DIMENSÕES DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO RICARDO ANTUNES1 I Já se tornou lugar comum dizer que a classe trabalhadora vem sofrendo

profundas mutações, tanto nos países centrais, quanto no Brasil. Sabemos que quase um terço da força humana disponível para o trabalho, em escala global, ou se encontra exercendo trabalhos parciais, precários, temporários, ou já vivenciava a barbárie do desemprego. Mais de um bilhão de homens e mulheres padecem as vicissitudes do trabalho precarizado, instável, temporário, terceirizado, quase virtual, dos quais centenas de milhões têm seu cotidiano moldado pelo desemprego estrutural. Se contabilizados ainda os dados da Índia e China, a conta se avoluma ainda mais. Há, então, um movimento pendular que caracteriza a classe trabalhadora: por um lado, cada vez menos homens e mulheres trabalham muito, em ritmo e intensidade que se assemelham à fase pretérita do capitalismo, na gênese da Revolução Industrial, configurando uma redução do trabalho estável, herança da fase industrial que conformou o capitalismo do século XX. Como, entretanto, os capitais não podem eliminar completamente o trabalho vivo, consegue reduzi-lo em várias áreas e ampliá-lo em outras, como se vê pela crescente apropriação da dimensão cognitiva do trabalho. Aqui encontramos, então, o traço de perenidade do trabalho. (Antunes, 2005) No outro lado do pêndulo, cada vez mais homens e mulheres trabalhadores encontram menos trabalho, esparramando-se pelo mundo em busca qualquer labor, configurando uma crescente tendência de precarização do trabalho em escala global, que vai dos EUA ao Japão, da Alemanha ao México, da Inglaterra ao Brasil, sendo que a ampliação do desemprego estrutural é sua manifestação mais virulenta.

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Professor Titular de Sociologia do Trabalho no IFCH/UNICAMP e autor, entre outros livros, de Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil (coordenador, Boitempo, 2006), O caracol e sua Concha: ensaio sobre a nova morfologia do trabalho (Boitempo, 2005); Os Sentidos do Trabalho, (Boitempo), entre outros livros. Coordena também as Coleções Mundo do Trabalho (Boitempo) e Trabalho e Emancipação (Ed. Expressão Popular. Colaborador de várias publicações no Brasil e no exterior. É também pesquisador do CNPq. Este texto constará do livro Terceirização: A Perda da Razão Social do Trabalho, Druck et alli (org.), no prelo pela editora Boitempo.

sofrendo forte redução. por exemplo. os . do que um dia denominamos estado de bem estar social . entre 1995 e 2002 a China perdeu mais de 15 milhões de trabalhadores industriais. Segundo Jeremy Rifkin (2004). por outro lado. estamos presenciando novas formas de confrontação social. Na China. dos motoboys que morrem nas ruas e avenidas. dos assalariados do fast food. dadas as tantas peculiaridades de seu processo de industrialização hipertardia . a retração do operariado industrial de base tayloriano-fordista e. os trabalhadores e trabalhadoras oscilam. como a explosão do movimento dos trabalhadores–desempregados. por exemplo. sua forma de ser (para pensarmos em termos ontológicos). em decorrência das mutações em curso naquele país. Não é por outro motivo que o PC Chinês e seu governo estão assustados também com o salto dos protestos sociais. até os assalariados de serviços. Na Argentina. chegando recentemente à casa das 80 mil manifestações em 2005.que combina força de trabalho sobrante e hiper-explorada com maquinário industrial-informacional em lépido e explosivo desenvolvimento . Nova morfologia que compreende desde o operariado industrial e rural clássicos. dos digitalizadores que laboram (e se lesionam) nos bancos. segundo a lógica da flexibilidade-toyotizada.Contrariamente. que decuplicaram nos últimos anos. resultado das fortes mutações que abalaram o mundo produtivo do capital nas últimas décadas.também lá o contingente mais proletário vem se precarizando intensamente. como em nossa América Latina. a sua nova morfologia. entre a busca quase inglória do emprego ou o aceite de qualquer labor. Se nos países do Norte ainda podemos encontrar alguns poucos resquícios do welfare state. temporários que se ampliam. estamos desafiados a compreender o que venho denominando como a nova polissemia do trabalho. país que cresce a um ritmo estonteante. cujo elemento mais visível é o seu desenho multifacetado. entretanto. Processo assemelhado ocorre também na Índia e em tantas outras partes do mundo. dos trabalhadores dos hipermercados etc. às teses que advogam o fim do trabalho. cada vez mais. simultaneamente. os novos contingentes de homens e mulheres terceirizados. das trabalhadoras de telemarketing e call center. em processo de encolhimento. Nova morfologia que pode presenciar.ainda que o padecimento do trabalho e o desemprego também sejam seus traços ascendentes – nos países do Terceiro Mundo. isto é. subcontratados. a ampliação.

do surgimento dos CCQ’s (Círculos de Controle de Qualidade) e dos sistemas de produção just-in-time e kanban. a expansão da luta dos trabalhadores em torno das empresas “recuperadas”. (Bialakowsky at al. E sinalizaram para novas formas de lutas sociais do trabalho. conseqüência da nova divisão internacional do trabalho que exigiu mutações tanto no plano da organização sócio-técnica da produção. dentre tantas outras conseqüências. o que tornou obsoleto tratar de modo independente os três setores tradicionais da economia (indústria. Durante nossa década de desertificação neoliberal. a indústria de serviços e os serviços industriais. quanto uma significativa reestruturação produtiva em praticamente todo universo industrial e de serviços. da redução do número de trabalhadores. ambas. “cortan las rutas” para barrar a circulação de mercadorias (ajudando a embaralhar a produção) e para estampar ao país o flagelo do desemprego. dentre outros elementos. tanto a pragmática desenhada pelo Consenso de Washington (com suas desregulamentações nas mais distintas esferas do mundo do trabalho e da produção). e que já atingem a soma de duas centenas de empresas sob controle-direção-gestão dos trabalhadores. simultaneamente. respostas decisivas ao desemprego argentino.piqueteros. nos inícios de 2001. Tudo isso num período marcado pela mundialização e financeirização dos capitais. Nos anos 1990 essa processualidade deslanchou através da implantação dos receituários oriundos da acumulação flexível e do ideário japonês e assemelhados. das formas de subcontratação e de terceirização da força de trabalho. Ou ainda. fundamentalmente através de reorganização sócio-técnica da produção. Vale aqui o registro. quanto nos processos de re-territorialização e desterritorialização da produção. da intensificação da lean production. 2003) No Brasil o quadro é ainda mais grave. concepção carregada de significação política. agricultura e serviços). da intensificação da jornada de trabalho dos empregados. de que são exemplos a agro-indústria. pudemos presenciar. dada a enorme interpenetração entre essas atividades. então. Foram. ocupadas durante o período mais crítico da recessão. que reconhecer a interdependência setorial é muito diferente de falar em sociedade pós-industrial. até pelas conseqüências políticas decorrentes.. Foi quando o fordismo aqui vigente sofreu os primeiros influxos do toyotismo. da transferência de plantas e . A necessidade de elevação da produtividade dos capitais em nosso país vem ocorrendo.

ou outros estados como Paraná. Ou seja. transferiram-se da região de Franca. 2006) Dentro desta contextualidade. trabalhadores em tempo parcial. E hoje examinam possibilidades de transferência de parte da produção para a China. ambas na região de Campinas. por exemplo. sem registro formalizado. estamos conhecendo a época da informalização do trabalho. sob imposição da concorrência internacional. Não é por acaso que a Manpower é símbolo de emprego nos EUA. transferiram-se da Região da Grande São Paulo para áreas do interior paulista (São Carlos e Campinas). subcontratados. precarizados. Bahia. no estado do Rio Grande do Sul. para atender à grande demanda por trabalhadores temporários. pouco ou nada taylorizada e fordizada e carente de qualquer trabalho. em plena era da informatização do trabalho. no interior do estado de São Paulo. do ramo metal–mecânico e eletrônico. onde empresas tradicionais. sem experiência sindical e política. como o Ceará e Bahia e hoje começam a pensar em transferir parcela de sua produção para o solo chinês. Se nos anos 1980 era relativamente pequeno o número de empresas de terceirização. locadoras de força de trabalho de perfil temporário. além de isenções fiscais.unidades produtivas. como a Toyota e Honda. ou ainda para o interior de Minas Gerais (Juiz de Fora). Novas plantas foram instaladas. como a indústria têxtil. dentre tantos outros exemplos. flexibilizados. . como o interior do Rio de Janeiro (Resende). para estados do Nordeste. do cyberproletariado. ou da região do Vale dos Sinos. dos terceirizados. (Antunes. níveis mais rebaixados de remuneração da força de trabalho. conforme a sugestiva indicação de Ursula Huws (2003). Rio Grande do Sul. combinados com uma força de trabalho sobrante. pode-se constatar uma nítida ampliação de modalidades de trabalho mais desregulamentadas. do mundo maquinal e digital. ou deslocaram-se para outras áreas do país. nas décadas seguintes esse número aumentou significativamente. gerando uma massa de trabalhadores que passam da condição de assalariados com carteira para trabalhadores sem carteira assinada. passaram a buscar. Indústrias consideradas modernas. sem vínculo empregatício. distantes da legislação trabalhista. Várias fábricas de calçados.

diverso do trabalhador que se desenvolveu na empresa taylorista e fordista. Os serviços públicos. previdência etc. na concepção de um novo software da Microsoft. só marginalmente nossa classe trabalhadora presenciava níveis de informalidade. é necessário um “novo tipo de trabalho”. II Quais são os contornos desse “novo tipo de trabalho”? Ele deve ser mais “polivalente”. telecomunicações. expressam as formas contemporâneas do valor. desprovida de direitos e sem carteira de trabalho. educação. como “colaborador”. para não falar do agronegócios. precarização exacerbada. que vem . É o que o discurso empresarial chama de “sociedade do conhecimento”. esse é o desenho mais freqüente da nossa classe trabalhadora. no passado recente. onde as substâncias vivas são eliminadas. próprias da sociedade do logos. mas o que se gestou na fase da “desespecialização multifuncional”. E. sendo substituídas pelo maquinário técno-informacional presente no trabalho morto. do simbólico. Desemprego ampliado. perda crescente de direitos. O trabalho que cada vez mais as empresas buscam. Resultante do processo de liofilização organizacional (Castillo. não é mais aquele fundamentado na especialização taylorista e fordista. presente no design da Nike. tempos e processos de trabalho. um significativo processo de reestruturação. e que são resultado do labor (imaterial) que. quanto nos serviços. como saúde. (Bernardo. no modelo novo da Benetton. como não poderia deixar de ser. como o trabalho vivo. de modo mistificado. que em verdade expressa a enorme intensificação dos ritmos. que os capitais denominam. “multifuncional”. rebaixamento salarial acentuado. articulado e inserido no trabalho material. do “trabalho multifuncional”. realizado nas esferas da comunicação. Além de operar através de várias máquinas. em 2007 mais de 50% dela se encontra nessa condição (aqui concebendo a informalidade em sentido amplo). da marca. no mundo do trabalho hoje presenciamos também a ampliação do que Marx chamou de trabalho imaterial. 1996) que permeia o mundo empresarial. também sofreram. do involucral e do supérfluo. subordinando-se à máxima da mercadorização. publicidade e marketing. 2004) E isso ocorre tanto no mundo industrial.Se. nessa empresa liofilizada. energia.

uma vez que elas são verdadeiros empreendimentos para destruir direitos e aumentar ainda mais as condições de precarização da classe trabalhadora. com número muito mais reduzido de trabalhadores e produzindo muitas vezes mais. a erosão do trabalho contratado e regulamentado. O resultado parece evidente: intensificam-se as formas de extração de trabalho. os capitais vêm criando falsas cooperativas. dominante no século XX. aumentar ainda mais os mecanismos de extração do sobretrabalho. funcional ou organizativa. sejam elas materiais ou imateriais. que cada vez mais se configura como forma oculta de trabalho assalariado e que permite o proliferar. elas nasceram como instrumentos de luta operária contra o desemprego e o despotismo do trabalho. “trabalho voluntário”. em sua origem. Hoje. na Inglaterra. contrariamente. ampliam-se as terceirizações. E flexibilizar a legislação social do trabalho significa. sentido contrário ao projeto original das cooperativas de trabalhadores. O trabalho estável torna-se. Onde havia uma empresa concentrada pode-se substituí-la por várias pequenas unidades interligadas pela rede. 2005).afetando fortemente os trabalhadores do setor estatal e público. heterogêneo e multifacetado que caracteriza a classe trabalhadora brasileira. das distintas formas de flexibilização salarial. valorativo. ampliar as formas de precarização e destruição dos direitos sociais que foram arduamente conquistados pela classe trabalhadora. e especialmente pós-1930. uma vez que. como forma de precarizar ainda mais os direitos do trabalho. não é possível ter nenhuma ilusão sobre isso. então. “trabalho atípico”. o desenho compósito. Similar é o caso do empreendedorismo. Ampliou-se. caracterizado por um processo de precarização estrutural do trabalho que os capitais globais estão exigindo também o desmonte da legislação social protetora do trabalho. As “cooperativas” patronais têm. subjetivo e ideo-político são por demais evidentes. e vendo sua substituição pelas diversas formas de “empreendedorismo”. “cooperativismo”. (Vasapollo. Estamos vivenciando. neste cenário aberto pelo neoliberalismo e pela reestruturação produtiva. E neste quadro. então. a noção de tempo e de espaço também são metamorfoseadas e tudo isso muda muito o modo do capital produzir as mercadorias. então. corpóreas ou simbólicas. portanto. 2005 e Vasapollo e Ariola. (quase) virtual. desde o início da Revolução Industrial. de horário. quando se toma o exemplo brasileiro. As repercussões no plano organizativo. Além das clivagens entre os trabalhadores . O exemplo das cooperativas talvez seja ainda mais eloqüente.

tradicional. manual. dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho. Este proletariado vem diminuindo com a reestruturação produtiva do capital. homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho. reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis que se estruturavam através de empregos formais. mas que se reconhece enquanto parte da classe trabalhadora desempregada. qualificados e desqualificados. seja ela material ou imaterial. entre nacionais e imigrantes. no mesmo período o proletariado reduziu-se de cerca de 70 mil para pouco mais de 40 mil. herdeiro da era da indústria verticalizada de tipo taylorista e fordista. E devemos incluir também o enorme contingente sobrante de força de trabalho que não encontra emprego. região onde se encontram as principais empresas automobilísticas. III Devemos enfatizar que a classe trabalhadora. brancos e negros. Para compreendê-la é preciso. houve uma redução de aproximadamente 240 mil operários nos anos 1980 para menos de 100 mil em 2007. vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial. compreende a totalidade dos assalariados. empregados e desempregados.estáveis e precários. que vende sua força de trabalho como mercadoria. fabril. de gênero. no ABC paulista. 1999 e 1995) Com a retração do binômio taylorismo/fordismo. (Antunes. partir de uma concepção ampliada de trabalho. estável e especializado. outra importante região industrial metalúrgica. temos ainda as estratificações e fragmentações que se acentuam em função do processo crescente de internacionalização do capital. então. abarcando a totalidade dos assalariados. herança da fase taylorista/fordista. Na principal área do operariado metalúrgico no Brasil. em troca de salário. em nosso entendimento. homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e não se restringindo aos trabalhadores manuais diretos. desde o início da reestruturação produtiva do capital em escala global. devemos incorporar a totalidade do trabalho social e coletivo. a classe-que-vive-do-trabalho e que são despossuídos dos meios de produção. . dos cortes geracionais entre jovens e idosos. Na cidade de Campinas.

que também são desiguais. entretanto. terceirizado. temporário. 2004) Outra tendência de enorme significado no mundo do trabalho contemporâneo é dada pelo aumento significativo do trabalho feminino que atinge mais de 40% da força de trabalho ou mais em diversos países avançados e também na América Latina. que se expandem em escala global. também anteriormente mencionada. informalizado. depois de uma expansão de seu proletariado industrial nas décadas passadas. das políticas neoliberais e do cenário de desindustrialização e privatização. contrariamente à tendência acima apontada. os capitais implementam alternativas de trabalho crescentemente “informais”. de trabalhadores/as desempregados/as. quando não ainda mais grave. (Nogueira. passaram a presenciar significativos processos de desindustrialização. Chile. (Sotelo. uma significativa expansão dos assalariados médios no “setor de serviços”. que inicialmente incorporou parcelas significativas de trabalhadores expulsos do mundo produtivo industrial. entretanto. no México. São os terceirizados.Há. part-time. mas que também sentem as conseqüências do processo de reestruturação . que se caracteriza pelo aumento do novo proletariado fabril e de serviços. etc. Em vários outros países da América Latina a situação é similar. o mesmo ocorrendo em relação aos direitos sociais e do trabalho. presente nas diversas modalidades de trabalho precarizado. um movimento inverso quando se trata da temática salarial. particularmente nas últimas décadas do Século XX. o salário médio das mulheres está em torno de 60% do salário dos trabalhadores. outra muito significativa. No Brasil. subcontratados. Em 2007. em escala mundial. onde os níveis de remuneração das mulheres são em média inferiores àqueles recebidos pelos trabalhadores. além de enormes níveis de desemprego. onde também foi expressivo o processo de feminização do trabalho. mais de 50% da população economicamente ativa encontra-se em situação de informalidade no Brasil. Com a desestruturação crescente do Welfare State nos países do Norte e aumento da desregulamentação do trabalho nos países do Sul. Argentina. entre tantas outras formas assemelhadas. parcial. acrescidos da ampliação do desemprego estrutural. de que são exemplo as distintas formas de terceirização. Esta expansão do trabalho feminino tem. tendo como resultante a expansão do trabalho precarizado. 2004 e 2005) É perceptível também. como resultado do amplo processo de reestruturação produtiva.

motivadas predominantemente por formas de trabalho voluntário. com idade próxima de 40 anos e que. esse contingente reduziu-se para menos de 400 mil. aos desempregados. dada a vigência da sociedade do desemprego estrutural. que cada vez mais se submetem à racionalidade do capital e à lógica dos mercados. em função da reestruturação do setor.Se. acabam muitas vezes engrossando as fileiras dos trabalhos precários. através de empresas de perfil mais comunitários. o mundo do trabalho. tem se utilizado da inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho. daqueles/as que se desempregavam do mundo industrial. O mundo do trabalho atual tem recusado os trabalhadores herdeiros da “cultura fordista”. Paralelamente à exclusão dos jovens vem ocorrendo também a exclusão dos trabalhadores considerados “idosos” pelo capital. paralelamente à exclusão dos “idosos” e jovens em idade pós-escolar. dos desempregados. aos “trabalhos voluntários etc. sem perspectivas de trabalho. E. tecnológicas e de gestão também afetaram fortemente o mundo do trabalho nos serviços. uma vez desempregados. entretanto. em conseqüências dessas mutações. assumindo uma forma alternativa de ocupação. subordinadas à lógica exclusiva da racionalidade econômica e da valorização do capital. inicialmente deu-se uma forte absorção. Com a inter-relação crescente entre mundo produtivo e setor de serviços. pelo setor de serviços. aos contingentes do chamado trabalho informal. que atingiram a idade de ingresso no mercado de trabalho e que. No Brasil havia 1 milhão de trabalhadores bancários em 1985 e em 2007. vale enfatizar que. abarcando . vem se desenvolvendo no mundo do trabalho uma crescente expansão do trabalho no chamado "Terceiro Setor". que são substituídos pelos trabalhadores “polivalentes e multifuncionais” da era toyotista. fortemente especializados. poderíamos lembrar a enorme redução do contingente de trabalhadores bancários no Brasil. Como desdobramento destas tendências acima apontadas. Como exemplos. nas mais diversas partes do mundo. é necessário acrescentar também que as mutações organizacionais. várias atividades no setor de serviços anteriormente consideradas improdutivas tornaram-se diretamente produtivas. dificilmente conseguem reingressar no mercado de trabalho. Outra tendência presente no mundo do trabalho é a crescente exclusão dos jovens. Somamse. sem perspectiva de emprego. nas mais diversas atividades produtivas. desse modo.

com a expansão das formas de flexibilização e precarização do trabalho. não se constituindo. polissêmico e multifacetado que caracteriza a nova conformação da classe trabalhadora: além das clivagens entre os trabalhadores estáveis e precários. movida predominantemente por valores não-mercantis. homens e mulheres. Desse modo. 1996) Essa modalidade de trabalho tem se ampliado em grande escala. A expansão desse segmento é um desdobramento direto da retração do mercado de trabalho industrial e de serviços. num quadro de desemprego estrutural. a microeletrônica e as redes informacionais. a Nike. onde predominam aquelas de caráter assistencial. (Chesnais. ao contrário. juntamente com as novas tecnologias de informação. pela expansão de pequenas e médias unidades produtivas. Esta forma de atividade social. realizado no espaço domiciliar ou em pequenas unidades produtivas. em nosso entendimento. de que são exemplos a Benetton. Sabemos que a telemática (ou teleinformática) nasceu da convergência entre os sistemas de telecomunicações por satélite e à cabo. numa alternativa efetiva e duradoura frente ao mercado de trabalho capitalista. portanto. de uma alternativa extremamente limitada para compensar o desemprego estrutural. sem fins diretamente mercantis ou lucrativos e que se desenvolvem relativamente à margem do mercado. aumentando as formas de exploração do contingente feminino. É este. nacionais e . dentre as inúmeras empresas que vêm aumentando as atividades de trabalho produtivo. No Brasil ela hoje abarca cerca de 20 milhões de trabalhadores. jovens e idosos. conectadas ou integradas às empresas. lhe é bastante funcional. Trata-se. possibilitando enorme expansão e agilização das atividades das transnacionais. mas que. permitida pela desconcentração do processo produtivo. Outra tendência que gostaríamos de apontar é a da expansão do trabalho a domicílio. entretanto. com o avanço da horizontalização do capital produtivo. Através da telemática. o desenho compósito. tem tido certa expansão. o trabalho produtivo doméstico vem presenciando formas de expansão em várias partes do mundo. através de trabalhos realizados no interior das ONGs e outros organismos ou associações similares. o trabalho produtivo a domicílio mescla-se com o trabalho reprodutivo doméstico. heterogêneo.um amplo leque de atividades.

que vende a sua força de trabalho para o capital. . também. homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho. de que são exemplos os assalariados das regiões agro-industriais e engloba o proletariado precarizado. brancos e negros. "incluídos e excluídos". Inclui. part time. incorporando também a totalidade do trabalho social. cujo trabalhos não criam diretamente mais valia. predominantemente intelectual. etc. Ela compreende a totalidade dos assalariados. dada a ampliação dos setores produtivos nos serviços) e abrange também os trabalhadores improdutivos. a totalidade dos trabalhadores desempregados. como aqueles e aquelas que exercem trabalho imaterial. como os serviços públicos. seja ara uso público. uma vez que são utilizados como serviço. qualificados e desqualificados. o proletariado rural. é preciso partir de uma concepção ampliada de trabalho. não se restringindo aos trabalhadores manuais diretos. Abrange. vivenciam situações muito aproximadas com aquelas experimentadas pelo conjunto dos trabalhadores produtivos. a totalidade do trabalho coletivo que vende sua força de trabalho como mercadoria em troca de salário. em nosso entendimento. A classe trabalhadora hoje incorpora tanto os trabalhadores materiais. Podemos também acrescentar que os trabalhadores improdutivos. Ela incorpora. em expansão na totalidade do mundo produtivo. que se caracteriza pelo vínculo de trabalho temporário. tanto o núcleo central do proletariado industrial. o proletariado moderno. fica evidenciado que. ainda. IV Desse modo. pelo trabalho precarizado. criadores de antivalor no processo de trabalho. para se compreender a nova forma de ser do trabalho. fabril e de serviços. seja para uso capitalista. como vimos anteriormente. os trabalhadores produtivos que participam diretamente do processo de criação de mais valia e da valorização do capital (que hoje transcende em muito as atividades industriais. temos também as estratificações e fragmentações que se acentuam em função do processo crescente de internacionalização do capital.imigrantes.

implica em entender este conjunto de seres sociais que vivem da venda da sua força de trabalho. de modo ampliado. a pequena burguesia urbana e rural que é proprietária e detentora. embora este ainda se constitua em seu núcleo fundamental. O mais importante. que aqui tão somente indicamos alguns pontos centrais. Daí a enorme crise dos sindicatos. ainda que em pequena escala. hoje. como imaginar que um sindicalismo verticalizado possa representar esse novo e compósito mundo do trabalho? Uma conclusão se impõe. portanto. por fim. à guisa de provocação: hoje devemos reconhecer (e mesmo saudar) a desierarquização dos organismos de classe. para fazê- . em nosso desenho analítico não fazem parte da classe trabalhadora moderna os gestores do capital. dos meios de sua produção. Ela tem uma conformação mais fragmentada. para ficar somente neste exemplo. não encontra mais respaldo no mundo real e em suas lutas sociais. em nosso entendimento. A velha máxima de que primeiro vinham os partidos. que são assalariados e desprovidos dos meios de produção. incorporar a totalidade dos trabalhadores assalariados. Estão excluídos também os pequenos empresários. a classe-que-vive-do-trabalho. uma noção contemporânea de classe trabalhadora deve. depois os sindicatos e. E estão excluídos também aqueles que vivem de juros e da especulação. pelo papel central que exercem no controle. A classe trabalhadora.Naturalmente. Se a indústria taylorista e fordista é parte mais do passado do que do presente (ao menos enquanto tendência). gestão e sistema de mando do capital. sindical ou partidário que consegue chegar as raízes das nossas mazelas e engrenagens sociais. Essa nova morfologia do trabalho. é mais ampla do que o proletariado industrial produtivo do século passado. a classe trabalhadora hoje. não poderia deixar de afetar os organismos de representação dos trabalhadores. é aquele movimento social. mais heterogênea e mais complexificada. tocando suas questões vitais. mas nem todo trabalhador assalariado é produtivo. os demais movimentos sociais. Se muitos analistas diagnosticaram um caráter terminal neste organismo de representação de classe. E. Como todo trabalho produtivo é assalariado. Aqui queremos tão somente registrar que a nova morfologia do trabalho significa também um novo desenho das formas de representação das forças sociais do trabalho. portanto. esse não é o nosso entendimento. Compreender.

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