P. 1
Cult 39, Cortazar, Out de 2000

Cult 39, Cortazar, Out de 2000

|Views: 165|Likes:
Publicado porErica Celestino

More info:

Published by: Erica Celestino on Apr 22, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/24/2013

pdf

text

original

REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA

39
10 14 26 28 29 37 41 42 45 64
Cavalinhos amarelos, tela do expressionista Franz Marc
Reprodução

O chulo e o chic em depoimento do poeta Glauco Mattoso

E n t r e

L i v r o s Capa

Poesia e pensamento na Máquina do mundo de Haroldo de Campos

Publicação de Octaedro e da Obra crítica permitem reavaliar obra de Cortázar

Arte
Panorâmica de Alex Flemming mostra uso plástico da palavra

Claudio Cammarota

E n t r e v i s t a

04

O poeta Glauco Mattoso

Na Ponta da Língua
Os diferentes usos de locuções verbais como “tem havido”

R a d a r C U L T
CULT começa a publicar em capítulos novela de Marcelo Mirisola

Redescoberta do Brasil
Lisboa discute 500 anos de encontros e desencontros entre Brasil e Portugal

Memória em Revista
Crônica de Agostinho de Campos fala da chegada do foot-ball em Portugal

Literatura Italiana
Annalisa Cima fala sobre o Diário póstumo de Eugênio Montale

D o s s i ê C U L T
Antologia poética, exposição e ciclo de cinema trazem expressionismo alemão a São Paulo

Do Leitor
Cartas, fax e e-mails dos leitores de CULT

OUTUBRO D E

2000

A o o ll ee i e t ti o oRoR R i l i t to R A A o A o l e

A

o

l

e

i

t

o

R

Manuel da Costa Pinto

Diretor-presidente Paulo Lemos Diretora executiva Silvana De Angelo Diretor superintendente José Vicente De Angelo

Vice-presidente de negócios Idelcio Donizete Patricio

REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA

Editor e jornalista responsável Manuel da Costa Pinto – MTB 27445 Redatora Maria Cristina Elias Editora de Arte Tatiana Paula P. Barboza Diagramação Cristiane Alfano

Digitalização de imagens Adriano Montanholi e Yuri Fernandes Revisão Claudia Padovani Colunistas Cláudio Giordano João Alexandre Barbosa Pasquale Cipro Neto

Colaboradores Bruno Fischli, Claudia Cavalcanti, Claudia Valladão de Mattos, Fabio Weintraub, Ivan Marques, Ivo Barroso, Marcelo Mirisola, Marcelo Miyake, Nilson Moulin Louzada, Reynaldo Damazio, Saúl Sosnowski, Susana Kampff Lages, Tereza de Arruda, Vera Albers Capa Cortázar por Sara Facio; nos destaques, metrô de Buenos Aires por José Guilherme Rodrigues Ferreira, Glauco Mattoso por Cláudio Cammarota e Retrato de Gerda, tela de Ernst Ludwig Kirchner Produção gráfica Altamir França Fotolitos Unigraph

Departamento comercial Milla de Souza – Triunvirato Comunicação Rua México, 31-D, Gr. 1.403 A – Rio de Janeiro – RJ CEP 20031-144 – tel. 21/533-3121/524-0366 e-mail: triunvirato@openlink.com.br Distribuição e assinaturas José Cardeal do Carmo Rua Santo Antônio, 1.263 – Bela Vista – SP CEP 01314-001 – Tel./fax 11-3104-1675 e-mail: assinaturas@lemos.com.br Distribuição em bancas FERNANDO CHINAGLIA Distrib. S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Rio de Janeiro – RJ – CEP 20563-900 Tel./fax 21/575-7766/6363 e-mail: contfc@chinaglia.com.br Distribuidor exclusivo para todo o Brasil.

Departamento jurídico Dr. Valdir de Freitas Departamento financeiro Regiane Mandarino ISSN 1414-7076

CULT – Revista Brasileira de Literatura é uma publicação mensal da Lemos Editorial & Gráficos Ltda. Rua Rui Barbosa, 70, Bela Vista – São Paulo, SP CEP 01326-010 – Tel./fax: 11/251-4300 e-mail: cult@lemos.com.br

o

Assinaturas e números atrasados Alagoas: 82/977-9835 Bahia: 71/248-2737 Paraná e Santa Catarina: 41/352-6444 Paraíba, Pernambuco e Sergipe: 81/9108-5105 Rio de Janeiro: 21/9801-7136 Rio Grande do Norte: 64/983-0836 Rio Grande do Sul: 51/395-3436 São Paulo: 11/3120-5042

l e i t o

No próximo dia 30, a CULT encerra as inscrições para o prêmio “Redescoberta da Literatura Brasileira”. Desde seu lançamento, em abril, o concurso tem recebido um grande número de originais nos três gêneros contemplados – poesia, romance e conto. Seria prematuro avaliar a repercussão do prêmio a partir da quantidade de trabalhos enviados à revista até esse momento, considerando-se que o volume de obras tende a crescer às vésperas do prazo final. As cerca de trezentas obras já inscritas permitem, porém, algumas ilações. Em primeiro lugar, trata-se aqui de um concurso que, em lugar de uma premiação em dinheiro, gratificará os vencedores com o lançamento em livro dos trabalhos selecionados pelas comissões julgadoras. Ou seja, existe uma enorme massa de autores virtuais que buscam canais de expressão alternativos para uma atividade criativa que o tímido mercado editorial brasileiro não consegue trazer à luz. Em segundo lugar, e como decorrência disso, é importante notar a importância que publicações literárias como a CULT assumiram nos últimos anos. Reunindo críticos e jornalistas que na maior parte do tempo divulgam e analisam autores consagrados seja pela tradição literária, seja pelo próprio meio editorial, a CULT nunca deixou de oferecer espaço para autores inéditos (como o demonstra o “Radar CULT”). Portanto, muitos dos autores que se inscreveram no prêmio “Redescoberta da Literatura Brasileira” estão buscando a avaliação de um júri designado por uma revista que assim reitera seu compromisso de mapear, entre acertos e erros, os itinerários de nossa literatura contemporânea. Finalmente, e é isso que importa, existem hoje no país cem, duzentas ou, quem sabe?, mil ou cem mil pessoas que procuram na solidão da palavra escrita uma forma de organização da experiência, de lucidez e de permanência. Pois a palavra (que nem sempre equivale a literatura) é ainda a garantia de sobrevida de uma atividade simbólica que nos preserva da mais completa alienação.
Tiragem desta Edição: 25.000 exemplares – Auditada por

N

o

t

a

S

S

aS

S

E n c o n t r o

d e

E s c r i t o r e s

S a a

a

A Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, a Câmara Riograndense do Livro e a União Gaúcha de Escritores promovem nos dias 1, 2 e 3 de novembro o “Encontro de Escritores da Rede Mercocidades: Literatura, integração e compromisso”, em que cerca de 150 escritores latino-americanos analisarão o papel do escritor, os impasses e avanços da produção intelectual na América Latina e a atual situação política no continente. A Rede Mercocidades é composta por cidades de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Já confirmaram presença os escritores Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura e Heloísa Buarque de Holanda (Brasil), Pablo Rocca e Tomás Mattos (Uruguai) e Susy Delgado e Renée Ferrer (Paraguai). Informações pelo telefone 51/221-6622, ramal 227 ou 226, ou pelo e-mail: cll@smc.prefpoa.com.br.

S

F r e d e r i c o

B a r b o s a

O poeta e crítico Frederico Barbosa – autor de Rarefato (Iluminuras) e Nada feito nada (Perspectiva) – lança, no dia 21 de outubro, seu terceiro livro de poesias, Contracorrente, pela editora Iluminuras. A partir de 19h na Escola Logos (av. Rebouças, 2.633, São Paulo, tel. 11/3062-5711).

a

o t a o t t o

P o e s i a

e m

R e v i s t a

t

t

Fernando Rabelo/Divulgação

A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo promove, de 4 a 25 de outubro, o ciclo “Poesia em Revista”, em que editores de publicações literárias e poetas apresentarão um panorama da poesia contemporânea. Participam revistas como Dimensão, Cigarra, Poesia Sempre, Babel, CULT e a argentina tsé = tsé, que publicou uma seleção de 30 poetas contemporâneos brasileiros. A iniciativa dá continuidade aos encontros de poetas com o público, como os ciclos “Poesia 96” e “Poesia 97”, e aos debates sobre revistas literárias, já realizados pela Secretaria Municipal de Cultura. A entrada é franca e a inscrição, gratuita. Informações pelo telefone 11/ 239-3459. Segundas e quartas-feiras, às 19h30, na Biblioteca Mário de Andrade (r. da Consolação, 94).

t

P o e t a s

n a

B i b l i o t e c a

N N

O escritor Carlos Heitor Cony, que participa de encontro de escritores em Porto Alegre

O Memorial da América Latina promove, no dia 24 de outubro, dentro da série “Poetas na Biblioteca”, um recital com o escritor e editor peruano Reynaldo Jiménez, autor, entre outros, de Eléctrico y despojo, Las miniaturas, Ruido incidental/ El té, La curva del eco, e do inédito Musgo, e coordenador da coleção de antologias Poesía Mayor, da editora Leviatán de Buenos Aires. Na ocasião, será lançada a nova edição da revista literária argentina tsé = tsé, da qual o poeta é co-editor. A entrada é franca. Às 20h, na Biblioteca Latino-americana Victor Civita (Memorial da América Latina, av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, São Paulo, tel. 11/ 3823-9831).

o

o o

A n p o c s

N N

www.lemos.com.br/cult

N

on line

Será realizado em Petrópolis, de 23 a 27 de outubro, o 24º Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). O evento discutirá temas como desigualdade na educação, novo milênio, empresariado, partidos e judiciário. Na ocasião, serão lançados mais de cem livros e ministrados os seguintes cursos: “Cultura e política: Antropologia”, por Antônio Augusto Arantes (Unicamp); “Ciência política”, por César Guimarães (IUPERJ); e “Sociologia”, por Sérgio Miceli (USP). Informações pelos telefones 11/815-1243 e 815-0381 ou pelo e-mail: letania@uol.com.br.

ASSINATURAS

DISQUE CULT 0800.177899

4 Cult .outubro/2000 Eduardo Rascov entrevista GLAUCO MATTOSO .

produtor de discos de punk rock e amante das sonatas de Scarlatti. Fabio Weintraub outubro/2000 .A poucos meses da edição de uma antologia poética. mês de cachorro louco. recolhendo a sua produção desde os anos 70 – do Jornal Dobrabil à série de sonetos publicada em 99 –.C u l t 5 . Glauco Mattoso dá. de outro). o poeta nos recebeu no começo de agosto. dos impasses da literatura de testemunho ou das contradições existentes em nosso projeto civilizatório (erigido entre os limites da hipocrisia. Ex-bibliotecário. Chulo e chique. provas de sua verve lúcida e versátil. inventando novas maneiras de “tirar leite do pé”. de um lado. o poeta Glauco Mattoso partilha sua descoberta do soneto e pondera quanto ao impacto da cegueira sobre sua produção recente. na entrevista que você lerá a seguir. erudito sem deixar de ser moleque. e do cinismo. lexicógrafo. o podólatra mais conhecido das letras nacionais mostra que continua fiel ao seu fetiche. Tratando do nexo entre humor e filosofia.

botânica.. literatura. A parte prática da coisa? A parte mental é aquilo de que eu estava falando: a insônia. gregos. o glossário. Eu tento dormir por um período superior a oito horas. para compensar isso e poder relaxar. Cult Conte-nos um pouco mais do processo de elaboração desses sonetos. Intencionalmente eu teria de fazer uma espécie de varredura. Conto unicamente com o meu repertório mental. vejo não só a letra. skate.). Isso tem a ver com a sua formação como bibliotecário ou com sua atuação como lexicógrafo? Glauco Mattoso O curso de biblioteconomia e a profissão de bibliotecário.outubro/2000 . nada. restringir. eu me masturbo. todos os estilos de época. Às vezes. antes ou depois. Tenho de esperar que alguém procure para mim. o Aurélio. a Bíblia. O mais curioso de tudo é que. Faz parte do métier. Falando do pé. cristãos. Após a cegueira.Cult Você abre o seu ciclo de sonetos dizendo que o pé é um “fetiche arraigado que agora se eleva à categoria de célula temática. sistemático. da mesma forma que se “salva” um arquivo de computador.). a Idade Média. eleições. Recapitulação não só daquilo que eu li. surge alguma idéia que eu começo a transformar em poesia metrificada. aquela coisa cíclica. chineses. às vezes. cariocas. É como se eu estivesse passando em revista tudo aquilo que eu li. que eu cheguei a exercer na Biblioteca do Banco do Brasil. Essa “variação orquestral” revela.. vem um lance borgiano. A profissão exige um conhecimento metódico. mas de muitos temas e questões que já estavam presentes no Jornal Dobrabil. mas a fonte. Essa é a explicação biográfica. Como essa pessoa nem sempre está presente. a tara inventariante. ou na tendência para a definição. a Segunda Guerra Mundial. filologia. Por eu ter insistido bastante no tema da podolatria. judeus. alemães. serve até como uma forma de me acalmar sem a necessidade da masturbação. Não posso consultar um dicionário de rimas. classificar. nordestinos. entra a cegueira. obrigam você a ter realmente uma cultura enciclopédica. em torno da qual cada poema funciona como variação orquestral”. durmo algumas horas. G. quadrinhos). Os sonetos que eu estou fazendo agora constituem assim uma espécie de recapitulação. comparece também na forma enumerativa adotada em certos sonetos.. Componho em Garamond. todos os esportes e jogos (futebol. eu tinha que de certa forma exorcizar essa pecha. tenho aquela sensação de pânico. Se o bibliotecário for um cara de fato interessado no que faz e não um mero burocrata. italianos. Uma espécie de defesa e de autodefesa. Até para compor. Acordo assustado. tive de fazer uma espécie de retomada de todos os temas. mas sei que não consigo. Aí. trote estudantil). uma tara ainda mais forte que a podolatria: o enciclopedismo. novas questões se colocam. cinema. ter uma atividade mental erótica. para colocar em funcionamento os meus neurônios e para mostrar que eu não perdi tudo o que acumulei lendo.. eu posso apenas revisar o que já criei. com a minha capacidade de memória. pintura. criou-se uma tendência a me relativizar. ele vai precisar de uma pitadinha de conhecimento sobre todos os assuntos para entender o acervo que ele deve catalogar. sobre todas as épocas (Antigüidade greco-latina. todos os problemas sociais (sistema carcerário. Tenho sono cedo. algumas palavras estão em itálico. o pesadelo. Defesa contra qualquer relativização externa e autodefesa para me preservar mesmo. depois de ter composto todo o soneto na cabeça. e tudo num corpo muito grande. A cegueira é uma nova realidade. culinária. hindus. racismo. e só. vejo tudo e. a me limitar muito. como se eu pegasse uma lupa e fosse vendo cada letra. Imagino a vírgula. daí acordo porque tive algum pesadelo relacionado à cegueira. entre uma coisa e outra. ou está presente após eu ter composto o poema. todos os sistemas de governo. o espaço 6 Cult . todas as artes (arquitetura. africanos.M. ao retomar a atividade literária. Tornei-me um escritor pornográfico. Ao compor. Nesse meio-termo. teatro.. Sonho nitidamente. Eu consigo “salvar” isso na cabeça. fetichista.. colorido. de repente. de giro epistemológico. música. ao meu ver. Para colocá-la em teste. Tenho de me excitar. surfe. conhecimentos de zoologia. Tal furor catalogante. carteado). A segunda explicação tem a ver com o meu fetiche. você perfila conhecimentos sobre todos os povos e lugares (árabes.

admiro Borges. Só sobra o bom do garfo e da colher. Como eu vejo o soneto impresso. Não há termos de comparação. Eu não. além da cegueira e da biblioteconomia. Cult E quanto à sua relação com a obra de Jorge Luis Borges? Além da tradução feita por você do Fervor de Buenos Aires. porém precisa ser de alguém que enfrenta dor. deixo a lacuna mental.M. Fica faltando alguma coisa. Censuram-nos até no paladar! Trabalho. Ocorre que um poema é meio e fim. muito menor. um verso no meio etc. depois digito e fico estudando um meio de completar aquilo. Ocorre o seguinte: a postura de Borges diante da cegueira foi abrandada pelo fato de ele já ser um escritor reconhecido quando ficou cego. não ferramenta. também sou. Não basta o “como” em verso ou prosa pronta.em branco. que o verbo é pedra em si. eu modifico no computador. horário. enfim. sou um observador participante dessas coisas. um terceto. Observo mais esse antagonismo. cegos ou não. Orgasmo não se tem como se quer.426] Não basta a ditadura que já dura e vem a ditadura antigordura! Saímos do regime militar.. especi- SONETO PAULINDRÔMICO [2. Prefiro achar que ter um bom motivo. O “como” é que o poeta faz de monta. caímos no regime do regime. tudo muito nítido. Aí é que se estabelece a principal diferença. sempre a dar espaço à medicina que reprime! Gestapo da “saúde” e “bem-estar”! Resista! Coma! Abaixo a ditadura! A luta tem um símbolo: FRITURA! outubro/2000 . Ou sonetos que eu não completo durante uma noite. Maldita seja a mídia. fome. com Paulo Henriques Britto que existe inspiração num verso vivo. Só que Borges.. algo ruim. e os nazis nariz metem até nisso. Algum palestrador alega assim. Você parece abordar o tema de modo mais amargo e revoltado. faz o “Elogio da sombra”. No caso da cegueira. o formato. Em geral. Aí não tem como esquecer. Já havia um julgamento pacífico acerca de seu valor. O contato com o sobrenatural admite várias posturas. Aí eu salvo o que já está pronto. azar. imposto. a coisa se desenvolve de uma forma mais solta. G. eu não estou “salvando” apenas a poesia. Concordo. Assim como admiro e respeito outros nomes consagrados. há algumas coincidências biográficas que o ligam ao autor argentino: ambos bibliotecários e cegos. Depois eu digito no computador e não tem mais problema.406] Ter algo que dizer não é o que conta. além do jeito. forças obscuras e forças iluminadas. diferentemente de você. Estou numa posição muito neutra. Ele talvez tenha se apoiado mais em determinadas forças e se engrandecido mais. Ele já era diretor da principal biblioteca da Argentina. há uma terceira coincidência que me aproxima de Borges: o misticismo. Ele era considerado um bruxo e eu. Minha postura é a de observar o equilíbrio de forças entre bem e mal.C u l t 7 . SONETO TORRESMISTA [2. A minha situação é a de uma pessoa totalmente indefesa. mas a imagem gráfica. compromisso. O meu contato com Borges não supõe nenhuma identificação. à minha maneira. Temer o tema é o medo que amedronta. Eu respeito. Mas. é justo requisito. Mas são exceções. Mas isso não é cláusula pra mim. É claro que há sonetos que. angústia. mesmo depois de “salvos”. Vivo mais intensamente as contradições do que o Borges.

não consigo ir longe. Ultimamente eu não tenho feito isso. Tenho experimentado novos formatos.. é sempre diferente. acho que o Borges dissimula um pouco. que define um espaço restrito. você fala da necessidade de andar num espaço restrito.outubro/2000 . acho que ele conseguiu sublimar e enobrecer um pouco o drama pessoal. Tem dia que você encontra alguém na rua e conversa com a pessoa. até fiz uma pequena teoria acerca do soneto para mostrar que não estou seguindo as regras. poderosas. Moro neste apartamento há 18 anos. comecei a dar a volta nesse quarteirão. ou chove. neste quarteirão. ora pisa no cocô de cachorro.Obras de Glauco Mattoso Periódicos Jornal Dobrabil 1977/1981 – edição do autor (53 números em 1 vol. cria clichês etc. o pedólatra (ilustrado por Marcatti) – Editora Abriu-fechou ficamente. Depois que fiquei cego. mas é sempre nova a caminhada. Mantenho uma correspondência 8 Cult . Tanto que. no final do Geléia de rococó. Gosto muito desse soneto. Aventuras e leituras de um tarado por pés – Expressão Dicionário Dicionarinho do palavrão (inglês-português/português-inglês) – Record Quadrinhos As aventuras de Glaucomix. Pelo fato de ser um escritor universal. Cult No soneto que fecha o Paulisséia ilhada. despersonificando a tragédia. O quarteirão a que ele se refere é este onde fica meu prédio. O soneto não impõe regras que você tenha de seguir como se fossem regras de gramática. De teimoso. Só que não é assim. sozinho ou acompanhado. O soneto é a mesma coisa. tem outras emoções. A cada dia você está diferente: pensa diferente. Eu me movo aqui dentro porque decoro a posição de todas as coisas. saindo do prédio com a bengala. que aparentemente não muda. Eu desrespeito. intencionalmente.) Revista Dedo Mingo – edição do autor (2 fascículos) Poesia Línguas na papa – Pindaíba Memórias de um pueteiro – Trote Limeiriques e outros debiques glauquianos – Dubolso Centopéia: Sonetos nojentos e quejandos – Ciência do Acidente Paulisséia ilhada – Ciência do Acidente Geléia de rococó – Ciência do Acidente Ensaio O que é poesia marginal – Brasiliense O que é tortura – Brasiliense O calvário dos carecas: História do trote estudantil – EMW Ficção Manual do pedólatra amador.. criando muito obstáculo para mim. se eu não estiver acompanhado. não consigo mais andar sozinho na rua.M. o cenário é outro. G. ou faz calor. uma espécie de prisão do raciocínio que vicia. muito do que se encontra nos tratados de versificação. Aparentemente é uma forma fixa. às vezes alguém te agride. até para não atrofiar as pernas. um caminho fixo. Essa história de ficar dando volta no quarteirão mostra como uma coisa rotineira. mas. mas aberto a novas caminhadas. com bastante freqüência. porque estão quebrando muito as calçadas. Ainda enxergava razoavelmente quando vim morar aqui e o processo final de perda da visão se deu aqui. imutável. de trabalhar com imagens muito fortes. um quarteirão memorizado cujo equivalente estaria na forma soneto. Então é o mesmo caminho. ora você tropeça.

você encarna um dos traços fundamentais da cultura pós-moderna que é o pastiche. Aí é que está a armadilha. BCB. assim como não havia a palavra fanzine. Só que eu vendia esse peixe como se fosse uma coisa muito mais descartável. que era o datilograma. chama-se “Soneto Paulindrômico”. Afirma ele: “Os textos de G. Recentemente. psicológica. um crítico norte-americano. fisionômica. social) para convertê-lo em puro gozo discursivo. Ocorre.C u l t 9 . Havia uma proposta formal. 3. como se eu estivesse desmerecendo o meu próprio trabalho como uma forma de chamar atenção. e havia uma proposta conceitual. foi um desafio difícil. que era a de retomar a antropofagia oswaldiana num contexto contracultural. BCB. eu estava fazendo essa paródia clássica. DEED. Podem ser algumas vezes muito restritivos. comparou com a literatura cubana e tal. Com isso. Daí eu propus um esquema de rimas que acompanhasse isso: AA. apropriandose de textos alheios e atribuindo aos outros coisas suas. Gostei da experiência. Esse poema é típico do que eu fazia no Jornal Dobrabil: um poema coprofágico. de fanzine. no entanto. No entanto. instrumento de uma sátira social que mistura a influência modernista. 3. sexo e rock’n’roll. Um formato palindrômico.M. O que eu fazia no Dobrabil aparentemente era uma defesa explícita do plágio. ele resvala para uma interpretação muito mais restritiva daquilo que pretendi fazer. Comecei a fazer alguns sonetos nessa linha e troquei com o Paulo. a mesma distribuição de rimas. como uma forma de crítica à noção de propriedade intelectual. A última coisa em que eu poderia estar pensando seria em homoerotismo. a mesma métrica. Estava sendo irônico. um contexto de drogas. isso que você chama de lacunar. AA. concretista.M. Como você avalia hoje a entronização do pastiche? G. autor de Sistema de erros (Arte Pau-Brasil) outubro/2000 . porque é a única alternativa numa época em que desapareceram as possibilidades de um estilo individual. Fabio Weintraub poeta e editor. Em alguns momentos. sem potencial crítico-satírico. Foi uma experiência gostosa. Cult Você sempre defendeu o “plágio consciente”. analisou meu trabalho nos Estados Unidos considerando o Manual do pedólatra um exemplo de pós-modernismo. Não me importo com os rótulos. que certas pessoas têm às vezes uma visão mais restrita do que a minha. e que reflete uma determinada realidade política. o David William Foster. a pilhagem de estilos acumulados ao longo da história. Eu tinha uma frase no Dobrabil que dizia: “Original é quem plagia primeiro”. Não tem nada a ver. Hansen propõe uma compreensão que desenraíza o texto de qualquer realidade (biográfica. de mostrar que aquilo poderia ser mais importante do que parecia. Fiz até um soneto em homenagem a ele. Ele pega o poema intitulado “Defectivo” (“Eu mordo/ tu mastigas/ ele engole/ nós digerimos/ vós cagais/ eles policiam”) e o caracteriza como um poema homoerótico. delimitar muito. essa releitura crítica. Cult Há um texto do professor João Adolfo Hansen que problematiza a grade taxonômica. muito mais primária.M. ela já não lhe pertence mais. 4. a nomenclatura geralmente usada para enquadrar o que você faz. de pós-tropicalismo. ele tem todo o direito de fazer uma leitura mais direcionada para esse ou aquele aspecto porque. nem paulista etc. pós anos 60. a obra de arte é sempre aberta. sua poesia não seria crítico-participativa. mas podem também facilitar a compreensão das coisas. coisa que o Paulo não estava fazendo. pois adotei o decassílabo heróico. nem homossexual. nem marginal. são afirmativamente cínicos e não querem mudar nada: gozam enquanto transformam”.com o Paulo Henriques Britto e ele me propôs um formato de soneto diferente: cinco estrofes com 2. 2. Desde o momento em que você a divulga. Você concorda com esse tipo de leitura? G. no lugar desses rótulos falsos e imprecisos. O que eu fazia não era mero pastiche. Segundo esse crítico. Jameson refere-se ao plágio como “paródia lacunar”. como o Umberto Eco já havia observado. porque esse formato tem a mesma proporção do soneto clássico. estratégia retórica. O problema é que. eu estava fazendo um fanzine pós-moderno. Na verdade. de pós-concretismo. Embora não houvesse a palavra pós-modernismo nos anos 70. afinal de contas.

desfaz-se na clareza. Daí a iluminada e luminosa conclusão: A poesia reconhece-se por esta propriedade: tende a se fazer reproduzir em sua forma. como a de Lucrécio ou Dante. como diz o próprio Valéry. de 1944. por um lado. na poesia francesa. todos os valores significativos. de uma poesia. o som. nada do que se passar nesse estado estará resolvido. para o poeta. e que pode ser lido na coletânea do poeta Variedades. a pensar de acordo com um regime e sob leis que não são mais de ordem prática – ou seja. retomar – então alguma coisa de novo se declara: estamos insensivelmente transformados e dispostos a viver. A maioria acredita. No segundo. fazendo com que seja reconhecida desde as primeiras palavras. para Valéry. No primeiro caso. as imagens. a forma. Vício e Virtude. parece perder a sua identidade habitual ou. é preciso dizer que o título desta coluna é uma alusão ao ensaio de Paul Valéry. Fala-se em “Poesia e Pensamento Abstrato” como se fala no Bem e no Mal. a respirar. aquilo que ele chama de universo poético. É essa desconfiança que encaminha a reflexão de Valéry para uma análise da própria linguagem que viabilizaria a nomeação seja da poesia. as idéias. o ritmo. tão logo essa forma sensível adquire. isto é. desempenhou sua função. a Voz em ação. Era apenas um meio e ei-la transformada em fim. principalmente.outubro/2000 .E Juan Esteves n t r e   l i v r o S P ara os que não o leram. por outro. Desse modo. as excitações do sentimento e da memória. por assim dizer. Mais adiante. viveu. Ou. ao contrário daquele. buscava refletir sobre as relações tensas entre poesia e pensamento. Calor e Frio. de poesia e. os esforços de vontade e de exatidão em que o espírito participa não concordam com essa simplicidade de origem. desconfiada às palavras utilizadas para marcar aquela articulação. Valéry. agiu. almejando romper com a dicotomia tradicional que via. que as análises e o trabalho do intelecto. como ele mesmo diz logo no início do ensaio: Freqüentemente opõe-se a idéia de Poesia à de Pensamento e. e vê. é constituído precisamente pelo desejo de realizar a passagem daquele nível de compreensão que caracteriza a linguagem em suas funções práticas ou abstratas para um outro – o propriamente poético – em que. de pensamento e de que modo é possível pensar numa articulação entre os dois. essa graça e essa fantasia que distinguem a poesia. em português. de 1939. abolido por um ato bem determinado. as entonações. para Valéry. uma aproximação. Valéry utiliza a imagem de um pêndulo que oscila entre dois pontos simétricos para tratar das relações entre poesia e pensamento: Suponham que uma dessas posições extremas representa a forma. isto é. entretanto. Associem. na edição brasileira. as características sensíveis da linguagem. e não apenas observar e respeitar. seja do pensamento. o físico. isto é. ao outro ponto. torna-se magicamente problemática. acabado. a palavra. naquele ensaio. como sempre. que sempre reclamara da nãoexistência. sem muita reflexão. aquele dos empregos práticos e abstratos da linguagem. tão confiantemente utilizada pela linguagem corrente. aquele em que as palavras são adequadas à criação de estados poéticos que podem. mas desejar e. É o que chama de nettoyage de la situation verbale. ao ponto conjugado do primeiro. que é. o movimento – em uma palavra. O fato é que. através de seu próprio efeito. os impulsos virtuais 10 Cult . não obstante as suas próprias conquistas em poemas como La jeune parque e em alguns de Charmes. vir a ser configurados em poemas. transformada no objeto de um terrível desejo filosófico. por limpeza da situação verbal. E. provocou a compreensão. que se traduziu. em 1991 e reeditada em 1999. que apontasse para a convergência entre poesia e pensamento. por outro lado. o sensível e o ato mesmo do discurso não se conserva. “Poésie et pensée abstraite”. frustra todos os esforços de definição (…). o timbre. uma importância tal que se imponha e faça-se respeitar. excita-nos a reconstituí-la identicamente. no par poesia-pensamento uma oposição radical. pela editora Iluminuras. E por que esse título alusivo? Antes de mais nada porque. não sobrevive à compreensão. portanto. o poema não morre por ter vivido: ele é feito expressamente para renascer de suas cinzas e voltar indefinidamente a ser o que era. de “Pensamento Abstrato”. introduz uma resistência estranha. inicialmente uma conferência na Universidade de Oxford e depois incluído em Varieté V. a questão está em esclarecer o que se está chamando. ou não. publicada. destacada para exame. essa superabundância de expressões.

aludindo logo na abertura ao poeta da Comédia (quisera como dante em via estreita/ extraviar-me no meio da floresta/ entre a gaia pantera e a loba à espreita). o poeta será um pensador não porque seja o porta-voz de uma sistema “filosófico”. sertões e veredas ou onça-pintada que equivale à pantera e à loba dantescas. criando um espaço de leitura que funciona como indagação pela máquina do poema e como elemento de articulação entre poesia e pensamento e as formações de compreensão – em uma palavra. Dividido em três partes. para que se descortine aquelas relações. de ritmo decassilábico. citados por Valéry. mas porque é capaz de refletir acerca daquelas articulações na efetivação do poema. se propõe como exercício dialógico em que a tópica da máquina do mundo. vive. num golpe de dados que pudesse vencer o acaso. o poema. O mesmo se poderia dizer acerca de alguns poemas de João Cabral (e penso quer no abstrato “Uma faca só lâmina”. por ser repensada. não se trata.C u l t 11 drade. Entre a Voz e o Pensamento. e a reflexão sobre os seus próprios significados que exigiu e impôs aquela configuração. pela voz que a enuncia. reduzidas a situações mínimas de realidade: é a vida sem evidência. o pequeno texto busca a essencialidade por entre manifestações da existência (vida. Desse modo. pode-se afirmar que o poema de Murilo Mendes é aquilo que está entre a configuração verbal. O poema intitula-se “Algo”: O que raras vezes a forma Revela. mais uma estrofe de apenas um verso inconcluso. Por isso mesmo. mas uma definição construída sobre um paradoxo (aquilo que se diz é o que não está dito). tudo o que constitui o conteúdo. se se quiser. por aquela forma. o longo poema de 152 estrofes de três versos. entre o Pensamento e a Voz. embora já nas duas estrofes seguintes convoque termos e imagens que o localizam em experiência mais próxima do poeta. É precisamente a partir de um diálogo com este último poema (e também com Dante e. violeta e cristal) que. é o sonho da violeta e é o cristal primevo. por onde a abstração termina por se traduzir no concreto da estrutura textual.Poesia e pensamento (concreto) João Alexandre Barbosa Em A máquina do mundo repensada. em que se destaca a repetição que acentua uma semântica de subtração. tornando presente a herança da linguagem de João Guimarães Rosa. mas que só ocasionalmente. em terza rima (o segundo verso de cada estrofe rima com o primeiro e o terceiro da estrofe seguinte). sobretudo. são. dos inícios da década passada. num poema de apenas seis versos de Murilo Mendes. Todas sentidas e. no poema como oscilação contínua entre a voz e o pensamento. sem contar as suas viagens de transcriador por poemas bíblicos e homéricos) ao poema longo. quer no concreto “O cão sem plumas”). por onde se possa falar de poetas filósofos. por assim dizer. de Manuel Bandeira ou de Carlos Drummond de AnJoão Leite outubro/2000 . O que a violeta sonha. ou cantos. entre a Presença e a Ausência. cria um espaço de leitura para aquelas utilizações que funciona como elemento de articulação entre a poesia . é possível perceber a intensidade das oscilações entre voz e pensamento. sobretudo o de “A máquina do mundo”. Nesse sentido. oscila o pêndulo poético. Haroldo de Campos realiza o ideal expresso por Valéry no ensaio “Poésie et pensée abstraite”. Sendo assim. isto é. para Valéry. para insistir nos termos valeryanos. não é indispensável a existência do poema longo. Servindo como uma definição para o seu título. o sentido de um discurso (…). de poesia filosófica ou de expressões semelhantes. publicando pela Ateliê Editorial A máquina do mundo repensada. O que. sem evidência. como aqueles de Dante e de Lucrécio. por exemplo. As articulações entre poesia e pensamento se dão no concreto da própria composição poética. cuja ação é destacada no segundo verso. segundo os seus termos. pensadas. A partir mesmo de seu título. de estabelecer uma relação entre poesia e indagação filosófica. a relação entre poesia e pensamento abstrato faz-se consistente pela efetivação do poema. O que o cristal contém Na sua primeira infância. é empolgada. do livro Claro enigma. por sua vez. ou revelada. do livro Poesia liberdade. envolve utilizações poéticas anteriores. Camões) que Haroldo de Campos volta (principalmente depois do Finismundo: A última viagem. Assim. No poema de Murilo Mendes. mais do que isso.

transido e eu nesse quase – (que a tormenta 2.1. ou dádiva ofertada pela deusa a Vasco da Gama. repara.outubro/2000 3. e. fazendo ecoar por todo o poema a declaração de desejo com que ele se inicia: quisera. Assim. abre teu peito para agasalhá-lo. cujo título foi extraído de sua mais recente antologia de ensaios. pelo menos quatro estrofes (14-17). e para um poeta contemporâneo que de sua contemporaneidade lê a tradição das leituras. porque torna presente e. essa problematização que viabiliza. e alto saber que aos seres todos rege: 3. publicada pela Ateliê Editorial. mas hermética. o último. 1. olha. como está nas estrofes transcritas. a esfera a rodar no éter do ultramundo E tudo aquilo que se revela ao Gama pela visão da máquina ocupa. ao mesmo tempo. incurioso furtou-se e o canto-chão 2. do seu trem-do-viver foi ruminando 3. Desejo de poema que possa ultrapassar a sombria condição de abatimento. Uma espécie de fratura que desestabiliza o rigor épico do texto. como um comentário.1. esse nexo primeiro e singular que nem concebes mais. orbes sobre-regula o marinheiro12 Cult . minto: menos drummond que ao desengano 2. descendendo – estrela ázimo-esverdeada 3. sem dúvida. e o ciclo ptolomaico assim termina… Não obstante. como é o caso de Haroldo de Campos.1. de compreensão e de explicação daquilo que foi também desejo em discursos poéticos anteriores. (.1. na primeira parte. ecoa. contempla. Mas para chegar a esse pranto primordial: primeiro nexo. Ou.1. Termos problematizados pela experiência pessoal de desânimo e quase desistência. escolado na pedra do mineiro 34. pois à máquina de astros que a seu giro 2. a ver por dentro o enigma do futuro 35.1. quando então é retomada em chave de oposição: 32. da dúvida angustia) – terço acidioso 3. na suprema figura subsumir-se 2.1. num movimento solidário de dúvidas e buscas.possível e a ação de pensar. logo se identifica o objeto de desejo pela leitura daquilo que foi ou impossibilidade pela superabundância de luz. nas quatro últimas estrofes desta primeira parte. ao poema de Drummond na passagem em que a voz da máquina do mundo oferta maravilhas: João Alexandre Barbosa é um dos maiores críticos literários do país. ou repensar. -almirante rendeu-se qual se um tiro 33. nas sexta e sétima estrofes: 6. recolho-me por dentro? vou de mim 152. quando é. pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste… vê. Professor de teoria literária e literatura comparada. sobretudo. em que o primeiro signo parece ser a figuração da procura infinita. por isso mesmo. repensar a máquina do mundo será obrigatoriamente indagar pela máquina do poema que concretiza as articulações entre poesia e pensamento. E para isso. A leitura do intervalo (Iluminuras) e A biblioteca imaginária (Ateliê Editorial). interrompida por outras quatro (18-21) em que surge a presença de Carlos Drummond de Andrade (ao capitâneo arrojo em prêmio aberta/ – drummond também no clausurar do dia/ por estrada de minas uma certa) para ser novamente interrompida durante onze estrofes de leitura da visão do Gama. Daí os últimos e admiráveis versos inquisitivos do poema: 151. o poeta singulariza a experiência do poeta brasileiro por entre aqueles poetas (leia-se Dantes e Camões) que viram no ROSTO o nosso se estampando: 37. se abrira (e a mim quem dera!) por remota 13.1.1. finjo uma hipótese entre o não e o sim? 2. com crenças dessepultas do imo arcano 38. drummond minas pesando não cedeu 3. caminho seco sob o céu escuro 2. o leitor tem de passar pela glosa da física cosmogônica da segunda. diretor da Faculdade de Filosofia.1. como está. por isso. de repintar a neutra face agora 3.1. expondo-se às frustrações ilimitadas do horizonte humano e também recolhendo as alegrias do entrever nexos e conexões.1. o último verso do poema de Haroldo de Campos. remiro-me no espelho do perplexo? 3. o pasmasse: já o poeta drummond duro 3. e a cada instante mais se retraindo. mais próximo. para o leitor atento. milênio a me esfingir: que me alimenta 7. desapeteceu: ciente estando embora 2. e do outronão discuto o anjo e o sexo? Juan Esteves .. o mesmo em toda parte viu (consigna) 2. viu – alcançando o topo e soada a hora – 39.) O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou. por outro lado. ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola. nos versos de Haroldo de Campos: 12. observo o paradoxo do outrossim 3. os seus termos. essa ciência sublime e formidável. então..1. (camões o narra) máquina do mundo 3. – quisera tal ao gama no ar a ignota 2. a sua (e no estupor se translumina) 3. seção da CULT. de mágico pelouro por inteiro 2. mesmo afetando dar-se ou se rendendo. para fora de mim tacteando o nexo? 2. como está dito na quinta estrofe da última parte do poema. no caso do Paradiso. essa total explicação da vida. a mesma – de saturno o acrimonioso 2. a acídia: lume baço em céu nuvioso E é. autor de A metáfora crítica e As ilusões da modernidade (pela editora Perspectiva). assume um papel fundamental no texto. A imitação da forma e Opus 60 (Livraria Duas Cidades). de chumbo – cético entre lobo e cão – 3. como está na estrofe LXXX do canto X de Os lusíadas. que dante no regiro do íris no íris 3. foi presidente da Edusp. pela estrada de minas sóbrio chão É. Letras e Ciências Humanas e Pró-reitor de Cultura da USP João Alexandre Barbosa assina mensalmente esta . aquele inconcluso e isolado verso já referido e que. notável como. mão comandada – um dom saído do fundo 2. o processo lírico por entre as anotações narrativas das três partes do poema. de acordo com o traçado do próprio poeta. – e que camões um rosto a repetir-se 40. inicialmente. uma vez que o último o retome (O nexo o nexo o nexo o nexo o nex).

ao qual o escritor argentino pertenceu. realçando a lógica sofisticada de textos em que personagens e enredos funcionam como variáveis de uma equação narrativa Reynaldo Damazio Fotos: Sara Facio 14 Cult .outubro/2000 .O POLIEDRO CORTÁZAR A publicação de Octaedro e do segundo volume da Obra crítica permite uma reavaliação da obra de Cortázar que transcende o contexto do realismo fantástico.

não se pode negar a presença de um raciocínio ordenador. meticuloso na construção dessa mesma obra. Cenas aparentemente banais são rasgadas por um episódio insólito que altera a ordem estabelecida e expõe uma dimensão estranha do real. Esse fascinante processo de articulação circular na ficção cortaziana está muito bem decodificado em O escorpião encalacrado. permite uma oportuna reavaliação. onde há uma condensação exasperante de recursos estilísticos e referências literárias. Noutras vezes. artigos e entrevistas. Cortázar tentava despistar críticos e exegetas afirmando que não havia planejamento na confecção de seus textos. seria melhor comparado a um prestidigitador. jogando com truques sofisticados que chegam mesmo a colocar em xeque o próprio mecanismo de prestidigitação.C u l t 15 . percebe-se uma poderosa mente fabulatória a montar complicados quebra-cabeças.C a p A Aceita como fantástica pelo próprio autor – “por falta de melhor nome” – a obra de Julio Cortázar (1914-1984) desafia leitores e críticos como um jogo de cubo mágico. Por outro lado. é tomado pelo texto que compõe e fica à mercê de suas estruturas internas. com peças que estrategicamente mudam de forma para se adaptar a novas imagens e confundir o leitor. estudo seminal de David Arrigucci Jr. Prosa do observatório e O perseguidor. era conduzido como que por uma necessidade mediúnica. Como se Cortázar fora um bruxo da prosa. Situações e personagens transitam entre os contos como que a oferecer novos ângulos de uma experiência de vida que jamais poderia ser apreendida de forma absoluta e definitiva. cujos planos de narração parecem refletir outros planos que reverberam em planos inesperados. no fim das contas. para ficar em alguns exemplos. ao contrário. articulando-se de um modo coeso e intenso sob a chancela do livro impresso. Na verdade. geométrico. Embora a obra de Cortázar possa ser considerada um contundente libelo contra as limitações da racionalidade ocidental e uma questionadora feroz da precariedade do cientificismo castrador que a todos nos orienta. o traçado preciso da parábola. A publicação de Octaedro e do segundo volume de sua Obra crítica. o salto calculado da frase. como Guimarães Rosa fez em português com Grande sertão: Veredas. Cortázar dá sentido ao imoutubro/2000 . ora góticos. no caso a escrita. Acontece que na ficção de Cortázar há vários indícios de uma busca obsessiva pela construção de narrativas precisas. Todo autor. quase à maneira de um de seus interlocutores ilustres: Jorge Luis Borges. A manipulação da linguagem que realiza é a do ilusionismo. oferecendo uma variedade combinatória infinita de figuras e cores. manipulando fórmulas cifradas e envolto numa bruma de insondáveis arcanos. Tomados isoladamente. organizado por Jaime Alazraki. Escritura poliédrica. Há certos momentos em que o absurdo passeia tranqüilo pelo cotidiano e se acomoda ao seu ritmo monótono. com bruscos solavancos. como Histórias de Cronópios e de Famas. movido por razões alquímicas que nos escapam. leva muitas vezes a mistificações e superficialidades. meticulosas e matematicamente arquitetadas. o cotidiano mesmo revela sua face perversa de irracionalidade. a tensão angustiante com que a linguagem é moldada em seus detalhes e efeitos mínimos. alterando bruscamente o conjunto. instaurando atmosferas oníricas que sugerem labirintos inexpugnáveis. Em todos os relatos se percebe a condução rigorosamente medida. mas que. se observados em conjunto e cotejados com ensaios. sem rebarbas e volteios. os textos podem parecer A ora surrealistas. até mesmo nos contextos em que nos sentimos à beira do nonsense. polimorfa. o escritor que construiu em O jogo da amarelinha uma versão latino-americana do Ulisses joyceano. A dificuldade em enquadrar textos tão diversos entre si e ao mesmo tempo complexos em sua urdidura narrativa.

do Rio de Janeiro. o destino e o acaso: os jogos. Não parece casual que o segundo dos quatro volumes de textos recompilados pelo autor. de Octaedro. em Todos os fogos o fogo. Basta lembrar alguns de seus contos mais conhecidos. está publicando pela primeira vez no Brasil a Obra crítica de Julio Cortázar. O primeiro volume (112 págs. tem de aceitar as regras do jogo e correr riscos. Os textos estão assentados numa sofisticada lógica estocástica. resenhas e artigos escritos pelo autor argentino. como se estivesse em constante estado de interseção. ao indizível. Numa entrevista para um documentário de televisão. teriam como fio condutor aquela rubrica. em que Cortázar. de Bestiário. aceitando sem resistência que se pudesse passar assim de uma coisa a outra”. O escritor se baseou no arranjo de Millicent Silver . sufocantes. A exploração desses mundos projeta o leitor no campo da incerteza. No meio de um parágrafo. a metáfora dos mundos paralelos (defendida hoje até como hipótese científica por certas correntes da física pós-quântica) se configura em sua obra como um forte eixo catalisador. Aqui chegamos a uma outra obsessão de Cortázar. a regra e o improviso. o abstrato e o concreto. para a Alianza Editorial. Livro de Manuel (Nova Fronteira). da Espanha. O enredo se constrói a partir da enfermidade de um personagem ou da observação dos que estão à volta do moribundo. que poderíamos também chamar de permuta entre estágios de consciência e percepção. Cortázar dizia que ao entrar no metrô sempre tinha a sensação de que estava mergulhando numa outra dimensão de espaço e de tempo. Os contos tangenciam realidades paralelas que se multiplicam e se refletem como num labirinto de espelhos. Os personagens experimentam dramas psicológicos e existenciais profundos em espaços fechados. R$ 38. “Pescoço de gatinho preto”. de 1949. O leitor caminha sobre um equilíbrio precário. reunindo ensaios. palpável. cognitiva por excelência. A contenção e a coesão são tão determinantes na montagem das narrativas que acabam por estabelecer uma atmosfera claustrofóbica. A inclusão de um personagem um gesto furtivo no metrô. O exame final (Civilização Brasileira). Além disso. de fé. ao estranhamento sem explicação de seus personagens diante da realidade despida de mitos. o poema dramático Os reis. tem um princípio revelador: “Acontecia-me às vezes que tudo ia por si mesmo. em Octaedro. de Final do jogo. que compilou os textos anteriores a O jogo da amarelinha. abrandava-se e cedia terreno. A idéia era criar uma narrativa nos moldes de uma peça de Bach. O relançamernto mais recente é Octaedro (tradução de Gloria Rodríguez). Ficava imaginando que ao voltar à superfície poderia se deparar com um mundo ou uma época diferentes. A editora prevê também o lançamento de dois outros livros ainda inéditos no Brasil: em dezembro. Já foram republicados também O jogo da amarelinha (tradução de Fernando de Castro Ferro) e Histórias de Cronópios e de Famas (tradução de Gloria Rodríguez). Alguém que anda por aí (Nova Fronteira).. Orientação dos gatos (Nova Fronteira). que permite a síntese paradoxal entre o lúdico e o racional. Outras edições do escritor no Brasil são: Bestiário (Nova Fronteira). ainda que apresente fraturas abissais na ordem aparente das relações. probabilística. Os prêmios (Civilização Brasileira). segundo o escritor. de Todos os fogos o fogo. o segundo (368 págs. Valise de cronópio (Perspectiva). ou mesmo o surgimento de um ente fantástico – como o inexplicável cavalo branco no conto “Verão”. de 1947. a Civilização Brasileira está reeditando a obra ficcional do escritor com novo projeto gráfico. O conto “O outro céu”. formula uma poética que estará presente em seus livros de ficção. intimidadores. em que personagens e enredos 16 Cult . Veja-se os contos “A saúde dos doentes” e “Senhorita Cora”. que reuniu ensaios posteriores a O jogo da amarelinha. de Todos os fogos o fogo.00) é organizado por Saúl Yurkievich e traz os textos que compõem A teoria do túnel. pode-se dar a ruptura e o leitor se vê projetado num patamar diverso de realidade. “Liliana chorando” e “As fases de Severo”.outubro/2000 funcionam como variáveis na equação da narrativa. Nicarágua tão violentamente doce (Brasiliense). é um mecanismo recorrente na obra de Cortázar.00) acaba de ser lançado e tem organização de Jaime Alazraki. Nele estão reunidas 29 narrativas que. presente no mesmo volume. R$ 17. Prosa do observatório (Perspectiva). será publicado 62/ Modelo para armar e. num terrível engarrafamento ou dentro do próprio pulôver. Cortázar explica a gênese do conto “Clone”. pode-se avançar recuando ou perder-se em atalhos que levam a caminhos inexistentes. tenha o título de Juegos. de razão e de esperanças. o terceiro volume está previsto para abril de 2001 e é organizado por Saúl Sosnowski. no metrô. Essa travessia intratextual. “A auto-estrada do sul”. Fora de hora (Nova Fronteira). Adeus Robinson e outras peças curtas (Civilização Brasileira).CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA EDITA OBRA CRÍTICA DE CORTÁZAR A editora Civilização Brasileira. ao discutir o romance moderno. do livro Octaedro – podem guinar radicalmente os rumos da trama e gerar desfechos inesperados. No relato “Nota sobre o tema de um rei e a vingança de um príncipe”. Diário de Andres Fava (José Olympio). Um tal Lucas (Nova Fronteira). ou de uma frase. As armas secretas (José Olympio). Todos os fogos o fogo (Civilização Brasileira). seja numa casa. A Obra crítica de Julio Cortázar tem tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. em janeiro do próximo ano. Além de usar o próprio metrô como cenário e variante temática em diversas narrativas. pouco antes de morrer.. “Ninguém tem culpa”. Faz com que a anormalidade nos pareça normal. Uma variante metafórica do enclausuramento é representada pelo núcleo temático da doença. como: “A casa tomada”. Cada passo nesse bosque ficcional é provisório.

gravado pela London Harpsichord Ensemble. Esse metatexto provocador e irônico registra a busca de um escritor por sua identidade. o limite entre o real e o absurdo. oito desenhos sonoros respondendo. podem ser montadas pelo leitor e até possui um roteiro de leitura oferecido pelo escritor. recai perfeitamente como metáfora da trajetória do escritor. príncipe de Venosa. a metalinguagem e a perda dos liames entre a razão e o entorno. os jogos com a temporalidade. O projeto ficou guardado por um tempo. Um romance estruturalmente híbrido e desdobrável. Os três livros parecem compor um complexo artifício de simetrias. ou até ensaios. Há quem hoje considere O jogo da amarelinha o precursor do hipertexto. dois de jogos no metrô e dois de relacionamentos. Cada conto representa uma face da figura. ter assassinado a esposa acaba oferecendo um tempero especial à trama. Cortázar cria o inventor de uma máquina complexa para ler O jogo da amarelinha. pelo sentido da existência. As faces dialogam entre si segundo uma rigorosa combinatória vetorial. uma variação do tropo poesia como purificação utópica. transformou os oito instrumentos musicais em integrantes de um conjunto vocal. Há gráficos da engenhoca. Sob a figura perfeita de um octaedro. e consultando uma fotocópia da capa do disco. os exemplos acima apontam para uma outra fixação cortaziana. O livro Octaedro. Cortázar desenvolve um imenso painel de “peças” (narrativas) que se intercambiam. O texto que narra suas possibilidades de se tornar narração. mas também um desenvolvimento bem-humorado do processo metalingüístico. mas terrivelmente humanos. SEJA NUMA CASA. dividido entre anjos e demônios não mais metafísicos. NUM TERRÍVEL ENGARRAFAMENTO OU DENTRO DO PRÓPRIO PULÔVER para oito instrumentos contemporâneos do compositor alemão. autotelicamente. Mas Cortázar considerou que seria inviável criar um duplo literário da orquestra londrina. no jogo infantil. muitas vezes travestido em seus personagens. enfeixa oito contos.C u l t 17 . A imagem do percurso entre céu e inferno. abrigam-se as inquietações e os questionamentos mais profundos do autor. Inspirado no madrigalista da Renascença Carlo Gesualdo. INTIMIDADORES. traçando relações entre a vida dos personagens e os instrumentos. A partir daí seria possível desenvolver a ação dramática espelhada com os sucessivos movimentos da Oferenda musical de Bach. Durante uma viagem à praia. com instruções para instalação e uso. Em todos se apresentam a súmula das inquietações de Cortázar: os seres extraordinários. De fato. a Rayuel-O-Matic. de onde se pode tirar outros romances. reordenados. assim como Bestiário e Todos os fogos o fogo.OS PERSONAGENS EXPERIMENTAM DRAMAS PSICOLÓGICOS E EXISTENCIAIS PROFUNDOS EM ESPAÇOS FECHADOS. interconexões. cujo título se refere a uma figura geométrica de oito faces. Formamse pares temáticos: dois contos falam de literatura. por uma possível salvação do inferno pelo amor. A obsessão por jogos fica evidente também em seu romance O jogo da amarelinha. o móbile começou a ser montado: “A regra do jogo era ameaçadora: oito instrumentos deveriam ser representados por oito personagens. correspondências. de carne e desejo. mas principalmente se trata da procura do próprio romance. dos jogos do texto consigo mesmo. segundo “o prazer que o escritor se havia proposto antes de mais nada”. dois de doença. O fato de o compositor Gesualdo. Além de demonstrar o longo e exaustivo processo de elaboração de um pequeno conto ou de um romance de quase 600 páginas. NO METRÔ. Somente depois de uma conversa casual conseguiu chegar à solução do dilema. condutas e relações de oito pessoas”. está ali uma colagem de textos que podem ser refeitos. Desde o título. Em A volta ao dia em oitenta mundos. As outubro/2000 . recompostos em outros textos originais. contos. as relações pessoais marcadas por uma comunicação precária e truncada. alternando ou opondo-se deviam encontrar sua correlação em sentimentos. SUFOCANTES. Auto-ironização extrema com as supostas dificuldades de leitura de seu denso romance.

Tal qual um rito iniciático que encarna o mito fundador. de Jaipur ao planeta Faros. pleno de musicalidade.weblivros. a poesia estaria na origem de tudo. Final do jogo talvez exemplifique um de seus livros em que o encontro com Kafka esteja mais acentuado. tampouco de estilhaçamento do significante. está próximo de Borges e de Italo Calvino. cujas raízes de clara origem mágico-poéticas persistem na linguagem. prosa poética. especialmente da linguagem. A galáxia reflete o fundo do oceano. Cortázar era poeta. “a admiração pelo que pode ser nomeado ou aludido engendra a poesia. e ainda que pertencendo ao contexto. As cisões vão se multiplicando. que nos torna demasiado humanos. Caberia à literatura ser tão intensa e contraditória como a vida. Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes. com seu rigor construtivo. em O perseguidor. Morelli. de 1954. Originalmente. está na raiz de toda a ficção de Cortázar. A história do saxofonista drogado e boêmio Johnny Carter. No artigo intitulado “Para uma poética”.com. tema que seria reaproveitado em outros livros. Segundo Cortázar. mas de distorções sutis do significado. impregnar-se dela. a partir de 1951. Margrit e muitos mais. provinciana noutra. editor do departamento de publicações do Memorial da América Latina e do site Weblivros! (www. Assim também está no início do percurso textual de Cortázar. escrita nos anos 50. A reflexão sobre a paisagem ganha contornos filosóficos e cosmológicos. contrária à rotinização e aos padrões socialmente impostos. a obra de Cortázar está distante do neo-barroquismo de inspiração lezamesca e não tem parentesco algum com Gabriel García Márquez.simetrias se propagam. ensaio. na alma e na página em branco. a menos que escrever seja – como tão poucas vezes – um viver”. que se proporá precisamente a essa nominação. de Nova York a Outro Preto. Será preciso buscar também correspondências com a poesia de Rimbaud e Mallarmé. os caminhos se bifurcam. Reynaldo Damazio jornalista. A literatura não poderia jamais congelar a vida. seu desejo não era apenas ser escritor para escrever. entre mente e matéria. sua apresentação absoluta. O mesmo jogo pode ser aplicado a Bestiário e Todos os fogos o fogo. Em A volta ao dia em oitenta mundos publicou alguns poemas que fazem parte de uma longa série. de modulações delicadas na superfície do discurso. Mas é sobretudo em seus ensaios sobre literatura que se tem a noção mais precisa da importância da poesia na vida e na obra de Cortázar. ele também procurou o fio de Ariadne. Os textos de Cortázar não são feitos de transbordamento metafórico. ele faz uma linda aproximação entre a visão de mundo do poeta e a dos povos primitivos.outubro/2000 Charlie Parker e Miles Davis que tanto admirava. as traduções e o exercício de uma crítica literária brilhante numa Buenos Aires enigmática. Vivendo em Paris. também se deve lembrar da referência às fugas bachianas. Esse ideal da arte como um modo de existência. Seu livro de estréia.br) . Mesmo sendo um admirador fervoroso do surrealismo. Ambos lidam com o real de forma analógica. Como um “mago metafísico” o poeta se identifica com aquilo que nomeia. Estamos todos lá. Lucho. mancúspias. Escreveu também sonetos de dicção mallarmeana. talvez esteja uma das sínteses possíveis de seu pensamento sobre a relação entre literatura e realidade: “viver importa mais do que escrever. se amalgama com a observação de monumentos e edificações indianos. a máquina do mundo se abre de SaintGermain-des-Prés a Bánfield. sem a intermediação ancestral da lâmina fria do espelho. Ainda nesse artigo. de 1949. para dar ao texto a pulsação da existência. Seus textos circulam em outro código e resultam do cruzamento de Edgar Alan Poe com Anton Tchekhov. Cortázar nunca se rendeu ao automatismo da escrita. Há uma relação de encantamento com o existente. Cortázar afirmava que via na poesia “uma espécie de desenfreamento total do ser.. como se constata em artigo de 1948 sobre a morte de Antonin Artaud. Ao contrário dos escritores que tornaram a literatura latino-americana conhecida internacionalmente como a geração do realismo fantástico. Paco. de Ernest Hemingway com Franz Kafka. injetando libido nas entrelinhas. com a ironia patafísica de Alfred Jarry. angüilas. plânctons e estrelas se irmanam. é puro Hemingway. Dessa máquina saem axolotes. grande poema coletivo do homem” (o grifo é do autor). de Roberto Arlt com Jorge Luis Borges. Um livro como Histórias de Cronópios e de Famas.)”. sem máscaras ou fórmulas. Para ele. com as reflexões poético-existenciais de Paul Valéry e os delírios metafísicolinguísticos de Antonin Artaud. assinado com o pseudônimo de Julio Denis. o surrealismo era importante como uma postura filosófica – que conduzisse ao “reconhecimento da realidade como poética” – mais do que uma corrente ou modismo literário. mas para viver o escrito. labiríntica. a obsessão pela forma. Escritura e vida emaranhadas no mesmo corpo. universal numa esquina. escrita no asilo de loucos de Rodez. Já em 1941. incorporou à sua experiência literária o deslocamento afetivo-intelectual do exílio. num artigo sobre Rimbaud. apontamentos de viagem –. com sua mitologia fantástica e alta voltagem de poeticidade. dividido entre o magistério. Maga. de Lugones e Juarrós. quase formalistas. de identidade sem mediações entre seres e coisas. Los reyes.. Como no exemplo extraído de uma carta de Artaud. Como Borges. pois é justamente aquele que “agrega ao seu ser as essências do que canta (. sua enteléquia”. é um poema dramático sobre o mito de Teseu e o Minotauro. traduzida ainda no desejo de que “a vida saia dos livros”. em analogia às performances de 18 Cult . mas transpirá-la. Num outro livro maravilhoso como Prosa do observatório – mistura de crônica. Se é pertinente comparar seu estilo ao improviso jazzístico. pelo geométrico. resultando num texto delicioso. ou ao fluxo livre da consciência.

C u l t 19 .outubro/2000 .

Dada a generosidade do desafio e a aventura que sempre se insinua no quintal de 20 Cult . há textos que suscitam análises solenes ou próximas demais a esquemas individuais e que se adequam a manobras teórico-ideológicas (provisórias. O tom que reconheceríamos como sua marca instalou na prática literária a sutil desculpa do primeiro Borges1 e o fez já não por circunstâncias fortuitas. Dentre aqueles que estenderam pontes. pelo compromisso e pela solidariedade5 – palavras que se tingiram de nostalgia e cinismo no desmembramento das comunidades. em Cortázar se entrelaçam carinho. pelo respaldar de um assento ou pela mão sedutora num corrimão. fomentaram seu trânsito e formalizaram a cumplicidade do leitor encontra-se Cortázar. de fé no sentido próprio dessas dimensões que não se conseguem vislumbrar. principalmente quando pertencem a autores que apostaram em outra leitura e em outra definição da literatura e de seu mundo.4 Talvez mais do que com qualquer outro intelectual latino-americano de nossos dias. algo mais que a alternativa entre a entrega e a loucura. certamente) que carregam sua própria versão da verdade. pelo corredor de algum ministério ou pelo corredor de um ônibus. algo mais. os ícones peronistas e a saída para o que só sob a ditadura dos anos 70 perceberia como exílio. de aposta no possível.3 A 16 anos de sua morte. no convés de um barco ou no voluntário recolhimento de um apartamento parisiense. ou por passageiras modas acadêmicas. dentre outros. para sempre. A partir dessa perspectiva e. perdura o perfil de um rebelde com causa que em sua época freqüentou a tímida poesia e o raro drama junto à tradução e à docência. as páginas de Realidad e o clima de Sur. O pacto que se torna vigente ao abordar seus textos se reveste de um ar de sedutora intimidade. “Continuidad de los parques” e “Las babas del diablo”2. no escândalo e no terror de contos que vão de “Casa tomada” a “No se culpe a nadie”. a exaltação do indivíduo e a recuperação do abandonado por um longínquo erro da espécie.outubro/2000 P uma casa. o culto de letras inglesas e francesas. franco e incondicional. a reflexão sobre o existencialismo e o regozijo perante o surrealismo. na busca de algum sistema para que algo ou alguém diga “Las babas del diablo”. no inquietante enquadramento poético das histórias que organizam “Reunión” e “Apocalipsis de Solentiname”. o encontro dos corpos e o amor em glíglico (balbucio). não é casual o diálogo desejoso de que nos apropriamos ao ingressar na obra de Cortázar. de amores .A COSMOPISTA DO RISCO Saúl Sosnowski Por razões canônicas. E ao longo das décadas. podemos ler. pela leitura e por aquilo que desliza a partir das bordas do livro. a denúncia dos assassinos e a segurança do burocrata. Percebemos isso na séria leveza humorística de seus cronópios e famas e na ocasional conduta de Lucas. não tão simplesmente e. em diferentes instâncias de seu posicionamento ideológico. mas que sempre estão por perto do desejo. esses mesmos textos podem incitar ao diálogo aberto. admiração por sua retidão ética. o sonho de revanche do boxeador caído e a dúvida entre as cordas e a mancha no asfalto. nas intermináveis investigações do Clube da Serpente e nas apostas de todos os seus perseguidores para achar alguma coisa mais vivencial que a submissão ao cotidiano. e sim assumindo a responsabilidade por todo ato. de confiança com sinais de alerta. “Satarsa” e “Pesadillas”. Uma leitura de sua variada dimensão literária atravessa a inocente carícia carregada de erotismo. Lidos em outra sintonia. convicção e ternura.

e não podemos limitar-nos ao argentino para sermos argentinos: porque o ser argentino é uma fatalidade e nesse caso o seremos de qualquer modo. Borges propunha uma resposta perdurável: “Acredito que nossa tradição é toda a cultura ocidental. assumiu seu latino-americanismo e atuou conforme suas exigências em diversos cenários da América violentada. estabelecendo uma cartografia do desejo cujas preocupações políticas e carga erótica libertária já estavam presentes em seus contos fantásticos de juventude e travessias. prefiro evitar a tão citada circunstância de ter sido Borges quem publicou o primeiro conto de Cortázar (“Casa tomada”) e sua valiosa apreciação6. Cortázar haveria de incorporar livremente certa presença oriental através de sua fascinação com a mandala. em compensação. o ser argentino é uma mera afetação. mais do que podem ter os habitantes de uma ou outra nação ocidental. enquanto. perdura e se acentua com claras expressões racistas e xenófobas no discurso nacionalista e regional. Borges passa rapidamente de “ocidente” a “universo”. em que a construção das identidades se tornou um lugar-comum de setores acadêmicos que pugnam por instalar seu discurso como alternativa ao que percebem como ameaça à figura individual e aos interesses agregados de multíplices minorias. lançar mão de todos os temas. sistematicamente em sua reflexão sobre as estratégias do conto e.10 O interesse por essas precisões adquiriria. Nesse sentido. sempre a busca de alternativas. para recuperar. e cifra.”7 Sugere “que não devemos temer e que devemos pensar que nosso patrimônio é o universo. esse modo que Cortázar teve de pensar-se em função da história mais próxima e de comprometer-se com ela sugere algo mais que a conduta poltronesca daqueles que. depois. conveniência ou cinismo.W. Por outro lado. “El escritor argentino y la tradición”. e acredito também que temos direito a essa tradição. Em anos recentes. logo após as comemorações do primeiro centenário do nascimento de Borges [ocorridas em 1999]. particularmente nos e a partir dos anos 60. ao cruzar o oceano e ao participar da promessa que significou a Revolução Cubana. o escritor argentino como herdeiro e inovador das letras que mereceu receber. Cortázar se redefiniu: sem deixar de ser o que sempre foi (essa fatalidade de ser argentino). o satori e o salto desde e em direção ao ser. Jacobs. primeiro. cabe assinalar que. de W. No contexto dos debates sobre nacionalismo e representação. uma dimensão continental. Hoje. Sem recair no que já foi estudado em outro lugar. uma máscara”. esta se vê diluída na cada vez mais difusa nomenclatura de “o latino”/”o hispânico” nas terras globalizadas do norte. outubro/2000 .8 Em suas considerações. sobre o simulacro de verossimilhança do realismo folclórico e a construção da nação. quando. diante de crescente migração interna. generosamente. Essa atitude também impõe sua própria reflexão sobre o manuseio da língua. assim como sobre o lugar da Argentina perante as tradições literárias e as guerras européias.Os jogos literários de Cortázar correspondem ao impulso de reconhecer as regras do mundo e de fugir de tudo o que é normativo.C u l t 21 . esse debate já antigo “cuja sombra ainda se projeta ocasionalmente pelo aparato cultural” também aflorou em Cortázar. em contraposição ao alimento que lhes prodigavam os folcloristas. Dada a peculiaridade do país e a de sua própria herança cultural. por razões de idade. “outra forma de nomear Biblioteca”. em virtude da publicação de Fantomas 9 e seus possíveis alcances populares. perderam a revolução. de outro modo de dizer e de escrever. o que é também outro modo de ser. volta a narrar a reação dos gauchos argentinos diante de “La pata de mono”. surgia a pergunta: “Qual é a tradição argentina?”. À fórmula de Borges.

o redescobrimento do eros combatente. embora sempre tenha se negado a produzir uma literatura de tese ou a responder aos requerimentos de uma literatura política por encomenda. embora dê a medida de seus praticantes – ao escasso renome da academia (e já não só à estadunidense. Cortázar passou do “eu” ao “nós”. 1935 Obtém o título de Professor Normal em Letras e ingressa na Faculdade de Filosofia e Letras. com “Reunión” antecipou o que já seria parte integrante de sua obra crítica: a reflexão a partir do 22 Cult . Ainda amparados por filiações literárias e pela inquietante sombra das tradições que cifra Borges nesses (e todos?) nossos dias – e que incluem não só a exaltação do indivíduo e seu culto à coragem como também a responsabilidade dos homens perante a história –. pela dúvida sistemática. pelo interrogante que suspende toda certeza para lançar possibilidades e aberturas. que contém várias fotografias e informações sobre a vida e a obra do escritor argentino: 1914 Julio Florencio Cortázar nasce em Bruxelas (Bélgica) no dia 26 de agosto. aposta e modo de vida tão irrenunciáveis como a força de eros. rendendo idioma e definição de ser. mas. pelo espaço que navega por entre as letras. degustar o sabor de outra pele. margens e exotismos do pouco freqüentado ou lugares que são filhos da imaginação. quando tantos latino-americanos nos EUA entregam-se. quando a história o exige. passá-la pela peneira do cemitério – assim definiu algum dia o Dicionário da Real Academia Espanhola – para dar-lhe vida.12 Seus primeiros textos apontaram para uma zona na qual as categorias deviam ser matizadas.11 Embora alguns de seus leitores de primeira hora tenham se surpreendido diante da virada política de Cortázar. amor e também. Para abordar o mundo sugerido por seus textos. do mesmo modo que no século XVI.Leia a seguir a cronologia de Cortázar extraída do site www. a literatura é risco. igualmente. entre renunciar a uma escassa segurança de uma ordem que ia se despedaçando e atravessar uma ponte ou uma galeria ou um oceano (ou apenas sair/ se do porto) para acariciar outro perfume. que abandona depois de um ano. entra-se pela fissura. a força necessária para opor-se à violência. De forma apertada e muito próxima (como possivelmente corresponda enunciá-lo). E esclareço que não falo de opções vitais nem de integração à cultura francesa. com Cortázar mudamos de geografia. as ditaduras do Cone Sul e a Nicarágua de Somoza foram surpreendentes. como olhar os outros e reconhecer-se na prática solidária que oferece proximidade. Hoje. Para Cortázar. trata-se de conjugar o corpo como lugar de encontro. cuidar da língua era recriá-la. Adotou. claro. Por outro lado. em Cortázar. amizade. com “El perseguidor”. sim. a defesa dos direitos humanos que o levaria a participar no Tribunal Russel sobre o Chile. também acharemos o descobrimento da gozosa cartografia do desejo. Para Cortázar e para aqueles que aceitam ser seus cúmplices. mas também às que se querem suas filiais). de outorgar-lhe um pródigo tempo e espaço sobre-a-terra diante do .com. ritmo de rua e de sentidos. a asiáticos que compreendem sua própria cultura e. Cruzaremos ocasionalmente quintais portenhos. a intervir nas multíplices mesasredondas geradas pelo clima desses anos e a escrever uma série de textos posteriormente publicados em vários livros sobre a Argentina e a Nicarágua. para aceitar suas próprias origens. onde o alternativo ainda era o prédio do multíplice e do simultâneo.ar. esse outro instrumento para possuir e definir a realidade. culturas e letras. assim. onde aguarda o fim da Primeira Guerra Mundial. ouvir a música das esferas. mas da hipocrisia de rebeldes de sala de aula que. regozijo e sóbria precisão. apelam a prestigiados índios da Índia. Se. a generosa sabedoria de uma identidade que se reconhece nos caminhos compartilhados. é enfrentamento e procura. a partir da cultura. ao reconhecimento de um público que saboreia outros sons ou – o que acaba sendo mais mesquinho. foi notória a mudança de perspectiva e ênfase nos ensaios que escrevera nos anos 40 e 50 diante dos publicados a partir dos 60. percebo nesse castelhano mantido nas décadas parisienses uma moral que teria colhido outra epígrafe para Rayuela (O jogo da amarelinha) – à la César Bruto. editado por Bruno Szister. como fez magistralmente Héctor Bianciotti.juliocortazar. caberia esperar que a qualquer momento se pudesse oscilar entre a queda e o impulso em direção a outro salto. A semente de suas preocupações e a ética que erigiu sua obra acham-se ainda em seus contos fantásticos de juventude. 1918 Retorno à Argentina (Buenos Aires).outubro/2000 lado não-doutrinário da simpatia a favor do socialismo. Instalados em sua dimensão. seguem confundindo a cartografia de etnias. nem seu interesse pelos direitos humanos nem sua dedicação para enfrentar. 1916 A família Cortázar se instala na Suíça. 1928 Inicia seus estudos na Escola Normal de Professores Mariano Acosta.

Talvez também porque nos ensinaram que nem todas as viagens são a viagem. somou-se – como parte do clima. partidos e fórmulas. Pela dinâmica e pelo espírito das jornadas que acompanharam sua publicação. Obtém uma bolsa do governo francês e viaja a Paris. portanto. que a sua não era uma metáfora atualizada do intelectual à procura das musas européias para regressar iluminado para suas terras. 1962 Publica Histórias de Cronópios e de Famas. com o pseudônimo Julio Denis. em que o minimalista não era o oposto ao épico e em que a história não era desvelar os namoricos de caudilhos decimonônicos.C R O N O L O G I A 1938 Publica sua primeira coleção de poemas. o fato é que foram dias de experimentação e de ruptura (também no literário) e que. nas promessas dos 80 e a uma compreensão mais lúcida dessas épocas. despreocupadamente. a partir da intimidade do gozo. aceitemos que para nossos dias a importância de Rayuela é suficiente para marcar um antes e um depois na literatura latino-americana. tenha-se vivido dias menos egoístas por sentir que a palavra e aqueles que a enunciavam eram responsáveis por algo mais além do que seu lugar em uma página diária e o comentário dos suplementos. foram reconhecidos como transformadores da história. repressor corpo-para-terra. Bestiário. esquecendo o valor de tal companhia –. escrito a quatro mãos com Carol Dunlop. 1973 O livro de Manuel ganha em Paris o Prêmio Médicis. essas carregam uma carga erótica e múltipla. 1983 Aparece o livro Los autonautas de la cosmopista. La otra orilla. Julio Cortázar morre de leucemia e é enterrado no cemitério de Montparnasse. que é na pele mais profunda que se inicia o que chegará a ser (ou não) a liberação de todas as forças e de todo sistema. 1951 Lança seu primeiro livro de contos. Não é casual a conjunção que define os anos 60 em que. nós o vemos a partir deste final de século não só como companheiro de rota – assim o tacharam alguns a partir de suas próprias distâncias. enriquecida por outras culturas e outras visões. como no caso de Cortázar. na revista Los Ananes de Buenos Aires. Já que não nos é dada a profecia e. deslocação. própria de toda liberação. 1984 Em 12 de fevereiro. em particular violações a direitos humanos. 1974 Publica Octaedro. “Historizando”. mas sem que fosse possível sua integração – a tríade sexo-rock-droga. rendidos a ordens. pouquíssimos anos depois de terem ocorrido. com certa nostalgia. outubro/2000 . assim como depois respondeu à ferocidade dos 70 para aportar. morre sua companheira. mesmo em instâncias em que tantos outros. Talvez nessa ênfase que Cortázar adjudicou a eros e ao jogo (ao jogo/ fogo de eros) também se encontre a origem da independência à qual jamais renunciou. essa foi propícia para dialogar com outras vozes e outras culturas – e mais ainda: para ouvir a própria voz – para que. Como toda saída ao mundo. 1945 Reúne um primeiro volume de contos. mas como forjador (o termo não é excessivo) das letras que interpretam nossos compartilhados tempos. voltasse a enunciar novos matizes e soma do próprio. desse eu-você. Talvez. Sem sentimentalismo nem cega exaltação de uma época. Os clássicos não são somente os livros nos quais um povo lê e interpreta seus desígnios (matizando a versão de Borges). Carol Dunlop. os leitores. tivéssemos achado vozes e interlocutores que soubessem abrir a porta para ir jogar e para antecipar que outras ordens jaziam atrás da “gran des/orden”. da harmonia. diríamos que Cortázar foi um homem dos anos 60 que aceitou sua incipiente versão dos 40 e 50. O massivo pode ser irredutível quando se trata de movimentos de liberação política. integra um núcleo seleto de romances que. quando se situam em outro cenário. Historizando. então. dirigida por Jorge Luis Borges. substituição – modos substantivos para designar as esperançadas escaramuças de alguns cônegos de claustro. 1982 Em novembro. 1944 Publica seu primeiro conto. 1953 Casa-se com Aurora Bernárdez. cabe recordar dias em que a ênfase na primeira pessoa do best seller de um quilômetro quadrado de metrópole não merecia o interesse de todos os leitores. Presencia. do eu-você. a partir dali. Além da dimensão justiceira das verdadeiras revoluções e das lutas que reivindicam os direitos humanos. Publica Nicarágua tão violentamente doce. talvez porque a promessa de outras alternativas estivesse na rua ou porque nós. Sempre foi possível narrar o universo falando da aldeia. reunido em Roma para examinar a situação política na América Latina. não o é menos o recorte do desenho mais demarcado dos corpos. 1981 Obtém nacionalidade francesa. trata-se de aceitar. o produto de exílios. exigiam dele a partir das bases do compromisso. em tantos outros – anunciava um modo mais abrangente e generoso de ver o mundo. 1972 Edita Prosa do observatório. aguarda sua superação. E. Começa a trabalhar como escritor na Unesco. na revista Correo Literario. "Bruja". mas também os que na mais humana cotidianidade da história literária são compreendidos como divisores de águas. 1963 Lançamento de sua obra mais conhecida.C u l t 23 . mas foi igualmente necessário sair da aldeia para conhecer seu lugar no mundo e a partir dali iniciar o conhecimento das origens e de seus possíveis futuros. ignoramos como se lerá ao completar-se o centenário de sua publicação. Essa ronda – voluntária. 1946 Publica o conto "Casa tomada". à reivindicação política. O jogo da amarelinha. Rayuela não está sozinho (o solitário jogo individual ainda se goza mais quando vem acompanhado). Participa do Tribunal Russell II.

e sim a essa sensação mais profunda de fraude que está na busca de Johnny Carter. pela música – do jazz e do clássico ao tango e a seu memorável Trottoirs de Buenos Aires14 – tudo aquilo que fazia a seus outros segmentos de vida. até o que merece. por gestos como a doação dos direitos autorais às famílias de presos políticos. é por isso que. “espiritual” fixam limites em seu próprio enquadramento e. acredito. sem colocar em jogo algo mais que o exercício da crítica. e praticaram. Não penso em “estados de alma”. certamente. Se no princípio foi uma percepção ontológica que ecoou em suas já citadas reflexões sobre o existencialismo e o surrealismo. tudo tem nome e. no entanto. precisamente. de uma relação que. Não me refiro.outubro/2000 isso também lhes incumbe e subjaze a certos enunciados na obra de Cortázar –. por exemplo. de Horacio Oliveira e daqueles que redigem O livro para Manuel inserindo a documentação jornalística na vontade literária. e até obrigatórios. pela variante plástica da felicidade que conheceu Julio Silva13. tampouco um gesto anárquico ou de repúdio gratuito. através de já incipientes epígrafes como as que regem Rayuela. E isso sem abandonar seu conhecido interesse pelos jogos. na interpretação do exílio como estratégia para recuperar valores e aprender a ser menos insular ao enfrentar o legado de nossas compartilhadas ditaduras. a isso se somou posteriormente o reconhecimento da história que estava se desenvolvendo na América Latina. Do outro lado do afã classificatório. Penso nesse latino-americanismo solidário com o qual Cortázar e outros intelectuais de seus tempos europeus apostaram. Provém. pessoa e textos. Nesse caso me permito acreditar que nem sempre é. especialmente os jogos.Termos definidores como “fantástico”. portanto. no político. Tudo e. Há. além disso. como tantas vezes nos recordou Cortázar. uma constante no impulso por sair do normativo. articula conhecimento e poder. num sentido de justiça globalizada. “realista”. assim e que o juízo de valor e a encenação do desejo e do corpo também têm (devem ter) seu lugar no sistema. o compromisso e a paixão são relegados pela disciplina acadêmica. às fórmulas de organismos preocupados pela iniquidade e a marginalização – embora 24 Cult . vários qüinqüênios antes que o juiz espanhol Baltazar Garzón devolvesse a esperança de que serão submetidos a ela . de Persio e de Medrano. Ambas instâncias. aqueles que fixam o romance histórico. para quem as reconhece. os seguidores da classificação de Todorov em torno da literatura fantástica e. para citar somente os personagens mais notórios. nem deve ser. sob o domínio de uma ética participativa e comprometida com o trânsito do homem pela terra e pela história. essas mesmas incitam a seu abandono e transformação quando mais não seja para estabelecer outras versões desses mesmos modos de viver e gozar e entender e voltar sobre a vida. mais recentemente. quando. ocasionalmente. além disso. antecipou alguns dos recortes de imprensa hoje multiplicados ciberneticamente. responde a regras. sonhos. mas sim no que suscita a reflexão sobre uma figura que marcou nossos tempos e que. acusam sua própria insuficiência para dar conta de tudo aquilo que excede os fichários – em sua época o descobriram. No mais explicitamente literário manifestou-se. nas esgotantes jornadas de solidariedade que manteve até seus últimos dias.15 Tenho consciência da dificuldade que encontro em escrever sobre Cortázar. “material”. cuja meta é. Não é uma simples reação contra o certificado de boa conduta e as convenções. ainda que tacitamente. definir uma medida de comodidade didática. enquanto também relia Rodolfo Walsh e Felisberto como chave de sobrevivência e de simpatia e escrevia contos. saber e desenvolvimento humano. O distanciamento e o sentido de estranheza podem ser produtivos. com presumida objetividade. poemas.

em Obras completas. Nueva Imagem. publicado inicialmente em Casa de las Américas. com aquilo que unifica através das diferenças e do culto à diversidade e à heterogeneidade cultural. 4 Para uma bibliografia completa de suas primeiras publicações. Rayuela. mas cada palavra foi escolhida. Alfaguara. Cambridge University Press. outubro/2000 . porque nessas cartas veremos o que. dentre outros e. Nossos nadas pouco diferem. Suspeito. ao completar-se 10 anos da morte de Cortázar. "La literatura latinoamericana a la luz de la historia contemporánea" e "Nuevo elogio de la locura". 1983. traduzidos e anotados por Cortázar e com um detido estudo preliminar (pp. necessário ser argentino para exercer a justiça por crimes contra a humanidade. Jaime Alazraki prefacia os ensaios prévios à publicação de Rayuela (1963). ocupa o primeiro tomo. em que nada é inevitável. Borges lembra ter editado "Casa tomada" e acrescenta: "O estilo não parece cuidado. 1978.68-72. Sudamericana. 2 "Las babas del diablo". Fervor de Buenos Aires. pp. bolivianos ou paraguaios. Em 1995 (Buenos Aires. Buenos Aires. Também. muito especialmente. Penso no repúdio ao nacionalismo literário vulgar com que se impugnou o que não deixava de ser insultante para os setores menos ilustrados nas tradições culturais metropolitanas. como o demonstram seus estudos de Keats e de Poe. New York. seu redator. cf. 3 A seqüência de referências corresponde a Historias de Cronopios y de Famas. Madri. pp. Saúl Sosnowski professor da Universidade de Maryland. bem como o número de homenagem de La Maga. pp. nem de nação. 1962. Sudamericana. que incluem. pp.8-13. "El intelectual y la política en Hispanoamérica". 1966. México. 9 Fantomas contra los vampiros multinacionales. 55-6. escrito em 1947. pp. pp. Buenos Aires. Julio Cortázar: al calor de tu sombra. 1974. pp. 273-74. Talvez por isso Cortázar tenha apostado tanto na infância e nos jogos. Excelsior. Buenos Aires. 14 Tangos de Edgardo Cantón e Cortázar. 51-69 e 99-118. nem é. 1984. 1963. Alfaguara. verificamos que algo precioso se perdeu". p. como o confirmou sua parisiense vida latino-americana (e claro. 5 Um notável exemplo dessas reações no número que lhe dedicou Casa de las Americas pouco depois de sua morte. um compromisso maior com o ser humano. Talvez porque. "América Latina: exilio y literatura". Alfaguara. 1988. meu Julio Cortázar: una búsqueda mítica. Artaud. Buenos Aires. Victoria Ocampo e os freqüentemente citados "Notas sobre la novela contemporánea". o livro de Saúl Yurkievich. de Roberto Arlt.79-89. 10 Em "Algunos aspectos del cuento". a Universidade de Porto Rico. em Obras completas. em outro sentido. Notas para una ubicación del surrealismo y el existencialismo. a meu cargo. é notória a densidade política de suas preocupações através das páginas de "Situación del intelectual latinoamericano". Espasa-Calpe). ed." "A quien leyere". Sudamericana. fundamentalmente. Não há nessa atitude repúdio de lar. Las armas secretas. A edição popular publicada em Buenos Aires por GenteSur incorpora a "Carta abierta de Julio Cortázar a Pablo Neruda" e "Historia del águila imperial". 1984. que cita minha entrevista com ele publicada em Hispamérica. nem na escritura compartilhada. como também o soube o autor de “El jardin de los senderos que se bifurcan”.67-86. edição fac-similar aos cuidados de Aurora Bernárdez. com a debilidade de sua existência e com a promessa de seus logros. textos sobre Rimbaud. 3-14). 1973. Alfaguara. 1979. na clave da origem. Cortázar sempre escreveu. "Apocalipsis de Solentiname". Deshoras. Hermes. Buenos Aires. 1975). Imagen de John Keats foi publicado por Alfaguara.C u l t 25 . Paris. Ninguém pode contar o argumento de um texto de Cortázar. Katún. nem de fidelidade a línguas e culturas de fundação. ou as traduções de André Gide e Marguerite Yourcenar. 7 Discusión. El libro de los sueños.N 1 O T A S aqueles que a violaram impunemente durante o exercício do terror de estado. Madrid. México. como tampouco foi. para mais que isso. No terceiro tomo. Negro el diez. com seleção e prólogo de Mario Benedetti. o leitor me perdoe a descortesia de eu tê-lo usurpado. foram compilados por Saúl Yurkievich e publicados em Barcelona e Buenos Aires por Muchnik. graças à sua leitura. argentina) sempre ávida de universo e de calor humano. New Readings. no entanto. 1986) e Divertimiento (Buenos Aires. Minotauro. A anunciada publicação de sua correspondência certamente será motivo de curiosidade e interesse. 77-98. "Casa tomada". 272. pp. há.10. Penso naqueles que não precisaram ser brasileiros. Buenos Aires. Marechal. 8 id. que sua leitura tornará mais difícil dissociar texto e textura. previamente. de Julio Silva e Julio Cortázar (México. pp. Sudamericana. México. Bestiario. pp. 1997. "Satarsa" e "Pesadillas". publicou em 2 tomos Obras en prosa de Edgar Allan Poe. em 1996. é trivial e fortuita a circunstância de que seja você o leitor destes exercícios e eu. pp. Talvez porque ele próprio foi um nexo entre culturas. em momentos em que tudo é possível. sim. Buenos Aires. Biblioteca personal: Prólogos. "Continuidad de los parques" em Final de juego. em Territorios. Madri. a obra de Cortázar continua crescendo com a edição de livros que permaneceram inéditos.ibidem. Ediçiones Culturales. "Reunión".15. 15-16 (1962-1963. p. Se tentamos resumi-lo. 1964. "Una utopía realizable narrada por Julio Cortázar" (México. Siglo XXI. Alianza. 1951. Buenos Aires. cada texto consta de determinadas palavras numa determinada ordem. 9-11.. Julio Cortázar. 1977. Keats. da editora Iluminuras "Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz. de Sergio Ramírez. o romance El examen (Buenos Aires.16 só para citar dois autores que o ocuparam durante anos. uruguaios. 11 Nicaragua tan violentamente dulce e Argentina: años de alambradas culturales. Alfaguara. já sabíamos há muito tempo. "Para una poética" e "Algunos aspectos del cuento". V. Paz. Buenos Aires. em 1974-1975. cantados por Juan Cedrón e gravados em Paris em 1980. Noé. o Tribunal Russel II para investigar a situação imperante nesses países. Jorge Luis Borges. Un tal Lucas. 1994. 1975) e à inserção de "Un julio habla del outro". dentre outros. 13 (1976). 1959. para constituir. No segundo tomo. Emecé. 1974. Madri. publicou-se Veredas de Buenos Aires y otros poemas. Última (por hoje) compartilhada alusão: do mesmo modo que com Borges. Final de juego. 15 Salvo el crepúsculo. e Cuaderno de Zihuatanejo. 1984). p. Todos los fuegos el fuego. do leitor cúmplice numa aventura que nem começa nem acaba numa jornada de cosmopista. incorpora as declarações do Tribunal Russel II. Sudamericana. 12 A edição dos 3 tomos de sua Obra crítica (Buenos Aires. Buenos Aires. organizado por Saúl Yurkievich. Alonso. College Park (EUA). Cada um deles17 aponta para uma procura constante de limites literários e. 17 Os exercícios teatrais Nada a Pehuajó e Adiós a Robinson (México. e já desde o título. 1987. 1996). 1994) torna-a ainda mais evidente: Teoría del túnel. 6 No prólogo aos Cuentos de Cortázar. XI-XCVII). 1998. Emecé. Cortázar foi algo pouco freqüente na história das letras americanas: necessário. Outro tipo de leitura – que em alguns casos informa mais sobre o modo de ler da academia estadunidense do que sobre o estudado – em Carlos J. Sudamericana. Buenos Aires. chilenos. "No se culpe a nadie". junto a leituras de Arlt e Felisberto. Alguien que anda por ahí. organizador do terceiro volume da Obra crítica de Julio Cortázar tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro tradutora de Os sete loucos & Os lança-chamas e de Viagem terrível. Legassa. 5 (novembro 1994). 13 Refiro-me a Sivalandia.9-18. 16 Em 1956.

A r t E COMEÇA ESTE MÊS EM BELO HORIZONTE A PANORÂMICA DO ARTISTA PLÁSTICO ALEX FLEMMING. POLTRONAS.outubro/2000 . COM OBRAS QUE UTILIZAM SUPORTES COMO SOFÁS. ROUPAS E FOTOGRAFIAS PARA ESTABELECER UMA LINGUAGEM EM QUE A PALAVRA DESEMPENHA UM PAPEL A ROUPA da palavra FUNDAMENTAL tereza de arruda 26 Cult .

Em seu dia-a-dia Alex Flemming percorre cidades como São Paulo. Sem título (1998). Ao refletir sobre os valores fundamentais que acompanham todo ser humano em sua trajetória. roupas e até fotografias. Zorn. a bem-sucedida integração entre arte e arquitetura na Estação Sumaré do Metrô de São Paulo. sofás e poltronas. A vasta obra de Flemming se classifica como pintura e ao observar sua produção salta aos olhos a versatilidade do suporte utilizado: animais empalhados. como calças. Sua bagagem é sempre espartana. 31/227-6494 No alto. acompanhada de idéias e impressões assimiladas mundo afora. Mistificação. A tinta utilizada deu ainda mais corpo aos objetos. . substituem marcas famosas e falam dos sentimentos humanos: Abandono. incorporadas como uma segunda pele. o artista plástico Alex Flemming tem conseguido realizar esse feito. Na página oposta. Os textos escolhidos variam de Mário de Andrade a Shakespeare. Nos últimos dez anos o artista brasileiro residente em Berlim tem utilizado letras pintadas sobre os mais diversos materiais. passando por uma rica opção que começa na Bíblia e pode terminar em manchetes de notícias de jornal. Vulgaridade (1999). Estas peças autobiográficas foram extraídas de um convívio intenso. Esta desenvoltura global o leva a preservar e ressaltar pequenos detalhes da vida que remetem ao microcosmo subjetivo e vêm a se transformar em instrumentos de sua linguagem artística. laranja e amarelo. como as cuecas. sendo a fragilidade humana posta em confronto direto com a perversão da tecnologia do mecanismo de guerra. O texto utilizado nesse caso são citações da Bíblia que relatam cenas de barbárie ou massacre. Os materiais e suportes por ele utilizados excedem sua função original e são integralmente abstraídos e acoplados a um novo contexto. Olavo Bilac. Torquato Neto ou Haroldo de Campos ao cristalizar seus poemas sobre lâminas de vidro onde também estão retratados 44 rostos de pessoas anônimas como a recitar poesia umas às outras. que se tornaram rígidos como armaduras. Harmonia ou Cruelty. Flemming ressaltou a importância de autores brasileiros como Gregório de Mattos. O vestuário sintetiza todo o Ser. Tereza de Arruda curadora e crítica de arte. dentre tantas outras. México (1997). Ao lado. Havana. Istambul. No centro. partindo da mais profunda intimidade. certamente como uma denúncia à predestinação do ser humano à violência. Berlim. Schuld (1993). De uma maneira totalmente conceitual.Veneza. Belo Horizonte. atualmente mora em Berlim. o artista percebeu que o maior cúmplice de uma pessoa são suas próprias roupas. Todo esse material é reproduzido sobre PVC em cores fortes. até a formalidade das gravatas. 885 Belo Horizonte – MG tel. em Belo Horizonte. atingindo a superfície externa. Lisboa. Sua postura nômade é uma herança de infância e integrada ao seu cotidiano. camisas e paletós. onde estudou história da arte PANORÂMICA DE ALEX FLEMMING Galeria Celma Albuquerque 24 de outubro a 18 de novembro 2ª a 6ª feira – das 9h30 às 19h sábado – das 9h30 às 13h R. Rio de Janeiro e Porto. recebendo uma segunda pele de cores marcantes como roxo. reflexo do aprendizado do cotidiano. Antonio de Albuquerque.P Poucas vezes na história da arte conseguiu-se combinar de maneira feliz a pintura com a literatura. Nova York. Palavras soltas. Toda essa rica produção artística dos últimos dez anos pode ser vista em uma única mostra que acontece a partir de outubro na Galeria Celma Albuquerque. Detalhes fotográficos de corpos perfeitos levam como tatuagem impressões de mapas de regiões em guerra extraídas de jornais. O ser humano e toda sua fragilidade são um dos motivos freqüentes da obra de Flemming como em sua mais recente série de pinturas sobre fotografias de Bodybuilders. O exemplo mais conhecido para os brasileiros está em uma das maiores obras públicas realizada nos últimos anos. Schuld.

(Tornado provoca destruição na Unicamp. O Estado de S. Está vivo em pelo menos uma expressão corrente. “das duas notícias. o tempo de “noi abbiamo fatto” é chamado de “passato prossimo”. as duas notícias transcritas a seguir têm em comum o fato de se referirem a catástrofes provocadas pelo mau tempo. “noi facemmo” é o “passato remoto”.”). Ele levantou e retorceu a estrutura do telhado.. por exemplo.)”. porém. que começasse por “Tem havido no Mar Negro. as expressões que situam os fatos relatados no passado”. também de aço.outubro/2000 pede algo a que. “Elle a fait”. é vivo em outras línguas neolatinas e no inglês. Quando se diz “Tenho estudado muito”. de 100 metros de extensão e 200 toneladas (. “Yo he preguntado”. ocorrem com freqüência. bastava ao aluno ler com atenção e levar em conta elementos fundamentais da primeira notícia (o singular em “grande tempestade”. a expressão “até agora” e os 80 cadáveres). Como sempre.. mais propriamente no segundo período (“. idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa. O Estado de S. que. Até a próxima. na verdade. já que com elas se expressam fatos que se repetem.. Esse valor. O melhor de tudo está por vir. “Eu perguntei”. Como se viu. “lançou”.. mas os recursos gramaticais empregados para expressar passado recente diferem de uma notícia para a outra. (Há um século. já que em outro item lhe determina a redação de uma continuação para uma notícia escrita hoje. a locução tem valor perfectivo. ou seja. nas locuções formadas pelo equivalente de “haver” e por um particípio.. Paulo . indicavam ações completamente concluídas. as duas se referiam a acontecimentos recentes. “atirou”). que estão sendo recolhidos.) 29/11/1995: Campinas – Um tornado com ventos de 180 quilômetros por hora destruiu anteontem a cobertura do ginásio multidisciplinar da Universidade Estadual de Campinas (.. No momento de sua publicação. autor da coluna Ao Pé da Letra. “ter desrespeitado” se transforma em “desrespeitou” no desdobramento da oração reduzida (“Ele foi multado porque desrespeitou a sinalização”). Parece evidente. Pasquale Cipro Neto professor do Sistema Anglo de Ensino. já respondeu no início. se o verbo “ter” fica no infinitivo.as duas se referiam a acontecimentos recentes. Paulo. com a qual se encerra peremptoriamente um arrazoado verbal: “Tenho dito”. que estão exatamente na discussão da mudança que sofre o aspecto da locução verbal formada pelo presente do verbo “ter” e por um particípio. e “Noi abbiamo fatto”. diz-se que o ato de estudar é freqüente hoje e nos últimos tempos. Nas quebradas. ao que hoje se expressa por “Eu vi”.. Nada disso. A própria questão pede ao candidato que demonstre essa percepção.) O tornado rompeu presilhas de aço de uma polegada de espessura. locuções como “tem havido” têm características iterativas (ou freqüentativas).. é formada por dois verbos conjugados no pretérito perfeito. Paulo. “I have seen”. ou seja.”. naufragando grande número de embarcações. Em “Ele foi multado por ter desrespeitado a sinalização”. tira da questão o brilho e a pertinência. consultor e colunista da Folha de S. do francês. pois. que na notícia “velha” o passado recente é expresso por “tem havido” (que hoje equivaleria a “houve”) e “tem arrojado” (equivalente a “arrojou”. Ambigüidade à parte (teria sido melhor escrever “que situam no passado os fatos relatados”). No português de hoje. do inglês (que o pessoal que traduz filmes adora trocar por “Tenho visto”). há um século as locuções “tem havido” e “tem arrojado” (que podiam ser formadas com o verbo “haver” no lugar de “ter”) tinham caráter perfectivo.) Dez árvores foram arrancadas com a raiz e os ventos arremessaram longe vidros da Biblioteca Central.. É de notar que. como se vê. “Ela fez” e “Nós fizemos”. essa locução se transforma em “Falei e disse!”. Em italiano. O valor perfectivo da locução formada por “ter” no presente do indicativo e um particípio não morreu de todo. do italiano. a Unicamp formulou a seguinte questão: “Publicadas à exata distância de um século pelo jornal O Estado de São Paulo. equivalem. do Diário do Grande ABC e de O Globo. A questão pedia ao candidato que transcrevesse.N a p o n t a d a l í Laura Cardoso Pereira n g u A Tenho dito! Pasquale Cipro Neto Num de seus vestibulares. “arremessou”. por sinal. do espanhol. Um forte abraço. Até agora o mar tem arrojado à praia mais de 80 cadáveres. o enunciado 28 Cult . 29/11/1895: Constantinopla – Tem havido no Mar Negro grande tempestade.. respectivamente. da TV Cultura.

do escritor Marcelo Mirisola Gaveta d Guardados e Doze poemas inéditos da escritora Vera Albers R a d a r da P o e s i a Memória prévia.C u l t 29 . explora a “vertigem do tempo duplo” C r i a ç ã o Conto Leia Incidências. de Chantal Castelli.RADAR c u l t Í N D I C E 30 32 34 36 N o v e l a C U L T Leia a primeira parte da novela Acaju. texto inédito do escritor Ricardo Miyake outubro/2000 .

Se não fosse verdade. de Marcelo Mirisola. Além disso..) ? Também uma filha que não existe/ acima do mal – o que exige paciência. toda claustrofóbica manhã... Mirisola é autor dos livros Fátima fez os pés para mostrar na choperia (editora Estação Liberdade) e do recém-lançado O herói devolvido (Editora 34). discreta e vampira. Um dos mais talentosos e virulentos escritores da nova literatura brasileira. que o “Radar CULT” começa a publicar com exclusividade a partir desta edição. sempre – apesar de tudo. iluminação e o caralho. Umas coxas deliciosas. mordia e deixava marcas – orientada por mim. creio. Ela se ocupava de mosaicos e cerâmicas. Ana Gravílovna morreu. soprava uma porra de “flauta sáfica” (invisível.outubro/2000 Novela C U L T . “ração pros gatos”. 30 Cult . trazia flores da rua. uma salamandra tatuada logo acima do púbis. O problema é que a escrota transformou-se em mulher perfeita. além de homossexual a porra da flauta) e me chamava de doutor sabugo. Às vezes eu Leia a seguir a primeira parte da novela inédita Acaju (A gênese do ferro quente). tampouco. Trepo putas feito um santo. adaptado às lides dos fregueses – e junto com um negócio que ela chamava de “alma” – alçava vôos ou funcionava mesmo como uma extensão obscena e profissional da própria língua. puxava seu fuminho e me pedia. eu a pediria em casamento e viveríamos felizes para sempre.. aprendeu o fundamental: abandoná-las nos lugares certos. Da minha parte. O NOME DELE É GATO. aprendeu a manchar guimbas com batom e. Louis Althusser TENHO UM GATO. Eu não controlava essas coisas – nem ela. O comprimento dos cabelos dela é que eram negros. O corpo. Especialista que era em mamilos. Ana g. uma boa dose de cara-de-pau – e revolta. E uma oração: “O Pai Nosso”. Quando não estava fora do corpo. A gente trepava menos no inverno. sempre com um olhar demente e lacrimoso. sei que é uma estrangulada . Ensinou-me a gostar de violetas. resgatando em clave contemporânea a tradição das narrativas folhetinescas. (. sem perceber. Outras coisas.QUENTE) ACAJU (A GÊNESE DO FERRO QUENTE) A PRIMEIRA PARTE Alvaro Motta/Agência Estado no entanto.

Isso aconteceu antes de ela tomar gosto pelas matérias de sangue. incapacidade de pegar na mão e encantamento. que atendia pela alcunha de dona Alzira g.ACAJU (A GÊNESE DO FERRO QUENTE) ACAJU (A MARCELO MIRISOLA compartilhava dessas bobagens por desaforo. vermífugos. Ana g. dona Alzira g.. fodia em qualquer posição – e. e cortava os assuntos pela metade. 3) As flores de Ana g. Então ela caía de boca. por causa do tempo suicidado nas dependências do “Parque Eletrônico Futurama”. outubro/2000 . Uma tipa sórdida – depois é que eu fui descobrir – metida em contrabandos banais. 1) Chás de Capim-Canudinho (e um cocar Carijó). a dela. xampus etc. uma mulher perfeitamente tesuda. incluído aí o céu da boca. Ana g. mamilos. preso – apesar das flores trazidas da rua. O que. o básico do asseio e higiene pessoal. Ana g. ensejou nosso azar foram os dentes encavalados – um anão empoleirado. aprendeu a engolir porra com a mãe. o efeito dessa merda é diabólico – então. chacras de puta que pariu. Às vezes eu cedia mesmo. no entretanto. baby”. Sei lá. Outra complicação foi negociar contraceptivos e absorventes íntimos em troca dos malditos incensos. tal filha. A mãe.. Quem é que me beijou em 1978? – quer casar comigo? – de modo que não me lembro se foi sonho ou se recebi flores de uma mulher. Os irmãos e o pai gente neurótica. I love you baby: impecavelmente babaca e sentimental. e aliás. Até que um dia ela não quis dar o cu pra mim. nem fudendo. Além disso. Ou foi por causa dele que não fiz a letra. mulheres e um lobisomem colombiano. As unhas e o queixinho duplo é que injetaram gasolina. apaixonado e de frente para o mar. Eu disse que não. mandei tudo pros infernos. 2) Eu feliz da vida. cobrava vinte reais pelo sexo oral: engolia o esperma. às vezes por causa das paixões a que inopinadamente me submeti (o dever de cavar buracos. de resto. Tive que gastar um dinheirão com bactericidas. A mãe dela. inveja e distância deliberada. depilação e dentista. gastava meu dinheiro em antiquários suspeitos e estrias lhe subiam o púbis. fez um filho esquisito com um japonês e “transou” – ela é quem insistia “transei isso. pirataria de cigarros via Paraguay.. quase sempre. Uma vez ela me deu um cocar Carijó de presente: – Vai vestir maravilhosamente bem em você. foi presa em Uruguaiana. Mas eu não fui.C u l t 31 . Bem. Outra coisa. nem fudendo. Um chá de capimcanudinho que era especialidade dela – e mamilos. livros de Glorinha Kalil. Uma língua viscosa e pequena (antes de ela se profissionalizar. Acho que faltou um siri. Eu impus uma condição: “nada de visitas. o lugar mágico (na divisa entre Santos e São Vicente) e sobretudo responsável por minha transformação – junto às manhãs claustrofóbicas e sobre as quais trabalharam “a manga dos eixos” – neste tipo entristecido. Uma coisa pela outra. Ou as bichogrilices e “transas” de Ana g. em primeiro lugar) e. Ou seja. desconfio. O vaivém obrigatoriamente ficava por conta dela. não queria saber de sabonete. desinteressante e devedora crônica de IPTU. Tal mãe. transei aquilo” – homens. como o dentista pôde comprovar e enlouquecer. eu discorria sobre orquídeas. minha hippie particular. em vertiginoso leque: – Baby. evidentemente). gnomos e defumadores. Quando sugeri uma fonoaudióloga ela não aceitou. Uma conversa meio burra. e 4) Uma letra de música que não fiz.

ALERIA PESSOAL PEQUENA GALERIA PESSOAL PE A J. AO SOL Sinto-te no calor do solo Na cor da lagartixa No cheiro do alecrim No denso exalar do estrume Na cíclica mudança E relume. É o amor do anelídeo pela terra Onde se alonga e se encerra À espreita de organismos que o preencham. Cento e onze vilões Jazem. em minha mente. sobre fundo azul. É o amor da placenta pelo feto Que num arranque supremo Abre as portas da vida Secando-se. E os cento e onze homens que jazem despidos Do que viveram? E do que vivem os homens que os abateram? A O. substância. até mesmo o graal que paira soberano sobre nosso fato prescindindo do agente. Gaveta d Guardados e 32 Cult . mas ao menos sei Que não há acaso possível. A. E o manto sibilando ao vento bate Dourado. MANDELSTAM Só há um amor infindável: o que a natureza [engendra No âmago das criaturas. Terão sido crianças Terão tido mães ou vindo Do ventre de cães? Mas os cães que agora farejam odores Vivem do instinto que os fez ameaçadores. CARANDIRU Cento e onze caixões Por onde se entrevê a tarja De um novo cache-sex. RIMBAUD E vivo a ficção que eu mesma engendrei Da qual sou cativa. provavelmente Negro e escarlate. eliminando o ato. Dispo então o langor da preguiça terrena E abro-me ao estupor de uma nova novena Da aranha tecendo: a sua tela brilhando Independentemente do querer ou do mando. Tudo é virtual: aparência. É o amor da seiva da calêndula Pela raiz dicotiledônica Que nutre cada dobradura De seu ser. sem que se saiba a causa De sua ex-vida. É o que une a parideira ao parido Num agudo gemido Irreprimível.outubro/2000 . HERÁLDICA O touro.

segues-me. Viverei na memória dos que fiz? À VIDA Virás ensolarada pela estrada das pedras. HAI KAI O ruído O escuro O ruído do escuro Antes que o palco rejeite o último ato Antes que a dor me desfaça Tome-me. URGE CONSTRUIR É verdade. Titânio se possível Elementos cujo átomo resista Como a palavra escrita. reforçar. cão sabujo. está escrevendo um romance-folhetim outubro/2000 . Vera Albers escritora residente em São Paulo.C u l t 33 . definhada. Urge elevar-se acima E não esquecer: Amarrar. é autora do romance Deformação (editora Perspectiva) e da coletânea de contos Surtos urbanos (Editora 34). atualmente. Não terás O intervalo das coisas Tu que és Um único tempo. Armar palanques E neles colocar pregos de aço.EQUENA GALERIA PESSOAL PEQUENA GALERIA P VERA ALBERS AFORISMAS Sentir-se quite com a morte é nada dever à vida Reprimo-me no azul enquanto o rubro se agiganta VELHICE Os que me fizeram vivem em mim. Tu. Postes hão de pontear os teus passos poeirentos. E caracóis eternos colarão sua baba a teu intento. inteira. fixar as peças soltas Com amianto e tungstênio. À MORTE (após uma leitura de Hilda Hist) Antes que vire trapaça O último jogo Antes que o espelho desleia O último traço Antes que o orgulho desmanche o último pacto Antes que a boca desdenhe o último beijo Antes que o olho renegue o último pranto Antes que vire quebranto o último augúrio NÃO Não temo a infâmia: Saberei. Fundar-me. colar. Arrasto-me no lodo seco E fujo.

não é um “resumo do existido”. que é uma constante nas poéticas da memória. num gesto que recompõe – e dilata – seja a tradição cultural. a poeta espera. Guimarães Rosa. mas o instante imaturo que sequer chegou a existir. no fundo do espelho. ou melhor.outubro/2000 . durée. viagem interior na qual os instantes convivem e confluem. Amorosamente. de Boitempo. longe do staccato de uma simples sucessão. branca e intocável. Em vez de contemplar o acontecido. e tão indissociável da imaginação que “lembrar das coisas que nunca aconteceram” (Mark Twain) às vezes parece ser a única memória possível. O tributo ao modernismo é pago com invenção. A reconstrução do passado é sempre desejosa. cuja herança ela não simplesmente repete. mas as coisas passam R a d a r da P o e s i a 34 Cult . dois olhos / de vidro opaco”. viajando entre cacos e sombras. mas revive. Daí o jogo de sombras e reflexos – a oscilação entre presença e ausência –. a passagem das coisas: “Seu olhar parado é pleno/ das coisas que passam/ antes de passar/ e ressuscitam/ no tempo duplo/ da exumação”.O abismo e sua flor O abismo e sua flor O A POESIA EM MEMÓRIA PRÉVIA SE revela após lento trabalho. Chantal mira o passado como quem olha um espelho. O ritual praticado por Chantal Castelli começa pela paciente leitura dos mestres – Drummond. É com esforço que se deixa vislumbrar./ os tijolos aparentes/ no muro onde dois registros/ – água e luz –/ saltavam. Drummond oferece uma imagem cristalina da memória-consciência enquanto simultaneidade. Mallarmé –. como ensina Vico. que existiu apenas em sua consciência ampliada pela vertigem do “tempo duplo”. seja a pequena memória particular: “Tento recompor/ as paredes de louça. Toda lembrança remete a algo que se perdeu. O que ela busca./ a porta da rua apodrecendo. “o menino pensativo/ junto à água da Penha/ mira o futuro”. É disso que trata o poema “Memória prévia”. ou seja. reproduzido (incorporado) logo na abertura do livro.

Entre a sombra deitada pelo esquecimento e a “substância” dos retratos impossíveis (o “não-tempo” de Guimarães Rosa). que aos 25 anos. como a água exausta “sob a pele de sal”. à “pele do sono”. Chantal Castelli já se encontra em plena viagem. Na contemplação dos retratos. a autora reafirma seu norte: o alvor e a “impalpável fibra” do silêncio. o sertão mitopoético) e de lugares (veredas. – R$ 15. O que existe desde já – e não é pouco – é a consciência do caminho a ser percorrido. “o poema calado. o corpo. A vida em sua plasticidade: o movimento. o retrato inexistente do poema “Revelação” é bem mais fecundo e dinâmico: “Tento decifrar / uma foto que não há: / ao lado da janela meu pai / e eu / e nosso reflexo no vidro / de uma tarde morta”. com sobriedade rara num livro de estréia. 74 págs. “imenso trabalho nos custa a flor”. efêEditora Com-Arte mero. mar. 11/3818-4087 saudade prévia”. o amor. Solitude. certamente haverá mais escolha e depuração: o aprendizado da própria voz supõe a experimentação de peles e estilos. recolhendo “flores mínimas” no passado e no cotidiano. Em sua “mínima nau”. Na expressão de Drummond. Nos próximos livros.C u l t 35 . leituras.. Mas aqui há a compreensão de que só o absoluto (o que não existiu) permanece. Se a memória fosse apenas o que o tempo adensa e distancia. a “flor sem memória” (Orides Fontela) que os poetas desentranham do abismo e da vertigem. Eis o que o lirismo tenta captar. é antes a busca profunda – no mar. A poeta multiplica seus “serviços de amores” por mil objetos: lembranças.abismo e sua flor O abismo e sua flor O a IVAN MARQUES antes de passar./ no papel que/ (mesmo querendo)/ não posso rasgar.” A ênfase no esforço é também uma maneira de dizer o fracasso a que se submete todo escritor. uma constelação de temas (a memória.. em branco” (Mallarmé). Ivan Marques jornalista e doutorando em literatura brasileira na USP outubro/2000 . grotas. o gesto. a poeta vê apenas estase e esquecimento: o rosto triste do anarquista Gino Meneghetti se parece com a melancolia do tigre na jaula – “o olho deita ferrugem / em sinal de derrota”. devaneios. O desejo irrealizado gerou uma foto impossível: memória de uma ausência (“apenas a idéia / viajando na carne”) que comove e ilumina como um retrato do absoluto. seria possível acusá-la do excesso cometido por Raul Pompéia. Ambos estão condenados à pedra. à “plácida estátua de esquecer”. desfiou recordações. movido a ressentimentos. récif. Em compensação. nos abismos – dessa beleza perene e transparente que aos obstinados subitamente se entrega. em Memória prévia pleno viço – que Chantal Castelli portanto é falso.00 São as meditações desse menino triste que percorrem. regatos) criando a impressão de uma poesia dispersa e “sem pátria”. imaturo: “viver é tel. E o esforço de repetir e ressentir não comporta mágoa. étoile. “Tento recompor/ a memória prévia/ o tempo duplo/ a casa em chiaroscuro. a linguagem. os versos de Chantal Castelli. a curva.

numa firmeza que desconheço. sempre foi bom em questões legais. divórcio. os olhos justamente. algumas pessoas em volta. uma morena de cabelos e olhos avermelhados. É claro. Ela de novo: acho que não conheço você. me forço a isso até para evitar contatos com os outros. e sonho beijá-lo de leve. afinal era quase meia-noite.NCIAS INCIDÊNCIAS INCIDÊNCIAS INCIDÊNCIAS INC RICARDO MIYAKE O CORPO NO MEIO DA SALA OPACA. necessário conversar e incerto o caminho das palavras. colabora com o jornal EntreLivros do curso de Editoração da USP e com a Revista A (www. UM corpo estreito no espaço restrito do caixão.. 1998) C r i a ç ã o Conto 36 Cult . mais uma vez. esperando que ela não tenha percebido a sombra que cresce e se desenha em meu rosto. mas aos poucos vejo mais que o perfil reto e escuro do féretro. as demais pessoas pensando o mesmo. Lisa Makino reparando em suas formas. uma vigília longa estava prevista. um corpo que vejo de longe. pelo Vítor.com. e olhos se voltam para mim. publicou. essas coisas. o que era verdade. miro pela última vez o rosto daquela mulher e de seu marido e me despeço. sem esperança. sim. entre madeira e panos.outubro/2000 . procuro quem me salve. visíveis apesar das roupas escuras que usa. e aquela gente toda. os olhos nessa altura já deteriorados pela falta de oxigenação. Livro de coisas (poemas. ou por todos nós. toca meu ombro. alguém que conheci?. por instantes sem saber o que faço nesse lugar. Ricardo Miyake nasceu em São Paulo em 1962. por ela. Quero chorar. sim. um rosto magro e longe. mas: de onde?. E pela primeira vez a encaro. você era amigo do Vítor?. ares cansados e cheiro de flores murchas e velas amolecidas pelo fogo. desconhecendo se isso mesmo. naquela sala estreita cheirando a flores mortas e velas gastas. cursou Letras na USP e leciona teoria literária e literatura brasileira na UniFMU. penso. aproximando-se. soprando esperança em seus ouvidos. o Vítor. E. o morto olhando para o teto. desejando que ela percebesse minha má-vontade e fosse embora. Digo meu nome.. olho de novo aquela pessoa escurecida pela fome. me desculpe.br). mal chegado da notícia e da rua. Um silêncio. e eu digo: ele já fez vários serviços para mim. numa sensação sem rumo de felicidade. só eu comparecera. então caminho devagar. olho para o rosto de Vítor. Você gostou dele? Sim. e não penso. Sou a mulher do Vítor. o que era? Então. era parente?. completo. tentando me lembrar o que me trouxera ali. a noite ganhando contornos frescos sem horizonte visível. respondo. perguntariam e eu diria: de certo modo. devo-lhe muito. sem olhar para minha interlocutora. por que. concordamos. de narinas oclusas e algodão amargo.revistaa. Uma das mulheres. não sei se por mim. protegido pelo vidro. de todos. vejo um rosto pela janela de vidro. mas seguro a convulsão que me sobe. ele. só eu ali. expressa apenas na lágrima que surge no olho esquerdo. acrescenta. já que eu próprio não saberia explicar minha presença junto às flores e às velas murchas. ela retribui. pela Com-Arte.

Outras visões. outras imagens Nilson Moulin Louzada fotos de Luiz Braga O ciclo promovido pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada de Lisboa prossegue este mês com intelectuais das duas margens do Atlântico em torno de uma discussão dos 500 anos de encontros e desencontros entre Brasil e Portugal. contrapondo-se ao “carnaval das caravelas” que caracterizou as comemorações oficiais outubro/2000 .C u l t 37 Portugal-e-Brasil R EDESCOBERTA DO B RASIL .

Piaget e Vigotski (é claro 38 Cult . Igualmente fundamental no processo de ensino-aprendizagem.outubro/2000 que lá também o grande teórico russo constitui referência axial). o amigo da “Campanha de Moçambique”/UNESCO continua firme em seus princípios éticos. “Precisamos dizer não a tanta manipulação temperada com mediocridade e gastos supérfluos. Neste particular.. em Portugal e no Brasil. Para além dos fundamentos da psicopedagogia. deixou-nos chocados com o relato das ...). Trata-se de uma cooperativa de professores que. tratamos de mobilizar conferencistas em ambas as margens do Atlântico. renomado também como editor (Gradiva. um grupo bastante eclético de brasileiros passou a argumentar. em termos de “invasão” e “ocultamento”. os alunos acham-se mergulhados num ambiente de arte e literatura. Esboçado o cenário. O pintor Malangatana. Lisbonne. autora de Mar aberto: Viagens dos portugueses. transformou-se num centro de referência europeu no que concerne à formação de jovens vocacionados para a “intervenção social”. Lissabon. também na ex-capital do império. Sara. encabeçada por Frederico Pereira. ao longo de vinte anos. acolhedora e cosmopolita que se estabeleceu um diálogo diferente a propósito dos 500 anos de des/ encontros entre Brasil e Portugal.. Autores portugueses e africanos animam debates nos lançamentos de seus livros.. O Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp justificou sua fama além-mar: Haquira Osakabe e Tânia Alkmim brilharam com Luciana Stegagno Picchio – professora da Università degli Studi di Roma e grande divulgadora da literatura brasileira e portuguesa na Itália. O musicólogo mineiro José Maria Neves (UFRJ) emocionou a todos com “Música para os mortos na colônia brasileira” e Rui Mário Gonçalves (Universidade de Lisboa) surpreendeu-nos com seu cotejo entre as vanguardas artísticas. são-tomense “boa de briga”. Escultores e pintores africanos ali realizam oficinas cujos resultados ficam expostos nos labirínticos corredores do ISPA.. o enxuto e sólido catálogo de publicações do ISPA é de fazer corar certos editores brasileiros que ainda acreditam que quantidade gera necessariamente qualidade. a abertura se deu com “Uma língua. Lisbona.R EDESCOBERTA DO B RASIL U lissipônia. sou obrigado a discordar do mestre Saramago: houve alguns aspectos negativos no processo de integração. E é com essa Lisboa bem-humorada. outras imagens”.. nas primeiras décadas do século XX. Beatriz. autor do magnífico painel que domina a parte superior do auditório onde trabalhamos no ISPA. o bom humor do cidadão com quem se fala pelas ruas e nas livrarias indica que existem benefícios palpáveis para a maioria. Nauseados com o “carnaval das caravelas”. várias culturas”.” Vozes dissonantes que então éramos. Fotógrafos (incluindo o nosso onipresente Salgado) e outros artistas não deixam emudecer as luminosas paredes de cinco metros de altura. Inocência da Mata. que se prenunciava desastroso desde o início de 1999. Politicamente de esquerda. que precisamos pedir esprestada à Universidade Nova de Lisboa. reunimo-nos em Lisboa com a direção do ISPA. das polêmicas entre os seguidores de Freinet. vamos à série de colóquios programados para este ano: “Portugal-e-Brasil – Outras visões.. se me é permitido o “anacronismo”. pedagógicos e políticos.: sem dúvida. “entrar para a Europa” está fazendo bem a Portugal. Em fevereiro deste ano.. Andrea. Psicólogo e psicanalista.).. mas hoje. publicado pela Editorial Caminho em 1999 – e com a Dra. Enquanto setores tradicionalistas (lá e cá) continuam a utilizar os esgarçados conceitos de “achamento” e “descoberta”. como fazem questão de frisar nossos amigos lusitanos. Literatura e Psicanálise. (As mui gentis Ariadnes do Instituto respondem por Delfina. Nossos anfitriões: professores e estudantes do Instituto Superior de Psicologia Aplicada/ISPA.

sua aura de tradição fortemente enraizada no trabalho humano. Princesa do Brazil. da Coorde- A arte de Luiz Braga surpreende e encanta pela sua aparente simplicidade. não seccionado pela urgência. o cotidiano das pessoas simples adquire uma dignidade e uma beleza incomuns. Não há denúncia social nem didatismo. o rosto de uma cunhantã. Ouvir um psicanalista discorrer sobre sustentabilidade social e o Dr. um velho músico. houve incursões diferenciadas quanto a algumas linhagens historiográficas contemporâneas. superando a retórica das efemérides. Por isso. de Nísia Trindade Lima. Em março. outras imagens”.Desenhos do olhar Milton Hatoum Leia abaixo o texto de Milton Hatoum. o qual cuidará da distribuição de títulos brasileiros não apenas em Portugal. Livros que suscitaram interesse: Historiografia luso-brasileira contemporânea. de uma história que Luiz Braga recorta no dia-a-dia da gente amazônica. levou-nos às lágrimas ao entrecruzar versos de Cecília Meireles. E Maria do Céu Guerra. esses e outros recursos técnicos não são apenas exercícios formais. Bandeira e Drummond com as inflexões de poetas africanos e portugueses. de José Manuel Tengarrinha e José Jobson Arruda e Um sertão chamado Brasil. As variações de verde. mas a qualidade dos debates superou as previsões. A projeção de D. Discutiu-se a produção didática de história sobre os dois países. Carlota Joaquina. Para o ano. não teve energias para nenhum tipo de catarse. literalmente. as sombrinhas e os guarda-chuvas coloridos são imagens impregnadas de valores humanos. sob curadoria de Rosely Nakagawa. que será exposta no ciclo “Portugal-eBrasil – Outras visões. do fotógrafo Luiz Braga. Presidente da Assembléia da República. o espectador percebe em cada fotografia o que há de mais natural e espontâneo no mundo e nos seres desenhados pelo olhar do fotógrafo. É esse cotidiano humilde que a lente de Luiz espreita com sutileza. atriz. havia crescido a expectativa em relação ao terceiro colóquio. editor da revista Sem Terra. de Carla Camurati. Nessa altura. de uma cultura. reflexo de um olhar que é também interior. estuda um acordo de co-edição com o ISPA. Os blocos temáticos definidos para as mesas sugeriam atitude diversa da pirotecnia espalhafatosa e burlesca do governo FHC: “Terra em xeque”. São imagens que nos remetem a outro tempo: o da demora e o do prazer na demora. “500 anos de luta e luto”. Depois dos vexames e das violências oficiais em Porto Seguro. que não perdeu sua autenticidade. exigir mais ética em nossas relações globalizadas foi um preâmbulo auspicioso. com instituições e intelectuais de Roma e Lisboa. Aos poucos. Moçambique e outras nações africanas. as cores. com Angola. reuniram-se historiadores. naquele Moçambique já exaurido pelos estertores do processo de descolonização. mas servem para revelar o recorte de uma verdade íntima. por assim dizer. Alípio Freire. o passeio ao léu. um choque cultural: o público. As fotos lembram quadros. Nessa seqüência de fotos não há exotismo nem estereótipos.. o olhar de Luiz Braga se detém em detalhes (quadros. fixando os gestos e atitudes de um pequeno mundo que ainda vive num tempo peculiar. “500 anos de predação”. objetos) que dão humanidade a um ambiente desprovido de pessoas. bem mais que “vana verba”. os artesãos de barcos e bichos para a procissão do Círio de Nazaré. Brasil: Quem fomos? Quem somos?”. o olhar demorado e contemplativo são também signos de uma tradição. Valmir Assunção.. É esse outro tempo que nos convida a admirar sem pressa as imagens fisgadas num sonho mínimo de cada noite ou no breve devaneio de cada dia. título talvez um tanto ambicioso para apenas dois dias de seminário. engasgado. enchentes que faziam suas primeiras vítimas no Vale do Limpopo. foi. um grupo de marinheiros. as festas populares. Por meio desse olhar. a luminosidade. “Pindorama – Terra Brasilis”. No conjunto. sobre a mostra “Desenhos do olhar”. a uma beleza telúrica e a uma dignidade que o olhar paciente do fotógrafo transforma em arte. as fotografias parecem sugerir ao espectador que o cotidiano humilde da Amazônia é uma viagem íntima e sutil a algo que ainda não se perdeu. os rituais religiosos. Ana Maria de Almeida Camargo e Heloísa Bellotto (USP) foram responsáveis pela seleção do sexteto de historiadores brasileiros. Não cometemos gafes diplomáticas quanto às portas preferenciais da União Européia: já estamos produzindo. a direção do ISPA reiterou seu compromisso de publicar os anais do conjunto de seis colóquios até março de 2001. Até mesmo nas fotografias de um interior de uma casa. de São Paulo. Déa Fenelon (PUC-SP) e jovens professores paulistas iniciaram ou retomaram diálogos com pesquisadores da Universidade de Coimbra e de Lisboa. outubro/2000 . A editora Cortez. no âmbito educativo e cultural. A preguiça. “Portugal.C u l t 39 . Almeida Santos. vamos consolidar laços de cooperação. vermelho e azul em superfícies às vezes descoradas dão à rusticidade do ambiente uma rara beleza plástica. O rigor do enquadramento. autor dos livros Relato de um certo oriente e Dois irmãos. pinturas de cores fortes que aparecem nas paredes e fachadas de certas casas e paisagens de Belém e da Amazônia. retratos de família.

Mesclando a reflexão acadêmica com a práxis de governo em diferentes Estados e com temperos posteleições municipais.. Leonardo da Vinci. 40 Cult . O encerramento. Nada de lamúrias nem verborragia de cassandras: um panorama de lutas. pareciam ter preparado um curso resumido: “Brasil em mutação”. “Política e políticas: o velho e o novo”. esperançosos. escritor de livros infanto-juvenis. O governador Ronaldo Lessa. em meados de dezembro. desenvolvimento e educação”. PSB/AL.. de novo. ausente por estar combatendo o narcotráfico com o apoio da CPI do Congresso.R EDESCOBERTA DO B RASIL nação Nacional do MST. do extraordinário precursor que foi Josué de Castro. interveio em nome do governador do Amapá.. No dia seguinte. que os brasileiros desconhecem. Os professores Carlos Simões e Luís Silva Pereira abriram o leque das intervenções do ISPA: “Ecologia urbana e a política indigenista do Chile – O problema Mapuche”.. O mestre Eduardo Lourenço irá mesmo juntar-se a nós? Uma certeza: haverá uma reedição de Geografia da fome.outubro/2000 Cinema de poesia: Joel Pizzini para fazer ver que somos capazes de criar muitíssimo mais e melhor que telenovelas fajutas e açucaradas.. apresentou um depoimento forte. trabalha com formação em educação ambiental . Vários estudantes não identificavam naquelas falas nada similar ao Brazil das telenovelas e por isso mesmo intervieram com insistência. então prefeito de Palmeira dos Índios. uma das “passionárias” de um Portugal renovado e vigoroso.. que provocou algumas perplexidades. Os seminários serão retomados em 27 e 28 outubro com “Multiculturalidade. Último colóquio dessa temporada em lusas terras. Isabel Castro. adquiriu uma densidade quase dramática. ao menos em literatura. com o Dr. do Instituto Socioambiental/SP. comentadas em texto de Milton Hatoum. destaque para a deputada do Partido Verde. Este manauara. o mais que geógrafo Aziz Ab’Sáber. vai relatar pessoalmente que. a “lenda viva”. O relatório de Graciliano Ramos. do Instituto de Estudos Avançados/USP e o antropólogo Carlos Alberto Ricardo. não é só matéria para professores de literatura. tendo como pano de fundo fotos do amazônida Luiz Braga. ergueu bem alto a bandeira da sociodiversidade e da valorização do patrimônio ambiental da Amazônia. O vereador e cacique Ramos Santos e Cassiripiná Waiãpi deram mostra eloqüente da sofisticação política de lideranças indígenas no âmbito do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá. a lentidão compensa? Lançamentos de livros com uma ótica “da praia para os textos trazidos pelas caravelas”: brasileiros também podem glosar Fernando Pessoa. PSB/AP. política e políticas culturais”: uma nova geração de intelectuais orgânicos (quem “deletou” Gramsci?) vai polemizar. junto do representante do MST. Bilingüismo e biculturalismo é um tema que atraia leigos? Nos dias 10 e 11 de novembro vamos agitar o ISPA a pretexto de “Literatura. que conquistara a platéia desde sua primeira fala. Sísifo contemporâneo. O professor Aziz. vai questionar a atual versão brasiliense do neocolonialismo. não perdeu a atualidade política. Frederico Pereira lendo o discurso que João Alberto Capiberibe havia proferido na abertura da Semana da Índio. deixou-nos emocionados e. O subseqüente desempenho de ambos. manteve-se o registro alto: dentre os parlamentares portugueses. Nilson Moulin Louzada tradutor. Esaú e Jacó. em Macapá. ampliaremos o debate quanto a cenários para 2002. A professora Stegagno Picchio comprometeu-se a publicar sua versão italiana brevemente. de norte a sul e de baixo para cima. nos jornais e televisões de circulação nacional. O terceiro dia do terceiro colóquio manteve o andamento vivace: a deputada Janete Capiberibe.

M e m ó r i a e m r e v i s t A A GERAÇÃO DO PONTAPÉ NA B OLA PONTAPÉ BOLA Vez ou outra esta página reporta-se a um livro. ao menos em Lisboa e redondezas. na tribuna de um campo de foot-ball. que estão dirigindo em Portugal o progressivo movimento da educação física pelos jogos. nos seus meios e nos seus destinos futuros. como eles gostam. consiste no seguinte: cada domingo. fugindo à constante das revistas. 1919). e vem a ser que esta camada de gente moça. É o que faremos desta feita. é necessário que cada um dos parceiros se vença a si próprio.. a ambição de um jogador vaidoso comprometerão sem remédio a sorte do grupo. abdicando de toda a vaidade e contentando-se em ser modesta parcela de um todo. há de ser também totalmente diversa delas.C u l t 41 .. Mas parecia-me razoável que as pessoas.. é preciso não esquecer que na Inglaterra. nem se não.) explicava-me há tempos. absorvida em ocupações e atividades físicas totalmente ignoradas pelas suas antecessoras. aos pontapés uns aos outros (…) O foot-ball é um jogo ótimo para rapagões de 16 a 20 anos... Mas uma coisa pode afirmar-se com axiomática segurança. e onde quer que a higiene da infância e da mocidade se encontram bem organizada. os ingleses compreendem e praticam E Cláudio Giordano impecavelmente estas regras. as razões profundas e gerais donde resultaria fatalmente a vitória destes sobre aqueles: – O foot-ball. No entanto. no seu caráter.) Donde vem e para onde vai esta revolução de costumes? (…) É difícil prever que rumo seguirá. stá a operar-se em Portugal. disse o meu homem. a geração atual do pontapé na bola.. vibrando pontapés infatigáveis e convictos sobre inocentes bolas de borracha encouradas (. portanto. e os portugueses não aprenderão a jogar enquanto se não resolverem a adotá-las (. Um amigo meu (. Ora. nem a todos é permitido jogá-lo.. e portanto mais próprios para rapazes entre os 10 e os 15 anos de idade. é geral: e procurar regulá-la ou desviá-la (sem a sufocar) na direção de outros jogos menos violentos. mesmo jogado macarronicamente. em vez de querer brilhar por si só. A glória de todos só pode resultar da abdicação e da humildade de cada um. dezenas de milhares de rapazes portugueses de todas as classes.. Urge reconhecer a existência da mania que. Não sei se vai. ainda que estejam na idade para isso (…) O presente mais bem aceito hoje por um rapazito português de 10 a 12 anos é uma bola de borracha. O exemplar de onde a extraímos pertenceu à biblioteca de Oscar Mendes e hoje integra a da “Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes”. forrada de couro e acompanhada da competente bomba de pressão. de sol a sol. inserida no livro Educar (2ª ed.) Lembrei-me que o foot-ball não é a única instituição inglesa que nós temos importado e estragado (…) Evidentemente.). há dez ou quinze anos a esta parte. na sua psicologia. Há quem diga que o rito português é herético e que os nossos rapazes não sabem ou não querem amoldar o seu pontapé ao dogma britânico. Há quem diga que é um mau presente e que com ele vai às vezes disfarçada uma lesão cardíaca. uma revolução que não custou a ninguém desgraças ou lágrimas (. principalmente em Lisboa e onde quer que haja um terreno plano disponível. uma vez lançada à vida. é uma escola de solidariedade. ensinandoos a dar pontapés na bola e a deixarem de andar. no seu modo de encarar o presente e.. Lembramos que na Cult de junho/98 (nº 11) reproduzimos sobre o mesmo tema texto de Monteiro Lobato. não haveria para mim tarefa mais sedutora do que transformar os meus compatriotas em seres verdadeiramente sociais. O egoísmo. ou pseudo foot-ball infantil. Para que o grupo vença. a indisciplina. prestassem alguma atenção a este caso do foot-ball. e ainda antes de começar o desafio entre jogadores portugueses e ingleses. gastam horas. aliás beneméritas. mas sobretudo das classes populares. reproduzindo parte de crônica do autor português Agostinho de Campos. Tento na bola! outubro/2000 .

e todos esses encontros se transformaram na prosa poética do volumezinho Occhio magico. para quem ele escreveu os 84 poemas de seu Diário póstumo. “Infelizmente. quando estava escolhendo os slides para um catálogo de meus trabalhos.L i t e r a t u r a i t a l i a n A Annalisa Cima. mas não queria tornar aquilo um habitus definitivo. o compositor Gian Francesco Malipiero. combinando assim o abstrato de meu último período com o figurativo. pois a arte é por natureza in progress. manifestei ao galerista o desejo de retroceder e acrescentar corpos e cabeças humanas aos meus quadros abstratos. Nesse entretempo havia publicado alguns livros de versos e de prosa e a literatura me pareceu o refúgio ideal do bluff. Contei com a amizade de dois ilustres brasileiros. conhece Murilo Mendes. Jorge Guillén. Annalisa usa óculos de lentes coloridas para atenuar sua fotofobia: o excesso de luz provoca-lhe irremediáveis enxaquecas. o poeta Murilo Mendes e o escritor Alexandre 42 Cult . quando expus alguns de meus quadros. dando início a uma grande amizade baseada numa profunda estima recíproca que . refutando o clichê que me queriam impor. Em 1964. no dizer de Montale) formam uma auréola contra o fundo foscamente iluminado do corredor. programada para sair no Brasil em outubro. Já estive no Brasil em 1966. Adoraria ir. publicados na revista brasileira Remate de Males. pois era essa a expectativa do mercado. e me estende a mão. da Universidade de Campinas. publicado por Vanni Scheiwiller. Marianne Moore. Talvez buscasse exprimir então algo para o que a minha timidez não encontrava palavras. Seus cabelos ruivos (de um “biondo tiziano”. A escritora e organizadora do Diário póstumo de Eugenio Montale fala sobre o escritor italiano a Ivo Barroso. que aliás traduziu alguns de meus poemas. e Annalisa logo manifesta seu pesar por não poder estar presente ao lançamento. Aldo Palazzeschi. surge no corredor de sua casa em Lugano. interrompida pela enfermidade pulmonar que a surpreendeu aos 16 anos. Havia chegado ao abstrato por amor às cores. A necessidade de reclusão e intensivo tratamento fez dela uma jovem retraída. Giuseppe Ungaretti e Ezra Pound. compromissos prévios impedem que me ausente agora. Seus gestos são amáveis e sua cordialidade expressa bem seus dotes de “Emily da alta burguesia lombarda”. “Comecei a pintar aos 17 anos.” A pintura e a poesia foram as paixões que substituíram em Annalisa seu primeiro amor pela música. Ao fundo da sala. Cancelei meu contrato e finalmente pude voltar a pintar nus e cabeças. Insistiu o galerista que eu devesse continuar com a pintura abstrata. de que escapara graças à minha índole rebelde.outubro/2000 A Eulálio. na Suíça. tradutor desse livro que está sendo lançado no Brasil pela editora Record Eugenio Montale e Annalisa Cima em Milão (1969) Ivo Barroso a musa de Montale nnalisa Cima. mas só posso fazê-lo em outra ocasião. acrescentando apenas algumas variações. um piano de cauda recorda os tempos em que se preparava para uma carreira de concertista.” Têm início então suas freqüentações literárias: em 1967. Começamos a falar sobre a tradução do Diário póstumo. a inspiradora de Montale. Em 1968 encontra Eugenio Montale. refugiando-se em atividades menos solicitantes. atravessando ulteriores experiências.

1968. no verso de envelopes. consegui ler para ele um poema que lhe havia dedicado e pedi sua opinião. foram brotando pequenos poemas – anotações jocosas ou observações de caráter particular. que integra o livro Ipotese d'amore. em cartõespostais. visse em mim traços que o tranqüilizavam: aquela melancólica-alegria. a enfermidade forçou-a a uma vida semi-reclusa. foi para ela um ato absolutamente natural. rápido porém um gesto teu anula essa distância. obra do escritor italiano que será lançada no Brasil este mês. Eugenio Montale Tradução de Ivo Barroso A E. Uma leve brisa entre ofuscar de luzes faz erguer nuvens de areia e espuma.C u l t 43 . cristalino gelado onde espelhar-se é um outro dia Annalisa Cima Tradução de Ivo Barroso se materializou nos livros Eugenio Montale. iria inevitavelmente provocar depois de sua morte. uma crítica. tendo-me conhecido. balneário do Mar Lígure.M. nas proximidades de La Spezia. a amizade lhe pareceu a única saída para saborear o prazer de uma projeção que o distraísse da sensação de incapacidade que o acompanhara durante toda a vida: a inabilidade de combater os outros. o corajoso-spleen. são capazes de vencer. que acolheu em sua casa inúmeros refugiados antifascistas. em suma. viva o exterminador. Alegre notícia. 1977. em que predominava a presença de pessoas idosas. a melancolia que acompanha cada gesto nosso.” De seus encontros. nos menus dos restaurantes. Apesar de minha timidez. onde figuram muitos outros poemas dedicados a Cherubino-Montale. sentir-se ao mesmo tempo mestre e inspirador. fervoroso adepto de Gobetti.” Tratava-se do “Terso profilo di mare”. para experimentar o terreno. E foi o caso que. Conviver com Montale. ansiava poder contar com alguém – um discípulo. além do medo do presente. mas também do desconhecido. Oriunda de família tradicionalmente ligada à indústria papeleira. publicado por Annalisa em 1984. Grande era a sua afinidade com o avô Francesco. Incontro Montale. de repente. desde muito pensado. É o saber-te igual num tempo diverso que talvez me doa. “Foi meu editor Vanni Scheiwiller quem me apresentou a Montale. e Profilo di un autore: Eugenio Montale. E preencher esse futuro com um projeto concreto talvez lhe parecesse o melhor modo de exorcizá-lo. 1973. que estava com 72 anos na época em que Annalisa contava apenas 27. do livro Ipotese d'amore. Em sua juventude. aprendera que a música e a poesia distraem da tristeza da vida e do aborrecimento que os outros nos causam. enfim em qualquer suporte gráfico que lhe estivesse à mão no momento propício. e límpido ressoa um verso que devo então julgar. O poeta via-se de repente transformado em musa e essa sensação inspirou-lhe um dos mais belos poemas do Diário póstumo: “Ex abrupto”. para suportar com menos angústia o peso dos anos. EX ABRUPTO Um espaço de anos nos separa. Na velhice. um presente. Depois seguiram-se pequenas provas: uma poesia. envolvendo em geral os componentes mais íntimos de seu círculo de amigos – escritos por Montale em guardanapos de papel. principalmente nas férias de verão passadas em Forte dei Marmi. “Montale. uma sede de amizade desinteressada e certo amor ao paradoxo. O vate é morto. Surge um livrinho de dentro do armazém de tua grande bolsa. do futuro. um quase filho – que lhe fosse fiel bastante para desafiar as borrascas que um enredado projeto. Annalisa era ainda muito nova quando da separação de seus pais e foi viver em companhia dos avós paternos em San Giovanni Bianco. Mais tarde. via Bigli.Leia abaixo um poema de Annalisa Cima dedicado a Montale. E o que vem à baila ex abrupto é que eu sou a musa e tu o poeta. e um poema extraído de Diário póstumo. entre eles o professor Facheris que ensinou a Annalisa rudimentos de latim. Terso perfil de mar voz que trazes assombro desanuvias pensamentos fica naquele mundo que confunde presente e passado gotas de tempo e sons. Quando outubro/2000 .

Ao lado. ensaísta. Ele teve a precaução de registrar tudo em cartório. O crítico e poeta italiano Giovanni Raboni. Annalisa Cima e seu marido durante entrevista concedida a Ivo Barroso. com o risco das duras conseqüências que Annalisa teria mais tarde de enfrentar. que estavam depositados num banco. publiquei um livro com a reprodução de todos os originais.Acima. em número reduzido de exemplares. Posteriormente. mediante uma série de condicionamentos que iam sendo criados ludicamente à medida que os compunha.S. num texto entremeado pela fina ironia com que sutilizava seus escritos mais requintados. com a ajuda de Annalisa. mais que um diário.” Montale estabeleceu que os poemas seriam publicados somente quatro ou cinco anos depois de sua morte.outubro/2000 numerados de um a dez. esses poemas alcançaram um número considerável. Estou muito satisfeita em saber que seu tradutor brasileiro a considera das mais representativas. já trazia em mente desde muito: a publicação póstuma desses poemas. em outubro de 1997. de T. A cada ano deveria ser sorteado um envelope e publicado seu conteúdo em plaquetes. aqui em Lugano. “A cada encontro me anunciava uma surpresa. Montale distribuíra os poemas escritos para ela em dez envelopes 44 Cult . para integrar o projeto. em suas mais variadas formas fragmentárias. Mas era a forma pela qual seu espírito lúdico procurava exorcizar o tempo e a morte. Também o crítico Dante Isella. inclusive a lacragem dos envelopes e as instruções para abri-los. Por isso organizei um seminário sobre o livro. tradutor da obra completa de Rimbaud (Topbooks) e dos volumes Os sonetos. durante o qual ficaram expostos ao público os originais da obra. autor dos livros de poemas Nau dos náufragos e Visistações de Alcipe. Talvez. a montar o projeto que. Uma primeira recolha em livro seria feita quando os trinta primeiros poemas fossem divulgados e o conjunto dos 84 poemas em 1996. o poeta começou. autor do ensaio literário "O Corvo" e suas traduções. Annalisa e o poeta Murilo Mendes em 1974. “Grande celeuma se levantou na imprensa italiana quando foram publicados os primeiros versos. pôs em dúvida a autenticidade dos poemas. este presente de Montale a todos nós é uma fábula que nos conta como a força da amizade e da poesia pode tornar real um sonho. dizendo que eu os teria transcrito de gravações em fita ou de autógrafos muito rabiscados. e Os gatos. não raro um jogo. com os últimos vinte e quatro.” Ivo Barroso poeta. uma poesia. e convidei pessoas de mérito entre os escritores e críticos de vários países para se manifestarem na ocasião. E em doses reduzidas e periódicas.Eliot . fez tudo para denegrir o Diário póstumo e sua inspiradora. Montale havia estabelecido em testamento que a publicação inicial devia ser feita em plaquetes. que pretendia ser o curador da obra completa de Montale para a Mondadori. de modo a marcar de tempos em tempos sua presença editorial. segundo ela. Tive de organizar uma entrevista coletiva em Milão para exibir os documentos em que Montale não só me fazia sua executora testamentária como me tornava herdeira universal de sua obra. por ocasião do seu centenário de nascimento. Devo dizer que hoje não paira qualquer dúvida quanto à autenticidade da obra e sobre o seu valor literário na totalidade da produção montaliana. cada qual contendo seis poemas. Não que necessitasse de um estratagema bem urdido para conservar seu nome em evidência quando não mais pertencesse ao mundo dos vivos: sua poesia já o consagrara em vida e o eco de sua voz continuaria certamente a ressoar pelos tempos em fora. de Shakespeare. exercendo com refinamento inexcedível sua aguda percepção da vida e seus valores. mesmo sem ter lido a plaquete. dizendo que nela o gênio poético de Montale se extravasa de maneira tão cabal que o leitor irá encontrar o vate em sua plenitude. além das cartas e dos documentos em que me confiava a publicação de sua obra completa. E havia um maior.

D o s s i ê C U L T expressionismo alemão Nu. xilogravura de Karl Schmidt-Rottluff (1909) .

outubro/2000 .O cabaré do novo homem Claudia Cavalcanti Procissão funeral. dedicada a Oscar Panizza. tela de George Grosz (1917/18) 4 6 Cult.

A segunda reação é imaginar que o expressionismo surgiu em oposição ao impressionismo – o que não deixa de ser verdade. senão não estaríamos lidando com um movimento de vanguarda. D efinir o termo “expressionismo” como a forma de arte criada a partir do impacto da expressão. qualquer definição das artes plásticas expressionistas torna-se desnecessária diante do quadro O grito (1895). de Edvard Munch. a primeira reação é pensar no seu “antônimo”. quando foi empregado pela primeira vez. por exemplo. não pressupõe o desaparecimento do outro e certos artistas expressionistas deram as suas primeiras pinceladas ou escreveram os seus primeiros versos sob a batuta da estética impressionista. tema de uma antologia poética e de uma exposição que será inaugurada no dia 10 de outubro. Rudolf von Laban e Mary Wigman) até o cinema e o teatro (veja texto na pág. por exemplo). conseguiu abarcar as mais variadas formas de arte e ao longo de diferentes fases – desde a música (com os compositores da Escola de Viena. Stephan George e Rainer Maria Rilke. representam as origens do movimento na Alemanha. Do mesmo modo que o expressionismo. o impressionismo. de Rilke. o impressionismo se desenvolveu na literatura (como impressionistas alemães classificam-se Hugo von Hofmannsthal. Porém. muito menos alemã. com os seus autoretratos. não se restringiu às artes plásticas e à literatura. A figura esquelética de sexo indefinido está sozinha à beira-mar. Toulouse-Lautrec. escrita desde 1904 e publicada em 1910. neste Dossiê. mas que representa o auge do expressionismo. Alban Berg e Anton Webern) e a dança (com Isadora Duncan. de criatividade pura. ensaios sobre a literatura. norueguês marcado pelo impressionismo. e seu grito parece ecoar no vazio. O surgimento de um. Porém. O pintor Julien Auguste Hervé utilizouo em 1901 para designar uma série de oito quadros seus expostos em Paris. E assim é – só que não apenas isso. como a de que este último seria uma forma de arte em que são transmitidas impressões subjetivas. a arte. Leia. Nas artes plásticas é enorme a gama de artistas. o teatro e o cinema de um dos movimentos de vanguarda mais importantes do século XX.Começa este mês em São Paulo uma série de eventos dedicados ao expressionismo alemão. O expressionismo. fundado em Dresden em 1905. O grito é a forma de expressão oral mais enfática e por isso estará presente também na literatura. no entanto. algumas correntes da crítica literária vêem em obras como Os cadernos de Malte Laurids Brigge. tão enciclopédico quanto vago. mas foi na pintura que a estética impressionista parece ter encontrado mais ressonância. causado pelo mundo exterior e manifestado em imagens espontâneas. Círculos como Die Brücke (A Ponte). Por outro lado. parece tão correto quanto genérico. contudo. e o construtivismo de Cézanne. sendo essas o princípio da criação. ele expressa acima de tudo a angústia da alienação outubro/2000 . Quando se fala em expressionismo. Em todo caso. em Munique (19111912). grupos e tendências dentro do próprio expressionismo. apesar das duas pessoas ao fundo. Numa enciclopédia também se poderia ler uma definição bastante simples. Van Gogh. às vezes até primitiva.C u l t 4 7 . Arnold Schoenberg. Sem querer nem ousar adivinhar que mensagem emite esse grito. por Van Gogh. cujo aparecimento tem como objetivo maior negar o sistema vigente. Enquanto movimento de vanguarda (contemporâneo do futurismo italiano e do cubismo francês). Gauguin. não há como encontrar uma definição mais adequada sob a qual possam ser reunidas todas as correntes artísticas consideradas expressionistas. 60). a subjetividade expelida quase como um parto. o termo “expressionismo” estava desprovido de qualquer conotação literária. cujos modelos são. uma introdução à literatura expressionista. ou Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). O quadro de Munch parece sintetizar a intensidade de um momento vivido.

a ordem. cujo círculo literário. Era uma sociedade dominada pela grande burguesia. Else Lasker-Schüler e Ludwig Rubiner. Os primeiros sinais de um futuro expressionismo são notados em Berlim. a angústia da solidão. A geração expressionista O expressionismo nasceu quando o império alemão caminhava cada vez mais claramente para aquele estágio avançado da sociedade imperialista contra a qual já se pronunciavam escritores como Karl Kraus e Heinrich Mann. O desejo de um novo homem (e. pelos militares e pelos nobres e que. o espírito. mantinha um constante contato 4 8 Cult. a rejeição à cidade grande e o desejo de volta à natureza eram pontos-chave tanto do grupo quanto do movimento. o submundo. no qual se incluíam o vitalismo. Assim. entre 1900 e 1903. o entorpecimento. cujos sinônimos eram o burguês. O velho provocava medo. Grabbe. Das Romanische Café (1938). neoclássica. Büchner.À esquerda. que organizava leituras e reunia nomes como Alfred Döblin e Paul Scheerbart. que logo depois exerceriam influência decisiva em certas correntes do expressionismo. outra cidade em ebulição cultural era Praga. Além disso. como se pode deduzir. quase que concomitante a outros movimentos de vanguarda européia. A geração nascida sobretudo entre 1880 e 1890 começou então a se rebelar contra os valores herdados por um século que já acabara.outubro/2000 com Berlim e com o grupo em torno de Walden. porém. a comunidade. outro prenúncio: Walden fundava em Berlim a Verein für die Kunst (Sociedade pela Arte). o qual. Os cerca de 350 autores expressionistas (segundo estatística de Paul Raabe) . o “novo”. Da mesma forma. uma tentativa idealista de reunir adeptos da filosofia monista. só seria mais facilmente identificável com a distância das décadas passadas. Na Nova Comunidade discutia-se e sonhava-se com o “novo homem”. mais tarde um dos temas e lemas dos expressionistas. ódio iconoclasta. Nesse sentido. do conceito do super-homem de Nietzsche e de modelos literários. tela de Edvard Munch (1895). sobretudo com a guerra e a Revolução de Outubro). Em 1904. o dadaísmo. se preciso for. participavam da Nova Comunidade os filósofos Gustav Landauer e Martin Buber. destruidor. como o surrealismo. Ao lado. ladrões. Alguns dos seus integrantes são Herwath Walden. como Kleist. É claro que os impulsos para tal pensamento partiram de teóricos como Lênin e Bakunin. perante a natureza e as outras pessoas. de alguma forma igualmente marginais. Ainda antes de 1910. Foi em 1911 que o expressionismo apareceu pela primeira vez ligado à literatura. com o grupo Neue Gemeinschaft (Nova Comunidade). O tom messiânico que pregava a necessidade do novo homem vinha imbuído de um pensamento cristão. tédio. A simpatia dessa geração era direcionada mais aos marginais da sociedade burguesa (prostitutas. Na literatura expressionista. do qual faziam parte Franz Kafka e Max Brod. de um lado estava o “velho”. a juventude. são heróis aqueles que rompem com o mundo burguês para habitar. encontrava representação numa arte “acadêmica”. evidentemente) deveria ser marcado por um humanismo indiferente a classes sociais. um dos pontos de encontro de escritores de Berlim. dentre outros. de outro. presente em textos tanto poéticos quanto programáticos. com ele. o futurismo. Rimbaud e Baudelaire. atitude antiburguesa que na Alemanha detonou o expressionismo. mendigos) que propriamente à classe trabalhadora (o que só viria a acontecer aos poucos. o “novo homem” (der neue Mensch) ansiado pelos jovens expressionistas seria o indivíduo cuja ação era caracterizada por um rigor ético e filosófico e cujo objetivo de vida (subjetivo e idealista. o de uma nova vida) levou a uma tendência de bipolarização. O grito.

À esquerda, estação de trem na Friedrichstrasse em Berlim, no período anterior à Primeira Guerra Mundial. Acima Alexanderplatz na década de 20.

nasceram, em sua maioria, em cidades grandes como Berlim, Munique ou Praga; foram estes, além, de Leipzig, Dresden e Viena, os grandes centros da geografia expressionista. Os da província trataram de mudar-se rapidamente, pois era lá que se encontravam os teatros, os jornais, as revistas, as editoras, os cafés, os cabarés e as musas como Else LaskerSchüler (que encantava pela excentricidade, pelo talento e também por ser mais velha que os seus muitos admiradores) e Emmy Hennings. Os cafés e cabarés eram o ponto de encontro dos expressionistas e, sem dúvida alguma, fator de impulso para a criação literária. Daí terem sido imprescindíveis na história do movimento. Os já citados centros do movimento tinham os seus locais mais conhecidos, onde aos freqüentadores era permitido desenvolver idéias e formas de vida antiburguesas. Em Berlim, não há dúvida de que o Café des Westens, também chamado ironicamente de Café Grössenwahn (Megalomania), foi o que reuniu os mais importantes nomes da primeira fase do expressionismo. Havia ainda o Café Stefanie, em Munique, e o Café Felsche, de Leipzig. Dentre os cabarés, o Neopathetisches Kabarett (Cabaré Neopatético) foi o mais importante de todos. Para isso, são

necessárias algumas palavras sobre o Neuer Klub (Novo Clube) e seus integrantes (na maioria estudantes e jovens artistas), sem os quais dificilmente se poderia falar em expressionismo na literatura. O Novo Clube foi a concretização do que já vinha sendo delineado na década pré-expressionista. Dirigido a partir de 1909 por Kurt Hiller e Erwin Loewenson e com novo impulso após a entrada de Georg Heym, no ano seguinte, o Clube caracterizava-se por um desejo do novo para a literatura e a arte, acompanhado de uma crítica sem limites às correntes pequeno-burguesas vigentes na política e na cultura da Alemanha wilhelminista. Acima de tudo, o grupo foi o que melhor representou o chamado “vitalismo” expressionista – conceito tão presente naquela literatura quanto nebulosas são as suas definições, apresentando, conforme o autor, uma nuance “religiosa ou niilista, dionisíaca ou cínica, mística ou política” (W. Muschg). O Cabaré Neopatético, portanto, uma vez fundado em 1910 pelos integrantes do Novo Clube, é a forma de expressão do grupo, aliás o primeiro a tentar reaproximar esse gênero teatral da literatura. Neopatéticos eram o poeta, o músico, o teórico que se apresentavam a um público composto predominante-

mente de estudantes, atores, escritores e boêmios, testemunhas, ao mesmo tempo em que se divertiam, do surgimento de uma nova forma e um novo conteúdo na literatura. Neopatéticos eram, na verdade, os futuros expressionistas, já que o termo à sua época ainda não existia (introduzido na literatura por Hiller em 1911, ele de fato só muito lentamente iria começar a ser utilizado, e definitivamente adotado a partir de 1914).

As fases
Foram muitas as tentativas de classificar a literatura expressionista de acordo com determinadas fases de sua criação. A mais comum compreende três fases. A primeira, entre 1910 e 1913-1914, também chamada de “expressionismo precoce” (Frühexpressionismus), foi a que pretendeu romper com os moldes antigos de pensamento e literatura e que, por isso, é também chamada de fase do “destrucionismo”. A segunda, entre 1914 e 1918, encaixa-se exatamente no período da guerra: é o “alto expressionismo” (Hochexpressionismus), uma fase de maturidade e auge da criação literária. Como muitos de seus autores tentaram por essa época uma alternativa “política” de salvação da humanidade, pode-se ouvir falar de “salvacionismo” em referência a
outubro/2000 - C u l t 4 9

Perspectiva prepara coletânea sobre o expressionismo
A editora Perspectiva lançará no primeiro semestre de 2001 um volume de ensaios dedicados ao expressionismo, dentro da coleção “Stilus” (que reúne livros sobre os mais diversos movimentos artísticos e inclui títulos como O maneirismo, O barroco e O clacissismo, dentre outros). A coletânea O expressionismo reunirá textos de especialistas nessa vertente estética, organizados da seguinte forma: Expressionismo na história: “Quadro histórico do período”, por Luiz Nazário; e “Histórico do expressionismo”, por Cláudia Valladão de Mattos. Expressionismo na vida: “Modo de vida e moda”, por Ana Cláudia de Oliveira. Expressionismo no pensamento: “Visão do mundo”, por Marion Fleicher; e “Filosofia”, por Ricardo Timm de Souza. Expressionismo nas ciências humanas: “Psicologia, psicanálise”, por João Freyse. Expressionismo nas ciências: “Teoria da relatividade, o princípio da incerteza”, por Ubiratan D’Ambrosio. Expressionismo na literatura: “Prosa de ficção e literatura crítica”, por Aguinaldo José Gonçalves; e “Poesia”, por Susana Kampff Lages. Expressionismo nas Artes do Espetáculo: “Dramaturgia”, por Mariângela Alves de Lima; “Encenação teatral”, por Sílvia Fernandes; “Dança”, por Soraia Maria; e “Cinema”, por Luís Nazário. Expressionismo nas artes plásticas: “Pintura”, por Alice Brill; “Escultura”, por Claudia Valladão de Mattos. Expressionismo na arquitetura: “Arquitetura”, por Fernanda Fernandes. Expressionismo na música: “Música clássica, popular e o cabaré”, por Lauro Machado Coelho. Expressionismo nos meios de comunicação: “Imprensa, rádio, TV e filme”, por Luiz Nazário. Expressionismo no Brasil: “Literatura e expressionismo no Brasil”, por Aguinaldo José Gonçalves.

Cena de rua em Berlim, tela de George Grosz (1930)

essa fase. A terceira e última fase talvez seja a de mais complicada periodização, já que é difícil estabelecer exatamente até quando durou. Em todo caso, diz-se que o “expressionismo tardio” (Spätexpressionismus) teria vigorado de 1918-1919 a 1925. Como engloba o dadaísmo e revela o disparate que foram os esforços de mudança intelectual e espiritual de toda uma geração, a terceira fase pode ainda ser chamada de “absurdismo”. Por volta de 1920 começaram a aparecer os primeiros textos que dão conta do fim do expressionismo, que coincide com o início do período inflacionário da República de Weimar, sem dúvida um dos motivos de seu declínio. O esgotamento de fórmulas e palavras e a repetição exaustiva de idéias também contribuíram para o desaparecimento do expressionismo da cena literária. Da mesma forma, não se pode menosprezar o fato de que a geração rebelde, tão característica do movimento, havia envelhecido dez anos. Se até 1925 ainda existiam obras fiéis à tradição, então só existiam justamente
5 0 Cult- outubro/2000

por isso: por fidelidade a uma idéia que, antes inovação, passava a ser convenção. Em meados dos anos 20 também despontava o novo estilo literário e artístico na literatura alemã, denominado Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade), cujas características se opunham ao que fora o expressionismo até então. Desfecho comum a todo movimento vanguardista, o prenunciado fim do expressionismo tinha também motivos históricopolíticos. Pois, principalmente para os representantes do expressionismo utópico, como sobreviver à desilusão de uma revolução fracassada, em 1919, ou, conseqüência disso, ao assassinato de líderes como Rosa Luxemburgo, no mesmo ano? Já não bastavam as agruras do pós-guerra? Entre esses textos (artigos, discursos) está o de Iwan Goll, cujo título já diz tudo: “Der Expressionismus stirbt” (“Morre o expressionismo”), de 1921. Para Goll, a morte do expressionismo só estava sendo confirmada, pois de novo esvanecia uma arte, “doente do tempo que a traiu”, e não era importante saber se a

culpa era da arte ou do tempo. O expressionismo morria porque queria ser mãe da revolução em nome da humanidade (Rubiner já escrevera em seu “O poeta interfere na política”: “Nosso apelo é l’homme pour 1’homme ao invés de l’art pour l’art”). O artigo de Goll tem o tom de uma homenagem póstuma: Reivindicação. Manifesto. Apelo. Atuação. Súplica. Êxtase. O homem grita. [...] Quem não participou? Todos participaram. [...] Nenhum expressionista foi reacionário. Nenhum deixou de ser contra a guerra. Nenhum que não acreditasse em fraternidade e comunhão. [...] Expressionismo foi uma bela, boa, grande causa. [...] Mas o resultado é infelizmente, e sem a culpa dos expressionistas, a república alemã em 1920. [...] O expressionista escancara a boca e simplesmente fecha-a em seguida.
Claudia Cavalcanti
tradutora e crítica literária, acaba de lançar a antologia Poesia expressionista alemã pela editora Estação Liberdade; é autora de A literatura expressionista alemã (editora Ática), do qual foram extraídos os trechos que compõem este ensaio publicado pela CULT

Um organismo vitalmente mórbido

Portão de Brandenburgo, 1928.

A editora Estação Liberdade lança antologia da poesia expressionista, que teve entre seus principais representantes nomes como Johannes R. Becher, Gottfried Benn, Else LaskerSchüler, Georg Heym, Jakob van Hoddis e Georg Trakl, integrantes de uma geração cujo pathos poético foi intensificado pela tempestade da Primeira Guerra
Susana Kampff Lages

E

xplosiva, a poesia do expressionismo alemão – que acaba de ganhar uma antologia bilíngüe, publicada pela editora Estação Liberdade, com organização e traduções de Claudia Cavalcanti – teve seu detonador, sua “bíblia” e seu canto de cisne. O detonador foi o poema de Jakob van Hoddis, “Fim do mundo”, publicado em 1911 na revista Der Demokrat e considerado por Johannes Robert Becher (que foi juntamente ao poeta Gottfried Benn um dos poetas mais longevos do movimento) como uma espécie de senha mágica que transformaria por completo a relação dos jovens poetas com

seu contexto social e com a própria literatura: “Eu também esgotaria a mais ousada imaginação de meus leitores ao tentar descrever-lhes a magia que, para nós, este poema de Jakob van Hoddis, Weltende, abrigava em si. Estas duas estrofes... Ah! Estes oito versos pareciam ter-nos transformado em outras pessoas, ter-nos colocado acima de um mundo de um burguesismo embotado, que nós desprezávamos e do qual não sabíamos como sair.” Muito do elã da poesia expressionista provinha deste desejo de expressar a insatisfação constitutiva do poeta com o

contexto tacanho da burguesia guilhermina alemã. Essa insatisfação transpareceu em expressões premonitórias da guerra e mesmo em sua conjuração como evento capaz de trazer um necessário e desejado corte na banalidade de um cotidiano sufocante, como foi o caso do poeta Georg Heym. A Primeira Guerra Mundial foi, sem dúvida alguma, o evento de maior impacto sobre os jovens poetas expressionistas, tendo sido também grande responsável por sua morte precoce (vários poetas morrem no front: Alfred Lichtenstein, August Stramm, Georg Trakl, Ernst Stadler). Se a entrada
outubro/2000 - C u l t 5 1

Os poemas mais importantes neste sentido são o longo poema premonitório “Der Krieg I”. agregando sua dose de pathos àquele já existente.Fim do mundo O chapéu voa da cabeça do cidadão Em todos os ares retumba-se gritaria. da representação nua e crua de um corpo doente ou morto de Gottfried Benn ao “barroco fecal”. a decadência do mundo burguês. passando por toda uma gama de poemas de temática afim aos novos tempos. . Para além da multiplicidade de formas e temas privilegiados pelos expressionistas. A tempestade da guerra passa e traz uma cesura indelével na produção e nas principais manifestações poéticas do expressionismo. bem como em poemas de amor de alguns de seus contemporâneos. depreender duas tendências básicas. que expõe uma fissura na relação entre o homem e o mundo natural. também poemas de caráter programático que investem contra convenções literárias dominantes. as revistas Der Sturm. paisagem e natureza – elementos intimamente associados à lírica amorosa – são submetidos a uma subjetivação. da ironia quase cínica de Jakob van Hoddis aos versos grotescos de Alfred Lichtenstein. a quem ele. a outra mais engajada. por fim. os poemas de guerra de August Stramm (sobretudo “Patrulha” e “Assalto”) e o belíssimo “Grodek”.outubro/2000 Stramm à retórica de um Ludwig Rubiner. pode-se. Jakob van Hoddis Tradução de Claudia Cavalcanti Extraído de Poesia expressionista alemã Jakob van Hoddis Gottfried Benn em 1956 na guerra era acompanhada por uma visão idealizada que imaginava a conversão do sujeito em herói. sobretudo pela delicadeza incomum de suas imagens: Else Lasker-Schüler. fora encarregado de atender. não redutíveis à poesia de caráter engajado: da redução lingüística pré-concretista de um August 5 2 Cult. na qualidade de farmacêutico. a experiência da vida nas metrópoles. A tespestade chegou. fundamental na poética expressionista. entretanto. o desejo de renovação do ser humano. transmutado posteriormente em eufórico engajamento político por Johannes Becher (futuro ministro da cultura da futura República Democrática Alemã. A maioria das pessoas tem coriza. mas com freqüência plasmada em estruturas das mais tradicionais (foram muito utilizadas sobretudo as formas de quartetos. do hermetismo simbolista finissecular de um Trakl ao ritmo whitmaniano dos versos longos do alsaciano Ernst Stadler. Os trens precipitam-se das pontes. do apelativo Franz Werfel. ligado sobretudo ao momento histórico. Esse elemento patético. porém. muitas vezes identificadas com os dois principais núcleos aglutinadores de escritores e artistas: respectivamente. a questionar a relação entre eles a ponto de levar à completa impossibilidade de uma tal lírica da natureza. numa diversidade de estilos e temas desconcertante. concretizou-se poeticamente de formas muito diversas. Os temas mais fortes são: os prenúncios e as vivências da guerra. uma mais experimental. devendo-se mencionar. último poema escrito por Georg Trakl no front oriental. a vivência concreta da violência bélica da guerra de trincheiras vai destruir por completo essa imagem. a uma antropomorfização. de Georg Heym. a relação com Deus. Apenas um tema lírico por excelência se encontra fracamente representado no interior da prolífica produção poética expressionista: a lírica amorosa. com a transcendência. a deterioração do corpo/ desintegração da subjetividade. não chegando. saltam à terra Mares selvagens que esmagam largos diques. presente apenas esparsamente entre os vários poetas. antiga Alemanha Oriental). Caem os telhadores e se despedaçam E nas costas – lê-se – sobe a maré. Depois desse poema e de uma tentativa frustrada de suícidio com arma de fogo. aspectos tecnológicos e sociais da industrialização. assombrado pelas visões dos corpos num pavilhão de feridos de guerra. sonetos). o poeta consegue por fim pacificação com uma dose letal de cocaína. mais fortemente presente somente numa poeta que ocupa uma posição um tanto excêntrica dentro do movimento. Na sua lírica.

filosóficos pedaços de pensamentos detonados. entre outros. que ressitua o expressionismo no panorama das poéticas européias da modernidade. O lançamento será acompanhado de uma apresentação da cantora Suzana Salles e do pianista Lincoln Antonio.” Essa frase de Robert Musil resume de modo contundente o nascimento. e Die Aktion. tais como Georg Trakl e Gottfried Benn. Die Nachtigal e Im Zimmer) e de Lincoln Antonio (A valsa dos olhos costurados). ao lado do artigo “Stand des Expressionismus” (Situação do expressionismo). que ganhou notoriedade. com apoio do CNPq outubro/2000 . mais centrada numa crítica aos eventos do dia (há uma série de poemas dedicados ao pranteamento da morte de Karl Liebknecht e à exaltação do socialismo) e mais compenetrada na função social do poeta como agente de uma transformação redentora do mundo e de si próprio (“grito”). pelo nosso Mário de Andrade e por Jorge Luis Borges. por assim dizer. voltar a questionar-se sobre o enigma das muitas caras do expressionismo. atualmente realiza pesquisa de pós-doutoramento na área de literatura alemã do Departamento de Letras Modernas da USP sobre o tema Memória e melancolia em Walter Benjamin. por Franz Pfemfert. um ano antes de morrer. será lançada no dia 5 de outubro. impunha-se. o ensaio “Nach 40 Jahren” (Depois de 40 anos). R$ 28. o breve “Nachklang” (Ressonância). uma espécie de Ku-Klux-Klan?” Susana Kampff Lages professora de língua alemã na Unicamp. comovente canto de cisne do expressionismo poético. talvez seu mais importante representante. no Instituto Goethe (r. “Antes de eu servir (na guerra). Gottfried Benn. O estudioso Ladislao Mittner sintetizou-as no epíteto “Grito e geometria”. além da fórmula do crítico vienense Paul Hatvani. do teórico Kasimir Edschmid. existia uma explosiva lírica de idéias intelectual. 11/3088-4288). Franz Kafka e Paul Celan. a “bíblia” da poesia do expressionismo alemão (com poemas que foram lidos. uma cobra-d’água. de caráter marcadamente experimental (“geometria”) e internacionalista. Recital marca lançamento da antologia editada por Herwarth Walden.C u l t 5 3 . pois. organizada por Kurt Pinthus. “Der Expressionismus ist tot” (Está morto o expressionismo). de Hugo Friedrich. onde dependuravam arrebatados rasgos carnais de sentimento. O critério de Pinthus ao fazer a seleção e o agrupamento dos poemas trai bem essa tendência a privilegiar uma visão da poesia expressionista como de caráter messiânico-extático. ao rótulo do expressionismo poético como movimento de poetae minores. “Der Expressionismus stirbt” (Morre o expres- sionismo). em especial. Sinal dessa tendência: a publicação em 1920 da antologia Menschheitsdämmerung (“Crepúsculo da humanidade”).00). tradutor de poesia expressionista). Entre os anunciadores e sancionadores do fim do expressionismo estão o poeta alsaciano Iwan Goll. tardiamente engendrado. Else Lasker-Schüler em 1909/10. organizada e traduzida por Claudia Cavalcanti e publicada pela editora Estação Liberdade (232 págs. tel. com comentários de Claudia Cavalcanti. de 1920. Suzana Salles lerá também alguns dos poemas publicados no livro. a vida e a morte desse organismo vitalmente mórbido que foi o expressionismo poético. de 1922. que interpretam composições de Alban Berg (Schliesse mir de Augen beide. de 1956. resumiu a perplexidade do olhar retrospectivo na irônica e irrespondível pergunta: “O que é afinal o expressionismo? Um conglomerado.. com seu ensaio de 1921. vai pouco a pouco cedendo espaço à segunda. em que Kurt Pinthus reflete sobre o expressionismo poético e sua própria antologia de poemas. A antologia Poesia expressionista alemã. precursor do longo balanço de 1959. Possivelmente. Essa visão começará a ser abalada. A primeira tendência. Em 1955. uma lírica da intuição intelectual. às 20h. Aos “sobreviventes”. Lisboa. Quando retornei. grande marco. entre outros. não será casual o fato de que a morte do expressionismo tenha sido objeto de vários ensaios que tentavam dar uma explicação para a velocidade e as idiossincrasias de seu desaparecimento da cena cultural no início dos anos 20. 974. e last but not least. São Paulo. o monstro de Loch Ness. havia o expressionismo. com a publicação do livro Estrutura da lírica moderna.Ao lado. dando o devido destaque a poetas “maiores”. uma nota que perdurará por muito tempo na recepção imediatamente posterior do movimento e que dará ensejo.

outubro/2000 .As travessias da arte expressionista Claudia Valladão de Mattos Canal curvo. xilogravura de Erich Heckel (1915) 5 4 Cult.

Herdeira por sua vez. na música de Wagner e nas obras de artistas independentes como Munch. uma forte relação com a cultura finde-siècle da geração que os precedera. Porém. aos quais juntaram-se um pouco mais tarde Fritz Blyl. Otto Müller e Nolde. essa geração anterior de artistas exibia uma aguda consciência das rupturas significativas que haviam ocorrido entre as esferas estética e social. para em seguida nos aventurarmos a acompanhar o desdobramento do movimento ao longo dos últimos anos da década de 10 e princípio dos anos 20. opondo-se às demais vanguardas européias. liderada por Kandinsky e que receberia o nome de Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). Ernst Ludwig Kirchner e Max Pechstein –. apesar desse espírito rebelde e da insistente negação de todas as formas de arte do passado. Nesse contexto. 111 – Vila Mariana tel. No entanto. adquirimos o hábito de adotar o termo expressionismo ao nos referirmos à produção artística das décadas de 10 e 20 naquele país. através de um desejo de ver novamente reunidas vida e arte. Erich Heckel. Tal projeto de raízes românticas retornaria de forma bastante intensificada na prática outubro/2000 . a nomenclatura geral. Tais diferenças são particularmente evidentes no período inicial de sua formação. 11/5549-9688. em que a autonomia da dimensão estética deveria garantir um espaço para o nascimento de uma atitude espiritual diante do mundo Exposição Expressionismo Alemão 10 de outubro a 10 de dezembro Museu de Arte Moderna de São Paulo Parque do Ibirapuera – Portão 3 tel. que buscava libertar a arte da esfera do puramente estético para criar uma nova relação com a vida. quando o expressionismo se imporia como um estilo supostamente “nacional”. para compreendermos o movimento expressionista como um todo. tematizando freqüentemente a questão.C u l t 5 5 . 11/5574-7322 H oje. Os quatro artistas. logo evidenciam-se tantas diferenças importantes entre as várias manifestações locais dessa vanguarda que. fazendo a crítica ao ser “civilizado” da decadente sociedade européia. e Der Blaue Reiter. a situação mudaria já com o começo da guerra e principalmente no pós-guerra. do romantismo. ao menos parcialmente. Assim. nos vemos obrigados a rever. podemos acompanhar o desenvolvimento de pelo menos duas vertentes importantes e distintas do expressionismo nas artes plásticas: uma em Dresden. distantes quase um século do início dos movimentos de vanguarda na Alemanha. fundaram uma pequena sociedade de artistas. como o cubismo francês e o futurismo italiano. O expressionismo de Dresden: Die Brücke No ano de 1905. exibindo cores brilhantes tiradas diretamente dos tubos e evitando uma referência naturalista. como não poderia deixar de ser. Entrada franca Museu Lasar Segall Rua Berta. vale a pena lembrar que o termo “expressionismo” começou a ser usado para designar as vanguardas alemãs apenas em 1914. com o início da guerra. buscando inspiração em leituras de Nietzsche e Dostoiévski. ou seja. eles não deixavam de apresentar. com o grupo Die Brücke (A Ponte) e outra em Munique. num exame mais atento. que antecedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial.Exposição no MAM e no Museu Lasar Segall traz ao Brasil a utopia expressionista consolidada nas propostas dos grupos vanguardistas Die Brücke. faz-se necessário inicialmente considerarmos as situações particulares dos principais grupos do período do pré-guerra. guiados pela disposição de romper com o passado e com todas as formas de arte desenvolvidas dentro da Academia. desde as revoluções burguesas do século XVIII. à qual deram o nome de Die Brücke (A Ponte) e que viria a ser o primeiro marco significativo no desenvolvimento da arte de vanguarda na Alemanha. em pouco tempo. desejavam representar através da pintura o gesto forte de um novo homem. Nesse período. enquanto anteriormente falava-se principalmente de futurismo quando as novas tendências da arte alemã eram mencionadas. Os quadros que nasceram deste encontro eram arrojados. quatro estudantes de Arquitetura em Dresden – Carl SchmidtRottluff. Van Gogh e Gauguin. De certo.

da nova visualidade criada pelo grupo. ela era sempre rápida. August Bockstiegel. Retrato de Gerda. formando a base.Ao lado. O próprio nome Die Brücke. Os artistas da Brücke estavam. cativou particularmente o grupo. Durante os meses de verão.outubro/2000 das relações cotidianas e os artistas investiram. ou não européia. Acima Hamburgo. como o . evitando qualquer tipo de enquadre. Havia uma admiração pelo trabalho coletivo e. e pela técnica da xilogravura. anônimo. A mesma prática era desenvolvida no ateliê conjunto em Dresden. onde praticavam nudismo e conviviam em relações livres. ilustração de Emil Nolde (1910). eles realizavam viagens às regiões de lagos perto de Dresden. de fato. A pintura não era mais praticada nos ateliês. interessados em resgatar a espontaneidade do gesto na pintura. que eles recuperariam como uma espécie de tributo aos grandes mestres anônimos da Idade Média. “Permitir que vida e arte voltassem a constituir-se em um todo harmônico através de um fazer puro e naïf”. que obrigava o artista a desenvolver um vocabulário mais econômico e abstrato. forçando a mesma novamente para dentro da esfera da vida cotidiana. a arte medieval interessava profundamente os artistas da Brücke. por seu caráter direto e não refinado. Porto. dentre muitos outros. entre 1905 e 1910. As esculturas africanas e de outros povos não europeus. Sua produção vigorosa e claramente distinta das demais manifestações européias de vanguarda. portanto. Assim. como o caminho privilegiado para o desenvolvimento de uma nova arte. mas passaria a ser inteiramente integrada às atividades cotidianas do grupo. os artistas investiram em formas coletivas de convivência. durante os meses mais frios. pois elas eram consideradas como exemplos de uma perfeita integração entre as funções estética e ritualística naquelas sociedades. que se tornaria ativa no período do pós-Primeira Guerra imediato. uma vez que também aludia a uma época anterior à perda de uma função social para a arte. como Conrad Felixmüller. nesse sentido. prioritariamente em modalidades alternativas e mais espontâneas de convivência grupal. exerciam sobre eles um fascínio especial. dos artistas da Brücke. por assim dizer. assim definiu Kirchner certa vez os objetivos da pequena sociedade. Nesse contexto a xilogravura. pretendia significar essa “travessia” de um estilo de vida a outro. uma técnica muito usada na Idade Média e abandonada definitivamente no século XIX. tela de Ernst Ludwig Kirchner (1914/26). A pintura da Brücke teve grande influência sobre a geração mais jovem de artistas alemães. transformando a pintura numa forma de extensão desses gestos libertadores. que visava o bem-estar de toda a comunidade. estando a ênfase primeiramente na espontaneidade do gesto. que os artistas puderam estudar no museu etnográfico de Dresden. Do interesse por uma junção entre arte e vida desenvolveu-se também o fascínio desses artistas pela arte assim chamada “primitiva”. o nascimento de uma nova arte era vista como a conseqüência natural da transformação 5 6 Cult. sobre a qual se estruturavam os ideais revolucionários do grupo. Assim. o mais despojadas possíveis de preceitos e regras sociais. durante os anos ativos da Brücke em Dresden. o que é facilmente reconhecível nos quadros. inventado por Schmidt-Rottluff. Dentro dessa perspectiva. Otto Griebel. Da mesma forma. tanto pelas posições naturais – não estudadas – assumidas pelo modelo quanto pela velocidade das pinceladas e espontaneidade das soluções composicionais.

os artistas fundadores do grupo Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul) respondiam de forma bastante diversa ao mesmo problema.C u l t 5 7 . a nosso ver.Acima. por assim dizer. a humanidade seria capaz de formular novas visões. fundado em 1911 por iniciativa de Kandinsky e Franz Marc e a participação de August Macke. Porém. algo impossível de ser encontrado. em primeiro lugar. à teoria das cores e formas desenvolvida por Wassily Kandinsky. desenvolvendo suas teorias sobre a atividade psíquica das formas em diferentes publicações. onde comparações formais eram traçadas entre obras de contextos os mais diversos possíveis. gramática essa que pudesse verdadeiramente servir à expressão do mundo interior do artista. como veremos. por sua vez. sendo capazes de descobrir identidades entre as mais diversas manifestações artísticas da humanidade. O expressionismo de Munique: Der Blaue Reiter Enquanto os artistas da Brücke buscaram libertar a arte da esfera do puramente estético. para usar as famosas palavras de Novalis. tela de Wassily Kandinsky (1908). visando apontar para a existência de um princípio criativo comum. uma outra vertente do expressionismo alemão bastante diversa da Brücke. do artista. a questão da renovação da arte passaria por uma intensa pesquisa formal. e profundamente inspirado nestes – resumiria. portanto. superado. responderia ao desejo contemporâneo de desenvolvimento de uma arte singularmente “alemã”. Para esses artistas. do qual Lasar Segall foi membro fundador em 1919. a base de suas pesquisas futuras encontra-se exatamente em suas reflexões do período do outubro/2000 . ao contrário do que pregavam os membros da Brücke. marcaria. dando os primeiros passos em direção ao abstracionismo. Gabrielle Münter (primeira esposa de Kandinsky) e Alexander von Jawlensky. e que deu o impulso inicial para o desenvolvimento da pintura abstrata). portanto. Tal tratamento explícito da pintura como linguagem (evidentemente estamos nos referindo aqui. (O passo definitivo dado em direção a uma arte inteiramente não representativa ocorre apenas com o “Quadrado negro” de Kasimir Malevich. Tal postura. Apenas através da arte. onde ela havia sido confinada desde Kant. (Pensamos aqui especialmente no modelo do “triângulo espiritual” proposto por Kandinsky no capítulo “O movimento” de seu livro Do espiritual na arte. organizado por Kandinsky e Marc em 1912. Esses artistas possuíam uma visão trans-histórica de arte. dando forma a suas visões proféticas destinadas a “romantizar o mundo”. talvez. uma das principais contribuições do pensamento teórico dos artistas do Der Blaue Reiter para a História da Arte. por volta de 1913-15). Casas em Munique. Kandinsky iria ocupar-se durante muitos anos com essa questão. O grupo. era precisamente a autonomia da dimensão estética que deveria garantir o espaço para o nascimento de uma atitude espiritual diante do mundo. encontrou sua melhor expressão no Almanaque der blaue Reiter. cubismo e o futurismo. ilustração de Conrad Felixmüller para o primeiro programa do Dresdner Sezession Gruppe. profundamente cosmopolita. apenas pelos cubistas –. e. como condutoras da humanidade a graus cada vez mais elevados de vida espiritual. nas obras dos expressionistas de Munique. de onde emergiria uma nova “gramática” para a pintura. fazendo-a brotar revigorada de uma nova relação com a vida e o cotidiano. mesmo que sua arte ainda estivesse cunhada na noção de uma “representação” do mundo interior do artista.) Assim. Ao lado. que funcionariam.

O gótico. As formas tradicionais já tinham sido bombardeadas. A luta pelas palavras e pelos programas chegou ao fim (…). como já mencionamos. logo após o início da guerra. por sua vez.Cavaleiro Azul. discurso. juntamente dos outros cidadãos russos do grupo. um dos mais engajados jovens artistas de sua geração. Tínhamos teorias. agora era saudado como manifestação pura de um “espírito alemão”. Franz Marc e August Macke morreriam nos campos de batalha pouco tempo depois e nos anos seguintes podemos observar uma sensível perda de interesse pelas posições do grupo em favor de preocupações nacionalistas. o isolamento da Alemanha gerou internamente uma procupação com questões de identidade e nacionalidade. as teorias de Kandinsky sobre arte tornamse cada vez mais populares na Alemanha e ele conseguiu uma projeção importante no cenário cultural do país. na cena artística alternativa era a revolução social que se exprimia no mundo intelectual. especialmente da Die Aktion de Pfemfert. O que faltava. tal otimismo deu lugar a protestos e provocou uma rápida politização do expressionismo. também se faziam sentir. principalmente no caso de artistas ligados ao Partido Comunista (KPD). uma certa decepção em relação às utopias expressionistas. A segunda geração expressionista A Primeira Guerra significou uma reviravolta completa nos cursos do movimento expressionista na Alemanha. por exemplo.” (“Menschen. ao rememorar o período de guerra: “Fortes discussões em torno do futurismo.. gemalt”. o conteúdo. Muitos artistas se alistaram voluntariamente como soldados. nos dá o tempo presente”. da forma como os pintores do grupo Der Blaue Reiter. Porém. expressionismo. escreveria o importante crítico de arte Julius Meier Graefe. de Munique. diria. vemos estabelecer-se aos poucos uma . arte deveria ser confissão. Reações a essa postura conservadora. com o início da guerra. através de revistas. gezeichnet. gerando novos movimentos. como Felixmüller e Griebel. em grande parte ausentes entre artistas da geração anterior. em Die Hören) Ao mesmo tempo. erlebt. Kandinsky viu-se obrigado a deixar a Alemanha. acreditando que o conflito abriria caminho para um novo futuro: “A guerra nos presenteia. o entendiam. Somos 5 8 Cult. Em decorrência dessa nova atmosfera. A situação humana e política exigia mais do que um estilo estético. ou da Brücke. especialmente através de seu vínculo com o editor e galerista berlinense Hewarth Walden. foi rejeitado como uma nova forma de brincadeira estética ou como ‘negroidismo primitivo’. Porém. Nesse processo. conteúdo. meus irmãos. publicado em 1910.outubro/2000 outros desde ontem. como o Dadá e o verismo. Por fim. na linguagem e na forma dos poetas de então. Durante os anos do pré-guerra. isso. tornavam a cena artística alemã ainda mais complexa. mais especificamente em seu pequeno livro Sobre o espiritual na arte. com o avançar dos anos e o acúmulo de mortos no front. que prometiam transformar a humanidade através da arte. cubismo e abstração animavam então o mundo das artes. o expressionismo.. Felixmüller. que interessara os artistas da Brücke devido ao caráter coletivo e “primitivo” de suas realizações.

abandonaram até certo ponto uma reflexão formal sobre arte. praticamente nenhum artista que se considerasse “filho de seu tempo” (segundo expressão usada por Kandinsky e que se tornou muito popular entre os críticos e artistas do começo do século) adotava uma linguagem expressionista. politizados pela militância contra o regime guilhermino. e da qual nasceria. a paisagem cultural alemã tinha se transformado inteiramente. O expressionismo era agora o grande portador das esperanças de uma arte nacional. mais tarde a Bauhaus. linguagem expressionista mais homogênea. Dama. preocupando-se prioritariamente com a expressão de conteúdos. mas perdendo cada vez mais a sua força. xilogravura de Franz Marc (1912). tal como ela ocorrera antes da guerra. logo em seguida. que explicitaria pela primeira vez esse sentimento de fracasso do expressionismo. Quando a guerra chegou ao fim. agora passaram a se organizar em grupos. aquarela de George Grosz (1925). iniciando um movimento que viria a ser conhecido como Nova Objetividade. Lagartixas. a descrença no discurso expressionista. Ela preencheu seu objetivo. diria ele. tornando-se freqüentemente afetada e melodramática. Impõe-se a seleção. Ela pode ir embora.Na página oposta à esquerda. publicaria um artigo de Wilhelm Hausenstein. Em 1920 a Kunstblatt. que possuía um largo número de associados. Porém a instabilidade econômica e política que se seguiu ao início da República de Weimar reforçou. tedioso na vida e na morte”. como a Dresdner Sezession – da qual Lasar Segall foi membro fundador em 1919 – ou a Das Junge Rheinland de Dusseldorf. Porém outras organizações similares foram criadas em outras províncias na época. preocupados com a expressão de suas intensas experiências. porém menos experimental e com um pathos cada vez maior. A principal dessas organizações foi sem dúvida a Novembergruppe de Berlim. Como era destino de todas as vanguardas. reavivou por pouco tempo entre os artistas as esperanças na construção de uma sociedade melhor. À esquerda.C u l t 5 9 . bastante baseada nas formas desenvolvidas por artistas do pré-guerra. tendo sido seguido de perto por artistas como George Grosz e Otto Griebel. Depois desse veredito. Claudia Valladão de Mattos doutora em história da arte pela Universidade de Berlim e autora do livro Lasar Segall – Expressionismo e judaísmo (editora Perspectiva) outubro/2000 . também o expressionismo chegara a seu fim. Otto Dix. o expressionismo sobreviveria ainda por algum tempo. com todas as qualidades acadêmicas. ao lado. que ajudou a pôr fim ao regime imperial. ao lado capa da revista Die Aktion (de 1911 a 1918). que dessem conta da experiência trágica da Alemanha daqueles anos. Um resto de populismo expressionista ainda termina tardiamente. “A categoria não diz mais nada. Os sinais de enfraquecimento das utopias expressionistas agora podiam ser claramente sentidas. uma das principais revistas de vanguarda da época. Criou-se por fim uma espécie de “expressionismo padrão”. A ativa participação na assim chamada “Revolução de Novembro”. usado por todos os jovens artistas que desejassem se exprimir em uma linguagem “moderna”. Auto-retrato de Otto Dix (1922) e. um dos primeiros artistas a procurar novas formas de expressão. que deveria crescer e florescer dentro da nova República e os artistas. Por volta de 1925. abandonaria a linguagem cheia de pathos do Expressionismo por uma descrição crítica da realidade. Os artistas. agora bastante generalizado: “O expressionismo está morto”.

Nesse sentido. 6 0 Cult. à qual parecia insignificante o “de onde” e o “para onde”. falada. entretanto já desaparecera. da música e das coisas são extraídos somente aqueles elementos cujos valores de expressão correspondem ao estado espiritual do artista. a destruição da sintaxe tradicional: do fluxo da linguagem. ambos de . à pintura e à música. de Oskar Kokoschka (1907/1910). Assassinos. Seu objetivo não era a destruição da sociedade e cultura burguesas. essa Weltanschauung originou formas específicas de expressão. o odiado império wilhelmínico – e a Guerra Mundial evocada por ele. arquitetos. cujo nome a princípio não é ligado ao expressionismo (mais tarde Friedrich Wilhelm Murnau seria chamado “o Reinhardt do cinema”). O teatro e o cinema expressionistas. a “pequena forma” da pintura) parecia cair como uma luva para a representação de estados de êxtase. a correção de sua degeneração. na Alemanha e na Áustria sobretudo no período da Primeira Guerra. também deu a sua contribuição com a fundação do palco experimental no “Teatro Alemão” e do grupo “A Jovem Alemanha". muitos artistas plásticos: Dia morto (1906/07). de Wassily Kandinsky. Através desses elementos de ligação o próprio movimento expressionista é algo como uma “obra de arte total” (Gesamtkunstwerk). Formador de estilo. A “forma curta” (a poesia. como plano de atrito central e aglutinador. Estilisticamente. do idealismo alemão. o grande Max Reinhardt. escultores. nas palavras do filósofo Ernst Bloch. esperança das mulheres (1907/10). as “peças curtas” da música típicas daquele período. em relação à literatura. por exemplo. o expressionismo é a última tentativa de renovação. situados no centro. pintores.Uma arte total Teatro e cinema são formas tardias de manifestação de um movimento que representa a última tentativa de renovação do idealismo alemão Bruno Fischli que buscavam em todos os gêneros artísticos a sua respectiva configuração. Era comum a todos o protesto contra a realidade dominante. são “temporãos”. à qual o indivíduo se opunha com “enigmáticos arrebatamentos do sujeito”. músicos. o “drama em estações”. Enquanto essas O expressionismo alemão não foi primordialmente um estilo: foi um posicionamento com relação ao mundo (em alemão temos para isso a belíssima palavra Weltanschauung) que abrangeu toda uma geração de artistas. Contudo. como mais tarde chamou com ironia o originalmente expressionista Bertolt Brecht) e a fraternidade universal baseada nele. desligada dos problemas sociais concretos. É comum a eles. dos quais participaram. poetas. cor e espaço servia sobretudo para a representação dos estados de espírito dos seres sensíveis. no qual estava inserido também o momento utópico: o “novo Homem” (uma espécie singular de Humanidade. não por acaso. fotógrafos e cineastas. o teatro e o cinema são filhos da República de Weimar (1918-1933). mas a sua renovação. ou O som amarelo (1909/10). do movimento e do espaço. atores. assim como da musical). Ligada a isso está a ritmização da linguagem (escrita. O uso simbólico de luz.outubro/2000 tramavam sua revolta expressionista sobretudo antes e durante a Primeira Guerra. falantes e atuantes. afinal de contas. Talvez justamente por isso o conceito de estilo “expressionismo” seja particularmente discutível nesses dois gêneros artísticos. de Ernst Barlach. precederam a manifestação do teatro expressionista na República de Weimar experimentos teatrais quase clandestinos.

assim como Guilherme Tell (Berlim. um clássico da literatura dramática expressionista. O verdadeiro momento de nascimento do expressionismo teatral é marcado. O consciente afastamento da realidade física. sem ser expressionista no sentido restrito do termo. a forma de falar eruptiva e extática. de Georg Kaiser (que aliás até 1905 viveu na América Latina. não por último. já em 1917 ele montou naquela cidade O mendigo. 1919). Krauss atuava de forma tão concentrada que parecia fazê-lo com os sentidos invertidos: ele via o som e ouvia o movimento”. porém. ou nos dramas Os oficiais (1911) e Uma geração (1917). inclusive no Brasil). já continha detalhadas marcações de cena para uma utilização completamente nova. a dramaturgia que lhe servia de base lhe precedia em quase uma década. sem o qual o cinema expressionista seria quase inimaginável: Fritz Kortner. de luz. de Walter Hasenclever.C u l t 6 1 . Dentre os dramaturgos mais produtivos estão. 1919). Um outro astro do teatro daquele tempo se tornou também um astro da sétima arte. espaço. Era comum a essas três montagens a tentativa de reteatralização do teatro. no início da República de Weimar. escreveu Herbert Ihering. em parte. por exemplo. de Leopold Jessner. o andamento acelerado – tudo servia para conferir expressão às oprimidas figuras principais dos dramas. ao lado. esboço de Paul Leni para o filme Escada de serviço. A alta das montagens expressionistas. de Reinhard Goering. em De manhã até a meia-noite (1912) e Os cidadãos de Calais (1914). na qual o jovem Werner Krauss comemorou um sucesso fulminante e talvez por isso tenha sido alçado a astro do cinema expressionista (“Caligari”): “A palavra era o gesto. assim como Arnolt Bronnen (o antes amigo de Brecht e posterior fascista) e Hanns Johst (que em 1935 se tornou presidente da “Câmara Imperial de Literatura” nacional-socialista). Embora o teatro expressionista tenha se desenvolvido completamente depois da Primeira Guerra. apologista do teatro expressionista. cor e espaço para a representação de estados psíquicos e anímicos. de Reinhard Sorge. a mesma cena no filme de 1921. cor. A maior parte dos dramaturgos da República de Weimar foi influenciada pelo expressionismo. o emprego de luz. 1918). por três apresentações formadoras de estilo: as montagens de Richard Weichert de O filho (Mannheim. e em 1918 A batalha naval. a ritmização da linguagem e do movimento e. música e linguagem corporal – assim. Nas duas últimas montagens citadas.Acima. o já mencionado e multitalentoso Ernst Barlach. Por volta do final dos anos 20. no exílio americano). o expressionismo foi menosprezado como mero fenômeno de moda e tempo e outubro/2000 . e. expressionista. Fritz Kortner fazia o papel principal. de Fritz von Unruh. e a de Karl Heinz Martin de A mudança (Berlim. desencadeou uma verdadeira onda de dramaturgia expressionista. O crítico Emil Faktor caracterizou suas “formas de expressão” entre “o patético inflamável pelo calor e a sensualidade nervosamente bruxuleante”. que por sua vez eram encarnações de uma “idéia”. ao lado de Georg Kaiser e Fritz von Unruh. Ernst Toller (que mais tarde trabalhou com Erwin Piscator e se suicidou em 1939. Berlim. Ela. e com isso ele também deu o fundamento para a posterior fama do cinema. de Ernst Toller. a palavra tornou-se corpo.

Metrópolis (1925/26) ou M (1930) seriam tão inimagináveis quanto A passagem pela noite (1920). perante a ortodoxia marxista: “A herança do expressionismo ainda não acabou. os gestos exagerados de Werner Krauss (Dr. Caligari) e Conrad Veidt (Cesare). o emprego de efeito de luz e sombra. Não aconteceu de forma muito diferente com o cinema expressionista. os méritos do cinema alemão daqueles anos residem claramente no campo da encenação (fortemente influen- ciada por Max Reinhardt). de Robert Wiene (originalmente Fritz Lang deveria assumir a direção). Nosferatu (1921/22). Castelo Vogelöd (1921). uma atmosfera que na Alemanha nazista acabou por determinar a vida social. Claro está que sem o Caligari de Fritz Lang.Cena do filme O gabinete do Dr. o jogador (1922). mais próxima da realidade. Cena do filme Dr. Fizeram escola a desfiguração subjetiva das construções e dos espaços. De Caligari a Hitler. por exemplo.outubro/2000 nele se tornava manifesto. que 6 2 Cult.” Bruno Fischli diretor do Goethe-Instituto São Paulo tradução de Claudia Cavalcanti . Mabuse. mostravam-se então em uma forma estatalmente conduzida e canalizada – e ali se torna visível a forma politicamente ambivalente dessa revolta burguesa. Enquanto o cinema americano e russo dos anos 20 foi inovador na montagem de filmes. quase todo o cinema da República de Weimar foi e é denominado expressionista. com a iluminação. A Cinemateca Brasileira mostrará dez desses filmes neste mês de outubro. a artificialidade e o simbolismo dos bastidores e cenários. A rigor houve também aqui um modelo que. característicos do expressionismo. a redução das pessoas agentes às suas características essenciais. contudo. de Paul Wegener). A morte cansada (1921). Com estes e outros filmes expressionistas pôde-se finalmente mostrar ao público burguês a pretensão artística do novo meio de expressão. com o movimento de câmera e com a representação. substituído pela “Nova Objetividade”. De forma errônea. sem que ali o indivíduo. assim como o desinteresse. de Paul Leni. pela “realidade física” (Siegfried Kracauer. ou mesmo suas obras-primas. atraiu toda uma geração de cineatas: O gabinete do Dr. Os elementos extáticos e irracionais. em grande parte em versões restauradas e com música ao vivo. pois ainda nem se deu início a ela. que em seu famoso livro. Caligari. tivesse ainda o seu lugar. Ficou a fascinação sempre exercida por esse último movimento artístico total. de 1914. E nisso veio-lhe certamente ao encontro o grande e geral interesse pela arquitetura fantástica (lembre-se de Bruno Taut ou de Hans Poelzig. de uma forma ou de outra. Escada de trás (1921). de Robert Wiene (1919). de Friedrich Wilhelm Murnau. que foi o responsável pelo desenho fílmico de O Golem. apresenta um estudo sociopsicológico e político desses filmes. em cooperação com o cenário. vê em sua salvação a missão social do cinema). O último homem (1924) e Fausto (1926) – sem falar em De manhã até a meia-noite (1920). tão central para o indivíduo. de Karl-Heinz Martin. na concorrência com outras indústrias filmográficas nacionais. antes de ser difamado e proibido pelos nazistas como “arte degenerada”. que em 24 de janeiro de 1920 foi mostrado em préestréia e no qual Werner Krauss era o protagonista. de Leopold Jessner ou Gabinete das figuras de cera (1924). Os filmes expressionistas eram admirados no exterior por causa de sua atmosfera sombria e sinistra. Talvez ainda valha a defesa de Bloch pelo movimento. diante das hegemonias americana. Mabuse. Dr. Caligari. francesa e italiana. de Fritz Lang (1922). mas um pouco melhor: com ele a indústria filmográfica alemã conseguiu produzir algo inconfundível e com isso se afirmar.

o inferno do crime (Na sessão das 20h30 o filme será apresentado em 20q/s) 10 de outubro. 18h e 20h30 Dr. Vetter. terça-feira. quinta-feira. 11/5084-2177 Ingressos: de 3ª a 5ª – R$ 6. sábado. de Friedrich Wilhelm Murnau 6 de outubro. 991 tel. de Paul Leni 12 de outubro. De 3 a 12 de outubro – Sala Cinemateca Largo Sen. 19h30 e 22h 22 de outubro. 19h30 O Expressionismo Alemão e sua Influência sobre o Modernismo Brasileiro Participantes: Andreas K. quarta-feira. crítica de dança de O Estado de S. 53). de Friedrich Wilhelm Murnau 12 de outubro. Regina Porto. domingo. o filme será apresentado em 20q/s) 8 de outubro. da reflexão estética e da dança.00 3 de outubro. diretor do Museu Lasar Segall (moderador).Paulo. 26 de outubro. radiomaker premiada pela emissora alemã WDR e editora de música da revista Bravo!. 20h30 Segredos de uma alma (1925-26) de Georg Wilhelm Pabst Além dos eventos destacados neste quadro. Raul Cardoso.D. tel. e Bruno Fischli. e Margarida Sant'Anna. com participação da cantora Suzana Salles (foto). 11/6096-8143 outubro/2000 . Staatgalerie Stuttgart. 18h e 20h30 Dr. professora de língua alemã no CEL/ Unicamp e pesquisadora e pós-doutoranda em literatura alemã na USP. 20h30 O castelo Vogelöd (1921). Mabuse. Veja a seguir a programação completa elaborada pelo Instituto Goethe em parceria com a Cinemateca Brasileira. professora de cinema do Depto. 20h30 Escada de serviço (1921). Entrada franca 19 de outubro. Leon Kossovitch. diretor do Instituto Goethe São Paulo (moderador). quarta-feira. 19h30 O Expressionismo e sua Época Participantes: Henning Ottmann. sexta-feira. professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. crítica de cinema e articulista da Folha de S. 2ª Parte: Dr. 19h Sesc Belenzinho Rua Álvaro Ramos.C u l t 6 3 . de Multimeios da Unicamp e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. na Música. quinta-feira. 20h30 Da aurora à meia-noite (1920). de Leopold Jessner e Paul Leni 11 de outubro. na Dança e na Literatura Participantes: Helena Katz. musicista. 19h30 O Expressionismo no Cinema. DANÇA – “AFFECTS” Espetáculo do grupo B. 9 de novembro. São Paulo sedia este mês uma série de eventos sobre esse movimento artístico nos campos do cinema. terça-feira. acontece no dia 5 de outubro o lançamento da antologia Poesia expressionista alemã (veja boxe na pág. 20h30 O gabinete das figuras de cera (1924).C.Paulo e da TV Cultura. Caligari (1919). professor do Departamento de Filosofia da USP. produtora. coordenadora do mestrado e do Centro de Estudos em Dança do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. de Karl-Heinz Martin 5 de outubro. 20h30 Caminhando na noite (1920). Marta Rossetti. Lúcia Nagib. 20h30 O gabinete do Dr. Mabuse (1922). 11/5549-9688. e do encenador e bailarino Tom Plischke 21 de outubro. São Paulo.CICLO TRAZ CINEMA EXPRESSIONISTA A SÃO PAULO Além da exposição Expressionismo alemão e do lançamento da antologia Poesia expressionista alemã. de Robert Wiene 4 de outubro. Susana Kampff Lages. de Friedrich Wilhem Murnau 7 de outubro. o MAM e o Sesc: CLÁSSICOS DO CINEMA EXPRESSIONISTA ALEMÃO Mostra de filmes com música ao vivo do grupo Gargântua e exposição de cartazes originais de filmes expressionistas do acervo da Cinemateca Brasileira. titular de Ciência Política na Universidade de Munique. MESAS-REDONDAS – A REVOLTA CULTURAL DO EXPRESSIONISMO Museu de Arte Moderna de São Paulo Parque do Ibirapuera – Portão 3 tel. Mabuse.00/de 6ª a domingo R$ 8. e Marcelo Araújo. pesquisadora do MAM-SP (moderadora). de Fritz Lang (Na sessão das 20h30. 207. 18h A última gargalhada (1924). quinta-feira.

exceto belíssimas matérias como a de Marilena Chauí [CULT 35]. Além das citadas Marilena Chauí. Queria sugerir um dossiê sobre o poeta Mário Faustino. há poucas entrevistas e ou dossiês sobre escritoras. Rui Barbosa. Jorge Alberto por e-mail Nietzsche Desde que conheci e. publicamos entrevistas com a romancista sul-africana Nadine Gordimer [CULT 5] e com a ensaísta Beatriz Sarlo [CULT 35]. Sou antigo admirador da obra do filósofo alemão e também estudante de direito e. conhecido pelo seu estudo minucioso da obra do escritor tcheco. Elisa Sayeg por e-mail Parabéns pela CULT. teóricos. Ele tem uma obra vastíssima. colocaram um brilhante ensaio de Stélio Marras. tenham tão pouca educação. aí vai um desafio para o editor: que tal um mapa deleuziano da literatura? Magda Garcia por e-mail Mário Chamie Em primeiro lugar. até mesmo no caso de novos escritores. dispensa maiores comentários. porque a matéria sobre o Nietzsche é simplesmente extraordinária. São Paulo. fui arrebatado. apesar de “desconhecido”. parabéns pela revista.D o l e i t o r C U L T Cartas para a revista CULT devem ser enviadas para a Lemos Editorial (r. vi-me impelido a escrever para a seção “Do leitor”. Parece-me que o que faltou mesmo foi cada um se ver em seu devido papel e relevância. Alonso Torres por e-mail alto. Alfredo Cesar Melo por e-mail seu conceito de rizoma. ao perguntar ao meu jornaleiro pela edição do mês [de agosto]. quando vão lançar? Outra coisa importante. CEP 01326-010). que. tenho me esforçado no sentido de fazer uma ligação entre a doutrina nietzscheana e a filosofia do direito. Thiago Mota por e-mail Escritoras Sou assinante Cult e me felicito por isso. Primeiro. feito em “Kafka.com. Sou assinante da CULT e estou muito satisfeito tanto com o conteúdo como com o projeto gráfico. 5. Os textos publicados nesta seção poderão ser resumidos ou publicados parcialmente. via correio eletrônico. que chegou ao mercado editorial brasileiro suprindo uma grande lacuna de competência na reflexão teórica e crítica e de atualização do conceito estético e técnico das publicações especializadas em literatura. Gilberto Freyre Gostaria de parabenizar pela excelente edição da CULT sobre Gilberto Freyre [n. sua virtuosidade fala. Mas tenho um pedido a fazer. Lygia Fagundes Telles [CULT 23] e Clarice Lispector num dos primeiros números da CULT [n. em vez de se utilizar de algum ensaio das figurinhas marcadas do cenário cultural brasileiro. fará um ano da morte do ensaísta e crítico literário José Guilherme Merquior. Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector. 11/251-4300 e. comecei a consumir a CULT. junho/2000]. que é ótima e abre espaço para importantes ensaios. Entretanto. que se destacou tanto no campo poético como na crítica literária. Melhor ainda. pois todos são professores. não só ele. E. Sou um fã incondicional do autor de A metamorfose. Considero isso uma falha. tanto de um lado como de outro. Por que não aparecem as escritoras tanto quanto os escritores? Concordo que.outubro/2000 Resposta da redação Agradecemos as sugestões. como o longo analfabetismo das mulheres. sem alteração de conteúdo. que serão aproveitadas em breve num dossiê da CULT. Infelizmente. É uma pena que as pessoas envolvidas. dossiês. Sou mestranda em Estudos Literários da UFMG e gostaria de elogiar o número dedicado a Kafka e à relação da sua obra com a América. entrevistas. Em janeiro do próximo ano (2001). por dois motivos: para parabenizálos e para agradecê-los.br”.comum dos elogios melosos. pois já fui vítima de péssimas traduções. justamente por circunstâncias sociais históricas. 32. Com tudo de arrogância que há nessa posição. Seria interessante lembrarem se disso. No entanto. . mas vários outros bons autores brasileiros ficam um tanto esquecidos e necessitam ser resgatados. como no caso de O processo. para o e-mail “cult@lemos. Gostaria muito de ver uma reportagem especial sobre Deleuze e o 6 4 Cult. talvez por medo de cair no lugar. é preciso notar que a revista nunca deixou de dar espaço para as escritoras. automaticamente. desenvolvida no Jornal do Brasil na década de 50. Segundo. por si só. ainda não havia chegado a concretizar esse impulso. diferencia a civilização da barbárie. só destacam os homens escritores. Em geral. Cada um se coloca (com alguma exceção entre os leitores) como “o” intelectual e ponto. Gostaria também de saber se vocês já lançaram algum dossiê sobre Guimarães Rosa. Porém. Estou falando de educação como aquele respeito necessário pelo outro que. críticos. Ainda bem que há pessoas (na revista) preocupando-se em contribuir com uma reflexão séria sobre a cultura (como João Alexandre Barbosa). por uma literatura menor”. Um dos meus teóricos de pesquisa é Gilles Deleuze. Mensagens via fax podem ser transmitidas pelo tel. O dossiê “Nietzsche 100 Anos” (CULT 37) me compeliu definitivamente a escreverlhes. Gostaria de comentar a polêmica que envolveu o poeta Mário Chamie [entrevistado na CULT 32] e leitores que responderam na seção de cartas [CULT 34]. pois. Virginia Woolf e Pearl Buck ? Janyne Sattler por e-mail Kafka Gostaria de dar os parabéns pelo dossiê sobre Kafka [CULT 36. março/2000]. dezembro/1997]. e Sinto falta de uma maior visibilidade para a literatura escrita por mulheres na CULT. Que tal começar pela irônica Jane Austen. isso sim. a despeito da proferida incompatibilidade que haja entre os dois temas. conte-se com um número menor delas tanto na literatura como em qualquer outra arte. E estou falando aqui não da educação formal. além de sempre termos dado espaço equivalente para homens e mulheres nas resenhas e nas seções de criação literária. Um dos pontos principais que encontrei para os iniciantes em Kafka foi a indicação das traduções de Modesto Carone. Se não. mostrou-se excelente. porque a matéria veio inteiramente a calhar para um trabalho de pesquisa que venho desenvolvendo. 70. que tanto tem influenciado a literatura contemporânea.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->