Movida por uma total falta de senso do perigo ou talvez por uma inata vocação para testar limites

e riscos, minha mãe agia ousadamente para atrair atenção para seu papel de mãe extremada e com dedicação absoluta a este ofício. Algumas de suas performances na cozinha beiravam o limite da sanidade. Não sei se ela queria provar algo para si mesma ou se expor da maneira que ela sabia fazer melhor do que ninguém – tinha sempre as mãos com queimaduras e cortes do trabalho na cozinha, era a prova material, irrefutável de sua abnegação. Eu pensava: “É assim que minhas mãos vão ficar também.” *** Não sei se para economizar fósforos, ela arrancava pedaços compridos do papel do pão, encostava o papel na boca do fogão que estivesse acesa, e com o papel em chamas acendia outra boca do fogão. Tudo de forma rápida e descontrolada, como se fosse botar fogo na cozinha. Quantas vezes presenciei cenas dela tentando apagar pedaços de papel em chamas ou cinzas que voavam pela cozinha... ***

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Outra de suas manias era a de amolar facas no mármore da pia. Fazia isso com tanta frequência que o mármore foi erodindo com o tempo, e a impressão que dava era de que faltava um pedaço dele, por ter sido escavado ou lixado. Aquilo me incomodava enormemente e eu perguntava por que ela estragava o mármore daquela maneira. A resposta mais delicada que ouvi foi a de que não me metesse, que aquilo era um problema dela e não meu. Fiquei calada, embrutecida, e me senti totalmente menosprezada. Meu pobre ego ia erodindo como o mármore da pia. *** É preciso reconhecer que suas facas eram realmente bem afiadas, seu trabalho era o de uma profissional, de outra maneira, como ela poderia se cortar tanto?

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