sabina anzuategui

ou caderno sobre a mesa

o afeto

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1.
meus pais estiveram separados entre meus onze e treze anos. Diego, meu irmão, foi morar com nosso pai, eu fiquei no apartamento com a mãe. Tive períodos sofridos depois de adulta. Mas na infância, por algum motivo, atravessei a dificuldade sem perceber. Não parecia triste. Se me perguntavam na escola, eu repetia que estava tudo bem. Era inteligente e tinha boa memória. Decorava números, fazia provas, resolvia equações. Passei no vestibular sem o susto e o medo dos outros alunos. Nunca tive problemas para conseguir emprego, depois de formada já recebia um bom salário. Casei aos vinte e sete anos com André, um colega que eu amava e admirava. Mudamos para uma casa grande num bairro caro, oferecida pelos pais dele. A família rica não me tratava mal, admiravam minha inteligência e delicadeza. Seis meses depois minha energia começou a diminuir. Sentia impulsos de pavor ao imaginar que André pudesse morrer de repente. Se ele decidia ir ao escritório de bicicleta, se pegaria um avião para o Rio de Janeiro, a possibilidade de um acidente me causava tanto medo que, para suportá-lo, passei a imaginar minha vida depois que ele morresse. Caso eu perdesse o emprego, meus pais estivessem enterrados e eu me encontrasse velha, sem aposentadoria, sem casa própria, morando na rua. Tentava me convencer de que não seria ruim. 7

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Um dia acordei às três da manhã e não consegui voltar a dormir. Era terça-feira. Não fiz nada porque era aniversário de André e seria cruel me suicidar no mesmo dia. Havia semanas que eu observava os hotéis a caminho do trabalho, prestando atenção às janelas e sacadas. Na quinta-feira fui de táxi ao Formula 1, que me pareceu ter a fachada mais uniforme. Perguntei no balcão se havia um quarto no sétimo andar, pois o barulho da rua me incomodava. Só havia lugar no décimo primeiro. Achei alto demais, mas ainda assim entreguei meu cartão de crédito e assinei o recibo que o funcionário me entregou. Não acendi a luz quando entrei no quarto. Deixei a bolsa sobre a cama e abri a janela, mas havia uma haste metálica parafusada à esquadria. O vidro só se afastou dez centímetros da parede. Desci até a rua e encontrei uma loja de luminárias. Perguntei se vendiam chaves de fenda, mas responderam não. Na terceira loja me indicaram uma casa de materiais de construção a duas quadras de distância. Atravessei a rua. Havia muitos carros e naquele momento teria preferido não ouvir nenhum barulho. A chave de fenda custou doze reais e voltei para o hotel. Tive que soltar seis parafusos. Enquanto estava claro quase tive coragem. Mas foi difícil encarar a distância debaixo da janela depois que anoiteceu. No escuro, o abismo parecia maior. Fiquei deitada algumas horas na cama, sem acender a luz, sem conseguir me mover. Embora meu cérebro estivesse lento, eu não conseguia simplesmente desligá-lo. Não pensava, mas não dormia. A partir de certo momento, veio a ideia insistente de que André estaria chegando em casa naquele horário, não me encontrando perguntaria provavelmente a Rosa, nossa vizinha e amiga, se eu estava lá. Tentaria me ligar, faria tudo como de hábito enquanto eu desejava apenas, sem conseguir, parar de respirar.

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A náusea me fez levantar e abrir a porta do quarto. Havia um telefone público no corredor. Liguei para ele. Foram talvez as frases mais difíceis que disse em minha vida: onde estava, por que, se ele poderia por favor me buscar. André me levou a dois médicos e uma psicóloga. Tomei três tipos de remédios em horários diferentes durante quatro meses, depois melhorei e passei a um comprimido por dia. Quando estava praticamente boa, resolvi pintar a casa e trocar os armários do quarto. Arrumando caixas antigas, encontrei esta carta de minha mãe: Denise, meu amor Agora que somos só nós duas nesta casa, é preciso que você tenha paciência com as coisas e ajude a mamãe. Se o mundo fosse de outro jeito, uma menina como você deveria passar as tardes numa casa cheia de gente, com um quintal grande, bichos e crianças. De noite à mesa devia ter avós, primos e vizinhos, todos comendo e falando alto ao mesmo tempo, roubando o último pedaço de carne do prato dos outros. Mas as coisas são como são, e suspirar demais não faz bem. Na geladeira tem carne moída na tigelinha azul, então pelo menos disso a gente não pode reclamar. Filhinha, este começo de ano está sendo difícil pra mim, às vezes no intervalo entre uma aula e outra tenho vontade de deixar os alunos e voltar pra casa pra brincar com você, te ouvir contar sobre teu dia, assistir televisão juntas, fazer um sanduíche de queijo na frigideira. Mas o problema de ser adulto é que a gente pensa duas vezes e continua fazendo o que tem que fazer. Mas olha, mamãe teve uma ideia: comprei esse caderno lindo, o mais lindo que achei na loja. O caderno vai 9

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ficar sempre aqui em cima da mesa. Todo dia, quando você estiver na escola, vou escrever um pouco pra você ler quando chegar. Afinal, eu pensei, se deixo a comida pronta no fogão, por que não deixar alguma coisa a mais? Quando eu estiver trabalhando, você lê o caderno e vai ser como se a gente estivesse conversando. Você também, antes de dormir, pega o caderno e tenta lembrar tudo o que aconteceu naquele dia. Fecha os olhos, lembra de quando você acordou, o que comeu no café, as pessoas com quem conversou. Teus amigos na escola e também algo diferente, um bicho ou uma piada ou um susto que você levou. Ficar quieto e pensar um pouco é algo bom de fazer. Não precisa escrever tudo, filha. O caderno não é uma tarefa de casa que alguém vai corrigir. Escreva só o que você achar bonito, ou engraçado, ou triste. E desculpa a mamãe, querida. Eu sei que ando quieta esses dias e não falo direito contigo, e tenho feito coisas que não devia fazer. Alguns dias são mais difíceis que outros, mas isso vai passar.”

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