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TRAÇANDO O PERFIL DE USUÁRIOS DE TRILHAS INTERPRETATIVAS

ATRAVÉS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL


Antoninho A. Portilho1, Paulo Fernando de Almeida Saul1 & Anamaria Stranz2
1
Laboratório de Prática de Ensino, Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(UNISINOS), E-mail: aap@sinos.net; psaul@unisinos.br
2
Laboratório de História da Vida e da Terra (LaViGea),Universidade do Vale do Rio
dos Sinos (UNISINOS), E-mail: astranz@unisinos.br

Resumo
Questões relativas à percepção do ambiente foram realizadas com o objetivo de definir
futuros usuários para uma trilha interpretativa localizada no sítio do Dotta, no município
de Sapiranga, Rio Grande do Sul. Toda a trilha foi caracterizada levando-se em conta
seus aspectos bióticos e abióticos. O conjunto de informações identificou 14 estações
de trabalho. Posteriormente, dividiram-se os participantes em três grupos segundo sua
idade, profissão e preocupação com a causa ambiental. Entre os participantes, 59%
eram estudantes, 21% industriários, 13% comerciários e 7% desempregados. Destes,
55% tinha entre 14 a 16 anos. Todas as questões abordadas tiveram como objetivo
averiguar um possível parâmetro entre idade/profissão e o grau de preocupação
ambiental. Entre os itens considerados indispensáveis ao se realizar uma trilha, 97%
consideraram a máquina fotográfica, seguido de água potável (80%). Com relação a
sua atitude ao avistar um animal (cobra, aranha ou lagarto), 50% respondeu que
esperaria ele se afastar. Sobre a preferência no uso dos sentidos (tocar, cheirar, ouvir
ou ver), houve um baixo interesse (4,33%) nos dois primeiros. A maioria opta por
informações detalhadas (76%) e 54% priorizam a conversa durante a caminhada. Os
principais focos de interesses são às árvores (45%) e os mamíferos de grande porte
(22%). Sobre a lembrança que levariam da trilha, 73% mencionaram uma fotografia,
69,33% uma concha e 59% uma folha. O grupo 1 constituído por trabalhadores com
idades entre 15 e 19 anos dão grande importância ao seu bem-estar e preferem não
se arriscar em situações de interação com o meio ambiente. O grupo 2 formado por
estudantes do magistério com idades entre 14 e 19 anos demonstraram preocupação
em melhorar seus conhecimentos em Biologia, e o grupo 3, formado por alunos do
ensino fundamental com idades entre 14 e 16 anos, foi o mais propenso a aprender,
pois manifestaram menor temor com relação ao ambiente.

Palavras-chave: Trilhas, interpretação ambiental, percepção ambiental, educação


ambiental
Introdução
A Biologia é uma disciplina dinâmica, pois mudanças acontecem a cada
instante e, somente os conceitos básicos permanecem. A cada dia, surgem novas
teorias, novas frentes de pesquisa, novas tecnologias que comprovam ou jogam por
terra velhas tradições.
Atualmente, é inconcebível alguém ficar atrelado a simples teoria, preso em
uma sala de aula, sem a vivência da prática, ou seja, sem a experiência do ver, ouvir,
sentir e interagir quando possível. Se não há um contato do aluno com os respectivos
objetos de estudo, não tendo estes como visualizar (experimentar) as diferenças,
resta-lhe, apenas, confiar no professor.
Em uma trilha é possível perceber detalhes que jamais serão descritos em sala
de aula, seja pelo melhor autor de livro ou pelo melhor audiovisual, visto que não há
nenhum meio de comunicação que substitua a sensação de “ser” parte de um todo. Ao
entrar na mata, o indivíduo passa a sentir-se parte da natureza, a perceber a interação
entre as espécies, tais como, as relações existentes entre o tipo de solo, a
luminosidade, a umidade, a altitude e a vegetação; relação que dificilmente será
percebida em muitas páginas de texto memorizado para uma prova.
Segundo DIAS (2000), disciplinas eminentemente práticas, como a Física,
Química, Biologia, Ciências e Artes, passaram a existir nas escolas de forma
exclusivamente teórica, sem o exercício da reflexão e da análise. Na busca desse
exercício, alunos e professores ansiosos em abandonar a mesmice das aulas teóricas,
buscam alternativas que nem sempre tem resultados agradáveis ou que se queiram
repetir.
O presente trabalho é o resultado de uma caracterização realizada com o
objetivo de orientar professores e guias quanto ao uso de uma trilha localizada no sítio
Dotta, no município de Sapiranga (RS). A trilha tem sido manejada e preservada pelos
seus proprietários e tem sido amplamente utilizada com fins educativo por ser segura,
de fácil acesso, baixo custo e que proporciona muitas possibilidades de aprendizagem
nas mais diversas áreas do conhecimento.
A trilha caracterizada e utilizada no desenvolvimento do perfil dos usuários é
uma ótima sugestão numa cidade carente de opções de lazer, num mundo
necessitando refletir com urgência sobre suas relações com o meio ambiente.

Identificando problemas, propondo soluções...


Em um passeio orientado pelo guia do sítio algumas observações puderam
servir como parâmetro para a organização de visitas menos agressivas ao local.
O grupo que realizou a trilha era imenso, com mais de 50 pessoas, todos
adolescentes (alunos do 1º ano Normal e do 2º e 3º do Ensino Médio). O efeito de 50
pares de pés sobre o local é, no mínimo, devastador. São mudas de árvores
pisoteadas, cogumelos esmagados, pedras deslocadas, o solo úmido torna-se
lamacento e escorregadio, sem falar na total falta de silêncio, pois sempre há alguém
gritando ou pulando, tornando impossível ouvir qualquer som produzido por aves ou
qualquer outro animal na mata. O guia, para se fazer ouvir, precisava constantemente
gritar e o caos estava estabelecido. Há uma grande pressa em atravessar a mata,
perdendo-se a oportunidade de interação com o local. Tudo o que se quer é ver o final
da trilha. Ao acabar o passeio, o que resta nas pessoas é o cansaço e a lama; na
mata, um rastro de destruição.
Aventuras como essa pode deixar traumatizados aqueles que estão alçando
vôo em atividades que envolvam o mundo vivo, fazendo com que alguns recusem o
convite para outro tipo de saída. Considerando-se ainda, que se tratam de futuros
professores a perda seria irreparável, pois estes serão os porta-vozes junto às futuras
gerações.
Conforme SAUL et al. (2002), o contato organizado com o ambiente,
estimulado durante o percurso das trilhas, auxilia no desenvolvimento da
responsabilidade e no senso de dependência que os seres humanos devem ter frente
ao meio e proporciona uma tomada de consciência e, sobretudo, desperta para
compreensão da integridade, fragilidade e biodiversidade da natureza. Visitas
orientadas com o objetivo de conhecer e interagir com o meio são importantíssimos
para essa tomada de consciência e mudança de atitudes perante a natureza. O
envolvimento das pessoas na busca de soluções para os problemas ambientais deve
começar pelo conhecimento de como funciona o ambiente, e isso se consegue através
da vivência. Numa trilha, e com o olhar atento, estamos aguçando nossa percepção
sob as interações entre os organismos e entre esses e o meio físico. São as
interações que propiciam o equilíbrio e qualquer interferência humana pode romper
essa teia natural de forma irreversível. Cabe-nos, então, buscar a forma menos
agressiva de usufruir deste ambiente e essa forma passa pelo conhecimento e pelo
seu uso, pois para mudar é preciso vivenciar.
A interpretação dos aspectos de uma trilha fornecerá, por exemplo, várias
perspectivas sobre o mesmo tema, pois cada disciplina poderá apresentar um conceito
sobre o que se vê. A interpretação ambiental é a tradução da linguagem da natureza
para a linguagem comum dos visitantes, fazendo com que estes sejam informados em
vez de distraídos, e educados, além de divertidos (VASCONCELOS 2003). A
visualização e interpretação dos efeitos antrópicos sobre o ambiente, uma tomada de
atitude no sentido de minimizar ou solucionar um problema ambiental com certeza
levará o indivíduo a localizar e buscar solução para outros problemas no seu bairro,
por exemplo. Faltam enfim, atividades de interpretação ambiental, onde uma
caminhada, associada às discussões sobre problemas ambientais poderá originar
mudanças de atitudes e formação de uma cultura de sustentabilidade. E sempre é
bom deixar claro, que quem tem que ser surpreendido durante a visita é o visitante e
não o guia, que deverá estar sempre bem munido de informações, bom humor e
linguagem acessível.

Caracterização da trilha
O sítio das Águas Dotta localiza-se ao norte do município de Sapiranga, na
base do planalto basáltico. Inserido na localidade denominada Kraemer-Eck entre
Sapiranga e Dois Irmãos, o local é cercado por propriedades com características
diversas, como: sítio residencial, sítio de lazer, campo para criação de animais, matas
de acácias, culturas de subsistência e áreas de mata preservada. Típica propriedade
rural adaptada ao turismo de lazer, com piscinas, churrasqueiras, restaurantes, e um
pequeno museu e playground, possui ainda um lago que represa a água vinda das
áreas altas através de pequenos arroios (Figura 1).

30º

51º

Figura 1. Localização do município de Sapiranga no Estado e uma panorâmica da


localidade de Kraemer-Eck, onde situa-se o sítio Dotta, tendo o morro Ferrabráz ao
fundo.

A trilha do Paredão é constituída por um remanescente de Floresta Estacional


Semidecidual ponteada por uma vegetação exótica, o que indica uma ocupação
humana de longa data. Toda a área é entrecortada por córregos sazonais, que
desaparecem durante os períodos de estiagem. No local é possível encontrar muitas
espécies de plantas nativas, assim como áreas de ecótono, pois foram identificadas
exemplares de Araucária (Araucaria angustifolia O. Kuntze) nas áreas acima de 600
metros, o que caracteriza uma Floresta Ombrófila Mista (TEIXEIRA et al., 1986).
Nas áreas de menor altitude (abaixo de 500 metros), as figueiras (Ficus sp.),
maricás (Mimosa bimucronata O. Kuntze), aroeiras vermelha (Schinus terebinthifolius
Raddi), aroeira-salsa (Schinus molle L.), pitangueira (Eugenia uniflora L.), umbu
(Phytolacca dioica L.), taquareira (Bambusa tuldoides), guajuvira (Patagonula
americana L.) e pente–de–macaco (Pithecoctenium echhinatum (Jacq.) Baill) dominam
a paisagem.
Artrópodes (aracnídeos e insetos) e espécies diferentes de aves, tais como o
Quero-quero (Vanellus chilensis), a pombinha-rola (Columbina picui ), o Anu–preto
(Crotophaga ani), o Anu–branco (Guira guira), os Pica-paus (Picidae), o João–de–
barro (Furnarius rufus), o Vira-folha (Sclerurus scansor ), a Corruíra (Troglodytes
aedon), o Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) e o Canário (Fringillidae) foram
avistados durante o levantamento da trilha.
Durante o percurso, aspectos geológicos importantes são observados. A trilha
bordeja a zona de contato entre rochas areníticas, geologicamente caracterizadas
como pertencentes ao paleo-deserto Botucatu, que se estendia por todo o Gondwana
durante o período Triássico (251 milhões de anos atrás) e rochas basálticas originadas
durante a separação América do Sul-África, durante o Cretáceo (145 milhões de anos
atrás). Estes contatos formam afloramentos chamados de “paredões” de
aproximadamente, 10 metros de altura. São estes enormes paredões que dão o nome
à trilha. O percurso apresenta uma elevação gradual de aproximadamente 30 metros
do início até a base do paredão. De determinados pontos da trilha é possível observar
a pedreira municipal que expõe a formação basáltica que caracteriza a região mais
alta do município. O piso da trilha é arenoso e recoberto pela serapilheira, porém em
determinados trechos, torna-se pedregoso, formado por pedaços de arenito deixados
pela exploração para retirada de lages de arenito (pedra grês) para construções.
Com base nas observações de campo e da pesquisa realizado, foi criado um
croqui da área (Figura 2), onde foram estabelecidos 14 pontos de
interpretação/percepção ambiental, buscando focar aspectos ecológicos, geológicos e
culturais da região.

Caracterização dos pontos interpretativos


Seguindo o modelo proposto por MAGRO E FREIXÊDAS (1998) foram
estabelecidos 14 pontos interpretativos, abaixo descriminados:
• Ponto 1: A trilha inicia com a observação de um imponente Umbu (Phytolacca
dioica L.) e com a presença de exemplares de araçá-vermelho (Psidium
cattleyanum Sabine) (Figura 3A) árvore que, segundo FLECK (1994), teria
originado o nome do município a partir de sua denominação indígena, Araçá–
pyranga. Ocorrem também “moitas” de taquareiras (Bambusa trinii Nees) que são
utilizadas como quebra-vento e como material para construção de cercas de
hortas.
• Pontos 2 e 3: No ponto 2 é realizada a travessia do primeiro arroio perene. Este
ponto é riquíssimo em vegetação, a qual conserva a temperatura amena. Muitas
epífitas como barba–de-pau (Tillandsia usneoides), rabo-de-rato (Rhipsalis
baccifera), cravo-do-mato (Tillandsia aeranthos) e bromeliáceas, que funcionam
como cisternas e estão presentes em praticamente toda a área. Este ponto
encontra-se em recuperação, pois segundo informações locais, a área foi
desmatada para a criação de gado. Contínuo ao ponto 2, está o ponto 3, onde o
destaque é o açoita-cavalo (Luehea divaricata Mart. Et Zucc.) com diversas epífitas
(Figura 3B), que, quando floridas, nos dão a dimensão da importância de um único
indivíduo para o meio ambiente.
• Pontos 4 e 5: Nesse ponto, cruza-se um córrego semi-permanente. Ali há o
encontro com o córrego permanente proveniente da parte alta. Neste ponto são
observados exemplares de Araucária (Araucaria angustifolia O. Kuntze) e diversas
árvores nativas cobertas por lianas e epífitas. Troncos caídos servem de berçário
para novos exemplares que crescem em busca de luminosidade. Uma variedade
de fungos foram observados, sendo que os mesmos poderão servir de mecanismo
de controle da trilha, pois estão presentes nas diversas estações do ano.
• Ponto 6: Área de preservação. A visitação é condicionada pelas situações
climáticas do dia, devido, principalmente, ao seu difícil acesso. O local é rico em
espécimes vegetais que servem como refúgio para animais. Dentre as espécies
identificadas, está o Xaxim (Dicksonia selowiana (Presl) Hook.) que atualmente
encontra-se na lista de ameaçada de extinção.
• Ponto 7: Região próxima à divisa com o campo. Nesse local pode-se verificar o
contraste de uma região intensivamente agredida pelo homem com outra onde,
atualmente, há preocupação com a preservação. Desse local é possível ver uma
imponente Figueira (Ficus sp.). Além disso, várias goiabeiras (Psidium guajava L.)
chamam atenção pelas flores entre os meses de Setembro a Novembro e pelo
cheiro dos frutos de Janeiro a Abril.
• Ponto 8: Exemplares de plantas exóticas como a Uva-do-Japão (Hovenia dulcis
Thunb.), que dominam a paisagem (Figura 3C) formando um corredor homogêneo.
• Pontos 9, 10 e 11: Primeiro afloramento. Constitui-se em uma antiga pedreira,
onde a face vista não sofreu ação direta, permitindo ver o desgaste natural pela
água, ventos e vegetação. Muitas raízes e lianas descem pela rocha (Figura 3D).
Local amplamente procurado por aves e roedores (observação facilitada quando
se está em pequeno grupo ou sozinho). Plantas com enormes acúleos e grandes
exemplares de urtigão (Urera aurantiaca Wedd.) e pente–de–macaco
(Pithecoctenium echhinatum (Jacq.) Baill), ornamentam a passagem. Área de
aclive acentuado até chegar ao ponto 12.
• Ponto 12: Segundo local de afloramento, onde agora o visitante passa junto ao
paredão de arenito que, nos dias de maior umidade, libera uma refrescante chuva
de água que brota das raízes. Grande variedade de plantas e pequenos animais
usufruem dessa umidade, como por exemplo, samambaias, avencas, bromélias,
beija-flores, rato silvestre e insetos. Aves constroem ninhos nos pontos elevados e
secos, utilizando as reentrâncias da rocha. Há também um local onde se pode
acessar a parte de cima do paredão, de onde se tem uma magnífica vista do vale
(Figura 3E) e da pedreira de rochas vulcânicas que hoje é aproveitada como
pavimento pela prefeitura. É um ponto de descanso para os visitantes. Dentre as
árvores destacamos a timbaúva (Enterolobium contortisiliquum Vell. Morong.) e a
gameleira (Ficus organensis (Miq) Miq.).
• Ponto 13: Observação da Figueira (Ficus sp.) cujas raízes se estendem sobre a
terra, por mais de 30 metros, possivelmente devido ao solo raso originado pela
erosão da rocha basáltica (Figura 3F). Pontos de erosão natural ocasionada pelas
águas de drenagem servem de apoio para discussões sobre erosão e
geomorfologia.
• Ponto 14: Área de campo com gramíneas e Jerivás (Syagrus romanzoffiana

c
(Cham.) Glassm.) de onde se observa o vale e pedreira (Figura 3G), num local
cercado por floresta nativa. Ótimo local para avaliar e discutir as percepções e
vivências sobre o passeio, a formação geológica regional, realizar jogos
ecológicos, ou simplesmente admirar a paisagem.

Levantamento do perfil dos grupos


Um questionário dirigido (em anexo) foi respondido antes do inicio de cada
caminhada e teve como objetivo, estabelecer um perfil dos grupos visitantes. Foram
distribuídos 270 questionários, dos quais 255 foram respondidos e devolvidos. Os
grupos foram organizados por afinidade, visto que o objetivo foi o de realizar as
caminhadas com abordagens diferenciadas dependendo destes perfis. Cada questão
foi elaborada com a intenção de verificar as possíveis atitudes a serem tomadas com
cada grupo (linguagem, atividades de reconhecimento, sensibilidade, percepção, etc.)
para tirar o máximo proveito do percurso.
Os grupos foram divididos em três, de acordo com suas profissões, sendo
que o grupo 1 era formado por pessoas de variadas profissões; o grupo 2 por alunos
do magistério e o grupo 3 por alunos do Ensino fundamental.

Análise dos Dados


As trilhas foram realizadas com cada grupo e com atividades diferenciadas por
parte do guia, partindo de um dos três perfis traçado anteriormente pela tabulação dos
dados do questionário, para que o aproveitamento fosse o melhor possível. Todos
tiveram participação ativa, questionando e opinando sobre os mais diversos fatores
que tornam a trilha interessante.

Perfil do grupo 1
Constituído por comerciários e industriários com idades entre 15 e 19 anos,
possuem como interesse comum o aprender sobre o ambiente. Alguns acreditam na
coleta indiscriminada e sem critérios e valorizam o seu bem-estar (muito repelente e
água). Contudo, a maioria prefere fotografar (dados da questão XI). Ninguém citou que
eliminaria um animal em seu caminho, mas preferem não se arriscar, como indica a
questão VI (92% dizem que dependendo da situação tocariam, cheirariam ou ouviriam
algo). A maioria participaria de jogos ecológicos (83%). Todos preferem informações
detalhadas (100%). As paradas para conversar obtiveram 59% e foram solicitadas
informações sobre vegetação. Cerca de 50% deles e menos de 8% interessaram-se
sobre mamíferos, sendo que não houve questionamentos sobre rochas, liquens,
cogumelos e aves, denotando distanciamento desses organismos e dos aspectos
geológicos, talvez pela falta de vivência e de associações entre os fatores bióticos e
abióticos. Das possíveis lembranças, às fotos são maiorias (100%), seguido de rochas
e cascas (50%). Poucos levariam plantas e animais. O respeito pelos seres vivos ou a
necessidade de cuidados faz com que a vontade de levar para casa algo vivo seja
reduzida.

Perfil do grupo 2
Formado por estudantes do primeiro ano do curso normal, com idades entre
14 e 19 anos. Tem como preocupação melhorar seus conhecimentos em Biologia. A
questão IV demonstra a preocupação em fotografar, anotar (56% levariam caderneta),
proteger-se (chapéu 78%, repelente 33% e água 67%, além de comida 33%) e cerca
de um terço preocupam-se em não deixar lixo no local, ou quem sabe, recolhê-lo
(44%). Desse grupo 22% eliminaria um animal que lhe cruzasse o caminho e 56% iria
fotografá-lo. A maioria informa que, dependendo da situação, tocaria ou cheiraria algo
na mata (67%), outros 22% preferem ver e apenas 11% ouvir. Desse grupo 78%
participariam de um jogo ecológico.
Quanto ao item informações, a maioria prefere que seja detalhada (67%) e
11% não querem obter informações. Nas estações, 78% preferem apenas parar para
observar e não para conversar. A maioria se interessa por mamíferos (33%) e aranhas
(22%), e 11% mostram interesse pelas árvores, bromélias e insetos. Novamente não
houve nenhum interesse pelas rochas. Quando a pergunta é sobre o que você levaria
para casa, 78% levariam penas e conchas, 67% flores, pedras e cascas enquanto que
apenas 22% levariam animais ou plantas. Tais respostas demonstram a cultura na
qual aquilo o que não for vivo, pode ser retirado sem problemas.

Perfil do grupo 3
Constituído por estudantes do ensino fundamental com idades entre 14 e 16
anos, suas preocupações diferem dos outros grupos provavelmente pela curiosidade
inerente em alunos dessa faixa etária. Todos informaram que é indispensável levar a
máquina fotográfica (100%), seguida pela água (75%), pelo repelente (63%), chapéu
(50%) e por sacolas para lixo (13%). Nenhum deles eliminaria um animal que lhe
cruzasse o caminho, preferindo fotografá-lo. A maioria prefere ver (63%), sendo que
tocar e cheirar perfez 13% cada.
Quanto ao jogo ecológico, todos participariam. Muitos preferem informações
detalhadas (63%). Quanto ao que gostariam de saber mais, as árvores levaram
vantagem, seguidas pelos mamíferos e aranhas. No caso do que você levaria para
casa como lembrança, 88% disseram que levariam conchas, 75% levariam flores, 63%
levariam fotos e folhas e novamente a minoria levaria um ser vivo. O grupo 3 é o mais
propenso a aprender e aquele com menor temor com relação ao ambiente.

Conclusão
Ao se organizar as saídas a maior dificuldade sempre foi o de se criar um
ambiente de multidisciplinaridade, pois professores de outras áreas que não da
Biologia, não tinham disposição de participar do passeio.
Grupos não agendados, geralmente serão heterogêneos e o guia terá que ser
eclético nas abordagens.
De posse das características de cada grupo é possível fazer um trabalho
diferenciado em cada saída, salientando os aspectos de interesse dos ecoturistas,
mas também os aspectos negativos para que haja, na prática, um processo de
mudança de atitudes, verdadeiro objetivo da Educação Ambiental.

Bibliografia
FLECK, L. (1994). A História de Sapiranga. Santa Maria: Pallotti, 1994.
MAGRO, T.C.; FREIXÊDAS, V.M. (1998) Trilhas: como facilitar a seleção de pontos
interpretativos. Circular Técnica IPEF, n. 186, Setembro de 1998. pp.4-10.

SAUL, P.F.A.; LEAL, J.C.P.; FENSTERSEIFER, C. (2002) Trilhas de interpretação


ambiental. Educação Ambiental: Teoria e Prática. Carlos Henrique Nowatzki (org.).
Ed. UNISINOS: São Leopoldo, pp. 107-114.
TEIXEIRA, M.B.; NETO, A.B.C.; PASTORE, U.; FILHO, A.L.R.R. (1986) As regiões
fitoecológicas, sua natureza e seus recursos econômicos:estudo fitogeográfico. In:
Levantamento de Recursos Naturais (RADAMBRASIL), Folhas SH.22 Porto Alegre
SH.21 Uruguaiana e SI.22 Lagoa Mirim. IBGE: Brasília, 1986.

VASCONCELOS, J. (2003). Interpretação ambiental. In: Manual de ecoturismo de


base comunitária: ferramentas para um planejamento responsável. Brasília: WWF
Brasil, 2003. 470p. il.
QUESTIONÁRIO DE CAMPO PARA DEFINIÇÃO DO PÚBLICO-ALVO
Nome: ________________________________________
Sua idade
( ) 10 a 13 ( ) 14 a 16 ( ) 17 a 19 ( ) 20 a 23 ( ) 24 a 27 ( ) 28 a 31 ( ) mais de 31
Sua profissão ___________________________________________________
Você faria um passeio a pé, em uma trilha de cerca de 80 cm de largura, numa mata com
árvores de 15 m, num local de fácil acesso a 2 km do centro da cidade, de onde partiria,
realizando observações do reflexo da ação humana sobre o meio ambiente?
( ) não gosto de trilhas (fim do questionário) ( ) sim
( ) não, prefiro uma trilha mais larga e ampla (3 m de largura), onde não haja contato com a
vegetação, mas que seja fácil observá-la.
Para um passeio como esse, o que você considera indispensável levar (escolha cinco
itens):
( ) máquina fotográfica ( ) gravador ( ) facão ( ) fósforos ( ) cigarros ( ) cerveja
( ) refrigerantes ( ) chapéu ( ) água ( ) envelopes para sementes ( ) repelente para insetos
( ) caderneta ( ) sacolas para lixo ( ) sacolas plásticas e frascos para por mudas ou
animais coletados ( ) outra:_________________
Durante o passeio ao avistar pelo caminho uma aranha, uma cobra, um lagarto, etc.,
você:
( ) elimina ( ) espera ele se afastar ( )fotografa. ( ) outra:______________
Durante o passeio você prefere usar os sentidos para:
( ) ver ( ) tocar ( ) cheirar ( ) ouvir ( ) todos ( ) outra: _________________
Você participaria de um jogo ou de uma brincadeira ecológica, onde precisasse imitar
um animal, por exemplo?
( ) sim ( ) não, porque ______________________
Nos pontos visitados na trilha você prefere informações
( ) detalhadas? ( ) superficiais? ( ) de nenhum tipo?
Durante a caminhada você prefere
( ) parar e observar ( ) parar e conversar ( ) parar, observar e conversar
( ) andar sem parar ( ) outra: __________________________
Escolha um item existente na região sobre o qual você gostaria de saber mais
( ) árvores ( ) bromélias ( ) insetos ( ) aves ( ) mamíferos ( ) aranhas
( ) líquens ( ) cogumelos ( ) rochas ( ) outro:_________________________
Você considera uma lembrança e levaria para casa
( ) animal ( ) pedra ( ) concha ( ) pena ( ) frutos. ( ) planta ( ) foto
( ) folha ( ) casca ( ) sementes ( ) flores ( ) outro: ___________________
Figura 2. Croqui da trilha do Paredão com a localização dos pontos de
interpretação/percepção ambiental.
A B

D E

F G

Figura 3. A) Ponto 1: mata de araçá-vermelho na borda do lago. B) Ponto 3: Abundância de


orquídeas. C) Ponto 8: Raízes de uva-do-japão sob o afloramento. D) Ponto 10: Raízes de figueiras
escalam as rochas dos paredões. E) Ponto 12: Panorâmica da região obtida na parte superior do
afloramento. F) Ponto 13: Grupo 3 junto à figueira centenária. G) Ponto 14: Grupo 1 realizando
observação na área de campo e Jerivás (Syagrus romanzoffiana)