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ARTIGO FAMILIA

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DESAFIOS AO ESTUDO DA FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA DESAFÍOS AL ESTUDIO DE LA FAMILIA CONTEMPORÁNEA João Carlos Petrini Universidade Católica do Salvador (Brasil

) Lúcia Vaz de Campos Moreira Universidade Católica do Salvador (Brasil) Miriã Alves Ramos de Alcântara Centro de Investigación y Postgrado – Visconde de Cairú (Brasil) Resumo O presente artigo, de caráter teórico, reflete sobre a mutação antropológica, as mudanças familiares, a questão de gênero e de gerações. Apresenta ainda os principais rumos tomados pelos estudos sobre família em contexto de mudança social e, finalmente, aponta alguns temas relevantes de pesquisas em família, quais sejam, o casal, a definição da vida familiar e as relações familiares. São justificados a necessidade e o desafio de se incrementar estudos sobre a família, que podem direta, ou indiretamente, embasar políticas sociais dirigidas a ela. Palavras-chave: Família em mudança, Modernidade, pesquisa. Resumen El presente artículo, de carácter teórico, reflexiona sobre la mutación antropológica, las mudanzas familiares, la cuestión de género y de generaciones. Presenta también los principales rumbos tomados por los estudios sobre familia en el contexto de cambio social y, finalmente, apunta algunos temas relevantes de investigaciones en familia, la pareja, la definición de la vida familiar y las relaciones familiares. Son justificados la necesidad y el desafío de realizar más estudios sobre la familia que puedan, directa o indirectamente, dar base a políticas sociales dirigidas a ella. Palabras clave: Familia en mudanza; modernidad; investigación. Abstract The present article, of theoretical character, thinks about the anthropological mutation, the familiar changes, the question of type and of generations. Presents still the principal courses taken for the studies on family in context of social change and, finally, it points to some relevant subjects of inquiries in family, what they are, the couple, the definition of the familiar life and the familiar relations. Are necessary and justified studies about family in changing, which can straight, or indirectly, to orientate social policies gone to her. Key words: Family in change, Modernity, Inquiry.

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Em poucas décadas. Além disso. por inserir o indivíduo em processos fundamentais da constituição da identidade. Ao longo dos tempos. assim como das experiências do nascimento e da morte. cônjuges. 2. do envelhecimento. os quais possuem grande repercussão para o desenvolvimento de uma personalidade madura. o que torna possível a inserção social do indivíduo. da maternidade. com a automação dos 1 Petrini..: Pós-modernidade e família: um itinerário de compreensão. J. está relacionada ao inevitável conservadorismo. como é o caso do casamento. As diversas posições sociais e políticas fazem referência a ela. Outros a consideram um recurso para a pessoa e para a sociedade. as mudanças na organização da produção. as mudanças e transições mais importantes do ciclo de vida da pessoa são processos relativos ao contexto familiar. 2 . com irmãos (fraternidade). a família. a paternidade e a maternidade. 2003. Outro aspecto típico é a tarefa educacional exercida pela família.1. existindo quase sempre uma preocupação em tudo o que lhe diz respeito. tais como a difusão da cultura de massa e as possibilidades oferecidas pela manipulação genética. tal questão está entre as que mais têm causado polêmica. a revolução sexual. No entanto. EDUSC. a família. Introdução O tema família constitui um desafio às investigações das Ciências Humanas. 228 p. Bauru. etc. como a formação dos vínculos afetivos com os pais (filiação). que tem na antiguidade clássica grega e romana e na cultura judaico-cristã suas matrizes estruturantes. Mutação antropológica e mudanças familiares As mudanças que se verificaram ao longo da modernidade repercutem não somente em alguns comportamentos humanos. do modo de conceber e de viver a sexualidade. mas fazem emergir uma imagem de homem e de mulher totalmente diferente da que presidiu ao processo de civilização ocidental. da paternidade. sob o efeito de diversos fatores convergentes. Trata-se de uma alternativa global de homem e de mulher. avós e tios. a procriação dos filhos e toda a esfera da vida privada1. fica evidente o papel central da família em processos humanos. Para alguns. C. como instituição.

no entanto. 1992. entrou em declínio. C. em toda a sua radicalidade. Assim. Estampa. econômico e cultural na qual está imersa. p. o cristianismo era considerado funcional aos interesses do capitalismo emergente. sendo reduzida a possibilidade que se reproduzam nas novas gerações. A família contemporânea caracteriza-se por uma grande variedade de formas que documentam a inadequação dos diversos modelos da tradição. estudada por Freyre5. 4 Saraceno. que se afirmou no contexto da cultura rural. não gozam mais de legitimidade social.: Sociologia da família. 1989.) devemos ter em conta. quase sempre divergentes dos consolidados na tradição.ed. Lipovetsky. desafiam a família a conviver com certa fluidez e abrem um leque de possibilidades que valorizam a criatividade numa dinâmica do tipo tentativa de acerto e erro. ainda que em algumas regiões e nas classes sociais menos escolarizadas e menos expostas à influência da cultura atual. A estrutura familiar patriarcal. 48.. a mutação2 antropológica que se realiza diante de nossos olhos”3.: O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. “Para além da moda e da sua espuma ou de certas caricaturas que se fazem (. G. possam ser reconhecidos indícios de valores e comportamentos passados que. Na etapa inicial da modernidade. 1997. a ética pareceu apresentar mais problemas do que soluções para uma sociedade que necessitava de outros valores e de outros direitos. 28. São Paulo. Rio de Janeiro. A família participa dos dinamismos próprios das relações sociais e sofre as influências do contexto político. configurou-se um cenário cultural e social no qual floresce uma imagem de homem e de mulher radicalmente diferentes dos anteriores.. para compreender os grupos familiares da atualidade4.. Companhia das Letras. mesmo que alguns pontos da moral fossem contestados. Num segundo momento. 2 3 Grifo dos Autores. 3 . Rio de Janeiro. Record.: Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. garantindo o respeito e a aceitação das normas que regulamentavam a convivência social.processos produtivos e com a prevalência do capital especulativo. o cristianismo deixou de ser funcional ao processo produtivo moderno. A perda de validade de valores e modelos da tradição e a incerteza a respeito das novas propostas que se apresentam. G. Os modelos de comportamento que regulamentavam as relações entre os sexos e as relações de parentesco foram abandonados. 5 Freyre.

facilita a ruptura do vínculo familiar. Universitá Bocconi Editore. Em seguida. entendido como “enfraquecimento de um modelo de família baseado no estável exercício da autoridade/domínio do homem adulto. p.Em seu trabalho sobre o Poder das identidades. a possibilidade de gerar filhos sem o concurso da relação sexual “abre horizontes inteiramente novos à experimentação social”10. p. M. seu chefe. 241. 8 Idem. dessa maneira. O limite da disponibilidade individual ao sacrifício para o bem do outro ficou mais baixo. 262. 10 Idem. dissociando-se. a sexualidade torna-se uma necessidade pessoal que não deve necessariamente ser canalizada e institucionalizada para o interior da família”. p. sendo mais rapidamente alcançado o ponto de saturação no relacionamento conjugal. Castells9 observa que “ao nível dos valores sociais. 9 Idem. p. Castells6 dedica um longo capítulo à crise do patriarcado. São abandonados os modelos tradicionais que atribuíam o primado ao marido. a reprodução da espécie das funções sociais e pessoais da família. Nesse sentido. ao mesmo tempo. os aspectos institucionais da realidade familiar bem como as identidades pessoais e as relações mais íntimas entre os membros da família. mas não emergem novos modelos familiares que tenham uma validade universalmente reconhecida e aceita. ele observa que “a crise do patriarcado. 261. Idem. dando origem a formas mais democráticas e igualitárias de partilhar tarefas e responsabilidades entre marido e mulher. Milano. reservando para as mulheres tarefas predominantemente domésticas. 6 7 Castells. Por outro lado. induzida pela interação entre capitalismo informatizado e movimentos sociais pela identidade feminista e sexual. manifesta-se na crescente variedade de modos nos quais as pessoas escolhem conviver e criar as crianças”8. As mudanças atingem.: Il potere delle identitá. A independência econômica dos cônjuges configura uma responsabilidade familiar mais compartilhada e uma posição social igualitária e. 4 . simultaneamente. quando a convivência não é mais fonte de satisfação e de prazer. sobre a família inteira”7. A exigência de satisfação no presente colocou em questão o ideal do sacrifício individual para o bem da família. O valor da igualdade foi progressivamente assimilado ao quotidiano da convivência familiar. 151. 2003.

: A contracepção na Igreja: balanço e perspectivas. Ética della procreazione. podendo-se eliminar dela qualquer responsabilidade ou vínculo que estenda seus efeitos para além do momento em que se realiza como jogo. incluindo a avaliação de custos e benefícios. M. é fácil que o amor seja vivido como sentimento efêmero ou paixão. M. Verifica-se uma des-institucionalização da família. São Paulo. 13 Oliveira. diminuindo o seu significado público. nestas últimas décadas. tradicionalmente. L.Assim. A.: Ética e racionalidade moderna. por definição mais instáveis e flutuantes. os jovens casam mais tarde. Casale Monferrato. 2.ed. Com efeito. ainda em debate12. que não encontra mais limites. cada um percorrendo um itinerário próprio. Prevalece a legitimação da família como grupo social expressivo de afetos. 1997. sexualidade e fecundidade que. diminui significativamente o número dos casamentos. assentada na dimensão jurídica dos vínculos familiares. já existe a possibilidade de procriar sem o exercício da sexualidade. que a literatura mundial de todos os tempos documenta amplamente. Aumentam as separações e os divórcios. Reduz-se. Os aspectos “objetivos” da convivência familiar cedem espaços a aspectos “subjetivos”. a procriação separada do exercício da sexualidade e do amor aproxima-se da atividade produtiva. Roma. constituiu o núcleo do matrimônio e da família. 1996. Mursia. no sentido de considerá-la como uma realidade privada. as uniões de fato. o entrelaçamento de amor.: Corso di bioetica. A dimensão lúdica parece esgotar o significado da sexualidade humana. Seguin. M. clonagem e manipulação genética apresentam novas questões. Loyola. distinto dos outros. 1993. A fecundidade desligada de uma relação de amor aparece agora como definida pela decisão individual e pelo acesso à tecnologia sofisticada13. podendo-se viver a sexualidade sem a fecundidade. Estes três elementos se distanciaram. com conseqüências importantes. Neste ambiente. Paulinas. 5 . PIEMME. a sexualidade sem o amor. decorrentes do dinamismo que as relações familiares assumem no mundo moderno. emoções e sentimentos. assim. segundo a lógica do mercado capitalista. as famílias 11 12 Melina. a fecundidade sem a sexualidade11. em comparação a duas décadas atrás. foi rompido. aumenta a freqüência de famílias reconstituídas. As novas tecnologias de fecundação artificial. perdendo aquela riqueza de experiência e de humanidade. relevante apenas para o percurso existencial dos próprios membros.. a importância da família como instituição. De forma análoga. São Paulo. Rhonheimer. 2000.

PUC/Loyola. É diferente o 14 Berquó. as razões para conviver. pelo ambiente de trabalho do homem e da mulher. n. São Paulo. NAU. Rio de Janeiro. Martins Fontes. que anunciava “a morte da família”. 15 Goldani.). cursos que podem introduzir no diálogo familiar elementos de discussão e até de conflito. M. públicas ou privadas15. nas diversas etapas de seu desenvolvimento. p. Casal e família: entre a tradição e a transformação. As mudanças são de tal magnitude e influenciaram de tal maneira a família que esta aparenta desaparecer.: As famílias brasileiras: mudanças e perspectivas. In: L. A família moderna vê-se permanentemente desafiada pela variação. por clubes. comunidades religiosas. Rio de Janeiro. portanto. 1998. os modelos de comportamento de cada membro. 7-22. “é aquela relação que nasce especificamente na base do casal homem/mulher para regular suas interações e trocas de modo não casual”. Féres-Carneiro.monoparentais e as chefiadas por mulheres14. Influência significativa é exercida pela escola que os filhos freqüentam.: (Org. p.. A família. A. História da vida privada no Brasil. dos limites propostos. É dos anos 70 o livro de Cooper16. 91.4. Muitos fatores externos à família entram em jogo para redefinir os valores e os critérios. Companhia das Letras. juridicamente consolidada. nesse âmbito. 1999. 18 Donati. 17 Féres-Carneiro. Caderno de Pesquisa. dos bens relacionais cujo valor perdura no tempo. associações. T. a cada dia. Laterza. 1998. 16 Cooper. a consciência do bem que os membros da família têm em comum. São Paulo. v. P. 411-438. às vezes vertiginosa. E. as relações entre as gerações e o parentesco. Schawrcz (Org. A paridade entre o homem e a mulher. 1989. ainda que com diversidades apreciáveis em função da escolaridade e da classe social do casal. nov. implica. p. As tarefas educacionais e de socialização são cada vez mais compartilhadas com outras agências. afirma Donati18. 6 . D. Família e casal: arranjos e demandas contemporâneas. 127. por outras instâncias formativas. via de regra. a sexualidade e a procriação e. São Paulo. das experiências perseguidas. começa a ter crescente relevância nas relações familiares. Mudam as relações de casal e as entre pais e filhos 17. 3.: Manuale di sociologia della famiglia. das aspirações de consumo pretendidas. Bari. 2003. M. T. 1994.: Arranjos Familiares no Brasil: uma visão demográfica. caracteriza-se pelo modo específico de viver a diferença de gênero que.). devendo reconquistar.: A morte da família. Gêneros e gerações A família.). nas diversas modalidades que assumiu na história.: (Org.

A perspectiva de realização pessoal pôs um fim à definição da mulher como rainha do lar e abriu as portas das empresas ao trabalho feminino. p. especialmente quando entra em jogo uma específica competência e. Donati20 afirma que “não temos um código simbólico adequado para tratar o jogo das diferenças de gênero em condições de elevada complexidade”. outras diferenciações emergem. espontaneamente. uma relativa autonomia de consumo. Estas mudanças foram incorporadas ao código civil. 7 . 123. compensam-se e entram em conflitos. interagem. “duas diversidades bio-psíquicas se encontram. pode responder à necessidade de realização profissional e abre. repartindo tarefas. que admitem um amplo espectro de variação. Enquanto antigos símbolos da diferenciação de gênero são desconstruídos. 135. sendo passível de interpretações subjetivas. Nesta. quando é referido às relações familiares ou quando é pensado fora da família. orientado para necessidades dos filhos ou da casa ou para algum 19 20 Idem. p. É nesse sentido que. nos jogos de crianças e adolescentes. Atualmente. simultaneamente. o exercício de um trabalho remunerado. trocam muitas coisas.debate a respeito de gênero. Isto aumentou sensivelmente os rendimentos domésticos e as possibilidades de consumo familiar e. segundo seus interesses. negociando espaços de liberdade e de recíproca prestação de contas”19. A inserção da mulher no mercado do trabalho oferece espaço de realização. redefinem-se uma em relação à outra. de tal modo que a definição de gênero resulta ter limites culturais imprecisos. reduziu a dedicação às tarefas domésticas e à educação dos filhos. ajudam-se e disputam entre si. como efeito da luta contra as assimetrias prefixadas entre os sexos. com uma progressiva tendência a não identificar nenhum trabalho como tipicamente masculino ou exclusivamente feminino. Parecem ampliadas as margens de indeterminação. portanto. para a mulher. que reformulou o direito de família de modo a atender às modernas exigências. certo protagonismo. Em alguns casos. ou por indução do mercado. A igualdade entre os sexos estende-se do quotidiano familiar até o trabalho profissional e ao empenho cultural e político. alguns aspectos e âmbitos da vida social atenuam a diferença entre o masculino e o feminino. Idem. quando não corresponde a uma premente necessidade de contribuir para as despesas familiares.

1994. Jablonski22 afirma: “essa disparidade é vivenciada pelas mulheres de forma bastante dolorosa. B. S. 22 Jablonski. ora prevalecendo a cooperação. In: T. Casa do Psicólogo. de acordo com um planejamento mais ou menos rigoroso. observa-se certa diversidade de orientação e de comportamento em função da classe social. tolerância. livre das diferentes prioridades de gastos do marido. As relações entre pais e filhos ganham respeito e flexibilidade. a mulher entrou no mundo do trabalho e no âmbito social. G. Com isso. M. aumenta a expectativa de gratificação emocional e afetiva dos pais em relação aos filhos24. O aumento das famílias monoparentais chefiadas por mulheres indica uma crescente matrifocalidade que deixa com a mulher as maiores responsabilidades para sustentar e educar os filhos. Féres-Carneiro. T. Neste caso. A família sempre foi o lugar do encontro entre diferentes gerações. Verifica-se uma intensidade maior de dedicação e de investimento de recursos. Nas 21 Jablonski. 203-228. Milano. deixam os modelos centrados na autoridade e na disciplina. p.: (Org. p.: Afinal o que quer um casal? Algumas considerações sobre o casamento e a separação na classe média carioca. 24 Campanini.. 24 e ss. São Paulo. de fato. A esse respeito.). T.). 2003. p. a história é constituída por uma seqüência delas.: Família brasileira: a base de tudo. Loyola. que poderiam implicar em condicionamentos e em conflitos. da renda familiar e da escolaridade dos cônjuges. trabalho e modos de vinculação.: Realtá e problemi della famiglia contemporanea: compendio di sociologia della famiglia. In: Feres-Carneiro. São Paulo. 2007.. no horizonte de um amplo pluralismo ético e religioso23. Entretanto. uma vez que há uma promessa no ar de igualdade de funções (.: O cotidiano do casamento contemporâneo: a difícil e conflitiva divisão de tarefas e responsabilidades entre homens e mulheres.interesse próprio. São Paulo. 8 . negociação. 64. Família e casal: saúde. dupla jornada de trabalho. B. 1989. Um respeitável contingente de mulheres urbanas de classe média sente-se traído e iludido por estas promessas não cumpridas”. especialmente com relação à saúde e à educação. ora o conflito. Cortez. Ela conquista um espaço de autonomia.: (Org) Família e casal: arranjos e demandas contemporâneas. Estes comportamentos estão associados ao número menor de filhos que o casal está disposto a criar. San Paolo. devendo administrar a casa e ter. enquanto são incorporados os valores de diálogo. podendo-se notar uma menor aproximação dele aos papéis tradicionalmente femininos21. aproximandose de modelos anteriormente masculinos mais de quanto o homem tenha se envolvido com as tarefas domésticas. 23 Kaloustian.

Os vínculos de pertença. é recusado. deixando entrever quão profunda e grave é a distância que foi construída entre as gerações. aumentando a responsabilidade 25 Donati. Por outro lado. três. possivelmente. a experiência de ser avós modifica-se significativamente. a imprensa noticiou atos de grave violência entre pais e filhos. em virtude das famílias reconstituídas. Um confronto sistemático a respeito de aspectos relevantes da existência. filhos já adultos. No lado oposto. ao matricídio e ao assassinato do filho por parte do velho pai. As relações familiares tornam-se mais delicadas quando. os filhos tendem a permanecer na casa dos pais durante muitos anos. nesse ambiente. 187-197. sendo considerado desgastante e improdutivo. deixam os pais na necessidade de reorganizarem sua convivência e as relações de amizade. O aumento da esperança de vida faz com que se encontrem. comportam-se com uma autonomia nem sempre considerada positiva pelos pais25.: Manuale di sociologia della famiglia. P. como no caso em que o divorciado não tem a guarda do próprio filho. Os pais reclamam que o mundo ao qual os filhos se referem como “superado”. para cobrir o vazio deixado pelos filhos. Bari. enquanto costuma ser valorizado o ambiente da afetividade familiar. prevalecem formas de acomodação prática e o diálogo é substituído por negociações pontuais. que ligam os pais aos filhos e vice-versa. p. os filhos adultos que saem de casa. muitas vezes. No quotidiano. Muitas vezes retornam para a família de origem com um ou dois filhos. mesmo sem estendê-lo a uma comparação mais detalhada. até terminarem os estudos e conseguirem uma situação profissional que lhes permita sair de casa e. em alguns casos. Nos últimos tempos. uma distância e uma estranheza com relação aos pais e à geração mais velha em geral. por causa da freqüência do divórcio. Além disso. as novas gerações experimentam. Laterza. Por estas e por outras razões. tendem.últimas décadas. na mesma família. mas dependentes economicamente. a serem mais frouxos. quando se divorciam. construir sua própria família. chegando ao parricídio. as novas gerações divergem das anteriores (a dos pais e a dos avós) quanto às metas perseguidas. em geral. 9 . Para os pais do divorciado. quatro ou até mesmo cinco gerações simultaneamente presentes. criam-se complexos entrelaçamentos de parentesco. 1998. podendo acontecer que um divórcio venha a cortar a cadeia geracional para os avós. na realidade é por eles ignorado e descartado sem o receio de perder algo de interessante. aos valores respeitados e aos critérios para discernir o que vale ou o que deve ser descartado.

dos meios de comunicação e de algumas publicações acadêmicas. Apesar disso. indica outra vertente desta valorização da família. Alguém poderia afirmar: nunca a família foi tão valorizada como nestes últimos tempos. 7 de outubro de 2007. a considerar família qualquer convivência debaixo do mesmo teto. é capaz de gerar-se e modificar-se incorporando não apenas alterações do ciclo vital de seus membros. reduzindo os contatos. 10 . A. pois mantém seus membros implicados na capacidade de alterar o comportamento uns dos outros através de seus próprios movimentos. revelou que 98% das pessoas entrevistadas consideram a família importante ou muito importante. Pesquisa nacional do Datafolha. A família é um sistema auto-poiético. a partir da consideração dos meios de comunicação e das publicações especializadas. empiricamente comprovada. em outros. Apesar das diversas mudanças familiares. segundo o qual. está ainda por ser adequadamente avaliado o eclipse da figura paterna em muitas famílias modernas.: Verso una società senza padre. ou seja. dificilmente os observadores do cenário cultural brasileiro. poderiam prever que a família gozasse de tanta aceitação junto à opinião pública. e de ter sido escolhida como parceira para implementar políticas sociais de combate à pobreza e à evasão escolar. constituindo-se em um sistema de interação interdependente. Feltrinelli. no início dos anos 70. do alerta de Mitscherlich26. Nestas últimas décadas foi crescendo a densidade. casamento dos mesmos e saída da casa paterna. 1970.com relação aos netos e. uma sondagem de opinião. observa-se a tendência. sem outras especificações além da existência de algum tipo de afetividade que ligue aquelas 26 27 Mitserlitch. Família brasileira: retrato falado. FOLHA DE SÃO PAULO. O fato de a unidade familiar brasileira ser objeto de intervenção em saúde no Programa Saúde da Família (PSF). Por fim. Milano. como também é capaz de interagir com as mudanças que o contexto mais amplo lhe imprimem. se caminhava para uma sociedade sem pais. A família é sujeito capaz de comportar-se estrategicamente realizando avaliações e escolhas diante de desafios e recursos numa perspectiva temporal. No entanto. realizada recentemente por um prestigioso instituto paulista27. que incluem movimentos de entradas e saídas como nascimento dos filhos.

exigida pelo tipo de estudo realizado. de alguma maneira.poietica. Lezioni di sociologia. E. D. destinada a desaparecer28 e a percepção de que a família é a base de tudo29. 1998. Padova. ao mesmo tempo. muitas vezes. pp. Reagindo aos condicionamentos externos e. 1995. 11 . Em meio a turbulências culturais e sociais. com contornos tão indefinidos. Le categorie fondamentali per la comprensione della societá. 30 Donati. In: Id. sendo diluída a sua identidade a ponto de poder desaparecer como grupo social (instituição com características próprias bem delineadas). bem como em diversos estudos de caráter científico.). Vita e Pensiero. Integrada no processo social. ed. A família encontra-se. também é encontrado nos programas governamentais que envolvem a família. S. 4. os observadores oscilam entre a percepção da família como uma realidade residual. o critério domiciliar que identifica a família com o conjunto de pessoas que compartilham uma unidade habitacional. Scabini. acrescentamse. classificar. alguém poderia ponderar: nunca a família foi considerada de maneira tão fluida. como no caso de levantamentos demográficos e estatísticos. Kaloustian. em constante mudança. posturas que carecem de critérios capazes de identificar as características essenciais da realidade familiar. A uma razão metodológica.: A morte da família. a família empenha-se em reorganizar aspectos da sua realidade que o ambiente sócio-cultural vai alterando. documenta quão profundo é o processo de mudança que envolve a sociedade brasileira em todas as suas dimensões e revela a pluralidade de posturas.. 1-54. ela passa por transformações significativas. Nuovo lessico familiare. Primo Rapporto CISF sulla Famiglia in Italia: L’emergere della famiglia auto. Cortez. Afinal de contas. M. Estudos sobre família em contexto de mudança social 28 29 Cooper. Esta situação paradoxal segundo a qual ora a família é tudo.pessoas entre si. Milano. Milano. adaptando-se a eles. dificultando uma operação típica do trabalho científico que é distinguir. São Paulo. Nesse sentido. por participar dos dinamismos próprios das relações sociais. P. 1989. Cedam. utilizado pelo IBGE. São Paulo. Donati.: Família brasileira: a base de tudo. (Org). a família encontra novas formas de estruturação que. 1994. Por isso. especialmente nestas últimas décadas. para poder ordenar e analisar adequadamente.: La societá é relazione. a reconstituem30.: (Orgs. Martins Fontes. San Paolo. ora é nada. a diversidade de valores e metas que se encontram em nossa cultura. P.

São Paulo. como o adversário político que deveria ser derrotado para que modos de agir mais afinados com o processo de modernização pudessem encontrar terreno favorável à sua expansão. Em muitos casos. reconhecida como relevante para o desenvolvimento das pessoas nas diversas etapas e circunstâncias de suas 31 Lipovetsky. compreendida através dos esquemas do modelo patriarcal. o desempregado. rejeitado como concentração de erros que finalmente seriam superados no futuro próximo. In: PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. em todo o mundo. Nesse ambiente cultural. relação ocasional. a criança. Lexicon. 1989. mas perniciosa. satisfações efêmeras e emoções momentâneas. 2004. eles re-descobriram a sua importância. Lipovetsky. a esfera pública brasileira foi dominada por uma mentalidade que enxergava somente indivíduos: o trabalhador. Entretanto. representava exatamente o que devia ser superado e deixado para trás. nesta etapa que alguns chamam de pós-modernidade. Muitos estudos estavam centrados na análise das funções da família. C. a mulher. o idoso. a família era considerada como o lugar da reprodução de uma mentalidade conservadora. sobram. como se eles existissem fora de uma concreta rede de relações familiares. Sem história da qual orgulhar-se e sem futuro capaz de mobilizar as energias em vista de um projeto pessoal e social. o adolescente. Companhia das Letras. A família tradicional. inicialmente na Europa e nos Estados Unidos e. pg. em seguida. J. especialmente para as novas gerações. de convicções voláteis e compromissos fluidos. 825-835. sendo considerada funcional ao bem-estar das pessoas e ao bom êxito da socialização e da educação das novas gerações. apareceu um indivíduo instável. o passado tinha sido desvalorizado. A cultura do efêmero31 faz perceber os vínculos familiares mais como amarras que limitam a livre expressão da própria personalidade do que como recursos essenciais para a própria realização humana e. por isso.: O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. a partir dos anos 80. Brasília. Estas eram consideradas irrelevantes aos fins da organização social e à defesa dos direitos da cidadania. 12 . G. 2007. à militância política e às inovações culturais. começaram a se multiplicar estudos sobre a família. Barcarolla.: Relação nupcial. contrária à revolução. Edições CNBB. Na maior parte dos casos.A partir dos anos 50. destinados a durar no tempo32.: Os tempos hipermodernos. Se no início da modernidade. dissolveram-se as esperanças de libertação depositadas no futuro. G. o negro. São Paulo. No cenário moderno. 32 Petrini. a família era considerada não somente irrelevante.

adverte Donati33. Algumas se tornaram obsoletas e foram sendo abandonadas. Além disso. sem o concurso do elemento masculino para fecundar o elemento feminino. E é anunciado como próximo o momento em que será possível realizar a procriação por meio da clonagem. Era inevitável que. por ventura. pp. a família recua. os cuidados com a saúde e com o desenvolvimento físico e psíquico. Milano. Cedam. 1-54. desde o início da história humana até hoje. 2008. diante de uma abordagem profissional dos problemas e das tarefas domésticos. a família. P. afirma Donati34. como a de procriar. estáveis e relevantes no tempo da vida social. parciais da realidade. São Paulo. que 33 34 Donati. Diversas abordagens tiveram grande difusão e influência no mundo acadêmico. quase evanescente. Com efeito. tanto é verdade que o símbolo da família é dos mais fortes. a família aparecesse como depauperada. que vai dissolvendo-se diante dos seus olhos. públicas ou privadas. tanto do homem como da mulher. outras evidenciam aspectos importantes mas. ou seja.poietica. 1998. ela não existe para satisfazer uma ou algumas funções sociais. de modo que. enquanto a família é uma relação social plena. atualmente. o pesquisador acaba por não mais encontrar o seu objeto de estudo. San Paolo.: La societá é relazione. P. pode ser. L’emergere della famiglia auto. a socialização das crianças. quase sempre. No entanto. 35 Donati. a família tem um caráter suprafuncional. quase sempre. Este é o parecer de Donati35. Mas. por causa desse processo. Paulinas. muitas funções anteriormente reservadas à família passaram a ser desempenhadas por outras agências.existências. Idem. ela existe e sempre mais emerge como a realidade fundamental para o delineamento da identidade humana e social. Com efeito. ao trabalho fora de casa. estava fora dos seus esquemas. Primo Rapporto CISF sulla Famiglia in Italia. Le categorie fondamentali per la comprensione della societá. essas agências oferecem serviços sempre mais especializados. Até a sua função mais própria. 13 .: Família no século XXI: abordagem relacional. (Org). tais estudos perderam de vista aspectos significativos da realidade familiar pela falta de instrumentos de análise adequados para apreender o que. desempenhada por laboratórios de fecundação assistida. sem a necessidade de relação sexual entre o homem e a mulher. In: Id. são cada vez mais realizadas pelo Estado ou por agências privadas por causa da menor disponibilidade de tempo dos pais. devido à dedicação. Padova. Lezioni di sociologia. Com o crescimento da sociedade funcionalmente organizada. ed. Nesse horizonte. a tarefa educativa. um fenômeno social total que implica todas as dimensões da existência humana. mas um leque potencialmente indefinido.

1988. restando. às vezes. aumentou o número de pesquisadores e de grupos de pesquisa que investigam a família. uma atitude pragmática. em busca de uma visão mais abrangente. apresentam limites e não conseguem dar conta da totalidade dos fatores que entram em jogo. Esses estudos tentam superar as limitações e começam a dar alguns resultados interessantes. Grande parte dos estudiosos em família realiza pesquisas interessantes que estão contribuindo. Destes estudos emerge a complexidade do tema. 1. com reflexos positivos em algumas políticas públicas. P. voltada a realizar pesquisas empíricas. para a compreensão dessa realidade. assim como elas se constituíram na tradição acadêmica partilhada pela comunidade científica. pp. tendo como objeto fenômenos específicos de nível local ou regional. 75-91. N. resolvendo-a numa realidade abstrata e totalmente contingente. o ambiente acadêmico brasileiro está fazendo um grande esforço para superar as dificuldades e oferecer estudos que ajudem a compreender a família e as mudanças que nela se verificam. Não sendo pertinente. Nesse contexto. Afirma-se.: Sozialsystem Familie. Por causa disso. estão aumentando grupos de pesquisa interdisciplinares. de maneira substantiva. ainda excessivamente tímidas. Donati. 2008. numa espécie de renúncia tácita a enfrentar os desafios para buscar uma teoria da família que supere a fragmentação atual. analisar cada autor ou corrente de pensamento. Em alguns casos. No Brasil.apresenta criticamente pelo menos dez diferentes abordagens sociológicas da família. nos últimos anos. para apreendê-la como relação social. pelo diálogo entre dois ou mais enfoques disciplinares. 14 . é apresentado o exemplo de Luhmann 36 que Donati considera importante para evitar “coisificar” a família. no presente artigo. Afirma Donati37 que não se pode chegar ao ponto de dissolver o próprio objeto de pesquisa (a família) entendendo-a como pura comunicação ou pura convenção social. tendo-se como conseqüência uma leitura reduzida da família. devido à pluralidade de aspectos que nele convergem. System Familie. As diversas disciplinas. de acordo com as possibilidades metodológicas das abordagens adotadas. Outros estudos tratam de aspectos limitados. (2). ou problemas periféricos ao objeto em tela. antes de anunciar a virada relacional. parece que um horizonte unitário deva ser 36 37 Luhmann. Paulinas. todavia um longo caminho a percorrer. São Paulo. Mas os estudos de Luhmann mostram outras dificuldades. estas sim.: Família no século XXI: abordagem relacional.

: Psychology and the study of marital processes. bem mais flexíveis do que as do primeiro casamento. 49. Vol. pp. PUC/Loyola. bem como pelas novas expectativas em torno dos papéis de marido e mulher. o estudo científico do casamento e da família é um campo promissor uma vez que se observam conseqüências importantes para os esposos do convívio em lares desarmoniosos.: (Org. com um modelo de família considerado ideal ou normativo. o conflito e a disrupção estão também associados com ampla variedade de efeitos deletérios sobre os filhos. Gottman40 revela que entre as conseqüências que a separação e divórcio trazem para a saúde mental e física de ambos os esposos está inclusive. incluindo depressão. da incidência de doenças físicas. Vol. mais aberta ou velada. pp. 167-197. Afirma que permanecem elevadas as taxas de falhas do segundo casamento. baixa imunológica significativa. Féres-Carneiro. baixo desempenho acadêmico e uma 38 Gottman. T. 5. Rio de Janeiro. homicídio. 39 Féres-Carneiro. T.1 O casal como assunto de pesquisa De acordo com Gottman38. Suas pesquisas revelam que o recasamento é uma prática pouco estudada que traz grandes desafios aos convívios dos cônjuges em vista da maior tensão causada pela incorporação de novos membros vindos de relações afetivas prévias. 2003. assim como do divórcio. J. J. Para o autor. 1998. Rio de Janeiro. por volta de 10% a mais do que a do primeiro. mortalidade devido a doenças. 40 Gottman.: (Org. das taxas de acidentes automobilísticos fatais. problemas de saúde.). 1999. 167-197. posto em discussão e rejeitado. Família e casal: arranjos e demandas contemporâneas. M. Annual Review of Psychology. o aumento de risco de psicopatologias. M. 1998. 15 . Annual Review of Psychology. suicídio. O autor aponta o crescente aumento das taxas de divórcio nos Estados Unidos.: Psychology and the study of marital processes. NAU. o desgaste conjugal. Casal e família: entre a tradição e a transformação. Temas relevantes de pesquisas em família 5. Estes índices se assemelham aos encontrados pelo grupo de pesquisa liderado por Féres-Carneiro 39 no Brasil.encontrado na contraposição. com estimativas do término do primeiro casamento em torno de 50% a 70%.). habilidade social pobre. violências. 49.

variedade de dificuldades relacionadas à conduta. A família não é somente uma das possíveis alternativas na ampla variedade das formas familiares e das relações de intimidade. (Org. poderem apresentar estresse muito maior que aqueles que não presenciaram a separação dos pais quando criança. S. In: “Journal of Marriage and the Family”.2 Definir a vida familiar A família redefine seus limites. na vida adulta. 9-36. 9. 5. Washington e diretora do Research and Públic Education Council on Contemporary Families42. 16 . I. Stephanie Coontz41 . Franco Angeli. n. F. que comporta um vínculo entre os sexos e entre as gerações. distinguindo-se das outras relações. O crescimento de novos estilos de vida e de novos arranjos familiares atesta que a sociedade contemporânea passa por um processo sócio-cultural de re-diferenciação e de re-definição da família com relação a outras relações primárias. vol. além de. 1. 43 Théry. 62. culturais e sociais que eles utilizam para decidir como adaptar-se ou resistir àquelas constrições. 2006. 2006. pp. v. In: Bertocchi. 37-67. pp. Franco Angeli. 1. 9. 2. sublinha a importância do contexto histórico cultural nos estudos de família. 41 Coontz. produzem resultados imprevistos. pp.) Sociologia e politiche sociali – La famiglia: decostruzioni e ridistinzioni. A atenção dos historiadores se dirige para a tensão entre as constrições institucionais e históricas sob as quais os indivíduos agem e o conjunto de recursos pessoais. juntamente com o conjunto das interações que. 42 Histórical Perspecvtives on Family Studies. F. v. a partir das escolhas. 283-297. que o circunda ou lhe é contraposto. professora de história da família na Evergreen State College de Olympia.: Prorospettive storiche negli studi sulla famiglia. mas é uma relação com características específicas. 2000. Os historiadores podem oferecer inúmeros exemplos de como cada fenômeno pode tornar-se algo muito diferente a depender do que lhe é posto ao lado.) Sociologia e politiche sociali – La famiglia: decostruzioni e ridistinzioni. (Org. A professora Irène Thèry43 é socióloga e diretora junto a Ecole dês Hautes Etudes en Sciences Spciales (EHESS) e membro de l’Haut Conseil à la Population et à la Famille. In: Bertocchi.: L’approccio sociológico della “vita familiare”: la questione delle definizioni.

a definição estabelecida na linguagem especializada. nacionais e 44 Idem. Em que consiste uma definição? É uma operação intelectual. isto é. reconhecê-la nas suas características. 5. b) de definição convencional. ou melhor. como se o significado e o significante fossem a mesma e idêntica coisa. inserida no âmbito de uma abordagem específica para o conhecimento. Há uma tendência a misturar as três tipologias de definição. A busca de definições adequadas pode se revestir dos caracteres de uma controvérsia de valores. pergunta-se a autora. ou o exercício de um poder?.3 Teoria Relacional da Sociedade segundo Pierpaolo Donati: algumas contribuições ao estudo da família A perspectiva relacional é um modo de conhecer e um modo de intervir sobre a família. a definição sociológica de vida familiar é necessária. 17 .dedicando-se à difícil tarefa das definições. tem utilidade operativa para planejar e realizar intervenções na realidade familiar. mas apresenta dificuldades. um ato social. e c) definição hipotética. Neste caso se trata de uma proposta de classificação. Definir a vida familiar significa precisar o significado que atribuímos à expressão “vida familiar” e. Qual é a relação que intercorre entre o ato de definir e o de disciplinar? A discussão sobre definição se expõe a mal-entendidos. uma nova maneira de conhecer a família. Mas. ao mesmo tempo. Irène Théry44 distingue três tipos de definição: a) a corrente. Quando as definições correntes não são mais justificadas por uma correspondência empírica. nos seus fatores constitutivos. O primeiro deles se refere ao objeto da definição. pois constitui uma abordagem teórica. gerando-se confusão. os usos na prática social. isto é. quer no plano das políticas sociais. que opera como norma de referência. que abre uma nova perspectiva de estudo. definir a vida familiar significa precisar o significado que atribuímos ao que chamamos de vida familiar. Por isso. Ela levanta a questão: é possível uma única definição de família ou são desejáveis mais definições para compreender a pluralidade de situações? Para a autora. à evidência sucede a incerteza. passando de uma a outra. não designar uma realidade em si. como na linguagem jurídica.

considerando que estes tipos de Sociologia apresentam uma visão distorcida e redutiva da relação social. mas extremamente reais que ligam as pessoas para cooperar ou para entrar em conflito em sua convivência social. desde a preocupação com a superação do assistencialismo estatal. Il Mulino. que são realidades dotadas de propriedades e poderes próprios”. P. através do atendimento a famílias portadoras de necessidades. bem como o holismo metodológico. pelo contrário. Recusa o individualismo metodológico. Trata-se. 18 . como a grande parte das sociologias a entendem. Afirmam Donati e Colozzi 45: “o argumento central é que não podemos explicar a relação social nem na base da ação dos indivíduos.supranacionais. de compreender que a relação social é o efeito emergente das interações entre ação e sistema social. 19.) Il paradigma relazionale nelle scienze sociali: le prospettive sociologiche. até a relevância da família para a constituição de ambientes de solidariedade nos contextos sociais. 2006. Colozzi. p. aumentou o número de pesquisadores que convergem no entendimento da família como relação de plena reciprocidade entre os gêneros e entre as 45 Donati. nem na base dos condicionamentos das estruturas: a relação coloca-se noutra ordem de realidade com relação à dos indivíduos que agem (agency) e à das operações (os mecanismos) dos sistemas sociais. até a valorização das relações familiares como fonte de bens e de rede de solidariedade. Considerações finais Apesar de os limites que podem ser encontrados nas diversas abordagens desenvolvidas nas últimas décadas. I. quer no nível micro. A abordagem relacional analisa e interpreta os aspectos invisíveis. Nem se trata de conceber a relação como uma ponte entre o indivíduo e o sistema. ou como um mix de elementos individuais e sistêmicos.. A lista das afinidades poderia ser muito mais extensa e atesta a pertinência da obra de Donati com a problemática enfrentada na América Latina. sistematizam e aprofundam aspectos já presentes em obras de autores latino-americanos atentos à realidade da família. A teoria relacional da sociedade e a abordagem relacional da família explicitam.: (Orgs. desde a percepção da família como recurso para a pessoa e para a sociedade. Bologna. 6.

gerações. as mudanças familiares. as famílias assumiriam para si. ou indiretamente. quais sejam. ainda que com variações nas diversas formulações. 19 . o conflito e a violência na convivência social podem crescer nesse ambiente. o casal. Estas e outras questões justificam a necessidade e o desafio de se incrementar estudos sobre a família. a questão de gênero e de gerações. que podem direta. aponta alguns temas relevantes de pesquisas em família. quando não é valorizada a cooperação entre os sexos e entre as gerações. finalmente. Quando a família não vive relações de reciprocidade plena e favorece o individualismo em lugar de fortalecer a solidariedade social. embasar políticas sociais dirigidas a ela. o presente artigo reflete sobre a mutação antropológica. apresenta ainda os principais rumos tomados pelos estudos sobre família em contexto de mudança social e. Além disso. aumentando consideravelmente a despesa pública. em outras circunstâncias. Diante disso. a definição da vida familiar e as relações familiares. a coletividade deve fazer-se cargo de tarefas que.

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