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PROCESSO TRT/SP AGRAVO DE PETIÇÃO AGRAVANTE AGRAVADA ORIGEM

Nº 0130200-38.1993.5.02.0462 - 10ª TURMA

: WYETH INDÚSTRIA FARMACÊUTICA LTDA : MARIA DAS GRAÇAS MOREIRA DE OLIVEIRA : 2ª VARA DO TRABALHO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

Inconformada com a r. decisão de fls. 655, que

determinou nova reintegração da reclamante no emprego, apresenta a reclamada

agravo de petição às fl. 669/75 alegando que esgotou o período estabilitário da

autora.

Tempestiva contraminuta às fls. 718/22, com preliminar

de não conhecimento do recurso.

Desnecessário o parecer do Ministério Público do

Trabalho, nos termos da Portaria PRT 03/2005.

É o relatório.

V O T O

Conheço do agravo de petição, tendo em vista o

preenchimento dos requisitos legais de admissibilidade.

Preliminar de não-conhecimento

Alega a agravada que o agravo de petição não

preenche o pressuposto de admissibilidade previsto no art. 897, § 1º, da CLT,

atinente à delimitação da matéria e valores impugnados, em razão do que deve

ser negado conhecimento ao apelo.

Não lhe assiste razão.

A questão controvertida nestes autos não esbarra em

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valores, restringindo-se ao cumprimento, ou não, de obrigação de fazer – reintegrar ou não a reclamante, no caso – estando, portando, delimitada no agravo de petição.

Rejeito a preliminar.

Mérito. Trata-se de demanda em que foi deferida à reclamante (que exercia a função de “auxiliar de fabricação”) sua reintegração no emprego sob o fundamento de que, à data da dispensa (18.04.1989), era portadora de doença profissional constatada por laudo pericial elaborado nos autos, tendo o julgado (fl. 142/4) sido proferido nos seguintes termos:

a reclamante que, sendo portadora de doença

profissional, tenossinovite, usufruía estabilidade convencional e não poderia ter sido dispensada.

A reclamada arguiu prescrição na medida em que a reclamante fora dispensada em 18.04.89 e manifestou a presente ação só em 18.08.93. Já dirimido o tema, contudo, às fls. 95/96. Favorável à reclamante, por outro lado, o laudo pericial. Atestou o Sr. Expert que a reclamante foi incumbida de tarefas que exigiam ‘movimentos repetitivos das mãos e dos dedos, com posições viciosas dos punhos’ (fls. 122). Em pouco tempo adquiriu sinovite do punho direito e usufruiu várias licenças para correspondente tratamento médico. Ao rescindir o contrato de trabalho em exame a reclamada sabia que a reclamante era portadora da ‘Lesão por Esforços Repetitivos de Grau III’, doença profissional atestada pelo Sr. Perito. E violou, conscientemente, a norma coletiva da categoria. Irrecusável o restabelecimento do contrato. A reclamada deverá reintegrar a reclamante e responder pelos salários, com as vantagens atribuídas à sua categoria, a partir da propositura desta ação. Não há como responsabilizá-la pelo equívoco que ensejou o arquivamento do primeiro processo e consequentemente retardamento deste. Nesse sentido a jurisprudência que se formou sobre o tema. Procedente em parte, portanto, a ação. Os honorários periciais, moderadamente arbitrados em R$1.000,00, atualizáveis desta à data do depósito, serão suportados pela reclamada que lhes deu causa e foi vencida. Ante o exposto, considerando o mais que dos autos consta, decide a 2ª Junta de Conciliação e Julgamento de São Bernardo do Campo, sem divergência, julgar PROCEDENTE EM PARTE a ação e condenar a reclamada a reintegrar a reclamante em função compatível com seu estado de saúde bem como a lhe pagar o quanto for apurado em liquidação, na forma da fundamentação, por salários, inclusive os relativos a natalinas e férias, com as vantagens atribuídas a sua categoria, a partir da propositura desta ação. Determinado, ainda, o depósito das diferenças daí decorrentes

“(

)Alega

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sobre o FGTS para oportuno saque nas hipóteses legais. Juros, atualização monetária, descontos previdenciários e fiscais, na forma da legislação pertinente. Honorários periciais, R$1.000,00, pela reclamada, conforme fundamentação. Custas processuais sobre R$20.000,00, valor ora arbitrado à condenação, no importe de R$400,00, a cargo da reclamada. INTIMEM-SE. Nada mais. a.)Lauro Previatti, Juiz do Trabalho. (

Embargos de declaração opostos por ambas as partes não modificaram o decidido (fl. 150 e 155/6). Ao recurso ordinário interposto pela reclamada foi negado provimento (fl. 178/2), sendo que os embargos declaratórios opostos pela ré, em segundo grau, embora parcialmente acolhidos, também não introduziram modificação no julgado (fl. 186/8). Nos embargos de declaração opostos pela ré, ora agravante, em primeira e segunda instâncias, requereu a reclamada pronunciamento dos respectivos Juízos acerca da delimitação temporal da estabilidade da autora (fl. 148/9, 153/4 e 181/3), sendo o primeiro dos embargos rejeitado sob o fundamento de que a pretensão não passou pelo contraditório (fl. 150 e 155/6); e o segundo, embora acolhido em parte, entendeu que a pretensão da reclamada revelava inovação, deliberando-se pelo “não-conhecimento do recurso ordinário, no que respeita à pretensão do recorrente de limitar o período de estabilidade da empregada a aposentadoria” (186/8). Ao recurso de revista então interposto pela empresa foi negado conhecimento (fl. 224/6), configurando-se o trânsito em julgado da sentença de primeiro grau nos moldes em que proferida. A reclamante foi reintegrada no emprego em 08.02.2006, às 14h30, na função de auxiliar de escritório (238 destes autos e fl. 13/7 da carta precatória apensada ao 2º volume), processando-se paralelamente a liquidação de sentença, através perícia contábil, homologada na forma de fl. 424/5 e 503, sendo certo que, ultimados os trâmites da execução, procedeu-se à liberação do montante depositado nos autos (fl. 502), nas devidas proporções aos respectivos credores (autora, peritos, cofres públicos da União, FGTS e restituição à reclamada), em 19.11.2007, conf. fl. 527/33.

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Em 08.07.2011, mais de 05 anos após a reintegração, peticionou a reclamante (fl. 574) alegando ter a reclamada descumprido a coisa julgada, que lhe deferiu reintegração “por tempo vitalício”, uma vez que foi dispensada sem justa causa em 01.07.2011. Manifestando-se a respeito, defendeu a reclamada (fl. 579/82) que a garantia de emprego deferida à autora correspondeu a 330 dias, pois foi postulada com base em norma coletiva que assim definiu, não se cogitando de estabilidade vitalícia, tendo sua dispensa ocorrido regularmente com observância da legislação em vigor, mediante exame médico demissional inclusive, que constatou a aptidão da agravada para o trabalho. Juntou cópia de referido exame (fl. 584).

Em réplica a essa defesa da ré sustentou a autora (fl. 654) que os embargos declaratórios anteriormente opostos pela empresa não tiveram o condão de modificar o julgado de primeira instância, que não estabeleceu qualquer limitação temporal em relação à reintegração, supondo inclusive que vá até a aposentadoria, aduzindo a agravada que a intenção da ré é rediscutir questões já superadas. O MM Juízo da execução acolheu a tese autoral, proferindo a decisão de fl. 655, ora agravada, do seguinte teor:

“Processo nº 1302/1993 Vistos, etc. A empresa embargou de declaração, em relação ao termo final da estabilidade às fls. 148-149, sendo que nas fls. 150 essa Vara do Trabalho entendeu inexigível a pretensão, que demandaria dilação e contraditório, portanto tal pedido não foi apreciado em primeira instância. Na segunda instância, o E. TRT entendeu que a discussão da limitação da estabilidade não pode ter guarida porque não aventada na contestação, sendo então estranha no recurso. Às fls. 188 resta claro o não conhecimento do R.O. no que respeita a limitação do período de estabilidade.

Portanto, não há limite à estabilidade concedida, ônus que a empresa deve suportar pela deficiente defesa em contestação e manifestações posteriores, conforme reconhecido. Assim, decide-se:

1 – Irregular a dispensa noticiada, expeça-se mandado de

reintegração;

2 – informem os litigantes se têm algo a requerer em relação

aos valores a que se refere a decisão de fls. 526 (que corrigiu de oficio a

sentença de liquidação de fls. 424-425 e 503, que tratou dos valores

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anteriores a reintegração da obreira.) Data supra. a.) MEIRE IWAI SAKATA Juíza do Trabalho”

Em decorrência da decisão supra a agravada foi novamente reintegrada, em 31.01.2012 (fl. 713), insurgindo-se a empresa contra tal deliberação através do agravo de petição ora em exame (fl. 669/74). Reitera a existência de base convencional na pretensão que foi ajuizada e deferida nestes autos, aduzindo que todas as normas coletivas juntadas estabeleceram, sucessivamente, prazos determinados para os períodos estabilitários que normatizaram, sendo a reclamante beneficiada com a regra de 330 dias (cláusula 25ª), de há muito decorridos. Assiste-lhe razão. Com efeito, analisando o processado verifico que não se trata de violação à coisa julgada, porquanto a sentença expressamente condenou a reclamada “a reintegrar a reclamante em função compatível com seu estado de saúde bem como a lhe pagar o quanto for apurado em liquidação, na forma da fundamentação” (grifei), e a “fundamentação” foi clara ao dizer que “Alega a reclamante que, sendo portadora de doença profissional, tenossinovite, usufruía estabilidade convencional e não poderia ter sido dispensada.” culminando por decidir que “Ao rescindir o contrato de trabalho em exame a reclamada sabia que a reclamante era portadora da ‘Lesão por Esforços Repetitivos de Grau III’, doença profissional atestada pelo Sr. Perito. E violou, conscientemente, a norma coletiva da categoria. Irrecusável o restabelecimento do contrato.” (grifei). E se a fundamentação da sentença foi baseada em norma coletiva que estabeleceu período estanque para a garantia de emprego, entendo que era mesmo despicienda a oposição de embargos declaratórios para provação de manifestação delimitadora do pedido, considerando, repita-se, a base jurídica (norma coletiva), em que foi formulado e deferido o pedido. A alegação de que sentença lavrada nestes termos defere estabilidade vitalícia não prevalece.

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A finalidade da reintegração na empresa é reconstituir

estado de direito violado pelo empregador, e foi alcançada essa finalidade.

Segue-se o contrato de trabalho normalmente, então, com a advertência à

empresa apenas de que, antes de decorrido o prazo da garantia de emprego, é

vedada a dispensa do empregado; decorrido esse prazo o contrato de trabalho

volta a ficar sujeito às regras que lhe são inerentes, dentre as quais está o jus

variandi do empregador.

Nosso ordenamento jurídico não mais contempla nem

mesmo a estabilidade decenal (art. 492 e ss, da CLT), esta sim, verdadeira

estabilidade, e não mera garantia de emprego, e tal estabilidade também não foi o

objeto da causa.

Também não há notícia de que tenha a reclamada

violado a parte do julgado de natureza sucessiva, decorrente da norma coletiva no

qual se fundamentou – cláusula 25ª, fl. 64/5, incontroversa – já que referida

cláusula concedeu direito à garantia de emprego “enquanto perdurar” a doença

profissional (fl. 66), sendo de se salientar que a reclamante foi dispensada após

mais de 05 anos de reintegrada.

Ante tais circunstancias, não se trata de violação à

coisa julgada. Acolho o agravo de petição. Reformo a decisão agravada (fl. 655)

no ponto em que determinou a reintegração da reclamante.

Do exposto, ACORDAM os Magistrados da 10ª Turma

do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região em: conhecer do agravo de

petição, rejeitar a preliminar e, no mérito, dar-lhe provimento, para o fim de

excluir da decisão agravada (fl. 655) a determinação de reintegrar a reclamante,

cancelando-a neste ponto.

ML.

CÂNDIDA ALVES LEÃO Relatora

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