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COLETÂNEA DE MÚSICAS IMPOSSÍVEIS

EDUARDO MARTINS JÚNIOR


O GOZO NOS AFOGA
FUGA

“Essas bolhas que você tem


nos dedos das mãos
e nos dedos dos pés
têm uma justificativa: ácido úrico”
era o que Inês dizia, fruta ácida
eu, despreocupado

Talvez tenha me tornado filho da Angola em 1888


ou do Cabo Verde, no mesmo ano
ou do Brasil, muito antes, em 20 de março de 1662
que de Portugal sempre fui
Talvez eu tenha me libertado
das presenças absurdas
das bruxas fesceninas
dos gozos, dos desejos
de tudo que não me consola

Eu sentia algo triste


quando Sophia me olhava e sorria:
o dia mal começava, mas tudo era suor
havia pouco sol, picnic e grama
atrás de uma igreja, embaixo de uma árvore
o corpo
o bronze
a arder...
enquanto eu, aplicando meus remédios
fugia daquele lugar e daquelas mulheres
entretanto elas fugiam também
Ali havia um gramado verde-marrom
depósito de minhas esperanças
o que lembrava que –
sou tudo aquilo que me falta
e mais
sou também o óbvio
do presente
a dor na carne
renitente
aquele que ri alto – palhaço sem fantasia
entrecortada a gargalhada por soluços
e silêncio
de solidão.

Concluía que a culpa era das cartas jamais entregues


“Lugar bom é o Rio de Janeiro, onde o calor é intenso, as roupas são mínimas, os
corpos são malhados, a vista é maravilhosa, cenário ideal para o amor.”
Então
o que me enchia de esperança
era um sorriso
um suspiro cansado
depois de um orgasmo simultâneo.

Tudo era verde-marrom enquanto eu fugia.


SOBRAS

Agora que o que me restou


foram as sobras do que eu nunca tive
posso
finalmente
olhar sem espanto
as mentiras sentidas na carne / no suor
aos poucos deixadas para trás.

Não que não haja forma erudita para dizê-las


- ela existe
entretanto, não me incomoda a simplicidade:
já não me têm
os sonhos que já sonhei
as roupas que já vesti
os amores que já perdi
as drogas que já usei

Olho sem espanto


como o dia acaba
e recomeça: é como todo o constrangimento
pelo fingimento de Andy Kaufman
Acontece que ele não se importava
o meu câncer é outro
não há mantra ou Filipinas
não é mortal, embora faça com que tudo se perca

Espero os dias
espero que passem rápido
que eu não os sinta
As sobras do que eu nunca tive
as chaves do apartamento
– que esperanço explodir junto comigo
Tudo o que restou, Andy K., levaram embora
minha mulher, minhas crianças
tudo o que eu jamais possuí
O seu câncer era raro e o matou
o meu me perpetua em nada.
WOLFGANG

Saúdam-se o sol e o vento


na guerra estranha entre
alívio e incômodo
alcançam dois corpos nus
entregues ao relento
em uma das praias arenosas de Huelva
selvagem Costa de la Luz
selvagem Espanha

Longe das lembranças dos amores


às vezes relembrados com o sufoco da saudade
longe do português com sotaque dos trópicos
talvez a fuga lhe venha com sabor de vício
confutatis
e lhe traga o canto amargo
do réquiem em ré menor
de Wolfgang Amadeus Mozart

Recordare, Jesu pie


quod sum causa tuae viae
ne me perdas illa die

Lembre-se você também, Edgar


você próprio foi a causa de sua peregrinação
não se perca naquele dia
(mas se perde nos braços de mais outra
espanhola a quem não se mostra
o gozo lentamente o afoga).
CATALUÑA

A mão desliza lenta


transa os fios de cabelo
molhados de suor, o odor de mulher

A dor intensa nos dentes


- incomoda
faz com que se sinta vivo
e deterioram-se aos poucos
em noites de sono rangidas

Os pensamentos estão no latim


nesse idioma não há artigo:
narcissus viri
uña ubique
por toda Cataluña.

O silêncio é um repouso
- inquieto
leve respirar dos seios ao lado
trás a carne
terror de tempos
século veinte y uno e tal
Não domina o espanhol
she has no name
mas não importa
é o gozo quem vos fala
é a solidão quem vos assola.
NU OMEM

Hárduo álito pecado


é a certeza de si
corpo nu frente ao espelho
os músculos frágeis e disformes
as tatuagens distorcidas
as cicatrizes e histórias
e amores e dores da carne
É a certeza de si
faminento de nada que não se vê
alter que não se revela
sombra morna que sofre histórias
A música vem de longe
lenta / triste / silenciosa
(talvez sincera)
Ábitos habsurdos pecaminosos
a chuva confundindo-se com
a música, can you hear?
A voz triste e lenta

do you remember?
That night at context
making up shit
like we were animals
we made no sense
no sense
we had no sex

O corpo é somente
uma fortaleza facilmente destruída
e reconstruída
e destruída inúmeras vezes
entretanto, não faz sentido.
UM DIA, UM NUNCA, QUANDO?

Ela ia, ia, partia-se, mas não partia


continuava no mesmo lugar
A apatia ganhava forma
era laranja, gosto de fruta cítrica
Inês permanecia
frágil feito pedra
escondida em primavera
feita de areia, feita de sal
Inês partia e permanecia
enquanto tudo a ela pertencesse
Era um dia, um dia, talvez um dia
pelo tempo em que aquilo fosse conforto
tal aquilo era nada.
ÓPERA

De onde estou
posso ouvir o ruído do trem
arrastando-se sobre os trilhos
É como o ruído dos meus dentes
do movimento horizontal do maxilar
da mordida errada
da mordida no ombro

Do escuro
posso sentir a noite
fria e úmida, e ver
que o silêncio da voz
é uma ópera da culpa
da culpa de Franz Kafka
é como a culpa que há em mim, não musicada
Os dentes rangem
estive com eles ontem
a sós; estamos com o trem
esta noite, por alguns minutos.
CAIXA DE PANDORA
VIRGÍLIO

Não há nada, Virgílio


que não saibas
Todos os corredores
estão desertos
- como querias
todos os nossos dentes
caíram, e não foi culpa tua
não és o poeta
não és poeta, para alívio teu
Virgílio, nos beijamos nas escadas
antes de transarmos no corredor
e isso previste
antes mesmo de nos sabermos
Tu que és tão indiferente e frio
és, ao mesmo tempo, tão bonito
e isso sabias.
BÚFALO DA NOITE

Quisera eu, Búfalo noturno


ter a dor de dois mil megatons
e implodir-me das dores que
realmente sinto
Enxergaria, então, a ti
monstro pantagruélico
e te devoraria por dentro
com a força descomunal de
um sussurro
Deglutir-te-ia ainda vivo
lentamente
selvagem e vermelho como
uma ferida
Você que me brinca, aberração
viveria para o sempre
acorrentado e amordaçado
Tua imagem dar-me-ia sono
expô-la-ia no meu estranho festival.
NARCISO

Narciso, meu espelho é o mundo quasimodesco.


Mira meus traços
e admira-os no vermelho do metal
Narciso, consegues me ouvir?
O inverno é um só e passa no
silêncio dos autos que correm na avenida
ecoa no suor de quando nos amamos
e todo ele é você mais belo do que eu
O que te convéns no absurdo descrente
em nós dois, homens carne viva?
Ó Búfalo que me devoras o dorso
dá por completa a brutalidade da
tua existência a Narciso que é cego
ensina-o o dissabor das palavras que
nos fere o corpo em brasa

[corpo em brasa, macho meu]

Ó Narciso abre teus ouvidos


eu sou você, beijemos o vento que
nos cospe verdades
Ó Narciso, és quem sou, transemos
as verdades cuspidas e os medos que
nos insultam
Atenta-te Narciso, o gozo nos afoga.
CASSANDRA

Cassandra
avisa a mim
Tens os dons das cobras e de Apolo
tens também a minha confiança
[sei que não és louca]

Ah, Cassandra, dize-me


o que ouves dos deuses?
dize-me
o que há por vir?
Estou à mercê da volúpia e dos devaneios
dos mortais - sou mortal como és
compadece-te comigo!

Tenho todos os receios do mundo


e o Búfalo a soprar-me um bafo quente
no rosto, não vês?
preciso de teus presságios...
Vivo como rocha a beira mar
amedrontada com a fúria de Poseidon
um gozo teu basta a tudo em mim
bela Cassandra furiosa
não vês?
ELEGIA PARA FERNANDO

Sinto que se eu lhe dissesse


Fernando
o quanto temia a tua fúria
se soubesses quão forte eras
ririas de mim
dos meus medos
Agora que és sombra ignota
tua presença é brisa morna
tua ausência mitiga o meu pesar
Sim
és luz turva e isso me entristece
pois eras tão moço
um rio desatinado
mal sentiras o gosto da vida
[o fel da vida]
tornaste sombra em dia nublado

Fernando, eras tão moço


me punhas tanto medo
restaste sombra em meus olhos
fúria em meus olhos.
HELENO

Procedes do que sou


Heleno
prevês o que seremos
Tivestes poder para conhecer
teu fim, então, diga-me
qual a libido da morte?

Somos iguais em suor e carne


mas tu, como tua gêmea Cassandra
transaste cobras
ouviste Apolo
podes dizer o que me espera
além do sinistro maior
que teu fim, pobre homem
já o sabemos

Ofereço-te em troca, príncipe


a paz das guerras
o calor do sexo
a desgraça dos inimigos
o amor de Helena
basta apenas que me digas
qual reino herdarei
quando tornar-me-ei sombra
se terei o amor da fêmea pálida
que me invade os pesadelos
Sentimos uma letargia no sexo
Heleno
quando somos negados
Temos as pífias damas
os pífios reinos de ninguém
os invólucros dos nossos desejos mais ardis
a frígida existência...
Como tolerar as certezas medianas
Heleno?
És inquieto por ter as respostas quando queres
dê-me um pouco desse homem pervígil por adivinhar tudo.
CLEÓPATRA

Egípcia
mulher cornucópia de mistérios
invades impiedosa os meus sonhos
És jazida dos meus febris desejos
balaústre do meu ego inquieto e
selvagem
Dá-me a tua seiva
planta erva água mortífera
sabes bem o suor da blasfêmia
és fêmea impiedosa
impávido pecado
Não me dás motivo para um
sono tranquilo
és zumbido de mosquito
permeando meu quarto escuro
Não se justifica a vida serena
sem teus braços e afagos
alma branca, pele macia
macia flor
Souberas ser eloquente
e desbravar os mundos
mulher destino fera
hoje o horizonte lhe rega
És o motivo para a sandice
dos teus amantes romanos
enfeitiçados com o teu perfume,
o sabor do teu sexo
o calor dos amores à beira do Nilo
Deixa-me tresloucado
também, mulher!
Cleópatra deusa rainha
sabes que és tudo em mim
revela-me teus segredos de amor.
MOURÃO

Inventaram o que eu não sabia


inventaram o mar
Um homem quase secular
de nome quase errado:
Gerardo.

Tudo que há nele, não há em mim


ele que é grandioso como o Atlântico
o mesmo que cantou ver
os portugueses atravessarem

Mas sou índio


mas sou português
mas sou negro
não sei qual o meu lado na história
talvez eu goste dessa miscigenação toda
esse calor ferro em brasa
esse amor pelo sexo

Quisera eu ter o talento que tinhas


Gerardo
e cantar a epopéia do amor-suor.
VOO CURTO

CASTELO DE SAL EM PIANO-BAR

Degustar as canções que nos tocam


é o que precisamos, coração de pedra
Enquanto desmente
o tamanho de seu passo e do meu
tenho/possuo o tempo – meu tempo
minha traição mais verdadeira
Possuo-o e sou por ele possuído

(coração de pedra
você não é nada
além de minha amarga mentira)

Sentir-me perdoado por construir


meu próprio castelo de sal;
e tê-la como refém de meus dias;
e defender-me de meus fantasmas;
erguer-me em minha própria realidade;
reerguê-la para mim como verdade
– palpável a estas mãos fibrosas –;
e por fim, sentir retrair em mim
uma vida além de escândalos em piano-bar.

VELVET
Podia compreender o sussurro a aproximadamente vinte metros
distância que cortava o Café
– não um café propriamente dito e coado, tampouco
um desses lugares em que se bebe e se lê
porque lia lábios, olhos de Thundera possuía

Dizia eu vim lhe trazer a morte dos dias


e justificava eu sou a saudade e o tempo
então, se com rapidez, poderia fitar o céu
ainda meio dia/meio noite, azul marinho
(tal qual o teto da Maçonaria)
presente em todas as ruas de todas
as casas, no exato dia 23 de abril

Carmim a cor dos lábios, ao lê-los se saberia


qual a epiderme que lhe cobre e lhe protege do frio
em noites quentes e mal dormidas com sonho
e gozo em underwears de ambos os sexos
O cheiro do cafeeiro que nos torna à tarde
ao presente, then a bittersweet..., pensaria.

UNTRUST ME
Frente a tantas possibilidades
tem o destino, talvez com malícia
o arbítrio do futuro, instante em que o torna presente
– o futuro é sempre agora

Livro-me da dúvida, do ‘se’


através de meditações diárias, obstinadas e regulares
quase sempre matutinas...

Certas convicções permanecem:


prefiro a certeza do que sou
embora espere que não seja, pois
nada é mais bonito que o nada.
ESPERA

O tempo que desejo ser


está além de minha carne, que resiste
também além de você, pois persiste
como imagem sem voz.
Se há o gesto que antecede a distância
nosso tempo passa a ser um só
– e permanecerá infante, diante de nós –
não se opõe concretude à ânsia
olhamo-nos e permanecemos mudos.

HOTEL PARADISE: SUÍTE 141

in memoriam de William Wordsworth e William Shakespeare

O tempo que há em tudo


reside em mim, por conseguinte
persegue-me no absurdo
e está presente no interior
deste quarto – que insiste em ser um lugar comum
Hotel Paradise: suíte 141

so I am as the rich whose blessed key


Can bring to me this sweet up-locked treasure*

A chave do tempo
ferrolho do que é se sente
persegue-me nestes dias de inverno:
“ah, dia marrom”
grita a camareira do meu hotel chinfrim –
é preciso assear o que me estende

Ratifico o que escreveu Shakespeare, por fim:


sendo eu rico apenas de coração, tenho dez reais e a compaixão da camareira, que me
observa nu na cama, com intimidade que me estranha, e que, embora próxima dos
cinqüenta, ainda pode me glorificar com seu doce tesouro trancafiado.

*Versos de abertura do soneto LII de Shakespeare.

ANA PAULA ARREBATADA

Não sou afeita a pessoas que morrem de amor


Estou condenada a romances bizarros
livres de sorrisos fáceis, apelidos carinhosos, abraços
Talvez eu não creia no amor, porém eu amo

Às vezes começo a escrever poemas


que revelariam a minha sensibilidade:

Você existe, e, por isso


fura feito pedra
que
bate e bate e bate
com perseverança e decisão

mas, como o amor que sinto


eles morrem nos primeiros versos.
CUMPLEAÑOS

Não tenho tempo para medicina


Dores crônicas convivem comigo
Agora mesmo ouço meu nervo ciático chiar
– no glúteo esquerdo
O que me falta é barba
eis o motivo de toda a minha indecisão/preocupação/pessimismo
A única esperança do não-eu barbudo é ser músico de jazz
apesar de jamais ter conhecido algum
creio que sejam o oposto de mim:
introspectivos e tão atraentes

Bill Evans tocando my foolish heart


(as cores... não existem)

Últimos dias de maio


os anos subindo as escadas, mais um...
Inspiro forte e mais uma dor surge, no pulmão, do lado esquerdo
abaixo da última costela
Todas as minhas dores, crônicas ou não, são sentidas do lado esquerdo
– sempre soube que ser canhoto é sinal de ser errado.

ANELINA

Ainda espero pelo traço de sol


pelo cheiro de sal, por você - pálida e cansada
deitada na areia, calada como eu
Ainda espero pelo gosto de pós-adeus
sentado ao seu lado, sob o guarda-sol
céu azul-céu do Rio de Janeiro
os meus dedos a percorrer o Dois Irmãos
Ipanema, posto 9
Ainda espero pelas palavras
que não lhe disse na tarde de mar.
TANGO DESCOMPASSADO

Dá em tudo e não dá em nada


eis a desmedida do amor
Citando um velho poeta plebeu que acabo de criar
“há o grande frente a noite tenra, infante noite, jaz pequena”
Toca o tango e os passos ritmados
troco o santo por uma dose de rum
Porque não dá em nada se dá em tudo
a morte, o fim, c’est fini, o riso curto
Desdizem o que cantam, não dá em nada
embora caiba em tudo.
SONHO

Calor / praia no deserto / óculos escuros / bermuda laranja / cadeira azul / Visão de
180º:
a praia como uma faixa laranja-desbotado
entre os dois tons de azul, azul-céu e azul-mar
No toca fitas um K-7 do Eddy Grant na faixa ‘Time Wrap’
Espécie de videoclipe enquanto durar a música
eu permaneço sob o sol
masco chiclete e balanço a perna direita
levantei-me da cadeira nos trinta segundos finais e corro
em direção ao mar
nado até a faixa laranja-desbotado da praia desaparecer
permitindo a comunhão de azuis
então me afogo de olhos abertos.
PUERPERAL
AS SOON AS POSSIBLE

Para quebrar promessas


worms me tomam a tara
com sons e cores e teclas

Soy latino-americano
subdesenvolvido e impuro
enquanto os livros correm
a avenida lá fora: internet

Amo-amo-amo-amo
o que não toco, porque sou
moderno e interagido
o riso riaaaauu que me põe
desperto e inexpressivo
diz que sou um produto
com sintomas de distúrbio
possessivo, e ansioso
Sei que esse barulho
que sai do meu notebook
é alguém que me chama
para me matar a saudade
e dá um del na solidão

DREAM DE PARDAL

Pardal sonhou que eu era um pardal


ouvíamos Cat Power na varanda
Eu dançava feito tolo e cantava errado
enquanto ela permanecia na rede
fazendo bolhas de sabão e sorrindo
As paredes da minha casa
eram lilases, o chão, azul claro
– ela gosta dessas cores, então era assim
Pardal piou, é sonho bom
pardal é o pássaro que eu queria ser
Quem é que cria pardal em gaiola?
Quem é ela? Há tantas cores e sonhos e flores
Acordado eu queria abraçá-la
sempre que a via sorrir, indiferente
em sonho eu dançava, ela, na rede
Pardal piou, é sonho bom.
O QUE PARECE SER MAS NÃO É

A menina bonita na frente do palco grita BIS


ela é como Paula Tina que quer se casar
– novamente e rapidamente
Quem é que se importa se a minha porta
é uma porta torta, se o Jeffrey Eugenides
diz na orelha estar solteiro e morar em NY?
Continuo não acreditando nas verdades...
Ontem tomei um capuccino à meia-noite
com a comunicação social, e era esperta
ainda assim consegui dormir pouco depois
McLuhan disse que o meio é a mensagem
J-P. Sartre disse que o inferno são os outros
mamãe disse que leite com manga faz mal
e eu, o que é que vou dizer? Nada, ponto final
PAULA, A HIPOCONDRÍACA

Comprei um relógio novo


Paula Tina não foi comigo
Hipocondríaca, tinha medo
podia, de repente, morrer
de AVC ou ataque cardíaco
Não bebe água do filtro
para evitar pedra nos rins
água mineral, só fervida
– quem sabe de onde vem?
Carrega remédios nos bolsos
não usa bolsa, evita artrite
No esquerdo, colírio para as lentes
no direito, neosaldina e luftal
nos de trás ela trás lenço e band-aid
Em casa quis lhe mostrar o relógio
mas ela já havia tomado rivotril.

PEITO CURF CURF CURF

O peito magro faz curf curf curf


peito magrinho faz cara de dor
e de impaciência, nariz congestionado
Nariz congestionado inspira forte
dá um nó na garganta, e o peito
curf curf curf, papel higiênico
Infla o peito e põe toda a força
expira o nariz congestionado, ai!
A boca seca toma a cápsula colorida
vermelho e amarelo descem a goela
Deita na cama o corpo cansado, ai!
Peito magrinho repete curf curf
nariz congestionado, alérgico a poeira
inspira e expira forte no papel, ai!
Fecha os olhos melados e ardidos
tenta dormir, mas o peito curf curf
o nariz congestionado, alérgico a poeira
ai! A única coisa a fazer é tocar um...

AFOGADO

Bebo água como quem mata saudade


e cato madrepérolas nas águas de sal
Fui menino, mineiro, banhado em rio
atravessei no braço o São Francisco
as Velhas, e o Gorutuba – menorzinho
mas somente velho, barrigudo e fraco
é que vim conhecer as maravilhas do mar
Conheci bem, já no primeiro mergulho
afundo encantado, encontrei a tal Yemanjá.
CORES
ROXO

O céu acorda roxo


em tom vivo e sóbrio
dois sóis irradiando desejos contidos
Em um campo infinito de violetas
Inês tem flores nos cabelos e no regaço
o corpo nu
nas mãos duas pedras de ametista
refletem em seus olhos sua cor
Uma brisa fresca desce os montes
traz estrelas e um cheiro perfumado
que lhe inebria o sexo
atiça a língua
manhã de mistérios.
AMARELO

Quase eu soube
na borda de um George Orwell, mais opaco em um Cyro dos Anjos
mínimo em um Honoré de Balzac e em um Cabral de Melo Neto
ambos da mesma coleção
dispostos na prateleira de madeira envernizada
Por pouco não aprendo em cinco quadros
embriaguei-me em duas garrafas de rum
senti-me como se fosse vivo
excêntrico
laranja-lima
limão
não sentia a minha língua
Preciso de boas escolhas, saber por onde começar
neste corpo bem delineado e jovem, de formas humildes
um quarto fechado, apertado e mal iluminado
cama de solteiro, amarelo-amor.
VERDE

A mata virgem abraça Sophia


que é feita amazona, guerreira destemida
emprenhada pelo vento
Por dentro, o inferno úmido
por cima, o mar orgânico de folhas e troncos
e, agora, de Sophia
nua na margem do rio
entre serpentes que se perdem no seu corpo violento
percorrem seus seios, escondem-se em sua penugem
São uma só, mãe e filha
mata e Sophia
guerreira e desbravada
iniciada por seres místicos nos segredos do amor
orgasmo que ecoa entre as árvores
espanta os pássaros.
LARANJA

Inês é laranja
é tudo que me estremece
toda falta que me sufoca
é, também
Inês me dizendo que
Cecília lhe disse que
nem tudo são sonhos
mas tudo é vão
inclusive os sonhos
É laranja Inês que
não existe
mas é uma presença absurda
embora Cecília exista
mas nunca a tenha encontrado
É laranja
é adocicado, às vezes
gosto de fruta cítrica
É sonho, é vão
como o sol manso às sete da manhã
dizendo que o dia começará abóbora
é epiderme que se confunde com cenoura.

NEGRO LADINO
PLÁSTICO

O grande moço do século vinte e um está vindo


trôpego ao som da nova música
do novo milênio, dessa década – houve um prelúdio?
Talvez soubessem nos passos
a jaqueta é de couro ou talvez de brim, o cabelo bagunçado
- esquece, as roupas são sempre as mesmas
São as mesas, ali no canto, aqui em baixo, em cima
(profunda obsessão pelo desnudo)
Tudo está à mostra e à venda
o amor, olha ele de volta, agora em promoção, 100% off
A música do novo milênio é feita por sintetizadores
não há mais poesia, há o que se escreve e desvaloriza
e há também o que se canta – disfarçado em sintetizadores
o amor, esqueci-me dele
Há um totem de roupas das décadas de 80 e 90 e anos 2000
admirando-me, homem enclausurado no medo de mim mesmo
fechado por paredes e fotografias de anônimos que amo tanto
- sempre há amor por tudo que não se sabe, ou se sabe
mas é o paradigma do pré-século veinte y dos, XXII
O amor não serve para as poesias
as poesias não servem (para si próprias)
porque existem os sintetizadores e tudo que não se sente
Dói tanto tomar tantas drogas
bem aqui, nessa cadeira azul, de espaldar reto, tão démodé.

NEANDERTHALENSIS

Cara de sono por dormir cedo e acordar tarde


(sente-se mal por acordar em pleno século veinte y uno
depois de dormir por tanto tempo, cinquenta mil anos?)
Magnífico homem de neanderthal,
musculoso ser de fala lenta e nasalada
de vocês herdamos o mundo
Temos sintetizadores, extasy, LSD, e a moda pós anos 80
admire essa magnificência, tome um pouco para você
Querem-no nos museus, nas boates e em todos as bocas de fumo
Querem-no em tudo o que há de muito seguro
e em trezentas toneladas de livros
Toma, leia Hilke, Baudelaire, Pound, Camões
ouça a voz de Deus, ouça Wolfgang Amadeus Mozart
experimente uma de nossas mulheres, selvagens como você
Recupere o tempo perdido, participe das orgias romanas
venha por aqui, Calígula está a lhe esperar
Mas antes que se perca, lhe peço, mate Jesus Cristo
já que não é a imagem e semelhança de Deus
(é meu irmão, mas sou homo sapiens, sou a identidade do Deus criador que antes de nós
criou vocês, consegue sentir a ingratidão da de-semelhança?)
Seus pares se foram há vinte nove mil anos, está só, mate-o.

1700 OU SÉCULO XVIII

Ah, sim, é um vulcão


que vem de dentro com uma força libidinosa
LI-BI-DI-NO-SA
Vem assim de dentro e explode em sorriso
Ah, quase posso sentir o nada e seus derivados!...
Tente a coisa tal que cobre a pele em arrepios
- perdendo toda a eloquência
Contrai os músculos, movimentos obsoletos
O gládio cortando a glande do glabro
Por onde seguir?
Ah, quem me dera ser um poeta romântico!...
Boemia, boemia, cante-me o fausto de suas noites
e me faça morrer de amor – faça-me ao menos amar.

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