Análise do Livro O Gato no Escuro de Mia Couto.

É um livro encantador, bem ao jeito de Mia Couto, inventor e artífice de palavras, explorador de sonhos, autor de uma escrita criativa, dono de um estilo muito próprio, que dá ao texto um sabor extraordinário. Este conto, normalmente orientado para um público infanto-juvenil, fala-nos de um gato amarelo, às malhas e às pintas, o Pintalgato, que, um dia, ficou completamente preto, pagando, assim, o preço da desobediência. Conta-nos essa “trespassagem” de uma forma fantástica e onírica, uma constante na obra. A narrativa em “O Gato no escuro” começa com o narrador chamando a atenção do leitor para o gato “Vejam, meus filhos, o gatinho preto sentado no cimo desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor. Conta a mãe [...]”, nesses períodos o narrador invoca o tempo mítico da narrativa ao mesmo tempo em que, através do vocativo “Meus filhos”, convoca o leitor a participar dela e ao citar à mãe do gato ele passa a narrativa da primeira pessoa para a terceira conferindo à história credibilidade já que quem a conta é a própria mãe do gato. A seguir, o narrador que é anônimo e ocupa o lugar de um verdadeiro contador de histórias começa a contar “Como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro”; podemos notar, neste período, a dialógica relação entre claro e escuro sendo, de certa maneira, indissociáveis; a relação antitética entre a semântica das palavras “claro” e “escuro” é ambígua um vez que “o caso não é claro”. É importante ressaltar, neste trecho, que ao invés de dizer que o caso é obscuro, o narrador diz que não é claro e, ao dizer isso dessa forma, não admite a existência do escuro referindo-se a este como o não-claro, ou seja, através desse jogo de palavras ele revela desde o início o medo que o gato tem do escuro, ou ainda, de si mesmo, pois é revelado no fim da estória que o gato tornou-se o escuro, isto é, preto. Nesse momento, o gatinho começa a passear na tênue “linha onde o dia faz fronteira com a noite”, ou seja, no limiar entre o claro e o escuro e, embora sua mãe, receosa, lhe dissesse que nunca atravessasse para o lado de lá, “além do pôr de algum Sol” inicia sua jornada para além do por do sol, no fundo uma jornada de autoconhecimento, uma vez que no final o gato se reconhece no escuro, aceitando-o e tornando-se ele mesmo preto. Ele fingia obediência, mas a tentação era grande. “Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam”. Esta expressão transcrita estabelece uma ponte com as vivências do leitor através do potencial semântico que os verbos encerram. Quem não se sente atraído por namorar o proibido? Quem não sofre as consequências de cair nas teias da desobediência? A carga expressiva e capacidade fotográfica do vocábulo “pirilampiscavam” é ainda mais intensa, ao criar o verbo “pirilampiscar”, brilhar e piscar como um pirilampo, o autor cria uma sensação visual é poderosa e única e, no futuro, os olhos da mãe serão as únicas coisas que o gatinho reconhecerá no escuro. Conforme Pintalgato passa seu tempo ensaiando sua passagem de um lado para o outro do muro que divide o dia da noite, ou melhor, o claro do escuro, o gatinho foi ganhando mais confiança e coragem e, um dia, não resistindo à atração, passou para o lado de lá, “onde a noite se enrosca a dormir”. Contudo, durante esse percurso, o gato sente vergonha da sua desobediência não querendo “ser visto em flagrante escuridão”, ainda sim ele

O onírico. Quando finalmente o gato acorda e chama pela mãe ele percebe que há uma estranheza em seus olhos. enroscado do outro lado do mundo”.” “Não é você que mete medo. . deixando o leitor com o coração “tiquetaqueando” pelo modo como o autor faz “despersianar” nossos olhos para perceber e contemplar os valores trazidos pela história. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Este diálogo encantador. conduz-nos a um inevitável exercício de introspecção. mas incontestavelmente soberba. mesmo ele dizendo que não é “coisa alguma. inclusive ele. Depois de um encantador diálogo entre o gatinho e o escuro. o direito à diferença. “como se engravidassem de breu”. se pensarmos na jornada de autodescobrimento do gato é como se ele começasse a aceitar a própria escuridão. a importância do autoconhecimento e da auto-afirmação. Vale notar que agora o autor não nega o escuro como antes. e por isso não pode ver nada de “sua anterior gateza”. ou ainda. Este momento magnífico tem o condão de nos fazer dialogar com as nossas vivências. mas na realidade o gatinho é que se transformara e olhando outra vez para a mãe ele vê “um gato preto.prossegue sua jornada atravessando o limite e cruzando “a imensa noitidão”. dialogo que mais parecia um desfile de queixas sobre as suas sortes e condições. a fantasia. desatou a chorar aflito e amargurado. ilusoriamente pueril. mas o substitui pela noite. tudo é retomado e agregado. dentro de si. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos”. a imaginação. de nos fazer refletir e ler o mundo. como a tolerância. apareceu à mãe do gatinho que se preocupa em consolar o escuro. São os carinhos da mãe gata que dão forma ao escuro e a partir dela que o escuro se torna seu filho. “Dentro de cada um há o seu escuro. no qual o gato esta dentro do escuro. construído de uma forma aparentemente singela. Quando “ousou despersianar os olhos” – novamente aqui o autor cria um verbo cujo significado oblitera o sentido da sinônima “abrir os olhos” – viu que tudo era preto. nem sequer antecoisa” e as palavras dela revelam a Pintalgato que ele e o escuro são irmãos e ao olhar nos olhos da mãe ele vê que na realidade ele é o escuro. argumentando que os meninos não sabiam que “o escuro só existe é dentro de nós”.

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