São dois dias de debates no auditório Barthos do Media Lab. No primeiro, a perspectiva dos jornais.

DanGilmor é o primeiro jornalista com origem na indústria tradicional a escrever um trabalho de fôlego sobre as consequências da quebra da barreira entre consumidor e produtor – We the Media. No segundo, a perspectiva da rede. Yoachi Benkler, da Universidade de Yale, e Henry Jenkins, do MIT. Mergulharam no network.

O surgimento da mídia cidadã
Terça-feira, 19 de setembro 17-19:00 h Bartos Theater – Media Lab Resumo Jornalistas da imprensa, críticos da mídia e visionários digitais discutem as atuais transformações e o aparente declínio dos jornais americanos. Tópicos a serem abordados: o envelhecimento do leitor de jornal, o surgimento da mídia cidadã e da blogosfera, o destino do noticiário local e do jornal local, e as notícias e informações em um futuro em rede. Este debate é parte de uma série de fóruns que discutem a pergunta: Os jornais sobreviverão? Também fazem parte desta série: News, Information and the Wealth of Networks (21 de setembro), Why Newspapers Matter (5 de outubro). Co-patrocinador da série: Ethics and Excellence in Journalism Foundation

Oradores
Alex Beam é colunista do jornal Boston Globe. Ellen Foley é editora do jornal Wisconsin State Journal. Anteriormente, foi editora gerente do jornal Philadelphia Daily News, editor gerente assistente de destaques no jornal Kansas City Star, e reporter, editora de pauta e editora de texto do Minneapolis Star Tribune. Antes disso, ocupou cargos similares nos jornais Milwaukee Sentinel e Detroit News. Dan Gillmor é fundador e diretor do Center for Citizen Media e autor do livro We the Media: Grassroots Journalism by the People, for the People (2004). Anteriormente, Gillmor foi colunista do San Jose Mercury News, o jornal diário do Vale do Silício na Califórnia, e trabalhou por seis anos no jornal Detroit Free Press. Resumo preparado por Marie Thibault Dan Gillmor: É uma grande honra estar aqui para falar do crescimento da mídia cidadã e daquilo que espero será um ecossistema de jornalismo vibrante, crescente e diverso. Espero que os jornais sobrevivam – seria uma tragédia se não o conseguirem, porque o que eles fazem é muito importante. Todo este processo tem a ver com a mídia democratizada e ampla participação, porque está aberto a muitas pessoas. Por exemplo, este computador inclui software para edição de vídeo, além de recursos comparáveis a um estúdio de gravação de som. Quando a Web (teia em rede global) é acrescentada a estes recursos, existe um acesso poderoso. Tem a ver menos com distribuição de mídia, e mais com a

capacidade de ter acesso a muitos diferentes tipos de mídia. A mudança fundamental que está ocorrendo é que consumidores agora são produtores, e vice-versa.
Junto com isso, nós agora temos a 'leia-escreva' Web que permite às pessoas a escrever com facilidade na própria Web.

O jornalismo tem sido uma palestra – nós passamos as notícias para vocês, e vocês acreditam ou não. O processo agora está tornando-se algo parecido com um diálogo; e a primeira regra do diálogo é ouvir. Os jornalistas não têm sido especialmente habilidosos neste aspecto, embora na época que eu escrevia sobre tecnologia no Vale do Silício, na Califórnia, em meados dos anos 90, rapidamente tomei consciência que meus leitores sabiam mais que eu. Isto, em si, não é ruim; representa uma oportunidade para fazer um jornalismo melhor. A democratização do acesso à mídia significa que o público agora possui muitas opções. Nas eleições de 2000, eu estava em Hong Kong. Constatei que estava obtendo melhores notícias navegando em diferentes sítios da rede, que alguém assistindo televisão nos EUA, porque eu conseguia criar minha própria perspectiva jornalística. Isso é algo chamado “O Diário Eu” ('Daily Me'). Esta forma de obtenção de notícias significa que a cada dia que passa, é mais difícil manter segredos. Governos e empresas tentam restringir o acesso, mas as informações acabam vazando. Os construtores de notícias (newsmakers) têm novas regras de conduta, porque possuem as mesmas ferramentas e o mesmo acesso que nós temos, e, espera-se, usem essas ferramentas para tornarem-se mais transparentes. A mídia tradicional está repleta de profissionais muito inteligentes, assustados ao ponto de fazer coisas bem interessantes. Os jornais deveriam querer ser a “praça pública”, e envolver toda a comunidade. Por exemplo, o Le Monde oferece blogs a seus leitores e publica os melhores em seu próprio sítio; alguns chegam a ser pagos. O Northwest Voice, da cidade de Bakersfield, na Califórnia, está incluindo conteúdo hiper-local e está obtendo muito sucesso. Logicamente, se os jornais não começarem a fazer isso, outros vão. Existe um sítio sediado em Brattleboro, no estado de Vermont, que muitas vezes sai à frente do jornal local nos assuntos mais importantes, porque o jornal local não é controlado por uma empresa muito ligada em jornalismo. A ameaça que deveria estar causando mais preocupação aos jornalistas não é uma ameaça jornalística – é econômica. A receita publicitária está migrando rapidamente para sites como craigslist e eBay, que, se pararmos para pensar, é a maior estrutura de anúncios classificados do mundo. O Craig por trás do craigslist é amigo meu, e está bastante preocupado com o que está acontecendo; ele está fazendo o que pode para promover bom jornalismo. A publicação on-line Oh My News, de Seul, na Coréia, também é muito fascinante. Conta com 40 mil jornalistas cidadãos em toda a Coréia, que concordaram em publicar notas nesse sítio. Possuem editores profissionais que editam os textos a serem publicados, de forma que é uma estrutura híbrida. É um experimento maravilhoso. Acabaram de lançar o Oh My News no Japão e pretendem lançar um projeto ambicioso nos EUA. Organizações estão perguntando ao público o que ele sabe sobre as coisas. Esta é a imagem canônica que ficou das explosões ocorridas em Londres em julho do ano passado. É desta imagem que vamos lembrar sempre, a péssima qualidade da imagem, a ausência total de produção, feita por uma câmera de telefone celular, por uma pessoa que jamais sonhou ser jornalista, mas que cometeu o que eu chamo de “Um Ato de Jornalismo Aleatório”. Mas as pessoas já fizeram isto antes. Esta câmera registrou uma das mais famosas imagens de mídia cidadã na história – o assassinato do Presidente Kennedy. Quero que pensem em um mundo mudado. Havia uma pessoa, munida de uma câmera, fotografando a cena. Atualmente não é apenas uma – são milhares, todas obtendo imagens de alta qualidade e todas conectadas à rede. Esta é uma enorme diferença. Atualmente, sabemos mais. Imaginem se as pessoas a bordo dos aviões naquele 11 de Setembro estivessem

chamando outras pessoas, e enviando vídeos, através de seus telefones celulares? Não tenho certeza o que isto significará, exceto que é diferente e que precisamos entendê-lo. O conceito da Web 2.0, de reunir material de vários sítios e serviços, está criando coisas bastante interessantes, como um modelo de micro-publicação. Sítios e vídeos mashup, que combinam conteúdo de mais de uma fonte em uma experiência integrada, são algo que as gerações mais jovens acham bastante natural. Mal posso esperar para ver no que isso vai dar. É verdade, recebemos um excesso de informações e precisamos encontrar formas de trazer para à tona as notícias mais importantes, se realmente nos importamos com o jornalismo. Estamos indo do Daily Me para o Daily Us e é muito importante pensarmos como é a melhor forma de fazer isso. Você te que pensar em reputação, popularidade e autenticidade para que possamos chegar a algo que tenha valor, mas ainda não chegamos lá. Existem algums princípios que devem ser considerados pelos bloggers. A transparência não é uma coisa muito comum, no antigo ou no novo jornalismo. Todos nós somos repórteres em nossa vida diária, quando se trata de coisas que nos são importantes. A crítica se tornou parte de nossas conversas do dia-a-dia, e isto será assustador para o jornalista tradicional. Mas esta nova literatura da mídia tem que ser incorporada pelo jornalista tradicional. Ellen Foley: Estou emocionada de estar aqui sentada entre dois grandes nomes do jornalismo. Sou editora de um jornal em uma cidade bem no meio dos EUA, e nós estamos muitíssimo envolvidos e interessados na nova mídia e naquilo que nossos leitores têm a dizer. No meio-oeste americano, estamos preocupados em ser bons vizinhos e emular isso para o nosso jornalismo. Isso pode ter nos levado à frente de outros jornais que vocês devem ter ouvido falar. Não estou preocupada com o futuro dos jornais. Estou preocupada com o futuro do jornalismo. Estou cansada de ouvir que não nos importamos com nossos leitores, de pessoas que não fazem parte do mundo dos jornais. Respondo todos os e-mails dos leitores. Quando ainda era uma repórter foca, havia a consciência que deveríamos contar aos nossos leitores aquilo que eles precisavam, mas frequentemente isso era deixado de lado. É nosso papel compartilhar as informações, oferecendo não apenas aquilo que acreditamos nossos leitores precisem, mas também aquilo que eles querem. Portanto, recomendo cautela com aqueles que afirmam que não damos ouvidos a nossos leitores. Existe atualmente uma certa tensão entre a tecnologia dos jornais – lenta e ponderada – e a tecnologia da Iinternet – rápida e conveniente. Tenho um pé em cada um deste mundos. Nosso jornal está valorizando as notícias da Internet, mas existe tensão entre as gerações. Temos o problema de recursos limitados, mas vamos destrinchar este novo modelo de negócios. Entre os interessantes modelos que surgiram recentemente, está jellyfish.com, um grupo muito interessante, que o Wall Street Journal chamou de o novo Google. Meu jornal tem de trabalhar dentro de seu orçamento, mas estamos trabalhando com a nova mídia e sendo reconhecidos por este esforço. A cada dia, fazemos uma votação em nosso sítio, para permitir que os participantes decidam o que vai ser publicado na primeira página. (outro integrante da mesa-redonda, Alex Beam, ri com bom humor). Surpreendentemente, optam por temas com mais peso, preferindo uma matéria sobre um oleoduto da British Petroleum a outra falando sobre Paris Hilton. Os leitores são inteligentes. Já sabemos disto há algum tempo, e queremos e precisamos ouvir o que eles têm a nos dizer. Mais uma vez, a missão do jornalista é contar a verdade. Tenho martelado esta idéia com os redatores de nosso jornal. Jamie Thompson, um pioneiro da pesquisa de células tronco, evitava falar com a imprensa, temendo que suas palavras fossem distorcidas. Para ouvirmos o que ele tinha a dizer,

utilizamos um gravador digital, para captar exatamente suas próprias palavras. Os jornais têm também a missão de fazer a diferença. Nós criamos uma conversação com a comunidade. Em 2004, 81% das pessoas de nossa região votaram nas eleições presidenciais, cerca de 30% maior que a média do país. Valores e questões controversas vêm à tona através destas conversações, de forma que seria uma coisa muito triste esta conversação deixar de existir. Não sei exatamente como os jovens poderão governar-se sem esta conversação. Espero que parte do dinheiro criado pela tecnologia do século 21 seja utilizada para estimular o bom jornalismo. Alex Beam: Peço desculpas por ter rido, mas lembrei de algo que havia lido sobre a sabedoria das multidões. Em partidas de xadrez entre leitores de jornal e campeões soviéticos, leitores sempre escolhiam os lances mais óbvios, perdendo rapidamente. Ellen, qual é a penetração do Wisconsin State Journal dentro do perímetro urbano da cidade de Madison? Foley: Nós temos cerca de 30% de participação em assinaturas e cerca de 83% entre leitores. Muitos leitores estão compartilhando o jornal. Beam: O jornal New York Times é lido em apenas 1/9 dos lares de Manhattan, uma das penetrações mais baixas em todo o país; por outro lado, é lido em todo o país. No Boston Globe, controlado pelo New York Times, é difícil decidir se cobrimos assuntos nacionais ou locais. É uma posição difícil – cobrir a escola do bairro ou o Oriente Médio. O Boston Globe Web já foi considerado por Bill Gates como sendo um dos melhores dos EUA, mas atualmente é uma confusão. Acredito que o Wall Street Journal e o New York Times possuem sítios muito bons na Web. Além disso, o New York Times possui o que eles chamam de Times Select, que limita o acesso a determinadas matérias a apenas assinantes pagantes. Não há nada de errado em especial com nosso conteúdo, mas cobrar acesso para uma coluna é um modelo de negócios complicado. Na verdade, tenho inveja do New York Times. Há cerca de um ano, o Boston Globe estava pronto para cobrar acesso às matérias do famoso time de baseball local, o Red Sox, porque havia fãs deste time em todas as partes dos EUA. Não sei porque acabamos desistindo da idéia. Os jornais sobreviverão? Há cerca de 15 anos, eu estava conversando com Ellen Goodman, e ela zombava de um filme que havia dito “Teremos menos leitores, mas melhores”. Sou um pouco cético em relação aos 'jornalista cidadão', mas sempre estive interessado nos meus leitores. Roubo idéias deles e eles corrigem meus pontos de vista. Recentemente, a Yahoo contratou um talentoso vídeo reporter e produziu algumas matérias interessantes, portanto eu os parabenizo. Mas, francamente, a idéia que o fundador do craigslist, Craig Newmark, tem do jornalismo não é fantasticamente interessante. Pode ser aceitável ter a palavra direta de um pioneiro na pesquisa de células tronco, mas ter a mídia direta, sem mediações, de um mentiroso é bem diferente de ouvir as palavras de alguém academicamente honesto. Este é um momento de transição e, na minha opinião, ainda não equilibramos muito bem o peso dos leitores e dos profissionais. David Thorburn: Alguns dados do setor de jornais indicam que em 25 ou 30 anos não haverá mais ninguém que queira ler jornais. Ellen, você poderia falar um pouco mais sobre os novos modelos de negócios que estão surgindo? Foley: Um grupo denominado Newspaper Next passou um ano pesquisando novos modelos de negócios, e em breve eles revelarão suas conclusões. Cerca de 20% de nossa receita vêm de circulação, enquanto que os outros 80% vêm de publicidade veiculada no jornal e no sítio na Web. Para a maioria dos jornais, a Web gera cerca de 5% da receita, ao mesmo tempo que as edições de

domingo são responsáveis por 95% da receita. A vaca leiteira dos jornais dominicais está sendo ordenhada enquanto os jornais fazem a transição para a nova era. As pessoas que administram a indústria dos jornais querem ganhar dinheiro, embora espera-se que este não seja seu único objetivo. Infelizmente, eles vêem a Web como uma oportunidade de ganhar mais dinheiro. Sua forma de “estoque” é meramente ter mais coisas on-line. A credibilidade das informações será a principal vantagem competitiva dos jornais. Não estamos dando a devida atenção a isso porque estamos dando mais atenção ao espaço publicitário. Alguns modelos de negócios, como o craigslist ou o jellyfish.com oferecem conteúdo, mas não credibilidade. Precisamos manter a vaca leiteira viva enquanto fazemos essa mudança, mas não sei qual será o novo modelo de negócios. Gillmor: A má notícia é que a vaca leiteira morreu. Nos últimos 50 anos, os jornais foram monopólios que ganharam muito dinheiro, e o mercado financeiro de Wall Street exige um aumento nessa receita. Negócios baseados na Web são ágeis, famintos e estão dispostos a sobreviver com margens menores. O jornalismo seria uma distração ridícula para estes negócios. Estes negócios estão roubando anunciantes, que são nossos verdadeiros clientes, do ponto de vista econômico. Thorburn: Portanto, Dan, o seu recado é que a base econômica dos jornais está desaparecendo. Os jornais sobreviverão este processo? Foley: Não penso que esteja acontecendo no ritmo que Dan acredita. Os jornais estão entendendo a situação, e estão criando conteúdo apenas, exclusivo para a Internet. Beam: É interessante notar que a Rede Pública de Rádio (NPR) acaba de sofrer uma queda no número de ouvintes pela primeira vez em anos. Assim como os jornais dominicais, não podem perder as gerações mais velhas, porque estas são as que doam a maior parte dos recursos. Assim, a Chicago Public Radio abriu mais uma estação de rádio pública. Seria bom se os jornais pudessem fazer isto. Foley: Mas podemos fazer isto. Temos a tecnologia da 'ink-on-paper' (papel eletrônico) e temos a Web. Gillmor: Já condicionamos as pessoas a acreditar que as notícias são gratuitas. Porque não ir até o fim? Público: Já pensaram em utilizar quadrinhos para aumentar a receita? Foley: Já pensamos nisto, mas o problema é que não é suficiente para pagar todo o mundo na redação. Quando tiramos do jornal as cotações da bolsa de valores, cerca de 60 pessoas reclamaram. Por outro lado, quando nosso editor de destaques substituiu as palavras cruzadas por Sudoku, em apenas um dia recebemos cerca de 1.000 telefonemas e e-mails. Não é preciso dizer que, no dia seguinte, as palavras cruzadas estavam de volta. Acredito que jornais devam ser uma pausa divertida em nosso dia-a-dia. Embora os quadrinhos sejam uma ótima idéia, na verdade são muito caros. Mesmo aumentando o espaço para quadrinhos em preto e branco significa que alguma matéria do caderno de negócios, ou do noticiário nacional ou internacional, terá de ser eliminada.Não estamos considerando aumentar o espaço de quadrinhos para ampliar o número de nossos leitores. Público: Sou da Alemanha e, em minha opinião, os jornais europeus tendem a ter matérias mais educativas que os jornais americanos. Em vez de de tentar alcançar aquilo que seus leitores querem, já pensaram em tentar ampliar seus horizontes? Um dos aspectos positivos de reunir informações na Web é que são obtidos pontos de vista muito variados.

Gillmor: Os jornais na Web precisam apontar para fora de seu próprio domínio mais do que fazem agora. Se os jornais encaminham as pessoas para algo bom, elas tendem a voltar. Foley: Sítios e jornais precisam dar aos leitores o que eles precisam. Jornais europeus possuem muitas vozes, de muitos lugares diferentes, mas acredito que, nesse processo, perde-se um senso comunitário, que é muito importante para os jornais americanos. Público: Quanto passará dos jornais para a mídia virtual? Não acredito que jornalismo sem intervenções algum dia substituirá totalmente o jornalismo tradicional, porque a imprensa traz algum valor além daquilo que é obtido gratuitamente. Vocês poderiam comentar estes dois aspectos relacionados, porém independentes? Beam: Ainda não achei o preço final que pode ser cobrado por uma opinião ou uma experiência de mediação. Já vimos extraordinários exemplos de jornalismo sem mediação, como aquele vídeo do tsunami, mas ainda estamos tentando nos achar. O New York Times publica e cobra pelo acesso a matérias de opinião, que são uma combinação de atitude e análise, mas existe muito temor com relação a quanto podemos cobrar por tal conteúdo. Thorburn: Os membros de Times Select também têm acesso aos arquivos do New York Times, que pode ser algo que as pessoas estejam dispostas a pagar, de qualquer forma. Foley: A 'família' do New York Times prefere a abordagem da verificação, em vez da afirmação; e estas matérias com acesso restrito são do tipo afirmação. Os redatores de opinião do New York Times dependem de fatos verificáveis, algo que alguns bloggers não fazem. Os jornais, em seu formato físico, são úteis por vários motivos, além de informações. São portáteis e fáceis de ler, mas realmente não sei por quanto tempo ainda estaremos interessados na antiga tecnologia do jornal. Thorburn: Livros, uma grande forma de tecnologia antiga, ainda são preferidos pela sua facilidade de uso e portabilidade. Ainda demorará muito até que esta conveniência possa ser encontrada nos jornais on-line. Gillmor: Não sei exatamente quando os jornais on-line serão flexíveis e portáteis, mas algum dia isto acontecerá. Fico incomodado pelo fato de bloggers escreverem opiniões sem basear-se em fatos confiáveis. Contudo, alguns bloggers utilizam mais fatos que os redatores das mídias tradicionais. Logicamente, esses bloggers possuem conhecimento em um campo bastante específico, mas escrevem para leigos, não para outros especialistas. Público: Leio o Boston Globe apenas aos domingos, e não compro jornais em busca da verdade. Seria melhor se os jornalistas parassem de buscar a verdade e procurassem ser mais precisos e verificáveis. Beam: Não uso a palavra “verdade”. Busco acurácia. Gillmor: Quando leio um artigo no jornal, meu nível de ceticismo é menor que quando leio um blog. Contudo, gostaria que os jornais respondessem com mais freqüência “isto é balela”, quando um entrevistado fala determinada mentira. O medidor de asneiras de um jornalista precisa estar ajustado em níveis diferentes para cada entrevista. Foley: Gostaria de contar uma estória, para ilustrar este ponto. O candidato da oposição na corrida ao

governo do estado do Wisconsin é contra a pesquisa com células tronco. Ele declarou que doaria US$25 milhões para o esforço de criar células tronco sem utilizar células de um embrião. Não há ninguém fazendo este tipo de pesquisa. Simplesmente não é possível atualmente. Foi um argumento totalmente infundado. O jornalismo costumava ser muito ele disse, ela disse. Colocar o contexto num artigo é algo que estamos trabalhando duro para fazer. Público: Por que a maior parte dos jornais atualmente permite livre acesso a seu conteúdo na Web e cobra pelas edições impressas? Então cobram pelo acesso ao mesmo conteúdo on-line no dia seguinte. Beam: Não sei se algum de nós aqui sabe a resposta a esta pergunta, porque demanda uma análise de negócios sofisticada; mas talvez seja a forma de ganhar mais dinheiro. Gillmor: Este é um grande centro de lucros para o New York Times; contudo, para jornais mais regionais, se cada artigo em seus arquivos tivesse um permalink, eles subiriam nos rankings to Google e aumentariam sua receita. Não acredito que muitos jornais se dariam mal seguindo este caminho. Público (continuação): A minha sugestão é cobrar pelo conteúdo do dia na Web e deixá-lo disponível a partir do dia seguinte. Arquivar artigos deixa o trabalho dos redatores desnecessariamente inacessível. Gillmor: A presença repetida de um jornal nas buscas da Web, na qualidade de uma voz de autoridade e de história, deve ter mais valor que a cobrança pelo material em arquivo. Os jornais regionais e locais deveriam tirar proveito disto. Foley: Em nome dos jornais regionais do país, posso dizer que um dos nossos maiores problemas atualmente é que as edições em arquivo estão em microfilme, não on-line. Custaria para nós mais de um milhão de dólares para digitalizar nossos arquivos. É difícil eu tentar convencer nosso editor chefe dessa necessidade, quando ele está tentando ganhar dinheiro e equilibrar as contas. Público: Sou um repórter de jornal, e gostaria de saber se a concentração em notícias hiper-locais irá salvar os jornais? Foley: Isto nos leva de volta a dar às pessoas aquilo que elas querem e precisam. As pessoas fora das grandes áreas metropolitanas querem notícias locais, mas é caro para os jornais metropolitanos equilibrar essas notícias locais com a cobertura da cidade. Jornais comunitários semanais estão ganhando dos grandes jornais metropolitanos porque oferecem notícias locais. O Wisconsin State Journal está utilizando páginas comunitárias na Web para publicar as informações geradas pelos cidadãos. Na cidade de Fort Meyers, existe um jornal que conta com jornalistas móveis, apelidados de mojos, que escrevem blogs sobre qualquer coisa, de jantares paroquiais a acidentes de trânsito. Não fica muito claro se essas informações são confirmáveis, mas possivelmente é o futuro de nosso negócio. Público: Estou estudando jornalismo e gostaria de saber o que vocês acham que as faculdades de jornalismo deveriam estar ensinando a seus alunos. Foley: Tenho mestrado em jornalismo da Universidade de Wisconsin, mas nada daquilo que sei sobre jornalismo aprendi na escola. Aprendi jornalismo trabalhando, com a ajuda de mentores e patrões. Gillmor: Acredito que as melhores faculdades de jornalismo oferecem uma excelente formação em

ciências humanas. Os estudantes deveriam sair da faculdade dispostos a desafiar premissas, fazer perguntas, e ser muito curiosos. Qualquer pessoa pode aprender a escrever uma matéria e entender a ética do negócio, mas todos os jornalistas deveriam estar ansiosos para ter um diálogo com seus leitores. Beam: Para mim, foi emocionante ir trabalhar para um jornal diário, porque as pessoas de fato lêem aquilo que você escreve. Foi fantástico aprender o que realmente é o jornalismo aos 32 anos. Basta você ir trabalhar para o Cape Cod Times, e você saberá tudo sobre jornalismo em duas semanas. Público: Vamos assumir que os jornais não sobreviverão. Qual será o prejuízo ao público ou à nossa democracia, e como podemos medir tal prejuízo? Os cidadãos realmente ficarão menos informados? Em 1992, cerca de 47% dos adultos tinham dificuldade em ler. Estes números não melhoraram nos últimos 13 anos. Se os jornais sobreviverem, como eles serão em cinco a dez anos? Quais serão as suas qualidades? Gostaria, também, de fazer uma observação sobre o Times Select. Ao restringir acesso a uma opinião de qualidade, a capacidade de um colunista alcançar e persuadir uma audiência mais ampla será limitada, ao estabelecer um viés de classe social. Gillmor: Já existe um viés de classe social nos jornais, porque eles estão voltados aos dois quintos superiores da população. A sobrevivência do jornal nada fará para a população que integra os três quintos inferiores. Foley: Encontramos a mesma situação na Web por causa da 'dívida digital' As famílias mais pobres não têm dinheiro para comprar as tecnologias que lhes darão acesso a essas informações. Gillmor: Assumo que esses equipamentos ficarão acessíveis a todos, algum dia. Mas o problema maior é que não estamos educando as crianças em nosso país. A mídia tradicional não está interessada em qualquer pessoa abaixo daqueles dois quintos superiores da população, porque os anunciantes também não estão interessados nesses segmentos. Seria trágico se o que os jornais fazem desaparecesse e acredito que isso não vai acontecer. Foley: Somos uma mídia com ampla base, e criamos uma conversa que é muito benéfica a nossa comunidade. Se desaparecermos, isso também será perdido. Audiocast An audio recording of The Emergence of Citizens' Media is now available. In order to listen to the archived audiocast, you can install RealOne Player. A free download is available at http://www.real.com/realone/index.html . Webcast A webcast of The Emergence of Citizens' Media will be made available by MIT

MIT Communications Forum – News, Information and the Wealth of Networks – 9.21 A segunda das três mesas redondas que abordam o tema “Os jornais sobreviverão?” foi muito maior e mais teórica que a primeira. Contou com a participação de Yoachi Benkler, da Universidade de Yale, e Henry Jenkins, do MIT.

Benkler leciona direito de comunicação e informação, e é autor do livro A Riqueza das Redes: Como a Produção Social Transforma Mercados e Liberdade. Jenkins é co-diretor de estudos comparativos de mídia, e professor de ciências humanas da Cadeira Peter de Florez. É também autor do livro Cultura da Convergência: Onde a Mídia Antiga e Nova se Cruzam. Após as apresentações feitas por David Thornburn and William Uricchio (ambos do MIT), os dois oradores abordaram as questões de mídia, mudança da sociedade, e os perigos do statu quo. As anotações abaixo são apenas a minha tentativa de capturar o espírito da discussão, e não são citações diretas dos participantes. Os podcast e vidcast do evento estarão oportunamente disponíveis no endereço http://web.mit.edu/commforum/forums/news_and_networks.html. Benkler iniciou a conversa lembrando do crescimento do negócio do jornal em meados do século 19, e como a criação de um setor de mídia capital intensivo abriu uma brecha entre os produtores profissionais (comerciais) e os consumidores passivos. Ele então pulou para os dias atuais, destacando que a disponibilidade do processamento de dados – e sua distribuição – mudaram o statu quo. Ele ilustrou este último ponto mostrando a capacidade de processamento de vários super-computadores, para então compará-los ao poder de processamento conjunto oferecido pelo projeto SETI@home. Para ele, este fato ilustra a radical descentralização da capitalização e o poder dos recursos conjuntos, em inglês pooled peer resources. Estes mesmos fatores também estão permitindo que as pessoas participem ativamente do processo de criar comunicação através da computação. Isto levou à produção comum, no sentido de produção conjunta, que não possui limites nas contribuições, nos resultados, ou nos indivíduos – tudo isto sem a interferência da mídia comercial. Os indivíduos agora possuem a capacidade e a autoridade de agir. Outro resultado deste processo é a produção entre pares – que é uma cooperação em larga escala, praticamente sem gerenciamento. Alguns dos exemples que ele apresentou incluiram os softwares livres (em especial Sourceforge.com), os Mars Clickworkers e a Wikipedia. A mídia tradicional reconhece a ameaça e a realidade apresentada pela produção conjunta, e busca avidamente conteúdo novo baseado em produção social. A mídia tradicional sabe que a produção social é um fato, não apenas uma moda; sabe também que pode ser mais eficiente na produção de informações que os modelos existentes; sabe, finalmente, que a produção social é uma ameaça. Esta é a realidade econômica da riqueza das redes. Blenker voltou então suas atenções às questões políticas que cercam o tema. A forma que produzimos informações e decidimos o que produzir são escolhas críticas. Como exemplo, ele citou as eleições de 2000 nos EUA, e suas conseqüências. Para assegurar que as questões surgidas em 2000 não voltassem a ocorrer, em 2002 houve um movimento – especialmente na Califórnia – para adesão ao voto eletrônico. Estes eram sistemas proprietários e todos foram assegurados pelo fabricante (Diebold), “confiem em nós”. Bem, nem todos confiaram, e alguém conseguiu acesso ao código fonte dessas máquinas. Esta pessoa postou o código e links para as ferramentas que podiam acessar e analisar este código. Pessoas ao redor do mundo contribuiram e acharam questões mal resolvidas. A história chegou à revista Wired; de acordo com Benkler, a Wired não entendeu a mensagem (que havia problemas no código fonte) e voltou as suas atenções ao fato do software da Diebold ter vazado. A Diebold endureceu e tentou impedir que a matéria fosse publicada. Mas já era tarde demais. Estudantes da Universidade de Swathmore começaram a analisar o software e postar o que encontravam. A Diebold endureceu novamente, e as informações foram removidas. Mas agora já era tarde demais, mesmo. As informações já haviam se espalhado pela internet. Mais tarde, os problemas das urnas eletrônicas da Diebold chegaram até os tribunais da Califórnia, e muitas delas perderam sua certificação com base nos problemas levantados pelo esforço conjunto realizado ao redor do mundo. A opção de questionar um software fechado e proprietário, a decisão de utilizar uma produção conjunta para análise do software, e, finalmente, a cassação dos certificados das urnas eletrônicas ilustram a capacidade política do poder da rede. Também destacam a importância de criar uma cultura mais crítica, que deseja conectar-se, apontar e ver por si mesma. Esta recapitulação não capta toda a extensão dos comentários feitos por Benkler, mas, espero, permite que tenhamos uma idéia de como ele vê as coisas e da importância crítica da produção social. Seu livro está

disponível no seguinte endereço: http://www.benkler.org/wealth_of_networks/index.php/Main_Page. Henry Jenkins então falou sobre a convergência da cultura de fãs e da mídia em massa, e de como estes dois estão levando a uma mídia social. O primeiro exemplo que mostrou foi uma foto de alguém vestido de stormtrooper de Guerra nas Estrelas, comprando brinquedos de Guerra nas Estrelas. A foto foi feita com uma câmera de celular pelos amigos do camarada fantasiado e postada no Flickr. A mídia achou a foto e a reproduziu em dezenas de jornais em todo o país. Este tipo de coisa assusta os produtores da mídia tradicional, porque eles não têm controle do conteúdo ou do contexto. Jenkins acha que a Lucas Arts provavelmente não se incomodou com o incidente, mas a questão não é esta. O nosso próximo exemplo vem de burtisevil.com, e mostra uma imagem do Beto, de Vila Sésamo, junto a Osama bin Laden. Jenkins mostrou então uma foto de um poster com imagens de bin Laden que estava sendo usado em um protesto no Afeganistão. Uma das imagens incluia o Beto. A PBS, rede pública de televisão americana que detém os direitos de Vila Sésamo, não ficou lisonjeada, e gostaria de processar alguém. Ambos são exemplos da interação entre a mídia chamada top-down (de cima para baixo) e a bottom-up (de baixo para cima). O conteúdo vem de cima, é reinterpretado e redistribuído de baixo. Incidentes como os exemplos acima agitam ambos os mundos. Um é tomado de uma súbita sensação de falta de poder, e o outro pela sensação de aparente poder. Também está criando verdadeiros desafios para advogados de propriedade intelectual e define a noção de cultura de convergência. Não é baseada em tecnologia, mas sim em um processo cultural desencadeado pela tecnologia. A convergência cultural já chegou. Histórias e conteúdo agora são distribuídas através do máximo de plataformas e mídia, de forma legal ou ilegal, de cima para baixo e de baixo para cima. É um processo transmídia, participatório e experimental. Exige e se utiliza da inteligência coletiva (aquilo que Jenkins chama de ad-hocracia), à medida que mais e mais pessoas compartilham e combinam informações. Esta inteligência coletiva permite também que as informações sejam processadas com mais rapidez. Um número cada vez maior de pessoas participa e contribui com esta crescente ad-hocracia: 57% dos adolescentes são produtores de mídia 33% compartilham com outros aquilo que produzem 22% possuem suas próprias homepages 19% possuem blogs 19% fazem uma remixagem do conteúdo (de Pew) A mídia em massa oferece conteúdo – a inteligência coletiva cria novo conteúdo. E como isto tudo afeta as notícias? As pessoas estão aprendendo a fazer uma mídia cívica. A cultura dos fãs aprendeu a criar e manipular o conteúdo, por divertimento. Estas habilidades estão sendo aplicadas em outras áreas, criando novas fontes de informação, comentário e ativismo. A título de exemplo, Jenkins mostrou imagens dos atentados terroristas no metrô londrino, feitas por pessoas a bordo do metrô, e imagens do Presidente Bush em Nova Orleans, alteradas com a ajudo do Photoshop. Também mostrou exemplos de agregação e análise de conteúdo, utilizando fotos e legendas do furacão Katrina. Esta combinação de informação e entretenimento está se tornando uma força, moldando conversas sérias, que agora aparecem em toda extensão da cultura de convergência. Seus comentários levaram a vários vídeos que ilustram seu ponto de vista e também as questões maiores da evolução da cultura de convergência baseada em redes e em produção conjunta. Após os vídeos, houve uma sessão de perguntas e respostas. O que precisa acontecer para que as pessoas efetivamente contribuam com a mídia cívica? É necessário apenas transferir as regras atuais de mídia, ou precisamos de algo mais? O que precisamos ensinar a essas pessoas? Benkler: Saber quem é o “nós” e quem nós estamos ensinando – que faz parte do desafio neste nosso caso –

é mais fácil quando existe uma classe de produção fixa, que pode definir quais são as habilidades e o treinamento necessários para participar; estamos vendo o início da leitura crítica – em um universo com múltiplos pontos de entrada, os tradicionais detentores da autoridade muitas vezes estão errados – estamos começando a ver mais sobre o desenvolvimento das habilidades de coleta de observações e de inteligência, que respostas a sinais enviados por uma autoridade. Precisamos prestar atenção nos múltiplos pontos de entrada e aplicar o pensamento crítico, de forma a chegar a um parecer temporário. Jenkins: Não estamos aprendendo com uma pessoa; estamos aprendendo uns com os outros, através do processo de inteligência coletiva. Ainda existe uma diferença em níveis de participação, que é diferente da desiguldade digital. A maior parte das pessoas tem acesso, mas nem todas têm acesso às habilidades e experiência necessários para utilizar este tecnologia na participação da mídia cívica. A DOPA (a lei proposta nos EUA em 2006, que visa evitar que jovens tenham contato com molestadores on-line ao usarem computadores instalados em escolas) limitaria o acesso ainda mais. Embora a população possa aprender as habilidades necessárias para a mídia cívica, a existente mídia pode aprendê-las também? Podem ser assimiladas pela elite do poder? As habilidades podem vir de baixo para cima, mas podem também ser empurradas de cima para baixo. Benkler: É importante não sermos utópicos; isto tudo não é ruim. Sistemas como estes são susceptíveis a ataques? Sim. Quais são as defesas? Na mídia em massa, existe um pequeno número de alvos que podem ser apontados, distorcidos ou controlados; isto é mais difícil fazer na mídia cívica. Jenkins: Um ponto importante a ser observado é que as grandes organizações sentem e reconhecem a necessidade de criar falsos movimentos oriundos da população. Elas sentem a necessidade de usar dos métodos daqueles que não possuem poder para comunicar sua mensagem. O que dizer sobre o argumento que a mídia cívica cria colegas, mas não os une? Benkler: O que podemos observar através dos padrões de uso é que não estamos fragmentados demais, ou unificados demais; não estamos ainda no ponto certo, mas chegaremos lá. Alguns podem dizer que o que está acontecendo na mídia cívica não é uma democratização, mas sim uma concentração – milhões de pessoas se ligam a alguns poucos sites ao mesmo tempo que milhões de sites têm alguns poucos visitantes. A realidade é que alguns sites começam a se reunir em torno de assuntos e questões que são importantes a algumas comunidades específicas; no próximo passo, observa-se que centenas de sites passam a se ligar para sintetizar aquilo que é importante para aquele grupo. Jenkins: No passado, os críticos sociais preocupavam-se com a hegemonia criada pela mídia em massa; agora os críticos estão preocupados com a fragmentação da mídia cívica. . . Precisamos ter cuidado em dar muito ouvido aos críticos. . . O processo de participação é muito complexo – vai de cultura pop a cultura produzida, mas pode ignorar toda a mídia cívica encontrada no meio. Como os modelos produzidos conjuntamente funcionam em questões científicas? Como é que as comunicações cívicas podem ajudar nesta linha de frente? Jenkins: Esta é uma área complicada; sempre existe espaço para especialistas em qualquer modelo; especialistas desempenham papéis vitais na interpretação e orientação de comunicações. Benkler: É importante não olhar para a utopia, mas para a linha que serve de base para a mídia em massa. Se você fizer um apanhado da comunidade científica e suas publicações, por exemplo, não há dúvidas com relação à existência e à causa do aquecimento global. Mas se você olhar para a mídia em massa, a sensação é que os especialistas estão divididos no assunto, metade para cada lado. Algo como a Wikipedia pode disponibilizar uma ampla gama de pontos de visto sobre este assunto. O que pode pôr em risco a criação da mídia cívica? Esta tem sido uma discussão muito positiva, mas o que poderia impedir este tipo de participação? Benkler: Cada vez mais, parece que não existem grandes impedimentos a este processo. Existem algums, tais como as “máquinas confiáveis”, que limitam o uso de sistemas para impedir que sejam utilizados para quaisquer finalidades não específicas, ou que tenham acesso a conteúdo não autorizado. Isto está sendo proposto por Hollywood, com base no fracasso de DRM (Digital Rights Management, técnicas que restringem o uso e a transferência de conteúdo digital), entre outros motivos. Isto pode levar a uma desigualdade no acesso e no uso de conteúdo. Outro impedimento poderia ser controle imposto por empresas; contudo, as redes mesh podem impedir que isto aconteça. Patentes de software também podem

representar um problema; mas o grande número de empresas que vislumbram ganhos financeiros impede que os softwares livres sejam restritos. A falta de acesso à tecnologia e à comunidades de colaboração também pode ser um fator de distorção. O que pode ser feito? Criar, compartilhar e adotar licenciamento do tipo oferecido pela Creative Commons (www.creativecommons.org.br) . Devemos estimular direitos abertos e abrir aqueles restritos. Propriedade intelectual deve ser uma questão política. Estamos começando a ver isto acontecer. Mais e mais pessoas e grupos estão avançando para impedir que aqueles em situação privilegiada ataquem a mídia cívica. Jenkins: A cultura participatória chegou para ficar. A escala e o ambito ainda estão em dúvida, e como esta cultura se relaciona com a mídia principal ainda está por ser visto. A maior ameaça é representada por Hollywood e seus inimigos – democratas liberais – ambos os quais estão trabalhando para limitar a participação: Hollywood quer fazê-lo controlando acesso e direitos de conteúdo, e os liberais querem controlar o acesso a comunidades de colaboração através de leis como a DOPA. Um fator que pode impedir este processo é se as leis não mudarem, as pessoas serão impotentes – algum dia a lei será um processo que vai de baixo para cima? Benkler: Esta é uma questão profunda em termos de teoria do direito; o sistema jurídico é progressivo ou regressivo? A questão vai até a fonte da lei – qual é sua origem e como pode mudar? Não acredito que exista um processo de criação de leis de baixo para cima. Quais são as implicações desta cultura de participação para o mundo tradicional de cobertura de notícias e consumo de notícias? Qual é o futuro do jornal? Jenkins: Na qualidade de alguém treinado em jornalismo, ele está preocupado com os jornais; a mídia participativa contra os jornais é uma questão interessante. O que é interessante observar e considerar é que a blogosfera pode ser vista como uma resposta a aquilo que não é coberto pela mídia tradicional. Esta deveria olhar melhor para as questões levantadas pela mídia participativa, para então ampliá-las através de seus canais. Os jornalistas cidadãos não substituirão os jornalistas profissionais; as categorias de notícias que existem não refletem a diversidade de nossa cultura; a nova mídia é, e continuará sendo, uma medida corretiva. Benkler: As mídias tradicionais desempenham um papel importante, mas são veículos para as elites (incluindo nós), e vêm de cima para baixo; nós valorizamos conhecimento e elites. As mídias desempenham um papel de plataforma para que as elites compartilhem idéias. Esta função não desaparecerá. technorati tags:MIT, Communications, Forum, Media Blogged with Flock This entry was posted on September 27, 2006 at 1:10 pm and is filed under Technology. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. Responses are currently closed, but you can trackback from your own site.

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