DIMENSÕES DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO RICARDO ANTUNES1 I Já se tornou lugar comum dizer que a classe trabalhadora vem sofrendo

profundas mutações, tanto nos países centrais, quanto no Brasil. Sabemos que quase um terço da força humana disponível para o trabalho, em escala global, ou se encontra exercendo trabalhos parciais, precários, temporários, ou já vivenciava a barbárie do desemprego. Mais de um bilhão de homens e mulheres padecem as vicissitudes do trabalho precarizado, instável, temporário, terceirizado, quase virtual, dos quais centenas de milhões têm seu cotidiano moldado pelo desemprego estrutural. Se contabilizados ainda os dados da Índia e China, a conta se avoluma ainda mais. Há, então, um movimento pendular que caracteriza a classe trabalhadora: por um lado, cada vez menos homens e mulheres trabalham muito, em ritmo e intensidade que se assemelham à fase pretérita do capitalismo, na gênese da Revolução Industrial, configurando uma redução do trabalho estável, herança da fase industrial que conformou o capitalismo do século XX. Como, entretanto, os capitais não podem eliminar completamente o trabalho vivo, consegue reduzi-lo em várias áreas e ampliá-lo em outras, como se vê pela crescente apropriação da dimensão cognitiva do trabalho. Aqui encontramos, então, o traço de perenidade do trabalho. (Antunes, 2005) No outro lado do pêndulo, cada vez mais homens e mulheres trabalhadores encontram menos trabalho, esparramando-se pelo mundo em busca qualquer labor, configurando uma crescente tendência de precarização do trabalho em escala global, que vai dos EUA ao Japão, da Alemanha ao México, da Inglaterra ao Brasil, sendo que a ampliação do desemprego estrutural é sua manifestação mais virulenta.

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Professor Titular de Sociologia do Trabalho no IFCH/UNICAMP e autor, entre outros livros, de Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil (coordenador, Boitempo, 2006), O caracol e sua Concha: ensaio sobre a nova morfologia do trabalho (Boitempo, 2005); Os Sentidos do Trabalho, (Boitempo), entre outros livros. Coordena também as Coleções Mundo do Trabalho (Boitempo) e Trabalho e Emancipação (Ed. Expressão Popular. Colaborador de várias publicações no Brasil e no exterior. É também pesquisador do CNPq. Este texto constará do livro Terceirização: A Perda da Razão Social do Trabalho, Druck et alli (org.), no prelo pela editora Boitempo.

Segundo Jeremy Rifkin (2004). segundo a lógica da flexibilidade-toyotizada. Nova morfologia que pode presenciar. dos trabalhadores dos hipermercados etc. sofrendo forte redução. que decuplicaram nos últimos anos. simultaneamente. em processo de encolhimento. como a explosão do movimento dos trabalhadores–desempregados.Contrariamente. dos motoboys que morrem nas ruas e avenidas. Se nos países do Norte ainda podemos encontrar alguns poucos resquícios do welfare state. temporários que se ampliam. entre a busca quase inglória do emprego ou o aceite de qualquer labor. às teses que advogam o fim do trabalho. entre 1995 e 2002 a China perdeu mais de 15 milhões de trabalhadores industriais. como em nossa América Latina. sua forma de ser (para pensarmos em termos ontológicos). subcontratados. das trabalhadoras de telemarketing e call center. Na Argentina. Na China. por exemplo. dadas as tantas peculiaridades de seu processo de industrialização hipertardia .que combina força de trabalho sobrante e hiper-explorada com maquinário industrial-informacional em lépido e explosivo desenvolvimento . até os assalariados de serviços. Nova morfologia que compreende desde o operariado industrial e rural clássicos. Não é por outro motivo que o PC Chinês e seu governo estão assustados também com o salto dos protestos sociais. estamos desafiados a compreender o que venho denominando como a nova polissemia do trabalho. por exemplo. a sua nova morfologia. Processo assemelhado ocorre também na Índia e em tantas outras partes do mundo. cada vez mais.ainda que o padecimento do trabalho e o desemprego também sejam seus traços ascendentes – nos países do Terceiro Mundo. por outro lado. a retração do operariado industrial de base tayloriano-fordista e. estamos presenciando novas formas de confrontação social. entretanto. país que cresce a um ritmo estonteante. dos digitalizadores que laboram (e se lesionam) nos bancos. em decorrência das mutações em curso naquele país. isto é. os trabalhadores e trabalhadoras oscilam. a ampliação. os . resultado das fortes mutações que abalaram o mundo produtivo do capital nas últimas décadas.também lá o contingente mais proletário vem se precarizando intensamente. cujo elemento mais visível é o seu desenho multifacetado. os novos contingentes de homens e mulheres terceirizados. dos assalariados do fast food. chegando recentemente à casa das 80 mil manifestações em 2005. do que um dia denominamos estado de bem estar social .

Foram. ocupadas durante o período mais crítico da recessão. agricultura e serviços). Foi quando o fordismo aqui vigente sofreu os primeiros influxos do toyotismo. “cortan las rutas” para barrar a circulação de mercadorias (ajudando a embaralhar a produção) e para estampar ao país o flagelo do desemprego. quanto uma significativa reestruturação produtiva em praticamente todo universo industrial e de serviços. Ou ainda. 2003) No Brasil o quadro é ainda mais grave. até pelas conseqüências políticas decorrentes.. nos inícios de 2001. concepção carregada de significação política. da transferência de plantas e . Vale aqui o registro. da intensificação da lean production. dentre tantas outras conseqüências. Durante nossa década de desertificação neoliberal. Tudo isso num período marcado pela mundialização e financeirização dos capitais.piqueteros. E sinalizaram para novas formas de lutas sociais do trabalho. quanto nos processos de re-territorialização e desterritorialização da produção. das formas de subcontratação e de terceirização da força de trabalho. dada a enorme interpenetração entre essas atividades. do surgimento dos CCQ’s (Círculos de Controle de Qualidade) e dos sistemas de produção just-in-time e kanban. da redução do número de trabalhadores. dentre outros elementos. a indústria de serviços e os serviços industriais. ambas. pudemos presenciar. (Bialakowsky at al. que reconhecer a interdependência setorial é muito diferente de falar em sociedade pós-industrial. a expansão da luta dos trabalhadores em torno das empresas “recuperadas”. tanto a pragmática desenhada pelo Consenso de Washington (com suas desregulamentações nas mais distintas esferas do mundo do trabalho e da produção). da intensificação da jornada de trabalho dos empregados. e que já atingem a soma de duas centenas de empresas sob controle-direção-gestão dos trabalhadores. conseqüência da nova divisão internacional do trabalho que exigiu mutações tanto no plano da organização sócio-técnica da produção. respostas decisivas ao desemprego argentino. o que tornou obsoleto tratar de modo independente os três setores tradicionais da economia (indústria. de que são exemplos a agro-indústria. fundamentalmente através de reorganização sócio-técnica da produção. Nos anos 1990 essa processualidade deslanchou através da implantação dos receituários oriundos da acumulação flexível e do ideário japonês e assemelhados. então. simultaneamente. A necessidade de elevação da produtividade dos capitais em nosso país vem ocorrendo.

ambas na região de Campinas. do cyberproletariado. sem experiência sindical e política. distantes da legislação trabalhista. no estado do Rio Grande do Sul. como a indústria têxtil. do ramo metal–mecânico e eletrônico. Rio Grande do Sul. ou outros estados como Paraná. gerando uma massa de trabalhadores que passam da condição de assalariados com carteira para trabalhadores sem carteira assinada. ou deslocaram-se para outras áreas do país. para estados do Nordeste. sob imposição da concorrência internacional. como o interior do Rio de Janeiro (Resende). além de isenções fiscais. nas décadas seguintes esse número aumentou significativamente. 2006) Dentro desta contextualidade. dentre tantos outros exemplos. flexibilizados. conforme a sugestiva indicação de Ursula Huws (2003). locadoras de força de trabalho de perfil temporário. ou da região do Vale dos Sinos. estamos conhecendo a época da informalização do trabalho. como o Ceará e Bahia e hoje começam a pensar em transferir parcela de sua produção para o solo chinês. Não é por acaso que a Manpower é símbolo de emprego nos EUA. para atender à grande demanda por trabalhadores temporários. E hoje examinam possibilidades de transferência de parte da produção para a China. dos terceirizados. Várias fábricas de calçados. onde empresas tradicionais. Novas plantas foram instaladas. Bahia. do mundo maquinal e digital. no interior do estado de São Paulo. precarizados. (Antunes. sem registro formalizado. em plena era da informatização do trabalho. Se nos anos 1980 era relativamente pequeno o número de empresas de terceirização. subcontratados. trabalhadores em tempo parcial. pouco ou nada taylorizada e fordizada e carente de qualquer trabalho. por exemplo. Ou seja. transferiram-se da região de Franca. sem vínculo empregatício. passaram a buscar. combinados com uma força de trabalho sobrante. pode-se constatar uma nítida ampliação de modalidades de trabalho mais desregulamentadas. .unidades produtivas. níveis mais rebaixados de remuneração da força de trabalho. transferiram-se da Região da Grande São Paulo para áreas do interior paulista (São Carlos e Campinas). ou ainda para o interior de Minas Gerais (Juiz de Fora). Indústrias consideradas modernas. como a Toyota e Honda.

telecomunicações. de modo mistificado. um significativo processo de reestruturação. sendo substituídas pelo maquinário técno-informacional presente no trabalho morto. no passado recente. também sofreram. Desemprego ampliado. perda crescente de direitos. em 2007 mais de 50% dela se encontra nessa condição (aqui concebendo a informalidade em sentido amplo). realizado nas esferas da comunicação. Os serviços públicos. diverso do trabalhador que se desenvolveu na empresa taylorista e fordista. presente no design da Nike. próprias da sociedade do logos. da marca. (Bernardo. do “trabalho multifuncional”. previdência etc. II Quais são os contornos desse “novo tipo de trabalho”? Ele deve ser mais “polivalente”. não é mais aquele fundamentado na especialização taylorista e fordista. que vem . como não poderia deixar de ser. do simbólico. precarização exacerbada. nessa empresa liofilizada. do involucral e do supérfluo. e que são resultado do labor (imaterial) que. “multifuncional”. O trabalho que cada vez mais as empresas buscam. como o trabalho vivo. é necessário um “novo tipo de trabalho”. que em verdade expressa a enorme intensificação dos ritmos. publicidade e marketing. como saúde. rebaixamento salarial acentuado. Além de operar através de várias máquinas. tempos e processos de trabalho. 1996) que permeia o mundo empresarial. que os capitais denominam. para não falar do agronegócios. E. no modelo novo da Benetton. Resultante do processo de liofilização organizacional (Castillo. onde as substâncias vivas são eliminadas. no mundo do trabalho hoje presenciamos também a ampliação do que Marx chamou de trabalho imaterial. educação. subordinando-se à máxima da mercadorização. só marginalmente nossa classe trabalhadora presenciava níveis de informalidade. como “colaborador”. esse é o desenho mais freqüente da nossa classe trabalhadora. na concepção de um novo software da Microsoft. quanto nos serviços. mas o que se gestou na fase da “desespecialização multifuncional”. articulado e inserido no trabalho material. desprovida de direitos e sem carteira de trabalho. É o que o discurso empresarial chama de “sociedade do conhecimento”.Se. energia. 2004) E isso ocorre tanto no mundo industrial. expressam as formas contemporâneas do valor.

Hoje. funcional ou organizativa. 2005).afetando fortemente os trabalhadores do setor estatal e público. com número muito mais reduzido de trabalhadores e produzindo muitas vezes mais. Ampliou-se. em sua origem. As repercussões no plano organizativo. corpóreas ou simbólicas. o desenho compósito. e especialmente pós-1930. e vendo sua substituição pelas diversas formas de “empreendedorismo”. caracterizado por um processo de precarização estrutural do trabalho que os capitais globais estão exigindo também o desmonte da legislação social protetora do trabalho. aumentar ainda mais os mecanismos de extração do sobretrabalho. O exemplo das cooperativas talvez seja ainda mais eloqüente. valorativo. E neste quadro. Estamos vivenciando. na Inglaterra. 2005 e Vasapollo e Ariola. das distintas formas de flexibilização salarial. subjetivo e ideo-político são por demais evidentes. de horário. elas nasceram como instrumentos de luta operária contra o desemprego e o despotismo do trabalho. As “cooperativas” patronais têm. como forma de precarizar ainda mais os direitos do trabalho. então. os capitais vêm criando falsas cooperativas. “trabalho atípico”. heterogêneo e multifacetado que caracteriza a classe trabalhadora brasileira. então. Similar é o caso do empreendedorismo. portanto. contrariamente. então. “cooperativismo”. ampliam-se as terceirizações. Além das clivagens entre os trabalhadores . a noção de tempo e de espaço também são metamorfoseadas e tudo isso muda muito o modo do capital produzir as mercadorias. dominante no século XX. não é possível ter nenhuma ilusão sobre isso. uma vez que. a erosão do trabalho contratado e regulamentado. sejam elas materiais ou imateriais. quando se toma o exemplo brasileiro. ampliar as formas de precarização e destruição dos direitos sociais que foram arduamente conquistados pela classe trabalhadora. (quase) virtual. uma vez que elas são verdadeiros empreendimentos para destruir direitos e aumentar ainda mais as condições de precarização da classe trabalhadora. Onde havia uma empresa concentrada pode-se substituí-la por várias pequenas unidades interligadas pela rede. desde o início da Revolução Industrial. E flexibilizar a legislação social do trabalho significa. “trabalho voluntário”. O trabalho estável torna-se. neste cenário aberto pelo neoliberalismo e pela reestruturação produtiva. O resultado parece evidente: intensificam-se as formas de extração de trabalho. sentido contrário ao projeto original das cooperativas de trabalhadores. que cada vez mais se configura como forma oculta de trabalho assalariado e que permite o proliferar. (Vasapollo.

III Devemos enfatizar que a classe trabalhadora. homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e não se restringindo aos trabalhadores manuais diretos. partir de uma concepção ampliada de trabalho. fabril. Na principal área do operariado metalúrgico no Brasil. . seja ela material ou imaterial. abarcando a totalidade dos assalariados. herdeiro da era da indústria verticalizada de tipo taylorista e fordista. outra importante região industrial metalúrgica. desde o início da reestruturação produtiva do capital em escala global. no ABC paulista. houve uma redução de aproximadamente 240 mil operários nos anos 1980 para menos de 100 mil em 2007. herança da fase taylorista/fordista. homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho. que vende sua força de trabalho como mercadoria. tradicional. região onde se encontram as principais empresas automobilísticas.estáveis e precários. de gênero. temos ainda as estratificações e fragmentações que se acentuam em função do processo crescente de internacionalização do capital. em troca de salário. qualificados e desqualificados. empregados e desempregados. compreende a totalidade dos assalariados. E devemos incluir também o enorme contingente sobrante de força de trabalho que não encontra emprego. no mesmo período o proletariado reduziu-se de cerca de 70 mil para pouco mais de 40 mil. reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis que se estruturavam através de empregos formais. (Antunes. brancos e negros. 1999 e 1995) Com a retração do binômio taylorismo/fordismo. em nosso entendimento. entre nacionais e imigrantes. estável e especializado. Na cidade de Campinas. Para compreendê-la é preciso. a classe-que-vive-do-trabalho e que são despossuídos dos meios de produção. devemos incorporar a totalidade do trabalho social e coletivo. dos cortes geracionais entre jovens e idosos. então. manual. Este proletariado vem diminuindo com a reestruturação produtiva do capital. dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho. vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial. mas que se reconhece enquanto parte da classe trabalhadora desempregada.

que se expandem em escala global. Chile. entretanto. (Sotelo. quando não ainda mais grave. outra muito significativa. que inicialmente incorporou parcelas significativas de trabalhadores expulsos do mundo produtivo industrial. onde também foi expressivo o processo de feminização do trabalho. no México. entre tantas outras formas assemelhadas. o mesmo ocorrendo em relação aos direitos sociais e do trabalho. subcontratados. Argentina. de que são exemplo as distintas formas de terceirização. particularmente nas últimas décadas do Século XX. um movimento inverso quando se trata da temática salarial. como resultado do amplo processo de reestruturação produtiva. onde os níveis de remuneração das mulheres são em média inferiores àqueles recebidos pelos trabalhadores. etc. parcial. Esta expansão do trabalho feminino tem. das políticas neoliberais e do cenário de desindustrialização e privatização. contrariamente à tendência acima apontada. temporário. uma significativa expansão dos assalariados médios no “setor de serviços”. entretanto. No Brasil. 2004 e 2005) É perceptível também. passaram a presenciar significativos processos de desindustrialização. que também são desiguais. que se caracteriza pelo aumento do novo proletariado fabril e de serviços. mas que também sentem as conseqüências do processo de reestruturação .Há. os capitais implementam alternativas de trabalho crescentemente “informais”. informalizado. além de enormes níveis de desemprego. (Nogueira. Em 2007. 2004) Outra tendência de enorme significado no mundo do trabalho contemporâneo é dada pelo aumento significativo do trabalho feminino que atinge mais de 40% da força de trabalho ou mais em diversos países avançados e também na América Latina. mais de 50% da população economicamente ativa encontra-se em situação de informalidade no Brasil. presente nas diversas modalidades de trabalho precarizado. Com a desestruturação crescente do Welfare State nos países do Norte e aumento da desregulamentação do trabalho nos países do Sul. terceirizado. depois de uma expansão de seu proletariado industrial nas décadas passadas. tendo como resultante a expansão do trabalho precarizado. São os terceirizados. acrescidos da ampliação do desemprego estrutural. de trabalhadores/as desempregados/as. Em vários outros países da América Latina a situação é similar. também anteriormente mencionada. part-time. o salário médio das mulheres está em torno de 60% do salário dos trabalhadores. em escala mundial.

em função da reestruturação do setor. Com a inter-relação crescente entre mundo produtivo e setor de serviços. Somamse. nas mais diversas partes do mundo. que são substituídos pelos trabalhadores “polivalentes e multifuncionais” da era toyotista. paralelamente à exclusão dos “idosos” e jovens em idade pós-escolar. motivadas predominantemente por formas de trabalho voluntário. o mundo do trabalho. tem se utilizado da inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho. Como desdobramento destas tendências acima apontadas. através de empresas de perfil mais comunitários. aos contingentes do chamado trabalho informal. com idade próxima de 40 anos e que. poderíamos lembrar a enorme redução do contingente de trabalhadores bancários no Brasil.Se. dificilmente conseguem reingressar no mercado de trabalho. desse modo. que cada vez mais se submetem à racionalidade do capital e à lógica dos mercados. dos desempregados. daqueles/as que se desempregavam do mundo industrial. aos desempregados. O mundo do trabalho atual tem recusado os trabalhadores herdeiros da “cultura fordista”. entretanto. várias atividades no setor de serviços anteriormente consideradas improdutivas tornaram-se diretamente produtivas. fortemente especializados. nas mais diversas atividades produtivas. Outra tendência presente no mundo do trabalho é a crescente exclusão dos jovens. tecnológicas e de gestão também afetaram fortemente o mundo do trabalho nos serviços. em conseqüências dessas mutações. esse contingente reduziu-se para menos de 400 mil. dada a vigência da sociedade do desemprego estrutural. sem perspectiva de emprego. E. Paralelamente à exclusão dos jovens vem ocorrendo também a exclusão dos trabalhadores considerados “idosos” pelo capital. vale enfatizar que. assumindo uma forma alternativa de ocupação. No Brasil havia 1 milhão de trabalhadores bancários em 1985 e em 2007. aos “trabalhos voluntários etc. pelo setor de serviços. subordinadas à lógica exclusiva da racionalidade econômica e da valorização do capital. Como exemplos. vem se desenvolvendo no mundo do trabalho uma crescente expansão do trabalho no chamado "Terceiro Setor". acabam muitas vezes engrossando as fileiras dos trabalhos precários. que atingiram a idade de ingresso no mercado de trabalho e que. é necessário acrescentar também que as mutações organizacionais. inicialmente deu-se uma forte absorção. abarcando . uma vez desempregados. sem perspectivas de trabalho.

homens e mulheres. mas que. de uma alternativa extremamente limitada para compensar o desemprego estrutural. Esta forma de atividade social. onde predominam aquelas de caráter assistencial. com o avanço da horizontalização do capital produtivo. heterogêneo. ao contrário. portanto. Outra tendência que gostaríamos de apontar é a da expansão do trabalho a domicílio. realizado no espaço domiciliar ou em pequenas unidades produtivas. Através da telemática. com a expansão das formas de flexibilização e precarização do trabalho. dentre as inúmeras empresas que vêm aumentando as atividades de trabalho produtivo. o trabalho produtivo a domicílio mescla-se com o trabalho reprodutivo doméstico. Trata-se. em nosso entendimento. jovens e idosos. a Nike. não se constituindo. tem tido certa expansão. numa alternativa efetiva e duradoura frente ao mercado de trabalho capitalista. permitida pela desconcentração do processo produtivo. entretanto. movida predominantemente por valores não-mercantis. pela expansão de pequenas e médias unidades produtivas. Sabemos que a telemática (ou teleinformática) nasceu da convergência entre os sistemas de telecomunicações por satélite e à cabo. juntamente com as novas tecnologias de informação. No Brasil ela hoje abarca cerca de 20 milhões de trabalhadores. o trabalho produtivo doméstico vem presenciando formas de expansão em várias partes do mundo. aumentando as formas de exploração do contingente feminino. num quadro de desemprego estrutural. Desse modo. nacionais e . 1996) Essa modalidade de trabalho tem se ampliado em grande escala. conectadas ou integradas às empresas. através de trabalhos realizados no interior das ONGs e outros organismos ou associações similares. de que são exemplos a Benetton. polissêmico e multifacetado que caracteriza a nova conformação da classe trabalhadora: além das clivagens entre os trabalhadores estáveis e precários. possibilitando enorme expansão e agilização das atividades das transnacionais. A expansão desse segmento é um desdobramento direto da retração do mercado de trabalho industrial e de serviços. (Chesnais. lhe é bastante funcional. sem fins diretamente mercantis ou lucrativos e que se desenvolvem relativamente à margem do mercado. É este. a microeletrônica e as redes informacionais. o desenho compósito.um amplo leque de atividades.

seja para uso capitalista. IV Desse modo. Podemos também acrescentar que os trabalhadores improdutivos. "incluídos e excluídos". . em expansão na totalidade do mundo produtivo. seja ara uso público. para se compreender a nova forma de ser do trabalho. ainda. também. etc. a totalidade dos trabalhadores desempregados. como os serviços públicos. Ela compreende a totalidade dos assalariados. brancos e negros. dada a ampliação dos setores produtivos nos serviços) e abrange também os trabalhadores improdutivos. os trabalhadores produtivos que participam diretamente do processo de criação de mais valia e da valorização do capital (que hoje transcende em muito as atividades industriais. Ela incorpora. temos também as estratificações e fragmentações que se acentuam em função do processo crescente de internacionalização do capital. qualificados e desqualificados. é preciso partir de uma concepção ampliada de trabalho. que vende a sua força de trabalho para o capital. uma vez que são utilizados como serviço. predominantemente intelectual. tanto o núcleo central do proletariado industrial. o proletariado rural. incorporando também a totalidade do trabalho social. Inclui. a totalidade do trabalho coletivo que vende sua força de trabalho como mercadoria em troca de salário. part time. homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho. fica evidenciado que.imigrantes. de que são exemplos os assalariados das regiões agro-industriais e engloba o proletariado precarizado. como aqueles e aquelas que exercem trabalho imaterial. em nosso entendimento. pelo trabalho precarizado. Abrange. como vimos anteriormente. o proletariado moderno. cujo trabalhos não criam diretamente mais valia. não se restringindo aos trabalhadores manuais diretos. A classe trabalhadora hoje incorpora tanto os trabalhadores materiais. criadores de antivalor no processo de trabalho. que se caracteriza pelo vínculo de trabalho temporário. fabril e de serviços. vivenciam situações muito aproximadas com aquelas experimentadas pelo conjunto dos trabalhadores produtivos.

Naturalmente. mais heterogênea e mais complexificada. mas nem todo trabalhador assalariado é produtivo. gestão e sistema de mando do capital. Daí a enorme crise dos sindicatos. Se muitos analistas diagnosticaram um caráter terminal neste organismo de representação de classe. E. que aqui tão somente indicamos alguns pontos centrais. tocando suas questões vitais. Como todo trabalho produtivo é assalariado. não encontra mais respaldo no mundo real e em suas lutas sociais. E estão excluídos também aqueles que vivem de juros e da especulação. para ficar somente neste exemplo. pelo papel central que exercem no controle. esse não é o nosso entendimento. à guisa de provocação: hoje devemos reconhecer (e mesmo saudar) a desierarquização dos organismos de classe. a classe trabalhadora hoje. Compreender. A velha máxima de que primeiro vinham os partidos. a classe-que-vive-do-trabalho. sindical ou partidário que consegue chegar as raízes das nossas mazelas e engrenagens sociais. Ela tem uma conformação mais fragmentada. por fim. é aquele movimento social. uma noção contemporânea de classe trabalhadora deve. como imaginar que um sindicalismo verticalizado possa representar esse novo e compósito mundo do trabalho? Uma conclusão se impõe. depois os sindicatos e. embora este ainda se constitua em seu núcleo fundamental. portanto. Se a indústria taylorista e fordista é parte mais do passado do que do presente (ao menos enquanto tendência). para fazê- . é mais ampla do que o proletariado industrial produtivo do século passado. de modo ampliado. Aqui queremos tão somente registrar que a nova morfologia do trabalho significa também um novo desenho das formas de representação das forças sociais do trabalho. incorporar a totalidade dos trabalhadores assalariados. em nosso desenho analítico não fazem parte da classe trabalhadora moderna os gestores do capital. implica em entender este conjunto de seres sociais que vivem da venda da sua força de trabalho. que são assalariados e desprovidos dos meios de produção. a pequena burguesia urbana e rural que é proprietária e detentora. ainda que em pequena escala. os demais movimentos sociais. em nosso entendimento. portanto. Essa nova morfologia do trabalho. não poderia deixar de afetar os organismos de representação dos trabalhadores. Estão excluídos também os pequenos empresários. A classe trabalhadora. O mais importante. hoje. dos meios de sua produção.

Editorial Itaca. VASAPOLLO. The Guardian. bem como as complexas engrenagens do capital. -BIBLIOGRAFIA ANTUNES. Ed. J. São Paulo. Campinas. . (2004) A Feminização no Mundo do Trabalho. A. J. L. Madri. (2004). (02/03/2004) “Return of a Conundrun”. Boitempo. _______________. João. A. e ARIOLA. Milão. Jaca Book. (2006) O Trabalho Duplicado. _______________. Expressão Popular. Ursula (2003) The Making of a Cybertariat (virtual work in a real world). 2003. 23. Ed. Cortez. Ed. Monthly Review Press/The Merlin Press. São Paulo. Ed. CHESNAIS. NOGUEIRA. HUWS. Claudia. São Paulo. Ed. BERNARDO. Autores Associados. Ed. (1995) Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho. Nova Iorque/Londres. Buenos Aires. et al. VASAPOLLO. São Paulo. (1996) Sociologia del Trabajo. L (2005) O Trabalho Atípico e a Precariedade. (1996) A Mundialização do Capital. São Paulo. Ed. Ricardo. São Paulo. é imprescindível conhecer a nova (e ampla) morfologia do trabalho. Expressão Popular. (2005) O Caracol e sua Concha: Ensaios sobre a Nova Morfologia do Trabalho. Democracia Totalitária: Teoria e Prática da Empresa Soberana. Boitempo. (2003) “Diluición y Mutación del Trabajo en la Dominación Social Local”. (2004) La Reestructuración del Mundo del Trabajo: Superexplotación y Nuevos Paradigmas de la Organización del Trabajo.(1999) Os Sentidos do Trabalho. 2003. (2005) L’uomo precario nel disordine globale. Revista Herramienta n. RIFKIN. Juan J.lo. BIALAKOWSKY. São Paulo. CASTILLO. CIS. _________________. Xamã. Cortez/Ed. México.. SOTELO. Unicamp. François.

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