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A UNESCO anunciou o ano de 2009 como “o ano de Gógol” e inúmeras exposições e eventos estão previstos para este ano na Rússia e no mundo todo em comemoração ao bicentenário do nascimento deste gigante da literatura russa. Personalidade bastante singular, altamente enigmática, Gógol deixa-se revelar em mutiso de seus escritos. A obra de Gógol como um todo tem sido considerada por uma parcela da crítica como expressão satírica da realidade russa na primeira metade do século 19, detectando-se uma maneira peculiar de “ver” o mundo e as coisas, isto é, sua “óptica desautomatizante”. O traço da obra gogoliana se revela por meio de uma espécie de acumulação absurda de detalhes que fazem da realidade um aglomerado de elementos contraditórios, mas que revelam na sua mais profunda essência, tornando esse caos fantástico e desconexo a sua mais fiel expressão. Nos textos de Gógol o sobrenatural e o inusitado surgem naturalmente do real e o absurdo que daí resulta se destaca do cotidiano mais comezinho no qual todos os opostos se tocam e onde o trágico e o cômico se mesclam a elementos de terror e humor. Os textos de Gógol são, portanto, poesia em ação e, como tal, podem desvelar os mistérios do irracional, mesmo que, muitas vezes, sob as máscaras da racionalidade.

Sumário
Personagens ......................................................................... 11 Ato 1 ........................................................................................ 13 Ato 2 ....................................................................................... 41 Ato 3 ........................................................................................ 69 Ato 4 .......................................................................................105 Ato 5 ...................................................................................... 157

O Inspetor Geral
Comédia em 5 atos (1836) A culpa não é do espelho se a cara é torta. Provérbio popular

Personagens
Antón Antónovitch Skvozník-Dmukhanóvski: prefeito Ana Andréievna: sua esposa Mária Antónovna: sua filha Luká Lukítch Khlópov: inspetor de escolas Sua Esposa Amós Fiódorovitch Liápkin-Tiapkin: juiz Artémi Filípovitch Zemlianíka: encarregado da assitência social Ivan Kuzmítch Chpékin: chefe dos correios Piótr Ivánovitch Dóbtchinski: pequeno proprietário de terras Piótr Ivánovitch Bóbtchinski: pequeno proprietário de terras Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv: funcionário de Petersburgo Óssip: seu criado Khristian Ivánovitch Guíbner: médico da província Fiódor Andreiévitch Liuliukóv: aposentado, cidadão respeitado Ivan Lázarevitch Rastakóvski: aposentado, cidadão respeitado Stepan Ivánovitch Koróbkin: aposentado, cidadão respeitado Stepan Ilitch Ukhoviórtov: comissário de polícia Svistunóv: policial Púgovitsin: policial Derjimórda: policial Abdúlin: comerciante Fevrônia Petróvna Pochliópkina: a mulher do serralheiro Michka: criado do prefeito Um criado de hotel Convidados e convidadas, comerciantes, pequenos burgueses e solicitantes

em missão secreta. Vou ler para os senhores a carta que recebi de Andrei Ivánovitch Tchmykhov.. de tamanho sobrenatural! Chegaram bem perto..) Soube disso por meio de gente de confiança. o comissário de polícia. aquele que o senhor. o encarregado da assistência social. compadre e benfeitor”. o inspetor de escolas.Ato 1 Sala na casa do prefeito.) “. meus senhores. Prefeito Chamei-os aqui. Palavra de honra.em informá-lo. para lhes dar uma notícia bem desagradável. Olha o que ele escreve: “Meu caro amigo.. (Balbucia palavras a meia-voz. Está a caminho um inspetor geral. conhece bem. apesar de o ditocujo se apresentar . Amós Fiódorovitch Como? Um inspetor?!! Artémi Filípovitch Como? Um inspetor?!! Prefeito Um inspetor de Petersburgo. nunca vi nada parecido: pretas. Artémi Filípovitch. Amós Fiódorovitch Essa não!! Artémi Filípovitch Era só isso que faltava!! Luká Lukítch Santo Deus! E ainda por cima em missão secreta! Prefeito Eu bem que pressentia: sonhei durante toda a noite com duas ratazanas impressionantes. o médico e dois policiais.. E. apresso-me em informá-lo de que chegou um funcionário autorizado a inspecionar todo o estado e principalmente o nosso distrito.” Ah! Aqui: “A propósito. incógnito. ainda por cima. cheiraram e foram embora. o juiz... (Levanta um dedo de forma significativa. Cena 1 O prefeito. correndo os olhos com rapidez.

Antón Antónovitch.. Também não é bom que os seus pacientes fumem um tabaco tão forte. o senhor não. o tal funcionário vai querer. Antón Antónovitch.” (Interrompe. Prefeito Isso mesmo. Prestem atenção: de minha parte.. estão sempre de olho vivo. Amós Fiódorovitch Não... E também em cada cama deve-se escrever. Khristian Ivánovitch -. Prefeito Estejam ou não de olho.. só se meteram com outras cidades.” Bem. Como sei que você. pois você é um homem inteligente e não gosta de deixar passar o que lhe cai nas mãos. por isso.como um indivíduo qualquer.... Amós Fiódorovitch É verdade. se é que já não chegou e está hospedado incógnito em algum canto. data.. Até que dá pra eles ficarem limpos.... “.. o nome de cada doença. Luká Lukitch Mas para quê.então aconselho-o a tomar precauções. já dei algumas ordens e os aconselho a fazer o mesmo.) Bem. tem lá os seus pecadilhos. averiguar as instituições da assistência social sob sua responsabilidade... Artémi Filípovitch! Sem dúvida nenhuma. Esses superiores são bem espertos: mesmo longe. Prefeito Mas que asneira! Um homem inteligente como você! Traição numa cidadezinha dessas! Por acaso estamos numa fronteira? Daqui desta cidade. que faz a gente espirrar. hora. não é bem assim.” e etc. É o seguinte: a Rússia. que isso aí tem uma razão mais sutil e bem política. antes de mais nada.. Artémi Filípovitch Isso é o de menos. quando o sujeito adoeceu. Amós Fiódorovitch Eu acho. é isso mesmo. Ivan Kirílovitch engordou muito e continua tocando violino. mesmo porque ele pode chegar a qualquer momento. etc. Principalmente o senhor. para que isso? O que vem fazer aqui um inspetor? Prefeito Por quê?! Só pode ser coisa do destino! (Suspira... Ontem eu.. a Rússia deseja fazer a guerra e aí. eu quero dizer.) Até hoje.. E seria ainda melhor se tivéssemos menos pacientes: podem até achar . vejam só. Que situação extraordinária. graças a Deus. os senhores já estão avisados. muito extraordinária! E não deve ser à toa. faça tudo ficar bem decente: os gorros devem estar limpos para que os doentes não pareçam ferreiros como sempre. como todo mundo.. logo ao entrar. nem viajando três anos seguidos você pode chegar a algum lugar. aqui já vêm assuntos de família: “Minha irmã Ana Kirílovna veio nos visitar com seu marido. o ministério manda um funcionário espionar se há traição em algum lugar. já que estamos entre nós. em latim ou em qualquer outra língua — isto já é com o senhor. agora chegou a nossa vez. Vejam só que situação..

Eu sei que o senhor gosta de caçar. sem dúvida. eu aconselharia a prestar mais atenção nas repartições públicas. Foi assim que o próprio Deus determinou e não adianta os voltairianos protestarem contra. então há remédio contra isso. ele. No que diz respeito à organização interna e àquilo que Andréi Ivánovitch em sua carta chama de pecadilhos. desde então. os contínuos criam gansos. Amós Fiódorovitch O que é que o senhor. Não há uma pessoa que não tenha lá seus pecados. (Khristian Ivánovitch deixa escapar um som meio parecido com a. ou alho. eu e Khristian Ivánovitch já tomamos providências: quanto mais próximo da natureza. sei lá. quando criança. (Khristian Ivánovitch deixa escapar aquele mesmo ruído. então sara mesmo. a ama-de-leite o derrubou e. Não usamos remédios caros. Lá nas ante-salas. Posso falar abertamente para todo mundo que recebo propinas. você sabe.isso também não é bom. é competente. entende por pecadilhos? Há pecados e pecados. Amos Fiódorovitch. ou qualquer coisa que o valha. me esqueci. é digno de louvor. letra “i” e um pouco com a letra “e”. Mas isso já é outra coisa. mas é melhor. como ele diz. mas tem um cheiro. E também é muito difícil para Khristian Ivánovitch se fazer entender: ele não sabe uma palavra de russo. não me lembro bem. melhor. e por que um contínuo não poderia fazê-lo? Só que. Se quiser. Se. de fato. então o senhor pode pôr tudo de novo no lugar. já não é mais possível remediar: ele diz que.. Gente pobre é simples: se tem de morrer. Amós Fiódorovitch Pois hoje mesmo vou mandá-los todos para a cozinha. mas houve. eu só queria lembrá-lo. Prefeito Bem. o seu juiz-assistente. eu não tenho nada a dizer.) Prefeito E ao senhor. num lugar desses. não é bom que ponham para secar em sua repartição toda espécie de porcarias e que sobre a papelada Kc veja um chicote de caça. onde normalmente ficam os solicitantes. tirá-lo dali. o seu cheiro lhe é inato.. se tem de sarar. quando o inspetor for embora. Vamos aconselhá-lo a comer cebola. não dá. E natural cuidar de animais domésticos.. E até estranho falar disso. Agora. até pode vir almoçar. Artémi Filípovitch Ah! Quanto à questão clínica. E. Khristian Ivánovitch pode ajudá-lo com diversos medicamentos. Nesse caso. um contratempo qualquer. Prefeito Além do mais. Há limito tempo que eu queria lhe falar sobre isso. . e seus gansinhos ficam se enfiando entre as nossas pernas sem parar.que são mal assistidos ou que o médico não sabe nada de seu ofício. mas que tipo de propina? Filhotinhos de cachorro. morre mesmo. como se tivesse acabado de sair de uma destilaria .. Sempre quis chamar sua atenção para isso. mas.) Amós Fiódorovitch Não. sai dele esse cheirinho de vodca. pelo menos por um tempo. Antón Antónovitch.

ou seja lá quem for. e aí. Ah!. filhotinhos ou outra coisa qualquer. eu conheço o senhor muito bem: é só começar a falar da criação do mundo e os cabelos se põem em pé. por exemplo. mas têm condutas muito esquisitas. Amós Fiódorovitch E olha que tudo isso com minha própria inteligência. tal foi a força com que ele jogou uma cadeira no chão! E verdade que Alexandre Magno é um herói.. Antón Antónovitch. nem posso descrever o que aconteceu. sem dúvida alguma. ele fez uma tal careta. Há alguns dias. e daí se o senhor recebe cachorros como propina? Em compensação. porque. Deus me livre. o senhor não acredita em Deus e nunca vai à igreja. se ele faz a tal careta diante de um aluno. ele desceu correndo do púlpito. Não posso dizer nada a respeito. Quanto ao senhor. Um deles. Mas. é pouco provável que alguém vá lá algum dia xeretar: é um lugar tão formidável. pegaria mal: o senhor inspetor. o que se deve. quando nosso conselheiro entrou na classe. Luká Lukitch Mas o que é que eu posso fazer? Já lhe falei várias vezes. Mas o senhor. um poço de conhecimentos.) e depois. Prefeito Bem. está protegido por Deus. não pode deixar de fazer uma ca reta assim (Faz a careta... ou o xale para a esposa. São pessoas bern cultivadas. mas para que quebrar as cadeiras? Para dar prejuízo ao erário! Luká Lukitch Ele é mesmo muito esquentado! Várias vezes já lhe chamei a atenção. Amós Fiódorovitch Não senhor.. toda vez que sobe ao púlpito. Ë claro que. . Aliás.. pra dizer a verdade.. ainda vai. pensem bem. Certa vez. por debaixo da gravata. eu apenas falei no tribunal de Justiça por falar. começa a passar a mão na barba. se ele fizesse isso diante de um visitante. à sua condição de conceituadas. é evidente. Pois veja... só o diabo sabe como tudo poderia acabar. mas quando chegou em Alexandre Magno. Prefeito Mas veja que em alguns casos é pior ter muita inteligência do que não ter nenhuma. aquele que tem uma cara gorda.. mas eu. fui ouvi-lo. poderia tomar a ofensa para si. Ele fez aquilo com as melhores das intenções. certamente. deve cuidar em particular dos professores. e ele diz: “Seja como for.Prefeito Ora. Ele sabe muita coisa. não me lembro o nome dele. por exemplo. tudo bem. coisa igual eu nunca tinha visto. mas explica tudo com tamanho ardor que fica fora de si. pela ciência dou a própria vida”.. mas eu é que recebi o sermão: para que incutir na juventude ideias tão liberais? Prefeito Também tenho que lhe falar a respeito do professor de história. talvez tenha que ser assim mesmo. se o casaco de peles de certas pessoas custa quinhentos rublos. Enquanto falava sobre os assírios e os babilónios. até pensei que a escola estava pegando fogo. Luká Lukítch. com formação superior e tudo. pelo menos. como diretor de um estabelecimento de ensino. tenho uma fé inabalável e todos os domingos vou à igreja. tudo é suborno.

. Tudo sujeira dos franceses. .“Pois que tragam aqui Liápkin Tiápkin! E quem é o diretor da assistência social?” .Prefeito É. . a gente tem medo de tudo. Chefe dos Correios Meus senhores.. mas que fora deram esses dois! Chefe dos Correios É guerra com os turcos. Luká Lukitch Deus nos livre de mexer com o ensino público. meus pombinhos! Quem aqui é o juiz?” . O problema é esse incógnito maldito! De repente ele aparece: “Ah.“Zemlianíka”. sim. Prefeito Isso ainda não é nada. Prefeito É. Qualquer um mete o nariz para mostrar que também é inteligente. ou faz cada careta de que até Deus duvida. Prefeito . vocês estão aí. Piótr Ivánovitch Bóbtchinski acabou de me contar lá na agência. Amós Fiódorovitch E isso mesmo! É isso que eu também acho. que funcionário é esse que está vindo para cá? Prefeito Por acaso o senhor não ouviu nada a respeito? Chefe dos Correios Ouvi sim.“LiápkinTiápkin”. é uma lei inexplicável do destino: todo homem inteligente ou é bêbado.“Pois que tragam aqui Zemlianíka!” Isso é que é o pior! Cena 2 Os mesmos e o chefe dos correios. Prefeito E então? O que acha de tudo isso? Chefe dos Correios O que eu acho? Que vai haver guerra com os turcos.

Os comerciantes e a população estão me causando alguns aborrecimentos. Prefeito Bem. Isso eu já sei: recebi uma carta.. mas eu. Chefe dos Correios Já sei. então não vai haver mais guerra com os turcos. retenhaa sem a menor hesitação. afinal de contas. vou lhe dizer. um tenente escreveu a um amigo. meu querido amigo. quer dizer.. corre às mil maravilhas: mulheres. mas não encontrou nada sobre algum funcionário de Petersburgo? Chefe dos Correios Não. isso eu já faço. não seria possível. não é que sinta medo. há passagens tão variadas. muitas mulheres..” E com que emoção descreveu tudo isso. pois isso ainda pode lhe custar caro. bandeiras galopando. mas de funcionários de Kostroma e Sarátov há muita coisa. tem que vir aqui um inspetor? Ouça. pensando bem. Algumas cartas a gente lê com tal deleite. Por que.. Dizem que lhes enfio a faca. Que pena que o senhor não leia essas cartas.).. música. Eu até estou achando (Segura-o pelo braço e o conduz para um canto. se tomei algo de alguém. Ivan Kuzmítch. juro mesmo. foi sem nenhuma maldade. assim. pelo amor de Deus. faça-me a gentileza. abrir e dar uma lidinha nas cartas que entram e saem da sua repartição. um pouquinho. e aí.Mas que guerra com os turcos que nada! Nós é que vamos entrar bem.. mas só por curiosidade: sou louco pra saber o que há de novo no mundo. De Petersburgo não há nada. Chefe dos Correios Com o maior prazer. para o nosso bem geral.. já sei. entregue-a aberta assim mesmo. o momento não é para isso.. o que diz? Chefe dos Correios Eu? Sei lá! E o senhor. ou. Há trechos maravilhosos! Não faz muito tempo. Não precisa me ensinar. Olha. ver se não se trata de alguma denúncia ou se apenas são correspondências? Se nada houver. algumas tão edificantes. mas.. Bem melhores do que as do Correio de Moscou! Prefeito Está bem. Chefe dos Correios Se é assim. Eu até quis ficar com a carta. até estou achando que houve uma denúncia contra mim. muito bom mesmo: “Minha vida. Antón Antónovitch? Prefeito Eu? Bem. Então. então que se feche novamente a carta. Ivan Kuzmítch. é uma leitura superinteressante. Ivan Kuzmítch. Quer que eu a leia? Prefeito Essa agora. nem tanto por precaução. não os turcos. Chefe dos Correios . Amós Fiódorovitch Cuidado. se por acaso cair nas suas mãos alguma queixa ou denúncia.. descrevendo um baile de maneira tão frívola.

Irmã de sangue daquele cachorro que o senhor conhece. . mas o que eu acho é que estamos numa bela encrenca! Confesso que queria vir aqui. não é nada. mas na realidade é um assunto familiar. Prefeito Deus do céu. pronto. santo Deus! Prefeito Ora. me desculpe. os seus coelhos agora não me dão o menor prazer: esse maldito incógnito não me sai da cabeça. quer dizer. Bóbtchinski Ah.) Desculpe... Cena 3 Os mesmos. você.. assim.. ambos entram ofegantes. Dóbtchinski e Bóbtchinski.Ai. A gente fica esperando que. não. a porta se abra e. Amós Fiódorovitch Sim senhor. de repente... só para lhe dar uma cadelinha. Piótr Ivánovitch. Dóbtchinski (Interrompendo.. por favor. E o senhor soube que Tcheptovitch e Varkhovinski estão em litígio. Seria outra coisa se você tornasse isso público. Antón Antónovitch... Bóbtchinski (Interrompendo.. não tem lá muito estilo. nada. o que para mim é a maior maravilha: caço coelhos nas terras de um e de outro. Bóbtchinski Um acontecimento extraordinário! Dóbtchinski Uma notícia inesperada! Todos O quê? Mas o que foi? Dóbtchinski Uma coisa imprevista! Estávamos chegando ao hotel. eu vou contar.) Eu e Piótr Ivánovitch estávamos chegando ao hotel. me desculpe. eu é que..

o meu estômago. que o senhor tinha recebido.) Buscar um barrilzinho para a vodca francesa. um jovem. Piótr Ivánovitch.. Dóbtchinski (Interrompendo.. por favor. não me interrompa! Sei tudo. Daí. Bóbtchinski Perto da barraquinha onde se vendem pastéis.. pelo caminho. passei então pela casa de Ivan Kuzmítch para contar a novidade.) Foi buscar um barrilzinho para a vodca francesa. é isso. tudo. façam a gentileza de não deixar que Piótr Ivánovitch me atrapalhe. Vou me lembrar. aqui está uma cadeira! (Todos se sentam ao redor dos dois Piótrs Ivánovitchs..Dóbtchinski E você. não.” Nem bem entramos no hotel e.“agora deve ter um salmão fresquinho e podemos também tomar umas e outras. Piótr Ivánovitch diz: “Vamos dar uma passadinha na hospedaria. Como o tal Koróbkin não se encontrava. senhores! Peguem as cadeiras! Piótr Ivánovitch.. ao encontrar Piótr Ivánovitch. . saindo de lá me encontrei com Piótr Ivánovitch. mas. tudo. por favor. que não sei por que tinha sido mandada à casa de Filipe Antónovitch Potchetchúiev.. não comi nada desde cedo. mas não me atrapalhe! Senhores.” É sim.. “Na hospedaria”.disse ele . vou contar tudo pela ordem. Prefeito Pois falem logo.. então. não me interrompa!. fui com Piótr Ivánovitch à casa de Potchetchúiev.. Pois fomos à casa de Potchetchúiev... Bóbtchinski (Desviando a mão dele. então dei um pulo lá.. Bóbtchinski Palavra de honra que eu vou me lembrar. pois bem. logo depois que o senhor se dignou a ficar bastante desconcertado com o recebimento da carta. dei um pulo até a casa de Koróbkin. Dóbtchinski (Interrompendo. Aí. o estômago de Piótr Ivánovitch estava mesmo. não.) Então. vai se confundir todo e não vai se lembrar de nada..... Então não me atrapalhe que eu vou contar tudo. mas como Rastakóvski também não estava. de repente. bem.) Perto da barraquinha onde se vendem pastéis.. Não. Avdótia. o meu estômago está tremendo.. digo-lhe: “Por acaso já sabe da última? Que Antón Antónovitch recebeu por carta fidedigna?” Mas Piótr Ivánovitch já tinha ouvido falar disso pela sua despenseira. espera aí... Piótr Ivánovitch. . não me interrompa. tudinho..) Bem-apessoado e à paisana. Sentem-se. Dóbtchinski (Interrompendo. pelo amor de Deus! O que aconteceu? Meu coração não vai aguentar.Então. Sabe. Bóbtchinski . resolvi entrar na casa de Rastakóvski. Nem bem eu tive o prazer de sair daqui.. o que foi que aconteceu? Bóbtchinski Espera aí.

é.. pobres pecadores! Onde é que ele está hospedado? Dóbtchinski No quarto número cinco. ah.. meu Deus. não pode! O senhor fala assobiando! Eu sei que o seu dente tem um buraco. Viu até que eu e Piótr Ivánovitch comíamos salmão. Prefeito E faz tempo que ele está aqui? .” Assim que ele me contou isso. debaixo da escada.. dissemos Piótr Ivánovitch e eu. “é um jovem funcionário sim senhor. por favor.. Me deu um medo! Prefeito Que Deus nos perdoe. não me interrompa.. “Hum!”. Tudo por causa do estômago de Piótr Ivánovitch. não me interrompa. e até ficou espiando o nosso prato..) muita. uma cara. Nem bem Piótr Ivánovitch chamou Vlass. o Vlass. Prefeito Quem. é ele. Vai para Sarátov. o que está dizendo! Não pode ser ele. observa tudo. santo Deus. e aqui (Aponta a testa. Dóbtchinski É ele sim! Não paga e não vai embora. E tem reações estranhas: já está hospedado aqui há quase duas semanas e não vai embora. Piótr Ivánovitch logo estalou os dedos para chamar o dono da hospedaria. mas depois fui eu. perguntou baixinho: “Quem é aquele moço?”.. disse. dono de hospedaria. E o seu nome é Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv.. sabem quem é? Há três semanas a mulher dele teve um menino tão espertinho.. mas muita coisa. Bóbtchinski É ele. Piótr Ivánovitch. Prefeito (Em pânico..) Pelo amor de Deus. E que observador. Piótr Ivánovitch. o inspetor geral. e Vlass respondeu: “Aquele”. fui eu quem disse “Hum!” Bóbtchinski Primeiro foi o senhor. vem de São Petersburgo. Então.. ele mesmo. estava andando de um lado para o outro e com um tal raciocínio no rosto. disse então. Tive logo um pressentimento e disse a Piótr Ivánovitch: “Aqui tem coisa”. e eu disse a Piótr Ivánovitch: “Hum!” Dóbtchinski Não senhor. que funcionário? Bóbtchinski Aquele funcionário sobre o qual fala a notificação que o senhor recebeu.“Aquele”... um jeito. Bóbtchinski No mesmo quarto onde brigaram aqueles oficiais no ano passado. Mas por que diabo ele está aqui quando o seu destino é Sarátov? É isso mesmo! É ele o tal funcionário. na certa vai ser tal qual o pai. diz ele. .. Tem sim. logo me bateu uma ideia.Bem-apessoado e à paisana.. compra tudo fiado e não paga um tostão. O senhor não consegue contar.. Quem poderia ser? Só pode ser ele. No documento consta que vai para Sarátov.

Não. Amós Fiódorovitch Não. é assim que mandam os dez mandamentos. (O soldado corre às pressas. preciso de você. ou sei lá. com relação a isso.) O senhor disse que ele é um jovem homem? Bóbtchinski Jovem. estou tranquilo. preparem-se. um jovem é claro como a água. de vossa parte. tem que ir o conselheiro-chefe. Meus senhores. o clero. digamos assim. o quanto antes. Prefeito Melhor ainda: é mais fácil sondar um jovem. Ei.) Artémi Filípovitch Vamos. Já passei por maus momentos na vida e consegui escapar e até me agradeceram.) Meu Deus! Valham-me todos os santos! Nessas duas semanas espancaram a mulher do subtenente! Não alimentaram os presos! As ruas viraram uma zona. Chegou no dia de São Nunca. Amós Fiódorovitch Mas eu. Antón Antónovitch? Pois vamos todos ao hotel em missão oficial. que nada! Mandaram dar uma sopa de aveia aos doentes.e polícia. Mande alguém trazer. Na verdade. Amós Fiódorovitch Mas você tem medo de quê? Ponha uns gorros limpos nos doentes e acabou a história. o comissário de polícia e volte logo. (Dirige-se a Bóbtchinski.) Artémi Filípovitch O que fazer. quem sabe Deus me ajude agora também.Dóbtchinski Umas duas semanas. Amos Fiódorovitch! Ainda pode acontecer uma desgraça. Svistunóv! Svistunóv Às suas ordens. uma imundície! Uma vergonha! Uma calamidade! (Põe as mãos na cabeça. Não mais que vinte e três ou vinte e quatro anos. Prefeito Não senhores. Prefeito Duas semanas! (À parte. quem vai querer se meter num tribunal de província? E se alguém der uma espiada em qualquer . enquanto eu vou em pessoa. Artémi Filípovitch Que gorros. Prefeito Vá depressa buscar o comissário d. não! Por favor. Um velho diabo é que seria uma desgraça. com Piótr Ivánovitch para. vamos. dar um passeio não oficial para ver se os viajantes não estão tendo aborrecimentos. os comerciantes. mas nos corredores há um cheiro de repolho que a gente até tapa o nariz. eu mesmo vou resolver. de jeito nenhum! Em primeiro lugar. espere.

Vá correndo ao meu quarto. não faz mal. Piótr Ivánovitch! Bóbtchinski E eu? E eu?. Mas onde é que estão os outros? Será possível que você está sozinho? Eu já ordenei que também Prókhorov estivesse aqui.) Ai. há quinze anos no cargo de juiz. sim senhor. Antón Antónovitch! Prefeito Não senhor. Prefeito A carruagem está pronta? Soldado Está. chocam-se com o soldado que está de volta. Permita que eu vá também.ah! Deixo pra lá. não. à porta. Dóbtchinski e o soldado. E. Bóbtchinski Não faz mal. e me traga a espada e meu novo chapéu. está ouvindo. espere! Vá e me traga... o inspetor de escolas e o chefe dos correios saem e. Prefeito . meu Deus! Vá depressa lá para a rua. olhar pela fresta da porta e observar como ele se comporta. Vamos embora. não vamos caber todos na carruagem. Piótr Ivánovitch. Prefeito Como assim? Soldado Explico: trouxeram o dito-cujo de madrugada..papel... Vou correndo como um pintinho atrás de vocês. E onde está Prókhorov? Soldado Está na delegacia de polícia.. (O juiz.. Impossível! Não é conveniente.. Nem o próprio Salomão pode resolver onde começa a verdade e acaba a mentira. além do mais. Eu só quero dar uma espiadinha. Bóbtchimki. bêbado de cair.) Cena 4 O prefeito.. Só que não pode ser útil no caso. Prefeito Vá para a rua. fico só sentado e quando me ocorre dar uma olhadinha nos processos . Jogaram dois baldes de água em cima dele e até agora nada. o encarregado da assistência social. Prefeito (Pondo as mãos na cabeça. Pois eu.. ou não. vai se arrepender de ter nascido. meu Deus.

a espada está toda arranhada! Esse maldito comerciantezinho Abdúlin . Está ouvindo? Olhe aqui: eu te conheço! Conheço muito bem! Faz os seus trambiques e ainda por cima esconde colheres de prata nas botinas.. que diabo. Gente malandra! Esses vigaristas. Você que se cuide! A sua posição não é para tanto! Vá! * Archim: medida russa equivalente a 0. Estou de olho em você!! O que você fez com o comerciante Tcherniaiev.) Agora vá correndo. Que providências você já tomou? Comissário de Polícia Conforme o senhor ordenou. está bêbado? Comissário de Polícia Bêbado. E que deixem tudo muito bem limpo. Stepan Ilitch! O tal funcionário de Petersburgo já chegou. hein? Ele te deu dois archins* de tecido para a farda e você lhe roubou a peça toda. Ontem houve uma briga fora da cidade. ouça. Diabo. Que cada um desses sargentos pegue na mão uma rua. onde você se meteu? Como é que é isso? Comissário de Polícia Estava bem pertinho daqui.(Pega a espada do soldado e diz a ele.. Ele foi lá só pró forma e voltou bêbado. Prefeito Ah! Stepan Ilitch! Pelo amor de Deus. Prefeito Como você permitiu uma coisa dessas? Comissário de Polícia Só Deus sabe. Prefeito Então. Prefeito E onde está Derjimórda? Comissário de Polícia Derjimórda foi sentado em cima das mangueiras dos bombeiros. Cena 5 Os mesmos e o comissário de polícia. aposto que já estão com suas petições no bolso do colete. . uma vassoura! Que varram toda a rua que leva à hospedaria. reúna alguns sargentos e que cada um traga.vê que o prefeito está usando uma espada velha e não lhe manda uma nova.71 metro. mandei o soldado Púgovitsin com os sargentos varrerem as calçadas. Prefeito E Prókhorov.

.Prefeito Pois veja o que você tem a fazer: o soldado Púgovitsin. e por baixo mais nada. tenta vestir a caixa de papelão. vamos. mas que pegou fogo. Já apresentei um relatório sobre isso. e não deixem os soldados saírem à rua sem roupa: esses miseráveis vestem só a parte de cima do uniforme por cima da camisa.) . e não o seu chapéu. ou por bobeira mesmo. dando uma olhada. deve ficar na ponte.) Ah. Prefeito (Joga fora a caixa. equivalente a 13.Respondam: “Muito contentes. mais se denota a atividade do dirigente. Ah. Que cidade horrível! Basta a gente colocar em algum lugar um monumento qualquer ou uma simples cerca. Porque..) * Pud: medida antiga. culpado ou inocente. ele deixa todo mundo com o olho roxo. Então vamos embora. E diga a Derjimórda que contenha um pouco os seus punhos. isso aí é uma caixa. meu Deus. E aquele que não estiver contente vai ver depois comigo o que é estar descontente. não esqueçam de dizer que. Piótr Ivánovitch! (Sai e volta. meu Deus! Vamos embora. Comissário de Polícia Antón Antónovitch. Mande retirar imediatamente aquela velha cerca ao lado do sapateiro e coloque lá algumas placas de palha. Ah! Santo Deus! Já ia me esquecendo de que ao lado dessa mesma cerca estão amontoadas quarenta carroças com toda espécie de lixo. para a qual há cinco anos recebemos uma boa soma. (Em vez do chapéu. (Em vez ao chapéu. Quanto mais tudo estiver quebrado.. e se perguntarem por que ainda não foi construída a igreja junto à Casa de Misericórdia. para dar a impressão de um certo planejamento urbano.) Queira Deus que eu saia são e salvo de tudo isso o mais rápido possível e então vou acender uma vela tão grande como ninguém jamais fez e vou exigir de cada um desses comerciantes espertinhos três puds* de cera.. excelência”. Piótr Ivánovitch. para manter a ordem. que começamos a construir. pode alguém dizer por esquecimento. Ufa! Culpado. sou culpado.3 quilos. senão. que nem chegamos a começar a obra. pega a caixa. que é bastante alto..) E por que não a caixa? Que me importa a caixa! Ah.) E se o tal funcionário perguntar aos policiais: “Estão todos satisfeitos?” . e pronto — só o diabo sabe de onde trazem tanta porcaria! (Suspira.. (Saem todos.

. que olhos ele tem. Ana Andréievna Daqui a duas horas! Muito obrigada. um lencinho”. Só quero saber uma coisa: quem é ele.. Saber alguma coisa! Mas nessa cabeça só tem besteira. procure saber direitinho. se são pretos ou não. Ana Andréievna Onde é que eles estão? Onde? Ah. maezinha. é coronel? Hein? (Aborrecida. está me ouvindo? Vá depressa. vá agora mesmo! Corra e descubra para onde eles foram.. benzinho.. você sabe se chegou alguém. O quê? Saíram depressa? E você não correu atrás? Então vá. está entendendo? Olhe pela frestra e veja tudo. depressa. estou prendendo o lencinho na cabeça.. mais tarde? Essa agora.) Eh! Avdótia! O quê? Avdótia. que tal esse forasteiro. Isso mesmo. depressa! (Fica gritando junto à janela. Viu o que você fez? Agora não sabemos nada de nada! Tudo por causa desse seu maldito coquetismo! Foi só ouvir que o chefe dos correios estava aqui e se pôs toda faceira diante do espelho: olha de um lado. E volte bem rapidinho. Você pensa que ele arrasta uma asinha por você.) Antón. já estou indo”.) Tudo por sua causa. (Abrindo aporta. santo Deus!. O pano esconde as duas. para onde? O quê? Já chegou? O inspetor? Tem bigodes? Que tipo de bigodes? Voz do Prefeito Mais tarde.) .. daqui a duas horas vamos saber tudo. Mária Antónovna O que se há de fazer. por sua causa! Que moleza: “Um alfinetinho. só pensa em namorados.. mãezinha? De todo modo. e do outro. mais tarde! Não quero saber de mais tarde. e grita. enquanto cai o pano.) E meu marido? Antocha! Antón! (Fala muito rápido. (Corre até a janela.. Você bem que poderia ter perguntado. para onde você vai. mas é só você virar as costas para ele logo lhe fazer uma careta. Não sabe? Sua estúpida! Alguém está acenando? Pois que acene. Que bela resposta! E que tal dizer que só daqui a um mês saberemos tudo ainda melhor? (Curva-se na janela... espere.Cena 6 Ana Andréievna e Mária Antónovna entram correndo. como é ele. depressa. mais tarde! Ana Andréievna Como.) — Foi embora! Você vai ver só! E tudo por sua causa: “Maezinha.

morre de fome como agora.) Que diabo! Estou com uma fome! E minha barriga está fazendo um barulho como se um regimento inteiro estivesse tocando cornetas. todos os dias compra um bilhete para o teatro e. agora. mas. e a comida também. Mas tem que ter dinheiro. manda vender o seu novo fraque na feira. é um funcionariozinho de quinta categoria! Nem bem conhece um viajante. E a culpa é todinha dele. dança de cachorros. qual nada. A esposa velhusca do oficial passa por lá e também alguma criada pode aparecer. E a vida. com o rabo entre as pernas. depois de uma semana. fiu. até parecem nobres. uma garrafa vazia. Juro por . Todo mundo fala com finura..Ato 2 Quarto pequeno de hotel. E se. perto do forno. fiu! (Sorri e balança a cabeça. Duvido que cheguemos em casa! O que é que se há de fazer? Já faz mais de um mês que saímos de Peter! Esbanjou o dinheiro todo pelo caminho e. E todo mundo trata a gente por “senhor”.” Ainda se fosse alguém que se preze. botas. Cena 1 Óssip (Deitado na cama do patrão. comendo bolos e tortas. O que é que a gente vai fazer? O papaizinho manda dinheiro. uma mala. feito um nobre. o meu anjinho fica aí. (Imita. ele tem que se bacanear em cada cidade.) Que diabo. quanto galanteio! Nunca se ouve uma palavra grosseira. vida de cidade: teatros. escova de roupas etc. outras vezes. mas também tem menos preocupação. é coisa fina. então vai a uma lojinha: ali um velho veterano se põe a contar a vida militar e até vai explicar o significado de cada estrela no céu. de modo que tudo fica tão claro como se estivesse na palma de sua mão. se quer companhia. mas em lugar de poupar . é duro de suportar. aí sim. Uma cama. Óssip! Vá lá.. preciso do bom e do melhor. não tem problema: em cada casa há sempre duas saídas e você pode se safar de tal maneira que nem mesmo o diabo vai conseguir alcançar. Mas quem duvida? E bem verdade que a vida em Peter é melhor. Se a gente se cansa de ir a pé. por acaso. não. mesa. desanimado. e já vai logo para a mesa de jogo.qual nada! se põe a farrear: só anda de carruagem. peça a melhor que houver: refeições ruins. fica deitado a vida inteira no quentinho. Às vezes se livra até da última camisa e fica só com o terno e o capote. vê se acha o melhor quarto. Você se casa com uma mulherona. E até que a gente tinha um bom dinheirinho. Bem feito! Tomou na cabeça! Ah! Estou farto dessa vida! Lá no campo é bem melhor: não tem tanta animação. Só uma coisa é que não presta: às vezes a gente quase explode de tanto comer.) “Eh. Você vai ao mercado e os comerciantes gritam: “Ilustríssimo!” Quando a gente pega a barca. você não quer pagar. mas. é só tomar uma carruagem e vai sentado. tudo o que a gente quiser. pode se sentar ao lado de um alto funcionário público.

) Ah! Meu Deus do céu! Pelo menos uma sopinha qualquer! Acho que seria capaz de comer o mundo inteirinho. Em vez de ir para a repartição. então trabalhe. bem menos alta e semelhante a uma súplica. mas menos decidido. está toda desarrumada! Óssip Pra que me serve a sua cama? Por acaso eu não sei o que é uma cama? Tenho pernas. diz em voz alta e decidido. não tem mais tabaco? Óssip E como é que vai ter tabaco? O senhor fumou o último já faz quatro dias! Khlestakóv (Caminha mordendo os lábios de diferentes formas. vai passear pelas ruas. Óssip Lá embaixo onde? Khlestakóv (Com voz já nada decidida. Ah! Se o meu velho patrão soubesse disso tudo! Não se importaria nem um pouco de ser ele um funcionário e levantaria a sua roupinha para lhe cobrir tanto de palmadas que lhe deixariam coceiras por mais de quatro dias. mas. deve ser ele. Ossip! Óssip O que deseja? Khlestakóv (Em voz alta. vão arrematá-lo por uns vinte rublos. E se a gente não pagar? (Suspira.) Vá lá embaixo. (Pula da cama apressadamente. Se tem que trabalhar. Khlestakóv Pegue isso! (Dá-lhe o chapéu e a bengala. no mercado. E agora o dono do hotel disse que não vai lhe dar mais nada de comer enquanto não pagar o que deve. Estão batendo. E tudo isso por quê? Porque ele não quer saber de nada. nem se fale .) Cena 2 Óssip e Khlestakóv.) E de novo jogado na minha cama? Óssip E pra que eu preciso ficar jogado na sua cama? Por acaso nunca vi uma cama? Khlestakóv Mentiroso! Ficou na minha cama sim! Olha lá. então. posso muito bem ficar de pé! Pra que é que preciso da sua cama? Khlestakóv (Passeia pelo quarto.Deus que é verdade! E o tecido é tão caro! Pura lã inglesa! Só o fraque deve ter custado cento e cinquenta rublos. jogar cartas.) Lá . Por fim.) Vá lá ver no saquinho. As calças.uma ninharia.) Escute aqui.

que o senhor há quase três semanas não paga. ele disse. qualquer um chega aqui. senhor. (Óssip sai. será que.. na copa. “são dois vigaristas. animal. não vai dar? E um absurdo! Óssip E ainda disse mais. Não vai adiantar nada. se instala. “Você e seu patrão”. Khlestakóv Mas para que o dono vir aqui? Vá lá e fale com ele. Vá lá e diga que me dêem de comer. e o seu patrão é um trapaceiro. disse ele. Conhecemos muito bem vagabundos e patifes dessa laia”.) Cena 3 Khlestakóv .. vou direto dar queixa para que o levem logo para a cadeia”.embaixo. fica endividado e depois não há como enxotá-lo. Khlestakóv Já chega. Khlestakóv Então vá se danar! Chame o dono. Khlestakóv Como se atreve. Que porco! Óssip E melhor que eu chame o dono para que ele mesmo venha aqui falar com o senhor. não! Não quero ir não! Khlestakóv Como é que se atreve. O dono já disse que não vai dar mais nada pra gente comer.. Khlestakóv E você ainda fica feliz. seu idiota! Vá. vá já falar com ele. de me contar tudo isso? Óssip E disse mais: “Dessa maneira. Eu não brinco em serviço. Disse que vai ao prefeito. Óssip Mas. seu idiota? Óssip E também tanto faz. Óssip Ah. ir ou não ir..

) Ninguém quer vir para cá! Cena 4 Khlestakóv. Aquele capitão de infantaria me limpou mesmo. Senão posso até ficar fraco..) Estou morrendo de fome! Fui dar uma voltinha para ver se perdia o apetite. Khlestakóv Como vai? Boa saúde? O Criado Graças a Deus! Khlestakóv E aí? Como é que vão indo as coisas na hospedaria? Tudo em ordem? O Criado Tudo bem.(Sozinho. Khlestakóv Mas se queixar por quê? Pense bem. pelo jeito. Khlestakóv Muitos hóspedes? O Criado Bastante. mas que nada. mas o patrão disse que não vai lhe dar mais nada para comer. Tenho muita fome. a fome não passa. O Criado . diabos. depois cantarola uma canção popular e por fim qualquer coisa sem sentido.. até que o dinheiro daria para chegar em casa.. O Criado O patrão mandou perguntar o que é que o senhor deseja. como é que pode? Pois eu preciso comer. Apesar disso. Então. Para tudo é preciso a ocasião. se não fosse aquela farra em Penza. por favor. E. bem que eu queria jogar mais uma vez. meu querido. Óssip e o Criado da hospedaria. Mas que cidadezinha horrível! Nem nas quitandas querem vender fiado! E uma verdadeira infâmia! (Começa a assobiar o início da ópera Roberto. até queria ir hoje se queixar para o prefeito. até agora não me trouxeram o almoço. meu querido. porque depois do almoço tenho mais o que fazer. Ainda não tive ocasião de me encontrar com ele. está me entendendo. Que lances impressionantes! Em um quarto de hora me depenou. O Criado E. Ele. peça que se apressem. graças a Deus. Não estou brincando. Khlestakóv Escute aqui.

O Criado O que é que eu posso dizer? Khlestakóv Você apenas lhe explique muito seriamente que eu preciso comer.) Arre! (Cospe. Ele pensa que só porque pode passar um dia sem comer nada. vestido de libré? Posso imaginar. Foi assim que ele falou. Agora. E se eu fizesse um negócio com alguma peça de roupa? Que tal vender as minhas calças? Ah não. Já pensou. Cena 6 Khlestakóv. Khlestakóv Se por acaso ele não me der nada pra comer.) “Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv. E quando a gente se aproxima da filha.. Pena que lokhín não me alugou a carruagem. a coisa vai ficar feia. Khlestakóv E então? Óssip O almoço vem vindo! . pode ser recebido?” Esses ignorantes nem sabem o que quer dizer “pode ser recebido”! Se chega algum ricaço proprietário de terras. uma gracinha. tem que convencê-lo.. todo mundo em alvoroço: “Mas quem é ele. que diabo. é melhor passar fome do que chegar em casa sem a minha roupa de Petersburgo.) Tenho enjoo de tanta fome.Está bem. com os faróis acesos e o Óssip atrás.” (Esfrega as mãos e faz uma reverência. chegar em casa de carruagem. Mas ele disse: “Não vou lhe dar comida até que me pague os atrasados”.. o dinheiro é outra coisa. como eu. os outros também podem! Essa é muito boa! O Criado Está bem. então se atira feito um urso na sala de visitas. Óssip e depois o Criado. Cena 5 Khlestakóv sozinho. é preciso dizer: “Senhorita. Vou falar com ele. Khlestakóv Mas você tem que lhe explicar. feito um diabo. imitando o lacaio. passar pela entrada de um vizinho qualquer. de Petersburgo. quem é esse aí?” E o lacaio entra: (Ergue-se..

Khlestakóv E daí. o patrão. Khlestakóv Mas como não? Eu mesmo. E hoje pela manhã bem que vi no restaurante dois baixinhos comendo salmão e muitas outras coisinhas. Khlestakóv O quê? Só dois pratos? O Criado Só. Khlestakóv Como não? O Criado Não. O Criado Bem. ao passar pela cozinha. o peixe.) Oba! Oba! Oba! O Criado (Com pratos e um guardanapo... Que ele se dane! O que é que tem aí? O Criado Sopa e carne assada. porque não. o patrão. Khlestakóv E cadê o molho? O Criado Molho não tem. as almôndegas? O Criado Isso é só para pessoas dignas.) O patrão disse que é a última vez. sim senhor. Khlestakóv Ah! Seu idiota! O Criado Sim senhor! . o patrão acha que está bom demais. Khlestakóv Mas é um absurdo! Só isso aí não vai dar! Diga ao seu patrão que isso aí é muito pouco. pode ser que tenha e pode ser que não tenha. vi que estavam cozinhando um monte de coisas.Khlestakóv (Batendo palmas e pulando da cadeira. Khlestakóv E o salmão. O Criado Não senhor.

Vagabundos! Só querem esfolar os hóspedes. idiota. assado é que não é. (Corta o assado. (Despeja a sopa e come. acompanhado por Ossip.. (Palita os dentes com o dedo. Khlestakóv (Defendendo o prato com a mão. diabos. O patrão disse: quer. Vou avisando que comigo.. meu irmão. não quer.. (Come. Parece um machado frito e não carne.) Cena 7 .) Mas que raio de assado é este? Isto não é assado. Óssip.) Vigaristas! Canalhas! Isso é comida?! Até dói o maxilar quando a gente mastiga um pedacinho. eu também não posso comer? Será que não são hóspedes como eu? O Criado A gente sabe que não.. seu tonto. ai.) Acho que ninguém nesse mundo já comeu uma sopa dessas! Só tem penas nadando.) Patifes! Parece madeira. Está acostumado a tratar os outros assim. em vez de azeite! (Corta a galinha.) Mas que porcaria de sopa é essa? Você despejou água no prato ou o quê? Não tem gosto de nada e ainda por cima fede. está bem. Traga outra. (Come. O Criado Posso levar.. mas comigo é diferente. pega pra você. Khlestakóv Chega de conversa. Vigaristas! (Limpa a boca com o guardanapo. como são eles! Todo mundo sabe: gente que paga. Khlestakóv Canalhas! Miseráveis! Se ainda tivesse um molhozinho ou um pastel. senhor. Khlestakóv E como são eles? O Criado Ora. O Criado E o que é então? Khlestakóv Só o diabo é que sabe o que é isto.) Ai.) Não tem mais nada? O Criado Não. E os dentes até ficam escuros com uma coisa dessas. Deixa aí. não quer. Não quero essa sopa. leva os pratos.Khlestakóv Seu porco! E como pode: eles comem e eu não? Por que. Nem dá para tirar. (O Criado tira a mesa e.) Santo Deus! Mas que sopa! (Continua a comer. quer. tá bom.) Está bem.. ai! Mas que galinha é essa? Me dá aqui o assado! Sobrou um pouco de sopa.

Se for por bem.) Meus respeitos!. A . o prefeito e Dóbtchinski. Prefeito Desculpe.) Não sei por que chegou aí o prefeito pedindo informações e perguntando pelo senhor. braços em posição de sentido.) Cena 8 Khlestakóv. parece que não comi nada! Aumentou ainda mais a vontade de comer... não quero.... não. Prefeito É meu dever. Khlestakóv (Gagueja um pouco.. depois. não.. mandava já comprar um pão-doce no mercado. Khlestakóv (Assustado... Se pelo menos eu tivesse um trocado..” (A maçaneta da porta se move. olham apavorados um para o outro por alguns minutos.. e eu. Ambos. Óssip (Entra. Khlestakóv Sério mesmo. Khlestakóv Não há de quê.Khlestakóv e. de olhos arregalados. Não.. e depois fala em voz alta.) Saudações respeitosas! Khlestakóv (Saudando. Ossip. cuidar para que os viajantes e todas as pessoas de bem não tenham nenhum aborrecimento. me jogarem na cadeia? Não faz mal.) Mas o que fazer?. já dei uma de gostosão e dei uma piscadinha para a filha de um negociante. Khlestakóv empalidece e se encolhe. Prefeito (Recompondo-se um pouco. ainda. não quero. Esta cidade está cheia de oficiais e de gente. ainda por cima. não sei por quê. assim.) Eu vou dizer bem na cara dele: “Como ousa. O prefeito entra e fica parado. de início. como cidadão responsável que zela por esta cidade.. eu.. Mas quem ele pensa que é? Que arrogância! Pensa que sou um negociante ou um artesão qualquer? (Cria coragem e se levanta. como.) Ainda mais essa! Só falta esse infeliz do patrão ter se queixado de mim! E se eles.

assustado. Mas com que direito? Como se atreve? Pois saiba que eu. Prefeito (Tremendo. tente compreender.) E. foi por falta de experiência. então. Juro que vou pagar.) Mas eu não sei por que o senhor está me falando desses malvados ou da viúva do suboficial. eu sou um alto funcionário de São Petersburgo. filhos pequenos. tudo bem.) Pelo amor de Deus. Prefeito (A parte. eu não quero! Onde é que já se viu uma coisa dessas! Só porque o senhor tem mulher e filhos. (Bate com os punhos na mesa.. A situação é precária. Aqueles malditos negociantes contaram tudo. . Não tenho a menor ideia de onde vem essa tal carne. então.culpa não é minha. Vão me enviar lá da minha casa. um cortezinho para uma roupa. (Cria coragem.. assim. A sopa.. por acaso. foi uma ninharia: uma coisinha à toa para comer. falta de experiência. eu não irei! Vou diretamente ao ministro. gente que não bebe. mas a mini o senhor não vai açoitar. não acabe com a vida de um homem. Mas se alguma coisa está.. Sempre tenho carne boa no mercado.) Eu. Tive que jogar pela janela. mas a culpa também não é minha. nem o diabo sabe o que tem dentro. de boa conduta. tremendo da cabeça aos pés.. coisa esquisita: tem cheiro de peixe. Vou pagar tudo.) Ai.. mesmo que venha com todo o seu regimento. E quanto à viúva do suboficial. não me desgrace! Tenho mulher. Não quero. A carne que me dá é dura como pedra.) Ora. como é severo! Já está sabendo de tudo. não. não quero..) Quem o senhor pensa que é? Prefeito (Perfila-se. esconde-se. Permita que o convide a ir comigo para outro domicílio. A mulher do suboficial. eu tenho que ir para a cadeia? Essa é muito boa! (Bóbtchinski espia pela porta e.... (Pensativo... Mas. Essa é boa! E por que eu deveria. Tudo invenção daqueles malvados. é tudo calúnia.. no momento. muito obrigado. Khlestakóv Não. A verba não dá nem para o chá e para o açúcar. é calúnia. (Bóbtchinski mostra a cara na porta.) O senhor me perdoe. Khlestakóv E daí? Não tenho nada a ver com isso. porque não tenho um tostão. eu. meu Deus. não senhor! Já se viu uma coisa dessas.. Os negociantes de Kholmogóry é que trazem..) Ele é que é o culpado.. Khlestakóv (Com mais coragem. então. não tenho como. Sei muito bem o que significa outro domicílio: quer dizer cadeia. Ele me faz passar fome durante dias. eu... Por favor. E se. houve subornos. ora bolas? Eu vou pagar...) Por piedade. Khlestakóv Não. essa gente que quer atentar contra a minha vida. pelo amor de Deus. olhe aqui. aquela que faz negócios escusos e a quem eu teria mandado espancar. E o chá. Prefeito (Intimidado. É justamente por isso que estou aqui.

Sem o senhor.) Prefeito (À parte.. Meu dever é ajudar os nossos visitantes. francamente. Agora sim. Prefeito (Aparte. Está bem. até menos. Khlestakóv Óssip! (Óssip entra. Prefeito (Entregando o dinheiro. O que tiver que ser será.) Se o senhor realmente está precisando de dinheiro ou de qualquer outra coisa. Khlestakóv Eu também estou muito feliz.) Ora. mas confesso que cheguei a pensar que os senhores tinham vindo aqui para me. não me venha com essa! Não tinha ideia como pagar! (Em voz . Agora sim. estou inteiramente às suas ordens.Prefeito (À parte. posso ver como o senhor é cordial e sincero.) Mas por que estão em pé? Tenham a bondade de sentar-se. vamos tentar. eu aqui com Piótr Ivánovitch Dóbtchinski. quero que cada mortal receba boa acolhida.) Mas que situação danada! Como se vira bem! Que embrulhão! A gente não sabe nem de que lado pegar. basta arriscar. Vou lhe devolver logo que chegar em casa. (Em voz alta. Khlestakóv Façam-me o favor. Eu não. eu iria ficar aqui um tempão: não teria a menor ideia de como pagar a conta.) Muito agradecido. assim. é outra coisa. Vejo que o senhor é um homem de bem. sentem-se.) Sente-se. proprietário de terras local.. Prefeito Não se preocupe. Ele quer se passar por incógnito. Prefeito (À parte. vou me fazer de bobo: vou fazer de conta que não sei quem ele é. e mais ainda por amor cristão à humanidade. Não preciso mais do que uns duzentos rublos. e passamos no hotel. Khlestakóv (Pegando o dinheiro. (Em voz alta. não vou demorar muito. para saber se os viajantes estavam sendo bem tratados.) Ai. eu. (A Dóbtchinski.) Nós estávamos dando uma volta. graças a Deus! Aceitou o dinheiro.) Duzentos certinhos. Bóbtchinski espia pela porta e tenta ouvir. Pois não sou como outros prefeitos que não se importam com nada. nem precisa contar. assim de propósito. por favor. Seja o que Deus quiser.. Khlestakóv Quero sim. por ossos do ofício.) Mande vir aqui o criado da hospedaria.) Sente-se! (O prefeito e Dóbtchinski sentam-se.. Temos a honra de ficar em pé. quero sim um empréstimo e vou acertar agora mesmo a conta com o patrão. dei-lhe quatrocentos. (Ao prefeito e a Dóbtchinski. além do dever. E eis que o acaso me recompensou com esse encontro tão agradável.) É preciso ser mais atrevido. (A Dóbtchinski. A coisa agora vai melhorar. Em vez de duzentos.

Prefeito (À parte. Sabe.) E o senhor pensa em viajar por muito tempo? Khlestakóv Para ser franco. até agora. O proprietário tem o hábito de não fornecer as velas. a demora dos cavalos é uma coisa bem desagradável. nem bem a gente chega lá. Prefeito (À parte. é uma distração para o espírito.. muito escuro. Um filho-da-mãe. O que é que se pode fazer neste fim de mundo? Veja só o que acontece aqui: à noite a gente não dorme. sofrendo por causa de quem? Por causa desses percevejos imprestáveis que nem deveriam ter nascido. eu poderia esmagá-lo com um dedo. Prefeito (À parte. Pelo visto este quarto também é escuro. não posso . ler um pouquinho. pretende o senhor se dirigir? Khlestakóv Vou para a província de Sarátov. para as minhas propriedades. não fiz carreira em Petersburgo.) Acho que este quarto é um pouco úmido. não? Khlestakóv E um quarto deplorável. com expressão irónica.) Mas olhem só como ele dá bolas à imaginação. Mas veja. dizem que. Por que raios eu devo acabar com a minha vida no meio de mujiques? Agora minhas aspirações são outras.) O senhor notou com muita justeza. por outro lado. já nos dão uma medalha de condecoração. não? Khlestakóv Não. Agora inventou essa história do velho pai! (Em voz alta. é meu pai que me obriga a voltar. Espera aí que você não me escapa. tudo pelo bem da pátria. Um velho de cabeça dura. Mas. com relação às estradas. . Minha alma anseia por ilustração. Às vezes. para onde. O velho está zangado porque. o senhor está viajando por puro prazer. mas não cai! E que sujeitinho sem-graça. Vou logo dizer a ele: queira o senhor ou não. para que lugares. balança. Eu queria só ver se fosse ele zanzando pelas repartições. um nada de nada. hein? Está bem! E nem fica vermelho! Com esse aí a gente tem que ficar de orelha em pé! (Em voz alta. não? Khlestakóv É sim.) O bom Deus o proteja no caminho de volta.. não posso viver em Petersburgo.) Mas que enrolador! Balança. e tem cada percevejo que nunca vi igual: mordem como cachorros. sem poupar esforços. se por um lado. Prefeito Não me diga isso! Um hóspede tão instruído. mas sabe-se lá quando virá a recompensa.alta. ou a fantasia quer escrever alguma coisa. ao que parece. Vou obrigá-lo a contar tudo! (Em voz alta. Ele acha que. é muito escuro. a gente quer fazer alguma coisa. meu pai é tolo e teimoso.é escuro.) Se me permite perguntar. (Passa os olhos pelo quarto. não sei.) Província de Sarátov.

Não tenho esse vício. tranquilo. eu não sou digno. . Prefeito Se me atrevesse. Cena 9 Os mesmos e o Criado. Khlestakóv E por que não? Com imenso prazer. confesso que não exijo nada.. Juro por Deus. iluminado. De minha parte. então. acompanhado de Óssip. ofereço de coração. Falo de todo o coração. a não ser lealdade e respeito. Ficarei muito mais satisfeito numa casa particular do que nesta bodega. Em minha casa. Mas não. Criado O senhor chamou? Khlestakóv Chamei.. não! Não sou digno. sinto que isso já seria uma honra demasiada para mim. Aprecio muito sua franqueza e hospitalidade.. Não se zangue. Khlestakóv Muito obrigado. respeito e lealdade. Prefeito Eu é que vou ficar contente! E minha mulher.. Bóbtchinski espia pela porta.. como ficará feliz! Eu sou assim: hospitaleiro desde criança. Eu também não gosto de gente de duas caras. Não pense o senhor que falo isso para adulá-lo. sobretudo quando o hóspede é uma pessoa culta. há para o senhor um quarto maravilhoso.. Khlestakóv Mas o quê? Prefeito Não.Prefeito Será que posso tomar a liberdade de lhe pedir. Traga a conta. não. não sou digno! Khlestakóv Mas diga lá...

) Fora! Vão pagar.. Khlestakóv Por que não? Por que não? Prefeito E depois. ele vai esperar. Khlestakóv . estou à sua disposição. Khlestakóv Idiota! Agora vai ficar fazendo continhas. não se preocupe. (Bóbtchinski enfia a cabeça pela porta.Criado Não faz muito tempo trouxe para o senhor uma conta. Bóbtchimki espia pela porta. para os viajantes talvez fosse. logo depois poderá ver a escola e a disciplina no ensino de nossas ciências. se for de sua vontade. o senhor pediu o almoço. Quanto é tudo? Prefeito Por favor. (Guarda o dinheiro. Khlestakóv.) Prefeito E também. por exemplo. podemos dar uma passadinha na casa de detenção e nas prisões da cidade para que veja como tratamos os criminosos. como está tudo em ordem. Prefeito O senhor não gostaria agora de visitar algumas instituições de nossa cidade. Khlestakóv Com todo prazer. no dia seguin-te... Khlestakóv Não me lembro mais de suas contas idiotas.. assim está bom. se o senhor assim desejar.) Cena 10 O prefeito. Khlestakóv Isso mesmo. Dóbtchinski. Fale logo: quanto é que eu devo? Criado No primeiro dia.. como.) (O Criado sai. salmão e daí em diante comeu fiado. (Ao Criado.. a assistência social e outras? Khlestakóv Mas para quê? Prefeito Para que o senhor veja como andam as coisas.

mas papel. fala para si mesmo. Prefeito Como quiser. não foi nada. Tenha a bondade. Prefeito (Fazendo um sinal de desaprovação a Bóbtchinski. vou escrever aqui mesmo.) . Bóbtchinski se levanta. com Bóbtchinski atrás dele. que se dirige à porta.) Escute aqui: corra a todo vapor e leve esses dois bilhetes: um para Zernlianíka. Prefeito (Para Dóbtchinski. (Dá passagem a Khlestakóv e o segue. O que o senhor prefere.. leve tudo à minha casa. mas é capaz de derrubar um elefante. em sua presença. sei lá. (A Óssip. Piótr Ivánovitch. a porta cai sobre o palco e sobre ela Bóbtchinski. na assistência social. e o outro para minha mulher. Nada que me tire do sério. Só vou ganhar um bom remendo bem aqui. é melhor passarmos só pela assistência social.) Bem. duas palavrinhas para que minha mulher se prepare para receber tão honorável visitante? Khlestakóv Mas para quê? Bem. dou um jeito.) Permita-me escrever.) Khlestakóv E então? Não se machucou? Dóbtchinski Não foi nada. a tinta está aqui. (Acaba de escrever. (Enquanto escreve.) (Cai o pano. mas. ir com sua própria carruagem ou com a minha? Khlestakóv Prefiro ir com o senhor. onde começa o nariz! Vou dar uma passadinha em Khristian Ivánovitch.) E você! Não tinha outro lugar para cair! Se esborrachou feito um diabo no chão! (Sai. mas volta-se para Bóbtchinski e o repreende. Ele tem um bendito emplastro que logo vai me deixar bom.. (A Khlestakóv. Só quero saber quem ele é e até que ponto devo me preocupar.) Então vamos ver como a coisa vai rolar depois de uma boa bóia e de uma boa garrafa! E temos um bom Madeira daqui mesmo: a gente não dá nada por ele. entrega a Dóbtchinski. Todos soltam exclamações. se desejar. A Khlestakóv.) Meu querido. Que tal escrever nesta conta mesmo? Prefeito Pois não. por favor! Vou dizer ao seu criado que leve sua mala. agora não sobrou lugar para você. Dóbtchinski Não tem importância.Prisões? Mas para quê? Não. Tenha a bondade. nesse momento. à casa do prefeito.) Não é nada. Todo mundo sabe onde é. Prefeito (Em voz baixa para Dóbtchinski. que esta escutando por detrás.

Cena 1 Ana Andréievna e Mária Antónovna estão junto à janela. você aí. Que moleza!. Mas quem será? É mesmo uma chateação! Quem é que pode ser? Mária Antónovna É Dóbtchinski.) Ah! Mãezinha. Avdótia deve chegar logo. mãezinha. querida mãe. que nada! Você está sempre imaginando coisas! Não é Dóbtchinski de jeito nenhum! ‘Acena com o lenço. logo. as duas na mesma pose de antes. Pois é verdade! Quem será? Baixinho. Como se não houvesse mais ninguém na face da Terra. já faz uma hora que estamos esperando e você fazendo fita: já está pronta e ainda fica fazendo hora. mãezinha! Vem vindo alguém lá no final da rua. (Olha pela janela e exclama. depressa! Mária Antónovna E Dóbtchinski. só pra me contrariar! Já falei que não é Dóbtchinski? Mária Antónovna .. Não deveria ter dado ouvidos a ela. de fraque.) Ei.Ato 3 O mesmo cenário do Ato 1. Ana Andréivna Mas que coisa! Faz de propósito. dentro de uns minutinhos vamos ficar sabendo de tudo. Ana Andréivna Mas onde? Você sempre com suas fantasias. venha aqui. Que droga! Não tem viva alma! Até parece de propósito. Mária Antónovna Calma. sim.... minha mãe! Ana Andréivna Mas que Dóbtchinski.. Ana Andréivna Veja só..

Não falei, não falei, mãe? Viu como é Dóbtchinski? Ana Andréivna Ah! Agora vejo, é Dóbtchinski sim! E daí? E por que é que você tem sempre que teimar comigo? (Grita pela janela.) Depressa! Depressa! Como anda devagar! E então, onde eles estão? Vai logo, fala daí mesmo, tanto fax. Hein? Ë muito severo? O quê? E o meu marido? Como está meu marido? (Afasta-se um pouco da janela, aborrecida.) Mas que imbecil, não conta nada até chegar aqui!

Cena 2
As mesmas e Dóbtchinski.
Ana Andréievna Agora fale, faça-me o favor! Não tem vergonha? E eu, que confiava só em você, achando que você era honesto! E, de repente, todos desapareceram, e o senhor com eles! E eu até agora não sei nada de nada! Não tem vergonha? Eu que sou madrinha de seu Vânia e de sua Lisa, e o senhor me apronta uma dessas! Dóbtchinski Palavra de honra, comadre. Corri tanto para render-lhe minhas homenagens que nem tenho mais fôlego. Minhas homenagens, Mária Antónovna! Mária Antónovna Meus cumprimentos, Piótr Ivánovitch! Ana Andréievna E então? Agora me conte: o que se passa? Dóbtchinski Antón Antónovitch mandou-lhe um bilhetinho. Ana Andréievna Está bem, está bem. Mas, enfim, quem é ele? Um general? Dóbtchinski Não, não é general, mas fica nada a dever a um general, tal a sua educação, e que finura! Mária Antónovna Ah! Então é o mesmo sobre o qual escreveram ao meu marido? Dóbtchinski O próprio. Fui o primeiro a descobrir com Piótr Ivánovitch. Ana Andréievna Então, conte tudo, tudo. Dóbtchinski Graças a Deus, tudo em ordem. A princípio, ele recebeu Antón Antónovitch com certa aspereza. É, sim senhora. Ficou zangado e disse que no hotel tudo estava

mal, que não iria se hospedar na casa dele e que não queria ser preso por causa disso. Mas, depois, quando percebeu a generosidade de Antón Antónovitch e conversou um pouco melhor com ele, a sua cabeça virou e, graças a Deus, tudo começou a correr bem. Agora foram visitar as instituições da assistência social... Para dizer a verdade, Antón Antónovitch chegou a pensar em alguma denúncia secreta e até eu fiquei assim com medo. Ana Andréievna Mas assustado por quê? O senhor não é funcionário público! Dóbtchinski A senhora sabe, quando um homem importante fala, a gente morre de medo. Ana Andréievna Mas o que é isso? Bobagem sua! Conte, conte tudo. Como ele é? Velho ou moço? Dóbtchinski Moço, bem moço: uns vinte e três anos, mas fala como um velho: “Por que não”, ele diz, “vou com os senhores num e noutro lugar?”... (Agita as mãos.) Tão simpático! “Gosto”, diz ele, “de ler e escrever um pouquinho, mas este quarto não ajuda nada, é um tanto escuro.” Ana Andréievna E como ele é? Loiro ou moreno? Dóbtchinski Mais para o castanho e os olhos, então, tão agitados, parecem bichinhos. Chegam a nos perturbar. Ana Andréievna O que está escrito aqui no bilhete? (Lê.) “Apresso-me a informá-la, coração, que a minha situação era lamentável, mas, graças à misericórdia divina, dois pepinos salgados e meia porção de caviar, por um rublo e vite e cinco copeques...” (Interrompe.) Não estou entendendo nada. Que história é essa de pepinos e caviar? Dóbtchinski Ah! É que Antón Antónovitch escreveu rapidinho, num papel qualquer, sobre uma conta do hotel. Ana Andréievna Ah! Então é isso. (Continua lendo.) “Mas, graças à misericórdia divina, parece que, no final, tudo vai dar certo. Prepare depressa um quarto para o ilustre hóspede, aquele forrado com pedacinhos de papel amarelo. Quanto ao almoço, não se preocupe com nada especial, pois vamos comer alguma coisa lá na assitência social com Artémi Filípovitch. Agora, vinho sim, muito vinho. Diga ao negociante Abdúlin para mandar o que tiver de melhor, senão vou eu mesmo lá fuçar na adega dele. Beijo suas mãos, meu coração, do sempre seu, Antón Skvozník-Dmukhanóvski...” Ai, santo Deus! E preciso andar depressa! Ei, tem alguém aí? Michka! Dóbtchinski (Corre até a porta e grita.) Michka! Michka! Michka! (Entra Michka.) Ana Andréievna

Escute aqui: vá depressa até o negociante Abdúlin... espere aí, vou escrever um bilhetinho. (Senta-se à mesa, escreve um bilhete e, enquanto isso, continua falando.) Entrege este bilhete ao cocheiro Sídor para que ele o leve correndo a Abdúlin e traga, de lá, o vinho. E venha já arrumar o quarto de hóspede bem arrumadinho. Ponha lá a cama, o lavatório e tudo o mais... Dóbtchinski Está bem, Ana Andréievna. Agora vou correndo ver como é que o inspetor inspeciona. Ana Andréievna Vá, vá, ninguém o está segurando!

Cena 3
Ana Andréievna e Mária Antónovna.
Ana Andréivna Bem, Máchenka, agora precisamos cuidar da toilete. E jóia da capital. Deus nos livre se ele achar alguma coisa ridícula em nós. O que fica mais decente em você é aquele vestido azul com babadinhos. Mária Antónovna Ah!, não, mãezinha, o azul não! Não gosto nada dele. A filha de Liápkin-Tiápkin está sempre de azul e a filha de Zemlianíka também. É melhor eu vestir o estampado. Ana Andréivna O estampado!... Só para me contrariar. O outro vai ficar muito melhor, agora eu quero botar o vestido cor de palha. Adoro o cor de palha. Mária Antónovna Ah!, mãezinha, mas a senhora não fica bem de cor de palha. Ana Andréivna Como não fico bem? Mária Antónovna Não fica. Aposto o que quiser, não fica bem. Para usá-lo, é preciso ter olhos bem escuros. Ana Andréivna Era só o que faltava! E por acaso não tenho olhos escuros? O mais escuro possível. Cada absurdo! Como é que não são escuros se, quando tiro a sorte nas cartas, sempre me vejo na dama de paus? Mária Antónovna Ah!, mãezinha, a senhora está mais para dama de copas. Ana Andréivna

Que bobagens, só bobagens! Que dama de copas qual nada. (Sai, apressada, com Mária Antónovna e fala atrás do palco.) Agora essa, imagine só, dama de copas! Só porque você quer! (Depois que elas saem, abrem-se as portas e aparece Michka varrendo a sujeira para fora. De outra porta, sai Óssip com uma mala na cabeça.)

Cena 4
Michka e Óssip.
Óssip Para onde vou agora? Michka Por aqui, por aqui, amigo. Óssip Espere aí. Deixe-me respirar um pouco. Ah!, que vida desgraçada! Com a barriga vazia, qualquer coisa parece pesada. Michka Diga, amigo: o general vem logo? Óssip Que general? Michka Seu patrão, ora essa! Óssip Meu patrão? Mas que general que nada! Michka Então não é general? Óssip General, sim, de meia-tigela. Michka Mas isso é mais ou menos general de verdade? Óssip Mais. Michka Que coisa! É por isso que armaram toda essa confusão. Óssip Escute aqui, meu querido: vejo que você é um rapaz bem esperto. Veja se prepara alguma coisa pra gente comer! Michka Para o senhor, meu amigo, ainda não tem nada preparado. O senhor não vai querer comer qualquer coisa, vai? Mas deixa o seu patrão sentar pra comer; aí,

sim, vai ver que refeição vai ter para o senhor também. Óssip Bem, mas o que você tem? Como qualquer coisa. Michka Sopa, mingau e pastéis. Óssip Então me dá logo tudo, sopa, mingau e pastéis! Não se preocupe: como de tudo. Bem, vamos levar a mala! Há outra saída por aqui? Michka Há sim. (Ambos levam a mala. para o quarto ao lado.)

Cena 5
Dois soldados abrem as duas folhas da porta principal. Entram Khlestakóv, atrás dele o prefeito, depois o encarregado da assistência social, o inspetor de escolas, Dóbtchinski e Bóbtchinski com um emplastro no nariz; o prefeito mostra aos soldados um papel que está no chão. Eles correm para apanhá-lo, chocando-se na pressa.
Khlestakóv Que belas instituições! Fico contente que os senhores mostrem aos viajantes tudo o que a cidade possui. Não me mostraram nada nas outras cidades. Prefeito Nas outras cidades, se o senhor me permite dizê-lo, os dirigentes e funcionários, por assim dizer, pensam apenas em tirar vantagem de tudo. Mas aqui, não; em princípio, não temos outra aspiração que não, com devoção e zelo, ganhar a estima de nossos superiores. Khlestakóv O almoço estave excelente: comi até não poder mais. Aqui se come assim todos os dias? Prefeito Foi exclusivo para tão honrado hóspede. Khlestakóv Eu gosto de comer. Afinal, para que é que a gente vive? Para colher as flores do prazer. Como se chama mesmo aquele peixe? Artémi Filípovitch (Aproxima-se, correndo.) Bacalhau, senhor. Khlestakóv

sim. muito bom mesmo. senhor..isso talvez lhe pareça incrível -. fiz uma casinha de cartas de baralho e depois sonhei a noite toda com as ditas-cujas.” Se serei recompensado ou não. o homem mais inteligente se veria em apuros. não quero mesmo. se. Também não posso ficar indiferente diante delas. graças a Deus. confesso que também gosto de ficar matutando: às vezes. não? Artémi Filípovitch Exatamente. a gente. mas. Artémi Filípovitch Sobraram mais ou menos uns dez. vê-se logo que tem muita instrução.. no hospital. Prefeito E. Piótr Ivánovitch. mas. O doente nem bem entra no hospital já fica bom. diante da virtude. jogar cartas? Prefeito (À parte. um reparo acolá. fica pensando: “Queira Deus que tudo seja feito para que os superiores reconheçam o meu zelo e fiquem satisfeitos. fico com tamanho nojo que até tenho vontade de cuspir. o que se pode querer mais? Palavra de honra. se contentaria apenas em agir em proveito próprio. as ruas varridas. sei bem aonde você quer chegar! (Em voz alta. Certa vez. . Bóbtchinski (Para Dóbtchinski. todos ficam logo curados como moscas. mas. assim por exemplo.. Quantos problemas diferentes. Numa palavra. Tinha um monte de camas lá. até me lanço em versinhos. Claro que são sedutoras. Khlestakóv Por favor. pelo menos. tudo isso são cinzas e vaidades. a ordem é essa.) Mas que malandrão. Artémi Filípovitch (À parte. um concerto ali. todo esse quebra-cabeça é de responsabilidade do prefeito. Os outros todos ficaram bons. é claro.. só Deus sabe.. mas sim pela honestidade e pela ordem.) Ah.. por acaso. tudo corre na santa paz. meu queridinho.. Khlestakóv Ah. E onde foi mesmo que nós almoçamos.. sararam? Achei que não havia muitos. Quando tudo está em ordem na cidade. apenas para divertir as crianças. até mesmo quando vai para cama dormir. Um outro prefeito. Eu nunca tive uma carta nas mãos e muito menos sei como se jogam cartas. Que observações. mas. E os doentes. será que poderiam me dizer se vocês não têm por aqui algum entretenimento. Nossa organização funciona assim. se me permite dizer-lhe. como enrola! Que dom Deus lhe deu! Khlestakóv E verdade.) Deus nos livre e guarde! Aqui não temos a menor ideia desse tipo de sociedade. E não é tanto por causa dos remédios. as honrarias.. os presos em boas condições e há poucos bêbados.. assim. agora me lembro. outras. é a limpeza aqui.Muito saboroso. na assistência social. uma boa sociedade onde se possam.) Que bom. vejo algum rei de ouros ou outra coisa qualquer. Desde que fui nomeado para esse cargo . pode acreditar. tenho a consciência tranquila. prosa.

veja bem.. como se pode matar o nosso precioso tempo com isso? Luká Lukítch (À parte. é claro que. por exemplo. Não.. Cena 6 Os mesmos. também não é assim. comprenez vous. Faça o favor de sentar-se. Tudo depende do ponto de vista de que a gente olha pra coisa.) Imagine.. (Lança um olhar para Ana Andréievna e se exibe diante dela. Ana Andréivna O prazer é todo nosso de ter entre nós personalidade de tal ordem. Se.) me recompensou de tudo. Khlestakóv (Afetado. ao seu lado. mas jogar às vezes é bem sedutor. Ana Andréivna Não diga isso! O senhor tem demasiada gentileza de falar assim só por cortesia. o meu prazer é maior ainda.. você deixa de dobrar a aposta em vez de triplicar. se o seu desejo é mesmo inevitável..Que Deus nos livre. Khlestakóv Estar de pé a seu lado já é uma felicidade.. Como estou feliz de me sentar. Mas. mas não me atrevo a crer que esteja falando sério.) Quão feliz estou. esta voyage seja muito desagradável para o senhor. Ana Andréivna Queira desculpar-me. se não fosse. aí. Khlestakóv Bem.) E esse bandido me levou ontem cem rublos. Prefeito É bem melhor dedicar nosso tempo em favor do Estado.. e. depois da capital. Prefeito Tomo a liberdade de apresentar-lhe minha família: minha esposa e minha filha. deter o prazer sui generis de conhecê-la. minha cara senhora. de repente.. Ana Andréievna e Mária Antónovna. muito pelo contrário. o acaso que me. minha senhora. me desculpem. Mas.. enfim. Estou acostumado a viver em sociedade. as trevas da ignorância. vou me sentar. Khlestakóv (Faz reverência.. tenho que pôr o pé na estrada: hospedarias imundas. Ana Andréivna ... confesso. Khlestakóv Extremamente desagradável.. Imagino que.

Ana Andréivna Ah! Não me diga! Khlestakóv Também conheço atrizes lindíssimas. pensei. Mas é claro. eu até faço todo o esforço para não ser notado. não. Ele me dá uns tapinhas no ombro: “Venha almoçar comigo. aquela ratazana. pra quê? E o contínuo corre sempre atrás de mim pelas escadas com uma escova: “Com licença. senhores? Tenham a bondade de sentar-se. meu irmão..) Não gosto de cerimónias.. Luká Lukítch Não se preocupe. Os soldados saíram correndo dos quartéis e se perfilaram diante de mim. um oficial que é muito meu amigo me disse: “Pois é. Artémi Filípovitch Estamos bem em pé. (Todos ao mesmo tempo. pega a pena e se põe a escrever tr. Ana Andréivna Vivo no campo.) Mas por que estão em pé. Sempre me ... diz ele. devo ficar em pé. Ivan Aleksándrovitch. meu velho!” Dou uma passadinha de dois minutos na repartição só para dizer: “Isto tem que ser assim. senhora. também tem suas colinas.. por favor. isto tem que ser assado!” E. logo. Depois. Eles até queriam me nomear assessor de colegiatura. Khlestakóv Vamos esquecer a hierarquia. vou engraxar suas botas”..) Prefeito Com um status como o meu. até me tomaram pelo comandante-chefe. tudo me agrada. é Ivan Aleksándrovitch!” Certa vez. tr. Ao contrário. Khlestakóv E verdade. já começam a falar: “Olha quem vai lá. minha senhora. minha senhora. o chefe da seção é assim comigo. Até alguns vaudevillezinhos. tomamos você pelo comandante-chefe”.. neste exato minuto. seus riachos. um funcionário. Mas é absolutamente impossível a gente se esconder. sentem-se. simplesmente impossível.. Ë só eu sair para ir a qualquer lugar e pronto. Khlestakóv Mas. (Ao prefeito.Realmente. mas. Khlestakóv Como. pelo menos agora.. mas o campo. não se pode compará-lo a Petersburgo! Ah! Petersburgo! Aquilo sim que é vida! Talvez a senhora imagine que eu seja um simples escrevente. como deve ter sido desagradável. (O prefeito e todos os outros se sentam. não merece? Claro que merece. pensando bem. Ana Andréivna Mas o que é isso? O senhor me faz tantas honrarias! Não mereço tanto..

† O Telégrafo de Moscou. Ana Andréivna Quer dizer que o senhor também escreve? Como deve ser agradável! Certamente também publica nas revistas? Khlestakóv Claro. ‡ O Telégrafo de Moscou: revista progressista editada por N. E tudo assim. escritor. jornalista. mano” . Roberto. é isso mesmo. participante da rebelião contra o czar Nicolau I. Sempre digo a ele: “E aí. Tenho uma cabeça ágil como o vento.” Muito original. meu caro. meu amigo!” E acho ainda que escrevi tudo numa noite só e deixei todos maravilhados. nas revistas também. mas há um outro Iúrí Misloslávski que é meu. obra minha. escreva alguma coisa. certamente. Bestujev (1797-1837). Norma. Khlestakóv Ah! sim. mamãe.às vezes responde -. Púchkin é meu amigo do peito.‡ fui eu que escrevi tudo isso. Aliás. mas a direção do teatro me pediu: “Por favor. como vai?” . I. A. Smírdin* me paga por isso quarenta mil rublos. Khlestakóv Sim senhora. ocorrida em dezembro de 1825. . há muita coisa minha escrita. como que por acaso: eu nem queria escrever. Tudo que apareceu sob o nome do barão Brambeus. Mária Antónovna Mas. o diabo.* A fragata esperança. * Barão Brambeus: pseudónimo de O. Ana Andréivna Então quer dizer que Brambeus é o senhor? Khlestakóv Perfeitamente. pseudónimo do dezembrista A. Ana Andréivna Logo adivinhei. † A fragata esperança: novela de Marlínski.“Vamos levando.. É de Zagóskin. Polevy a partir de 1825 e fechada em 1834 por decreto de Nicolau I. e muito conhecido nos anos 30-40 do século XIX. A. As bodas de Fígaro. redator da revista Biblioteca para leitura. quer dizer. De fato. E também corrijo os artigos de todo mundo. Iúrí Miloslávski ** também é obra sua. Senkovski.. Pensei comigo mesmo: “Por que não? Toma lá. Ana Andréivna Então.encontro com literatos. Até nem me lembro mais dos nomes. “vamos indo. vai”. meu irmão. lá está escrito que é do senhor Zagóskin. Ana Andréivna Outra vez! Sabia que você iria teimar comigo de novo.

. só o diabo é que sabe.. publicado em 1829 e que. também dou bailes. Sabem. mas olhando bem.* A. Imaginem. olha lá! Estou por dentro de tudo. A gente levanta a tampa e sente um tal cheiro. fiquei um pouco constrangido.era aquele terremoto. “Então vá lá”. mas vou logo avisando. começou um “diz-que-diz-que” como? o quê? quem vai ocupar o lugar? -. o embaixador alemão e eu. vão ver só. (Voltando-se a todos. digo.. ninguém sabia. impossível de se encontrar igual na natureza. (O prefeito e os outros erguem-se de suas cadeiras atemorizados. mal consigo dizer à cozinheira: “Mávruchka. se forem a Petersburgo. Khlestakóv se inflama ainda mais. Em Petersburgo. aceito”. e vem de navio. A sopa.. Zagóskin. até cheguei a dirigir uma repartição.. meus senhores. o embaixador francês. . li n tão. trinta e cinco mil só de mensageiros! Como é que está indo a coisa. melão.) Até nas correspondências vem escrito: “Para sua excelência”. minha casa é de primeira. direto de Paris. As vezes também o ministro.. parece fácil. ** Iúrí Miloslávski: romance histórico de M. por favor. Condes e príncipes conversam e zumbem como abelhas e só se escuta zzz. por exemplo. mas pensei: “Isto vai acabar chegando aos ouvidos do soberano. mensageiros.. eu pergunto? “Ivan Aleksándrovitch. o meu capote. Certa vez... À primeira vista. Ana Andréivna Eu acho que li foi o seu. (O prefeito e os demais tremem de medo. Mas o mais interessante é dar uma olhada na minha ante-sala antes de me levantar. A gente joga até não poder mais. E no mesmo instante pelas ruas surgem mensageiros. E conhecida como a casa de Ivan Aleksándrovitch.para onde. Smirdín: livreiro muito conhecido de São Petersburgo e editor da revista Biblioteca para leitura. quis recusar. eles se dão conta. Como está bem escrito! Khlestakóv Confesso que vivo de literatura. zzzz. vá dirigir a repartição!” Para dizer a verdade.) Ah! Não! Brincadeira comigo não. mensageiros. Só a escada me custou. Passei um sabão em todo mundo! Até o Conselho de Estado tem medo de mim. “eu aceito. na época. naturalmente.. numa sopeira.. não têm saída e vêm para cima de mini. F. e também à minha folha de serviço. muitos generais apareceram e toparam a parada.” Ah! não! Que bobagem! Ksqueci que moro no primeiro.) Façamme a gentileza. senhores. E ao subir correndo as escadas de minha casa. Ana Andréivna Imagino com que bom gosto e que bailes maravilhosos devem ser! Khlestakóv A senhora nem queira imaginar. mas um melão que custa setecentos rublos.. vou logo dizendo a todo mundo: “Me conheço muito bem”.... digo.. Foi muito estranho: o diretor foi embora . aceito o cargo. mas a coisa não era nada fácil não. venham mesmo à minha casa.. Todos os dias vou a bailes.” E foi dito e feito: era só eu entrar na repartição . O que se pode fazer? Eu sou assim! Não poupo ninguém. fez muito sucesso. Todos se agitavam e tremiam como folhas. Recebi-os em robe de chambre. Está bem. Sirvo. no quarto andar. o embaixador inglês.. Lá a gente organiza também um bom whist: o ministro das Relações Exteriores. Aí.

.) Não estou entendendo nada. mas os funcionários o seguram com respeito. Bóbtchinski (Para Dóbtchinski. Piótr Ivánovitch. Isto é que significa ser homem! Nunca na vida estive diante de uma persona tão importante.) Mas vovo-vo-vo.. muito.. Estou satisfeito. Khlestakóv (Com a mesma voz. senhores. (Escorrega e por pouco não cai no chão. Khlestakóv Que absurdo! Descansar? Está bem. muito satisfeito. Quase morri de medo! O que você acha. Vou todos os dias ao palácio. Khlestakóv (Com voz rápida e cortando.. Prefeito Vo-vo-vo.) Isto é que é homem. Você escutou como tratou o Conselho de Estado? Vamos logo contar tudo a Amos Fiódorovitch e a Koróbkin.... Ana Andréievna. E se de fato for general. vossa excelência não ordenaria descansar um pouco? Ali está o quarto e tudo o mais que for preciso...Estou em toda parte. vo. no que diz respeito ao status? Dóbtchinski Acho que ele é quase general. bom mesmo. menos Khlestakóv e o prefeito. no mínimo é um generalíssimo.. Até logo. quem é ele. Dóbtchinski . seguido pelo prefeito.) Mas o que é isso agora? Prefeito Vo-vo-vo. em toda parte. Tudo isso é um absurdo.) Prefeito (Aproxima-se tremendo dos pés à cabeça e faz um esforço para falar.. E logo vou ser nomeado marech..) Cena 7 Os mesmos. Piótr Ivánovitch. Vou descansar. O almoço. (Declama.) Bacalhau! Bacalhau! (Entra no quarto ao lado. Bóbtchinski Eu já acho que um general não lhe chega nem aos pés.

não vive sem isso. Mária Antónovna Mas.) Que medo horrível! E a gente nem sabe por quê. Acho até que ele gostou bem de mim. depois. olhou outra vez. sempre quer discutir. depois de voltar a si ele mandar um relatório para Petersburgo? (Sai. pode até ser que uma vez ou outra. Notei que era olhos só para mim. (Ambos saem. Olhou quando começou a falar de literatura e...) Artémi Filípovitch (A Luká Lukítch. mãezinha. ainda por cima.) Adeus. Ana Andréivna Que homem agradável! Mária Antónovna Que encanto! Ana Andréivna Que maneiras refinadas! Vê-se logo que é jóia da capital. olhou o tempo todo. em companhia de Luká.Até logo. vamos dar uma olhadinha nela também!” . Quem você pensa que é para ele te olhar? E por que cargas d’água ele iria olhar para você? Mária Antónovna É verdade. minha senhora! Cena 8 Ana Andréievna e Mária Antónovna. assim só por olhar. E se. Perco completamente a cabeça. mamãe. Ah! Que maravilha! Adoro essa gente jovem. chega de tolices! Isso está fora de qualquer propósito. quando contou que jogou whist com os embaixadores. Ana Andréivna Bem. pensativo. é verdade mesmo! Ana Andréivna Lá vem ela de novo! Meu Deus. Mária Antónovna Ah! Mamãe. As atitudes e tudo. E nós nem estamos de uniforme. ele tenha pensado consigo mesmo: “Está bem. comadre. tudo o mais. ele olhou foi pra mim! Ana Andréivna Por favor.

. Você. Cena 10 Os mesmos e Óssip. Bem se vê que é jovem.. . mas esse aí. lá na hospedaria. como se fosse algum Dóbtchinski. Prefeito (Entra na ponta dos pés. Parece que estou a um passo do abismo ou da forca. Prefeito Ah! Vocês.. vestido com esse fraquezinho. Ana Andréivna Quanto a isso. quanto mais a gente pensa. só o diabo sabe o que passa pela cabeça. afinal. Eles devem estar aqui ao lado da entrada.) Cada uma que acontece agora no mundo! Ainda se fosse alguém de porte.. (Olha para a filha. E há pouco.. tantos rodeios. Até falou mais do que devia. Mas. não precisa se incomodar. Se fosse um militar. Seu status não me interessa nem um pouco. Mas. Até pensei que eu não conseguiria nada nem mesmo em um século.. Simplesmente vi nele um homem do mundo culto e de bom tom.) Psiu!. Ana Andréivna Pois eu não senti o menor temor. como se fez de durão! Despejava tantas alegorias.vai a gente saber quem ele é. Nós duas sabemos muito bem.. É claro que mentiu um pouco.) Michka! Vá chamar os soldados Svistunóv e Derjimórda. se pelo menos a metade do que ele disse é verdade? (Fica pensativo.. Todos correm ao seu encontro fazendo sinais. mulheres! Basta pronunciar essa palavra e pronto! Para vocês.) Para que perder tempo com vocês?.. mas o marido é que vai entrar bem.) Prefeito (Sozinho. da porta.) E por que não haveria de ser verdade? Um homem meio tocado sempre desabafa tudo.Cena 9 Os mesmos e o prefeito. sai pela língua. Tudo o que vai no coração. Psiu! Ana Andréivna O que é? Prefeito Não estou nada contente de ter lhe dado tanto de beber. Joga cartas com ministros e vai ao palácio.. entregou-se. coraçãozinho.. um magrinho. fininho . logo se veria. (Abre aporta e fala. mas não. deixam escapar uma ou outra tolicezinha e só vão se dar mal. Mas sem mentira não pode haver uma boa conversa. tudo é brincadeira! De repente. mais parece uma mosca de asas cortadas. (Depois de uma breve pausa.. se comportou com ele tão à vontade. Aí é que está. Mas que coisa! Até agora não consigo me recuperar do susto.

corno é que você se chama? Óssip Óssip. comeu bem? Óssip Muito bem. como seu patrão é atraente! Ana Andréievna Diga. Ana Andréievna Escute aqui. Ana Andréievna Agora me diga. Bem. Tudo tem que estar direito. ainda pode ser melhor. sim. meu caro! Prefeito Psiu! E aí? Ele já dormiu? Óssip Ainda não! Está se espreguiçando. vocês com essas perguntas estúpidas! Não me deixam falar de negócios.) Com certeza. Então. uai.. os condes também aparecem por lá.Ana Andréievna Venha cá.) O que dizer? Se a comida agora foi boa. minha senhora. já chega! (Para Óssip. como é o seu patrão? Duro? Gosta de passar sermão ou não? Óssip Gosta. imagino que são muitos os condes e os príncipes que visitam o seu patrão.) E então. meu amigo. Mária Antónovna Óssip. amigo. então. como é que ele. estou muito agradecido ao senhor.) Agora chega. Prefeito Ai. (Em voz alta. queridinho. Comi muito bem. Prefeito Agora chega. santo Deus. Prefeito (Para a mulher e a filha. de tudo em ordem.. por favor! Vocês me atrapalham com toda essa conversa idiota. Prefeito . depois. não? Óssip (À parte. Óssip. e então amigo? Ana Andréievna Qual status do seu patão? Óssip O dele.

Óssip. Prefeito Está bem. (A Óssip.. Você deve ser um bom sujeito.. Mas o que ele gosta mesmo é de ser bem recebido e que a comida seja boa. então esse anfitrião não presta. Óssip. deixem-me falar! (A Óssip. Pegue uns rublozinhos para um chá.penso comigo mesmo (Faz um gesto com a mão.. senhor! Que Deus o abençoe por ajudar um homem pobre.“Ah!.“deixa pra lá! Sou um homem simples”. Juro por Deus! Em qualquer lugar por onde passamos. excelência!” . eu também estou contente.Simpatizo muito com você. é sempre bom tomar mais uma xícara de chá.. ele pergunta: “E aí. Ana Andréievna Venha me ver. que narizinho bonitinho tem o seu patrão! Prefeito Esperem um pouco.. que não passo de um servo. Prefeito Comida boa? Óssip Isso mesmo. ele cuida muito bem. está bem. Trata-se da vida de um homem. E de mim também.) Muito obrigado. por favor. Mária Antónovna .. então agora dou-lhe para umas rosquinhas.) Então vou beber à sua saúde. Mas. amigo.) . gosto muito de você. Ana Andréievna Escute aqui.. Olhe. Lembre-me disso quando eu chegar” “Ah”. meu querido. Prefeito Está bem. está bem. Agora faz bastante frio. Ana Andréievna Escute aqui. meu amigo. lá o seu patrão usa uniforme? Prefeito Chega! Mas que matracas! Estamos falando de coisas sérias. que cor de olhos o seu patrão prefere? Mária Antónovna Óssip. bem. Óssip O que fiz para merecer. quer dizer.) É verdade. te acolheram bem?” “Muito mal.) Bem. aí depende. Quando se está em viagem. excelência? (Guarda o dinheiro.. amigo. então. o que mais o agrada quando viaja? Óssip Ele gosta. Óssip. comida boa. tem razão. e também vai ganhar. me responda o que mais chama a atenção do seu patrão. Óssip. .. Óssip (Pegando o dinheiro. Óssip. Dei-lhe um dinheirinho para o chá.

. Ana Andréievna Vamos. Prefeito Psiu! Mas que ursos desajeitados . é só pedir. fiquem aí na entrada e não saiam do lugar! E não deixem nenhum estranho passar. mas só podemos falar entre nós.. Derjimórda e Svistunóv. Se um único deles passar.) Cumprindo ordens! Parece rugir dentro de um barril! (Para Óssip.. principalmente comerciantes. Cena 11 Os mesmos.) Ato 4 . não façam barulho.. amigo. Prefeito Psiu! (Tapa-lhea boca. Máchenka! Vou dizer-lhe o que reparei em nosso hóspede.Óssip. se formos lá ouvir... mas alguém com cara de quem vai se queixar de mim. teremos que tapar os ouvidos. (Sai na ponta dos pés e atras dele os soldados.. ou mesmo sem petição alguma.) Estão entendendo? Psiu!.. Prefeito Lá vão elas fofocar.) Então. amigo. (A Óssip. Mas que diabo aconteceu com vocês? Derjimórda Cumprindo ordens. expulsem o dito-cujo e lhe dêem um belo pontapé! (Mostra com o pé.. vão ver só. meu querido.. vá lá ver tudo o que é necessário para o seu patrão.) E vocês.como batem essas botas! Entram de uma forma que parecem descarregar uma tonelada da carruagem. Acho que. já chega. O que não tiver na casa.) Prefeito Psiu! (Fica na ponta dos pés e fala em voz baixa. E se vocês perceberem alguém chegando com uma petição. Psiu!. Vão com Deus.) Pelo amor de Deus.. dê um beijo em seu patrão! (Ouve-se no outro quarto a tosse de Khlestakóv..) E você. (Óssip sai.) Corveja como um urubu (Imitando.

em círculo e na mais perfeita ordem! Santo Deus! Ele vai ao palácio e ainda por cima passa um sermão no Conselho de Estado! Sentido! Postura de militares. Amós Fiódorovitch .A mesma sala na casa do prefeito. Piótr Ivánovitch.) Artémi Filípovitch Como quiser. (Ambos os Piótrs Ivánovitchs correm. mas é preciso tomar alguma providência. quase na ponta dos pés. rápido.. fique deste outro lado. o senhor sabe o quê. Toda a cena se desenrola a meia-voz. deste lado. Amos Fiódorovitch. o senhor será o primeiro. Por que estamos nós aqui como um batalhão? A gente tem que se apresentar um de cada vez. em trajes de gala e uniformes. Amós Fiódorovitch (Reúne todos em semicírculo. Dóbtchinski e Bóbtchinski. tem que ser assim. Amós Fiódorovitch O quê. por exemplo? Artémi Filípovitch Ora. Luká Lukítch. Amós Fiódorovitch Adulá-lo? Artémi Filípovitch Isso mesmo. O senhor. um alto funcionário. tudo só entre quatro olhos e de tal forma que. o chefe dos correios. Artémi Filípovitch Olha lá se ele não vai é mandar o senhor pelo correio para algum lugar bem distante. Escutem aqui: não é assim que se fazem essas coisas em um Estado bem organizado. todos como militares. E será que não seria melhor na forma de um presente por parte da nobreza para a construção de algum monumento? Chefe dos Correios Ou então dizer assim: “Sabe. Amós Fiódorovitch. Piótr Ivánovitch. Amos Fiódorovitch. rápido. dizem que chegou ao correio um dinheiro não se sabe bem para quem”. e por que não? Amós Fiódorovitch E perigoso. Artémi Filípovitch. Deus nos livre. Cena 1 Entram com cuidado. na ponta dos pés. ele pode se ofender. e o senhor. senhores.) Pelo amor de Deus. nem sequer os ouvidos possam ouvir! E assim que se faz numa sociedade bem organizada! Pois bem..

finalmente.estão me apertando! (Soltam várias exclamações: “Ai! Ai!” e. Todos (Rodeando-o. é verdade. e a língua fica como que atolada em lama.) Que nada. Piótr Ivánovitch! Você pisou no meu pé! Voz de Zemlianíka Soltem-me. o que acontece com certo atropelo.. meus senhores. você sabe falar não apenas de cachorros. deixem-me em paz . Amos Fiódorovitch. Pois foi em sua instituição que o ilustre visitante fez uma boquinha. Ouvem-se exclamações a meia-voz..) Cena 2 Khlestakóv . não nos abandone. senhores. não posso! Confesso que tenho uma educação tal que conversar com alguém que tenha um grauzinho a mais me põe num estado em que minha alma simplesmente evapora.É melhor o senhor. Em seu discurso parece que é o próprio Cícero que baixa. Não. senhores! (Neste momento. Luká Lukítch Não posso. como provedor espiritual da juventude. ouvem-se passos e pigarros no quarto de Khlestakóv. por favor! Artémi Filípovitch Bem. Amos Fiódorovitch. mas também sobre aTorre de Babel. Artémi Filípovitch Então é melhor Luká Lukítch... aglomerando-se e empurrando-se para sair. a gente se anima ao falar de cães de caça. Por favor. Todos se precipitam para a porta.. Amós Fiódorovitch Nem pensar! Que Cícero que nada! Imaginem só! Então.Vamos.. então. você e ninguém mais. seja o nosso pai!.) Voz de Bóbtchinski Ai! Piótr Ivánovitch. por favor. Amos Fiódorovitch! Amós Fiódorovitch Deixem-me em paz. se uma vez ou outra. meus senhores. todos saem empurrando-se e a sala fica vazia.

Pelo que vejo. e não por interesse. assessor de colegiatura Liápkin-Tiápkin. À parte. por acaso. gosto ainda mais que me agradem de todo o coração. deixa cair os bilhetes no chão. Gosto de hospitalidade e. Khlestakóv Tenha a bondade de sentar-se. é bem verdade. Khlestakóv O que é que o senhor tem na mão? Amós Fiódorovitch (Desconcertado.. Khlestakóv E.) E o dinheiro aqui na minha mão. Cena 3 Khlestakóv e Amos Fiódorovitch. fui eleito por três anos pela vontade da nobreza e continuo no cargo até hoje.) Tenho a honra de me apresentar: juiz do tribunal local. e a mão parece em chamas. Eu acho que ontem eles me meteram não sei o que goela abaixo. confesso. não gosto muito. é vantajoso ser juiz? Amós Fiódorovitch Por esses nove anos. De onde essa gente tirou esses colchões e esses edredons? Cheguei até a suar. e a mãezinha também. Amós Fiódorovitch (Avançando um pouco com a mão fechada. pára e diz para si próprio.) Nada. (Em voz alta. não. só sei que. Até agora a cabeça está martelando. gosto desta vida. Khlestakóv Como nada? Eu vi o dinheiro cair. . tirei uma boa soneca.) Meu Deus! Não sei onde fui me meter. fui condecorado com a ordem de São Vladimir do 4° grau com a aprovação das altas autoridades. (A parte. Já a ordem de Sant’Ana de 3° grau. Parece que estou em cima de brasas. aqui a gente pode passar o tempo muito bem. não senhor. Amós Fiódorovitch (Ao entrar.(Entra com olhos sonolentos.. E a filha do prefeito não é nada mal. Khlestakóv Gosto muito da ordem de São Vladimir. Sei lá. perfilandose e colocando a mão na espada.) Pelo visto. Então o senhor é o juiz daqui? Amós Fiódorovitch Desde 1816. até que ainda se poderia.) Santo Deus! Santo Deus! Faça com que tudo corra bem! Os meus joelhos até estão tremendo.

) Mas que lugar esse aqui! Khlestakóv (Depois da saída de Amós. senhor. Amós Fiódorovitch (Apressadamente. Muito agradecido.. Virgem Santíssima! Khlestakóv O senhor sabe.. (À pane. perdido! Khlestakóv Sabe de uma coisa? Me empresta aqui esse dinheiro..) De jeito nenhum. sim. é uma honra para mim..) Ai. pois não.) É dinheiro. esforço-me para bem servir os meus superiores. Amós Fiódorovitch (Despede-se e sai. à parte.) Pois não. Mas devolvo logo que chegar em casa. Amós Fiódorovitch (À parte. perfila-se . quer dizer.. meu Deus! Já me vejo diante do tribunal! Já chegou o carro para me prender! Khlestakóv (Pegando.. Alguma ordem.) E um bom sujeito esse juiz.estou perdido. nada. com zelo e dedicação.Amós Fiódorovitch (Tremendo todo. Ao entrar.) Agora é o fim . gastei muito na viagem: uma coisa e outra. Amós Fiódorovitch Ora! O que é isso! Além disso.) Não ouso importuná-lo mais com minha presença.. com muito prazer. Nada.. (À parte. (Levanta-se da cadeira e perfila-se em posição de sentido. coragem! Me salve... não tenho a menor necessidade dele.) Coragem... senhor? Khlestakóv Que ordem? Amós Fiódorovitch Não teria o senhor alguma ordem ao tribunal local? Khlestakóv Mas pra quê? Olha aqui. senhor. Cena 4 Khlestakóv e o chefe dos correios de uniforme. É claro que com minhas poucas forças.

senhor. Khlestakóv Confesso que estou muito contente por termos a mesma opinião. Sente-se. Não é verdade que não é a capital? Chefe dos Correios Isso mesmo. não? Chefe dos Correios Isso mesmo. Então.) Pelo menos não é nada orgulhoso: pergunta sobre tudo. e para . senhor. seja franco. Está aqui.e segura a espada. a gente só precisa ser respeitado e amado com sinceridade. sabe? Claro que não tem muita gente aqui. pode-se viver muito bem. Faço-o de todo o coração. senhor. Concorda comigo? Chefe dos Correios Isso mesmo. Chefe dos Correios Tenho a honra de me apresentar: chefe dos correios. (Em voz alta. Khlestakóv Então. Confesso que não gosto de passar privações em viagem. senhor. mas o meu caráter é assim mesmo. Khlestakóv Gosto muito desta cidadezinha. O senhor não poderia me emprestar trezentos rublos? Chefe dos Correios Por que não? Com o maior prazer. Acham que sou um pouco estranho. (Olha bem nos olhos dele e diz para si mesmo. (À parte.) Mas que coisa estranha aconteceu comigo: durante a viagem gastei tudo o que tinha. Khlestakóv E só na capital existe gente de bom-tom e não esses gansos provincianos. não é verdade? Chefe dos Correios Justamente. Khlestakóv E do que a gente precisa? Na minha opinião.) Vou mais é pedir um dinheirinho emprestado a esse chefe dos correios. Khlestakóv Ah! Muito prazer! Gosto muito de gente agradável. conselheiro Chpékin. numa cidadezinha destas. Khlestakóv Muito obrigado. senhor. não é mesmo? Chefe dos Correios Isso mesmo. mas e daí? Não é a capital. o senhor viveu sempre aqui.

pelo contrário. também o sexo feminino. confesso que é a minha perdição.) Não é desse lado! Luká Lukítch (Assustado.) O diabo que a carregue! Essa minha maldita timidez! Khlestakóv Pelo visto.) (Luká tenta fumar e está todo trémulo. meu caro. as loiras ou as morenas? Luká Lukítch Não sei não senhor.) Veja só! Por essa eu não esperava. as loiras ou as morenas? (Luká Lukítch fica completamente perplexo e não sabe o que dizer. Aliás. Aqui está o fogo. pegue. É claro que não é como os de Petersburgo. cospe e faz com a mão um gesto de desalento − à parte. Eu.. fume.. de verdade.) (Khlestakóv acende um charuto. senhor. indeciso. Atrás dele ouve-se quase alto: “Está com medo do quê?” Luká Lukítch (Perfila-se. (Levanta-se. Cena 5 Khlestakóv e Luká Lukítch. deixa cair o charuto. Khlestakóv Ah! Muito prazer! Sente-se. Pelo menos é servil.) Não ouso importuná-lo mais com minha presença. perfila-se e segura a espada. Khlestakóv .) Diz aí. É um bom charuto.) Tenho a honra de me apresentar: inspetor de escolas. eu fumava uns charutinhos por vinte e cinco rublos o cento. a gente até quer lamber as mãos. sente-se! Aceita um charutinho? (Dá-lhe um charuto. Alguma recomendação para a administração dos correios? Khlestakóv Nenhuma. o senhor não é lá muito chegado a um charuto.) Luká Lukítch (Consigo mesmo. Depois de fumar. Aceito ou não aceito? Khlestakóv Pegue. Lá. conselheiro titular Khlópov. (O chefe dos correios faz uma reverência e sai. (Passa a vela. empurrado com força porta adentro. Não sou nem um pouco indiferente. tremendo. e segura a espada. E o senhor? O que prefere.) Acho que também o chefe dos correios é um sujeito muito bom. Gosto desse tipo de gente.quê? Não é verdade? Chefe dos Correios Isso mesmo.

não é verdade? Luká Lukítch Isso mesmo. alguma morena já lhe deu bola. gastei tudo o que tinha... Artémi Filípovitch Tenho a honra de me apresentar: encarregado da assistência social. senhor. Luká Lukítch Tomo a liberdade de informar-lhe.. Pelo menos. conselheiro .. que se perfila e segura a espada. não há mulher que resista. vossa alte. (À parte. não. Luká Lukítch (Perfila-se e segura a espada. Khlestakóv Ah! Não quer falar.) Olha lá! Ficou todo vermelho! Vermelhinho! Por que não responde? Luká Lukítch Fiquei com vergonha. (À parte. ilustrí. sua Excel. O senhor não poderia me emprestar trezentos rublos? Luká Lukítch (Apalpando os bolsos..) A maldita língua me traiu! Khlestakóv Vergonha? É bem verdade que nos meus olhos há qualquer coisa que provoca timidez.) Só faltava não achar! Aqui! Aqui! (Tira do bolso e entrega o dinheiro. hein? Na certa..) Graças a Deus! Quem sabe agora não queira passar lá na escola! Cena 6 Khlestakóv eArtémi Filípovitch. tremendo.) Nem sei mais o que dizer.) Khlestakóv Muito agradecido. Khlestakóv Passe bem! Luká Lukítch (Sai correndo e diz aparte. Deu ou não deu? (Luká Lukítch fica calado.. Durante a viagem. à parte...... Faço questão de saber o seu gosto.Não disfarce.) Não ouso importuná-lo mais com minha presença. Khlestakóv Veja só que coisa estranha me aconteceu.

Khlestakóv E eu vou lhe confessar o meu ponto fraco: gosto de uma boa comida. Basta olhar para os filhos: nenhum deles se parece com Dóbtchinski.Zemlianíka. Artémi Filípovitch Zemlianíka. Todos... Artémi Filípovitch Fico feliz de bem servir a pátria. Pois bem. Vive incutindo na juventude princípios tão mal-intencionados que até fica difícil expressar. o tal juiz já se mete em sua casa para ficar com sua mulher. sua conduta é das mais repreensíveis. tudo no papel. Khlestakóv Ah! Sim. Temos aqui um pequeno proprietário de terras. que o senhor houve por bem conhecer. Sabe. Dóbtchinski.) Mas veja só. posso até jurar. Por favor. Só vive atrás de lebres e deixa os cachorros nas repartições públicas. Khlestakóv Ah! Isso mesmo! Zemlianíka. gosto tanto de ler alguma coisa engraçada quando estou aborrecido.. Artémi Filípovitch Tive a honra de acompanhá-lo e de recebê-lo pessoalmente na assistência social.. A sua conduta. até a menorzinha. não é mesmo? Artémi Filípovitch É bem possível. Terei muito prazer. são a cara do juiz. tive a impressão de que ontem o senhor era um pouco mais baixo.. por obséquio. me lembro bem. embora ele seja meu amigo e parente -. E me diga também. o chefe dos correios.. (Aproxima-se com a cadeira e diz a meia-voz. que está sob minha responsabilidade. Khlestakóv Bom dia! Tenha a bondade de sentar-se. o senhor poderia me dizer uma coisa.. O senhor me ofereceu um excelente almoço. O senhor não gostaria de ordenar que eu ponha tudo isso no papel? Khlestakóv Acho bom sim. Khlestakóv Não me diga! Quem diria! Artémi Filípovitch E o inspetor de escolas então? Não entendo como lhe confiaram um cargo desses. (Depois de um breve silêncio.) Posso lhe afirmar que não desejo outra coisa a não ser cumprir o meu dever com zelo.. O senhor mesmo faça o obséquio de verificar. Tudo na maior confusão: as correspondências.é claro. mal ele põe o pé na rua. O juiz é outro. esse não faz absolutamente nada. Como é que o senhor se chama? Esqueço sempre. o senhor tem filhos? . Ele é pior do que um jacobino. esse aí que acabou de sair. para ser franco . todas atrasadas. faço isso pelo bem da pátria.

Khlestakóv Que coincidência! Muito agradecido.. nem tomar o seu tempo destinado aos deveres sagrados. Volte sempre. Durante a viagem. Bóbtchinski e Dóbtchinski. Khlestakóv Por gentileza. gastei tudo o que tinha. Khlestakóv Que coisa! Grandinhos! E como eles. Dóbtchinski Proprietário de terras. você! Como é mesmo o seu nome? Sempre me esqueço. como se chamam? Artémi Filípovitch Nikolai. Artémi Filípovitch Não ouso importuná-lo mais com minha presença. Tudo o que me contou foi muito divertido. Ivan. Piótr Ivánov. . Cena 7 Khlestakóv. Khlestakóv Muito interessante.. Gosto muito disso tudo...Artémi Filípovitch Claro. O senhor não teria uns quatrocentos rublos para me emprestar? Artémi Filípovitch Tenho. (Faz uma reverência antes de sair. Piótr Ivánov. da família Bóbtchinski. da família Dóbtchinski. como é que eles. Artémi Filípovitch.. Elizaveta. senhor! Cinco..) Não tem importância. Artémi Filípovitch Artémi Filípovitch. Dois já grandinhos. reabre aporta e grita.) Ei. Bóbtchinski Tenho a honra de me apresentar: habitante desta cidade. aconteceu uma coisa estranha. (Volta. Mária e Perepetuia.) Khlestakóv (Acompanhando-o. Artémi Filípovitch Por acaso o senhor não gostaria de perguntar como eles se chamam? Khlestakóv E isso.

Dóbtchinski (Olhando na carteira. Quem sabe se não caiu por ali. então... Falei por falar. então. juro por Deus! E você.. não. Khlestakóv Bem. Piótr Ivánovitch! Eu sei que tem um buraco no seu bolso direito. Dóbtchinski Não. Khlestakóv Que bom. não tenho nada. está todo aplicado na caixa da beneficência pública. Bóbtchinski Tinto assim. se o senhor quer saber.Khlestakóv Ah. O meu filho mais vdlio. Piótr Ivánoritcli. senhor. Foi o senhor que caiu. (De repente e com voz entrecortada. já conhecia os senhores. Khlestakóv Bem. Bóbtchinski Vê se procura um pouco melhor. já está completamente grudado no seu devido lugar. Bóbtchinski (Procurando nos bolsos.) Dóbtchinski Tomo a liberdade de lhe pedir uma coisa referente a urna circunstância muito delicada. pois o meu dinheiro. Khlestakóv O que é? Bóbtchinski Algo de caráter muito delicado. se não têm mil. serve cem. Aceito.) Ao todo. Tanto faz. não tem importância. não? Como está o seu nariz? Bóbtchinski Graças a Deus! Não se preocupe. vinte e cinco. palavra que não caiu nada.) Piótr Ivánovitch. claro.) Tem dinheiro? Dóbtchinski Dinheiro? Como assim? Khlestakóv Mil rublos para me emprestar. senhor. não tem? Dóbtchinski Aqui comigo. Estou feliz. você não teria cem rublos? Eu só tenho quarenta em bilhetes. os sessenta rublos mesmo. (Pega o dinheiro. não tenho. permita que lhe ..

diga.. já o incomodamos muito com nossa presença. Assim. quer dizer. senhor.. se lhe cai nas mãos uma faca. E um garoto que promete muito: sabe de cor muitos versos e. Bóbtchinski E se. vai sim. se o senhor me permitir. em tal cidade vive Piótr Ivánovitch Bóbtchinski. se não fosse pela capacidade dele. Khlestakóv É mesmo? Dóbtchinski Quer dizer. que.. por obra do acaso. é um modo de falar. Que o diga Piótr Ivánovitch. tudo vai ser resolvido.) E o senhor. tal qual um prestidigitador. não quer me dizer nada? Bóbtchinski Justamente. aos diferentes senadores e almirantes. tenho um pedido muito importante. quando chegar a Petersburgo. Diga assim mesmo: lá vive Piótr Ivánovitch Bóbtchinski. o senhor diga a todos os figurões.. Khlestakóv O que é? Bóbtchinski Peço-lhe encarecidamente que. como eu. como mandam as leis do sagrado matrimónio. em tal cidade. quero que ele seja completamente meu filho. está bem. perante a lei. Khlestakóv Tá bom. Bóbtchinski E verdade. pois que seja! Acho que pode. senhor. Dóbtchinski Eu não me atreveria a importuná-lo. Bóbtchinski . nasceu antes do meu casamento. Falarei com. Khlestakóv Está bem.. tem muitas habilidades.. e que se chame. põe-se logo a esculpir trenozinhos com tanta arte. (Voltando-se para Bóbtchinski. pois logo depois fiz tudo direitinho. Khlestakóv Perfeitamente. pois ele nasceu como se fosse dentro do casamento. “Vossa Excelência ou Vossa Magnificência”. o senhor estiver diante do soberano.. pois é. Vossa Majestade. vive Piótr Ivánovitch Bóbtchinski. Dóbtchinski. pois diga também ao soberano. espero que.. Vou cuidar disso. Dóbtchinski Queira desculpar. Khlestakóv Perfeitamente. senhor.

. já o incomodamos muito com nossa presença..) Óssip . E gosta também de um bom dinheirinho. Khlestakóv Está vendo. (Ossip olha pela porta e diz: “Já vai”. Belo gesto esse de me emprestar dinheiro. mas não perde a piada. Khlestakóv O que é isso. Ah! E aí. Vou contar o dinheiro só pra ver quanto eu tenho. Ele perde o pai. Na certa.) Coitado daquele que cai nas garras de Triapítchkin. Tive muito prazer. não tem importância. Óssip! Traga aqui papel e tinta. que papelada engordurada! Oitocentos. oitocentos.Queira desculpar. (Acompanha-os. setecentos. como me recebem e me tratam? (Começa a escrever. quero só ver se eu te pego agora. Ele escreve lá os seus artiguinhos. seu imbecil. ontem fiz muito farol. São seiscentos.) Cena 8 Khlestakóv (Sozinho. capitão. Apesar de tudo. Que idiotas! Vou escrever a Triapítchkin em Petersburgo contando tudo. ijiie se divirta com todos esses aí.) Aqui há muitos funcionários. Estes trezentos são do juiz. Vamos ver quem é quem! Cena 9 Khlestakóv e Óssip com tinta e papel. novecentos. esses funcionários são boa gente. Veja só! Mais de mil.. Estes outros trezentos do chefe dos correios. Acho que eles estão me tomando por um alto funcionário. Ei..

Seu pai vai ficar uma fera com sua demora. Óssip Vou mandar a carta. meu irmão. Mas.) Só estou imaginando como Triapítchkin vai morrer de rir. Para que ficar mais tempo com eles? Que vão para o inferno! De repente aparece um outro. Mas antes leve esta carta e pegue também a documentação..) Está bem. o senhor sabe. Khlestakóv (Continua a escrever. Que fiquem com Deus! Já se divertiu aqui por dois dias. (Dobra e sobrescreve. Leve esta carta ao correio e diga lá ao chefão que vai sem pagar mesmo. Khlestakóv (Escreve.. Vamos amanhã. enquanto eu mesmo preparo tudo para não perdermos tempo. Diga que é tudo por conta do erário. Ivan Aleksándrovitch! E verdade que foi recebido com grande pompa e tudo o mais. mas..Graças a Deus! Mas sabe de uma coisa. Diga aos cocheiros que darei uma gorjetinha se voarem como mensageiros do imperador e que cantem canções!.. Nesse momento. já é hora. a carta ainda não está pronta. antes. E diga também que tem que ser muito rápido. Que bom seria ir embora! E que cavalos poderiam nos dar aqui.) Então está bem. ouve-se a voz . Tenho vontade de ficar aqui mais um pouco. Como vão desembestar!. Khlestakóv (Escreve.) Estou curioso para saber onde ele mora agora: na Pochtámtskaia ou na Gorókhovaia? Pois ele vive mudando de uma casa para outra sem pagar. agora chega. é melhor a gente se mandar antes que. por alguém daqui. Khlestakóv (Escreve. Khlestakóv (Escreve. vamos embora. Vou chutar Iochtámtskaia. Pelo amor de Deus. Ah! E diga também que arranjem para o patrão a melhor tróica..) Nada disso.) (Óssip traz uma vela e Khlestakóv sela a carta.) Escuta aqui.. E verifique se os cavalos são bons mesmo.. (Contínua a escrever. Óssip (Sai e fala fora do palco. Óssip Que amanhã que nada! Pelo amor de Deus. Tudo sem pagar. Espera..) Que absurdo! Por quê? Óssip Porque sim. senhor. Ivan Aleksándrovitch? Khlestakóv O quê? Óssip Vamos embora daqui! Por Deus. Ivan Aleksándrovitch! Os cavalos aqui são de primeira.. me traga uma vela.. é missão oficial. Pois é claro que o tomaram por outro. senão o patrão vai ficar muito bravo.

” Que diabo é isto? Nunca vi esse título! Cena 10 Khlestakóv e os comerciantes. (O barulho aumenta. mas o guarda não deixa. Pode levar. meus queridos? Vozes de Comerciantes Rogamos vossa clemência.. senhor! Fazem ofensas sem motivos.) Khlestakóv O que há. Estão agitando uns papéis. Khlestakóv Deixe entrar. da parte do comerciante Abdúlin. Óssip. querem falar com o senhor.) “A Sua Altíssima Excelência. paizinho! Não pode impedir. Voz de Derjimórda Fora. deixe entrar! Que passem.de Derjimórda: “Aonde é que você pensa que vai. Ministro dos Negócios das Finanças da Fazenda. Óssip? Que barulho é esse? Óssip (Olha pela janela. Khlestakóv Em que posso servi-los? Comerciantes Não nos desampare.) Toma. meus queridos? Comerciantes Suplicar a vossa misericórdia.) (Recebe pela janela as petições.) São os comerciantes que querem entrar. Temos assuntos importantes. Khlestakóv O que desejam. (Óssip sai. .) O que desejam. fora! Não pode receber. Na certa. diga que os deixem passar. Khlestakóv (Aproxima-se da janela. que apresentemos nossa petição. desenrola uma delas e lê. que trazem cestos de vinho e pães de açúcar. Ordene.. está dormindo. Excelência. barbudo? Já não lhe disseram que é proibido passar?”) Khlestakóv (Entrega a carta para Óssip. Vozes de Comerciantes Deixe-nos passar.

) Mas por que só trezentos? Melhor ainda quinhentos. Khlestakóv Mas será possível? Que vigarista! Comerciantes Por Deus! Nunca se viu um prefeito assim. Segura a gente pela barba e diz: “Ah. Faz a gente alimentar todos os regimentos que passam por aqui. paizinho! (Tiram o dinheiro. ele carrega. ele passa a mão aos montes. se preferirem me emprestar trezentos rublos. mas a tal peça mede no mínimo cinquenta metros. nunca tivemos. posso. Comerciantes Para onde Vossa Excelência decidir mandá-lo será bom. seu tártaro!” Juro por Deus! Se ao menos a gente lhe faltasse com o respeito. Negociantes Como não. mas não é só coisa boa que ele leva. Khlestakóv Não. . e que nem mesmo o meu criado quer comer. Faz cada uma. meu caro. Mas. Khlestakóv Mas que vigarista! E o caso de mandá-lo para a Sibéria. Leve lá pra minha casa”. sim. paizinho. você vai comer o pão que o diabo amassou”. aí sim. Não costumo aceitar suborno de espécie alguma. santo António. Dá vontade de pôr a corda no pescoço. Comete tantas injustiças que nem se podem descrever. a gente leva pra ele do bom e do melhor. nosso pão e nosso sal. Khlestakóv Mas é simplesmente um bandido! Comerciantes Isso não é nada! E vai a gente dizer alguma coisa. que coisa. aceitar. Um prefeito como esse. senhores. Ele leva toda e qualquer porcaria. O que é que se há de fazer? A gente lhe presenteia no dia de santo Onofre também. Até numas ameixas que estavam no barril há sete anos. Ou então manda trancar as portas. Ele manda todo um regimento de soldados pra dentro da sua casa. A gente tem que esconder tudo lá na loja quando vê que ele vem vindo. E não é por falar. por exemplo. No dia do seu santo. mas sempre nos comportamos bem! Vestidos para a esposa e a filhinha. Logo que vê uma peça de lã. contanto que nos ajude. Então a gente leva. Um empréstimo. diz que santo Onofre também é seu santo. E proibido por lei. Agora. senhor. não. Diz ele: “Não vou te castigar fisicamente nem vou te torturar. Não recuse.Khlestakóv Quem? Um dos Comerciantes Sempre o prefeito. Mas. conhuiin que seja para bem longe de nós. já é outra coisa. nem pensar. para ele é sempre pouco! É sim! Chega na loja e tudo o que lhe cai nas mãos. é mesmo um bom tecido. meu caro. Oferecemos também açúcar e vinho. Só que ele ainda quer mais. diz assim: “Ah. nunca lhe negamos.

... tudo vai ser útil. Khlestakóv (Na janela. Comerciantes Faça essa caridade. Vossa Alteza! Se não nos atender. paizinho. Só nos resta a forca. Khlestakóv Sem falta. nunca. que nos ouça. Vai que a carruagem ou qualquer outra coisa quebre. aceite também o açúcar. por favor. Comerciantes (Fazendo uma reverência. a bandejinha. (Os comerciantes saem.) Então. Comerciantes (Entregam-lhe o dinheiro numa bandeja de prata. senhor. Óssip Vossa Excelência! Por que não pega? Pegue sim! Para a viagem.) Peço vossa misericórdia. a mulher do serralheiro e a mulher do subtenente.. Khlestakóv Por que não? A bandejinha também. Ouve-se uma voz de mulher: “Não se atreva a me proibir de entrar! Vou me queixar de você diretamente a ele. Mulher do Serralheiro (Curvando-se até o chão. então não saberemos mais o que fazer. então. O que é aquilo? Uma cordinha? Passem pra cá também a cordinha! Uma cordinha pode servir na viagem. tudo serve. sim. Não me empurre que machuca”. suborno. por favor! Rogamos.) Deixem-nas passar.) Quem é que está aí? (Aproxima-se da janela.) O que deseja. Cena 11 Khlestakóv. a gente pode amarrar. sem falta! Farei todo o possível. Um empréstimo. Passem pra cá o açúcar e o vinho! Passem tudo pra cá. Nada contra. Khlestakóv De jeito nenhum. . mãezinha? Vozes de Duas Mulheres Vossa misericórdia.Khlestakóv De acordo. Mulher do Subtenente Peço vossa misericórdia.) Aceite também.

como é que fico sem marido? Sou uma mulher fraca. patife! Que toda sua família pereça sem a luz do sol.Khlestakóv Quem são as senhoras? Mulher do Subtenente Sou a mulher do tenente Ivánov. Fevrônia Petróvna Pochliópkina.. Você. Eu é que sei se ele presta ou não presta pra nada. paizinho. que também ele. tanto faz. Nem tinha chegado a vez dele. aquele bêbado. E se o pai ainda estiver vivo. Mulher do Serralheiro Sou a mulher do serralheiro. paizinho. que a sogra também. E se tem sogra. paizinho. é proibido por lei. “Pra que é que você precisa de marido? Ele não presta pra nada”. esse vigarista! O filho do alfaiate. Khlestakóv Como é que ele pôde fazer uma coisa dessas? Mulher do Serralheiro Fez porque fez. o prefeito caiu em cima da comerciante Panteléieva.. tinham que ter levado. tenha piedade! Mulher do Subtenente Também por causa do prefeito. Que Deus o castigue. Era casado. Seja breve. porque vai acabar roubando mesmo e de qualquer maneira vai ser recrutado no ano que vem”. nunca tenham nada que se preze! Khlestakóv E por quê? Mulher do Serralheiro Ordenou que meu marido fosse recrutado pelo exército. Khlestakóv Está bem. então que caia sobre ela a maior desgraça. então. esse vigarista. o canalha. Mas a Panteléieva também mandou para a mulher dele três peças de tecido. se não roubou nada até agora. Khlestakóv Esperem aí. Fale uma de cada vez.. está bem.. e aí é que ele veio pra cima de mim. seus filhos. Mas os pais mandaram um belo presente e. o vigarista.. estique as canelas ou fique estropiado para todo o sempre. este sim. vossa graça contra o prefeito! Que toda a maldição recaia sobre ele! Que ele. Isso é da minha conta. Mulher do Subtenente . tios e tias. o que deseja? Mulher do Serralheiro Suplicar vossa misericórdia. Khlestakóv O que foi? Fale. E você? Mulher do Serralheiro (Saindo.. esse vigarista! Ainda por cima.) Não se esqueça de mim. neste e no outro mundo! E se ele tiver uma tia. seu vigarista! E disse mais: “Ele é um ladrão. E eu.

senhorita? Mária Antónovna Não me assustei. Mas obrigue-o a pagar uma multa pelo seu erro. não quero! Já chega. a polícia não chegou a tempo. vai junto para a ante-sala e fecha a porta atrás de si. paizinho! Khlestakóv Como assim? Mulher do Oficial Por engano. paizinho! Duas comadres brigaram na feira.Me deu uma surra. Mária Antónovna Ah! Khlestakóv Por que se assustou.) Não quero. Khlestakóv E o que é que podemos fazer agora? Mulher do Subtenente Claro que agora não se pode fazer nada. muito me agrada que me tenha tomado por uma pessoa que..) Perdão. mais algumas pessoas. em perspectiva. podem ir! Vou dar as ordens! (Pela janela surgem mãos com petições. senhorita.) Estou farto. está bem! Podem ir embora.. Não seria nada mal. então me pegaram. já chega! (Afastando-se. fiquei dois dias sem poder sentar. Tomo a liberdade de lhe perguntar: para onde tinha a intenção de ir? .. Khlestakóv Está bem.) Quem mais está aí? (Aproxima-se da janela. Khlestakóv (Afetado..) Cena 12 Khlestakóv e Mária Antónovna.) Saia já daqai! Saia! Aonde pensa que vai? (Empurra a barriga dele com às mãos. pois um dinheirinho agora me cairia muito bem. não. Me bateram tanto. que vão Por detrás.

quer apenas ridicularizar as provincianas. Pelo contrário. ser o seu lencinho para poder envolver esse colo macio.. valem mais do que qualquer tempo.. Que tempo esquisito faz hoje! Khlestakóv Os seus lábios. senhorita. por assim dizer. Mas que lencinho. Mária Antónovna Eu o incomodei. Será que eu poderia tomar a liberdade de ter a felicidade de lhe oferecer uma cadeira? Mas não! O que a senhorita merece é um trono..) Seus olhos são mais importantes do que assuntos importantes.. Mária Antónovna O senhor fala como gente da capital. O senhor estava ocupado com assuntos importantes. não sei. talvez. só pode me dar prazer..) Khlestakóv Que lindo lencinho! Mária Antónovna Que zombador que o senhor é. a minha mãezinha estivesse aqui. A senhorita jamais poderia me incomodar. (Senta. senhorita. Khlestakóv E por que.. Certamente deve saber muitos. Mária Antónovna Não estou entendendo nada.. Khlestakóv Para uma pessoa tão encantadora como a senhorita... novos. como direi. bonitos. Gostaria de saber por que iria a senhorita pra lugar nenhum.. Khlestakóv Não é isso. Mária Antónovna Na verdade... De maneira nenhuma poderia me incomodar.. Mária Antónovna Alguns assim. e não uma cadeira. precisava tanto ir andando... Mária Antónovna O senhor diz cada coisa. .. Khlestakóv Faço tudo o que a senhorita quiser. Khlestakóv Como eu desejaria. Basta exigir qual tipo de versos. pra lugar nenhum? Mária Antónovna Pensei que. Gostaria de pedir-lhe que escrevesse alguns versinhos em meu álbum de recordação. Khlestakóv (Afetado.Mária Antónovna Pra dizer a verdade. pra lugar nenhum.

Khlestakóv Tenho todo e qualquer tipo de verso.) Mária Antónovna O amor? Não compreendo o amor. fiz isso por amor.) Pois para a senhorita pode parecer perto. mas é só imaginar que estamos longe. por exemplo.) Ah. Khlestakóv E por que longe? De perto dá na mesma. Pensando bem. eu nunca soube o que é o amor. agora não consigo me lembrar. senhorita. Khlestakóv (Retendo-a.. (Afasta a cadeira. senhorita. se pudesse envolvê-la em meus braços! Mária Antónovna (Olha pela janela.. (Tenta sair. Mária Antónovna (Levanta-se. só por amor..) E por que perto? De longe dá na mesma... Mária Antónovna Então me diga.. (Aproxima a cadeira. que na amargura.. não..) E uma pega... imagine! Sei tantos.) O que foi aquilo que parecia voar? Uma pega ou outro pássaro qualquer? Khlestakóv (Beija-lhe o ombro e olha pela janela. homem...Khlestakóv Versos... em vão te queixas de Deus.) . isso já é demais! Que descaramento!. estes aqui: “Oh! Tu. Mária Antónovna (Afastando-se. Mária Antónovna Gosto muito de versos. Como eu ficaria feliz. indignada. não tem importância.) E por que afastou a cadeira? É bem melhor ficarmos perto um do outro.” E muitos outros. Mária Antónovna (Afastando-se.) Perdoe-me. Para a senhorita. Mária Antónovna O senhor me considera uma dessas provincianas. quais os senhor vai escrever para mim? Khlestakóv E para que dizer? Eu sei muito bem o que eu sei..) E por que tudo isso? Khlestakóv (Aproximando-se.) Khlestakóv (Aproxima a cadeira.. E bem melhor descrever o meu amor que pelo seu olhar.

Minha vida está por um fio. não é de se jogar fora. (Põe-se de joelhos.) Diabo! Ana Andréievna (A filha. levante-se.. senhor. levante-se. tem que ser de joelhos. Khlestakóv Não. Mária Antónovna.) E esta também é bem apetitosa. Khlestakóv Nada disso. até certo ponto. sou casada. Com o coração em chamas. juro. Se não me engano. Estou apaixonado é pela senhora.... Se a senhora não corresponder ao meu fiel amor. (Cai de joelhos..Khlestakóv (Continua a retê-la. aos prantos.) O que significa isso. Foi apenas uma brincadeira. Está tudo sujo aqui. por amor.. Khlestakóv (À parte. não se zangue! Estou disposto a lhe pedir perdão de joelhos. senhorita? Que comportamento é esse? Mária Antónovna Maezinha. eu. a vida ou a morte. Ana Andréievna Queira perdoar. o senhor acaba de se declarar para a minha filha.. Khlestakóv . Cena 13 Os mesmos e Ana Andréievna. (Mária Antónovna sai. peço sua mão.) Me desculpe. Ana Andréievna Mas me permita observar que eu. mas não compreendo bem o sentido de suas palavras. Ana Andréievna (Ao ver Khlestakóv de joelhos.) Ah! Que cena! Khlestakóv (Levantando-se. de joelhos. então não sou digno de existir na face da Terra.) Foi por amor. não está vendo? Estou ardendo de amor. confesso que fiquei estupefata. Ana Andréievna Mas como? O senhor de joelhos? Ora. Quero saber qual a minha sorte. Ana Andréievna Fora daqui! Está me ouvindo? Fora! Fora! E não se atreva a aparecer mais diante de mim.) Perdão! Perdão! Está vendo? Estou de joelhos..) Minha senhora.

Quando é que vai entender o que são as boas maneiras e a seriedade de princípios. que entra subitamente.) Juro. (Vendo Khlestakóv de joelhos. Khlestakóv Decida: vida ou morte? Ana Andréievna Está vendo. peço sua mão. quando é que você vai se comportar como uma mocinha bem educada. O que você viu de tão extraordinário? O que inventou agora? Parece uma criança de três anos. Não sei quando é que você vai ser mais ajuizada. Os seus exemplos têm que ser outros: a sua mãe. Khlestakóv (Segurando a mão da filha. isso não faz diferença. E você entra aqui correndo como uma louca! Pois palavra que você bem merecia que eu dissesse não. mãezinha. Ninguém diz. Você não é digna dessa felicidade.. O que você vê nelas? Não tem que querer imitá-las.. Partiremos sob a sombra do ímpeto.. o papai mandou dizer para a senhora. mas ninguém diz mesmo.) Então é ela?. Karamzin disse: “As leis condenam”. que essa menina tem dezoito anos. Para o amor. Ana Andréievna Você tem uma cabeça de vento! Está seguindo o exemplo das filhas de LiápkinTiápkin. sua porca. abençoe nosso eterno amor! Ana Andréievna (Estupefata.. Este é o exemplo que você deve seguir. Mária Antónovna Mãezinha. sua boba.. está vendo? Por sua causa. Sua mão. Mária Antónovna (Chorando. mãezinha. juro.. Cena 14 Os mesmos e Mária Antónovna.) Ah! Que cena! Ana Andréievna Mas o que é isso? O que veio fazer? O que quer aqui? Que leviandade! De repente. o nosso hóspede teve de ficar de joelhos.. entra correndo feito uma louca.. Mária Antónovna Juro que não faço mais. . isto sim.Pouco importa. não se oponha à nossa felicidade. eu não sabia.) Ana Andréievna. juro.

Estou apaixonado. Khlestakóv E se o senhor não concordar em me conceder a mão de Mária Antónovna. no que diz respeito à malandragem. Peço a mão de sua filha. Eles é que enganam e roubam o povo. juro por Deus que é mentira.. dizendo que a surrei.. A mulher do subtenente mentiu. Sou capaz de enlouquecer de amor. Prefeito Não posso acreditar! Vossa Excelência está brincando comigo! .Cena 15 Os mesmos e o prefeito.. Palavra de honra que nem metade do que eles falaram é verdade. só o diabo sabe o que sou capaz de fazer. nem uma criança pode acreditar neles. Excelência. E. Khlestakóv É isso mesmo. Excelência! Ana Andréievna Mas se ele mesmo está dizendo! Khlestakóv Não estou brincando. Prefeito Não posso acreditar. Khlestakóv Que o diabo a carregue! Não estou preocupado com ela! Prefeito Não acredite! Não acredite! São todos uns mentirosos. apressado. não sou digno de tanta honra.. Toda a cidade sabe que são uns mentirosos.. não se aborreça. Prefeito Não me atrevo a acreditar. querida? Por gentileza. Mária Antónovna Sabe com que honra nos brindou Ivan Aleksándrovitch? Ele acaba de pedir a mão de nossa filha. Ela é meio tonta mesmo. Ela mesma se surrou. saiu à mãe. Prefeito Que bobagem! Que bobagem! Ficou maluca. É mentira.. Prefeito Vossa Excelência! Não me desgrace! Não me desgrace! Khlestakóv O que aconteceu? Prefeito Os comerciantes vieram se queixar a Vossa Excelência. tomo a liberdade de informar que malandros como esses nunca se viram no mundo.

) Prefeito Que Deus os abençoe. Sou capaz de tudo! Se der um tiro nos miolos. Ana Andréievna Então vá. senhor? Vai partir? Khlestakóv Vou sim... Já vou indo. Vou passar apenas um dia com um tio. quer dizer. não? Khlestakóv Vou e volto num minuto.. Mas amanhã estarei de volta. não sei o ijuc está acontecendo. me parece. Prefeito Ai. dê sua bênção! (Khlestakóv se aproxima com Mária Antónovna. então. O prefeito olha para eles.) Mas que diabo! É verdade mesmo! (Esfrega os olhos. estão se beijando! É mesmo um noivo de verdade! (Grita e pula de alegria. Óssip Os cavalos estão prontos. . ai. um velho muito rico. o senhor será julgado. Khlestakóv Muito bem.xi flcncia achar melhor! Juro que minha cabeça. Sou inocente de corpo e alma! Por frtvm. meu Deus! Ai. Prefeito Como.Ana Andréievna Ah! Mas que cabeça-dura! Quando é que você vai entender? Prefeito Não posso acreditar! Khlestakóv Concorde! Concorde! Estou desesperado. mas eu não tenho culpa! (Khlestakóv beija Mária Antónovna. não se zangue! Faça o obséquio de proceder como Vossa |’. dignou-se a mencionar um casamento. ai. Cena 16 Os mesmos e Óssip. Estou ficando tonto como nunca.) Estão se beijando! Ah! Meu Deus.) Ah! Antón! Antón! Ah! Senhor prefeito! Veja só aonde chegamos. O senhor.. Prefeito Mas quando.

por que não? Prefeito Quanto deseja? Khlestakóv Bem. Não quero abusar de seu equívoco. da outra vez o senhor me deu duzentos.) Muito bem.. Khlestakóv Ora! Claro! Volto logo. não? Khlestakóv Não. Adeus. ficam oitocentos justos. Voz do Prefeito Mas como pode ser isto? O senhor vai viajar assim. Khlestakóv É mesmo! (Pega e olha o dinheiro. por gentileza.) Pensando bem. pelo menos.) (Atrás do palco. Khlestakóv Adeus.) Parece até de propósito: notas novinhas. nem tenho palavras. agora. talvez um tapetinho. neste coche tão duro? Voz de Khlestakóv Já estou acostumado. de jeito nenhum. Prefeito Agora mesmo! (Tira da carteira. Voz do Cocheiro Ooo. meu anjinho! (Saem.. As molas me dão dor de cabeça. anjo da minha alma.. quatrocentos. Prefeito Exatamente. vamos cobrir com alguma coisa.. meu coração! (Beija as mãos dela. meu amor. Mária Antónovna.) Prefeito Não precisaria de alguma coisa para a viagem? Parece-me que o senhor já teve a fineza de precisar de algum dinheiro.) Voz de Khlestakóv Adeus. Ana Andréievna! Adeus.. Antón Antónovitch! Muito obrigado por sua hospitalidade. Dizem que notas novas dão sorte. Confesso de todo o coração que em lugar algum fui tão bem recebido. Mária Antónovna.. Com .Prefeito Não nos atrevemos a retê-lo e ficamos na esperança de um feliz regresso. Voz do Prefeito Então. com a mesma quantia. senhor. Adeus. duzentos não. Adeus. de modo que. quer dizer. por quê? (Pensando um pouco.

sua licença. Vossa Excelência! Vozes das Mulheres Adeus. devemos esperá-lo? Voz de Khlestakóv Amanhã ou depois. Voz de Khlestakóv Adeus. Voz do Prefeito Para quando.) . Cai o pano. mãezinha! Voz do Cocheiro Eia. deste lado de cá. ponha assim. Ivan Aleksándrovitch! Voz de Khlestakóv Adeus. por que não? Que me tragam o tapete.. isso! E agora. Vossa Nobreza. Antón Antónovitch! Voz do Prefeito Adeus.) Agora pode se sentar. Voz do Prefeito Avdótia! Vá lá buscar no depósito o melhor tapete. o feno. Voz de Óssip Ah! Esse é o tapete? Aqui... Vá depressa! Voz do Cocheiro Ooo. pensando bem. Bem. vamos lá. posso mandar vir um tapete? Voz de Khlestakóv Para quê? Não precisa. Voz do Cocheiro Ooo.. aquele persa de fundo azul. Voz de Óssip Deste lado de cá! Aqui! Mais um pouco! Isso! Vai ser bem confortável! (Bate no tapete. ordena o senhor. apressadinhos! (O sininho toca.

tudo! Diga pra todo mundo saber.) Pois é. aqueles que escreveram petições contra mim.) Ah! E você. e sim alguém que ainda não apareceu na face da Terra e que pode tudo. O que te parece? E agora. Tudo lhe parece inesperado porque você é um homem simples. Saia gritando aos quatro cantos. Eu já sabia há muito tempo. com os diabos! Espere aí que agora eu vou dar uma boa lição a toda essa gentalha que gosta de petições e denúncias. hein? Ana Andréievna Nada disso. Prefeito Eu também sou gente distinta. essa cambada de canalhas! Queixaram-se de mim. E que toda a gente fique sabendo a honra que Deus concedeu ao prefeito: deu a sua filha um marido. pois é uma festa! (O policial sai. principalmente. que diabo! Uma festa. mande chamar aqui os comerciantes. Sim senhora.. Ivan Kárpovitch! Meu caro. Eles vão ver só. Ana Andréievna. com os diabos! Diga francamente. que nunca viu gente distinta. ser. quem está aí? (Entra um policial. mas não um homem qualquer. hein? Que tal Ana Andréievna? Que voo alto. Tome nota de todos aqueles que vieram apenas fazer solicitações em meu nome e. Ana Andréievna? Hein? Alguma vez isso lhe passou pela cabeça? Olha só que prémio magnífico. Ana Andréievna e Mária Antónovna. E que toquem os sinos. não é? Judas malditos! Esperem só pra ver. tudo. pense bem: em que figurões nos transformamos. de repente. onde é que nós vamos morar? Aqui ou em Peter? . Quem diria! Que pacto você tem com o diabo. Ei. agora vou levar a ferro e fogo. Cena 1 O prefeito. meus pombinhos! Se antes eu levava vocês à força.. Tudo. minha querida. Prefeito E então. Ana Andréievna.Ato 5 A mesma sala. nem mesmo em sonho poderia imaginar que uma simples mulher de prefeito poderia.

vermelhas ou azuis? Ana Andréievna Mas é claro que as azuis são as melhores. Prefeito . Ana Andréievna Como prefeito. Prefeito Ah. capitães e prefeitos têm de esperar. o que importa o cargo de prefeito? Prefeito Na verdade. coisas que jamais se dizem na alta sociedade. Ana Andréievna? Ana Andréievna Naturalmente. Às vezes. seus canalhas.. Você não acha. até que é bom. não. ah! (Morre de rir.Ana Andréievna Em Petersburgo. E por que será que todo mundo quer ser general? Porque acontece que. . De que cor você acha melhor. Prefeito E daí? Uma palavrinha ou outra não faz mal a ninguém. A gente almoça em algum lugar na casa do governador e o prefeito. Mas agora a vida vai ser completamente diferente. Ana Andréievna. quando a gente chega a qualquer lugar.que o meu cargo de prefeito vá pró inferno. estou muito preocupada com você. Não senhor.) Pois é isso. a gente pode conseguir uma boa promoção e. que seja em Peter. isso é que é o máximo! Ana Andréievna Você sempre com suas grosserias. ainda vá lá. Tem que se lembrar de que agora vai ter que mudar de vida completamente e de que suas novas relações não serão mais com qualquer juiz-canino com quem você vai caçar lebres. é? Veja só o que ela prefere! Mas as vermelhas também servem. pois ele é assim. amigo de todos os ministros e até frequenta a corte. Como é que a gente pode ficar aqui? Prefeito Então. Por isso mesmo. suas relações serão agora com pessoas de comportamento refinado: condes e gente da alta sociedade. chegar até a general.. com o tempo. não é. os secretários e assistentes sempre se põem a galopar na frente gritando: “Os cavalos!” E lá eles não dão nada pra ninguém e todos esses titulares.. ou com um Zemlianíka qualquer. Ana Andréievna? Agora posso até pretender um alto grau. Ou então. naturalmente. que posso chegar a general? Ana Andréievna E por que não? Claro que sim! Prefeito Com os diabos! Que glória ser general. pensando bem. Penduram no ombro da gente umas condecorações. se é em Peter. Ana Andréievna. ah. mas pra gente. dão tudo na bandeja. o que você acha. que se dane o prefeito! Ah. você solta cada uma. Pra dizer a verdade. olha. Mas aqui.

) Ah! Que maravilha! Cena 2 Os mesmos e os comerciantes. queixaram-se de mim.. Antocha! Prefeito (Zangado. Mal sabem rezar o padre-nosso. E vocês. sua corja. não mexam com ele. dizem. se apanha na escola. meus pombinhos! Comerciantes (Fazendo uma reverência. E depois. hein? Desde criança já começam com malandragem.E verdade. E ainda se dão ares de importância: é um comerciante. Ana Andréievna Ele só pensa em peixes! O que eu quero é que a nossa casa seja a melhor da capital e que tenha um tal cheiro que. não é? Seus protozoários.) Agora não é hora de palavras! Por acaso vocês sabiam que esse mesmo funcionário para quem vocês se queixaram vai se casar com minha filha? Sabiam? Hein? O que é que vocês me dizem agora? Pois agora vocês me pagam... E aí. E. paquidermes! Reclamaram. estufam a barriga e enchem os bolsos e se julgam muito importantes! Credo! Bela porcaria! Só porque engolem dezesseis samovares por dia.. Mas um nobre. protobestas quadradas. ao entrar. “Os nobres não são melhores do que nós”. acham que são muita coisa? Eu cuspo na cabeça de vocês e na sua importância! Comerciantes (Fazendo reverências. paizinho! Prefeito E então. meu Deus.. que sete diabos e uma bruxa os carreguem. quinquilheiros. mas que palavras. hein? Eucraram muito. Antón Antónovitch! . que só de olhar. não? Pois olhem aqui... seus muambeiros. vendendo uma porcaria de tecido. já aprendem logo a ludibriar. meus queridos. como vão indo as coisas? E os negócios? Então. Fazem um negócio com o governo e conseguem tapeá-lo em cem rublos. aí é que vocês. Ana Andréievna Ai. ouviram? Como vocês enganam o povo. Até o patrão lhes dá uma boa sova se vocês não souberem enganar direito.. (Fecha os olhos e cheira. dizem que lá servem cada peixe.) Somos culpados. Prefeito Ah! Sejam bem-vindos. é para o seu próprio bem.. ainda querem recompensa? Se ele soubesse disso. assim. hein? Achavam que eu ia parar na cadeia. a gente tenha até que fechar os olhos.. dá água na boca. só porque dão pra gente uns vin te metros. um nobre tem que se ilustrar.) Desejamos muita saúde.

Que as congratulações sejam.) Cena 3 Os mesmos. Quando soube.. seus canalhas. Já se esqueceu? Se eu tivesse denunciado tudo isso.) Mária Antónovna! (Aproxima-se da mão de Mária Antónovna.) Não arruine a gente.) . fiquei contente de todo o coração! (Aproxima-se da mão de Ana Andréievna.) Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão de Mária Antónovna. né? Mas e antes. me arrastariam na lama e ainda me cobririam com um tronco. poderia ter te mandado pra Sibéria. mas não se aborreça! Prefeito Não se aborreça! Agora vocês rastejam aos meus pés. hein? Sou capaz de pegar vocês e. Foi obra do diabo. Mas agora prestem bem atenção! Não vou casar minha filha com um nobre qualquer. Amos Fiódorovitch. E por quê? Porque estou por cima? Mas se fossem vocês que estivessem no meu lugar. Amós Fiódorovitch (Ainda na porta. Nunca mais vamos nos queixar.) Mária Antónovna! Rastakóvski (Entrando.. Antón Antónovitch. E que lhe dê uma numerosa descendência de netos e bisnetos! Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão de Ana Andréievna. Antón Antónovitch? Aconteceu-lhe mesmo essa ex¬traordinária felicidade? Artémi Filípovitch Tenho a honra de cumprimentá-la por toda essa felicidade..) Felicidades. Antón Antónovitch! Prefeito “Não arruine a gente!” Agora “Não arruine a gente”.) Deus que os perdoe! Já chega! Não sou rancoroso.. seu barba-de-bode.Prefeito E ainda se queixam? E quem o ajudou a trapacear quando você construiu aquela ponte e cobrou vinte mil rublos pela madeira quando não custou nem cem rublos? Fui eu que te ajudei. Artémi Filípovitch e depois Rastakóvski. Peça o que quiser. estão me entendendo? Não me venham com peixinhos secos e pãezinhos doces. Antón Antónovitch! Que Deus lhe dê uma longa vida e também ao novo casal.. (Faz um gesto com a mão. Agora.. O que é que me diz disso? Hein? Um dos Comerciantes Somos culpados perante Deus. Comerciantes (Curvando-se até o chão. vão com Deus! (Os comerciantes saem.) Será que podemos acreditar no que estão dizendo.

) Mulher de Koróbkin Felicito-a de todo o coração.) Dóbtchinski Mária Antónovna! (Beija a mão dela.Cena 4 Os mesmos. Vai passar o seu tempo de modo muito divertido. estala a língua com ar de ousadia. A senhorita será muito. Koróbkin Tenho a honra de cumprimentá-lo. dizendo: “Mária Antónovna!” Bóbtchinski e Dóbtchinski abrem passagem aos cotovelos.) Mária Antónovna! (Aproxima-se da mão de Mária Antónovna. por essa sorte.. Antón Antonovitch! Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão de Ana Andréievna. Vai passear em um vestido dourado e vai provar diferentes e refinadas sopas. Ana Andréievna. Bóbtchinski Tenho a honra de cumprimentá-lo! Dóbtchinski Antón Antónovitch! Tenho a honra de cumprimentá-lo! Bóbtchinski Por esse feliz acontecimento! Dóbtchinski Ana Andréievna! Bóbtchinski Ana Andréievna! (Ambos se aproximam ao mesmo tempo e suas testas se chocam com Liuliukóv.) Mária Antónovna! Tenho a honra de cumprimentá-la (Aproxima-se de sua mão e vira-se para os espectadores com o mesmo ar de ousadia. e depois a de Mária Antónovna. muito feliz.) Que honra tenho em felicitá-la. Liuliukóv Tenho a honra de cumprimentá-la. Ana Andréievna! (Aproxima-se da mão dela e depois.. Koróbkin com a mulher e Liuliukóv. virando-se para os espectadores. . dizendo: “Ana Andréievna!”.) Cena 5 Muitos convidados vestidos de sobrecasaca e fraque se aproximam e beijam a mão de Ana Andréievna.

o chefe de polícia e soldados. obrigado! Tenha a bondade de sentar-se. meu querido. Prefeito Senhores. chorei. Ei. E aí.) Cena 7 Os mesmos. Luká Lukítch Tenho a honra. Ana Andréievna! (Beijam-se.. juro mesmo. Mulher de Luká (Correndo à frente. Chorei. “era exatamente o que desejava Ana Andréievna. Luká. assim pequenininho (Mostra com as mãos. Luká Lukítch e a sua mulher.) Mária Antónovna. .pensei assim -. exatamente o que ela sempre quis”.Bóbtchinski (Interrompe. (Os convidados se sentam.E eu respondi: “Luká. “Ah! Meu Deus!” .) Fiquei tão contente! Disseram-me assim: “Ana Andréievna vai casar sua filha”. Michka! Traga mais cadeiras! (Os convidados se sentam.) . As lágrimas correm assim como um rio”..pensei comigo e fiquei tão contente que disse ao meu marido: “Escuta aqui.pensei comigo mesma -.) Felicidades. nem eu mesma sei.) que a gente até possa pôr na palma da mão.. Prefeito Obrigado.. um bom partido para sua filha. que até perdi a fala. tenham a bondade de sentar-se.” “Ah! Meu Deus!” . E olha só o que o destino preparou. por que você está soluçando?” . E fiquei tão contente. até soluçar. isso mesmo! E ele vai chorar assim: uá! uá! uá! Cena 6 Mais alguns convidados beijam-lhes a mão. Chefe de Polícia Tenho a honra de cumprimentar Vossa Excelência e desejar-lhe prosperidade por muitos e muitos anos. “graças a Deus!” E disse assim ao meu marido: “Estou tão empolgada que não vejo a hora de falar pessoalmente com Ana Andréievna. Luká Lukítch me disse: “Nástenka. veja só que felicidade teve Ana Andréievna! Pois é”. tenho a honra de felicitá-la! Que Deus lhe dê toda a riqueza do mundo: moedas de ouro e um filhinho deste tamanhinho.

Ana Andréievna. estou pronto a lhe vender aquele cachorro que o senhor queria. São os méritos. ele imediatamente caiu de joelhos e com aquela mesma nobreza disse: “Ana Andréievna! Não me faça infeliz! Corresponda aos meus sentimentos. “Vou me dar um tiro nos miolos. a vida não vale um níquel.. Artémi Filípovitch Nada de destino. por favor Antón Antónovitch. Prefeito Nem pensar! Agora não tenho cabeça para cachorros. (À parte. foi coisa do destino. a merecer tal honra”. não posso negar. também para você... um tiro nos miolos!”. Antón Antónovitch. Disse que ia se matar. que educação e que nobre/a! “Para mim. Mária Antónovna Juro. mãezinha. mãezinha! Mas foi pra mini que ele disse isso. Que homem maravilhoso. e quando eu quis lhe dizer: “Não nos atrevemos.. do contrário a morte vai dar cabo de minha vida”. Ana Andréievna Cale a boca.. Ana Andréievna. então não se meta nisso! “Eu. Tudo isso é apenas em homenagem às suas raras virtudes”. Falou de forma tão expressiva: “Eu. como começou tudo isso? Como se desenrolou o sucedido? Prefeito Foi tudo muito extraordinário. Ana Andréievna É claro.” E se desmanchou em lisonjas. Ana Andréievna De uma forma muito respeitosa e elegante. que foi para mim que ele disse isso. pode acreditar. Ele mesmo se dignou a fazer o pedido. tudo faço em consideração às suas qualidades”. de forma alguma.Amós Fiódorovitch Então nos conte. Muitos dos Convidados Que coisa! Amós Fiódorovitch Essa é boa! Luká Lukítch Realmente. Amós Fiódorovitch .. dizia.. meu caro. Prefeito Ele até chegou a nos assustar. Mária Antónovna Ah não.) Esse porco sempre tem uma sorte! Amós Fiódorovitch Se quiser. O destino nada tem a ver. Ana Andréievna. Você não sabe nada de nada. estou maravilhado..

no qual se destacam algumas vozes.. Prefeito E verdade. se me permitem perguntar. Rastakóvski O homem põe e Deus dispõe.Bem. devo confessar. quero muito ser general. Mas amanhã mesmo. Prefeito E sim. Ana Andréievna Foi visitar o tio para pedir a sua bênção. Para dizer a verdade. grandes travessias. é tudo provinciano demais!. se quiser. o ar aqui. Amós Fiódorovitch Para uma grande embarcação.. como estou contente com a sua felicidade! Nem pode imaginar. Além disso. confesso que.) Muito obrigado! Mas amanhã mesmo estará de volta. E muito desagradável.. meus senhores... Partiu por um dia para tratar de um assunto importante. Ana Andréievna Temos agora a intenção de morar em Petersburgo.. Murmuro conjunto. . Mulher de Koróbkin Ah! Ana Andréievna. Koróbkin Mas onde se encontra agora. Vossa Excelência..) Quero que você morra! Mulher de Koróbkin (À parte. podemos chegar a um acordo sobre um outro. (Espirra. lá o meu marido será promovido a general.. (Espirra e se ouvem num só murmuro as exclamações de “Saúde”. vai conseguir. Prefeito É isso.. se Deus quiser.) Chefe de Polícia Desejo-lhe saúde. Luká Lukítch Se Deus quiser. para pedir a bênção.) O diabo que te carregue! Prefeito Sou imensamente grato. Bóbtchinski Cem anos de vida e um saco de dinheiro! Dóbtchinski Que Deus lhe dê mil anos de boa gestão! Artémi Filípovitch (À parte. Desejo o mesmo para vocês.. o nosso ilustre hóspede? Ouvi dizer que foi embora por um motivo qualquer.

Você dá um dedinho. você está sempre pronto a prometer. mas não vai querer dar proteção a qualquer gentalha. Sempre foi assim. Cena 8 Os mesmos. Ana Andréievna Antocha.Artémi Filípovitch Honra ao mérito! Amós Fiódorovitch (À parte. por exemplo. isso ainda está bem longe. Em primeiro lugar.. não vai ter tempo de pensar nisso. Assim. já quer se meter a ser general! E sabe-se lá. que diabo. Gente bem melhor que você ainda não chegou a general. vejam só. é bem capaz de ser mesmo. levarei meu filho para a capital para servir no Estado.) Ora. Prefeito De minha parte. um acontecimento extraordinário! O funcionário que tomamos por um . uma necessidade qualquer. benzinho? Quem sabe até será possível. O chefe dos correios entra correndo com uma carta aberta nas mãos. estou pronto a não poupar esforços. Ana Andréievna É claro que é possível. Tome o lugar do pai como se ele fosse um órfão. tenha a bondade de oferecer-lhe a sua proteção. não nos deixe sem a sua proteção! Koróbkin No ano que vem.) Só falta ele conseguir ser mesmo general! Vai lhe cair tão bem quanto uma sela numa vaca! Ah! não. Pois ele dá uma de tão importante que vá pró diabo que o carregue! (Dirigindo-se ao prefeito. não se esqueça da gente. Chefe dos Correios Senhores..) E então. Mulher de Koróbkin Está vendo como ela nos trata? Uma das Convidadas Conheço essa mulher. Amós Fiódorovitch E se por acaso acontecer alguma coisa. E como é possível e por que diabo vai se encarregar de tantas promessas? Prefeito E por que não. ela quer toda a. Artémi Filípovitch (À parte. Antón Antónovitch.

sinto que não posso! Não posso resistir. Não posso. Só o diabo sabe o que ele é! Prefeito (Irritado. que frio! Minhas mãos tremiam e tudo se turvou. Fui movido por uma força sobrenatural. Prefeito Como? O que está dizendo? Que carta é essa? Chefe dos Correios Uma carta dele mesmo. Já tinha até mandado a carta ao seu destino por um portador. eu! Chefe dos Correios Aqui pra você! . Pensei comigo mesmo: “Ai. Prefeito E como pôde?. Prefeito E como é que o senhor se atreveu a abrir a carta de uma autoridade tão importante? Chefe dos Correios Pois aí é que está o negócio.) Como nem isso nem aquilo? Como ousa chamá-lo de nem isso nem aquilo e ainda por cima dizer que só o diabo sabe o que ele é? Vou mandar o senhor para a prisão. Chefe dos Correios Quem? O senhor? Prefeito Isso mesmo.inspetor não é um inspetor! Todos Como não é um inspetor? Chefe dos Correios Não é inspetor. mas senti uma tal curiosidade como nunca senti antes. de jeito nenhum. Fiquei estupefato. Olho o endereço e vejo: “Rua dos Correios”. não abra! É o teu fim!” Mas no outro era como se o demónio sussurrasse: “Abra. ouço assim: “Olha lá. quem sabe encontrou alguma irregularidade nos correios e quer notificar o diretor”. correu-me um fogo pelas veias. Soube por esta carta. E quando abri. senti um frio.. meu Deus. abra!” Quando rompi o lacre. Chefe dos Correios Eu mesmo não sei dizer. Ele não é nem autoridade nem importante coisa nenhuma! Prefeito O que o senhor acha que ele é.. Então peguei e abri.. não posso resistir! Num dos ouvidos. então? Chefe dos Correios Nem isso nem aquilo.. não posso. abra. Trouxeram-me uma carta nos correios.

” Prefeito Mas que diabo! Precisa repetir? Como se estivesse escrito só isso. tanto para a mulher como para a filha. Durante a viagem.) Bem. E agora estou hospedado na casa do prefeito. pois me parece que ela já está disposta a todos os favores.. Mas..) Leia.. sobre algumas coisas incríveis que me aconteceram.. meu caro Triapítchkin. então. É melhor eu ler a carta. “asno perfeito.) “O prefeito é um asno perfeito.. eis que de repente.) “Apresso-me a informá-lo. permitam que eu leia a carta? Todos Leia. Em primeiro lugar.” (Pára de ler. . Que gente pitoresca! Você iria morrer de rir. Chefe dos Correios (Mostra a carta. hum. por causa da minha cara e dos meus trajes petersburgueses. Todos me emprestam dinheiro ao meu bel-prazer. Apenas não decidi ainda por qual delas devo começar...Prefeito Por acaso você sabe que ele vai se casar com minha filha.. Prefeito (Lê.. sem mais aquela. leia! Chefe dos Correios (Lê..” Não pode ser! Foi o senhor mesmo que escreveu isso. Coloque essa gente em seus textos. que nada! A Sibéria está bem longe. Chefe dos Correios (Continua a ler. Chefe dos Correios Como é que eu poderia escrever? Artémi Filípovitch Leia! Chefe dos Correios (Continua a ler.) Hum. Sei que você escreve pequenos arti gos. o senhor mesmo. Senhores.. aqui ele diz coisas inconvenientes a meu respeito.” Prefeito Não pode ser! Isso não está escrito. que eu mesmo serei um magnata e que poderei despachá-lo para a Sibéria? Chefe dos Correios Ah. Acho que pela mamãezinha.) “Um asno perfeito. toda a cidade me tomou por um governador-general. Prefeito .. hum.e estou arrastando uma asinha. O chefe dos correios também é uma boa pessoa.. certa vez. Você se lembra da miséria que passamos juntos? Quando dividíamos o almoço? E como. hum. o dono de uma confeitaria me agarrou pelo colarinho por causa de uns pasteizinhos que ficaram por conta do vigário? Agora a vida mudou completamente. um capitão-de-infantaria me limpou de tal maneira que o dono da hospedaria queria me mandar para a cadeia. Antón Antónovitch! Que Sibéria. o prefeito. É um asno perfeito..

para que? Prefeito Já que está lendo.) “O chefe dos correios é a cara do Mikheiev. Com licença.. Esse canalha deve ser também um beberrão como ele”. Todos Devolva a carta. Artémi Filípovitch É pra já. Zemlianíka. (Pega a carta.. pois já está legível. Chefe dos Correios Nada disso! Tem que ler tudo! Até agora lemos tudo.) Leia a partir daqui. então leia tudo.) Koróbkin Por que parou? Artémi Filípovitch É que está meio ilegível. o contínuo do nosso departamento. é um verdadeiro .. Podemos pular esta parte..) Chefe dos Correios Leia! Leia! Que absurdo! Leia tudo. (Todos se aproximam dele..) ‘’O encarregado da assistência social.) É um malcriado que deveria levar uma boa surra. (Põe os óculos e lê. é evidente que é um canalha. (Entrega a carta.. Que diabo! Artémi Filípovitch Dêem-me licença que eu leio. Koróbkin (Lendo. acho que eu consigo. Chefe dos Correios (Aos espectadores.) Leia. juro.. Artémi Filípovitch Ler pra quê? Eu mesmo posso ler. leia! Chefe dos Correios Mas.). Além do mais.) Artémi Filípovitch (Não dá a carta. e. Artémi Filípovitch. Mais adiante estará legível.) Não. e” (Gagueja.. Koróbkin Dê-me aqui! Acho que a minha vista é melhor. Artémi Filípovitch (Continua a ler.Não senhor. e..) “O encarregado da assistência social. devolva a carta! (A Koróbkin.. E mais nada. Koróbkin Com licença. (Cobre com o dedo.

vou começar a fazer literatura. Amós Fiódorovitch Só o diabo sabe o que isso significa! Se for vigarista. é muito chata. casa n° 97.) “O juiz Liápkin-Tiápkin é a quinta-essência do mauvais ton” (Interrompe. meu caro Triapítchkin. pelo menos. Afinal a gente precisa de um alimento para a alma. Nada mais.) “De resto.. Tragam-no de volta! De volta! (Gesticula.porco com gorro. morto.) “O inspetor de escola parece encharcado de cebola. o povo aqui é hospitaleiro e bonachão.) “O juiz.) Deve ser urna palavra francesa. Amós Fiódorovitch (Á parte. mas vai ver que é coisa ainda pior.) Juro por Deus que eu nunca pus um pedaço de cebola na boca. mano.) Graças a Deus que. Adeus. como você. acho que a carta é muito longa. (Vira a carta e lê o endereço. aldeia de Podkatílovka”.. entrando no pátio..) Ao ilustríssimo senhor Ivan Vassílievitch Triapítchkin.) Meus senhores. Koróbkin (Continuando a ler.” Amós Fiódorovitch Essa não! (Em voz alta.) Chefe dos Correios .) Não tem a menor graça! Porco com gorro! Onde já se viu um porco com gorro? Koróbkin (Continua a ler. à direita. Uma das Damas Que chose desagradável! Prefeito Apunhalou-me pelas costas! Estou morto. Rua do Correio.” Artémi Filípovitch (Aos espectadores. Compreendo agora que a gente tem que se preocupar com algo mais elevado. Koróbkin (Lê. A vida assim. São Petersburgo. ainda vai. Eu também. Escreva para a província de Sarátov. terceiro andar. completamente morto! Não consigo ver nada. não fala nada de mim. Que vá pró inferno! Para que ler toda essa porcaria? Luká Lukítch Nada disso! Chefe dos Correios Não senhor! Leia! Koróbkin (Continua. Só vejo focinhos de porcos em lugar de caras.” Luká Lukítch (Aos espectadores..

Piótr Ivánovitch e eu. Prefeito (Num repente de cólera. é mesmo uma confusão sem igual! Amós Fiódorovitch E eu então. (Furioso. É assim mesmo. reduzir todos a pó e mandar vocês pró fundo do inferno! Bem juntinho do demo!. Amós Fiódorovitch (Abre os braços em gesto de perplexidade. esses escrevinhadores de nada.) Ah! Seu narigudo! Tomou aquele nadinha. muito mais do que isso.) E eu também! Trezentos rublos! Bóbtchinski Da gente.. arrasei com todos eles. meus senhores. foram sessenta e cinco em papel. malditos liberais! Filhos do diabo! Queria dar um nó em vocês todos. quando Deus quer nos castigar.) Ainda não consigo me acalmar. Mas o que .) Só governadores não. que vai nos meter numa comédia! Isso é que é duro! Não vai levar em consideração nem o meu cargo. velho idiota! (Ameaça a si com o próprio punho. E ainda por cima...) E eu? Comigo? Velho bobo! Como pude perder a razão.) Todos esses rabiscadores de papel.) Comprometido! Comprometido uma ova! Que comprometido que nada! Está me jogando na cara o compromisso! (Fora de si. por uma personalidade importante! Agora lá vai ele pêlos caminhos fazendo alarde! Vai contar pra todo mundo essa história. (Gesticula..Que trazer de volta nada! Eu mesmo. Trinta anos de serviço e nenhum comerciante. nem minha posição e todos vão rir às gargalhadas e bater palmas. até parece de propósito. vai cair nas mãos de um escrevinhador qualquer. sou burro como um porta!. Governadores. Chefe dos Correios (Suspirando. Consegui enganar vigaristas e mais vigaristas.. mandei que lhe dessem a melhor tróica e o diabo ainda me fez lhe dar toda a papelada para poder seguir em frente. Mulher de Koróbkin Isso é demais.. Os maiores espertalhões e os maiores trapaceiros. Ana Andréievna Mas não pode ser. Ah! Vocês!.... senhores? Como é que fomos cair nessa? Prefeito (Batendo na testa. Antocha.. (Mexe os punhos e bate com um tacão no chão.) Mas como pode. Enganei três governadores!.. Ele está comprometido com Máchenka. Depois de uma breve pausa.. bate com os pés no chão.. um rabiscador de papéis. desses que roubam meio mundo. Do que estão rindo? Estão rindo de si mesmos!. de bobo. nenhum negociante foi capaz de me passar a perna. aquele trapo. primeiro nos tira a razão.) Vejam só! Vejam todos! Todos os cristãos! Vejam como o prefeito passou por idiota! Foi feito de bobo. além da gente passar por palhaço. sim senhor.. que lhe emprestei trezentos rublos? Que vá pró inferno! Artémi Filípovitch Eu também morri com trezentos rublos.

pois foi você que primeiro. seus tagarelas desgraçados! Amós Fiódorovitch Porcalhões malditos! Luká Lukítch Seus patetas! Artémi Filípovitch Seus barrigudos miseráveis! (Todos os cercam. o primeiro foi você. nada.tinha de inspetor naquele espertinho? Nada. Vieram correndo como uns loucos da hospedaria. “Ele chegou. ele chegou e não quer pagar.” Encontraram o figurão! Prefeito É óbvio que foram vocês! Seus fofoqueiros! Mentirosos de uma figa! Artémi Filípovitch O diabo que os carregue com o seu inspetor e suas histórias. . inspetor pra cá! Quem foi o primeiro a espalhar que ele era um inspetor? Respondam! Artémi Filípovitch (Abrindo os braços. Bóbtchinski Ora. Dóbtchinski Ah! Não. sim senhores! Luká Lukítch Claro que sim. E como uma neblina que nos cega... não senhor. Artémi Filípovitch Foram vocês.) Nem que me matem consigo entender como foi que tudo isso aconteceu.. nem pensei. matracas malditas! Só fazem mexericos.) Bóbtchinski Juro por Deus que não fui eu! Foi Piótr Ivánovitch.) Bóbtchinski Ei. espere aí! Eu não.. Parece coisa do demónio. Dóbtchinski Eu não fiz nada. nada.. Nem um tiquinho de nada... Piótr Ivánovitch.. Prefeito Só sabem zanzar pela cidade para encher a paciência de todo mundo. todos começaram: inspetor pra lá. E de repente. Amós Fiódorovitch Pois sabem quem foi que espalhou? Está aqui quem espalhou: esses dois espertinhos! (Aponta para Dóbtchinski e Bóbtchinski.

o chefe dos correios como que transformado num ponto de interrogação dirigido aos espectadores. bem na extremidade. Os demais convidados ficam imóveis como postes. bocas abertas e olhos arregalados. Cai o pano. com um movimento de corpo em direção a ele. Atrás dele. Oficial Acaba de chegar de São Petersburgo um funcionário por ordem do czar. Gagarin e Justus. com a mais satírica expressão no rosto. O grupo. com a cabeça um pouco inclinada para o lado. Koróbkin. que pisca um olho para os espectadores numa alusão sarcástica ao prefeito. é o fim do mundo!” Atrás dele. vejam só. Atrás dele.) Cena Muda O prefeito fica parado. . Ele ordena que o senhor se apresente agora mesmo. (As palavras pronunciadas atingem todos como um trovão. os braços abertos e a cabeça inclinada para trás. que utilizou papel Old Natural 89 e 176 g/m2 fabricado pela Finepapers.Última Cena Os mesmos e um oficial. À esquerda do prefeito. desnorteado. petrificado. De repente. À sua direita estão sua esposa e sua filha. o juiz com os braços abertos. com aspecto um tanto ingénuo. todo o grupo muda de posição e fica como que petrificado. O projeto deste livro foi realizado utilizando-se as famílias tipográficas The Serif. agachado quase até o chão e com um movimento nos lábios como se quisesse assobiar ou exclamar: “Ora. como um poste. apoiadas umas nas outras. atrás dele. Atrás delas. no centro. Uma exclamação de assombro ecoa de uma só vez da boca das mulheres. Zemlianíka. dirigida à família do prefeito. permanece nessa posição por quase um minuto e meio. estão três senhoras convidadas. A impressão digital ficou a cargo da Áster Graf. atrás dele. na extremidade do palco. como se estivesse ouvindo alguma coisa. estão Dóbtchinski e Bóbtchisnki com os braços estendidos um para o outro. Ele está hospedado no hotel. Luká Lukítch.

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