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A UNESCO anunciou o ano de 2009 como “o ano de Gógol” e inúmeras exposições e eventos estão previstos para este ano na Rússia e no mundo todo em comemoração ao bicentenário do nascimento deste gigante da literatura russa. Personalidade bastante singular, altamente enigmática, Gógol deixa-se revelar em mutiso de seus escritos. A obra de Gógol como um todo tem sido considerada por uma parcela da crítica como expressão satírica da realidade russa na primeira metade do século 19, detectando-se uma maneira peculiar de “ver” o mundo e as coisas, isto é, sua “óptica desautomatizante”. O traço da obra gogoliana se revela por meio de uma espécie de acumulação absurda de detalhes que fazem da realidade um aglomerado de elementos contraditórios, mas que revelam na sua mais profunda essência, tornando esse caos fantástico e desconexo a sua mais fiel expressão. Nos textos de Gógol o sobrenatural e o inusitado surgem naturalmente do real e o absurdo que daí resulta se destaca do cotidiano mais comezinho no qual todos os opostos se tocam e onde o trágico e o cômico se mesclam a elementos de terror e humor. Os textos de Gógol são, portanto, poesia em ação e, como tal, podem desvelar os mistérios do irracional, mesmo que, muitas vezes, sob as máscaras da racionalidade.

Sumário
Personagens ......................................................................... 11 Ato 1 ........................................................................................ 13 Ato 2 ....................................................................................... 41 Ato 3 ........................................................................................ 69 Ato 4 .......................................................................................105 Ato 5 ...................................................................................... 157

O Inspetor Geral
Comédia em 5 atos (1836) A culpa não é do espelho se a cara é torta. Provérbio popular

Personagens
Antón Antónovitch Skvozník-Dmukhanóvski: prefeito Ana Andréievna: sua esposa Mária Antónovna: sua filha Luká Lukítch Khlópov: inspetor de escolas Sua Esposa Amós Fiódorovitch Liápkin-Tiapkin: juiz Artémi Filípovitch Zemlianíka: encarregado da assitência social Ivan Kuzmítch Chpékin: chefe dos correios Piótr Ivánovitch Dóbtchinski: pequeno proprietário de terras Piótr Ivánovitch Bóbtchinski: pequeno proprietário de terras Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv: funcionário de Petersburgo Óssip: seu criado Khristian Ivánovitch Guíbner: médico da província Fiódor Andreiévitch Liuliukóv: aposentado, cidadão respeitado Ivan Lázarevitch Rastakóvski: aposentado, cidadão respeitado Stepan Ivánovitch Koróbkin: aposentado, cidadão respeitado Stepan Ilitch Ukhoviórtov: comissário de polícia Svistunóv: policial Púgovitsin: policial Derjimórda: policial Abdúlin: comerciante Fevrônia Petróvna Pochliópkina: a mulher do serralheiro Michka: criado do prefeito Um criado de hotel Convidados e convidadas, comerciantes, pequenos burgueses e solicitantes

Está a caminho um inspetor geral. correndo os olhos com rapidez.) “. meus senhores. ainda por cima.” Ah! Aqui: “A propósito.. cheiraram e foram embora. compadre e benfeitor”. o comissário de polícia.Ato 1 Sala na casa do prefeito. aquele que o senhor. apresso-me em informá-lo de que chegou um funcionário autorizado a inspecionar todo o estado e principalmente o nosso distrito.em informá-lo. Prefeito Chamei-os aqui. conhece bem. de tamanho sobrenatural! Chegaram bem perto. Artémi Filípovitch.. apesar de o ditocujo se apresentar . Cena 1 O prefeito. Amós Fiódorovitch Essa não!! Artémi Filípovitch Era só isso que faltava!! Luká Lukítch Santo Deus! E ainda por cima em missão secreta! Prefeito Eu bem que pressentia: sonhei durante toda a noite com duas ratazanas impressionantes. o juiz. em missão secreta.. E.) Soube disso por meio de gente de confiança. o inspetor de escolas. Palavra de honra. (Levanta um dedo de forma significativa. Olha o que ele escreve: “Meu caro amigo. nunca vi nada parecido: pretas. (Balbucia palavras a meia-voz.. para lhes dar uma notícia bem desagradável.. o médico e dois policiais.. Amós Fiódorovitch Como? Um inspetor?!! Artémi Filípovitch Como? Um inspetor?!! Prefeito Um inspetor de Petersburgo. o encarregado da assistência social. incógnito. Vou ler para os senhores a carta que recebi de Andrei Ivánovitch Tchmykhov.

Artémi Filípovitch! Sem dúvida nenhuma. como todo mundo.” (Interrompe. Prestem atenção: de minha parte. Ontem eu. se é que já não chegou e está hospedado incógnito em algum canto. quando o sujeito adoeceu. Vejam só que situação.. só se meteram com outras cidades. E também em cada cama deve-se escrever..” e etc.. em latim ou em qualquer outra língua — isto já é com o senhor. Antón Antónovitch. E seria ainda melhor se tivéssemos menos pacientes: podem até achar . que faz a gente espirrar. averiguar as instituições da assistência social sob sua responsabilidade. Luká Lukitch Mas para quê... faça tudo ficar bem decente: os gorros devem estar limpos para que os doentes não pareçam ferreiros como sempre.. data. eu quero dizer. Prefeito Isso mesmo. Esses superiores são bem espertos: mesmo longe. nem viajando três anos seguidos você pode chegar a algum lugar. tem lá os seus pecadilhos.. Amós Fiódorovitch Eu acho. É o seguinte: a Rússia. Também não é bom que os seus pacientes fumem um tabaco tão forte.. o ministério manda um funcionário espionar se há traição em algum lugar. “.então aconselho-o a tomar precauções.. hora... por isso. o tal funcionário vai querer.. Que situação extraordinária.. antes de mais nada.. que isso aí tem uma razão mais sutil e bem política.. etc. os senhores já estão avisados. mesmo porque ele pode chegar a qualquer momento.” Bem. Amós Fiódorovitch Não. não é bem assim. logo ao entrar. já que estamos entre nós. o senhor não. Como sei que você. estão sempre de olho vivo. Khristian Ivánovitch -. Prefeito Mas que asneira! Um homem inteligente como você! Traição numa cidadezinha dessas! Por acaso estamos numa fronteira? Daqui desta cidade. é isso mesmo. Principalmente o senhor. Ivan Kirílovitch engordou muito e continua tocando violino. para que isso? O que vem fazer aqui um inspetor? Prefeito Por quê?! Só pode ser coisa do destino! (Suspira. a Rússia deseja fazer a guerra e aí. graças a Deus. Antón Antónovitch.como um indivíduo qualquer.) Bem.. pois você é um homem inteligente e não gosta de deixar passar o que lhe cai nas mãos. Amós Fiódorovitch É verdade. o nome de cada doença. Artémi Filípovitch Isso é o de menos... muito extraordinária! E não deve ser à toa. agora chegou a nossa vez. aqui já vêm assuntos de família: “Minha irmã Ana Kirílovna veio nos visitar com seu marido. Prefeito Estejam ou não de olho.. já dei algumas ordens e os aconselho a fazer o mesmo...) Até hoje. Até que dá pra eles ficarem limpos. vejam só..

como se tivesse acabado de sair de uma destilaria .) Prefeito E ao senhor..que são mal assistidos ou que o médico não sabe nada de seu ofício. (Khristian Ivánovitch deixa escapar aquele mesmo ruído. mas. Não usamos remédios caros. Foi assim que o próprio Deus determinou e não adianta os voltairianos protestarem contra. Amos Fiódorovitch. desde então. Amós Fiódorovitch Pois hoje mesmo vou mandá-los todos para a cozinha. mas que tipo de propina? Filhotinhos de cachorro. eu e Khristian Ivánovitch já tomamos providências: quanto mais próximo da natureza. Khristian Ivánovitch pode ajudá-lo com diversos medicamentos. (Khristian Ivánovitch deixa escapar um som meio parecido com a. Lá nas ante-salas. E. não me lembro bem.. já não é mais possível remediar: ele diz que. eu só queria lembrá-lo. pelo menos por um tempo. quando o inspetor for embora. Sempre quis chamar sua atenção para isso. Posso falar abertamente para todo mundo que recebo propinas. onde normalmente ficam os solicitantes. ou qualquer coisa que o valha. e seus gansinhos ficam se enfiando entre as nossas pernas sem parar. ou alho. e por que um contínuo não poderia fazê-lo? Só que. .) Amós Fiódorovitch Não. mas houve. Mas isso já é outra coisa.. o seu cheiro lhe é inato. sem dúvida. de fato. Não há uma pessoa que não tenha lá seus pecados. Nesse caso. Eu sei que o senhor gosta de caçar.. melhor. mas é melhor. um contratempo qualquer. como ele diz. tirá-lo dali. Há limito tempo que eu queria lhe falar sobre isso. não dá. o seu juiz-assistente. Prefeito Bem. não é bom que ponham para secar em sua repartição toda espécie de porcarias e que sobre a papelada Kc veja um chicote de caça. é competente. então há remédio contra isso. se tem de sarar. Artémi Filípovitch Ah! Quanto à questão clínica. entende por pecadilhos? Há pecados e pecados. Gente pobre é simples: se tem de morrer. Vamos aconselhá-lo a comer cebola. então sara mesmo. você sabe. os contínuos criam gansos. é digno de louvor. Se. sei lá. No que diz respeito à organização interna e àquilo que Andréi Ivánovitch em sua carta chama de pecadilhos. mas tem um cheiro. Prefeito Além do mais. até pode vir almoçar. E até estranho falar disso. Agora. eu aconselharia a prestar mais atenção nas repartições públicas. num lugar desses. Se quiser. E natural cuidar de animais domésticos. Amós Fiódorovitch O que é que o senhor. Antón Antónovitch. ele. sai dele esse cheirinho de vodca. letra “i” e um pouco com a letra “e”.isso também não é bom. quando criança. então o senhor pode pôr tudo de novo no lugar. eu não tenho nada a dizer. morre mesmo. me esqueci. E também é muito difícil para Khristian Ivánovitch se fazer entender: ele não sabe uma palavra de russo. a ama-de-leite o derrubou e.

Luká Lukítch. como diretor de um estabelecimento de ensino. Amós Fiódorovitch E olha que tudo isso com minha própria inteligência. à sua condição de conceituadas. Prefeito Bem. Certa vez. e ele diz: “Seja como for.. coisa igual eu nunca tinha visto. Há alguns dias. se ele faz a tal careta diante de um aluno. Mas.. mas quando chegou em Alexandre Magno. Aliás. não pode deixar de fazer uma ca reta assim (Faz a careta. mas eu é que recebi o sermão: para que incutir na juventude ideias tão liberais? Prefeito Também tenho que lhe falar a respeito do professor de história. eu apenas falei no tribunal de Justiça por falar. não me lembro o nome dele. um poço de conhecimentos. só o diabo sabe como tudo poderia acabar. sem dúvida alguma. tenho uma fé inabalável e todos os domingos vou à igreja. começa a passar a mão na barba. pensem bem.. São pessoas bern cultivadas. pela ciência dou a própria vida”. é evidente. Ele fez aquilo com as melhores das intenções. até pensei que a escola estava pegando fogo. Prefeito Mas veja que em alguns casos é pior ter muita inteligência do que não ter nenhuma. talvez tenha que ser assim mesmo. ainda vai. Quanto ao senhor. com formação superior e tudo. fui ouvi-lo. Luká Lukitch Mas o que é que eu posso fazer? Já lhe falei várias vezes. Ah!.. deve cuidar em particular dos professores. mas para que quebrar as cadeiras? Para dar prejuízo ao erário! Luká Lukitch Ele é mesmo muito esquentado! Várias vezes já lhe chamei a atenção. se o casaco de peles de certas pessoas custa quinhentos rublos. tudo bem. Um deles.. Amós Fiódorovitch Não senhor.Prefeito Ora. certamente. quando nosso conselheiro entrou na classe. eu conheço o senhor muito bem: é só começar a falar da criação do mundo e os cabelos se põem em pé. Ë claro que. pelo menos.. ele fez uma tal careta. Enquanto falava sobre os assírios e os babilónios. tudo é suborno... Antón Antónovitch. porque. toda vez que sobe ao púlpito. ele desceu correndo do púlpito. Mas o senhor. filhotinhos ou outra coisa qualquer. ou o xale para a esposa. Ele sabe muita coisa. mas têm condutas muito esquisitas. e daí se o senhor recebe cachorros como propina? Em compensação.. e aí.) e depois. . por exemplo. o senhor não acredita em Deus e nunca vai à igreja. é pouco provável que alguém vá lá algum dia xeretar: é um lugar tão formidável. se ele fizesse isso diante de um visitante. o que se deve. Pois veja. ou seja lá quem for. poderia tomar a ofensa para si. Não posso dizer nada a respeito. por debaixo da gravata. tal foi a força com que ele jogou uma cadeira no chão! E verdade que Alexandre Magno é um herói. mas explica tudo com tamanho ardor que fica fora de si. está protegido por Deus. nem posso descrever o que aconteceu.. Deus me livre. pra dizer a verdade. aquele que tem uma cara gorda. por exemplo. pegaria mal: o senhor inspetor. mas eu.

O problema é esse incógnito maldito! De repente ele aparece: “Ah. vocês estão aí. Piótr Ivánovitch Bóbtchinski acabou de me contar lá na agência. Prefeito . Prefeito É.“LiápkinTiápkin”.. Tudo sujeira dos franceses.“Pois que tragam aqui Zemlianíka!” Isso é que é o pior! Cena 2 Os mesmos e o chefe dos correios. Chefe dos Correios Meus senhores. . que funcionário é esse que está vindo para cá? Prefeito Por acaso o senhor não ouviu nada a respeito? Chefe dos Correios Ouvi sim. Amós Fiódorovitch E isso mesmo! É isso que eu também acho. Qualquer um mete o nariz para mostrar que também é inteligente. mas que fora deram esses dois! Chefe dos Correios É guerra com os turcos. meus pombinhos! Quem aqui é o juiz?” . Prefeito E então? O que acha de tudo isso? Chefe dos Correios O que eu acho? Que vai haver guerra com os turcos.Prefeito É.. . sim.“Pois que tragam aqui Liápkin Tiápkin! E quem é o diretor da assistência social?” . é uma lei inexplicável do destino: todo homem inteligente ou é bêbado. ou faz cada careta de que até Deus duvida. a gente tem medo de tudo. Prefeito Isso ainda não é nada.“Zemlianíka”. Luká Lukitch Deus nos livre de mexer com o ensino público.

música. e aí. corre às mil maravilhas: mulheres.. se por acaso cair nas suas mãos alguma queixa ou denúncia. Amós Fiódorovitch Cuidado. não os turcos. mas. Quer que eu a leia? Prefeito Essa agora. pensando bem. Isso eu já sei: recebi uma carta. meu querido amigo. Algumas cartas a gente lê com tal deleite. algumas tão edificantes. faça-me a gentileza. o momento não é para isso. isso eu já faço. entregue-a aberta assim mesmo. retenhaa sem a menor hesitação. nem tanto por precaução.” E com que emoção descreveu tudo isso. para o nosso bem geral. assim. muito bom mesmo: “Minha vida. Olha. Eu até estou achando (Segura-o pelo braço e o conduz para um canto. Que pena que o senhor não leia essas cartas.Mas que guerra com os turcos que nada! Nós é que vamos entrar bem. ou. bandeiras galopando. se tomei algo de alguém.. descrevendo um baile de maneira tão frívola.. Dizem que lhes enfio a faca. Há trechos maravilhosos! Não faz muito tempo.. um pouquinho. pois isso ainda pode lhe custar caro. quer dizer. mas eu. abrir e dar uma lidinha nas cartas que entram e saem da sua repartição. Bem melhores do que as do Correio de Moscou! Prefeito Está bem. Então.. tem que vir aqui um inspetor? Ouça.. Ivan Kuzmítch. Prefeito Bem. já sei.. Chefe dos Correios .. afinal de contas. mas de funcionários de Kostroma e Sarátov há muita coisa. Chefe dos Correios Já sei. Eu até quis ficar com a carta. Ivan Kuzmítch. ver se não se trata de alguma denúncia ou se apenas são correspondências? Se nada houver. até estou achando que houve uma denúncia contra mim. Não precisa me ensinar. Chefe dos Correios Se é assim. então que se feche novamente a carta.. foi sem nenhuma maldade. muitas mulheres. então não vai haver mais guerra com os turcos. o que diz? Chefe dos Correios Eu? Sei lá! E o senhor. há passagens tão variadas. Por que. um tenente escreveu a um amigo.. vou lhe dizer. Antón Antónovitch? Prefeito Eu? Bem.). pelo amor de Deus. mas só por curiosidade: sou louco pra saber o que há de novo no mundo. De Petersburgo não há nada. mas não encontrou nada sobre algum funcionário de Petersburgo? Chefe dos Correios Não. Os comerciantes e a população estão me causando alguns aborrecimentos. Chefe dos Correios Com o maior prazer. Ivan Kuzmítch. é uma leitura superinteressante. juro mesmo. não é que sinta medo. não seria possível.

mas o que eu acho é que estamos numa bela encrenca! Confesso que queria vir aqui. Irmã de sangue daquele cachorro que o senhor conhece. Amós Fiódorovitch Sim senhor.Ai. não. Seria outra coisa se você tornasse isso público. Bóbtchinski Um acontecimento extraordinário! Dóbtchinski Uma notícia inesperada! Todos O quê? Mas o que foi? Dóbtchinski Uma coisa imprevista! Estávamos chegando ao hotel. os seus coelhos agora não me dão o menor prazer: esse maldito incógnito não me sai da cabeça. por favor.. mas na realidade é um assunto familiar. me desculpe.. não tem lá muito estilo. o que para mim é a maior maravilha: caço coelhos nas terras de um e de outro. Bóbtchinski (Interrompendo.) Desculpe. Bóbtchinski Ah.. assim. só para lhe dar uma cadelinha. você. eu é que.. Dóbtchinski (Interrompendo. nada.. quer dizer. Piótr Ivánovitch.. Cena 3 Os mesmos.. me desculpe... Dóbtchinski e Bóbtchinski. ambos entram ofegantes. Prefeito Deus do céu.) Eu e Piótr Ivánovitch estávamos chegando ao hotel.. A gente fica esperando que. não é nada. de repente. Antón Antónovitch. santo Deus! Prefeito Ora. eu vou contar. a porta se abra e. . E o senhor soube que Tcheptovitch e Varkhovinski estão em litígio.. pronto.

tudo. “Na hospedaria”. Então não me atrapalhe que eu vou contar tudo. que não sei por que tinha sido mandada à casa de Filipe Antónovitch Potchetchúiev. de repente. Avdótia.) Buscar um barrilzinho para a vodca francesa. ao encontrar Piótr Ivánovitch. aqui está uma cadeira! (Todos se sentam ao redor dos dois Piótrs Ivánovitchs. espera aí... tudinho..) Então. Daí.. façam a gentileza de não deixar que Piótr Ivánovitch me atrapalhe. . Bóbtchinski (Desviando a mão dele. Bóbtchinski Perto da barraquinha onde se vendem pastéis. por favor. mas como Rastakóvski também não estava.disse ele .. o meu estômago está tremendo. Pois fomos à casa de Potchetchúiev.Dóbtchinski E você. Dóbtchinski (Interrompendo. bem. Prefeito Pois falem logo. Bóbtchinski . vou contar tudo pela ordem. o estômago de Piótr Ivánovitch estava mesmo. Dóbtchinski (Interrompendo.. mas não me atrapalhe! Senhores. Piótr Ivánovitch. Como o tal Koróbkin não se encontrava. Piótr Ivánovitch diz: “Vamos dar uma passadinha na hospedaria. Sentem-se. não me interrompa!. senhores! Peguem as cadeiras! Piótr Ivánovitch.” É sim. tudo. o que foi que aconteceu? Bóbtchinski Espera aí. Sabe. não. Piótr Ivánovitch. então dei um pulo lá.. Bóbtchinski Palavra de honra que eu vou me lembrar.. então..” Nem bem entramos no hotel e..... Vou me lembrar. não comi nada desde cedo. resolvi entrar na casa de Rastakóvski.. pois bem.. saindo de lá me encontrei com Piótr Ivánovitch. por favor.) Perto da barraquinha onde se vendem pastéis. o meu estômago.Então. vai se confundir todo e não vai se lembrar de nada.. não me interrompa.) Bem-apessoado e à paisana. um jovem.. Dóbtchinski (Interrompendo. .) Foi buscar um barrilzinho para a vodca francesa. não me interrompa! Sei tudo. logo depois que o senhor se dignou a ficar bastante desconcertado com o recebimento da carta..“agora deve ter um salmão fresquinho e podemos também tomar umas e outras. Aí.. Não. Nem bem eu tive o prazer de sair daqui. fui com Piótr Ivánovitch à casa de Potchetchúiev.. mas. pelo caminho. é isso. passei então pela casa de Ivan Kuzmítch para contar a novidade. digo-lhe: “Por acaso já sabe da última? Que Antón Antónovitch recebeu por carta fidedigna?” Mas Piótr Ivánovitch já tinha ouvido falar disso pela sua despenseira. dei um pulo até a casa de Koróbkin.. não. pelo amor de Deus! O que aconteceu? Meu coração não vai aguentar.. que o senhor tinha recebido.

Quem poderia ser? Só pode ser ele. não me interrompa. Prefeito E faz tempo que ele está aqui? . E o seu nome é Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv. Vai para Sarátov. “Hum!”.. santo Deus.” Assim que ele me contou isso. o inspetor geral. é ele. “é um jovem funcionário sim senhor.. Dóbtchinski É ele sim! Não paga e não vai embora. Então. o Vlass. logo me bateu uma ideia. mas muita coisa... dissemos Piótr Ivánovitch e eu. Tem sim. disse então. ele mesmo. é. Mas por que diabo ele está aqui quando o seu destino é Sarátov? É isso mesmo! É ele o tal funcionário..Bem-apessoado e à paisana. pobres pecadores! Onde é que ele está hospedado? Dóbtchinski No quarto número cinco. mas depois fui eu.. o que está dizendo! Não pode ser ele... ah. Viu até que eu e Piótr Ivánovitch comíamos salmão. Piótr Ivánovitch logo estalou os dedos para chamar o dono da hospedaria. Piótr Ivánovitch. E que observador. Tive logo um pressentimento e disse a Piótr Ivánovitch: “Aqui tem coisa”..“Aquele”. observa tudo. compra tudo fiado e não paga um tostão.. e até ficou espiando o nosso prato. dono de hospedaria. diz ele. que funcionário? Bóbtchinski Aquele funcionário sobre o qual fala a notificação que o senhor recebeu. Prefeito Quem. fui eu quem disse “Hum!” Bóbtchinski Primeiro foi o senhor. perguntou baixinho: “Quem é aquele moço?”... debaixo da escada. uma cara. não pode! O senhor fala assobiando! Eu sei que o seu dente tem um buraco. O senhor não consegue contar. Me deu um medo! Prefeito Que Deus nos perdoe. por favor. um jeito. e eu disse a Piótr Ivánovitch: “Hum!” Dóbtchinski Não senhor. estava andando de um lado para o outro e com um tal raciocínio no rosto. Nem bem Piótr Ivánovitch chamou Vlass. não me interrompa. sabem quem é? Há três semanas a mulher dele teve um menino tão espertinho. e aqui (Aponta a testa...) Pelo amor de Deus. Prefeito (Em pânico. na certa vai ser tal qual o pai. disse. vem de São Petersburgo. e Vlass respondeu: “Aquele”.. E tem reações estranhas: já está hospedado aqui há quase duas semanas e não vai embora. Bóbtchinski É ele. Bóbtchinski No mesmo quarto onde brigaram aqueles oficiais no ano passado. No documento consta que vai para Sarátov. ..) muita. Tudo por causa do estômago de Piótr Ivánovitch. Piótr Ivánovitch. meu Deus.

Mande alguém trazer. Prefeito Duas semanas! (À parte. Chegou no dia de São Nunca. Amos Fiódorovitch! Ainda pode acontecer uma desgraça. dar um passeio não oficial para ver se os viajantes não estão tendo aborrecimentos. Artémi Filípovitch Que gorros. Amós Fiódorovitch Mas você tem medo de quê? Ponha uns gorros limpos nos doentes e acabou a história. Meus senhores. mas nos corredores há um cheiro de repolho que a gente até tapa o nariz. Antón Antónovitch? Pois vamos todos ao hotel em missão oficial. o comissário de polícia e volte logo. Não mais que vinte e três ou vinte e quatro anos. Prefeito Vá depressa buscar o comissário d.Dóbtchinski Umas duas semanas. é assim que mandam os dez mandamentos. os comerciantes. preparem-se. ou sei lá. não! Por favor. Não. quem vai querer se meter num tribunal de província? E se alguém der uma espiada em qualquer . o quanto antes.) O senhor disse que ele é um jovem homem? Bóbtchinski Jovem. com Piótr Ivánovitch para. Ei. o clero. (Dirige-se a Bóbtchinski. vamos. Amós Fiódorovitch Mas eu. Prefeito Não senhores. Svistunóv! Svistunóv Às suas ordens.e polícia. quem sabe Deus me ajude agora também. tem que ir o conselheiro-chefe. Na verdade.) Artémi Filípovitch O que fazer. Já passei por maus momentos na vida e consegui escapar e até me agradeceram. um jovem é claro como a água.) Artémi Filípovitch Vamos. enquanto eu vou em pessoa. preciso de você. de jeito nenhum! Em primeiro lugar. (O soldado corre às pressas.) Meu Deus! Valham-me todos os santos! Nessas duas semanas espancaram a mulher do subtenente! Não alimentaram os presos! As ruas viraram uma zona. de vossa parte. Um velho diabo é que seria uma desgraça. eu mesmo vou resolver. uma imundície! Uma vergonha! Uma calamidade! (Põe as mãos na cabeça. que nada! Mandaram dar uma sopa de aveia aos doentes. com relação a isso. Prefeito Melhor ainda: é mais fácil sondar um jovem. digamos assim. estou tranquilo. Amós Fiódorovitch Não. espere.

meu Deus. há quinze anos no cargo de juiz.) Cena 4 O prefeito. Nem o próprio Salomão pode resolver onde começa a verdade e acaba a mentira. (O juiz. não faz mal. E onde está Prókhorov? Soldado Está na delegacia de polícia. Permita que eu vá também... sim senhor. meu Deus! Vá depressa lá para a rua. Pois eu. Prefeito A carruagem está pronta? Soldado Está. o encarregado da assistência social. Só que não pode ser útil no caso.. fico só sentado e quando me ocorre dar uma olhadinha nos processos . E. Antón Antónovitch! Prefeito Não senhor.. e me traga a espada e meu novo chapéu. à porta.. espere! Vá e me traga. Dóbtchinski e o soldado. Prefeito . olhar pela fresta da porta e observar como ele se comporta..ah! Deixo pra lá. vai se arrepender de ter nascido. Vamos embora. Piótr Ivánovitch. Bóbtchinski Não faz mal.) Ai. não. Impossível! Não é conveniente. Eu só quero dar uma espiadinha. além do mais. Prefeito Como assim? Soldado Explico: trouxeram o dito-cujo de madrugada. bêbado de cair. Vá correndo ao meu quarto... Mas onde é que estão os outros? Será possível que você está sozinho? Eu já ordenei que também Prókhorov estivesse aqui.. chocam-se com o soldado que está de volta. ou não. Prefeito (Pondo as mãos na cabeça. o inspetor de escolas e o chefe dos correios saem e.papel. Prefeito Vá para a rua. Jogaram dois baldes de água em cima dele e até agora nada. está ouvindo. Piótr Ivánovitch! Bóbtchinski E eu? E eu?. Vou correndo como um pintinho atrás de vocês. não vamos caber todos na carruagem.. Bóbtchimki.

vê que o prefeito está usando uma espada velha e não lhe manda uma nova. Prefeito Como você permitiu uma coisa dessas? Comissário de Polícia Só Deus sabe.71 metro. Você que se cuide! A sua posição não é para tanto! Vá! * Archim: medida russa equivalente a 0. aposto que já estão com suas petições no bolso do colete. uma vassoura! Que varram toda a rua que leva à hospedaria.. que diabo. Que cada um desses sargentos pegue na mão uma rua.. Cena 5 Os mesmos e o comissário de polícia. . Stepan Ilitch! O tal funcionário de Petersburgo já chegou. Ele foi lá só pró forma e voltou bêbado. Prefeito E Prókhorov.(Pega a espada do soldado e diz a ele. Ontem houve uma briga fora da cidade. está bêbado? Comissário de Polícia Bêbado. Estou de olho em você!! O que você fez com o comerciante Tcherniaiev.) Agora vá correndo. a espada está toda arranhada! Esse maldito comerciantezinho Abdúlin . mandei o soldado Púgovitsin com os sargentos varrerem as calçadas. ouça. reúna alguns sargentos e que cada um traga. Que providências você já tomou? Comissário de Polícia Conforme o senhor ordenou. hein? Ele te deu dois archins* de tecido para a farda e você lhe roubou a peça toda. Prefeito E onde está Derjimórda? Comissário de Polícia Derjimórda foi sentado em cima das mangueiras dos bombeiros. Prefeito Então. onde você se meteu? Como é que é isso? Comissário de Polícia Estava bem pertinho daqui. Prefeito Ah! Stepan Ilitch! Pelo amor de Deus. Gente malandra! Esses vigaristas. Está ouvindo? Olhe aqui: eu te conheço! Conheço muito bem! Faz os seus trambiques e ainda por cima esconde colheres de prata nas botinas. Diabo. E que deixem tudo muito bem limpo.

Que cidade horrível! Basta a gente colocar em algum lugar um monumento qualquer ou uma simples cerca. dando uma olhada. mais se denota a atividade do dirigente. equivalente a 13. Porque. não esqueçam de dizer que.. pode alguém dizer por esquecimento.) .) * Pud: medida antiga. Piótr Ivánovitch. isso aí é uma caixa.) E se o tal funcionário perguntar aos policiais: “Estão todos satisfeitos?” .. Quanto mais tudo estiver quebrado. pega a caixa.. Mande retirar imediatamente aquela velha cerca ao lado do sapateiro e coloque lá algumas placas de palha. E aquele que não estiver contente vai ver depois comigo o que é estar descontente.) Queira Deus que eu saia são e salvo de tudo isso o mais rápido possível e então vou acender uma vela tão grande como ninguém jamais fez e vou exigir de cada um desses comerciantes espertinhos três puds* de cera.) E por que não a caixa? Que me importa a caixa! Ah.Prefeito Pois veja o que você tem a fazer: o soldado Púgovitsin. Já apresentei um relatório sobre isso. ele deixa todo mundo com o olho roxo. Então vamos embora. para dar a impressão de um certo planejamento urbano. ou por bobeira mesmo. Ah! Santo Deus! Já ia me esquecendo de que ao lado dessa mesma cerca estão amontoadas quarenta carroças com toda espécie de lixo.. vamos.Respondam: “Muito contentes. tenta vestir a caixa de papelão. que nem chegamos a começar a obra.. para a qual há cinco anos recebemos uma boa soma. Ah. e não deixem os soldados saírem à rua sem roupa: esses miseráveis vestem só a parte de cima do uniforme por cima da camisa. Prefeito (Joga fora a caixa. Piótr Ivánovitch! (Sai e volta. excelência”.) Ah. que é bastante alto. (Em vez ao chapéu. para manter a ordem. (Saem todos. Comissário de Polícia Antón Antónovitch. que começamos a construir. Ufa! Culpado. e não o seu chapéu. e por baixo mais nada. sou culpado. (Em vez do chapéu. E diga a Derjimórda que contenha um pouco os seus punhos. meu Deus! Vamos embora.3 quilos. culpado ou inocente. deve ficar na ponte. mas que pegou fogo. senão. meu Deus. e se perguntarem por que ainda não foi construída a igreja junto à Casa de Misericórdia.. e pronto — só o diabo sabe de onde trazem tanta porcaria! (Suspira.

. depressa! (Fica gritando junto à janela.. mais tarde! Ana Andréievna Como.. benzinho. depressa. como é ele.) Tudo por sua causa.. Que bela resposta! E que tal dizer que só daqui a um mês saberemos tudo ainda melhor? (Curva-se na janela.. procure saber direitinho. O quê? Saíram depressa? E você não correu atrás? Então vá. estou prendendo o lencinho na cabeça. já estou indo”. vá agora mesmo! Corra e descubra para onde eles foram. você sabe se chegou alguém. Viu o que você fez? Agora não sabemos nada de nada! Tudo por causa desse seu maldito coquetismo! Foi só ouvir que o chefe dos correios estava aqui e se pôs toda faceira diante do espelho: olha de um lado. mas é só você virar as costas para ele logo lhe fazer uma careta. mãezinha? De todo modo. (Abrindo aporta. E volte bem rapidinho.Cena 6 Ana Andréievna e Mária Antónovna entram correndo. mais tarde! Não quero saber de mais tarde. Você pensa que ele arrasta uma asinha por você. por sua causa! Que moleza: “Um alfinetinho. Só quero saber uma coisa: quem é ele. espere.) Antón. Não sabe? Sua estúpida! Alguém está acenando? Pois que acene. depressa. Isso mesmo. santo Deus!. maezinha. O pano esconde as duas. só pensa em namorados. Ana Andréievna Onde é que eles estão? Onde? Ah. Mária Antónovna O que se há de fazer.) E meu marido? Antocha! Antón! (Fala muito rápido.) Eh! Avdótia! O quê? Avdótia.. Você bem que poderia ter perguntado. se são pretos ou não... que tal esse forasteiro. enquanto cai o pano. é coronel? Hein? (Aborrecida. Ana Andréievna Daqui a duas horas! Muito obrigada. daqui a duas horas vamos saber tudo. está entendendo? Olhe pela frestra e veja tudo. para onde? O quê? Já chegou? O inspetor? Tem bigodes? Que tipo de bigodes? Voz do Prefeito Mais tarde. Saber alguma coisa! Mas nessa cabeça só tem besteira. e do outro. que olhos ele tem. para onde você vai. e grita.. mais tarde? Essa agora. um lencinho”..) . está me ouvindo? Vá depressa.) — Foi embora! Você vai ver só! E tudo por sua causa: “Maezinha. (Corre até a janela.

. mas. agora. quanto galanteio! Nunca se ouve uma palavra grosseira. uma garrafa vazia. mas em lugar de poupar .) Que diabo. Mas tem que ter dinheiro. E se. o meu anjinho fica aí. Você vai ao mercado e os comerciantes gritam: “Ilustríssimo!” Quando a gente pega a barca. E todo mundo trata a gente por “senhor”. botas. mas. todos os dias compra um bilhete para o teatro e. e a comida também. não tem problema: em cada casa há sempre duas saídas e você pode se safar de tal maneira que nem mesmo o diabo vai conseguir alcançar. Óssip! Vá lá. manda vender o seu novo fraque na feira. com o rabo entre as pernas. até parecem nobres. dança de cachorros. feito um nobre. uma mala. e já vai logo para a mesa de jogo. perto do forno. Cena 1 Óssip (Deitado na cama do patrão. morre de fome como agora. mas também tem menos preocupação. é duro de suportar. E a culpa é todinha dele. então vai a uma lojinha: ali um velho veterano se põe a contar a vida militar e até vai explicar o significado de cada estrela no céu. vida de cidade: teatros. peça a melhor que houver: refeições ruins. depois de uma semana. é só tomar uma carruagem e vai sentado. aí sim. comendo bolos e tortas. qual nada.Ato 2 Quarto pequeno de hotel. Uma cama. tudo o que a gente quiser. por acaso. fiu. Bem feito! Tomou na cabeça! Ah! Estou farto dessa vida! Lá no campo é bem melhor: não tem tanta animação. escova de roupas etc. é um funcionariozinho de quinta categoria! Nem bem conhece um viajante. Se a gente se cansa de ir a pé. (Imita. é coisa fina. E a vida. preciso do bom e do melhor. vê se acha o melhor quarto. outras vezes. Às vezes se livra até da última camisa e fica só com o terno e o capote.” Ainda se fosse alguém que se preze. desanimado. de modo que tudo fica tão claro como se estivesse na palma de sua mão. ele tem que se bacanear em cada cidade. você não quer pagar. mesa. E até que a gente tinha um bom dinheirinho. Duvido que cheguemos em casa! O que é que se há de fazer? Já faz mais de um mês que saímos de Peter! Esbanjou o dinheiro todo pelo caminho e. Todo mundo fala com finura. pode se sentar ao lado de um alto funcionário público. Só uma coisa é que não presta: às vezes a gente quase explode de tanto comer. Juro por . fica deitado a vida inteira no quentinho. Mas quem duvida? E bem verdade que a vida em Peter é melhor.) Que diabo! Estou com uma fome! E minha barriga está fazendo um barulho como se um regimento inteiro estivesse tocando cornetas. não.. A esposa velhusca do oficial passa por lá e também alguma criada pode aparecer. fiu! (Sorri e balança a cabeça.qual nada! se põe a farrear: só anda de carruagem.) “Eh. Você se casa com uma mulherona. se quer companhia. O que é que a gente vai fazer? O papaizinho manda dinheiro.

posso muito bem ficar de pé! Pra que é que preciso da sua cama? Khlestakóv (Passeia pelo quarto. vai passear pelas ruas. mas menos decidido. Ah! Se o meu velho patrão soubesse disso tudo! Não se importaria nem um pouco de ser ele um funcionário e levantaria a sua roupinha para lhe cobrir tanto de palmadas que lhe deixariam coceiras por mais de quatro dias. deve ser ele. Se tem que trabalhar. vão arrematá-lo por uns vinte rublos. E tudo isso por quê? Porque ele não quer saber de nada.) Vá lá ver no saquinho. mas. está toda desarrumada! Óssip Pra que me serve a sua cama? Por acaso eu não sei o que é uma cama? Tenho pernas. então trabalhe. jogar cartas.) Ah! Meu Deus do céu! Pelo menos uma sopinha qualquer! Acho que seria capaz de comer o mundo inteirinho. Estão batendo. bem menos alta e semelhante a uma súplica. Em vez de ir para a repartição. Por fim. Óssip Lá embaixo onde? Khlestakóv (Com voz já nada decidida. E se a gente não pagar? (Suspira. As calças.) E de novo jogado na minha cama? Óssip E pra que eu preciso ficar jogado na sua cama? Por acaso nunca vi uma cama? Khlestakóv Mentiroso! Ficou na minha cama sim! Olha lá.) Escute aqui. nem se fale .) Lá . (Pula da cama apressadamente. Khlestakóv Pegue isso! (Dá-lhe o chapéu e a bengala. não tem mais tabaco? Óssip E como é que vai ter tabaco? O senhor fumou o último já faz quatro dias! Khlestakóv (Caminha mordendo os lábios de diferentes formas.uma ninharia. Ossip! Óssip O que deseja? Khlestakóv (Em voz alta.Deus que é verdade! E o tecido é tão caro! Pura lã inglesa! Só o fraque deve ter custado cento e cinquenta rublos.) Vá lá embaixo. então. no mercado.) Cena 2 Óssip e Khlestakóv. diz em voz alta e decidido. E agora o dono do hotel disse que não vai lhe dar mais nada de comer enquanto não pagar o que deve.

seu idiota! Vá. Khlestakóv Mas para que o dono vir aqui? Vá lá e fale com ele. Eu não brinco em serviço. não vai dar? E um absurdo! Óssip E ainda disse mais. seu idiota? Óssip E também tanto faz. “são dois vigaristas. e o seu patrão é um trapaceiro. ir ou não ir. Não vai adiantar nada. disse ele. vá já falar com ele. não! Não quero ir não! Khlestakóv Como é que se atreve. de me contar tudo isso? Óssip E disse mais: “Dessa maneira. Khlestakóv Como se atreve. Que porco! Óssip E melhor que eu chame o dono para que ele mesmo venha aqui falar com o senhor. que o senhor há quase três semanas não paga. Khlestakóv E você ainda fica feliz. Khlestakóv Então vá se danar! Chame o dono.. se instala... senhor. Óssip Mas. O dono já disse que não vai dar mais nada pra gente comer.embaixo. vou direto dar queixa para que o levem logo para a cadeia”. na copa. qualquer um chega aqui. será que. (Óssip sai. ele disse. animal. “Você e seu patrão”. Disse que vai ao prefeito.. Óssip Ah. Khlestakóv Já chega.) Cena 3 Khlestakóv . Conhecemos muito bem vagabundos e patifes dessa laia”. Vá lá e diga que me dêem de comer. fica endividado e depois não há como enxotá-lo.

O Criado .. diabos. Aquele capitão de infantaria me limpou mesmo.) Estou morrendo de fome! Fui dar uma voltinha para ver se perdia o apetite.) Ninguém quer vir para cá! Cena 4 Khlestakóv. Não estou brincando. Apesar disso. mas que nada. até que o dinheiro daria para chegar em casa. Para tudo é preciso a ocasião..(Sozinho. Tenho muita fome. depois cantarola uma canção popular e por fim qualquer coisa sem sentido. está me entendendo. E. pelo jeito. meu querido. O Criado E. Que lances impressionantes! Em um quarto de hora me depenou. Khlestakóv Mas se queixar por quê? Pense bem. meu querido. Senão posso até ficar fraco. Óssip e o Criado da hospedaria. Então. se não fosse aquela farra em Penza. Mas que cidadezinha horrível! Nem nas quitandas querem vender fiado! E uma verdadeira infâmia! (Começa a assobiar o início da ópera Roberto. Khlestakóv Como vai? Boa saúde? O Criado Graças a Deus! Khlestakóv E aí? Como é que vão indo as coisas na hospedaria? Tudo em ordem? O Criado Tudo bem. Ainda não tive ocasião de me encontrar com ele. por favor. porque depois do almoço tenho mais o que fazer.. graças a Deus. até agora não me trouxeram o almoço. O Criado O patrão mandou perguntar o que é que o senhor deseja. mas o patrão disse que não vai lhe dar mais nada para comer. Khlestakóv Escute aqui. Ele. como é que pode? Pois eu preciso comer. Khlestakóv Muitos hóspedes? O Criado Bastante. a fome não passa. bem que eu queria jogar mais uma vez. até queria ir hoje se queixar para o prefeito. peça que se apressem.

Cena 6 Khlestakóv. então se atira feito um urso na sala de visitas. imitando o lacaio.. Khlestakóv Se por acaso ele não me der nada pra comer. feito um diabo. a coisa vai ficar feia. quem é esse aí?” E o lacaio entra: (Ergue-se.. Cena 5 Khlestakóv sozinho. Mas ele disse: “Não vou lhe dar comida até que me pague os atrasados”. passar pela entrada de um vizinho qualquer.) Tenho enjoo de tanta fome. pode ser recebido?” Esses ignorantes nem sabem o que quer dizer “pode ser recebido”! Se chega algum ricaço proprietário de terras. com os faróis acesos e o Óssip atrás.. Ele pensa que só porque pode passar um dia sem comer nada. os outros também podem! Essa é muito boa! O Criado Está bem. E quando a gente se aproxima da filha. Vou falar com ele.. Óssip e depois o Criado. vestido de libré? Posso imaginar. Khlestakóv E então? Óssip O almoço vem vindo! .Está bem. Já pensou. Pena que lokhín não me alugou a carruagem. Khlestakóv Mas você tem que lhe explicar. de Petersburgo. O Criado O que é que eu posso dizer? Khlestakóv Você apenas lhe explique muito seriamente que eu preciso comer. como eu. Foi assim que ele falou. uma gracinha. é preciso dizer: “Senhorita. tem que convencê-lo.) Arre! (Cospe. que diabo. todo mundo em alvoroço: “Mas quem é ele.) “Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv. chegar em casa de carruagem. é melhor passar fome do que chegar em casa sem a minha roupa de Petersburgo.” (Esfrega as mãos e faz uma reverência. o dinheiro é outra coisa. Agora. E se eu fizesse um negócio com alguma peça de roupa? Que tal vender as minhas calças? Ah não.

Khlestakóv Ah! Seu idiota! O Criado Sim senhor! . vi que estavam cozinhando um monte de coisas... Khlestakóv E daí. as almôndegas? O Criado Isso é só para pessoas dignas. O Criado Bem. ao passar pela cozinha. o peixe.Khlestakóv (Batendo palmas e pulando da cadeira. porque não. o patrão acha que está bom demais.) Oba! Oba! Oba! O Criado (Com pratos e um guardanapo. o patrão. Khlestakóv O quê? Só dois pratos? O Criado Só. Que ele se dane! O que é que tem aí? O Criado Sopa e carne assada. Khlestakóv E cadê o molho? O Criado Molho não tem. E hoje pela manhã bem que vi no restaurante dois baixinhos comendo salmão e muitas outras coisinhas. pode ser que tenha e pode ser que não tenha. Khlestakóv Como não? O Criado Não. Khlestakóv Mas como não? Eu mesmo. sim senhor. Khlestakóv Mas é um absurdo! Só isso aí não vai dar! Diga ao seu patrão que isso aí é muito pouco. o patrão. O Criado Não senhor.) O patrão disse que é a última vez. Khlestakóv E o salmão.

Nem dá para tirar. Traga outra. O Criado E o que é então? Khlestakóv Só o diabo é que sabe o que é isto. O Criado Posso levar. quer. Deixa aí.. ai. Vigaristas! (Limpa a boca com o guardanapo.) Santo Deus! Mas que sopa! (Continua a comer.) Mas que porcaria de sopa é essa? Você despejou água no prato ou o quê? Não tem gosto de nada e ainda por cima fede. tá bom.. (Come. seu tonto.) Acho que ninguém nesse mundo já comeu uma sopa dessas! Só tem penas nadando.Khlestakóv Seu porco! E como pode: eles comem e eu não? Por que.. Está acostumado a tratar os outros assim. Parece um machado frito e não carne. E os dentes até ficam escuros com uma coisa dessas. (Palita os dentes com o dedo. leva os pratos.) Patifes! Parece madeira. acompanhado por Ossip. Não quero essa sopa. eu também não posso comer? Será que não são hóspedes como eu? O Criado A gente sabe que não.) Mas que raio de assado é este? Isto não é assado. meu irmão. não quer. Óssip. mas comigo é diferente. O patrão disse: quer.) Vigaristas! Canalhas! Isso é comida?! Até dói o maxilar quando a gente mastiga um pedacinho. não quer. Khlestakóv Chega de conversa. Khlestakóv E como são eles? O Criado Ora.) Não tem mais nada? O Criado Não. (O Criado tira a mesa e.) Está bem. idiota. diabos. Khlestakóv (Defendendo o prato com a mão. em vez de azeite! (Corta a galinha.. Khlestakóv Canalhas! Miseráveis! Se ainda tivesse um molhozinho ou um pastel. ai! Mas que galinha é essa? Me dá aqui o assado! Sobrou um pouco de sopa.) Ai. está bem.. Vou avisando que comigo.. como são eles! Todo mundo sabe: gente que paga. (Come. senhor. Vagabundos! Só querem esfolar os hóspedes. (Corta o assado. assado é que não é.) Cena 7 . pega pra você. (Despeja a sopa e come.

eu.) Não sei por que chegou aí o prefeito pedindo informações e perguntando pelo senhor.. não. Não. Khlestakóv Não há de quê. Ambos.. não quero... já dei uma de gostosão e dei uma piscadinha para a filha de um negociante. me jogarem na cadeia? Não faz mal.) Mas o que fazer?. olham apavorados um para o outro por alguns minutos.) Saudações respeitosas! Khlestakóv (Saudando. como cidadão responsável que zela por esta cidade.. parece que não comi nada! Aumentou ainda mais a vontade de comer. e eu. como. Prefeito É meu dever. Mas quem ele pensa que é? Que arrogância! Pensa que sou um negociante ou um artesão qualquer? (Cria coragem e se levanta. de início. não. Se pelo menos eu tivesse um trocado.. Esta cidade está cheia de oficiais e de gente.. não quero.Khlestakóv e. Se for por bem. Khlestakóv (Gagueja um pouco. Prefeito (Recompondo-se um pouco..” (A maçaneta da porta se move. ainda. braços em posição de sentido. depois. Óssip (Entra. não sei por quê. Ossip. e depois fala em voz alta. Prefeito Desculpe. cuidar para que os viajantes e todas as pessoas de bem não tenham nenhum aborrecimento.. Khlestakóv empalidece e se encolhe. A ..) Eu vou dizer bem na cara dele: “Como ousa. Khlestakóv (Assustado.) Cena 8 Khlestakóv. O prefeito entra e fica parado. mandava já comprar um pão-doce no mercado. assim. o prefeito e Dóbtchinski.) Ainda mais essa! Só falta esse infeliz do patrão ter se queixado de mim! E se eles. Khlestakóv Sério mesmo.. ainda por cima...) Meus respeitos!.. de olhos arregalados.

. não tenho como.. não senhor! Já se viu uma coisa dessas. Vão me enviar lá da minha casa. Khlestakóv Não. muito obrigado... pelo amor de Deus. Vou pagar tudo. assim. É justamente por isso que estou aqui. Mas se alguma coisa está.) O senhor me perdoe..) E. Por favor. Permita que o convide a ir comigo para outro domicílio. olhe aqui... A mulher do suboficial. Khlestakóv (Com mais coragem. Os negociantes de Kholmogóry é que trazem. então. é calúnia. eu. meu Deus. A situação é precária. Khlestakóv Não. Essa é boa! E por que eu deveria.. ora bolas? Eu vou pagar..) Mas eu não sei por que o senhor está me falando desses malvados ou da viúva do suboficial.) Quem o senhor pensa que é? Prefeito (Perfila-se. um cortezinho para uma roupa. esconde-se. Sempre tenho carne boa no mercado.. Mas com que direito? Como se atreve? Pois saiba que eu. houve subornos. A verba não dá nem para o chá e para o açúcar. E quanto à viúva do suboficial. Não quero. por acaso.) Por piedade. assustado.. eu não quero! Onde é que já se viu uma coisa dessas! Só porque o senhor tem mulher e filhos.. mas a culpa também não é minha.. eu tenho que ir para a cadeia? Essa é muito boa! (Bóbtchinski espia pela porta e. porque não tenho um tostão. Juro que vou pagar. eu. Khlestakóv E daí? Não tenho nada a ver com isso. E se.. de boa conduta. Prefeito (Tremendo... eu sou um alto funcionário de São Petersburgo. foi uma ninharia: uma coisinha à toa para comer.) Eu. coisa esquisita: tem cheiro de peixe. tente compreender. Ele me faz passar fome durante dias. filhos pequenos. Não tenho a menor ideia de onde vem essa tal carne. como é severo! Já está sabendo de tudo. aquela que faz negócios escusos e a quem eu teria mandado espancar. (Pensativo. Tive que jogar pela janela. tremendo da cabeça aos pés..culpa não é minha. A carne que me dá é dura como pedra. eu não irei! Vou diretamente ao ministro.) Ai.) Ele é que é o culpado. nem o diabo sabe o que tem dentro. foi por falta de experiência. (Cria coragem. E o chá.) Pelo amor de Deus. Aqueles malditos negociantes contaram tudo. mas a mini o senhor não vai açoitar. mesmo que venha com todo o seu regimento. essa gente que quer atentar contra a minha vida. tudo bem. não acabe com a vida de um homem. então. não quero. (Bate com os punhos na mesa. Tudo invenção daqueles malvados..) Ora. não. então. falta de experiência. não me desgrace! Tenho mulher. .. é tudo calúnia. Prefeito (Intimidado.. (Bóbtchinski mostra a cara na porta. no momento. Sei muito bem o que significa outro domicílio: quer dizer cadeia. A sopa. gente que não bebe. Mas. Prefeito (A parte.

Khlestakóv Façam-me o favor. Agora sim.. eu iria ficar aqui um tempão: não teria a menor ideia de como pagar a conta. Prefeito Não se preocupe. Não preciso mais do que uns duzentos rublos. Está bem.) Nós estávamos dando uma volta. A coisa agora vai melhorar. dei-lhe quatrocentos. (Em voz alta. Seja o que Deus quiser. Prefeito (Entregando o dinheiro. Sem o senhor. sentem-se. Prefeito (Aparte. (A Dóbtchinski.) Ai. graças a Deus! Aceitou o dinheiro. vou me fazer de bobo: vou fazer de conta que não sei quem ele é.) Prefeito (À parte.) Sente-se.) Ora. assim.Prefeito (À parte. quero que cada mortal receba boa acolhida. Vejo que o senhor é um homem de bem. vamos tentar. proprietário de terras local. Bóbtchinski espia pela porta e tenta ouvir. e mais ainda por amor cristão à humanidade. até menos. quero sim um empréstimo e vou acertar agora mesmo a conta com o patrão. não me venha com essa! Não tinha ideia como pagar! (Em voz . mas confesso que cheguei a pensar que os senhores tinham vindo aqui para me. Eu não. nem precisa contar. por favor. Em vez de duzentos. (A Dóbtchinski. estou inteiramente às suas ordens.) Muito agradecido.) Mas que situação danada! Como se vira bem! Que embrulhão! A gente não sabe nem de que lado pegar.) Duzentos certinhos. posso ver como o senhor é cordial e sincero. além do dever. (Ao prefeito e a Dóbtchinski. Meu dever é ajudar os nossos visitantes. Khlestakóv Óssip! (Óssip entra.) Mande vir aqui o criado da hospedaria. Pois não sou como outros prefeitos que não se importam com nada.) Mas por que estão em pé? Tenham a bondade de sentar-se. é outra coisa.) É preciso ser mais atrevido. Agora sim. eu. Khlestakóv Eu também estou muito feliz.) Se o senhor realmente está precisando de dinheiro ou de qualquer outra coisa. e passamos no hotel. Khlestakóv Quero sim. por ossos do ofício. para saber se os viajantes estavam sendo bem tratados... E eis que o acaso me recompensou com esse encontro tão agradável. eu aqui com Piótr Ivánovitch Dóbtchinski. Khlestakóv (Pegando o dinheiro.) Sente-se! (O prefeito e Dóbtchinski sentam-se. Temos a honra de ficar em pé. assim de propósito. Vou lhe devolver logo que chegar em casa. basta arriscar. não vou demorar muito. Prefeito (À parte. O que tiver que ser será.. francamente. Ele quer se passar por incógnito. (Em voz alta.

Eu queria só ver se fosse ele zanzando pelas repartições. já nos dão uma medalha de condecoração. é muito escuro.) E o senhor pensa em viajar por muito tempo? Khlestakóv Para ser franco. não? Khlestakóv E um quarto deplorável. Prefeito (À parte.é escuro. até agora. para as minhas propriedades. a demora dos cavalos é uma coisa bem desagradável. O que é que se pode fazer neste fim de mundo? Veja só o que acontece aqui: à noite a gente não dorme. Um velho de cabeça dura. Mas. mas sabe-se lá quando virá a recompensa. hein? Está bem! E nem fica vermelho! Com esse aí a gente tem que ficar de orelha em pé! (Em voz alta. se por um lado. Minha alma anseia por ilustração. Prefeito (À parte. Prefeito (À parte. sem poupar esforços.. Mas veja. mas não cai! E que sujeitinho sem-graça.alta. . nem bem a gente chega lá. meu pai é tolo e teimoso.) O bom Deus o proteja no caminho de volta.) Mas olhem só como ele dá bolas à imaginação..) Se me permite perguntar. Pelo visto este quarto também é escuro. é meu pai que me obriga a voltar. o senhor está viajando por puro prazer. eu poderia esmagá-lo com um dedo. com expressão irónica. com relação às estradas. dizem que. (Passa os olhos pelo quarto. Sabe. é uma distração para o espírito. não? Khlestakóv Não. ler um pouquinho. muito escuro. a gente quer fazer alguma coisa. Vou obrigá-lo a contar tudo! (Em voz alta. ao que parece. não? Khlestakóv É sim. para que lugares. balança. pretende o senhor se dirigir? Khlestakóv Vou para a província de Sarátov. ou a fantasia quer escrever alguma coisa. não posso viver em Petersburgo. sofrendo por causa de quem? Por causa desses percevejos imprestáveis que nem deveriam ter nascido. tudo pelo bem da pátria. Agora inventou essa história do velho pai! (Em voz alta.) Província de Sarátov. Um filho-da-mãe. O proprietário tem o hábito de não fornecer as velas. não sei.) Mas que enrolador! Balança. e tem cada percevejo que nunca vi igual: mordem como cachorros. Prefeito Não me diga isso! Um hóspede tão instruído. Às vezes. Por que raios eu devo acabar com a minha vida no meio de mujiques? Agora minhas aspirações são outras. Espera aí que você não me escapa. não fiz carreira em Petersburgo. Vou logo dizer a ele: queira o senhor ou não. não posso . O velho está zangado porque.) O senhor notou com muita justeza. para onde.) Acho que este quarto é um pouco úmido. por outro lado. Ele acha que. um nada de nada.

sobretudo quando o hóspede é uma pessoa culta. Prefeito Eu é que vou ficar contente! E minha mulher. Traga a conta.. não! Não sou digno. Não se zangue. há para o senhor um quarto maravilhoso. então. Khlestakóv E por que não? Com imenso prazer. não sou digno! Khlestakóv Mas diga lá. Ficarei muito mais satisfeito numa casa particular do que nesta bodega.Prefeito Será que posso tomar a liberdade de lhe pedir.. tranquilo. acompanhado de Óssip.. como ficará feliz! Eu sou assim: hospitaleiro desde criança. De minha parte.. Criado O senhor chamou? Khlestakóv Chamei. eu não sou digno. não.. Aprecio muito sua franqueza e hospitalidade. iluminado. Não pense o senhor que falo isso para adulá-lo. respeito e lealdade. a não ser lealdade e respeito. ofereço de coração. confesso que não exijo nada. Mas não.. Prefeito Se me atrevesse. Eu também não gosto de gente de duas caras.. Khlestakóv Mas o quê? Prefeito Não. Khlestakóv Muito obrigado. Não tenho esse vício. Bóbtchinski espia pela porta. Cena 9 Os mesmos e o Criado. sinto que isso já seria uma honra demasiada para mim. Falo de todo o coração. Em minha casa.. . Juro por Deus.

Fale logo: quanto é que eu devo? Criado No primeiro dia. estou à sua disposição. por exemplo.) Cena 10 O prefeito. Bóbtchimki espia pela porta. não se preocupe... a assistência social e outras? Khlestakóv Mas para quê? Prefeito Para que o senhor veja como andam as coisas... para os viajantes talvez fosse. o senhor pediu o almoço. Khlestakóv Não me lembro mais de suas contas idiotas. assim está bom. ele vai esperar. no dia seguin-te.) Fora! Vão pagar. (Ao Criado. (Guarda o dinheiro. podemos dar uma passadinha na casa de detenção e nas prisões da cidade para que veja como tratamos os criminosos. Khlestakóv. Khlestakóv Com todo prazer. logo depois poderá ver a escola e a disciplina no ensino de nossas ciências. se for de sua vontade. (Bóbtchinski enfia a cabeça pela porta. se o senhor assim desejar. Khlestakóv .) Prefeito E também. Khlestakóv Por que não? Por que não? Prefeito E depois. salmão e daí em diante comeu fiado. como.. Prefeito O senhor não gostaria agora de visitar algumas instituições de nossa cidade. Khlestakóv Idiota! Agora vai ficar fazendo continhas. Dóbtchinski. como está tudo em ordem. Quanto é tudo? Prefeito Por favor. Khlestakóv Isso mesmo.Criado Não faz muito tempo trouxe para o senhor uma conta.) (O Criado sai..

) Khlestakóv E então? Não se machucou? Dóbtchinski Não foi nada. agora não sobrou lugar para você. na assistência social. à casa do prefeito.) E você! Não tinha outro lugar para cair! Se esborrachou feito um diabo no chão! (Sai. Prefeito Como quiser. Dóbtchinski Não tem importância. (A Óssip. Prefeito (Em voz baixa para Dóbtchinski.) Não é nada. dou um jeito. (A Khlestakóv. Que tal escrever nesta conta mesmo? Prefeito Pois não.) .) Então vamos ver como a coisa vai rolar depois de uma boa bóia e de uma boa garrafa! E temos um bom Madeira daqui mesmo: a gente não dá nada por ele. a tinta está aqui. mas volta-se para Bóbtchinski e o repreende. que se dirige à porta. que esta escutando por detrás. não foi nada. Prefeito (Para Dóbtchinski. Piótr Ivánovitch.Prisões? Mas para quê? Não. entrega a Dóbtchinski. Tenha a bondade. ir com sua própria carruagem ou com a minha? Khlestakóv Prefiro ir com o senhor. Todos soltam exclamações. mas. por favor! Vou dizer ao seu criado que leve sua mala. Só vou ganhar um bom remendo bem aqui. mas papel.) Meu querido. mas é capaz de derrubar um elefante. e o outro para minha mulher.. duas palavrinhas para que minha mulher se prepare para receber tão honorável visitante? Khlestakóv Mas para quê? Bem. Tenha a bondade. O que o senhor prefere. fala para si mesmo. se desejar. é melhor passarmos só pela assistência social.) (Cai o pano.) Escute aqui: corra a todo vapor e leve esses dois bilhetes: um para Zernlianíka. Nada que me tire do sério.) Bem. Ele tem um bendito emplastro que logo vai me deixar bom. com Bóbtchinski atrás dele. (Enquanto escreve. Bóbtchinski se levanta. nesse momento. sei lá. Só quero saber quem ele é e até que ponto devo me preocupar. (Dá passagem a Khlestakóv e o segue. (Acaba de escrever. vou escrever aqui mesmo. Todo mundo sabe onde é. A Khlestakóv. leve tudo à minha casa.. em sua presença. Prefeito (Fazendo um sinal de desaprovação a Bóbtchinski. a porta cai sobre o palco e sobre ela Bóbtchinski.) Permita-me escrever. onde começa o nariz! Vou dar uma passadinha em Khristian Ivánovitch.

. você aí. Que moleza!. dentro de uns minutinhos vamos ficar sabendo de tudo.Ato 3 O mesmo cenário do Ato 1. querida mãe. que nada! Você está sempre imaginando coisas! Não é Dóbtchinski de jeito nenhum! ‘Acena com o lenço. depressa! Mária Antónovna E Dóbtchinski.. minha mãe! Ana Andréivna Mas que Dóbtchinski.) Ei. Ana Andréivna Mas que coisa! Faz de propósito. Não deveria ter dado ouvidos a ela. Mária Antónovna Calma. Ana Andréivna Veja só. Que droga! Não tem viva alma! Até parece de propósito. já faz uma hora que estamos esperando e você fazendo fita: já está pronta e ainda fica fazendo hora. Avdótia deve chegar logo.. venha aqui. mãezinha! Vem vindo alguém lá no final da rua. (Olha pela janela e exclama. mãezinha.. só pra me contrariar! Já falei que não é Dóbtchinski? Mária Antónovna . as duas na mesma pose de antes. logo. Mas quem será? É mesmo uma chateação! Quem é que pode ser? Mária Antónovna É Dóbtchinski.) Ah! Mãezinha.. Ana Andréivna Mas onde? Você sempre com suas fantasias. Como se não houvesse mais ninguém na face da Terra. Pois é verdade! Quem será? Baixinho. Cena 1 Ana Andréievna e Mária Antónovna estão junto à janela.. sim. de fraque.

Não falei, não falei, mãe? Viu como é Dóbtchinski? Ana Andréivna Ah! Agora vejo, é Dóbtchinski sim! E daí? E por que é que você tem sempre que teimar comigo? (Grita pela janela.) Depressa! Depressa! Como anda devagar! E então, onde eles estão? Vai logo, fala daí mesmo, tanto fax. Hein? Ë muito severo? O quê? E o meu marido? Como está meu marido? (Afasta-se um pouco da janela, aborrecida.) Mas que imbecil, não conta nada até chegar aqui!

Cena 2
As mesmas e Dóbtchinski.
Ana Andréievna Agora fale, faça-me o favor! Não tem vergonha? E eu, que confiava só em você, achando que você era honesto! E, de repente, todos desapareceram, e o senhor com eles! E eu até agora não sei nada de nada! Não tem vergonha? Eu que sou madrinha de seu Vânia e de sua Lisa, e o senhor me apronta uma dessas! Dóbtchinski Palavra de honra, comadre. Corri tanto para render-lhe minhas homenagens que nem tenho mais fôlego. Minhas homenagens, Mária Antónovna! Mária Antónovna Meus cumprimentos, Piótr Ivánovitch! Ana Andréievna E então? Agora me conte: o que se passa? Dóbtchinski Antón Antónovitch mandou-lhe um bilhetinho. Ana Andréievna Está bem, está bem. Mas, enfim, quem é ele? Um general? Dóbtchinski Não, não é general, mas fica nada a dever a um general, tal a sua educação, e que finura! Mária Antónovna Ah! Então é o mesmo sobre o qual escreveram ao meu marido? Dóbtchinski O próprio. Fui o primeiro a descobrir com Piótr Ivánovitch. Ana Andréievna Então, conte tudo, tudo. Dóbtchinski Graças a Deus, tudo em ordem. A princípio, ele recebeu Antón Antónovitch com certa aspereza. É, sim senhora. Ficou zangado e disse que no hotel tudo estava

mal, que não iria se hospedar na casa dele e que não queria ser preso por causa disso. Mas, depois, quando percebeu a generosidade de Antón Antónovitch e conversou um pouco melhor com ele, a sua cabeça virou e, graças a Deus, tudo começou a correr bem. Agora foram visitar as instituições da assistência social... Para dizer a verdade, Antón Antónovitch chegou a pensar em alguma denúncia secreta e até eu fiquei assim com medo. Ana Andréievna Mas assustado por quê? O senhor não é funcionário público! Dóbtchinski A senhora sabe, quando um homem importante fala, a gente morre de medo. Ana Andréievna Mas o que é isso? Bobagem sua! Conte, conte tudo. Como ele é? Velho ou moço? Dóbtchinski Moço, bem moço: uns vinte e três anos, mas fala como um velho: “Por que não”, ele diz, “vou com os senhores num e noutro lugar?”... (Agita as mãos.) Tão simpático! “Gosto”, diz ele, “de ler e escrever um pouquinho, mas este quarto não ajuda nada, é um tanto escuro.” Ana Andréievna E como ele é? Loiro ou moreno? Dóbtchinski Mais para o castanho e os olhos, então, tão agitados, parecem bichinhos. Chegam a nos perturbar. Ana Andréievna O que está escrito aqui no bilhete? (Lê.) “Apresso-me a informá-la, coração, que a minha situação era lamentável, mas, graças à misericórdia divina, dois pepinos salgados e meia porção de caviar, por um rublo e vite e cinco copeques...” (Interrompe.) Não estou entendendo nada. Que história é essa de pepinos e caviar? Dóbtchinski Ah! É que Antón Antónovitch escreveu rapidinho, num papel qualquer, sobre uma conta do hotel. Ana Andréievna Ah! Então é isso. (Continua lendo.) “Mas, graças à misericórdia divina, parece que, no final, tudo vai dar certo. Prepare depressa um quarto para o ilustre hóspede, aquele forrado com pedacinhos de papel amarelo. Quanto ao almoço, não se preocupe com nada especial, pois vamos comer alguma coisa lá na assitência social com Artémi Filípovitch. Agora, vinho sim, muito vinho. Diga ao negociante Abdúlin para mandar o que tiver de melhor, senão vou eu mesmo lá fuçar na adega dele. Beijo suas mãos, meu coração, do sempre seu, Antón Skvozník-Dmukhanóvski...” Ai, santo Deus! E preciso andar depressa! Ei, tem alguém aí? Michka! Dóbtchinski (Corre até a porta e grita.) Michka! Michka! Michka! (Entra Michka.) Ana Andréievna

Escute aqui: vá depressa até o negociante Abdúlin... espere aí, vou escrever um bilhetinho. (Senta-se à mesa, escreve um bilhete e, enquanto isso, continua falando.) Entrege este bilhete ao cocheiro Sídor para que ele o leve correndo a Abdúlin e traga, de lá, o vinho. E venha já arrumar o quarto de hóspede bem arrumadinho. Ponha lá a cama, o lavatório e tudo o mais... Dóbtchinski Está bem, Ana Andréievna. Agora vou correndo ver como é que o inspetor inspeciona. Ana Andréievna Vá, vá, ninguém o está segurando!

Cena 3
Ana Andréievna e Mária Antónovna.
Ana Andréivna Bem, Máchenka, agora precisamos cuidar da toilete. E jóia da capital. Deus nos livre se ele achar alguma coisa ridícula em nós. O que fica mais decente em você é aquele vestido azul com babadinhos. Mária Antónovna Ah!, não, mãezinha, o azul não! Não gosto nada dele. A filha de Liápkin-Tiápkin está sempre de azul e a filha de Zemlianíka também. É melhor eu vestir o estampado. Ana Andréivna O estampado!... Só para me contrariar. O outro vai ficar muito melhor, agora eu quero botar o vestido cor de palha. Adoro o cor de palha. Mária Antónovna Ah!, mãezinha, mas a senhora não fica bem de cor de palha. Ana Andréivna Como não fico bem? Mária Antónovna Não fica. Aposto o que quiser, não fica bem. Para usá-lo, é preciso ter olhos bem escuros. Ana Andréivna Era só o que faltava! E por acaso não tenho olhos escuros? O mais escuro possível. Cada absurdo! Como é que não são escuros se, quando tiro a sorte nas cartas, sempre me vejo na dama de paus? Mária Antónovna Ah!, mãezinha, a senhora está mais para dama de copas. Ana Andréivna

Que bobagens, só bobagens! Que dama de copas qual nada. (Sai, apressada, com Mária Antónovna e fala atrás do palco.) Agora essa, imagine só, dama de copas! Só porque você quer! (Depois que elas saem, abrem-se as portas e aparece Michka varrendo a sujeira para fora. De outra porta, sai Óssip com uma mala na cabeça.)

Cena 4
Michka e Óssip.
Óssip Para onde vou agora? Michka Por aqui, por aqui, amigo. Óssip Espere aí. Deixe-me respirar um pouco. Ah!, que vida desgraçada! Com a barriga vazia, qualquer coisa parece pesada. Michka Diga, amigo: o general vem logo? Óssip Que general? Michka Seu patrão, ora essa! Óssip Meu patrão? Mas que general que nada! Michka Então não é general? Óssip General, sim, de meia-tigela. Michka Mas isso é mais ou menos general de verdade? Óssip Mais. Michka Que coisa! É por isso que armaram toda essa confusão. Óssip Escute aqui, meu querido: vejo que você é um rapaz bem esperto. Veja se prepara alguma coisa pra gente comer! Michka Para o senhor, meu amigo, ainda não tem nada preparado. O senhor não vai querer comer qualquer coisa, vai? Mas deixa o seu patrão sentar pra comer; aí,

sim, vai ver que refeição vai ter para o senhor também. Óssip Bem, mas o que você tem? Como qualquer coisa. Michka Sopa, mingau e pastéis. Óssip Então me dá logo tudo, sopa, mingau e pastéis! Não se preocupe: como de tudo. Bem, vamos levar a mala! Há outra saída por aqui? Michka Há sim. (Ambos levam a mala. para o quarto ao lado.)

Cena 5
Dois soldados abrem as duas folhas da porta principal. Entram Khlestakóv, atrás dele o prefeito, depois o encarregado da assistência social, o inspetor de escolas, Dóbtchinski e Bóbtchinski com um emplastro no nariz; o prefeito mostra aos soldados um papel que está no chão. Eles correm para apanhá-lo, chocando-se na pressa.
Khlestakóv Que belas instituições! Fico contente que os senhores mostrem aos viajantes tudo o que a cidade possui. Não me mostraram nada nas outras cidades. Prefeito Nas outras cidades, se o senhor me permite dizê-lo, os dirigentes e funcionários, por assim dizer, pensam apenas em tirar vantagem de tudo. Mas aqui, não; em princípio, não temos outra aspiração que não, com devoção e zelo, ganhar a estima de nossos superiores. Khlestakóv O almoço estave excelente: comi até não poder mais. Aqui se come assim todos os dias? Prefeito Foi exclusivo para tão honrado hóspede. Khlestakóv Eu gosto de comer. Afinal, para que é que a gente vive? Para colher as flores do prazer. Como se chama mesmo aquele peixe? Artémi Filípovitch (Aproxima-se, correndo.) Bacalhau, senhor. Khlestakóv

Prefeito E. Desde que fui nomeado para esse cargo . o que se pode querer mais? Palavra de honra. Também não posso ficar indiferente diante delas.. vê-se logo que tem muita instrução. sei bem aonde você quer chegar! (Em voz alta. a gente. é a limpeza aqui.Muito saboroso. confesso que também gosto de ficar matutando: às vezes. graças a Deus.) Que bom. as honrarias. outras. diante da virtude. a ordem é essa. no hospital. como enrola! Que dom Deus lhe deu! Khlestakóv E verdade. assim. será que poderiam me dizer se vocês não têm por aqui algum entretenimento. Quando tudo está em ordem na cidade. Tinha um monte de camas lá. Artémi Filípovitch Sobraram mais ou menos uns dez. sim. Um outro prefeito. se contentaria apenas em agir em proveito próprio. até mesmo quando vai para cama dormir. Artémi Filípovitch (À parte. não? Artémi Filípovitch Exatamente. Numa palavra. Quantos problemas diferentes.isso talvez lhe pareça incrível -. as ruas varridas.) Deus nos livre e guarde! Aqui não temos a menor ideia desse tipo de sociedade. mas. Khlestakóv Por favor....) Mas que malandrão. vejo algum rei de ouros ou outra coisa qualquer. E os doentes. E onde foi mesmo que nós almoçamos. os presos em boas condições e há poucos bêbados. pode acreditar. Khlestakóv Ah. é claro. prosa. mas. Nossa organização funciona assim. por acaso.” Se serei recompensado ou não. tenho a consciência tranquila. tudo isso são cinzas e vaidades.) Ah.. Piótr Ivánovitch. um concerto ali. O doente nem bem entra no hospital já fica bom. agora me lembro. fiz uma casinha de cartas de baralho e depois sonhei a noite toda com as ditas-cujas. mas. E não é tanto por causa dos remédios. meu queridinho. se. Certa vez. Claro que são sedutoras. tudo corre na santa paz. só Deus sabe. na assistência social. . apenas para divertir as crianças. fico com tamanho nojo que até tenho vontade de cuspir. sararam? Achei que não havia muitos. até me lanço em versinhos. pelo menos. mas. Eu nunca tive uma carta nas mãos e muito menos sei como se jogam cartas. se me permite dizer-lhe. fica pensando: “Queira Deus que tudo seja feito para que os superiores reconheçam o meu zelo e fiquem satisfeitos.. todos ficam logo curados como moscas. mas sim pela honestidade e pela ordem. assim por exemplo.. não quero mesmo. muito bom mesmo. Que observações.. jogar cartas? Prefeito (À parte. Bóbtchinski (Para Dóbtchinski... uma boa sociedade onde se possam. um reparo acolá. o homem mais inteligente se veria em apuros. senhor. Os outros todos ficaram bons. todo esse quebra-cabeça é de responsabilidade do prefeito.

) E esse bandido me levou ontem cem rublos.) Imagine. também não é assim. Khlestakóv (Afetado. Ana Andréievna e Mária Antónovna. por exemplo. confesso. tenho que pôr o pé na estrada: hospedarias imundas. se o seu desejo é mesmo inevitável. ao seu lado..) Quão feliz estou. mas não me atrevo a crer que esteja falando sério. Mas. minha cara senhora. Faça o favor de sentar-se. aí.. Cena 6 Os mesmos. comprenez vous.. Ana Andréivna Queira desculpar-me. Khlestakóv (Faz reverência. Khlestakóv Extremamente desagradável. Estou acostumado a viver em sociedade. se não fosse. as trevas da ignorância. o acaso que me. me desculpem. Ana Andréivna . veja bem... você deixa de dobrar a aposta em vez de triplicar. é claro que.. deter o prazer sui generis de conhecê-la. o meu prazer é maior ainda. Não.. Khlestakóv Bem. vou me sentar.. enfim. Prefeito Tomo a liberdade de apresentar-lhe minha família: minha esposa e minha filha.. Se. de repente. esta voyage seja muito desagradável para o senhor. e. (Lança um olhar para Ana Andréievna e se exibe diante dela. minha senhora. Ana Andréivna Não diga isso! O senhor tem demasiada gentileza de falar assim só por cortesia.. Como estou feliz de me sentar. Mas.Que Deus nos livre. Tudo depende do ponto de vista de que a gente olha pra coisa.. muito pelo contrário. Ana Andréivna O prazer é todo nosso de ter entre nós personalidade de tal ordem.. como se pode matar o nosso precioso tempo com isso? Luká Lukítch (À parte.. depois da capital. Prefeito É bem melhor dedicar nosso tempo em favor do Estado. Imagino que.) me recompensou de tudo. Khlestakóv Estar de pé a seu lado já é uma felicidade. mas jogar às vezes é bem sedutor.

vou engraxar suas botas”. tomamos você pelo comandante-chefe”. Depois. Sempre me . mas o campo. o chefe da seção é assim comigo. Mas é claro. tr. Ana Andréivna Ah! Não me diga! Khlestakóv Também conheço atrizes lindíssimas.) Não gosto de cerimónias. Ë só eu sair para ir a qualquer lugar e pronto. Ana Andréivna Vivo no campo. diz ele. Os soldados saíram correndo dos quartéis e se perfilaram diante de mim. não se pode compará-lo a Petersburgo! Ah! Petersburgo! Aquilo sim que é vida! Talvez a senhora imagine que eu seja um simples escrevente. Mas é absolutamente impossível a gente se esconder. minha senhora. Khlestakóv Como..) Prefeito Com um status como o meu. por favor.) Mas por que estão em pé. Ana Andréivna Mas o que é isso? O senhor me faz tantas honrarias! Não mereço tanto. Khlestakóv Vamos esquecer a hierarquia. pelo menos agora. pega a pena e se põe a escrever tr. eu até faço todo o esforço para não ser notado.. senhora. senhores? Tenham a bondade de sentar-se. (Ao prefeito. Ivan Aleksándrovitch. não. não merece? Claro que merece.. tudo me agrada. um funcionário. pra quê? E o contínuo corre sempre atrás de mim pelas escadas com uma escova: “Com licença. mas. pensei. Khlestakóv E verdade. até me tomaram pelo comandante-chefe. neste exato minuto.. sentem-se. Eles até queriam me nomear assessor de colegiatura. aquela ratazana. meu velho!” Dou uma passadinha de dois minutos na repartição só para dizer: “Isto tem que ser assim.. como deve ter sido desagradável. Até alguns vaudevillezinhos.. meu irmão. pensando bem. simplesmente impossível. também tem suas colinas. Luká Lukítch Não se preocupe.Realmente. (O prefeito e todos os outros se sentam. isto tem que ser assado!” E. minha senhora. devo ficar em pé. um oficial que é muito meu amigo me disse: “Pois é.. (Todos ao mesmo tempo.. seus riachos. é Ivan Aleksándrovitch!” Certa vez. Ele me dá uns tapinhas no ombro: “Venha almoçar comigo. já começam a falar: “Olha quem vai lá... Artémi Filípovitch Estamos bem em pé. Khlestakóv Mas. Ao contrário. logo.

“vamos indo. Polevy a partir de 1825 e fechada em 1834 por decreto de Nicolau I. Roberto. E também corrijo os artigos de todo mundo. mano” . Aliás.. Bestujev (1797-1837). pseudónimo do dezembrista A. há muita coisa minha escrita. como vai?” . meu irmão. Ana Andréivna Logo adivinhei. jornalista. Ana Andréivna Outra vez! Sabia que você iria teimar comigo de novo. ‡ O Telégrafo de Moscou: revista progressista editada por N..“Vamos levando. Sempre digo a ele: “E aí.‡ fui eu que escrevi tudo isso. Iúrí Miloslávski ** também é obra sua. * Barão Brambeus: pseudónimo de O. o diabo. Tenho uma cabeça ágil como o vento. participante da rebelião contra o czar Nicolau I. I. redator da revista Biblioteca para leitura. meu amigo!” E acho ainda que escrevi tudo numa noite só e deixei todos maravilhados.* A fragata esperança. As bodas de Fígaro. mamãe. É de Zagóskin.às vezes responde -. A.” Muito original. E tudo assim. De fato. escritor. Mária Antónovna Mas. Pensei comigo mesmo: “Por que não? Toma lá. Ana Andréivna Então quer dizer que Brambeus é o senhor? Khlestakóv Perfeitamente. nas revistas também. . Senkovski. quer dizer. Norma. é isso mesmo. Ana Andréivna Quer dizer que o senhor também escreve? Como deve ser agradável! Certamente também publica nas revistas? Khlestakóv Claro. Khlestakóv Sim senhora. vai”. como que por acaso: eu nem queria escrever. meu caro. Púchkin é meu amigo do peito. mas a direção do teatro me pediu: “Por favor. † O Telégrafo de Moscou. Ana Andréivna Então. Khlestakóv Ah! sim. e muito conhecido nos anos 30-40 do século XIX. A. lá está escrito que é do senhor Zagóskin. Até nem me lembro mais dos nomes. ocorrida em dezembro de 1825. † A fragata esperança: novela de Marlínski. Smírdin* me paga por isso quarenta mil rublos. Tudo que apareceu sob o nome do barão Brambeus.encontro com literatos. escreva alguma coisa. certamente. mas há um outro Iúrí Misloslávski que é meu. obra minha.

vá dirigir a repartição!” Para dizer a verdade. fez muito sucesso.. Ana Andréivna Eu acho que li foi o seu. “Então vá lá”. Sabem. eles se dão conta. Recebi-os em robe de chambre. naturalmente. Em Petersburgo. na época. fiquei um pouco constrangido. não têm saída e vêm para cima de mini. mas pensei: “Isto vai acabar chegando aos ouvidos do soberano. venham mesmo à minha casa. e também à minha folha de serviço.) Ah! Não! Brincadeira comigo não. aceito o cargo. também dou bailes. melão.* A.. (O prefeito e os demais tremem de medo...para onde... mensageiros. Sirvo.” Ah! não! Que bobagem! Ksqueci que moro no primeiro. Lá a gente organiza também um bom whist: o ministro das Relações Exteriores. o embaixador alemão e eu. E ao subir correndo as escadas de minha casa. O que se pode fazer? Eu sou assim! Não poupo ninguém.. Imaginem.) Façamme a gentileza. e vem de navio. até cheguei a dirigir uma repartição. ** Iúrí Miloslávski: romance histórico de M. mas a coisa não era nada fácil não. E conhecida como a casa de Ivan Aleksándrovitch. por exemplo. Só a escada me custou. Passei um sabão em todo mundo! Até o Conselho de Estado tem medo de mim. trinta e cinco mil só de mensageiros! Como é que está indo a coisa.. “eu aceito. Aí. numa sopeira. Smirdín: livreiro muito conhecido de São Petersburgo e editor da revista Biblioteca para leitura. mal consigo dizer à cozinheira: “Mávruchka. o embaixador francês. começou um “diz-que-diz-que” como? o quê? quem vai ocupar o lugar? -. A gente levanta a tampa e sente um tal cheiro. A sopa. só o diabo é que sabe.. As vezes também o ministro. olha lá! Estou por dentro de tudo. Todos se agitavam e tremiam como folhas. senhores.. o meu capote. se forem a Petersburgo. Khlestakóv se inflama ainda mais. À primeira vista. parece fácil. vão ver só. aceito”.. Mas o mais interessante é dar uma olhada na minha ante-sala antes de me levantar. Foi muito estranho: o diretor foi embora . (O prefeito e os outros erguem-se de suas cadeiras atemorizados. Condes e príncipes conversam e zumbem como abelhas e só se escuta zzz. zzzz. quis recusar. . meus senhores.era aquele terremoto. direto de Paris.. Está bem.” E foi dito e feito: era só eu entrar na repartição . digo. minha casa é de primeira. digo. muitos generais apareceram e toparam a parada. li n tão... por favor. mas vou logo avisando. no quarto andar. (Voltando-se a todos. o embaixador inglês. Zagóskin.. impossível de se encontrar igual na natureza. vou logo dizendo a todo mundo: “Me conheço muito bem”. Ana Andréivna Imagino com que bom gosto e que bailes maravilhosos devem ser! Khlestakóv A senhora nem queira imaginar.. Certa vez. A gente joga até não poder mais. publicado em 1829 e que. mas um melão que custa setecentos rublos. Como está bem escrito! Khlestakóv Confesso que vivo de literatura. mas olhando bem.) Até nas correspondências vem escrito: “Para sua excelência”.. eu pergunto? “Ivan Aleksándrovitch. F. mensageiros. Todos os dias vou a bailes.. ninguém sabia. E no mesmo instante pelas ruas surgem mensageiros.

Vou descansar.) Prefeito (Aproxima-se tremendo dos pés à cabeça e faz um esforço para falar. (Declama.. bom mesmo. Khlestakóv (Com voz rápida e cortando. vossa excelência não ordenaria descansar um pouco? Ali está o quarto e tudo o mais que for preciso.. Isto é que significa ser homem! Nunca na vida estive diante de uma persona tão importante. Dóbtchinski . Prefeito Vo-vo-vo. Khlestakóv (Com a mesma voz. senhores.. mas os funcionários o seguram com respeito.. Bóbtchinski Eu já acho que um general não lhe chega nem aos pés.. Ana Andréievna. Piótr Ivánovitch. quem é ele. Até logo. E se de fato for general.Estou em toda parte.. no que diz respeito ao status? Dóbtchinski Acho que ele é quase general. Estou satisfeito. menos Khlestakóv e o prefeito.) Mas o que é isso agora? Prefeito Vo-vo-vo. em toda parte. muito. Piótr Ivánovitch. muito satisfeito. Você escutou como tratou o Conselho de Estado? Vamos logo contar tudo a Amos Fiódorovitch e a Koróbkin. Khlestakóv Que absurdo! Descansar? Está bem.) Não estou entendendo nada... O almoço.) Mas vovo-vo-vo. Quase morri de medo! O que você acha. Vou todos os dias ao palácio. no mínimo é um generalíssimo.. (Escorrega e por pouco não cai no chão. seguido pelo prefeito.. E logo vou ser nomeado marech.) Isto é que é homem. vo. Tudo isso é um absurdo.) Bacalhau! Bacalhau! (Entra no quarto ao lado...) Cena 7 Os mesmos. Bóbtchinski (Para Dóbtchinski.

E se. vamos dar uma olhadinha nela também!” .Até logo. As atitudes e tudo.) Artémi Filípovitch (A Luká Lukítch. pensativo. (Ambos saem. é verdade mesmo! Ana Andréivna Lá vem ela de novo! Meu Deus. Ah! Que maravilha! Adoro essa gente jovem. Notei que era olhos só para mim.. Ana Andréivna Que homem agradável! Mária Antónovna Que encanto! Ana Andréivna Que maneiras refinadas! Vê-se logo que é jóia da capital. Mária Antónovna Mas. quando contou que jogou whist com os embaixadores. olhou o tempo todo. ele olhou foi pra mim! Ana Andréivna Por favor. depois de voltar a si ele mandar um relatório para Petersburgo? (Sai. Perco completamente a cabeça. Ana Andréivna Bem. Olhou quando começou a falar de literatura e. chega de tolices! Isso está fora de qualquer propósito. pode até ser que uma vez ou outra. em companhia de Luká.. assim só por olhar. ele tenha pensado consigo mesmo: “Está bem. ainda por cima.) Adeus. Acho até que ele gostou bem de mim. Mária Antónovna Ah! Mamãe. tudo o mais. comadre. olhou outra vez. sempre quer discutir. depois.) Que medo horrível! E a gente nem sabe por quê. mãezinha. não vive sem isso. mamãe. E nós nem estamos de uniforme. minha senhora! Cena 8 Ana Andréievna e Mária Antónovna. Quem você pensa que é para ele te olhar? E por que cargas d’água ele iria olhar para você? Mária Antónovna É verdade.

Cena 10 Os mesmos e Óssip.vai a gente saber quem ele é... Mas. Simplesmente vi nele um homem do mundo culto e de bom tom. da porta. afinal.) E por que não haveria de ser verdade? Um homem meio tocado sempre desabafa tudo.. Mas que coisa! Até agora não consigo me recuperar do susto..) Michka! Vá chamar os soldados Svistunóv e Derjimórda. não precisa se incomodar. Prefeito (Entra na ponta dos pés. se comportou com ele tão à vontade. mais parece uma mosca de asas cortadas. mas o marido é que vai entrar bem. (Olha para a filha. só o diabo sabe o que passa pela cabeça. lá na hospedaria. Prefeito Ah! Vocês. sai pela língua. Todos correm ao seu encontro fazendo sinais.) Para que perder tempo com vocês?. fininho . como se fez de durão! Despejava tantas alegorias.. E há pouco.. Bem se vê que é jovem. vestido com esse fraquezinho... Ana Andréivna Quanto a isso. logo se veria. Até pensei que eu não conseguiria nada nem mesmo em um século.) Prefeito (Sozinho. Nós duas sabemos muito bem.Cena 9 Os mesmos e o prefeito. Se fosse um militar. É claro que mentiu um pouco. Mas.. tudo é brincadeira! De repente.) Cada uma que acontece agora no mundo! Ainda se fosse alguém de porte. Ana Andréivna Pois eu não senti o menor temor. Até falou mais do que devia. mulheres! Basta pronunciar essa palavra e pronto! Para vocês. (Abre aporta e fala. Eles devem estar aqui ao lado da entrada.. mas não. coraçãozinho. Aí é que está. (Depois de uma breve pausa. Mas sem mentira não pode haver uma boa conversa.. Você. como se fosse algum Dóbtchinski. Parece que estou a um passo do abismo ou da forca. quanto mais a gente pensa. tantos rodeios. se pelo menos a metade do que ele disse é verdade? (Fica pensativo.. Psiu! Ana Andréivna O que é? Prefeito Não estou nada contente de ter lhe dado tanto de beber. . Tudo o que vai no coração. um magrinho. Seu status não me interessa nem um pouco. deixam escapar uma ou outra tolicezinha e só vão se dar mal. entregou-se.) Psiu!. Joga cartas com ministros e vai ao palácio. mas esse aí.

Óssip. minha senhora. vocês com essas perguntas estúpidas! Não me deixam falar de negócios. uai. então. Prefeito . (Em voz alta. Prefeito (Para a mulher e a filha. já chega! (Para Óssip. queridinho. de tudo em ordem. Comi muito bem. comeu bem? Óssip Muito bem. como é que ele. Prefeito Agora chega. como seu patrão é atraente! Ana Andréievna Diga. Então. Ana Andréievna Agora me diga. e então amigo? Ana Andréievna Qual status do seu patão? Óssip O dele. estou muito agradecido ao senhor.) Agora chega. meu caro! Prefeito Psiu! E aí? Ele já dormiu? Óssip Ainda não! Está se espreguiçando. por favor! Vocês me atrapalham com toda essa conversa idiota..) Com certeza. como é o seu patrão? Duro? Gosta de passar sermão ou não? Óssip Gosta. os condes também aparecem por lá. sim.. Tudo tem que estar direito. imagino que são muitos os condes e os príncipes que visitam o seu patrão. santo Deus. amigo. corno é que você se chama? Óssip Óssip. Bem. ainda pode ser melhor. Mária Antónovna Óssip. Prefeito Ai. depois. meu amigo.Ana Andréievna Venha cá.) E então. não? Óssip (À parte. Ana Andréievna Escute aqui.) O que dizer? Se a comida agora foi boa.

está bem. meu amigo. Óssip (Pegando o dinheiro. quer dizer. te acolheram bem?” “Muito mal... Ana Andréievna Escute aqui. comida boa.penso comigo mesmo (Faz um gesto com a mão. por favor. Óssip. me responda o que mais chama a atenção do seu patrão. Óssip. Trata-se da vida de um homem. Prefeito Está bem. então.Simpatizo muito com você.“deixa pra lá! Sou um homem simples”.“Ah!. então esse anfitrião não presta. está bem. excelência!” . (A Óssip. que cor de olhos o seu patrão prefere? Mária Antónovna Óssip... aí depende.) É verdade.. excelência? (Guarda o dinheiro. Prefeito Está bem. Óssip. E de mim também. tem razão.. ele cuida muito bem.) Então vou beber à sua saúde. Pegue uns rublozinhos para um chá. Ana Andréievna Escute aqui. Mas o que ele gosta mesmo é de ser bem recebido e que a comida seja boa.) . lá o seu patrão usa uniforme? Prefeito Chega! Mas que matracas! Estamos falando de coisas sérias. Lembre-me disso quando eu chegar” “Ah”. então agora dou-lhe para umas rosquinhas. que narizinho bonitinho tem o seu patrão! Prefeito Esperem um pouco.. Óssip O que fiz para merecer. Olhe. e também vai ganhar. amigo. que não passo de um servo. meu querido. Dei-lhe um dinheirinho para o chá. senhor! Que Deus o abençoe por ajudar um homem pobre. Mas. Juro por Deus! Em qualquer lugar por onde passamos. Agora faz bastante frio. deixem-me falar! (A Óssip. Ana Andréievna Venha me ver. bem. Prefeito Comida boa? Óssip Isso mesmo. o que mais o agrada quando viaja? Óssip Ele gosta. Mária Antónovna . ele pergunta: “E aí. é sempre bom tomar mais uma xícara de chá. amigo. Você deve ser um bom sujeito.. Quando se está em viagem. . eu também estou contente.) Muito obrigado. gosto muito de você. Óssip. Óssip.) Bem..

principalmente comerciantes. Prefeito Psiu! Mas que ursos desajeitados .. fiquem aí na entrada e não saiam do lugar! E não deixem nenhum estranho passar... se formos lá ouvir. teremos que tapar os ouvidos. Cena 11 Os mesmos. amigo. E se vocês perceberem alguém chegando com uma petição..) Ato 4 . ou mesmo sem petição alguma. O que não tiver na casa. (Óssip sai. dê um beijo em seu patrão! (Ouve-se no outro quarto a tosse de Khlestakóv.. já chega.) Cumprindo ordens! Parece rugir dentro de um barril! (Para Óssip.) Estão entendendo? Psiu!.) Corveja como um urubu (Imitando.) E vocês. mas alguém com cara de quem vai se queixar de mim. amigo.) E você. Psiu!. Ana Andréievna Vamos.) Então. Acho que. vá lá ver tudo o que é necessário para o seu patrão. não façam barulho. meu querido.. Máchenka! Vou dizer-lhe o que reparei em nosso hóspede.... Prefeito Psiu! (Tapa-lhea boca. (A Óssip. expulsem o dito-cujo e lhe dêem um belo pontapé! (Mostra com o pé. mas só podemos falar entre nós. Se um único deles passar. (Sai na ponta dos pés e atras dele os soldados.) Prefeito Psiu! (Fica na ponta dos pés e fala em voz baixa.. vão ver só.) Pelo amor de Deus.Óssip.. Derjimórda e Svistunóv. Mas que diabo aconteceu com vocês? Derjimórda Cumprindo ordens.. é só pedir.como batem essas botas! Entram de uma forma que parecem descarregar uma tonelada da carruagem. Vão com Deus. Prefeito Lá vão elas fofocar.

Amos Fiódorovitch. Toda a cena se desenrola a meia-voz. Piótr Ivánovitch. por exemplo? Artémi Filípovitch Ora. Amós Fiódorovitch O quê. senhores. dizem que chegou ao correio um dinheiro não se sabe bem para quem”. Deus nos livre. e o senhor. Amos Fiódorovitch. Amós Fiódorovitch (Reúne todos em semicírculo. o senhor será o primeiro. em trajes de gala e uniformes. deste lado. em círculo e na mais perfeita ordem! Santo Deus! Ele vai ao palácio e ainda por cima passa um sermão no Conselho de Estado! Sentido! Postura de militares. tudo só entre quatro olhos e de tal forma que. na ponta dos pés. quase na ponta dos pés. Artémi Filípovitch. Amós Fiódorovitch Adulá-lo? Artémi Filípovitch Isso mesmo. Cena 1 Entram com cuidado. Artémi Filípovitch Olha lá se ele não vai é mandar o senhor pelo correio para algum lugar bem distante. um alto funcionário. o senhor sabe o quê. nem sequer os ouvidos possam ouvir! E assim que se faz numa sociedade bem organizada! Pois bem. Amós Fiódorovitch. e por que não? Amós Fiódorovitch E perigoso. tem que ser assim. O senhor. E será que não seria melhor na forma de um presente por parte da nobreza para a construção de algum monumento? Chefe dos Correios Ou então dizer assim: “Sabe. mas é preciso tomar alguma providência. todos como militares. Luká Lukítch.. o chefe dos correios.A mesma sala na casa do prefeito. Dóbtchinski e Bóbtchinski. Escutem aqui: não é assim que se fazem essas coisas em um Estado bem organizado. fique deste outro lado.) Pelo amor de Deus. ele pode se ofender. (Ambos os Piótrs Ivánovitchs correm. Por que estamos nós aqui como um batalhão? A gente tem que se apresentar um de cada vez. Piótr Ivánovitch.. rápido. rápido. Amós Fiódorovitch .) Artémi Filípovitch Como quiser.

) Cena 2 Khlestakóv . seja o nosso pai!. mas também sobre aTorre de Babel. não posso! Confesso que tenho uma educação tal que conversar com alguém que tenha um grauzinho a mais me põe num estado em que minha alma simplesmente evapora. Todos (Rodeando-o. Ouvem-se exclamações a meia-voz..) Voz de Bóbtchinski Ai! Piótr Ivánovitch. se uma vez ou outra. é verdade. por favor. Luká Lukítch Não posso.. e a língua fica como que atolada em lama. finalmente. Pois foi em sua instituição que o ilustre visitante fez uma boquinha. Amos Fiódorovitch... não nos abandone. Amós Fiódorovitch Nem pensar! Que Cícero que nada! Imaginem só! Então. por favor! Artémi Filípovitch Bem.Vamos.. Artémi Filípovitch Então é melhor Luká Lukítch.) Que nada. ouvem-se passos e pigarros no quarto de Khlestakóv. todos saem empurrando-se e a sala fica vazia.É melhor o senhor. meus senhores. senhores. meus senhores. senhores! (Neste momento. o que acontece com certo atropelo. Amos Fiódorovitch. Em seu discurso parece que é o próprio Cícero que baixa. Não. a gente se anima ao falar de cães de caça. você sabe falar não apenas de cachorros. aglomerando-se e empurrando-se para sair.. deixem-me em paz . Por favor. como provedor espiritual da juventude. Amos Fiódorovitch! Amós Fiódorovitch Deixem-me em paz. então.estão me apertando! (Soltam várias exclamações: “Ai! Ai!” e. você e ninguém mais. Piótr Ivánovitch! Você pisou no meu pé! Voz de Zemlianíka Soltem-me. Todos se precipitam para a porta.

por acaso. E a filha do prefeito não é nada mal. e não por interesse. deixa cair os bilhetes no chão. . Khlestakóv Tenha a bondade de sentar-se. é vantajoso ser juiz? Amós Fiódorovitch Por esses nove anos.(Entra com olhos sonolentos.) E o dinheiro aqui na minha mão. Gosto de hospitalidade e. só sei que.) Meu Deus! Não sei onde fui me meter.) Nada. não. Até agora a cabeça está martelando. Khlestakóv O que é que o senhor tem na mão? Amós Fiódorovitch (Desconcertado. e a mão parece em chamas. não gosto muito. fui condecorado com a ordem de São Vladimir do 4° grau com a aprovação das altas autoridades. Parece que estou em cima de brasas. Então o senhor é o juiz daqui? Amós Fiódorovitch Desde 1816. tirei uma boa soneca.) Santo Deus! Santo Deus! Faça com que tudo corra bem! Os meus joelhos até estão tremendo. (A parte.) Tenho a honra de me apresentar: juiz do tribunal local. Cena 3 Khlestakóv e Amos Fiódorovitch. De onde essa gente tirou esses colchões e esses edredons? Cheguei até a suar. pára e diz para si próprio. Pelo que vejo. (Em voz alta. e a mãezinha também. Eu acho que ontem eles me meteram não sei o que goela abaixo. gosto desta vida. À parte... Sei lá. confesso. não senhor. é bem verdade. assessor de colegiatura Liápkin-Tiápkin. Khlestakóv Como nada? Eu vi o dinheiro cair. até que ainda se poderia. Amós Fiódorovitch (Avançando um pouco com a mão fechada. gosto ainda mais que me agradem de todo o coração.) Pelo visto. Khlestakóv Gosto muito da ordem de São Vladimir. Já a ordem de Sant’Ana de 3° grau. Amós Fiódorovitch (Ao entrar. Khlestakóv E. perfilandose e colocando a mão na espada. aqui a gente pode passar o tempo muito bem. fui eleito por três anos pela vontade da nobreza e continuo no cargo até hoje.

) E um bom sujeito esse juiz. sim. (À parte.. coragem! Me salve.) De jeito nenhum. (Levanta-se da cadeira e perfila-se em posição de sentido.. esforço-me para bem servir os meus superiores. Amós Fiódorovitch (Apressadamente. pois não. com muito prazer. é uma honra para mim. Virgem Santíssima! Khlestakóv O senhor sabe.. perfila-se .. senhor. (À pane.. senhor? Khlestakóv Que ordem? Amós Fiódorovitch Não teria o senhor alguma ordem ao tribunal local? Khlestakóv Mas pra quê? Olha aqui.. gastei muito na viagem: uma coisa e outra. Ao entrar.Amós Fiódorovitch (Tremendo todo.estou perdido..) É dinheiro. perdido! Khlestakóv Sabe de uma coisa? Me empresta aqui esse dinheiro. Alguma ordem. nada.) Pois não. quer dizer.. Nada. Muito agradecido.) Coragem.) Não ouso importuná-lo mais com minha presença... não tenho a menor necessidade dele..) Mas que lugar esse aqui! Khlestakóv (Depois da saída de Amós. Amós Fiódorovitch Ora! O que é isso! Além disso.) Agora é o fim .) Ai. Mas devolvo logo que chegar em casa. Cena 4 Khlestakóv e o chefe dos correios de uniforme. meu Deus! Já me vejo diante do tribunal! Já chegou o carro para me prender! Khlestakóv (Pegando. senhor. Amós Fiódorovitch (À parte. à parte. Amós Fiódorovitch (Despede-se e sai.. com zelo e dedicação. É claro que com minhas poucas forças.

(Olha bem nos olhos dele e diz para si mesmo. a gente só precisa ser respeitado e amado com sinceridade. não é verdade? Chefe dos Correios Justamente. Acham que sou um pouco estranho. Então. Khlestakóv Confesso que estou muito contente por termos a mesma opinião. senhor. Concorda comigo? Chefe dos Correios Isso mesmo. o senhor viveu sempre aqui. Khlestakóv Muito obrigado. (Em voz alta. mas o meu caráter é assim mesmo. senhor.e segura a espada. não? Chefe dos Correios Isso mesmo. senhor. não é mesmo? Chefe dos Correios Isso mesmo. Khlestakóv Ah! Muito prazer! Gosto muito de gente agradável.) Pelo menos não é nada orgulhoso: pergunta sobre tudo. mas e daí? Não é a capital. Khlestakóv E só na capital existe gente de bom-tom e não esses gansos provincianos.) Mas que coisa estranha aconteceu comigo: durante a viagem gastei tudo o que tinha. O senhor não poderia me emprestar trezentos rublos? Chefe dos Correios Por que não? Com o maior prazer. Chefe dos Correios Tenho a honra de me apresentar: chefe dos correios. Khlestakóv Gosto muito desta cidadezinha. senhor. seja franco. Está aqui. sabe? Claro que não tem muita gente aqui. numa cidadezinha destas. conselheiro Chpékin. Khlestakóv Então. pode-se viver muito bem. (À parte. e para . Sente-se. senhor.) Vou mais é pedir um dinheirinho emprestado a esse chefe dos correios. Faço-o de todo o coração. Não é verdade que não é a capital? Chefe dos Correios Isso mesmo. Confesso que não gosto de passar privações em viagem. Khlestakóv E do que a gente precisa? Na minha opinião.

eu fumava uns charutinhos por vinte e cinco rublos o cento. Eu. o senhor não é lá muito chegado a um charuto. Aqui está o fogo. E o senhor? O que prefere. pegue.) Tenho a honra de me apresentar: inspetor de escolas. a gente até quer lamber as mãos. Depois de fumar. Gosto desse tipo de gente. meu caro.) Luká Lukítch (Consigo mesmo.) (Luká tenta fumar e está todo trémulo. Alguma recomendação para a administração dos correios? Khlestakóv Nenhuma. (Levanta-se. tremendo. confesso que é a minha perdição. as loiras ou as morenas? (Luká Lukítch fica completamente perplexo e não sabe o que dizer.) Acho que também o chefe dos correios é um sujeito muito bom.. Khlestakóv Ah! Muito prazer! Sente-se. Aliás. É claro que não é como os de Petersburgo.) (Khlestakóv acende um charuto. também o sexo feminino. Aceito ou não aceito? Khlestakóv Pegue.) Diz aí. Lá.) Não é desse lado! Luká Lukítch (Assustado. Cena 5 Khlestakóv e Luká Lukítch. pelo contrário. empurrado com força porta adentro. (O chefe dos correios faz uma reverência e sai.. Khlestakóv . (Passa a vela. e segura a espada. cospe e faz com a mão um gesto de desalento − à parte. as loiras ou as morenas? Luká Lukítch Não sei não senhor.quê? Não é verdade? Chefe dos Correios Isso mesmo.) O diabo que a carregue! Essa minha maldita timidez! Khlestakóv Pelo visto.) Veja só! Por essa eu não esperava. conselheiro titular Khlópov. deixa cair o charuto. Não sou nem um pouco indiferente. senhor. fume. indeciso. Atrás dele ouve-se quase alto: “Está com medo do quê?” Luká Lukítch (Perfila-se. Pelo menos é servil. sente-se! Aceita um charutinho? (Dá-lhe um charuto. de verdade.) Não ouso importuná-lo mais com minha presença. É um bom charuto. perfila-se e segura a espada.

Khlestakóv Veja só que coisa estranha me aconteceu.. senhor. Durante a viagem. sua Excel. alguma morena já lhe deu bola. Deu ou não deu? (Luká Lukítch fica calado. Khlestakóv Ah! Não quer falar. Khlestakóv Passe bem! Luká Lukítch (Sai correndo e diz aparte.... que se perfila e segura a espada.. ilustrí..) Khlestakóv Muito agradecido. hein? Na certa.. (À parte.. não é verdade? Luká Lukítch Isso mesmo.) Olha lá! Ficou todo vermelho! Vermelhinho! Por que não responde? Luká Lukítch Fiquei com vergonha.. Artémi Filípovitch Tenho a honra de me apresentar: encarregado da assistência social. conselheiro . (À parte. não há mulher que resista.) Não ouso importuná-lo mais com minha presença. à parte. não.) Graças a Deus! Quem sabe agora não queira passar lá na escola! Cena 6 Khlestakóv eArtémi Filípovitch. Faço questão de saber o seu gosto..) Nem sei mais o que dizer. Luká Lukítch (Perfila-se e segura a espada. O senhor não poderia me emprestar trezentos rublos? Luká Lukítch (Apalpando os bolsos.) A maldita língua me traiu! Khlestakóv Vergonha? É bem verdade que nos meus olhos há qualquer coisa que provoca timidez.Não disfarce. Pelo menos.. gastei tudo o que tinha. tremendo. vossa alte. Luká Lukítch Tomo a liberdade de informar-lhe.) Só faltava não achar! Aqui! Aqui! (Tira do bolso e entrega o dinheiro..

tudo no papel.. mal ele põe o pé na rua. Todos. posso até jurar.. Khlestakóv Bom dia! Tenha a bondade de sentar-se. O senhor mesmo faça o obséquio de verificar. até a menorzinha... E me diga também. o tal juiz já se mete em sua casa para ficar com sua mulher. esse não faz absolutamente nada. o senhor poderia me dizer uma coisa. Sabe. embora ele seja meu amigo e parente -. me lembro bem. Artémi Filípovitch Fico feliz de bem servir a pátria. que o senhor houve por bem conhecer. Tudo na maior confusão: as correspondências. que está sob minha responsabilidade.) Mas veja só. Basta olhar para os filhos: nenhum deles se parece com Dóbtchinski.Zemlianíka.) Posso lhe afirmar que não desejo outra coisa a não ser cumprir o meu dever com zelo. o chefe dos correios. Como é que o senhor se chama? Esqueço sempre. Khlestakóv E eu vou lhe confessar o meu ponto fraco: gosto de uma boa comida. Vive incutindo na juventude princípios tão mal-intencionados que até fica difícil expressar.. esse aí que acabou de sair.. Artémi Filípovitch Tive a honra de acompanhá-lo e de recebê-lo pessoalmente na assistência social. O senhor me ofereceu um excelente almoço.. Temos aqui um pequeno proprietário de terras. Khlestakóv Ah! Isso mesmo! Zemlianíka. Khlestakóv Ah! Sim.. Terei muito prazer. faço isso pelo bem da pátria. sua conduta é das mais repreensíveis. todas atrasadas. por obséquio. para ser franco . O senhor não gostaria de ordenar que eu ponha tudo isso no papel? Khlestakóv Acho bom sim. Só vive atrás de lebres e deixa os cachorros nas repartições públicas. Pois bem. Ele é pior do que um jacobino. Por favor. (Depois de um breve silêncio. Khlestakóv Não me diga! Quem diria! Artémi Filípovitch E o inspetor de escolas então? Não entendo como lhe confiaram um cargo desses. tive a impressão de que ontem o senhor era um pouco mais baixo. gosto tanto de ler alguma coisa engraçada quando estou aborrecido. o senhor tem filhos? . são a cara do juiz. Artémi Filípovitch Zemlianíka.é claro. (Aproxima-se com a cadeira e diz a meia-voz. Dóbtchinski. O juiz é outro. A sua conduta. não é mesmo? Artémi Filípovitch É bem possível.

reabre aporta e grita. Khlestakóv Que coincidência! Muito agradecido. da família Dóbtchinski. Durante a viagem. Elizaveta. Tudo o que me contou foi muito divertido.... Artémi Filípovitch Por acaso o senhor não gostaria de perguntar como eles se chamam? Khlestakóv E isso.. (Faz uma reverência antes de sair.Artémi Filípovitch Claro. . como é que eles. Volte sempre. Dois já grandinhos. Dóbtchinski Proprietário de terras. O senhor não teria uns quatrocentos rublos para me emprestar? Artémi Filípovitch Tenho.) Não tem importância. Khlestakóv Que coisa! Grandinhos! E como eles. Bóbtchinski e Dóbtchinski. você! Como é mesmo o seu nome? Sempre me esqueço.) Ei. Khlestakóv Muito interessante. Cena 7 Khlestakóv. Piótr Ivánov. da família Bóbtchinski. gastei tudo o que tinha. Khlestakóv Por gentileza. senhor! Cinco. Artémi Filípovitch. Ivan. Mária e Perepetuia.) Khlestakóv (Acompanhando-o. aconteceu uma coisa estranha. Piótr Ivánov.. Gosto muito disso tudo. como se chamam? Artémi Filípovitch Nikolai. Bóbtchinski Tenho a honra de me apresentar: habitante desta cidade.. nem tomar o seu tempo destinado aos deveres sagrados. (Volta. Artémi Filípovitch Artémi Filípovitch. Artémi Filípovitch Não ouso importuná-lo mais com minha presença.

pois o meu dinheiro. Piótr Ivánovitch! Eu sei que tem um buraco no seu bolso direito. está todo aplicado na caixa da beneficência pública. não. serve cem. juro por Deus! E você. Quem sabe se não caiu por ali..Khlestakóv Ah. Piótr Ivánoritcli. você não teria cem rublos? Eu só tenho quarenta em bilhetes. Aceito. (Pega o dinheiro. Falei por falar. claro. Khlestakóv Que bom. Bóbtchinski (Procurando nos bolsos.) Tem dinheiro? Dóbtchinski Dinheiro? Como assim? Khlestakóv Mil rublos para me emprestar.) Ao todo. Bóbtchinski Vê se procura um pouco melhor. Dóbtchinski (Olhando na carteira.. permita que lhe .) Piótr Ivánovitch. já está completamente grudado no seu devido lugar. se o senhor quer saber. então. O meu filho mais vdlio. não tenho.) Dóbtchinski Tomo a liberdade de lhe pedir uma coisa referente a urna circunstância muito delicada. se não têm mil. senhor. Khlestakóv O que é? Bóbtchinski Algo de caráter muito delicado. palavra que não caiu nada. Foi o senhor que caiu. senhor. (De repente e com voz entrecortada. então. já conhecia os senhores. Khlestakóv Bem. vinte e cinco. não tem? Dóbtchinski Aqui comigo. os sessenta rublos mesmo.. Bóbtchinski Tinto assim. não? Como está o seu nariz? Bóbtchinski Graças a Deus! Não se preocupe. Dóbtchinski Não. não tenho nada.. Estou feliz. Tanto faz. Khlestakóv Bem. não tem importância.

. pois diga também ao soberano. Dóbtchinski Queira desculpar. e que se chame. E um garoto que promete muito: sabe de cor muitos versos e. Khlestakóv O que é? Bóbtchinski Peço-lhe encarecidamente que.. Vossa Majestade. por obra do acaso. pois logo depois fiz tudo direitinho. não quer me dizer nada? Bóbtchinski Justamente. é um modo de falar. tem muitas habilidades. Khlestakóv Está bem. quero que ele seja completamente meu filho.. Diga assim mesmo: lá vive Piótr Ivánovitch Bóbtchinski. Khlestakóv Perfeitamente. tudo vai ser resolvido. que. quer dizer. Bóbtchinski . aos diferentes senadores e almirantes. espero que. “Vossa Excelência ou Vossa Magnificência”.. Khlestakóv É mesmo? Dóbtchinski Quer dizer. Bóbtchinski E se. tal qual um prestidigitador. Khlestakóv Tá bom. tenho um pedido muito importante. o senhor diga a todos os figurões. pois é. nasceu antes do meu casamento. Khlestakóv Perfeitamente.diga. Dóbtchinski Eu não me atreveria a importuná-lo. senhor. põe-se logo a esculpir trenozinhos com tanta arte. em tal cidade. vai sim. Vou cuidar disso. já o incomodamos muito com nossa presença. o senhor estiver diante do soberano. como eu. como mandam as leis do sagrado matrimónio. está bem. senhor. senhor. pois que seja! Acho que pode. perante a lei. se o senhor me permitir.. Dóbtchinski. pois ele nasceu como se fosse dentro do casamento. Assim.. Falarei com. em tal cidade vive Piótr Ivánovitch Bóbtchinski. vive Piótr Ivánovitch Bóbtchinski.) E o senhor. Bóbtchinski E verdade. quando chegar a Petersburgo. (Voltando-se para Bóbtchinski. se não fosse pela capacidade dele.. se lhe cai nas mãos uma faca. Que o diga Piótr Ivánovitch..

seu imbecil. Vou contar o dinheiro só pra ver quanto eu tenho. Ei. Acho que eles estão me tomando por um alto funcionário. oitocentos.. esses funcionários são boa gente. que papelada engordurada! Oitocentos. Ele perde o pai. (Ossip olha pela porta e diz: “Já vai”. ontem fiz muito farol. Vamos ver quem é quem! Cena 9 Khlestakóv e Óssip com tinta e papel. Khlestakóv O que é isso. Na certa. Tive muito prazer. já o incomodamos muito com nossa presença. não tem importância. São seiscentos. Apesar de tudo.Queira desculpar. mas não perde a piada.) Aqui há muitos funcionários. (Acompanha-os. E gosta também de um bom dinheirinho. Belo gesto esse de me emprestar dinheiro. quero só ver se eu te pego agora. Ele escreve lá os seus artiguinhos. setecentos. Estes trezentos são do juiz.) Óssip . Khlestakóv Está vendo.) Coitado daquele que cai nas garras de Triapítchkin. novecentos. como me recebem e me tratam? (Começa a escrever. ijiie se divirta com todos esses aí. capitão.. Que idiotas! Vou escrever a Triapítchkin em Petersburgo contando tudo. Ah! E aí.) Cena 8 Khlestakóv (Sozinho. Estes outros trezentos do chefe dos correios. Veja só! Mais de mil. Óssip! Traga aqui papel e tinta...

Khlestakóv (Continua a escrever.) (Óssip traz uma vela e Khlestakóv sela a carta. Khlestakóv (Escreve. Ivan Aleksándrovitch? Khlestakóv O quê? Óssip Vamos embora daqui! Por Deus. antes. Diga que é tudo por conta do erário.Graças a Deus! Mas sabe de uma coisa.. Ivan Aleksándrovitch! Os cavalos aqui são de primeira. Que fiquem com Deus! Já se divertiu aqui por dois dias. Leve esta carta ao correio e diga lá ao chefão que vai sem pagar mesmo. agora chega. Para que ficar mais tempo com eles? Que vão para o inferno! De repente aparece um outro.. vamos embora. já é hora. (Contínua a escrever. meu irmão. Mas. senão o patrão vai ficar muito bravo.) Está bem. Tudo sem pagar.. Ivan Aleksándrovitch! E verdade que foi recebido com grande pompa e tudo o mais.) Estou curioso para saber onde ele mora agora: na Pochtámtskaia ou na Gorókhovaia? Pois ele vive mudando de uma casa para outra sem pagar. ouve-se a voz . Pelo amor de Deus. Óssip (Sai e fala fora do palco. Ah! E diga também que arranjem para o patrão a melhor tróica.. é missão oficial. enquanto eu mesmo preparo tudo para não perdermos tempo.. Como vão desembestar!.. Khlestakóv (Escreve..) Que absurdo! Por quê? Óssip Porque sim. E diga também que tem que ser muito rápido. Seu pai vai ficar uma fera com sua demora. senhor. Mas antes leve esta carta e pegue também a documentação. Nesse momento. Que bom seria ir embora! E que cavalos poderiam nos dar aqui. Espera.. E verifique se os cavalos são bons mesmo. Óssip Vou mandar a carta. Vamos amanhã. Diga aos cocheiros que darei uma gorjetinha se voarem como mensageiros do imperador e que cantem canções!.. a carta ainda não está pronta. Óssip Que amanhã que nada! Pelo amor de Deus. Khlestakóv (Escreve. por alguém daqui.) Nada disso. Vou chutar Iochtámtskaia. mas. é melhor a gente se mandar antes que.) Então está bem. (Dobra e sobrescreve.) Escuta aqui..) Só estou imaginando como Triapítchkin vai morrer de rir. o senhor sabe. Pois é claro que o tomaram por outro. Tenho vontade de ficar aqui mais um pouco. Khlestakóv (Escreve. me traga uma vela.

) Toma.. está dormindo.) O que desejam. querem falar com o senhor. Ordene. Na certa. Óssip? Que barulho é esse? Óssip (Olha pela janela. (Óssip sai.) Khlestakóv O que há. Vozes de Comerciantes Deixe-nos passar.) São os comerciantes que querem entrar.. Khlestakóv O que desejam. paizinho! Não pode impedir.” Que diabo é isto? Nunca vi esse título! Cena 10 Khlestakóv e os comerciantes. Khlestakóv (Aproxima-se da janela. Estão agitando uns papéis.) (Recebe pela janela as petições. meus queridos? Vozes de Comerciantes Rogamos vossa clemência. Temos assuntos importantes. desenrola uma delas e lê. Khlestakóv Deixe entrar. Ministro dos Negócios das Finanças da Fazenda. Khlestakóv Em que posso servi-los? Comerciantes Não nos desampare. . da parte do comerciante Abdúlin. (O barulho aumenta. mas o guarda não deixa.) “A Sua Altíssima Excelência. deixe entrar! Que passem. Óssip.de Derjimórda: “Aonde é que você pensa que vai. meus queridos? Comerciantes Suplicar a vossa misericórdia. Voz de Derjimórda Fora. Pode levar. fora! Não pode receber. Excelência. que apresentemos nossa petição. que trazem cestos de vinho e pães de açúcar. senhor! Fazem ofensas sem motivos. diga que os deixem passar. barbudo? Já não lhe disseram que é proibido passar?”) Khlestakóv (Entrega a carta para Óssip.

Khlestakóv Mas é simplesmente um bandido! Comerciantes Isso não é nada! E vai a gente dizer alguma coisa. E proibido por lei. é mesmo um bom tecido. já é outra coisa. Ele manda todo um regimento de soldados pra dentro da sua casa. senhor. por exemplo. meu caro. Só que ele ainda quer mais. santo António. aí sim. Khlestakóv Mas que vigarista! E o caso de mandá-lo para a Sibéria. Não costumo aceitar suborno de espécie alguma. No dia do seu santo. Um empréstimo. ele passa a mão aos montes. Agora. nunca tivemos. meu caro. . Comerciantes Para onde Vossa Excelência decidir mandá-lo será bom. Mas. Então a gente leva. Ou então manda trancar as portas. Ele leva toda e qualquer porcaria. nunca lhe negamos. Um prefeito como esse. seu tártaro!” Juro por Deus! Se ao menos a gente lhe faltasse com o respeito. a gente leva pra ele do bom e do melhor. O que é que se há de fazer? A gente lhe presenteia no dia de santo Onofre também. mas não é só coisa boa que ele leva. contanto que nos ajude. A gente tem que esconder tudo lá na loja quando vê que ele vem vindo. você vai comer o pão que o diabo amassou”. mas sempre nos comportamos bem! Vestidos para a esposa e a filhinha. Khlestakóv Não.) Mas por que só trezentos? Melhor ainda quinhentos. senhores. nosso pão e nosso sal. paizinho. Mas. aceitar. Comete tantas injustiças que nem se podem descrever. Até numas ameixas que estavam no barril há sete anos. para ele é sempre pouco! É sim! Chega na loja e tudo o que lhe cai nas mãos. não. Segura a gente pela barba e diz: “Ah. Khlestakóv Mas será possível? Que vigarista! Comerciantes Por Deus! Nunca se viu um prefeito assim. conhuiin que seja para bem longe de nós. Oferecemos também açúcar e vinho. Logo que vê uma peça de lã. paizinho! (Tiram o dinheiro. ele carrega. que coisa. E não é por falar.Khlestakóv Quem? Um dos Comerciantes Sempre o prefeito. Não recuse. mas a tal peça mede no mínimo cinquenta metros. sim. Faz cada uma. diz que santo Onofre também é seu santo. Diz ele: “Não vou te castigar fisicamente nem vou te torturar. Dá vontade de pôr a corda no pescoço. diz assim: “Ah. Leve lá pra minha casa”. Faz a gente alimentar todos os regimentos que passam por aqui. Negociantes Como não. se preferirem me emprestar trezentos rublos. e que nem mesmo o meu criado quer comer. nem pensar. posso.

sem falta! Farei todo o possível..) O que deseja. que nos ouça.. Um empréstimo.Khlestakóv De acordo.) Então. Comerciantes (Entregam-lhe o dinheiro numa bandeja de prata.) Aceite também. então. paizinho. tudo vai ser útil. por favor.. então não saberemos mais o que fazer. suborno. Cena 11 Khlestakóv. Khlestakóv Por que não? A bandejinha também. Mulher do Subtenente Peço vossa misericórdia. por favor! Rogamos.) Deixem-nas passar. Khlestakóv Sem falta. sim. Vossa Alteza! Se não nos atender. Só nos resta a forca. Passem pra cá o açúcar e o vinho! Passem tudo pra cá. O que é aquilo? Uma cordinha? Passem pra cá também a cordinha! Uma cordinha pode servir na viagem.) Quem é que está aí? (Aproxima-se da janela. mãezinha? Vozes de Duas Mulheres Vossa misericórdia. a gente pode amarrar. tudo serve. nunca.. Comerciantes (Fazendo uma reverência. Comerciantes Faça essa caridade.) Peço vossa misericórdia. Ouve-se uma voz de mulher: “Não se atreva a me proibir de entrar! Vou me queixar de você diretamente a ele. a bandejinha. a mulher do serralheiro e a mulher do subtenente. . aceite também o açúcar. Não me empurre que machuca”. Óssip Vossa Excelência! Por que não pega? Pegue sim! Para a viagem. Nada contra. Khlestakóv De jeito nenhum. Khlestakóv (Na janela. senhor. (Os comerciantes saem. Vai que a carruagem ou qualquer outra coisa quebre. Mulher do Serralheiro (Curvando-se até o chão.

. aquele bêbado. Khlestakóv Está bem.. vossa graça contra o prefeito! Que toda a maldição recaia sobre ele! Que ele. tanto faz. Fevrônia Petróvna Pochliópkina. Seja breve. esse vigarista! O filho do alfaiate. Nem tinha chegado a vez dele. paizinho. Mas a Panteléieva também mandou para a mulher dele três peças de tecido. neste e no outro mundo! E se ele tiver uma tia. esse vigarista! Ainda por cima. Eu é que sei se ele presta ou não presta pra nada. Khlestakóv Esperem aí. então. seus filhos. está bem. e aí é que ele veio pra cima de mim. porque vai acabar roubando mesmo e de qualquer maneira vai ser recrutado no ano que vem”. como é que fico sem marido? Sou uma mulher fraca. tinham que ter levado. então que caia sobre ela a maior desgraça.. tios e tias. o vigarista. paizinho.. o que deseja? Mulher do Serralheiro Suplicar vossa misericórdia. nunca tenham nada que se preze! Khlestakóv E por quê? Mulher do Serralheiro Ordenou que meu marido fosse recrutado pelo exército. se não roubou nada até agora. Que Deus o castigue. Isso é da minha conta. o canalha. Khlestakóv Como é que ele pôde fazer uma coisa dessas? Mulher do Serralheiro Fez porque fez.Khlestakóv Quem são as senhoras? Mulher do Subtenente Sou a mulher do tenente Ivánov. paizinho. este sim. Khlestakóv O que foi? Fale. esse vigarista. tenha piedade! Mulher do Subtenente Também por causa do prefeito. que também ele. Mas os pais mandaram um belo presente e. E você? Mulher do Serralheiro (Saindo. “Pra que é que você precisa de marido? Ele não presta pra nada”. Mulher do Subtenente . seu vigarista! E disse mais: “Ele é um ladrão. Você.. patife! Que toda sua família pereça sem a luz do sol. que a sogra também. E se tem sogra. Mulher do Serralheiro Sou a mulher do serralheiro. E se o pai ainda estiver vivo.) Não se esqueça de mim. estique as canelas ou fique estropiado para todo o sempre.. E eu. o prefeito caiu em cima da comerciante Panteléieva. Era casado. é proibido por lei. Fale uma de cada vez.

.. Não seria nada mal.. Mas obrigue-o a pagar uma multa pelo seu erro. senhorita? Mária Antónovna Não me assustei.) Cena 12 Khlestakóv e Mária Antónovna.) Perdão.) Quem mais está aí? (Aproxima-se da janela. paizinho! Duas comadres brigaram na feira. em perspectiva.) Saia já daqai! Saia! Aonde pensa que vai? (Empurra a barriga dele com às mãos. Khlestakóv (Afetado.) Não quero. pois um dinheirinho agora me cairia muito bem. então me pegaram. vai junto para a ante-sala e fecha a porta atrás de si. paizinho! Khlestakóv Como assim? Mulher do Oficial Por engano. fiquei dois dias sem poder sentar. não. Tomo a liberdade de lhe perguntar: para onde tinha a intenção de ir? . Khlestakóv E o que é que podemos fazer agora? Mulher do Subtenente Claro que agora não se pode fazer nada. podem ir! Vou dar as ordens! (Pela janela surgem mãos com petições. não quero! Já chega.Me deu uma surra. Khlestakóv Está bem. Mária Antónovna Ah! Khlestakóv Por que se assustou. mais algumas pessoas. já chega! (Afastando-se.. muito me agrada que me tenha tomado por uma pessoa que. está bem! Podem ir embora. a polícia não chegou a tempo. que vão Por detrás.) Estou farto. Me bateram tanto. senhorita.

Khlestakóv Para uma pessoa tão encantadora como a senhorita.... precisava tanto ir andando.. Basta exigir qual tipo de versos.. Mas que lencinho. Gostaria de saber por que iria a senhorita pra lugar nenhum. só pode me dar prazer. Mária Antónovna Alguns assim. Khlestakóv (Afetado. talvez. Que tempo esquisito faz hoje! Khlestakóv Os seus lábios. De maneira nenhuma poderia me incomodar. Certamente deve saber muitos. (Senta. Gostaria de pedir-lhe que escrevesse alguns versinhos em meu álbum de recordação. ser o seu lencinho para poder envolver esse colo macio.. Mária Antónovna Eu o incomodei. Khlestakóv E por que.. valem mais do que qualquer tempo.. como direi.. pra lugar nenhum? Mária Antónovna Pensei que.) Seus olhos são mais importantes do que assuntos importantes. por assim dizer. Khlestakóv Não é isso.) Khlestakóv Que lindo lencinho! Mária Antónovna Que zombador que o senhor é. O senhor estava ocupado com assuntos importantes. bonitos. e não uma cadeira.Mária Antónovna Pra dizer a verdade. Khlestakóv Como eu desejaria. Mária Antónovna O senhor diz cada coisa.. Khlestakóv Faço tudo o que a senhorita quiser.. Mária Antónovna O senhor fala como gente da capital. Será que eu poderia tomar a liberdade de ter a felicidade de lhe oferecer uma cadeira? Mas não! O que a senhorita merece é um trono. pra lugar nenhum.. Mária Antónovna Não estou entendendo nada. não sei. . quer apenas ridicularizar as provincianas.. novos. senhorita.. A senhorita jamais poderia me incomodar... Mária Antónovna Na verdade. Pelo contrário. a minha mãezinha estivesse aqui. senhorita.

Khlestakóv (Retendo-a... E bem melhor descrever o meu amor que pelo seu olhar.) O que foi aquilo que parecia voar? Uma pega ou outro pássaro qualquer? Khlestakóv (Beija-lhe o ombro e olha pela janela. estes aqui: “Oh! Tu. quais os senhor vai escrever para mim? Khlestakóv E para que dizer? Eu sei muito bem o que eu sei.) Khlestakóv (Aproxima a cadeira.) Ah. que na amargura...) Perdoe-me.. imagine! Sei tantos.. eu nunca soube o que é o amor. Para a senhorita. Pensando bem.. (Aproxima a cadeira. isso já é demais! Que descaramento!. homem.) Mária Antónovna O amor? Não compreendo o amor. não tem importância.. mas é só imaginar que estamos longe. senhorita. não.. Mária Antónovna (Afastando-se. Khlestakóv Tenho todo e qualquer tipo de verso. Mária Antónovna (Afastando-se... senhorita. agora não consigo me lembrar.... só por amor.) Pois para a senhorita pode parecer perto.) E por que afastou a cadeira? É bem melhor ficarmos perto um do outro. Khlestakóv E por que longe? De perto dá na mesma. (Tenta sair. em vão te queixas de Deus.) E por que tudo isso? Khlestakóv (Aproximando-se. (Afasta a cadeira. Mária Antónovna O senhor me considera uma dessas provincianas. Mária Antónovna (Levanta-se.” E muitos outros. se pudesse envolvê-la em meus braços! Mária Antónovna (Olha pela janela. Mária Antónovna Então me diga.. por exemplo. indignada.) .Khlestakóv Versos.) E por que perto? De longe dá na mesma. fiz isso por amor.) E uma pega. Como eu ficaria feliz.. Mária Antónovna Gosto muito de versos.

mas não compreendo bem o sentido de suas palavras. então não sou digno de existir na face da Terra. Ana Andréievna Queira perdoar. senhorita? Que comportamento é esse? Mária Antónovna Maezinha. Minha vida está por um fio... Se não me engano. por amor. Ana Andréievna Mas como? O senhor de joelhos? Ora. Ana Andréievna Mas me permita observar que eu.. Khlestakóv . juro. aos prantos.) Diabo! Ana Andréievna (A filha. levante-se. levante-se. Ana Andréievna (Ao ver Khlestakóv de joelhos. sou casada.Khlestakóv (Continua a retê-la. (Mária Antónovna sai. eu. Cena 13 Os mesmos e Ana Andréievna.. Khlestakóv (À parte. Ana Andréievna Fora daqui! Está me ouvindo? Fora! Fora! E não se atreva a aparecer mais diante de mim.. peço sua mão. Quero saber qual a minha sorte.) Minha senhora. Khlestakóv Não. o senhor acaba de se declarar para a minha filha.. até certo ponto. a vida ou a morte. Estou apaixonado é pela senhora. senhor. Com o coração em chamas. Mária Antónovna. (Põe-se de joelhos. não é de se jogar fora. Foi apenas uma brincadeira.) Ah! Que cena! Khlestakóv (Levantando-se. tem que ser de joelhos.. Se a senhora não corresponder ao meu fiel amor. (Cai de joelhos.) O que significa isso.) Perdão! Perdão! Está vendo? Estou de joelhos..) Foi por amor. Está tudo sujo aqui.) E esta também é bem apetitosa. de joelhos. não está vendo? Estou ardendo de amor. confesso que fiquei estupefata. não se zangue! Estou disposto a lhe pedir perdão de joelhos.) Me desculpe. Khlestakóv Nada disso.

o papai mandou dizer para a senhora. Khlestakóv Decida: vida ou morte? Ana Andréievna Está vendo.Pouco importa.. Karamzin disse: “As leis condenam”. (Vendo Khlestakóv de joelhos. mãezinha. que entra subitamente. Sua mão. peço sua mão. Mária Antónovna (Chorando. Partiremos sob a sombra do ímpeto. mas ninguém diz mesmo. Quando é que vai entender o que são as boas maneiras e a seriedade de princípios. . Os seus exemplos têm que ser outros: a sua mãe. mãezinha.. Mária Antónovna Mãezinha. que essa menina tem dezoito anos.) Juro.. sua boba. juro. Cena 14 Os mesmos e Mária Antónovna. Ana Andréievna Você tem uma cabeça de vento! Está seguindo o exemplo das filhas de LiápkinTiápkin.) Ana Andréievna.. não se oponha à nossa felicidade.) Ah! Que cena! Ana Andréievna Mas o que é isso? O que veio fazer? O que quer aqui? Que leviandade! De repente. sua porca. Este é o exemplo que você deve seguir. Para o amor. Mária Antónovna Juro que não faço mais. Não sei quando é que você vai ser mais ajuizada. isto sim.. Você não é digna dessa felicidade. juro. eu não sabia. O que você vê nelas? Não tem que querer imitá-las. isso não faz diferença. abençoe nosso eterno amor! Ana Andréievna (Estupefata. Ninguém diz.) Então é ela?.. E você entra aqui correndo como uma louca! Pois palavra que você bem merecia que eu dissesse não. o nosso hóspede teve de ficar de joelhos... está vendo? Por sua causa. quando é que você vai se comportar como uma mocinha bem educada. O que você viu de tão extraordinário? O que inventou agora? Parece uma criança de três anos. entra correndo feito uma louca. Khlestakóv (Segurando a mão da filha.

Prefeito Não me atrevo a acreditar. Khlestakóv Que o diabo a carregue! Não estou preocupado com ela! Prefeito Não acredite! Não acredite! São todos uns mentirosos. dizendo que a surrei. querida? Por gentileza.. E.. juro por Deus que é mentira. Khlestakóv E se o senhor não concordar em me conceder a mão de Mária Antónovna. Prefeito Não posso acreditar! Vossa Excelência está brincando comigo! . Prefeito Vossa Excelência! Não me desgrace! Não me desgrace! Khlestakóv O que aconteceu? Prefeito Os comerciantes vieram se queixar a Vossa Excelência. Khlestakóv É isso mesmo. Ela mesma se surrou. saiu à mãe.. Eles é que enganam e roubam o povo. Peço a mão de sua filha. tomo a liberdade de informar que malandros como esses nunca se viram no mundo. só o diabo sabe o que sou capaz de fazer. no que diz respeito à malandragem. Excelência! Ana Andréievna Mas se ele mesmo está dizendo! Khlestakóv Não estou brincando. Prefeito Não posso acreditar. A mulher do subtenente mentiu. nem uma criança pode acreditar neles. apressado. Ela é meio tonta mesmo.Cena 15 Os mesmos e o prefeito. Estou apaixonado. Sou capaz de enlouquecer de amor... não se aborreça. Prefeito Que bobagem! Que bobagem! Ficou maluca. Palavra de honra que nem metade do que eles falaram é verdade. É mentira.. Mária Antónovna Sabe com que honra nos brindou Ivan Aleksándrovitch? Ele acaba de pedir a mão de nossa filha. não sou digno de tanta honra. Excelência. Toda a cidade sabe que são uns mentirosos.

) Prefeito Que Deus os abençoe. Já vou indo. Sou capaz de tudo! Se der um tiro nos miolos. um velho muito rico.. ai.) Mas que diabo! É verdade mesmo! (Esfrega os olhos. O senhor. Óssip Os cavalos estão prontos. Prefeito Como.Ana Andréievna Ah! Mas que cabeça-dura! Quando é que você vai entender? Prefeito Não posso acreditar! Khlestakóv Concorde! Concorde! Estou desesperado.. Cena 16 Os mesmos e Óssip. Mas amanhã estarei de volta.. Prefeito Mas quando. meu Deus! Ai. estão se beijando! É mesmo um noivo de verdade! (Grita e pula de alegria. ai.xi flcncia achar melhor! Juro que minha cabeça. O prefeito olha para eles. Ana Andréievna Então vá. Prefeito Ai. dignou-se a mencionar um casamento.. Sou inocente de corpo e alma! Por frtvm.) Ah! Antón! Antón! Ah! Senhor prefeito! Veja só aonde chegamos. não se zangue! Faça o obséquio de proceder como Vossa |’. o senhor será julgado. não sei o ijuc está acontecendo. . Estou ficando tonto como nunca. quer dizer. não? Khlestakóv Vou e volto num minuto. senhor? Vai partir? Khlestakóv Vou sim. Vou passar apenas um dia com um tio. me parece. Khlestakóv Muito bem. mas eu não tenho culpa! (Khlestakóv beija Mária Antónovna. então. dê sua bênção! (Khlestakóv se aproxima com Mária Antónovna.) Estão se beijando! Ah! Meu Deus.

por que não? Prefeito Quanto deseja? Khlestakóv Bem. meu coração! (Beija as mãos dela. não? Khlestakóv Não. Adeus. quer dizer. Adeus.. por quê? (Pensando um pouco. Khlestakóv É mesmo! (Pega e olha o dinheiro. Adeus.. nem tenho palavras. com a mesma quantia.. Prefeito Exatamente.) Prefeito Não precisaria de alguma coisa para a viagem? Parece-me que o senhor já teve a fineza de precisar de algum dinheiro. Com . duzentos não. Mária Antónovna. Mária Antónovna. ficam oitocentos justos.Prefeito Não nos atrevemos a retê-lo e ficamos na esperança de um feliz regresso. anjo da minha alma. neste coche tão duro? Voz de Khlestakóv Já estou acostumado. Ana Andréievna! Adeus. As molas me dão dor de cabeça. Khlestakóv Adeus. Voz do Cocheiro Ooo. Prefeito Agora mesmo! (Tira da carteira.) Parece até de propósito: notas novinhas. vamos cobrir com alguma coisa. senhor. meu amor. pelo menos. Khlestakóv Ora! Claro! Volto logo. Dizem que notas novas dão sorte. de jeito nenhum. Confesso de todo o coração que em lugar algum fui tão bem recebido. por gentileza. Antón Antónovitch! Muito obrigado por sua hospitalidade..) Pensando bem. Não quero abusar de seu equívoco.. quatrocentos.) Voz de Khlestakóv Adeus. talvez um tapetinho. de modo que. agora.) (Atrás do palco. Voz do Prefeito Mas como pode ser isto? O senhor vai viajar assim.) Muito bem. Voz do Prefeito Então.. meu anjinho! (Saem. da outra vez o senhor me deu duzentos.

) . Voz de Khlestakóv Adeus. vamos lá.. o feno. Vossa Nobreza. deste lado de cá. isso! E agora. Voz de Óssip Deste lado de cá! Aqui! Mais um pouco! Isso! Vai ser bem confortável! (Bate no tapete. Cai o pano. pensando bem. aquele persa de fundo azul. ponha assim. Voz de Óssip Ah! Esse é o tapete? Aqui. Bem. Vossa Excelência! Vozes das Mulheres Adeus. apressadinhos! (O sininho toca.sua licença. Ivan Aleksándrovitch! Voz de Khlestakóv Adeus. posso mandar vir um tapete? Voz de Khlestakóv Para quê? Não precisa.. Antón Antónovitch! Voz do Prefeito Adeus.) Agora pode se sentar. por que não? Que me tragam o tapete. Voz do Prefeito Para quando. devemos esperá-lo? Voz de Khlestakóv Amanhã ou depois. ordena o senhor.. mãezinha! Voz do Cocheiro Eia. Voz do Prefeito Avdótia! Vá lá buscar no depósito o melhor tapete. Vá depressa! Voz do Cocheiro Ooo.. Voz do Cocheiro Ooo.

que diabo! Uma festa. agora vou levar a ferro e fogo. com os diabos! Espere aí que agora eu vou dar uma boa lição a toda essa gentalha que gosta de petições e denúncias. mas não um homem qualquer. onde é que nós vamos morar? Aqui ou em Peter? . Saia gritando aos quatro cantos. com os diabos! Diga francamente. Tudo. Prefeito Eu também sou gente distinta. Prefeito E então. aqueles que escreveram petições contra mim. Tome nota de todos aqueles que vieram apenas fazer solicitações em meu nome e. nem mesmo em sonho poderia imaginar que uma simples mulher de prefeito poderia. tudo. não é? Judas malditos! Esperem só pra ver. pense bem: em que figurões nos transformamos. E que toda a gente fique sabendo a honra que Deus concedeu ao prefeito: deu a sua filha um marido. mande chamar aqui os comerciantes. Ana Andréievna e Mária Antónovna. Ei. O que te parece? E agora. de repente. ser.. tudo! Diga pra todo mundo saber. minha querida. Ana Andréievna. Eu já sabia há muito tempo. Cena 1 O prefeito. hein? Ana Andréievna Nada disso. Ana Andréievna. Eles vão ver só. essa cambada de canalhas! Queixaram-se de mim. principalmente. Ivan Kárpovitch! Meu caro. pois é uma festa! (O policial sai.Ato 5 A mesma sala.. Quem diria! Que pacto você tem com o diabo. quem está aí? (Entra um policial. Tudo lhe parece inesperado porque você é um homem simples.) Pois é. E que toquem os sinos.) Ah! E você. Sim senhora. Ana Andréievna? Hein? Alguma vez isso lhe passou pela cabeça? Olha só que prémio magnífico. que nunca viu gente distinta. e sim alguém que ainda não apareceu na face da Terra e que pode tudo. hein? Que tal Ana Andréievna? Que voo alto. meus pombinhos! Se antes eu levava vocês à força.

o que importa o cargo de prefeito? Prefeito Na verdade. você solta cada uma. isso é que é o máximo! Ana Andréievna Você sempre com suas grosserias. Tem que se lembrar de que agora vai ter que mudar de vida completamente e de que suas novas relações não serão mais com qualquer juiz-canino com quem você vai caçar lebres. vermelhas ou azuis? Ana Andréievna Mas é claro que as azuis são as melhores. estou muito preocupada com você. Ana Andréievna. dão tudo na bandeja. Não senhor. Prefeito E daí? Uma palavrinha ou outra não faz mal a ninguém.) Pois é isso. que seja em Peter. Você não acha. chegar até a general. Ana Andréievna Como prefeito.. quando a gente chega a qualquer lugar. a gente pode conseguir uma boa promoção e. ou com um Zemlianíka qualquer. Pra dizer a verdade. olha. com o tempo. . Como é que a gente pode ficar aqui? Prefeito Então. ah. mas pra gente. Ou então.. o que você acha. não. Ana Andréievna. ah! (Morre de rir.que o meu cargo de prefeito vá pró inferno. Prefeito . Penduram no ombro da gente umas condecorações. até que é bom. Por isso mesmo. naturalmente. os secretários e assistentes sempre se põem a galopar na frente gritando: “Os cavalos!” E lá eles não dão nada pra ninguém e todos esses titulares.Ana Andréievna Em Petersburgo. Mas agora a vida vai ser completamente diferente. Às vezes. capitães e prefeitos têm de esperar. pensando bem. não é. Ana Andréievna? Agora posso até pretender um alto grau.. ainda vá lá. Prefeito Ah. Mas aqui. pois ele é assim. seus canalhas. é? Veja só o que ela prefere! Mas as vermelhas também servem. coisas que jamais se dizem na alta sociedade. se é em Peter. Ana Andréievna? Ana Andréievna Naturalmente. que se dane o prefeito! Ah. A gente almoça em algum lugar na casa do governador e o prefeito. amigo de todos os ministros e até frequenta a corte. De que cor você acha melhor. E por que será que todo mundo quer ser general? Porque acontece que. suas relações serão agora com pessoas de comportamento refinado: condes e gente da alta sociedade. que posso chegar a general? Ana Andréievna E por que não? Claro que sim! Prefeito Com os diabos! Que glória ser general.

Antón Antónovitch! . mas que palavras. já aprendem logo a ludibriar. “Os nobres não são melhores do que nós”. meu Deus. paquidermes! Reclamaram... Mal sabem rezar o padre-nosso. é para o seu próprio bem. Fazem um negócio com o governo e conseguem tapeá-lo em cem rublos.) Desejamos muita saúde. meus queridos.. hein? Eucraram muito. meus pombinhos! Comerciantes (Fazendo uma reverência. vendendo uma porcaria de tecido.) Ah! Que maravilha! Cena 2 Os mesmos e os comerciantes. um nobre tem que se ilustrar. acham que são muita coisa? Eu cuspo na cabeça de vocês e na sua importância! Comerciantes (Fazendo reverências. queixaram-se de mim. paizinho! Prefeito E então. E aí. a gente tenha até que fechar os olhos. como vão indo as coisas? E os negócios? Então.. Mas um nobre.) Somos culpados. E ainda se dão ares de importância: é um comerciante. sua corja... aí é que vocês. que sete diabos e uma bruxa os carreguem. se apanha na escola. protobestas quadradas.. hein? Desde criança já começam com malandragem. dá água na boca. Até o patrão lhes dá uma boa sova se vocês não souberem enganar direito. Ana Andréievna Ai. quinquilheiros. Prefeito Ah! Sejam bem-vindos. que só de olhar. ao entrar.E verdade. assim. Ana Andréievna Ele só pensa em peixes! O que eu quero é que a nossa casa seja a melhor da capital e que tenha um tal cheiro que. E depois.. não é? Seus protozoários. E. não? Pois olhem aqui. só porque dão pra gente uns vin te metros. ainda querem recompensa? Se ele soubesse disso. E vocês. dizem. hein? Achavam que eu ia parar na cadeia... (Fecha os olhos e cheira. dizem que lá servem cada peixe. ouviram? Como vocês enganam o povo. estufam a barriga e enchem os bolsos e se julgam muito importantes! Credo! Bela porcaria! Só porque engolem dezesseis samovares por dia. Antocha! Prefeito (Zangado. não mexam com ele.) Agora não é hora de palavras! Por acaso vocês sabiam que esse mesmo funcionário para quem vocês se queixaram vai se casar com minha filha? Sabiam? Hein? O que é que vocês me dizem agora? Pois agora vocês me pagam. seus muambeiros.

Quando soube.) Deus que os perdoe! Já chega! Não sou rancoroso. Que as congratulações sejam.. E que lhe dê uma numerosa descendência de netos e bisnetos! Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão de Ana Andréievna.. Antón Antónovitch! Que Deus lhe dê uma longa vida e também ao novo casal. me arrastariam na lama e ainda me cobririam com um tronco.) Não arruine a gente. seu barba-de-bode. Antón Antónovitch? Aconteceu-lhe mesmo essa ex¬traordinária felicidade? Artémi Filípovitch Tenho a honra de cumprimentá-la por toda essa felicidade.. Foi obra do diabo..Prefeito E ainda se queixam? E quem o ajudou a trapacear quando você construiu aquela ponte e cobrou vinte mil rublos pela madeira quando não custou nem cem rublos? Fui eu que te ajudei. Nunca mais vamos nos queixar.. Já se esqueceu? Se eu tivesse denunciado tudo isso.) Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão de Mária Antónovna.) Felicidades. O que é que me diz disso? Hein? Um dos Comerciantes Somos culpados perante Deus. Artémi Filípovitch e depois Rastakóvski. Antón Antónovitch. Antón Antónovitch! Prefeito “Não arruine a gente!” Agora “Não arruine a gente”. E por quê? Porque estou por cima? Mas se fossem vocês que estivessem no meu lugar. hein? Sou capaz de pegar vocês e.) Mária Antónovna! Rastakóvski (Entrando. né? Mas e antes. Amos Fiódorovitch. Agora.) Cena 3 Os mesmos. Comerciantes (Curvando-se até o chão. Mas agora prestem bem atenção! Não vou casar minha filha com um nobre qualquer. mas não se aborreça! Prefeito Não se aborreça! Agora vocês rastejam aos meus pés. (Faz um gesto com a mão.) Mária Antónovna! (Aproxima-se da mão de Mária Antónovna.) .. estão me entendendo? Não me venham com peixinhos secos e pãezinhos doces. vão com Deus! (Os comerciantes saem. fiquei contente de todo o coração! (Aproxima-se da mão de Ana Andréievna.) Será que podemos acreditar no que estão dizendo. Amós Fiódorovitch (Ainda na porta. Peça o que quiser. poderia ter te mandado pra Sibéria. seus canalhas.

Koróbkin com a mulher e Liuliukóv. Bóbtchinski Tenho a honra de cumprimentá-lo! Dóbtchinski Antón Antónovitch! Tenho a honra de cumprimentá-lo! Bóbtchinski Por esse feliz acontecimento! Dóbtchinski Ana Andréievna! Bóbtchinski Ana Andréievna! (Ambos se aproximam ao mesmo tempo e suas testas se chocam com Liuliukóv. Vai passar o seu tempo de modo muito divertido. virando-se para os espectadores.) Que honra tenho em felicitá-la.) Mária Antónovna! Tenho a honra de cumprimentá-la (Aproxima-se de sua mão e vira-se para os espectadores com o mesmo ar de ousadia. . A senhorita será muito.) Cena 5 Muitos convidados vestidos de sobrecasaca e fraque se aproximam e beijam a mão de Ana Andréievna.) Dóbtchinski Mária Antónovna! (Beija a mão dela. Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão dela e depois. estala a língua com ar de ousadia.) Mulher de Koróbkin Felicito-a de todo o coração. Koróbkin Tenho a honra de cumprimentá-lo. Antón Antonovitch! Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão de Ana Andréievna.Cena 4 Os mesmos. Ana Andréievna...) Mária Antónovna! (Aproxima-se da mão de Mária Antónovna. Vai passear em um vestido dourado e vai provar diferentes e refinadas sopas. e depois a de Mária Antónovna. dizendo: “Ana Andréievna!”. Liuliukóv Tenho a honra de cumprimentá-la. dizendo: “Mária Antónovna!” Bóbtchinski e Dóbtchinski abrem passagem aos cotovelos. por essa sorte. muito feliz.

E olha só o que o destino preparou. por que você está soluçando?” . E fiquei tão contente. assim pequenininho (Mostra com as mãos. isso mesmo! E ele vai chorar assim: uá! uá! uá! Cena 6 Mais alguns convidados beijam-lhes a mão.) que a gente até possa pôr na palma da mão. (Os convidados se sentam.. “graças a Deus!” E disse assim ao meu marido: “Estou tão empolgada que não vejo a hora de falar pessoalmente com Ana Andréievna. “Ah! Meu Deus!” . E aí. nem eu mesma sei. exatamente o que ela sempre quis”. As lágrimas correm assim como um rio”. Chefe de Polícia Tenho a honra de cumprimentar Vossa Excelência e desejar-lhe prosperidade por muitos e muitos anos.Bóbtchinski (Interrompe.pensei comigo e fiquei tão contente que disse ao meu marido: “Escuta aqui. Luká Lukítch me disse: “Nástenka.” “Ah! Meu Deus!” . obrigado! Tenha a bondade de sentar-se.) Fiquei tão contente! Disseram-me assim: “Ana Andréievna vai casar sua filha”. tenho a honra de felicitá-la! Que Deus lhe dê toda a riqueza do mundo: moedas de ouro e um filhinho deste tamanhinho. Mulher de Luká (Correndo à frente. meu querido.E eu respondi: “Luká.pensei comigo mesma -.. Prefeito Senhores. Ana Andréievna! (Beijam-se. Ei. um bom partido para sua filha.. o chefe de polícia e soldados. .. Luká Lukítch Tenho a honra. Michka! Traga mais cadeiras! (Os convidados se sentam.) . juro mesmo. tenham a bondade de sentar-se. Luká Lukítch e a sua mulher.) Cena 7 Os mesmos. que até perdi a fala. veja só que felicidade teve Ana Andréievna! Pois é”. Prefeito Obrigado. Luká.) Mária Antónovna. até soluçar.) Felicidades. “era exatamente o que desejava Ana Andréievna. chorei.pensei assim -. Chorei.

Amós Fiódorovitch . Que homem maravilhoso. a vida não vale um níquel. (À parte. São os méritos. mãezinha! Mas foi pra mini que ele disse isso. O destino nada tem a ver. por favor Antón Antónovitch. ele imediatamente caiu de joelhos e com aquela mesma nobreza disse: “Ana Andréievna! Não me faça infeliz! Corresponda aos meus sentimentos. também para você.. a merecer tal honra”. e quando eu quis lhe dizer: “Não nos atrevemos. como começou tudo isso? Como se desenrolou o sucedido? Prefeito Foi tudo muito extraordinário.” E se desmanchou em lisonjas. Artémi Filípovitch Nada de destino.. Ana Andréievna Cale a boca. que educação e que nobre/a! “Para mim. Ana Andréievna. Você não sabe nada de nada. foi coisa do destino. Ana Andréievna De uma forma muito respeitosa e elegante. Mária Antónovna Ah não.Amós Fiódorovitch Então nos conte. Antón Antónovitch. do contrário a morte vai dar cabo de minha vida”. Ana Andréievna. Tudo isso é apenas em homenagem às suas raras virtudes”... então não se meta nisso! “Eu.. Mária Antónovna Juro. Disse que ia se matar. Ana Andréievna É claro. tudo faço em consideração às suas qualidades”. Ana Andréievna. “Vou me dar um tiro nos miolos.. Ele mesmo se dignou a fazer o pedido. meu caro. estou pronto a lhe vender aquele cachorro que o senhor queria. Prefeito Nem pensar! Agora não tenho cabeça para cachorros. estou maravilhado. Prefeito Ele até chegou a nos assustar. Muitos dos Convidados Que coisa! Amós Fiódorovitch Essa é boa! Luká Lukítch Realmente.) Esse porco sempre tem uma sorte! Amós Fiódorovitch Se quiser. dizia. mãezinha. não posso negar. que foi para mim que ele disse isso.. de forma alguma. um tiro nos miolos!”.. Falou de forma tão expressiva: “Eu. pode acreditar.

Ana Andréievna Foi visitar o tio para pedir a sua bênção. (Espirra e se ouvem num só murmuro as exclamações de “Saúde”.. se quiser.. confesso que.. Rastakóvski O homem põe e Deus dispõe. como estou contente com a sua felicidade! Nem pode imaginar. Prefeito E verdade. o nosso ilustre hóspede? Ouvi dizer que foi embora por um motivo qualquer. Desejo o mesmo para vocês.) Quero que você morra! Mulher de Koróbkin (À parte. devo confessar. Mas amanhã mesmo. vai conseguir. grandes travessias. Vossa Excelência. Além disso.. Luká Lukítch Se Deus quiser. .. no qual se destacam algumas vozes. se Deus quiser. Bóbtchinski Cem anos de vida e um saco de dinheiro! Dóbtchinski Que Deus lhe dê mil anos de boa gestão! Artémi Filípovitch (À parte. se me permitem perguntar. Para dizer a verdade. lá o meu marido será promovido a general. Partiu por um dia para tratar de um assunto importante. Ana Andréievna Temos agora a intenção de morar em Petersburgo. quero muito ser general.. Amós Fiódorovitch Para uma grande embarcação. meus senhores.. Prefeito É isso. (Espirra. é tudo provinciano demais!.) Muito obrigado! Mas amanhã mesmo estará de volta. Mulher de Koróbkin Ah! Ana Andréievna. o ar aqui...Bem. para pedir a bênção. E muito desagradável..) O diabo que te carregue! Prefeito Sou imensamente grato. Koróbkin Mas onde se encontra agora. podemos chegar a um acordo sobre um outro. Prefeito E sim. Murmuro conjunto.) Chefe de Polícia Desejo-lhe saúde.

Chefe dos Correios Senhores. por exemplo. mas não vai querer dar proteção a qualquer gentalha. Cena 8 Os mesmos. Em primeiro lugar.) E então.. já quer se meter a ser general! E sabe-se lá. benzinho? Quem sabe até será possível. Ana Andréievna Antocha. vejam só. E como é possível e por que diabo vai se encarregar de tantas promessas? Prefeito E por que não. é bem capaz de ser mesmo. Mulher de Koróbkin Está vendo como ela nos trata? Uma das Convidadas Conheço essa mulher. estou pronto a não poupar esforços. não se esqueça da gente. isso ainda está bem longe. Artémi Filípovitch (À parte. não nos deixe sem a sua proteção! Koróbkin No ano que vem. Sempre foi assim. Antón Antónovitch. Pois ele dá uma de tão importante que vá pró diabo que o carregue! (Dirigindo-se ao prefeito. um acontecimento extraordinário! O funcionário que tomamos por um . Amós Fiódorovitch E se por acaso acontecer alguma coisa. Ana Andréievna É claro que é possível. Assim. O chefe dos correios entra correndo com uma carta aberta nas mãos. Prefeito De minha parte. que diabo. levarei meu filho para a capital para servir no Estado. Gente bem melhor que você ainda não chegou a general.Artémi Filípovitch Honra ao mérito! Amós Fiódorovitch (À parte. Tome o lugar do pai como se ele fosse um órfão. ela quer toda a. você está sempre pronto a prometer. Você dá um dedinho.) Só falta ele conseguir ser mesmo general! Vai lhe cair tão bem quanto uma sela numa vaca! Ah! não.. uma necessidade qualquer. tenha a bondade de oferecer-lhe a sua proteção.) Ora. não vai ter tempo de pensar nisso.

ouço assim: “Olha lá. quem sabe encontrou alguma irregularidade nos correios e quer notificar o diretor”. não posso resistir! Num dos ouvidos. Prefeito E como pôde?. Ele não é nem autoridade nem importante coisa nenhuma! Prefeito O que o senhor acha que ele é. meu Deus. Pensei comigo mesmo: “Ai.. Já tinha até mandado a carta ao seu destino por um portador. E quando abri. Prefeito E como é que o senhor se atreveu a abrir a carta de uma autoridade tão importante? Chefe dos Correios Pois aí é que está o negócio. Então peguei e abri. que frio! Minhas mãos tremiam e tudo se turvou. então? Chefe dos Correios Nem isso nem aquilo. não posso... Chefe dos Correios Eu mesmo não sei dizer. sinto que não posso! Não posso resistir. abra. abra!” Quando rompi o lacre. senti um frio. correu-me um fogo pelas veias. Só o diabo sabe o que ele é! Prefeito (Irritado.inspetor não é um inspetor! Todos Como não é um inspetor? Chefe dos Correios Não é inspetor. Chefe dos Correios Quem? O senhor? Prefeito Isso mesmo. Olho o endereço e vejo: “Rua dos Correios”. Não posso. Soube por esta carta. Fiquei estupefato.. Trouxeram-me uma carta nos correios. de jeito nenhum. eu! Chefe dos Correios Aqui pra você! . não abra! É o teu fim!” Mas no outro era como se o demónio sussurrasse: “Abra. Fui movido por uma força sobrenatural. Prefeito Como? O que está dizendo? Que carta é essa? Chefe dos Correios Uma carta dele mesmo.) Como nem isso nem aquilo? Como ousa chamá-lo de nem isso nem aquilo e ainda por cima dizer que só o diabo sabe o que ele é? Vou mandar o senhor para a prisão. mas senti uma tal curiosidade como nunca senti antes.

.Prefeito Por acaso você sabe que ele vai se casar com minha filha. que eu mesmo serei um magnata e que poderei despachá-lo para a Sibéria? Chefe dos Correios Ah. Chefe dos Correios Como é que eu poderia escrever? Artémi Filípovitch Leia! Chefe dos Correios (Continua a ler.. o senhor mesmo. É um asno perfeito. leia! Chefe dos Correios (Lê.) “Um asno perfeito. Que gente pitoresca! Você iria morrer de rir. hum. E agora estou hospedado na casa do prefeito.. meu caro Triapítchkin. tanto para a mulher como para a filha. Mas. O chefe dos correios também é uma boa pessoa. hum. então. um capitão-de-infantaria me limpou de tal maneira que o dono da hospedaria queria me mandar para a cadeia. que nada! A Sibéria está bem longe. Antón Antónovitch! Que Sibéria.. Durante a viagem. o dono de uma confeitaria me agarrou pelo colarinho por causa de uns pasteizinhos que ficaram por conta do vigário? Agora a vida mudou completamente. por causa da minha cara e dos meus trajes petersburgueses.) Bem. . Em primeiro lugar..e estou arrastando uma asinha..” (Pára de ler. Coloque essa gente em seus textos. Sei que você escreve pequenos arti gos. Todos me emprestam dinheiro ao meu bel-prazer. Chefe dos Correios (Continua a ler. Apenas não decidi ainda por qual delas devo começar.. Senhores. Prefeito (Lê. sem mais aquela... pois me parece que ela já está disposta a todos os favores. Acho que pela mamãezinha. É melhor eu ler a carta. sobre algumas coisas incríveis que me aconteceram. eis que de repente.” Não pode ser! Foi o senhor mesmo que escreveu isso. Você se lembra da miséria que passamos juntos? Quando dividíamos o almoço? E como.” Prefeito Mas que diabo! Precisa repetir? Como se estivesse escrito só isso.. “asno perfeito. certa vez. hum.) Hum. o prefeito...) “O prefeito é um asno perfeito. permitam que eu leia a carta? Todos Leia. Chefe dos Correios (Mostra a carta.” Prefeito Não pode ser! Isso não está escrito. Prefeito ..) Leia. toda a cidade me tomou por um governador-general.) “Apresso-me a informá-lo.. aqui ele diz coisas inconvenientes a meu respeito.

) Não.. leia! Chefe dos Correios Mas.. Artémi Filípovitch Ler pra quê? Eu mesmo posso ler. é evidente que é um canalha. devolva a carta! (A Koróbkin.Não senhor.) Artémi Filípovitch (Não dá a carta. Todos Devolva a carta. é um verdadeiro . e. (Todos se aproximam dele.) Chefe dos Correios Leia! Leia! Que absurdo! Leia tudo. Chefe dos Correios (Aos espectadores. Com licença. (Põe os óculos e lê. para que? Prefeito Já que está lendo.) Koróbkin Por que parou? Artémi Filípovitch É que está meio ilegível. acho que eu consigo.) “O chefe dos correios é a cara do Mikheiev.. (Pega a carta.) Leia. Mais adiante estará legível. e” (Gagueja. Koróbkin Dê-me aqui! Acho que a minha vista é melhor. Artémi Filípovitch (Continua a ler.) “O encarregado da assistência social.) Leia a partir daqui. Além do mais. Koróbkin Com licença.. e.). então leia tudo. E mais nada. Que diabo! Artémi Filípovitch Dêem-me licença que eu leio..) ‘’O encarregado da assistência social... juro. Podemos pular esta parte. Esse canalha deve ser também um beberrão como ele”. pois já está legível. Zemlianíka. Artémi Filípovitch. (Entrega a carta. Chefe dos Correios Nada disso! Tem que ler tudo! Até agora lemos tudo. o contínuo do nosso departamento..) É um malcriado que deveria levar uma boa surra... Artémi Filípovitch É pra já. Koróbkin (Lendo. (Cobre com o dedo.

) “De resto. não fala nada de mim. como você.” Luká Lukítch (Aos espectadores. morto.) Deve ser urna palavra francesa. o povo aqui é hospitaleiro e bonachão.” Amós Fiódorovitch Essa não! (Em voz alta. Que vá pró inferno! Para que ler toda essa porcaria? Luká Lukítch Nada disso! Chefe dos Correios Não senhor! Leia! Koróbkin (Continua. Só vejo focinhos de porcos em lugar de caras. Uma das Damas Que chose desagradável! Prefeito Apunhalou-me pelas costas! Estou morto.) “O inspetor de escola parece encharcado de cebola. é muito chata.. Amós Fiódorovitch Só o diabo sabe o que isso significa! Se for vigarista.. Koróbkin (Continuando a ler. ainda vai. meu caro Triapítchkin. Rua do Correio. à direita. (Vira a carta e lê o endereço. completamente morto! Não consigo ver nada.) Chefe dos Correios . casa n° 97. acho que a carta é muito longa.) “O juiz. mano. pelo menos. Koróbkin (Lê. Escreva para a província de Sarátov. São Petersburgo.) Meus senhores.. vou começar a fazer literatura.) “O juiz Liápkin-Tiápkin é a quinta-essência do mauvais ton” (Interrompe. Eu também. Amós Fiódorovitch (Á parte.) Juro por Deus que eu nunca pus um pedaço de cebola na boca.) Graças a Deus que.) Não tem a menor graça! Porco com gorro! Onde já se viu um porco com gorro? Koróbkin (Continua a ler.. mas vai ver que é coisa ainda pior. Afinal a gente precisa de um alimento para a alma. entrando no pátio. A vida assim.) Ao ilustríssimo senhor Ivan Vassílievitch Triapítchkin. Compreendo agora que a gente tem que se preocupar com algo mais elevado.porco com gorro. Nada mais. terceiro andar.” Artémi Filípovitch (Aos espectadores. aldeia de Podkatílovka”. Tragam-no de volta! De volta! (Gesticula. Adeus.

é mesmo uma confusão sem igual! Amós Fiódorovitch E eu então..) E eu também! Trezentos rublos! Bóbtchinski Da gente. É assim mesmo. mandei que lhe dessem a melhor tróica e o diabo ainda me fez lhe dar toda a papelada para poder seguir em frente.) Só governadores não.Que trazer de volta nada! Eu mesmo. arrasei com todos eles. senhores? Como é que fomos cair nessa? Prefeito (Batendo na testa. (Furioso. malditos liberais! Filhos do diabo! Queria dar um nó em vocês todos. Antocha. Depois de uma breve pausa. Trinta anos de serviço e nenhum comerciante. Mulher de Koróbkin Isso é demais. sim senhor.) E eu? Comigo? Velho bobo! Como pude perder a razão..... Prefeito (Num repente de cólera.. aquele trapo.) Vejam só! Vejam todos! Todos os cristãos! Vejam como o prefeito passou por idiota! Foi feito de bobo. Ah! Vocês!..) Comprometido! Comprometido uma ova! Que comprometido que nada! Está me jogando na cara o compromisso! (Fora de si. Consegui enganar vigaristas e mais vigaristas.) Ainda não consigo me acalmar. quando Deus quer nos castigar. Mas o que . bate com os pés no chão. esses escrevinhadores de nada. velho idiota! (Ameaça a si com o próprio punho.) Mas como pode. foram sessenta e cinco em papel. reduzir todos a pó e mandar vocês pró fundo do inferno! Bem juntinho do demo!. até parece de propósito. sou burro como um porta!. (Mexe os punhos e bate com um tacão no chão. Os maiores espertalhões e os maiores trapaceiros. Ele está comprometido com Máchenka. muito mais do que isso. Amós Fiódorovitch (Abre os braços em gesto de perplexidade.) Ah! Seu narigudo! Tomou aquele nadinha. vai cair nas mãos de um escrevinhador qualquer. Do que estão rindo? Estão rindo de si mesmos!. de bobo. Governadores. Enganei três governadores!. Ana Andréievna Mas não pode ser. além da gente passar por palhaço.) Todos esses rabiscadores de papel. por uma personalidade importante! Agora lá vai ele pêlos caminhos fazendo alarde! Vai contar pra todo mundo essa história. nenhum negociante foi capaz de me passar a perna.. meus senhores. que vai nos meter numa comédia! Isso é que é duro! Não vai levar em consideração nem o meu cargo. nem minha posição e todos vão rir às gargalhadas e bater palmas. um rabiscador de papéis... E ainda por cima. primeiro nos tira a razão. Piótr Ivánovitch e eu... Chefe dos Correios (Suspirando. (Gesticula... que lhe emprestei trezentos rublos? Que vá pró inferno! Artémi Filípovitch Eu também morri com trezentos rublos. desses que roubam meio mundo.

Parece coisa do demónio.) Bóbtchinski Ei. inspetor pra cá! Quem foi o primeiro a espalhar que ele era um inspetor? Respondam! Artémi Filípovitch (Abrindo os braços.. ...tinha de inspetor naquele espertinho? Nada. ele chegou e não quer pagar. pois foi você que primeiro... “Ele chegou. matracas malditas! Só fazem mexericos. seus tagarelas desgraçados! Amós Fiódorovitch Porcalhões malditos! Luká Lukítch Seus patetas! Artémi Filípovitch Seus barrigudos miseráveis! (Todos os cercam. E de repente. Bóbtchinski Ora.. nada. Dóbtchinski Ah! Não. sim senhores! Luká Lukítch Claro que sim.) Bóbtchinski Juro por Deus que não fui eu! Foi Piótr Ivánovitch. nada.” Encontraram o figurão! Prefeito É óbvio que foram vocês! Seus fofoqueiros! Mentirosos de uma figa! Artémi Filípovitch O diabo que os carregue com o seu inspetor e suas histórias. espere aí! Eu não. nem pensei. Prefeito Só sabem zanzar pela cidade para encher a paciência de todo mundo. Piótr Ivánovitch.) Nem que me matem consigo entender como foi que tudo isso aconteceu. Vieram correndo como uns loucos da hospedaria. Amós Fiódorovitch Pois sabem quem foi que espalhou? Está aqui quem espalhou: esses dois espertinhos! (Aponta para Dóbtchinski e Bóbtchinski. não senhor.. todos começaram: inspetor pra lá. Dóbtchinski Eu não fiz nada. Artémi Filípovitch Foram vocês. E como uma neblina que nos cega. Nem um tiquinho de nada. o primeiro foi você..

Ele ordena que o senhor se apresente agora mesmo. apoiadas umas nas outras. Atrás delas. Koróbkin. atrás dele. Uma exclamação de assombro ecoa de uma só vez da boca das mulheres. Luká Lukítch. Oficial Acaba de chegar de São Petersburgo um funcionário por ordem do czar. que pisca um olho para os espectadores numa alusão sarcástica ao prefeito. no centro. Atrás dele. permanece nessa posição por quase um minuto e meio. o chefe dos correios como que transformado num ponto de interrogação dirigido aos espectadores. Gagarin e Justus. bocas abertas e olhos arregalados. (As palavras pronunciadas atingem todos como um trovão. estão três senhoras convidadas. como se estivesse ouvindo alguma coisa. com a cabeça um pouco inclinada para o lado. A impressão digital ficou a cargo da Áster Graf. atrás dele. com aspecto um tanto ingénuo. como um poste. que utilizou papel Old Natural 89 e 176 g/m2 fabricado pela Finepapers. o juiz com os braços abertos. O projeto deste livro foi realizado utilizando-se as famílias tipográficas The Serif. De repente. . estão Dóbtchinski e Bóbtchisnki com os braços estendidos um para o outro.Última Cena Os mesmos e um oficial. agachado quase até o chão e com um movimento nos lábios como se quisesse assobiar ou exclamar: “Ora. Os demais convidados ficam imóveis como postes. os braços abertos e a cabeça inclinada para trás.) Cena Muda O prefeito fica parado. todo o grupo muda de posição e fica como que petrificado. com um movimento de corpo em direção a ele. O grupo. petrificado. Cai o pano. Zemlianíka. é o fim do mundo!” Atrás dele. na extremidade do palco. À esquerda do prefeito. vejam só. Atrás dele. bem na extremidade. dirigida à família do prefeito. À sua direita estão sua esposa e sua filha. desnorteado. Ele está hospedado no hotel. com a mais satírica expressão no rosto.

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