a boiada trabalha geralmente de revezo, quer dizer a metade
de manhã e a metade de tarde. sendo por isso necessário um homem para cada
revezo, impõe-se a existência de dois boieiros em cada lavoura. Enquanto um
trabalha, o outro guarda o gado.
O ajuda lavra com o revezo da manhã; o maioral com o da tarde. Se a
lavoura é de sinAelo (o mesmo gado em todo o dia), costume que geralmente se
usa apenas pela sementeira do outono, e não em toda parte - ou lavram 09
dois boieiros todo o dia, sendo as reses tratadas à noite por outro h omem, ou
eles pr6prios as tratam, revezando-se, com o auxílio de um rapaz - o palhei-
reiro.
Quando a lavoura está parada (interrompida) e o pessoal se empr ega em
outros servi ços, anda-lhe sempre agregado um boieiro que trabalha como qual -
quer ganhâo. Àssim na semana em que o maioral vai para a ganh aria o ajuda
guarda os bois, para de pois se inverterem os papeis, indo O ajuda para a malta
e o maioral para O gado.
Aos boieiros compete: f ornecer e pôr os chocalhos ao gado em harmonia
com os usos; fazer o ca cha ço aos bois com tesouras suas ou emprestadas; dis-
tribuir as j untas pel os ganhões, depois do abegão, sota e eles guar dador es
escolherem para si próprios t endo o abegão a pr i ma zi a. O aj uda reparte o
revezo da manh ã e o mai oral o da tarde. pelo que é a o maioral que compete
distribuir os novilhos de amansia pelos ganhõe.s que j ulga bo n s para o ensino
e adomação. Ele também amansa um ou doi s em cada semen t ei r a, escolhendo-os
entre todos.
Maior al e ajuda, n a lavoura e acarretas, cumpre-lhes fiscalizar O bo m ou
mau trato dos ganhões para com a s j un tas, repreendendo abusos, e indicando
ao amo e abeg âo a conveniência de despedir os que sejam ásperos o u maldosos
e conservar os maci os e ge it osos. Cumpre-l hes enfim concorrerem qua nto pcs-
sem para o bom pa ss adi o dos bois, erguendo- os a mi udo na pastagem e pr eser-
vando-os de águas estagnadas.
A profissão de boieiro é a mais penosa das que se exercem nas h erdades do
Al ent ejo. Mõr ment e n o outono e inver no, em que sofrem inclemências e
incómodos tais que merecem d esenvol vi da exposição.
E m primeiro l ugar não dispõem de choças nem malhadas que os preservem
dos temporais I E não as têm por que pr ecisam andar por diversos sítios grande
parte da noite, trait eando os b oi s, ora na pastegem do i nver nadoiro ou da
coitada, ora chegando-os à palha, ou a o fe no, à rama, ao alcácer . etc. Cada
coisa, ou parte delas, a hora di ferent e e às vezes em l ocai s algo distan ciados ;
-71 -
A T R A v t s DOS CAMPO S
n un s, com o gado pr eso por horas, n outros. à so lta, con for me a época, o
costume, os r ecursos pascígoros, et c.
P or conseguinte tendo de es tar «de veJa» a maior parte da noi te , enrou-
pam-se quanto podem. À o vest uário comum ndi ccionam o clássico pelico, a
pelica, os salões l anzudos. o t apa-cu e ai nda o casacão ou capot e aguedeirc de
burel. Assim ensnmerr edos, munidos do guar da-chuva ez u] (inovação recent e)
e do indispensável cacheiro (cajado), passam a noite de ê lerte, ex cepto nos
i ntervalos de descanso. O que medei a desde a socegB, à ent rada da noit e, até
às 10 horas. e o da madr ug ada. N o tempo resta nte, m a l dor mi t a m cabeceando,
se tomam a s ério a t reitesçgo dos animais.
N a s horas d e des can so, dor mem em qua lqu er abrigada de ocasião, on de
acendem Iume. À í, ao rel ento. envoltos n a copa, esti cam-se, de forma que os
pés, resguardados pelas botas ou sapatos de at anado, recebam o cal or da
fogueira., único meio de atenuarem o ri gor do frio. Mas mesmo ent ão.. por vezes,
inte rrompem o repou so para cuidarem do gado.
Às 10 h oras levantam-no para repastar livremente n o pr óp rio inverna-
doiro. ou para o ch egarem à palha, ao f en o, rama, etc.
D ecor rido o tempo do repast o, costuma-se apa r tar o r evezo da manhã
.ao da te rde, para assi m em separado descansarem de n ovo. É a hora da
madorna.
E nquanto o gado nmedor no, o ajuda pega n o competente tarro de cortiça,
põe o cacheiro a o om bro e vai ao monte b uscar a assorda para ele e o maiora l
almoçarem no mesmo t arro ali arrimados a os bois.
N o a ct o da apartação, sucede em n oites escuras tempes tuosas, f a l t a r um ou
outro boi que se es capou ac ossado pelo temporal ou que por 8u loso f ugiu para
mel hor pastagem ou pa ra algu ma f olh a.
S e o ext r a vi ado per t en ce ao r evezo da manhã, pr es t es a ir t ra ba l h ar , ao
ajuda compete procurá- lo e trazê-lo imediatamente. D ada a hipótese, a missão
considera-se espi n h osa, atenta a es curidão da n oi te. Mas como se i mpõe, o
boieiro p arte a desem pe nhá- la, esperendo auxíl io no chocalho do fu git ivo, cu jo
toque conhece de l onge como os dos outros d as demais r eses. Sem embargo
pragueja-se e maldiz a ofici n a e a h ora em que a ege rrou.
Pross eguindo nas sagas do bodio, aqui se ata s ca, além caí, adiante tropeça,
a col á esbarra, mas l á segu e de trouxo mOChO, caminhando e es cut a n d o, es cutando
sempre .. . O uve enfi m u m chocalho . . . Escut a . .. é o del e, o do slmodiçoedo
que o fez andar às ar an hes, aos baquinázios, al t as h ora s da noite, escu r a como
bre u I. .. - «A h boi de um fil ho de curta / . . . j á mos pagas / . .. » - exclama o
encolerizado homem, apressando o pa ss o, até l obrigar a r ezo
O boi, ouvindo a quele vo z tão sua con h eci da , levanta a cabeça, e, instinti-
vamente, pri ncipia a caminhar em direcção às camos dos companheiros. Mas o
guardado r não lha perdoa. Como lembrete dirige-lhe novas e mais re tumbantes
ameaças po r en t re cacheíredes certeiras que alcançam o fu gitivo; este, es cara-
mentado e r eceoso, abrevia a marcha, submentendo-se em absoluto.
-12 -
PESSOAL DA LAVOURA
(Escultl;Uu de Capei. c Si h·.)
ATRA VfS DO S CAMPOS
Se por ventura não a parece a tez ou r es es perdidas, o infeliz ai uda fi ca
ainda de pior humor. não tanto pel o facto em si, como p ela circunstânci a de
que o malogro dos se us passos d esa cr edi t a-o bastante. Sabe que em chegando
aos arados sem um dos bois do costume, as suas barbas fi cam envergonhadas
dian te da gan haria. Mas tem de s e aguent a r , cu mpri n do- lh e substituir o a usente
por outro qu e sobeje ou pOI um dos do re vezo da t arde.
Em ta is circunstâncias o m aioral a guar de o dia pare. em aclaran do, ir à
cata da rez esrravt ada. como igualment e faria s endo do seu r evezo. Encontran-
do-a, tem o direito de a conduzir à lavoura para se a garrar 8 0 arado e ser solto
o boi que a substitui. I sto traduz u m etnque para o camaIada e por ta n t o s ô em
casos imperiosos ou por pirre ça recorre a esse extremo. Mas se r ecorre aumenta
o vexame do ajuda que ass im fi ca exautorado. h )
... .. . .. . . . . . . .. . . . . .. .. . . . .. . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . .. . . . .. . . . . . . . . .
E nt ret ant o termina a m ed or n s , a proxi ma- se o alvorecer. t a hor a do aj uda
ma rchar com o revezo para os arados, onde têm de chegar antes d e l u zi r a
manhã. Cedo sempre, chova ou não. Por cc n sequên cin ei - l o a postos, de cacheiro
em punho a reunir as reses. E pa t a as pôr em a n da men t o, solta o clássico
assobio, sinal d e pa r tida, a que os bois obedecem. S e algum se esquiva, l ogo
o cachei ro cai s obre ele. l embrando-lhe o dever. E partem t odos, h omens e
animais.
Os pa cífi cos ruminantes caminham devagar, pausadamente, ao som dos
chocalhos. Às menges, os csmponil hos, a s s em-serras e os esquilões, toda a
loiça en6m, compõem uma orquestra at raente, que o silêncio da n oi t e faz ecoar
ao longe pel os o ut ei ros e encostas. É a alvorada do campo, h i no do trabalho
que por muitos mi nutos emudece o piar a gour ento das a ves n oturnas.
.......... . . . .. . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . .. . . _ ' .
Com o r ef erido, deixo r ela t ados os cos tumes dos boieiros n a época da
sement eira outonal. A lguns r epres enta m d ev eres penosos que se agr a va m fre-
quentement e com os ri gores das chuvas ou do fri o intenso, p róprio das n oites
grandes, de geadas de arrepiar .
De dezembr o em dian t e, a chegada dos bois à la vou r a é menos cedo ; mas
os resta nt es deveres s ubsist em n a essênci a com es cassas va r iantes at é à pr ima vera.
N as l a vouras de si ngelo ou d e r evezo em que os bois se t ratam à mão,
recolhi dos em ca banas, a vi da de boi eiro é i n comparavelmente menos incomo-
dati va. Mas esse cost ume é t ã o fora do com u m n este canto do A l ent ej o, que
poucos ganadeir os l h e gozam as vantagens. C omo se sabe. preval ece a apascen -
tação de r egime manadi o, que d emanda sacrifí ci os e r esist ência singul ar.
Com efeito nenhuma ocupa çã o há n o campo t ão espinhosa e ingrata.
Todos se recusaria m a desempenhá -la s e a via dolorosa das n oites aspérrimas,
- 73 -
A T R A V :e S DO S CAMPOS
em cuidados incessantes, s e prolongasse pelo ano inteiro. Felizmente não se
prolonga além de março.
A primavera e o estio, ga r antem a os rústicos boi eiros algumas se manas de
«boa vida », em que s e desf orram do passado num repouso tranquilo. D e dia
principalmente, dormem horas e h oras, de han'íga para o ar, à sombra agra da·
bilíssima de azinheiras ra ma lhudas. Aparte o período dos aeaeretos, t êm então
uma temporada de descanso, l egít ima i ndemnização de passa dos sofrimentos.
M er ecem-na bem, coitados.
.. .. .. ... . . .. . . . . . . .. .. . .. . . . . . . ... . . . .. . . . .. ... .. .. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . ...
Soldadas: s endo a dinheiro r egulam en t r e 84 e 86$400 reis por ano e
homem, ou seja a moeda e meia por mês. Outros ve n cem seis ou oit o moedas
(28$800 a 38$400 reis) e 60 a lqueires de trigo ou centeio. Tendo na s ea r a e pão
na eira (costume quase banido) gan h am 14$400 reis, sear as de se i s a se t e
alqueires de semeadura e 40 alqueires d e trigo ou um moi a de cent eio. Nout ros
casos f al t a a s eara e o pã o na eira, mas cada boieiro ve n ce o pegwlhe.l de uma
j u nta de novi lhos. C ada um compra doi s bezerros de a no, que vende a os d oi s
a n os, lucrando o. diferença de preço.
Oanhões Sã o os moços da lavoura propri am ente dita e d e outros ser viços,
como cavas, a ca rretas, eiras. etc. Acomodam-se e ganham pela.
for ma e p r eços que referi nas Soldadas e sal8.rios.
A colectividade que os agrupa d enomina -se 8anharia. Ou malta.
Saidos de a judas d e en t r egues de ga do, ou de paquetes, por ve zes fig u ra m
na ga n haria r apazes adoles centes de 14 a 16 a nos, se o serviço é d e molde o. t ai s
principi antes. M as esses g a l u c b o ~ só se consideram gan hões. depois de lavrarem
«de efectivo» toda a época de umo. s ementei ra outonal. O s que alEm passa m
por se melhan te prova dizem mui t o l ison geadcs : - «Este a no já fiz u ma s emen-
teira JI ... » Como se dissessem : - «Agor a sim que sou ge nte I . . . r ecebi a alter-
nativa de Aanhão!. . . »
E n tre os ga n h õ es de uma casa pode h aver duas ca t egorias: os «de pensão»
e os rasos.
D e pensiío é porventura u m ou outro an ual que se acomoda com a obri ga-
ção d e em certo tempo d estacar par a talou qual ser viço extraordinário, ou para
fazer de encarregado interino por impedimento ou abalada de qua lqu er
«governo» efectivo.
O s rasos, ou de m ãozei ra, (I) temporeiros e d e dias, com põem a quase t ota-
lidade e, em r egra, sempre se ocupa m DOS t raba l hos ordinários , so b as ordens e
vigilância do abegão e do sota. Sã o a massa a n ón i ma das centenas de indiví-
duos que se s ustentam das herdades. D elas saem t odos que por mérito ou favor
ascend em a «gover nos» ou cabeças, e nela rastejam sempre muitos outros mais
- 7fj, -
ATRAV t. S D O S CAMPOS
humildes e infeli zes qu e nunca l ogram mel hor posto. O gan hão raso é simples-
mente máquina de trabalho, para qu e 56 se exi ge robustez e um bo cado de
compreensão. Ganha pouco em relação 8 0 S que o mandam, mas n ão se sente
assoberbado por i ncumbências difí ceis. Trabalha se o mandarem e fiscalizar em :
se o deixarem, como n ão t enha brio excepcion al, mandrda à gran de e sem
escrúpulos.
De qualquer maneira em lhe dando a solt e, só pensa em si, se pensa. O seu
viver é tã o humilde e Ignaro que lhe n ão consen t e cuidados. P ar a que, se est á
cônscio de que nunca passa de gan hão, sem esper ança de subir I. " E. assim
adquire uma r udeza de independênci a e desassombro que bastante se acentua
quando o pessoal escasseia. I sto pelo menos nos de ida de adulta, na fo rça da
vida, que se julgam válidos para cum tudo». E ste eum tudo» q ue r dizer que s e
consideram aptos a botar mão de todos 09 serviços do campo, que são de UiO
e costume.
Fo ra das semen t ei r as outonais e das colheitas, em que tudo a code a
ocupar-se n as gan h ar i as, no r estante do ano a melhoria do pessoal deixa as
lavouras para servir de jorna. nas lenhas e cavas.
Maioral de mul a s Encarregado principal das parel has de muares que traba-
lham ao ca r r o, ar a do e grade. Como empresa de r es pon-
sabilidade i mportan te, escolhe-se par a ele homem prático de best as, cavezado a
arrearas», com tacto para dar saida aos serviços e tino para mandar. Tomando
à sua conta os outros carreiras, destina-lhes o trabalho, fiscalizando-os no tra-
tamento do gado e n o mais que est eja sob as suas vi stas.
P ela sua parte lida i gualmente com uma parelha - 8 melhor, na maioria
dos casos - colocando-se no lugar da frent e.
Compet e-lhe mais: d e a cordo com o l avra dor , distribuir a s parelhas pelos
camaradas, de modo que as unhas, geitc e a.rtúcia de cada um, corres pondem às
aptidões, instint os e a preço dos ani mais que se lhes confiam. Alterar o empar-
ceirament o das parelhas q uando as circunst ânci as aconsel h em e com prévi a
consul ta e apr ovação do amo. S er madrugador na «hora de agar r a» e des pa-
chado nas caminh adas e na lavoura .
R eparar no n ú mero e i mpor t ância dos cerreguio s dos géneros que rrans-
port a por si ou pelos seus imedi at os, para dar conta exa cta ao amo.
Cuidar do arraçoamento e li mpeza do gado, e bem assim de o levar e man-
dar ir ao ferrador por ocasião das folgas e quando seja indispensável. Fazer o
cachaço às parelhas (tosquiar-lhes o pelo do pescoço), e lembrar ao lavrador a
conveni ên cia da tosquia durante os respectivas épocas ( pr ima ver a e o utono).
Participar-lh e igualmente qualquer doença, manha ou aleijão que apareça em
uma ou outra muar. Amansar as serrej.ras, educando-as com paciência, se não
se incumbe a amansia a outro. Z elar pelo asseio da est rebaria e pela conserva-
ção dos carros, ca.ngas e mais utensílios - cabrestos, burnis, mantas, apeircs,
barr igue iras, arreatas, etc. , etc.
- 75 -
A T RA v t s DOS CAMPOS
o maioral das mulas ga nh a anualmente umas oito a dez moedas, (38$ 400
a 48$000 r eis), um moio e oitenta a lquei r es de t ri go, sear a de t rês a q U 8b:O
al quei res ele legumes e uma ou duas carra das de lenha, s en ão toda a que pre-
cisa para seu consumo. G a nh ando dinheiro somente. r egul a aí por 80 a 90$000
reis ou mais se a pensão é grande, qu ero dizer se t em muitas parelhas e car-
reiras a diri gir.
Entre o maio ra l das mul as e o abegão t orna-se frequente certa rivali dade,
result ante de am bos serem «gover n os » e n ã o mandar um n o outro. O abegão
apregoa que as pa r el has comem muito e trabalham pouco ; o maioral farta-se
de di ze r, que as mulas andam s empr e Dum sa r il h o e são a r odilha de todos . . .
Ajuda do mai o r a l das mulas É o s ubstit uto do maioral para todos os efei -
tos. Como ele. t ra balha i gual men t e com uma
parelha boa, cum peindo-Ib.e coadj uva r o s eu chefe e camarada em t udo que lhe
est eja a o alcance. G an ha uns 72 a 78$000 reis anu a is, ou menos em dinheiro e
coisa de 30 a 40 a lquei res de t rigo.
G era l ment e, o aj uda costuma ea n dar» com a pa rel ha que pucha a o carro,
de cómodo pessoal para o l a vra do r e sua família. E sta circust ânci a, se por u m
lado lhe cer ceia um pouco as fol S8s d os domingos e o obriga a t rajar mel h or
Das ocasiões de sai da s com os amos, po r outro, p roporci ona- Ib.e muit os mais
di as de buen e, desf orrando-se à gra n de, com [a rtas comezainas in eren t es à
ocupação. Sai r com o lavr ador e s obr et udo com a lavradora, a vi si t ar parentes,
ou a r om aria s e compras n a ci da de, é caso pa ra bater pal mas. E tanto assim que
o ca rreiro de parelha escolhida para esses actos é sempre invej a do pe los compa-
nheiros. S e por ven tura a missão s e confi a a outro que não seja o ajuda ou o
mai oral, mais se a grava o despeito. Sa bem p erfeitamente o que aquilo deixa
para quem go sta de trabalhar pou co e comer bem.
Uma p echincha , que o arvorado em cochei r o procura conservar, efaz en do
a s vontades» a os amos. Que é como quem diz ser «bem mandado», dili gente
e sobret udo e fe içoar -se a os m en inos da casa , entretendo-os com l ér i a s e festas .
Com tais r eq uisit os não perde a papinha de conduzir os amos e vários
adverrtici os, de qu e recebe boas es pô rr ule a. Como o não hão-de invejar os com-
p anheiros I Esta ac umulação de ca rreiro de trabalho asrícola e condutor de ca rro
para cómodo pessoal , só se usa nas l a voura s pequenas e nas medíe.nes, N a s
g randes, há ca rro e criado própri o para transporte dos l a vredores e familia res.
O ajuda gan h a uns s eten t a e dois a se tenta e oito mil r eis anuai s, ou me-
n os em dinheiro e coi sa d e 20 e 40 a lq ueir es de t rigo.
Ca r reiros (1) E mbor a es t a denominação eeie t omb em comum ás duas entidades
ult imamente referidas, emprega-se con t u do de preferência para
indicar os imedi at os a aqueles, 05 carreiras rasos, que andam e tra balham com
(1) M.. J . I ~ ; , o ' , 11... chunm Doa cODulhoa do Cruo, Alter do Chio. O",lf OI.
- 76 -
ATRA vtS D OS C A M P O S
parelhas sob a vigilância e direcção dos encarregados competent es. A uns
e outros também se lhes chama al mocr eves .
Cada simples car re iro gan ha aproximadamente uns 58 a 65$000 réis anuais.
Todos, i n clui ndo maiora l e ajude, untam os rodados do s res pectivos ca r ros,
e todos t ratam e li mpa m a parelha com que trabalham. Na pri ma ver a, t empo
em que as bes tas se sustentam a alcác er ou verde, d urante a n oit e, es se t ra t a-
ment o faz- se por escala entre t odos os carrei ros, fican do u m de plantão em
cada noite. E de manhã cedo. «a nt es de agar r ar em», vão ceifar o ve rde de que
precisam.
N o mês de maio, se as parelhas pa ssa m a s n oit es «8 prado», dormindo
e comendo ao ar livre no ca mpo, como por part es s e u sa a gora . os carreiros
pernoitam próximos, ficando um de pl a ntão a guar dá- las. Se isso se não
incumbe a gus r da especial, o que é de maior con ven iên cia .
O s ca rreiros e parelhas fol gam nos mesmos dias que os gan h õe s, sal vo
quando surgem afazeres u r gent es. inadiáveis, imprevistos ou extraordinários.
P ar a semelhantes casos não há domingos nem dias santos . Em com pensa ção
passam o mais do tempo. repimpados na taleira dos carros «com os pés no ar.
no dizer dos seus émulos gan h ôes, que assim os comentam vendo- os de t al
modo. E se vão de p é. muito direi t os e fir mes, sobre os car ros vaeios, em doidas
corr imeçss, como usam {requentemente, os out ros qu e mourejam com o seu
corpo, mais lhes gabam o ofíci o. Os ga bados vibram. en t ã o arreatadas t ezas
sobre as parelhas q ue dirigem e a correr ia torna-se vert iginos a. para meis l hes
realçar as peos ápíes equilibristas. P i mponices imprudentes, às vezes funestas•
• •
Car pi nteiro s O cupam-se na construção e concert o de ca r ros, arados e demais
alfai ais e gti col as de madeira.
Além dos afazer es profissíone ís encarregam- se de outros estranhos de
pequena demora, como por exemplo a medição do cer ea l para o moleiro reduzir
a farinha, e o seu p eso &0 chegar do moinho. ( 1)
O ut r or a os car pi ntei ros comiam à mesa do lav:rador. H oj e comem à parte,
alimentação igual à dos familiares do monte, melhor que a dos se r vi çai s do
campo.
N o verão al ém do almoço, jantar e ceia, merendam às quat ro ou cinco
horas da t ar de.
Nuns montes pernoitam de portas adentro em l eit o confortável, ou tros
dormem n a cabana, em t ar i mba provida de colchão de l ã.
A s gr andes lavouras ocu pam doi s ca rpi nteiros em todo o ano, as medianas,
remedeiam-se com um efect ivo. e as pequen as servem-se também com um que
trabalha às semanas, alter nada mente, em duas ou mais casas.
-77-
ATRAvt s DOS CAMPOS
N a época do ielqueio (d esbaste a machado das madeiras a emp r ega r ) é Ire-
quente a a quisiçã o ext raor di nári a de ofici al a dias.
O s carpintei r os a nuai s vencem a soldada a 100$000 reis aproximadamen t e,
e comi ds , é cl aro. Just os « 8 s eco» como só por excepção sucede, gan h am uns
180$000 r eis po r ano ou mai s.
P or um ou outro sistema, se t a mbém vencem trigo na ei ra e forra de égua
ou de burra, adições de suma vantagem que 56 o bt êm os mestres de co n fia n ça,
de aptidões n otórias, - a soldada a di nheiro, diminui basta nte, mas menos do
equivalente à tmpor tâ nci a dos porvenrcs. E tanto que se usa calcular o valor
d os pastos de uma égua entre 18 a 20$000 rei s. e os de uma b urra a í por 6 ou
8$000 rei s, qua n do está a ver ig u ad o valerem ambos mui t o m a is.
O s que trabalham de jor nal, sem o u co m permanênci a fixa, vencem 300
a 340 r eis e co mi da , ou 500 a 6So reis secos, conforme a quadra d o ano e as
neces sidades.
O s carpinteiros gozam de certa consideraçã o, j á p or serem menos rudes
q ue os homens do campo e vestirem com out r o ass ei o, j á por s e darem ares de
a l gu é m, su per io r à ralé miuda. C om o eofi ci e is de ofício», não r eput a m favor
o trat ament o de «mestres» que t odos lhe dã o. M estres carpinteiros. mas de
obra g rossa.., «de machado e enxó» para se não confundirem com os de «obr a
:6.na». No concelho de C a mpo M ai or nem carpinteiros de machado lhe chama m .
C onhecem-nos por abegões, dando a o verdadeiro abegão, o n ome de epeiredor.
Coz inheiro Às suas obri ga çõ es d ivergem de u mas pa r a o utras lavou ras. Se o
- l a vr a dor e sua famíli a reside no monte o cozinheiro acumul a as
f u n ções de ama ssador , sempre que o m ovimento da cozinha e amassilho não exi-
jam doi s homens, um para cada mister. S e porém o amo reside fora da herdade,
a a cçã o do criado, com ou sem auxílio de amassador, é sensivelmente maior e
mais honrosa . Por que nesta hipótese não se r es tringe a fazer e ssordas e olhas
mas também é o encarregado do monte, fiel e di spens ei r o d e t u do q u e nele se
en cont ra de por tas a d entro, e a i n da no exteri or. co mo galin has, bestas d e carga,
cevões, et c.
à ssim, a lém da cozinha e asseio das vasilhas, a via mant imentos, recebe a
f a rinha d o molei ro, entrega rações, cuida das ga lin h a s, dos porcos d o chiqueiro,
da. besta. de albarda. da condução do l eit e d as ca bras e do Febrfco do quei j o
'respectivo. S e pode. vai nas s egun das- feiras aos mercados de Elvas, a vender
ovos, galinhas, queijos, et c.
N est es s erviços é coadjuvado por u m paquete (rapaz de m andados) ou pelo
amassador (haven do-o), ambos seus suboxdinados. E i gualmen t e o auxil ia a
sua própr ia f a mília, se r esi de com ele no monte, como acontece em algu ma s
lavouras, embora poucas.
O lugar de cozinhei ro com a permissão de ter a m ul h er e :6.lh05 consigo no
mo n t e, é bastante cubi çad o e fa z com q ue o indivíduo se s u j eite a u ma sol dada
pequen a na apar ência, p ois qu e n a r eali dade tor na-se grande por i n cl uir o sus-
-78 -
ATR Av tS DOS CAMPOS
tento de duas ou t r ês pessoas mais, o que tra duz benefício valioso par a o ser-
viça.l e onus de v ulto para o a mo. M as este p rej uízo fi ca em parte compensado
pelo ass eio, ordem e importân cia da criação de a ves, qu e s e D ota DOS m ont es
onde vivem mulheres, incomparà velm ente su perior à dos só h abitados por
homens e rapazes .
Como quer que s eja. o cozi n h eiro ar vorado em chefe do mont e, j ulga-s e
com r azão creat ura bem cotada. e como t a l t oma certa superioridade sobr e os
que o rodeiam. Isto e o conceito que el e merece a o amo. de sperta a inveja d a
criadagem vulgar, que o malsina quanto pode. M as se lhes prepar a r bem
a comida. os aleives caem por terra com a defesa ca lor osa dos sensatos e j usti-
ceiros.
Entre os cozi nheiros dos montes encontram-s e tipos curiosos, or iginais.
U m conheci, rabuiento por sinal, que tinha pancada para a a strologi a. Além
de con hecer e discutir a f u ndo a n omencl a tura popular das est relas, no que
falava todas as noites, - também se entret inha com as pr evisões do tempo,
dando sota e ás a os parceiros da es pecialidade. À quil o era m elhor que o Borda
d' Água. Pel o que dizi a, di spunha de auxiliares preciosos pa r a os se us vaticínios.
Como pr incipais, apontava cert o galo preto, d e crista r omana, o velho burro
de lançamento - o Br andã o - e a Farrusca, s at orra fei a e aris ca, que se assa-
nhava por qualquer coisa. Assim, em o galo cantando efora de horas», duas
noites consecutivas, em o burro apa recendo de orelha murcha, e a gata s e n ão
arredando da chaminé, d e rabo volta do para o lu me, - palpitava-Lhe mudança
de tempo. E se a est es pr enúnci os coniugados r eunia outros, como rabiarem-Ihe
os calos, bocej ar e d oerem-lhe 8S costel as - ecoi se como ponta de Oato»-
ent ão, esta va sabi do, era chuva a câ ntar os. Se não viesse nesse dia, viri a
depois, ou no outro quarto d a lua. E acrescentava, corr oborando: -«As purgas
não obram logo . . . e as l uas f azem enfeto três dias ant es e t rês aias depois . . . »
O utro havi a com bossa par a os ditos enfáticos, se ntenci osos, que lhe davam
foros de tribuno entre os ganhões a quem impi n gia as arengas. Probo, adouto-
rado e parlador, er a igualmen t e forreta e sovina. Depois de esta r doen te perto
de três anos, indo ao h ospital como enfer mo mendigo, morreu em cas a de uma
enteada, coberto de farra pos, mas com vinte libras no bolso.
P or último aludir ei a terceiro, veesefedcr de fama, q ue se entretinha a can-
tar o fado e a esgerrede, quando os afazeres lho permitiam.
........ ...... .. .. .. . . . . .. . . . .. . .. . .. . .. .. . . .. . . . . .... . .. .. .. . ... . .. . . .. .. . .
Ent re os set viça is do campo, o cozinheiro é dos mais difíceis de encontrar
em t ermos. Não porque ten ha de preparar igua rias finas, está claro, mas por
muito convir que esteja à prova d e fiel e assea do, môrmente se a cumula as
funções de encarregado do monte. P or consegui nte, embora seja fácil a sua
&C{uisição, poucos reunem os predicados n ecessários.
A sol dada varia confor me a pensão e as vant agens inerent es. Os de muitos
encargos e de boa re put ação, saem-se por 72 a 84$000 r ei s anuais. Hã -os que
- 79-
ATRAVI'.S DOS CAMPO S
vencem seara de legumes. obtendo por obséquio outra de batatas ou favas
a r redores do monte. de que eles próprios cuidam nas horas vacantias.
nos
Amassador Este cargo t ambem requer indivíduo probo. com assei o e prática
- do ofício. a que o desempenha com acerto. entra no número dos
que o amo particularmente aprecia e dos que mais procura conservar.
a amassador cumpre-lhe fazer tudo que diz r espei t o à armazenação e penei-
ração da farinha e ao amassilho, tendição e cozimento dos marrocates (pão de
centeio) e das perrumas (pão de sêmea para cães).
Estando o lavrador no monte, também fabrica o pão branco para os amos,
e o ralo para o restante pessoal caseiro, como carpinteiros. criadas, etc.
N o preparo das difer entes var i edades de pão. e sobretudo no dos marro-
cat es, precisa ter a máxima cautela. a bom fabrico impõe-se tanto por convir
à alimentação dos serviçais. como para evitar que el es os desperdicem e estra-
guem de pr opósit o, o que geralmente praticam qu ando lhes não agrada. Sabe-se
que em o marrocate sendo ruim, os gs n hões s6 lhe comem a côdea. inutilizan-
do-lhe o miolo. de que chegam a fazer bolas que espetam nos chavelhos dos
bois, como protesto de justo e insofrido ressentimento.
Na actualidade é raríssima. semelhante manifestação. Hoje existem melho-
res amassadores e todos porfiam em manipular com apuro. O que isso não
consegue deixa o lugar, se antes o não despedem.
A soldada oscila entre 60 a 72$000 reis anuais, te ndo ou não seara de
legumes e porventura uma cartada. de l enha.
Paquete É o ra paz dos mandados, que se ocupa em ir aviar encomendas às
localidades e em conduzi r o leite das cabras para O monte, se O bardo
fica perto. T ambém lhe i nc umbe o acar reto da águo. para os gastos caseiros. se
isso não é feito por parelha de muares, em carro de pipa g ran de, como geral-
mente se usa .
P ar a a grande maioria dos seus afazeres trata e s er ve- se de uma ou duas
bestas que trabalham de albarda e carga, ou de tiro. em carrinho de varais.
Best iaAas de pouco valor, que se vêem numa fona com as diabruras do rapaze-
lho. C om presunções de escalda e atrevido - burro ou muar que lhe caia sob
as pernas, por tanjão e paciente que seja, ele o despertará pendo-o ligeiro e sen-
tido. Sob pena de o zurzir sem piedade às ocultas dos su perior es. São assim 08
paquet es. À convivência com muita gen t e torna-os l adinos e manhosos, per-
dendo o feitio bronco dos rapazes de menos r oço.
M andal et e por todos mandado e esfregão de mui t os. por vezes se insurge
contra a tutela" e mais se experimenta o castigo de um soco.
N essa altura há-os tão atrevidos, q c e não hesitam em responder com
a frase de efeito, que por conceituoso, é bastante conhecida. É a seguinte:-
eBata à vontade} . . . mas olhe que os chspturos crescem, e as azinheiras min-
guam . . . » À o que, às vezes, lhe cont estam: - • Pois, sim . . . mas enquanto OJ
- 80 -
PE SS O A L D A L A VOU RA
(E,culturas cm maddra de CapeI. c sn....)
J • O nquciro: 2· Mulher a. monJ.; J - Ceifdro ; 4 - G.Janhciro
ATRAv t S DO S CAMPOS
chsparros não crescem... 85 azinheiras é que vogam . . . » Ou por outra: -
.Está bem .... m as ol ha que os choperros pr ecisam de crílJção !.. . E então
8p3.nha lá mais este para te ires criando ... que a az inheira por ora n ão min-
gua•.. li> E em seguida o h omem figurado por azi n hei ra , pespega n o suposto
chapan o. um novo murr o, que mais o enfurece.
E st a rudeza de t reto e a modéstia do emprego. faz com que o paquet e
pronto a bo rreça o l ugar. À í, aos IS anos, mal son h a com bri os de homem
aspira a car rei ro ou gan h âo, o que a6 n al consegue. met endo empenho ao a m ~
ou 8 0 9 fi lhos. com quem brinca e melhor se en tende. S e o n ão promovem,
mosca pela certa, bat endo asa s para onde l he cheir a coisa melhor.
O paquet e ganh a en t re 1$800 a 2$000 r eis mensai s. S endo muito n ovo e de
pou:o présti mo, ven ce 1$200 a 1$.500 r eis.
Criado dos cavalos Tratador das ca val gaduras de sela e gar a nhões, a cumu-
lando as vezes de picador, moço de recados e de compa-
nhi a do amo, n as j ornadas distantes. a cavalo. Também em algumas casas faz
de ferrador, se tem luzes do ofí cio. Homem en6.rn, de várias lidas. conhecido
por cri ado grave entre a mai oria do pessoal camp ôni o, que, se o pretende ridi-
cularizar ou deprimir, também lhe chama ceveliste, corno que a confundi-lo e
emparcei r â- l o com O Isn çerote,
Ant es em to das a s l avouras de gra n de moviment o, havia essa entidade.
Hoj e, em po ucas ou n enhumas se encontra como era há 30 an os. O s encargos
in erent es vêe m-se agora des empenhados e divididos por várias pess oas. O ensin o
dos po l dro s confi a- se a um pi cador de direito ou de fact o; o ferrador de profis-
são ferra as besta s, e o t ra tador tra ta do gado e faz de cocheiro se há caval ga-
duras para o carro de cómodo pessoa l. F or a disso, t endo va gar, t ambém se ocupa
em t ran smitir recados.
De qualque r modo, pel o sistema anti go ou moderno, coch eir o ou cri ado de
cavalos, o serviçal esse ganha a í entre 4 a S$ OOO reis mensais, se o servi ço é
pouco. I st o. r e pito, nas casas dos lavradores gran des, abastados. Nas dos pequ e-
nos, nun ca ho uve, n em há, tal emprego.
Os afazere s que l h e r es pei tam, e que nes tas circunstâncias cost umam se r
reduzi díssi mos, desempenham- se, melh or ou pi or, e de f ugida , com os diferentes
cr iados do monte, ou com um dos carreiros. Das cavalgaduras chega a en cerre-
ger- se o lavra dor o u os filhos, na fa lta, ausênci a ou impediment o do paque t e.
Roupeiros São os homens q ue se acomodam pelo t empo que va i de mar ço a
fins de junh o, para. a queijeira do a la vão ou e l evêes de ovel has,
isto é pa r a o preparo e fahri co de lacticí nios de t al espécie.
Àos ro upeiros cumpre diàriamen t e : irem, em besta de ca rga, coadjuvar os
alevoeircs nos dois o rdenhes de cada dia; por meio da mesma be sta, pr eparada
com golpelha e cântaros, conduzi r n ela o l eite, dos a pri scos par a a que ijeira ;
execut ar com rigoroso asseio e caute la , O t emper o e fa bri co do que ijo, atabefe e
- 81 -
ATRAv t S DO S CAM P O S
requenoes : chapotar a chamiça e fazer o lume; lavar e limpar a barreleira, sin-
ChOB, asadas, el guidares e mais utensílios; esfregar o t ach o do a t abefe; varrer
e l a va r a ca sa da queijei r a j conduzir o queijo para os cani ços eccbugadores e
dar-lhes a s voltas e limpezas de qu e precisem, arejando-os ou n ã o, confor m e 8S
ci rcunst ânci a s, et c. I
S e o ala vã o ou nlavões reunem u ma s 600 ovelhas aproximadamente e o
queijo se molda pelo tipo grande. que requer fabrico mais demorado e cautel oso
qu e os ou t ros pequ en os - os r oupeiros cos t uma m s er doi s.
Fabricando-se queij o míudo, ou mesmo grande. desde que a s ovelhas n ão
passem de 300, ba sta um.
Para ;; cargo em qu es tão. requerem-se homens que além de sabedores, sej am
essencialmente esseados : que se l avem {requentes vezes por dia e mudem de
roupa a mtudo. Só assim conseguem at enuar o fé tido que ex ala m, paz efei to da
ocupação. Cheiro t ão repelente e activo qu e é de provocar vótimos aos es t r anhos.
U m fedor pior que o das sentinas, prfncipelment e paro. quem n ão gos ta de queijo.
D os que preparam com apuro o clássi co q u eijo grande, di z-se que t êm «boa
mão de massa». O q ue eles atribuem, uns, às suas aptidões, out ros, à sorte.
Quando sobre o assunto falam com o lavrador, ob servam-lhe: - «A s orte é
:minha j mas a ganância é sue».
Se pel o con t r ário o queij o sa i inferior, nenhum roupeiro se con fes sa culpado.
Àtribuem o precal eo ao calibre do ano, ou 0. ••• mau olbado de alguém que os
quis derrotar!. .. O s r oupeiros de fama ganham de sete a sete mil e quinhentos
reis por mês e um queijo grande por toda a ép oca .
,
J Leiteiro R a pa z que p ri ncipal mente se emprega, com uma besta, n o transporte
do l eite das ca bras, para venda n o mercado de vila ou cidade: Com
este carácter exclusivo, é ocupação q ue só se vê n os centros de lavoura distantes
do bardo das cabras e da povoação a que se dest in a o leite. Nos outr os próxi-
mos , é desnecessária semelhante entidade, que se supre perfeitamente com o
paquete. O l eiteiro pode gan h ar mil e oi to cen tos a dois mil reis por mês.
Per u nzeiro Rapazinho de 10 a 12 anos. guar dado r dos perús n os a rredore s do
monte . P ela idade e natur eza do cargo é o ma is humilde de t odos
os serviçais. De cana em punho. cumpre satisfeito a sua obri ga ção que, na mai o-
r ia dos casos, é degrau para paquete ou ajuda de gen e.deíro.
G anha 1$ 000 a 1$200 r ei s mensais.
*
* *
Hortelão Encarregado dos serviços da h ort a ou quinta. anexa à l a vou ro. I gual-
ment e se incumbe de ir aos mercados di ários da s pov oações próxi-
mas vender a h ortaliça e frutas que sobejam dos gasto s da casa . Vai «faz er
vendas» ou «fazer pr a ças», termos que i gual mente se empregam pa ra O fim
men cion ado. G an ha aproximadament e cinco mil r eis men sais.
- 82
ATRAv t S D O S CAMPO S
Semeado r A comoda-se expressamente para a sementeira dos cer eai s, a razâo
de set e ou oito mil r ei s por mês ou men os u m p ouco. se con segu e
ganhar ta mbém uma searinha de três ou quatro alqueires de semeadura. como
alguns obt êm.
Em cer tas «casas» evit a-s e a a comodaçã o de criado própr io para semel ha n t e
serviço, por O de sempenhar o sote Ou outro criado anual. S eja qu em f OI, quando
as juntas na lavoura sã o poucas. o se mea dor embelg8 e s emei a alternadamente,
evitando a des peaa de um ercbel ãador.
O que é desembaraçado e n ã o embelge, semei a à von tade pata 20 a ~ O ara-
dos, como a t erra s ej a limpo. e em sazã o de despacho .
A pesar de haver bastantes campónios q ue se julgam bons semeadores a
experi ên cia demon st ra escasseare m os que realmente o são. P or que o facto de
saber repar t ir a sement e po r forma que à nascença não r evele defeitos de
sementeira, é habi li da de que poucos possuem.
Já mostra ent endimento o qu e tem a ce r teza na mã o e bom gol pe de vi sta,
subordinando a es pa l hação à s con di ções do dia, da época e da t erra. O que s e
regula po r esses preceitos essenciais, muitas vezes se ilude e engana, quan to
mais aqueles a qu em fal ta o preci so crit éri o. À verdade é que s emear em termos
de a sea r a n a scer bem r ep artida, se m exager os de basta ou ra lo, na perfei ção de
se elogiar. t orna-se coisa ditt cultosa pelos muit os i ncon venie ntes qu e an ulam
ou tr anstornam os esforços do semeador, m esmo quando a f alta n ã o der i va de
imperícia ou imprevidênci a sua .
Consequentemente, os semeador es de fama são disputados pel os lavradores
que, à porfi a, procuram a comodá-los. N ã o é para menos, se atendermos à alta
importânci a do seu pa pel.
Embelgador À ssim se i n ti t ula o h omem que em belga para imediat a semen-
t eira, medi ante o salário ou soldada de um gauhâo. Embelger ,
signi6.ca di vidir a t erra em r ego s pequenos. e des creverem fa chos larga s e com-
pridas, que se ch ama m bel gas. Servem para n ortear o se meado r na distribuição
e espalh ação da semen t e.
à embelgação é f eita com a jangada de um p equeno arado, movido por
qualquer besta. Guia-s e ou encurta-se segu n do a ceide de terra ou a disposição
que traz a l a voura.
Corta-ramas G an h ões o u trabalhadores em pr egados na limpeza das a zinheiras
e sobreiros. V ej a- se o parágrafo Cortes, do capítul o Montados.
Melancieira ou meloeiro Encarregado da gu ar daria. e tratamento do melan-
cial ou meloal. senão de a mbas si mul tân eamen te,
quando os dois estão reunidos, como se u sa bastante, pre do mi n an do o pri meiro
s obre O seg undo .
Dantes o m elancieiro ( Ta um velhot e quase ínv ál.ido, de m ei a moeda o u
- 83 -
ATRAv t S DO S C A M P OS
três mil reis pOI: m ês. H oje, que os m el endais aumentaram imenso de impor-
t ância e extensão - a sua gua r daria incumbe- se a h omem a p to, n o vi gor da
vida, qu e vence cinco mil r ei s por mês e comedo ria s, desde que entra em abri l
ou mai o, a té 80 leva nt e fin al da fruto, aí p or s etembro f ora a princí pi os de
outubro.
Cumpre-lhe também o s egu i n te : proceder às sementeira s r espectivas, se
antes es não realizou a ganharia ou outros ; ressemear as casa s falidas; des-
bastar as melancieiras de boa nascença e transplantar a s a rredias e ven t ureira s
para onde haja faltas ; ancinhar e desgeemeer a t erra por oca sião da cava e 1080
atrás dos cavadores; arrendar a ancinho os interval os abatidos por efeit o de
chuvadas seguidas de calor e vento, e bem assim 8S casa s que sofrer em do
mesmo inconveniente, servindo-se do sacho para estas j raspar à enxada a erva
nascida depois da cava: cuidar da extinção dos f ormí gueiros, r omeira e ou trOS
insectos nocivos, queimando e enterrando a formi ga j n o m esmo propósito catar
a miudo o ceseeme todo, arrancando e en terrando a s f olha s e matas invadidas
de pi olho e da mela ; descastelar (I ) e ca rregar o mel ão ; f a zer enfim tudo que a
experiência aconselha para qu e o mela n cia l triunf e d as mil even t ualidade s a
que es tá suj eit o.
Em todos os s er viços menci onados, o melanci eiro cost u ma ser coad juvado
por h omens ou mulheres, em número correspon dente à grandeza do melanci a l,
e à u rgência d o s ervi ço.
Não é emprego paro. descanso braçal, pelo menos enquant o 8 f ormiga
aperta. Depois, desde que a fru ta começa a desigualar, q uero dizer d esde que há
melanci as inchadas a distinguirem-se de l onge, aguilhoando o apetite dos tran-
seuntes, se diminuem ou cessam os cuida dos cul t ura is , surgem os das colheitas
e aumenta o da fi scalização e guar da . A s col heitas ficam sob a s ua direcção,
embora com o auxilio de tant os homens con h ecedores q ua ntos sejam p r ecisos
para se despach ar pela fres ca. A guar dar ia, tomada a séri o, obri ga a v igil ância
const an t e e at enta.
Os m el ancieira s erguem no l ocal da obrigação o compet ent e cboço, com seu
scmbr e cbo ex t eri or, onde el e e a fa milia passa m a r esidir. Dura n te o dia , a
mulher e os fi lhos, à so mbra da alpendrada, ol h a m p elo m elancial, a u xili ados
pel o i ndis pe nsável cãozi n ho. A o mesmo t empo, a mulher trat a ig ual men te da
comi da e da costura, enqu an to que os fil hos espojam-se e ca briola m pelos arre-
dores, al amhazando- s e de melan ci a à far ta, se porventura jã se col he. E le, o
marido, se os cuidados de cul tura o u de colhei ta o não ent ret êm, dorme à
grande. lá dentro do clxcço, pa ra à noite vigiar, mun ido d e carabina e a compa-
nhado do cão. E ste é que s e tor n a o gua rda pri n ci pal. O mela n ciei ra por via de
regra e n a s h oras de m enos p eri go, com a espingarda ou com as a rma dilhas d e
cepo, caça as lebres, raposas e r estant e bi charia, que a p arecem no s íti o. atraidos
p ela gulodice. Mas o dano mai or qu e mais lhe cumpre evit a r são os fu rtos dos
(I ) C'P, r. di.-II 1m .I.um.. . 0.....
- 8" -
A TRAVEs DOS CAMPOS
bichos de dois pés. gente nova das ganharias estranhas, que se pelam por d e
noite assaltarem impunemente os melancieis, quando a fruta escassei a e o calor
a lembra . . . Se o melancieira os p ressente grita-lhes de largo e eles fogemj ma s
se o apanham descuidado, fer ram-lhe o cão. quando m enos o julga.
Em vindo a abastança, cessam Os assaltos. À fruta então abunda tanto e
dé-se com tal franqueza , que n i n gu ém pensa em furtá-la.
Oada n he ir o s T oma m esta os homens q ue, de empreitada ou a
jornal e com fe r ramentas suas, p rocede m a o cor t e ou Badanh a
dos fenos. E m r egra n ã o saem da ga n hari a, mas s i m de en t re os qu e trabalham
como jornaleiros nas herda des e f or a.
Ao a proxi mar- se a época, os q ue por S8 bedores ou vocação se afei çoam às
gadanhas, tratam de se empregar aí, para o q ue l argam quaisquer outros servi-
ços. Preferência que se justifica, por que nenhum l a bor mais r end oso se exerce
no campo. T rabalho violento decer to, que nem todos sabem execut a r, m as t am-
bém de re muneração superior B. out ros de esforço semelhante.
Por conseguinte. compreende- se o interesse com que o cubiçam os en tendi -
dos, e os que o desejam ser, que para o fim a que se propõem agremi e m-se aos
4 e 6, de que o mais prático ou desembaraçado se a rvora em meaageiro.
Com antecedência ou na ocasião, o menege iro apalavra com os lavradores
os· fenos que julga despachar com a sua gente. Em geral, um grupo de 3 a 4
gadanheiros, n ã o pode servir bem mais de dois l a vr adores. Mas os da ga da n h a
incumbem-se de qua n to se lhes facul te, importando- lhes pouco acabarem ou
não a tempo. O s Iavrndores p orém, indagam das for ças do gr upo e das casas
que já a justaram, e por i sso se r egulam. cont r a t a n do a queles que melhor o
podem se rv ir.
A fai na da ga da n h a dura or dinària mente d esde vinte e tan tos d e mai o at é
Ens de junho o u princípi os de julho. o máximo. As lavour as de muitos f enos
ocupam 4 a 6 gadanhei ros, n os 40 a 60 dias de tempor ada ; ou t ra s d e m enos,
basta-lhes dois a três em metade d o tempo. e a lguma s u m ou dois. aí por oito
a dez dias. E. até as há q ue d e nenhum carecem por desnecessários.
As empreitadas ajustam-se a 300 re.is e comida ou SoO r eis secos. por car-
rede de 60 feixes que, enxutos a rigor, pesam 4 a 6 quilos.
Este é o sistema corrente. preferido pelos gadanheiros, que assim, e em
fenos bem criados e espessos. despacham 100 e mais feixes por dia e homem.
Nos ralos, que ninguém toma de empreitada, usa-se o jornal de seiscentos a
setecentos reis secos. De ordinário, cada homem, não chega a cortar uma
cartada.
Àpós um ou doi s dias de t ombado. e estando enx u t o, o feno é en fei xa do.
atado e enrilheire do pelos próprios gsdanheiros, às horas da n oit e e da madr u-
gada dos dias quen t es e estios.
Se está fresco, enfeixa-se a qualque r hora . E se chove a dia-s e a at ada at é
enxugar.
- 85-
A TRAVeS DOS C AMPOS
Enrilheiradores Saem da ganharia ou acomodam-se expressamente, guran-
ríadc-se-Ihes toda a t empora da do verão por cinco ou dez
tostões mai,g por mês, sobre o que vencem os ganhões rasos.
N es tes termos enceerege rc .-se d e completar o se rviço das ceifas, reunindo e
enri lheirando os molhos cei fados e at ados pel os ceifedo res. C umpr e-lhes t erem
o necessário cuidado a não lh es esca par em os molhos ocul tos en t re os bambu-
r ais e a fa zerem boa en eíl heireçâc, de r ilheiros 8I8 odes e fir mes, que O vento
não derrube.
O númer o de en ril hei rado res r egula- se pela quan ti dade dos ceifeiros, espé-
cie da seara e suas condições de de senvolvimento. S6 ex cepci onalmen t e se ca re-
cem mais de dois. e muitas vezes basta u m, coadi uvado pelo tardi o.
Concluídas as ceifas, os en r il h ei radores gozam um dia de descanso, i ndo
depois para o. ganh a rÍa at é finali zar em a t em porada.
Tardão R a pa z ou homem que em besta ou ca va lgadur a provida de cangalhas,
asadas e barris, transporta a comida e águo. pa ra t odo o pesssal da ceifa.
N os intervalos coadjuva os enrilheiradores. Gan ha a soldada correspondente à
idade e aptidões. Coi sa de quatro mil r eis mensais , e prcximadamerrte.
S e os ceifeiros são p JUCOS, o en r il hei rador r espec tivo acumula o enca r go de
tardão ou mentieiro, que também assim lhe chamam em algumas partes.
Molheiros R apazes já ta l udas, aj ustados oa tempo rada do ve rão para darem
mol hos a os carrei ras durant e o acarreto das searas, indo depois
para a gan h ar ia, at é ao S. Mateus.
Ganha cada. um 4$500. r eis por mês, o u po uco menos. Nos aca rretas de
searas di st ant es da eira, di spense m-se semelhan tes auxiliares. C omo O mai a do
t empo se gasta nas caminhadas, são os p ró pri os ca rrei ras que dão molhos uns
aos out ros.
Guarda da eira Cost uma ser h omem já decadent e, mais ou menos i ncapaz de
t ra balh os vi ol entos. O cupa-se apenas em guardar os rilheiros
e os mont ões de cer ea l debulhado. P ara ta nto dorme de di a e vela de noite, n o
pr opósito de impedi r fu rtos e ou tro s actos de malvadez, como i nc êndios, et c.
Serve enquanto se faz a debul h a e ve nce un s 3$600 a. 4$500 reis mensais.
segundo os seus merecimentos e a r espon sabili dade. Que os há q uase inválidos,
que ga nlmm menos.
* * '!:
Ceifeiros Àparte as ceifas de pequena monta, desempenhadas por mulheres do
sítio nas proxi midades das aldeias - os ceifeiros ou ceifadores da
quase totalidade das sea ras, são em gerEi1 homens da Beira , que de propósi to
arribam todos os a nos a o A lentejo par a se ocuparem ex clusiva mente na sega
dos cer eais. Veia-se o capítul o R.at inhos. q ue todo lhe di z respeit o.
- 86 -
ATRAvtS DO S C A M P OS
Tosqu iadores Há uns para a t osquia de muares e outro para o gado Ianigero.
Os primeiros são es pa nhois guit s nos que, aos gru pos de dois a
três, tosqui am, na pr imavera e outono, 8S pa:relhas de muares, ao preço de 500
reis cada uma. Os segundos, os tosquíadores de l ã, em camaradas de iS a 20
indi víd uos, procedem de zonas da r egião, como E.lvas, Vila-Boim e Barbacena,
al ém de outros de longe, que vêm anualmente da S erra da Estrela e que por
isso se lhes chama serranos. Todos tos quiam por ajust es análogos ou semelhan-
tes. Em aperfei çoamento são os serranos que p assam por melhores.
Desde o fim de abril até meados de junho (época própria), os tosquiadores
demor am em cada casa três a dez dia s, t osquiando a 20 r eis por cabeça. i n di sti n -
tament e, ou a 20 reis pelas adult as e a 15 pelos borregos de ambos os sexos.
O l avrador não lhes dá co mi da mas sim O caldo para as so pas do a lmoço. e
a er va ou pe lha que a s s uas bestas consomem.
Cada cama rada tem o seu me nagei'ro, que no acto da tosquia ocupa-se
exclus ivamen te em enrolar e atar os vel as. Nu divisão dos Lu cr os entra no
rateio como qualquer tosquiador, tendo a vantagem de comer por conta do
lavrador, em comum com os pastores, e o receber um velo em cada casa, ou
espôrtula de SOo a 1$000 r eis .
Manageiro e t osquiador es, durant e o ser vi ço, t odos se vest em de cal ças,
blusas e sapatos o rdine.r íasimcs, como os que menos se estragam po r deite da
tosqui a. O suco da lã suja, emporca-lhes tanto a r oupa, que o se u a specto n o
tendal é repul sivo e naus eabundo. M as a eles n ão lhes causa nojo, t ã o
habitua dos estão.
À de s peito da imundície que lhes escorre pe lo fato, é interessante obser-
var-Ihes a des treza no manejar e tenir cade ncioso das t esouras sobre o l ombo
das r eses. À s quais, apernadas e silenciosas, denunciam n o mei go olhar u ma
certa sa tisfação pelo alijamento do vel o. t ver-lhes a alegri a com que se
sacodem e pul am. mal as dei xam em liberdade.
N o afã do despacho por vezes a tesoura golpeia os pacientes animais, que
sofrem em silêncio O descuido do tosqu-iador. D escuido vu lgar que se remedeia
imedia ta mente. cura ndo a fer id a com fulí gem das chaminés, de que se faz prévia
aquiaiçâo - «M oreno !» - gr i ta o t osqui ador, vendo a r ez golpeada - «L á va
mor eno», r esponde o maioral ou qu alquer incumbido de ministrar o pó negro
para remédio das f er idas. E. imediatamente o golpe é pulverizado com o tradi-
cional moreno. Se os go lpes se repetem em ex cess iva notoriedade. o maioral e
lavrador re preendem os tosquiadores.
Cordoei ros G ente da Galiza, q ue em gru pos de dois h omens e um rapaz,
passam g ran de parte do ano, nos montes do Alentej o a fazerem
cordas, redes, pri sões, etc., de jun ça, ca belo ou linho, em quantidade correspon-
dente às necessidades, como haja ex-istêncía de material cm abundância, espe-
cialmente j unça que, por ser de fá cil e econ ómica aquisi ção, é o que mais se
empr ega n est e género de fa brico.
- 87 -
AT R A vt S D O S CAM P O S
Todo o mat eIiaI necessário pa r a a cor doar i a é forn ecid o pel o lavrador.
a cabelo proced e do que anual mente se cor ta das crinas e ca uda das éguas
manadias e do despon t e dos rabadas do gado vá cuum; a [ unço, da que se ceifa
nas ribeiras do cómodo, ou da q ue se obtém grátis e por paga, n as h erdades
próximas; o linho, po r compra em Lisboa. P orto. etc .
Os cordoeiro! trabalham de empreitada, vencem co mida de 8SDhão e deter -
minada q uan ti a pOI cada obra que despach am. E sses feiti os e preços con stam
da seg u i n te t abela:
2$000
1$000
» 200 a 240
» 80 a 100
» 80 a 100
» So a éo
» SO
» 80 a 120
» 100 a 120
» 15 a 20
» 10 a 1S
. Rs.
»
»
»
»
»
Por cada rede mediana de linho. para carradas de ps l he .
lf » » » » j UDÇ8» » » »
» » cor da de ca cre ge r , de cabel o ou linho, de 24 metros d e
comprimento .
» cada corda de carregar, de j un ça, de 24 metros de comprimento.
» » t r avadeira,» linho, l') 1 2 »» »
» » » » junça, » » l')>> »
XI rolo de corda ordinári a. para diferentes a pli cações. como
caldeiros, cargas, et c., de 30 me t ro s de compri men to
XI cada par de ar r eat as, de li nho
» dúzi a de prisões, de j unça, de ;; metros de compri ment o .
» colar, d e linho ou cabel o.
» benge l et u
Val adeiros G en t e da À na.dia e outras t erras do n orte que, de out ubr o a janeiro,
aparecem n as lavouras do Alenteio para a brirem e li mparem a s
sanjas ou valas, de que precisam os t errenos baixos pant a nosos. a 6 m de se
esgotarem das águas que os inundam de inverno.
C omo ferramentas usam da pá estreita e comprida de que vêm munidos, e
de uma enxada e pá ingl esa , que o l avrador lhes for n ece. E m ca da lavoura
ocupam- se. por alguns dias ou meses. dois a qua t ro valadeiros, qu e t r abalham
de emprei tada ou a j ornal. o. seco ou a comida.
N as re parações e limpezas de seoi es já exist ent es, u sa-se de preferênci a o
eiuste a j ornal, de SOO D 6<:X) rei s secos ou de 240 a 300 rei s e comida. Na aber-
tura de valas n ovas preval ece a empreitada por metro de ex t ensão, a o pre ço de
u ns tantos rei s. que aumentam ou diminuem conforme a l argura e fu ndura da s
valas e o estado e na ture:za do terreno a cor ta r .
Nas se njas comu ns, de om.60 de l argura po r om,to de fun do. ca da metro
oscila aí por 15 r eis secos, se a terra dá despa ch o. ou 8 a 10 reis e comida ; t a m-
bém as tomam p or menos, desde que lhes não abundem as ofert as de tra bal ho.
Enfim os preços deste serviço r egulam- se por drcunst ândas t ã o di versas e
variáveis, que difícil se t orna fixar bases. Entre o pessoa l al entejano há quem
faça de veladeiro, mas ninguém com o des pacho e perfeição dos h ome ns do
n orte, verdadeiros profissi onais da especi ali dade.
- 88 -
í
-

A caminho da sacha
ATRAv t S D OS CAM PO S
R eal me n t e toda a gente que os obse r va lhe admira o. r esist ên ci a e desem-
baraço com q ue. em manhãs [ r ig id íssi ma s, se met em a t rabal ha r sobre água
encar amelada. desca lç os e de perna nua, manej a ndo a pá com tal dest rez a e
acer to, que parece n ão sent irem os ri gor es do f rio e das umidades I A ssim pas-
sam dois e t rês meses, a té q ue os chamam à terra da residência os afaz eres que
por lá t êm. E. para lá ma rcham satisfeit os . munidos d o se u p ecúlio.
Lançarote H o mem q ue n o. pri ma vera se a jus to. pa r a tratar do bu rro de lança"
men to e con d uzi -l o à ccbri ção dos éguas. duas vez es por dia, uma
de manhã, o ut r a de ta r de.
A comodado ex cl us i va m en te para ess e fim, a po nto de em nada mais se
empreger, cumpre-lhe a r r ima r o burro às éguas e facilitar-lhe o que necessário
for para a cópul a ir a efei to, obriga n do-se a d irigir por s uas mãos a introdução
do pe rris, q uando O burro n ão acerte. o que é frequente em al gu ns .
O utrora t ão avil t ante se considera va es sa oc u pa ção, que ninguém do sítio
a queria. exerc er, por m elhor que fos se a soldada e maior a necessi dade de a
ganhar . An t es m or eer à fome I
Por co nsequênci a o repudi ado emprego só a cust o o exe r cre um maltez
boera châo, d e que todos se d esviavam com desdém, nã o pela mi séria que exibia
nos farra pos, mas pel o a nátema inerente 80 ofí cio . Coísa execr e nde, consi der ada
entre o pessoal ca mpóni o como a mais a bject a das ocu pações. À f a n tasia popu-
lar assevera va at é qu e o Ia nçaro te era um amaldiçoado d e Deus e da I greja,
sendo-l hes proibi da a entrada nos templ os e a confissão religiosa t
Os cr ia dos da lavoura por princípio a lgum o consentiam à sua mesa, não
bebendo por on d e el e beb esse, nem se assentando onde ele estivesse. E, como se
ta l d es prezo não bastass e, i n sul tava m e chasquea va m impiedosamente o infeliz,
que por se u turno lhes fugi a para se poupa r às vaias e vexames.
Semelhante p r ejuiao, tão gross eiro como es rúpido, vai declinando muitís-
simo. O lançarot e de a gora é menos es carnecido do que o de outros tempos,
diminuindo t ambém 8 a versão e n ojo que o público lhe vo tava .
O que influi para q ue na a ctualidade j á se encontrem homen s limpos que
ac eit em a incumbênci a, n ão sem tal ou qua l ve rgon ha, diga-se também. Mas
enfim d esapareceram a s brutalidades do de sprezo ex ager ado e afrontoso, e isso
é o esse ncial com o nota de adiantament o.
À sold ada do lançarote regul a eo t r e 3$600 a 4$500 r eis p or m ês e as come-
darias. E stll s, p ara a lg uns, são m el h ores qu e as de outros serviçais, por const a -
r em d e pão d e tri go e de carne eh eia, melhoria que el es impõem n o acto do
aj us t e. Outros, serve-l hes o p ão de centei o e o trato de ga n h l.o. h ) E também
os há que s e acomoda m a seco a 9 ou 10$000 r eis por m ês, comendo à sua custa.
A l ém d a soldada cont a m igual mente com as gor gates d os lavradores estranhos
qu e, por obs équ io ou pa ga, ma nda m cob ri r éguas a os r eprodutores do viz inh o.
- 89-
ATRAves DOS CAMPO S
MULHERES
Ma is do que se poderá s upor, a gra nde maioria das mulheres ce mp ônias,
necessi t adas, emprega m-se, o melhor do a no, D OS trabalhos agrícolas das her -
dades. de que são coope radoras vali osas e imprescindív ei s.
Desde n ovembro at é julho. com pequenas interrupções, cada l avoura en tre"
tém pelo m en os um rancho de mulheres. em n úmero nun ca i n ferior de 8 a 1S.
e po r veze s de 30 a 50.
O s a panhes da azeiton a e da bo lota, a es pe lh ação de es t r umes e adubos. 8S
monda s, as sach a s e colheitas de l egumes, u remoção de pedras miudas e as
ceifas de some nos import ância nã o con t ra t adas pelos ratinhos - sã o 8 5 lidas em
que se oc upa m centenas e cen tenas de braços da po pulaç ão femin ina do concelho.
N ão se imagina a boa vontade com que tais criaturas se entr egam aos
labores rurais da sua es pecia li dade. N enhuma out ra l h es ag rada tant o j n enhu-
ma também lhes fa culta melhor salá rio, se m grande s ujeição, c com o a t ractivo
de expan direm à larga os insti nt os da garrulice.
A ssi m a contece q ue semelh a nte predi lecção, sem dúvi da a ntiga, n ada dimi -
nui, antes se avi gora e generaliza, como também vai a u me nta ndo i menso a
quan rí da de e importânci a dos servi ços.
À s mondas pri nci palmen t e empr egàm o mulherio todo, desde a r a pari ga
de 12 a 13 a nos a t é à cinquentona de boa fibra, r esi s t ent e como as moças.
O preço do sal ári o t em alt era ções, não t ant o pela natureza dos di ferent es
serviços, que, except ua ndo a ceifa, t odos se r egulam pelo m esmo custo em igual -
dade de circunstâncias - mas po r efeito da época, da escassez ou abundân cia de
braços, do es t ado do tempo, etc. A s h oras út eis e a pr oveni ênci a da a limentação
t ambém vari am, como adiant e se verá. N as h erdades pr6ximas dos povoados,
onde reside o pessoal, usa- se o siste ma a seco, à i orne de 140 a 2CO reis por dia
e mul her, e o de meios di as, t am bém a. s eco, de &:> a 100 r ei s po r cada, come-
çando-se às onze h oras da manhã n o inverno e à s doze na pri mavera .
O trabalho e os meios dias é de r ecí proco. vantagem pa ra muitas das servi-
çais e para os amos. Os a mos, a quem or din àr ia men t e escasseia o pessoal, ut i-
lizam por essa f orma os br aços das que só de tarde podem l argar as ocu pações
domésti ca s. E elas, as ser viçais, sem prejuízo dos arranjos caseiros e do t rata-
ment o dos 6.lhos, aprovei ta m as h oras di s poní ve is, ga nh ando n o ca mpo. C om a
vantagem igualment e apr eciável de que se enfadam menos e despacha m mais
relativamente do que se trabalhass em t odo o dia. E.m geral as mul heres n os
serviços do campo, por dias completos, aí ao meio dia da ta rde sentem-se fati -
gadas e por consequ ência emprega m t oda s as arti ma nhas par a se pouparem
quan t o possam. M as como o pessoal é pouco, em relação nos se r viços e o t empo
mal chega para despacho oport uno, uns l a vr adores adop tam de prefe rê ncia o
cos tume dos dias inteiros, out ros o das t ardes a pe na s e alguns, os dois simul-
tâneamen t e, destina ndo o dos me ios dias para aquelas mulheres que 56 assim
pode m assalari ar-se.
- 90
AT RAV É S D O S C AMP OS
P or qualquer dos usos, q uer o diz er, para os trabalhos cerca das povoações,
8S dos ranch os saem e r egr essa m diAri amente às suas r esi dênci as, em marchas
a pé, dist raí das. em pal estras [ocozas, a provocarem a s riza das juvenis da moci-
dade foliana . D e man hã, à ida, e à boqu in h a da n oite, no r egresso, o mul h er io
sai e en t ra n as aldei as entoando cantigas al egres ao som do pan d eiro e das
castanhoLas. Canti gas de amores. com a tona dil ha da moda .
Para as herdades mais a fast adas, os rs nchos contratam-se por quin zen as e
aos preços de 140 a 220 r ei s secos, h l o u 80 a 140 r ei s e comida de ganhão. por
dia e mulhe r. T a mb ém se l hes f aculta casa par e pernoi tar em e t ra nsporte e m
carros de muares para a i da e r egresso. E m t ais condições, a mai oria das con-
tratadas são r apari gas solteiras, livres de afa zer es domésticos. em ci r cunst ân cias
de esta rem ausentes da famí li a. onde nenhuma falta faze m. E que faça m, vã o
da mesma fo rma , desde que por l á t en ha m os n a morados.
Os t rabalhos a dias comple tos. em qua l qc er pa rte, efect ua m- se de sol nado
a sol posto. com in t errupção da h ora do almoço e da do j anta r ou merenda a o
meio di a. E st e inte r valo demora dua s h ora s no tempo da sesta, n os mese s de
maio e j unho. E. n esse mesmo t empo senão do meado de abr il em diant e. ao
cair da t arde, há um descanso de poucos minutos, a pretexto de meren dar em
segunda vez {t) uma côdea de pão e quei j o, lere nj as, etc .
A seco ou por comida. aos dias inteiros ou a os mei os, perto das povoa ções
ou distantes, os preç. os máximos acima r ef eri dos, só vi goram de a bril a junho.
quando as sear as carecem de muita monda e se i mpõem out ros s erviços . E n tão
não há. mulheres que cheguem. S e o triplo h ouvesse, não lhe faltaria trabalho.
N as ceifas é bastante melhor o sa l ár io. Nunca m enos de 180 a. 220 r ei s
secos por suposto meio dia, que se cont a d esde O raiar da aurora até às dez e
meia da manhã, t endo no entretanto a interrupçã o do almoço, que dura das
sete às oito horas. A superi ori dade deste sal ário justi fico-se t anto por as ceifas
coincidirem com as monda s dos tri gos se rôdios e colh eita s de l egumes, como
por nem t odo O mul herio t er práti ca de foi ce. À maioria não se ocupa nessa
faina. O u po r que lha não q uerem ensinar as sabedor as, ou por r elutância
a apren der em-n a, como t a refa vi olent a para as s uas forças.
An t igamente 56 algumas mulheres de Barbacen a e Vil a F ernando se empre-
gavam nas ceifa s. H á anos para cá o aument o das cult ur as cerealíferas e a
escassez e carest ia dos ceifei.ros ratinhos. de u or ige m a que n outras locali dades
se admitissem 8S fo ices por mulheres, C ostume que em começo se r estringi u a
algumas das pequenas searas dos ar redores das povoações. mas que depois se
generalizou a todas dessa ordem. Nas ceifas das la vou r a s gr andes, próximas
das localidades, tamb ém alguns anos se a provei t a o concurso do mu lherio,
mas 56 em parcelas de sear as que se n ão engloba ram n a empreitada aj ustada
com os rat inhos, ou por q ual quer motivo excepci onal.
Cd l..Ao • M CO I",. "", ••Iu (co d n l.l per. toda • c:lOiIl U D. ou " .'lU,
(1l MUI .d•• ••, o. d...a , 0 . d o d i• • •.uow.."", pl0 • cu. li o, ou c:l...lcl'ou cal.. p r6pri. d. ler"-..!. S. potI"",
in tau. al ba d. 1"0. " ou • • • dIl Uol a, • mu ...d. d. tarde i • prim..lr• • Ci ll.ic• •
- 91 -
ATRAvtS D OS CAMPOS
N o apanho da azeitona e nes vindimas dos subúrbios de E l va s e dos arre-
dores das vilas e aldeias, igualmente se empregam ranchos numerosos, por usas
e ajustes que mencionarei na devida altura. P or e gore prossigamos com os que
pertencem mais ou menos ao pessoal de uma lavouro.
* * *
Nas lidas campestres cada r an ch o de mulheres é governado por u ma das
mais t rabalhadoras e en t end ida s, que pel o. au tori d ade cm que a i n vestem deno-
mina-as msnogeira. Ganha mais 20 r ei s por di a sobre o sa lário das outras.
A manegeí ra a licia as companheiras e nel as gove r na em part e, sem contudo
lhe per te n cer a direcção absolu t a do trabalho. D esse encargo i n cumb e- se o
gua rde de h erdades ou outro homem capaz, que para tanto a companha o r ancho
no ser vi ço, dirigindo-o em tudo. N ã o se entrega aos cuidados exclusivos da
managei r e por se lhe r econh ecer incompetência para evitar ou reduzir a cera
provenien te da tagareli ce próprio do sexo frágil.
A boa da mulherzinha possui as melhores intenções, sobre o cumprimento
dos seus deveres de s uperiora. M os coitada, os instintos de [oquacidade, l eva m-na
a prevaricar inconsci ee t eme a re como qualquer, sobretudo em s e tratando da
bisbilhotice a pi men ta da, p rato forte e tentador, a que nenhuma sabe resistir .
P or t an t o. para r ep r imir esses excessos e evita r os consequen te s pr ej uiaos,
ent rega-se a di recção e disciplina do rancho a u m homem sério, de confiança.
O qual, con h ecen do a fundo o feitio das criaturas que governa, não as poupa
em adver tê ncies, e a mi udo as r epreen de, com f rases de tom e conceito, apro-
pri adas às ci rc unstâncias. Pri meiro, d irige· lhes u m gracejo equí vo co, envol-
vendo censur a li geira; depois uma admoestação séri a . e por ú lt i mo, esgotada a
pachorra, Iarna-I hes u ma a pós t rofe vi bra n te, a m ea çadora, que, como água sob re
lume, apaga i mediatament e o f ogo da lcquacidede. R em édio de oca si ã o, de ef ei to
passagei ro . T ã o a r r eigudo t êm o vício, q ue l h es r ecrud esce com int ensida de a o
cabo de poucos minut os. Se l he está. no temperame nto . ..
A i dad e j u ven il de m ui tas, a p rope nsão de t odas, o m eio em qu e se encon -
tram e a s li berd ad es que o campo s ugere, são facto r es que, l onge de p redisporem
a o silêncio e eisudea, impulsionam irresis tivelmen te a actos r uidosos, expansivos,
que, s e s e aba f am por mome ntos, explodem afinal, a pretexto de qualquer coisa.
O aparecimento d e u m l agar to ou de out ro bicharoco. dá. ensejo a que se
p erca a se riedade. As moços pelo menos. partem a correr, com al aridos de receios
fingidos. q ue enfurecem o guarda; mas, tão cómicos se tornam, que a ele próprio
s e lhe esvai a ira, passando a rir como elas. até o incidente te rmi nar.
Se de lon ge ou perto se avista qualquer homem, caminhando em direcção
de se a proxi ma r, ess e fa cto motiva maiores e mais ret umba n tes íolias. Então. é
certa a va ia ou boi s (I) ao pací fico transeu nte, a p retexto de se man ter a t rodição.
(II A. ".1., IIpln. nllm 1Iln cllIlum••ntlq l'luilllo. U " D : ~ U .III mell.un plU bomln•• "lcc-"un. M•••6 .. provoe•
• d'. 11 pll..o.1 q\1• • I>d • • t u b. l h.r, • o} l>lumlll>lI PUI .. cduur.. d. Oluro UllO. Com I dil u'l>c. lIu. ~ . mulhu.. COI>-
unlll-'II- Ih.. o UIO 1m lod.. .. f-j l>u do CUIIPO, 10 p."o qll' 10. homlll' 16 111. ... lotu.do DO I U"/(O d. Inoun pt bpd. ·
m.nl' dita. li....1" colb. m-I. d. ".i., ... hor.. do d"c.neo • d. comld•.
- 92 -
AT RAvtS DOS CAMPO S
Mal avistam o caminhant e, o rancho embandeira, isto é, vol t a-se para o sujeito,
e desatam a gr it a r- l h e : - «A i, que o não tem / . . . ai , que o n ão tem / .. . Fora
qae é feio I. . . fora que o n ão quere mos l Arreda, gato ve lho i, . . Caminha,
bode.arnozo 1... la bácoro de Arroncbes l Não t em I... não tem I.. . n ão tem f .. ._
O mo te jado ou prossegue na marcha, nada. respondendo, ou reder gu e « 80
consoantes . Se não responde, elas continuam com a gr itaria até o perderem de
vista; se contesta. o mulherio mais se entusiasma, na mente de protelar a folia.
enquant o lho consintam. Mas, se por acaso o provocado se d esvi a do cami nho.
tomando a direcção do rancho, no propósit o, .real ou a par ente, de demonstrar a
falsidade das apreciações, a cena m odi fica-se logo. A o r eceio de um desforço
demasiado atrevido, ou por intimação enér gica do go ver nan te , moças e velhas
mete m a vi ola no sa co, afim de o homem retroced er e des istir das in t en ções .
Se porém ele n ão r etrocede e continua a ava nçe r, as mulherzinhas a n ima m- se
de n ovo, e, esquecendo considerações, passam a segunda gri t a ri a com entusiasmo
doido, delirante. C omo o encarregado consinta, os r esolutas e possan t es. COrr em
em massa sobr e o audacios o, agarrando-o e atirando- o ao chão para lhe darem
cuJas (I) e 89 velhas o e pepi ner em com outras p atuscadas.
Tudo por chalaça algo forte é cert o, ma s com que poucos se melindram,
mesmO por que as beies, l evadas ao extremo das cules e acessóri os. raríssimas
vezes se prat i ca m.
E m ge ra l, ao pri n ci pia rem, e depois mesmo, os h omens que as ouvem,
riem-se da costumei ra, seguindo silenciosamente o seu caminho, ou contestando
apen as com duas ou t rês facécias. Outro ta nto n ão sucede com a maioria das
mulheres dando-se a hipótese co nt rária, isto é sen do elas as provocadas.
* *
Na casa do monte, onde pe rnoita O rancho, os serões passam-se em varia-
dos Iol guedos, principalmente se a eles a ssi st em os g9. n hões da lavour a ou os de
outras vizi n ha s, que acode m ao sítio por lhes chei rar a pequen ume. D e qualquer
maneira, a pândega é certa a t é às dez ou onze da n oite. Ca nt a-se, t oca-se,
baila-s e. nana m- se contos de princesas encantadas, joga-se um pouco o padre
cara, e namora-s e mui t o. A execução desta últ ima part e, subordi na-se a certas
condi ções. À s rapar igas não podem conversar à f r a nca com os rapazes, sem
prévia li cen ça da menageiea. À qual, concedendo-a, é com a cláusula de fa la r em
a um canto da casa. à vi sta de todos , ou à port a da r ua: el a, a r apari ga, de
dent ro ; ele, de fo r a.
Mas há ocasiões em que a gover na n t e só permite cs colóquios amoros os
mediant e u ma dàdi vazi ta, que lhe console o estômago ou o víci o da cheiroca.
N est e empenho, resiste a todas a s s úplicas, cede ndo apenas q ua ndo os moços
escorregam mar r oca t es, q ueijos ou um pataquinho par a mei o grosso. Mas u ma
(I) Du r uIu t llJl,Ui r a U''lII'U" 'li lI.tIel1t . pel o. pi• • u b! c• • • nD put( l o o. r ou&dot <! ",d!., •
•obl'l °ao!o, bambole ando- o .Dtl'.t...... to upa tJd, ...uu. Cloal :aaDeClo!;" r om CI o, fi briDU .. "0Iltt4,.
- 93 -
ATRA VeS DO S CA M PO S
vez gratificada, acabam- se-lhe as negeri ves. P odem os pombinhos arrul har à
von t a de, qu e ninguém os per t u r ba rá.
D ur a n te 8 quaresma cessa m os bailes, os toques e t odas as cantigas que
n ão sejam r eligi osa s. O s j ogos de prenda s e as entrevistas a morosa s, continuam
como antes, se n ão com m ai or entusi a smo.
* * *
N o domi ngo imediato à semana ou quinzen a de trabalho, as dos r anchos
vão r eceber a s fér ias a cas a do lavrador, na a l de i a, ou à d e alguém, i n cu mbi do
de paga r . As moças apresentam- se m uito garri das e tafulas, em traj os domi n-
g UdIOS, fla man t ís simos, a contrastarem frisantemente com o desalinho e de sl eix o
d as maduras e velhas. T odas se mostram alegres e palradoras, a ponto de o dono
d a casa lhes dizer que n ã o estã o em nenhuma praça.
Concordam t odas, a ceitando o lembrete e repreen dendc- se mutuamente, o
q ue a t r az a um pouco o sil ênci o ex igido. A nnal obt ém-se. M as daí a nada, cada
u ma ch ia paro s eu lado, intrometendo- se nas chamadas e nea p agas de cada
qual. C hega m- se a a cusar umas à s outras de t erem vencido dias a menos do
que dizem e de r eceherem mais do qu e ve ncem. D en ú n cia s e aclarações ge ral -
mente err6nias e infundadas, que s empre p rovoca m di sputas, averi guada a
falsi dade. E verdadeiras qu e sejam, ociosas se t ornam igu a l men te desde que
ninguém a s reclama . O s en ganos, se os há, t odos s e esclarecem e r esolvem à
vi sta da fo lha e das informações do. managei r e e do encarregado. Mas a despeito
disso tudo e dos recuões que sofrem pelos atrevimentos, con t i n u am a dar à
lí ngua, a pretexto de j ust ificações r econciliatórias, que põem tudo à boa paz.
A saida animam-s e ainda mai s, d espedindo-se qu a se todas, com um d i to lison-
gei ro. V oz es ao vento, pal a vr a s ocas, de quem p re ci sa a gradar ..•
* * *
Tudo que a s r a par iga s solteiras ga n h a m n os s erviços do cam p o é «par a o
s eu cor po» - quero dizer para s e ourarem e ves tirem de pont o em branco, não
só d o n ecessári o, m cs ai nda para os luxos doroingueí r os e dos dias de f es ta, da
confissão, etc. S atisfeitas estas primei ra s ambi ções, passa m à compra do preciso
pare o enxoval , e do modesto mas garri do mobiliário com que se propõem
ornamentar a futura liebítução. Para mais fàcilmente r ealizarem esses propós i-
tos, os pais de a lgumas - D eus sabe com que sacrifíci o - dã o-lhes, n o t odo ou
em parte, os mant iment os de que precisam qua ndo rra be l ham a s eco.
M ais do que as própria s fi lhas, eles dese ja m vê- Ia s na posse dos obj ect os,
. que em li nguagem popula-r se cha ma a «casa de u ma n oi va ».
P ar a a cons ecuçã o dess e s uspirado des íderetum, sacr ifica m-se a s n ece ssida-
des de alimentaçã o e a s aúde. (I) O essen cia l para elas é a dquiri re m o uro, r oupas,
(1) T lmto ... ralOui.... . olt el: .. .. a. .. . ceuldadu de boa alllll etl l" . o '0' U"IfU do "'''lab lo • do "' ohUlido
tnbal batldo a 110 campo, Om. b do atl o. qa . , .. ... ..Iori • • • 1-.. . .. , ... iu••0 PII'O ltu. o. r. plIU ..,trtlldu
.... tulo. lho..... i. "01l tl10' , "'.. U,., "U ,,<:Ir conta .lo, bvr• .lou,. 1ll0IlT' Ill-" pilo CODU6.riO ..."uo.e, • II dio• .
- 94-
A TRAvtS DOS CAMPOS
estanho, Bra me, louça s, vidros, trebecos, etc. A moça solteira que i sso consegu e
reunir, con si der a-s e feliz, e a mãe repu ta-s e fe licíssima . O ame r maternal põe-na
vai dosa com o luxo da nIna. M ui t o u fa n a, mostra às vizinhas e amigas, a s
prendas que a filha adquiri u à custa de muito SUO I , d e mui ta privação, de m ui to
trabalho honrado. E as vizi nhas e as amigas prestam toda a atenção 80S objec-
tos que lhes mostram, gabam-nos e elogia m a dono. M a s depois. n a a usência
das dua s, expa ndindo- se em i nvejas ridículas. amesqu i n ha m tudo aquilo, cen-
surando os duas . A fi lha é «uma impost ora a querer desbencer das da s ua
a mãe «uma 8BV8Z0]s. doi da, que só cuida de casar a filha» . M iséria s
humanas que abundam em t odas as classes ...
GANADEIROS
Os campónios, a quem 0 5 lavradores encarregam a guardaria e pas toreação
dos seus r ebanhos, são conhecidos pelo n ome comum de ganadeiros, quaisquer
que sej am os gados d e que se incumbam. Num ou t ro sentido ge n érico, mas mais
restrit o. ta m bém se lhes chamam mai orais, qualifi cati vo est e, que emboro se
aplique i n dist i n t a m en t e em vári as hipóteses, e so b ret u do pa r a o efei to de sau-
dação, 56 em rigor perte nce de direito a os cabeças ou chefes dos diferentes gru-
pos de ga n adeiros incumbidos das várias espécies de gados. Não obstante, quando
no campo se encont ra qualquer guardador de gado, sauda-s e assim: - «Bons
dias, maioral . . . » - E. nunca: . Bons dias. ganadeiro».
Categorias e n o mencl atura A classe dos gan adei ros di vi de-se em vários
agr upamentos, sendo os i ndivíduos de ca da uma
designados por nome al usivo às espécies de ga do em que se ocu pam. Os que
guardam bois, s ão boieiros ; os das vacas, vaqueiros; os das éguas, eguariços;
os dos porcos, porqueir as ; os dos lanfger os, pestores, e os das cabras, cabreiros.
Fi ca pois entendido que, para a apesc en ra çêo e guar dar i a dos reban h os, há
em cada lavoura tantos grupos de ge nadei ros, qu a nt os são os géneros de gado
nela exi stente.
Em cada grupo des ses encontra-se um meiorel chefe, acomoda do com obri -
de dirigir e fi scalizar o pessoal correspondente, ou sejam todos os i ndiví-
duos que lhe estão subordi nados. Est es, isto é, os imediatos ao maioral ,
cbamam-se-Ihes ent regues , como os i n ferior es 008 entregues se den om i nam
ajudas.
Em regra, cada rebanho. ocu pa dois indivíduos : u m homem e um r a paz.
O homem, ou é o maioral ou um en t regue ; o r apaz, o ajuda. h } E para auxiliar
ambos, ocompanha-os um corpul ento e sentido rafeiro, senão dois ou três, todos
de bisonho aspecto, a infundirem r es pei to a estranhos de qualquer ordem.
Ai daquel es que lhes experimentar os instintos I
(I) Eaupto tl U bol..d.... tlU ...n d... tl'l. _tld... ..." Que (I aludI. , um Lomam como o maioral.
- 95-
ATRAvt S DOS CAMPO S
Nas lavouras expcionalmente gran de s, que mant êm sei s e mais rebanhos de
la n ígeros em herdades diferente e di stante s, o maí or cl re s pe ctivo, passa semanas
e meses sem apascento r rebanho algum. Tanto tem de vig:ar. di r igi r , co nsultar
e resolver, de acordo com o amo, que n ess as ocasi ões de mais nada s e ocupa.
M as isto representa exc epção fora do us o comum. O co r ren te. p a ra qualqu er
espécie, r epresentada por diversos rebanhos, é o maioral, a uxi li ado por ai uda,
guar da r e tratar de um - o da criação mais n ova, como o que ex ige maiores
cui dado s. Os outros, ficam tamhém sobre a sua inspecção, mas a guar dar ia de
cada qual, incumbe-se a entregue próprio, auxiliado por correspondente oiude.
S e por acaso, o gado de qual quer gé n er o constitui apenas um ú nico r ebanho
ou manada. o seu guar dador reune os t ft ujos de mai oral e entregue. gover nando
sõmente no ajuda que o a companha .
r. não tendo ajudo. como se obser va em al guns eguariços, e com t odos os
cabreiros gr an de parte do ano - o h omem é. por a ssim dizer. maioral de si pr6prio.
* * *
Um gana deiro. além de st a classificaçã o comum. essencialmente genérico .
pode reunir mai s três. específicas : u ma. revel adora da espéci e de 8ado em que
se ocu pa i outro. definindo a sua categoria própria; e a última-a menos con s-
tan.te, nem sempre verificada - como indicat ivo da natur eza ou caráct er especia-
lí ssimo do rebanho. P orque do mesmo géner o de animais f ormam-se r ebanhos
distintos. cada qual com n ome próprio. derivado das con dições das reses que os
compõ em e do fim a que se destinam.
Poro. mais fàcilmente se compreenderem essas quat ro cla ssifi ca ções a plica-
das a um 56 homem, darei o seguinte exemplo: - o ganadeiro Fulan o. porqueiro
e ent regue na Casa Branca. anda egor e com os Jarroupos e p or isso é i errou-
peiro. Ora. CO mo este de ierroupeiro, h á ou t ro s qualifi cativos especialíssimos,
que mai s adiante mencionarei.
Procedência À semel han ça da maioria. do pessoal agrícola, os ga n adeiros são
naturais do. r egi ã o on de se empregam, e um ou out ro das vizinhas.
Na popu l ação r ural do conce lho de Elvas havia ant es det ermina das famíli as,
em que por assim dizer era heredit ária a ocupaçã o de ganadeiro. e a ponto tal
que até em algumas se restri ngia a tendência para uma só espécie. T em desapa-
recido esse cost ume, mas ai nda se obser va out ro ig ual mente curioso - o de entre
os gane.deiros de cada povoação predo min arem a s aptidões e preferên cia paro
t al ou qual especí alidade. Assi m em Vila F emen dc e Ba rbacena pr eval ecem os
pastores, e em Santa Eulália os porque i ros.
Ajustes Mai orais e mu itos entregu es contratam-se por ano. O s primeiros,
a justando-se directamente com os lavradores; os se gundos, por inter-
venção dos primeiros, fecha n do o a mo o ajust e. A os entregues incumbe po r sua
- 96 -
ATRAv t s DO S C AM P OS
vez acomodarem e despedir em os a j udas, recl amando dos l avradores «as paga s»
respecti vas.
P ara acomoda ção e despedimento dos mai orais e entregues de ano, segu em-se
DS praxes usadas com os r est ant es criados a n uai s, diferindo tão somen te em
alguns, no que respeita a pr aaos e épocas de saí das e ent radas. Desta m a n eir n,
os porquei ras r egul am-se pelo an o civil, isto é, de j a n ei ro a. janeiro. N o caso de
despedimento de amo par a criado ou vice-verse, o aviso deve-se comun i ca r
respect ivament e a t é ao S. Mi guel. O s p ast ores e cabreiros s a em e entram pelo
S. P edro, parti cipando a sai da ou despedida por t odo o mês de maio. E, os r es-
tantes como boi eiros, vaqueiros e egueríeos, encimam e acomodam-se pelo
S. Mat eus, tal qual os cr ia dos de lavoura.
Em ger s l, os gunedeiros anuai s. não «p art em o e noe, i sto ê, cumprem o
dever de servir pel o t empo que se ajust aram. Neste par ticul ar mostram maior
seri edade q ue os gan hôes e out ros. Mas se abalam ext emporânea men t e, saem
também com os pesulhais, se o amo i sso exige. S e por ém o l avrador os expulsa
antes do vencimento, O qu e ainda menos se vê, e só s e prati ca por razões muit o
ponderosas, o criado tem o direit o de não retirar o pegul ha], que assim conti nua.
a ser sustentado à cust a do lavrador até :finalizar o prazo do con t rato.
P ara os ent regues mensais de caráct er permanente (qu e al guns h á nestas
condições). embora vençam todos os meses, como se não des peçam ou se jam
despedi dos com antecedência de al guns dias, o silêncio deles ou dos amos.
signifi ca acor do tácito para continuação inddinida.
Quant o aos a judas, adoptam-se praxes semelhantes, se bem que nestes é
menos duradoira a est a bil i da de. Ou o rapazelho abala por sua vontade com ou
sem autoriza ção dos pais, ou o camarada o despede por moti vo fundamentado,
ou por qualque r n inharia, se não para m eter ou tro q ue mais lhe agrada.
Os que são filhos dos pró pri os guar da dor es conservam-se mais, mas nem por
isso se pode con tar com eles em a bsol uto.
Soldadas Variam bastan te, j á por efeito e indole das ca t egorias, já porque a
n atureza dos venci men tos subordina-se em ger al à es péci e dos gado s
a gua rdar e ainda a os cost umes t radicionais do sítio e m esmo das próprias
eceses». Se nã o o contrário, is t o é. molda ndo- se n os usos i mplan t a dos h á p oucos
anos por algu ns lavradores, u sos esses de car ácter in t eirament e opost o às velhas
tradições. Como quer qu e sejam, direi o bastante n o p arágrafo correspondent e
a cada grupo de ga nadeiros. Das soldadas que s e vencem a os meses, a di nheiro
soment e, r egulam ent re 4$500 a 5$000 r ei s m ensais ca da homem, a lém da i orre
da burra. O s a judas ve ncem a í 1$200 a 2$5cxJ reis por r a paz e mês, segundo a
idade e importâ ncia do seu papel.
D esde os maiorais a t é aos ajudas, t odos se alimentam à custa dos lavra..
dor es, por comedorias semanais ou mensai s, a conto. peso e medida, a via das
nos sábados ou n o fim dos meses, conforme se verá adiante no parágrafo
A liment ação.
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A T R A V I':. S DO S CANPOS
Pegulhais (t ) A nt igament e O dinheiro consti tuia a parte menos import ant e das
sol dadas. O que prep onder ava, e m u ito, ela o pegullrel, q u er fosse
excl usivame nte d o gado da espéci e que o ga n ndeir o pastoreava, quer t amb ém
i ncluísse «ca beças » di fer ent es. C omo por exemplo cabr as, que, além de se per-
mitirem 80S cabrei r os, também se fo rrava m a porquei ras e pastores, ou m esmo
égu as que, não as possuin do a maior parte d os egua r iços, eram p er mitidas aos
vaqueiros. I
R eprovando em absoluto as Forras. repr esentada s por gado diverso do que
o ganadeito apascenta e ainda de cabras n os ca bre iros. ( a) a:6,gura-se-me ac eitá-
vel e va ntaj os a para o l a vrador a concessão de pegul heis de gado idênt ico ao
que o gau adet ro ,g ua r da. P elo menos para os m ai or ai s que, Assi m l igados aos
inter esses do amo, n at ur al é most r a rem mais permanênci a, z elo e dedicação, do
que gan hando só a dinheiro. O si stema pode t razer prejuí zo a o lavr ador" se o
cr iado não for honrado. Mas n est e mu ndo tudo tem prós e con t ras e n ão há
medalha s em r ever so. N o caso sujeito, os prós evidenciam-se por ta l maneira,
que deixam n a pe numbra os con tra s mais ou men os hipotét icos.
Out r ora e h oje. os gua rdado res de gado miudo, quase t odos possu'iem e
possuem a sua burra, a uxiliar valioso para t ra nsportar mantimentos e lenha
pa ra as n ecessi dades de s uas famílias. Com pegulhais de ca bras poucos se en con-
t ram já. E dos out ros, constit uidos por a ni mais da espécie dos do r ebanho res-
pec tivo, só os possuem os m ai orais e algum en t regue anual, de estima e valo r .
D e onde se prova q ue os pego lh e is tendem a diminui r na proporção que
aumen.t am as urride.des em r ei s. D iver sas ca u sa s par a isso concorrem. Como
pri ncipal. aponta- se o excesso de abusos dos de agora, m enos escru-
p ulosos do que os a nt igos. S em n egar nem discutir o fact o, é t oda via certo, que
ou t ros moti vos igualmente influem para a va r ian te do uso. U m deles - fo rçoso
é di zê- lo - deriva de ent re lavradores e cri ados de confi ança ir afrouxan do
aquel a ar reigada e mú tua afeição, r esult a nt e da paternal be nevol ência e bi zarri a
dos pr i meiros e da estabilidade, honr adez e ze lo dos segundos . Qualidades e
vir tu des q ue ainda se encontram, mas que declinam evi dentement e por ... n ão
estare m na m oda . E é pena que assim aconteça. P orque essa mút ua e l eal dedi-
cação criava. antigame nte uma r eciprocidad e de direitos e deveres, de boa m en t e
sat isfei t os, h onredemente cu mpridos.
Tendênci as e há bitos N ão obs t ante a di ferença de soldada. de u ns par.
out ros ge n adeiros, n ot a- se qus a todos l hes chega para
conforto e abas tança superior ao dos de out ras classes semelhantes.
P or tais razões e por que o encargo de ga.nade'iro é dos menos fatitantes que
(t) Em tuml Dolo"a alu'ltjaDa o ... od bu!o IIt, ulb. ' ,ipHic. o alli ma l 01;1. allimab d. qu al Qllu pu . o. qut nio u j a o
l .....r . dor •• q1;l.' U II, por f . ... or . p.,a 01;1. fona , conUDo l1 DO' . uu nb'DLo• • oDd. pu ci,.,a cOllj 1;l.1Iu mll'l11 com o mail ,ado.
Ao' p,,"Ib. aI. do. ,alladdru umLfm .. Ibu cb .ma lorr... em dtlumlDad.. d rCllDIlla ci u .
(:1) t. iDCOIl"Vlitnl. a fona d. cabru aoa "' brl irol por 4'" a IIpu ..çio do I. ll t d...bnda do .lu do pI,ulh...I. pn Ua -u
fAcl1mla ta ao. abu , o. d. impouAllci.. b.tlall u , c"'lh cl.
Com o. putoru a i o podt baur .,11 coa tn, por Qut o Il h c .l u l U., u ' lIlcti ".. o....l h.. PUUDtc ao I.... n dor.
- 98 -
ATRA vt S DO S CAM PO S
se exercem nas herdades, parece que devia ter muitos preten den tes. P oís nem
por isso. Na ge nte moça então, é n otória r elutância à viela past oril. Se em
crianças a exer cem a co n ten to, pronto se enfadam, mal che gam a homens.
Nessa altura, preferem servi r nas ganharias, onde trabalham mai s. mas, sem
lhes cer cearem a folga e pândega do s domi ngos, nas aldeias. T odavi a aquel es
poucos que aí do s dezoito en os em cl ia nte cont inuam atrás dos rebanhos, po r
imposição dos pais, ou po r outro mot ivo forte, t omam tal afeição ao ga d.o e a o
campo que, como os deixa m, não mais quere m out ra ocupação e nel a permane-
cem por toda a vida . V êem-se ve lhos que n un ca fi zeram out ra coisa e só numa
classe de gado.
• • •
Os ge nadeí r cs são or di nàríame nte de índole re con centrada, f ugin do aos
adjunt os, (1) e a os e X c ~ S 9 0 S de t oda a ordem.
Entre os pastores, t id os como os mais pacatos de t odos, há, em maior escala,
cultores afamados da poesia popular, que recitam a quem lha que r ouvi r .
P or versos e décimas da s ua lavra ou de outros colegas, usam verberar q ual-
quer crime ou escândalo de sensação, s ucedido n os arredores, sobretudo os
adultérios e desfloramentos que se tornam de do mínio público.
Um cer to pastor exi stiu h á anos que pagou cara a afeição à poesia. T endo
armado vária s décimas de escacha para es t igmatizar um caso de sedução, não s6
zurziu a valer o sedutor, mas ai n da beliscou fort e n a s eduaida. Foi um a con t eci-
menta. À ve rs al hada causou f ur or, a ponto de correr impressa e ser recitada n as
tabernas e bail aricos, como pratinho indi spensável em t odo o géner o de reuniões.
Mas o pai da pe quena azoou com o sucesso e jurou vingor -se. M unindo-se
de um cacet e, a pr ese nto u -se 80 f est ej ado poeta, e, com bons modos, pediu para
lhe contar as «décimas da f l ha:l>, coi sa de fundamento, segundo ouvira dizer.
O solicitado h esi tou a o princípio, mas tai s r ogos ouviu e t ão envaidecid o
n cou, que condescendeu afinal. Recitou, reci t ou, mas, a certa alt ura, quando
estava no ze nit e do entusi a smo, o ouvi n te desanca-lhe o vara-pau em cima, e
-agor a o ve r eis c-c pespegn-Ihe uma tunda de rachar. N ão passou a pio r, pela
at it ade do po eta, que, suplicando clemência, sol tava calo ro sos protesto s de
arrependimento. F oi O que lhe va leu. D o contrá rio ter i a de ir para o h ospital.
se não para O cemitério. M as serviu-l h e a liçã o. Nunca mais armou décimas,
nem queria que lhe falassem em tal.
...... .......... ..... ..... ........ .... ........ .. ... ... .. ... .. ... ....... .... ..
0 3 porquei ras salientam-se pelo e er aeio, compost ura e assei o, qualidades
que bastante os carac t erizam. À est éti ca pr eocupa-os tanto, qu e se l h es n ot a no
vestuári o e nos apar elhos dos burras, i rrepreensivelmente pr epar ados e cuidados
por eles próprios.
h ) P or ..J/o:nlO' ... ellci oll....... II rlllllH5u d. illdelu... lll " do Ildmuo d. pU l OU .ntruido. UIl p.lutt.. 00 I b.b.rrl.
'Utal. ,... tl bllll U. A, ••lo...nlçllu d. ' .nte .... qallquer P. t te...b........•..·lbu ,ulld.. "à/unIU àe l .adIA•. 'fltlluniio
. 11110 pl.h. b . t llt tlld. ·u .
- 99-
AT RAVe s DO S C A M POS
Os cabreiros t êm fa ma de aluados, (I) especialmente n o pe ríodo da parição
das cabra s. Período de ex t raordi ná ri a r esponsabilidade, em que o cabreiro s e
considera imprescindivd e absoluto. S abe, que se en tão e be l er, outro estranho
que o s u bs titua, n ã o con h ecen do b em t odas a s cabras a ponto de as distinguir
umas das outras, natural é mal ograr..se-lhe a criação, por fa lt a de tino na
anlhação r espectiva.
Nos gan ade ir os. como em nenhuns outros críados rurais, persi stem hábitos
an t iq uíssi mos, merecedores d e referência. A ssim, como utensílios típicos, usam
os seguintes: azeiteiras, de chavelho de bovinos. para a z eite e vinagre; cornas
para leite; coxo ou concha de cortiça, para beberem água; bsrquino ou senão
de pele de chibo. para depósito de água fresca no verão; alforges de peles de
cabra, curtidas; colheres de chifre ou de pau de buxo; caldeiro de ferro, para
diferentes aplicações; tarro de cortiça. como vasilha dos almoços e ceias já
preparadas.
P ara os arrei os e aparelhos elas burras, s e except ua r mos a al barda, tudo é
por eles prepara do com peles de cabra, ovelh a e cão. A s de cã o apreci am-nas
ext raordinàriamente por se prest arem a mui tos usos, e sobretudo para tapetes e
cobrejões das a l bardas.
O cachei ro ( ca jado) , e 8S pedras são a s suas ar m as f a vor i t a s. A pedra usa-se
pr incipalmen te n a freguesia de Santa Eulália. onde a manej am com admirável
destreza, sem auxilio de funda. Ponto que mirem, é alcançado em cheio, mesmo
de Longe. como se fosse tiro de bala. Assim aproveitam f\ faculdade da pontaria,
p ara reconduzirem a o rebanho a s r eses transviadas. É processo simples, mas
tem o inconveniente de, por vezes, ocasionar fracturas ou outras diversas lesões.
Doenças de cacheiro ou de pedra, como se classificam, por ironia. em fr aseado
campesino. Que, os ganadeiros, como possam, atribuem se mpre esses desastres
a outras causas diversas.
Os porqueires adoptam também um comprido a aorre gue ou a çoit e, p or eles
preparado. e com que chamam à ordem os suinos arredi os. É um costume
excluaívo da região el ven se e vi zinhas, de magnífico resultado, s em os inconve-
nientes do cacheiro. Naquel e, n o ezorragce, reparam com espanto os estr a nhos
que o vêem em acção n as feiras e mer cados.
P or sua vez os pastores usam do grava. t o - vara-pau com ganch o de ferr o
numa das ponte s, com que [ê cí lmente seguram e apresam o len tgerc que preci ..
sam aga r rar . D esse s é que realmente se pode dizer que s ão apanhados a gancho.
À adopção da pedra, do cacheiro, a aoreegue e gravata , n ã o ímpede que
alternadamente muitos ga nadei ros usem da espi ngar da. n ã o por n ecessidade,
mas para caçarem próx imo dos r ebanhos. E entre e les encon tr a m -se escopetei ros
de truz, h abituados a da r bigodes aos caç a dores de profis são. S em emba rgo, e
mantendo os ve l h os h á bi tos dos da sua classe, t odos continuam a ser os mai ores
destruidores do s ninhos e criaçã o de caça. Os n inhos d e per diz es pri nci pelmente
procuram-nos com particul ar inter esse. Quantos encontrem, qu antos marcam
- 100 -
ATRAV-t S DO S CA MPOS
com sinais particulares. para l h es tirar em os ovo s em te rminando a po stura.
Tal olho têm para semelhantes descober tas que, por esse meio, tiram centenas de
ovos, com que pr eparam e comem apetit osas freginadas, num r equinte de sa t is-
fação gfutcna. Para eles, as leis do defeso. não passam de l etra morta, de que
zombam impunemente. Que lhes importa 8S leis, se menosprezando-as satisfa-
zem as exi gências do est ômago. sem dissabores e despeaes I D e mais, só assim,
comem ovos em abundância, não lh e custando ci nco reis.
Trajos característicos Àpenas a pelica e as botas de focinheira com pr esilhas,
também chamadas botas l ei t eira s. A pelica, consiste
numa espécie de albornoz de inverno, feita com peles providas de lã. U sam-na
principalmen t e os b oieiros, vaqueiros e pastores.
Às botas de focinheira, mais pr opriamente se deviam ch amar polai n as de
couro. O seu feiti o é parecidíssimo com O das polainas. De bota s só possue m o
nome e a sola correspondente. Nem cal çado são, p ois que n ão dispensam o uso
de sapatos. Pouco se u sam já, sendo de presumir que desapareçam de t odo. .
O mais vestuário é em t udo igual ao comum das populações r urais , referido n o
capítul o imediato.
Malhadas Aparte as vrsrtas a os domicílios n as vi.las e aldeias, onde geralmente
vão nas n oites de sábados e domingos, a pretexto de irem à roupa e,
de caminho, conduzirem n a bur ra a sua ce rguita de lenha-os ganadeiros pe r -
noitam n as suas r especti vas malhadas. (1) Ch oças r ústicas, que t emporàriament e
se adaptam a lar doméstico quan do por l á passam temporadas as mulheres e os
filhos dos maiorais e ent regues. Então atingem um cúmulo de arranj o, maximé
as dos porqueiros, que p el a su a n a t u r eza es tável , são as de maior de safogo e de
mel hor const r ução. Q uant as excedem em asseio e a bast an ça a m uit as habitações
ur banas de gente h umilde.
Except uando as malh a da s dos pastores, todas mais s e assemel ham às cuba -
t as afri canas, quero dizer mostrando a con figur a ção cóni ca e o r evest i mento de
mato. Aqui o revestimento é sempr e de pioxno. A s dos pastores, p el a circun s-
tância de ser f orçoso mudarem-se com fr equência e facilidade, são o qu e h á de
mais rudimentar em choças. Não passam de simples a bri gos, r eprese ntados por
uma cancela convexa, t ecida de colmo, amparada por duas mais pequenas, u ma
de cada lado.
Mas boas ou deficientes, de qualque r ganadeiro q ue sejam, tornam-se t eg'ú-
ri os quer idos desses rústicos indivíduos que passam a vida no ca mpo, atrás do s
rebanhos. Com pouco se conten tam tão prestimosos serviçais. Alheios ao bor..
borinho das multidões e aos trabal hos de es forços violentos, a existência desli..
za-lhes t ranquila e risonha, numa invejável paz de espírito. N as malha das ou
(1) Ttm u llp, llu Ult tutoml. P..,. o, boltiru ...d.. Ihu ~ .. plidn i, como i ' t i... oculiio d. diur. O, ·...quei r o' •
•f,unho' • nbniru t el oPlnc-Do ,plnu D. p al1" d. noil l qu e ni o rt putt m o. ,.elo• . Por UDt o .io o. porqu.it o•• p.noru
. qo.lu 11.0' m.h .pro..elt..lQ. ai lQ.. Il. .du.
- 101 -
ATRAv t s D O S CAM PO S
n os prados, a miudo se l h es proporci onam horas e horas de ócio, sobretudo na
primavera.. em que o gado come à fari a, abastecendo-se depressa. E então. ao
a r livre ou na choça, ocupam-se em entretenimentos út eis e pa ci entes, que dão
nome à chamad a indústri a pastoril. Pequenos objectos de uso caseiro, muitos,
a rtis ticament e escul pidos à p ont a de canivete, em madeira, cortiça e ch avelho.
Deles todos dou mençã o desenvolvida em artigo próprio, qu e se encontrará
n outro capítulo.
Chocalhos Todos os ganadeiros os possuem em qc an ridede suficie n te às n eces-
sidades dos rebanhos. Os porqueiros carecem d e poucos por não ser
cos tume en chocalharem- s e os porcos, p osto que isso se veja exc ep ci onalmente
num ou ou tro suíno de tendências vàdias. Mos os boieiros. os vaqueiros, egua-
ri cos, pastores e cabreiros, como tenham r ecursos, possuem larga provi são de
chocalhos, para, devidamente arreados, pr ender em ao pescoço dos animais,
deixando ou tros de reserva para suprirem extravi os e estragos.
No outono e n o inverno cada ge. nade'iro emp rego. t oda a loiça (t ) de que pre-
cisa e de que p ode di spor, preferindo a mai or e mais r etumbante. N a pri mave ra
e verão conservam apenas a miuda e só numa ou outra r ez d e cada r ebanho.
O luxo e vicio mais vu lgar en tre gan adeiros sã o os chocalhos. Di spensam-lhe
os melhores cuidados e n el es empa t am ca pital i mpor ta nte. que gastam de boa-
mente, com ufania. É n otória a emulação qu e a este respeit o h á de u ns para
com o u t ros. Tamhém mer ece reparo a u sança de se procur arem r eci procamente
para fa zer em trocas e compras do artigo em questão, comentando os recursos e
o gost o de cada qual na mat éria supradits.
Os chocalhos fabricam-se nas Alcáçovas, vila do di strito de Évora on de
se ve n de m para serem revendidos nas feiras de t od a a província. Q ue a l oiça
grossa, de maior preço, é mais fre quente adquirirem-na directa men t e n a l ocali-
dade do fabrico onde os maiorais igualmente vão o u mandam con ser t á- la.
Nos diferentes modelos de choca l hos h á as segu in tes variedades: Tipo
gra n de - Mangas, sem-serras, csstelbenes, etc. Tipo pequeno - chocalhas, cam-
pani1hos, pícsdeiros, chuca1hinho" et c.
Com a mesma designação de loiça, e para a plicação análoga ao dos choca-
lhos, mas restringida a os bois e cabras - usam-se t ambém os esquil ôes e a s
esquilos - espécie de sinetes reduzidís simas, de toada semelhante à das campai-
nhas. Entre os esquilões, há os toeiros, de som âsper o, e os finos de som agudo.
E. mais um terceiro modelo - as sinetes - o maior d e t odos, ali ós pouco u sado.
E.mpregam-se somente para adorna r os boa s j untas de bois ou n ovilhos q ue se
apresentam n as feiras.
Por aqui finalizo as n otas mais o u menos comuns a todos os gen adeiros.
A s referentes a cada especialidade, adiante se encon t ra rão.
(1) No• • coa qlll 01 'lftaddl'OI dul'aA1ll , cah lc amCftl C Ioda . el .... de ch oc. U.o•• u qul i õlI.
102 -
AT RAV r- S DO S CAM PO S
Guardadores de gado vécuum
Compreendem: Boiros- Vaqueiros - Açougueiro - Novilbeiro.
Boieiros Pela circu nstân cia de, alternadamente, trabalharem com os gan h ões,
a sua descrição figura ent re os criados de lavoura prõpriamente dita,
como se pode ver de página. 70 a 74.
Vaqueiros S ão dois: mai oral e a juda. Se a vacada é muito grande, e por esse
fa cto se di vide t emporAriamente em dois rebanhos, um, o das vacas
paridas e prenhes, cont i nua a cargo do vaqueiro e ajuda. O outro, das reses
novas e forr as, ch amadas de elieiro, confia- se a entregue extraordinário, que
se designa por elieireiro.
A os vaq ueiros cumpr e apascen tar a vacada, sendo o maioral particular-
mente in cumbido de afi lhar 8S paridas, pr en der e soltar os bezerros «à esta ca», (I)
assinalá-los D a s orel has durante esse período, e bem assim. retemer ( I ) as mães.
quando precise desmamar-l h es as cri a s.
Sold adas: O maioral gan ha a proxi madamente 72$000 reis anuai s, n ão tendo
pegulbal , P oss uindo- o, de uma ou duas vacas e égua, senão somen te égua ou
vaca. vence menos em di nheiro o valor a tribuído aos pastos dessas forras - 18
a 20$000 reis para os da égua e 9 a 10$000 r eis para os de cada va ca. Alguns,
sem pegulhal , ganham, além da ve rba em reis, uma cer ta quan tidade de t ri go
ou cente io, q ue ig ualmente r eduz o venciment o em dinheir o.
Açougueiro Apasce nta a sç ougeri e, isto é, a s reses bovinas apartadas para:
engor da e ve n da com destino aos açougues públicos. O encargo de
açougueiro dura desde ianeiro a t é mai o ou junho. À sol dada regula entr e
4 a S$OOO reis por mês.
Novilheiro Trata ex clus ivamen te da a pascentação dos n ovilhos, se es tes são
tan tos que n ão convé m trazê-l os n a va cada ou boiada. o q ue só
sucede nas la vouras m uito gra ndes . N es ta s mesmo. eIgume.s h á. on de seme-
lhante ocupa çã o dura a penas alg uns meses . A soldada r egula pela do açouguei r o.
Guardador es de gado c aval ar
Limitam-se a o eguBriço e, muit o excepcionalmen t e, a u m ajuda e a um
poldreiro.
Eguariço Como ú nico encarrega do da mana da das éguas, moi s se design a por
~ g U 8 r i Ç O do que po r maioral. O s se us pri n cipais deve res são : guar-
d81' e apascentar a manada; r eparar n o. viciação das éguas para quando est ejam
(I ) Pr lll.dcm-.a • Ulau, 11.0' primliro. dI .. d. D....c1do• • por h u m pouca r u iu lod a para . comp.abarem .. .., lu 11. .
, ulod., 0\1 pu . 11.10 m.m.um .= tXUIIO. qU' lI. do .. mlt. 11m hlh • .., . hundlnd • • da .ohal o.
( s) huul1l u r ItmporbIlLaaDla .. tu.. ela 'u u por qo.lqocr proullo 'lu" olnu • m. m. d... crl...
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ATRAVÉS DOS C AMPOS
aluadas (1) as levar ao lançamento, regulhando-lhe os saltos, pelas horas e
intervalos em uso; assistir e dirigir esse acto, p eando antes a égua 8 cobri r e
segurando-a pelo cabresto durante a cópula: fiscalizar o lançarote, repreen-
dendo-o quando lhe notar abusos, negligência ou desleixo; usar de t odas as
cautelas possíveis para a parição da s éguas ir a efei t o. sem desastre nas cr ias;
tomar a direcção da cobra nas debulhas das eiras, muni do do competente açoite;
tosquiar as crinas e rabadas das éguas e po ldras ; l embrar enfim a ferragem das
mesmas nas vésperas de debulha, e a elavefeeâc e referração precisas durante
essa fai na. D e verão, se 8. manada é grande e avultados os calcadoiros a debu-
lhar, o eguariço tem a juda exeracrdí nã e íc, saido dos ganhões, o qual governa a
segunda cobra.
Soldada : S endo só a dinhei ro, oscila entre S4 a 72$000 reis anuai s. Ganhando
t rigo ou cent eio e Forre de égua, ou só uma das duas coisas, abate-se-lhe o
correspon de n te à média desses valores. O s pastos da égua reputam-se entre 18
a 20$000 rei s, como já disse.
Poldrei r o É o encarregado da pasto reação do s p oldros e mach os de um a dois
anos. Em ge ral, s6 se t orn a necessário n a primavera, ou n ou tra
época em que, por qualquer circunstância, se i mpõe a apartação do gado n ovo.
Por-q uelr- c s
Afora os ra pazes ajudas. de que nada temos a especificar, o grupo dos
po r quei ras compreen de:
M a i o r a l ~ que é o chefe.
E nt regue das porcas, o que guar da 85 porcas par idei r as.
Farr oupeiro, encarregado da corrida dos larroupetes ou larroapos.
Vareir
n
, o que anda com a vara ou porcos de engorda.
E ai nda outros entregues, sem nomenclatura especia líssima, por i gualmente
a n ão t erem os r ebanhos em que se empregam.
T odos em geral, e cada qual r es pect ivamen t e, in cumbe- l h es o tratamen to
do r ebanho a se u cargo, bem. como a conservação e assei o da malhede, já pro-
cedendo a pequenos r eparos, já renovando com frequê ncia as camas dos porcos,
de modo a haver a máxima limpeza n as pocilgas e pocilgôes.
Q ua ndo as mal hadas, de construção rúarice, carecem de consertos grandes,
aos po rq uei ras i ncumbe executã-los, com auxílio de pessoal es t ra nho.
A condução da comida para os por cos igual men te lh es compete. transpor-
tando-a nas suas burras. do cele iro para a malhada, se a quel e está próximo:
ficando l on ge. dispensam- se desse ser viço.
Ma io ral Além da fiscalização que u ma vez por outra, nas hor as di sponí veis.
deve exercer sobre os entregues, incumbe-lhe muito parricularmente,
a a6l h ação das porcas e a criação das bacoradas. Esta é a s ua maior e mais
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A T R A v t S DOS C AMPOS
espinhosa missão. Para bem a exercer, não g'uarde rebanho al gum, grande parte
do ano, passando quatro meses ou mais na malhada respectiva. U ) ora a assea r
com escrúpulo as várias acomodações das porcas e bácoros, or e cuidando da
alimentação das mães e fi lhos, principalment e dos bácOIOS, que, até completa-
rem dois meses, carecem de cuidados constantes e especiais.
À medida que as porcas vão parindo. cu mpre - lhe di stribuir com equi dade
os leitões r ecém-nascidos , para que umas n ão continuem sobrecarregadas em
demasia e outras nimiamente poupadas. P or t a nt o. às de maio r prole ou fraca s,
deve subt rai r os bacorinhos em exces so, matando os r aquíti cos e aproveita ndo
os i mediat os para os r eunir e amament ar às o utras menos fec un das ou r obustas .
E qua ndo a ssim n ão chegue m para rodas o ca r em bem afilhadas, terá de ir pedir
lei tões às malhadas dos colegas vizinhos. onde po r certo l hos darfio se lá sobe-
jarem. como igual men t e ele os cederia. dan do- se o. h i pótese inversa. É da p raxe.
R eali zada a desmama dos leitões, o maiora l forma com eles u m r ebanho de
que continua a tra t ar n ão só na malhada mas por fora, em pastor ia, com auxí-
lio de e iuda. E, com os b âcoros per manece até às vésper as de nova par ição,
época em q ue os con6.a a o ut ro po rqueiro, para se ir de dica r à - cr iação em
perspectiva. E nt reta nto as porcas não parem, t rat a de pôr em ordem as pocilgas
que lhes destina.
A a ssina la çã o dos leit õe s na pocil ge, a escolha de marras para casta e dos
bãcoros para varrascos, a castração dos s ui nos machos, e a assistência à mesma
operação nas fê meas, sã o outros deveres imperiosos do maiora l, como ta mbém
lhe compete proceder ao enca beça men to do montado, se disso o amo o incumbe.
Sol dada: ' Con si st e n o pegul h el e em di nhei ro. O pe gulhel é forrado em
condições tão di versa s de umas para outras «ca sas», quanto ao número de cabe-
ças pe r mi t idas e 8 0 t empo de per manênci a das criações de b âcoros, que se não
pode menci onar com a bsol uta exact i dão. Salvo ligeiras vari ant es, aproxima- se
do seg ui nte : uma burra, porc a a6.lhada e uma ca beça de engorda na vara.
P or «por ca afi lhada» subentende-se o su stento de uma porca parideira e o
das s ua s duas criações anua is, de 6 a 7 béccro s cada uma. Se a por ca par e menos,
ou se parindo sei s ou set e, l he morrem algun s ou t odo s, d urante a época conven-
cionada para o s ustento à custa do lavrador , o por que i ro te m o direito de pr een-
cher as fal tas com bâ cor os da mesma i dade. que adquira em qualque r par te.
Doutrina esta i gual m ent e a pli cável pa r a as forras de cabeças a dultas que lhe
venham a falt ar .
A forra da criação erv íçs, na scida em dezembro ou j aneiro, dura a proxima-
damente n ove meses, ou se ja a t é a o «S. M iguel . seguinte ; a montanheira,
nascida no 6.m de junho a princípio de agosto do ano anter ior , t ermina também
em setembr o, qua ndo os bãcoros t êm 13 ou 14 meses. N es ta a lrura, já está nas-
cida uma n ova criação montanheira, que prossegue cr iando-se, par a sai r em
igual tempo no ano i mediat o.
ti ) tm d Ual bOCal d. doft: m., u ced. \1 m• .
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ATRAVt.S DOS C AMPOS
Daquel es de nove meses ou dos outros de treze a catorze, o mai or al r eserva
um para corrida como far r oupo, afi m de. n o cno seguint e, O m et er n a var a.
Quer porém h aja ou n ã o es te cost ume. :fi ca en t en dido que os nove meses
para os erv iços e 0 9 13 a 14 par a os montanheiros, são em regra os prazos
máxi mos esti pul ados para a s u a p ermanência no p egu lhel. D evo p orém advert ir
que, tão longo prazo, pod e considerar -s e cost ume exclusivo das «casas» dos
lavrado res (aliás bastante s) que usam vender as hecore des pelo «S. Mi guel »,
incl uin do, n a venda ou ven das, os b ãcoros dos criados, por preço ig ual ao dos
seus, em ig ualdade de ci rcu n stânci as.
N as «casas» dos lavradores, que vendem as cria ções s uinas antes de setem-
bro e nas de outros que, ado pt an do sis tema oposto, as con ser vam indefini Ja-
ment e, para as r ecr earem e engordarem. - os béccros dos pegul h ei s são. em
ger al, ven didos ou ret irados antes de te rem a i da de atrás referi da . sen ão todos,
alguns pe lo menos.
Se, como prát ica j á r arís si ma, o pegul hal ve'i além dos usos mencionados,
compreendendo também f orras de corrida - neste caso prossegue uma das
aludidas criações (no t odo ou em parte), que o l avr ador conti nua a sustentar
depois do «S. Miguel». não como criação, mas como farr oupet es de corrida no
montado, e nas ervas até ao fim de maio, coroo {err oupos. S ó até ao fim de maio,
t empo em que fatalmente hão-de sair. à excepção da cabeça para A. vara qu ando
tal forra haja, o que nem sempre se verifica . Havendo-a , está cIaro que o
correspondente farroupo conti n ua a permenecer, at é engordar, no mon ta do.
O pegulhel com po rca a6. lh ada e simultân eamente i erroupos na corrida e
cabeça na. vara, ati nge uma i mpor tância t ão avultada. que poucos existem
nessas condições, embor a em tal hipótese a ver ba em di nheiro se reduza a 9 ou
1 0$000 r ei s anuais.
N a ac t ualidade, a sol da da vulgar em maioral de porcos, de «casa grande»,
con sta de 24 a z7$coo r ei s anu ais e do pegulhal de forras semelhantes às que
al udi em princípio, isto é, à burra e à porca, com as criações mais ou menos
demor adas. O qu e tudo monta a verb a relativamente im por t an t e, se as criações
vingarem e se venderem por preços medianos ou altos. Assim como também
pode licar rel es e ín6.ma, no caso de morrinhas ou de preços bai xos no gado.
P a ra o l a vra dor sempre sai bastante dispendiosa a solda da. em que predomina
o peg ul hal de porcos, atenta o elevado custo da sua manute n ção. O duplo ou
o t ri plo do que ant es era, já pel o maior valor das r a ções, já por hoje se t ratarem
com mais abastança do que outrora.
P ara se a quila tar isso com aproximação, darei mais adiante uma nota de
tal despesa, di scr imin ada po r parcelas. Cust o par a o amo, bem entendido, por
qu e para o criado só r epre senta um pequeno emprego de capital, com probabi-
lidad es de auferir l ucr os que n unca ganharia. acomodendc-s e a di nheiro
so men te. Com o pegulh el pode sair -se em médi a por 150$ 000 reis e muito mais
em alguns anos, ao pass o que sanhando dinheiro apenas, somente vencerá uns
90$000 rei s quando mui t o.
106 -

ATRAV e s DO S C A M P O S
Antigamente maioral e entregues de porcos, todos tinham o pegulbal
avolumado com Forres de 10 ou 12 cabras, ent re os rebanhos dos suinos, mas
só nos meses de janeiro a nns d e s et embr o e princípios de outubro. Nos três
meses restant es (época do montado), era do ajuste rerirarem-nes, indo col o-
cá-Ia s fora de Invernadouro, pa gando os maiorais 400 a 600 r eis p elos pastos
de cada ums. Àcabaram de t odo essas iorres, verdadeira anomalia, que nenhuma
razão justifi cava.
Entregue das p o r c ~ Guuda e a pascenta as porcas criedeires, conduzindo-as
à malhada. tan to à n oitinha par a l á pernoitarem. como
ao meio d ia (estando paridas), para darem mama 8 0S b âcoros.
Ao a proximar-se a pari çã o da s mesmas cumpre-l he vi gi á-las a ten tamente,
provi den cian do" p rimeiro. para qu e vão pa r i r às po cilgas e não à revelia
no ca mpo" onde se lhe podem fà cil ment e est ragar os l ei t ões j segun do "
acudindo de p ronto aos ba corinhos recém- nascidos das porcas que esca-
param à sua vigilância" devendo n esse caso conduzir logo mã es e fi lhos para
a re specti va malhada . É também do seu dever auxiliar O mai oral n o acto da
.lilhação.
Soldada: sendo ganha por h omem de co n6.a nça e sabedor, a pr oxi ma-se
da do mai oral, diminuindo um pouco na verba em dinheiro e nas forras que"
em ger al. não abra ngem farroupos nem cabeça de engor da . S e porém a soldada
consiste apenas em r eis" o que é frequent e e próprio de entregue just o aos
mese s, r egula aí por 5$000 reis cada mês.
Farroupeiro Entregue Incumbido dos farroupetes no tempo da corrida e
dep oi s das mesmas cabeças també m, ma s já como farroupos n as
ervas e 88ostadouros.
À sua solda da é em t udo semelhante à do ent regue das porcas" havendo
igualdade de a ptid ões entre ambos. Quer o di zer se o farroupeiro tem pe sulhal.
é em condições i guais às do do entregue das porcas j se 8anha dinheiro s óm ente,
anda também i ss o por qus nt ta anál oga à do outro" em hi p6tese igual. Pode
gan har um pouco mais. se a fa r roupoda for gr an de, o duplo ou tripl o da
ma nada das porcas" como é Frequente suc ede r.
Vareiro Encarregado de vara. de engorda n o montado, desde O 1.° de n ov em-
br o ou antes, at é à venda dos por cos .
O va reiro ou é um entregue qualquer, que n o tempo de vara. t oma est e
encargo, ganhan do portanto soldada semel h an t e às duas ú lti mas r eferidas, ou
se acomoda expre ss a mente, para o fi m em qu est ão" a 4$500 ou 5$000 r eis
por mês.
QU9. Isquer out ros porqueiras ent regue" que ainda haja na mesma «casa»"
nã o tê m n ome especí fico. À ssim, àque les que guar dam bácoro s n o impediment o
do maior al" claama m-se-Ih es apenas ent regues e n ão becoreiros,
- 107 -

ATRAVJ'.S DO S CAMPO S
Cuslo colculobo 6 $0160bo be um pcrqullro. com pfgulhol be crioçbo e cobll' no cl"'"
c
Criação erviça
Ervas da porca (de janeiro a maio) .
Rações pa ra a porca, nos meses da cri ação erviça (j aneiro e
fevereiro) .
Sustent o «a saco» dos 6 bâcoros, desde os 30 dias de nascidos
at é fim de maio, ou sejam 120 dias, ao preço de 18 reis
por dia e bácoro .
A gostadouro dos mesmos, nos meses de junho, julho e
agosto, 8 700 reis por cada .
R ação para os ditos bécoros, no mês de setembro, ao preço
de 20 reis por dia e b âcoro .
Total da despesa com 8 criação etviçs, até à venda pelo
S. Miguel .
Criação montanheira
Agostadouro de porca (j unho a setembro) .
Sustento dos 6 béccr os montsnbei ras, desde os 30 dias de
nascença (fim de julho) até entrarem no mat o a comerem
bolota, ou sejam 90 dias de comida « 8 S 8 C O ~ , custando
a ração 18 re is por di a e bácoro .
M ontado de corrida dos mesmos, calculando o preço de 2$OCO
re is para a mont anheira de cada um, em toda a época .
I dem, i dem, para a porca
Sustento a bagaço dos ditos 6 b ãcorcs, desde que termina a
migalha ou retraça (fim de jan ei ro) até meados de
março - uns 4$ dias, a 10 reis por dia e b âcoro .
Cust o das ervas para os mesmos, a âOO reis cada um, desde
janeiro a fim de maio .
A gostadouro para os aludidos bécorcs, de mai o a fim de
agosto ou setembro, a Boo reis cada.
Total do custo da criação mont anheira. até aos 13 ou
14 meses
Ervas do farroup o
A gostadour o
Corrida .
Forra de uma cabeça de engorda no montado.
Pastos de uma burra .
Soldada a dinheiro
Cust o tot al da sol dada (excluindo comida).
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600
1$500
12$960
4$200
3$600
1$.500
9$720
12$000
4$000
2$700
1$800
4$800
600
1$400
3$000
22$860
36$520
5$000
12$000
4$000
24$000
104$380
ATRAVÉS DOS CAMPOS
Pastores
Pondo de par te os ajudas, que n ada ofer ec em di gno de menção. os pastores
consta m ; do maioral das ove l h as, que é o ch efe ; do carneireiro, que gUBr da os
carneiros, e de dois, três ou quatro entregues mais, sem denomina ção es peci al.
por igualment e a não terem os rebanhos que apascentam. Quando s e a pa'rta m
os alavões-rebanhos de ovelhas que na primavera se or denham para o fabri co
do queijo - . os entregues e ajudas r espectivos, chamam-se-lhes alavoeiros.
Os pastores - a lé m d e gua rda rem e a pas centarem o gado ovino - cumpre-
..lhes mai s o segu in t e : mudar os bardos, Ou r edis, uma ou dua s vezes por dia. h )
conforme a época, para aprov ei tamento dos estr umes ; li mpar as reses das
eagaitas vol umosas qu e se l hes formarem na l ã, próximo das t etas, dos testículos
e da cauda; ca t arem, com a t enção, o s eu r ebanho, logo q u e o suspei tem invadido
de ronbe ou de bexiga, marcando a s eca beçase q ue en contrarem atacadas, pro-
cedendo ao seu imediato curativo ( 2) e r epe tindo- o enquanto for necessário; fin al-
mente, re gular as horas da solta e r ecolhiment o dos animais, em harmonia com
a época, escessês ou abundância de pastos, condições do gado e estado do tempo.
Maioral Chefe de t od os os pa stores, apascenta ig ual men te um r ebanho, sem-
pre o que demanda mai or dedi cação e cuidados. A ssim, n o outono
e no invern o, anda com O das ovelhas próximas a pari r e as r ecém-paridas. o u
seja a chicada mais nova. N a p ri mavera e n o ver ão, guarda o dos borregos
ou borregas, e na falta de stes, out ro que t ambem careça de past or experimen tado.
Afora os dever es comuns a t od os os pastor es, cumpr e- lh e : de acordo com
o lavrador e em result ado das or dens e autorizações que tiver dele, indagar do
passadio e do estado san i tá r io dos rebanhos, fiscalizando os entregues
e re comendando-lhes O que fo r conveniente; empregar as cautelas possíveis
para diminuir as probabilidades de invasões epizoô ri cas, se mpr e que essas
doenças existam n os gados dos vizinhos; es fo r ça r -se por at enuar semel hantes
est ragos q uando por ventura a mol éstia a comet a aquel es que estão sob a sua
r esponsabilida de, já obrigan do os entregues a empregarem os t ra tamentos que
lhe fo r em re comendados. j á auxili ando- os nesse propósito. M ais l he com pete:
contar, de vez em quando, o gado t odo. inquiri n do do número de r eses morta s
e da s supost a s ou verdadeiras ca usa s que a s vitima ram, parti cipando tudo ao
amo, prender as ovel has r ecém-paridas que regei t em as crias para , deste modo.
conseguir que as a cei t em afi na l, como é provável; dobrar os borregos, quando
seja m menos que as ovel h as. por efeito de morrinhas; assinalar nas orelhas.
o ga do novo e bem assim cortar-lhes o rabo. se este antigo costume ainda per-
sis ti r; fe rrar no f ocinho, com o ferro da CC8 s a » e durant e o inverno. os maIatos
e maIatas ; com a uxí lio dos ent regues. rebeisr, n as vésperas de se e per ter em os
110 m. l. ,,,11.1, mud. u m·,. o. b.rdo. UIII. na por dia , DO' m.." d. nlllll bro • f ..,.. nír ol dll " , de m . r ~ o . fi ...
d. IAlío : 0:11 ., 'al jou o• • d. dali lIA do" d I.., doralll.t. O .eri o.
f2\ Pilo. pr ouuol ' I n lal l lll.t. ro u1o.l cld ol d. t odo. o. p" IU"• • UIA d. O'l;tto. 4uc 110.. fonal l.. dJudo•• 1' (11I 0 uni
I Dtl JO d. n fuir , 4o" IIl. J o tntu do.....10•.
- 109 -
A T RAv t S DOS C AMPO S
alevões, 8S ovelhas re sp ectivas, tosquia n do-l hes a l ã dos ú beres e partes VIZI -
nhas que estorvem o or de n ho; fa zer as apa rt ações con se n tâneas a cá da época
e às n ecessidades de ocasião; escol her os borregos p a r a carn eiros de casta;
capar os maIatos e os ca rneiros incapazes de prosse guirem com o r eprodut ores ;
refugar as badanas, assinal ando-as ; marcar a ca l branca n o ga do p r eto e a pés
no branco, t odas as r es es Ianigeras, uma vez por a no, quinze dias depois da
t osquia; repeti r o mes mo s ina l ou pôr ai nda outro, nas part idas de gado qu e
forem a qual quer f eira ; assi stir enfi m ao tendal da t os qui a. superi n t enden do
e a uxilia ndo esse serviço.
S oldada: A n t igamente consist ia numa simple s moeda de ou ro (4$800 r eis)
anual e no peguLhal que era i mport antíssimo. H a vi-as de 100 a 150 ovelhas,
burra, doze cabras e os respect ivas criações.
E.sse sist ema tem-se mcdífica do, mi n gua n do as f orras à proporção que
se el eva o ve ncimento em reis. H o je a s ol dada corrente do maioral de ovelhas,
de «casa g [ a n d e » ~ r egula a proxi madamente pelo seguinte : z4 a 27$()(X) reis e as
Jorras de 60 a 80 ovelhas, burra e as res pecti vas criações.
T a nto nout ros t empos como na a ctualidade , o leit e das ovelhas dos past ores,
pert ence ao l avra dor. O s ou tr os produtos - lã e cri as - . const i tuem r ecei ta
absol ut a d os donos dos pegal ha is. A l ã vendem- na conjunta mente com a do
amo e por p reço igual; os borregos t êm de sair até ao S. P edro, prazo máximo
para a s ua perma n êncía n os r eba n h os do lavrador. A cr ia d a b u rra deve
r etirar a o ano de idade, por a t ingir o limite per mitido pa ra es te gé nero de
i orres,
Entregues Acomodados a dinheiro, sem mais forras que a da burra, ga n ha
ca da um 4$Soo a 4$800 rei s por mês.
Ajustando-s e com pegulhel, vence cada u m 12 a 14$000 r ei s anuais e as
torres de 40 a 50 ovelhas e o. de uma burra, t udo nas condições esta bel ecída s
p ara o mai oral.
Alavoeiros Costumam ocupar - se dois para cada al avã o. Tanto podem se r
entregues de carácter per manente, como outro s, acomodados de
propósi t o para este fim.
Seja como fo r, desde que n ã o ten ham pegulha], vencem 4$800 a 5$<x>o re is
mensais ou uns Soo ou 1$000 reis mai s por mês d o que estavam ganhando
como s impl es pastores . A subida jUSl ti6ca-se pelo encargo d e ordenharem as
ovelhas duas vezes por dia, com o auxí li o dos roupeir os. Os ala voeiros são
também grat ifi cados com um queij e ou r equeijão por dia, afi m de muda re m os
epriscos h l t odos os dias, e n ão de longe em l on ge, como a n t es s e pr a-
t1Ca\·8.
(zl E tUlIlh..o1o; i• • 1I nllj lll.. o' all ri.to, nl o alo o. budo. o",d. pn. olt..... CllI ah4...t r.... o ri ...... ....IU .i.... ' Cl u. lu
. 1I c111.1 t. dfllia.do. ' 0 IIrdul. },o d.. 0...11. ...
- 110 -
A TRAv t S D O S CAM P O S
Guardadores de gago caprino
Cabre iro Cost uma ser um a penas-maioral e entregue de si próprio, pOI assi m
dizer, durante os meses em q ue as cabras não trazem cr ias a mamar.
Mas desde que parem (de out ubro a dezembro) até à desmama dos chi bos (prin-
cípio de março), O ca br ei ro é auxiliado por um ajuda.
Ao cabr ei ro cumpr e : apas centar a cabrada com todo o zelo, não t endo
preguiça em l he dar o r epast o da noite ; coadj u var a construção do bardo, dos
chiqueiros dos chí bos, e da choça para el e ; afilhar as cabras com o tino pr eciso,
de modo q ue , logo de princípio, conheça o chibo ou chi bo! que pertencem
a cada uma, para dist ribui r os fi lhos pelas mães. e nunca os bar al har, arri-
mando-os a estranhes. o que transt orna o bom êxito da a6. 1ha ção ; or denh ar
com presteza e regularidade n as horas; fazer as camas n os chiqueiros, reno-
vando-as q u ando seja n ecessário j a ssear o bardo, varrendo- o a mi udo; l avar
os Ferrados do leite; a ssinalar n as orelhas a cr iação ; ferr ar no foci n ho. com
o fer ro da «casa», os anacos e chibsrros, durante o i nverno; escol her os chibos
e chi bas para ca sta; ca par os que for n ecessário j r efugar o sado velho ou acha-
cada, par a o a mo o vender; etc.
N a or den h eção. cumpre-lhe ser cu idadoso. saceando t od o o leite que n ão
for indispensável a os chibos. Fo, se estes já não mamarem. mais escr upuloso
e completo deve ser o ordenho. Em tais circunstâncias, o leite que ficar nos
úberes, r epres en t a p re juízo para o lavra dor e dano par a a s cabras. A s que são
muito l eiteir as podem enseril b. ar-se {chagarem-se- lhes as t etas), n ão sendo
bem mungida s.
Sol dada: C onsistia a n tigamen t e em 2 a 3$000 reis por mês e o pegulha]
de burro. e 12 cabras, ou. em subst i t ui ção, 15 a 20 chíbos. O leite das cabras
vendi a-o o maioral em su a casa, ao público, ou queijnve-o por conta própria r
as crias de sfazia-se delas por ocasião da desmama, em março, ou pelo ..5. P edr o»,
tempo em que fatal ment e h aviam de sai r . Sendo a s forras const it uídas por
ehibos, o cabre iro comprava-os aos 4 ou 6 meses de idade, para os vender n o
ano seguinte como anscos. Lucrava a dif erença do val or de um para out r o ano.
E ste costume, que ainda vi gora em al guns concelhos, es tá exti n t o no de
Elvas. onde, par a o caso em questão, só se u sa a soldada a dinheiro -
4 a 5$000 reis por m ês.
Chibateiro R apaz ou h omem qu e gu ar da e a pascent a os chibos ou chibatos.
Na maior par te das «casa s. é ocupa ção t r an sit6ria, limitada
à primavera e verão. A s oldada r especti va vari a sensivelmente. Se as cabeça s
a guardar são pouc as e n ovas, e a s guarda um rapaz, este vence 1$200 a 1$500
reis por mês ; se pelo cont rário, o sado é adulto e numeros o, e o apascent a
qualquer homem, a soldada el eva-se a 4$000 reis mensais.
Alfelr elr os
São t odos os entreguee de qualquer especie qu e se ocupam com rebanh os
111
-
ATRAvtS DOS CAMPOS
de s lleiro. Por aIFeiro denomina-se o gado novo h l de um ou de ambos os sexo"
que constituem rebanho em separado. sem nel e se misturarem reses paridas ou
de prenhez adi antado.
ALIMENTAÇÃO
Em regra, a ali mentação de to do o pessoal de u ma lavoura é à custa do
lavrador. O guarda de h erdades, os genedei eos e poucos mai s, fo rnecem-se po r
meio de comedi as ou comedotias, (2) a viadas n o fi m da semana, senão às quin-
zenas ou a os m es es, como por ex cepção t ambém s e vê.
O pesso al do monte. a ganhar ia, a carraça, os carreiros e out ros, tê m comi da
preparada por conta do amo, em harmonia com os us os e práticas, qu e mais
adiant e menciona.r ei.
.. .. ..
O s avios que competem por semana a um homem ou r a paz, j usto por
comedo rias, são 09 seguintes : 9 a 10 quilos de pão; 31S gramas ou três quartas
de t oucinho ; 3$ centilitros ou um quartilho de azeite; dois litros ou um s elamim
cog ul udo de legumes e sete queij os. Estas são as chamadas comedias direitas.
que. sem embargo. não constituem r egra geral ou inal t eráve l, a ntes vari am um
pouco de «casa» para «casa» e de ocupação para ocupação.
Noutros tempos, quando os po equei'ros e pastores dispunham de pegulhais
completos e grandes. os mantimentos que venci am limitavam-se ao pão, azeite
e legumes, n ão tendo queijo nem toucinho. po r se entender que esses víver es
eram de sobeio supridos respectivamente pelo leite das ca bras, rendimen t o da
l ã e engorda do porco n a vars.
De há a nos para cá t em-se banido t al sistema, generalizando-se o das
comedorias direi t as - único raci onal.
A os sábados, todos que as ga n ham, aflu em aos monte s com as éguas e
bur ras, para se avi arem do s seus mantimen t os e da s p errumas para os cães.
T udo por conta, peso e medida, a que eles próprios assistem, para verificar em
a exa ctidã o. Aviados de vez, carregam as bestas, dependuram-lhes os azeitei r as
das albardas e assim marcham com as comedorias para as malhadas ou domicí-
lios, de onde os vão consumindo. Há porém ge. nadeircs q ue deixam no monte os
legumes. o toucinho e parte do azeite, para lá lhes prepararem as ceias e eles
ou os ajudas as irem buscar nos tarros todos 09 dias à tarde.
Os boieiros raríssimas vezes tê m mantimentos. O u su al é receberem comida
feita, como se usa para os 8anhões.
O s cabreiros durante a ép oca do ordenho, não recebem azeite para almoços,
pois que, em vez de açorda ou coisa semelhan t e, almoçam leite quanto querem.
.. .. ..
O pessoal do mon te, de portas adent ro, al moça janta e ceia, em todo o ano.
a horas i ndete r mi nadas, que se reta rdam ou adiantam con forme os afazeres.
h) D. um • 1rh .ao. "O , ..do . ' e.... m • • ••l ar• • d. '''0 .. . no • m. io .. o. l ulaGl, t . nll uo•• .. o• •
!. Ift ll a, u.,. m phhli••mpu,.·.. o d• .:om.,J... . aio o d. comeJorl'J.
- 112 -
ATRAV l!. s DOS CAMPOS
Os almoços constam de umas sopas quajsquer, ou mi gas; o jantar, de olha, (1)
e as ceias, de sopas de leite, de atahefe ou açorda, queijo. azeitonas. etc., etc.
O pão é de trigo ou de centeio, conforme os usos da ecasa». Para os ca r pin t ei-
ros é sempre de trigo, comendo à parte dos outros serviçais.
Às olhas. tanto dos carpinteiros como do cozinheiro amassador, ( ~ d etc., sã o
melhoradas com carne en sacada, excepto nas sextas e sábados. que se temperam
de aze ite. D e tudo que se come aos almoços. jantares e ceias, nada é regul ado
por con t a, peso ou medida, pois tudo se dá a s obejar, principalmente se o lavra-
dor r eside no monte. S e vive fora, na cidade, vila ou aldeia, faltando no mont e
a fa r tura pró pri a da residência de um lavrador, as comidas dos criados aludi-
dos, são menos var iadas, mas nem por isso deixam de ser melhores que as dos
ganhões.
... ... .... ... ... .. .. . ... ... . .. . . .. . .. .. .. .. . ... . ... .. .. .. .. .. .. ... .. ... . .. ..
P ara a ganhari a, carxeiros, carraça e mais gen t e que trabalha por fora , a'
comida é dada em refeições, que variam de qualidade e h ora, s egun do a época
que vai decorrendo. Em todas e em qualquer tempo, predomina o pão de cen -
teio, conhecido por marrocate, que o pessoal come à franca na quantidade que
lhe ape tece.
Para o fim em quest ão, o ano agrícol a di vide-se em duas épocas : a pr imei r a
desde o começo da sementeira outonal (22 de set embro) até ao úl ti mo de maio;
a seganaa - a de verão - desde o 1.
0
de junho até a o «5. Mateus».
Em ambas, no intervalo das comidas, é cor r ente qualquer serviçal comer a
s ua cunba ou pedaço de pão, sendo isso uso ger al durant e a lavoura propria-
mente dita, por ocasião da primeira agua da de manhã e também na da tarde,
i mediata 80 meio-dia.
Comidas habituai s na époc a das sementeiras e al quei ves.
desde o «5. M ateus. , ate ao fim de mai o
Almoço Às três horas da madrugada , no tempo da sementeira outonal, o abegão
ou O sete levanta-se, sai da s ua casinha e va i bater à porta da dos
gan hões, a quem acorda, gritan do - lhes : - «Vá de levan ta r e calçar». - O s de
den tro respon dem, e o de fora, cônsci o de que foi ouvido, dir ige-se à cozinha
do mon t e, a tratar do almoço, como disse n outro l ugar, a o descrever a vida n os
montes.
a almoço consta ordinàriamente de açorda com azeitonas. (051 Da clássi ca
açorda al entejana, cujo caldo o a begão prepara num instante. lan çando a água
a ferver em cachão sobre os barranhões, onde o cozinheiro depôs os rem peroa
( I) POf 0111. d. nomhl ' -u. o cosido dlt l'AlImu o.. h.Oft.IJ,. IJr'J1.udo com . ord .. ..... to"d.. ho o" .ulll.
ls) 2..u. doI. conam• • 111 . IA" '" mOIUU, co.. fu.. ~ . m l t .. t. com .. cri.d.. do .u.. iço domh1lco. d. comida Cf'101t . oh.$ou
do• • mo• .
(S) Em . lAlln. domla.o. do O"lono. 1m 'lue. .... 0 lolj•• 'ln-te 1m CU I.. 4C.......Imo ço de mi .... em n z d••ço..d••
- 113 -

ATRAvtS DOS CAMPOS
- azeit e (1) e sal pisado com alho. poeics ou coentros e pimentão. Escaldado
o azeite, prove -se, corrige-se a água do sal, e, pronto. está o caldo feito, exa-
lando o cheiro a ctivíssimo dos temperos.
Co m o caldo a evaporar, o abegão o u o sora conduzem-no nos al guíde res
para a mesa, de antemão posta por eles. Só faltam as sopas que, em breve.
serão mígadas pelos ganhões. P a r a que estes venham imediatamente, o abegão
sai à rua e solta o brado do estilo: - «Ao almoço I. . . » - Brado estridente.
retumbante e prolongado, que. n as madrugadas serenas, chega a ouvir-se a
mais de 2 quilómetros de distância. O «governo» que tem boa garganta, timbra
co m o es paçar, gritando al to, muito a lto, para que ao longe o ouçam e lhe
gabem a voz.
A chamada, acodem todos. E n t r a m, tiram os chapeus e assentam-se à
mesa por ordem. O ebegão ocupa a cabece ira, o sota fica-lhe na frente. Em se -
guida, cada qua] p uxa da navalha e todos passam a m igur o pão para os e lgui-
dares. a t é mais lhes não caber.
A moleci da s as sopas, o «go ver n o» exclama: - «C om Jesus I» - E todos
principiam a comer, em comum, dos barranhões mais próximos, n um silêncio
profundo, em que só se ouve o ruido das colheres de lata e de chavelbo,
quando tocam no vidrado dos e lguidares.
E' demorado o almoço, assim como todas as refeições. O homem do campo
tem por hábito comer devagar, a gu a r d an do que a comida arrefeça. Não lhe
agrada quente, pela preocupação de q ue lhe estraga os dentes. E o certo é que
quase todos os possu em m agn í fi cos, n ã o l h es dispensando cuidados.
C ada g t UPO de 4 a 6 gsnhões come n u m só alguidar , sendo da praxe, cada
homem, meter a colher sõmente no sí tio onde encet ou. O que transgride o pre-
cei to. é repreendido pelos ou t ros, com o gl utão e malcriado.
Alm oçam enfim. O ebegêc, vendo qu e t od os deixaram d e comer, dá o sinal
de retirada, pon do- s e d e pé a despejar a mesa com o a uxílio do sota.
O s ganhões saem para a rua. põem o chapeu e atiram fora com os caroços
das azeitonas. D epoi s. vai de c'iger r ede, em volta da chaminé, na casinha.
Um i nstante a p en as, a pretexto de se munirem d os apeiros o u de quaisquer
f errament as que tenham de levar para o trabalho.
À partida, pr ont o a a n u nciam 05 «cabeças», saindo do monte com o saco
das merendas, em a tit ude de marcha. O s ca rreiras igualmente deitam fora a s
parelhas, pa ra também s e pôr em a caminho .. .
M a r cha m todos. A noite ai nda per siste, mas as estrelas anunciam a apro-
xima ção da aurora .
I sto, r epit o, n o outono, «na fo rça das sementeiras». D ep ois , madruga-se
men os, almoçan do- se ao amanhecer , e de dia claro, em março. abril e maio.
Mas a açorda subsiste, sal vo n os dias «de nomeada», que, a s eu tempo.
r efer i rei.
(r > N. qU&lltldd.• d. td . CllltlllUOJ par. cad. hOIQ'='
- 114 -
ATRAv t S DO S CAMP O S
Merenda Tem lU8aI das onze ao meio dia, no local do trabalho, ao ar livre,
supr in do O jantar, qu e n ão é de uso fo r n ecer - se n os se rviços de a rado
e de outros li geiros, durant e a ép oca a qu e venho aludindo. (1 )
À merenda con st a de p ão e qu eijo. Um p a t a cada homem, com o pão qu e
tiver na vontade, pouco ou muit o qu e seja.
- «Tirem os queijos, oh lsanillu: »- di z o abegão, apresentando o tal ei go
aberto à gan har i a. E a crescenta: - «M et a m a mão, mas não escolham. . .
Tirem o que lhe calhar ... »
P OI sua vez, ca da qual tira o queijo que l he compe te e i gualmente s e
apos sa dos marrocates que calcula comer.
O tamanho e qualidade dos queijos, dão origem a coment ár ios. O ganhão,
que é desconfiado, pers uade- se que tirou dos mais pequenos, invejando a sorte
do companheiro próximo, que tem um que se lhe afigura maior e de melhor
aparência que o seu. D est a s suposi ções, surgem pequenas dispu tas, em gr acej o,
que muit as vezes t erminam pela troca dos que i jos, se a de sig ual dade não é
evidente. Sendo. o possuidor do maior, que em começo fingia querer trocar,
recu sa-s e po r ú ltimo, chacot ean do o outro q u e o t omou a sér i o.
Durant e a merenda, a malta n ã o es t á silen ci os a. P el o cont rário. falam a
propósi t o de t udo . Os solteiros fo rmam gru po àpar t e, comentando a seu capr i-
cho. os namoros dos ausentes e dos presentes. O uvem e dizem muita piada, de
que uns se ri em à soca pa. de que outros se formalizam. e de que a'lguns se
envaidecem. avol uma ndo-as a seu sabor. como gebaao las que são.
.... .. ... .. . . ... .. . .... ... .. ... ....... ..... .. ... ... ... .. .. .. .... ... .. . . ... .. .
o abegã o é o pr imeiro a merendar. O s 88n hões espaçam quan t o podem.
mas, afinal. con cluem t ambém. T odos então fazem os cigarros com a morosi-
dade do estil o, acendendo-os com f uzil e isca.
Nesta alt ur a, acon t ece que. um dos motej ados na con ver sa sobre namoros,
aproveita a ocasi ão para exi bi r uma bolsa nova de petiscos. bordada a missanga
pelas mãos do de r r ic o, Obra de luxo e de fantasia, que ele mira e remira muito
ufano, a despertar a a t enção dos camara das. Estes, reparando na prenda,
chamam-na a si para a apreciarem e comentarem, segun do o seu critério.
De entr e os que a gabam. h á quem fixe o possuidor e lhe di ga: - «Ca r amba,
Zé, que isto che ira a f êmea I.. . Viva O bem feit o I. " Bem se vê que ela tem
mãos de pratel . .. » E a sorrir-lhe malicioso, conclui: - «A h , ma r ot o f que j á a
ganhaste I.. . »
A tais amebe.lidades, o Z é nca derretido. T odo baboso, responde : - . O r a
adeus. as coisas dão-se a quem as merece 1. • . »
'E, nestes di ch otes prossegue m, até o e.begão recomeçar a faina, dando a
merenda por n nda. Uma h ora de interrupção, aproximadamente.
h .) S. por u . n p ~ i o . DoUta I pou Iu rl . te oc,,"pa ... tnb.lbo••ioluI IO' . como c. .... ue. • alo ai mUI D.d. ,. b on
.0 • •10 di., .... . laI j.atu d. Itpm u lll.lb.Ul.u ... u i.. própria. do t ..., po. N. IlJpó IU. d", buer j u u ar •• uia coau.
i • .... UpM. olb. , ou d. 40 ahCCuu -opu.
- 115 -
ATR Av t S DO S CAMPO S
Ce i a No te mpo das sementeiras e do alqueive. é a principal refeição da ganha-
ria. Efectua-se ao anoitecer, logo à chegada do trabalho. Consta de olb«
de legumes com batatas ou hortaliças, adubada com toucinho ou azeite, con-
forme os dias da seman a . h) Nas olhas com toucinho, também se usa couve em
vez de legumes.
O s domingos, terças e quintas, são di as de bois. (I) Nas segun.des-Êeire.s,
quar tas.. sextas e sábados, condi menta-se com azei t e. P or este motivo, além do
cozido, há, para cada homem, o con duto de meio queijo, ou a z ei t onas à franca.
Nas lavouras em que. n os domingos de fo lga, a maioria dos ganhões não
recolh e ao monte por ncar nos povoados em bailarico! e coisas semel hantes, a
ceia dessas n oites cost uma se r adubada com azeit e, transferindo- s e o toucinho
par a o dia i mediato, afim da bois se r par til h ada por todos.
Àntes, durante a quaresma, as olhas preparavam-se sempre com azeite,
excepto a os domingos, que eram cde carne». Hoje, a alimentação dos criados
du r ante a quaresme, subor di na-se em tudo a os u sos or dinários.
Às rações de legumes e con diment os não são iguais em todas as ccasas»,
mas pouco diferem. Na maioria delas. os pesos e medidas do costume para cada
h omem e ceia, são os seguin tes : três decilitros de legumes aproximadamente e
dois a três centilitr os de azei t e, ou 100 a 11S gr amas de t oucinho. Havendo
mistura de batatas, os legumes entr am em menor qua ntidade.
* * *
A o an oi t ecer , dã-se a ceia. O abegão ou o sota, senão os doi s, põem a mesa,
vasam a olha da asada para os a lguidares, separam a boia (qu an do a h ã) e con-
duzem a comida ao seu destino. D epoi s, um deles sai à rua e grita : - «À ceia 1. .••
- Grito forte, que se ouve distintamente. Fraco que foss e, ouvir -s é-ia também,
atenta a impaciência com que os gan hões o atuardam.
Mal poi s o ouve m. t odos entram DO mont e, todos se descobrem e todos se
sentam à mesa n os l uga res habituais. Como de cos tume, o a be gão preside, sen -
tado à cabeceira .
Primeiro, mtg am-se as sopas sobr e o caldo da olha . Tan t as quanta s possam
ficar embebidas. F eito isso, o «gover n o» profer e a invocação do : - cCom Jesus l..
- e a ganharia passa a comer vagarosament e, com o silêncio e ordem que notei
ao tratar do al moço.
Qua ndo t odos deixam d e come r os l egu mes ou a couve, o a begão - se o dia
é ede carne» - puxa a si a pala Dgana do touci nho e parte a boie ( 3) em t a n t a s
rações iguais quan tos são os homens. E. oferece-lha para que a comam em
h ) E.. cn to, di•• (u tJ..o. do IDO, .. ui.. ou o. j' Dt ar .. d o ulut... I.' Dta m. ILon do" ( omo t en! ou,llio d. ufllir.
h ) N., J OIlr U do AI. Aujo d boi• • 0' .. u o. d. looda.ho ( OUl qui n . dob• • olh. do. ai.do., • qUI d.pol•
• por ..lu co. tdo ta_h' m d••btun com pio.
(3) . f" l.no 4 " "em p. rt •• bo/. _ - d i ~ ... DO' umpu d. l.I"u qU' Ddo •••10, 1. ",u' m .trtbuh.do.IL• • pr lm. aI. de
m. aJfut • • up.riorld. d• • m qu. l qou coi.., ' 01,1'1 outro. (ndl..ld" o' d. ca ndh au IIm.I L. otu, l...ld'Dtcm'Dt• • o co. ni to d.
ú .... proud. d. qu.l. puno, . ti... do . 1,. ' 10.
- 11 6 -
ATRAvt S DO S CAMPO S
seguida, ou a guardem como entendam, para a comer em quan do queiram. ( 1)
Ào terminar a r efeição, o abegâo, ou se levanta imediatamente sem mais
ceri móni as, para que os outros r etirem, ou m ant endo o cost ume an t igo, outrora
de ri goros o uso, junta as mãos e diz: - eD emos graças a D eus.»
À voz de - Graças - todos põem as mãos e nin guém deixa de r ezar, pelo
menos a parentement e. O s h omens conti nuam sentados ; os r a pazes l eva ntam-se,
rezando de p é. N enhum t ermina sem o a begão se benzer . E ste, concl ui atinaI
e, benzen do..se, diz: - «Louvado sej a N osso S enh or J esus Crist o I»
Ouvido o «lo uvado», vel h os e DOVOS benzem-se também, e tudo sai em
debandada. O s r apazes n oveis, ant es de saí rem, pedem e recebem a bênção dos
pais, dos avós, dos tios, dos vel h os e do a begãc. (2)
.......... .... .. . .. ... . ...... . ... . ...... . . . .. ... ..... ...... .... . .. ... .. ......
N um momento, os ganhões dispersam pelo te rreiro do monte, em gr upos
vários, correspondentes às diversas idades e inclinações : os velhos e pacatos
r ecol hem à casinha, onde pernoitam j os n ovos, fo lgaeões, n em se mpre os
acompanham. P or vezes marcham à pressa para as aldei as ou para onde tê m
os namoros.
E n tretant o, o abegã o e o sota l evantam a mesa . E ~ a ct o conrínuo, do que
sobeja n os barranhões e do que de prop ósito fi cou de r eser va na asada, ar ran-
jam a ceia dos malteses, adicionando-lhe as sopas que julgam necess ârias.
S e isto reputam insuficien te para abastece r a malt ese.ria, preparam-lhe mais
uma açorda. Como <tuer que seja, agarram nos al guidares da comida, saem à
ru a, chamam e entregam-na.
- «Ai a t êm. . . • - diz o ebegãc dando a ceia aos me.lteses, que a vêm receber.
- V enha ela . . . » - r es pondem os vadios, recebendo-a.
- «Bem empr egada I.. . • - resmunga por vezes, baixinho, o «go ver n o», ao
voltar-l hes as cost as, de caras ao monte .
. .. .. ... . . . .. .. . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . .. . . .. . . . .. . . ... .. .. .. . . . . ... . . . . . . . .. ...
Refei ções da époc a do verão desde o 1 .
0
de Ju nho ate ao eS . Mateus»
Almoço Realiza- se às set e horas da man hã. Consta habitualmente de sop as
de cebol a, tendo por con duto azei tonas e mei o quei j o para cada
homem, que o pode comer ou e rrecader, como t iver na vontade.
O int er valo do al moço n ão demora menos de meia hora, nem mais de uma.
J antar D á-se ao mei o dia, a proxi ma damen te . Consiste em olha de l egumes
com to ucin h o e m orcela ou badana, excepto nas sexta s- fei r as e sábados.
«di as de azeite». À s quantidades de legumes e de azeí t e são as mesmas das ceia s
no tempo das sementeiras e alqueives. As de t oucinho e as de morcela, regulam
por 55 a 60 gr amas para cada h omem, ou sejam 110 a 120 gr amas de gor dur a e
(1) Altl;llU . n l c. d. m· n. em mU'mit...
(2) N. u tl i o tlunu. pouc...i o ai 1""01;11' '' ond e liDd. pu .l.um U I" pt,t1caJ.
- 117 -
A T R Av t S DOS C A M P OS
enchido. Mas se a morcela s e s ubsti t u i por carne f r esca de badana , como se usa
durante os serviços das eiras. essa ração vai a vult o. i sto é sem ser a peso;
todavia, cal cula-se uma rez para o j antar de 16 a 20 ou 24 homens.
Julga muita gente que uma badana é sempre uma ovel h a magra. P ode não
ser. E nunca é. D O verão, único tempo em que s e abatem reses para os criados.
A ssim como à s vacas e boi s velhos se chamam açougueiros, e como tais,
depoi s de gor dos, s e vendem pa ra consumo - da mesma forma as ovel h as, em
iguais con dições, se den ominam badanas, e nessa qualidade são vendidas para
os açougues públicos, ou se matam nos montes para consumo do lavrador e da
criadagem. O fact o de serem velhas não impede que engordem. A questão é
estarem s ãdias e t erem pastos em abundância.
Ora os pastos escasseiam-lhes de inverno, e esta circunstância. aliada à
outra de estarem paridas então. influi para qu e, nesse tempo. as badanas ema-
gr eçam mais que as ovelhas n ovas. Deriva p oi s dessa n ot6ria m a greza, o baixo
conceito em que o vulgo as tem, conceito que. s e é justo no i n verno. n ã o o é
depois no verão. qu adr a em que se mostra m gor d íssimas. por virem comendo
quanto querem d esde o princí pio da pri ma ver a . E tanto assim, que n a f eira de
Fronteira, a 29 e 30 de junho. os marcha nt es com pr am quantas aparecem, p a r a
forn ecerem os talhos dos arredores de Lisboa.
Em r esumo. a car ne de badana é apreci adí ssi ma pelos criados de lavoura,
pref eri n do- a ao toucin ho e à morcela. Quando lha apresentam, r eser vam e
gu ar dam cuidadosamente t oda que lhes sobej a, para a comerem depoi s. a qual -
quer h ora disponível, como pe ti sco s aboroso e r econstituinte.
.. .. .. .. .. . . . . ... .. .. .. . .. . . . . . . .. .. . . .. . . ... ...... .... . .. . . . . . .... . .. .. . .. .
Voltando 8 0 jant ar. r es t a dizer que, n os «dias d e azeite», ca da homem.
al.ém da olha, receb e metad e de um queijo. S e o n ã o quiser comer. dispõe d el e
à vontade.
N a mai or parte dos s er vi ços do verão, depois do j an ta r, dorme-se a sest a.
o que t udo entret ém duas h oras. N a s eiras em qu e se trabal ha pelos anti gos
processos de debul ha com éguas, não costu ma h aver sesta. P ortant o, o i ntervalo
do meio dia, restringe-s e a uma h ora ou pouco mais.
Merenda ou ceia N o estio. a última refeição diária, t oma o n ome de merenda
ou ceia. Varia-se d e termo, n ã o pela qu alida de d e comida,
mas como indicati vo da h ora em qu e tem lugar, qu e n ão é a mesma em todos
os serviços. Se s e com e a o sol posto ou ant es, chama-s e-l he merenda; se d e
noite, denomina-se ceia.
Merenda ou ceia, consta quase s empre de caspacho, ( t ) a companhado de
(1) c .Jpub.o O" 'up.cllo. qlll por . mb formu .. PTo.. " o..,I•• cOIIII, t. ou.m.. IJOPU di pio 1m "II' &1. e ..lu"rI
com • .,111 , ••1 ••Ib.o pu. do. '0 qUI .I,um pu.ou .didou... p. a.d.. b.u de plm. .. ra "du , u l.ol. c..... e t om....
cnll. QIU Dto 11I.1. fr l. ut' • IJ"• . melh oT ubor u m o c..p.cho . to comida pr 6pd. ao. dJ de cal or , u .h ..u ~ . d J J l m .
em todo o AI...tl io • Euum. dlU' up.uLol • . Snn -n ui o . 1I m...I' . u cri. du d. t U OIU' . m.. u.IIILflll cm tod.... c.....
d...lIu I . Idel... dud. .....,. pobre .d l m.ia .b"lJd• .
O. cd.do. do campo, qu ...do .10 comn ' 10" .op• • , f fr.qoc.nt e db.uuo ' - V. uoo. cU p.clulr.
- 118 -
ATRAv t S DO S CAM PO S
azeitonas, ou de metade de um queijo para cada homem. Para variar também
se usa substituir o caspacho por batatas cozidas, temperadas de azeite e vinagre.
Àm algumas ecesas», n as sextas e sábados, põe-se de parte O caspacho e
as batatas, e dá-se l eite de cabras, em porção que su.tisfa ça a todos. Estas
merendas são as preferidas pel os gan h ões. Tanto as dese jam, que as solicit am
dos amos com par tícul ar empenho, most ra n do-se muito agr a decidos se lhas
con cedem.
Quando a merenda se ef ectua muito an t es da solta.. ainda com bastante
sol. o que é IaIO praticar-se, hã, para isso, meia h ora de intervalo. Depoi s,
volta-se à labuta, para se l argar definiti vament e 8 0 sol posto, ou depois, 80
escurecer.
Na maioria das lavouras da freguesia el e Santa Eulália é vulgar, na época
própria, as refeições dos criados t erminarem por sobreme sa de melancia, em
quantidade proporcíonal à existê n cia da efrut a» na «casa» r espe ctiva. S e abunda,
franqueia- se à larga, para todos se abarrotarem à vontade ; se escasseia, dá-se
por parcim6nia. N o principi o da época cabe a penas uma t alh adi n h a a cada indi-
víduo. O suficiente para provas de «molhar a guela» e todos se .:fazere m novos».
Nas lavour as das outras fr eguesias, t ambém o pessoal se contempla com as
frutas que abunda m, como la r an jas, ameixas, mel ão, 6gos, etc.
Em toda a te mporada do ver ão, a gan haria e outros criados se melhantes,
não comem em local certo, mas sim on de Iice a seit a ; nos montes, de portea
adentro ou na ru a, n o sombracho da eira, e n o próprio sítio em qu e se t r abal ha.
N a hipótese de se comer por for a, usa-se o segui n te: o almoço vão r ecebê-lo
ao mont e dois ou três ga nhões, que imediata mente l ho en tregam em alguidares,
põem estes à cabeça e marcham para o seu destino. O jan t ar t ranspo r t a- se , em
reluzentes asadas de cobre, sobre as cen ge lhas de u ma besta, con duzida pelo
paquete ou cozinheiro. A m erenda ou cei a é. em ge ral. preparada pelo ebegâc
ou sota no próprio sitio do trabalho, par a o que dispõem dos r ecursos in di s-
pensáveis. Nas t ardes em que se serve leite, vai o paque te l evá-Ia em cântaro,
logo que chega do bardo.
Qualquer que seja a r efeição e o local em que se r ealize, nunca se obser va
a seriedade e compostura que se vê à mesa do monte, nos almoços e ceias do
outono e inverno.
Com idas melhorad as em di as de nomead a ( 1 )
Pelas matanças do fumeiro As matan ças dos porcos gor dos para o preparo
do fumeiro, prop orcionam ao pessoal da lavoura
melhoria de alimenta ção. Nas manhãs des sa fa in a, todos que a desempenham,
- 119 -
ATRAVt. S DO S CAMPO S
b eb em o seu copi to de aguardente. a pretexto de aquecerem o estômago e m at a-
r em o bicho.
D epois, a o a l moço, conclu ida a ch a cin a . regalam-se à vontade com boas
talhadas de chouriço e morcela frita, acompanhadas de azeitonas e vinho.
A superi ori dade d os puxativos estimula-os a encherem e emóorcszem os copos
com frequênci a, pon do- se t odos meio t a ch ados e al guns a cair.
E m geral , a pinga dá -lhes para se pesarem na r omana que s er vi u para os
porcos, have n do ant es pa l a vriado de aporlias, sobr e o peso d e cada um.
... . . ..... .. .. .. .. ... . ... ..... . .. ... .. . . .. . . .. ... . . . . .. .... .... ... .. .. . . . ....
D es de a primeira matança até à última" carreiros e ganhões cost um a m ser
contemplados com mais dois almoços melhorados: o primeiro, d everas a pr ecia-
díssímo, cons ta da tradicional cachola ; (1) o segundo, de migas com torresmos.
C omidas gordas, de a vari a r o estômago a muita ge n t e boa, mas ne ía eles, que
os tê m à prova de bomba para resistirem i mpunemente a toda a espéci e de
f ar totes.
Durante o ca r naval Na quinte- f eire de «co mpadr es», na de «co ma dr es», no
domingo «magr o», e n os três últi mos dias de entrudo, o
almoço compõe-se de sopas e carne de porco ensaca da. Á ceia, além da olha do
costume, há morcela, chouriço e fari nheira em abundânci a t a l, que sem pr e sobeja.
Nas lavouras onde mais s e observam a s tradições antigas, a ceia d o domingo
gordo, ou O jantar de terça-fei ra de en trudo. qua ndo n ã o é uma e outro, al ém
do cozido co m chouriço e morcela em fart ur a, consta mais de um prato de meio
- ga lo capado, ou galinha com arroz - e so br emesa de arroz doce, ou fi l hozes
com mel. O vinho é acessório cer t o e em quantidade que não consente tristezas.
À n t es do banquete t erminar , j á os efeitos do á lcool se pat enteiam à gr a n de,
em crescente a n im a çã o. A ni maçã o de carnaval, que faz esquecer reser vas e
af oi ta a a trevimentos.
P or con tágio e sugestão, a s cri a das a pr ox i ma m-se da mesa e de chofre,
enqua n t o u ma s enfarinham e mas carram a lg u ns dos comensais, outras p uxam
os a ss ent os dos descuidados, q ue assim vão a te rra a n tes de s e pr eca t a rem.
E strugem então a s gar galhadas fra ncas e es t repitosas por en tre um r eboli ço
doido. quase sat urnal.
O s homens. sarapin t a dos de n egro e branco, procu rem a d esf orra, a garran-
do-se às mulheres par a as mascarr ar em também. Elas escapam-se-lhes como
pod em. e se a lgum a é filada , grita às outras que lhe acudam. que lhe valham...
À s Que não recebem socorro, arriscam-se a um estimulante esfregão de barbas.
com o se u apertão de costelas, ou pelo menos a par t ilh a r em da mascarra e
farinh a qu e l ançaram sobre os homens. S em embargo, prossegue a r et ouça e
ca da quel ataca e defen de-se como pode, em l utas de cor po a corpo. por en tre
um tirotei o de laranja s. ovos. talos, et c. D e t udo se lança mão, em batalha
(1) Gabado da Irun... a .....a. de Sloreo com ma il.. 'ordur.. a te mperOl, pndomiDudo a pia:t...ta e o pt.latio.
- 120 -
...

Aspectos de povoação
ATRAv t S D O S C A M POS
desenfreada. d elirante e brutal. Só termina pOI intimação dos fomos ou por os
com ba ten tes a bandonarem o campo, est enuados de forças, inundados de suor.
D o ar dor do. refrega re sultam rasgões de vestidos . amolgadeles de brincos e
também, à.s vezes, slJ los, a rran h ad ur a s, etc. Mas como f oi por estúrdia, rele-
vam-s e os pr ejui zos e a s con t usões. O s rapazes nunca encor doa m.
P or p ar te das ra par igas, s e a s h á «que vã o à s erra», as outras, mai s com-
pla centes, a m a n sam- nas 1080. pedindo-lhes que n ã o descon fiem, que vai de
odevert ímemo, de gozo . . . e que n o «ent r udo passa t udo . .. » E. pa ssa.
N um m omento os a muos es va em- s e como f umo. fi cando to dos em boa paz.
No dia da agarração N est e di a, em que se fe rra o gado vácuum e cavalar,
- m el hora-se se nstvel m ente o a l moço ou o jan ta r da
cri a dagem, dando-se- lhe car ne ensacada, ou ensopado ( tl e vin h o. Da p inga
resultam as a legrias e expansões que é fá cil pr eve r . V ai i ss o, por mi udos, n o
a r tigo f erras.
Pela Páscoa N o domi ngo da R essurr ei ção - t a m bém ch amado da «Festa de
Flores » - era out ro r a u so geral, darem-se bol os a t odos os cria-
dos, e fo lar completo a os de mai or categoria , como abegão, sote, guarda, maiora l
das mulas. et c. E st e cost u me t em acabado em muitas ca sa s, m as persiste n outras.
O n t em e hoj e, a dá di va dos «bolos da festa » é sem pre de i nicia ti va da lavra-
dora, e é ela própria que os distribui n o sábado de Aleluia à. n oi t e o u n o
domingo de m a n hã.
O fo la r completo, p ar a os criados d e pensã o, consta de doi s ou três bol os
gra n des de man teiga , e d e outros tant os biscoitos, também avultados. Um dos
bol os, or nam en ta do com firínhes, leva ao cen tro três a qua t ro ovos cozi dos, mas
inteiros, sendo por i sso aquel e que mais particularmente representa o folar.
Para os gan hões e r eata.n t e criadagem , cada f olar limita- se a um bolo de
mante iga, d e: um qu ilo aproximadamente e de um biscoito taludo, ou sàmeot e
do bolo.
O abegão e outros criados que, p or circunstâncias especiais, se querem
d istinguir, recebem of er ta maior. À ca da um desses, a ama avia-lhe o pano,
onde, al ém do f olar com u m, i n t r odu z outros bol os diferentes. Se os filhos do
cri ado são afi l h ad os dos la vradores ou de sua família, recebem também fo lar
próprio, di stinto do dos pais : os dos rapazes, representam u m lagarto ou um
borrego j os das raparigas, u ma pintainha ou uma pomba. Em uns e outros,
figura s empr e um ovo cozido.
Em d ia de Ascenção Em a lgumas lavouras, aliás poucas, o leite das cabras,
do ordenho da manhã deste dia é dado, com o almoço,
aos ganhões, ou em vazilhas, para que o l evem às famílias.
(I ) Gulu do mllll!) um.lh."te ao t o"ll. cldo _cu".lro com b. t. l. ... Difu. 1m oIu... nunca . u car n. di cU1ld r o. mu
. im d. cllibo. cabu 00. O'I' .lb• • corlad. cm t n o.d.. p.daçu. 4\1 ' " eh'llum pra.... .
- 121 -
ATRAVl!'.s D O S CAMPOS
Na freg uesia de Santa E ulália e outras, o l eit e de um dos ordenhos do dia
da A scenção, senão o dos dois, di stribui-se à pobresa dos arredores que, à hora
pró pria, corre aos montes para receber essa esmola . Segundo a crença popular,
o lavrador que, em dia de Ascenção, der, de boamente e com fé, o l ei te 80S
pobres e aos criados, está livre de ter sarna na cabrada.
Pel o s . Sa nt o s . Noutros tempos, er a de u so, na véspera do di a de T odos os
Santos, melhorar-se a ceia dos cri ados, dando-lhe fe ijão ama-
relo. queijo de ovel has, uvas e {r u tas secas. como castanhas. passas, nozes, etc.
No dia seguinte, ca da criado recebia u m bolo grande. dos ch am ados ede man-
te iga». Eram os «Santos». A cabou de t odo este uso.
Pelo acabamento da sementeira À ceia do dia em que se a caba a semen-
t eira temporá (outonal), distingue-se das
ordinárias pOI ter chouriço. morcel a, vinho e castanhas. tudo à f ranca e a sobe-
jar. O vinho produz uma algazarra dos demónios e bastantes bebedeiras.
Po r ocasi ã o d e casamentos e bati sados Naquelas lavouras onde. até certo
ponto, os serviçais são quase con-
siderados como pessoas de família, eles partilham também das festas dos amos,
por efeito de bodas ou batisados.
N esses dias, todos almoçam e jantam ensopado, carne de porco, galinha
com arroz, bolos, vinho, frutas, etc., tudo em extraordinária abundância.
Se a festa é por celebração de casamento, também se usa dar folg a ao pessoal,
para mais realçar o f est ej o.
À noite permite-se bailarico de criadas com cri ados, ao som do pandeiro e
de cantigas de roda.

.. .. ..
N as casas de lavradores que estão de l uto carregado, pela morte de parente
próximo, não há falares nem melhorias de comida em dias festivos. O luto não
se coaduma co m esses r egabofes.
Jejuns E ram antigamente celebrados nas ganharias e restante pessoal, senão
to dos, que a I greja preceitua, pelo m enos os da s festas de mai or de vo-
ção, corno o da véspera do dia de T odos os Santos, o do Natal e o de quinta-
- feira. de Endoenças. Presentemente, em poucas ou nenhumas l avouras Se
sat i sfaz a formalida de dos jejun s. Digo formalidade, porque não era outra
coi sa. Esses j ejuns. mai s pareciam pretexto para f artas comesainas, do que actos
de devoção e penitência. Tant o ass im era, q ue nenhum criado havia que, pro-
pondo-se- lhe escolher entre a alimentação ordiná ria e a usual em di as de jejum,
não optasse s empre pela última.
Jejuando, o sacrif ício limitava- se à abstenção do almoço, quando se absti-
- 122 -
A TRAV É S DOS C A M P OS
nh am, por que muitos n em i sso. comendo às escon didas pão e quei jo, de que se
muniam surrate iramente na ceia anterior. Mas mesmo que nada almoça ssem,
pouco se incomodava m. Às onze h oras da manhã ou antes, em vez da habi tual
merenda do pão e queij o, aparecia-lhes um fa r to [a n ter de feij ã o br anco ou
amarelo, muito bem con di m entado . frutas e queij o gr a nde de ovel has. Queij o
bravo, como em frase picaresca lhe chamam os criados, queren do a ssim dizer
Que esse queijo é de superioridade e apreço tal, que po ucas vezes o apanham...
Depois do jantar havia, à noite. a cei a, que se diferençava das ordinária s pOI
con sta r de arroz com bacalhau, queij o de ovelh as, passas. n ozes, vinho. etc.
Enfim, uma penitência muito supor tável !. .. Passou à hist ória, e suponho que
sem prejuizo para a salvação das almas.
DIAS FERIADOS
Al ém dos habituai s domingos de folga, imedi a tos ao fim das quinzenas ou
sema n as de t r aba lh o (t) - a ga n haria e os out ros cri ados que se empr egam n as
chamadas ocupa ções braçais, guar dam, a ri gor, os seguint es di as santificados :
Àno Bom, R eis, A scençã o, Corpo de D eus, S . J oão, T odos os Santos, Nossa
Senhor a da C on ceição e N a tal. O m ei o dia da tarde de Quin ta-fei ra Santa e
o da manh ã de Sex ta-f eira da P aix ão, n ão são tão geral mente guardados,
havendo l a vouras onde se trabalha nesses do is m eios dias para se fo lgar em
segunda- feira de Pás coa ou na i mediata, a dos Prazeres de N ossa S en hor a,
també m cha mada segunda-feira de Pascoela, ou de «passa r águ as». (2)
P a ra os dias de Nossa S enhora das Candeias, de S. Pedro. do Coração de
J esus e Sant a Mari a de A gosto não há r egras invariá veis, gu ardando-se ou
não, con fo rme a urgên cia dos servi ços ou a vontade dos lavradores e dos
criados. N os dias de S. José e de N os sa S enhora da E nca rnaç ão n ão se usa
folgar .
Na freguesia de Santa Eulália sempre se dá feriado na segun da- f eira de
P áscoa. N as de Barba cena e Vila Fernando gua r da-se. pela m esm a f orma, a
segunda- feira de P r azeres.
P el os t rês dias do Carnaval só se folga no D omingo G ordo e n a t arde de
terça-feira . M as na quart a-feira de Cinza, vai de desca nso também, pe lo m enos
em muitas partes. Este feriado, to r na-se forçoso, em consequên cia do pessoal
não com parecer ao trabalho, por ficar arrombado das foli as carnavalescas.
Em conclusão de feri ados, há ainda, os dois dias do fim e pri ncípio do a n o
ag'rícol .a , por ocasião do S . Mateus a 21 e 22 de setembro e out ros por motivo
(I) Por oeullo d u u merr.tei u.l . I a o lempo dai elral. ~ ..-.. tn b.lbar por p"sodol de < l ~ ; ' u e a ... o.i o te eoulder.o.do
de foi;. O domiaáo il:l tU1Dedl h lo . N u u . t . ...... hocu do . ao tI&L.11I. - .. l ' ..mao.... du u a laa do· .. todo. o. dom/oáo"
SI podm 0.& umla' h' Wl1 di. uatlliudo elO <l a l IC lolj•• trabllb._u ao doodoá o . auri or .0 di ••• o.to. ou 0.0 Imedi l1o.
(s) Po r . o.dálmlo.u .. Ol f r , o.., t. dil . b ·u li rl Ldru , PUIU II 'áou . como Ilt u cn- I tiYo eoo.l ra • ' UIII .
- 123 -
ATRAv tS DO S CAMPO S
de festividades loca is, cure guarda, cl aro está, que se r estringe à zona on de se
celebram os festejos.
* * *
O s criados cujas ocupações reclamam assistência per manente , nunca, em
r egra, gozam. de dias feri ados. Quando podem e preci sam, escapam- se po r
algumas horas a os afazer es.
Nas n oites dos sábado s ou dos domingos, a gr an de maioria desses ser vi-
çais vão sem p re a casa a mudarem d e roupa. e ver a f a mília . Se precisam estar
a usentes da obr igação por um ou mais dias, pedem licença ao amo e sa em,
fazendo-se substituir por pessoa idónea, a quem pagam do seu bolso. Ou O a mo
os manda substituir por sua conta, descontan do-l hes os dias perdidos.
v
R
E FE R I no capít ulo ant erior todo o pessoal de uma lavoura, e a s suas
atribui ções correspondentes. No present e. tratarei dos hábitos
do mésti cos e outros. desse mesmo pessoal. qu e sejam dignos de
menção.
Naturalidade e domicílio Pondo de parte os rat inhos (ceifeiros vindos das
Beiras) e poucos mais i ndivíduos. de encargos igual-
ment e transitórios - os serviçais das lavouras al entejana s nascem e r esi dem Das
povoações próximas das zonas onde trabalham. A s pequena s vilas e a s grandes
a ldeias são aquelas que fornecem maior co ntingente. D e algumas se pode anrmar
qu e, pelo menos, quatro qui ntas partes da s u a população ma sculina. válida,
emprega m-se to do o ano a ser vir nas herdades. Andam l á pelo campo a garrados
à «obr iga ção», mas o domi cilio est abelec em- n o nas povoações. Cada chefe de
fa m í lia t em ai o seu lar, onde vive habitualmente a mulher e os fil h os. Ele em
pessoa, só o utiliza quando fo lga e quan do est á doente ou desacomoda do. Muit os
residem em moradia sua, adquirida por herança, compra ou conet r u çâo. Outros,
h a bitam ca sa arrendede aos s em estres ou por a no, com vencimen to n o 6 m de
i un ho ou de dezembro.
U ma das principais aspirações do criado de lavoura é adquirir de propriedade
uma ca sita na aldeia, que o poupe a mudanças e a exigências e caprichos dos
sen bor ícs. T er uns buraquinhos on de se possa a lojar, é o se u maior empenho.
O s que conseguem enfi m r ealisar esse propósi to. qua se sempre à custa de priva-
ções e sacrifícios. senão com o a uxflio e protecção dos amos, como tamb ém acontece
- t omam à casa tal apego, que só a vendem por necessidade extrema. imperio-
síssima. Hó exemplos de indi víduos velhos e i n válidos m endigarem, tendo ainda
casa sua. Se os increpam por esse fact o, r espondem : - «E n t ã o h ei -de arrancar-
- 125 -
ATRA V l!. S D OS C A MP OS
-lhe uma pedra para comer ? . . » Outros, desc ulpam-se afi r mando que não
encontram comprador, que o prédio es tá a r r ui nado, etc.
HABITAÇÕES
Suas ou arr endadas, as m ulher es dis pensam às moradias inexcedí veis
cuida dos de conserva ção, ar ran jo e limpeza. São o ninho de família, ninho
emor osfssi mo, a que consegeam arr eigada afei ção, em sacrifí cios de t empo, tra-
balho e dinheiro.
Com os assei os de caiados n a casa e nas frontarias, a maior ia das l ocatárias,
tocam a r ai a do exagero. Caiações parciais vão a efeito de vez em quan do. sob
qualquer pretext o. Caiações gerais, de haixo a cima, em que os trabecos se
desalojam e amon toam desor n a damen te para depois se coloca rem em t ermos, à
custa de u m trabalho enorme - é da praxe realizarem-se por ocasião de bodas.
de batizados, e nas época s do est ilo : pe la P áscoa. de verão, n as vésperas da
festa grande da t erra e pelo natal. Q ue m não cai ar a valer. em quel quer des tas
ocasiões, incorre na censura públi ca" embora sej a pobr e. Que, em geral. nunca há
ensejo par a semelhante censura. Faltará dinheiro para pão" mas nun ca para meia
arrobíehe de cal, pel o menos. Que o digam os caleiros de Borba. que t odas as
seman as vendem car r adas de cal branca nas vil as e aldeia s do concelho de E.l va s.
Com 05 lavados e var rições h á a mesma ou maior a záfama. Lava-se e
varre- se a toda a h ora, de portas a dentro. e varre-se a rua nos sábados à tar de
pelo menos. C ada moradora obedece aos usos. varrendo e limpando a parte da
rua que defronta com a casa que a habita-isto é varre a sua testada. O centro
da rua considera- se marco para os encargos da varrição correspondente aos
habitantes dos prédios Ironteiríccs. Desta maneira, a iniciativa dos particul ares
supre" com van tagem, a falta de varredores.
Com efeito, a s ruas põblf ces das povoações rurais, onde ainda não chegou
o vasculho m uni cipal, atestam tanto ou maior limpeza que as ruas da cidade.
• • •
Muito brancas e alegres - a s paredes exte r ior es e in t eri or es das moradias
dos campónios des ta part e do Al ent ejo" revelam, como as outras das classes
abastadas, um cunho de garri dice tal, que diflcílmente se encontrará se melh ante
em qualquer outra r egião.
Cada habitaçã o compõe- se ger a l men t e de dois a quatro ou cinco comparti-
mentos ao rez-do-chão: casa dianteira ou de entrada, um ou dois sotãos (quart os),
ou um quarto e uma pequena cavalari ça. Tudo de alvenaria, com t ij ol os n os tetos
e n os piSOS.
Casa dianteira Costuma ser a mais espaçosa e a de maior importância. Tendo
em si a l areira, serve de cozinha e i gualmente de acomodação
a vistoso mobiliário: cadeiras al t as, de pinho, ti ntas de roxo, com assentos de
- 126-
ATRAVt. S D OS CAMPO S
bunho; algumas baixas, sem pintura; um ou doi s tripeços de cortiça. e mesas
diversas, pelo gosto do das cadeiras. As mesas mel hor es e mais altas ficam. bem
visíveis da p orta da rua, en cost a da s à parede e enfei ta das por coberta s de rama-
gem com tigelas. jarras, t errinas, copos, cendtei ros, etc. Até relógio e out ras
coi sas bonitas, que põem embasbacadas as r especti vas possuidoras.
Sobre as paredes oste n ta m- s e variada s e sorridentes a rmações de ma deira.
tin t a s a vermelho e Iísrôes azuis, como estan hei ras, prateleiras e sanefas, expon do
os objectos do estilo, a começar n os r eluz ent es t achos de Br a me, esfrega dos a
capricho (1) e a ter mi nar n a humilde candei a de feno ou de lat a, s uspensa do
de pendurador .
A parede f ronteira à rua d es t a ca-se, de entre t oda s, por exibir as maio res
e mais lindas ceraereires, (d bem como ou tras d ecor a ções típica s e or igineis.
Em cima, na guir18nd8 ou cimalha de a lv enaria, proposi tadamente const r uída
para tais exibiçôes. cse Hentam-s e os tachos d e arame, a r m a dos uns sobr e os ou t ros,
dos maior es aos mais pequen os, e a fileira de pratos de estanho, que mais
parecem d e p rat a, pelo brilho e a puro da lim p eza .
A bai xo da 8uirl anda, n um dos intervalos que medeiam entre os portados,
vê-se o es pelho guarnecido de cor dões e borlas de es tambr e, e a pa r, n o mesmo
campo e n outros, as p ra te leira s e estanheiras com os enar adem ent os preenchidos
por fi las de pratos de estanho e de loiça de vár ias cores e padrões.
Sobre a s p or t a s interiores nota- se d ecoração e n él oga. As sa n efa s aí coloca-
das, a suspen derem mirabolant es cortinados de ramagem at é ao piso, sustentam
em cima ga rri dos cast içais, jarras, ga rrafas, bandejas, etc.
Se os m oradores n ão possuem u tensílios e adornos de estan h o e arame, o
que é raro, a s armações preenchem-s e com loiças baratas de Coimbra e
semelhantes.
De qualquer maneira. se muita capacidade há, muitas prateleiras se armam
e preenchem com a rtigos de melhor ou pior qualidade.
A en tremea r em, a di cion am- se, de espaço a espaço, pequenas armações, de
colorido igual às mai ores, e apropriadas aos objectos que expõem. Resumem-se
em uma ou duas caixas com almofarises, outras tantas copeiras e um dependu-
radar de ca n dei a s. Os almofarises entronizados nas caixa s, a luzirem como ouro,
merecem particular reparo pela originalidade da disposição. Às copeiras também
s e des tacam por lhes realçar o prato e o copo de vidro p ar a a á gua, numa limpidez
cristalina, e bem assim a correspon den t e t oalha, p en di da do ga n ch o - toalha
branca como neve, de rendas enormes nas pontas, engoma das a capricho. Figura
ali n ão para uso habitual, mas para que s e veja a habilidade da dona da casa
o u das filhas.. nesse género de lavores.
P or último, completando o quadro, disseminam-se, pelos campos qu e s obe-
j am, jarras, canecas, o gomil e outras b ogi gangas, sustidas em preguinhos.
(sI o, ucbo. de u.m•• d. cohu, o. puto. d. CI"flLo e ou tr o. ohj.ct o. u melblfl tu. de mil", d o "c",,'Pulo..-
m... t ...lul ado. com .ull I e'''' e,t.nh,';r • • fiO' di .. d. u o. li mpo, por e e..ll0 d. ui.do"
(21 Cba=lm-u unUltliru I t od q;u. bq;u n u lblcll .. de " cbo. d. cob re ti. ar-.m. ou d. puto. d...tubo. loiÇA,
com q;u. " deco re m .. paredn d. uma c .
- 127 -
,
ATRAv t S DO S C A MP OS
Desde a altura das ca dei ras at é quas e ao t et o, pouco ou nada fica po r
compor. Quem não t em meios para adquirir armações vis t osas, supre esses
engre damen tos por tabuinhas simples, ca ia das de branco, e s obre elas expõe a
pret al ha da . O es sencial é mostrar bastantes l oiças e vidros, qua nt a s mais
mel hor, que as cantareiras t ornam-se a pedra de toque. porque se aquilata o
arranjo e bom go sto da dona. P or tanto, cada qual f a z o que pode, para n ã o se r
humilhada p el as visi n h a s, no qu e respeita a ece cc a» e coisas tai s.
Ter a habitação desguarnecida de loiças, traduz pelintrice e desmazel o
ve rgon hoso, a que nenhuma mulher se suj eita de boa vontade. Antes passar f ome.
..... ... ...... .... .. . .... . .............. ...... . .. . .. .. ....... ..... .. . ... . ....
As o ut ras paredes da casa dianteira recebem menos enfei t os de cacaria e
semelhantes atavios, pel o motivo de ficarem a ocultas d os t re n.seunt ea qu e
p ass a m p ela rua . Sem embargo, ainda se gu ar n ecem suficientement e, ha vendo
recursos.
À loiça vidrada, de barro grosseiro, como e l gut deres, pale.ngenas e cântaros
para águ a, igu almen te se mostra em quantidade, mas em lugar r etirado, sobre
as »ilbeires <t} e poial, que h á para o vasilhame t osco.
Encostada a um dos â ngulos da ca sa, ocultos da rua, ergue-s e a chami né.
À tradici onal e confort ável lareira, o nde se prepara a com i da e onde se passam
os se rões de inverno, ao calor benéfico de um lumi n h o aprazíve l, tão de licioso
naqu el e tempo frí gi díssimo que, em al gumas n oi t es, a pequena dist ância do
brae íd o, estendem-s e camas provisórias para repous o d os ra pazinhos. senão
mesmo dos pa is ou de qualquer outro fa mi lia r . E o sono assado a o b orral h o,
sobr e uma ca de ira bai xa, qual s er á a criatur a que o n ão tenha dor mido ?l. . .
Àmpla e atra ente. a lareira a lentej ana é de inverno o t eatro de todas as
cenas domésticas. desde o idílio da s moças a q uem os pais cons en t em nemoro
à vista, até às desavenças es trepi tosas dos es posos r a buj entos. Palest ra · se,
costura- se. come- s e, namora- se, btsbílhcre ía-se, r i-se. r alha-s e, chor a-se. e
sonha-se. S onha- se, sobret udo. O m enos qu e se f az à chaminé é aquilo par a
que se con st r ui u - para misteres de cozinha.
Mas a cozi nha do pobre despa cha- se n um Bai te. num sopro. A a çordita
pela manhã e. qu an do muito, uma pa r ca olh a pelo dia fora. Q u an t a s lareiras
há em que se pa ss am doi s e três dias sem s e lhe pôr jantar ao l ume 1. . .
. .. ... .. ... . . .. . ... .. . . .. .. .... .. .. ... . .. ... . ... . . ..... ..... ... ... . ... .. . ....
S obre a face ext erior do pano da ch aminé, sa lienta-se a cimalha de alvena-
ria, com as panelas vazias, as «ti jelas d e f 080», e a almotoli a de lata para o
a zei t e. N o inte rior, por ci ma do lar. a pilheire. ou pequeno armário com o gral
e o sal eiro de cor t i ça, e a maior altura a trempe e as travessas que a pa n ham o
vão, para se colocarem as varas de ca rne a defumar - o fumeiro. se por acaso
o h á. Em baixo. na la r eira pr ôpriamente dita. a tenaz par a m ech er o lume, e aos
ca n t os o canudo de a ss oprar, a fe rra de apan h ar a cinz a, o espeto e a vassoura.
(1) lumlrlOI u m porlU• • hUIOI nu .lunulu.
- 128 -
AT RAv t S DOS C AM P OS
Desde o rez-dc-chãc a té met r o e meio ou doi s metros de a.ltur a, o i nter ior
da chami né atesta asseio igu al ao que se 'nota no restan t e d a casa. P ara o lume
a não enegr ecer. as mulheres cai a m-na aos sá bados, branquea ndo os chamados
baixinhos. Após a caiação, l a vam-lhe e esf rega m-l he o l ar, on de primeiramente
espalha m a decoada ou cenrede, pa ra elimi na r as n ódoa s que por ven t ur a haja.
Em algumas l ar eiras antigas vê- se uma tosca bon eca de ti jol o o u de canta r ia,
d est ina da , ao q ue pa r ece, a preservar a alvena ria dos estragos do fogo. Nas m o-
dernas, em vez da bo neca, coloca m- s e t ij olos sobre pos tos, ou um a fa s e de gran ito.
..... ... . . ..... ......... . ... . . . . ... . . ... . .. . .. .... .. .. ....... ............ ....
C om esta narrati va. faz-se i dei a aproximada da ornamentação da casa
alentejana de gente pobre, das povoações rura is.
O col orido dos móve is , a limpeza d a s loi ças, o bri l h o dos m etai s, a alvura
das pa redes e a ordem impecável que em t udo se patenteia, são motivos de
sur presa para o estranho, q ue se lhes depa r em desprevenido. A quel e conj unto
todo. que mais se a s semelha a bazar de f ei r a do que a residência de labr egos
humildes, denota Inqu es t io n êvelmente, decidido gosto pe lo b el o. Gosto exrei-
gadíssimo. indist r utível e exagerado, a ponto de se l he sacrificarem ba st ant e
as necesidades de alimentação. N ão é caso para l ouvar. mas merecem regfs te r-se.
Quarto de cama O Botão e u quarto de cama, é o mais bem preparado d os
compar ti ment os interiores, posto que, em geral, lhe escas-
seiam ba stant e as condições higiénicas de ar e de l uz. Nas modernas con stru-
ções iá se prin ci pia a a t ender 8 esses requisitos de salu bridade. Menos decert o
do que o suli ci ente, mas mais do que outrora.
G uarnecido por quadr os de olecarsfias baratas, com imagens de santos, o
sotão e.lc fe uma excele n te ca ma, com O seu esteirão ou prancha de cortiça aos
pés da cabecei ra, duas arca s ordinárias paro arrecada ção de roupas, duas ou
três cadeir as, e uma mesa alta, com objectos semelhantes aos contidos Das
out r a s da casa de f ora . E stes são os móveis comuns em quarto de trabalhador
ou de ganhâo. O que perten ce a criados anuai s de pen sã o, ou a qualquer outr o
campóni o obscuro, mas com meios par a m anter a família em relativo confor to,
a rra n j o e nba sta n ça , r eune mai s coisas apropriadas, como por exemplo o l avató-
ri o compl eto, um «Senhor» crucificado, sobre a mesa ou em oratório d e madeira,
senão a berto n as a lvenaria s. E m r egra, o cSenhor» é um. tosco cru cifixo, bàrba-
r amente esculni d o e sa r api nta do. Que pel o preço que se adqui riu não se pode
exigir m el h or - s eis tostões a u m quartinho, se t ant o. Mas como é a fé que nos
sal va, segundo se diz, as possuidora s de tais escult uras ador a m- n as e apreciam-
- na s com ingénua s impli cidade, cr en tes de que possuem a verdadeira i m agem
do R eden t or. C h egam a afirma r a séri o, que têm um P ai do C eu muito boni to,
como não s e vê melhor nas i grejas .
Como compartimento reservado às invest iga ções d os mirones i n di sc r eto s, e
à f a lt a de melhor, o quarto de dormir acomoda também algumas das pro visões
- 129-
A T RA v t S D O S C AMPOS
de maior vaior - ' a saca do cereal, a da f ari n ha. a tarefa com A car-ne de po rco
e o t abulei r o do pão cozido. Claro está que es t es re cursos em casa de criado de
servir, só exis tem n a s daquele s cu j a s s oldadas lh.es per m i tem r eu n i r , por jun t o.
s emelhantes comest íveis . O s out r os mai s pobres, que constituem a gran de
m ai or i a. não amassam pão e n em s onham em fazer f umeiro. À s su as f a mí li a s
comem a crédito das vendas. E já se julgam com sort e s e o crédito l h es n ã o fal ta .
. .... .. .. .. ......... . .. . . .. ... . ... . .. . . . ....... ... ..... .... .... ... ..... ..... .
Voltando a o mobi li ári o. pormen orizarei o aspecto e luxo da cama conjuga l,
a mais n ot á vel coisa que se observa no satão referi do.
A t é h á poucos anos, o leit o dessas cama s, a que vulgar ment e chamam ent re,
era se mpre muito alto, d e madeira de melhor o u pior qualidade. sendo vulgares
os de pi nh o. tin tos a vermel ho escuro. a cola e ver niz. com ou sem ornatos de
pint ur a e de chapas de metal amarel o n a cabeceira. Lei t os gigantescos, de cabe-
cei ra a vantajada, com t orneados de bilros ou macetas n os colu nas, e os pés at é
à al tura dos enchimen tos, mas s em armaçã o sobrecelente. Estes leitos, já de si
enor mes, avolumados, como são, pelas descomu n a is enxergas e colchões, formam
ca mas tão d esmesuradament e elevadas, que para se u t il iza r em, sem maior
es for ço, carece-se do a uxílio d e uma cadei ra al t a, por onde se possa t r ep ar.
O u en tã o uma escadi n ha ! Algun s chega-lhes a cabeceira 80 te to da casa, e a
o u tros é necesaéei o r eduzir- lhes os pés para lá ca ber em.
P r es entemen t e poucos ou n enhuns se cons troem por semelhante modelo.
D e d ia a dia ge neraliza m-se os de f erro, mais cómodos, elegan tes e económicos.
«C er r es da moda», como lhes chamam as aldeãs.
D e madeira ou de f erro que sejam, os preparos r espect i vos constam do
s eg uinte : du as m ei as enxergas. ou um enxergão ; um ou dois colchões de riscado,
repletos de l ã ; dois Iencoi s , cober tor ou cober tor es ; e por último, coberta de
ramagem, de cor al e ér e, toda guar necida de f olhos, a cairem sobre o cort inado
do roda-pé, corrido em volta. D e entre a s r oupas brancas. d esta ca m-s e : as duas
almofadas, cheias de lã. enfronhadas em f8cinhas de r en das e fo lhas.. mui to
catitas, claras de neve; o travesseiro, t ambém de lã, envolto em fronha aIvís-
síma, com guar nições de rendas e laços de fitas n a s pon t as ; e, de r est o, a ampla
dobrez do lençol de cima. terminando por rendas engomadas, a produzirem um
vis tão sobre o co lorido da colcha.
Em gente pobre, chega a parecer fa ntástico tudo isto. P oi s não há a qui
fan t asia. Há. sim, expressão de verdade, que os incrédulos podem verificar ,
querendo. E note-se que, a r espei t o de en xovais de cama, existe mais de um em
cada casal. O que ficou mencionado, cost uma ser o do noivado e dos dias sole-
nes, como fes tas, batisados, etc. P ara o uso corren te, exceptuando o enxeegêc e
colchões, que sempre são os mesmos, h á mais uma ou duas mudas de roupas,
menos es pal h a fa t osa s, mas igualment e confor t áveis e a ssea da s.
A propósito : assim como existem donas de casa q ue dormem habit ualmente
no cat re, com ou sem os filhos pequenos - outr as há, que passam muitas noites
consecutivas se m se u tiliza rem do leito. O bsecedee pela m on omania do luxo
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ATRAvtS DOS CAMPOS
ca seiro. vêem a cama t ã o tafula que, de boamente, 5acri6cam as suas comodida-
des pessoais à conservação e duração desses atavios. P orta n t o. dormem com os
filhos em qualquer camastralho estendido no chão da casa dianteira. A cama
boa, de colch ã o e len çois, 56 serve quando o marido vem a casa, ou por motivo
d e doença de qualquer da fa mília.
Outros comparti mento s O cupam-se segundo a s ua capacidade e as precisões.
Sendo dois, um serve para dormitório da rapaziada,
e outro, o pior, geralmente uma pequena cavalariça, acomoda a lenho. ( l) e os
ut ensí li os re les, como os «cacos» da cal, o coxo dos despejos, etc.
S endo três, aquartelam isso tudo também, conveni entemente separado e em
melhor disposição. Compartimentos devolutos, nunca há.
* * *

N a s moradias mais humildes, restringidas à casa de entrada e quarto, os
t rabecos acumulam-se um pouco, mas nem por 15 090 se olvida o asseio e o
arranjo.
Quintal Não existe em todas as habi ta ções, mas as que o têm, são muito mais
apreciadas e valorizadas. O quintal anexo, constitue desafogo e aces-
sório de pri meira ordem, que se aprovei te para culturas de primavera, ou para
arrecadação de lenhas e cerrado de animais. Em alguns, há o competente poço,
que, em regra, não passa de depósito de água ordinária, só aplicada a caiados
e lavados.
A maior parte dos quintais costumam ser povoados de oliveiras. figueiras
e uma até duas parreiras.
A propósito : anti gamente, as parreiras de latada, também eram vulgares
nas r uas das vilas e aldeias, sobre os portados principais das cas as de habitação,
em feitio de alpendre, firme em colunas de ferro ou de alvenaria. Produziam
magnífico efei to. proporcionave m óptimas sombras e davam uvas esplêndidas.
Ainda r estam algumas, fo r mosíesimas, sem causarem estorvo nem prefuiao,
Foi erro grande, arrancarem-se muitas outras. que havia em análogas condições.
«Os v ivo s» Com ou sem quintal. gra n de n úmero de moradores humildes dos
povoados rurais, criam em casa os seus vivozinhos - meia dúzia
de galinhas, um ou dois bécoros de vez em quando, e, por acaso, a sua ovelha
ou borreguíro e um berrinho, o que, de resto, se observa em menor escala.
Os lanígeros e a sini n oe, como taronjos e estúpidos que são, carecem de gu ar -
daria e pastos, que a gente pobre lhe não pode dar, por falta de lcgradcueos
(t ) N a aldtl a da Tnru,tlm • 1m Vii i Futl,t1do. , llab. dOI rup. ctl..", baLh. "uu. d l p u l t ' ~ ' 1 l U ' nu p6J.Uca• •
C, d.. (1... 1 fllll -Aa ao I.tio ov. -.m frlat' d, u ... oad, ruid, a alo d. pouu . ella frO. t u m COUV.ml c'lUl"'o. 401 di !d.la
IlIllho hoan •• d, proLldada d. qa l ll " 11 11. O .lmpl órlo 4UI lo.. fi.." • • 1m OUU" lun do COIloUUlO. 111 0 l u la li um e..... eo
.0 u Lo d. pOlle.. dl u .
131 -
AT R A v t S DOS C AMPOS
comuns. (I) Não a ssim as gali nh a s e porcos, de i nst i n tos maravilhosos para
tratarem de si. em liberdade a bsol ut a, sem auxíli o de ninguém.
Como quer que se ja, bicos e a1imais recolhem-se à noite n o q uin ta l ou em
com pa r ti m en t o, fechado com t odas 89 cautelas e providência s de a sseio e limpeza.
D e manhã cedo, bá coros e galinhas, são arraçoados à m eia tripa, e em seg uida
solt os e en xotados para a rua, aGm de irem caça r o que o papo e o bandulho
lhes exigi r. até à n oitinha. hora em q u e regressam para t ornarem 8 com er por
conta dos donos. P elo dia adiante, que girem, que f arej em e comam por on de
en co n t r em, se puderem . Os porcos principalmente, marcha m logo, em ca rreira
veloz, a apan h a r os caidos das ruas, e d e a í passam a fo ssa r e r evolver p elas
estrumeiras e az i nh agas próximas. s e reconhecem a impossibilidade de invadir
os I erregiei s e vinh as con finan tes. onde decer to encontrariam melhores a t r a ctivos.
Q u e. de v ez em q uan do, sa tisfazem esse i nt ent o, es ce le.ndo, co m en do. refo ci-
lando e destruindo, mas arris ca ndo-s e t ambém às contingências de pedra das
certeiras, de lhes fracturarem a s pernas ou as costelas, e às f ugidas esfalfant es,
que os põem estonteados.
C om o se lhes r epare D OS estragos. o propr ietár io l esado r epreende a don a
do a n imal d elinq uente, a qu al des cul pa-s e como pode e sa be. pedindo se lhe
rel eve o desc uido. R el eva- se -lh e, em ge ral. se não h á ant eceden t es agravantes,
de fr esca d ata. M a s se o ab uso se r epete. e, como consequência, se co r rige por
coi mas ou indemni zações, da par te da acoimada f ervem a s d escompost ura s ao
quei xoso e à en t idade q ue a coi mou. A dona do suino clama que n ã o deixa
viver os pobres. «q ue aquilo dos estragos f oi nada; que os slimais n ã o t êm sen -
tido de alma cri s tã; que ent r a m por onde p odem; qu e a cul pa foí do don o da
fazenda. que a n ão guar da n em veda bem; que o g uloz o do zelador é um r efi-
nado ladrã o a viver de cor po direi to à custa do povo», et c.
E a s si m, descompondo e ouvindo, conseguem engordar o por co e cr ia r os
galinhas à s u a custa e à al heia. Cumpre, porém, reconhecer que, até certo
pont o, o. ge n te pobre das a ldeia s, precisa viver de sses exp edie n t es par a sa t i sfa -
ção de encargos impe riosos, que talvez n ã o pu des sem sol ve r por o utra fo rma
menos incorrect a . O porquinho ccr iado à porta», é o meal h eiro dond e tiram
par a despesas grandes e inevitáveis. D ado. em pequen o, por qualquer lavrador
a quem o pedem. ou comprado à desmama por u ma bagatela, vendem- no em
gor do. a os ch a cin ei ros para, com o s eu produto, pagarem a r enda da casa e a s
contribui ções. Que rem édio, portanto, senão toler ar -se a usançe a os n ecessi-
tados. e, consequentemente, os pequenos d escuidos r esul tantes de se melhante
costume . . . (z)
(1) E.. cepI O '010. B.rbl nDI , ODdl b' rod o• • ee.. l.d• • 4'" o poyOdl . fnl1. com , . dOl d. lod.. .. upfcl...
(lll Pu. ni' l r o• • buo•• iDCODu .DI.alu d.. ~ u ..ti o • pn n.ad.. d. por co. dCluro d.. poyo.çllu, .. . 0 ....mo
u:mpo aio dUlnlu U' I ·",. b. d. u n h ••0. r upul! yo...on dou . - alci p. lI d. d.. d. ), nollcLn c d. MOl'lfo. l• • "a·
d . II ..a d . ... . :lu.. p.... IlI iao•. En .. hUlholçl o COD. i. te D• • :d . li DcI. d. lUa r.b.abo. COlllpO. IO n:t1u, l..m, al' d, potro.
do po' o. 4u . pu d •• aOl Jo,ndoon. p6b llco• • • U.D..IciPI;" .ob • , .. ud•• dlncç1" d" . J ud ro • n a .jlld• .
E . d....br o d. c.d...00, • c1muI p6. . .. PUÇI o urj o d• • .1u, ;ro. 4'" , ..dj odh l do • qa.m o elCHIIl P. Db. por
01.11.0 . . .. cauI elo. mUDlcl p.. 1I0 1l0l do••olao• • • m.dlla u ua. 1. 0. 10. di• • pio qa. lIcl.. um • n c.bcr o . rr.lIl l h Il. U. por
cad. porco d. mil d. 'audl rl • . N••Clo. ll dl d• • uI' 1110 ut. m..udo .m ArroDcbn por 20 n i•• meio 4oJl o li . pio d. trito
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A TR AvtS DOS CA MPOS
VIDA DOMÉSTICA
E,' si mples . Os homens só acidentalmente est ão em casa. M a l lhes vai , se
a í s e demora m. D oen ça n o caso, ou «boa vida» força da. À z ar certo, de qu a lquer
men eara .
Às mul heres gozam mais o conchego do lar . Para o seu arranjo e conser va-
ção traba l ham habitua lmente, posto que muitas das disponíveis e isentas de
en cargos da crianças saem também aos servi ços do campo, em determin a das
épocas, como diss e n outro lugar.
M as isso não significa a bandono a bsoluto do la r, e nem s equer diminuição
de zelo pelo cumprimento das obrigações respectivas. Àos trabalhos de ca mpo
só vão as que podem i r , as que não faze m falta em casa, por terem mãe, 6.lhas
ou i rmãs que as s ubstituam. Aquelas qu e têm afazeres domésticos a reclama rem
assist ência permanen te. essas ficam todas. D e portas adentro ou fora, t rabalham
par a si e para os seus, a cu idarem dos fi lhos, dos caiados. da lavagem da roupa .
da cos t ura, da engomecão , da condução da água, d.as idos à lenha (1 ) e de tudo,
enfim. que exija a sua i n terven çã o.
Como os cai ados, a lavagem da r o upa e a aquisição de á gua boa, entram
no número dos s ervi ços que d es empenham de melhor agrado.
Ir à ribeira e ao poço são, em geral, lidas fa t igantes, ma s executam-se de
boamen te, e tanto mel hor quant o meia árduas se tornam. Assim p a rece, pelo
menos.
Na aldei a de Santa E ul á li a, a s mulheres vão lavar a o ri o Cai a, distante
seis quilómetros, e n em por isso se poupam a esses i ncómodos, deveras penosos
n a qua dre es t ival.
D es de o começo da primave ra até a o llm do outono. vão para lá de madru-
gada, a p é em r a n ch os numerosos, cada uma com o s eu ca n a stro de roupa à
cabeça, muito [estas e ga lhofeiras. T alvez para não se lembrarem das fadigas
do r egresso, sobretudo no pi no do verão. à h or a do calor, sobre u m sol arden-
tfseimo, que l hes afogu eia o rosto e a s inunda de suor.
N ão obs tante, nenhuma se esquiva às íornadas da ribeira, antes se com-
e. b.u. o .Judro t ........1. O. U l rllm.. prouDi lDI" d. IlIllP'u do. pocll , õ.. e curul.do•• 011.1. o ••.10 pUlloita.
DUI. mUl lira. cad. cI•• I. d. l III. tlLlD o dlnlto d. tr u r Ila • ./... dou o.. tr h porco•• p. ' .lldo o ' ''!p ul .do•• aU-
al...t . .. do o. porc o• • 111 . ua c .l u u . 1'0' di • • d. m.... hl I . 0 '01 110.10 . Ao. u ... hor ... o .<luc/ro ch• •• o reb.nho l .
por l.. d...li•••b.... do -e n cad . ub"1 correr 1 ..ont..d,..... dlr .ctlo 1 ..Ida.. d . do .1 0"0. 1 u I. do . 1... oco ou d.
u la. t fnur.......tC..i a I ..tt.d.. do••uino. Il...II•. P.nu u"'. 1, ,110 d. I......or .. l"' lIl d ' ll t... ..fo.....des, qu. , 'al
corrnl..... •• ••• cru ..... p.la. :ru• • , .uop.l.ndo o que II II... d.p.... .. d u b. rr.n c• • • do• .10110', qUI i D...d.m •
' r " n bl r. h tromb.d.., <:e'o' 11.1. ,.ofl cld. dc I Como ti.. II .tlum .0 m.ulrll o .m q l" Ih lIu..nt.... .:0...1.1. 1.. ,
D. pob. lio O. dono. que .. illcumb..... de o. condu..ir • • d... . t ...Im que Umbi ch lllu • m. lh. da r u ll. cti....
proprl.d.d. murúdlll l, d. m. ...llic .. cOl'di ,õu d••Iojo• •!tu.d. 110 r oelo Illlibllco.
h ) J.. lena. ' 0' maIO•• 1m "b.. 1 c.b't., .ó do • • mula".. . O. UIIUIJ do. t ubIlL.dor .. ... uh o pobr MuI L,n.
I filL o. d• • b,sõu • oul . u crl.do' .nuai. d. p. ado. !lu-IL 1 lum l i, ..... . n'''' t .mIlOUCO lI..ci llm f.r i ncómodo.
Em ....1. ucab.m·,.. dluct'''''IlI' do. I• l. c.rr. d cOmO prolll n. qll. ' Ill u II.' .01e1 . d.. do. marido•• filho,.
00 por d.di.. , "OIIl.. I.r1., O. . ....d.l ro. co.tum.... . or lir dI 1e.. h•• l.mll h. 1....lldo·1L••1.. .... bllrr.., qO.lldo ..lo •
c.... ol. no !I•.
- 133 -
ATRAvt S DOS CAMPOS
prazem em ir lavar a r oupa sua e alheia, (tl mais a miudo e melhor do que
usam 89 das terras vizinhas, em bons lavadouros próximos.
E,' que o Caia atrai-as a si, pela limpidez apreciável das suas águas e pelas
sombras flesca.!l dos el oendros e salgueiros. retiros deliciosos para liberdades de
lavadeiras. M oças e velhas. passam aí, oculta s, a calma do meio dia, acarredas
em desal inho negligente, ii frescalhona, senão em camlsa, como usam a s muito
pobres, enquanto a s saias lhes enxugam Das lezírias e DOS juncos. Mas este
repouso à sombra e à ligeira. não compensa o custo da ca minh ada, r ep etida
duas e três veaes por semana, O que impele o mulherio a essas jornadas violentas
são as águas da ribeira, água s esplêndidas. que concorrem imenso para a fama
das aldeanas como ópti m as lavadeiras. E elas. coitadas timbram em conservar
a fama que justamente conquistaram.
A que por indolência prefere lavar os «trapi n hos» nos p êgudtos dos ribeiros.
é classificada d e chelendrona preguiçosa - porca d e chiqueiro a ch a f ur dar em
lamaçais. Lá diz o conhecido remat e de cantigas populares:
Àilé, aldeia de Santa O laia,
A moça arranjadeira
Va i lavar a r oupa a Caia.
...... .. .... . . .. . . . . . . . . .. . . . ....... . . . .. ... . .. ... ... .. . . .... . ... ... .. . .... ..
Com a a quisição de água para consumo caseiro, nota-se fenómeno s eme-
lhante. Quanto mais custosa. mais capricham em a ter com fartura.
Na freguesia aludida, onde as nascentes escasseiam como em poucas partes,
havendo apenas uns poços reles e desviados, que representam um atraso e incúria
vergonhosa - as mulheres só terminam as fainas diárias das idas 80 po ço
quando, após um trabalho insano, conseguem encher de água potável o avul-
tado vasilhame de que dispõem. Pois trensportem-ne a pé, de cântaro à cabeça,
e de sítios di stantes dois e três quilómetros I Advertindo que, no verão, com o
não tenha havido invernia rigorosa, t êm de aguardar que a água nasça e esperar
pela vez, durante horas, para encherem um cânt a r o com o auxílio da cor da e
cbocelbo, arvorado em balde ou cal dei ro . (. ) Nem a alcançam por outro meio,
inda que s ej a altas h oras da n oite.
Nos anos de estiagens prol ongadas, avolumam-se espan tosa ment e todas
essas dmculdades, e, sem embargo, a água abunda em casa da m esma f orma.
ainda que à custa de vigílias e ca nseir as das r especti vas moradoras. Outras,
menos afeitas, sucumbiriam. Mas as aldeanas resistem e conf or ma m- s e.
(I ) Mm' d.. ..11 POhr.... 1110 d. roall.' (I ...addr .. d. u .....b"l.d.., ..ecIhal' a .... ...n h. &a...I, p.'. ,.
dial..ho. lo oau , . a6.uo dl. faalo. I u . h'm • d, homlca . uljhuh lo•••ua una.m f.mllh . qa•• por 1110. III..
p. ..... pu. lh.. caldu.m d. uop• .
Eau. 1Di ... bmb • m. b .., , ...a l' . rllIl.o I'<lb. li roire . · .. ucillrou m.ou. a .. IId.. .. ri hdn. por d.
qouqa.r
h ) Ola ld. l. d. S.Ilf. fat, ll. , q\l '. a l o ch.onlbo uio b. b• • III' 100" d ceder lm. 56 1110 h. L.
qa alo qan. Ap d. " \1, .n nlla', d••l c&aclI' ••t ' a. culaL. do m.l. po br.. • di d. m.l)"ol' "ollt.d••• todo.
qe e lIdt .m.
- 134-
...
ATRA V t. S D OS C AMP OS
Habituadas às l abu tas do campo, desem penham r esignadas m ais essa da
f ont e, s em dúvida menos custosa d o que ou tras qu e executa m o. cada pa sso, na
senda espinhosa da sua humilde existência. Às vezes, por se lhes turva r o
espirito com a vi sã o das desigualdades sociais, mal dizem o seu tris t e fad ãrfo,
invectivando a s protegidas da fortun a, que n em sequer sonha m com s emel han t es
sofriment os.
Mas tais d esabaf os n ão passam de en fados ligeiros. que se es va em de
pro nt o. P orque. afinal, 8S jor n ada s a o poço, a par das fadigas e tempo que
demandam. propor ci ona m atractivos i rresistíveis. S ã o ensejo magnífico para as
mul herzinhas darem CUISO à m u rmuração. narrando e ouvindo o que de bom e
mau se diz e fant asi a pelos a rredores.
Lá mesmo a encherem, o u n as esperas. a gua rdan do a vez. tagarelam à larga
e à gr ande. F alam de t udo e principalment e em i ntriguinhas de n a mor os.
P ara vari ar, abordam ta mbém ao bom e mau governo desta ou daqu el a.
n ôo esqu ecendo comentários sobre a bizarria ou sovinice das graves. termo d e
con sideração i r ón ica porque designa m. às vezes. a s conterrâneas de tom.
* * *
G eralmente, a m ulher governa em absoluto na ca sa. O marido, Ba nha ; a
mulher, a dministra. Ele. entrega- lhe a massa ; ela, apli ca-a como entende. a
ponto de ser ela quem co mpra o tabaco para ele. Da mesma fo r m a , arrenda a
casa para onde pretende mudar- se ; despede- se da que habita: paga as r en das e
as contribuições ; co mpra a farinh a par a o amassilho da s emana, podend o e
precisando; avia-se na l ojas e vendas, e o ma ri do dá por t udo par a se n ão
eavecer com baTafundas. Farto de li das no qu e é de outrem, não tem pachorra
para t rat a r das suas. Se por a ca so se mete n isso. é sômen te pe r a ser eco da
mulher. P a r a lhe compr azer , quando o con sulta. se con s ulta. Como homem
de brios, não lhe quer ir à mão. Ela que pon ha e disponha . Se boa ca ma fiz er,
nela se deitará.
Se ambos pensam em comprar casa para morar, também o n egóci o se
pl a n eia e decide sob o influxo da esposa. C asa em rua q u e n ã o l he a grade, por
boa e barata que seja, n ão s e compra. Se. pelo contrá r io, fo r ca r a. mas a r ua
agrade. compra-se logo, dê por on de d er . Quando mui to, por descargo d e con s-
ciência. ele diz lá para os seus botões: - «Mulher es. são o di abo .. . t ortas como
um ge rrocho l .• . Vejam para on de lhe h avia de dar ... Mas se uma pes soa t em
de i r com elas . .. com as fil has . • . D eixá- l o . .. vá pr'aí . • • Se for asneira.
t amem ela a paga . • • Mais d isso •.• P ara q uem é a casa ? .. P ara a mulher ..
est á bem de ver . •. Quem es tá n o ninho é a f êmea ... O ma cho gira .
Mas q uando vem ó ninho, q uer cer-ansc . . . E, o ce -ensc só é bom. às boas »
...... ... ... .... ... .... ...... ... ..... ..... .......... .. ... .... ... .... .. . ......
N ã o obs tante, há maridos que ralham frequen temente com a s mul heres.
com ou s em ra zão. Entre estes, também um ou out ro. oferece e dá o seu soco
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ATRAVeS DO S C A M P OS
bem puxado, de longe em longe, não tanto por lhe chegar a mostarda às vent a s,
mas para most r a r que é teao, que em ele es tando, a casa ch ei r a. a h omem.
F arrancas de ocasiã o, q ue em nada abalam o predomíni o da consorte. Â s boas
ou às más, a chorar ou a rir, ela é a rainha do lar . de soberania discu tida
momentâneamente, mas nunca destronada.
Para t a nto. basta-lhe trazer o marido bem vest i do e calçado. remendadinho
a ca pri cho, e ao mesmo t empo não lhe faltar com o tabaco. boa comida e boa
ca ma, nos dias e noites q ue vem a casa. Se nos domingos lhe ralhar pa r a q ue
se barbeie. lave e vista em trajo domingueiro. taoto melhor.
Ora, a t odos es ses deveres e atenções. e a outros a n ál ogos, atendem, solícitas,
as mulheres dos campónios, sacri.6.cando-Ihes de boamente a sua alimentação.
descanço e vestuário. Comprazem..se em trazer os maridos c como uns brincos»,
em ccchego d e compost ura e ass eio, que não dê motivo a censuras, antes a s
eleve no conceito pú bli co.
P ossuí da s da mesma l ouvá vel orientação, e sempre no propósito de a grada-
rem, muitas. nos domingos em que se não f olga . vão a p é, com os filhos, à s
lavouras on de trabalham os maridos, a distâncias de ;; e 4 quilómetros, pa ra aí
ja n tare m com eles, do que lhes levam de propósito de suas casas, em cesto
ta m bé m provido d e loiça, t oalha e talheres, tudo muito Limpo e asseado.
O jantar consta da olho.zi ta na panela, pão de trigo, vinho e frut a. N essa
ocasião, nem el es n em elas comem à custa. do lavrador; m as cada homem
recebe do e be àãc os marrocat es e queijo que lhe pertencem.
À. vista da mulher com os filhitos pel a mã o e o cesto da p a paroca à cabeça.
a l em br a r a saborosa ô l he, a boa pinga, e outros mimos que ela lh e t r az expon-
tâneamente - qual será o marido. esla.llado de trabalhar, que nesse m omento
não faça beicinho de ternura agradecida à previdente cara-metade? . • Essas e
outras ea.rícias, elevam a mulher ao fastígio do poder doméstico, q ue exer ce
radi ant e, sem contudo s e esquecer do que d eve ao ma r i do. Isto enquant o a
velhi ce se n ão aprox ima. Depois, como a mbos tenham fil hos moços, crescidos,
desafina bastant e a harmoni a conj ugal, se bem que a preponderância feminina
con ti n ua a subsistir. A sua s uprema ci a afirma-se a toda a hora. E s en ã o veja-se
o seguinte, qu e é significativo : S e a mulher t em pai, mã e ou i rmã os inválidos
o u precisados de amparo, o se u l ar a lberga-os também, e o marido não estra n h a,
ant es estima. Mas se é ele q ue t em ascendentes ou irmãos a carecerem de
asilo e a mparo, a companheira t ai s artimanhas urde e emprega, que, em geral,
não os aceita em casa, ou se aceita é em termos ta is, que os necessit a dos fo gem
d e semelhante hospitalidade, pref erindo m endigar. O do no da casa. revolta-se
con tr a a deshumanidade da esposa, mas ela acaba por convencê-lo de que não
h á tal : que são os sogros ou cun h ados que a odeiam e que se lhe n ã o utilizam
as sopas e a moradi a, é pa ra a pô rem mal com ele e a desacreditarem aos olhos
do mundo. E o marido. à força de ouvir essa s ecdr õmínes. acredita-as ou fi nge
acreditá-las. S e lhe fica m remorsos e des ej a passar por bom fil ho, concili a as
coisas, protegendo os seus com alguns cobres. D e portas adent ro não os pode
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Vida pastoril, - O rebsnba de ovelhes - A boiede
U1F.NS/L10S DOMtS11COS
1 - Pote de cobre; :J - CboclI/bo; 3 - C.feteir. : 4 - Bi/b.
de cobre; 5 - Pr.to de I.i.nrll I 6 - ..Gato_ de l U To :
7 • PequUlo ,.rr./io em cerimicII : 8 - EriAiJeir. de
b.rro; 9 - TarTO ; 10 - TiAej ,.
AT RAv t S DOS C AMPOS
ajudar. S eria uma guerra viva . Em ca se só entra à fra nca a f a mí lia dela.
A dele, pa ssa à roda. Quando m u i to, eot ra de fugi da e por cerimónia. por
m otivo de d oença, casamento, e morte.
Mais ainda : se o casal n ã o tem fi lhos, acarei a-se como tal, um pequenito
da família da mulher. preferindo- se o das irmãs no dos irmãos. D os da do
marido. n unca.
* * *
A mãe cuida dos filhos, naturalment e. À m am enta-os e cria-os n o berço. 8 0
colo e D a cadeiri nha de braços, de cort iça . Se n ã o têm l ei te em abu ndância.
r ecorr e às vizinhas condoidss, com r ecursos de lactação. t il À criaocita a nda
assim às ma mas pelo amor de Deus. como se cos tuma dizer.
P reventivos de ependíques e be rloq ues con t.ra os ef ei tos da l ua e malefícios
de bruxedos. de mau olhado. n ão fa ltam a nenhum. Signo sa imão, fi gas, mão-
zinhas de t oupeira, bentinhos, m eda lhmhas, etc., tudo isso a companha a
cr iança, no cinto dos cueir os e 80 pescoço. Par a a tal har a s «f ebres das luas »,
n ão bastam a s bugigangas. Recorrem às rezas e bênçã os das be n zel h on a s afa-
madas. E. a quil o é como q uem diz: mal tira-te d e s i , .. C om quat r o bocej os e
meio. dua s ca r anton has e umas tret a s de rezas manhos as, a lua safa-se do cor -
pinho do inocente, e dei xa-o fresco como uma alface ... Quanto pode a crendi ce
estúpi da J•• •
D o ano em diante, os pequ err uchos arras tam - se p el o chão a a n da r em «de
gatas». até firmar em-s e d e pé. N esse ent r etanto e depois. as mães es carrancham-
-nos de ilhargas à ci n t ur a , e assim sa em com eles caos ma n dados», a mercarem
do q u e preci sam.
A os primei ros filhos que vêm, os progen i to r es, prodigaliza m-l hes t oda a
ca st a de car i n h os com pa t í ve is com os meios.
Aumentando-lhes a prol e, as car íci as dimi nuem sensivel mente, e tanto
mais qu a n to maior s e t orna. Pais pobres. que t enham 4 ou :; filhos, dizem, sem
r ebucc, q ue Deus l h es faria gra nde esmola s e lhes levasse um o u dois. P or i sso
qu a lquer cria nça dessas que a doeça, pouco ou n ada se tra ta . Se morrer, en te r -
ra-se. Vai pa r a o eeu e livra-se d e pen ar n es te mundo e n o ou t ro. Para fezes e
m erg ulhos na vida, bas tam-lhes dois o u três. O s r estantes, que morram a nj i-
nhos, p ar a, n o o u t ro m undo, pedirem a D eus pelos pa i s e pelos pad r inhos.
Pelos padr i nhos primeiro, segun do a crença popular.
Sendo a prol e diminuta, os pais esquecem a s beleza s do C eu, e, se m hesi tar,
preferem a cons erva çã o dos fi lhos na terra, embora en t r eg u em ao acaso a s ua
s ande, educação e desenvolvimento.
U m ou dois que s ej am, a nda m em criancitas num apu r o de vestuári o e
asseio, que chega a ser pasmoso em gen te de t ã o pou cos recursos. Que n ã o se
prolonga pOI' muito t empo. di ga-s e também. D os três a os dez a nos, ou antes
ai nda. as mães dão-lhes a lta para traquinarem e garotarem à vontade, r otos,
- 137 -
ATRAvtS DOS CAMPOS
sem i-nus e sujos. sem que isso as p reocupe. P elo menos procedem assim com os
rapazes- capitães de pé descalço, com liberdade de vadiarem pelas ruas e arre-
dores da terra, sem suprema de ninguém. Ás raparigas dispensam maiores
cuidados de arranjo. a par de outra sujeitação.
Rapazes ou raparigas, as mãis apenas os casti gam quando lhes causam
prejuízos, como por exemplo, quebrarem-lhes louça, perderem-lhes dinheiro. ou
cortarem-se com rebaldarias de furtos. Por qualquer dessas faltas. vai tudo
raso: - pagam os delitos de f ragante e os atrasados. O eaorrague cai-lhes em
cima, n uma fúria selvagem, q ue contrasta com a tolerância que 8S mães lhe.
dis pensa m , ou vindo- lhes e consentindo-lhes i mpunemente. e a toda hora,
palavrões indecent es e i nsultantes, de que a t é muitas se riem. S e estranhos lh es
exprobam semelhante i nconveniência, respondem:
- «Ora são inocentes, coitadinhos. Não sabem o que dizem . . . Zucsr-lbes,
para quê? Q ua n to mais se lhes auce, pior Entes falarem mal, que furtarem.
A gente era o mesmo . . . Filho és, pai serás »-
Mas não obstante considerarem-nos inocentes, cob rem - n os de impropérios
à me nor contrariedade, tratando-os por filhos de curta, etc.
- «S e outrem lho há-de chamar, menos de verdade, chamo-lho eu, que bem
sei que não o scu.»
Assim se pretendem desculpar quando alguém de respeito as admoesta por
esse tratamento inj urioso. N i sso 6.cam sem o mínimo receio de perderem a
reputação. O tratamento de curta e /i lho de curt a, é tão vulgar e admissível
entre o povo rústico do A lto A lentejo, que se profe re a toda a hora, sem inten-
ção in jurios a. Àté se ouve em voz a l t a, como gracejo de intimidade I T ris t e
gracejo...
. .. . . .. . . . .. . ... . . . . .. . . . . . ... . . . .. . . . .. . . . . . . .. . . .. .. . . ... . . . . . . . . .. . . . . .. .
D os seis aos dez anos, a maioria dos rapazes va i ao mato, ao fe ixe de lenha,
para consumo da casa. Das r.apar igus, poucas vão : as mães preferem tere m-nas
de portas adentro, a [azerem liga, meia ou renda.
D os rapazes, só vão à escola coisa de metade, se tanto, e sõmente quando
querem ir. Às mães pouco lhes importa isso, e os pais menos. P or acaso um ou
out ro, de melhor critério, se empenha em que os 6.lhos aprendam a ler. Com as
rapeeige s observam-se factos semelhantes, notando-se, que, as de algumas
freguesias rurais, populosas, inda que quisessem aí frequentar a escola, não
podiam, pela simples razão de a não haver. (t )
Os de um e out ro sexo, logo que aos dez ou onze anos principiam a ganhar
no campo, passa também a disfrutar maiores carinhos dos pais. D essa idade
em di an t e, por muitos que seja m numa casa, a todos, os pais ambicionam vida
e de t odos cuidam com i n teresse. A a mizade cresce em escala proporcional e
sim ultânea com o desen vo lvimento dos 6.lhos . P ri nci pa l men t e da mãe, que os
considerando casa doiros, faz sacrifícios loucos p ara os ca l çar e vestir de po n to
h ) Em 5 a r b a r ~ f t •• IIor e:... mplo. onda .6 11. , ucol . p ioU o .u:o mucu.lIno.
- 138-
ATRAvt S DOS C AMPO S
em bra n co, auxilíando- os com out ras a j udas maiores, que são da praxe di spen-
sarem-se. E coisa n otável. Nessa altura a mulher, cujo desvelo pel o marido vem
afrouxando des de que a prol e se desenvolveu - reduz m ais sensivelmente esses
afectos para os prodigalizar aos filhos. que, ao tempo, são o único enlevo da sua
alma. D o mari do vai -se esquecendo, a té quase o desprezar, se o infeli z ch ega a
velho, não gan h a ndo para si. Quantas os t r atam de bagat ela. com modos br uscos
de ab orrecim en t o, como coisa s afa da qu e j á deu o que podi a dar. O desgraça do
lamenta-se, procura rea gir, mas por fi m resi gna-se.
Todavia, em quanto a invalidez o não o submete à dep endência a bsoluta,
m ost ra. de vez em quando, uns arrancos de energia e protest o cont ra a baixeza
humilhante em qu e a mulher o coloca .
Poucas vezes surt e efeito o se u protesto. E m r egra, fi ca vencido e enxova-
lhado, como lhe aconte ce sempre que censura o l uxo dos filhos. S e esse assunto
vem à baila, em trapuxas de desavenças matrimon iai s. a que f oi ca r i nhosa
com pan h eira doutros te mpos. p õe-se como u ma panter a. e ui va pa r a o marido
da segu in t e maneira:
- Q u e tal está o iundiçss t . . . Não vê que os rapa zes precisam andar com-
postos, para lhes não fazer em chacot a os da sua ca mada 1... E.m moço foi t rinta
vezes pior que os filhos. e em vel h o l eva a mal qu e eles tra j em bem... P oi s sã o
s eus filhos. .. Coitadinhos.. . es mart uçam -se com trabalhar e não têm metade
do que você tinha quando i m post u rava nos balh os e p elas ruas, f eito pavã o . ..
À gora, gan h a mat ut a P. meia, e quer chalantear e comer à gra n de ... P oi s coma
do qu e eu como, e vi sta como eu vi st o. que não me envergonho de an dar com
farrap os ... E ando como d evo andar. que j á n ão estou a parecer b em a alma
do diabo nenhum. . . Faça como eu f a ço, e n ão seja empl ícente . . . empa18goso,
a entrever com tudo . . · Enté com lux os e namoros das fi lhas I . .. D eixe-as
l u xa r . . . luxam com O que gan h am. a trabalhar como umas moiras. .. S e namoram,
namoram moços de vergonha n a cara ... N ã o são como o utros, que. se n ã o
fizeram das suas, foi por que lhes não deram at íl h o. . . Uns rai os m e par t is se m
na hora em que me casei I. .. »
E stes despropósitos encolerizam o marido, que" por des forço, a meaça a
mulher de lhe ir aos queixos, se continua a ladrar. E a crescenta:
- «Você. sua au'rra, cuida que vou de en con t ro ó arranj o dos fi l hos ?l . . .
Nunca f. . . Que luxem. mas numa ordem.. . s em abrasarem o que o n egro
arAenceía . . . O que Banham. chega- lhes ... Pois que fadistem à sua custa. n eja
à minha, par a andar um maltrapilho . . . Irra I que inda gan h o pró, meus trapos,
para você e prás .61hasl. .. Prás filhas. ouviu?1 Q ue empl íco com ele s L ..
M entira... Que namorem com todos os diabos 1. .. mas com juizo . . • E que
mexquem O que lhes é da do . . . não quero que sejam menos que «as mais• . ..
M a s por se olhar por el as. que não falte prós meus arremendos .. . S enão um
dia fa ço-e a você n um feixe. siora lín gua de cabra. E hoj e se me faz encazínar,
quebro-lhe um tangsnho nas costas . . . Arre, que é t orta. mas eu endireito-al. .. »
E ntão a ameaçada. ve ndo o caso bicudo, muda de t ática e desata num
139
AT RAV ES DO S CA M PO S
b erreiro de choros e lamentações. que põem o m a r ido perplexo. Para o motim
n ã o s e avol u mar, o esposo em q ues tão. decid e-s e a sa i r d e ca sa p or algumas
h ora s, s eg uro de q ue, com a s ua ausência , se r estabel ecerá o socego, Já na rua,
diz l á para 05 seus bo tões :
- «Que a leve o dia bo I S e lhe vou ó laval. às ganas q ue lhe t enho.
a rri sco- me a posá -la p or boa . .. Nada, q ue p onh a t udo n o corpo dos Elkos,
q ue eu passarei co mo D eus q uiser . . . O que um h omem passa pelos filhos 1. .•
T omara eu as fil h a s ca sadas . .. Em isso acontecendo, rento-me na mãe, mais
m a l agr a decida que uma serpente I. ....
No entanto, ocasiões há, em que o pobre do marido. perdendo a paciência,
n ão sai p ara a rua, c. cu mprin do as ameaças, serve-se do t a l tanganno que. qual
vara mágica. chega a produzir milagres es t upendos ...
• • •
Batisados Pouco of erecem de notá vel. Em tempos que não vã o longe. er a
vulga ríssi mo os criados de l a voure, e especi almente os «d e pensão».
con vida rem para padrinhos dos s eus fi lhos. os l avradores das pr oximidades. e
de pref erência os filhos dos respectivos a mos. embora fossem cr i anças. E st a cir-
cun s tância. longe de s ervir de obstá cu lo. pa r ece q ue até i n fluia para os co n vites
se r ealizarem e r epetizem com mai or fo i teza. Os pequenos. de calças e sa ias
curtas. figuravam a miado co mo pa dr i nhos. e ainda h oj e os guindam a essa s
a ltura s de ve z em quando. A os pais e irmãos a contece-lhes outro tanto, pelo
menos a queles q u e vivem em maior con t acto com a popul ação p obre das aldeias.
Há muitos exemplos, d e pessoas gra das. servirem de padrinhos duas e três
vezes n o m esmo dia e na mesma localidade.
Também se conhecem indivíduos, que por muitos filhos que t enham, con-
vidam se mp re padrinhos de u ma s6 família-a do amo o r d i nàr ia m en te.
E. a propósito. q ua n do os convidam, justificam-se di zendo :
- «Já agor a. t enha paci ên cia: não bato a out r a porta; não me a bai xo a
mai s ninguém I. . .»
N ão obstan te, es tes usos vão diminuindo s en si ve lmen te, sendo mai s vul gar,
os pa is da cr ia nça. con vida rem pessoas da su a clas se para padrinhos. Parentes
pró ximos. sobr et ud o m oços soltei ros, um de ca da sexo, qu e s e n ã o namorem.
Namorando-se, o batiso n ã o fica valioso à face de Deus, a firma a s uperstição
po pular 1. .. Também, segu n do a mesma cre nça, n i nguém t emente a Deus, s e pode
n egar a s er padrinho de batisado - «a a j uda r fazer almas cri st ã s» - Quem a
isso s e r ecusar, perde a salvação da al ma . P ortento, de melhor o u pior vont ade.
n inguém o usa r ecusar-se. Inda q ue n ã o receiem a s penas ete r n a s, temem a cen -
sura dos crent es.
* * *
Os batisados costumam efectuar-se nas tardes dos domingos ou dias santi-
ficados . P ela P á scoa, Natal e o utras festas solenes, realizam-se dezenas deles
em cada f reguesia rural da s m ai s populosas.
- HO-
ATR Av tS DO S CAMPOS
N essas tardes, o prior nao larga o batistério e o sacristão an da num sarilho
a acol í ter o pároco e a repica r os sinos. Àmbos t r a balham ex traor d i nàr i amen t e
e ambos recebem as propi nas do est ilo. h) ofer ecid a s pelos padrinhos. O sacri s-
t ão r egu l a a execução e duração dos repeniques pela importância das esp6rtula s.
S e foi mesquinha, o t oque é cur to e va i de empreitada ; se, pelo con reér i o, o
s atisfizeram, es quece- se a badala r ' " ' .
À. hora e preaada, é da p eça o pai da criança ir a casa dos padri nhos. pa r a
daí estes o acompanharem à sua, a fim d e s eguirem para a 'igr eja, S e os co mpa-
dres não são indivíduos da mesma casa, t em de pagea r ca da um por sua vez.
Todos reunidos e a postos para o hatisado ir para a i grej a , trata-se de
escolher o nome para o n eófit o. Sendo r a paz, a escol ha é a tribui ção do padri -
nho, a ssim como compete à m adrinha, se a criança for men i na. M a s ambos,
embora usem pôr O s eu n ome ao futuro afil h ado, cost u mam não f azer uso da
prerrogativa sem primeiro con sultarem os pais do néné. E st es, ou pedem paro.
o Elbc se fi car chama ndo como um dos padrin h os. ou d izem o seguinte:
- «E m o n ome se ndo à von t ad e dos padrinhos, também é à nossa>
Todavia, l á para con sigo, desejam que a cr iança receba o n ome de u m dos
dois compadres. se não o de u m deles progen itores . E em última anális e, outro
que seja vulgar, ou pel o menos d e fácil pr on ú ncia. N ome esquisito pouco
usado, é- l hes bas tan te desageed ãvel. Quando por ventura uma criança o r ecebe.
os pais fi cam deapeitadfssimos. E com en t a m assim:
- «Parece mesmo n ome de mangação . . . é fa zer p ouco dos pobres ...
Nem uma p essoa sa be como o há-de n omea r I. . . »
E fec tivament e. os t ai s nomes a r r eveaa d os, nun ca os pronunci a m como
realment e são. E stropiam-n os por tal maneir-a, que pr ovo cam a h il a riedade.
M a r cham, enfim, para a i greja, a pê, a pa sso solene e vagar oso, com a
s erieda de própria d o ac t o. Na frent e, os dois pad rinhos e entre eles a parteira,
d e ch a ile preto ou manti lha pela cabeça, com a criança a o colo. (2) Vai taf u lo o
pi mpolho: touca, vestido, cueir os e capa d e cores a legres e r endas vi stosas.
Um catita.
L ogo atrás. s egue o pai e às vezes o a vô ou a vós, e o pagem de madrin ha (J)
- s e u marido, pai ou irmão. Nin guém mais, não falando n o rapazio q ue se
vai agregando.
Todos os dos cortejo ves t em os melhores t r a j os q ue p ossuem, de h armoni a
com a sua posição, estado e i dade.
H á poucos anos ainda, era da prax e os h omens apresent are m-se n es t es
(I ) o pri or nubl. pclo III COU. 480 relc do pldrio.h.o I 2ÁO uI. 011 lIIacI.ri.Aha. ou CUI III ea.. unc fax. O ..edal.o.
160. 200 relc d. c.d. UIII. ~ c pcPOu . bu l.da. COala"CIII dar lIIal•.
( d Nom.. h.'u"I... 1 101. p u • • Ip.jc . o pc dtlol.o ocapa o lo' ar d. dluil. I • mcdrio.". o d. " c a udc I OOaIrU.
a"_1I o Io.' u u o. M.. por Co. llIaar {or m• • 1 ... 1110 ceda a lll. t oma I",ar 0100110 l qucl. 11111 ocapou o.a 101 • . t 10.10 III.Co.oc O
COallUIlI mil. a ••do .
(3) COIOlO I. ..bid o. o.. m t odo. 01 b. t1..doa l. ulII m.driol. • . Muit o. .. u .IJulII COIII 0101. 10 . 01<1.0.10 0. 1.0100 .11• • lOca nd o
1;Im COIII • pu nd. dc N o... S. nh on . N U I' ca" . , c1u o 11111 lIi o 10. , pa'lm.
- 141 -
ATRAV e s DO S CAMPO S
actos e outros i gualmente sol en es, com ch e peu s redondos enormes e de capas
compridas, de sorrubeca ou pano azul, conforme os meios e a i dade. Os lavra-
dores também trajavam de capa, mas à espa n hol a. para se distinguirem dos
cr ia d os. Hoje, todos vão cem corpo» e de chapeus m ai s reduzidos.
D e q ual quer classe e idade que seja, a madrinha chama sempre a atenção
do público, que nunca perde o ensejo de a observar atentamente, pelo menos
para lhe reparar nos enfeites. Madrinha solteira, ca m pón i a, apresenta-se séria.
de ol hos baixos e mãos cr uzadas. T r aj a vestido claro, de sofrível r oda, com
cinto de fitas l argas e compridas, forma n do laço de pon t as enormes, caidas
s obre a t r a sei r a : cor dão e brincos de ouro, veu preto e g ri n a l da . Um pouco
sensaboron a, valha a verdade.
Chegados à igreja, f az em oração, discutem de novo o nome da criança, bati-
se m, t r o cam parabéns, legalizam o assento, h) sa t isfa zem as propinas Cd e sa em.
O p ároco a companha ou n ão, segundo a norma que adoptou ou a con sideração
que dispensa aos figurantes. Mal sa em, 'repi ca m os sinos, e o rapazio qu e ge r o-
tea va no adro e à porta. da igreja, a code em chusma a acompanhar o batisado,
co m o cheiro nas a mêndoas. Pulando de contentes e a chilrearem alegres, lá
caminham com O séquito, uns atrás, o u t ros a par e adiante, e todos em folia
des enfreada.
Da i greja a ca sa, (.) o cortejo r egres sa co m o vagar e com post ur a análogo ao
da ida, sendo i gualmente alvo da cur iosi da de do gentio.
Chegam e entram. Os padrinhos dão os parabéns à coma d r e, dizendo-lhe:
- «A í tem o seu filho batisado : D eus lhe dê saude e fortuna para o cr iar.e
E os progenitores respondem:
- «Muito obr i gad o . . . N osso S enhor a vivente os padrinhos par a f azer em
muita alma cristã.»
A o que estes, algumas vezes, redarguem e
- «Q u e n ão s ej a o último, que vocemecês tenham.»
- «A i, credo I Com este e os que para aí estão, já temos bastante . . .
Não era demai s ir um para o C eu I .. .»
A ct o con t í nuo, enquanto a m ã e pergun ta à parteira se o pequeno chorou
q uando r ecebeu a água. batismal- pronúncio de feli ci dade - cada padrinho,
a bri ndo a sua bolsa d e a m ênd oa s, ( 4 ) apres enta-a a t odos da casa, para cada
q ua l ti rar à vontade. T odos ti ram. N ã o obstan te, sobeja m muitas. S ão a s do
rapa z io, que na rua a s a guariam ansiosos e i mpa ci entes . Pronto os satisfazem.
(11 o piroco n .....crl u l ... pn ..ll u 01 p. llri llho•• ClUI o ...Ia lm• • • b.allo u cu...r . Cllfllpn Ilotn. 40 . Il' m
II ob,u"...ta • • poJa h' piroco. llU'. oor . l. u r.. ou d..cul llo• • • 6 lau . m o. urmO' II. rt. luo pero'ilul.l.
di .. . II m.IU' d. cfU1u.UIll o. rt.p. cti yo••eto • •
121 Ao o'ro co....uluio • part.ir• . l u propl " ... do. pr/IIl.lro•• i' finr.m ."ou dn . A d. puuln "lo rab.l. h • .
C. II. p&drl" ho II' o IIU' Ib.••pr&. . de: 200 ui. per. c!1II • • u" '00 Ou 1$000 ui• .
<.) tm C.mpo M.l or f o. mondor... por 01111. P.... o b.ti...do . u,r...o. 1. 11(ucm alll' 11do...obn o.
p.d.rl "ho•• cu o o. lI"tlum c011.ldue::r. O" lej.m PUM" d••U••
Hl 80u.. d.m..ee, d. borI... C011 Ullllo .. m. doi. ou td. 'iI.. 1I0. d. . ...ado... 4U' 'iI...bquu O"' OU for l-lll
d.l.u por ["c...bl llcl. do. p.llri11ho• . T••bl. uoat.ce: l....n.-a...Iu Jlf6prio• • • ad , ltr.j• • pa n ofa ncU'. m .m"a.
d o.. ao piroco • • 0 ..«btio 10'0 lI.pob do b.tI••do. E.u uto , U raro e: qu.n d.. Eu .....I.. do UIDPO. a tu.
142
ATR Av t S DOS C A MP OS
Os padrinhos, ou alguém qu e os r epresente, a ssomam à porta ou à janela, e.
de bolsa em punha, zás, l á vã o a s amêndoas a os pu nh a dos, a tiradas com força
em diferentes direcções. Imediatamente estrugem os gr i tos da ge.rot agem, cla-
mando u n í sson a: - ePrá qui / .. . Prá qui 1 . ..• E a s amê ndoa s l á caem em
diferentes pontos, ocasion a n do reembulhôes, socos, atrop el amentos, choros e
gargal ha das. Um rebuli ço bravio, n ota da s mais alegr es dos costumes
alent ejanos.
A cabadas a s a mêndoas. 0 5 padrinhos recolhem, mas o r apazio continua a
b errar, até que se ca nsa e di sper sa. S e as a mêndoa s for am poucas, dá sur eiada
a os padr inhos ...
Àpós o referi do, termína a f esta co m chá ou ca f é e seus competen tes bolos
e doces, oferecido pelos pais da criança. O pai, a partei ra e t odos de a compa-
nhamento. se ntam-se à mesa . A mãe fi ca de for a. co m a cria n ça ao colo.
Uma pessoa de fa müia ser ve os comensais .
Findo o chá ou o copo de água, (que também se usa).. os padrinhos beijam o
afilhado, dã o as baet as ( I ) à comadr e.. despedem-se e saem. O pai da cri a nça
acompanha os co m pad res a ca sa. e aí de n o vo l hes agradece o «favor e a es mola
q ue recebe u».
E s tes são os cost umes seguidos n as aldei as e vil as, p or part e das p es soas
que a í habitam. M a s a ge n te que r eside n os montes ou em o u t ro qualquer lugar,
fora das povoações , usa a lg u mas p ráticas diferen t es, i mpos t as pela di st ânda
que os separa da sede da freguesia. À ssim, por ocasião de bati sados e bodas,
vão da casa à igrej a e vice- ve rsa, em chuuiões e cerroe etapados», puxados a
muar es, arreados a ca p ri cho. À sai d e da i grej a deitam. a mêndoa s a os rapaz es
q ue se j untam. r es ervando algumas para espalharem à chegada, a quaisquer
ga rotos que l ã lhe apa reçam. N o r egresso, em ve z do chá o u do ca fé, é mais
com um haver banquet e.
Qua se o m esmo se prat ica nas chamadas freguesias de ca mpo, cuja s ede está
i sol ada e er ma n o meio de q ua lquer h erdade. Aí. os cortejos aludidos, r eali-
zam-se t ambém em carros m elhores ou piores e até em cavalga d uras e be st a s de
a par elho - sis tema pouco vi st o n o concelho de E l vas, ma s muito vu lgar n o de
A r r onch es. N as f regu es ias des te termo, se melhan tes jornadas co nstituem, em
regra.. cava lgadas cur i osí ss imas. a que n ã o faltam os epi sódios corres pon dent es.
A trás de ana f ada s éguas, i rrepr eensi velmente arreadas.. ca minh an do a tra-
vado ou a galope com um o u doi s ca va leiros, seguem, apr es sados, vários muares
e jumentos.. de vist osos apa re l hos. co nduzindo i gual m ente di ver sas entidades.
Carros, vai um. se tanto. para os p ersona gens de maior re presentação.
* * *
D os batisa dos r esul tam pad ri nhados e co mpad r ios numer osos. q ue vão
muito al ém do que se pode s upor . A s crianças barí sudas, os pais e os avós, fica m
- 143 -
AT R A v t S D OS C A MP OS
s en do, respectivament e, afilhadas e compa dres, não só dos verdadeiros padri-
nhos, mas ai nda do mar i do ou mulher deles e bem assim d os p ai s, a vó s e
sogros, e a té d o prior e da par te ira. P or outro l ad o. os dois padrinhos e s eus
ascen den tes e consortes, contraem também r eciproco compadrio, que abrange
igualment e o pároco e a parteira.
D esta maneira, h á pessoa s que são co mpad r es d e t oda a gen te da l oca lidade.
N ão é caso par a envaidecimentos, mas h á q uem gost e.
Boda s Ànt es que s e efect u em, precedem-nas os seguintes preliminares: Com-
bina do o casamento en t re os n a morados, a n oi va pr evi n e a mãe
para esta par tici pa r ao pai de que será ped i da em determinado di a. N esse
dia, o n oivo acompa n h ado de seu pai ou d e quem o r epresente, l á aparece a
p edir a mão da pequena, r ealizando ele própr io o pedido o u a qu ele q ue o
acompanha . O a ct o efe ctu a-se com a serieda de pr ôpnie, m as se m fra s eados
especia is, como co n sta usar-se em alguns pontos do país.
D i z-s e q ue , antigamente, os rapa zes simplórios que tencionavam casar,
aprendiam deter minadas frases de efei to. par a emprega re m na ocasião de pedi-
r em a n oi va . Entre ou tras" cita-se a segui nte : - «Ào q ue ven ho. venho, ao que
digo, dilto ; venh o ped ir a sua fi l ha para casar comi go ... •
.... . .. .. . ....... ...... ... . ... .. . ... .. . . ......... . .... . . ...... .. . . . .. .. . . .. ..
F eit o o p edido. O p ai da noiva respon de s egu n do a s impressõe s q ue sen te
sobr e o caso. S e lhe agrada, diz que se fo r da von t ad e da filha, d a dele também
é. Se lhe d esagrada, responde em t ermos ambíguos, ou com franqueza rude.
manifestada pela seguinte forma :
- «D a minha vontade não é, mas se el a quiser n ã o a esi r ovo... que siga a
sua. s in a.. . D epois não se queixe C omigo, n ão cont em para nada... D eus os
aj ude e a mi m n ã o me desam pa re .
A mã e de n u nci a-se mais. Em r egr a, aprova s em pre. M as, por excepção,
também se vê o co n t rár io. isto é, n ão quere r , ou fi ngi r não quer er. S e r ealmente
n ão quer, atira catanadas fo rtes, e faz ch infrim.
S ej a como for. mul her e marid o, chamam a filha e, p or fo rmalida de,
perguntam-l h e se quer ou não casar. Ela diz que sim, está claro. e o ca sór i o
fica r es olvido.
No caso de aprovação e contentamen to unânime, a entr evista d os n oi vos e
dos pais prolonga-se pela n oi t e fo r a, em palest r a animadí ssi ma, tratando-se
logo dos pr egões (procl am as) . dos convites dos padrinhos e da forma por que
se h á-d e celebrar o casa mento : se «à cala da», à cepuchs, ou se com gr a n deza,
isto é, com a assi stência de convidad os e r ealização de banquete.
Como pert ence ao noivo fa zer as despesas do br õdic, é el e ou o pai que
primeiro f al a m n esse a ssunto. A n ão s er por motivo de reparação tardia, ou
por luto rigoroso. os s eus brios e os usos l ocais, l evam-no a declarar que «faz
boda», e que haverá banquete e que fa rá con vi t es aos amigos e parentes.
P or consegui n t e, diz aos futuros sogros qu e podem convidar também a íe m ílie
- 144-
ATRA vtS DOS CA MPO S
que quiserem, que ele fará outro t anto, não ol h a n do a gastos. O pai acode em
ref orço, acrescentando :
- «Q uem olha a g 8St OS , não se met e em fun ções. . . Um dia, não são dias. ..
Onde não chegar o rapaz, chego eu . .. ou os amigos. se for preciso.. . N ão será,
gr a ça s a Deus.»
E. para corrobar, conclui asseverando que ele. homem de barbas de vergo-
nha na cara, n ão a companharia se u filho a pedir filh a s de out rem. s e o n ão
sentisse com posses p ara mudar d e es tado e co m que se governar algu m t em po.
Tão bizarras declara ções são escut adas, com infi n i to pr azer. pel a ge nte da
noiva, que, lá pa ra consigo, nunca levariam a b em outras em contrári o.
Mas, para sal va rem as a p a r ências, r espond em que de toda a m an eira fi ca m
contentes; qu e n ão querem incómodos, que far ã o poucos convites, par a se n ã o
tornarem pesados, etc .
A restrição n os con vi tes é a b er tamente combat ida pelo n oivo e se u pai,
no propósito de demon strarem cabalmen te que não são somíticos, e que se
sentem na bolsa, embora a r ealidade es tej a m u ito longe do que aparentam.
mas é da peça a lardea r abundâ n cia, e por isso a rrotam .
Á vi sta de tão insist ente arrazoado, os pais da n oiva a ca bam p or declarar
que enfim sempre con vidarão a su a parent el a, vi sta a boa von ta de d e quem
faz as despesa s. Nessas int enções j á ele s estavam desde o princí pi o, mas parecia
mal dizerem-no. À s escovi n h as dos escr ú pulos são preci sas, por também Serem
do estilo.
Àrrumada a quest ão. vem à baralha ou tr a de maior transcendên cia. T em de
se combinar sobr e quem h ã o de se r os padrinhos: se cr iat uras da eguaIs dos
noivos, ou se gen te gr ave. N ão h á-de o n oi vo con vi dar padrinhos lep ôes e a
noiva madrinha fina. Ou o invers o: a noiva ir à i grej a acompan hada por
mulher campónia, grosseira, e o noivo entre l1gu rões de gra vata ou lavrador es
ricos. T em de dizer o 10m com o som.
Nisto não há diver gências, assen t an do- se logo que os dois padrinhos e a
madrinha serão t od os da mesma clessete, Discut em-s e porém os prós e os
contras que haverá em convi dar dos de colarinho alto ou dos de ge nt e lam-
beruçe, De resto. optam p elos qu e julgam con vi r - l h es melhor. S e escolher em
pessoas humildes. [usrificam-se alegando n ão serem interes seiros n em impost o-
res: que vão bem acompanhados com pobres como eles, gen t e que n ã o é de
cerimónias, que tenha de se andar com ex équi es d e cor teei as.
No caso de optarem por padrinhos de condição social superi or à su a,
a nnam noutro diapasão, sem que por i sso l hes fa ltem argumentos com que s e
jus t inquem. Favores recebidos, queda para as pe ssoas, de pendênci as, ofe r eci -
mentos antigos mais ou menos Iantaai osos, etc.
D e qualquer maneira é-lhes f orçoso justi.6carem-se perante os a uditór io s
das soa l heir a s e outros pontos de ta gareli ce.
N ão s endo o casamento da vontade da família da noiva, o noivo e quem o
a companha saem logo que formulam o p edido e ou vem a resposta. As delibe...
- 145 -
AT R A v t S DOS C A M P O S
rações r es tant es res ervam-na s para depoi s, con:.6a n do qu e o tempo aplane a s
p rinci pais difi culdades. Se passados dia s os embaraços contin u a m, cortam-nos
de vez, esquecendo contempori zações, e os dois - n oi vo e noiva - r esolv em t udo
como mel h or podem, a través d e todos os obstáculos .
C on h ecida a opos içã o ou a m á vo n tade d e qu al quer das f amíli as dos nuben-
t es à r eali zação do consór cio , uma r ede de intr i guinha5 e mexer icos envol ve as
duas respectivas pa r en tel as. Entre o mulherio chega a haver brigas de des com-
posturas vex a t órias, no m eio da rua. que à s vezes t erminam por cen as de
pugilato.
O s pobr es noivos vêem-se em calças pardas para mant erem aparente n eu-
tralidade. t clar o, que em semelhante colisã o, inclinam-se para a qu el es que lhes
protegem as aspira ções. M a s t a mbém desejam acalmar a s iras e ressentimentos
dos do ca mpo oposto. Em r egra. n ã o conseguem reali zar esse intent o concilia-
dor. p ois à m edida que o enlace s e a proxi ma. m ais se a ci rra a desavença en t r e
as du a s f amílias.
Chegado o di a da boda. f az crise a intrigalhada. O u as pazes se r eal izam
por int ermédi o de pessoas amigas e a p6s um cor tejo de choros e exprobações
recíprocas. o u os a gravos s e a volumam e o 6di o cresce. como r esul tant e de
mútuas desconsideraçõe s, imaginária s ou reais.
• • •
L ogo que pr-incipiem a correr os pregões, a n oiva deixa de ir a os t ra ba lhos
do campo, ao poço, e à ribeira. Também lhe é vedado ir à missa ou a qualquer
diversão. Àté casar 56 sai por absol uta necessidade: a dar parte do casamento.
ao exame de doutrina a casa do prior e à confissão na igreja, na v és pera do
consórcio.
N oi vo e n oiva convidam os padrinhos antes de correrem os proclamas.
Demora mai or. podia ser t omada pelos convidados com o falta de consi d er açã o
às su as pessoa s. Os padrinh os a ceitam ger al m en t e. mas se p or ventura se
r ecusa m, o caso tor na-se intrincado para os nubent es, por recearem que a
p essoa ou pessoas a quem ai nda te n h am de recorrer, igualment e se neguem,
com o funda men t o de não servirem para «pratos de segun da ccese».
M a s como lhes é fo rçoso sair de semelhan te si tuação, deci dem-se 8 convidar
outro padrinho, que, em regra, a cei ta. Sucede p orém obser var o s eguinte :
- . Pois sim, contem comigo .. . A cei t o po rque não ten h o cachaça de opinioso...
Se f osse co mo n ã o servia para a s faltas . .. Mas eu cá , n ã o sou de d is -
farces. . . Basta de mais aquelas . .. P or um a lho, não se u ma
alh ada ... »
O n oivo fi ca um pouco estúpido com tais observa ções; n o entanto, como já
contava com elas, balbucia vá.r ias desculpas e tudo se concilia.
S e o ca so se passa com a noiva, h á. ain da maiores a m uos de vaidade por
parte da nova madrinha. Não obstante, tais satisfações lhe dão e tanto a lison-
geiam, que se resolve a aceitar, esquecen do os es cr ú pu lo s.
- 146-
ATRAvtS DOS CAMPOS
Cada padrinho dá ao afilhado a importância de uma libra aproximada-
mente. se não um chibato ou um saco de trigo. A madrinha oferece à afilhada
o vestido para o casamento, pelo menos, e às vezes, outros adornos mais.
Em troca. o noivo aos padrinhos e a noiva à madrinha, costumam oferecer
o lrete do estilo. que antigamente consistia num cesto ou bandeja com biscoitos,
bolo podre e pão de Iõ, de preparo caseiro, e que hoje se restringe a uma grande
caixa de doce. comprada nas confeitarias.
Os dois noivos ou seus pais dão parte do casamento aos parentes e pessoas
de amizade. A noiva amplia a participação às lavradoras que lhe dispensam
favores.
Ele, recebe a dádiva de quinhentos ou mil réis de cada pessoa a quem dá
parte; ela, brindam-na, com prendas de utilidade. para uso doméstico: pratos.
vidros. roupas. m ôveis, etc. Que de alguns. aliás poucos. nem ele nem ela apa-
nham vintém ou coisa que o valha. Ouvem-lhes a participação e o convite.
a gradecem-lhes e aceitam-no. felicitam-nos por mudarem de estado. mas a res-
peito de afrouxarem. não tomam nada. Comem-lhes o isco. comparecendo na
função e abarrotando-se à grande. mas não caem no anzol. largando a esp6rtula.
Outros. procedem em sentido oposto: primam pela generosidade. dando
mais do que podem. sobretudo se tencionam figurar no acompanhamento e
assistir ao banquete. Conheci um pacôvío, que o seu maior prazer era convida-
rem-no para bodas e brindar com bizarria os respectivos nubentes.
Nada o envaidecia tanto. como figurar num acompanhamento de noivado.
com o seu trajo de gala. Tão notória se lhe tornou a monomania e tão frequen-
temente se lhe repetiam os convites. que a soldada mal lhe chagava para gastar
com os casamentos dos outros.
Por fim, bem a seu peaar, viu-se forçado a ir pela prenda. sem largar cinco
reis. Desde então começou a ser esquecido. e pouco tardou que não visse casar
todos. sem nenhum lhe participar. Morreu pouco depois; talvez de desBosto
pelo esquecimento a que o votaram.
" " "
Como disse. o noivo faz o gastos da boda e leva o que pode para o sus-
tento do casal nOS pr-imeiros tempos. Isto na melhor das previsões. porque os
há que. Hqutdadas as despesas. não lhes sobeja para comer durante uma
semana. Em todo caso. dois ou t rês dias antes do consórcio. interropem o tra-
balho em que se ocupam e passam «à boa vida» até ao fim da semana imediata
ao dia de núpcias.
Boa vida. é modo de díeee. Averiguando-se bem. reconhece-se que o
modesto noivo. à medida que se lhe aproximam as delícias do hicc.ínec, vê-se
assoberbado por uma série de incumbências. que as circunstâncias lhe impõem.
Para ele é certo o rifão de que se não apanham trutas a barbas enxutas.
Vale-lhe 8 força de vontade e a satisfação de se ver noivo.
Em primeiro lugar. antes de pedir a pequena ou pouco depois. precisa de
- 147
ATRA vt S D OS C A M P OS
e eeende r casa - a quisiç ão bastante difí cil, pela falta de habitações que se n ota
nos povoados rurais, apesar d e em t odos se terem construido muitos prédi os
nos úl timos vinte anos. M as a população aumenta em mai or esca l a que a s
moradi a s. E tanto que, devido a es sa falt a. vai s endo vul gar residirem em
comu.m duas famíli a s no mesmo pr édi o - p ai e m ãe, com 6 l h a e gen ro.
Calcule-se, por co nseg ui n t e, as cogi t a ções e fezes q u e te m de s ofrer o pobre
rapaz para alcançar, de r enda, o prédiozÜo que pretende habitar. S e por Ielíci-
dade se lhe depara um, toma-o 10&0 à sua co n ta, quase sem discutir o preço d a
r enda. S e o não o btém. apesar de t odos os esforços e ent revistas inúteis com os
s en h or ios, r esigna-se a ir vi ver em comum com os sogros. cor tan do cerce o pri-
meiro entrave d os preliminares e ntinupciais.
... . . ... . ... .. .. . ... .. .... . ... . . ... ... .... ... ... .... .. . . ... .. ... ..... .. .....
O it o di as a ntes da boda, o n oivo t em de passa r pelo incó modo d e i r pessoal-
mente a vi sar os padrinhos. o pároco e os convidados, d o dia e hora em que
t enciona casa r . Aos convidados, é da praxe, r epetir-l h es q ue con ta com eles,
qu e lhe não faltem a a co mpa n há-lo, qu e l e va muito em gosto que t omem part e
no a j u n t amen to. etc .
Depois, j á de t odo eut rege a os pr epar a tivos da ce ri mónia e d o banquet e,
procura depech é-I os com esfo rços d e trabalho pes soal, que lhe permitam econo-
mias de dinheiro. Ele próprio, ou coa djuvado p or a l guém, conduz d o mat o a
l enha para ca sa , em carro e parelha em prestados i especu la sobre a m a nei r a
m ais económica de obter a f a r i n ha para o pão e bolos da boda i des pacha os
papéis i (1) e por último vai às h erdades para traz er o chi bato ou chi ba t os que
comprou ou l h e ofereceram para o bró dio. Na véspera à noite ainda tem de
servir de magarefe, a ba ten do e esfo lan do as r eses que sacrifi ca à vora ci da de dos
convidados e dos eheaadteos.
No dia do ca samen n t o, desde que vem da confi ss ão, l ogo de manhã cedo,
at é à hora de dar a mão, os af a zeres mul tipIicem-se-l h e, m as a t odos a t end e
pela vontade que o ani ma . . .
* * *
D o gover no e arranjo da boda. que é como quem diz, d o preparo d os bolos,
d o despacho na cosinha e do serviço do almoço e d o jantar, enca r rega- se a mã e
ou irmãs do noivo. a quem ele ou o pai entregam O cabedal para os ga stos
correspondentes- Que não haja falt as . . . Que apareça tudo que é dado . . . -São
as instruções que pai e filho dão à s mulheres e que el a s cum pr em à ri sca .
N este propósito. a s encarregadas falam à cosinheira de f a m a. insinuam-lhe o
que pretendem, coadjuvam-na no q ue podem, e a o mesmo t empo vão ou man-
dam, à s casas abastadas, pedir emprestado os utensílios de que precisam, como
.
( 1) C....tidll .... OlltrOl dOcllm.... IO. I di.p b.i. p.u • ulcbu çlo do U"lllel !.fO. S Iu 6' 111"' dbp..... d. prod..-
m.... ch.. m. m_... . l.L.. ,..p. l. cu n do•• l. Cizc ll.. ltlncl • •• dh: . u: - Fulano .. fu la Ili o .. . pre, o. m; c...m por
PU" ;' u rn J o• .
- 148 -
A TRA Vr.S D O S C AMPO S
vasilhame de casinha . louças, vi dros, toal has, talheres. etc . E t u do se lhe
empresta de boament e, como f acto t rivial que está n os h á bitos d o campo.
• *

A ssim como o noivo faz as des pesa s da boda e do banquete nupcial, a
n oi va cumpr e-lhe adquirir todo o mohiliáxio e roupas de cama, conforme n ot ei
nas páginas 94 e 95, ao t ratar da aplicação dos salários das mulheres.
P or conseguinte. a r a pari ga pedida em casamento, se ao tempo ainda n ã o
possui a mobília e enxoval pr eci sos, trata de 08 adqui rir desde logo, contando
sempre com as ofertos que espera r eceber. O pai e a mãe auxiliam-na com dona-
t ivos importa n t es.
N a semana que precede a ce lebr ação do consórcio, enquanto o noivo se
ocupa nos afazeres que j á mencionei, a noiva e s ua família incumbem-se de
assear e mobilar â habitação do futuro casal.
A s vizinhas e as amigas coadj uvam-nas desinteressadamente, salvo a ideia
de assistirem à função, ou pelo menos a perspectiva de um presente de bol os,
ou de um prato de ensopado no dia de boda.
Mas haja ou não esse estímulo. t oda s se empenham em assear e ornamen-
tar a casa com O l u xo e garridice i m post o pelos usanças tradicionais. tisan ça s
arreígadíssimas, a q ue n en huma noiva se exime, antes muitas procuram ir
além do vulgar. H umilhada se julga aquela de que se não di z que «leva
um cesâc .e
O s preparos te rminam pelo arra njo do sotão e da cama do noivado, coisas
que ficam prontas ao a noitecer da véspera da boda, para imediatamente se
exporem à admiração e parecer do mulherio previamente convidado. A visita à
casa e à cama da noiva constitui uma diversão atraente, a que concorrem todas
que a podem aproveitar. As apreciações e reparos q ue aí se ouvem, proporcio-
nam cenas curiosas, que t al vez tenha ocasião de reproduzir noutro lugar
desta obra.
• • •
P or volta das dez horas do grande dia, o noivo e seu pai tratam de reu-
ni r os parentes e amigos com que contam para o a lmoço. D os da noiva concor-
rem ou não, confo'r me a ccrdeel idade ou frieza de relações entre as duas famí -
lias. Ela e a ma drinh a não compa recem; os padrinhos só vão sendo de classe
análoga à do afi lhado.
N esta altura do almoço, o infatigável noivo entra no período agudo das
massadas estopantes. Por ser da peça e não incorrer nas censuras, lá vai feito
bolegcri m, de casa em casa e de taberna em ta ber na, a chamar os parentes e os
amigos onde nem sempre 09 encontra, t endo de esquadrinhar por toda a parte,
'Pa ra l h es descobr ir O paradeiro.
D epois mesmo de os encontrar e de l hes dizer o que pretende, ainda por
vezes sofre decepções, que chegam a esgotar-lhe a paci ência ,
- 149 -
ATRAv t S D O S CAMPOS
À poder de r ogurives, todos prometem i r, mas pOUCOS seguem logo. Al guns,
mai s ce.rreços, têm de ser a visados segunda e terceira vez, fazendo es per ar e
arreliar os pontuais. Qua se t êm de os l evar a os empurrões.
A final, e após inúmeras di li gências, a lamilia r eune e o almoço efectua-se.
Const a de s opas de verde ou sangue cosido, com fressuras misturadas, ensopado.
queij o, frutas, bolos. vinh o e licor. C h á ou ca fé, 56 a par ece s e entre os comen-
sais figuram pessoas finas. Mas, em compensação, bebe-se vi n h o e licor à franca.
Alguns dos bebedouros ficam avinagrados, por tal modo l oquazes e fastidi os os,
que 09 restantes esquivam-se a aturá-los. V ã o, portanto, embirrar com o noi vo
que, pela sua p osição excepcional, a t é isso tem de sofrer f
* * *
H oras antes do consór cio, a noiva entrega-se aos preparos da toilette,
a uxilia da pelas amigas que a r odei am. O p en t ea do e a colocação do v éu e da
gri n a lda, exigem con heci men t os especiais de bom gosto, que, no conceito do
vulgo f eminino, s ô p ossuem a s e mestra s» de f a m a . É por conseguinte, u ma
dessas h abilidosas a incombida de tais a dornos, m edian t e convite prévio ou
of erecimento expontâneo. A o ver em- na passar, toda a ssedada, à hora opor tu n a.
as vi zinhas a ssomam à por ta e exclama m :
- cAí vai Fulan a A quilo vai pôr o véu à n oiva . .. Sempre te m u mas
m ãos mui t o deli cadas E bom sen ti do .. . Onde põe os olhos, esserve tudo . . .~
Às maldi zent es, r edarguem :
-Há qu em lhe ganhe . . . Se sabe, n ão faz maravilha . .. T eve boas mes-
tras . .. Entes de aprender com as egr a ves era uma citoIa ch a ma r em- n a .
N oiva qu e compu sesse• .ficava sem doairo... A gora, à s a ba s das erfcas», já fanf a »
.... ....... ..... ... ... ... ... ... .. .. ... ... . .. .... .... . .... . .. .. . .. .. .. ... ... .
o n oi vo prepa r a-s e em m en os tempo, trocando o fa to que de manhã le vou
à confi ss ã o, por out ro n ovo e mais custoso. Sem embargo, veste-se à p ressa,
p orque, depoi s de «composto» acompanhado do pai, t em de ir às r esidências
dos dois padrin h os, pa ra, po r seu t ur n o, estes se lhe reunirem e com el es r egres-
sarem a casa, onde, a o t empo, j á os esperam os convidados pont ua is. Para os
n egligentes, a inda qualquer tem de se r vir de criado, corren do a avisá- los de
que est á tudo pronto, que estão à sua espera, que são h ora s, qu e se não
demorem, etc.
Afina l, lá os a carretam todos, a poder d e paciência e de estafas.
.. . . . . ..... . " .
Da parte da noiva a bservam- se prax es s emelhan t es. O pai e os irmã os,
logo que a vêem preparada, dirigem-se ao domicíli o da m adrinha, para esta. o
marido e filhos, os acompanharem a casa, e de aí seguirem à i grej a . Se qua n do
chegam a casa. ainda faltam convidados, e lgaem s e incumhe de os ir chamar.
até q ue compareçam, dep oi s de muit as a r reli as.
Noivo e noiva, ante s de sairem para casar, aj oelham-se diante do pai e da.
- 150 -
A T RAv t S D O S C AM POS
ma e, e. comovidos, pede m-l h es e r ecebem a benção de ca da um. O s pais, se n si-
bilizados t a mbém, ficam lacrimejando i gualment e. S e o ca samento n ã o é à von -
tade da família, as lágrimas cor re m de fio, especialm ente dos olhos da mãe e das
irmãs do nubente, que, em semelhan te h i pót es e, fazem -pape linhos de t odo o
gén er o. para alardearem de sgosto e quiailarem o ou tro consorte e s ua f amília .
• • •
N a ida para a i greja, o n oivo f orma um cortej o e a n oi va outro, i n do cada
qual por sua vez. A n t es, t omam-se a s n ecessárias prevenções para os dois a com-
panhament os se n ão encontrarem n o traject o. É da praxe a noiva chega r
pr imeiro.
Ambos os cortejos seguem a pé. gr a ves e ceri mon i osos, cônsci os de que se
t ornam alvo do povi nh o, qu e aflui às esqui n as e largos da s r uas pa r a l h es
obse rvar os traj os e as pectos.
A n oiva toma à f rente do se u séquito, ao la do direit o da madrinha. Vest e
pouco mais Ou menos com o as noi vas de toda a parte : h ) ve st ido claro. de fi ta s
largas à cintura, com O laço e pon tas ca idas j véu branco e gri nalda d e fl ores de
laranj eira. N as or el h as, a o p ei t o e nas mã os, os te nta respecti va ment e bri n cos,
cordão. broche e an ei s de ouro. O pio r para ela é q u e parte das jcías, na mai o-
ria dos casos. per tencem às paren tas e a migas que a vestiram, e que Iha8
colocaram para l he se rem agradá veis.
Oura da e m excesso ou suficien te men t e, a noi va cami n ha de mãos cruzada s
cabisbaixa, descobri ndo-s e-lhe n o enta nto vestígios de choro r ecen t e. M a is
parece seguir par a um en te rro, do que pa t a a mai or solenidade da sua vi da .
Mas para sat isfazer a costumeiras a snáticas, tem de fingir tri st eza, e n esse pro-
pósito lá vai aparentando aquilo que n ã o sente.
A madri nha veste segundo a sua posição. S endo mul h er humilde do campo
apr ese nta- se de véu pret o antigo ( 2) e vest ido de lã.
O noivo marcha também n a frente do s eu cortejo e en t re os dois padri -
n hos. Traja jaque t a, colet e e calças de pano pr et o ou de casimira escura, cinta
de roermo encarnado, sa pato bra nco e ch apé u redon do. À semelhança da n oi va.
mostra-se ta citurno e preocu pa do.
O s padrin hos, de trajos fest ivos, 80 uso local, aparentam satisfação evi dente,
s em con tudo perderem a n ota da seriedade a que o se u papel os obr iga .
Como n os bati sados, antigament e nas bodas. os h omens do campo, pobr es
(tI Ao co.. t rlrio do II". 'eul ee IC ohn ru. " or tod• • " .rl. do ". b . em . I,um.. " u ·o.a....II....10111.. do di,.
tril Od. POrl . J, 'rc. como A"ouch OOU.' . 011- 11 °cutloliSllmo co.to", . 01 .. " 01.... Ir..", c...r d. t oc. ou m. .. UU•• "r.l'
.. "utido d. "'1' ... . cor • • :u cta "' e.. t. ee... ° ... u mo ..~ o i . j ' o u . jo com a oe ,,10 II. f, uj. .. oo u .. ocu f6u. A. m.drl ab..
• "n.na .. ulld.. d. 1'0. 1 lol'lll" Nu. m o• •1.,..... " U' m-.1. 1..." rÓ"rio_ Fu I hur °No,.,.Jo do S..pulcr o.
Ct) O....... co... qu. II . .. I.h drJ.. Io.. d. co.. dlcio hu i1d. n.' hod b.dn do•• 110 , . tI.lmu l.u . f1 d , o••
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- 151 -
ATRAVt. S D OS C A M P OS
e remediados, iam à i greja de capa larga e co mpaída, com chapeu de borla, de
abas reviradas. H oje, vã o cem cor p o», e também com os fatos melhores que
possuem.
.. .. ..
Todos reunidos n a i g r ej a. efectua- s e o casa men t o. Em segui da , os n oivos
dirigem-se aos respectivos sogros e, a joel h an do-se- lhes, pedem e recebem-lhes a
b ênçã o. D epois, o u ve m os parabéns d os a ssi stent es, q ue s e r esumem n o seg ui n te :
- «D eus lhes dê vida e saude por muitos anos e bons. Nosso Senhor os cubr a
de boa sorte . . .» , etc .
Entretanto os pa d rinhos dão a gor geta ao sacristão, (I ) e imediatamente,
a companh ados d o pároc o e d os n oivos, vão à s acristia para l egalizarem os t er-
m os. s e ant es se não p r ocedeu a esse a cto. N esta a ltura, o pároco é con vi da do
a reunir- s e a o acompanhamento e a ssistir a o banquete. Ele a gradece. aceitan do
o u não. Em ge ral . n ão aceita.
C oncluidas todas as fo rm a lidades. os dois s équitos reu nem-se e f un dem- se
num só. dis pondo- se a sair.
Enquant o o matrimónio se efect ua D O interior do t empl o, o pequen o adro
da igrej a p aroq uial enche- s e de curi osos de ambos os s exos. á vi dos de pr ese n -
ciarem a saída da boda. E' um es pect áculo destituido de n ovidade, mas se mpr e
apreciado e co nco rri do. à f alta de melhor.
- cD que tardam a sair . . .lt Dizem vári as mulheres impacientes. com os
filhos a rirscol o.
- «E st ar ão com o assent o» - observam diversas.
- «Q ual história» - replicam o ut r as. E con cl uem : - «Ioda não ter dem. »
- «Lá saem já I ... L á saem I ...• - E x cla mam radiantes a s mai s a tentas.
Efecti va ment e, à port a pri ncipal assoma o cortejo. caminh ando par a o adro.
Princi pia m os comentá rios do mulh eri o:
- «Q ue linda vai I . . . F az uma n oi va muito boníce,e
- cR u,m. . . N em por isso ... L eva olhos de chorar ...»
- «P ude ra, não b.e via de chorar ... são coisas q ue chocam u ma pess oa . ..
Ioda m ' ele mbro . . .»
- «E q ue ch or e P or isso não se faz feia . Toma r a m muitas .. .:10
- «E. o vestido I R eporem para o ve stido . .. C omo lhe diz bem . . . E st á
à moda . ..»
- «À i . nina, 8 cape la I .. . Cois a asseada I . . . Boni ta p renda . .. »
- «Credo I não é para tant o . .. T em- s e visto melhor . . .»
- «E o n oi vo I .. . Olh em o noivo I . . . O que vai de sério J • • ••
- «M as bem vestido ...»
(t ) D. 160 rei . JlU' cim•• d. ud. Jlad rl n bo • d. m.lUlnb•. O. ' lDolam'Dlo, .0 p'roco do p.'o. p. lo 0.01..0 ...&ri.m
d. lre,oul. pu. [n'olll•• No otro. tcmp N. CJI:l .I'om.. 10uUd.dn. o pboco n u bl. do a oi..o um lreleOd...i.Abo • um'
, . li a b••
152

ATRA VJ': S DOS C A MP OS
- «Bota fina . . , »
- cColarinho de lustre . . . /t
- «Botões de our o, grandes .. . elamarea de prata . .. cordão de ouro DO
relógio ... um dinheirão t • ••
- «Q uem sabe se tudo será dele ... Quem o alheio veste na praça o
despe . . .
E a ssi m, com os elogios de umas e 05 desdéns de outras prosseguem os
comentários das palradoras. Entretanto, a boda passa entre as alas da multidão
e os olhares prescrutadores dos mirones, que fi xam atentamente os n oivos e toda
Li comparsa ria. para lhes não esca par o mais ligeiro pormenor.
Na frente vai a noiva, a madrinha e seu pagecc. L ogo atrás, o n oivo, entre
os dois padrinhos. e p OI últi mo, os parent es e os convidados.
A o sa i r em, os sinos tangem os repiques do estílo - mais ou menos espaça-
d os, segundo a sorg eta que o sacristã o r ecebeu - e, ao soarem 0 5 badalos. o
rapazio que traquinava pelo terreiro a os sa ltos e cabriolas. larga as brincade i-
r as e corre em massa a formar o couce do acompanhamento, numa indisciplina
de incorrigível balbúrdia. Muitos garotos t r esm a lham - se da chusma, seguindo
uns a os lados do cor t ejo, e outros, t omando-lhe a f r en t e. como s e foss em a sua
guarda avançada. Pelo ca mi n h o va i engrossando a turba de rapazes e raparigas,
qu e se acotovelam, esmurram, espezinham e beliscam, em alegria doida, na
perspectiva de muitas amêndoas, confei t a s e rebuçados. Uma boda dá-lhes mais
eegabofe de gu l odi ces , que cinco ou sei s batisados . . .
Os noi vos e seus pais, bem co mo O pessoal restante, caminham vaga rosa-
mente â altura da g ra vi da de. O s primeiros most ram-s e comovido s e cabisbaix os ;
enqu a n to que os p adrinhos e comparsas revelam satisfação, cumprimentando
sorridentes p a r a a direita e para a es qu er d a. Como quem diz: - «C á vamos ...»
Á maneira que a vançam, das janelas e por tas, l a nça m- l hes flo res, grãos de
trigo e folhas de oltveire, ga l a n t eri a que os obsequiados a gradecem levando a
mão a o chapeu.
Cheg am enfim a casa, onde se realiza o banquete. qu e tanto pode ser a
dest inada à r es idência dos cônjuges, coma a do pai do n oivo. Optam pela d e
m a ior capa ci d a de.
À porta a guarda a boda um r ancho d e moças, em trajos e p enteados
garridos, que es pa rgem fl or es s obre a comitiva. A vizinhança regoIgita nos
limiares d os p ortados, e a rua coalha-se de gente, q u e acode de diferentes
direcçõ es, a o impulso d a curiosidade. enfim os comentários do largo
da i greja, com tanta ou maior pa smaceira. O rapazio fura por o n de p ode,
ga lga n do obstáculos pa ra tomar p osiçõe s favorá veis ao apanho das amêndoas.
que dentro em pouco lhe a t irarão. Com as mulheres tassalhonas, (1) que se lhes
metem de p ermei o, n os m esmos intuitos, provocam pequenos desaguisados,
(Jl MuIh"u d. Iintuat llll Iltt"t1o... h.hit u.d., .. u.du Jld... nau. duulfU , t ... dtUUDho d. nlluhio. l.h"do
.lto tO... .", tO"U. Ol • ialfomeu ndo·n ond. ni o U th..... m. A , nd u , . d. "'Illhu tom,dld• • n u u d, • ' u i• • q", nu.
tOlO bonutU.d•• aru "io.
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ATR A V I! S DO S C A M P O S
clamando que só vadias e gulosas se atrevem a cercei á-los. Elas con tes t a m
ír acc ndes, alegando igualdade de direi tos.
...... .... . . . .. . . . .. ..... .. . . . .. . .. .. . . . . . .. ... . .. ...... .. . . .. .. . . .. . ... . . ...
N oi va e madrinha, entes de r ecolherem, era cos tu me voltarem-se para o
povo e f azerem mesura de agradeciment o. Hoje, já se n ã o u sam esses
sal amal eques.
Ao en t r a r em t odos na modes ta moradia a que s e destinam, ou vem-se os
pa r a bé n s do estil o, dados pel as pes soas que não f oram à i greja. À n oiva dirige-se
à sogra e. ajoelhando-se, pede-lhe e r ecebe-lhe a bênção. Em seguida, é muito
abraçada e beij ada pel as amigas solteiras.
Entretanto, os padrinhos munem-se das bolsas cheias de amêndoas, co n -
f ei tas e rebuçados, e, abrindo-as, apresen ta m- na s aos circunstantes, para que
tirem à franca . Ninguém r egeite : uns tiram duas ou três, «por bem pareceu,
o ut ros, a os pun hados, sem vislumbres d e cerimónia. Não obstante, s obeja m as
preci sas para conten t a r a t u r ba que esta ci on a na rua.
Imediatamente, os padrinhos e r e presen t a nte da madri r h a , de senvensi-
lham- se dos gr upos qu e enchem a casi ta e as somam à port a, para regalar o
povoleu q ue, anciosamente, os ague rda. Um S USSUTO d e satisfaç ão cel ebra-lhes o
aparecimento. Eles co rr espon dem, most ra n do- lhes as bolsas e espalh a ndo-lhes
o conteúdo, por entre sorrisos d e agrado. E' uma sementeira r ij a, a ss eme-
lhando-se a ch uva de sa rai vada gr ossa cai n do for t e sobr e as pedras da calça da
e as ca beças do povi n ho. (1)
Àinda as pr i mei r as a m êndoas n ão caem não chão, j á O Aen t i o brada:
- «P' rá qui f.•. P'rá qui I. . .• E. a o passo que a gr ita r i a prossegue e a umenta
em tonS ensurdecedores, os garotos correm como doidos para os sítios visa dos .
N a sofreguidão de obter em a pa n ho avult a do, e queren d o a cudir a toda a parte
onde chega m as gulosei mas, cruzam-se em sen t i dos opostos, num borbor i nho
delirante. C hocam-se, atr opel am-se, a montoam-se, es pezin h am - se, r oubam -se
esbof et ei am-se e co ntundem-se, ri ndo uns, chor a n do e praguejando outros, a o
som d e berros egudíssimos. P agodeira d e est al o, incomparàvelmente super ior à
que se passa nos ba t isados. M ai s quilos de amên doas e o quintu plc de gen t e.
- «P' rá qui!. .. P'rá qui l. . .lt con ti n u a m a clama r alto ce n ten as de vozes,
à maneira que os projécteis de açúca r caem como balas sobre os pontos a lveja-
d os. A s mulheres abrindo os aventais, e os r a paaítos, d e cha peu n a mã o,
acer ca m-se dos padrinhos e impl oram-lhes dádivas. S e por a caso os ouvem e
atendem, a onda do rapazi o a uda z preci pi t a -se sobre os cont em pl ados e es bu-
lha- os quanto pod e. Quem ma is unhas t em mai s apanha, embora à cust a de
praga s. Quantas mai s lamb ari ces se espe lham, m aior é a al gazarra e os grit os
de : - «P' rá qui I. . . P'rá qui I.. .» A final , as bolsas es ve sí e m-se e o gaudíc
afrouxa. até cessar por compl et o.
Àntiga.mente, se não se avent a vam amêndoas ou confeitos em abastança,
' l ) N io " , . Iad • • 1;11101 .... 0•••ee .. ..d ••1. " ... p. dri Jlho. , "m. 'O u por O" U' , , obuitolum ...mlado.. Ar.pul. d.
por mud.. de d e ee ui•• ," c. boo .ue 0 '0.
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ATRAvt S DO S C AMPO S
h avia, pel a certa, s urriada a os pad..rinhos, por parte da ga r ot egem, Largavam a
correr, vociferando: -«Padrinhos de capa rota, que não t êm outra L . Capa r otaI...
capa r otai ... » E, entremeando, repetiam a mtude, em alarido r etum ba n t e, a
ú lti m a palavr a de Cambrone I . . . Hoje, há menos realismo nessas assuadas
zomhet eir as.
N os i n t roitos das amêndoas, o noivo vai a casa da sogra, para lhe pedir e
r eceber a bênçã o, e p r incipalmente, para a convi dar a acompanhá-Lo, afi m d e
aaistir 8 0 br ôdi c.
S e o novo ge nro n ão cumprir es ta formalidade, a recente sogra j ulga-se
desconsidera da e de aí tira pretexto para não comparecer às comesainas.
P assado o período de bulíci o ocasionado pelo rapazio, vai para a mesa o
jantar : sopa de macarrão, olha acompanhada de carne cheia, arroz com galinha.
ensopado, frtcese é, {impr ópriamente ch amado cabidela), cox o f rito, (I ) salada,
fr utas, bolos, arroz doce e vi nho. Isto, n as bodas de esbarr unto, em que se
alardeia abundância. Nout ras, m enos espaventosas, O menú reduz-se co nside-
r à velmente, sem contudo faltar o ensopado, tido e havido como p rato de
resistência indispensável.
Como os comensai s costumam ser muitos e as e.comodecões poucas,
servem- se primeiro os n oivos, os padrinhos e as pessoas mais gradas. À este
primeiro serviço cham a- se a primeira mesa. Ã segunda, concorrem os convidados
e parentes de menos cer i móni a . e à t er cei r a e última, as mulheres anteriormente
ocupadas com o serviço e os rapazes adolescentes.
À mesa, a noiva ocupa o l ugar de h onra, à direita da madrinha, tendo, na
frente o noivo entre os padrinhos.
É da praxe, a noiva comer pouco ou nada. Se alguma coisa debi ca é para
satisfazer às instâncias da madrinha. P or sua vontade abst êm-se de t udo, m os-
trando fasti o e acanhamento. O noivo come mais, m as s em evidenciar apeti te.
A ambos. os convidados instigam a com er bem, dizendo-lhes vários dichotes de
ocasião. E les ou vem e sorriem, mas n ão s e con ven cem. Para man terem a linha,
sacrificam o es tô mago.
Ao meio do jantar desponta a animaçã o. Á m edida que o vinho mingua
nas garrafas e nos copos, os cérebr os esquentam-se e as fa l ácia s gener a li z am- se,
pelo menos entre os maiores bebedores. Com a s primeiras presas de ensopado
começam as seudes, que noutros tempos «deita va m- se» em versos e décimas,
u ma s de improviso, outras tradici oneis ou «armadasN expressamente dias antes
e de propósito.
O costume persiste. mas não com a voga e interesse que despertava o u t r ora.
Em todo o caso, aos comensais em evidência e s obretudo aos n oi vos, sempre se
fazem brindes. S e saem em verso, recitado enfAti camente por voz clara e vibrante,
os circunstan tes aplaudem, excl amando : - «Pra que viva J••• Pra que vi va I . . .
Viva o bem f eito ' . .. Vi va 1. . .»
- 1;,,, -
ATRA V r. S D O S C A MP OS
Entretanto se come, mandam-se presentes d e ensopado e d e outras viandas,
às pessoas amigas q ue n ã o con co rrem 8 0 f estim.
A abundância da comida ch ega a t odos, incluindo os pobrezi nhos a q ue m
se distribuem os sobej os.
...... .... ............. .... .. .... ... .... . .. ..... .. ... .......... .. .... ... .....
Antes e depois d o j antar, a noiva e a madrinha alojam-se n o quar to da
cama, s en t a das em f rente da porta e aí permanecem o mais d o tempo, pela
noi t e a di a n t e, a t é o bail e termínee.
a faz as vezes de sala e guar da-roupa, à falta de melhor al ojo.
. ... . ......... .. ..... ....... . .. . ......... . ..... .... .... . .... .... ..... . . ... .. .
Ás n o ve ou dez hor as da n oite. depois de se l evantar a mesa e d a casa se
desobst r uir, principi a o baile - o balho ou barulho, como também lhe ch a mam.
C oncorrentes, t odo o pessoal que assisti u ao ja nta r e os r a paz es e h omens q ue
a pareçam. faça m o u n ão parte dos convidados. A por ta escan care-s e de par em
par , pa r a que en t re e vej a q uem qu ei ra. co mo execu t a nte o u espectador. S ó s e
fecha. quando se re conhece n ã o ce ber m ais f amilha., ou que a assoiça d.e
d ia é excessi va . perturbando a ordem e a r egularidade do adevertimento.
P ortant o, a f unção r evest e-se d e todos os carecterísticos e inci d en t es p róprios
dos bailari cos popul ares, o u pa re mel hor diz er dos ch ama dos «balhos de can-
deia». h ) cujos por men ores r eferirei em p arágrafo p róprio, ins ert o n outro lugar.
N os bail es d as boda s, h á sem pr e toque d e g ui tar r a e d.e armónio. O s toca-
dore s são alvo de de ferênci as especiais, como of er eci ment os d e vinhos, licores,
aguarden t e. b olos e char utos.
O s n oi vos, bailam e dans am pouco ou muito, conforme o gosto que sent em
pelo salsífré.
Pares n o t erreiro. (I) nunca f altam, ch ega n d o a havê-l os em excesso, com o
em d emasia são os espectadores, o que produz uma t emperatura a sfixi a n te,
s uportada sem queixumes. À ci ma da s comodidades p essoais pr eva lece a paixão
p el a dansa e a s delícias i n erentes ao namoro. Q u em n ão namora, goza t ambém,
esprei t a ndo os gest os e pal a vreado d os pombinhos que a rrulham. Fervem os
comen tár ios troci stas s obre a m anteiga que se derrete.
Enqua nto os n ovos se entretêm no bail e com o f uror própri o da m ocidade,
r eunem-se n outro co mpartiment o certos tipos m a st a ços, amador es d. e desgar-
rada, e aí passam o serão. culti vando o seu ca n to favorito. t ão origin a l como
de senxabid o. Nada m enos harmonioso d o que esses versos d e pé q uebrado,
impro vi sos d esco n ex os e coxos ga rga n tead os e m tom pl e n gen t e e a r rastadís-
simo, por entre ais e suspi ros de chor a mi ngas piegas a dedilharem na copa d o
cha peu. É u m a cantilena fas t idiosa e narcót i ca. em q ue doi s ou três m a d uros
ca n t a m em co mpet ência e a lt eroada mente, ora al udindo ao acto nupcial q ue s e
festeja, ora ao mérito e demérito das su es próprias pessoa s, o u das dos presen-
h ) 510 .. ..1m conl...c1do., pOl que n ndo '.nlm.M. d. dol. por p• .,o.. poh ru, a nu CO' llIma n r lIumlb.d... luz d.
canil. i...
(s) O pllo ond. II hll l••
- 156 -
ATRAvt S D O S CAMPOS
ees, em term os louvaminheiros, ou a descedei rer , celebrando qualidades ou
descobrindo melenqueíres. (1) Tudo à boa paz, entende- se. Para variar, também
a bordam n out r os assunt os: no profano e n o divino. No divino r egalam-se por
faze r citações bíblicas, recheadas de anacronismos. N o fi m de cada canti ga, os
ouvintes aplaudem com p almas e vivas. Após os vivas, t odos molham a guel e,
com a sua pingole de aguardente ou de licor, para entreter a animação e inspi-
raIOS cantadores.
E st e singular certame t oma em com eço um caráct er ínt imo, ci r cun scr ito aos
a pa i xon a dos no gén ero, e bem assim ao n oi vo e aos padrinhos, que de propó-
sito se cha mem para o uvi r em e apr eciarem.
D epois aumentam os curiosos, mediante prévio consen t i m en to. I sto em
algumas bodas. Noutras, a desaaTrada não se con ta de portas adentro, em ccn-
conência com o bail e. mas sim mui to de poi s, por l embran ça. i n teresse i r a d e
estranhos, a horas morta s e em plena rUB. Veremos i sso mai s adia n te. hl
..... ... ... .... .. . . .. .... . .... .... ...... .... ... .. . ... .. . .... .. ... . .. ... .. ...
Sobre a uma da madrugada, quando o bailarico está n o a uge do en tusiasmo,
os velhos not am o a dian ta do da h ora por entre bocej os de sonolê nci a e fra ses
s ugestivas, para a fun çã o concl ui r. A gent e moça indigna-s e e protesta cont ra
a ideia, j ulgando- a extemporânea. O pa i do noivo, ouvi ndo os comen tários,
discorda da r apaziada e, em tom faceta, a ss evera se rem hora s de descanso e qu e
todos precisam deitar-se. Os n oivos não se pronunciam, ou secundam o pedi do
dos bailadores. Em que pensem de o u tr a f orma mal parece dizerem-no. Entre-
tanto o pequ enem e con ti nua a insi stir e roga r p elo prol ongament o da densa, o
que de resto con seguem, embor a por pouco t empo. À cer t a al t ura, o p ai do
n oi vo, teimando na ideia, dá o «lo u va do» U ) em voz vibrante, e o baile con-
cl ui-se abruptament e, comvisível p esar da juventude.
MsI te rmina. a aluvião de homens e de ra pazes que enchia a casa, sai em
tropel para a r ua. O s convi dados de ambos os sexos. dispõem-se a sair também,
despedindo-se dos noivos. A lguns diri gem-lhes remoques de gr acejo, que des-
pertam risadinhas.
. ... .. ..... . . ... . ... ... .. .. . ... . .. . .. . .. .. . ... . .. . . .. .. . ... ... . .... .. .... ....
Minut os depois, os desposados encon t r a m- se completamente sós, livres
enfim de formalidades estupantes.
A o recolherem a o l ei t o nupcial, a luz que ilumina o quart o conserva-se
ace sa inde6nidamente, até se extinguir. P or r espeito a uma a n tig a superstição,
nenhum dos cônjuges se at r eve a apagá-Ia. O que isso fiz ess e, lavrava a sen-
tença de ser o primeiro a morrer.
h l Fu c(I' d. et...l <l:IIu. P.ndllloo. " ot6rlo• • ClC.
(2) A J.., u n J . ,,1 0 • •6m. " t. n "t.d. por mod..o d. 1.0.1.., o.. ..l ruio.n t lofm .tIl Clo.IClol1" 0011" e e..U:o. pret.xto
d. pu,,"=po. O'<lYC-" prhulpal llle"l' "o••u Õ.. d. l .. ..u ...o. .. I.nir• .I.. t.lou "0 t,IIIPO do riuo " 0"0 • de c"h"Io• .
U ... ,.., .UIO com Ju,nuti. e 10 o. pi.. '" • dl",u i o d. pr/ mdr. Ordt lD. P.u eI" . tIl ,lIo" •• IIt' duo.
(aI Todo. o. b.i111 pOPlll u . d. porl U .d.atro. hrmloUll p.l. do doao d. cu . o", de el uelll <o upru ' at• •
CIO' ao lDOlD t<o OPol'h,.. o. uc1 oa . 11• • - . Loo do ar). Crlllo_. - E.q'<ll l•• dl u e , - . Au hoo· ••• {" I
1I 0a h. 1Il·" a. r o•• - t .. Iee o, I, 1111I ' lIdo a •• ""' ''0 ' Todo. .. . ut&1ll 'CIII • IIIlbl... . dl . n ell' nd. . •
- 157 -
A TR A vtS DOS C AM PO S
Muitas outras crenças ex istem a re- spei t o de bodas. E is al guma s : Chuva em
dia de ca sament o, considera-se a ugúrio d e feli cidade para os noivos. N o acto
do matr imóni o, as l uzes das ve las que mai s brilham n o a ltar indicam qu e O
n ubent e fronteiriço à s mesmas velas vi ve mai s que o out ro, colo cado em f rente
das menos bril hante s. Se n o di a da boda, falece na freguesia qualquer mulher,
a noiva morre primeiro que o marido. assim como se morre h omem , toca a o
noivo ir a diante.
*

*
Se o serão do noivado de corresem os descant es da desgsrrs da, ou se mesmo
havendo-os. outros cantador es s e l embram de os dar depois à hora da sossega,
a inda os r ecém-ca sados t êm de sofr er est a última impertin ência . N em m es mo
na ca ma os deixam em paz. Em tai s ci rc unstâncias, qua ndo tudo par ece en tre-
gu e a Morfeu, o gr upo dos garga n teadores chegam à por ta dos n oi vos, batem-
-l h es de ma nsi nho e começam a guin ch ar-lhe as s uas cantigas predilect a s n a
t onadilha do esti lo. S ão os descentes com qu e f eli ci tam os desposados, desejan-
do-l hes t oda a sort e de ve nturas. O pobre noivo, dan do ao diabo os desce ntes,
salta da ca ma arreIiadí ssimo, e, em roupas menores. a ssoma ao postigo, apa-
r ent a satisfação, agradece, e ainda p or cima grat ifi ca os importu nos, dando-l hes
t a mbém bolos e vi n ho, se t em pachorra para t anto. O s gra t ificados aceitam e
agradecem pOI: s ua vez, a crescentan do- l h e que não era necessá r io t ant o incómodo;
que se acautele com o ar da noite .. . que se vá d eitar ... qu e dur ma bem . .. que
d escans e, etc.
A vítima, obe dece automà ticament e, versada a o peso das ironias. O s de fora
endereçam- lhe out ra cantata, cele brando a bi zar ria ou mesquinhez da esp6rtula..
e em contínuo retiram, para i rem m assar pela mesma f orma os padrinhos, que
Iguelrcente os gratificam de melhor ou pior vontad e.
.. . ... . . . . ... . .. . . . . ... ... .. .... ... . . .. .. ... . .. .. .. . .. .. . .. . . . ..... . . .. .. .. . .
N o di a imediato reune de novo a ge nte da boda, pa ra tomar parte no
almoço, derr a dei r o número da festa. Á mesa ouve m-se saudes semelhantes às
do di a an terior e várias aned otas de picar dia (aJ com vi sta a os n ubentes. P a ssam
p or estúrdia e por efeito da pinga que se beberri ca a miudo.
* * *
Nas bodas da gente que reside no campo, seguem-se costumes semelhantes
a os que deixo ref eridos ( própri os das vila s e a ldeias). com a diferença de que a
march a para a igreja e o regresso efect ua-se em carros vistosos e cavalgaduras
de sel a , m u ito bem arreadas. P el o caminho vão em correria s alegres de que,
por veze s, r esultam formi dáveis trambulhões.
Ante s do séquito chegar a o mont e, após o casamento, alguns jovens ca va-
1) CI..l.ç.. d. ilUiau.çou ••Uclo.... Picard r••iàaL6.c. ... . llcl • • ee ... o I lltdo t l uadulI cloal . ça .... d'fumlftad..
blpÓf.....
- 158 -
A TRAVe S D OS CA M P O S
l eiros co uem de lá a toda a brida, e saem ao encontro do cor tejo, para ofe rece-
r em o ramo a os n oivos : um cesto or na me n t ado de fl ores, com bol os e licores,
de que os noivos e convidados se servem um pouco, por mera formalidade.
C u mp r i d a a praxe. os d o r a mo, encorpor e.m-se n o acompanh a men to qu e,
pronto, chega 80 seu d estino.
A cost u mei r a das amêndoas a pa r ece i gual mente. N o a dr o da ermida. d e pois
d o co nsór ci o, e n o l ocal d o banquete. à ch egada da i greja, oferecem-se e es pa -
lham-se a quem apa r ece. S ó falta o alari d o ruido so. que se nota nos povoados.
* * *
R. est a falar das bodas à cap ucha, r ealizadas de n oite. em que a mbos os
noivos. ou pel o men os um, são pessoas velhas, solteironas ou viúvas .
Nestas circunstâncias, trata-se o casamen to em segredo, para o p úblico n ã o
saber o dia e a h ora em que s e ce le b ra. Bal dad o empenh o, porque de rest o o
sigílio transpira semp r e, d evid o à besbilhoti ce a l deã. E. en tão, os a l quebr a dos
nubentes, n ão se escapam ao r i dículo qu e os aguarda. que é co mo a pena ex pia-
tória da asneir a que praticam, se é as neira casar d ep ois dos 50 a nos.
Quando saem da i greja o u j á em casa e na cama, os seu s ouvidos, por
avariados que este j a m, s entem-se atormentados por m onumental chocalhada,
com qu e al guns patuscas, munidos de mangas e chocalho, lhes a zoinam os
ouvidos, num badalar atroador. D epoi s. precorrem assi m as ruas vi zi n h as,
fazendo ou vi r a m úsica à porta d os padrinhos. E,' u ma a l vor a da có mi ca, que
d esperta t odos. Muitos n ã o p recísa m a cordar, porque prevenidos d o chi n frim,
aguardam-no impacientes, para se rirem à cus ta alheio. Os noi vos é q u e vão à
serra com semel ha ntes amabilidades. Tem-nos havido que se en fu recem a valer ,
reclamando a intervenção das aut oridades. H á e n os, em C ampo Maior, um
ca so dest es degenerou em tragédia, d e q ue foi víti ma um popu la r, varado por uma
bala do s agentes da ordem públi ca. S e bem me recordo, a ví t i m a era um d os da
assuada, qu e, se também n ão est ou em erro, ti n ha 8 a gravant e d e ser diri gida
80 r egedor da paróquia.
* * *
Como n os bar ísados, uma boda dá origem a numerosa pa dt inhagem e basto
co mpadrio. Os n oivos e seu s ascendentes fi cam sen do, r espectivamente, afil h ados
e compa dres, não só dos pa drinhos e da madrinha, como também dos co n ser t es
e progeni tor es d es tes e at é do pároco. P or outro lado. os pai s e a vós dos despo-
sados, con t r aem compad rio recí proco, o que igualmente s e usa entre os p adrinhos,
seus ascendentes e co naor'tes. Com razão s e diz que o Alentejo é a terra d os
compadres.
Ent e r r o A o dar-se um fale cimento de adulto, os ch oros e gr i t os a n gustiosos
da famíli a alarmam toda a vizinhança, que i m edia ta men t e acode a
certificar-se do ocorrido e a asso ciar-se ao pranto.
À casa enche-se d e mul heres em alvorot o, a i n quir ir em o que se passou e
- 159 -
ATRAV É S DOS CAM PO S
o que se va i passar. P or entre as consolações que p rodigel i se m a o s paren t es do
d efund o, e as frases com que cel eb r a m os dot es do extinto, apetece-lhes d a r em
fé de t u do. r em ir arem o falecido, comentarem- lhe o a spect o. e mete rem enfim O
nari z em toda a pa r te, oferecendo-se pa ra o que pr eci so seja. U ma s p ropõem-se
a lavar O morto e outras a vestirem-no e avia r em-lhe o enterro, tudo g r atuita-
mente se se trata de pessoa pobre, ou pOI módica gr ati6cação, q uando a f a mí li a
possui haver es.
Logo que passam as primeiras impressões, a cendem-se alguns candi ei.ros
com azeite, que se colocam em volta do cadáver e aí permanecem acessos, a té
se t er a certeza de que o cor po f oi dado à terra. Àpagam-se sõm en te quando
regressa m do cemi t ério as pessoas do acompanhamen to.
P or efeito dout ra a ntiga s u per at iç ão, em acto co ntínuo a o falecimento
d eita-se à rua a á g ua d os cântaros que haja em casa nessa oca si ã o e que.
segundo a crença, ficou empestada. endemoninhada pelo espectro da m orte.
D esde qu e se dá o óbito até o cadáver sair para a sepu ltur a. não f a lta gen te
a acompanhar os enluta dos, sobre tudo à noite, no velo tóri o. que é da pr ax e
ser concorridissimo e d u r a r a té peta manhã.
O s velatórios n ã o d ecor r em com a sizudês e respeito que impõe a presença
dos mortos. Enquanto os el an cead os pelo desgosto g emem ais pesarosos ou
cabeceia m sonolentos, r endi dos pelo ca nsa ço do desgosto e vi gílias anteriores, a
maior ia dos assistentes fo rma m grupos e cochi cham sobre assuntos alhei os a
coisas fú nebres, de molde a desopilarem os espíri tos acabrunhados pelo cená ri o
que os rodeia.
À o a manhecer. a assistência di mi nui. para engrossar depois à hora do
en terro. A essa h ora, reun em d e n ovo as pessoas que tomaram parte n o vel a -
t6r io e outras que n ã o puderam concorrer. À f a mí li a do 6nndo d esperta então
d o torpor a que se entregou, par a de n o vo chorar O morto e lhe enalt ecer
a s qualidades.
* * *
Na casa de entrada arma- se a câmara a rdente. U m pequeno a lta r um c ru -
ci:.6xo e dois modestos castiçais. por en t r e os candieiros alimentados com azeite.
O cadáver, vestido ou amor t elhado, (1) de mãos cruzadas ao peito. atadas
por laço de fit a r oxa, é deposto sobre a h umilde eçe, revestida de lençois e l ad eada
por quat ro t ocheiros. Em bai xo. n o chão. uma caneca com água bento. e alecrim,
com que 05 vi si t ant es aspergem o defendo, ajoelha ndo e orando.
O en t erre r ealis a- se a p é. ( 2) qualquer que seja a ca tegoria do finad o. Quatro
h l E... '.u l, .....i ... ..tldo cO'" o.....Ih or .. l u jO' qUI ooHul. S. e do ", oe. IOltt lu I. .. , rle.ld. c. u b. ç• • u ma d.
lorn •• mio. V.i d. lIal.mlt o " c. pd. , como •• conu",. diur. A mornlh. d. linbo ou .I" lI..eo cru. qu e . n l j ' ~ " r l l ' "
0.1'. III'" .. 11. ..0.. lIobr.., ut' d. lodo b. n ld•.
(2) Só pu . ou pobrru i", u .. du u lllluad.. do tntnnd.. , r. lui llm. rltt. -lI"lo ....or d. O.uh. Qatm dil põ. d....cuuu ,
por ir.cu qUI ..j a... , co"'.id -.. d.llri",fdo, Jlio p"led o "Muro• .lu n u., Por pouco q'Ol lIo.." . m, l"IJ. ... · n obri , a.! .
..n dun, • tI.. d••0 d• .I u..... IItIl:ut"'U "' '''01.. por . 1... . do fa1t cido. Qua tr otto.to• • oit.et. ui•• p.lo m .
diuribaldu por dou lIobru.
- 160 -
o tra jo domingueiro
ATRAVt.S DO S CAHPOS
ou seis homens pa gos pela família do morto, ou por seu oferecimento próprio,
gratuito e es pontâ n eo, conduzem o cadá v er 8 0 cemi t ério no tumba dos pobres.
ou em ataude al ugado, para servir sõmente até à sepult ur a.
Acompa nha m o Féretro, o pároco e s acristão, as mulh er es da vizinhança e
a s viuvas e órfã os p ob res , se p or vent ura esperam receber esmol a s.
Desde que o pároco sai da igreja at é o cadáver recolher ao campo santo. os
sinos dão os dobres do es tilo. como d eram os sinais de óbito ao toque d e trin-
dades imediato ao faleciment o.
Se o enterro é de pessoa de alguns haveres. a compan h am- no, mediante
paga, as irmandades da f reg'ueaie, d e cruz alçada, com os irmãos revesti dos de
opa, de vela em punho. f ormando a las. Uma espéci e de procissão, nada ed ífi -
cante pelo desarranjo e remenda gem das opas.
Em esquife ou caixão. o cadáver vai de scoberto, para sa t isfazer a curiosidade
do público ávido de sen sa ções. e por r esolução unânime da f am ilia, que julga
honrar-se patenteando o vestuári o e o a ssei o com qu e o morto s egue à cova.
O antigo prior da freguesi a de Santa Eulália. D omingos Antóni o do Carmo,
após muitas r el utâncias p or parte dos paroqui an os. con segui u que os defuntos
se transpor ta ss em velados por um pano de cente. Não obs tan te . o povo nunca
viu bem essa inovação. e tanto que. logo que o mesmo pároco deixou a aludida
fregues ia. o vel h o uso ressurgiu e mantém-se. com peefui zo da higiene e do
respeito devi do a 05 mortos.
* * *
Nos funerais de gente abastada, como nr opr iet ár ios e l avradores. o fér etro
é conduzido à m ã o por criados de estima do falecido. P r ecede m-no dois o u
três eclesiásticos e 8 S irmandades. acompanhando n a ret aguarda os criados da
casa. as ganharias dos lavradores vi zinhos, e a mai or part e da popul ação da
paróquia, bem como vári as p ess oa s das freguesias li mítrofes. Muitas mul h eres
. ch ora m ou lacrimej a m. umas por h ábito de ca r pideiras ofi ciosas. outras por
sentimento real e sincero. D e vez em quando, o cort ejo estaci ona. para os padres
cantarem os responsos que a fa rníl.ie en comendou .
Concluido o funeral. dis t ri buem- se esmolas de 80 a 100 rei s pelos pobres
que compareceram. Nunca menos de cem ou m ats.
• • •
Pelo fale ciment o de crianças. a qu e vulgar mente se chamam anjinhos.
o b s er vam- s e costumes semelh an te s a os dos a dul t os de classes análogas. h avendo.
é claro. menos demonstra ções de pesar. A lguns. pouco o u n enhum desgos to
ocasionam. dada a indif erença d e cer tos pais pej a m or te de 6Ihos pequenos.
Os velatórios decorrem alhei os a tristezas. C ons ti t u em r euniões prazentei ras,
e nfmedfssimas, com atractivos de a n edota s. ri sadas. contos, adivinhações. et c.
Até se joga o padre cure / . . . Às mulh eres menos ex pansivas. aproveitam o
tempo fazendo meia e r enda.
- 161 -
ATRA v tS DOS CAMPO S
Os cadáveres dos anjinhos são transportados ao cem i tério por rapazitos da
vizinhança, a qu em se dão amêndoas ou gargeta. Como os dos adultos, o corpo
vai à vista. mas gua r neci do de fl ores e fitas.
* * *
Trajos Tinham outrora a feição local, característica, inconfundível e dura-
doura. H oje vê-se o contrário, pelo menos na gen t e nova. Homens e
mulheres vestem ao capricho de pretendidas modas, que passam depressa, que
ninguém sabe de onde precedem, usento também simultâneamente o qu e a SUB
fantasia lhe sugere, ou o que gostaram de ver a outros em qualquer parte.
Em suma, o vestuário do povo rural na actualidade, baralha-se e varia
tanto, que impossível se torne descrevê-lo em todos os seus detalhes. Predomina
a macaquice - a tendência para parodiarem os traj os das pessoas abastadas d o
campo e os dos operários das povoações.
* * *
No fato de trazer dos homens. há menos modernismos. embora já não
tenham a uniformidade e persistência de outras eras. Sem embargo. é aí que s e
conservam alguns trajos típicos dos muitos que dantes havia. Àssim. continuam
a usar a jaqueta (I) e colete de surrebeca e a cinta encarnada ou preta. Os feitios
e as fazendas divergem um pouco, mas a forma essencial conserva-se.
Desapareceu o calção de tripe e a polaina de aaragcça, sem dúvida um trajo
lindíssimo. acentuadamente campesino. de realce inimitável. Em troca vieram
as calças de alçapão. Cal que se usaram por muitos anos. de cetim a zul de um
único padrão. para todas as estações. Hoje quase todas são de portinhola. de
cotins de padrões diferentes, ou de surrebeca, no inverno.
A calça a ntiga, exceptuando no tempo do calor. era acompanhada de polaina
curta sobre os sapatos. Mas a polaina também passou à história, por capricho
da moda e por n ão se adaptar à s botas cerradas de canos compridos. que se usam
agora, principalmente no t empo da lavoura. Os sapatos continuam a subsistir,
mas servem mais de verão. época em qu e também se usam as e lparge tas, ou tr a
macaquice que está a generalizar-se.
Rá coisa de vinte anos, nenhum trabalhador do campo usava meias de pé
no. dias de semana. e pou cos por oca siã o de folga. Na actualidade. j á mui tos
as trazem conjuntamente com as b otas ou sapatos. Mas ainda os h á de pé fresco,
calçando em canelas. sem se quererem habituar às meias.
O chapeu de borla redondo e preto. de abas en or m es. reviradas. com :6ta
( 1) A j .qa.U ou ..h ti •• n:uptu-.ado ... oeuia.. d....I.tl.eI. a .uo. d. ... ulco r aQ a1to • • 6 . aITa DO. di .. d. fri o
I.u"o ou da ei.V.Ta . Á. i. oru da t ra hali. o • d. dn uD.H. -n1lIII ..... -a. UIO qQ.lqu u parta. .. Tlata. No. d oml• • o., .u ru..
d••Idd. a f.ftl. c... . trua... - •• aO Olllhro O ....1. do talllp o. No..o. a Ii.oa pufu'J:Il a.ad.r cm muoJla. da ea.ml .
( 2) C.leu da .Ie.pio• • tado atth por eorula d. p.la d. cio t gra a ili. u.•• o. eolei.du . O. hol.o. fi e d.l.do.
iu elia.do. pau" tr •.,Ir •• praadl. 1II .111 h.ixo, .. h..a do .tupio. por hotõ.. d. lIIo. d• • d. eebe e,
162
ATR Avt S D OS C AM P O S
negra e cordão de seda verde, está sensivelmente reduzi do, e já não po ssui a
b orla que o caracte rizava. S ó se vê p or a ca so n o de algum ca sm ur r o conserva-
dor. dos que se n ão atrevem a l a r gar a cal ça d e alçapão.
N o fundo da copa do ch a p éu col ocam o le nço de ass oa r d e co res, que roais
serve para limpar o SUOI do que pa ra asseio do nariz.
D e inverno. principalmente entre rapazes, há quem prefira o gorro ao
chapéu, sobretudo nos domingos. em passeio pela terra.
A cami sa, que era invariàvelmente branca. perdeu a uniformidade e os
acessór ios que a distinguiam. Compunha-se de colarinho alto com botões de
prata; peitilho sobreposto. rendilhado. de malha aberta. a que ch amavam segredo;
mangas. de ombros bordados, com preguinhes e serrilhss, e punhos presos a
botões de prata. A s m odernas, de cor es diferentes, desde a branca at é à verme-
lh a, já n ão têm segredos, nem preguinhas, n em serri lhas. Moldam-s e nos f ei ti os
comuns de toda a parte.
Antes, poucos indivíduos vestiam camisola, mas os que a ve stiam usavam-na
branca, por cima do colete, e apenas em algumas freguesias. H oje, e em toda a
região, usam-na interior e exteriormente, de fazendas e cores variadas.
Tanto n o trabalho como aos domingos, é vulgar a blusa -a que ch a ma m
matsnheir a-que antigamente era de riscado aos quadradinhos, e que 80 pre-
sente ve r te de tecidos e padr ões, ao capricho e gost o de quem a põe .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . , .
P ara resgua rdo, durante a estação i nveenosa, conse rvam inalt eráveis, os
safões, o pelica e o tapa-cu. (l I Este usa - s e m en os e só às horas de trabalho.
D as roupas de abrigo de outros tempos, r esta apenas o ca pot e ou casacão
aguedairo, de burel, es curo, com mangas e um só cebecêo. Todavia, usam-se
também, e em maior escala, talvez, outros capotes de diferentes cores, feiti os e
(1) o...la.. co I..... de d",u pel .. u ",.. ldu • prepand.. d. lo rma a adapt au m· . e .obu • c;.. I1,1 n e c.hu d. qllaJ-
(lIlU ...jeito. Sqllf.= ' 0 cor po por melo d. conelu. fin l u 011 bOlõ" pu.u lo ci nl1,1r• • lo. pu.. .., do I.do d. dc.. tr o.
u... co...pli.... -.. d. p.l.. d. cu.. cl r o. d. lã c",r u. bre.. u o'" puta . d. br1>. d.. d. ourel u I O1,1. lr o. de pel.. c.. r dd... d. u bu.
ch-II..l o o.. hll.,.,ro.
O. lI. fa.. 1a."I:.. do• • u pcci.l c.. lc o. d. cor preta. (l"c d o o. m. i.....do• • f.bri ca m-" Cm dUnc.. t .. II..."" do dl.trilo
da t ..ora por p'''ou ot... ..lu", d lndá .nia. Apu. c.m 1 u lld•••", ' u .. de (lu. lltidlde. .... dH. u .. t u l'. ir .. do Alut.jo.
co...o por Ilttlllplo ... do S. MI'O;1.I , . '" SOO;1"1. l. .pcr<lccm em di....... cOlI.diçllu d. fa bri co. u :.cuçiio. Oud. o. de. ",lIhor"
":p.I .., co... forro d. tI .c.do . , ua.rn.lç<:; .. de p."o, bord. d" • u t . mbu . com o. " u' corda.. d. u d• • hOlõ" d. m.tat l a cr. lo.
ai' .a. l1Ia.h IIIOa..to.c, d. pel .m. ordl .. lrlo. d., pro..Jdo. dc forr o. e d. omito• . T odo , ..ta m por " .. . .. tm ,6 o.....m O.
trah.lh.doru do campo, IllU Il mbt m I....rador... p",opri . t h lo• • • tc . • como u :cal t .. t lbo 1m di .. d. lrio.
O ra.. d. p.l. curdd•• ra p.d• • co.t1,1m.m . n obr. d. , . n. dOli ro. h . bilido.o. , "O;1t nu bou ",tntl m cOm
..nu tr.ba.lbo. pu••1 <l por ...com...d•• m.di.... u O for elm••tO d.. ptl.. <l I p" , 01,1 , r .dli c.çlo conupo.. dente . Ap..",
d. f.ltOl por corl o.c• • de .. d..d .. uu.. "1,1." u :c1.. . lum t. h lid .. do trab. lho. ma l lo• • p.num com 1" 11 ,, • fei ti o . upc-
",Ior .oe de li . Na fr.nt• • ot nlto. da p.d...u ' I:ecoç i o. ' m couro ' p,,,o lohrepouo' Ol co. ta u do•• capricho. como "lrel• ••
<conçõ... to.u. b!lld. l•• d.IU, I dutacartm-•• cobra O fu..do " u lII. lho do p.no. Nu IlItr.mld.d... d.br a.a. d. mUIII' p.l.
Ol/. d. outra md. 8. 1<1 ...1•• PO.. lo d. corra ll d. ci o.
E."(l" I"IO .0 p.llca " 0111. " p' el a de ee teee, d. pai . de c. b"" 00 de. cio. COID o pdo col1un.do. I.n.lrodo z..c ptl .
c.b.ç•• " tl ..elo o corpo. dud. o p..coço . 14 .. ci MO". <lI:C lp tO O. buço. (loe fic 'm, II .." .. .. ducobnto. AI ' on. p.llco.
mouram Ire .. u Ot.. ltO. hloel. ao. " .. . .. U" ta .. oe " la.. d. p.l. cut ti d., co.. lou "lI t.l. ri . Em , .ral , pro c.dem d. f.brico
<lu.ito. PI"" o "o. ID1,1.h.....ol h u .. COI j 01,a= h lbllite d... M" o. fdtlOl miuboi'lItu . pael ...tu, 1" lumb'III . " l O' C1,1ri oao•
...t'lIdldo•••l...... do• .
Do tap••co pouco h' • dl.ur. Um. pal e (lu.l quCt. COmO 1,1m 1'lI ço P'(l U...... pro..lda dc d1,1 " co...",i... 4"''' COI coloc. li'
ca.d• • pt Cl'd. a.do lo elolDl" , p,u "... .. udo du .. Ad.,u .
- 163 -
ATRAvtS DOS CAMPOS
t eci d os . Dos de burel ou dos o utros. cada cempomo, bem e n ro u pado, possui
d ois : um bom, pa ra os domingos, na aldeia ; outro inferior. para ca m po.
N este p ar ti cul a r , os antigos a in da se mostravam mais previdentes e l u xuo-
s os . Homem que s e presasse. des de o abegão a t é ao gunhãc r8SO, tinha pelo meDOS
o capote a gued ei r o para uso corrente, a boa manta de lã de guarnições d e baeta
colorida, com que janotava n os domingos de inverno, e a capa de briche ou d e
pano azul. comprida e de fal:ta roda, com alamares na gol a , que 56 servia para
actos solenes. Pelo dinheiro em que importava e pela aplicação que tinha. era
obj ecto de singular apreço, que todos procuravam adquirir, embora à custa de
sacrifícios. Sem capa. ninguém Se a t r evia a casar. O que a não alcançasse em
solteiro, passava por va ldevincs desastrado ou pelfntre sem vintém. Também,
a dquirida em f olha uma vez, dur ava a vida do possuidor, e havia-as que se t r a n s -
mitiam de pais a Elhoe, a poder de cui dad os de co n ser va çã o. (I ) M as isto j á se
considerava deprimente. O tom e os cost u mes exigiam uma n ova para cada
moço chegado a homem. A est r ei a da capa, era, por assim di zer, a consagração
da mai oridade, e. a par, o testemunho de que o dono sou ber a ga.nhar e r eunir
u m r a zoável pe cúlio.
Pois, apesar da importância q ue s e lhe ligava, jaz hoje n o esqu eci men to.
O u fosse porque t inha de acabar um dia. como todas as coisas, ou por que a
época actua], impondo outras despesas de vestuário, não p ermite a aquisição d e
velharias ca r as, é certo que a o pr es en te só usam capa. os velhos que a a dq uiri r a m
há muito, e que teimam em conservá-la como recordação dos seus bons tempos.
P or ca us as semel han tes aca bo u a mant a de lã, de feit io gen uiumente
alentej a n o.
............... .
Enquant o solteiro, o homem d o campo tem o fa to do t r a ba l ho, o d os d omin-
gos, e o fi no para confissão, bodas, hatisados e d ia s de fes ta .
D o de trazer é o que disse a t r ás. R. emenda-s e, Java-se e se r ve a t é à última.
O dos domingos só difere do habitua], por menos usado. Diferencia-se ape-
nas pelo a sseio e arranjo. máximé n o chap éu, ca misa e ci n to , com l enço n ovo de
assoar, à vista. (2) D e r est o, t udo is so vem a a cabar por subst it ui r o fa to d e trabalho.
logo que out r o m elhor o col oque fora do uso domingu ei r o. o u o de semana esteja
incapaz.
Com O trajo d e gala há que distinguir. O de h á 2$ ou 30 a nos era lindíssimo.
Chapeu preto. r edondo. de borla; ca misa engom ada, d e col ar i n ho, com botões de
ouro; p eitilho d e rendas e p u n hos com botões d e ouro; jaqueta de pano preto e
alamares de prata ; co lete d e corte aberto. de pa no li so ou co m ramos de veludí -
lho ; cinta encarnada de meei no, cai n do-l he as fTa njas sobre o lado esquer do;
l enço de seda à mos t r a, entr e a cinta e o col ete ; calção d e tripe ou d e malha
(I) Só .. i",udlla.,..m com 0' U IU'OI d. tu,"" Q uu.do .. re con heci. UIU'eJ:II ""Ili l' pic . el... dUCIl . lI. dl. u J:II-IU' •
f. d am fuo. p. r. UP':U ' pall a . tlo,.
(2) LaIl.,"O d• • Ijodl o. d. COrU ,.1 a pad.ri o ..i,lolO. 00 • • eutlado. li.o. elo. da . coeo•• DUI" ••1' " aio bord.do.
pel.. . ....0•• &.. dOI pO" llido.... d..ao.b do· Jbu boo.eu, 1' ....0• ••, l",lclili dele I d. l, a . til! i r.... IJIl.OrO .
- 1 6 ~ -
A T RA v t S D OS C AMPOS
azul, com gr ande abotoadura de pesetas e 6velas de prat a. segui n do-se-lhe a
li ga encarnada e cordões verdes ou azuis, sobre polaina compri da de briche,
abotoada por moedinhas de pr ata Das extremidades, ( lJ deixando a meia bran ca
a aparecer. N os p és. sapa to branco, d e ca bedal fi no.
Alguns, subst ituíam a polai na por boti ns ou borseguíns de cou r o, muito
flamantes. de onde pendiam corneias em molho, a caí rem sob re a abertura que
mostrava a m ei a alvíssima. E st a vari an te avolumava o custo do trajo, mas
mais lhe r eal çava a elegância, embora denunciasse p rocedênci a espa n h ol a.
Não assim 8 polaina. de fabr ico português e al entej ano.
Que se sai ba, nun ca h ouve trajo campestre tão garboso como o do calção.
No ent anto saia caríssimo e f oi talvez devido à ca r est ia que deixou d e usar-se,
a ponto de só hoje o vestire m os que há mui tos a nos o compr a ra m.
Como n ota i nteressan te consigno a qui os preços dos artigos que constituiam
esse vestuário festivo, dos cria dos d e lavoura do concelho de Elvas:
Chapeu.
Camisa bordada
Oito botõe s de ouro
Colete .
Jaqueta .
Alamar es de prata pa ra a j aqueta.
Cal ções .
Fivelas de p ru re
Abotoadura de 72 moedas de peseta. s endo 48 para as pernas dos
ções e 24 para dependurar ao lado dos bolsos, 12 em cada um
Polainas
Abotoadura de 36 pequenas moedas de prata para as polainas.
Ci n ta de merino .
Um par de sapatos .
S oma -Reis.
Adi cionando·lhe o cu s to aproximado da capa e alarnares .
Importava t u do em R eis
1$500
1$800
20$000
1$200
$$200
6$000
4$800
4$000
cal -
17$280
1$SOO
4$320
1$Soo
3$600
72$700
16$000
. 88$700

Verba i mpor t a ntíssi ma pa'ra um pobr e t ra balhador do cam po. M a l s e con -
cebe como a podi a m juntar. Que de pri va ções e economi as n ã o precisavam
fa zer I Mas era despes a de uma vez n o vida, n o melhor t empo da mocidade.
Aquil o tudo durava mai s que o primitivo dono.
O traj o festivo ele agora é mu it o menos elegante e de efé m er a duração.
Chapeu de abas direitas, preto ; camisa vulgar engomada. de cola ri n ho e peitilho
com botões ele OUl:O, e pu nhos co m botões de prata ; jaqueta, col ete e ca lça d e
pano preto ou de casimira de qualquer co r; cinta enca r n a da ou a zul, de meri no ;
h ) No..... 0 . h, XlJo,o" ••bot••d.r. d• • olal• • co.....Ir..· .. do. ch• ••d.. lto'õu d. ' OCI , d...n.1 ordiu' " o ' ai.
d. ,,(I.Idu d. ' Uta.
- 165 -
A T R A v t S DOS CAMPOS
l enço de seda , en tre a cinta e o colete; r el ógio or di n á rio p r eso a coerente de
prata h l e sapatos ou bota s de cabedal fi no.
Quando a s calças s ubst it uí r am os calções, todas que fazi am parte do t raj o
de gal a, oste nt avam abot oa dur as de pesetas, pen den t es dos bolsos. Durou pouco
essa moda.
Nas j a quet as ainda aparecem os alamares de prata, posto qu e já também se
vêem s em eles e sim com bet ões, semelhant es às que usam os lavrador es .
O campónio tefulo de h oje em dia, possui dois fat os finos, que, em boa
verda de, não duram a terça parte do q u e durava um ant igo. É, por ém, i sso qu e
lhes agrada , pa r a vesti rem de novo com r el ativa f requên cia , embor a r ecorram.
como recorrem, a a rt efa tas inferiores mas vistosos, de il usória aparên cia.
O essencial é bota r figura e dar nas vistas. Neste p onto estão int eiramente de
acor do com as ideias da época.
"
" "
N as mulheres observa-se maior variedade de ves t uarro do que nos homens.
Todas t êm bastantes l enços, blusas, ( 2) aventais, saias, ves ti dos e chadl es de
algodão o u lã, de cores alegres, uns p ara u so habitual, outros para os domingos
e outros - os m elhores - para os dia s de f esta. De bl usas, aventais e l en ço,
poss uem provi sã o avantajada para va ri a rem a miudo.
T odos ess es a tavios. bem como os ves tidos e saias. di vergem tanto.. que s eri a
f a stidioso descrevê- los min uci osamente. Ba sta dizer que a sua n ota típica e
ina lterável é o garridismo d as cores vi vas. e um pronunciado 80S to artísti co n a
maneira de a s combina r . N os traj os domingueiro e fe stivo, o color i do alegre e
va r ia do destaca-se se mpr e numa bela e pitoresca dispos ição.
O vestuário vulgar de t odos os di as, compreende lenço de arsodã o na cabeço ..
atado em cima. «à moira» j merenbeire de chita ou de ca steleta, l enço ao peito,
a tado atrás da cint ura e sai a e a vental de chi ta . O d omingueiro pouco difere:
cabeça a descoberto. mos trando o pen te ado. ou o cu lta por lenço de cache- nez,
t a mbém «à moira» ; roupfnha e s aia de brocado de alsodão; meio chaile de lã..
f ranjado. atando à cintur a, e avental de chit a ou de e rmu r .
N os d ias de gala : Lenço de seda n a cabeça, atado ao pescoço, e blusa e saia de
brocado de al godão, a que chamam piqué, com enfeites de ren da s e fitas de se da.
Para os di versos trajos possuem os corres pondentes chaíles, dos padrões
conhecidos em todo o país. O s destinados aos dias de fest a, são de lã, de cor
clara, com vi stosa barra de seda.
N ão h á a inda muitos a nos. O chaile era i n variàvel m ente p osto pel a cabeça.
dobrado pelas pontas, a oc ultar o lenço e u m p ouco do r ost o.
E. st e costume está red uzido aos actos correntes da vida ordinária al deã.
M ulh eres n ovas e velhas, já trajam de chaile e l en ço ao pescoço qu ando vão à
h l o u l6&io .... d• • ,..,ohi.1o .. ..... bollil. d. ulemhu, obr • • ofe u • .1. a orad• .
ct:} },.. blv.u. ta .h•• do du f.o. adn por oouo. tio. .., II i . co•• r o.. plAb. ." ..lldtu.
- 166 -
ATRAvt S DO S CAMPOS
eídade, e as rapa rigas usam- nos assim também nos dias d e f est a e à massa dos
domingos.
À s touradas, au aia is e bailes vão muitas em cabelo, com flores D O penteado.
O cal çado condiz com O r estante . Cada mulher possui botas, sapatos e
me ias, aprop riadas às diferentes classes de vestidos.
Raparigas solteiras, poucas ou nenhumas andam descalças ou em canelas, e
a qu e tal pratica é sõmente em casa, recolhida, ou nas caminhadas pelo campo.
O uro, nunca falta no mulherio novo, pelo menos n as orel ha s. Arrecadas
ou a rgolas nos dias de semana e domingos, e brincos por oca sião de festas,
connssão e bodas. À s de mais recursos também possuem cordão para o pescoço.
A qu e logra comprá-l o com a competente medalha, cr uz o u N ossa Senhora da
C onceiçã o, r ealiza uma das s uas maiores aspira ções. M ui tas. s ó o obt êm em
casadas, como dádiva briosa do marido. na f eira do S. Mateus imediata a o casa-
mento, ou em outra, por efeito de boa s oldada gan h a nesse ano.
A neis de ouro é raro possuírem-nos, mas usam-nos de pr a ta , um ou mais.
...... .. .... .. . . . . . . .. . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . . . . .. . . .. .. . . .. . .. . .. .. . .. . . .. .. .
H omens e mulheres, possuem diferentes trajos e ves t em com apuro, enquanto
solteiros e n os primeiros anos de ca sados. Depois, à medida que avançam na
idade. abandonam a com post ur a do vest u á rio. Dispondo.. como dispõem, de
poucos recursos, têm de aplicá- lo s principalmente. aos enca r gos da família,
r eduzindo o seu fato próprio à extrema modéstia, maxímé a s mulheres, que,
ne ssa altura, passam a andar r otas e desalinhadas.
O h omem conserva um pouco mais o a rra n j o e conchego da sua pessoa .
mas por fim, a falta d e meios, os filhos e a diminui ção dos cuidados da con sor t e,
arrastam-no também a íd ênnco desleixo, emb o.ra mai s t ardio.
Em geral. elas e eles, acabam a vida cober tos de andrajos. s em um visl um-
bre sequer do cue foram na mocidade. Se. p or ventura, desses t empos lhes rest a
alguma coi sa boa, são os filhos que a utilizam. E.l es, os pais. despojando-se de
tudo que tenha va l or, já s e r ep u ta m f eli ze s se lhes dão de comer e lhes asseiam
os farrapos. Quantos vivem, t ã o desdi tosos, qu e n em i sso l og r am dos s eus 1. . •
• •
Al cun has São atributo inerent e à gra n d e ma ior ia dos h omens do campo e a
muitas mulheres. Impost a s pelo públi co, co mo al usão a defei to físico
ou moral do su j ei to, s enão por qualquer out r a ci r cunstância. ou h erdadas dos
as cendentes - os que a s r ecebem t ornam-se mui to mais con h ecidos e t rata dos
pel os an exins (1) do que pel o n ome, ge ral mente vulgaríssi mo e assás confundí-
vel. Em que lhes de sa grade. tê m de se conformar com a subs t i t u ição. desde qu e
fo i san ci on a da pela vontade popular.
D os h omens, s6 escapam à cr ism a, 0 5 raros de n ome próprio ar r eveaado,
{t I p,to <l Ue eulI'ill I Itlllpt.'IUllI' U PUI ch uo. r ou " . IU pUJOI!lIIttllt o hi 401t UCtplou o, dt t lricttr
.hoa 10' O ou u", oh, ctlo,.
167
ATRAvtS DO S CAMP O S
ou for a do comum. Mesmo de entre aque les que h er dar a m a alcunha dos pro-
gerrirores, abunda m os que apanham outras novas.
Uma ou duas q ue sejam, 1'0'[ qu al quer m oti vo. é fr equente, com o te mpo, o
públi co pron unciá- las por a breviatura, que por fi m pr eval ece, esquece ndo o
cognome que a origino u. Exemplo: Cascabulho, por Casca j R ebo lim, por
Rebol a, etc.
Nada ma is f antá sti co do que os anexins aldeãos. É uma n omencl atura
gr otesca, desde os termos indefiníveis, banais, ut é a os a centuadament e pornc-
grá6cos. Para haver de tudo. não faltam os engraçados e os li songeiros, se bem
que este último gé n er o não prima pela quantidade.
" " "
Tratamentos Entre pessoas da mesma idade ou aproximada , r eina o de tu,
assim como tratam por manas 05 imediatament e mai s idosos,
e por tios os velhos.
Pessoa desconhecida, com quem tenham de falar, chamam-lhe tíoeínbo,
camarada ou colega.
N as ganharias, os íntimos tratam-se por colegas, parceiros, parentes e com-
padres , posto que em muitos o parentesco e o compadrio são pura fantasia .
O você usa-se pouco, e, em geral. quando se emprega, traduz mau humor
ou azedume. Se sai voic ê, pior. Voicê, é como o outro que diz : «patife . . .
malandro, etc.»
A os a mos é raro t rat a r em-n os por ar. f ulan o o u o senhor. Preferem o voce-
mecê, e, n a alternativa, «meu amo cá, m eu a mo lá.. ; ou «sr. compadre e sr. pa-
drinho», quando há compadrio ou pe dti nhege m. O s que timbram em campar
por corteses, dão senhoria a os lavradores de n ot ór ia i nfluência e importância.
O s ca mar a das avessos a cortealas, t roçam os que as usam , chamando-lhes
mesureiros e fingidos. Talvez tenham razão. Á lavr ador a chamam-lhe senhora
ou m inha e me.
O lavrador com filhos, distinguem-no por amo velho, e aos filhos por amos
nOVOs. E D. esposa a contece-lhe o mesmo, tendo fi l has. Ela, em começo. custa-lhe
a conformer -se com O epíteto. de ama velha, mas por fim habitua-se.
Antigamente, a gen te do campo quando aludia, em conversa, a o pároco
respectivo, tratavam-no por sr. prior ou por padrinho prior. Àgora, é simpl es-
mente o padre. na hipótese mais amável, advirta-se. A o menor despeito ou sem
o mínimo ressentimento, muitos, por m ero gracejo, a n t epõem - l he qualquer
adjectivo picaresco, nada edificante.
DIVERSÕES
Como alentejanos da gem a, aferrados ao lar. os camp óni os da regiã o elv ense
são pouco propensos a I olguedos distantes e dispendiosos. Gostam de se di verti r,
mas em família, s em o l uzi men t o das romarias e círios es pa ventosoe, que se
168
o car r o de mola.!, tapado, pronto para a romaria do S. M ateuS"
ATRAvtS DOS CAMPOS
observam no norte e centro do país. As festinhas e touradas nas aldeias, cons-
tituem 85 suas dis t ra cçõ es favoritas, restringindo-as em todo o caso às da s loca-
lidades onde resi dem. Ás de fora das terras vizinhas. pouco ou nada concorrem,
se exce ptwa rra os a romaria anual do Senhor J esus da Piedade, em Elvas.
C omo passatempo habitual. por ocasião de folga. preferem os bailes e a
taberna. Na taberna beberricam pouco e falam muito. Falácias apenas, de que
raríssimas vezes nascem desordens.
* * *
Bail es h l O s genuinamente popula res, conhecidos por balhos de candeia e de
porta a berta. consistem em diversos bailados 80 som do cante dos
rapazes e raparigas, (si com a com pa n h a m ent o do indispensável pandeiro (:5) e das
castanholas. em ce rtos casos. P a r a variar, to.mbém dansam polcas. rnazu r ca s,
valsas e co ntradansas, a toque de guitarra ou de armô.niu m, como apareça toca-
dor que se ofereça, ou se preste a tecer mediante pedido e oferta de beberetes,
senão a sec o, Unicamente por amor à arte. C on vidad o de propósito, com ou sem
a n t eci pa ção, não é costume em advertimentos vulgares de gente pobre, que s e
remedeia e até prefere, a cantoria ao toque. Convite prévio a tocador, só s e usa
e m funções de boda, e não em todas.
Figurando no balb. o pessoal sabedor , ent ra-se por tudo que se conhece de
antigo e de moderno, d esde os fanda n gos e a pombinb.a branca ai D om Solidam,
até à con rr e da nsa , marcada ... à f rancesa, em termos estropiados.
M as o que toma o mais d o t e m po são as «saias», co m as voltas corres pon-
den tes, ao som de ca n tigas e do pan deiro, acompan h adas p or es t alos s onoros
dos bailadores, com os dedos pol ega r e máxi mo d e a mbas as mãos.
As «saias» nada t êm de gracioso nem difíci l. m as agradam d e preferência
po r ser o género que melhor se quadra às cantorias de pr edil ecção p o pul ar. É a í
que os cantistas afamados exibem a s suas facul dades vo cais e poéti ca s. q u e embas-
bacam os ouvintes apreci a dores. Ao mesmo tempo, a simplicidade d o baila do
per mi t e o a cesso dos men os ent end id os, dand o lugar a que todos se d i vir tam.
sai bam ou n ã o.
* * *
O s bailes efectuam-se à noite, nas casas dos locatários que se presta m a
obsequiar a m oci dade. e de d ia, de improviso, nas ruas e largos das aldeias, às
(t) r.. 1I.tuai•• pl.bda, al'lU.h.a, i' di ... ao tutu" d., boclu. o. I.alluico. du alde:l u e do d.,i·
,..m· •• por ""u/loo" "/hU e /."Jr-6u . O ltuollo o ..aI ula.do e.t4to.ddo. p.lo .....0' .0 co.nlLo d. EI .
(2) E.lu.6 U Il.UIII .,u.do a bailar. Elu ct.Il.U. d.""ro • fou do te:nmo, e ....0 lII.i••olt.,. tarem d. 'ou,
••u • • e....... do. ull.uacloru.
(II O paadoh o l u: I..bur to. p0Q'ono lambor ,.Ia ....ILatlc. do, ,on•• da lIIathla prima - ,de d. o..-Ib. a o. d.
qa . u upui .u pupau lII • n o 1II0do. DHne, ee .. l udo , •• [orm., qu. I. etaodr.da ••io AI..... ti. 00
uoa fouaclo. d. bUla nl"lll..IL a, fu.,.lllf ÕU de pu' o h. bo' a.aulo•• 'uil... N io p....1lIIl da l.... trame:afO rodlzeea t . ·
rf ..flllo, d. remou 'hlltoid.d. ; .. do '0'" u"l.nillloa, q". ncnl..... COUhlO af.unm. Todo.I •• alod. Loje o ."uda....
".am aa eapul,.., COlllo o ..1I.n..... u.,a..afOO L' <lO UIO• . O p.nd.ho ., poe . ..1... dJur, o phno du mOfa. campõnlu'
Oa "'OCOI . i o oa POU" . ID , n.m .. loc. m, Apen .... tllclrdl"a dl.pOS.m d. pafld.lula /Ii tlp'Dhol. , que . 6 Une .,clo
Caena. a!.
169
ATRAv t S DOS C A M PO S
tardes dos domingos e outros feriados. principalmente no Carnaval. T ambém
se presenceiam de noite. ao e r livre. nas vésperas de S. Àntónio, S. J oão e
S . Pedro, nos locais de {ogueiras e mastros.
Os bailes caseiros sã o os mais frequentes e animados, indo a ef eito por
deliberação espont ânea de quem os dá, ou por rogos e instâncias da gen t e moça,
não incluindo os das bodas, que se realizam sem necessidade de sugestões nem
empenhos. A praxe i mpõe- nos, como nota de regozijo imprescindível.
À s noites d e Car naval e dos dias festivos, o livramento ou o r egr esso do
serviço militar de filho ou irmão, a mudança de ca sa, Cd o restabelecimento de
doença g ra ve de parent e próximo e a visita de pessoa amiga , de l onge, s ã o fac-
tos que servem de pretexto para funções de dansa. As causas ver da dei ra s TeSU-
mem-se numa - o namoro. E t anto que muitas se efectuam fo r a d as ocasi ões
ci tadas. sem outra razão que as justifique.
A propósito: quem há vint e anos s e a trevess e a dar um h aile na Quaresma..
era fulminado pelas cen su ras severas do público, mai s estrondosas que os aná-
temas da i greja. Estranhava-se imenso esta suposta irreverência e ninguém
queria passar por hereje para di ve r t i r outrem. O escr úpul o e o fanati smo ia m
tão longe que. n as ef u nçõesp de te rça- f err e, de entrudo, mal soava a meia- noite,
o dono da casa a cabava o bai le s em con te mpor i za çõ es de n enhuma ordem.
E. se. por a caso.. algum o protelava, a pedido, era certo a parecer o r egedor e os
cabos de polí cia, d e espadalhões em punh o. a intimarem-no para l he pôr fim..
sob pen a d e ser preso I. . .
Hoje, há muita mai s t olerância e bem menos escrúpulos, cessan do de t odo
a abusiva intervenção do regedor. Por muito que pes e à s velhotas beatas, j á
não é motivo de es cânda lo bailar-se na Quaresma.
. .. .. ... ..... .. . . .... ... . .. .. ... .. . .. . .. . , , , , .
Quem «ar ma. um balho em ca sa , al ém de contar com os moças de sua
famíli a e as das vizi nhas. t em de ir con vidar as restant es que se ja m precisas.
Depois. à h ora apresada, vai d e novo ter com t od as para a s con d u zi r à f unção
n a companh i a da s mã es . i rmãs ou t ias. É, da peça ca da r apar i ga fa z er - s e a com-
panhar por mulher parente, casada ou viuva. C om os r a pa z es não há cerimó-
ni as. O s u sos e cost umes dão i n gresso li vre a to dos, sem pe direm l'icença, nem
s erem convidados. Até s e lhes cons ente f u marem às esc ân ce ras, de chape u n a
cabeça, como se estivessem na rua .
Ant es do ade vert i ment o co meça r, a porta ab re-se de par em par. franquea n -
do-se en t rada a todo o bicho homem e garoto, tanto àq u eles que se propõem a
cant ar e ba ilar, como aos que só vão a namorar. e a inda a os poucos que não
«a te nta m» para n a mor os n em bail ari cos. V ão na onda. arrastados pelos compa-
nheiros ou a guilhoa dos pe la curiosidade.
Dos pri meiros e s egundos nunca faltam, o u por l emir é dos der r i cos ou por
h l N. lIue d.i um d. I..Lh•• , lI" . ..do • du pl h m dOI m6Y.i• . Muit.. .. n u , lI ut.. drtul1.t'nd ... o 10.11. oL.d.CI . 0
P ' OPõ l il O d. l U; " • n .. l O 00.. 0 i nQ'ul llno.
- 170 -
ATRAVr,S DOS CAMPOS
lh es dar o ch eir o. O s passeios e volt as a que s e ent regam pelas ruas. palrando
e ca n t ando" põem-nos ao facto de quantos bslhos haja n a te rra. E m t odos
en t r a m, mas demoram-s e apenas nos que lhes «fa z conta», onde pode m gozar e
on de querem «dar f é» de su speitas br éj eir es . Àos demais concorrem de fugida,
para os verem de rel ance.
* * *

A s moças pi mponas dã o começo à função, indo de moto próprio para o
ter r eir o, a bai la r em u m as com as outras. F armada a roda, discutem qual há-de
canta r.
- cC a n ta tu, comadre» - diz uma .
-«Não, tu é que principias .. . Já sabes a moda nova . .. (I ) Eu ín de a n ão
encarrilbo. . . »
- «Ma s canta a velha, que tamém é bonita . . .•
-«N ada, a nova é que h á-de ser . . . Anda, não te faças fi na . . , .
- «Ora, deixa-te de disfarses . . . Tu tamêm a acertas ... Se não te sstreves
sozi nha, eu dou - te o ponto... ( :I)
Com es tes preâmbulos, ou s emel hantes, resolve-se a dinculdade, cantando
uma das duas, ou ambas, a m oda n ova ou a velha . E/ o prel údio das ca n tor ias
e o chamariz ou reclame aos moços, se por acaso falta m. Faltando, não tardam
a aparecer. Em pouco tempo, a casa enche-se de homens e de criançol as.
Enquanto uns vão separar as moças que bail am juntas, duplicando os pares,
out ros puxam as que restam sen ta das para bailarem também.
AC1ueles chegam-se às que andam n a roda e dizem-lhe: - «D êe m l á licen-
ça • . . lO E sem mais aqueles, como coi sa que n ão a dmi t e disputas, cada qu al.
aga rra-se à sua, que se lhe entrega i m pa ssi vel men te .
O s que se dirigem às sentadas, falam- lhes assim: - cA n da da í . . . » L, para
cor roborarem, acenam-lhe com a mão e com a cabeça. Elas levantam-se logo,
sem se fazerem rogadas.
C omo possam e pretendam, todos os s olteiros tratam de s e encasal ar,
filando- se às qu e namoram ou pretendem namorar, e na falta, à s mais bonitas
ou melhores bailadoras. As feias e pesa das, s ó em ú ltima análise.
R a pa riga que «ponh a p é n o t erreiro», lá permanece indefinidamente, a não
s er q ue saia por causa de for ça maior ou por desfeita ao cp ar», o que s6 se
explica por desforço de agravos recebidos anteriormente ou na oca si ão. Fora
dessas circunstâncias, cumpre-lhe manter-se fi rme no posto.
O s rapazes obedecem a outras normas. A todo o tempo estão sujeit os a
escorraçarem-nos, pelo menos durante algumas volt as. S e dos es pectadores
algum pretende bail a r com qualquer da s que volteiam no terreiro, deit a o olho
(l) A to..l . 00 .<o.lu aoy. n. co••eo""aall•.Ill • leu. du u atlJ u • re lu. O tls t o .1.. n .tI,.. lI.ulu. i D. t-
'"'Tal aUlYh do. "'01. À m61l u Tari. d. ' .... lIO•• t .... po•• •• b... qo ••••pu ee rn oa. r" " ' bO' .1. m.I• • coll • . E.
<t .da "'0 _ ... ... lI.lo ."0'. ~ • • 0<1. DOTO. l..pl,.. ( l o do 'eIlO. dI!. <t.atador d. '01 10.
' d O priaclplo d. u adlo. t ••to •• m6aca como •• I.u• •
171
A TRAVt.S DOS C AMPO S
à que pref ere, e, acercando-se-lhe, diz pa ra o que a acompa nha: - «Dá lá
li cença . - O que traduzido, significa : - «Arreda daí . .. agora 6co eu . . . lO'
C omo é uso co u ent ís s i mo, com que todos se conformam, pOI estar nos
h á bi t os. o intimado sai imedi atamente, entregando a rapariga. sem o mínimo
protesto. El a a ceita a troca em silêncio, ainda qu e lhe desagrade. S e lhe desa-
grada, aceita por acatar os costumes e fugir a murmurações. Recusar-se. tr aduz
grosseria notóri a , que nun ca se comete sem mot ivos de malquerenças ou a r r u fos .
M a s, se à moçoil.e repugna O novo par, pode desquitar-se dele p or dois m odos
correctos. Primeiro: pedir licença 80 fulano para sair a pretexto de incómodo ou
cansaço, mas somente depois de bailar com ele algumas voltas. A n t e s ~ n ão lhe
fica airoso. Segundo: recorrendo ao estratagema de fazer sinais a r a paz afeiçoa do,
disponível, para q ue por meio da tal l icença a vá liber t ar do ti po com que embirra.
O solicitado, compreendendo-a. faz· lhe a vontade e livra-a do importuno.
O escorraçado do terreir o, tem o direito de voltar , i ndo «puxar» qua lquer
rapariga qu e esteja se ntada, ou fazendo a terceiro, como antes lhe fizeram a ele.
Se. porém, des eja baila r de novo com a qu el a de que o privaram, tem de aguar-
dar a lg uns minut os, para, por sua vez, paga r -se na mesm a moeda, arredan do o
t ipo que o fez sair; o q ual pode também fazer outro t a n to, r egul a ndo-se pelas
mesmas praxes.
Com esta sencerim6nia dos homens, imposta à pa ssi vidade d as mulheres,
a s pobrezin has nem sempre bailam com que m l h es a grada . O que lhes val e são
os es t ratagemas men cion ados.
Com. os pares em n amoro. é do est ilo r espeírar-se-l he o idfl ío, n ão os pe r-
turbando com pedidos de licenças inoportuna s. A t anto só se atreve quem t em
razões para se julgar preferido e quer er arrot ar d e conqu ista dor n a presença do
rival. M a s arrisca -se a perder o tempo e a fazer má :6gura. M oça de juizo, que
s e veja requestada por doi s prete n dent es, só dá atilb.o a um, se n ã o se esquiva
a os dois, embora para cons igo escolha aquele de que m ais goste.
* * *
O balho anima-se a pouco e pouco, a té atingir o a uge de concor rência e do
en t u siasmo. Ã par sobe ta mbém a temperat u ra. Ã aglomer ação d e gente, o f u mo
dos cigarros e o pó dos t ij olos do piso, produ.zem u m a. atmosfera estonteadora
e s ufocante. A casa t ransfor ma -se em estufa. e os assistentes i nu nda m- s e de
suor, qu e lhes escorre em :60 pel os rostos r ubros como pi mentôes.
N o rer rei co, os pares sobejam, acotovelam-se e pfsam -se, bailan do e dan-
sando a custe, por falta de espaço. Em redor , n a la r ei r a e a té n o sótão da ce rna,
mulher es e xaparfgas, sentadas u ma s nas outras e n ã o p ouca s de pé e em cima
de cadeiras, a gl om eram - s e, empurram-se c ap ert am- s e, para disfr utarem melhor.
As casa das, com os :6lhitos 80 colo, a mamarem o u a d or 'mi r, sustentam
palest ra s j ocosas sobre os namoros que p resenceiam. Quantos aprecia m me li-
ciosamen t e, metendo- os a ridí culo f Às previstes, com bossa para a má língua,
- 112
ATR Avt S DOS C AMP OS
reparam mais n os pa leios e gestos dos pares em d erriço, do q ue n o baile pr õ -
priamente di to.
O mesmo acontece à s que t êm filhas solteiras, n a roda ou por foro. À.s fi lhas
e aos r especti vos namorados. não os largam de ol ho para se certificarem se eles
l hes faze m a corte ou se as desprezam por outras. Fi cam fur iosas, se lhes bis-
pam deslealdades.
En:6.m, a o mulheri o q ue circunda a casa. n ã o lhe faltam assuntos para s e
dist r a ir e discretear. E a todos atendem nas mais insignificantes erínúctas.
Á por ta da r ua. observando e comentando, estacionam rapazes e homens,
em quantidade t ã o excessiva, que os da retaguarda fica m de fora. aguardando
ensej o de entrarem, a custo de a p er tos, pisadela s. empurrões e insolências.
À conter os da frente. fig ura o dono da casa, ou o u t r o por ele. investido n o
mando, de cacete n a m ã o, para manter a ordem. N ã o obstante, é impossível
evita r o s ussu r r o de den t ro e de fora. o q ue abafa um pouco o s om das cantigas
e o dos instrumentos.
À s cantigas e seus remates. escutam-se com singular apreço, m õrmente
quando são variadas e proferidas por boas vozes.
O reportório que a tradição co nserva é enor m íssi m o, e avoluma-se a toda
a hora com improvisos esplêndidos. que nunca mais es qu ecem ; que se transmi-
t em de boca em boca, enriquecendo o cancionei r o. II I
. . . .. . . . . . . , . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . . . . ... .. .. .. . . . . .. . . ... ... . . . . .. . . . . . . . . .. . . .
Após os pri meiros cantos das rapari gas, entram em cena os cantadores do
sex o forte. alternando com os do fraco. D e entre elas e eles não pou cos brilham
patenteando os seus eecurs os vocais. em quadras aprendidas na tradição ou
«armadas» de momento, ali mesmo na ocasião. pelo próprio que as can t a ou por
outro que lhe fica j unto, COm «sentido» para versar.
Se os cantistas de dois sexos en t r a m em desafio de co mp etên cia mais r ealçam
em afinação de toada e variedade de canti gas. O s Que nunca esgota m o r epor-
tório chamam-lhe pego se m fundo. Estabelecido o certame, cada q ual canta
a lternadamente. dando réplicas e t r éplice.s repassadas de iron ia. amor, despeito
ou outro sentimento, que pretendam man.ifestar. Mal t ermina um. O comp eti dor
r es ponde logo. e assim prosseguem até cansarem o u fa lhar o es t r o a o m enos
inspirado.
Out r os, porém, os substituem depressa. o que faz cr esc er a animação e a
par a bal bú rd ia da pa rola e dos dichotes co m que se entr etém a chusma de
miron es aficionados, que pejam o portado da TUB. H á oca siões em que os chas-
cos e os f n[at ôr i os excedem aos limites da tolerânci a. O dono da casa intervém
e excle rne : - «H a j a rumor . . . I... O que dito por ele . n aquelas alturas, quer dizer:
h) o " ah or À6t6nlo Tomh Pi' I...a'. ", aho . rudi : o • a m do. prhu: ip.b foldori' llI do aOll o pdl, ueo!!...... d.
ltadlçi o oul. d. todll II pro .lneill. dn 11 e.atl, qu . p.eieaum.nl' coord.aolO. co... l1.p.rior n..... ial UU-
"'a ta oLu "Canto. PopII••r e ll l · olCt ..g ur.e o u aei oa"i ro me l. ....to qo. fC t.m coli,ldo. m POrtl. ,.1. Du...
dn ....11 U ll tl..... .... u.d• • p.lo mI IlO• ••i o d. procldh lcl . lr. a'I. , . a •• O qu . honra Lut.nt• • pou l. popl1lar do "I. a teio .
Duta n ll 'II O If.L. lho IIli p",Lllcad o , I .' 'I'oluo... l EI.... - Ti po' r. li. 19\12J. <Q1 p' alau . C01Dpru ad. a do
:Sftl caluiall. dnld• • • at. d ...ffi ".dll. O 2.
0
'I'ola m. Uli n a do illlpu"o a. IIIIIClll' tlpo,nfi. _
- 173 -
A TR AvtS DOS C AMP O S
- «S ilêncio .. . menos bul ha . . . quem manda aqui sou eu .. . tomem cuidado l. . .»
Se não lhe obedecem e continu am a grs zinsT alto, f ormali za - s e mais e gr i -
t a- lhes : - «O u o bar ulho sssoceg8 ou z u nem todos p'rá rua .. . Silêncio I. o ' j á
d isse• .. D eix em ouvir, com todos o s d iabos! ... I s t o n ã o é r epública • . . :I-
A s m ulheres ta garel as faze m co ro, exclaman do com fingida indi gn a çã o :
- «Baía, um a gen te sem lacha... N em sequere deixam adev ertir li familha. . .»
-cAi nina que assuisse! . .. Cuidam qu e es tão n uma praça . .. Nem guar-
dam decoro às pessoas de vergon ha n a ca ra . . . »
-«Botem-nos fo r a . .. Que vão f azer pouco das mães e das irmãs .. .
Ora os vê dios 1.•. »
O s que ba ilam, também se p ronuncia m baixinho contra os palradores.
segredando:
- «Há tal que só vem às funções pa t a estar d e es cárneo ou armar motim »
-«Tivessem eles aqui quem lhe desse corda. outro seri a o seu porte ..
- «P udera I C omo não têm presa cá d en tro, n ã o querem saber dos mais.
F azem gala n a arraina. . ...
- «Por via d el es daqui a pouco dão o l ouvado . .. V er ã o . . ...
- «Os pior es sã o esses f e n dangos que ai n da cheiram a cuei ros . .. N ã o têm
assuprema n enhuma .. ...
- «Ora adeus . .. São t odos de todas as libreas . . . Àté casa dos. V alía mais
que se fossem deita r com as mulheres . .. Eles é que atoiçam o s f edelh os...
. .. ... .... . . .. ... . . . . ... . ... ... ... .. .... .. .... ..... . ... . ... .. .. .. .. .........
Entretant o se passam semelhantes comen tários, os repreendidos e censu ra-
dos, t emendo a expul são com que os ameaçaram, en t r a m na ordem por algum
tempo. para depois voltarem as choca r r ic es tarimbeiras. Não sabem estar em
sossego num baile de port a a ber ta. Dos ralhos que ou vem pelas incorrecções,
ri em-se e mofam à s urdina. S e os ex pulsam. a vol u ma m a algazarra cá fora, n a
r ua. Às vezes i n tervêm os cacetes.
. .... . .. ... ... . . . .... .. . ..... ..... . ..... ....... .... ... ... .. ... .. ............
Com incidentes per t urbedores ou em r elativo sossego e ccrdu re, o q ue tam-
bém se con seg ue po r excepção, e a mui t o custo. o baile prolonga-se p ela noit e
f or a, até o dono da casa d iz er em voz alta : - eLouvedo seja C ri st o I...»
Esta frase religiosa em acto tão profano, equivale a um- Bast a 1- deci di do
e irrevogá vel. É intimação f ormal pa r a o b aile concluir e s e pôr ao fresco a
gente est r a nha à família d e casa . Efectivament e a função t ermina logo, e a
s egui r todos saem: os homens, em t ropel, aos gritos d e: - cHaja saúde» - ou
- «Boas n oi t es». - A s m ulheres, chilrean do. aos a br aços e bei jocas de u mas
p ara com outr as, após os agr a deci ment os aos donos da casa .
Estes, sentem-se fatigados pelo a diantado da hor a e pelas folias em qu e os
m eteram. D epoi s, q uan do a só s, r eparam na poei ra da casa, n a desor de m dos
trabec os e n o gasto do azeit e com a s l u zes das candeias. dão ao d emóni o o
adevertiment o. N ão lhes bast a a turar em filhos e fi lhas de tantas mães, senão
ver em a almot olia va zi a , as cadeiras quebr adas. as lo uças partidas e as paredes
- 174 -
A T RA v t S D OS CAM PO S
sujas. À do n a es bravej a por tudo isso, mas depressa amansa, lembrando-se q ue
ass im tem de se r, para as filhas 80z arem. Não se apanham t r ut as a barbas
enxutas.
* * *
Se nas «fu nçõ es» de portas a den t ro, a ordem é pouca, n os bailaricos em
pl ene r u a. ainda é menos, porque n ão r esultam de or ga nização premedi t a da ,
nem se s ub or d ina m a a utoridade alguma. Surgem de repente, improvisa dos
pel as moça s da vi zinha n ça. a pretexto de passatempo momentâneo. S e os ra paz es
afluem e se p ortam em ter mos co rrectos. o e n t reteni me nto per sis te por algumas
h oras ; senã o a fl uem. ou se, m esmo a flc.i nd o, o ca sionam bal búrdi a e travessur as,
mone à míngua de i nfl uência , o u acaba de estoi ro para s e evitar em banzés.
Outras vezes escangal ha-se o bai lari co por efeito d e r etoiças ca r n a valescas.
* * *

Festas e t ou radas R ealizam-se em diferentes domingos e m ais dias feri ados
do verão. E.m ca da vila e aldeia, há todos os anos u..ma
f esta r i ja, promovi d a pe los lavra do r es , em h onra de N ossa Senhora, sob a
invocação de S enhora do Rosári o, d o Passo, da Conceiçã o, etc. Àpesar de
serem a s prin ci pais, nada ofe recem de n ot á vel, qu e se n ã o pareça com o que se
vê e m mui tos pontos d o pa í s, salvo as tou r adas, de q ue adiant e falarei.
O r es tante, r esume-se em mais ou menos fi larmónicas. fogu etório. pr ocissões ,
arra iais, baza r es, etc.
Na maioria das locali dades, alé m da fe sta aludida, p a ra que co n t r i buem
todos os habitantes, ca d a classe ou gr u po de classes, promove ou t r a menos rui-
d osa.. 80 sa n t o q ue arvora em patrono. O pe ssoal das lavouras concorre muitís-
simo para estes festejos, que.. pela maior parte, sã o de su a a b soluta iniciativa.
H á povoações em que se efect ua m a n u a l m en t e qua tro e cinco f estinhas, cada
qual promo vida por determinada or dem de ser viçai s.. 8gremi a d os em mordomias.
Na a ldei a de Santa Eulália. p or exem plo.. os abegões, boieiros. vaqueiros e
gen h ôes, festejam S. Joã o Batista; os pa stores e ca breiros. S . P edro. e os por-
q uei ras. Santo Àntão. E stranha ao p es soal agrícola. mas em con d i ções s eme-
lhantes, real iza-se t ambém a de Santo António a ca rgo dos almo creves arrieiros
e dos carvoeir os. T odas q uatro. e o ut r a s aná logas. nas freguesias viz inha s.
são pequena s fe stas de pobres, de assistência circunscrita à gente da localidade
e a meia dúzi a de ra pazes dos arredores . Constam a p en a s de música por filar-
mónica barateira, missa cantada, sermão. procissão, e por último, touros, de
tarde - a diversão principal, quase imprescindível. Não tourada em forma.. ou
coisa que se assemelhe, m a s á vara larga, dentro da povoação. g ratis, com #a d o
alentejano. deseecboledo, de trabalho e de criação. em que se dá liberdade de
lide a toda a gente. Quem q u er f az de toureiro.. já ch a ma n d o es reses com o
lenço, jaqueta ou chap éu, j á picando-as à vara de aguilhão, o u simulando pr e-
- 175-
AT RAV :e S DO S CA MP O S
tendidos passes de capote. Outros ou os mesmos, arvora m-se em forcados,
fazen do pegas q u a n do e como melhor lhes aprés . Tudo sem ordem e a o capri cho
dos execut ant es. N ão obstante. é espectácul o que o p ovo a preci a co mo n enh um.
tornando-se o princi pal, sen ão o único chamariz da f esto.
C ônsci os dest a verdade, os f esteirce emprega m esf orços incrívei s para qu e
os lav-radores lhes empr est em bois ou o q uer que sej a d e bovinos, par a o povo
se diverti r e botar fama do caso.
Dos l a vradores ouvem os festeiros muita n egati va, mas a tant os r ecorrem
por di versas vias, e t ais súplicas em pr ega m. que se mpr e a lcançam, de um con -
de sc endente, o fa vor ambicionado. A gradecem-no reconhecidíssimos, e desde
1080 o apregoam aos quatro ventos, para que t odos saiba m que haverá touros,
que a familha se sdel1ertirá «sem t er boca para fa l a r ».
Se os não h ouvesse, o juiz e os mordomas fi cariam derrota dos n o conceito
dos conterrâneos. Entre o públi co aldeão, festividade s em t ouros, é co mo olha
sem toucinho e f ogueira s em rosmaninho.
N a madr ugad a do dia da fes ta, ou na v éspera, de tarde, os Iescei ros e out ros
amadores, em r ui dosa a záfa ma, t rat am de pr epa r a r a p raça para a corrida n o
melhor l a r go da povoação, e be m assi m o correspondente cu rral de encerro - o
touril -numa das r uas q ue co muni q ue com a impro visada er-ene. Preparos
si mples que o pessoa l despach a ràpi damen t e, vedando as desembocad uras da s
ruas por meio de carros, pranchas e paus ligados por cor das. A comunicaçã o do
t our il par a a praça efectua-se por u ma po r ta provi sória, que se adapta ao ema-
deira mento. P ar a se não inte rromper a circulação n o largo, fi ca por t apar um
pequen o espaço da en trada de maior t rânsito, q ue só Se fecha d epoi s, à hora da
corri da.
O s car eos da vedação, e outros que se arrumam aos prédios. servem de
a comodações para os espectadores, quer em ci ma, sobre os l eit os, defendidos
pelas enfuei radur as e t endais, quer em baixo, ent r e a s r odas, onde os assistentes
espreita m, agachados, pelas enraiaduras . Para a m úsi ca r es erva m- se dois carros
dos en costad os às casarias. que ofereçam melhores con di ções d e segurança e
obser vação. Car r os não fa ltam, devido à condescen dência dos donos que os
emp restam e ao zelo e pachorra dos popul a res, que os conduze m à mão com a
m el h or boa vontade.
T ermi n ad os os prepara tivos do circo, os feste íros asseiem-ee e encadernam-
- se de pon to em branco, p ara se apresentarem janotas nos actos subsequent es.
N este meio t e mp o chega a filarmónica . vinda de Elvas ou de u ma des vilas
pr óximas, o que equiva le a di zer que pri ncipia a fes ta.
- «A música I .. . Chegou a música I . .. A í vem a música I . .. » - exclamam,
de t od os os lados. os alviçarei ros tagarelas, numa en t ona çã o de visí vel con -
t ent a mento.
- 176 -
ATRA vtS DOS C A MPOS
O s fil a r món icos a peiam-se à en tra da da t erra, entram em forma , e, em
contínuo, r ompem t ocando pela rua f ora. Tudo se alvorata, principa lmente a
garotagem, que a code em correrias a ouvir a s gu'ifas, acompa n ha n do- as i n ces-
sant em en t e, numa alegria doida. Com um enor me cor t ej o de r a pazi o, os
músi cos prosseguem em direcçã o à casa do jui z, que por s ua vez lhe saí 8 0
encontro. coloca n do-se- lhes na frent e até vê-l os à por ta. A í prolonga-se a tocata,
e fi n da que sej a , o Iesrei ro convida-os a entra r, pa r a l h es oferecer vinho. licores
e bolos. ELes entram, se rvem-se e saem, rompen do d e novo com outra marcha.
T ocando sem pre, diri gem- se às casas dos restantes festeiros, para depois irem à
casa do r egedor e à do dono dos touros. E/ da praxe tocarem à porta de todas
estas p erson a li da des e em casa de todos entrarem para se servirem dos bebere..
tes e a cessértos do estilo. B a stas libações de es t imulantes néctares e uma pan-
çada de bolos, que supre o al moço. N ã o obstante, m erecem bem as pi nguinhas
e os bi scoitos, porqu e a es ta fa de a ssopro, a que obriga tão esfalfantes cumpri -
men t os, é de arrombar os pu l mões a os paci ent es m ú sicos 1. . •
A propósito: at é ao ano de 1871 ou 1872 a m ú sica que animava a s festi n has
das aldeias limi tava-s e a u m velho t ambor e a um desconjunturado pífOTO,
ambos tocados por veteranos ou gente parecida. M a s n aquele ano as fil a r mó-
ni ca s fizera m u ma tal concorrência ao p ilaro e a o tambor, que os suplantara m
de todo, para n unca mais se ouvirem.
* * *
Às dez h or as da manhã, na residência do j uiz o u enti da de equivalente,
r eunem - s e de novo os confrades e de a í s egu em para a igreja paroquial. com o
respect i vo guião ou bandeira, a com pa n hados da música e do rapazio. Se o santo
figura n outra igreja. vão lá primei ro com a bandei r a . para. o transpor tarem pro-
cessionalment e à sede da paróquia on de se f az a festa.
Enquant o as cerimónias r eligiosas se r eali zam na igreja, cá fora, DO adro,
põem-se em l eilão as fogaças ( 1) oferecidas, bem como a carne e cereais prove-
nientes dos peditórios do entrudo e do ve rão. F ogecas, carne e cereais, vendem-
-se por preços variáveis - baratos. se a concorrência é frouxa; subidos. se há
animação entre pretendentes bas éfies, que não querem ser suplantados. O s Ees-
tei ros pimpões f azem render o leilão. cobrindo, por sua conta, os lanços dos
estranh os. A s ~ i m botam figura e defendem os in te resses do santo.
. . ..... . . .. . .. . . . . . ... . . . .. . . ... .. ... . .. . . . ... ... . .. ... . .. . .. . . . . ... .. ... . .. .
A missa e o sermão decorrem com visível despacho. sem incidente n otá vel.
Àntes do meio dia j á a procissão está n a r ua, fazen do o trajecto do cos t u m e.
O s mordemos lá vã o com toda a gravidade, muito anchos da sua vi da, osten-
t an do as re spect i va s insígnias: - o j u iz, a va r a; out ros gra duados. o pendão e
os cordões. o andor, etc. O que hasteia o pendão, segura-o com todo o aprumo.
envolvendo e a mãos num vistoso lenço de seda.
177
A T RA v t S D OS C AM P OS
A imagem d o santo festejado e outras que o acompanham, sa lientam- se
nos andores pel os mi rah ula n t es ad or nos com que se enfei tam. S. J oã o Batista,
que vestia pel es d e ca mel o j S. P edro, h umilde pescador ; S an to Antã o, um
asceta, e o utros de tradi ci onal h u mil dade. fig ur a m-nos carregados d e fitas ber-
ra ntes e cord ões de ouro, pen dentes d o pescoço ou enlei ados sobre o r esplendor
de prata I. . . E st as ta fularias, são obr a das m ul h er es dos f es t eiros, q ue se arvo-
ram em aias d as i magens, i ndo com polas à igrej a na véspera da fes ta. Impem
de snrisfeção por lavar em e en feitarem os san t i nhos.
Atrá s d o pálio. e a eonrrestar com o r eduzi d o n úmero dos q ue adiante
envergam opes, i n decen t es pela maior part e. a compa nha o S antíssimo, a q uase
tota li da de d a populaçã o mascu lina. N ão obstante este t estemunh o de fé, a missa
e o sermão efect ua m- s e com escassa assist ênci a e singula r frie za, com o se fos sem
actos de s ecundári a importânci a.
O gra nde a t r a cti vo, que todos aguardam com ansi edade. é a toirada.
O s es tran hos à província, que por acaso a pres enceiam, n ão lhe encontram
graça nenhuma, ma s os naturais do sit i o, pelam-s e por semelhante brincadeira.
P ortanto, mal a procissão r ecolhe, os f esteiros apr essa m -s e a r econduzir a
bandeira e a imagem, para i medi a ta m en te tratarem de t oiros. Desenvencilha-
dos das o pa s, eí-Ios a correr em para fora da t erra. em mangas d e camisa,
segui dos de pcvol eo, para auxiliarem a entrada do ga do.
C omo se n ã o tresmalh em. o que é r aro, os bichos entram depres sa nas
r uas d a povoaçã o. t o cad os pe los boieiros e curiosos. atrás da s madrinhas - os
cabresto s - ( cho cas), qu e, a gi tando as mangas, arrastam-nos ao torf l.
- «Os toi ros 1... A í vêm os toiros I.. . Fujam 1. •• Fujam1.. •• A ssi m bradam,
com pr azenteiro alarme. os entusiastas, d esmentindo com o riso os conselhos
d e fuga. Ninguém foge e tudo assoma às portas e janelas para verem a s r ezes e
lhe comentarem o aspecto. T a n t o podem ser b ois de trabal h o, matreirões, como
novilhos de 3 a 4 anos, vacas. n ovil h as, bezerros e bezerr a s, ou de t udo isso um
pouco. desde o eoiec reprodutor. até aos bezerritos. S ejam como fôr, som a m
vinte o u mais. que se correm desembalados, pel a maior parte. Para sal var as
aparên cias e dar sat isfação à autoridade, embolam-se dois ou três ma nse r rões,
ou um excepcional mente br a vo e possa nte. que, pela sua reconhecida bravura e
alentada corpulência. não ofereça pr obabili dades d e se r agarrado. H á lavrado-
r es q ue dão uma casca med onha se lhe pegam os bois. J u lga m-se deprimidos
nos seus brios d e criadores. Um prejuizu absurdo e i nsensato, que já existi u
em maior escal a .
. .... .. .. .... ..... . . .... .. ..... .. .. .. . .. .... ... .. .. .. ..... . . .. .... . ..........
R ecol hi do o gado, espera -se q ue a m ú si ca descanse para se começar a
corrida. E n treta n t o. na praça. vão afluindo os espectadores. que, a pouco e pouco.
ocupam os l ugares. tanto os dos ca rros, como os das janelas. sacadas e varanda s
dos prédios em volta.
O s moradores do sítio, não obsta n te ficarem encurralados. de bom grado
aceitam o encerro. pela satisfação de disfcutarem o pagode dentro d e suas casas,
- 178 -
ATR AvtS DOS CAMPOS
em companhia al egre dos amigos e d os estranhos que lhas invadem, con fia ndo
na benevol ência. O s foi tos e estúrdias, não se incomodam em obstr uir a s portas
que dão para a praça. Pelo contrário, a br em- n a s de par em par , enquanto dura
a fnnçã o, para, dos limiares respectivos, a goserem a seu modo, fazendo fr en t e
aos cornúpetos que lá chegam, senão facultando-lhes a entrada para os a dm i -
rarem como hóspede s.
Deixando-lhes a porta livr e, provoca m peripéci aa e investidas s encer imo-
niosas, com. que esperam r ir i menso, j á pelo fact o em si, j á pelo susto que se
a poder á dos timoratos.
Seguindo orientação oposté, os medrosos t ra n ca m os seus portados, com
pranchas a o centro. que lhes sirvam d e parapeito e lhes permitam ver sem
perigo de marradas. As j an ela s, sacadas e varandas, enchem-se à cunha com o
pequename e o mandamismo de consideração. Não há uma só que não regoe-
gi te de moças muito enfeitadas, em traj os multicolores, como açafates de rosas-
Quem possui janelas ou coisa que o valha, põe-se at ónito para a t ender o
mulherio flamante qu e, antecipadamente, pede um l u ga 'rzdn ho de onde vejam
com segurança. Tanto i mportunam os moradores do largo, que estes d ecidem-se
a dar o sim a todas, caibam ou não. M a s elas lá se arranjam como podem, sem
se importarem com bagatelas.
Nos carros e n os prédios, t udo se p reenche e apinha, mais ou menos como-
damente. Abundam as posições caricatas, desde a s dos ca utelosas em exagero,
que se sentam nos telhados, gatinhando para lá ch egarem, at é às mulher es
menos exi gentes, que s e assolapam en tr e os rodados, espreitando pelas fisgas e
abertas. Acomodam-se assim centenas e centenas d e pessoas, sem contar os
aficionados que fica m na arena: uns dispos tos a lidarem e correrem, outros
resolvidos a ch egar em- se para os edifícios e aí formarem barreira. colocendc-se
na defensiva, a p é firme e de pau f orrado, para afrontarem com as arremetidas
dos comudos. P el o menos a lar deiam semelhantes intenções, com fumaças d e
val ent es. embora depois f ujam a esca pe, logo que O peri go s e avi zinhe.
. . .... .... ... . . .... . ... .. . . ... . .. .... . .. . ..... .. .. .. . .. . ... .. .. . .... .. . ... . ..
* * *
E menos de uma hora t odos es t ã o a postos : a mú sica, nos carros, de pé,
t ocando ou não, s egu n do a s exigênci a s do público ou o ca pri ch o do mestre ;
o lavrador, à porta d o touril, de va r a ou pampil h o em punho, para dirigir a
corrida ; os {esteiros, ao lado, muito ufanos, mos t r a n do os mol hos de fitas com
que brindarã o os agarradores. À aut oridade iocal- o regedor - t ambém está à
vista, em qualquer p arte, de benga la ou cacete . rodeado de cabos de políci a ,
manuseando espadalh ões ferrugent os, que lhe se r ve m de arma e distintivo.
Dentro do touril estacion a m muit os curiosos, que, aprecian do as r ezes,
comentam-nas ao sabor das impressões que s entem pelo lavrador .
Entre os apreciadores 6 guram genhôes, e outros cri ados de lavoura de onde
- 179 -
ATRAvtS D O S CAMPOS
são os bois. Como tais conhecem- n os a f u ndo, e por isso compr azem-se em lhes
ci tar os n omes e as q ualidades.
- «Aqu ele - o A lfaiat e - é testo como um raio ... Quem lhe a guen t ar os
impados, há-de ter estamago», di z Um.
-«P oí s eat e t-r o Esbandalha - o nome diz . . . Em a vançando par a a lami-
lha, é de uma pessoa dar às tranca s, s e lhe n ão q u er cheirar o bafo. , - acre s-
centa outro.
-«Já o Morgado não é assim ... Bota-se à ge nte como um leão . . .
Metam-se com ele . . . experimentem- no.., observa te rceiro.
- cE o General J• • • A quil o f u ma- lhe a venta . .. À.. solta tem picos . . .
E,' preciso levá- lo com astúcia ... O que se descuidar está-lhe em CIma . • . »
- «G rande gado . oh par ent e l. .. lt
- cE' verdade, r a paz . •. Isto é que vai se r to urada J. o • •
- eN em eles foss em de nosso amo... O gado lá de casa sempre fez flor ... »
.... .. ........... . ..... ... . ...... ..... . ... .... ... ... . .. . .. ... ... . .... .. ..... .
Nadp. f a ltando de essen cial, fe cha-se o espaço que ficou paro. o trânsit o,
complet an do- se o en trincheiramento. Q uem s e atrever a transpor as barr eir as,
arri sca-s e a partir as costel as, o. esb orrachar o nari z ou a fica r descomposto.
A s espectador as retardatárias, q ue s e dest ina m às janelas, a r r ost a m com esses
prec al ços, galgando os ca rros com O a u xílio dos paren tes e um certo equilíbrio,
que lhes permite vencerem o obstáculo e segu i rem a mar ch a, a travessando o la rgo.
E m que saltem incól umes, não se es ca pam às chufa s e z umbais! d a multidão.
que as n ã o poupa, vendo-as caminha r muito Ii r ôs e remech i das, d e olhos baixos
e o rosto af ogu ea do, como que a f urta rem- se aos apupos dos trocista s. S e l h es
gritam que f ujam, q ue vaí sair o boi , as i nfelizes p er d em a li n ha e desatam a
correr, como corças, o que aumenta a a ssuada, es rr ug'indo as galhofas e os
a ssobi os .
Ent retanto, O povinho, impaciente, r eclama o começo da corrida, bradando:
- «Venha gado' . .. Venha gado ' ....
. . .. . . . .. . . . ... . . . . . . . . . . . .. ... .. .. . .. . .. .. . ... . . . . . .. . . . . . . .. . . .. . . .. .. ... ..
Começa a lide. R ui dosos aplausos celebra m a saida da rez, que, mal
assoma, põe em debandada os grupos que se entretinham na praça. Tudo foge:
u n s procuram empoleirar-se onde possam, outros distanciam-se apenas no pro-
pósito de tourearem, e alguns vão engrossar as colunas dos tl eugmâricos encos-
tados às paredes.
O bicho que sai primeir o COStuma ser fraco, d e pouco respeito. Sai a título
de ensaio, por assim dizer, pa ra desafogar a. p r aça. e u nir fileiras. D á umas
voltas, marra ou corre, conforme os In rintos, ou não marra n em corre, e daí a
nada, regressa ao touril.
A nlarmónica tem de tocar de vez em quando. senão o povo indigna-se e
berra:
- «Música 1... Música 1... Haja música 1... Não é só ganhar o dinhei ro 1... »
Ao primeiro chavelhudo sucede-se cer re, de boa pinta e m el h or se n tido, e
- 180 -

ATRA v t s D OS C AM PO S
deste em diante alternam-se os que p rometem com os d uvidosos, salvo quan do
se efectua uma pega boa, em que. após o r ecolhimento do a garrado. é certo
sair bi cho de maior tezura, como o haja. Va1 desafrontar o companheiro que se
deixou ve ncer.
A lide e as pega s consentem-s e a toda a gente, co mo já disse, mas os
b ezerros de ano 56 costumam ser t oureados pelos r apa zinhos. O s homens
coadjuvam- n os e animam-nos, quand o muito.
Boi, vaca ou n ovilho, demora-se na arena enqua n to dá sor te investindo e
marrando. O que r evel a mansidã o, r ecolhe depressa. H á-os tão pacíficos que
n em despe rt am com os aargun chos das aguilhadas . Outros, azedam-se com esse
estímulo e lá se fingem bravit os à força de ferroadas. Que r em édi o . ..
.... .... .. . .. . . . . . . . . . . .. ... .... .... . . .. .. .. . . . . . ... . . . . . . . . . . . .. . . .. . . .. . . ..
R ez que marre e n ã o seja te mida, o que é freq uente em vacas e n ovil hos
at é 2 anos, os aficionados procuram-na e provccam-na. E.l a corresponde, cor-
rendo pa ra os lidadores, que são às dúzi a s a chame rem- na e a esqui varem-s e-
-lhe com as jaquetas, lenços e chc peus, a o mesmo t empo que ou tros, pela
r etaguarda, a espi caçam com as varas. Fervem a s aguilhoadas, e ta n to abusa m
delas que chega a int ervir o lavrador, reclamando mori gera çâo.
E.m correri as e invest id a s, o an i ma l percorre e esquadrinha por toda a pra ça
n ão al cança n do os art istas, que, a poder de muitos, def endem-se reci procamente,
em quit es m ais ou menos habilidosos, que lhes permit e safa r em-se es correi tos e
sãos, deixando o bicho l ogrado e raivoso. Em berros espumantes, manifesta a
sua ira contra o martírio que o aflige. . . Sem embargo, numa ou o utr a vez, o
caso mudo de fi gura, ist o é, o cornúpeto al ca nça os pseudo-toureiros e atira-os ao
chão, o qu e provoca uma gri ta ria en t usiástica, como a colhida ou colhidas n ão
sejam de gr avi dade. Trambulhões simples ou arranhaduras ligeiras, conside-
ram-s e bagatelas insignificantes.. de que até mofam os padecentes I
Após alguns minutos de larga pagodeira e fartas peripécias, o animalito
cansa e já não corre às chamadas. Só trata de se esca par , ca mi nh a n do para a
porta do touril , que encontra fechada. ou t ent an do fugir de salto pelas trin-
cheiras, sobretudo por onde en t rou quando o t rouxer am do ca mpo. Salta ou não,
conforme a ligeireza de que dispõe e as dificuldades que encontra .
Nos seus assaltos aos carros dá or igem a r eboliço bravio en t r e os curiosos
a i apinhados, que, cheios de susto, r ed emoinham, rebolam e ca em, a o passo que
os de bai xo, prevendo a s consequências, furam e es gui ncham por onde podem
pere não serem es magado s na rat oeira. Uma confusã o ult ra-c õmice, de qu e
nem todos saem iles os. Os espect a dor es vi zinhos, sentindo-se seguros, riem-se
a valer dos que se vêem em ca lças pardas. Os mais entusiastas, como a rez n ão
con siga fugir, gritam com i n sist ência : - «Á unha I... Á unha I. . . V á de
agarrar I... •
Os brados de: - «Á unha I» - que, igualmente, se ou vem em mui tas outras
ocasiões, são vozes ao vento as mais das vezes, a que os agarradores n ã o ligam
importância.
- 181 -
AT RAvt s DO S C AM P O S
Como ví timas es ca r a ment ada s, s ó agarram quando qu erem, e em ci r cu ns..
t âncias fa vor áveis . Então, a vançam garbosamente para o bi cho, bat em-lh e as
palmas e agarra m- no de ca r a s, sem o mín imo de sma n cho, o u des ast r a da m ente.
à cust a d e t est ei radas e sa fa n ões, qu e con cl u em por boleus de arromb a, com a
s ua chavelhada à m ist ura, mas sem gr a ve s con sequências, a l ém d e rasgões n o
f a to e ligeiras beliscadura s. Boa fi br a, não há d úvi da.
R ea lizada a pega, a s pa lmas earrugem e a m úsica celebra a acção, tocando
expontâ n eamente ou por exigên cia do públi co, que n unca se fart a de ouvi r os
bombos, os pr atos, os cor net in s e os da:r. inetes . R. ecl a ma m mús ica a to do o ins-
t a n t e, e quant o mai s pancada r i a t i ver ta n to melhor, que sem bulha de i nstr u-
m entos não agrada.
......... ....... ... ........ . . ... ..... . .. .. . . . . .. .. .... . .. .... ... .. .. . ..... . . .
Quando alguém se propõe a agarrer , é dever do la vr ador conse r var a 'tez
n a praça até os i ntentos se r ealiza rem ou h a ver most ras de desistência.
S e, porém, os aficionados de sist em dçs pr opósitos ou se, te ntando-os, os não
l evam a efeito, o a ni ma l recolhe imedi atamente. O lavrador qu e nã o s egue estas
praxes, p rovoca cel euma de pr otestos, q ue terminam co m a r eaparição da r ez
recol hi da , ou com a saí da de outro chevelhudo.
P ara a ca ba r com mot ins. r ixas e d esaguiaedos de s em elh ant e gén ero, nada
mais efi caz que a saida de um boi breve. U m boi de respeito é m elhor agent e
da ordem p ública do que o re gedor e todos os ca bos de polici a . M a l aparece em
cena, abafa as r ecl amações e põe em debandada os magc tes d e dí scol os.
.. .. .... .. . . . .. .... . . . ... .. ..... .. . .. . .. .. . .... . . .. .. . ... .. . . . .. . ... . .. . . . ..
Haj a o q ue houver e suceda o que suceder, a s pegas provocam a pla usos
xuidoaíssimos, q u e resso am a o longe, apregoa n do o entusiasmo delir ant e q ue
vai na pra ça. E pa r a isso nada como as vacas, n ovilhos e bezer ros, que, em
geral. dão sorte. sem ca usa r em desastres de Impor t â n cle .
A lide d o boi e do touro r eprodutor, de n otória braveza e corpulência, ef ec-
tua- s e com m enos pessoal e m aiores ca ute las, pelo m uito r es peito que o bi cho
i n funde. O a n i ma l dess e teit io, vê-se quase isol ado no meio da arena, à f alta de
h omen s que o q ueiram tour ear. Apenas de lar go o citam três ou q uatro dos qu e
se fi am n os p és, nos músculos e n as unhas. O s out r os, t ratam de se pôr em
Iugar seguro, sem se importarem co m a a lg aza rra e a ssobios dos simples espec-
t adores, que os i nst igam à f sena, chocot ea n d o·os pelo receio.
A os destemidos, que p ermanecem no posto, o público convida- os a pegar.
M a s es tes tam bém n ão correm a foguetes . P or honra da fi r ma Lim i t a m- se a
ent r et er de largo o matreírão, fugindo- lhes a escape ma l o vêem avançar.
O povo, porém, não s e farta de os influtr, já gr itando- l hes: - «A u nha I. . . » -
já oferecendo-lhes dinheir o. Cinco tostões, d ez, quinze e muito me is, mostram
e oferecem. com es trondo, diferentes espectador es. o u sej a. pelo empenho de
verem asarra r com valentia o u par a enquísílarem o l a vr a dor , se não também por
mera bas õfie, pressupondo qu e lhes não aceitam a s esp ôr t u las. E ainda out ros
oferecem n o intuito de goza r em, não com a pega, mas com O estoi ro q ue dará o
182
A T R A v t s D O S CAMPO S
par vo que se af oi te à avent ur a. E' um gost in ho se l vagem, mas gost os n ão se
discutem . . .
Há trin ta anos, quando abun da vam os ag a rradores de fa m a, (1) nenh um
r esistia às te ntações e pro mes sas d e dinheiro. C h ega va m a a garrar por pimpo-
ni ce es pon t â n ea e p or emulaçâo, tirando-se a ve z uns 80S outros. Hoj e, n ota- se
o con trári o. O s poucos que agarram, só , de l onge em lon ge. se ari ram a bois
valentes, temíveis. M as, en fi m, se ca lha. à voz de quinae tost õe s, ou a o efei t o
de cantatas Hsongeadores, su rge um pimpão liberal, que, sem se i mpor t ar co m
a r espei tabil i dade do ma t uto, corre- l h e para a frente, e cai - l he na cabeça.
Fi ca-se com ele ou vai a t erra, está claro. Se fi ca e l h e apara as primeiras pano
cedes, aguentando- s e n o balanço, dezenas de cu-r ioso s cc'rxem a coadjuvá- lo. afim
de mel h or se haver e a pega ir àvan te. Como vá e seja r eal. t rovejam os aplau-
sos. A música t oca e o público aclama o agarrador . Com que ufa nia ele ouve os
aplausos! Visivelmen te impressionado, r ecebe a s dádi vas promet idas. as fitas
dos Ies t eiros, os a braços dos colegas. e por a caso u ma sorgeta inesperada de
qu alquer entusiasta. Aceita o que lhe querem dar, ma s nunca pede, como fazem
os for cados nas verdadeiras touradas. (2 )
Se a pega fa l ho, o agarrador paga o atrevi ment o. N a melhor das previsões,
apanho um trambolhão, que o dei xa a to rdoado. M as passa-lhe depressa.
F..' questão de água fri a. de u m copo de vi nho e de um ci ga r r o. Isso de tombos,
desmai os e arranhaduras, são insignifiCâncias, comparativamente com azares de
fract uras, barrigas furadas e outras coisas tét ricas, que mandam o pobre diabo
pa ra o cemitério, ou o inutilizam po'r um par de meses.
E: o r esultado lógico da selvageria, que outra classificação n ã o t êm, as pegas
em tais condições.
R ea lmen t e. q ualquer brutamontes, por musculoso que seja, defront ar-se
pei to a peito com u m boisão traiçoeiro e desembolado, de chavelhos enormes e
ponteagudos, no vigor da vida e das faculdades, sob r e terreno áspe ro de calçada
o u macadame, se m t er por socorro quem saiba de t ourei o, cons tit u i audácia de
valentia br ut el issime, que só se compreen de em indivíduos de i gnorância crassa.
Q ue a i nda os h a ja, admite-s e ; que os incitem a esse arrojo estúpido, custa a cr er.
P odem con t inuar por muito t empo as corridos à vara larga - e cont inuarão
de cer to , da da a predil ecção do público - mas as pegas aos boi s e t OUTOS desem-
balados, h ão-de a cabar u m dia - cedo ta l vez - à fa lta de néscios boçai s que se
metam em semel han tes f ofas . Bem basta qu e se at reva m com vaquinha s e n o vi l hos.
* *

Abstraindo as se l va gerias do s pegas em ani mais des embolados, de avanta-
jada corpulência, a s t ourndas de nt ro das p ov oaçõe s, em praças de improviso,
<I) Hu l. - u d. h'cxu :ll u \ to•.,.... e .pddii.. elll. VI1. BoilD. 8arh.tu.• , SUI.f. Ev.lili... AU1:Illl.ar. cooforundo.
1011 .... lOunel .. do .1110 • u u do. ...
h ) NOlllro' I. DlPO', o. boi. d.. u cort.b...ld. b. ...u . , ..1-= 1 pn , • • afe lt.do. colll. ; u d iod ru d. fit .. I! IU'leloul..
(.oilu), .. . lut•• p.u o••,.rr.dou... tl n um como pdmlo d.. ' f Cio. ~ " ' O D l " conliJ:P.h.ro mot el .. d. put., o qOl! ...
fad. COIP.tlu .. o . cto d. ..h • f U , calDO la u Mh o l .uoton d. pt , ••
- 183 -
AT RA V !'. S D O S C AMPOS
oferecem, como j á n otei , episódios engraçadí ssimos. que suprem, em parte,
a ausência absol u ta d e t odas a s regras da tauroma quia . A gora, é uma
tez que salta a trin cheira e s e evade, pondo em alarme os espectadores
do sítio por o n de s e esgueirou e os transeuntes e moradores das ruas que
percorre. L080 é o u t ra, que entra num dos prédios que d ão para a praça,
causando lá dentro um motim do s demónios. princi palmente n o sexo fra co.
O s h omens r iem a bom rir, mas as mulheres, coi t a das, n ã o ga n ham para O
susto. As mai s impressi onáveis e assustadiços vêem-se em có licas. d everas
compr omet idas.
P or ocasião das pegas s ucede aparecerem as consartes d os aga rradores, 8
dissuadirem-nos d e semelhantes prosá pi as. E. en t ão, é cur ioso ver a s mulher-
sdnlaas, em cor po ou de chaile t ra çado. saltarem os carros. e correrem. muito
abespinhadas. ao m ei o da praça, a r alharem com os maridos e a pretenderem
retirá-l os da arena. Eles refilam-lhe. r ecusando-se. e elas en fu recem -se. prague -
jan do-os. E.ntre eles e elas trocam-s e gestos d e a mea ças cómicas. q ue t erminam
por so cos e pela retirada das intrometidas. O povinho dá-lhes s u rri a da , a pu-
pando-as pel o insuces so.
Outros i ncid entes divertidos s e presenceiam, como cai r um palanque, empi-
n arem-se os ca rros. resvalar um patusco que toureia. etc. Todos estes pr eca l ços,
o correm, em gera l. sem con se quên ci a s funestas. O públi co cel ebr a- os ruidosa-
mente. numa alegria d oida e comunicativa. que. de resto. partilham ta mbém os
que apanham os sustos. as contusões e os boleus. Folia completa. sem entraves
de nenhuma ordem.
A tourada acaba a o lusco-fus·co . Se agradou. os entusiastas dão vivas 8 0 S
fe steiros, ao l avrador, a os bois e ao .. . santo I
O gado sai imediatamente para a pestoríe, livre enfim do fla gel o a que o
sujeitaram.
... .. .. .... ... . . - - . . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . .. . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .... ..
Depois da tourada. ou antes. conforme o t empo de que di spõem. os f es teiros
e os mordomas realizam um banquete ou um copo de água em casa do juiz. a
pretexto «de correr o ramo», e d eliberarem sobre quem hão-de ser o s promoto-
res da f est a no ano imediato.
O ramo consiste num cesto com bolos. sobre toalhas de rendas, gua r -
necido de flor es, tendo ao centro um pão de 16. de on d e se ergue um
vi stoso ramalhete. Colocado no meio da mesa. aí figura durante o bródio,
at é que no fim o j uiz o re tira e o passa de mão em m ã o. c. or r en do a
roda. pa r a que o «agar r e» quem o pretenda e lhe chegue a vez. C om efeito,
o que está nessas intenções. e o ensejo se lhe proporciona, levanta-se, ergue
o cesto nos braços. e grita enf àti camente: - «Vi va S. Fulano»!. .. O que
si gnifica dizer: - «Honremos o n osso santol ... Sou eu O {esteire nevoe I.. .
O s mordomos correspondem com outros vivas de eneueí éetícc a ss en ti men to.
confirmando-lhe a autoridade de que se investiu. E passam a nomear os
auxiliares do novo juiz. como: t es oureiro. escri vão, etc., se a fe sta não
- t81! -
ATR AVt. S DOS CAMPOS
se incumbe a u ma única entidade, como ta mbém s ucede em determinadas
circunst âncias. ( 1)
Liquidado o assunto. o cesto com o ramo é ent regue a um r a p a z, que o
coloca à cabeça p ara o conduzir n o préstito que vai formal -se. Entretanto,
chega a música, para celebrar o caso e ir t ocando.
O juiz velho entrega ao novo a bandeira, e este, receb endo-a, sai à r u a a
mostrá -la ao público, ao som de vivas es t r epi tosos . Em seguida, o cortejo
forma-se e marcha adiante da música, com O ramo à frent e, para casa do DOVO
fest eiro, onde se repetem os vi v ôr i os e 8 S libações de vinhos e licores .
À noite ce lebra-se o acontecimento com rijo bailari co. E ' o balho da ban-
deira, assás con cor ci do pe la melhor mocidade.
* * *
Jogos Perderam o cunho máscul o e recreativo que os caracterizava noutros
tempos. Há trinta a n os, se tanto, os homens di straiam-se nas horas de
ócio a jogar à malha e à barra, a sal ta r em a gran des dist âncias e alturas, a
levantarem pesos enormes, a pulsarem uns com o u t r os, medindo as sues forças
musculares. e. enfim, em vários exercícios semelhantes, que se podiam c1assi6.car
de j ogos atlét icos.
Na freguesia dos Prazeres, do vizi nho concel ho de M on f orte, efectu ava-se
e efectua-se uma pequena romaria na segunda-fei ra de Pascoela. onde outrora
os popul a res da s circunvizi nhanças passavam a tar de nesses exercícios, diver-
tindo-se a si e aos curiosos. Quem p ulasse e j ogasse à barra nos P razeres, co m
fe rro de a rado ou coisa ma is t a luda, era sujei to experimentado, que não temia
defrontar-s e com outros pimpões d e fama. T a mbém - cumpre acrescentar-
raro era o ano que l á nã o havia bcrdoede rij a, entre os cam peões de força e
li gei r ez a.
N a actuali da de, ta nto no concelho de E l va s como nos limítrofes. já se não
pula n em se joga à ba rra. C omo eram ent retenimentos salutares, puseram-se de
pat te, prefe rindo-se-Ihe 8 cha pa (2) e o ch ínquílho, em que os patos são depena -
dos sem dó nem consciência dos espertalhões que os ex plor am. O mesmo acon -
tece com os jogos d e ca r ta s e cartões muito em voga, tendo estes a agravante de
decorrerem sob a atmosfera insalubre da taberna, onde muitos homens do campo
consomem os dias e noites dos domingos, perdendo o salário da sema n a ou a
soldada do mês, nos jogos da ron da, ped ida, trinta e um, m onte. et c. I sto n ão
It} E. ai."..... localid.du• • n ri 6.. 1. d••Dtr .... d. hu. d.l... , ... I..,ar à pou . d. l.rel. o. a o laurior do u mplo
lo....do·. o (.udro 1>.0"0 d.....Ioe do tI . o. o.. d.. do pboco.
s 1 1 ~ .... rc •• o " ", o o ' n u ir" oa ' u II Ir O' ... Ibo, ee.. do.. . ", • • u .. l r • • a CJlOIU.... •.. PU_ti o prior • •
40 •••11.1 Dudd... N.u. Ohllllo CUO• • l u u 11.10 II f•• no .ftO ' lIIedlat o• • por luo dlt· .. 4d' • h. lIdeiu fi co..
• rn.ad• • AalInud. lnd.&.. ld I • • u i b.... r d...ou). 4u• • 40..1 ,.rr .
(2) Jo.o. d. n ee o. d.. cJ. coh••• 4ae •• a1ir ' 0 o cblo•••ab.ll do-u ou pu d. ll dD· coll fo .
• f. c• d. "'OId. 40. fica "o h .d. $I" cim • . Cu .. ou ""U' , como •• db , calio••• nb.ndo ti crvu, Oa .. c " 'lIodo
o 4'" ., coa ... acion• • o.. o q... U I! • • " ' 0.
185 -
ATRAvtS DO S CAMPO S
f a lan do nos menos nocivos e ma is corr í queiroe, como a bisca lambida às p a rti-
da s, que só cust am as correspon den t es corridas de ca fé rel es e outras murraças..
que i nger em os jogadores e os mirones .
Em con cl u são. O ví cio pelos jogos d e aza r , que antes era qu ase desconhecido
entre ga n hões e trabalhadores d o camp o, vai gener a lizando- se e m edra n do
co nside rã ve l men te, pr oduzin do. é cl aro. os seus fun estos resultad os. Como ser i a
pref erível qu e os esq uecessem de todo. ressurgindo os d a mal ha e de barra 1. ..
. ... . ... . .. .. .. . .... .. .. ... .. .. . . .. .. . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . .. ... . . . . .. . .. . ..
As mulheres j ogam j ogos de prendas a os serões e nos ve latódos d os a n ji-
nhos, be m co mo ou t ros d e r etoiça brincalhona, às h oras de descanso nos t raba-
lhos campest res. N ada mai s e já n ão sa bem pouco. para se d ivert irem e s e
l ograrem reci procamente.
R. estam os jogos i n fanti s. a cent uada m ent e popular es. co m que se deliciam
os ga ro tos. U sa m-se mut rlssimo, variando de n omes e d e géner o, de terra para
t erra e de época para época. P ara o efeito em qu estão, a pa rte do a no que
decorre d esd e o outono at é m ead os da primavera, di vi de- se em vári as
d as, cada qua l desti nada a u m jogo . em bora se joguem out r os por rod o o a no.
O s princi pai s são : o d o pião. bola ou boleia, bOAalhinha, funda. saca-pel ouros,
cabra-cega. esconde- escon de. varre-varre, vessourinb e, pata, r isquinhe, t ruque-
manduque, salta- la-una, sa lta- la-mosca, d os m oir os. etc .
O s d os pião e o utros, são bastante conhecidos ; portanto, d esnecessári o é
pormen ori zá-l os.
A risquinhe e o truque-manduque, r epresentam-se por figuras geomét r ica s,
q ue se riscam no s ol o, cortadas por t r aços que as dividem em diversos campos.
O s jogadores - dois ou mais. e cada um por sua vez, alternando - perco rrem a
fi gura, «a pé coxin ho». e mpurran do com o pé uma pequena malha ou m o eda d e
vi ntém, que nunca deve transpor det er mi n ad os limites, n em es t acionar nas
di vi sór ia s. O j ogador perde, se lhe falha o equilí bri o e interrompe a m a r cha at é
a o fim do percurso, ou s e o a n dament o da malha não satisfaz às r egras esta-
tui da s. G a n h a. porém. se cumpre todos os requisitos .
Quem ga n h a. escarrancha-se às ce lsbrítes em cada um dos parceiros, q ue,
r especti va men t e. e na d evi da altura, são obr iga dos a servirem de bestas, carre-
ga n do com o vencedor em ca rrei r a maior ou menor , pe lo tempo e di st ânci a que
se es tipul a .
Se. pelo con tra r i o, o jogador perdeu, i nvertem-se as posi çõe s, sendo ele que
lhe t o ca s er vi r de burro, aguentando o peso dos out ros. a um por um. em corri -
d as
Á salt a- Js- una e eeíte-le-m oscs , brincadeiras semelhantes. um r a paz p õ e- se
de ca beça para baixo, dobrando a espinha, quase em posi çã o de quadrúpede e
os compa nheiros, des vi a ndo-se-l h e a distânci a, correm de l á para ele. sal ta n-
do-lh e por cima . S e saltam com agili da de. bem es tá; se não saltam em t ermos,
vão. por escala, s ubstituir o que estava de bruços, depois d e pagarem a inépcia
com uma cavalhada a ca da figurante, pela fo rma usada n a risquínhe e n o tru-
- 18r. -
,
ATRAVr-S DOS C A M P O S
que-manduque. Q u er dizer, a questão resume-se em servirem de cavalgadura s
os que perdem e de cavaleiros os que ga n h a m. Todos representam ambos os
pape is. aproveitando·os para s e faz erem pixraça s. sob r et u do os mais ladinos e
possantes. que se comprazem em engan a r os broncos e os fra cos. Como cava-
leiros. segure ec-se e ca stigam-nos. obri gando a best a a Ir aquej e r e est en d er-s e.
Como cavalgaduras, fingem d e po ldros manhosos, ress s bí s dos, es cou cea n do e
esb ra vei e udc a t é cuspirem o pacóvio q ue se lhe encelabritou nos lombos. t dos
livros.
. .. .. .. . ... . ... . .. .. . .. . . .. .. .. .. .. .. ... . . . .. . . .. ..'" .
o jogo dos moiros ofer ece outras parti cul aridades. O s rapazes fo r mem
linha, dando-se as m ãos. e de poi s. o que fica n a ponta direita, diz, muito bai -
xinho. a o primeiro qu e tem a o la do : - cAí vêm os m oiros 1.. .» - O qual trans-
mit e a pa rticipação ao imediato, no mesmo tom. e, assim, a frase corre de boca
em boca, a té a o ú ltimo da esqu erda, que s e vol ta para o que o informou e.
também em segr edo. pergunta-lhe: - «P a r a quê?» - O interroga do, em vez d e
r esponder, transmi te a pergun ta ao que s e l he segue, que. p or s eu t u rno, a passa
adiant e. num sossego de se ried a de cómi ca , até chegar 80 participante. que r es-
p onde: -cP a ra n os matarem».-E s egue o dito, da direita pa r a a esquer da. em
a náloga confidência, chegando ao último ouvinte, que obser va : - cCom quê?
E st a nova i nterrogação percorre os t râmit es da pri mei ra. em vozin h a s, quase
imper ceptí veis, até ao da pont a direita, que in forma: - cCom uma es pa da de
cor tiça». - O que ouviu, transmite a notí cia ao vizinho imediato, e deste va i de
de a em deu, ou sej a. de rapaz em r apaz, até r ecebê-la o da ponta esquerda. qu e
exclama eat repitosamen te : - . M or ra m os moiros I ...» - C omo s e os movesse
uma pil ha eléct rica. os r apa zes caem de chofre e de costas, à excepção dos dois
das pont as. q ue fi cam d e pé.
O s prost rados e est en didos permanecem de olhos cer rados, inertes. como s e
os fulminasse u m a a poplexia. O s d e pé, d irigen t es da brincadeira. obs er va m- n os
ve rifican do se r ealmen t e persiste m mudos e quedas. Em act o cont ínuo, passam
a erguer um por um. pes an do- lhe pela cabeça e braços, mas sem q ue os ergu i-
dos verguem os j oelhos ou faça m tr egeitos. D e contrário, perdem o j ogo e t êm
de pagá-lo por meio de cules, gritos ou cavalinhos. h l
E.mbora n enhu m perca, há. em r egra simplórios, a quem os vel h a cos atri -
buem fe ltas e os convencem de que perderam. P or t an to. gemem, pagan do à sua
es colha, com u ma das penas al udidas - a menos rigorosa, entende-se.
N o decurso dos jogos e depois , a gar ot agem grazina doi damente. come-
tendo dezenas de travessuras, com o seu cortejo de assobios, ga l h ofa s. pragas e
imprecações, que ex plodem ao impulso da verdura dos anos e do ardor do san-
gue que lhes pula nas veias.
Por muitas diabruras que façam reci procament e, todos se releva m após a s
(1 ) A. caIu ~ .. O CIo. J' l i n ......i o II• •" pUeu - ),01.0' co= o. eo.t.llo••ob,., O chi o. ou 111""0' p.l.. co" ".
O. "';10. coan • • 01. "III' .oum.. ..u o..oIo'" .....= oI.uolo.... ' 0' o".ldo. 01. dtJ=•• por pue. do. eOlllp."h.iro• . O. u ......
lilláo• .uau;: U.tll .lu uulad• • nd.. ,uceir o. ,dI. l ona. u flrldI. a' d..m elo 010. oano' io'o• .
- 187 -
AT RAv t S DOS C AMPOS
p ri mei r as i m pr essões. D epois, com o t empo, a memória a viva es sa s pequeni nas
garotices. desperta ndo sa uda des indel évei s, qu e os anos e a velhi ce não conee-
s uem apagar.
* * *
Pelo Entrudo D esde o dia d e S . S ehas ti ã o ( 20 de janeiro) até à meia noite de
t erça- fe i ra go r da, b ri nca-se e j oga-se o Carnaval, como nas
demais povoações do campo de outras pro víncias, mas co m menos ent usiasmo
do q ue antiga ment e.
P ost o que em pequen ej escela, a inda persiste o costu me de s e a ti ra r com
la ranjas, ta los e ossos, a rremessados com força e pontaria cert eira . Ond e se sus-
tentam esses tiroteios, é do s ujeito fug ír a esca pe e passar de largo, para evita r
AaJeirões ou fe ri men t os. Que, se por aza r os r eceber, t erá que rir da gr a cinha,
para não fazer má 6gur a .
À par das / aTall i adl1!l. s u bsistem igualment e out ras brincadeira s antiquadas,
como mascarrar as pess oa s, atirar-lhes ovos goros, pôr bra sa s com piment ões
- pimentoodes - às portas das habi taçõ es, pa r a fa zu t ossir e s ufoca r o s
moradores, et c.
O s mascarados vão s en do raríssimos, e. em boa verdade, não va lem um
ca r a col. O povo chama-lhes ensaiados, dando o nome de caraças às máscaras
que lhes velam o rosto.
A ex ibição dos ensaiados, r egala imenso os rapazelhos. Ao verem-nos n a
rua, de caraças sarapintadas. não os largam um instante. emprestando-lhes a
nota a legre. de que muito precisam .
.. ... . . . .. .. . . - .
N a qua'r re e quinra- ferra de co m pa d res, e nos d ias análogos da s ema n a
imediata - a das comadres - o r apazio de a lgumas aldeias pr epara- se com
quantos ch o cal hos alcança, e em ba n dos, percorre as r ua s e a rra bal d es, a
dar as ch oca l ha das t r adi ci ona is. Sobretudo na véspera e dia das co medres.
em que as correria s d os ga ro tos. COm mangas e outros chocalhos volumo-
s os, prod u zem um ba r ulh o a troador at é altas horas da noite. P or on de
os r a pa zes passam, a s mulheres saem à rua e atiram-lhes águ a para cima ,
o que. longe de lhes arrefecer o ardor, mais os incita a badalarem frenêtica-
m ent e. Só r eti ram quando lhes aprás, ou se lhes aparece h omem d e respeito,
disp osto a z u rzi - l os.
.. ... ... ... ..... . . . . . . . .. . .. . . . . . . . . . .. .. . . . . . . . . .. . . . . .... .. .. . . . . . .. . . . . ..
Na qu a r ta e qui n ta-fei r a d e com pa d res, ao passo que os mo ços empunham
ba ndei r as vist osas de l enços de seda, adornados d e fitas e flores. como nota
fe stiva da sol enidade desses dias (fant asia d e b ri nca dei ra, está claro) - a s moças
mostram-lhes ou t r as, d e esteírões, ossos, ort igas e pinceis velhos dependurados
- ou bonecos d e palha a r o erem ossos - a demostrarem que a Semana é de
f ome e não de festas.
Na v éspe re e dia das comadres, mudam-se as cenas. As mulheres, al ém de
- 188 -
ATRAVes DOS CAMPOS
pôrem lumin ária s à n oite nas j anelas, e a í t oca r em os almofarizes, como teste-
munho de regozijo, a parec em de dia com bandeiras de luxo, a alardearem
prazer e Ia r t cre . O s homens protestam, pa sseando com ou t ras d e signifi cação
contrária -as tais grot escas de fa rra pa ri a. esteirões e os sos, que simbolizam
a miséria .
Aduzindo carra d as de a rgumentos em abono das s uas respecti vas i deias,
rapazes e r a pa rigas, va le m-se da a pa rente rivalida de, para, em chalaça, trocarem
dichotes e descompost u r as. A o m esmo tempo, diligenciam rouba r -se as bandei -
r as, o que p roduz r et oiç as, bal búrdias e luta s de corpo a corpo, bem como
assaltos às janelas e va randas, ordinàriamente infrut íferos. por serem pressen-
tidos e malogrados a t emp o.
O s que porventura conseguem tirar uma bandeira, celebram a pa r ti da
zo mbando dos espoliados, que ficam arreliadíssimos. As m ulheres, principal-
mente, não se conformam com o furto, e, como possam, empregam todos os
ardis pa ra tirarem a d esforra .
* * *
Na noi te de ser r ação d a vel ha Nesta noite, (meado da Quaresma), os r a pa-
zes estúrdias saem à r ua para, em a le gre
reinacão, ser rarem a velha mais rabugenta da ald ei a . C om um co r t i ço e uma
s erra, vão ao local onde ela reside, e aí, em fren t e d a porta, procedem à
paródia.
U m que t enha piada , finge ser a s uposta paciente, e, imitando-lhe a voz,
solta ais doloridos, enquanto que outro corre a serra sobre o cort iço, produ-
zindo o Som correspondente.
Á medida que se avol uma o ruido da serra çã o, a imaginária velha r ep ete e
aumen ta o berreiro, clamando que a vão serra r e lhe acabam com a vida.
P or entre os queixumes e pragas que g uincha, lembra- se d e fa zer o t esta-
men to, e fá-lo em termos cómi cos, rimando a s f r a ses e salpi cando-as de f acécia s.
As t or tur as que a amarguram não a inibem de discretia r jocosamente sobr e o
seu triste fim. e n o mesmo estilo dispor d os haveres. P ouco mais ou menos
expressa- se assim :
- cÁ minha comadre Maria, d eixo uma ti gel a vazí a. Ao sr . Pr ior a minha
nele para um tambor. À Ana à Perdiz, a muquite d o meu nariz. Ào Sebastião
o meu sebento casacão». E.tc.
Com semelhantes chccarrfces, e ou t ra s alusivas eos a le íj õe s físico s e a vel hos
pecadilhos da sua pessoa, consideràvelmente exagerados - a testadora con tem-
pla t oda a vizinhança e os conterrâneos em evidência. que t a mbém apanham
remoque na descrição dos l ega dos.
O rapa zi o, acode a ver e ouvir; as vizinhas assomam à porta. e a brinca-
deite comen ta-se. Em regra, desperta mais hilariedade do que reprovação.
À cer t a altu r a, {raqueju o s ussu r r o da s erra s obre o cortiço ; a voz da
- 189
ATRAv t s DO S C A M P OS
paciente est íngue-se, e,os q ue se arvoram em padres, cant am os r esponsos -
um a cantilena de Iaeechas, endossadas à pobre vítima. A qual recol hida em
ca sa, resigna-se ao vexame, fazendo ouvidos de mercador, para não dar benefí-
cio mai or, ou, seguindo o r i en ta çã o oposta, sai à rua e pespega descomposturas
de rachar nos est ú r di a s qu e a af r on t a m . Insulta como quer e q ua n d o quer, sem
q ue os insultados se melindrem. Bem ao contrário, riem-se e regalam-se em lhe
ouvir 8 S dio.tribes, até que se enfadam e retiram, deixando-a em paz. Como lhes
r este pachorra, ainda vão contender com outra velhota iras cí vel.
VI
T
A N T O no conce lho de El va s, como em muit os out ros do Al ent ej o,
e a t é em E spanha, a s ce ifas d os ce r í ai s n a s herdades, são ger al-
m ent e exec uta d a s por mil hares d e h omens e rapaz es que d e p r opó-
s i to, vêm das Beiras e que o público conhece pel o nome de ratinhos
ou ratos. E' uma alcunha p ouco l íson geire, mas os alcunhados não a repel em
nem se amofinam p or isso. R atinhos f oram seus avós e pais, ratos se consi de-
ram el es, e ou t ro tanto s uc ederá a seus filhos e n etos. O h á bito de virem ceifa r
às terra alentejanas, é t ã o anti go e i nal te rável, está tão arrei gado e p ersi stente,
que d ev erá s u bsist i r por l argos a nos, como va n tajoso que é para lavr a dores e
serviçai s. Ai das cclhet te s d o Alent ej o, se lhes faltassem os ceifei ros beirões !.. .
E ssa s cen tenas e centenas de br a ços, cuja t otalidade compori a uma gr a n d e
legião, dividem-s e em mui t os a grupament os ou cam ar adas d e 50 a ce n to e tantos
indivíduos, d e ant emã o r ecrutados pelo r espectivo me n egetro.
Cada a grupamento t em o seu managef r c em chefe , que delega parte d os
poderes n os encarregados dos cor t es. em q ue a mesma camaradd se d esdobra
ao chegar a o Alentej o e se di vidir par a as diferentes ceifa s que ajust am. Esse
encarregado t oma o n ome de manaAeiro d o corte, e co mo ta l gover na sob r e a
gente que lhe distribuem.
Cast anheira de P era, Á gued a, Anadia, O li veira d o Bairro, Arganil, G oes,
Lcuaâ, Figueiró dos Vinhos, P edrogã o Grande, Certã, Proença-a-Nova e o urras,
são as zonas que for necem mai or co n ti ngente de ratinhos.
E. - nota cu r iosa - entre esses h o mens, n ã o se encontram a penas os que
se entregam aos l abores d o ca mpo n as suas naturalidad es, ma s também
muitos de profissões e há bitos diversos - sapa t eiros, alfaiates, ba rbeiros, et c.
E' que para todos eles. a s ceifas do Alent ejo proporcionam-l hes m elhores lucros
do que os ofícios que exercem n os se us rústicos l ugarejos.
- 191 -
AT R A V t S DOS CA M P O S
Manageiro E,' um f ul a n o que adquire es sa importância por a t er her dado dos
seus ant ecessores. ou por a empolgar a o utro de menos mérit o e
astúcia, ou, enfi m, por excepci onai s apt idões, que lhe ga n h a r a m a simp at ia dos
amos e a confiança dos companheiros. De qualquer manei r a, a n t es de poss ui r o
penacho, f ez largo tirocinio como s i m ples ceifeiro, t ornando-se tipo d e n omeada
entre os s eus con t errâ n eos. Pequeno propri etário. ou modesto industri al, dispõe
de mei os s uficien t es para preponderar sobr e os que a licia e dirige. N ão quer
i sto dizer que os domine em absoluto. mas r espeitam-no e obedecem-lhe até
cer t o p onto.
O mena ge irc vem ao Alentej o no começo da primavera, para conhecer o
estado das aearea, e ao mesmo tempo apalavrar as ceifa s dos l avradores, seus
antigos fr egueses, e por ventura as de o utr os que poss a contratar. T odos ou
quase todos, imcubem-se do trabalho de duas e m ai s «casas», havendo-os qu e
chegam a a çambarcar seis a oi to. Para obter fr eguesia n OV8 sem p erder a anrt ga,
o manageirc q ue di spõe de mui t a gen te, m et e empenhos sem conto. tratan do
de se insi nuar por to dos os m ei os imaAi nã vei s. C om os amos a n tigos t a m bém
se desfaz em sala mal eque s, par a não lhe incorrer n o desagr ado. S e algum o des-
pede. procura evi t ar o cheque com t orrentes d e lamúria s e chora dei ras, q ue,
por vezes, a n u la m o despedimento. Neste acto, pode o l a vra dor incri pã-Io
de quant as l h e l ebrem; pode, n o acto da r eprimenda, i n veti vá-Io com paixão e
injustiça, rememor a n do queixas a n tigas e r ecentes, que el e tudo isso ouve
humildement e, sem mostra s de indignação, e até concordando com o censor, a
quem protesta arrep endimento, j ur an d o s ervi-lo melhor do que nunca . N ã o
querendo perder a freguesi a, sujeit a-se a descomposturas, de et u e para co nsigo
se ri, como raposa matreira, que lhe n ão importam vexames , desde que a u fir a
proventos. À o interesse sacr ifica os brios, precisamente a o eont r áxi o do cri a do
Alentej ano. E a ssim co nsegue mant er a clientela e a umen tá- la progressiva-
mente, senão encon t r a d e permei o ou t ro competi dor mai s sabido.
C onclui da a excursão pel os ca mpos do Alentej o. o m e n a gei ro r egressa à
terra s u.fi.cientemen te enfronhado do que vi u e ou vi u. C om s emelhantes dados,
l ogo que chega, cont i n uo. a alista r os homens de q ue precisa. D as impressões
qu e sent e, só diz o que lh e convém. Ca da alistado paga-lhe d uzentos e quaren ta
reis de m atrí cul a, qu e sat isfaz meses depois, quando ter minam as ceifas. E n t re-
t anto e desde logo, têm di r ei t o a que o engajador l hes abone quaisquer pequenas
q uan úas de que pr eci s em.
O ali sta men to não constitui cOnt rato indissol úvel, como se podia depreen-
der. Ant es d e pa rt i re m para as ceifas. e ai nda depois, à chegada, e lguns dos
alistados quebram o compromisso por simples f rivolidades. C o mo encont rem
quem os d esa fi e, f àcilmente deser ta m para out ras cam ar adas, que lhes ofereçam
maior vantagem. Quanto a abon os r ece bi dos, reembolsam-nos ou n ã o segun do
a consciênci a . A maioria ferra cel ot e.
.... . ......-........... ... .. .... ... . .. .. . .. . .. .. . . . .. . . . .. .. . . . . . .. .. ..... ...
o mauageiro da camarada n ão ceifa em determinado corte. mas su peri n-
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A TRAvt S D OS CAMPO S
tende em t odos, aumentando-lhe ou reduzindo-lhe a s «foices», co nfor me
exigem 8 S circunstâncias, h oj e reclamadas pelo i nt er ess e de comunidade que
re presenta, amanhã pela co n veni ênci a do lavrador a que de s eja agradar, e no
out ro di a pel o a dia n t a m en to ou a tra zo do trabalho. de umas pa r a com out ra s
CcaS8S». P or iss o, anda n u ma dobedouee, demorando-s e apenas onde reconhece
se r mais necessário. Al guns t razem tantos cortes e tão distantes que em nenhum.
ceifam. A ca va l o ou a pé, passam a época em con sta n te fiscalização, d e h erdade
par a h erdade. Nas caminhadas, fazem es cala pelos m ont es e povoados.
Nos montes pa r a trocarem i mpressões com os lavradores ; n as vil as e al de ias.
pa ra haverem a correspondência no correio, e, d e passa gem, empina r em o se u
copázi o. Em ger a l bebem-no d e borla, ofer ecido pelo amigo taberneiro, onde a
camarada fa z gas to, desde que chega a té q ue marcha. Salvo excepções, o ma na-
gei r o t em «boca li vre» na t aberna. Bebe pela pren da e do «bom», como engodo
para trazer fr eguesia qu e dê consumo à zurrapa. Val ores ent endidos a t rOCO de
cigarradas.
... ..... . . . ... . . . .. . . . . . .. . . .. . . . . . - .
O s lucros do manege ír o co nsi st em numa quota parte da soma t otal obti da
nas ceifas d e que se in cumb iu, sendo, para o efeito do rat ei o, considerado como
simples ceifei ro. E aufere mais os tai s doze vinténs, qu e lhe paga cada ratinho,
e as luvas o u pro pi n as que, por uso antigo, r ecebe dos lavradores.
A s luvas r epres entam o m el hor d os seus lucros. Cada lavrador de gr a n de
movimento, dá-lhes dezoito a vinte mil r ei s ; os medianos, dez a q uinze, e os
pequenos, três a s eis. P ortanto o que serve muitos lavradores. arrecada no fi m
da refrega 120 a 150$000 reis. Para um trabalho de t r ês meses, quando m uito,
é bem bom. Val e a pena vir da Beira.
.. . . ... . . . . . .. . .. . .. ... . . . . . ..... .... .. ... .. . . . . . . ... . . . . . .. .... . .. .. . .. .. ..
O s managefros dos cortes i gualmente entram. n o rateio das ver bas ga n h a s
pela camarada, tendo mais a gor geta do lavrador, que osci la por um ter ço d a
que obteve o manageí ro chefe. O facto d e servirem ou n ã o a co n te nto dos
patrões, influi imenso na importância da espórtul a.
• • •
A vi age m O s r at inh os saem das terras beirãs para a s ceifas al entejanas aí
pelos meados de maio ou depoi s, se vem tardia a maturação das
searas. Acompanha- os o respectivo m a nageirc prf ncipa], se o mesmo não se
lhes antecipou, para os esperar n o sítio a que se destinam, e entretant o reco-
nhecer circunsta ncíadamente a influência ou fal ta d e br aços, o as pect o definitivo
das searas, os â nimos dos l avradores, as intenções e «f orç a s» de outros m a n a-
teiros seus colegas, etc.
A viagem é f ei ta a pé, excepto os que jor nade iam em burros. À o en t r a r em
n as localidades que encontram n o t rajecto formam colunas, e assim de muchila
- 193
ATRAv t s DO S C AMPOS
e pau às costas. atrave ssam as povoações, entoando cantigas beirã s. Uns cantam.
outros t ocam em pilar as de que vêm munidos, e todos fazem ruido com as
brochas dos sapatos sob as pedras das cal ça das. Orquestra original. pouco har -
moniosa, mas ba.st an t e notória. Entretanto, chegam a um dado l ocal, seu conhe-
cido, e a í, à sombra, estacionam para comer e descansar. For ma- se pois o bivaque,
em que são consumidas as últimas broas de milho. regada. por golo. de vinho
detestável, que desde a Beira vem vascolejando nuns pequ enos e s ujos cabaços
guar n ecidos de l atão. Se a pinga dos cabaços já se es conipichou, bebem outra
semelhante ou pior nas tabernas do sítio.
Acolhidos com agrado pelas populações l ocais, onde quer que chegam tro-
cam cumprimentos amistosos e trocistas. Afoitamente se pode dizer que nunca
se levantam rivalidades entre beirões e alentejanos. A vinda dos primeiros é
estimada pelos segundos.
Caminhando o melhor de uma semana, chegam al6.m ao termo da via gem,
onde descansa m a valer dois a t rês dias. tratando então do ajuste definitivo.
E digo defintt ívc, porque os preliminares, como já notei, fo ram muito antes
t ra tados por alto, entre o lavrador e o ma n ageiro.
* * *
Carácteres Na sua permanência no Alent ejo. os rat inhos mostram-se agradá·
veis, cor tezes e humildes para t oda a gente da r egi ã o, e sobr etudo
para os lavradores e quem os r epr ese nt e. Mas à humil dade que se lhes t raduz
nas palavras e gestos. associam visível desconfiança, que se acen t ua pri n cipal-
mente quando t ra tam dos seus inter esses.
Parecem simplóri os mas não o são. A i ngenui dade boçal que apar entam, é
a máscara com que procuram ocultar a perspicácia . P er spi cáci a e malícia bem
notóri a. embora a que'irem disfanar com as doçuras do palavri ado. N i st o são
mais espertos que muitos criados al ent ejanos.
Num inabal á vel propósit o de sever a economia, praticam act os de extre ma
sovinice. Antes, nas taber nas, essccíevem-se aos três e quatro pa r a. em comum,
beberem um quartilho. H oj e, estão menos forretas. No entanto, afir ma-se, que
um cigarro lh es dá fuma das para dois ou três. Asserção exagerada, certa mente,
mas sintomát ica também. Quando, no regr esso à Bei ra. vão embarca r às esta-
ções do ca minh o de ferro. acontece r ega t earem o preço da pa ssagem: -
«O h senhor. faça isso mais bara tinho .. . » - dizem eles ao empr egado da bllhe -
teira. depois de l he perguntar em e ouvi re m o preço do bilhete. E o empr egado,
impacientando-se. explica-lhes br uscame nt e a impossibilidade da redução.
Se pretendem segui r em gr upo. como está sendo cor rente. reclamam bilhete
de garupa. que lhes despacham sem reparo. tão conhecida é a expressão.
..... ....... .... .. .... ... . . ... .. .. .. . ... ... . .... .. .. .... .. . . .. .. . ... .........
Timbram em manifestar sentimentos religiosos muito mais e rreigados que
os dos trabalhadores alentejanos. Rezam com frequência e não faltam à missa
- 1 9 ~ -
ATRAVt.S D O S C AMPOS
nos dias de folg8. A o part irem das suas t erras, cada qual promet e 40 r ei s às
alminbas (I ) se re gr essarem com sande .
Á chegada, cu mpr em a promessa, e ainda ma ndam cel ebrar massas em
acção de graças.
E m ass eio e compostura, deixam muito a desei ar os 51'S. r etínhos. Creio que
o desleixo e a po r car ia que se lhes n ota não é tanto devido aos h á bitos. como à
circunstân cia de se verem em t erras est r anhas. onde não podem chegaI' os cui-
da dos das mães e das esposas. Que, ver dade. ver dade. para se apresentarem
menos suj os bastava lavar em-se um poucochinho em cada semana. nos poços e
ribeiras dos sít ios onde trabalham. Mas não estão para massadas. »0 seu
ent ender, basta- lh es lavare m-se n a madruga da dos di as de Cor po de D eus e
do de S. J oão, como praticam to dos os a nos, antes de irem gozar o descanso
festivo n as povoações pr óximas.
....... ..... ..... . .... . . ..... . ... . ..... .... .. . . . . . . . . . .. . ..... . . . . ... .. ..... .
P el o decur so da te mporada, e sobre t udo n os di a s de Corpo de D eus e do
de S. J oão, únicos em que folgam, t odos es crevem às famílias, como também
delas r ecebem correspondência amiudadas vezes.
A s «cartas ratinh as» são o qu e se pode con ceber de mai s minucioso e mas-
sudo. Os que as subscrevem, além de escr everem ou ditarem banalidades sem
conto, nunca se esquecem de pormenorizar como estão de sa ude todos da ce me-
red», como decorre o tempo. como encontr ar am as searas, quanto ganham, com
quem t rabalham, quando r egressam, como os t r at am de alimentação, etc., etc.
Depoi s. passam a pe dir in formações do que por l á vai: do aspecto dos vinhe-
dos , dos mi lhos e das batatas; se o compadre fulano, que ficou doente, já está
melhor ou mor reu; se o sicran o do Casal de Baixo perdeu 8 demanda com o
si crano do Casal de Cima ; se t alou qual parente, que foi para o Brasil, já de
lá escreveu e o qu e di z ; se n os arraiais, de fest as r ecentes, houve bcrdoada, etc.
E finalizam com uma ennada de re comendações para os parentes, vizinhos e
amigos. P ara ela, esposa ou mãe a quem se dirigem, «as saudades são tantas,
que só à vi sta t erão fi m.. . » O endere ço no sobrescr ito condiz com o conteudo
da carta. Vai replet o de indicações supérfluas, qu e, ordfn êriemenre, produzem
efei to negativo, desnorteando os empregados dos correios.
Os que n ão sabem escrever, i ncumbem a correspondênci a aos companheiros
habili tados, (a) ou dirigem-se a est r anhos, pedindo-lhes esse serviço: - ePagamos
o t rabalho da sua pe ssoa, como for de r azão, me u senhor». - Uns, negam..se- lhes
pata se esquivarem a incómodos, outros, prestam-se-lhes de melhor ou pior
vont ade. Os que anuem, já sabem que precisam revestir-se de pachorra. Em geral,
h ) P&! uU.m aJci:lo" 1(0. II , " COIl. UUl. cr o:tl1i:l . d.. du umioi:lo' d. Beln. rtpru.Il.I...do II '\'lmu do Po..rlll.t 6rlo.
(:a) Em Q ...i:lo. ' ClItlU.J. bit. , <filo' ulh. u cu"Ir. A p.ruDt';'lD dOi .11.U. hu o, " =olto m.nor qo. .. o.
lllu,uiul.o,.
- 195 -
AT R A VES D O S C AMPOS
os obsequiados pr et endem dit ar as suas mi ssivas. não se conforman do com
laconism os e insistindo por r epetições inúteis.
P essoa conscienciosa que lhes escreva, nunca aceit a r emun era çã o, é claro.
Mas el es sempre p erg'u ntam qu anto devem. E , como se l h es r esponda nega-
tivamente, agradecem reconhecidíssi mos. C h egam a convidar o improvisado
secretário pa t a os acompanhar à taber na a beberem um d ecilitr o. T êm recebido
destes convites p essoas fi nas. que, r ecusando-os. sorriem do caso, ou enfadam-se
dever as se l h es i nsistem no ofe reci mento. Enfim, o indi víduc que u ma vez
escreve a correspondência d e um ratin ho, n ão l h e ficam sauda des de o obse -
quiar de novo.
* * *
A preciados como ceifei ros, os h omens da Beira revelam resistência e apti-
dões incompa r á vei s. Mai s adi ant e se verá q uanto é árduo o seu labor. P odemos
considerá- los escravos do t rabalho, que exercem com assombroso d es emba ra ço,
sob os rigores do sol esti val e à mercê de pr ivações de toda a ordem. T udo para
gan harem honr a damen t e meios de s ubsistência para si e para os s eus. M oti vos
tão lo uváveis, dão-lhes direi t o à nossa admi ração e simpatia. N es t e ponto,
ninguém lhes regateia os mais r asgados enc6mios .
Ajustes S egue-s e o sistema de empreita das que, ou se bas eia n o presumível
número de homens n ecessários para o fim em vista, ou pelos moias
de s ement e que l ev ou a se ara. C om a adapta ção da empreitada - a homens -
se, por exemplo, o lavrador cont rata a ceifa p or vint e h omens, ao preço de
22$ 000 r eis (média usu al), já sabe que vinte i ndivíduos h ) l h e ceifarão tudo,
num período mais ou menos demora do, pela quantia el e 440$000 reis e comida .
Q uando o contra to se regula por moi as de semeadura, o l avra dor que aj usta
por vi nte m oia s, a 18$000 r eis cada moia de semente ( méd ia aproximada),
i mporta- lhe a ceifa em 360$000 reis e comida. N ã o se fixa o número de reti-
nhos, mas s ubentende-se que, em começo, excederá quanto possível ao de maios
ajust ados, para, no meado da época, ficar a par e depois se reduzir tant o quant o
possa compensa r a cama rada do r ef or ço q ue fornece u em princípio.
O a j us te ea moia s. é quase excl usivo das l a vouras em que pr eponderam as
cultur a s do centeio, cevada e aveia - ee s seg un das». ( d N as que predomi na m o
trigo, prevalece a empreitada - ca hom en s».
O uso a moios, sa i mais caro, Mas convém, p el a n atureza das segundas,
principalmente cen teio e a veia, qu e requ er em ceifa t emporã, para não desbagoa-
r em nos rastclb os, como a contece, se a f oi ce lhe chega t a r de. L ogo o la vrador
faz os seus cálculos e, por conveniência própria, procur a pagar em r elação a
(1) 0 1'0 ln.dl.ldlJo' ...1:0 1:10111. . .. . . por qOI lU' coo tfuad.. por qo,Iq:QIf do. doi ••l' l. m... Ii'of& 'lima cOluld.-
:rhel ...u • • m d. u pu u adoi ncl Dtu .
Por ocull0 d.. nU... II..• .. du omlDac poc , t' llllJ .. .. ..ar.. d. ceDt elO, Clnd. , a.. la . t um l u mo da ou_lio.
C!:II' alo II .mprd a DO un.ata do aao.
- 196-
AT R AvtS DOS CA MPO S
determinado número de moios, a que correspon da a gente p r ecisa pa ra despa-
char em 30 a so dias.
Ao manageí r o também l h e serve o sistema, se pode distrair das ceifas de
t rigo - a homens - to dos os braços aí desnecessár ios em começo. e com el es
ir reforçar e coa djuvar os dos cortes do centeio. O s quais, por sua vez, como já
disse. retribuirão depois a ajuda, indo auxiliar 05 dos de trigo n a m esm a
proporção.
Isto se usava até há poucos anos. Hoje, porém, vão estando abandonados
os contratos a motos. por não oferecerem a r eci proci da de de vantagens que
tinh am ant es. Mui to mai s genera lizada a cult ura do trigo, e assás restringida
a do centeio. nem a ceifa deste cereal carece de tanto homem, nem a do trigo
lh os pode emprestar, reta r dando-se. À cr esce ai nda a circunstância de as ceifas
dos trigos começarem mais cedo que outrora . p elo facto de a ctual men t e predo-
mi nar a cultura dos t rigos m oles t empor ôes, que amadurecem pouco depoi s do
centeio e exigem ceifas imediata s, sob pena de prej uízos consideráveis, o que é
menos sensível n as ceifas tardias das outras va riedades.
À empreitada ea homens» entretém 60 a &J dias aproximadamente. O es tado
das searas, 8 aua espécie, o tempo e a 8gilida de dos que as ceifam, são factores
essenci ai s que, por assás variáveis e s ujeitos 8 con tingências, de stroem os m elho-
res cé lcul os.
P a r a o ajuste das ceifas - a homens - pa rte-se do princí pi o q ue um ceifeiro
despache o resultante d e cinco querteiros de semente (7$ a l queires). Ora como
as searas t a nto pode m ser d e uma só espécie co mo d e duas, três e quatro, e
como as sementes diversas. va riam t a mbém quanto à surperffcie da 'terr a que
preenchem em sementeira, cIaro está que a presunção é arbitrária ou conven-
ci on al, sem bases sérias q ue a j ustifiquem. A ssevera- se nã o obstante, que um
ratinho despacha, em toda a época, quantidade muito superior à que se lhe
atri bui pelo cá lculo acima a ludido. S ó de spa cha r á menos, em boas searas de
centeio o u de t rigo ótimo, excepciona lmente desenvol vido.
E. m todo o caso, homens d e m ai or cotação nunca saem por meDOS de 400 a
SOO reis d iários. E d igo de maior cotação. porque nem todos recebem com
i gu al dade. P el o co nrré .rio, cada s ujeito ganha conforme os seus s upostos o u
verda deiros merecime ntos, apreciados e julgados pela col ectivi dade em que se
encorpcro u, com o demostra rei mais adiante.
A maior i a d os r a pazes, apesar do seu pou co va limento como t rabal h a-
dores são tidos como homens para os cont ratos das empreitadas. A ssim,
a ceifa justa por ver ba correspon dente a 20 homens ou 20 m oi os, é executada
pOI 14, 15 ou 16 adultos. e os r esta n t es q ue falt a m para o com pu t o d os 20.
supr em-nos criança s, q ue nunca excedem em n úmero a o dos h om ens q ue
re presenta m.
O lavrador desgo sta-se q uando o percentagem dos rapazes se t or n a r epará-
vel. M as como é usan ça a n t iga. tem de con for ma r - s e, a n ão ser qu e o abuso
seja extraordinàriamente gr a voso. Sendo, qu eixa-se ao managef r o pr i n ci pe l,
- 197 -
ATRAVt.S DOS C A M P O S
que se vê forçado a atendê-lo, diminuindo-lhe a ga rot agem e aumentando-lhe
os h omen s. P a ga a diferença, outro lavrador m enos onerado até então. O mana-
geirc lá arranja endrómina s e contradansas de pessoal. conseguin do que os
rapazitos escapem como homens, para o beneficiarem a el e e aos mais ceifeiros
adultos. U ma exploração vil. que os pais das crianças consentem, por irem
feitos no jogo ...
• • •
E,' demorado o aj uste defini tivo. Ent re rat inhos e lavradores chicaneia-se
e r epíaa-se o assunto com dem or as fastidiosas. intercaladas por i n cid en te s
irritantes, que põem em r is co o êxit o das negociações. Antigamente, eram o.
m anagefros que cont ra tavam com os lavradores, sendo as suas resoluções aceites
r eligiosament e por todos da camarada. Hoje, esse negócio é discutido e j ulgado
por mais entida des. A lém do manegefro em chefe, intervêm, pelo menos. três
ou qu at ro rat inhos, dos con sider a dos e preponderantes - espécie de comissão
executiva, que deix a na penumbra a a u t or idade do manageixo, du r a n t e o ajuste.
E n t ã o o «ca beça», quase que é um chefe de caninha verde. À chefia passa, n essas
horas. para os comissionados da malt a, h) que são os que verdadeiramente dis-
cutem e resolvem o ca so com o lavrador. Este e aqueles ou trata m apenas de
se entender quanto ao número de homens ou de m oias que servem de base para
a empreitada, deixando a questão de preço para o que for corrente na freguesia.
04 pago em talou qual lavoure. vizinha-ou, s i multâ n eamen t e também, discutem
e assentam no preço. «P r eço f eito». segundo a expressão consagrada.
D u ran t e os arrazoados do aj uste, fervilham os argumentos entre as partes
cont r a ta nt es. Ca da qu al puxa a brasa à sua s ar dinha, e nisso consomem horas
e horas, senão d ois e três dias. interrompendo-se e repetindo-se as conferência s.
t a comédia da praxe, com actores para todos os pa peis. O s comparsas são
representados por gr upos de ceifeiros que. a distância respeit osa, reparam aten-
tamente nos gest os e discussão dos personagens principais. O manageiro, ora se
indina para os camaradas. ora para o lavrador. Na preocupação de não perder
«a casa», n em de se ver abandonado dos seus - ameaças qu e lhe retumham 80S
ouvidos, ar.rip'iando-Ihe os cabelos - chora e ri. humilha-se e reja-se, com ares
de vítima, consoantes 80 caso. Nos intervalos, trata de varrer responsabilidades
e dar explicações, i ndo. em segredo, conferenciar respectivamente, e por sua vez,
com o amo e com os da m alta. Nessas con f er ên cias íntimas emprega toda 8
lógica e manha d e que dispõe. T or n a - se um diploma ta.
....... . . ... . .. ... . .. ... . . ... . ... ... . ... . . . . . . .. . .. . .. . . . .. . . . . . . . . . . . . . .. . .
P or fim. o contrato fecha-se e tudo se acorda à boa pa z. O managetr o
exulta e respira . L OetU8 Z e prazenteiro, prot est a que a f amília há..d e cumprir o
- 198 -
ATRAVeS D O S C A M P O S
que tratou, nem que a el e lhe custe os olhos da cara. Que não custará, por que
sua gente é a escolha lá dos sítios. S ão «foices» val entes, de levar t udo r eec,
da s de não h aver pão que 85 sustenha, das que at egam fi rmes até ao cabo, sem
acuarem u ma h ora. Gente de pri meira. que nem ele a rranjava outra . par a
crédito e lama das suas barbas honradas .. .
O s factos subsequentes n em sempre correspondem às anrmativas do h omem.
... ... . . .. . . .. ... .. ... . .. . .. . . . .. . .. . . ... ... ..... .. .. ... . . . . .. ... ..... ..... ..
Nos anos de boas colheitas, em que escasseiam os braços, algumas camara-
das - a ü á s poucas - quebram o aj uste, indo oferecer-se a outras ccasas.... que
presumem lhes proporcionarão m elhor es vantagens. Nesses mesmos anos. chega
a haver desavenças entre ret inhos e lavradores. tendo que intervir, como media-
a eiro, a autoridade administrativa. t um recurso extremo e portanto, excepcional.
C om os ajustes das pequenas ceifas não costuma haver demoras. O s que as
tomam e os que as oferecem. r esol vem o negócio sem preâmbulos de i mp ortân-
cia. nem referênci as a preços. T àci ta m en t e, conformam-se com os estipulados e
aceites n as lavouras maiores.
* * *
o pessoal da camarada reparte-se em t antos cortes quantas as searas que
a j ust a ra m. O manageiro di stribui a famíl i a a se u ca pricho. e cada contin ge nte
desses segue logo para a ceifa que o chefe l h e d ist ribuiu. cap i taneando-o o
respectivo cabeceira (meaageirc do corte), também nom eado pelo outro. de
acordo com o l a vra dor. O cabeceira. t orna-s e desde então, o imediato r epr es en-
tante do ma.nagej.ro geral, gover nando os ratinhos que lhe entregaram. No tra-
balho. toma l ugar n a ponta di reita , e daí encami n h a e comanda. O lado esqu er do
da ponta oposta. preenche-o out ro ceifeiro de confiança, a' quem pertence s ecun-
dar os esforços e planos do da dir eita, tornando-se seu substit uto e auxilia r .
G an h a como qualquer. àpar te um ol hamento de cinco ou dez tostões. que o
lavr ador l h e queira dar.
• • •
Alimentação C ostuma ser à cust a dos lavradores. r eg ulada por quantidades
certas (comedias), ou a «ra st ol h o feito... isto é. por m eio de
comida semelhante à dos ganhões. «B oca livre». a cen ch er a bar riga », comO
também se di z.
O primeiro sistema - o das com edori as - vai esta ndo ban i do. e a pena s se
usava nas empreitadas ca moias». A ca da moia ajuntado. corres pondiam os
marrocates de sete alqueires de farinha de centeio, 5 arráteis de toucinho,
S qcertílhcs de a zeite, z4 queijos. 1 badana e os legu m es, azeitonas e vinagr e
que consumissem. O s sobejos e f orr u que ven ciam por conto, p eso e medida.
levavam-nos consigo para a Beira. ou, querendo. eram-lhes abonados em
dinheiro pelos lavradores, median t e preço convencionado.
199 -
ATRAvt S D O S CA MP O S
Áparte O pão, de tudo f orra vam muit o. Das badanas, apenas comiam duas:
um a, pelo S . João, outra, no dia de Corpo de D eus. Com o a z ei te e t oucinho,
também era m parcimon iosos, poupa n do quanto podiam. Um ja n t ar de le gumes
para vinte h omens ch egava a ser adubado co m um quilo de toucinho, ou um
de cili tro de a zeite J O queij o, forrava m- no t odo. para mimosearem a s f a mí lias.
Para s uprirem semelhantes pri vações - ali ás voluntárias - comi am grande
quantidade d e legumes, muito pão e muit íssimas a z ei t onas. N o con s um o do
pão, alargavam- se tant o, que excediam a quant idade que ganh a vam. M as, por
obediência aos usos, o lavr ador não lhes descontava o excess o. Se não contas-
sem com isso, economi zá- Lo- iam também.
A com ida a «rast olho feito» assemelha- se à d os ge nhôes, durante o verão,
com a diferença que, em regra, a s ol h as n ã o constam de ca r n e ensacada , nem
vari am de legumes. Predomina a olha de fa vas, alternada com a de grão de bico.
O al moço, à s 7 h oras da manhã, r esume-se em sop as frias com cebolas e
azeit e refogado.
Ào meio dia, comem o jant ar - olha a du bada com toucinho ou azeite, con-
f or me o dia da semana. D e azeite, nas sex ta s e sábados ; de toucinho, nos
r es ta ntes dia s.
Á t a r de. meia h ora antes do sol posto, merendam o tradicional gaspacb o,
refei çã o fr ugalfssi ma, mas bastante apreciada em todo o Alentejo e gran de parte
da Espanha. O gaspacno dos ratinhos disti n gue-se pela excess iva quantidade
d e vinagre com que o preparam. C omo os dei xem, n ão h á vinagre qu e os sacie.
Tanto a os a lmoços como aos jantares e às merendas. servem-se con dutos
de a zeit onas ou queij o.
Essas sã o a s práti ca s mai s s egu idas, posto que também h aj a variantes.
Nas ceifas de certas lavo u r as. é costume melhorarem o jantar dos domingos e
dias de fo lga, adicion ando-l hes morcel a ou carne de badana. E para a merenda
das se xt as e sábados, s ubstit ui- se o gas pacho p or sopas de leite.
* * *
Auxiliares alentejanos Em todos os cortes ou camaradas parci ais d e ratinhos,
fi gura um gr upo de servi çai s alen te janos, qu e se em-
prega exclusi vament e nas lidas comple mentares e a uxilia res da ceifa. ga n h a n do,
co mendo e tra balhando por conta do lavrador. Também com em no rastolho,
àpart e dos ratinhos, comida igual ou diferente, p repar ada e conduzida em sepa-
rado. Igualmente tra balham os mesmos dias e quase as mesmas horas que os
ceifeiros, ven cendo, por isso, soldada diversa da dos 8an hões, com o ref eri n o
Pessoal de uma lavoura.
Compõem o grupo, dois a quatro campcnros r o terdêo, ( 1) - homem ou
rapaz que, n uma besta, munida de ce n gu lba s ou puxando a carrinho de va rais,
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A TRAv t S DOS CAM PO S
acarreta a comida e a água ; os enrilheiradores, que acareiam os molhos ceifados
e atados, t ra n sport a n d o-os à mão para os m ont ões ou rilheiros que erguem pelo
rastolh o, e por últ imo, dirigindo todos. o en ca rregado de ol har pelo desempenho
da ceifa e s er viços atinentes. P ode- s e co nside rar o representante do l a vr a dor .
G eralmen te, é o gu ar da d e herda d es quem a cumul a e assume essas f u nções fiscais.
Nas ceifas, independentemente dos chefes dos ratinbos, t orna- se necessária
a vigil â ncia assídua. enérgica e inteligente de um homem estranho aos interes-
ses da camarada, que, por não participar dos se us lucr os. zele pelo a mo, melhor
que os manageir os. Podem estes recomendar cautela e perf eição; pode m m esmo
r epreender abusos e faltas, mas as suas r ecomenda ções não pas sam de f ogo de
vis ta, de armar a o efeito, sem resultado proveit oso pala o dono da sea ra.
Lá nos restolhos, para O trabal h o ir com perfeição, só se r espeitam a s fer-
r oad as do encarregado alent ejano. E ste, s i m, que põe t odos «a d irei t o».. aliando
a prudência à energia. O qu e s e compen etra da sua mi ss ã o, cui d a do seg uinte :
'indice r, a o menageiro do corte. a sa ida que deve dar ao trabalho, de manei ra
que o «pão» f orte e muito gr a do seja tombado de manhã cedo, «a cu din do- l h e»
p ela marzia (orvalhada) e n ã o du r a nte a ca lma . horas em qu e desbagoa ou des-
cabeça ; instar com os rat inhos para que te n ha m ca u tel a n o aprovei tamento da s
espigas, obriga n do-os a r ecuarem para colhuem as que lhes escapar a m à foi ce ;
aten der à atada. exi gi ndc-e boa e firme; di r ig i r a enIilheiraçã o e coi bir. enfim.
t odos os a busos 0 0 n egli gências .
. . . . .. . .. . . . . . . . .. . .. .. . . . . . .. .. . - .
O t ardão r ecebe orden s do enca rregado e do managei ro do corte. mas deste
som en te para s er vi ços que se correlacion em com a co n du ção da águ a e d a comida .
Quando o va gar lho permi t e. coa dj uva os companheiros da en rilheiIação.
• • •
Nas cei fa s Ceifeiros e en erlheírado res, começam a mourejar a o r omper do dia
ou a n tes. h avendo l uar. A queles, a rrimam-se à labuta quase em
roupas menores, sobrepon do um avental d e p el es qu e termina em safões . Os me-
nos destemidos, vestem calça s de sa r egoçe, muito remenda da s. N a cabeça. um
cha peuzinho safado. e a o pes coço lenço à li gei ra, como p r es er vat iva contra os
raios do s ol. Para s e defe nderem dos gol pes da foi ce. adoptam ca n u dos de can a
aos dedos i ndicador, m éd io e anelar da mão es quer da. T ambém se acautelam do
roço das gelveles, en vol ve n do o braço esqu erdo em manga de peles. a que ch a -
mam braçadeira. Lembra a manga de a l pace , que usam os amanuens es.
. .. . . . . . . . .. .. . . .. . .. .. . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .. . . . . . . .. . . . . . . . . . . .
A camar ada estende-se em linha e procede à ceifa. com a gen t e a du lta.
O s r apazeb fica m a trás, entretidos na atada. Muitos. são crianças, qu e mal
podem com os molhos que preparam. No entanto. m ostra m-se dilí s.entes e l estes,
talvez por tem er em a censura e o castigo. Outros. ainda mais pequeninos
,tO'
"
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AT RAvtS DOS CAMPOS
ocupam-se a guardar a copa, ( 1) n o sí tio on de o pessoal pernoi ta. e, simultânea-
mente, ceifam ou finge m ceifar, nas p roximi dades do a campament o. A í sõzi nhos
desvi ados dos superiores 100 ou 200 metros, não se rala m com a i ncumbênci a.
C omo os deixam à vont ade, do rmem a sua soneca.
. ... ... .... . . . . .. . . .... .. . .. . .. . . . .. . . .. . . . . .. . . . ... . . .. .. . . .. . . . . .. . . . ..... .
A o n ascer d o sol. a cabecei ra int errompe a ceifa, d escobre-se e excla m a em
voz alt a: - «Ben dito e louvado seja o Sant íssimo S acr a mento I. . o»
Imediat amente os outros ratinhos t iram o chape u, poi sam as foices no
ombro, junt am as mãos, e cada qual r eza. em voz baixa, um P adre Nosso e
uma Salvé R.ainha. Os da atada r ezam t ambém, mas n ão interrompem o tra-
balho para não se at r azarem.
R ezada s as orações, vol tam à lida com maior az áf ama, até que às sete ou
oito h oras h á segunda i n t errupção, por ca usa do al moço. Em almoçando, a
faina conti n ua com o mes mo despacho, mes aí pelas onze horas, a fadiga e o
eal oe a lquebra-os de tal maneira, q ue o desembar aço é menor. Alguns fraque-
jam t anto, que usam de man ha para toma r em fôlego: - a pretexto de qualquer
coisa i nter rompem o t rabalho, erguem a cabeça e saem-se com dit os chistosos,
que provocam o riso dos companh ei ros e lhes proporcionem parola. Assim
ouvem-se-lhes dichotes, que. annam n os seguintes t on,,:
- sO h rapazes I que dizem bacê" àquela cachopa gor duch a e branquinha,
qu e é criada lá no monte I? . . Caramba, que se ela me quisesse, l evava- a p'rá
te rra, ainda que fosse às cal abritas I. .. »
Um dos adoutorados, observa:
- eBse- te lá criatura. . . F azenda daque l a n om serbe p' ra homes como n ós ...
Às mulheres do Lent eii o são finas de mai s p'rá gen t e. .. Mira- as bem, e verás
que n ão l hes aparecem a s canelas. T êm medo que se lhes constipem co m o arl. ..»
Um terceiro, confirma :
- eE' tal e qual .. Ca pazes eram elas de irem descalças e de sai a curta,
pegar na rabiça do arado ou no cabo de uma enxada, de sol a sol, l á nos lamei-
ros, amanhando os milhos e as coibes, como fazem as nossas companheiras. . .•
Ouvido este arrazoado, cada ratinho sai com uma nova comparação entre
beiroas e al entejanas, te rminando todos por conieri rem a super ioridade às
primeiras.
À respeito de formosura e plástica, divergem 8S opiniões: uns, são ai nda
pelas beiroas, outros, pelas t re.nst aganas, e a maior parte por umas e outras,
sen ti ndo -se perplexos a respeito de preferê ncias.
. . . . . . . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . ... . . . . .. .. . .. . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . .. ... . . . . . . . . ..
Cer ca do meio dia, aparece o t srdão, montado na besta em q ue tr ans porta
a comida. O quadrúpede vem ajoujado de utensílios, don de se destacam as
- 202 -
A TIL\ V t. S DOS CAMPO S
asadas de cobre, de um brilho extraordinário, contendo O j an tar dos ratinhos.
Luzem t anto. porque, segundo o costume, foram esfr egadas pe lo cozinheiro. ao
arredá-las do lume.
A o avi st a r-se o janta r , s u spen dem-se a s apreci a ções sobre o sexo frágil , e
entra-se em assuntos rel a tivos à paparoca .
- cO r a at é que enlim. . . aí t em os o re io do mantieiro.. . Queira Deus que
ele traga a comidinha bem amanhada. Ist o cá por dentro está vasio como um
t ambor ... O homem que nasce com a si na de vir ao L enteiio comer favas e
no meio destes descampados, em que uma pessoa se der r ete em suor,
mais lhe valia morrer à nascença. .. M á sorte a minha, qu e não meteu nos
cascos do sr. meu pai mandar-me a aprender a letrado ou a cl érigo l. . . Isso é
que são bidas /. .. »
- cO h compadre, tu achas justiça direit a ceifar mos n ôs tri go e comermos
cen t eio ? . .
- cà cho, si m. O bocado não é para quem o faz , é para quem o come.
N ão sabes tu, pateta, que o pão de t rigo engasga os lambaruços como n ós .
Eu, se o comesse, a travessava-se-me na gu ela e depois . . . ou mo'rria engasgado.
ou t eria de chamar o mestre barbeiro para m e tirar as côdeas com um
a licat e !. .•
Neste comen os , o men egeir c anun cia o jan t ar, e, seguidamente, i nterrom-
pe-se a ceifa par a s e cuidar do est ômago . ..
.................... ... ..... ... .. .... ... . . . .. . . ...... . ... . . ..... ... . . .. . . ...
J anta-se à sombra da mais fro n dosa a zinheira, ou a campo descoberto, se
falta esse conforto. Os en r il h ei ra dores, guar da e tardi o, for mam r anch o à
parte, próximo dos ratinhos.
O manageirc agarra na asada e vasa a olha n os algu ídar es, di stribui ndo-a
por todos em partes iguais. Entretant o, a camarada divi de-se em gr upos, e cada
um r odeia o alguidar q ue lhe pertence. D e j oelho em t erra, ou assent ados
no r a st ol bc, cada ratinho a comoda-se como pode. e, em act o consecutivo.
todos passam a mtger as so pas para dentro dos ban anhões que receberam
a olha.
O mauagetro profere a frase habitual: - cCom Jesus.. - e, i m ediatamen te.
homens e rapazes. tiram as colheres do s chapeus e pri nci piam a comer.
Ao princípio o jantar corre silencioso, mas do mei o em diante anima-se.
m ercê das fr a ses picarescas dos que se r eput am graciosos. O s do pessoal alente..
jano também entram no cavaco, encaminh an do-o para assuntos a lusi vos aos
costumes da Beira. Então os ratinhos de screvem, a seu m odo, as cenas
populares da vida beirã, recheando-a s de petas, destinadas a iludir os do
gr upo transtagan o, Estes, porém. não se deixam mi sti6car. Mal se ouvem,
sorriem e mofam. como quem não engole patranhas. Os beirões, por seu
turno, troçam t ambém as costumeiras al ent ejanas que lhes parecem ridículas.
Estabelece-se um tiroteio de piadas e epi gramas, com que todos se distraem.
- 203 -
AT RAv t s D OS CA MPO S
chalaça, sar-
a palavra e
com pr een dem a conhecida
um dos interrogados toma
demasiado
Em regra,
Nas suas divaga ções, é corrente os n ossos patrícios perguntarem o seguinte
aos da Beira:
- «É verdade vocês entregaram as suas mulheres aos a ba des, qu ando vêm
para o Alentej o?»
Os ratinhos. que
r iem ma liciosa men te.
r esponde :
- cÊ. verdade e mais que verdade. Eles são uns santinhos, e p or i sso, nós,
qu an do saimos da terra. entregamos -lhes a s mulheres, para que as benza m e a s
livrem de em a us olhados» . . . »
- cE. é a p eso que os abades tomam conta delas - acrescenta out ro beirão
ladino. - Quando vamos de cá , l evamo-las à balança . . . se pesam o m esmO o u
menos, bem correu o negócio . .. »
-«E se pesam mais?»-pergunta imediatamente um alentejano.
-«Se pesam mais-responde o r a tin h o - a elas, partem-se-lhes os canas-
tros, e a eles, os senhores abades, dá-se-lhes uma coça, valente, até deitarem
p elo espinhaço a gor dur a dos lombos . . . »
E sta informação é acolhída com gargalhadas e coment ári os adequados,
pouco respeitosos para os reverendíssimos a ba des .
O s rapazinhos, conquanto não compreendam bem o motivo das gal hofa s,
vã o n a corrente e riem como os homens. Questão de COD tágio ...
Depois do jantar dormem a sest a - repouso de uma hora ou hora e meia,
q u e lhes parece um s egundo. . . Acordados pelo managefro, espergu.i çam-ae e
volta m a ceifar . À es sa h ora, o traba lho é cuetosfs sim o, mas des empenham-no
h erõicamente. P or mais qu e lhes doa, esquecem ao! sofrimentos e en t rega m- s e à
empreitada, para a vencerem com vantagem. A mira nos gan h os, in cute-lhes o
a l en t o qu e lhes faltari a se m esse incentivo. M as o estímulo do dinh eiro, avi gora-
-lhe a cora gem.
Regueiras de s uor f étido en c.harca m-Ihes os cor pos a fogueados e s emi-nús,
d espertando-lhes sedes abra sadoras, q ue l hes es ca lda m o sa ngu e e lhes queimam
a língua. É ver a ansiedade com que os pobres a ceitam a barri ca de á gua,
que lhes oferece o tardão. C om que a videz tomam a vasilha e a emborcam,
esvasi endo- s às goladas, passando-a de mão em mão, e t é a esgotarem 1. • .
A á gua é o s eu salvatério. A sofreguidão com que a ingerem, bem o
patenteia.
Mitigada a sede. eí-Ioa a manobrar de novo. pr oss egui n d o resolutos, como
os lutadores antigos nos campos das batalha s. P oucos os igualam ; nin guém os
excede. H omen s de ferro, com tê mpera de aço não há s eara opu lenta que os
det enha. N a alucin açã o da refrega, quando as ideias se lhes concentram n o
t raba lho, só lhes ou ve o pass o n os bemborrsis e o eetaleiar dos caules da s es pi-
ga. de rrubada. pelo. polpes da. foice•. E que destre za d e go lpe. !. . . A quü o é
- 204 -
ATR A Ve S D O S CA MPO S
caminhar para dian t e, e tombar gaveles para t rás. Para t rás, 8 9 gavelea, para
diante, a camarada, que a vança , que avança s empre, deixando um l a stro de pa -
veias, como campo j uncado de flores. à passagem vitor iosa de um exército
triunfante.
O s r a paz es, coitadit os, vêem-se n uma Ione, a r eunirem à pr essa a multidã o
de pavei as es rendídas so br e o r ast olh o. Mal apanha m e enfeixam umas, j á
outras os a guardam, e após estas, outras e out ras, que lhes n ã o consen t em
demoras. Num assopro, tor cere o neAs lb o, enfeixam e atam, correndo a diante.
para se não a tra sarem. ..
.... . ... . . . . . . .. . . .. .. . . . . . . . . ... . ... . .. .. .. . . . . . . . .. .. .. . . . . . . . . .. .. . .. . . . ..
À faina continua pela tarde fora . sob a a cção asfixiante do sol, à tempera-
t ura de 40 gZ8US, calor hor roroao, agravado pela violência do serviço. Mas não
Importa. O s ceifeiros ague ntam-se n o posto e prosseguem a va n t e, sem olharem
a consequência". Alguns, paga m caro a ousadia, adquirin do moléstias graves,
qu e os arrastam à «San t a Casa», on de nem t odos se cur am.
C om efeit o, de verão, é important e a percentagem de doente s ratinhos nos
hos pi t ais a lentej a nos. Ninguém mai s digno de dó, que essas desgraçadas ceie-
t ur as. E st ão ali padecendo o trabalho insano a que vol unt à ri amen te se entrega-
'Iam, par a melhorarem o passadio dos filhos e das mul heres. D os filhos e das
mulheres, ausentes muito longe . .. E, afinal, a quantos se lhes malogra m os
projectos, e quantos não morrem no enxergão da M isericórdia , aos empurrões
do cínico enfermei ro, sem o cari nho da fa mília, r odeados de estranhos, outros
padecentes humildes, de qu em só ouvem queixumes 1. ..
• • •
Quase ao pô r do sol tem lu gar a merenda. Vã o gaspachar, como diz a
gente do campo. N esse ac to, repetem-se as cavaqueirea e l êem-se as ca rtas t ra-
zidas do correio. Q ue alvoroço e cu r iosi dade a dessas ocasiões, em que r ecebem
notí cias da parent ela 1. . . Às boas n ovas, celebram-se com sorrisos ... as mâs,
anuveiam os se mbla n t es, marejam os olhos .. .
.. .. . . . . . .. . . . .. ..... .. . .. .. ... . . .. ... .. . . .. . ... .. . .. . . . . .. . . ... . ... . . .. . ....
Concluída a merenda, os rapazes vão dar água aos burros - an i mal ejos de
raças Inf eriores, que sô i mpa m de faz tos duran t e as asseias. D ep oi s de um
longo período de fomes e t rabal h os penosfs si mos, suportados pacientemente
nos frios lameiros das t er ras betrãs, os modestos j ericos vêm ao elent ejo gozar
dois meses de vida fol gada, come ndo à fr anca n os abundant es rast ol hos das
searas, ali, ao alcance dos donos.
E ao passo que estes, os ratinh os, rrebelhem como uns negros, aquel es, os
burros, encarando-os fil osõficament e, zurra m e esco uceia m à gra nde, q uem sabe
se por troça aos seus legítimos senhor es. É. possível que as asin inas cr iat uras se
- 205-
ATRAvtS DOS CAMPOS
riam. lá para consigo da vida trabalhosa dos donos, que ao tempo contrasta
com a deles, toda de Iol guedos e abastança. ( 1)
o lavrador frequenta as ceifas dos ratinhos, e raras são as ocasroes em que
n ão encontra mot ivos de queixa. Mas, se censurar as faltas, logo os increpados
se defendem, aduzindo argumentos e reflexões. E dos araumentoa passam à
lisonja. gaban do a seara ao a mo, no propósito manhoso de lhe dissiparem os
despeitos. Eis as suas argúcias:
- «Não se pode apanhar todo, senhor nosso amo. Sempre tem de .Gcar
alguma esníguinhe. O s adinho a pr oveita tudo. e o senhor não perde nada. »
Se a seara é inferior, das que não permitem elogios rasgados acrescentam:
- cE fique o sr. lebredor sabendo, que há-de colher mais do qu e muitos
cuidam. . . Assim ela fosse nosse. e
C omo prémi o de consolação. o manegeiro confirma, acrescentando :
- «E stá {raqtriro, mas grado õ pesa como chumbo J••• »
Se, ao contrário. a seara é excel ent e, ou mesmo regular, os lo uvor es
retumbam em t odas as bocas, sempre com intensões Ii songeíras. Ouçamo-los:
- «Vej a se acolbe celeiros gran des, sen hor labrador. A fal ar a verdade,
isto n ão par ece trigo j parece um canabialJ Até a gente traz os pulsos abertos!
.Este é do t a l feroz, que J az acuar os valent es I.
- «Bem podia o senhor pager- nos mais um homem. que não O pagava de
gr aça . .. Caramba que nunca vi mos coisa melhor: os rilheiros não despegam
uns dos outros, as espiga s de palmo e meio, e os bagos como pinhões I Uma
seara assim, é um louvar a Deus I »
- «E sta seja a mais somenos » - observa enfãticamente o msnagetro.
E, voltando atrás. ceifa al gumas es pigas que escaparam, e exclama:
- «H aja caut ela, oh r apazes. Tenham cuidado com as espigas . .. para se
criarem, levaram t empo e dinheiro. Dinheiro como t er ra ... que se eu o apa-
nhasse nas unhas, comprava o melhor casal l á da nossa freguesi a I... Nada de
estregemeotos, que n ão é esse o nos so brio. S e o rastolho for bem feito (e pisca
o olho ao l a vrador) o patrão paga a pinga no dia de S. João . . . »
A perspectiva da pi nga anima t odos. Um rato a trevido, volta-se para o
lavrador e pergunta-lhe:
- «N esse dia o jantar será de Arães e cbolriço grosso, não é berdede,
s en hor nosso amo? .. »
O lavrador sorri, e responde que efect ivamente o jantar será de grãos de
bico e bo a morcela. Quanto ao cboir íço, 6.nge· se mouco.
O manageiro adverte:
- cN esse caso, o patrão fará favor inteiro. A badana para a olh« do dia
(I) Multo. dutu hlltto. d o . dqal ri do. 1:10 AI''''lelo, .... l:loyo., Dor n"'Dn do. u I/alio••0. I ...ndoru • "Il.d.ito.,
lU' d,pu .. d. Ur tall'l.ura .. nU...
- 206 -
ATRAvt S DOS CAMPO S
sant o. mandará o s r. labrador es colh ê-l a das maiores e das mais gor das qu e
houver no rebanho. Faça-nos is so. e ve rá como a rapaziada n ca contente... lt
O lavrador defere est a segun da pr et ençâ o, recomendando mais cautela na
ceifa e menos bandeiras ( 1) n o restolho.
Para corresponder 8 0 ar razado do amo, o manageiro i ulga-se no dever de
dirigir n ova ex ortação à camarada, o que faz, mais pala armar ao efe ito, do que
pata ser atendi do .
E ntreta n to, o sol começa a es conder-se acolá, para as banda s do poente,
donde ch egam ligeiras virações que, como o oásis no deserto. r efrigera m SU Ave-
mente aqueles corpos i nsolados.
Ao sopro das brisas, a seara marulha em on dul a ções, e os ceifeiros, bene-
ficiados por aragens tão amenas, celebra m o confor t o entoando t r ovas beirãs. ..
Que bem lhes sabe, aquel e deli cioso e {resqufssimo vento travessia, tal ao pôr do
sol das tardes de verã o, em pl en a campina alentejana J. ..
.. . . ... . . . ... .. . . . . . . . . .. . .. . .. ... . .. . .. .. . . . . . . . . . . . . . . . ... . . .. . . . . . . . . . ...
É. noite cerrada quan do os ratinhos l arga m as foi ces para irem descansar.
É a desapega, como ele. deaigaem a so lt e do trabalho.
À o larga re m a foice, rezam a s orações da tarde (um P adre N osso e u ma
A vé Maria), e em contí nuo estendem a copa no rastolho, preparando, por es t e
meio, as camas em que t encionam dor mir. A lguns m et em alhos nos bolsos, pa ra
que o cheiro os preserve dos insectos.
D ormem n o r ast olho, n a hipótese de o tempo ir quent e e se co, como é pró-
prio da estação cal mos a. Ás vez es, porém, não acontece a ss im : t rovoadas medo-
nhas, acompanhadas de chu vas torrenciai s, rugem ameaçadoras, pressagia n do
desa stres iminentes, qu e apavoram o pessoal.
N esse s momentos críticos, os humildes ceifeiros fo gem a escap e para o
monte mais próximo, se porventura têm a sorte de est arem perto de um monte
ou m esmo de uma choça . Não se lhes proporciona n do esse precioso refúgi o,
envolvem-se nas mantas, e desta maneira, transid os de susto, pr ocuram livrar-se
das chuvas, a r rima n do-se aos penedos e às árvores - abri gos insuficiente s,
de on de sempr e saem mai s ou menos molhados.
E. nessas h oras tremendas, em que fuzil a o relâmpago e ribomba o trovão,
el es procuram amparo na misericórdia divina, que imploram com f ervor, já
cantando o Bendito e louvado, j á rezando a MaAnílica e outr as orações.
V olvida a bone n ça, a coragem anima de novo aquela pobre gen t e, que -
diga-se de passagem - sofre menos com as fadigas da ceifa, do que com as
inclemências da estação. Estas sim, que os morti.6.cam a valer: ontem, era o
cal or asfixiante dum sol tropical; h oje, os aguaceiros violentíssimos de uma tro-
voada de respeito. E na madrugada de a man hã, ao darem princípi o ao seu
(1) Chamam"1 h,uld,.. h ..pi , .. qUI " capIm ao , ol pI da ' olca I q\la . POlrIIDtO. fica m I",pulou. lO <: on l do nllol bo .
(2) No Allalljo. t Lam..· ,. Inu ..lo lO ...to do ponul I aorou". <:011I. 0 ae dul' DI. POli' ''' ' 0. o do DUCIOU . I pdO.
o do 1111. O tn.e..lo, pr.doml. .. a .. 1Ifd.. dI ..tio.
- 207-

ATRAvtS DOS CAMPOS
l abor quotidiano, embrenhar-se-ão pelos rastolhos assãs úmidos. pondo-se
numa l ást i ma tal, que dá dó vê -los repassados até por címa dos joelhos, com as
cerou las coladas às pernas, a escorrer- lhes a água pelos sapatos I
Pois, apesar de saberem que permanecerão neste mísero estado enquanto
darar a orvalhada, não desistem do seu i n tento : - com mais ou menos custo,
continuarão a ceifar a ceara - sempre na ideia lixa de se aproximarem do dia
memorável em q ue 8S suas foices [uzen.tea irão aos a res, com o testemunho de
regozijo, pelo vencimento da empreitada.. _
* *
*
A final. concluíram-se as ceifas - as eesêíes, como vulgarmente se diz.
O s mauageiros dos diferentes cortes. recebera m dos lavradores as importâncias
das empreitadas respectivas, na presença do manageiro chefe da camarada.
U m e outros igualmente embolsam as costumadas gorgetas que, em regra.
r epu ta m exígua recompensa aos seus importantes serviços. Isto é o que eles
dizem. em frases lamuriantes e senti mentais. Os amos pensam exactamente o
contrário: - persuadem-se que fora m demasi a do ge nerosos, por enten derem
que podiam t er sido mais bem servidos.
D e resto, todos se conformam, e melhor ainda os gratificados, se o lavrador
lhes adoça a boca com u m presentíto de queijos, o u com a ve nda barata de um
bur ranco reles.
. .. . . . . . . . . . .... . .. . . . . . ... . . . .. . ....... . . . . .. . .. . . .. . . . . .. ... . . .. ... . . .. . ...
N o dia aprasado pelo manageiro em chefe, a cam ar ada reune-se de novo
nas cercanias da povoação mais a gei to e é aí q ue s e fa zem as contas gera is
Eis o processo:
Estende-se uma manto no chão, e, imedi atament e, os manage'ir os dos cortes
vão aí depondo as quant ias ganh as pelas suas respecti vas malt as, reunindo
assim a soma vencida por t odo o pessoal.
Seguidamente, os interessados que sabem escrever, consriruem- se em
comissão 6scal para verificar a importância amontoada, e rever a exactidão das
operações aritméticas que hajam de fazer-se, por efeito de rateios e descontos
- operações incumbidas a um r a pa z, fo rte em números, mas que se n ão aceitam
como boas e certas. sem primeiro se rem conferi das pelos outros da comissão.
Estes mesmo, s6 se convencem da exactidão dos seus algarismos, submetendo-os
à prova dos n ove m eia dú z ia de vezes, sem nunca lhes sair errada. E. ain da
a ssim, pa ra que nã o fiq uem sombras de dúvida. os m a is des con fi ados e i ncrédu-
lo s. propõem a prova real, como de ma.ior confi ança e menos falível. Mas, em
regra, esse al vi tre não é aceite. S egun do o parecer da mai oria, a prova dos n ove
não fal h a. graças a o «bom sentido» dos que a enzemina m, e às «co ntas de
cabeça », simultâneament e fei t as pelos me lhores ca lculistas, e que jogam certo
com as dos n úmeros à pena.
Com semelhante s mínudência s e ca utelas, a i mportância t otal reunida em
-- 208 -


A TRA Vt.S DO S CA MPOS
mont ão, é re par ti da em tantas par cel as quantos os i ndividuos da camarada.
D epois, procede-se à j oeiração, que consiste em tirar de cada montículo, desti-
nados a cada rapaz. a met ade. dois t er ços, três quartos ou m ais, da import ância
do quinhão. S e além dos r apazes, há homens de notór i a inferioridade como
t rabalh adores, os quinhões destes t ambém são dizi mados.
Com es tas dedu ções. f o r m a ~ s e uma verba especial, para s e repartir em
separado e com isualdade. por t odos os adultos qu e «saíra m por inteiro».
Os joeiramentos fazem-se, ou devem fazer-se. segundo a inaptidão dos ioei-
redes, depoi s de ouvidos os p ais ou outros parentes que os tutel am.
A s contendas azedas acompa nham, em cer tos casos, as classifi cações sobre
o mérito dos a dcl escentes, pois a o passo que os se us superiores os equiparam
a os homens bons. os manegei rcs e os que não têm cachopos n a camarada, são
de parecer inteiramento di ver s o : em sua opinião, os rapazi nhos ficam bem pagos
com a quinta parte do que toca a cada homem. E para alguns, qualquer
ninharia de meia moeda ou menos 1. . •
E m tão desencontradas apreciações, o exagero de todos é evidente, embora
nas dos primeiros haja mais razão do q ue n as dos últimos.
A nna l. depois de r epi sados pel a cen té si ma ve z os argumentos capciosos de
ambas a s narres, a cont en da resol ve-se, fi cando ve ncido o que pugna pe l o
joeirado que nestas, questiúnculas é o mais fraco, e que portanto ter á de se agu en-
ta r com a imposição dos fort es. E,,' assi m em todas as coisas. O direito da fcrea,
preva lece sob r e a f or ça do direito.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. ... .
O s ratinhos que por doença ou outra ca usa justifi cada pe r deram dias,
meios dia s ou queríeis, é-lhes descontado esse tempo, das verbas qu e lhess coube-
ra m em rateio.
E das de d u ções realizadas por esse motivo reune-se uma n ova soma, que é
reparti da com igualdade p or todos os ceifei r os a dultos, incluindo os própr ios
que sofreram o desconto.
P ara evitar la ps os e dúvidas, as perdas r eferi da s fo ram opor tu n amen t e
anot ada s pelo menageiro do cor te num caderno especial, qu e aparece n o ac t o
da s contas com a designação pitor esca de r ol dss per d izes.
R esol vi da s as ioeireções e d escon t os de dias perdidos, cada ratinho toma
posse do dividendo que l h e compete, pa gando imediatamente os doze vintens a o
menageir o principal. Se a o mesmo devem algum biqui nho, igualmente lh o
satisfazem então, ou sej a por vontade própria, ou por a dvertê n ci a do credor.
que. como esceeamenradc em ce lotes, é avesso a moratóri as.
Ao terminarem a s contas, celebr a-se o fausto acont ecimento com liba ções
de uma pinga razoá vel, previamente comprada na taberna r ecomen d ada pelo
menageiro. N ão t ar da mui t o que se conheçam os efeitos d o vinho. M eia hora
depois, tudo aquil o a nda numa alegri a doida , ma nifestada por mil ma neiras,
qual delas mais sintomática: cantam, gritam, tocam, bail a m, chorara, etc.
Uma s.lgaaarra enorme, que ensur dece quem a ouve. E t udo i sso é l ógico.
- 209 -
AT R A V t S DO S C AM P O S
O s vapores alcoólicos, e a ideia de es tarem de marcha para a te rra n a t al, com
as nota s no bolso. produzem sensações demasiado f or t es para as gozarem à
calada .
• •
*
No dia imediato 80 das contas, efectua-se a partida p ara a Beira. a pé e
em bur r os. por uns, e no caminho de f erro por outros. Estes. querendo eco no-
mizar. cami nh am algumas léguas a pé. já embarcando na estação imediata à
mais próxima do ponto de par tida, já apeando-se 8 considerável distância do
termo da viagem.
L á nas suas localidades. todos são esperados ansiosam en t e pelas mães. pelas
esposas e pelos Elbos. T odos lhes celebram o r egr esso indo esperá-los 80 cami-
n ho. n uma iminência vi zinha da es t rada. de onde os possam lobrigar ao largo.
E ao a vista r em- n os n o cume do outeiro mais distante, os gr it os de júbilo ecoam
por aquel es serras fora. de mist ura com as gir ândolas de fo guetes. de que, em est a-
los sucessivos. anunciam aos casais vizinhos. a chegada feliz dos laboriosos
emigr antes.
VII
F
ORçoso é conf essá-l o. Na alfai ad a agr í col a do Alto Alent ejo, sobre-
tudo nos campos de pequeno t ran t ei o, p ersistem todos os inst rumentos
da lavoura a nt iga, que se con s erva m e u sam por efeito de t radições
arreigadas, u ns, pelas condições geológicas de algumas zonas, outros,
e muitos por circunstâncias de ordem económi ca, nem se m pre j u stifica das, mas
fàcilmente co mpr eensíveis.
Como quer que seja. e não discutindo os prós e contras de semelhante
a pego, é i ndubitável. que, sem se banirem em absoluto os velhos instrumentos
agrá rios, u ma ev ol ução l enta, mas criteriosa, vai introduzindo e generalizando
muitas alfa ias modernas, das melhores que a s indústrias mecânicas fornecem à
agricultura.
O ferro Ie nceoladc do a rado r omano, que lavra o solo, na ocasião das
'Sement eir as, alt erna com as relhas das ch arruas que preparam o alqueive; o
ronceiro O gemebu ndo carro manchego, de origem r emot íssí ma, arrastan do-se
pelas estradas ao impulso de pachorrentos bois, desvia-se da sua dir ect r iz para
dar passagem à potente e resfol egante viadora a vapor; os toscos arnei r os de
pele de porco, com que os nossos a vós [oeiravam os cer eais, cederam o l ugar a
ótimos crivos de metal ; os carros de muares, mais completos e mel hor acabados
que os de há trinta anos, sustentando bojudas e gigant esca s r edes de palha a
granel, cruzam-se com outros, com o triplo do mesmo género, em fardos. que a
prensa mecânica comprimiu em alguns segundos, poupando espaço e tempo; a
gadanha simpl es. braçal. começa a ser batida pela gadanb.eíxa puxada por qua-
drúpedes; as ceifeiras t entam suplantar e avantajar-se às foices manuais, e
embora o não consigam por enquanto, é possível que num futuro quiçá breve,
novos eperfeícoe mentos lhes conquistem o t ri unfo ; o arcaico e ferrugento cal -
deiro, preso a corda de [ unça, para a tiragem da ág ua n os poços, vai sendo
- 211 -
A T R A V t. 5 0 : 0 5 C A MP O 5
substituído por bombas cómodas. pe rfei tíssimas; os ancinhos, f orquilhas e Ioc-
cados, de acabamento rústico, baralham-se com similares s uper iores de aço e
ferro ; e por último. como cont rast e frisant e e si ntomát ico, os es talos dos açoit es
estimulando as cobr as de éguas n as s uas voltas donairosa s pel os calcado ur os de
trigo, e os ecos dos mangueis, baten do nrmes n as camadas do centeio, são abafados
pelos sil vos e r oncos das locomóveis e debulhadoras que, a dois passos de distân-
cia, labor a m em i gual mi ster, num afã assombros o. ina cr editável h á cem anos.
Sem dúvida que tudo isto é pouco, comparativamente com os espa n tosos
progressos e aplicações em voga nos países adiantados. Mas qu em viu a lavoura
do concelho de E lvas h á m eio século e h oje r epara n os aperfei çoamentos intra...
duzidos desde então n a sua alfaiaria, tem de con ven cer -se que relativamente
muito se tem avançado, e que por consequên cia os l a vradores são menos roti-
neiros do que pr ete n dem os seus detratores. D eix emo-nos, po ré m. de divagações
e vamos ao obj ect o pr incipal do capít ulo - a descrição sumári a dos i nst r umento s
da l a voura e acess óri os. S eguirei a or dem alfabét i ca, que se me afi gur a a m elhor
para o efeito de compilação e compul sa ção.
* *
Aguilhadas Va ras de castanh o com que se gui am as j unta s de bo is, tendo na
J ponta um pequeni no aguil hão, com que se estimulam os a n imais,
e"n.o ca bo uma pá de ferro- a arrilhada. - para limpar O a rado das r aíze s e da
t er r a q ue se l he acumulam entre a s aiveCBS e o mexilho.
A s aguilhadas ven dem-se aos feixes de 205 varas n as es tâncias de P ortalegr.e
e nas f ei r as do outono.
Agu ii hão V. aguilh.aas,
Agulhas Peças de madeira que seg ur am o eix o do carro manchego.
Aivecas Àpêndi ces de madeira, do arado. em forma de or elha, prega das obli-
quamen te nas fa ces la t erais do dente, próximo do fer ro. Duas em cada
a rado, ser vem para al argar o r ego e des via r em a terra do s ulco aberto. Gast am-s e
e partem-se muito n o cent ro, sendo n ecessário 'Ienová-las com frequência n o
próprio lo cal da lavrada. O abegão é a entidade que procede a es ses r eparos,
com o auxílio do ferramental, que o a compan h a.
Alcofas Emprega m-se de t odo s os tamanhos par a diver sos fins, e mõr mente
para n elas se dar a r ação de pal ha e farinha aos bois nas la v-ouras de
singelo, à h ora da mer enda, a o mei o di a. Compram- se nas fe iras, fazen do parte
dos utensílios de palma, q ue se conh ecem pel a designação comum de Algarve,
em virtude da sua procedência al garvi a. Nas fe ir as, quem precisa comprar
al cofas, golpelhas, est ei eões, etc ... díz: - cVou comprar s]gsTve». E depois
comenta: - «O s]gsrve est ã por te.l ou tal preço ... », etc .
212 -
..
A T R A v t: 5 D O 5 C AMP O 5
Alqueirão À medida do alqu ei r e. Posto que es t eja proi bida para medições de
compra e ven da, emprega-se de preferên cia a o decalitro, para uso
particular, pOI t er con fig u ração mai s cómoda para o medidor.
Alteza Vasilha grande, de madeira, onde se a massa o pão, pr inci pa l m en te o
de centeio - marrocate - e a s perrumas. P ara estas, há uma alteza
exclusiva.
Alviâo Ferramenta de ferro e cabo de pau, com que se a rranca a cepa do mat o.
Ancinhos Utensílios de madeira uns e outros de ferro forjado ou fundido, de
diversas di mensões, em feitio de pente. com maior ou menor número
d e dentes. E.mpregam-se n as debulhas dos cereais, principalmente n as eiras em
que se trabalha pelos processos antigos, já para arrastar a palha do solo. já na
limpeza do grão, extrai ndo-lhe os cachos e vá.rios corpos estranhos.
Apeiro P eça de couro, que serve nas cs nga a para a poio e sustento da ponta do
arado ou da vara do carro. É, feito de uma tira larga e comprida de
cour o de boi, umedecida pr êvi amen t e, cuj as ext remidades li gam uma à outra
por costura de pequenas corre ias. D epoi s, é surrado e amaciado td com muita
pancada e roças, segui dos de unturas com borras de azeite, passando l ogo a uso
para a dqu irir as quedas próprias, que n ão mai s pe rde em se amoldando a o serviço.
Arado O inst ru mento mais simbólico e car acterístico da la voura alentejana.
E! construido com madeira de azi nha, sobro, freixo ou mosqu eiro, pr e-
parado a machado e a enxó, reunindo também vários acessóri os de fer ro, adiante
mencionados. Sal vo p equenas modificações. conserva a feição antiquí ssima que
lhe davam os romanos. Mas n ão é o arado primi ti vo, como ger al men t e se diz. ( 2)
M ovi do por uma junt a de bois ou parelha de muar es, de cavalar es ou de
asininos, (I ) l avr a a terra, pr epar ando-a para as culturas cere alífer as e legumi-
nosas. O arado alentejano, vulgaríssimo. compõe-se principalmente de quatr o
peças essenciais: rebenejo (re bi ee), dente, garganta e ponta. As pr i meiras duas,
depois de u.r:.idas po r uma viela de ferro e dois ter ugos de pau, for mam a pri-
Is) O• •p.lro," • Og Uo. , d. con........ d. couro Cn>, undo a o ••do bo..lll o. COIII O h, od, u , t indeir,/lI, ete. , d o ' lCI. eI.do,
Og , o••do, p.lo• •••iaü" d. I."oun, a ' hor por Jmpt dJIII . ato de ciau.... 00 qo alqou OUU' drcu••ll.d• • O ...&10
"U••• co.... I o• ••• 05n . a rT • •••
( 2) O u .do prilll1ti ..o u, WD. .....r. ee.... o.m ..... ciao a o n U'mo. Sc " ' . o • • a ciao d. ,.11.., o cebo d. Il'a. :repu....-
te... o t ••'o.
Q..-do o iao.... do.01l o c...al o • o boi • • dop toa 1 ,.11.. a.. ce bo oa rcl>ir. pu . 4u, u.. ' o mal. "di o di ri. I- I•
• o tlliaoo • for( . doa .a1mal. pu. i.u o..üa.ato , " ' 4oJ••• M..b tm., qaaaAo. t ........ d.. m.dm d. p..dz., .. com.-
( o•• l u " O M d. ferro, • tuh""o do I dor .pnlti(ooo e1a.ol .
T.6610 8n" , O 110"0 .ort . ... b at u co.t...u , "'.or... rruir a Ol. , • ouuu d c10Ulot. a utuu,
Cal , ..d oao reprodaaIr. coattltut.. um. i. te u ....1. co1tc(lo d. A. rfcol.. ",u. o u, A:nt6aJo Pú paLli u a. ao ;o. a . 1
O E: l .u.. • "ro"tllo i . !..,oli(io À&r(col. do coo eeu.o d. EI ultahro d. lS9t.
(I) O........10•• j'Ullt ot ol 116 m'llito . .. ..' d o••l.III. t mpu". t m aI " i r'" i . an do. Com ; a....to. 116 1..... t.IIl
IlIa......uho• • 0••"u .obtu . A ..&iori. lt.lllL4m I com mou ...
- 213-
ATRAvtS DO S CAMPOS
m eiee par t e, a que geral mente também se chama arado, (1 ) embora o não se ja no
rigoroso sentido da palavra. A garganta e a ponta, ligadas pelo processo a cima
dito. compõem a segunda parte, qu e tem o Dome de timão ou t emão. Como já
di sse, o rsbeneio e o de nte empalmam-se com dois taTugos e a correspondente
viela. Adiante do empalme, próximo do couce ou r ectângulo que lhe dá a confi-
guração, o den te apresenta uma pequ en a conca vida de , que receb e a espigs da
garganta, tendo posteriorment e mai s doi s orifícios em direcção oposta: o pri-
meiro, perpendicular, por onde Se introduz o sustentáculo do timão - uma barra
de ferro chamada teirá, alçada a meio metro ; o segundo, transversal. em que se
aloia O mexil1Jo- espécie de ganch o de fe rro que. por sua vez, ampara as aive-
cas, pregadas em baixo. próximos do lerro de lavrar.
O ierro, de feitio lanceolado, encaixa no dente à força de pancadas sobre o
bico e nos poleAares ou azelhas com que emoldura ao arado.
O rebeneio tem em cima. na parte inferior, a cavidade d en omin a da mão-
zeira, para O gan hão se a poia r quando lavra.
Já disse que o timão constitui a s egunda parte essencial do arado completo,
compondo-se, r epi t o, da AarBanta e da ponta. A BarBanta, de configuração
arqueada, com uma a bertur a perpendicular no dorso para en ca i xe e eci eí tecãc
da teirá, recebe na ext r emi da de dianteira a ponta ou peça 6.n a l. Esta, sobre-
posta à BarBanta, como a cabo de di zer , limi ta-se a um pau direito, com qua tro
buracos no extremo, pa ra , em qual qu er deles, entrar a chavel ha que p ren de o
arado a o tamoeiro e à ce nge,
O t imão, enteicha (enga ta ) n as r esta n t es peças, enca ixando a espiBa na
concavidade do ara do, j un to a o couce, ao mesmo tempo qu e a teiró se lhe intru-
duz pel a fenda que o a traves sa. A qual teirá é apertada depois com uma cunha
de chanfro, voltada pare a esquerda, que se chama pescás. E sta cunha de sl oca-se
fàcilmente, el evando-se ou baixando- se conforme s e quer temperar o arade,
para fi ca r aberto ou serrado. O acto de montar o arado chama- se ent eichar, be m
como s e denomina enteichadura o seu compl et o conj unto. d esde que o a compa-
nhem os pertences i n dispensáveis, a aAuilhads, canAa, apeiro, brochas e
corneires.
O arado chama-se caneleiro, qua n do o rsbeneio fi ca rel ativament e alto e o
dente com pouca i nclinação. Apresentando a spe ct o cont rár io, den omina - s e
escauçedo,
O timão é abafadiço. se te m pouco desenvolvimento a s u a cur vatura, consi-
derando-se arcado na hipót es e inversa.
( I) o tumo de - nado _ d i a da . i'aiJiucl o .-el, u. apli ca-.. 1amh' al ao cODjant o do ,,".n. j o e deate• • l'lDm U l'l·
ti do m. l. I'utdto. eOlll o d.aomia. cl o d. 6.lli . a .I... .I pec... u l.rld.... Ânlm. por oca. llo .lu COrle. a o. ".,0'. • ao pre-
Pil'O .I.. . . d.ir.. - o. p.daco. d. I.alt. com c". ti f am o. d.ot • • pa u .Dui d ... d.. r .... tI.pu .. Ih.. eh ...... Ir.tio, •
co.o hl• .. coatidaam ,eulmt.l:l l"
N. apltelaclo da h. pou l ad. da ... Juoeu. 00 cUteemi a.d.. ..I.. aõ... f &e((" el'l'. oUu.--.. : _ . 0 1"""'. 01' l alUlo
d. lt a t&alo' lr.ti N..• • - . 0 • • t. l o. d. Sicra no a.d 1&1 pUl• •• .• - . Hoj . a o. al'.Jo, • • a -.. n u 00 'C• •:I. c..o.. . .
D. ol'ld. II coacIui ((oe o tetlDO e. ((a ulio "mL'. t . ",pl'",a pu. d..i, . u ... j oa l" e homo. (('" n ahalham •• I. ..oo,a.
- 214 -
A T RAv t S D O S C A M POS
Armas As peças com qu e se ar ma a gadanha vulgar. - Coleira de ferro, arti-
culada, p rovi d a de jargunc"bos mui agudos, com que s e armam os cães
r af ei ros dos r ebanhos para lutarem vantaiosamente com os lobos. A col ei r a de
jargunchos nos cã es de gado.. torna-os mais corajosos, não t emendo os ataques
das feras, a n t es a comet endo-os com valentia e denodo. O instinto r evela-lhes o
valor e a i mpor tân cia de semel han te defesa, qu e el es mostram compreender,
sacudi n do ufanos a sua t emível armadura.
Arneiro Nome por que vulgarmente se men cionam todo o gén ero de cr ivos e
[oeina dor es, pata limpeza d e cereais e legumes. À n tigamen t e, os ernei-
t OS emprega dos eram. m an uais, de fa brico tosco. com BtOS de ma dei r a e fundo
de peles. D epoi s, passaram a u sa r-se os de lata. de i dên tica configura ção.. e mais
t ar de vi eram os de arame. uns de manivela e ci'li n drc, rotari vos : ou tros, em
forma de sirende. E': esc usado a cen tuar a superioridade de t odos estes sobr e
os antigos.
O mais perfeito dos jcelredcres modern os u sados no concel ho de E lvas, é
o cri vo Mar got, que só tem o inconvenient e de dar pouco r endi m en to, en care-
cendo p ortant o a joei ração.
Arreios V. A presto", de cavalgadura.
Arrilhada P á de ferro no cabo das aguilhada s, com que se guia m as j un tas da
lavoura.
Asadas P an elas muíto grandes, de lata, de ferro ou de cobre, que de t odos estes
ma t eri ais a s há em a ba sta nça nas lavouras gran des e pequenas. As me-
lhores e mais caras - as de cobre - além d e servirem para o preparo e con du çã o
de comida, constituem t ambém objecto de ornamentação das cozinhas e cases de
entrada dos montes, o que já n ot ei n outro l uga r. Enqu ant o qu e as de u so ordi-
nário se mascarram e es fregam todos os dias, as de reserva ostentam-se r espla n-
decen tes nas pr a telei ras e guirl8. nd8.s, m ist urada s com o restante cobre e a rame.
N os começos do verão os ca ldetreí.eos aparecem nos mont es para estanharem
o i nt er ior das asadas que precisam d esse preparo, e para venderem outras novas,
o que por vez es conseguem, graças à predilecção da lavradora por semelhante s
utensílios. A s a sadas de lat a a plicam-se principalment e par a aqu ecer água e
coagu lar o leite.
Azeiteiras Chavel h os gr a n des de bovinos. mu n i dos de r ol h as, onde se trans-
porta azei te e vinagre pa ra a vi a s de ganhões e ganedeiros. Em todas
as lavouras h á abundante sor time nto destas vasil h a s.
Azorrague Correia compri da, presa a um cabo com argola e chocalhinh o.
Serve para enxotar galin h as, cães, etc. , e tamb ém par a s er exper í..
ment ado pelos gar otos, como correctivo de travessuras.
- 215-
A T R A v t S DOS CAMPOS
Balamedes T oda a casta de utensílios de lavoura e outros de u so doméstico.
de feítia tosco, incluindo bagagens rel es, que hajam de transpor-
tar-se ou remover-se. E: te rmo de calão, mas muito usado.
Ba lde Forquilha gran de, de madeira, com que se baldeia a palha das eiras
para as almenares e carros armados com redes.
Baleios P equ enas vassour as de palha, de gi esta ou de outros arbust os, com
q ue n a s eiras se varre, ao de leve. o grão desemvalhatado e r eunido
em pelas ou em mon tões, para se li mpar definitivamente com auxíli o das pás.
Banca Mesa comprida e est re ita, onde come a gan haria . - Barreleira par a o
fabr ico do quei jo .
Barquino P el e de chibo em fo r ma de odre, para va silha de água fresca. no
ver ão, que os tanadeiras pr eparam com apuro para seu uso e de
estranhos, a quem os vendem ou oferecem.
Barranhões de la ta, ele cobre ou de berre, para as necessidades da
cozinha e para receberem a comida.
Barreleira Ban ca de madeira de uns zl1l.,zo de compriment o por 0=,50 de largo,
para o f abrico de queijo. E m cada lavoura costuma h aver duas :
uma pua o queijo das ovelhas, e outra par a o das cabras. Também a s há de
pedra, mas a exper iência demon st r a serem preferíveis as de ma de ira.
Barricas Das pequenas, de capacidade para qui nze a vi nt e lit r os, usam-se
como vasi lhas de água par a os no campo. D as gre.ndes, de
d uzentos litros ou mais. vê-se uma. pelo menos, n o pát io de cada mon te, colo..
cada em carro a pr opr iado, onde se transporta a água para o ga st o di ári o.
Barris Va silham e de lata para a zei t e, que modernamente se têm introduzido
em s ubst itui ção dos odre s. - P equ enas vasilhas de barro para água.
Belga V. Jangada.
Bocins Argolas de ferro no i n t er ior das massas dos carros, em volta dos bura-
c ós por onde se alojam a s pontas do eixo.
Boquilhas A cessór i o de f erro, sobr eposto nas massas das rodas par a as r es-
guar dar, bem como as pontas do eixo e out r os pertences.
Borlandejas Artolas que se empregam entre 8 S torneies e os bocins das r odas
d ôs carros de muares.
- 216
ARTE POPULAR ALENTEJANA
J. O Pendão de l e ~ t e i r o : :I. Corma ; 3 - Colh er: 4 - Botio: 5 - Pri.io 'Para fuer meia ao ombr o : 6 - Aniteiro.
i - C.nudo$ da ceifa ; 8 . G'. I' .to; 9 - F.ca du matanças; 70 - Cha...õu ; 11 - Po/".rinho com medida parti
• pó/vora ; 13 - COPO tie chilre
x r n x v z s D O S CAMPOS
Bor landões A r gol ões colocados nos eixos dos carro, entre os limões e a s
massas.
Bota.fogo Gancho de ferro. com que se bota lume n as quei madas e r oças.
Bra zão A r gola pregada na cs nga dos bois pa ra substi tuir o s pei ro de couro.
E s ta substituição consider a - se desvantajosa, e por isso est á s en d o
pou co u sada.
Brocha s Correia s tecidas, de co ur o cru, que se pre ndem aos cangalbos para
segaracem os bois à ce nga .
Burros Tripeças rústicas de azi nha e sobro, q ue os ganhões preparam pata
seus assen t os.
Cabanej o s C estos de ver ga para a condução de pão. hortaliças, etc.
Cacheira Cajado. de volt a m uito pron u nciada, com a. corresp ondent e cach aporra.
Cac heiro O mesmo que o precedente, mas sem volta.
Ca ix ote s D e pinho. de diferentes dimens ões, pa ra arrecada ção de [erinba s,
legumes, sal. etc . Ant es, a s farinhas e legumes depositava m-se em
sacas grandes, de pal ma dó A lgarve, não se usa n do os caixotes.
Caldeiros D e fe rro ou de f olha, pa ra a t iragem da águ a n os poços, com o auxíl io
de corda. C ada lavour a gasta por ano muitos caldeiros, metendo em
con ta os que se perdem e os f u:z:tados .
O s ga n a dei ros a provei t a m- n os como caçarol as e marmi tas, para preparo e
t ran spor t e dos a lmoços e ceia s, à f alta de tarrcs.
Cancelas D e feitio portátil, com post as com pegôes de azinha e varas terís ias (l>,
destinam-se à con struçã o dos apriscos da s ovelhas e dos bar dos de
todos os Ienígeros.
C ada cancela r egula por 3l1l.,7,fiX1
1ll
, OO, con stan do de dois pegfies liga dos por
quatro vare jas e duas tra vessa s em diagona l. Um bardo de sofrível capacidade
carece de 24 cancel as. As dos redis de ovel has r ecém-paridas n o out ono e
inver no, cost umam ser tecidas com giesta, para melhor abriga rem o gado.
Ca ngas A dopt am- s e d oi s tipos: um, exclusi vo para bestas e cavalgadu ras;
out ro, para bovinos. A carrga de m u a res, de m adeir a de a zi n h a, com-
põe - se de t rês peças, que f ormam t rês curva t uras, das quais se chama m sua dou-
( t) Chlftalll. -u lu lt l., ao. p. u. d. c"I&Qbo urndo. d. l ho a ba ixo, Ilm d" .. n ul.., )lua .. ')lUnrtftl 1'0 t abdco
d. caQulu.
- 217
ATRA v t S DOS CAMP O S
TOS a s duas extrema s, que recebem os canAal b.os e que a ssen t a m nos burnis,
assi m como se denomina meio a do centro, onde se coloca o apeiro para engat e
do cbavelhão. Li gam a canga aos burnis, col ocados sobre o pescoço das bestas,
duas t iredeires, ou berrígueires qu e vão atar na cabeça dos cangalhos.
A cange. dos bois, de procedência e.n âloge à das mulas, limita-se a uma.
travessa direita, qua tro cangalbos de madeira, e três castelos ou pequenos paus
erguidos ao cen tro, p a r a , entres eles, ficar o apeiro. Algumas. em vez dos ceste-
los. t êm dois chanfros, e outras um argol ão de ferro, dependurado - o bree õo,
que su pr e o apeiro. Os cangalb.os, a pr esen t am em bai xo duas mossas para, em
qualquer dela s, abotoar a broche. À s brocbas e as carneiras são os únicos
object os que prendem os bois à ce.nga.
Ca ngal has Engradamento de madeira e correntes de f erro, para nas besta s
com albarda se transportarem cântaros, pequenas barricas ou
a sa da s . Usam-se principalmente na con dução de águ a , l ei te e comida , em vasi-
l has que se adaptem a o engradado.
Cangalhos P eças das ce.nge s.
Cangão Pequena cenge, apropr i ada a um 56 a ni mal, qu e p uxe ca rri nho ou
a ra do de va r ai s.
Can iços Esteiras de canas ou engradam ent os de ripa para enxuga do queij o,
ou depósit os de pão de centeio e de perrumas.
Cântaros Usam- se de b arro, de lata e de cobr e. O s de cobr e, como vasilhas
para água , exi stia m antigam ente em t odas as «casas» gra n des, e
ainda h oj e persist em em algumas, r ecomendando-se pela soli dez e d u r ação.
CARROS
Os carros empregados n as la vouras, consta m de quatro t ipos : carro a le n te -
jano, de uso comu m, par a muares ; ca rre ta; car ro maucheg o, para bois, e
carri n ho d e var ais, para uma be sta.
Todos se com põem de quat ro p eça s principais : - leit o, eixo e duas r oda s,
peças que se constituem com outras s ubsidi á rias, adiante r ef eridas, uma s de
madeira de diferentes qua lid a des, predominando o azinho e o sobro ; ou t r as de
ferro, como é vulgar em t odo o país.
Carro alentej ano , d e uso co m u...!!! E' o melhor e m ais compl et o. apesar de
ser exclusivamente puxado por muares.
Gira sobr e duas rodas grandes, diâmetro de l
m
,50 a 1
m
.55, t en do cada uma
1 2, 14 ou 16 raios, a massa e as correspon dent es pinas, bem como um a r expesso,
com o pezo de 60 'kiles, aproximadamente.
- 218 -
ATRAV t. S DO S CAMPOS
Às r odas prendem ao eixo por dois pregos curvos - as torneies - que o
atravessam nas pontas, impedindo a deslocação, e ainda por duas argolas.
denominadas borlandeias.
S obre o eixo (1) nrma o leito, composto com a peritica, limões, trevesses,
tsboado e t eleires. Mede na base, i sto é, da t aleira da frente à da retaguarda,
uns 2
m
,55X l
m,
15.
A perítica s usten ta t odo o emba rrotado , p r olonga n do-se dois metros para a
fr en t e, como vara de en gat e, e quinze cent ímetros p ara t r á s, a formar o rsbich.o,
simples or nato, sem n enhuma aplicação.
À s travessas, passan do at ra vés da peritice e dos limões, for mam o viga-
mento que s uste nta o t aboa do. D os d oi s limões - bar rot es de quatro faces,
paralel os à peritice, tendo de permeio as tábuas - ergue m-se os fu eiros do
engradado. par a resgua r do dos volumes a transport ar.
Cada en grademento consta de oito a dez f uei r os ( li ) direitos, de 6S a 70 cen-
tímetros de al tura. h ar mõnicamen te distan ciados e i n troduzidos n os furos do
t endal e n os da face superior do limão.
Os t endais restringem-se a doi s paus roliços de castanho. colocados hori-
zontalmente n as pontas dos fue'iros, e por entre os orifícios de que são providos
para esse efeito. afim de lhes dar em coesão e solidez. E em muitos carros. as
extr emi dades dos ·t endais. na t r aseira. são encimadas e ligadas por uma travessa
de meia volta - a ponte - que se lhes sobr epõe e at arracha par a r eforço e ornato.
O leito monta, como di sse, sobre o eixo, segurando-o dois espigões de f erro
- os mete-bois - que se tiram e põem a pancadas de mar t el o. arman dó-se e
desarmando-se com extrema facilidade.
O carro de muares. sendo. como é, o mai s adoptado par a o transporte de
géner os e materiais diversíssimos, cujo alojo demanda carrego de confi guração
e preparo variado - modifica-se-Ihe o engradado do leito, consoante à n at ur eza
e volume da carrada. (3) P ara len has e outros arti gos encaixotados ou ensacados,
basta a enfu eiradura ordinária e as cord as chamadas «de carregar». P ar a a palha
a granel, empregam-se fueiros e travessas especiais, muitíssimo altos, de onde
pendem redes enormes de linho ou de f uu ce, que, desde a altura de três metros,
apanham todo o cor po do carro, t ermin ando na dianteira e retagu arda por
duas gran des e bojudas bol sas, a quase roi e.rem pelo chão.
Nos acarret os das sear as em r ama e nos dos fenos. refor ça-se a enfueixa-
dura usual com quat r o fuei ros alt os e ponreagudos, que se introduzem n os
gat os da fa ce exterior do s lim ões.
Para a r emoção de terras, estrumes e t odos os obj ectos susceptí veis de
(II Ad !l' JloaCOI ..ao'. 0 1 . lxol do. c..rrOI di "ulrIl . fl m lodol d.....d..ir.. d. ....inha . l ohro...ol qul lro ou ir. iJto ,
M.. de h' U.OI JlIU. cl. "Li-Ie introd ulado o I bum.. di chtO' do furo, JlO,to qu .. cm mult.. I,," our.. aiad.. lub.i lll o
UIO ..a d , o.
(I) O. i tlllU:OI Cllllu...... lU d. m..adre. I XCIJl10 01 (( tII .. tro d•• l"' lumid..d.. qtll • • 'm , . re 1. lio di f. uo...nu" ch..dol
..o te ad ..l • • ImltutldOI a .. t ..llu",
fi ' Volum.n di ur coa form. o ar t i.o qtll.. comJlh • un..d• • AI di Itahl . cn u .il cm um... r. aol I l o Itmpu multo
alt.. di clll 6' aufio plr ld..I ,
- 219 -
ATRAv t S DO S CAMPO S
caírem pelos flancos dos f uei r os, usam-se os tsdpsds, que transformam o l ei to
numa verdadeira caixa, de capacidade aproximada a um metro cúbico. Dois elos
taipais encostam às enfue íraduras, ved a n do- a s em todo o comprimento e altura;
os outros dois - a s comportas - resguardam a frente e a traseira.
P or vezes os taipais são substituídos por t eci dos de esparte, que se denomi-
n am espartões, e que se t ornam vantajosos p ar a a condução d e melancia,
melão, et c.
Enfim, é tão variada a aplicação do cerro de muares, que ainda é ele o
veículo predominante na con du ção de gente do campo. D escoberto ou «tapado... ,
pela for ma adiante mencionada, puxado por bestas de todas as condições, desde
as de somenos valor até às mais custosas e bem arreadas. vemo... lo com frequên-
ci a nas vias públicas, em marchas pachorren tas ou vel ozes, acumulando-se às
d ezenas nas feiras e arraiais da província.
O carro «t apado» é provido de uma armação revestida de toldo de lona. em
branco ou oleado a cores. como abrigo â. preservar os viajant es dos r igores do
so l e das ch u vas. E ssa armação consis t e em quatro aros de ferro ou de verga
de casta nho, so br e os tendais, tendo por cima o caniço e o pano do t oldo.
Quando a armação é portátil, que se tira e põe cada vez que serve ou tem
de se rvir. denomina-se «barr aca», e como tal só a adoptam actualmente os
campónios de poucos r ecursos. J á não sucedi a assim h á bons ci n coenta anos
atrás, tempos em que tão exígua comodidad e só era usada por alguns lavradores
de meios. E di go alguns por que a maioria. segun do a tradi ção. não entravam
nessas fo fas. Caminhavam em ca valgaduras de albarda e em carros manchegos,
d escober tos, puxados a bois.
A armação ou t apiço permanent e, torna os carros mais confortávei s e vis-
tosos que a outra à li geira. por ser acompanhada de cer t os acessó ri os e comodi-
dades relat ivas. q ue muito os melhora.m. O que assim é preparado chama-se
cburrião. Veja-se adiant e, n a alt u ra correspon dente a esse n ome.
Carreta Carro de formas menos apu radas que o precede nte. com as r odas de
dez a doze r ai os ca da u ma, forma ndo o diâmet ro de 1m.30. O l eito
mede 1
m.
88X 1
m
,8, exclui ndo os prol ongamentos da perítica e do rabícbo.
Guarnecem-no sei s a oito f uei r os t oscos, de cada l ado, muito compridos para
as carradas altas e curtos para as bai xas. E., em qualquer dos casos. desprovidos
de t endais. A peritice r egula por u ns 2
fl
"50. a lé m da teleire, prol ongamento
indispensável pa r a uma junta de boi s. N o restante. a carreta a ss emelha-se ao
carro comum. pode n do ser puxada indistintamente por bestas ou bovinos, se
bem que se presta mais para boi s. Em regra, só se emprega nos acarretas das
searas. nos dos f enos e n os das lenhas.
Carro Manchego E' o mais antigo de todos os veí culos usados na lavoura.
D e construção pesadí ssima e bastante sólida, suporta cargas
imensas. resistindo e aguentando-se nos solavancos dos caminhos escabrosos.
- 220 -
A T R A V J!. S DOS C AMPOS
t ao vulgares n os n ossos campos, e isto devido à estr utura an tiquada do seu
roda do. E n quan t o que nos out r os v eículos, a s rodas giram sobre o e IXO. no
velho carr o manch ete sucede exacta mente o cont rário : - o eixo é que gira
sobre dois vãos especiais, pendentes dos limões, cada qual formado por duas
peças de madeira - a 88u/ha e o r ecocão - e é desse gir o que resulta o m ovi-
m en to das r odas e portanto o do carro. ( 1) M o vi m en t o custoso e d emorado. que
produz uma chiadeira doI ent e e aguda, quando caminha vagaroso. vergan do ao
peso do ca r regtri o. A r ot ação do eix o r ecendo n a clxumeceire produz esses gemidos
si ngul a r es -acantareJaca racteríst ica e incon fun dí vel. que s e ouve de muito l onge,
sobretudo à n oite e de madrugada. em son s p enetrantes, de s ugesti va melancoli a.
O l ei t o do carro manchego de l
"
",80X 1
rD
,18 é igual mente to sco, ten do a vara
ou peri t ica 2
11I
,50, con ta dos, é claro, desde a teleire, a té à pon ta . À s espigas que
prendem a o eixo em vez de serem de f erro, como os mata-bois dos outros car ros,
resu m em- se n umas peças de pau, a que já aludi - a a8ulhIJ e o recocão - peças
que passando perpendicular mente a tra vés dos limões e da chumsceire, prolon-
gam-se e r ecurvam para baixo, de modo a deixa rem, entre a mba s, vão su 6ci en te
para o giro do eixo, com o j á di sse. O s Icei ros, prí vedcs de te ndais são com-
pridos ou curtos, conform e a n a tureza das car radas.
O carr o em ques tão, além da s parti cularidade s singu lares que fi cam referi-
das. d est a ca-se t amhém pel a consti tuição das suas duas rodas, bastante diferen-
t es d a s dos outros carros. N as dos manch egos não h á massas, n em raios, n em
pines, mas sõmente cãibas e miulos. E os aros de f erro, em vez de Inte iriços, d e
uma só barra, constam de diversas l bant ras presadas à s caibas, com p r egos de
grandes dimensões .
C a da r oda, de 1
11I
,12 de di âmetro, compõe-se de duas cgibes, que lhe formam
a circunfer ência, e do miulo ou prancha qu e se lhe atravessa a o cen tro, e que
no m ei o. num buraco que dra n gula r, r ecebe e a tar r a ch a a ponta do eixo.
E m resumo, o mesmo carro, n ã o obstante o s eu f eitio pesado, há-de a i n da
persistir por muitos anos, posto que j á n ã o tenh a o u so que t eve outrora.
S em embs t go, n o atraso e desleixo de viação ( 2) que infelizmen te se observa
por essas h erdades fora, convém u sá-l o em determinadas circunst âncias, n a s
zonas de maus caminhos.
Carrinho de varais À part e a r ed uçã o das f ormas e a s ubst i t ui çã o da per itice
por var ais, de que toma o n ome, é em tudo igual ao
carro comu m, próp rio pa ra par elha.
(1) o t ipo mal • • oti, o dOi u no. do. r OIll. OO' . o DIllu tr um. t.iDh. rod .. ch.i•• e .pru eo,h'" ut. pudu.I. r1d. de
.11' 0. d. 'er Dot. d•• 1111' .lo , J uu , oJ.Io ' , mllalJ.. c. J. um. de um. , ".rl.." ceDl r.J, d e lor... t/u.J"J• • C,.III Up" .J., , obn :
01 e; .ol JIl PIU. o. C!DaI. Ir.m ' Du o,uldOl de pino. (too riUOJl. ) n doDdo. , II' Tllli tll:. à o· l b.. , b u IODn o , ano. Eu. modo d.
ee.... u'G( l o Iam· .. 0:00",.....1 0 .ti hoie.m Por lo,a1. t. . iod • •0Dn " 11 dilO q Ui O. iJld" c.oll d. IIh. Fonnou COJl.uorm
o. n a' cano• .
R.••I......" . Coup J 'orl1 . ..r J'HIJ I . J u d orrJ oppc metltJ de, M. chi tl u J.,., I' HulII. nil• • • P" . 15.
Cd Apun d• • an. doru .lu , u :adu ...tI....1.1• .1.. do Al c.nt. io u ta UIII nt.lb.dOl por ""'''IIUO' '' utndu, a1' IIIllU
d. o,ullld. dc. PÓDUU 11I11110 dl. cad....i , bnrlldo· .. • ti q.. . .,10 p....m d. mno. puulo• • DO d. ......idli u d. o a Oll ou tr o
'0.80. 01' _ O. ' .IIIPO' . fuI. do• .lu , n .. du po..o. ( 15u, POli' " u tud• • pouo.m • ' " '" POIl C" uti o Du m d. plor '",1 II r. do
d. ' 00" ..... ' 10.
- 221 -
ATRAv t S D OS C A M P OS
Destinado a uma s6 besta.. o carrinho alodído usa-se mui to no serv i ço de
xecovagens dos montes e nos transportes de hortaliças, água, etc.• havendo
lavouras que empr egam dois e três. À medida que se vai abandonando o sistema
de cargas em cen gallxas e albardas sobr e o lombo de burros e muares. aument a
o emprego dos carrinhos, com vantagem para Os donos e alívi o par a. as bes tas.
Ceifeiras Apesar de traduzirem um adiantamento no progresso da agri cultura,
o emprego quase experimental que delas tem feito alguns lavradores
da região el vense, foi.. ao que parece, tão pouco satisfatório qu e os mais deles
n ão t êm prosseguido com a inovação. abandonando-a como des vantajosa por
enquan t o, sendo 8 principal razão esses maquinismos funcionarem mal nas
l avradas de rego l argo e sul co aberto. sistema usado na s searas de sementeira
outonal e então Indispens ável nos ter ren os úmidos e alagadiços. No ent ant o.
devemos crer que com o t empo, e após alguns a perfeiçoament os que se lhes
venham a introduzir, as ceifeiras hão-de implantar-se a valer entre n ós, nas
zonas que melhor se prestem à sua adopção. Nestas condições, ninguém deixará
de as empregar, como de há muito se empregam as debulhador as. Pois umas e
outras foram a o mesmo tempo oferecidas e apresentadas à. experiência do l avra-
dor, n ão só pelos agentes das casas construtoras, mas também pelos poderes do
estado, no l ouvável intuito de desenvolver o progresso da agri cultura. (t) Mas-
coisa notável- as debulhadoras pegaram e multiplicaram-se, ao passo que as
.ceif eir a s quase se pode dizer que ainda não sairam do campo de ensaios, de
resultados práticos algo duvidosos . E é pena que isso aconteça.. dada a. falta de
braços que sempre se faz sentir por ocasi ão das ceifas. não obstante o avulta-
dfssimo refor ço de ceifeiros que as Beiras feenecem ao Alentejo.
Charruas Introduziram-se há uns 25 anos.. mas já ante s h aviam sido experr-
mentada s p O'I vários lavra dores. Todavia, s6 começar am a usar-se
efica zmente aí por 1880. di fundindo-se mais n os ú ltimos dez anos . A s que se
empregam. são as de tipo pequeno. para l avouras super6.cia is, conhecidas por
cbarruecas ou ar ados de e ívece móvel, para uma junta ou par elh a. dos n." 1 e 2
e suas varian te s. E stas pequenas charruas, são de reconhecída van tagem no
preparo dos al queives. cuja lavrada 6.ca incomparàvelmente superior à do
arado romano.
Chavelha P eça de f er ro que pr ende a pon t a do arado a o apeiro da cengn.
Chavelhão À chavelha em tamanho maior, a pr opriada ao engate do carro de
muares. Distingue- se pela cabeça ou prolongament o supesIor, de
un s d.ez centímetros a cima do orifício da vara on de engat a.
(tl o mh.J. lhlo .I.. ohr .. pdhlJcu l.cllll ol1 h' lUlO• • u Inudoru do dhlri lo d. Por hJdu dll u u ltu rd4l1ia...' r!_
coi ... u mo ceHdr... d. hIlIL. dor ", p.la fona •• conél i,lI.. ClII . ..dJ.ou u fulu l, qll. ado Iraur d.. d.boIL. dor...
- 222 -

ATRAV!. S D O S CAMPO S
Chavões Timbr es de madeira de buxo, para marca r bolos. caprichosa e linda-
mente esculpidos a canivete pelos gen adeiros e outros h omens do
campo. Fabricam-nos por entretenimento e vocação, nas horas vagas, assi m
como m uit os outros objectos de madeira e chavelho. para oferecerem 80S amos
e a pessoas de amizade.
Chocalhos Veja-se o arti go Ganadeiros. na página 102.
Ch u rrião Carro de cómodo pessoal. puxado a parelha de muares presas à
cange e arreatas. (1) Este car r o salienta-se pela armação gar ri da que
os ten t a - barraca permanente e luxuosa, em forma de canudo - com ou sem
assento s no l eito -mais u sado pelos I ãvradores e s uas famílias, do que por
gen t e .d e outras classes.
A s ua introdução n o concelho de Elvas data de há 50 a 60 anos, época em
que se desenvol veu o gost o pelas parelhas de muares, e, consequentemente, por
est e género de veiculas, único compatível com o a tr aso da viação e dos costumes
do tempo.
O churrião compõe-se de todos os pertences essenciais do ca rro comum.
acrescendo-lhe a armação do t ej adil ho (aros. cani ço. etc .), com revestimento de
linh agem ol eada a cores mi r abol ant es na parte exterior, e, interiormente, forrado
e de corado com estofos, borlas. guar n ições e cortinados de juta e outros arte-
factos, de maior ou menor custo, segundo o gost o ou os mei os do possui dor. (2)
Q ual quer destes transpor t es, pintalgados de verde, azul, encarnado ou
amar elo.. com traços, inici ais do dono e data do a cabamento, a cor es berrantes..
espalhafatosas, se não denotam elegância, t ambém se lhe não podem chamar
feios. Têm pelo menos o cunho ret intamente alentejano. que os torna incon-
fundíveis. E alguns importam em subi do custo, pelo valor dos tecidos que os
guarnecem interiormente. O s churriões privados de bancos - e não os têm
muitos, incluindo mesmo os l uxuosos - a falta de assentos. é suprida por
almofadas presas às enf u ei r adur a s e por um esteirão e colchão de lã. sobre o
tabuado do leito, a que se adiciona vistosa coberta de ramagem. D es ta maneira,
quem se transporta em churriâo sem bancos, em vez de ir assentado. vai encos-
tado às almofadas de pernas estendidas sobre o colchão, quase deitado. N ão é
das posições mais incómodas, sobretudo se o l eit o a ssenta em molas de aço.
como já é fr equente. Se, porém, fa lta essa vantagem, mal vai ao passageiro.
Às tá buas e as «molas de azinha» ( a) põem-lhe os ossos a rabiar. Q ue, se for
ta) A. pan U. .. Clu. u .hal h. m .0 ch lll'l'llo. do pan u .. efcl lo e.. . . la...d.. com ..I. tuo&. &. P%U IO" D tn o. mumo.
dUlu.m.,. .. 'v1.. a.. &. .. c.abruua.. ou c&.6cud... com l n a j.. . bodõe. a. tuido• • m cor c.nlIU'ÚQ ouU" UlIlIt O
..I..... que eacobre m a m. lor pUII d. cabaça do. '1I Imail.
( 2) A cOllfcc clio do. chllltl õ.. co.tuma "1' e:uc" lad. por u rpilll abo. de urn&. or dill l.riol. ou por c"rio.o• • fam.do&. •
• rt .lto.o, com "ueJ. pua pllO/orle ... S. o cano ' ar mado .. preparado 100 moaI' , .. fiU... moe u do !a YCador .upcdlltc.,dem
., a obn e co.dju..am o ar ri" ••
(a) Fr.... plcu"n pOICl O' ' 1. tndus • • u.fll d a d. moi ... tom• ., do-.. por ..moi .. de uillho_ o. lima". • o .Ixo etu•
.m h l. ... Ião am n ,ra d. uf" id. m. d.ln.
- 223 -
ATRAvtS D OS CA M P O S
em assent os, decerto não vai melhor. Sofre igualmente as sacudidas dos topes e
estonteantes cabeçadas. No melhor dos casos irá sempre fazendo mesuras, ao
impulso dos solavancos.
Quando o chunião começouaap a recer DO Alentejo, somente o usavam 05
lavradores de fortuna . D epois generalizou-se imenso até 1878 ou 1879, época em
que principiou a decair. Na actualidade mais se lhe acentua a decadência, posto
que Das feiras e romarias ainda apareçam m uitos carros de semelhante tipo,
mas decerto em menor número do que se via há vinte anos.
Pela redução progressiva que se lhes nota, tudo l eva a crer que est á pró-
ximo o se u fim. O s carros de molas denomi nados cher-ê - bencs, sendo. corno
são, muito mais cómodos que os churrí ões, empurram estes par a f ora da estra-
das moder nas, a niquilando-os em absoluto, ou reduzindo-os a uma circulação
humilhante. que não irá além dos caminhos escabrosos, abertos ao acaso.
* * *
Coadores Panos de estopa, por onde se coa o leite quando chega do bardo e
se vasa dos cântaros para as asadas. - P eda ço de casteleta ou de
burel, para coar a solução do cardo macerado que se mistura no leite, anm de o
coagular.
Cobra Corda de cabelo, provida de colares do mesmo género, com que são
encobradas as éguas para, nas eiras, debulharem os cereais reunidos
em calcadouros.
Co r das Àrtigo de que precisa haver abundante pr ovisão em todas as lavouras.
Usam-se de j unça, de esparto, de linho e de ca belo. As mais usadas
são as de junça, pela sua extrema barateza e valor, que n ão despertam ideias de
furto aos serviçais que as empregam, como acontece com outras melhores e
mais caras. Sobre o custo e dimensões das cordas, veja-se o artigo Cordoeiros,
na página 96.
Carneira s Correias tiradas de couro cru, com que se prendem os bois à cange,
Cornas Vasilhas de chavelho, COm rolhas de cortiça, em que se transportam
merendas de carne, a zeit ona s, etc.
Cou ros O s das reses bovinas que morrem, reservam-se para se retalharem em
correame destinado a ape iragem das muares e dos bois. S e a existên-
cia é superior ao gastos do consumo, os couros de sobejo vendem-se 80S peleiros
ambulantes, que os procuram de vez em quando.
S e um l avrador carece de couros para s peirs8ens, em virt ude de lhe não
morrer gado, demora quanto po de a compra desse artigo. Uma super sti ção vul-
gar diz-lhe que em compr a ndo couros, te rá morrinha nas r eses.
- 22r. -
ATRAvtS D OS C AMPOS
Debulhadoras R epr esentam a a lfaia agrí cola moder n a mais perfeita e vanta-
[osa, posto que o se u custo seja relativamente caro e inacessí-
vel à bolsa do pequeno e do m edia n o la vra dor .
As debulhadoras mecânicas estão de há m ui t o introduzidas n o concelho de
Elvas e nos limítrofes. Quem primeiro as empregou n es ta região, foi o fal eci do
J oaqui m Lúcio de Cout o, lavrador abastado. inteligente e empreendedor . que no
ano de 1879, tendo u ma seara i mportan tíssima e reconhecendo a i m poss i bi li-
dade de a debulhar a tempo com a s suas éguas, a lugou, para maior despacho, a
Sebast ião Alvarez, de Borba, u ma debulhadora R..snsomes. de que fez uso.
P ela primeira vez silvou então u ma locomóvel de mãqutna agrícola nas ub ér ri-
mas campinas elvenses. cabendo essa honra à herdade da Gramicha. a poucos
quilómetr os de Elvas. O s silvos levaram longe a fama da nova máquina, mara-
vilhando os campónios que ouviam a descrição do engenho e mais ainda os que
o viam funcionar.
a próprio sr. Couto tão satisfeito ficou com o resultado que. poucos anos
depois adquiria uma debulhadora Garrett. de que usou até. trespassar a lavoura.
Mas ao tempo de o sr. Couto adquirir a Garrett, iá os srs. Reynolds. de Estre-
moz, haviam utilizado outra máquina Das eiras da sua lavou-ra do Reguengo de
Baebeeena. Todavia, ninguém mais dos sítios abraçava o novo sistema de debu-
lha , que, apesar de perfeito, era cseo e mal compreendido pelos trabalhadores
rurais.
De 1881 a 1889 nenhum lavrador de E lvas adoptou as debulhadoras, já pelos
motivos expostos, já por que a agricultura alentejana debatia-se, então, an gus-
tiosa 80S efeitos de uma crise medonha que a arruinava. N ã o obstante. o tempo
e as 'ideias da época venceram todos esses obstáculos. como adiante se verá.
Nas circunstâncias que se davam. não é para admirar que fosse preciso o
decurso de oito a dez aDOS par a se desvanecerem as dúvidas e desconfianças
que sempre acompanham todas as inovações. Historiemos:
No ano de 1890, encontrando-se por acaso, num comboio de viagem para
Lisboa, os ses . R a miro MarçaI, agrónomo do distrito de Portalegre. Francisco
da Silva Lobão R esquil be, la vr ador em Santa Eulália, ambos encetaram pales-
tra sobre questões agrícolas, vindo à tela a especialidade máquinas.
D isse o primei ro a o segundo que. se os lavradores quisessem empregar cei-
feiras e debulhadoras mecânicas, julgava possível obterem- nas do govervo, al u-
gadas, bastando para isso r equ erê-l as com empenho à direcção de agri cultura.
medi ant e o compro misso de l hes dar em tra balho avultado. A u ma e outra coisa
se pro ntificou imedia tam ente o sr . R a sq ui lh a, acordando l ogo com o ilustre
agr ónomo i re m os doi s no di a seguinte à pr es ença do SI. Elvino de Br i t o,
dir ector geral de ag-ricultura. para lhe ex porem a pretençã o e p edir..lhe defe-
ri mento.
Assim o fiz eram efectivament e. obte n do do Sr. Elvi n o as melhores
promessas.
Em abril do mesmo ano, visitando a ci dade de Portalegre, o mini stro das
- 225 -
ATRAV:tS DOS CAMPOS
obras públicas. sr. F r eder ico A r ouca, o S I . R amiro, num discurso que pron un-
ciou no banquete dado em honra daquel e estadista, lembr o u, entre ou tros alvi-
tres de protecção aos lavradores. a conveniência do Estado lhes alugar máquinas
agrícolas. de que eles se pudessem ut ili zar com provei to, sem grande sacri fício
pe cuniário.
Como representante do governo, prometeu o sr. Àrouca dispensar essa
con cessã o, que já de há muito existia na sua mente, a par de out ras
medidas que tencionava pôr em prática para atenuar a crise agr ícola que naquele
tempo flagelava o país e especialmente o Alenteio.
Com efeito, ao aproximarem-se as colheitas chegaram as prometidas máqui -
nas. N 8 estação de Santa Eulália desemba rcaram uma locomóvel e uma de bu-
lhadora .Clayton» e uma ceifeira eOsbcrnee . Na de P ortal egre ou na do Crat o.
:6cou uma compressora.
A debulhadora serviu por bastante tempo nas eiras dos SISo Francisco da
Silva Lobão Rasquilha e J osé Joaquim da Silva. O primeiro aplicou-a à debu-
lha do centeio na herdade de A l meida. freguesia de Santa E ulália. e à do trigo
na do Revelhos, concelho de A rronches, e Reguengo, freguesia de Barbacena.
O segundo empregou -a em centeio, n a herdade do Ba l clio do Con d e. junto a
Santa Eulália, e também em trigo na eira d a s Longas, freguesia da Ventosa.
Nesse primeiro ano o al uguer da cC layton» fo i de 10 o o sobre o velcr dos
cereais debulhados, e mais os seguintes on us pa ra o l a vr a dor :
Prévia reparação dos ca minhos por onde ouvessem de transitar as máqui -
nas, sua con d u ção para o local da ei r a ; reconduçã o pa re. o depósito ou pont o
que particularmente se convencionasse, e finalmente, f or neciment o de água e
combustível, bem como vasilhas para água .
Todas as des pesa s feitas com o pessoal empregado n a debulha fi ca vam a
cargo exclusivo do governo, sem a menor remu ner ação p or pa.rte do agricul tor .
R econ h eceu-s e a carestia de se melhante aluguer. a inda onerado por con di-
ções gravosas, e por i sso. e em resultado de propostas a p resentadas às estações
competentes pelos agricultores srs. L obã o Rasquilha e M iguel de S á N ogueira.
determinou-se superiormente que os dez por cento fossem r eduzi dos a sete pa ra
o trigo. seis pa r a o cen teio e ceva da. e cinco pa ra a a veia. subsisti ndo n est es
novos contratos todas as demais condições at rás descrita s.
Este redução foi recebido com u n ânime a plau so e logo s e lhe r econh eceu a u ti-
lidade. O número de propostas para a s debulhas das colheitas de 1893 passou a ser
mui t o superior às dos anos anteriores em que se pagava a primitiva p er cen t egem-
Mas. ou porque a quanttdade dos cer eais a debulhar foss e grande, ou por-
que as máquinas gastavam muitos dias n o t ransporte de uns pa ra o u t ro s sítios,
é eer tc que a deb ulha dor a n ão pôde satisfazer em t em po oportuno a to das as
propostas apresentadas e aceites. E com o a época das colhei tas ia decorrida. sem
que a s má quinas saissem das ei r as em que t rabalhava m n os con celhos do Crato
e P ortal egre. os proponentes de El vas e os de Arronches. desistiram. das suas
propostas, à excepção dos SIS. Lob ão Rosquilha e José da Silva, esperaram.
- 226 -
A TRA v tS DOS C A M P O S
mas que só foram servidos quase no fim do verão, demora que muito os contra-
r iou, como é fácil de presumir.
De resto, a debulhadora do gover n o ainda depois debulhou parte da sear a
do Dr. Gorião, na Várzea Redonda. concelho do Alandroal, distrito de E vcra.
Contudo era manifesta a insufici ência de uma ú ni ca debulhadora na sexta
região agronómica (distrit o d e P ortalegre). r egião eeeé s exte n sa , on de h á zonas
cerealíferas de import ância superior.
Impunha-se por consegui n te a ne cessi dade de os poder es públi cos adquiri -
tem outra máquina análoga , estabelecen do-se dois dep ósi t os oficiais. um 8 0
norte e outro ao sul do distrito. O f uncionamen to de uma só debulhadora t or-
nava-se desvantajos a par a os agricultor es e pa ra O própr io E st a do. A s máquinas
quase que gast avam tanto tempo em caminhadas como nas debulhas pr õpei a-
mente ditas.
O inconveniente era poi s manifest o e ur gi a re mediá-lo. M as como a sol u-
ção demorasse, r esol veram ir solicitá-l a verbalmen t e os srs. August o de A ndrade,
grande propriet ário do concel ho de E l vas e Lobão R asquilha, l a vrador no
mesmo, os quais se apresentar am de l acto e par a esse fim ao sr . Elvino de Brito,
que logo prome teu satisfazer- lh es o em pen ho, com a máxi ma boa vo ntade.
E.fectivament e, pouco t empo depois, a Direcção Geral de A gri cultura,
remetia para Elvas uma segunda debulhador a ...·Clay ton xo , afi m de ainda servir
nas colheitas de 1894.
Mas não foi isso possível, porque qu ando a nova máquina chegou, j á as
debulhes haviam acabado . Em t odo o caso, as providências para os anos futuros
pareciam asseguradas. E es t avam com certeza. Nesse entretanto, ou passados
meses, foi definitivament e r esolvida a instalação de dois depósi to s de máqu inas
agrícolas no distrito de Portalegre, providências que se t omaram l ogo . montan-
do-se um depósito ao n ot t e do distri to. com sede no monte da Cruci eira, concelho
do Crato e outro, zona do sul, na aldeia de Santa Eulália, concel h o de Elvas.
Entre os agentes do gover n o e os senhorios dos prédios que se adapt aram a
depósitos, acordou-se nê o pagar ao E stado renda alguma, mas em compensação
terem a preferênci a os donos do s armazéns no al uguer e u so das m âquinss.
Ao passo <r ue o governo e os seus delegados nas regi ões agronómicas do
sul, concorriam para o empr ego das debulhadoras de cer eais, as casas constru-
toras estrangeiras. por intermédio dos respectivos depositários e agentes. come-
çavam também a procurar os lavradores para venderem essas e outras máquinas
agrícolas. Semelhante propaganda, conj ugada com o enorme des envolvimento
que a agricultura tomou de 1894 para cá, frut o das leis protectoras dos cereais.
promulgadas nesse meio t empo. deram em resultado a aquisição de muitas debu-
lhadoras por parte dos la ..... radores, Em dois ou três anos compr ar am-se tantas
que 05 poder es do Estado acabaram com os depósitos oficiais. instalados em 1890.
Reconheceu-se que exam então já desnecessários, por não passarem d e elemen..
tos de vulgarização. Deve:riam sim conservar-se, se a par das máquinas h ouvesse
- 227 -
A T RA v t S D O S C AMPOS
pessoal competente, expressamente incumbido de instruir os campónios qu e
pret end es sem aprender a trabalhar com elas. Que esses dep ósitos fossem centros
de escolas m6veis, di rigidas por práticos assás familiarizados com a s engrena-
gen s e funcionamento dos maquinismos. Mas os depósit os não tinham seme-
lhante carácter e porta n t o não se tornou sensível a sua ext i n çã o.
. . . . . ... . .. . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . .. . . . . . . . . . . ..... . . .. . .. . . . .. .. . ... ....
N o concelho de E lvas há hoje 17 debulhadoras dos si. temas . Cl ayt on. e
«R us too» (1) qu e trabalham n a s eiras dos respectivos proprietári os e a lgumas
s ervem também nas do s la vradores vizi n hos que 8S tomam de a l uguer, por não
quer er em ou n ã o pod er em possui r máquina s ue . O preço do a luguer cost uma
ser de {JOi o do valor do cereal debulhado, ac re scendo o custo do combustí vel,
águ a e salários do pess oal empregado, com ex clusão do maquinista, fogu ei ro,
ali mentadores e oit o homens auxiliares para chegarem os molhos. E.m r egre ,
estes oito h omen s pertencem à ganharia da casa, mas o dono da máquina a bon a
ao lavrador o custo dest es salários. P or Sua parte o l avrador costuma dar comida
a o maquinist a, fos uei ro e aUmentadores qu e, como já fiz ver. vencem por conta
do proprietário da máquina.
E.m anos abundantes. as debulhadoras não chegam para as n ecessidades do
concelho, como aconteceu no verão de em que a s eiras te rminaram no
mês de setembro.
..... . .. . . ... . .. . .. .. ..... . . . . . . . .... .. ... ... . .. ... . . . . ... . .. . . ' - .
Q uando as debulhadoras vieram, o pessoal campónio vociferava contra a
inovação que, diziam, vi nha baratear-l he os salários e simplificar extraordinà-
riamente as colheitas. Com o rendimento espa n toso que as máqui n as produziam
(a crescentavam eles), os trabal hos das eiras durariam dois terços menos do que
pelo sistema antigo, e por cons egui nte que fazer depoi s, desde o meado de
Julho até ao S. Mat eus ? Em que se haviam de empregar nesse tempo cente-
n as de pobres, n ão havendo sea ras a debulhar, ser viço ú ni co, que entretinha.
antes t oda a gente até a o fim de agosto ? A s interroga ções pareciam ter f unda-
mento sé ri o, digno de r eílexâc, e não po uco s lavrador es se pr eoc uparam com o
caso, te men do cri s es de falta de t rabalho, a par de vinganças t rai çoeiras dos
que ost ensiva ment e clamavam contra a introd ução das máquinas, ameaçando
os lavradores que as usassem.
Como porém o homem põe e D eus di sp õe, os factos subsequent es vie ra m
dissipar todos esses r eceios, desvanecendo também, se n ão n o t odo, pelo menos
em grande part e, as antipatias que 8a nhões e t r abalhado r es al ardeavam contra
as máquinas. É que com a vinda desses modernos e poderosos engenhos coinci-
diu a protecção à cul tara cerealífera, que deu em resultado o ela.rgemento enor -
mí ssimo dessa mesma cultura e por consequência a precisã o de braços e a subida
impor tante n os salários e sold adas.
( t ) A d.J:I1;.Ilr.adora .RaIlOtl. alc atl u a o prlm. lro prlmlo tiO COtlCUrlO d. m'qalftu, qUI ee realizou ucaaUDl tftfl ftl
eld.da d. t.ou. Mio timo. lIutealio dI l uu r.c1 am•• ca .. eOIl.trutora d• • u 110m•• m.. u:rl. ocuh., o na
triaftfo aI CIIII1&1 do Al afttf jo.
- 228 -
ATRAvt s DO S CAMPO S
Nunca os ga.nhões e jornaleiros ganharam t anto no verão como ganham
depois que as debulhadoras se difundiram. Ainda bem que assi m sucede. conci-
liando-se 09 i nter esses que pareci am antagónicos. (J)
* * *
Dente Parte do arado onde se introduz o feuo que lavra a terra.
Eixos Para carros de muares. usam-se de madeira e de ferro, predominando
os de madeira nas gran des lavouras. O s de ferr o, exigem cui dados de
conservação, que a mai oria dos carreiros não que re m ou não sabem dispensar.
Os ca rros manchegcs e as carretas montam em eixos de madeira.
Enfardadeiras Máquinas compr essor as de pal has e fen os que há vi nte e tant os
en os se introduziram n es ta r egião, e que ultimamente se tem
gener al izado bastante.
Movidas pOI parelhas de muares, ou a va por , que por um e outro processo
funcionam em n úmero avultado por todo o concelho de Elvas. são de notór i a
vantagem para a a gricultura cer eal íf era .
Com tais m áquinas aproveitam-se as palhas em a bsoluto, reduz-se-Ihe o
volume por efeito da prensagem, e assim enfardada e comprimida em fardos de
fácil carregamento, deixa-se em ótimas condições de ermeeena ãem, conservação
e transpor t e. Precisamente o inverso do que sucede com a palha a gr an el, que
se desp erdiça imenso. tanto nas almenaras e palheiros, como nos transportes
em redes.
Em gera l. as enfardadeiras pertencem aos negociant es que compram a palha
aos lavradores. e tra balham, é claro . por cont a dos mesmos negociantes.
Há. porém. lavradores gra ndes que prensam as palhas com máquinas suas. e
out ros que as al ugam.
Enfueiradura O con j unt o dos fueir os e tendais de u m car ro.
Enteichadura O t odo de um arado, com seus respectivos acessórios: «ferro».
canga, chavelha, aguilhada e correame.
Enxadas Ferramentas de ferro, largas e espalmadas, de cabo comprido de
madeira. com que se cavam as t erras para batatas, melanciais,
vinhedos, etc. Adoptam-se de dois feitios: rasas ou rsseires, e pontessudas ou de
bicos. Às primeiras, servem com vantagem nos terrenos arenosos, de fabri co
fácil. Às segun das. usam-se nas terras argilosas e em outras que ofereçam
re sist ência.
h ) o ,ui. etg, nu, dbu , gbt. d. bQtb.dgtU, t.1 como o " Q tu.dlm.at o d, d.balb. cu dH.u c tu ennl. , p.uotl
40' OCOP'lII . ere., lie. tUlntdo PUt o ulI!l ulo qg . tl'.tt d.. eotL.hu,
- 229 -
ATRAV e S DOS CAMP OS
Enxadõe s Instrumentos semelhantes às enxadas, diferenciando-se pOI serem
mais grossos e compridos, mas menos largos. Com os enxadões
procede-se às desmoit as do piorno, gi est a e outros ar bustos, e aos arranques ele
cepa. São utensí li os que se confundem com os alvi ões, se bem que os alvi ões
cost uma m ser mais f ortes, estreitos e compridos.
Enxó Fenamenta de carpintaria, que. com outras, o abegã o trás na lavoura
põrpriamente dita, pata consertar os arados e renovar-lhes as sfveces.
Esca das Encontram-se de várias dimensões e altura em todas as sedes de
lavoura, servindo princi pa l m en te para os homens treparem e proce-
der em ao asseteamento de almenaras, malhadas e pocilgões.
Escopro Instrumento de carpíntaria que também a companha o a begã o para o
conserto dos arados. Serve para alargar O buraco das AarAantas por
onde entra a t eit ó, e o dos arados em que se aloj a o mex ílho,
Espartões T ecidos de espar to em fo r ma de esteira" que, em det erminados
acarretes, gua rnecem e revestem a s enfue iradur as dos carr os.
Os espartões vinham antigamente de Espanha, mas na ac t ualidade prepara m-
-se em Elvas e em outros centros agrícolas do país.
Est acas Varas de azinho com Iorca, que amparam as can celas dos bardos. -
Paus curt os e grossos. que se cravam no selo, junto aos manAedourais
l
para se prenderem os bois. • Prender à estaca». como se diz vulgarmente.
Es teios Paus compridos com esgal has. que se aplicam nas construções dos
bardo. de cabras, malhadas, choças, etc.
Esteiras F azem-se de bun.ho, colhido de verão nas ribeiras. Servem para as
camas do s cr ia dos «de portas adentro». e para col ocar sobre os ce rrcs,
quando transportam sacos com cereai s. N os mont es costuma haver provis ão de
esteiras. feitas por q ualquer eneendídc, nas ocasiões de poucos afazeres, ou às
horas vagas, por amor à arte ou mediante gorgere.
Esteirões Usam-se de tecido de palma, comprados nas fei r as aos algar vios.
para aplicações semelhantes à das esteiras.
Ferrados R eceptá cul os de barro tosco ou de l ata, com duas asas e a compe-
tente bica, para onde se ordenham as cabras e as ovelhas. Os des-
t inados às ovelhas, são mais pequenos. Num bardo de ca bras e num a prisco de
ovelhas. empregam-se t rês ferrado s pelo menos, que aí permanecem em toda a
época : dois ou mais, para os ordenhas, e um, o pi or, para os cães do rebanho
comerem as perrumss, de mis tur a com águ a e l eite.
- 230 -
ATRAV r. S DO S C A M P OS
Ferros de arado Cada lavoura, bem provi da, cost uma t er «ferrosp n o t ripl o
do número de a rados q ue «dei ta» p el a s emen tei r a outonal,
ou sejam três ferraAens complet as: uma para estar em servi ço, ou tr a de r eser va,
pronta a s ubst it uir aquela, e a t erceira na l oja do fer reiro a conser t ar .
ferros de marcar gado Todos os lavradores têm «ferros» par a ma rcar a fogo
os seus ~ a d o s , sendo mai or es os que se aplica m a os
gados b ovino, ca val ar e muar, e pequenos os que se empregam n o ga do rrr íudo,
como ovelha s, cabras e p orcos. E stes f erros representam iniciais ou m anogr a-
ma s dos n omes dos possui dores ou dos seus ascendentes, mas também há lavra-
dores que os usa m em forma d e cruzes, es t rel as, tra ços, etc. Em certas «casas».
o ferro dos s ados miudos é de configuração di versa do reservado para os gados
vácuum, cavalar e m u ar .
A catalogação comf l et a e conscen ci osa dos fe rros dos gados em P ort ugal ,
devia estar f ei t a de h á muito, const i tuindo objecto excl usivo de uma obra q ue
faz fa lta.
Temos es pe rança que n ão tar da rá a s ua publi cação. A o que pa rece. di sso
tratam h omens competentes, que já anunciaram e que t êm solicitado os i ndi s-
pensáveis informes. D esse a n un ciado livro é pri ncipa l aut or o sr. Vitória P er ei ra.
oficial do exér cito. que em 1887 publicou um trabalho útil sobre o mesmo assunto,
mas defi ciente. a avaliar pelas la cunas que se lhe n otam na parte que respeita
ao concelho de El vas. É. de justiça acrescent ar que dess a defici ên cia s6 foram
culpados a lguns criado res el venses, que se ndo con vidados a dar os precisos escl a -
recimentos, esqueceram-se de os fo r necer . Ainda a ssim, n o catálogo do sr. P er eir a.
publicado em 1887, mencionam-se 275 f er ros portugueses ( 1), sendo 237 conheci-
dos e 38 classificados descon h ecidos.
Entre os 237, figuram 1S de l avr ador es do concelho de E l vas, e nos 38 inse-
r em- se 4, também deste t ermo. Dezanove, porta nto, número mui to inferior à
realidade, mesmo Dessa ép oca. H oj e então ascendem ao dobro ou tripl o. Oxa l á
todos venham es t ampa dos n o livro que se asuarda .
Foices S ó se encontram em limitado número en tre a a lfai a ri a agrícola de um
lavrador. Em geral. p ert encem a os própri os ceifei r os, sen do t odas do
feiti o comu m e anti quí ssimo que já usa vam os gau leses. O s l avradores somen t e
possuem foices para a ceifa do alcácer ou verde que dão às bestas e aos bois na
pr ima vera.
forcados U sam-se de pau e de ferro, para chegar molhos aos carros, e
também n os serviços das eiras e outros. O s forcados de pau eerr-
cozem.. selt ao foSo. quando ainda es t ão verdes, entalando-se e comprimindo-se
entre os degraus de uma escada «de mão», onde se conservam alguns dias, a tados
- 231 -
ATRAvts DOS CAMP OS
pel a s po ntas, para adquiri rem a volta e queda. apropriada. D epoi s são aperfei-
çoados pelo ca rpinteiro.

Fo r qu il has Empregam-se de madeira, e são providas de quatro a oito dentes
de za mbuje iro. S ervem principalmente nos trabalhos das eiras,
para o que se preparam e consertam n a s véspera s das coLheitas.
P ar a as r emoções de estrumes e palhíçcs, adoptam-se forquilhas de ferro,
de diferentes model os e procedências.
Fueiros Paus que compõem o engradame nto e vedação dos carros. entre os
limões e os ten dais .
Gadanhas E spéci e de fo ices mu ito largas e compridas. que servem para cortar
os fenos. M an t êm em absol uto o tipo prim i ti vo de que há memória.
Em regra, estes instrumentos agrícolas não pertencem ao lavrador . mas sim
aos gndan h ei r oa, que os manej am. O lavrador possu i por acaso u ma ou duas
gadanhas para o corte de fenos a j ornal. sistema que s6 adopta em pequena
escala e por excepção.
Gadanheiras C om eçar a m a empregar-se nos últimos anos. de vários sistemas,
nas lavouras grandes, onde se experimentam as prmcrpa rs Ino-
vações. D ã o resultado nos terrenos planos e lim pos de pedras.
Gamelas V asilha 5 de madeira, para os bois comerem p alha com farinha,
fa relos, etc.
Garganta P eça de madeira que, sobreposta na ponta, constitui a parte do
a rado chamada timio. V ej a-s e Arado.
Oolpelhas Va silhas de palma para condução de palhas e de muitos outros
artigos que se transportam em bestas com aparelho de ca rga.
Á s golpelhas maiores chamam-se-lhes ceirões, D a s pequen as faz- se larga pro-
vis ão. po r serem aplicáveis a muita coisa e estragarem-se depressa.
Grade Em agric ul tura. dá-se este n ome ao inst r umento que destorroa a terra
dos a lqueives, puxado a uma j unta ou parelha, dirigida pelo corres-
pondente guia.
No concel ho de Elvas ainda persiste a grade antiga, de madeira t osca, com
lâminas de fe rro. vu lgarmente conhecidas por facas ou dentes. Con sta de dois
r oj ões de e.ai nho, re curva dos, com dent adura e duas tra vessas, tendo ta mb ém
duas argolas com dest ino a prenderem a s arrast as de engat e.
E ste instrumento rudiment ar e bara tíssi mo, dá bons result a dos, sobretudo
nas terras del gadas, de f ácil desagregemen to. N es ta s terras, ch ega m a empre-
- 232 -
ATRA v t s DO S CAMPO S
gar-se grades qu e nem dentes possu em. Àpenas os rojões de madeira e nada
mais. N ã o o bsta nt e, também se us am outras, que contra stam em absoluto pel o
seu cunho moderoo - gr ades arti cul adas de fe rro. dos vários modelos que ven-
dem as casas construtoras. (1)
Gral Vaso de mad eira aberto em len ho macisso, r efo rça d o ext er i or men t e com
cinta s de ferro, onde se m eceram os p i men tões par a t empero da carne de
porco a ensaca r. e bem a ssim o cardo para a coagulação do leite com que s e
fabrica o queijo.
Gravata Varapau munido d e ge.ncbo na ponta, que os pastores u sam a t r ás dos
rebanhos, para com o gan cho pr esarem por uma per na a. r ex l anígera
que se p r oponha m a garrar. É a maneira mais f ácil de apanharem sem cus to
qual quer cabeça ovi n a .
Jangada Arado com varai s para uma besta. Ordinàriame nte serve só para
embelgsr, isto é, para abrir regos de pequeníssimo sulco, com que se
ret alha em bel gas a te rra que se vai s emear e lavrar de sement eir a . A s bel gas
destinam-se a nort ear o semeador n a di stribuição da semente.
Joeiradores Veja-se Crivos.
Jugo Canga que se coloca junto dos cornos dos bois, obrigando-os a
trabalhar de cabeça assás erguida. Usa-se u n icamen t e nas lavouras
dos barros.
Lençois P r eparam-se de estepe, par a os carros, por ocasiã o dos a carretos das
searas para as eiras, afim de se a pr ovei tarem os gIãos de trigo e de
cent eio q ue desbagoam das espi gas.
Lhantrados Barras de ferr o, com que se preparam os aIOS para as r odas dos
carros. Quando se i nutilizam n essa aplicação. a proveitam-se para
cha pas de r eforço nos limões e out ras serventías.
Limões Barrot es fa eeedo s, que constituem as extremidades latera is do s leit os
dos carros.
Maceirões Vasilhas de madeira, es trei tas e compridas. para bebedouro dos
gados junto aos po ços sem ch afariz, ou em outro sí tio, para on de se
transporte ág ua, com análogo destino. Servem principalmente de verão e em
(1) A aud. que . irul .. boje .. 11.. li " I.n..d... . .. que o. rooulI.. eh. m.....lll. eUIU d' Atal. ' • d. qUI! f.l. o u.tau·
lhl. Plllllo ( XVI I I, SO), i , ..,uo.do R.YDler. C. ue.l e.o. , .I. l un Dei o ' .ul u • • _ N ot.. J. . d eol u do Ir. A. Pin., puhlie.-
i .. no lora . l O Eln n•• .
- 233 -
ATRAvt S D OS C A M PO S
tempo de es tiagens exteacrdín ürias, n as zonas escassas de nascentes. T a mbém
se utilizam para com edouro! dos cevões nos chiqueiros.
Machados F erramentas imprescindí veis para limpar o arvoredo. «fazer» a
lenha e «tirar» a ma deira. Também se lhes chamam malhos.
Madeiras Todas que se apur am n os «cort es» de azinha e de sobro e a s out ras
de f r ei xo, mosqueiro, choupo, etc., que s e criam e cortam nas mar -
ge ns dos ribeiros e nas h ortas, em co n dições de s ervi rem para arados , carros e
cerras apli cações si mil a r es , são cuidadosamente apartada s e assi naladas pelo
carpinteiro, como j á tive ensejo de dizer e permonizar n a página 43, n o ca pít ulo
Montados.
Às madeiras para alfaias agrí col a s r epresentam uma desp esa av ultada par a
o lavrador q ue t em de e s comprar. co mo sucede a alguns. E o pior eq ue m uit as
vez es nem as en co n t r am à venda com fa ci lida de, t anto é a procura e a escassez.
A s peça s para o fab r i co de gargantas e ear e dca» são as que mai s escasseiam ,
por serem precisamen te as qu e maior consumo t êm.
Mangas Chocalhos de enor mes dimensõ es. q u e n o inverno se põem nos bois e
vacas. embora já se us assem muito mai s, sobre tudo DOS bois.
N a s va ca s ainda persist e o cost ume n a época pr ópri a , mas somente para as
vadias e gul osas. u s eira s em se escaparem da vacada para invadirem «folhaslt
ou pastagens g uardada s.
Manganilho Varej ã o m uni do de correi a. de onde pen de uma va r a cu r ta e
grossa , com q ue os porquei ros batem e sacodem a bolota das azi-
nheiras e sobreiros, p a ra os porcos co merem na oca sião.
Manguais P aus com q ue se procede à malha o u d ebulha b raçal do centeio.
como outror a s e u save em toda a parte e h oj e pouco se vê.
O mangual cons ta de dua s peças - mangueira e peritico - pr esas por
correias d enominadas meês, e peles argolas ou articulações em que t erminam os
revestimentos de COuro q ue lhes envol vem as extremida des. Ào 'revestiment o da
ponta da mangueira, ch a ma - se camisa; o da ponta do perítíco, designa-se por
csreirulo.
A mangueira, vara comprida d e ca stanho, representa a hast e que o malha-
dor empun h a DO a cto da malha. O pericico, lenho curto e n odoso. de za mbu jei ro,
de uns 90 centímetros, terminando em cscheporrs, ser ve para vibrar as
pancadas nas espiga s do centeio, revolteando nos ares, ao impulso vi goroso dos
braços que o manobram.
Martelo Entre os apetrechos que acompanham O e begâo nos s erviços dos
alqueives e sementeiras, figura sempre um martelo, como traste
imprescindível para o amanho das enteichaduras.
- 234 -
ATRAVes DO S CAMPOS
Massas O centro das r odas dos carros.

Mata-bo is P equenas vergas de ferro. que atravessam os limões e o eixo dos
carros.
Me io Peça central da cange de muares.
Mexilho Gancho com duas hastes, que se introduz no arado para amparar as
«orelhas» das aÍvecas.
Mi ulo Prancha central das rodas dos carros me nchegos.
Pad io la Utensílio para remoção de pedias e outros objectos.
Pás Às de madeira, servem para a limpeza do grão nas eiras e para as voltas
dos cereais nos celeiros, eepedejaudo-ose e removendo-os assim de um
para outro ponto. D estas pás. as melhores são as de nogueira, que os lavradores
mandam preparar pelo carpinteiro da ca sa, ou as compram nas feiras de maio
e junho. Uma pá bem feit a. é singularmente apreciada por todos os homens do
campo.
Fora das fai nas das eiras e da baldeação de cereais, empregam-se as pás de
ferro inglesas. E. ainda se adoptam outras de madeira, compridas e estreitas, ou
de ferro, largas e cu rtas, para meter e tirar o pão do forno.
Pegões Ps us onde encaixam as varelas que compõem o engradado das can-
celas dos bardos e apr iscoe.
Perítica Vigota que sustenta o leito dos carros de lavoura, prolongando-se
para a ftente, como vara de engate. As períticas costumam ser de cas-
tanho, mõrmente nos carros de muares. Para as carretas e manchegos, também
se emprega o choupo, pinho, etc.
Pescaz Cunha chanfrada, que r eperta a teiró no orifício da ~ a r g a n t B .
Veja-se A rado.
Pespinheiro F en o com duas hastes, que substitui as aivecas. Só se usa em
algumas lavour as dos barros.
Pinas P eças que formam a circunferência das rodas dos carros.
Pipa Barrica gr an de que se usa em cano, para abasteci mento de água nos
montes.
Ponta A parte poster ior do timão.
Quartão Medida anti ga, de barro: correspondente à quarta parte do almude.
- 235 -
ATRAvtS DOS C AMPOS
Rabadas Ma deixa s de cabelo da cauda dos bois, com que se ornamentam as
corneiras ou t iradeiras das j untas do abegão e outras entidades
«de pensão•.
Rai o s Os paus que encaixam nas pines e massas dos ca nos.
Ra s til ho Espécie de grade dentada, para com uma parelha se rastilhar e sulcar
de leve as t erras semeadas. mu ito abatidas po r chu vas copiosas,
seguidas de calores intensos.
Rasou ra M edida an tige de madeira. correspon den te a meio al queire.
Recocões AcessóIÍos do ca rro rna n ch ego (dois em ca da car ro), que a travessam
o centro dos limões e vão ci rc unscrever a rot ação do eixo.
Redes U sa m-se dois t ipos de redes : 8S ch amadas de alErme. com que se pre-
param de pronto redis ligeiros para gado lanígero, e as outras maiores,
de iunça ou de linho, par a a condução de palha a granel, em canos. Esta,
merecem particular menção, pela quantidade de palha que compor tam e pelo
fantástico efeito que produzem quan do n os ca r ros se erguem a lterosas e reple-
tas, movidas por boas parelhas.
Compõem, como disse noutro lugar, ca r radas giga ntes cas, ter minando para
a fre nte e r etagua r da em bolsas colossais. de malhas t ensas, a tocarem no chão.
P a r a bem da par elh a, o peso da ca rrada não está em r el a ção com o volum e.
Sem custo gran de. os ani mais puxam aquela monstruosidade, que avança impê -
vida mente. pejando e sujando os cami nhos. No verão, as est radas e r uas a pr e-
sentam va st os vestígios desses acarre tas n ecessários, mas i ncómodos para os
t r a nseuntes e morador es dos sítios por onde passam. N os dias de vento o mal
agrava-se. Ao sopro da ven t a n ia e dos movi men tos do veí culo. a palh a menos
compri mida escapa-se da r ed e, e depois de remoinha r pelo espaço em to rvelinhos
caprichosos, i n trod uz-se e cai por toda a parte, como hóspede importun o e seu-
cerimonioso. Fruto do tempo, que os hábitos t ol er a m.
Respigador Aparelho com dentes de arame, recurvados, para aproveitamento
das espigas nos rastolhos. Introduziu-se há anos, m as não se tem
gener alizado o seu uso.
Rodo Ferr o recurva do, embebido em varerao, para espalhar o brasido do fo rno
de coze r de pão. U t ensílio de madeira com que nas eiras se arrojam e
j untam os cereais desempal hassdos, arredios dos ce Ice dcuros.
~ o ç a d o u r a s Ferramentas com que se r oça o mato e se cbapots a chamiça e
len ha miuda.

• - 236-
ATRA v t s DOS C A M P O S
Sabicões Barras de fer ro, que re forçam a pa rt e inferi or do eixo dos carros.
Sacos U ma la vou r a qua lq u er dispõe de saca rias su fi cien tes para os acarretes
e r emoçõe s dos cerea is e l egumes. P or muitas que haja . é axi om á ti co
dizer -se que nunca chegam, tant o s e r epart em e tantas são as aplica ções. C a da
saca ria consta de dez sacos, marcados a tinta e óleo, com a s inici ais do d ono,
nú mer o da sa caria, n ome da «casa» a que p er t en ce, e a era, tudo em car act er es
geeudos, vi síve is de longe. E s ta profusão de s i nais e distintivos te m por fim
pôr o objecto em condições d e ser r econh e cido. quando por ve nt ura se veja
depois de ext raviado. Mas a d espei to de se mel han tes ca utelas, é correntíssímo
extravia rem-se sacos, uns r ealment e perdidos, outros sonegados, principalmente
no te mpo da s eiras, em que a bar af u nda dos acarretas ocasiona muitas faltas.
Cada saco compor ta 8 a 11 d ecali t ros d e sementes, o máximo. salvo os de
li nhage m, de fabri co a va por, que se compram já preparados e que são maiores,
mas de pi or qualida de que os d e fiação case i ra, procedentes das povoações
beirãs.
E st es últ i mos, u sam- se de preferênc ia , embora custem mais. P ela maior
parte t alham-se e prepar am-se n a s Ca sa s dos la vr a dores. co m es topa, comprada
em peça a os paneieos a mbula ntes. A es to pa preferida e paga como m elhor, é a
de Àrouca e a de Oli veira de Azemeis. E. h á lavrador es que ai nda se fornece m
dos antigos sacos de leteiro, que vêm da B eiro Baixo já pron t os, constit uindo
também man ufact u ra das pequenas indú stri a s domésti cas. Em qualidade, são
superi ores a t odos os outros, ma s pecam por estrei t os, motivo p orque vão
estando ba nidos.
A reparação e arrecadação dos sacos, está a cargo da l a vra dora. E/ a ela
que os criados se di rigem, para lhe pedirem ou en tregarem sacos, e dela ouvem
r eparos e repri mendas. pelas faltas e es t r agos. O s criados ouve m e defendem- se
como podem, mas não se r ala m. Sacos e cordas, extraviam-se e d et eri oram- s e
i men so, por mai s ca utelas que haj a e por mui t o que os donos gri te m e barafustem.
Sachos P ost o qu e fig u re m n o fe r ramenta l de uma lavoura, é sempre em
pequen a quant idade. O se u mai or emprego é nas mondas e sach as,
mas aí, por cost u me a n ti quí ssi mo, são as própri as mon dadeira s que os f ornecem.
Saleiro P equen o cor t iço. a r rimado a o ca nto da «ch a mi n é», conten do o s al da
cozi n h a.
Sementeiro Saco com o cereal da semen t e, que o semea dor t raz ao ombr o e a
tira colo, no act o de s emear.
Serras Das manuais, de carpintaria, costuma haver algumas, de diferen tes
tamanhos, para serra r eiveces e outras coisas. D os mecâ nica s a va por,
já funcionam duas no concelho de Elvas.
- 237 -
ATRAvtS DOS CAMPOS
Serrotes Instrumentos de que nem todas as lavouras precisam. As que os
necessitem, têm-nos dos grandes, para ser rar madeiros transversal-
mente, e dos pequenos para enxertar aambujetros, et c.
Sinchos Formas de la t a para fabrico de queijos. D os pequenos, para querjt-
nhos, costuma haver cento e t a ntos a duzent os o u mais; dos gr a n des,
para queijos de ovelhas. dez ou doze aproximadamente. Como i nt er medi ários
en tre os pequenos e grandes. figura u m a certa porção dos medianos. para as
cha ma da s merendeiras.
Suadouros As extremidades da cangB de muares.
Tabulei ros Empregam-se compridos e estreitos para o serviço da amassaria
do pão de centeio e das per rumas. Os do pão de tri go, têm
menos capacidade.
Tachos Artigo de que é costume haver abundante e variada provisão, desde os
de cobre e arame, de diversas dimensões, que pela maior parte só
servem para ornato das prateleiras e guirlandas, até aos de la t a e de ferro,
emprega dos nos serviços da cozinha, a massaria e queijeira.
Taipais Tabuados en cost ados às enfueiraduras. para conterem as carradas de
estrume e outras semelhantes.
Tal ei gos Saquinhos para merendas e objectos miudos.
Tal eiras As travessas dia n t ei r a e t raseira do l eito de um car ro, ambas so bre-
postas no respectivo tabuado.
Tamoeiro Vide Apeiro.
Tarefa Pequeno pote de barro para vasilha de azeitonas ou de carne, azeite,
queijos, etc.
Ta r aras P equenas máquinas, providas de ventoin has. com que se limpa m a
braço cereais e l egumes. Pouco se u sam n a r egião elvense.
Teli ze s O conj unto dos apetrech os agrícol as e de outras coisas de uso pessoal
que, re unidos. se transportam em carr os ou em bestas. por ocasião de
muda n ça de «arados», de r ebanh os de gado, ou de pessoal t r abalhador . E ' um
plebeísmo antigo, hoje somente empregado por cr iados velhos, de lavoura.
E,' sinóni mo de bafâmedes. outro vocábulo rústico com igual signi6cação. ma s
mais em voga.

ATRAv t S D OS CAMPO S
Ta rugos Pauzinhos preparados a enxó para cavilharem e ligarem o rebeneio
ao arado e a gargant a à ponta.
Temão ou timão (1) A parte do arado compl et o, constituída pela garganta e ponta.
Tendais O s paus que completam as enfueiraduras do s carros. Vide Carros.
Terfsias Varas de cast an ho, com que se prepa ram as cancel as, par a bardos e
a pr iscos .
Tir adeir as Vide Carneiras.
Tornejas G an chos de ferro que at ravessam as pon ta s do eixo dos carros,
impedi ndo a d eslocação das r odas.
Traves s a s Barrot es de azinho, que s e empregam n os leit os dos carr os .
Trilhos A pa relho r ústi co e a n t iquíssi mo. para debulha de cer ea is com o a uxí-
lio de u ma parelha de muares ou d e cavalares. sob a d irecção do
corresponde n te con d utor. Consiste numo. armação de madeira, em que fun-
cionam três cilindros de ferro ou de madeira, cra vej a dos de facas laminadas.
para triturarem e esmagarem a pa l ha, durante o movimento de rotação em que
gi ram. C omo acessórios, reunem a lança para engate, e a cadeira ou assento do
con du t or , sobr eposta em ci ma . (d
Sentado n a cadeira, de arrestas em punho, voltadas sobre a cen ga, o gui a
do t rilho serve-se de um chicote para estimular a s bestas e dirigir o trabalho.
T orneando e quarteando o calcadouro, segundo as ci rcun st ânci as reclamam, os
animais puxam como pedem, e a engenhoca lá se vai movendo con fo r me o
pass o dos quadzúpedes , caminhando soluçante por entre a palha que fragmenta.
Nas eiras d e grande movimento, só se empregam os trilhos como a ux ila r es
das «cobr as», de éguas. Mesmo nestas condições, tudo fa z supor que em breve s e
abandonem, se continuarem a generalizar-se as debulhadoras a vapor. No futuro,
o trilho ser virá s ômente aos pequenos s ee.reir cs.
Tripeças A ssentos rústi cos com três pés, muito usado n os m ont es.
Vasculhas V assouras gr a n des, de giesta e o ut ros arbustos, para varrer os bar-
dos das cabras, as eiras, a s cava lar -i ças e os terreiros do s montes.
Preparam-nos os cria dos «d e p ortas a de n tIO», nas h oras de poucos afazeres, ou
compr a m-52 aos maltes es, quando aparecem a ofe recê-l os.
(1) Vllt'U.tft1t . d i ~ - I t tlm i o.
b) St do WI!.Id .. . o.... u pich dt rr lMo qllt tmprt' • • .I.. d• • , or. o. ltllak ttlpclo. 'Pau balU' o cu ..1. t qlla
h'lIlIdo dllu P lt ll. . d. Slbll•• ua cOllhtcl do taUt u htbuu. no ItmpO dt I..,u. uda . Ido ...di.au,att u ••do por
habo com pont u dt til"",. POIII.. h oJa . u h. tl luld .. por IIml.. .. dt matai . 'unldo u lf8nda na faca i,,'u lor t . obu o. tizo• •
qllt .Ira l .tdid. " lIt a """ul.na .Taa,"a .
( Rtbt to da 511... Met/16r Iu .06rt a pOllu/."o e a . ,ricu/, uu <lt Polt..,d- N ot.. ai rleol .. do .r. A. PI. ... I.....t...
h. &!lO• • lIO i ornal O E/_eut.)
- 239 -
AT RA v t s DOS CA M P O S
Verrumas N o f erramental que o ebegâo traz na l avoura figura uma ou duas
verrumas, par a a brir os buracos das eiveces,
Viador a s Caminheiras a va por. p rí ncipalmente destinadas a r ebocarem '18 8 00S,
debulhadoras e o ut ros máqui nas g ra n d es, q ue t enha m de se r emover
e transportar pel os caminhos ordinári os.
Foi o sr. Alfredo À ndrade. gran de e ilust radíssimo proprietário do con-
celho de Elvas. quem. n o ano de 1901 ou 1902, i n tr od uzi u a primeira viadore
n esta r egiã o. Adqui riu-a para a ut ilizar n a su a la voura d e F onte Al va , {r egue-
S1 8 d e S ant a E ul á li a, o nde efectivamente es tá funcionando.
APRESTOS DE CAVALGADURAS
Pela conexão que t êm com 8S alfai a s a grí colas, cum pre m en ci oná-l os no
mesmo capítulo. emb or a àpar te e por ou t ro m étodo, i sto é, aba n donando a
ordem alfabéti ca s eg ui da até aqui. P o r t an t o, a catal ogaçã o dos a r reios e atavios
d as bestas e cavalgaduras fig urará em parágrafos, cor r espon dentes à classe e
emprego dos solí pedes q ue usam esses preparos. E 'i s a mençã o dos principais:
Para muares e m serv iço de carro e a rado Cabr estos co m aírgol a s de cor"
r eias e dua s a rgolas nos lados
da foci nheira, para introdução e sego ran ça das sen ilha s e aranhas, ligadas às
ar r eat as . D a s sf rgo las pendem esqu ilas ou chocalhínhos, se estã o em u so n o
sítio es ses adornos buliços os. ( t)
C om louça ou «à cal ada», ado ptam-se cabrestos de três tipos, pelo menos.
P ri mei r o: encerneiredos, em atanado e panos de Liga (algodão, linh o, etc.), com
entre ol hos do mesmo preparo. enteix ugedos, (2) t udo com guarnições e e pon-
toa dos de estambre e pano de cores vivas, umas em relevo, outras em abertos
Segundo : encsrneiredos, em l i n h o, à li geira, também com entre olhos ent eixu-
gados. T er ceiro: s omente de cabeda l, de talhe s emelhantes 80S outros.
O s ca br es tos, munidos das correspondent es ser ri l h a s e e r r eatas de li nho e
cor ren tes de arame, compõem os p er tences indi spensáveis para a simpl es con-
duçã o d e uma p arelha . D epoi s, para o t rabalho da parelha em carro e a r a do,
ediciouem-s e-Ihe os burnis, mantas, canga, tapetes o u t apiços e berr ig ueirss.
O s burnis, co ns t am de doi s chu maças de palha de centeio, r evesti-
dos de co u r o azei ta do e de carneiras . A volta que t omam, dá -lh es a configur a-
ção elíti ca . S ervem, colocando- se sobre o cach a ço dos animai s, u m em ca de, afim
(I) o 0 d. 114.. 11.. 0\1 chou lb.l...bo. 0 0. ubuuo. 01. .. muuu. ...io _. u l ..... m perman.nu. Mumo BO' .Itlo.
o.. de o co.lt e .,1' arul,ado••eo.. t eee b.nir -.. t. ...porlrl.m. nu dlU'."' u o .erio. fi Qualldo o. 01.0" 0 ' d,. b..1,. lllio d.
loto ellln.;ado. por mor l. d. PUUl U multo pr6JlUuo.
Em .I'amal ao bui toir ai ..qull cboeillo. , po r tuito. d. pend or. do. do. bu rtlil . GuI.o. oa o Qoar
4" " ••i a d. III",,, d..t. ' i Dn o. pnunum umpu ao. c.rreiro., 40. o. compram . coo. n ta m ol. .... ca,ta . 'Jlact . mQ1U como
Eu . m o......d. iro• •
(2) Cabelo. d. u lJlo,o, compl:ldo., '1lJ", . e• ..,do • .lu .J<u.m.idad.. do • • nlrl alba• • fociAb..in, l U.
- 240 -
A RTE P OPULAR A LENTEJANA
1 - A/, ibelr.; ~ - Meuu feitas la mio. J - Lu.vlt l ei t. à mio J 4 ~ AJlorgt: n-melldo. de pe le; 5 - ManAA com
medronhos. para a cei/a; 6 - Lenco de chita , pITa os om bros ; 7 - Mangui tos para os trabalhos : d.a monda.
e ceifa, te alellamu ; 8 -Bolsa 6ordlJdlJ .8 mis.slluj lt pant o Te16, io
AT R A Vt.S D OS C A M P OS
de neles fi r mar a cange, P or detrás. par a r efor ço e resguardo, j unta-se a cada
u m a correspondente manta ou fardo de linhagem. Burnis e mantas, põem-s e
nas bestas de cima para baixo. e atam-se, em baixo. pelas pontas, envolvendo -
-lhes a maior parte do pescoço.
L ogo 8 seguir, põe-se a cangu e seus pertences, de onde se destaca m os dois
ta petes ou teoiços, dependurados dos csnAalhos. São atavi os vistosos e úteis.
que ficam bem nas muares e as de fendem um pouco das chuvas e do sol.
Em geral, constam de panos de lona, pintada a cores, com a data e as inicia is
d os d onos, ou de p el es de dia, bon i t as e completas.
P a r a ligar a ca nge aos burnís e ambas as coisas à parelha, empregam-se a s
berriguei re»- duas f oItes ligaduras. encordoadas. de lã ou de linho, senão duas
correias largas e extensas. com ou sem rabadas de boi n a pontas. Quaisquer
que se adoptem, cada bllrrigueira ou correia, sai da cabeça do ce nge lhc de
dentro, passa por baixo do sovaco e barriga da muar, e, a çambarcando-lhe os
costados e as es pád uas, vai atar em cima, em n ó cor redi o. n o cangelhc oposto.
deixando la ço de ponta caida. Com todos estes preparos. a parelha lica apt a a
engatar e t rabal har .
* * *
Como foi obser va do na página 217, em nota cor r es pon den t e ao parágrafo
churrião, os ca brestos das muares que puxam carros de cómodo pessoal. deno-
minam-se csbrestadas ou csbeçedas. T êm formas análogas às do primeiro dos
modelos r eferidos, mas de maior a pa rato e custo. condizendo com o garridismo
dos tapet es e berrigueires que os acompanham. e que em tudo eê c su periore s
aos de uso ordiná rio.
Com r evestiment os de l ã, umas e de seda, ou tras - as cebrestodes realça m
pelo s r el evos e fr anjados de rutil antes cor es, aplica ções de t eixugo, cuidadosa-
ment e tratadas, borl ôes, peneeh.os, vidrilhos, etc. A cabeça dos a n i mais quase
que n ão se vê. oculta pelos franjados. N o pescoço, destamca m-se espaventosas
co leiras de guises, no mesmo gos t o. Guiseira s e cabrestadas faze m u m efeitarrão,
que parece ser compreendi do pelas própri as muares. E l as pelo menos assim o
demonstram, sa cudin do O cachaço a mi udo, como que manifestando prazer com
o tinir dos aljorges. ( I)
Nas éguas e cavalos . mo nt a da s. dos lavradores Ce br e s t od a de freio e
r édeas j a Ibar dã o e col -
dres com manta enr olada. à fr ent e; silha de fi vela por baixo do capeado do
albardão ; loros e estribos; peitoral e rabicheira. ( 2)
Para a prisão à mangedcure, cabr estão vul gar.
( 1) r.." 110'" di I lj or, u f 1ll...lI o corrl ot. 1\0 umpo. pu , du i' ou 01 ,,,, 40' ,und•••
( s i o Ilbudl o d. coldru COlll m..nu lorol. d• • ( n nl c, •...1 ulodo 1m dll"' O, ..d m COOlO o p.ltoral. À u i. c' ll ..
•"buh"ir t ",do l..o.
- 241 -
AT RAv t S D O S C AMPOS
Nas éguas dos guardas, vaqueiros e eguariços C a br estada de fr ei o e
r éd ea s ; o u de ser rilbe e
e rreat a, com enxota-moscas de pequeni nas correi as pendentes da t estei ra ;
al bardâc r a seiro, sem ca pa; pel es de cão ou de ou t ro ani mal, sobr e o e lbar dãc,
cobrindo-o todo ; silha por cima, a descob erto ; l oros e es t ribos, e por últ imo
Ia bicheira ou a tafais de va queta, P ara a p risão na me n gedour a, cabrestão
ordinário. P a ra estacionamento o. prado, petas de fe r ro com ou sem cadeado.
As pei as, q uan do se n ã o aplica m, costumam fi gurar a o pesco ço da s respectivas
cavalgadu ras.
Em muares de a parelho Cabres to de couro com freio e rédeas; elbe rdã o
raseiro ou de co l d res; sil ha interior ; l or os e estri-
b os ; atafais ou r a bicheira . E,' aparelho pr óprio d os m.a ch os e mulas em que
t r a n s i tam os co m pr a do res de le nhas. peles, e co r t iças, bem como os dos ca pa -
dores. penetre s, etc. P ara a mangedo ure, cabrestão si mpl es ; n o estancionamento
a prado. peia s de lã.
Nas burras dos ganadeiros Cabresto de couro, com fiv elas de me tal a marelo
e ornatos di versos, pen den tes do. t estei ra o u
ligados da t es t ei r a à f ocinheira j h ) arreata de correia si m ples ou t ecida: albarda
e pel es d e cão, i nt eíriças, por cima, com silha de correi a e argola n as pontas,
ata n do em n ó corredio. Na traseira. atafais de couro, com Eveles gr a n de s,
amarelas. Em aparelhos de asininos não se vêem melhores n em mai s bem
cuidados, esp eci a l m en t e os das burras dos maiorais dos porcos. As destes e as
de outros gunadairos, é frequent e trazerem coleira ao pescoço, com uma p equena
esquilo. o u chocalhinho.
Na s b e stas d e carg a, dos mo nte s Àparelho sem elha n te ao das burra dos
ge.nadei 'ros, mas de pior qualidade e com
menor estimação. C abresto e atafais de linhagem ordinaríssima ; arreata de
corda, de esparto ou de iunça; a lbarda e sil h a inferiores, e por cima da albarda
d uas peles de badana. mais ou menos rotas. Para o carreAuio peõp r iamente
dito, uma golpelha, ceirão ou cange.lhas, conforme a natureza dos artigos a
transportar. U tensílios para carga e preparos do aparelho, é vul gar exibirem-se
num estado de desleixo m anifesto. por estarem a ca rgo dos paquetes, conduto-
res e tratadores dos animais que usam esses per tences. O r a os paquetes são
rapeaes de 12 a 14 anos, mais inclinados a diabruras que a ca u tel as e
a r're.njo s.
(1) o cahun o .. Uf co.. fecclon..do pe lo pr 6pr io , a. ad.iro, .... !l0U.1 ...... ,. o. om.10. d.. hlll1U. , (I'" t..nl O
01 unclub..m... b t .... h ' oal, Ihaltam-u .. corul .. pe.. d. n t n . na fona.. d. ''''' ota- m" c... ..Indl. .. .. d.
cote.i... "Ia dl..,oa . I, fuaU. d.. IUleir .. 1 focl nb.eiu. c","l ndo... e fOfllll ndo Clpelho I ou trO'. eoa etl.lIl d. cnlunte
.. lu..) de ",u ..l 00 de d. a t u d. poreo, do el'no .. Imio. de 11m" uuele em ..I, t.lc.
- 242 -
ATRAvtS D O S CAMPOS
Nos machos e bu rros dos a lmocreves a r ri ei ros Cabresto e arresta vulgar,
de linhagem, a compa nhad o
de boçal de esparto, para evi tar que a besta coma na seara e pousios ma rgi nais
das estradas. Aparelho para carga de sacos: suadouro de linhagem, e por cima
dois chumaças com palha de centeio, chamados lombinhos. Sobr e os lombi-
nhos, a servir dei albarda, enxerga reseire, e por último 8 silha e o mandil-
pano de estopa, debruado de ourelas ou de caseeleeas. com guarnição de cadi-
lhos encarnados, pendentes. N a traseira, e te le is singel os.
* * *
Os arreios e mais pertences e qui referidos. como aprestos das celvageduras
e bestas, moldam-se um pouco n os seus congéneres da Estremadura espanhola
e Andaluzia. Questão de semel hança vaga e nada mais, porque o fabrico desses
utensílios é genuinamente nacional. caracteris ticamente alentejano. Todos eles
ou quase todos. são produto dos ccrreeirce e albardeiro! de Evore, Estremoz,
Elvas, P orta l egr e, etc., etc. O s correeiros e albardeiros expõem à venda os
respectivos artefatos nas lojas das suas oficinas, mas pouco vendem aí.
Vendem e muito. nas feiras de Vila Vi çosa, Fronteira. Sousel, Borba, e o utras,
onde a rmam grandes e vistosas barracas, de um vast o sortimento. Nestas fe i ras
poucos lavradores e homens do campo d eixam de adquirir arreios e preparos
para os se us gados. M uitos fazem até provisão de reserva, para o gasto de
seis mes es a um a no. Outros, adoptam o sistema de contra tar em albardeiros e
cor reeiroa para irem servi-los 80S montes, mediante salário.


VIII
N
A agricultura alentej ana a s searas ocupam lugar culminante, a
r egi ão elvense, é, das que mais se distingue e a vant a j a, neste i mpor-
t antíssimo ramo a grícol a . À qu i. como em Ioda a pr ov inci a, a s sea -
ras con st am de trigo. centeio. cevada e avei a. D e cultura ext en si va
nas herdades. em folhas de 2 a 10 ou 12 moios de semeadura, e quase intensiva
nas ta padas, {erregfais e courelas dos arredores das povoações. A cu lt ur a do
trigo vai num crescendo manifest o. embor a i n feri or 80 que se obser va noutras
zonas, onde pouco se semeava ainda há doze anos. Em Àrronches e no Crato,
por exemplo, havi a t erras e terras incultas, ou cultivada s de longe em longe e
mal, que de 1892 para cá, estão a ser arroteadas com i ncr ement o febril . aplican-
do-se a cereai s. O n de em tempos que não vão longe, s ó vicejavam estevas, car-
rascos e saraga ços, hoje desenvolvem-se e criam-se ext ensas sea r as, qu e aumen-
t am de ano para ano nos terrenos que se conquistam à charneca . (1) Ora o
recente al argamento da cultura cerealífera no termo de E lvas, n ão pode equi-
II) 50b... o .lar' . llu olO .I.. cult\l.tU cnulHou . iI o cr a . ... er.... o Ir. " o.ulmo d. Andrad., n. "i,b. t.5 do &Ia
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