I Wish

Ou as aspirações secretas das crianças de hoje
Marie Christine Segalen
Na hora do debate engendrado pela promulgação do “casamento para todos”, que concerne à filiação e à educação das crianças, como tomarmos distância de uma concepção “ideal” da família? Como fazer entender que o que vale para uma criança não está do lado de uma pseudo-realidade e dos efeitos imaginários que produz, mas do lado de uma dimensão simbólica e de um desejo que se manifesta de modo particularizado, a partir das falhas que, precisamente, a família produz, sejam quais forem suas modalidades? Um filme japonês, I wish (sub-titulado em francês Nossos votos secretos)[7], conto realista e poético cujos heróis são crianças dos dias de hoje, trata de uma família estilhaçada por ocasião do divórcio dos pais e pode, parece-me, nos ensinar sobre a questão da família para além do Édipo. O ponto de vista tomado pelo realizador, Hirokazu Kore-Eda, é o de centrar sua câmera sobre as crianças do mundo contemporâneo, sobre sua maneira de ver, de se posicionar, e até de interpretar os adultos. Esse filme deixa aparecer de maneira fina e sensível as mutações da sociedade japonesa e suas consequências sobre a família. Um princípio de incerteza percorre o longa metragem revirando os valores tradicionais do Japão. Até os doces do avô, fabricados segundo as modalidades ancestrais, têm, para seus netos, um gosto “incerto”. A modernidade do filme está nos ínfimos detalhes que daí em diante não enganam sobre a evolução dessa sociedade: quando um professor pede aos alunos que façam um dever sobre o que seu pai faz, uma menina faz uma observação dizendo que se trata de um atentado à vida privada e previne que mandará o professor embora. O poder do mestre está destituído, daí para frente é o reino do direito que prevalece. O começo do filme nos mergulha na vida cotidiana das crianças: uma vida organizada, enquadrada, agradável. As crianças são educadas, suas vestimentas estão na ultima moda, suas atividades extra escolares múltiplas, a alimentação saudável e diversificada, os adultos amáveis e atenciosos. Nesse contexto

moderno e civilizado, de alto nível de vida, o que uma separação dos pais produz? O que ela introduz? É o que o filme descreve e declina, bem perto de uma lógica infantil e de um certo olhar que recai sobre os adultos e sobre o mundo. Dois irmãos, Ryunosuke e Koichi, em torno de 8 anos e 10 anos, vivem em duas cidades situadas a 300 km uma da outra porque seus pais acabam de se desunir. A mais nova das crianças, Ryu, vive só com seu pai, guitarrista de rock. Ele tem uma vida bastante livre no meio dos amigos do pai e de seus próprios companheiros. Criança esperta, alegre, ativo, ele nunca pede para rever sua mãe, o que a machuca. Todas as manhãs antes de partir para a escola, ele acorda seu pai para lhe dizer que vá trabalhar (com sua guitarra). Os papéis estão invertidos: o filho ordena, o pai faz de conta que obedece. Cada um se presta ao jogo. A autoridade do pai é posta em cena, caricaturada e, portanto, ultrapassada. Nem por isso uma catástrofe se produz para o filho. Como essa criança se situa aí? Sustentando-se com companhia de duas meninas e de um menino de sua idade, investindo 100 % nos cuidados de sua horta, ele se comunica sem parar com seu irmão graças a seu telefone celular, deixando seus pais por fora do que vive. O que pontua o filme todo é a conversação que liga as duas crianças. O mais velho vive com sua mãe e seus avós maternos, perto de um vulcão ativo, cujas cinzas caem sem cessar. Muito cercado, Koichi, no entanto se mostra nostálgico de um passado em que a família estava reunida e sonha com sua reconstituição. Ele tenta convencer seu irmão a ir nesse sentido, mas Ryu lhe lembra as disputas passadas. Koichi interroga então o pai sobre seu desejo, informando-o da provável chegada de um novo amante na vida de sua mãe e reprova-o por não agir. Frente a suas questões que permanecem sem respostas, face à insuficiência do Outro, ele fica numa posição depressiva, e busca um apoio junto a seus alter egos que se mostram também dubitativos. Então Koichi se volta para o desenho e seus temas vulcânicos. A chegada de um TGV que deve ligar proximamente as duas cidades gera uma fantasia e sonhos nas crianças. Um rumor circula: quando os dois TGV passando em sentido inverso se cruzarem pela primeira vez, uma energia nova aparecerá que produzirá “um milagre”: os votos secretos dos que estiverem na proximidade se realizarão... Cada criança se põe então a desdobrar seus sonhos ... O filme põe em cena a estranha viajem que as crianças vão empreender, a revelia dos pais, com o fim de realizar seus votos secretos. Quais são esses votos e o que essa expedição vai produzir? Qual mutação vai operar para cada um dos dois? Além das condições da vida familiar e social, cada sujeito vai elaborar e seguir a via de seu desejo que passa por uma renúncia a certas imagens e a certos objetos de consumo do mundo contemporâneo. “Todo saber efetua sobre a criança uma ablação, exige que ela consinta em uma perda”[8], nos diz Jacques-Alain Miller. Essa viajem vai se mostrar iniciática: vai confrontar as crianças, com efeito, com diferentes perdas e colocá-las face a seus verdadeiros desejos em laço com o Outro, o que os engaja bem além do que haviam imaginado.

“O Nome-do-Pai. Podemos prescindir dele com a condição de dele nos servirmos”[9], esse filme vem ilustrá-lo finamente. Mesmo se o pai se apresenta destituído quanto à imagem, sua palavra e seu desejo veiculam uma certa orientação da qual, no final das contas, farão uso. Esse pai sustenta a ideia , por exemplo, de que é necessário o inútil nesse mundo. “Se tudo tivesse sentido isso não seria vivível”. Filme delicado, todo com nuances e sutilezas, com momentos fulgurantes de poesia (fogos de artifício, campo de cosmos), ele nos ensina sobre mutação de valores e sobre o saber das crianças de hoje: saber que não se apoia mais sobre um Ideal válido para todos, mas sobre algumas palavras que contam para eles, sobre “pares” que servem de ponto de apoio, e sobre algumas opções de valor sintomático (desenho para Koichi, cultura de legumes para Ryu que são consoantes com a paixão do pai pela música). Uma caminhada se efetua dos sonhos das crianças (perdidos) ao desejo dos sujeitos, via um percurso iniciático onde não se trata mais de apostar no Outro (que não existe) ou na ilusão de uma família ideal, mas sim nas forças inventivas e na criação de cada um.

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