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OO EESSPPÍÍRRIITTOO DDOO SSEENNHHOORR SSPPIINNOOZZAA

INTRODUÇÃO

Manuel Dias Duarte

Se

o ateísmo é a atitude natu-

beram desde cedo chamar a

ral

e espontânea do ser huma-

atenção para a origem política

no, a crença nos deuses ape- nas se torna um hábito quan- do legitimada pelo poder e incutida pela educação.

e social da religião e para a importância do papel dos le- gisladores-teólogos (os pro- fetas e adivinhos).

No Ocidente, tais práticas começaram bem cedo, no sé- culo VIII a.C, com a difusão

Crítias tornar-se-á famoso ao defender a ideia de que os deuses foram inventados pe-

das primeiras teologias antro- pomórficas, nas quais os deu- ses homéricos, com as suas virtudes e os seus vícios, são

los reformadores políticos para impedir que os homens não praticassem às escondidas o que o Direito lhes proibia

os principais personagens.

Mudados os tempos, mudadas

as

vontades, em consequência

do

impacto da sabedoria natu-

ralista das Escolas jônicas, os

teólogos do período pré so- crático apressaram-se a subs- tituir as velhas narrativas mí- ticas por novas teologias as- trais (Pitágoras, mas princi- palmente Platão).

Porém, os solistas do século

V

a.C. continuando na linha

de

Xenófanes de Cólofon (sé-

culo VI a. C) a investigar a natureza das coisas e, parti- cularmente, dos deuses, sou-

coactivamente.

Desde então – e até ao fim da Antiguidade Clássica (muito depois de Luciano, por exem- plo) – entre os filósofos da linhagem Jónica, os sábios ou sofistas naturalistas sempre souberam encaminhar toda a discussão sobre a origem, a natureza, o valor e os objeti- vos das religiões, para o ter- reno histórico, psicológico e

sociológico.

Neste contexto, foram de suma importância todas as críticas que se teceram em torno das opiniões, sentenças

e atitudes políticas daqueles

que se apresentaram como profetas ou reformadores reli- giosos.

Em plena Idade Média, no meio de sanguinários confli- tos político-religiosos, de novo se reavivaram as antigas críticas contra as teologias antropomórficas, desta feita, cristã, muçulmana e judaica,

partindo-se da análise da ação

e do pensamento dos seus fundadores.

Célebre ficaria a obra que deu pelo nome de De trilius im- postorilius antepassada do presente Tratado dos Três Im- postores: Moisés, Jesus, Maomé.

Desde o século XIII até ao século XVIII, numerosos fo- ram os autores a quem se atri- buiu a paternidade de tal es- crito.

Com Averróis e o imperador Frederico II (ou o seu secretá- rio Pierre des Vignes) à cabe- ça, seguiram-se-lhe Tomás Escoto 1 , Boccacio, Erasmus,

1 Em Averroès et Vaverroisme, 1852, citando o Dictionnaire historique et critique de P. Bayle, a lenda atribui a Averróis a afirmação: "Há três religi-

Pomponazzi, Maquiavel, Pe- dro Aretino, Miguel Servet, Rabelais, Jérôme Cardan, Gi- ordano Bruno, Campanella, Vanini, Hobbes, Espinosa, Toland e até o barão de Hol- bach. Como vemos, uma plêi- ade de pensadores humanis- tas, de libertinos eruditos e de filósofos naturalistas.

De concreto, sabemos que o papa Gregório IX acusou Fre-

derico II, em 1239, de blas- femo por defender que Moi- sés, Cristo e Maomé não pas- savam de três grandes im- postores.

De acordo com E. Renan, Tomás Escoto foi acusado por Álvaro Pais (in Colírio da fé. Parte V) de "celerado", "ím- pio", "imundo concubinário", "máximo entre os hereges", pois defendeu que Cristo não passou de um mago, fazedor de milagres. Adepto da tese dos "três impostores", segun- do Álvaro Pais, heresia que pululou nas Escolas de Lis- boa, defendida publicamente.

ões

cristianismo; uma outra é uma religião de crianças, é o judaísmo; a terceira é uma religião de porcos, é o islamismo".

uma das quais é impossível, é o

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Escoto acabou preso e conde- nado à morte. (veja-se: Ma- nuel Dias Duarte, História da filosofia em Portugal. cone- xões políticas e sociais, Lis- boa, Livros Horizonte, pgs.

27/28).

Como só se conhecem duas versões do De trilius imposto- rilius, chegou a admitir-se que tal obra medieval nunca existiu, tendo apenas feito fortuna o título saído da opi- nião ou de Frederico II, gran- de admirador do racionalismo e da ciência árabe e adversá- rio do Papado, ou de Aver- róis, filósofo republicano e seguidor do naturalismo aris- totélico.

Essas duas versões conheci- das são, a mais antiga, um manuscrito em latim, datado de 1688, e atribuído a Johan Joachim Muller, com o título De imposturis religionum breve compendium e que só foi impresso por volta de 1753; a segunda, feita, de acordo com a tradição, a par- tir de um manuscrito roubado na biblioteca dos príncipes da Saxónia, é a célebre La vie et l'esprit de M. Benoit Spinoza,

publicada em 1719 e reedita- da a partir de 1721 com o tí- tulo de Traité des trois inpos- teurs e hoje consensualmente atribuído a Jean-Maximilien Lucas (1636-1697).

Também conhecida pelo título Traité des trois imposteurs:

Moise, Jesus, Mahomet /L'esprit de Spinoza, a obra deve a sua fama, por um lado, por ser composta de extractos provenientes dos Dialogues de Vanini, da Ética e do Tra- tado teológico político de Es- pinosa; por outro, pela suma importância que viriam a ad- quirir as ideias críticas do fi- lósofo luso-holandês na Ale- manha de Lessing, na filoso- fia política de muitos socia- listas e comunistas utópicos, particularmente ingleses, e na crítica da religião revelada.

Os resultados das investiga- ções de Louis Massignon, da- dos a público em "La legende De Tribus impostoribus et ses origines islamiques" (in Re- vue d’histoire dês Religions LXXXII, Julho 1920, pp. 74- 78), vieram mostrar que, se não a obra, pelo menos a ideia saiu da pena do chefe qarmata

Abu Tahir al-Djannabi (prin- cípios do século X), que afir- ma numa circular confidenci-

al destinada aos seus seguido-

res: "Neste mundo três indi- víduos corromperam os ho- mens, um pastor, um médico e um cameleiro. E este came-

leiro foi o pior escamoteador,

o pior prestidigitador dos

três". Estávamos então no al- vores da Idade Contemporâ- nea, com as Revoluções Ame- ricana e Francesa em incuba-

ção, revoluções feitas em nome da igualdade, da liber-

dade e da fraternidade. A obra nunca foi editada em língua portuguesa. Porquê apresentá-

la agora e finalmente ao pú-

blico lusófono?

Nenhum historiador concor- dará que a Idade Média tenha terminado em 29 de Maio de 1453, dia em que os Turcos entraram em Constantinopla. Não obstante, muitos desses historiadores não deixariam

de concordar que o 11 de Se-

tembro de 2001 marca verda- deiramente – mais do que a queda do muro de Berlim – o fim da Modernidade.

O fim da Modernidade anun-

ciaria o fim inadiável da filo- sofia e do pensamento dico- tômico, feito de oposições e de contradições. Referimo- nos à velha tábua pitagórica- aristotélica: ímpar/par; ma- cho/fêmea; finito/infinito; perfeito/imperfeito, desenvol- vida posteriormente pela lógi-

ca formal e pela dialética (tese/antítese/síntese).

Com a Pós-modernidade, es- taríamos, pois, a assistir (im- potentes ou satisfeitos) ao fim da divisão do mundo político e social em dois blocos anta- gônicos (esquerda/direita; ca- pitalismo/comunismo, etc), reaparecendo em sua substi- tuição a velha divisão por "culturas" ou "civilizações" caracterizadas cada qual pela religião dominante (cristã, islâmica, judaica, confuciana, hindu ou outra).

O fim da história e o conflito inevitável de civilizações que parecem perfilar-se no hori- zonte do século XXI, com o regresso às guerras político- religiosas anteriores à Moder- nidade, só serão possíveis se chegar ao seu termo a destrui-

ção da razão, destruição que

tem vindo a ser realizada em nome da fé, do sentimento, do ela vital, do instinto de sobre- vivência e da vontade.

Como no final da Antiguidade Clássica e nos alvores do Me- dievo, a razão é intimada a ceder o seu lugar à fé e a filo- sofia à religião, tão belicosos se mostram os atuais funda- mentalismos cristão, judaico e islâmico.

Seriamente ameaçada, recu- sando-se a ser mera serva da Teologia, à Filosofia, não tar-

da, só lhe restará refugiar-se dentro de novos círculos de entusiastas, tal como ocorreu nos séculos XVI, XVII e XVIII, começando as suas obras, impressas em pequenas tiragens, a passar de mão em mão. A não ser que o debate se reabra e que a discussão, inspirada no exemplo dos admiradores de Espinosa, se generalize.

Começando por uma reflexão exigente apoiada em obras de referência.

Se do afamado Spinosa não se pôde ter

A arte de um pincel para as feições pintar A Sabedoria, por imorredoura ser,

Os seus escritos sempre irá guardar.

AVISO

Nada haverá, talvez, que dê aos espíritos fortes um pre- texto mais plausível para in- sultar a religião do que a ma- neira como agem os seus de- fensores. Por um lado, tratam as objeções com o mais ex- tremo desprezo, e, por outro, exigem, com o mais ardente zelo, a supressão dos livros que contêm essas objecções, que consideram tão desprezí- veis.

Há que convir que este proce- dimento prejudica a causa que defendem. Com efeito, se es- tivessem seguros da sua bon- dade, acaso temeriam que ela sucumbisse se fosse, apenas, sustentada por boas razões?

E, se estivessem cheios da- quela firme confiança, pela verdade inspirada naqueles

que crêem combater por ela, recorreriam a falsas vantagens

e a vias nefastas para a fazer triunfar? Não descansariam

tão-só na sua força, e, seguros da vitória, não se disporiam a um combate igualitário contra

o erro? Teriam qualquer pro-

blema em conceder a toda a

gente a liberdade de comparar as razões de uma e de outra parte, assim ajuizando de que lado se encontra a verdade?

Retirar essa liberdade não leva os incrédulos a imaginar que se temem os seus raciocí- nios, e que se pensa ser mais fácil suprimi-los do que mos- trar-lhes a sua falsidade?

Mas, apesar de estarmos con- vencidos de que a publicação do que escrevem de mais forte contra a verdade, longe de a prejudicar, serviria, ao invés, para tornar o seu triun- fo mais estrondoso, e a der- rota deles mais vergonhosa, não obstante, não ousamos ir contra a corrente, tornando público O Espírito do Sr. Be- nedito de Espinosa.

Imprimimos tão poucos exemplares que a obra será tão rara como se nunca tives-

se deixado de ser um manus- crito.

Só às pessoas mais sagazes, capazes de o refutar, será dis-

tribuído o escasso número de exemplares. Não duvidamos

de que se empenharão no combate do autor deste escrito monstruoso, destruindo, de uma ponta a outra, o ímpio sistema de Espinosa no qual se fundam os sofismas do seu discípulo. Eis o objectivo da publicação deste tratado, no qual os libertinos vão beber os seus capciosos argumentos.

Editamo-lo sem quaisquer cortes, nem amaciamentos, para que esses senhores não

possam dizer que castramos as dificuldades, para facilitar a respectiva refutação. Aliás, as injúrias grosseiras, as mentiras, as calúnias, as blas- fêmias, que serão lidas com horror e execração, refutam- se a si próprias, e só podem conduzir à confusão daquele que as enunciou com tanta extravagância quanta impie- dade.

PREFÁCIO DO COPISTA

Baruch ou Benedito de Espi- nosa adquiriu um renome tão pouco honroso, tanto pela sua doutrina como pela singulari- dade dos seus sentimentos em matéria de religião, que quem queira escrever sobre ele, ou a seu favor, tem de se esconder com tanto cuidado e ter tantas cautelas como se estivesse à beira de cometer um crime.

No entanto, não faremos mistério de confessar que co- piamos este escrito de acordo com o original, cuja primeira parte trata da vida dessa per- sonagem e a segunda dá uma ideia do seu espírito.

Na verdade, o autor é desco- nhecido, ainda que aquele que o compôs tenha sido um dos seus discípulos, como o pró- prio esclarece.

Todavia, se fosse legítimo de- duzir algum fundamento de conjecturas, poder-se-ia afir- mar, quiçá com certeza, que toda a obra é da lavra do fale- cido Senhor Lucas, tão famo- so pelas suas quintessências e mais ainda pelos seus costu- mes e pela sua maneira de viver.

Seja como for, a obra é sufici- entemente estranha para me- recer ser examinada por pes- soas de espírito, o que justifi- ca o trabalho de fazer uma cópia.

Eis o único fim que nos pro- pusemos, deixando aos outros o cuidado de fazerem as re- flexões que julgarem propo- sitadas.

HEREM PRONUNCIADO CONTRA SPINOZA EM AMSTERDÃ

“Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mer- cês: como há dias que, ten- do notícia das más opiniões de Baruch de Espinosa, procuraram por diferentes caminhos e promessas reti- rá-lo de seus maus cami- nhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores notícias das hor- rendas heresias que prati- cava e ensinava, e das enormes obras que pratica- va; tendo disso muitas tes- temunhas fidedignas que depuseram e testemunha- ram tudo em presença de

dito Espinosa, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presen- ça dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu pa- recer que dito Espinosa seja excomungado e apartado de toda nação de Israel como atualmente o põe em He- rem, com o Herem seguin- te: Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consenti- mento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seis- centos e treze parceiros que estão escritos neles, nós

Excomungamos, aparta- mos, amaldiçoamos e pra- guejamos a Baruch de Es- pinosa, como o herem que excomungou Josué a Jeri- có, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Mal- dito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, mal- dito ele em seu sair e mal- dito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então semeie o fu-

ror de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vos- so Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum fa- vor, nem estar com ele de- baixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou escrito por ele”.

6 de Ab de 5.416 (27 de julho de 1656)

A VIDA DO FALECIDO SENHOR DE SPINOSA

POR UM DE SEUS DISCÍPULOS

1. Nosso século é muito es- clarecido, mas nem por isso é mais eqüitativo em relação aos grandes homens. Embora lhes devam suas mais belas luzes, e dessas se aproveitam por sorte, não podem suportar que os louvem, seja por in- veja ou por ignorância; e é surpreendente que se faça ocultar, para escrever sua vida, como se faz para come- ter um crime; particularmente se esses grandes homens se tornaram célebres por vias extraordinárias e desconheci- das das almas comuns. Por que então, sob o pretexto de fazer honrar as opiniões rece- bidas, por mais absurdas e ridículas, eles defendem sua ignorância, e sacrificam as mais sadias luzes da razão, e por assim dizer, a própria verdade? Porém, por mais

risco que alguém corra nesta carreira tão espinhosa, eu te- ria bem pouco proveito da Filosofia desse grande ho- mem de quem eu empreendo escrever a vida, e as máximas, se temesse engajar-me. Eu receio pouco a fúria do povo, tendo a honra de viver numa república que deixa aos seus sujeitos a liberdade de senti- mentos, e na qual os próprios desejos seriam inúteis para sermos felizes e tranqüilos, se as pessoas de comprovada probidade não fossem vistas sem ciúmes.

Se esta obra, que consagro à memória de um ilustre amigo, não for aprovada por todo mundo, pelo menos que a seja por aqueles que amam so- mente a verdade e que tenham alguma espécie de aversão ao vulgar impertinente.

I

JUVENTUDE E EXCOMUNHÃO

2. Baruch de Spinosa era de Amsterdã, a mais bela cidade da Europa, e de origem muito modesta. Seu pai, que era ju- deu de religião e português de nação, não tendo o meio para desenvolvê-lo no comércio, resolveu lhe fazer aprender as letras hebraicas. Esta espécie de estudo, que é toda a ciên- cia dos judeus, não era capaz de satisfazer um espírito bri- lhante como o seu. Ele não tinha quinze anos e já formu- lava dificuldades que os mais doutos entre os judeus resol- viam a duras penas. E embora uma juventude tão grande não seja quase nada para a idade do discernimento, já era sufi- ciente para ele se aperceber de que suas dúvidas embara- çavam seu mestre. Com medo de irritá-lo, ele fingia estar muito satisfeito com suas res- postas, contentando-se em escrevê-las para delas se ser- vir em tempo e lugar mais adequados. Como ele não lia nada além da Bíblia, tornou-

se logo capaz de não necessi- tar mais de intérprete. Ele fa- zia reflexões tão corretas que os rabinos somente lhe repli- cavam como os ignorantes que, vendo sua razão exaurir- se, acusam àqueles que lhes pressionam demais, de ter opiniões pouco conforme a religião. Tão estranho proce- dimento lhe fez compreender que era inútil instruir-se com a verdade. “O povo não a co- nhece; aliás, acreditar cega- mente nos livros autênticos é”, dizia ele, “muito amar os velhos erros”. Resolveu então consultar somente a si mes- mo, mas não poupando ne- nhum cuidado para descobri- la. É necessário ter o espírito grande e de uma força extra- ordinária, para conceber, aos vinte anos, um projeto desta importância. Com efeito, ele logo fez ver que não tinha nada empreendido temeraria- mente: porque começando a ler a Escritura toda de novo, ele penetrou sua obscuridade,

dando a conhecer os mistéri- os, e revelando a luz através das nuvens, atrás das quais tinham lhe dito que a verdade estava escondida.

Após o exame da Bíblia, ele leu e releu o Talmude com a mesma exatidão. E como não tinha ninguém que o igualasse na compreensão do hebreu, ele não encontrou nada difícil, nem nada também que o satis- fizesse. Mas ele era tão judi- cioso, que quis deixar amadu- recer seus pensamentos antes de aprová-los.

3. Contudo, Morteira, homem célebre entre os judeus, e o menos ignorante de todos os rabinos de seu tempo, admi- rava a conduta e o gênio de seu discípulo. Ele não podia compreender que um jovem com tanta perspicácia fosse tão modesto. Para conhecê-lo a fundo, ele o testou de todas as maneiras, e admitiu, de- pois, que jamais encontrou nada a repreender, tanto em seus costumes, quanto na be- leza de seu espírito. A apro- vação de Morteira aumentou a boa opinião que se tinha de seu discípulo, não a ponto de

lhe causar vaidade. Apesar de tão jovem, por uma prudência precoce, ele pouco se apoiava na amizade ou nos elogios dos homens. Além disso, o amor à verdade era de tal modo sua paixão dominante, que ele não via quase nin- guém. Mas, qualquer precau- ção que tomasse para se es- quivar dos outros, há encon- tros que não se podem ho- nestamente evitar, embora sejam eles freqüentemente perigosos.

4. Entre os mais ardentes e os mais dedicados em estabele- cer relações com ele, dois jo- vens, que se diziam ser seus amigos mais íntimos, suplica- ram para que ele lhes dissesse seus verdadeiros sentimentos. Eles lhe mostraram que quaisquer que fossem ele não teria nada a temer da parte deles, a curiosidade tinha como único objetivo esclare- cer suas dúvidas. O jovem discípulo, surpreendido por um discurso tão pouco visto, ficou algum tempo sem res- ponder-lhes; mas, vendo-se acossado por sua inoportuni- dade ele lhes disse rindo, que “eles tinham Moisés e os Pro-

fetas que eram verdadeiros israelitas, e que eles tinham decidido tudo; que os seguis- sem sem escrúpulos, se eles eram verdadeiramente israe- litas”. “A crer neles”, respon- deu um dos jovens, “eu não vejo que haja um ser imateri- al, que Deus não tenha ne- nhum corpo, nem que a alma seja imortal, nem que os anjos sejam uma substância real. O que lhe parece?” Continuou ele, dirigindo-se ao nosso dis- cípulo. “Deus tem um corpo? E existem os anjos? É a alma imortal?” “Eu vejo”, disse o discípulo, “que não encon- trando nada de imaterial ou de incorporal na Bíblia, não há nenhum inconveniente em crer que Deus seja um corpo, e tanto mais, que Deus sendo grande, assim como fala o rei Profeta 2 , é impossível de compreender uma grandeza sem extensão, e que, por con- seguinte, não seja um corpo. Quanto aos espíritos, é certo que a Escritura não diz de modo algum que sejam sub- stâncias reais e permanentes, mas simples fantasmas, no- meados anjos, porque Deus se

2 Davi (cf. Salmo 48,1).

serve deles para declarar sua vontade, de tal maneira que, os anjos e toda outra espécie de espírito, somente são invi- síveis em razão de sua maté- ria muito sutil e diáfana, que só pode ser vista como vemos os fantasmas num espelho, em sonhos ou à noite; da mesma maneira que Jacob viu numa escada, dormindo, os anjos subirem e descerem.

Eis porque não lemos que os judeus tenham excomungado os saduceus por não terem acreditado em anjos, pois o Antigo Testamento não diz nada de sua criação. Quanto à alma, por toda parte em que a Escritura se refere a ela, a palavra ‘alma’ é empregada simplesmente para exprimir a vida, ou para tudo o que está vivo. Seria inútil procurar nela alguma coisa sobre a qual se possa apoiar sua imortalidade. Pelo contrário, ela está visível em cem luga- res, e não há nada mais fácil de provar; mas este não é o tempo nem o lugar de falar disso”.

“O pouco que acaba de di- zer”, replicou um dos amigos,

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“convenceria os mais incré- dulos. Mas isto não é sufici- ente para satisfazer teus ami- gos, que precisam de alguma coisa mais sólida, e acres- cente que a matéria é muito importante para ser conside- rado superficialmente. Nós somente iremos deixá-lo ago-

ra

com a condição de retomá-

la

uma outra vez.”.

5. O discípulo, que não procu- rava outra coisa do que termi- nar a conversa prometeu tudo

o que eles queriam. Mas, na

seqüência, ele evitou cuidado-

samente todas as ocasiões nas quais ele se percebia que eles procuravam reatá-la; e se re- cordando que raramente a cu- riosidade do homem tem boa intenção, ele estudou a con- duta de seus amigos, na qual encontrou tanto a repreendê- los, que rompeu com eles e não quis mais lhes falar.

Seus amigos, ao se apercebe- rem do desejo que ele tinha, se contentaram em murmurar entre eles, enquanto acredita- ram que era para testá-los. Mas, ao se verem sem espe- rança de poder dobrá-lo, eles juraram se vingar; e para fa-

zê-lo mais sensivelmente, começaram por desacreditá-lo junto à opinião popular. Pu- blicaram que “era um abuso acreditar que este jovem pu- desse tornar-se um dia um dos Pilares da Sinagoga, que ele parecia mais o seu destruidor, pois tinha somente ódio e desprezo pela lei de Moisés; que eles o haviam freqüenta- do baseados no testemunho de Morteira; mas que tinham reconhecido que era um ím-

pio, e que era um abuso o ra- bino ter dele uma boa opini- ão, seu encontro lhes causava horror.”.

6. Este falso boato, semeado na surdina, tornou-se logo público, e quando viram a ocasião propícia para avivá- lo, fizeram seu relatório aos juízes da sinagoga, aos quais agitaram de tal maneira que eles pensaram em condená-lo sem tê-lo entendido.

Passado o ardor do primeiro fogo (os sacros ministros do templo não estão isentos de cólera como todos), ele foi intimado a comparecer pe- rante eles. Ele, que sentia que sua consciência não lhe re-

provava nada, foi alegremente

à Sinagoga, onde os juízes lhe disseram com a face abatida,

e como que roídas pelo zelo

com a casa de Deus, “que após as boas esperanças que tinham concebido de sua pie- dade, eles tinham custado a crer no maldoso boato que circulava sobre ele, que o chamaram para saber a verda- de, e que era com um aperto no coração que o citavam para dar conta de sua fé; que

ele era acusado do mais negro

e do maior de todos os cri-

mes, que é o desprezo pela lei; que eles desejavam ar- dentemente que ele pudesse

se justificar; mas, se estivesse

convicto, não existiria suplí- cio suficientemente severo para puni-lo.”.

Em seguida, eles lhe rogaram

a dizer se era culpado; e,

quando o viram negar, seus

falsos amigos, que estavam presentes, avançaram, depuse- ram descaradamente que “eles

o tinham ouvido ridicularizar

os judeus, como gente su- persticiosa, nascidos e educa- dos na ignorância, que não sabiam o que é Deus, e que no entanto tinham a audácia

de se dizerem seu povo, sem

levar em consideração as ou- tras nações. Quanto a lei, ela

tinha sido instituída por um homem na verdade mais hábil que eles em matéria de políti- ca, mas que não era quase nada mais esclarecido que eles em Física e nem mesmo em Teologia; que com uma onça de bom senso se podia descobrir a impostura, e que era preciso serem tão estúpi- dos quanto os hebreus do tempo de Moisés, para confia-

rem neste galante homem.”

7. Isto, acrescido por seus li- bertinos ao que tinha dito de Deus, dos anjos e da alma, e que seus acusadores não es- queceram de revelar, abala os espíritos, e lhes fazem gritar Anátema, antes mesmo que o acusado tenha tempo de se

justificar.

Os juízes, animados por um santo zelo para vingar sua lei profanada, interrogam, pres- sionam, intimidam. Ao que

responde o acusado, “Que suas caretas lhe causavam pi- edade, que confessaria o que foi dito no depoimento de tão boas testemunhas, se para

sustentá-lo não fosse necessá- rio somente razões incontes- táveis.”.

Entretanto, Morteira sendo avisado do perigo em que es- tava o seu discípulo, correu

imediatamente à sinagoga, onde sentou junto aos juízes,

e lhe perguntou “se ele se lembrava do bom exemplo

que havia lhe dado? Se sua revolta era o fruto do cuidado que teve com sua educação?

E se ele não temia tombar en-

tre as mãos do Deus vivo? Que o escândalo já era gran-

de, mas que ainda havia tem-

po de se arrepender.”

Depois que Morteira esgotou sua retórica, sem poder abalar

a firmeza de seu discípulo,

com um tom mais ameaçador,

e como chefe da Sinagoga,

lhe pressionou a se determi- nar pelo arrependimento ou pela pena, e assegurou-lhe de

excomungá-lo, se não desse agora mesmo provas de arre- pendimento.

O discípulo, sem se espantar,

replicou-lhe que “conhecia o peso de suas ameaças, e que em troca do trabalho que ele tivera para lhe ensinar a lín-

gua hebraica, queria também lhe ensinar a maneira de ex-

comungar”. A estas palavras,

o rabino em cólera vomitou

todo seu fel contra ele, e após algumas frias reprovações, encerra a assembléia, saiu da Sinagoga, e jurou que só vol- taria a ela com o raio na mão. Mas, por mais juras que tives- se feito, ele não acreditava que o seu discípulo tivesse a coragem de esperá-lo. Ele se

engana em suas conjecturas; a seqüência dos fatos lhe fez ver que se ele estava bem in- formado da beleza do espírito de Spinosa, ele não estava de sua força. Após o tempo que se empregou para mostrar-lhe

o abismo em que estava a

precipitar-se tendo passado

inutilmente, fixaram o dia

para excomungá-lo.

8. No mesmo instante em que soube, ele se dispôs a se reti- rar, e bem longe de se assus- tar, disse a quem lhe trouxe a notícia: “Em boa hora! Não se está forçando-me a nada que

eu não tivesse feito por mim mesmo, se eu não tivesse te- mido o escândalo. Mas, já que querem dessa forma, entro com alegria no caminho que

me é aberto, com o consolo que minha saída será mais inocente do que foi a dos primeiros hebreus fora do Egito, embora minha subsis- tência não esteja melhor asse- gurada do que a deles. Eu não levo nada de ninguém, e de qualquer injustiça que se me façam, posso me gabar que não têm nada a reprovar-me.”.

9. O pouco convívio em geral que teve por este tempo com os judeus o obrigou a fazê-lo com os cristãos, pelo que tra- vou amizade com pessoas in- teligentes que lhe disseram do dano que era não saber nem o grego, nem latim, por mais versado que fosse no hebrai- co, no italiano e no espanhol, sem falar no alemão, no fla- mengo e no português, que eram suas línguas naturais. Ele compreendia suficiente- mente por si próprio como lhe eram necessárias estas línguas cultas; mas a dificuldade es- tava em encontrar o meio de aprendê-las, posto que não possuísse nem bens, nem li- nhagem, nem amigos nos quais apoiar-se. Como pensa- va constantemente nisso e comentava com todos, Van

Den Enden, que ensinava com sucesso o grego e o latim, lhe ofereceu seus cuidados e sua casa, sem exigir-lhe outro re- conhecimento senão o de aju- dá-lo durante algum tempo a instruir seus alunos, quando

se tornasse capaz de fazê-lo.

10. Entretanto, Morteira, irri- tado pelo desprezo que seu discípulo manifestava por ele

e pela sua lei, transformou

sua amizade em ódio, e sabo- reou, fulminando-lhe, o pra-

zer que encontram as almas

vis na vingança.

A excomunhão dos judeus

não tem nada de muito espe-

cial. Todavia, para nada omi-

tir do que possa instruir o

leitor, eu citarei aqui as prin- cipais circunstâncias. O povo estando reunido na Sinagoga, esta cerimônia que eles de- nominam de Herem, inicia-se acendendo uma grande quan- tidade de velas negras, e abrindo o Tabernáculo, onde guardam os Livros (Tábuas)

da Lei. Após, o coro, situado

num lugar um pouco elevado, entoa com voz lúgubre as pa-

lavras da execração, enquanto

um outro coro toca um corno,

e viram-se as velas para as fazer cair gota a gota em uma cuba cheia de sangue. O povo, animado por um santo horror e uma raiva sagrada à vista deste negro espetáculo, responde amém em tom furi- oso, e que testemunha os bons serviços que acreditam estar prestando a Deus, se despeda- çassem o excomungado; o que sem dúvida fariam se o encontrassem nesse momento

lá, ou ao saírem da Sinagoga.

Sobre isto, cabe assinalar que o som do corno, as velas vira- das, e a cuba cheia de sangue, são circunstâncias que so- mente se observam em caso

de blasfêmia, e que, fora esta,

contenta-se em fulminar a ex- comunhão, como se fez com Spinosa, que não foi acusado

de ter blasfemado, mas sim de

ter faltado ao respeito com Moisés e com a Lei.

A excomunhão é de tal im-

portância entre os judeus que nem os melhores amigos do excomungado ousariam prestar-lhe o menor serviço, nem mesmo lhe falar, sem incorrer na mesma pena. As- sim, aqueles que receiam a doçura do isolamento, e a im-

pertinência do povo, preferem sofrer qualquer outra pena que o Anátema.

11. Spinosa, que tinha encon- trado um asilo onde acredita- va estar a salvo dos insultos dos judeus, não pensava em outra coisa que avançar nas ciências humanas, na qual, com um gênio tão excelente quanto o seu, não podia duvi- dar que fizesse em muito pouco tempo um progresso bem considerável.

Entretanto os judeus, trans- tornados e confusos por ter falhado o golpe, e ver que aquele a quem eles tinham ousado perder, estava fora de seu alcance, imputaram-lhe um crime do qual não haviam podido convencê-lo. Falo dos judeus em geral, pois, ainda que aqueles que vivem do al- tar não perdoem jamais, não ousaria dizer que Morteira e seus colegas eram os seus maiores inimigos fossem os únicos acusadores nesta oca- sião. Ter-se subtraído a sua jurisdição, e subsistir sem sua ajuda, são dois crimes que lhes pareciam irremissíveis. Morteira, sobretudo, não po-

dia gostar, nem tolerar que o seu discípulo e ele vivessem na mesma cidade, depois da afronta que acreditava ter so- frido. Mas como fazer para lhe expulsar? Ele não era che- fe da cidade, como o era da Sinagoga. No entanto, a malí- cia é tão poderosa, quando associada a um falso zelo, que este velhote o conseguiu.

12. Eis como ele o fez. Ele se fez escoltar por outro rabino de mesmo temperamento, foi encontrar os magistrados, aos quais representou que se ele tinha excomungado Spinosa, não havia sido por razões co- muns, mas por execráveis blasfêmias contra Moisés e contra Deus. Exagerou a im- postura por todas as razões que um ódio santo pode suge- rir a um coração irreconciliá- vel, e demandou como con- clusão, que o acusado fosse banido de Amsterdã.

Vendo o ímpeto a maneira do rabino e com qual animosida- de ele declamava contra seu discípulo, era fácil julgar que era menos um zelo piedoso que uma secreta raiva que o incitava a se vingar.

Assim, os juízes ao se aper- ceberem disso, procuraram esquivar-se de suas queixas, enviando-as aos ministros. Porém estes, após examina- rem o assunto, se sentiram embaraçados. Na maneira que

o acusado se justificava, não

encontravam nada de ímpio. Por outro lado, o acusador era rabino, e o cargo que ele ocu- pava os fazia lembrarem-se do seu, de tal forma que, tudo bem considerado, eles não

podiam consentir em absolver

a um homem, que seu seme-

lhante queria perder, sem ul- trajar o ministério. E esta ra- zão, boa ou má, lhes fez dar sua conclusão em favor do rabino.

Tanto é verdade que os ecle-

siásticos, de qualquer religião que seja, gentios, judeus, cristãos, maometanos, são mais zelosos de sua autorida-

da

de do

que da equidade e

verdade,

imbuídos do mesmo espírito de perseguição.

13. Os magistrados, que não ousaram contradizer-se por razões fáceis de adivinhar, condenaram o acusado a um

todos

e

que

estão

exílio de alguns meses. Por este meio o rabinismo foi vingado. Mas é verdade que assim foi menos pela intenção direta dos juízes, do que para se livrarem das queixas im- portunas do mais irritante e do mais incômodo de todos os homens. De resto, esta deci- são, bem longe de prejudicar a Spinosa, ao contrário, se- cunda o desejo que ele tinha

de deixar Amsterdã. Tendo aprendido das humanidades o quanto um filósofo deve sa- ber, ele tinha a intenção de se desprender da multidão de uma grande cidade, quando vieram inquietá-lo. Assim não foi a perseguição que o expul- sou; mas o amor ao isola- mento, onde não duvidava em absoluto que encontraria a verdade.

II

MATURIDADE: DE 1661 A 1673

14. Esta forte paixão, que não lhe dava descanso, o fez dei- xar com alegria sua pátria a cidade que lhe havia visto nascer, por um povoado cha- mado Rijnsburg, onde, longe de todos os obstáculos, que só poderia vencer pela fuga, en- tregou-se inteiramente à Filo- sofia. Como havia poucos autores que fossem do seu gosto, recorreu as suas pró- prias meditações, estando de- terminado a provar até onde elas poderiam desenvolver-se. No que deu uma tão alta idéia da grandeza de seu espírito, que há seguramente poucas pessoas que tenham penetrado tão longe quanto ele nas ma- térias em que tratou.

15. Permaneceu dois anos neste retiro, onde, apesar de toda precaução que tomasse para evitar qualquer contato com seus amigos, os seus mais íntimos amigos iam vê- lo de tempos em tempos, e somente o deixavam a duras penas. Seus amigos, cuja

maioria era composta por cartesianos, lhe propunham dificuldades, que eles preten- diam que não pudessem ser resolvidas a não ser pelos princípios de seu mestre. Spi- nosa evitou que incorressem num erro em que os sábios estavam então, satisfazendo- lhes com razões inteiramente opostas. Mas, estranho é o espírito do homem e a força dos preconceitos; seus ami- gos, ao retornarem para suas casas, estiveram a ponto de serem espancados por terem afirmado em público que Descartes não era o único fi- lósofo que merecia ser segui- do.

16. A maior parte dos minis- tros, preocupados com a dou- trina deste grande gênio, zelo- sos do direito, que acredita- vam possuir, de serem infalí- veis em sua escolha, clamam contra um boato que os ofen- de, sem nada esquecer do quanto sabem para sufocá-lo na fonte. Mas, apesar de seus

25

esforços, o mal crescia de tal maneira, que estava a ponto de estourar uma guerra civil no império das letras, quando determinaram que se rogasse a nosso filósofo explicar-se abertamente em relação a Descartes. Spinosa, que não queria nada mais do que a paz, concordou de bom grado dedicar-se a este trabalho al- gumas horas de seu lazer e o fez imprimir em 1663.

Nessa obra, ele prova geome- tricamente as duas primeiras partes dos Princípios do se- nhor Descartes, como diz no Prefácio pela pluma de um de seus amigos. Mas, o que quer que tenha dito de bom a res- peito do célebre autor, os par- tidários desse grande homem, para desculpá-lo da acusação de ateísmo, fizeram depois tudo o que puderam para que caísse o raio sobre a cabeça de nosso filósofo, usando nesta ocasião a política dos discípulos de Santo Agosti- nho, que para se lavarem da crítica que se lhes fazia, de se inclinarem para o calvinismo, escreveram contra esta seita os livros mais violentos. Mas a perseguição que os cartesia-

nos incitaram contra o senhor Spinosa, e que durou toda a sua vida, bem longe de abalá- lo, fortificou-o na procura da verdade.

17. Ele imputava a maior parte dos vícios dos homens aos erros do entendimento, e com medo de cair neles, se afunda ainda mais na solidão, deixando o lugar onde estava para ir a Voorburg, onde acre- ditou que teria mais repouso. Os verdadeiros sábios que encontravam algo a questio- nar, assim que não o viram mais, prontamente o desenter- raram, e o sobrecarregaram com suas visitas neste último povoado, como haviam feito

no primeiro. E ele, que não era insensível ao sincero amor das pessoas de bem, acedeu à insistência para que deixasse

o campo e fosse para alguma

cidade onde eles pudessem

vê-lo com menos dificuldade. Ele foi habitar então em Haia, que preferiu à Amsterdã, pois

o ar lhe era mais saudável, e

ali morou o resto de sua vida.

18. De início ele só foi visita- do por um pequeno número de amigos, que o faziam mo-

deradamente. Mas este lugar agradável não ficava nunca sem viajantes, que procura- vam ver o que merecia ser visto, os mais inteligentes dentre eles, quaisquer que

fossem suas condições, acre- ditavam ter perdido a viajem

se

não tivessem visto Spinosa.

E

como os efeitos respondem

ao renome, não havia sábio que não lhe escrevesse para ter esclarecidas suas dúvidas. Testemunha disto é o grande

número de cartas que fazem parte do livro que foi impres- so após sua morte. Mas tanto as visitas que recebia quanto

as respostas que devia dar aos

sábios que lhe escreviam de toda parte, e suas obras mara- vilhosas, que fazem hoje nos- sa alegria, não ocupavam su- ficientemente este grande gê- nio. Ele empregava todos os dias algumas horas a preparar lentes para microscópios e telescópios, no que era exce- lente, de forma que se a morte não lhe tivesse sobrevindo, é de se crer que tivesse desco- berto os mais belos segredos da ótica. Ele era tão entusias- mado pela busca da verdade,

que, apesar da saúde muito

débil e da necessidade de la- zer, o fazia, no entanto tão pouco, que ficou três meses inteiros sem sair de casa; até ao ponto de recusar ensinar publicamente na Academia de Heidelberg, por medo deste emprego lhe distrair de seu

desígnio.

19. Após ter-se esforçado tanto para retificar seu enten- dimento, não há porque se admirar de que tudo o que tenha produzido é de um ca- ráter inimitável. Antes dele a Sagrada Escritura era um santuário inacessível. Todos os que haviam falado dela, o haviam feito como cegos. Somente ele fala dela como um sábio em seu Tratado de Teologia e Política, pois é certo que jamais homem al- gum conheceu tão bem quanto ele as antiguidades judaicas.

Embora não exista ferida mais perigosa que aquela da male- dicência, e nem menos fácil de suportar, jamais se lhe ou- viram falar com ressenti- mento contra os que o despe- daçaram. Mesmo com muitos tendo se esforçado por des-

crever esse livro com injúrias plenas de fel e amargura, no lugar de se servir das mesmas armas para destruí-los, ele se contentou em esclarecer os trechos dos quais eles tinham dado um falso sentido, te- mendo que sua malícia ofus- casse as almas sinceras. Se esse livro lhe suscitou uma torrente de perseguidores, não foi porque é somente hoje que se interpreta mal o pensa- mento dos grandes homens, e que a grande reputação é mais perigosa que a má.

20. Ele teve a vantagem de ser conhecido pelo senhor pensionário J. De Witt, que quis aprender com ele as ma- temáticas, e que com freqüên- cia lhe dava a honra de con- sultá-lo sobre matérias im- portantes. Mas tinha tão pou- co empenho pelos bens da fortuna, que depois da morte do senhor De Witt, que lhe dava uma pensão de duzentos florins, depois de mostrar o documento de seu mecenas a seus herdeiros, que alegavam dificuldades em mantê-la, lhes entregou este com tanta tranqüilidade como se tivesse outros fundos com que contar.

Esta maneira desinteressada os fez refletirem, e eles lhe concederam com alegria o que tinham acabado de negar- lhe.

E era esta a sua melhor fonte de subsistência, pois do pai não herdara mais do que cer- tos negócios emaranhados. Ou, antes, os judeus com os quais este bom homem tinha negociado, pensando que seu filho não teria a paciência de desfazer os emaranhados, o enredaram de tal maneira, que ele preferiu abandonar tudo, que sacrificar seu repouso a uma esperança incerta.

21. Era tal a sua inclinação a

não fazer nada para ser perce-

bido ou admirado pelo povo, que após sua morte, recomen- dou que não se colocasse o seu nome em sua Moral, di- zendo que tais sentimentos eram indignos de um filósofo.

22. Sua reputação era tal que

não se falava em outra coisa nos círculos intelectuais. O príncipe de Condé, que estava

em Utrecht ao começar as úl- timas batalhas da guerra de 1672, lhe envia um salvo- conduto com uma carta gentil,

para o convidar a ir vê-lo. Spinosa tinha o espírito muito bem formado e sabia bem o que devia a pessoas de tão alto grau, para ignorar neste encontro o que era devido à sua Alteza. Mas como jamais deixava sua solidão a não ser para a ela retornar o mais ra- pidamente, uma viajem de algumas semanas o deixou indeciso.

Enfim, após algumas delon- gas, seus amigos o determina- ram a pôr-se a caminho. En- tretanto, uma ordem do rei de França havia chamado o prín- cipe a outro lugar; e o senhor de Luxemburgo, que o rece- beu em sua ausência, lhe fez mil agrados, e lhe assegurou da benevolência de sua alteza. Esta multidão de cortesãos não surpreende em absoluto nosso filósofo. Ele tinha uma educação mais próxima da corte, que de uma cidade co- mercial, como aquela em que

havia nascido, e da qual po- demos dizer que ele não tinha nem os defeitos, nem os víci- os. Ainda que esse gênero de vida fosse inteiramente oposto à suas máximas e a seu gosto, ele se sujeitou a ele com tanta complacência quanto os próprios cortesãos.

O Príncipe, que queria vê-lo, mandou várias vezes que o esperasse. Os curiosos que o apreciavam, e encontravam sempre nele novos motivos para apreciá-lo, estavam en- cantados com que sua alteza o obrigasse a esperar.

Após algumas semanas, quando o Príncipe comunicou que não poderia retornar a Utrecht, todos os curiosos dentre os franceses se des- gostaram; pois, malgrado as ofertas obsequiosas que lhe fez o senhor de Luxemburgo, nosso filósofo no mesmo instante despediu-se deles e retornou a Haia.

III

APOLOGIA DE SPINOSA: VIRTUDES E FEITOS

23. Ele possuía uma qualida- de tanto mais estimável quanto que raramente se en- contra num filósofo: era ex- tremamente limpo, e jamais saía sem que se notasse em seus trajes o que distingue o homem íntegro do pedante. “Não é”, dizia ele, “este ar sujo e negligente que nos tor- na sábios; ao contrário”, acrescentava, “esta negligên- cia afetada é a marca de uma alma baixa na qual a sabedo- ria não se encontra em abso- luto, e na qual as ciências não podem engendrar mais do que impureza e corrupção”.

Não só as riquezas não o ten- tavam como também não te- mia as conseqüências desa- gradáveis da pobreza. A Sua virtude o havia colocado aci- ma de todas estas coisas; e embora não estivesse nas bo- as graças da fortuna, jamais a adulou nem murmurou contra ela. Se sua fortuna foi das mais modestas, sua alma, em recompensa, foi das maiores e

das melhores dotadas de tudo aquilo que faz os grandes homens. Ele era liberal numa extrema necessidade, em- prestando do pouco que tinha pela bondade de seus amigos, com tanta generosidade como se estivesse na opulência. Tendo sabido que um homem que lhe devia duzentos florins tinha ido à bancarrota, bem longe de se chatear, disse sor- rindo: “é preciso retirar do meu ordinário 3 para reparar esta pequena perda; é a este preço”, acrescentou ele, “que se compra a firmeza”. Eu não relato esta ação como algo de espetacular. Mas, como não há nada em que o gênio apa- reça mais do que nestes tipos de pequenas coisas, eu não a pude omitir sem escrúpulo.

24. Ele era tão desinteressado quanto menos desinteressados eram os devotos que mais gritavam contra ele. Nós já vimos uma prova de seu de-

3 Nota Ádvena – Mantença cotidiana.

30

sinteresse; vamos agora re- portar uma outra, que não lhe fará menos honra. Um de seus amigos íntimos, homem em boa situação financeira, que- ria dar-lhe de presente dois mil florins, para que pudesse viver mais comodamente, ele recusa com sua polidez habi- tual, dizendo-lhe que não os necessitava. Com efeito, era tão moderado e sóbrio, que mesmo com bem poucos bens, não lhe faltava nada. “A natureza”, dizia ele, “conten- ta-se com pouco, e quando ela está satisfeita, eu também es- tou”.

Mas não era menos justo que desinteressado, como vere- mos. O mesmo amigo que quis lhe dar dois mil florins, não tendo esposa e nem fi- lhos, planejou fazer um tes- tamento a seu favor e lhe ins- tituir seu legatário universal. Ele lhe falou disso e quis seu consentimento. Porém, longe de dar sua aprovação, o se- nhor Spinosa lhe argumenta tão vivamente que ele estaria agindo contra a eqüidade e contra a natureza, se em pre- juízo de seu próprio irmão, ele dispusesse de sua suces-

são em favor de um estranho; por mais amigo seu que fosse, que seu amigo se rendesse a estes sábios conselhos e dei- xasse todos os seus bens a quem devia naturalmente ser seu herdeiro, mas com a con- dição, todavia, de que este assinasse uma pensão vitalícia de quinhentos florins a nosso filósofo. Admiremos também aqui o seu desinteresse e sua moderação; ele considera esta pensão muito alta, e a reduz a trezentos florins. Belo exem- plo, que será pouco seguido,

sobretudo pelos eclesiásticos, pessoas ávidas do bem alheio,

fraqueza

que,

dos velhos e dos devotos que eles envaidecem, não somente aceitam sem escrúpulo as he- ranças com prejuízo dos her- deiros legítimos, mas recor- rem mesmo à sugestão para obtê-las.

25. Mas, deixemos estes tar- tufos e retornemos ao nosso filósofo. Por não ter tido a saúde perfeita durante toda a sua vida, havia aprendido a sofrer desde sua mais tenra juventude; assim, homem al- gum jamais entendeu melhor esta ciência do que ele. Não

abusando

da

buscava o consolo mais que em si mesmo, e se era sensí- vel a alguma dor, era à dor do outro. “Crer que o mal é me- nos rude quando ele nos é comum com muitas outras pessoas, é”, dizia ele, “uma grande marca da ignorância, e

é ter bem pouco bom senso,

utilizar como consolo as pe-

nas comuns”.

26. É com este estado de espí- rito que derramou lágrimas quando viu seus concidadãos despedaçarem seu pai co- mum; e ainda que soubesse melhor que ninguém no mun- do do que os homens eram capazes, ele não deixou de estremecer a vista deste horrí- vel e cruel espetáculo.

Por um lado, via cometerem um parricídio sem preceden- tes e uma ingratidão extrema; por outro, via-se privado de um ilustre mecenas e do único apoio que lhe restava. Era demasiado para abater uma alma comum; porém, uma alma como a sua, acostumada

a superar as perturbações inte- riores, não temia sucumbir. Como ele era sempre senhor de si, rapidamente superou

este terrível acidente.

A um de seus amigos que,

tendo testemunhado esta ati- tude, surpreendera-se, repli- cou nosso filósofo: “De que nos serviria a sabedoria, se, ao cairmos nas paixões do povo, nós não tivéssemos a força para nos restabelecer- mos por nós mesmos?”

27. Como não estava com- prometido com nenhum parti- do, não tinha que pagar a ne- nhum. Ele deixava a cada um

a liberdade de seus precon-

ceitos; mas ele sustentava que

a maior parte era um obstá-

culo à verdade; que a razão era inútil, se nós negligenci- ássemos em usá-la, e que se proíbe o seu uso, quando se trata de escolher.

“Eis”, dizia ele, “os dois mai- ores e mais comuns defeitos dos homens, a saber, a pre- guiça e a presunção. Uns afundam debilmente numa crassa ignorância, que os co- loca abaixo das bestas; os ou- tros se erguem como tiranos

sobre os espíritos dos simples, lhes dando por oráculos eter- nos um mundo de falsas idéi-

as, ou falsos pensamentos.

Eis aí a fonte dessas crenças absurdas das quais os homens são presunçosos, e o que os divide a uns e outros, e que se opõe diretamente ao objetivo da natureza, que é o de torná- los uniformes, como crianças de uma mesma mãe. Eis por- que, ele dizia, que somente aqueles que tinham se liberta- do das máximas de sua infân- cia, poderiam conhecer a ver- dade, que era necessário fazer esforços extraordinários para superar as impressões do há- bito e apagar as falsas idéias, das quais o espírito dos ho- mens estão cheios, antes que seja capaz de julgar as coisas por si mesmo. Sair deste abismo era”, segundo dizia, “um milagre tão grande quanto o de ordenar o caos.”

28. Não há porque então sur- preendermo-nos por ele ter feito durante toda sua vida guerra à superstição. Além de ser dotado para isso por uma inclinação natural, os ensina- mentos de seu pai, que era homem de bom senso, contri- buíram muito para reforçá-la. Este bom homem havia lhe ensinado a não confundi-la com a sólida piedade, e que-

rendo pôr a prova o seu filho, que não tinha ainda dez anos, ordenou-lhe ir receber um di- nheiro que lhe devia certa mulher velha de Amsterdã. Ao entrar na casa dela, viu que estava a ler a Bíblia; ela fez-lhe sinal para que a espe- rasse terminar sua prece. Quando ela terminou, o me- nino disse-lhe de seu encargo, e esta boa velha tendo conta- do seu dinheiro, disse: “Eis”, mostrando-lhe o dinheiro so- bre a mesa, “o que eu devo a seu pai. Possa você ser um dia homem tão honesto quanto ele; ele jamais se afastou da Lei de Moisés, e o céu não te bendirá, enquanto não o imi- tares”. Ao acabar estas pala- vras ela pegou o dinheiro para colocá-lo na bolsa da criança. Mas ele, que se recordava de que esta mulher tinha todas as marcas da falsa piedade, da qual o seu pai já o tinha ad- vertido, quis contar o dinheiro depois dela, malgrado a sua resistência; e encontrando dois ducados faltando, que a piedosa velha havia deixado cair numa gaveta por uma fresta feita para isto abaixo da mesa, ele confirmou seu pen-

samento. Inflado pelo sucesso desta aventura, e de ver que seu pai lhe aplaudiu, ele ob- servava esta espécie de gente com mais cuidado que antes,

e delas fazia troças tão finas que todo mundo se surpreen- dia.

29. Em todas as suas ações a virtude era o objetivo. Mas, como não fazia desta uma pintura horrível, à imitação dos estóicos, ele não era ini- migo dos prazeres honestos.

É verdade que os do espírito

eram o seu estudo principal, e

os do corpo o tocavam pouco. Mas quando se encontrava com essas espécies de diver- timentos, das quais não po- demos honradamente dispen- sar, ele as tomava como uma coisa indiferente e sem per- turbar a tranqüilidade de sua alma, que preferia a todas as coisas imagináveis.

Mas o que mais estimo nele é que, tendo nascido e sido cri- ado no meio de um povo grosseiro, que é a fonte da superstição, ele não tenha mamado a amargura, e que tenha purgado seu espírito dessas falsas máximas das

quais tantos se vangloriam. Estava inteiramente curado dessas opiniões insípidas e ridículas que os judeus têm de

Deus. Um homem que sabia o

objetivo da sã filosofia, e que, com o consentimento dos mais hábeis de nosso século,

a punha melhor em prática;

tal homem, digo, não era de

se temer que ele pudesse ima-

ginar de Deus o que este povo

imagina.

Mas, por não crer nem em Moisés e nem nos Profetas, quando se acomodam, como ele diz, à rudeza do povo, é uma razão para condená-lo? Eu li a maior parte dos filóso- fos, e asseguro de boa fé que absolutamente não há quem dê as mais belas idéias da di- vindade do que aquelas que o falecido senhor Spinosa nos dá em seus escritos. Ele diz que: “quanto mais conhece- mos a Deus, mais nós somos mestres de nossas paixões; que é neste conhecimento no qual encontramos a perfeita aquiescência do espírito e o verdadeiro amor de Deus, no que consiste nossa salvação, que é a beatitude e a liberda- de.”

30. São estes os principais pontos que segundo nosso filósofo são ditados pela ra- zão, tocante à verdadeira vida, e ao soberano bem do ho- mem.

“Comparemos com os dog- mas do Novo Testamento, e

veremos que é tudo a mesma coisa. A Lei de Jesus Cristo nos conduz ao amor de Deus

e do próximo, o que é propri-

amente o que a razão nos inspira, segundo o sentimento

de Spinosa. Donde é fácil in- ferir que a razão pela qual

São Paulo chama a religião cristã uma religião racional,

é que a razão a prescreveu, e

é o seu fundamento: o que se

chama uma religião racional

é – conforme relato de Orígi-

nes –, tudo o que está subme- tido ao império da razão. Acrescente-se que um dos an- tigos Padres Teofrasto, asse- gura que devemos viver e agir segundo as regras da ra- zão. 4

4 Nota Ádvena - Este parágrafo parece ter sido interpolado pois diz justamente o oposto do que pensava Spinosa a pro- pósito da Bíblia. E o mais surpreenden-

contradiz tudo o

te: religião racional

que vai se ler daqui para a frente.

Eis aí os sentimentos que se- gue nosso filósofo, apoiado pelos pais da igreja e pela Es- critura. Entretanto, ele é con- denado; mas o é aparente- mente por aqueles a quem o interesse leva a falar contra a razão, ou que jamais a conhe- ceram. Eu faço esta pequena digressão para incitar os sim- ples a sacudir o jugo dos in-

vejosos e dos falsos sábios, que, não podendo suportar a reputação das pessoas de bem, as acusam falsamente de ter opiniões pouco conformes

à verdade.

31. Para retornar a Spinosa,

ele tinha em suas conversas

uma aparência tão simpática,

e fazia comparações tão justas

que insensivelmente fazia todo mundo aderir à sua opi- nião. Era persuasivo, ainda que não ostentasse falar nem polidamente e nem elegante- mente. Ele se tornava tão in- teligível, e seu discurso era tão repleto de bom senso que era quase impossível alguém

não entendê-lo, ou não ficar satisfeito.

32. Estes belos talentos atraí- am a sua casa todas as pesso-

35

as razoáveis; e, a qualquer tempo que fosse, ele se en- contrava sempre com o mes- mo humor agradável. De to- dos aqueles que o freqüenta- ram, não havia absolutamente nenhum que não lhe testemu- nhasse uma amizade particu- lar. Todavia, como não há nada mais fechado do que o coração do homem, viu-se a seguir que a maior parte des- sas amizades era enganosas, aqueles que mais lhe deviam, sem nenhum motivo, nem aparente nem real, o trataram da maneira mais ingrata do mundo. Esses falsos amigos, que aparentemente o adora- vam, o caluniavam às ocultas, seja para cortejar os podero- sos, que não amam as pessoas de espírito, seja para adquirir reputação, armando insídias.

Um dia, tendo sabido que um dos seus maiores admiradores esforçava-se para sublevar o povo e os magistrados contra ele, respondeu sem emoção:

“Não é de hoje que a verdade custa caro; não será a maledi- cência que me fará abandoná-

la”. Eu gostaria de saber se já foi visto alguma vez mais firmeza, ou uma virtude mais pura? Ou se jamais algum de seus inimigos fez algo que ao menos se aproximasse de tal moderação? Mas eu vejo bem que sua infelicidade foi ser demasiado bom e muito es- clarecido.

33. Descobriu a todo mundo o

que se queria manter oculto. Achou La Clef du Sanctuaire, no qual antes dele somente viam mistérios vãos. Eis por- que, apesar de ter sido o ho- mem de bem que foi não pôde viver em segurança.

34. Ainda que nosso filósofo

não fosse uma pessoa das mais severas, daquelas que consideram o casamento como um impedimento para o exercício do espírito, ele não contraiu matrimônio no en- tanto, seja porque temia o mau humor de uma mulher, seja porque o amor à Filosofia o ocupasse por inteiro por se entregar inteiramente à Filo-

sofia e ao amor à verdade.

IV

MORTE E PANEGÍRICO

35. Além de não ser de uma

compleição muito robusta, sua grande aplicação ajudou ainda mais a debilitá-lo; e como não há nada que consuma mais que o trabalho noturno, seus incômodos tornaram-se quase contínuos, por causa da ma- lignidade de uma pequena fe-

bre lenta, que contraiu durante suas ardentes meditações. Se bem que, após ter definhado durante os últimos anos de sua vida, ele a terminou no meio de seu curso. Assim, ele viveu quarenta e cinco anos ou em torno disso, tendo nascido no ano de 1632, e tendo cessado de viver em 21 de fevereiro de

1677.

36. Que se deseje saber tam-

bém alguma coisa de seu porte e de seus traços; ele era de estatura mais para média do que para grande, com uma aparência muito agradável e

que insinuava-se de forma imperceptível. Era de estatura mediana. Tinha os traços do rosto bem proporcionais, a pele bem morena, o cabelo

negro e cacheado, as sobran- celhas da mesma cor, os olhos pequenos, negros e vivos, uma fisionomia muito agradável e um aspecto português. Quanto

ao espírito, ele o tinha grande

e penetrante, e era de um hu-

mor totalmente complacente. Ele sabia temperar tão bem as brincadeiras, que os mais de- licados e os mais severos lhe encontravam atrativos parti- culares. 37. Seus dias foram breves; mas podemos dizer, no en- tanto, que viveu muito, tendo adquirido os verdadeiros bens que consiste na virtude, e não

teria mais nada a desejar, após

a alta reputação que conquis-

tou com seu profundo saber.

38. A sobriedade, a paciência

e a veracidade não eram mais

do que suas virtudes menores. Ele teve a felicidade de mor-

rer no cume de sua glória, sem

a ter maculado com nenhuma

mancha, deixando ao mundo dos sábios e doutos o desgosto de verem-se privados de uma

37

luz que não lhes era menos útil do que a luz do sol. Por- que, ainda que não tenha tido a sorte de ver o fim das últi- mas guerras, em que os senho- res dos Estados Gerais recupe- raram o governo de seu impé- rio meio perdido, seja pela sorte das armas, seja por uma má escolha ; isto não foi para ele uma felicidade pequena, por ter escapado da tempesta- de que seus inimigos lhe pre- paravam. Eles o tinham feito odioso para o povo, porque ele lhes tinha dado o meio de distin- guir a hipocrisia da verdadeira piedade e de extinguir a su- perstição. Nosso filósofo tem então muita sorte, não so- mente pela glória de sua vida, mas pelas circunstâncias de sua morte, que olhou com um olhar intrépido, segundo aqueles que estiveram pre- sentes, como se estivesse sa- tisfeito de sacrificar-se por seus inimigos, afim de que sua memória não fosse maculada com um parricídio. 39. Somos nós, os que fica-

mos, que estamos lamentando; são todos aqueles que seus escritos tenham retificado, e a quem sua presença era ainda um grande socorro no cami- nho da verdade. Mas, já que não se pode evitar a sorte de tudo o que vive, procuremos marchar sobre suas pegadas, ou ao menos, reverenciá-lo com nossa admiração e lou- vor, se não podemos imitá-lo. É o que eu aconselho às almas sólidas, assim como seguir suas máximas e suas luzes, de tal forma que as tenham sem- pre ante os olhos e lhes sirvam de regra às suas ações. O que nós amamos e veneramos nos grandes homens, está sempre vivo e viverá por todos os sé- culos. 40. A maior parte daqueles que viveram na obscuridade e sem glória permaneceram en- terrados nas trevas e no es- quecimento. Baruch de Spino- sa viverá na recordação dos verdadeiros sábios e em seus escritos, que são o templo da imortalidade.

Jean-Maximilien Lucas

O Espírito do Senhor Baruch de Spinoza

CAPÍTULO I

DE DEUS

I. Se bem que o conheci- mento da verdade interesse a todos os homens, muito pou-

cos, contudo, a conhecem, porque a maior parte julga-se incapaz de a procurar pelos seus próprios meios, ou não se quer dar a esse trabalho. Assim, não deve espantar que

o mundo esteja cheio de opi-

niões vãs e ridículas, nada sendo mais propício à sua propagação do que a ignorân- cia. Com efeito, só ela é a fonte única das ideias falsas

que temos acerca da divinda- de, da alma, dos espíritos e de todos os erros que delas de- pendem. Prevalece o costume de nos contentarmos com os preconceitos nos incutidos à nascença e de nos remetermos

a pessoas pagas para defender

as opiniões recebidas e, por conseguinte, interessadas em transmiti-las ao povo, sejam elas verdadeiras ou falsas.

II.

mal sem

remédio é que, depois de se

O

que torna o

terem estabelecido as ideias frouxas que temos de Deus, ensina-se ao povo a crê-las, sem as examinar, e a sentir aversão pelos verdadeiros sá- bios, que poderiam mostrar- lhe os erros nos quais está atolado.

Os partidários destes absurdos

tiveram tanto sucesso nesse aspecto que se tornou perigo- so combatê-los. Importa-lhes tanto que o povo seja igno- rante que não aceitem que o libertem. Assim, vemo-nos obrigados a disfarçar a verda- de ou a sofrer a fúria dos fal- sos sábios e das almas inte- resseiras.

III. Se o povo pudesse com- preender em que abismo é

lançado pela ignorância, rapi- damente se livraria do jugo dessas almas venais que, por mero interesse, tudo fazem para aí o manterem. Bastar- lhe-ia, para o efeito, servir-se da razão; é impossível que ao deixá-la agir não se descubra

40

a verdade. É certo que, para o impedir de a usar, se lhe a apresenta como um guia que conduz à perda daqueles que se entregam nas suas mãos, e como um fogo-fátuo, cuja luminosidade enganadora leva ao precipício.

Mas estas pessoas, cujo mis- ter consiste em declamar contra a razão, não deixam, depois do alarido contra ela, e de terem defendido que está completamente pervertida, de fazer todos os esforços para tê-la do seu lado e para con- vencer que aqueles que não partilham os seus pontos de vista não são razoáveis.

Assim, caindo em contradi- ções perpétuas, torna-se difí- cil saber o que pretendem. O

que é certo é que a recta razão é a única luz que o homem deve seguir, e que o povo não

é tão incapaz de usá-la quanto

se tenta persuadi-lo. Se se fi- zessem tantos esforços para rectificar os seus falsos racio- cínios, e para dissuadi-lo dos seus velhos preconceitos, quantos se faz para mantê-lo nuns e confirmá-lo nos ou- tros, ele abriria os olhos pou-

co a pouco, tornar-se-ia dis- ponível para a verdade e aprenderia que Deus em nada corresponde ao que imagina".

IV. Com efeito, não são ne-

cessárias altas especulações

ou penetrações profundas nos

segredos da natureza; um pouco de bom senso basta para perceber que Deus não é nem colérico nem ciumento;

que a justiça e a misericórdia são falsos títulos que se lhe atribui; e que, por fim, nada

os

do

que

os

Profetas

e

Apóstolos disseram constitui a sua natureza ou a sua essên- cia.

Para falar sem cosmética e dizer as coisas como são, não

há dúvida de que essa gente

não era nem mais hábil nem mais instruída sobre esses te- mas do que o resto dos ho- mens. Pelo contrário, o que

dizem é tão grosseiro que é

preciso ser povinho para lhes dar crédito.

A coisa é óbvia; mas, para

torná-la mais notória, veja- mos se há algum indício de que tivessem sido feitos de uma massa diferente dos ou- tros homens.

V. No que respeita ao berço e às funções básicas da vida, estamos todos de acordo de que nada tinham de sobre- humano; que nasceram de homens e de mulheres e que levavam a vida como nós. Mas, relativamente aos seus espíritos, pretende-se que Deus os dirigia através de uma inspiração imediata, e que o seu entendimento esta- va muito mais esclarecido do que o nosso.

É preciso confessar que o povo tem uma forte tendência para se cegar. Diz-se-lhe que Deus amava mais os Profetas do que o resto dos homens; que comunicava em privado com eles, e o povo aceita-o como se a coisa tivesse sido demonstrada.

E, sem considerar que todos os homens se assemelham, que todos têm um mesmo princípio, para o qual todos os homens são iguais, acreditam que essa gente era de uma têmpora extraordinária, feita de propósito para debitar os oráculos de Deus. Mas, sem contar que não tinham nem mais espírito do que o co-

mum, nem o entendimento mais perfeito do que o resto dos homens, o que encontra- mos nos seus escritos que nos induz a ter essa opinião sobre eles?

A maior parte do que disse-

ram é tão obscuro que se tor- na incompreensível, está numa sequência tão desorde- nada que se vê bem que, eles próprios, não se compreendi- am e que eram deveras igno- rantes. O que deu lugar à crença que temos sobre eles

foi o facto de se gloriarem de que tudo o que anunciavam ao povo lhes vinha direta- mente de Deus. Crença ab-

porquanto

surda

e

ridícula,

são os próprios a confessar que Deus só lhes falava em sonhos. Uma vez que os so- nhos são naturais, para mais em estado de adormecimento,

é preciso que um homem seja bem fútil, ou insensato, para

se gloriar de que Deus lhe fala

nessa altura, e que aquele que

lhe dê crédito seja também muito crédulo, para acreditar, contra toda a evidência, que

os sonhos sejam oráculos.

Mesmo supondo que Deus

tivesse comunicado por so- nhos, visões ou outras vias, ninguém, contudo, seria obri- gado a acreditar, porque fica sempre a dúvida de que aquele homem tivesse sido enganado por um qualquer impostor, ou que se tivesse iludido a si próprio, ou, en- fim, que tivesse o propósito de enganar os outros.

Assim constatamos que, na antiga Lei, não se tinha a mesma estima pelos Profetas que se tem hoje. Quando a sua tagarelice, que acabava, a maior parte das vezes, por desviar o povo da obediência devida aos seus reis legítimos, fartava, obrigavam-nos a ca- lar-se mediante diversos su- plícios. Jesus Cristo sucumbiu assim, por não ter, como Moi- sés 5 , um exército para defen- der as suas opiniões.

Acrescente-se que os Profetas estavam tão habituados a contradizer-se entre si, que, por vezes, de entre quatro- centos, não se encontrava um

5 Moisés mandou matar de uma só vez vinte e quatro mil homens por se terem oposto à sua Lei. (Nm. XXV. Vol.2a9). << E Jesus nunca existiu.>>

único verdadeiro 6 . Para além do mais, é certo que o objec- tivo das profecias, como o das leis dos mais célebres legisla- dores, era a perpetuação da sua memória, fazendo crer ao povo que conferenciavam em privado com Deus.

Os políticos mais espertos sempre recorreram ao expedi- ente, ainda que tal manha nem sempre tenha funcionado com aqueles que, ao contrário de Moisés, não tinham maneira de porvir à sua segurança.

VI. Isto aceite, examinemos as ideias que os inspirados e os profetas tiveram sobre Deus, e veremos quão gros- seiras e contraditórias eram.

A fazer fé no que dizem, Deus assemelha-se ao homem, que, segundo eles, fez à sua ima- gem.

Como ele, tem olhos, orelhas, narinas, uma boca, braços, mãos, pés, um coração e en- tranhas. É susceptível das mesmas paixões, amor, ciú- me, ódio, alegria, tristeza,

6 No primeiro Livro dos Reis (Cap. XXII v. 6), Acab, rei de Israel, consul- tou quatrocentos profetas, que se enga- naram todos nas suas profecias.

43

prazer, dor, esperança, temor, aversão, cólera, fúria, vingan- ça Eis a grosseria das suas ideias.

Veja-se a contradição. Eles dizem que Deus é um puro espírito que em nada se asse- melha ao corpóreo. No en- tanto, Miqueias vê-o sentado, Daniel, vestido de branco e na forma de um ancião, e Eze- quiel 7 como um fogo.

Nem mesmo o seu Espírito escapou à forma corpórea. João Baptista vê-o na forma de uma pomba, e os Apósto- los na de línguas de fogo.

Aliás, atribuem-lhe membros humanos, e dizem que fez o homem à sua imagem e se- melhança, como acabámos de indicar. Ensinam que é invisí- vel 8 , que jamais foi visto por qualquer homem", o qual, se o visse, não poderia sobrevi- ver"; todavia, Jacob, Job, Moisés, Arão, Nadab, Abiliu, os setenta anciãos de Israel, Manoah e a sua mulher, a maioria dos Profetas, e uma infinidade de outros homens, viram-no em vida, os outros

7 I Rs, XXII, 19; Rs, VII, 9; Rs, I, 27.

8 Ex

XX. 5.

vê-lo-ão no outro mundo 9 , onde o veremos face a face 10 , seremos seus semelhantes e vê-lo-emos tal como é.

Por um lado, dizem-nos que Deus é bom, amável, carido- so, afectuoso, piedoso, benig- no, misericordioso, paciente, que não tem qualquer prazer na morte do mau mas antes na sua conversão.

Por outro, que é severo, terrí- vel, assustador, um fogo que consome, que tem prazer em fazer perecer os maus, que se ri, goza com a sua desgraça, e que não lhes responde quando clamam por si. No Génesis, o homem é representado como senhor de fazer o bem e de não pecar, São Paulo, pelo contrário, ensina que ele não tem qualquer poder sobre a concupiscência, sem uma gra- ça particular.

É dito, no Êxodo 11 , que a ini- quidade dos pais será punida por Deus, nos filhos, até à quarta geração e, em Ezequi- el 12 , que a pena dos pais não

9 Ez

10 Nm., XXIII, 19.

11 Jr. XVIII, 7-10. II. 13.

12 Gn. VI 6. 7. I Sm. XV. 11 Jn., III, 10.

XVIII, 20.

44

passará para os filhos.

Samuel diz, segundo o Livro dos Números, que Deus nun- ca se arrepende, Jeremias e Joel, ao contrário, dizem, um, que ele se arrepende do bem e do mal que tinha declarado que faria a uma nação, ou a um reino, o outro, que ele se arrepende de provocar aflição.

Para além do mais, ele arre- pendeu-se de ter feito o ho- mem, de ter feito de Saul rei" e do mal que disse que iria fazer aos Ninivitas.

Eis as opiniões que esta gen- te, com sonhos, inspirações, êxtases, visões, revelações, tem de Deus. Eis aquilo em

que querem que acreditemos.

Mas, para acreditar em tais contradições, seria preciso ser tão grosseiro e tão estúpido quanto aqueles que, apesar dos artifícios de Moisés, acreditavam que um bezerro era o Deus que os tirara do Egipto.

Sem nos demorarmos nas di- vagações de um povo instruí- do na servidão e no meio de superstições, fechemos este capítulo concluindo do que dissemos que a ignorância produziu a credulidade, a cre- dulidade a mentira, de onde todos os erros reinantes saí- ram.

CAPÍTULO II

RAZÕES QUE LEVARAM OS HOMENS

A REPRESENTAR UM SER INVISÍVEL,

OU O QUE SE CHAMA HABITUALMENTE DEUS

I. Aqueles que desconhecem as causas físicas têm um re- ceio natural, que provém da dúvida em que estão, sobre se existe um poder capaz de prejudicá-los ou de ajudá-los. Daí, o pendor para inventa- rem seres invisíveis, ou seja, os seus próprios fantasmas, que invocam na adversidade, que louvam na prosperidade e que acabam por transformar em Deuses.

Como as visões dos homens chegam ao infinito, forjaram um número indiscriminado de divindades e imaginaram que lhes eram favoráveis, ou não, consoante o que, eles própri- os, faziam bem ou mal.

Por exemplo, quando a natu- reza os afligia com tempesta- des, secas, pestes e outros acidentes do mesmo tipo, acreditavam que esses males

aconteciam por terem irritado com as suas ofensas essas di- vindades.

Este temor quimérico dos po- deres invisíveis é a semente das religiões, que cada um molda a seu modo". Os políti- cos, interessados em que o povo estivesse imbuído de tais medos, fizeram da crença em Deuses vingadores das leis divinas e humanas viola- das uma lei fundamental dos seus Estados, e pela antecipa- ção de um terrível futuro le- varam os seus súbditos a obe- decer-lhes cegamente.

II. Uma vez encontrada a fonte dos Deuses, os homens acreditaram que aqueles se lhes assemelhavam, e que, como eles, tudo faziam com uma finalidade. Pois são unâ- nimes a afirmar que tudo o que Deus fez foi para o ho-

mem, que o homem é feito tão só para Deus'.

Sendo este preconceito geral, vejamos por que é que os homens têm tanta inclinação para segui-lo, para se mostrar como foi daí que lhes ocorreu uma ideia do bem e do mal, do mérito e do pecado, do louvor e da vergonha, da or- dem e da confusão, da beleza e da fealdade

III. Não é este o lugar para deduzir estas ideias da nature- za do espírito humano; basta- rá para o nosso intuito que estabeleçamos como funda- mento um princípio que não possa ser negado por nin- guém. Esse princípio é o de que todos os homens nasce- ram na ignorância profunda, relativamente às causas das coisas, e que tudo o que sa- bem é que têm uma tendência natural que os leva a procurar o que lhes é útil e cómodo e a evitar o que lhes é prejudicial.

Do que resulta, primeiro, que os homens sintam o poder de querer, ou desejar, e imagi- nem, erroneamente, que isso lhes basta para os tornar li- vres. Erro no qual caem ainda

com maior facilidade por não se darem ao trabalho de pro- curar as causas que os deter- minam a querer, ou a desejar, pois são incapazes de pensar no assunto, ou de reflectir, mesmo em sonhos.

Segue-se, em segundo lugar, que, se tudo o que os homens fazem tem um fim, que é pre- ferido relativamente a tudo o mais, estes só têm como ob- jectivo conhecer as causas finais das suas acções; ao co- nhecê-las, ficam satisfeitos, não procuram mais, e imagi- nam que já não há lugar para a dúvida.

Encontrando, depois, neles, e fora deles, uma quantidade de meios para chegar ao que de- sejam, tendo, por exemplo, olhos para ver, ouvidos para escutar, uma língua para falar, dentes para mastigar, mãos para tocar, pés para andar , frutos, legumes, animais para nutri-los, um sol para ilumi- ná-los, formaram este raciocí- nio: que nada há na natureza que não tenha sido feito para eles, e de que não possam dispor.

Aliás, considerando que não

fizeram o mundo, julgaram-se com fundamento suficiente para imaginar um ser supre- mo que o tivesse feito para eles, tal como é. Pois, após se terem convencido de que este mundo não se poderia ter feito a si próprio, concluíram tratar-se da obra de um ou mais Deuses, que o destina- ram para o prazer e o uso ex- clusivos do homem.

Por outro lado, sendo-lhes desconhecida a natureza dos Deuses, os homens supuse- ram-nos susceptíveis das mesmas paixões e das mes- mas fraquezas que eles, e, nessa base, imaginaram que só tinham feito o mundo para os homens, os quais lhes eram extremamente caros. E como todas as inclinações são dife- rentes, cada um se esforçou por adorar Deus segundo o seu humor, para atrair as suas benesses ou para pôr a totali- dade da natureza ao serviço dos seus apetites.

IV. Por este meio, tornado o preconceito em superstição, enraizou-se de tal maneira que os mais grosseiros se su- puseram capazes de penetrar

as causas finais, como se de- las tivessem um conheci- mento perfeito; de modo que, em vez de mostrarem que a natureza não fazia nada em vão, acabaram por mostrar que Deus e a natureza sonha- vam tanto quanto os homens.

Para que não nos acusem de exagero, vejamos, se não se importarem, até onde levaram os falsos raciocínios nesta matéria.

Tendo verificado que, no meio de muitas comodidades que a natureza lhes permitia usufruir, um número infinito de incómodos, tais como as

trovoadas, os tremores de ter- ra, as doenças, a fome, a

sede

vinham perturbar as

doçuras da vida, em vez de concluírem que a natureza não fora feita só para eles,

atribuíram todos esses males

à cólera dos Deuses, que re-

presentaram irritados contra eles por causa dos seus peca-

dos. E, ainda que a experiên- cia quotidiana lhes ensinasse

o contrário, e que uma infini-

dade de exemplos lhes pro- vasse que os bens e os males eram partilhados igualmente

por bons e maus, não pude- ram desenvencilhar-se de um preconceito tão antigo e in- veterado. A razão para tal é que lhes era mais fácil per- manecer na sua ignorância natural do que renunciar ao velho sistema das causas fi- nais, para inventar um mais verosímil.

V. Este preconceito levou-os a outro, que consiste em acre- ditar que os juízos de Deus seriam incompreensíveis, ra- zão pela qual o conhecimento da verdade estaria acima do espírito humano. Erro no qual ainda permaneceríamos, não tivessem as matemáticas e outras ciências destruído este preconceito.

VI. Não são necessários lon- gos discursos para fazer ver que a natureza não se rege por nenhum fim e que todas as causas finais não passam de ficções humanas. Bastar-nos- á, para o efeito, mostrar, em poucas palavras, que essa doutrina retira a Deus as per- feições que lhe são atribuídas. Eis como o provamos:

Se Deus age com vista a um fim, seja por si mesmo seja

por outrem deseja o que não tem, e é necessário reconhe- cer que houve um tempo no qual Deus, não tendo aquilo em vista do qual agiu, desejou tê-lo, o que supõe um Deus indigente.

E, para nada omitir do que possa sustentar este argu- mento, oponhamos-lhe o ra- ciocínio daqueles que seguem a opinião contrária, e veremos que está apenas fundado na ignorância.

Se, por exemplo, uma pedra cai em cima de alguém e o mata, é necessário, afirmam, que essa pedra tenha caído com o propósito de matar esse homem, o que não poderia acontecer senão por Deus o ter querido. Se lhes respon- dermos que foi o vento que fez cair a pedra precisamente no momento em que o ho- mem passava, perguntam-vos porque é que o homem passa- va, precisamente, ao mesmo tempo que caía a pedra? Se lhes replicardes que o vento na altura estava impetuoso, pois o mar estava agitado nos dias anteriores, ainda que não parecesse haver no ar qual-

quer agitação, e que esse ho- mem, tendo sido convidado a comer em casa de um amigo, se dirigia ao encontro, ainda vos perguntam, pois nunca se rendem, porque é que esse homem tinha sido convidado pelo amigo nessas condições

e não noutras? Fazendo, as-

sim, uma infinidade de per- guntas, para tentar forçar a confissão de que só a vontade de Deus, que é o asilo dos ig- norantes, é a causa dessa que-

da. Igualmente, quando vêem

a estrutura do corpo humano,

ficam em admiração, e, como ignoram as causas de uma tal maravilha, concluem que é uma obra sobrenatural, na qual as causas que são do nosso conhecimento não po- deriam ter qualquer papel.

Eis a razão pela qual quem quiser conhecer a fundo as causas dos milagres, e pene- trar, como verdadeiro sábio, nas causas naturais, sem se divertir a admirá-las como ignorante, passa por ímpio ou herético, em virtude da malí- cia daqueles que o vulgo re- conhece como os intérpretes tanto da natureza quanto de Deus.

Estes

espíritos

mercenários

estão bem cientes de que a

ignorância

povo no espanto é o que lhes

permite subsistir e conservar

o seu crédito.

o

que

mantém

VII Os homens, tendo metido na cabeça a opinião ridícula

de que tudo o que vêem foi feito para eles, fizeram da re- dução de todas as coisas ao seu interesse, ajuizando o seu valor pelo lucro que delas ti- ram, um princípio da religião.

Do que formaram essas no- ções que lhes servem para

explicar a natureza das coisas,

a saber, o bem, o mal, a or-

dem, a confusão, o calor, o frio, a beleza, a fealdade, que no fundo não são aquilo que imaginam.

Como, por outro lado, fazem

gala de ter o seu livre-arbítrio, acharam-se no direito de de- cidir sobre o louvor e a ver- gonha, o pecado e o mérito. Chamam de bem a tudo o que os favorece e que diz respeito

ao culto divino

e mal, pelo

contrário, ao que não convém nem a um nem a outro.

Aqueles que ignoram a natu- reza das coisas, e que dela só

50

têm a ideia que formam com a ajuda da imaginação, que confundem com o entendi- mento, representam para si próprios uma ordem do mun- do à medida do que imagina- ram.

Pois os homens são feitos de tal modo que crêem as coisas bem ou mal ordenadas conso- ante têm facilidade ou traba- lho a imaginá-las, quando os sentidos lhas representam.

Com efeito, como nos com- prazemos, sobretudo, no que cansa menos a imaginação, persuadimo-nos, facilmente, de que temos razão em prefe- rir a ordem à confusão, como se a ordem fosse outra coisa que um puro efeito da imagi- nação dos homens. De modo que, ao dizer que Deus fez tudo com ordem, está-se a atribuir-lhe, como ao homem, a faculdade da imaginação. A não ser que, em favor da ima- ginação humana, se pretenda que Deus criou o mundo da maneira mais fácil de imagi- nar, ainda que haja centenas de coisas que ultrapassam, em muito, as forças da imagina- ção, e uma infinidade de ou-

tras que a lançam na desor- dem, por causa da sua fraque- za.

VIII. Em relação às outras noções, são puros efeitos des- sa mesma imaginação, que não têm qualquer realidade, e que mais não são do que os diferentes modos de que esta faculdade é capaz.

Por exemplo, se o movimento que os objectos imprimem nos nervos, por meio dos olhos, é agradável aos senti- dos, diz-se que esses objectos são belos. Que os odores são bons ou maus, os sabores do- ces ou amargos, o que se toca duro ou macio, os sons rudes ou harmoniosos, se os odores,

tocarem e pene-

trarem agradável ou desagra- davelmente nos sentidos.

Até houve quem chegasse a acreditar que Deus era capaz de ter prazer com uma melo- dia, e que os movimentos ce- lestes seriam um concerto harmonioso. Prova evidente de que cada um acredita que as coisas são como se lhe afi- guram, ou antes, que o mundo é puramente imaginário.

Por isso, não é maravilha que

os sabores

51

não se encontrem dois ho- mens com a mesma opinião, e haja mesmo quem se vanglo- rie de duvidar de tudo. Pois, ainda que os homens tenham um corpo, que se assemelha em muitas coisas, difere numa série de outras, assim, o que parece bom a um, parece mau a outro, o que agrada a este, desagrada aquele. Do que é fácil inferir que os sentimen- tos só diferem em relação à fantasia; que o papel do en- tendimento é pequeno e que, por fim, as coisas do mundo não passam de um puro efeito da imaginação.

Mas, se em vez de se remeter para a imaginação se consul- tassem as luzes do entendi- mento e as matemáticas, e que não se ultrapassasse o que se pode conceber com o auxílio das luzes naturais, toda a gente chegaria à verdade, e os juízos seriam mais uniformes e mais razoáveis do que têm sido.

IX. É, portanto, evidente que todas as razões, que o vulgo costuma apresentar, quando se mete a explicar a natureza, não passam de modos de

imaginar, que provam tudo, menos o que pretendem. E, como se dá a essas razões nomes tão reais como se existissem noutro lado que não na imaginação, chamo- lhes, não seres de razão mas puras imaginações; não ha-

vendo nada mais fácil do que responder aos argumentos que se fundam nessas noções e que se nos contrapõem como

se segue.

A ser verdade que o universo

seja um fluxo e uma sequên- cia necessária da natureza di- vina, de onde viriam as im- perfeições e os defeitos que nele encontramos?

Por exemplo, a corrupção, que tudo enche de mau chei- ro, a quantidade de objectos desagradáveis, tantas desor- dens, tantos males, tantos pe- cados e tantas outras coisas semelhantes? Nada é, digo, mais fácil de refutar do que estas objecções.

Pois não se deve atribuir mais perfeição às coisas do que aquela que convém à sua na- tureza e à sua essência, e elas não são nem mais nem menos perfeitas, tão-só por agrada-

rem ou desagradarem aos sentidos, ou serem úteis ou inúteis, à natureza humana.

Aliás, só se pode julgar a per- feição de qualquer ser na me- dida em que se conhece a es- sência e a natureza. Mas, para calar aqueles que perguntam por que é que Deus não criou todos os homens, sem excep- ção, de tal modo que se dei- xassem levar apenas pelas

luzes da razão, basta dizer que lhe sobejava matéria para dar a cada ser o grau de perfeição que lhe fosse mais conveni- ente, ou, para falar com maior propriedade, porque as leis da natureza eram tão amplas e extensas que podiam servir à produção de todas as coisas de que é capaz um entendi- mento infinito.

CAPÍTULO III

O QUE É DEUS

Até aqui, combatemos os pre- conceitos populares sobre a divindade, mas ainda não dis- semos o que Deus é.

Se nos perguntarem, respon- demos que é um ser absolu- tamente infinito, do qual um dos atributos é ser uma subs- tância eterna e infinita, por- quanto a extensão, ou a quan- tidade, só é finita, ou divisí- vel, quando a imaginamos como tal.

Pois a matéria sendo em todo o lado a mesma, o entendi- mento não distingue nela partes.

Por exemplo, a água, en- quanto água, é imaginada di- visível, e as suas partes sepa- radas umas das outras; se bem que, enquanto substância cor- pórea, não seja nem separável nem divisível.

Enfim, a água, enquanto água, está sujeita à geração e à cor- rupção, ainda que, como

substância, não esteja sujeita nem a uma nem a outra.

Assim, a matéria e a quanti- dade nada têm que seja indig- no de Deus.

Pois se tudo está em Deus, e se tudo decorre necessaria- mente da sua essência, é pre- ciso absolutamente que seja tal como o que contem; uma vez que seria contraditório que seres completamente materiais estivessem contidos num ser que em nada o fosse.

E, para que não se julgue que se trata de uma opinião nova, Tertuliano, um dos primeiros adeptos dos Cristãos, afirmou, contra Apeles, que o que não é corpo nada é.

E, contra Praxeas, que toda a substância é um corpo, sem que tal doutrina fosse conde- nada nos quatro primeiros Concílios Ecuménicos e Ge-

rais' 13 .

II. Estas opiniões são sim- ples, e mesmo as únicas que um bom e são entendimento possa formar sobre Deus. No entanto, poucos se contentam com uma tal simplicidade. O

povo grosseiro está acostu- mado à adulação dos sentidos

e espera um Deus que se as-

semelhe aos reis da terra. Esta

pompa e circunstância, que os circunda, deslumbram-no de tal modo que tirar-lhe toda a esperança de, após a morte,

vir a engrossar o número dos cortesãos celestes, usufruindo dos mesmos prazeres de aqui em baixo na corte dos reis, é retirar-lhe a sua consolação e

a única coisa que o impede de desesperar nas misérias da vida.

Quer-se um Deus justo e vin-

13 Foram eles: 1 - O de Nicéia, realiza- do em 325 sob o imperador Constanti- no, o Grande e o papa Silvestre; 2 - O primeiro de Constantinopla, no ano de 381, nos reinados de Graciano, Valenti- niano e Teodósio, no papado de Damá- sio; 3 - O primeiro de Éfeso, no ano de 431, sob o império de Teodósio, o Novo, e Valentiniano, e do papa Celes- tino; 4 - O de Calcedónia, no ano de 451, sob os imperadores Valentiniano e Marciano e o papa Leão 1.

gativo, que castigue e recom- pense à maneira dos reis, e, por conseguinte, um Deus susceptível de todas as pai- xões e de todas as fraquezas humanas. Atribui-se-lhe pés, mãos, olhos e ouvidos, e não se quer que um Deus assim constituído tenha matéria.

Diz-se que o homem é a sua obra-prima e mesmo a sua imagem, mas não se quer que

a cópia seja semelhante ao

original. Enfim, o Deus do povo actual está sujeito a mais formas do que o Júpiter dos pagãos.

O que é mais estranho é que,

quanto mais estas tolices se contradizem e chocam o bom

senso, mais são veneradas pelo vulgo. Ele crê, obstina- damente, no que disseram os Profetas, ainda que esses visi- onários mais não fossem, en- tre os Hebreus, que o que os augures e os adivinhos eram para os pagãos, e o que, para nós, são os astrólogos e os fanáticos.

Consulta-se a Bíblia, como se Deus nela se explicasse ponto por ponto, apesar de estar cheia de fábulas impertinentes

e ridículas.

Testemunha o que aí se conta sobre uma serpente e uma burra que falaram; sobre uma mulher transformada em es- tátua de sal; sobre um rei convertido em fera; sobre um Nazareno que esquarteja um leão, mata mil homens com uma mandíbula de burro, ar- ranca as ombreiras e a barra das portas de uma cidade e as carrega aos ombros, rompe as

cordas mais fortes, com as quais estava preso, deita abai- xo um grande edifício, for- çando os pilares nos quais está apoiado, tudo isto graças

a uma força maravilhosa que

reside nos seus cabelos; sobre um Profeta a quem os corvos traziam de comer duas vezes por dia, que sobreviveu com uma única refeição durante quarenta dias e quarenta noi- tes de marcha, dividiu as águas de um rio batendo-lhes com o seu manto, e o atraves- sou a seco, que, enfim, foi elevado aos céus por um tur- bilhão, num carro de fogo pu- xado por cavalos de fogo; e sobre um outro Profeta que permaneceu três dias e três noites no ventre de um peixe,

onde respirava com tal à- vontade que pôde cantar um cântico.

Apesar de todos estes contos pueris, e uma infinidade de outros semelhantes, de que este livro abunda, obstinam- se a canonizá-lo e não se quer atentar que ele é composto de um mero tecido de fragmen- tos cosidos juntos em tempos diversos e apresentados ao público segundo a fantasia dos rabinos 14 , que só os exibi- ram depois de terem aprovado uns e rejeitado os outros, se- gundo os julgaram confor- mes, ou repugnantes, à Lei de

Moisés 15 .

Sim, tal é a loucura e a estu- pidez dos Cristãos, que prefe- rem passar a vida a idolatrar

14 O Talmud indica que os Rabinos

ponderaram se retirariam o Livro dos

Profetas e o do Eclesiastes do número dos Livros da Bíblia. Deixaram-nos ficar pois neles encontraram algumas passagens elogiosas para a Lei de Moi- sés. Teriam feito o mesmo com as pro- fecias de Ezequiel, que deveriam ter sido banidas do Catálogo Sagrado, se um certo cónego não tivesse a habilida- de de conciliá-las com a Lei.

15

Gn., III, 1-5. - Nm., XXII, 29-.10. -

Gn

XIX, 26. – Dn., IV, 32-.36. – Jz.,

XIV, XV, XVI. - 1 Rs. XVII. XIX, 2. Rs.II. - Jn., II.

56

que receberam de

um povo ignorante, um livro sem ordem, nem método, que ninguém percebe, de tal modo é confuso e mal concebido, e que só serve para fomentar as divisões entre eles, tal é, di- zia, a sua loucura, que prefe- rem adorar este fantasma do que escutar a lei natural que Deus, quer dizer, a Natureza, enquanto princípio do movi- mento, inscreveu no coração dos homens.

um livro

Todas as outras Leis não são senão ficções humanas e pu- ras ilusões forjadas, não pelos Demónios ou pelos maus Es- píritos, mas pela esperteza

dos príncipes e dos eclesiásti-

para aumenta-

rem a sua autoridade, estes, para enriquecerem pelo débito de uma infinidade de quime- ras que vendem a alto preço aos ignorantes.

Em relação às Leis dos Cris- tãos, elas não estão fundadas senão num livro 16 cujo origi- nal não se encontra em lado nenhum, cujas cópias, que possuímos, diferem, em mil lugares, umas das outras. So-

cos,

aqueles,

16 A Bíblia

bre um livro, enfim, que só contém coisas sobrenaturais, quer dizer, impossíveis, e cu- jas recompensas e castigos que aí são propostos para as boas e as más acções só di- zem respeito a uma vida futu- ra, tal é o receio de que a fraude se descubra nesta. É que nunca ninguém voltou do outro mundo para nos dar no- tícias.

Assim, o povo, sempre a os- cilar entre a esperança e o te- mor, é mantido no cumpri- mento do seu dever, pela opi- nião que tem de que Deus só fez os homens para os tornar eternamente felizes ou infeli- zes. Foi esta opinião, nascida da esperança e do temor, que deu lugar a uma infinidade de religiões de que iremos falar.

57

. CAPÍTULO IV

O QUE SIGNIFICA A PALAVRA RELIGIÃO.

COMO E PORQUE SE INTRODUZIU UM NÚMERO

TÃO GRANDE NO MUNDO

I. Antes de esta palavra Reli- gião, ter sido introduzida no mundo, era-se obrigado a se- guir as leis naturais, quer di- zer, a conformar-se à recta razão. Só este instinto era o elo ao qual os homens esta- vam presos. Este elo, simples, unia-os de tal modo que as divisões eram raras.

Mas, desde que o medo os levou a suspeitar de que hou- vesse Deuses, e potências in- visíveis, elevaram altares a esses seres imaginários. E, renunciando às luzes da natu- reza e da razão, que são as fontes da verdadeira vida, li- garam-se, entre si, através de vãs cerimónias e de um culto supersticioso dos fantasmas da sua imaginação.

É destes elos sagrados, for- mados pelo receio, que vem essa palavra Religião, que tanto dá que falar no mundo.

Os homens tendo, portanto, admitido, assim, potências invisíveis, que teriam todo o poder sobre eles, adoraram- nas, para as comover, e ima- ginaram, ainda, que a nature- za era um ser subordinado a essas potências.

A partir daí, representaram-na como uma grande massa, ou como uma escrava, que agia segundo as ordens dadas por essas potências. Desde o mo- mento em que esta falsa ideia surgiu nos seus espíritos, mais não tiveram do que desprezo pela natureza e reservaram todos os respeitos para esses pretensos seres, aos quais chamaram Deuses.

Daí veio a ignorância, na qual estão mergulhados tantos po- vos, e da qual os verdadeiros sábios, por mais profunda que seja, os poderiam libertar, se o seu zelo não fosse impedido por aqueles que conduzem

58

esses cegos e que só vivem de imposturas.

Mas por pouca que seja a es- perança de sucesso nesse em- preendimento, não se deve, por isso, abandonar o partido da verdade. Mais que não seja por consideração por aqueles que se protegeram dos sinto- mas de um tão grande mal, é preciso que uma alma genero- sa diga as coisas como são.

II. O temor, que fez os Deu- ses, fez também a Religião; e desde que os homens mete- ram na cabeça que existiam anjos invisíveis, que eram as causas da sua boa ou má for- tuna, renunciaram ao bom senso e à razão, e tomaram as quimeras por divindades, que cuidariam do seu comporta- mento. Depois de forjarem Deuses, quiseram saber de que natureza eram, e imagina- ram que deveriam ser da mesma substância que a alma.

Depois, persuadindo-se de que esta se assemelharia aos fantasmas que aparecem nos espelhos, ou durante o sono, acreditaram que os seus Deu- ses eram substâncias reais, mas tão finas e subtis que,

para as distinguir dos corpos, chamaram-lhes Espírito, ain- da que corpos e espíritos se- jam, na verdade, uma mesma coisa. Não diferem entre si, pois ser espírito e incorpóreo é uma coisa incompreensível. A razão é que todo o espírito tem uma figura que lhe é pró- pria e está compreendido num lugar determinado, quer dizer que tem limites, e, por conse- guinte, que é um corpo, ainda que estreito, solto e subtil.

III. Os ignorantes, ou seja, a maioria dos homens, tendo determinado, deste modo, a substância dos seus Deuses, trataram de investigar por que meio esses seres invisíveis produziriam os seus efeitos. Mas, não conseguindo, por causa da ignorância, acredita- ram em conjecturas, ajuizan- do cegamente do futuro pelo passado, se bem que não en- contrassem, aí, nem ligação nem dependência.

Em tudo o que empreendiam, encaravam o passado e augu- ravam o futuro em termos de bem ou de mal, consoante esse empreendimento tivesse tido sucesso ou não. Assim,

tendo Formião derrotado os Lacedemónios na batalha de Naupacto, os Atenienses promoveram um outro capi- tão, depois da sua morte, por ter o mesmo nome; Aníbal, tendo sucumbido às armas de Cipião, o Africano, os Roma- nos, em virtude desse bom sucesso enviaram para a mesma província um outro Cipião, contra César, o que não serviu nem aos Atenien- ses nem aos Romanos. Assim, após duas ou três experiênci- as, várias nações ligaram lu- gares, objectos, nomes e boa ou má sorte. Outras serviram- se de certas palavras misterio- sas, às quais chamaram en- cantamentos, e supuseram-nas de uma tal eficácia que pode- riam, pela sua virtude, fazer falar as árvores, fazer um ho- mem de um bocado de pão e metamorfosear tudo o que se lhes deparasse.

IV. Inventadas, desta sorte, as potências invisíveis, os ho- mens, primeiro, reverencia- ram-nas como fazem com os seus soberanos, isto é, através de marcas de submissão e de respeito, como sejam os pre- sentes, as orações e outras

coisas do género. Digo pri-

meiro,

ensina a usar nessas ocasiões sacrifícios sangrentos, que só foram instituídos para a sub- sistência dos sacrificadores e dos ministros destinados ao serviço desses belos Deuses.

V. Esta semente de religiões,

a saber, a esperança e o temor,

à força de passar pelas pai-

xões, os juízos e os diversos conselhos dos homens, pro- duziu esse grande número de crenças bizarras, que são a

de

tantas crueldades bárbaras e

de tantas revoluções que ocor-

reram nos Estados.

A honra e os grandes provei-

tos que se atribuíram ao sa- cerdócio, como depois ao mi- nistério e aos cargos eclesiás- ticos, aliciaram a ambição e a avareza das pessoas manho- sas, que aproveitaram a estu- pidez dos povos e captaram tão bem as suas fraquezas, que se tornou insensivelmente um doce hábito incensar a mentira e detestar a verdade.

causa

pois

a

natureza

não

de

tantos

males,

VI. Uma vez a mentira esta- belecida, e os ambiciosos fis- gados pela doçura de estar

acima dos seus semelhantes, trataram de construir uma re- putação, fingindo ser amigos desses Deuses invisíveis que

o vulgo reconhecia. Para ob-

ter maior sucesso, cada um forjou-os a seu modo e tomou uma tal licença para multipli- cá-los que se encontrava um a cada passo.

VII. A matéria informe do mundo chamou-se deus Caos. Conferiu-se idêntica honra ao

céu, à terra, ao mar, ao fogo, aos ventos e aos planetas. O mesmo se fez com os homens

e

as mulheres; mas, também,

o

bezerro, o cão, o cerdo, o

crocodilo, a serpente, a cebo-

la, os pássaros, os répteis, em suma, todo o tipo de animais

e de plantas tiveram o seu lu- gar privilegiado. Cada rio, cada fonte tinha o nome de um deus, cada casa tinha o seu, cada homem tinha o seu génio.

Enfim, tudo estava cheio, tanto acima como sob a terra, de espíritos, de sombras e demónios. Como não bastasse inventar divindades em todos os lugares imagináveis, jul- gou-se ofender o tempo, o

dia, a noite, a concórdia, o amor, a paz, a vitória, a con- tenção, a ferrugem, a honra, a virtude, a febre, a saúde

Julgou-se, dizia eu, ultrajar essas belas divindades se não se lhes erguesse templos e altares. Depois, começou-se a venerar o próprio génio, que alguns invocavam com o nome de musa. Uns, com o nome de fortuna, adoravam a sua própria ignorância. Ou- tros baptizavam os seus debo- ches com o nome de cúpido, a sua cólera, com o nome de

fúria; numa palavra, nada ha-

via que não tivesse um nome de um deus ou de um demó- nio.

VIII. Os fundadores das reli-

giões, cientes de que a base das suas imposturas era a ig- norância dos povos, nada es- queceram para a sustentar. A adoração das imagens, nas quais fingiram que os Deuses moravam, pareceu-lhes bas- tante adequada para esse efeito, e dedicaram todos os cuidados para lhe conferir um fundamento duradoiro. Para tal, ergueram altares aos Deu- ses, que dignavam manifestar-

se aos homens nos seus si- mulacros, construíram-lhes templos soberbos, em sua honra, instituíram sacrifícios, festas, cerimónias, estabelece- ram sacrificadores, padres, ministros para os servirem, atribuíram a esses ministros, para além das dízimas, os melhores pedaços dos animais sacrificados, a melhor parte dos frutos, dos legumes, dos grãos oferecidos nos seus al- tares, e impeliram assim essas almas baixas e venais a pro- mover um culto que lhes era de tão grande utilidade. E es- tes sacrifícios, de que os Deu- ses só recebiam o fumo, estas dízimas, estas oferendas, fo- ram depois considerados coi- sas santas, destinadas a ser usadas nos mistérios sagra- dos, para que ninguém tivesse a audácia de cobiçá-las, nem a temeridade de lhes tocar.

Para melhor ludibriar os po- vos, estes padres intitulavam- se profetas e faziam crer que antecipavam o futuro, graças ao comércio, de que se van- gloriavam, com os Deuses.

Como não há nada mais natu- ral no homem do que o desejo

de saber o seu destino, estes impostores eram demasiado espertos para não aproveita- rem essa tendência e para ne- gligenciarem uma circunstân- cia tão favorável aos seus objectivos. Uns estabelece- ram-se em Delos, outros em Delfos e noutros lados, onde, mediante oráculos ambíguos, respondiam às perguntas que lhes faziam. Até as mulheres estavam metidas nisso. Com efeito, os Romanos recorriam, nas grandes calamidades, aos Oráculos das Sibilas 17 .

Os loucos e os insanos passa- vam por entusiastas e aqueles que fingiam ter comércio com os mortos eram designados necromantes. Outros liam o futuro no voo dos pássaros ou nas entranhas dos animais. Por fim, os olhos, as mãos, o rosto, um objecto extraordiná- rio, tudo lhes parecia de bom ou mau augúrio. O que prova que a ignorância aceita a im- pressão que se quiser, desde que se tenha o segredo para aproveitá-la.

17 Os quais traziam as previsões sobre os destinos do Império Romano

62

CAPÍTULO V

SOBRE MOISÉS

I. Os ambiciosos, que sempre foram grandes mestres na arte de enganar, seguiram o mes- mo caminho na instituição das suas leis. Para obrigar o povo a submeter-se de boa vontade, persuadiram-no, aproveitando a ignorância que lhe é natural, de que as ti- nham recebido de um deus ou de uma deusa.

Foi este o procedimento dos legisladores. Todos atribuíram a genealogia das suas leis a uma qualquer divindade e procuraram convencer os ou- tros de que eles próprios eram mais do que homens. Disto ficará convencido quem se der ao trabalho de ler, sem preconceitos, o que vamos dizer sobre os quatro mais célebres de entre eles, a saber, Moisés, Numa Pompílio, Jesus Cristo e Maomé.

II. O célebre Moisés, neto de um grande mago, como relata Justino, o Mártir, tendo-se

tornado chefe dos Hebreus, que foram corridos do Egipto por um édito, porque espalha- vam a sarna e a lepra de que estavam infestados, foi um dos que usaram com maior habilidade este estratagema. Depois de seis dias de mar- cha, numa dolorosa retirada, ordenou a esses miseráveis banidos que consagrassem o sétimo a Deus, por um repou- so público, a fim de os con- vencer de que este Deus o fa- vorecia, que aprovava o seu domínio, e evitar que alguém tivesse a audácia de lho dis- putar. Nunca houvera gente mais ignorante do que aquela, nem, por conseguinte, mais crédula.

Dada a esplêndida oportuni- dade de fazer valer os seus talentos raros, levou-os a acreditar que Deus lhe apare- cera, que fora por sua ordem que tomara a chefia, que tinha sido escolhido para os gover- nar, que eles formariam o seu

63

povo particular, privilegiado,

à exclusão de qualquer outra

nação, desde que acreditas- sem e fizessem o que lhes dissesse. E, para acabar de os convencer da sua missão di- vina, fez alguns truques sub- tis, que eles tomaram como milagres. Assim, estes pobres infelizes, ofuscados com as suas ilusões, exultantes por serem adoptados pelo senhor dos Deuses à saída de uma dura servidão, aplaudiram Moisés e juraram obedecer- lhe.

III. Uma vez confirmada a sua autoridade, pensou em perpetuá-la; e, com o pretexto de estabelecer um culto su- premo para servir Deus, de quem se dizia o lugar-tenente, fez de Aarão, seu irmão, e dos seus filhos, os chefes do palá- cio real, quer dizer, do lugar onde se emitiam os oráculos, longe da vista e da presença do povo.

Depois, fez o que sempre foi feito nas novas crenças, quero dizer, prodígios e milagres, que deslumbravam os simples

e a alguns estonteavam, mas

que davam pena aos mais in-

teligentes, que liam nas en-

trelinhas dessas imposturas.

De tempos a tempos, fazia um retiro, sozinho, com o pre- texto de ir conferenciar em privado com Deus; e, por esse pretenso comércio directo com a divindade, era respei- tado e obedecido sem limites. No entanto, por mais hábil que fosse este legislador, teria tido dificuldade em se fazer obedecer, se não tivesse a for- ça na mão. A intrujice sem as armas raramente funciona.

Com efeito, de entre um nú- mero tão grande de súbditos, que tivera a arte de dominar, havia alguns suficientemente esclarecidos para se apercebe- rem dos seus artifícios, e sufi- cientemente corajosos para lhe contestarem que, sob a falsa aparência da justiça e da igualdade, tinha arrebanhado tudo; que, estando a autorida- de soberana vinculada ao seu sangue, mais ninguém podia alcançá-la; que, por fim, mais do que pai, era tirano.

Nestas ocasiões, Moisés, há- bil político, trucidava sem

quartel esses espíritos fortes, e não poupava um único que

criticasse o seu jugo. Com estas precauções, e pintando os seus suplícios com o nome de vinganças divinas, mante- ve sempre o poder absoluto.

E, para acabar como come- çou, isto é, como intrujão e impostor, cavou um abismo, durante os retiros, e nele se precipitou, para que o seu corpo não fosse encontrado e se acreditasse que Deus o ti- nha levado.

Não ignorava, contudo, que a memória dos Patriarcas que o antecederam era objecto de grande veneração, apesar de se conhecerem as respectivas sepulturas. Mas isso era pou- co para contentar uma ambi- ção como a dele; precisava de ser venerado como um deus, de quem a morte não se pude- ra apoderar. Com efeito, era o que já prenunciava o que dis- sera no início do seu reinado:

que era o eleito de Deus, o Deus de Faraó.

Depois dele, Rómulo, Elias, Empédocles, e aqueles que como eles tiveram a tola vai- dade de eternizar o nome, es- conderam o momento da morte, para que os cressem

imortais.

Rómulo afogou-se nos pânta- nos das cabras, para que, não aparecendo o seu corpo, se acreditasse que tinha sido ele- vado aos céus e deificado. Empédocles, célebre filósofo, precipitou-se nas fumarolas e crateras do monte Etna para fazer crer, como Rómulo, que fora elevado ao céu. E Elias, levado num redemoinho aos céus em um carro de fogo pu- xado por cavalos de fogo 18 .

18 2 Rs, II.

65

CAPÍTULO VI

SOBRE NUMA POMPÍLIO

I. Numa Pompílio, Sabino dos quatro costados, homem sábio em matéria de Leis, foi escolhido para suceder a Ró- mulo. Apesar de o povo ro- mano o ter eleito, por unani- midade, e a eleição ter sido confirmada por todos os se- nadores, quis, ainda, que se consultassem os Deuses sobre essa escolha, e só aceitou a realeza depois de estes terem indicado a sua aprovação, mediante presságios celestes. Empenhou-se, durante um reinado de mais de quarenta anos, em suavizar os costu- mes cruéis dos Romanos, di- rigindo os seus espíritos para a religião.

Considerou que a forma mais segura de reinar de modo ab- soluto sobre homens igno- rantes, grosseiros e supersti- ciosos, como eram os primei- ros habitantes de Roma, con- sistia em inspirar-lhes o maior temor possível dos Deuses.

Para consegui-lo, julgou ne- cessária a ficção de um mila- gre qualquer; e, como lidava com um povo que já admitia como artigos de fé as respos- tas dos oráculos e as previ- sões dos augures e dos astró- logos, não lhe foi difícil con- vencê-los.

Persuadiu-os, facilmente, de

que a ninfa Egéria lhe ditara

as Leis e as instituições que

lhes impunha; e, com essa fraude, conseguiu subjugá-los

com cadeias tanto mais fortes

e respeitáveis quanto eram

consideradas sagradas e divi- nas.

II. Mas, se bem que, nesses tempos grosseiros, a creduli- dade dos Romanos fosse grande, nada era comparada com a dos mesmos Romanos em épocas civilizadas. Com efeito, estes apropriaram-se dos Deuses, das crenças e das superstições de todas as na- ções que tinham vencido.

Em particular, adoptaram a teologia dos Gregos que acre- ditavam que Minerva tinha nascido da cabeça de Júpiter e Baco da sua coxa; que Eristó- nio e Mirra tinham sido con- cebidos, por este pai dos Deu- ses, sem mães, e que, ao in- vés, Vulcano e Marte eram filhos de Juno, sem pais; que Quinaco, Eaco, Hércules, Alexandre e uma infinidade de outros eram filhos de Jú-

piter, e que Perseu nascera deste deus e da virgem Danae. A fecundidade de uma virgem nada teve de incrível para gente que admitia como ver- dades divinamente reveladas uma infinidade de coisas ain- da mais absurdas e contradi- tórias. Aliás, talvez lhes vies- se esta opinião dos Egípcios que acreditavam que o espí- rito de Deus, pneuina qeon, podia engravidar uma mulher.

CAPÍTULO VII

SOBRE JESUS CRISTO

I. Jesus Cristo, que não igno- rava nem as máximas nem a ciência dos Egípcios, divul- gou esta opinião e julgou-a adequada ao propósito que cogitava. Considerando quão célebre se tinha tornado Moi- sés, por ter comandado um mundo de ignorantes, decidiu partir da mesma base e fez-se seguir por uns tantos idiotas, que convenceu de que o Espí- rito Santo era o seu pai e uma virgem a sua mãe 19 .

19 Celso diz, segundo Orígenes. que Jesus Cristo era oriundo de uma peque- na povoação da Judeia, e que tinha tido como mãe uma pobre aldeã que depen- dia completamente do seu trabalho. Que tendo sido acusada de cometer adultério com um soldado chamado Pantera, foi posta na rua pelo noivo, que era carpin- teiro de profissão. Que depois dessa afronta, errando de lugar em lugar, deu à luz secretamente Jesus. Mais tarde. Jesus, por necessidade, viu-se obrigado a trabalhar como assalariado no Egipto, onde aprendeu alguns desses segredos de que os Egípcios tanto se gabam, voltou à sua terra natal onde, todo or- gulhoso dos milagres que sabia fazer, se proclamou a si mesmo Deus.

Estas boas pessoas, acostu- madas a viver de sonhos e de fantasias, embarcaram nessa

fábula e acreditaram em tudo

o que ele quis, tanto mais que

um nascimento acima da or- dem da natureza era inédito. Com efeito, nascer de uma virgem, pela acção do Espí-

rito Santo, estava, para eles, acima do que os Tártaros di- zem sobre o seu Gengis Khan

e os Siameses do seu Som-

mona-Codom, que tiveram, como Jesus Cristo, virgens como mães, mas com a dife- rença de que estas concebe- ram por virtude dos raios do Sol.

Este prodígio ocorreu num tempo em que os Judeus, fartos do seu Deus, como já o tinham estado dos seus juí- zes 20 , queriam ter um visível,

20 No quarto Livro de Samuel (Cap. VII), os israelitas, descontentes dos filhos de Samuel que os Julgavam, pedi- ram um rei, a exemplo de outras nações, que pretendiam imitar.

68

como as outras nações.

Como o número de tolos é infinito, encontrou súbditos por todo o lado; mas a sua extrema pobreza constituía um obstáculo invencível à sua elevação.

Os Fariseus, ora encantados

com a coragem de um homem da sua seita 21 , ora invejosos

da

sua audácia, depreciavam-

no

ou elevavam-no, de acordo

com o humor inconstante da populaça. Assim, por mais que se falasse da sua divinda- de, o seu objectivo era inatin- gível por causa da indigência em que vivia. Mesmo que ti-

vesse feito os milagres que se lhe atribuem, sem dinheiro e sem exército, teria de acabar por perecer.

Mas, com finanças e tropas, é provável que tivesse tido o mesmo sucesso que Moisés, Maomé e aqueles que tiveram

a ambição de se elevarem

acima dos outros. Se foi mais infeliz, não foi menos hábil, e

algumas passagens da sua

21 Jesus Cristo era da seita dos Fari- seus, quer dizer dos miseráveis. Ao passo que a dos Saduceus era a seita dos ricos.

história atestam que o maior defeito da sua política consis- tiu em não ter cuidado sufici- entemente da sua segurança. No restante, não vejo que te- nha tomado medidas inferio- res às destes dois legisladores, cuja memória permaneceu o árbitro da crença de tantos povos.

69

CAPÍTULO VIII

DA POLÍTICA DE JESUS CRISTO

I. Haverá algo mais subtil do que o que ele retorquiu sobre

o assunto de uma mulher apa-

nhada em adultério? Quando os Judeus lhe perguntaram se deveriam lapidar aquela infe- liz, em vez de responder sim ou não, e assim cair na arma- dilha que os seus inimigos lhe estendiam, a negativa indo directamente contra a Lei, a afirmativa tornando-o culpado de rigor e crueldade, o que lhe teria afastado os espíritos; ao invés, dizia eu, de responder como o faria uma alma vul- gar, disse: que aquele que está

sem pecado lhe lance a pri- meira pedra 22 '. Resposta hábil

e que manifestava a sua pre- sença de espírito.

II. Numa outra ocasião, per- guntaram-lhe se era permitido pagar o tributo a César, ou não. Outra pergunta para o apanhar em falso.

22 Jo, VIII. Mt, XXII. XXII, 17-22.

17-22. - Mt.,

Pois, se respondesse que não, tornava-se culpado de lesa-

majestade, e, se respondesse que sim, poria em causa a li- berdade da sua nação. Ele não respondeu nem que sim nem que não; mas disse aos que o interrogavam: mostrem a mo- eda que se entrega como tri-

buto. Depois, ele próprio, in- terrogando-os, perguntou a quem pertencia a imagem e a inscrição visíveis na moeda.

A César, responderam. Dai,

portanto, a César, replicou, o

que pertence a César, e a Deus, o que pertence a Deus.

Mediante tal resposta bizanti-

na, passe a expressão, elidiu a

dificuldade e evitou a arma- dilha, na qual qualquer outro teria caído.

III. Livrou-se, ainda, com grande habilidade, de uma outra armadilha que os Fari- seus lhe montaram. Pergunta- ram-lhe com que autoridade

se imiscuía na instrução e ca-

tequese do povo. Desde logo

70

entrando na mente deles, per- cebeu que só procuravam acusá-lo de mentiroso, uma vez que, se respondesse que era por uma autoridade hu- mana, não pertenceria ao cor- po sagrado dos sacrificadores da Lei antiga, nem daqueles que tinham a seu cargo a ins- trução do povo, ou que, se se gloriasse de pregar por ordem expressa de Deus, a sua dou- trina seria oposta à Lei de Moisés.

Para se livrar desse embaraço, teve a ideia de os embaraçar a eles, perguntando-lhes em nome de quem é que julga- vam que João baptizava. Os Fariseus que, por motivos po- líticos, se opunham ao bap- tismo de João, ter-se-iam condenado a si mesmos, con- fessando que baptizava em nome de Deus. Por outro lado, se o não confessassem, expunham-se à raiva da po- pulaça, que acreditava no oposto. Para sair desta situa- ção crítica, responderam nada saber, ao que Jesus Cristo re- plicou que também ele não era obrigado a dizer-lhes com que autoridade, e em nome de quem, pregava.

IV. Tais eram as manhas e as desfeitas do destruidor da an- tiga Lei, e pai da nova. Tais eram as sementes da nova re- ligião, que foi erguida sobre

as ruínas da antiga, na qual,

para dizer as coisas com um espírito desinteressado, nada

há de mais divino do que nas

seitas que a precederam. O seu fundador, que não era, propriamente, um ignorante, apercebendo-se da extrema corrupção da república dos Judeus, julgou que o seu fim estava próximo e acreditou em que uma outra deveria nascer das suas cinzas.

O medo de ser ultrapassado

por outros, mais ambiciosos do que ele, levou-o a consa- grar-se, à pressa, através de meios completamente opostos

aos de Moisés. Este começou por criar a fama de ser terrível

e formidável aos olhos das

outras nações. Jesus Cristo, pelo contrário, atraía-as com a esperança das vantagens

numa outra vida, as quais se- riam obtidas, dizia, desde que

se acreditasse nele; ao passo

que Moisés só prometia bens terrenos aos seguidores da sua Lei, Jesus Cristo levou-os a

esperar bens que não teriam fim.

As Leis de um só tinham em conta o exterior, as do outro vão até ao interior. Louvam ou condenam mesmo os pen- samentos e em tudo se opõem às de Moisés. Do que se de- preende que Jesus Cristo acreditou, com Aristóteles, que a Religião e os Estados são como os outros indivídu- os que se engendram e cor- rompem; e, como nada se faz, senão a partir do que se cor- rompeu, nenhuma Lei sucede a outra, se não lhe for em tudo oposta.

Mas, como é muito difícil convencer os homens a passar de uma Lei para outra, e a maioria dos espíritos é muito tenaz em matéria de religião, Jesus Cristo, imitando outros inovadores, recorreu aos mi- lagres, que sempre foram o escolho dos ignorantes e o asilo dos ambiciosos.

V. Desta maneira, fundado o Cristianismo, Jesus Cristo, aproveitando-se dos erros da política de Moisés, obteve o maior sucesso nas medidas que tomou para tornar a sua

Lei eterna. Os profetas he- breus pensavam honrar Moi- sés, prevendo um sucessor que se lhe assemelhasse, ou seja, um Messias cheio de virtudes, poderoso nos bens e terrível para os inimigos. Contudo, as suas profecias tiveram o efeito contrário:

uma quantidade de ambicio- sos aproveitou-se para se in- titular o Messias prometido, o que deu azo a revoltas que duraram até à destruição completa desta república an- tiga.

Jesus Cristo, mais hábil do que os Profetas moisaicos, para cortar as veleidades da- queles que se insurgissem contra ele, predisse que um tal homem seria um grande ini- migo de Deus, faria as delíci- as dos Demónios 23 , seria o esgoto de todos os vícios e a desolação do mundo. Depois destes belos elogios, não ha- verá, em minha opinião nin- guém que queira proclamar-se AntiCristo; e não consigo imaginar melhor segredo do que esse para eternizar uma

23 Mt., XXIV, 4; 3; 24; 2.5; 26. 2 Ts, II, 3 I0. 1 Jo, 18.

haja

nada de mais fabuloso do que

o que se diz desse pretenso Anti-Cristo.

São Paulo dizia, em vida, que ele já tinha nascido, por con- seguinte, que se estaria na véspera do advento de Jesus Cristo 24 . No entanto, passa- ram mais de mil e seiscentos anos desde a previsão do nas- cimento desse precursor, sem que ninguém tivesse dado por ele.

Confesso que houve quem roubasse estas palavras a Ebi- on e Cerinto, dois grandes inimigos de Jesus Cristo, por terem combatido a sua divin- dade. Mas também se pode dizer que, se esta interpreta- ção está conforme ao sentido do apóstolo, o que não é crí- vel, essas expressões apontam em todos os séculos uma infi- nidade de Anti-Cristos, não havendo verdadeiro sábio que julgue ofender a verdade, di- zendo, com Bonifácio VIII 25 e

Lei

se bem que

-

não

24 Ts., II, 7.

25 O Papa Bonifácio VIII dizia que os

homens têm as mesmas almas que os animais, e que essas almas humanas e bestiais viviam tanto tempo umas como as outras. Que o Evangelho, tal como

Leão X 26 que a história de Jesus Cristo é uma fábula e que a Lei não passa de um conjunto de fantasias que a

ignorância pôs em voga e que

o interesse sustenta.

VI. Presume-se, não obstante,

que uma religião que subsiste sobre tão tíbios fundamentos,

e da qual homens ignorantes

até à estupidez foram os pre-

dicadores, é uma religião completamente divina e so-

brenatural - como se se igno- rasse que ninguém é mais propenso a dar crédito a opi-

as

niões

absurdas

do

que

mulheres e os idiotas. Não é, portanto, maravilha que Jesus Cristo não tenha escolhido sábios e filósofos como Apóstolos.

todas as outras Leis, ensinava várias verdades e várias mentiras. Por exem- plo, uma Trindade, que é falsa, a con- cepção de uma virgem, que é impossí- vel, a encarnação e a transubstanciação, que são ridículas. Acredito tanto na Virgem, dizia, quanto numa burra, ou no seu filho quanto no potro de uma burra. 26 O Papa Leão X, entrando um dia num gabinete onde os tesouros estavam amontoados, exclamou: «Essa fábula de Jesus Cristo bem nos ajuda a enrique- cer.»

73

Ele sabia que a sua Lei e o bom senso eram diametral- mente opostos, razão pela qual clama, em tantos lugares, contra os sábios e os exclui do seu reino, no qual só ad- mite os pobres de espírito, os simples e os imbecis 27 .

É bem verdade que os espíri- tos razoáveis não se sentem infelizes por não terem de se imiscuir com insensatos.

VII. Ultrapassaríamos todos os limites que prescrevemos para este escrito, se quisésse- mos relatar aqui todos os ou- tros traços da sua política. Aqueles que queiram saber

27 A crença e a doutrina cristãs são estranhas e violentas para a razão e o juízo do homem. São contrárias a toda a filosofia e discurso da razão, como se pode ver em todos os artigos da fé, que não podem ser compreendidos nem entendidos pela inteligência humana, aliás, afiguram-se-lhe impossíveis e estranhos. O homem, para neles crer e aceitar, deve submeter a sua razão, su- jeitando o seu entendimento à obediên- cia da fé, diz S. Paulo; que se quiser consultar e ouvir a filosofia, e medir as coisas com o compasso da razão, aban- donará tudo e de tudo zombará, como de uma loucura, É o que Charron con- fessa num livro intitulado As Três Ver - dades (p, 180 da Edição de Bourdeaux,

1593).

mais só têm que ler o Novo Testamento. Aí verão com que cuidado evitava fazer os milagres na presença de in- crédulos e de pessoas esclare- cidas, e com que habilidade soube decalcar a sua Lei na de Moisés. Primeiro, protestou que, longe de pretender abolir esta última, vinha, proposita- damente, para a realizar. Mas, à medida que a tropa daqueles que o seguiam aumentava, dispensou-se de cumpri-la, dispensou os seus discípulos, e fazia a sua apologia quando um deles a violava. Imitando assim os novos príncipes, que prometem confirmar os pri- vilégios dos seus súbditos, quando o seu poder ainda não está suficientemente consoli- dado, mas que violam essas promessas assim que se sen- tem com força bastante para o fazerem impunemente.

Ou melhor, agindo como aqueles hábeis monarcas que, sob pretexto de confirmar e explicar as ordenações dos seus antecessores, abolem-nas completamente e põem, im- perceptivelmente, as novas Leis no seu lugar.

CAPÍTULO IX

DA MORAL DE JESUS CRISTO

I. No que respeita à moral de Jesus Cristo, se se distinguir a que lhe era particular da que tinha em comum com os filó- sofos, concluir-se-á que a sua tinha dois defeitos considerá- veis.

Um, exigir dos homens coisas absolutamente impossíveis e contra a sua natureza, teste- munham-no a obrigação de se detestar a si mesmo, de amar os inimigos, de não oferecer resistência aos maus

O outro, o facto de ela parecer ter sido imaginada para man- ter um bando de pedintes e de apátridas, tal como o eram os seus Apóstolos e os seus dis- cípulos.

Com efeito, não está cheia de imprecações contra a dureza dos ricos? Não encontramos nela lições para viver às cus- tas de outrem? Formulários de bênçãos para as cidades, burgos, aldeias, casas, pessoas que recebessem bem o bando,

e de maldições contra aqueles que não o quisessem receber?

II. Em relação à outra parte da sua moral, o que há nela de mais divino do que nos es- critos antigos? Ou melhor, o que é que se encontra que não seja um empréstimo, ou, pelo menos, uma imitação?

Santo Agostinho 28 confessa ter encontrado todo o início do Evangelho segundo São João em alguns dos escritos deles. Acresce o facto de que este apóstolo estava de tal modo disposto a pilhar os autores que não teve proble- mas em roubar aos Profetas os seus enigmas e visões para compor o seu apocalipse.

De onde viria a conformidade da doutrina do Antigo Testa- mento e da de Platão, senão de os rabinos, e daqueles que compuseram as Escrituras a partir de um amontoado de

28 Confissões, VII, 9; 22.

75

fragmentos, terem pilhado esse grande filósofo?

Decerto, o nascimento do mundo tem mais verosimi- lhança no Timeu de Platão do que no Génesis. Todavia, não se pode afirmar que tal se deva a que Platão tenha lido os livros judaicos durante a sua estada no Egipto, não os tendo ainda Ptolomeu manda- do traduzir, segundo Santo Agostinho 29 .

A descrição que Sócrates faz

a Símias, no Fédon, tem infi- nitamente mais graça do que

o paraíso terrestre; e o An-

drógino 30 é, sem comparação,

melhor engendrado do que tudo o que o Génesis narra sobre a extracção de Eva de uma das costelas de Adão.

Haverá maior semelhança do que aquela entre os dois in- cêndios, o de Sodoma e Go-

morra, e o que Faeton provo- cou? José e Hipólito? Nabu- codonosor e Licaão? Tântalo

e o rico mau? O maná dos

Israelitas e a ambrósia dos Deuses? Santo Agostinho 31 -',

29 Confissões, VII, 9; 22

30 Platão, Banquete, pg. 190

31 Cidade de Deus, VI, XIV.

São Cirilo e Teofilacto com- param Jonas a Hércules, ape- lidado Trinoctium, por ter passado três dias e três noites no ventre de uma baleia. O Rio de Daniel, representado no capítulo 7 das suas profe- cias, é uma imitação mani- festa do peritlegeton de que se fala no Diálogo sobre a Imortalidade da Alma.

O

pecado original e a Caixa

de

Pandora têm grandes pare-

cenças, o sacrifício de Isaac e de Jefta é semelhante ao de Ifigénia, no lugar da qual pu-

seram uma corça. O que se diz de Lot e da sua mulher é em tudo idêntico ao que se conta sobre Baucis e Filémon. Por fim, é voz corrente que se encontra entre os autores das Escrituras e Hesíodo e Home-

ro uma grande relação.

III. Mas voltemos a Jesus Cristo. Celso mostrava, de

acordo com Orígenes 32 , que ele roubara a Platão as suas

mais belas sentenças: Um camelo passaria mais depres-

sa pelo buraco de uma agulha

do que um rico entraria no

32 Contra Celso. VI. Lc, XVIII, 4.

76

Reino de Deus 33 .

E à seita dos Fariseus, à qual pertencia, que quem nele acredita deve a crença na imortalidade da alma, na res- surreição, no inferno, e a maior parte da moral, na qual nada se encontra de mais ad- mirável do que na de Epicte- to, Epicuro e uma série de outros.

Este último era apresentado por São Jerónimo como um homem cuja virtude envergo- nhava os melhores Cristãos, observando que as suas obras só falavam de ervas, frutos, abstinências, e cuja volúpia era tão temperada que as suas melhores refeições consistiam apenas num pouco de queijo, pão e água. Com uma vida tão frugal, este filósofo, ainda que completamente pagão, dizia que valia mais ser in- fortunado e razoável do que rico e opulento, mas despro- vido da recta razão; acres- centando que é raro encontrar num mesmo sujeito fortuna e sabedoria, e que só podere- mos ser felizes e viver com prazer se a nossa felicidade

33 Lucas, XVIII, 25.

for acompanhada pela pru- dência, pela justiça e pela ho- nestidade, que são as qualida- des da verdadeira e sólida volúpia.

Quanto a Epicteto, não creio que tenha existido homem, nem mesmo Jesus Cristo, tão austero, tão firme, tão cons- tante e tão despojado de pai- xões.

Nada afirmo que não seja fá- cil de provar. Mas, com receio de ultrapassar os limites que me impus, apenas apresenta- rei, de entre as belas acções da sua vida, um exemplo da sua constância.

Sendo escravo de um liberto chamado Epafrodito, capitão da guarda de Nero, este bru- tamontes tinha como fantasia torcer-lhe a perna. Aperce- bendo-se do prazer que isso lhe dava, Epicteto dis-se-lhe, com um sorriso, que estava visto que a brincadeira ainda acabaria por lhe partir uma perna. Com efeito, tendo a coisa acontecido como previ- ra. Pois bem!, prosseguiu, com o mesmo rosto sorriden- te, não lhe tinha dito que me partiria a perna?

77

Já se viu constância seme- lhante? E poder-se-á dizer que Jesus Cristo tenha chegado a esse ponto? Ele que chorava e transpirava com medo ao mí- nimo sinal de alarme, e que deu provas, no momento da morte, de uma baixeza de alma nunca vista na maioria dos mártires.

Se a injúria do tempo não nos tivesse roubado o livro que Arriano 34 escrevera sobre a vida e a morte do nosso filó- sofo, estou certo de que terí- amos muitos outros exemplos da sua paciência. Não duvido de que se dirá desta acção o que os ignorantes dizem das virtudes dos filósofos, que se trata de uma virtude que tem como mãe a vaidade, e que, na realidade, não é o que pa- rece. Mas, também, não igno- ro que aqueles que têm este discurso o reservam para a carne, sabendo que é aí que bem ou mal eles têm o direito de tudo dizer.

Também sei que, quando es- tas catedrais, estes vendilhões

34 Flávio Arriano – Filósofo e historia- dor romano, foi discípulo de Epicteto e autor do livro Encheirídion de Epicteto.

de ar, vento, fumaça, decla- mam com toda a força contra os vingadores da recta razão e da virtude ultrajada, conside- ram bem ganho o dinheiro que os Estados lhes pagam para instruir o povo; de tal modo é verdade que estão afastadíssimas, dos costumes dos autênticos sábios, as ac- ções dos ignorantes que os difamam e que parece só te- rem estudado para chegar a um lugar que lhes dê o pão, oficio que idolatram e de que se regozijam quando o obtêm, crendo então ter atingido um estado de perfeição, ainda que não passe, para aqueles que o detêm, de um estado de amor próprio, de bem-estar, de or- gulho, de volúpia, no qual a maioria segue tudo menos as máximas da religião que apregoa.

Mas, deixemos essa gente, que não sabe o que é a virtu- de, para examinarmos o dog- ma da divindade do seu mes- tre.

78

CAPÍTULO X

DA DIVINDADE DE JESUS CRISTO

I. Os mais ignorantes dos He- breus, tendo dado a maior di- vulgação à Lei de Moisés, foram também os primeiros a correr atrás de Jesus Cristo. E como o seu número é infinito, e que se entendem bem, não é de espantar que os seus erros se tenham espalhado tão fa- cilmente. Não que não haja muito que passar com os ino- vadores, sobretudo quando estes são pobres e sem poder; mas a glória esperada suaviza as dificuldades.

Assim, os discípulos de Jesus Cristo, apesar da miséria do séquito, muitas vezes reduzi- dos a comer grãos de trigo 35 que faziam cair das espigas, excluídos vergonhosamente dos lugares 36 onde esperavam repousar, só começaram a re- botar quando o viram nas mãos dos carrascos, impossi- bilitado de lhes dar os bens, o

35 Lc. VI, 1. 36 Lc, IX, 52-53

luxo, as grandezas que lhes tinha prometido.

Após a sua morte, os discí- pulos, no desespero de verem

frustradas as suas esperanças, perseguidos pelos Judeus que lhes queriam dar o mesmo tratamento que ao mestre, fi- zeram da necessidade virtude

e espalharam-se pelos quatro

cantos onde, com base no re- lato de uma mulher 37 , debita- ram a história da sua ressur- reição, depois a da filiação

divina e todas essas fábulas que determinaram que o im- perador Juliano abandonasse

a seita dos Nazarenos, quer

dizer, o Cristianismo, que se lhe afigurava uma ficção grosseira do espírito humano, por não estar fundada senão numa narração de prodígios.

A dificuldade que tinham em

progredir no seio dos Judeus levou-os a procurar os Genti- os e a tentar ter mais sucesso

37 Jo. XX, 18.

79

com eles do que com os da sua nação. Mas, como para isso precisavam de mais ciên- cia do que possuíam, os Gen- tios, tendo vários filósofos demasiado amigos da verdade para irem em conversa fiada, recrutaram um jovem com um espírito audacioso e activo, um pouco mais instruído do que os pescadores, ou, me- lhor, mais tagarela.

Este jovem, tendo-se associa- do a eles em virtude de um golpe do céu que o cegou, pois sem isso a manha não teria tido sucesso, atraiu para Jesus Cristo algumas almas simples, por meio do relato dessa visão e do da sua pre- tensa ascensão aos céus, do medo das penas do inferno, tiradas das fábulas dos poetas antigos, da esperança de uma ressurreição gloriosa e de um paraíso que não é mais su- portável do que o de Maomé.

De modo que, uns e outros, arranjaram maneira de confe- rir ao seu mestre a honra de passar por um Deus, o que ele próprio em vida não conse- guira.

No que a sua sorte não foi

melhor que a de Homero: seis das cidades 38 que tinham ex- pulso e desprezado este poeta em vida disputaram, depois da sua morte, a glória de te- rem sido a sua cidade natal.

II. Por aqui se vê que o Cris- tianismo depende, como todas as coisas, dos caprichos dos homens, cuja opinião deter- mina a sua qualidade, conso- ante o humor do momento.

Mas, aliás, se Jesus Cristo fosse Deus, seguir-se-ia, como diz São João 39 ', que Deus tinha sido feito carne e teria assumido a natureza hu- mana, o que encerra uma contradição tão grande como

a de afirmar que o círculo as- sumira a natureza do quadra- do, ou que o todo se trans-

formara em parte. Com efeito,

o que haverá de mais absurdo

do que imaginar, como os Cristãos, que o Altíssimo, como eles dizem, o único ser infinitamente perfeito, tivesse descido do mais alto da sua glória para vir morar no meio de seres que diferem infinita-

38 Sete cidades disputaram, depois da

sua morte, a linha do seu nascimento

39 5 Jo, I, 1-14.

80

mente mais dele do que os mais vis insectos diferem dos maiores monarcas do univer- so?

Que tenha assumido a fraca, desprezível, miserável nature- za desses seres, apenas para resgatá-los da escravatura e da tirania de um dos seus súbditos rebeldes, que man- tém acorrentado, como se não houvesse outra maneira de os livrar desse inimigo do géne- ro humano, que nada pode sem ele, senão a de se degra- dar a si próprio, de um modo tão estranho, ainda por cima, para só salvar um desses mi- seráveis de entre um milhão que deixa perecer?

Que se tivesse rebaixado a esse ponto, só para vingar as injúrias que recebera dessas formigas, desses vermes, e para pedir satisfações como se pudesse ter ficado ofendido?

Que, por fim, para obter da sua divindade irritada o per- dão pelas pretensas ofensas e satisfazer a sua justiça infini- ta, que exigia a sua morte, se tenha entregue a si próprio ao suplício mais cruel e infame, em vez deles, como se, su- pondo que tivesse realmente ficado ofendido, não fosse senhor, ou de abdicar dos seus direitos, ou de reconciliar es- ses pecadores com a sua di- vindade, de uma outra manei- ra, mesmo, de lhes conceder um perdão gracioso?

Mas tenho vergonha de perder mais tempo com contradições tão óbvias.

Passo, portanto, para Maomé, que bem merece que se fale dele, pois fundou uma Lei em máximas completamente opostas às do legislador dos Cristãos.

CAPÍTULO XI

SOBRE MAOMÉ

I. Mal tinham os discípulos

de Jesus Cristo apagado a Lei

mosaica, para introduzir a

cristã, já os homens, seguindo

o seu capricho habitual, se

submetiam às Leis de um novo legislador, que se impôs pelas armas, como o fizera Moisés.

O título especioso de Profeta

e de Enviado de Deus 40 tam-

40 Um amigo do célebre Golius, tendo- lhe perguntado o que é que os Muçul- manos diziam do seu Profeta, este sábio professor de árabe enviou-lhe o extracto que se segue, o qual contém um resumo da vida desse impostor, tirada de um manuscrito turco. «O Senhor Maomé Mustafa, de gloriosa memória o maior dos Profetas, nasceu no ano quarenta do império de Anurs- chirwan, o justo. A sua Santa Nativida- de deu-se no décimo segundo dia e na segunda série do mês de Rabia. Ora, após passar o quadragésimo ano de idade, foi inspirado divinamente, rece- beu a coroa da profecia e o manto da legação, que lhe foram trazidos, da parte de Deus, pelo fiel mensageiro Gabriel, com a ordem de chamar os homens para o islamismo. Depois dessa inspiração de Deus, permaneceu em Meca durante treze anos. Com cinquenta e três anos,

bém não lhe faltou. Igual- mente, não lhe faltou habili- dade para fazer milagres e para se aproveitar da fraqueza

do povo, que gosta do mara- vilhoso.

Primeiro, viu-se, como os outros, escoltado por uma po- pulaça ignorante, à qual de-

bitava os novos oráculos que recebia do céu. Esta gente sensual e grosseira, agrilhoa-

no oitavo dia do Mês de Rabia, uma sexta-feira, refugiou-se em Medina. Ora, foi aí que, dez anos após seu retiro, no vigésimo dia do décimo primeiro mês, sexagésimo terceiro ano da sua vida bendita, chegou ao prazer da pre- sença divina. Uns dizem que nasceu ainda em vida do pai Abdalla, outros depois da morte deste. A Senhora Ami- na, sua mãe, filha de Wahibe, deu-lhe como ama a Senhora Haliina da Iribo de Beni-Saad. Abdo'lminutalib, seu avô, atribui-lhe o nome bendito de Maomé. Teve quatro filhos e quatro filhas. Os filhos foram Kasim, Ibrahim. Thajib e Thahir, e as filhas Fathima, Ommo Keltum, Rakia e Zeineb. Os companhei- ros deste augusto enviado de Deus fo- ram Abubeker, Omar, Osman e Ali, todos de sagrada memória.»

82

da pelos prazeres correspon- dentes aos seus gostos, que esse impostor lhe prometia num paraíso, no qual a felici- dade daqueles que tivessem cumprido a sua Lei consisti- ria, em parte, no que mais es- timula os sentidos, espalhou o seu renome por todos os la- dos, e exaltaram-no de tal modo que o dos seus anteces- sores diminuiu pouco a pou- co.

II. Assim que começou a ele- var-se e o seu nome a tornar- se célebre, Coreis, poderoso árabe, invejoso por um ho- mem vindo do nada ter a au- dácia de enganar o povo, de- clarou-se seu inimigo e atra- vessou-se-lhe no caminho. Mas, a família de Coreis ten- do perdido, Maomé passou a ser seguido por uma multidão de povos que, crendo-o divi- no, abraçaram às cegas a sua nova Lei.

Livre de um inimigo tão te- mível, só temeu o seu compa- nheiro. Com medo de que este descobrisse as suas im- posturas, pensou em precaver- se; para o fazer com seguran- ça, divertiu-o com belas pro-

messas e jurou-lhe que só queria ser poderoso para par- tilhar com ele um bem para cuja aquisição tanto contribuí- ra. Atingimos, disse-lhe, o cume da nossa ascensão. So- mos seguidos por um grande povo que conquistámos; mas é preciso consolidá-lo com o artifício que tão airosamente inventaste. Ao mesmo tempo, convenceu-o a esconder-se na fossa dos oráculos, no fundo da qual fingia habitualmente a voz de Deus. Esse pobre ho- mem, enganado pelas doces palavras deste falso, fingiu, como de costume, o oráculo; e, quando ouviu a voz de Maomé, e o rumor da multi- dão que o seguia, pôs-se a gritar como combinado: Eu, que sou o vosso Deus, clamo que instituí Maomé Profeta de todas as nações. Dele apren- dereis a minha verdadeira Lei, porque os Judeus e os Cris- tãos alteraram a que lhes dei.

De há muito que este homem fazia esse papel; mas acabou por ser pago com uma grande ingratidão. Pois Maomé, ou- vindo a voz que o proclamava homem divino, virou-se para essa gente, enfatuada pelo seu

falso mérito, e ordenou-lhe, em nome de Deus, que o re- conhecera como o seu Profe- ta, que enchesse de pedras o fosso de onde tinha saído em seu favor um testemunho tão autêntico, em memória da pe- dra que Jacob erguera outrora, numa ocasião semelhante, em sinal de que Deus lhe tinha aparecido.

Tal foi o funesto fim desse miserável que tinha contri- buído para a exaltação de Maomé; e foi sobre esse amontoado de pedras que o último dos mais célebres im- postores instituiu a sua Lei 41 .

41 Naudé relata este facto de um modo algo diferente. Diz que Maomé conven- ceu o mais fiel dos seus criados a descer ao fundo de um poço próximo de um grande caminho, para que gritasse quando passasse com a multidão que o acompanhava normalmente, Maomé é o bem-amado de Deus, Maomé é o bem- amado de Deus, e, tal tendo acontecido como combinado, agradeceu de repente a divina bondade por um testemunho tão ilustre e pediu ao povo que o seguia para encher imediatamente esse poço e sobre ele construir uma pequena mes- quita, em memória de um tal milagre. E com tal invenção, esse pobre criado foi morto e enterrado sob uma chuva de calhaus que lhe retirou o meio de vir a descobrir a falsidade do milagre. Mas a terra e as canetas boateiras tiveram ecos do acontecimento.

Esse fundamento era tão sóli- do que, depois de mais de mil anos de reinado, não se vêem sinais de abalo.

III. Assim se elevou Maomé. Mais feliz do que Jesus Cris- to, viu em vida os progressos da sua Lei. Mais feliz, mes- mo, do que Moisés, o qual, por excesso de ambição, ante- cipou os últimos dias, morreu em paz, cumulado de glória e certo de que a sua doutrina sobreviveria à sua morte, por- que a adaptara ao tempera- mento dos seus sectários, nas- cidos e educados na ignorân- cia e na sensualidade.

Eis, leitores, o que se pode dizer de mais notório sobre estes quatro célebres legisla- dores. Eles foram como os pintámos. A vós cabe decidir se são dignos de que os imi- teis, e se vós tendes desculpa para vos deixardes conduzir por guias que a ambição en- grandeceu e que a ignorância eterniza.

Para dar mais peso

ao que

dissemos sobre as religiões, os legisladores, os políticos,

84

os supersticiosos e a tola cre- dulidade do povo, ser-nos-ia fácil mostrar que os nossos pontos de vista estão perfei- tamente conformes aos dos melhores autores, tanto anti- gos como modernos, que es- creveram sobre estes temas.

Mas, como tais testemunhos ocupariam demasiado espaço, limitar-nos-emos a expor o que escreveram dois célebres Modernos 42 sobre estes arti- gos.

Ainda que ambos fossem eclesiásticos, e, por conse- guinte, terem de pactuar com a superstição, não deixará de ser manifesto que, através dos arranjos e do seu estilo católi- co, dizem coisas tão livres e tão fortes quanto as nossas.

Ides vós próprios julgar, lendo nas páginas a seguir, o que extraímos fielmente das suas obras.

42 Pierre Charron e Gabriel Naudé.

85

Os capítulos seguintes, do XII ao XVII, reproduzem palavra a palavra as obras “Três Verdadesde Charron e, “Sobre a Sabedoriae Considerações Políticas sobre os Golpes de Estadode Naudé.

CAPÍTULO XII

SOBRE AS RELIGIÕES

I. Há cinco religiões que tive- ram grande crédito e reputa- ção, como principais e mes- tras, introduzidas uma a se- guir à outra, de acordo com a ordem seguinte, e o que é mais espantoso é terem sido concebidas praticamente na mesma região:

com o

A Natural

género humano na Palestina;

começou

A Cristã, concebida por Jesus Cristo, cerca de quatro mil anos depois do nascimento do mundo, no país da Palestina;

E a Maometana, na Arábia,

seiscentos anos depois da

Cristã.

Estas cinco religiões capitais, as mais famosas do mundo, abrigam várias e diversas es-

pécies de religiões: a Gentíli-

A

Gentílica, inventada depois

ca, principalmente; como teve

do

dilúvio e pouco depois de

grande extensão, impacto e

a

horda temerária que cons-

duração, pois não só admitia

truía a Tone de Babel ter sido

diversos meios de servir e

dispersada pela confusão das línguas, posta em prática na Caldeia cerca de dois mil anos antes de Jesus Cristo, é assim mais recente do que a Natural e o Mundo;

honrar a divindade como se dividira em várias seitas com opiniões e crenças diferentes. Podem encontrar-se três for- mas principais, que São Paulo parece ter querido designar,

A Judaica, concebida no tem-

po de Abraão, por ele próprio,

cerca de cem anos depois da Gentílica, na Palestina, ou seja no mesmo lugar da Natu-

ral;

ao compará-la com a Judaica.

Nem Grega, nem Judia, nem

Bárbara, nem Cita. A dos Bárbaros, sem Lei, sem regra,

ou cerimónia certa e prescrita, adora e serve qualquer falsa divindade, de cada um segun-

do a sua fantasia.

As duas outras têm os seus sacrifícios e serviços prescri- tos e certos, mas diversa- mente. A Cita tem-nos cruéis e sangrentos. A Grega (assim

se dá este nome geral, mas o

mais célebre, a qualquer seita que não seja a Bárbara ou a Cita) tem-nos mais políticos e humanos; e também aqui di- versificados, segundo as na- ções e os seus autores. Os Gregos, nomeadamente, ins- truídos pelos seus poetas e filósofos, os Egípcios pelos seus sacerdotes, os Gauleses pelos seus druidas, os Roma- nos pelos seus Livros das Si- bilas, e as Leis de Numa, os Persas pelos seus magos, os Hindus pelos seus brâmanes e gimnosofistas.

A Cristã ultrapassa todas as

outras nesse aspecto. E muito

se teria de fazer para enume-

rar e inventariar todos os membros e respectivas dife- renças que pertencem ao Cristianismo. Primeiro, pelo que respeita à diferença entre algumas nações, quanto a certos pontos da doutrina, e principalmente quanto ao

culto e serviço de Deus: gre- ga, latina, etíope, síria, armé- nia, hindu, moscovita e ou- tras. Depois, no tocante às opiniões sobre a doutrina e a crença, tantas heresias e tan- tas seitas. Finalmente, em re- lação às cerimónias e aos meios externos, há uma gran- de variedade de ordens, pro- fissões e maneiras de viver. E todas essas grandes diferenças estiveram, e ainda estão, sob a bandeira comum do seu che- fe, e sob a designação de cristão.

II. Estas religiões discutem entre si e querem proibir e autorizar pelas mesmas ra- zões. Cada uma alega os seus milagres, os seus santos, as suas vitórias; neste âmbito, são armas comuns. Em parti- cular, cada uma arroga-se, contra as outras, de um direito ou prerrogativa. A Natural, da sua origem, antiguidade e simplicidade; a qual, supon- do-se suficiente, considera tudo o mais adição e sobre- carga, matéria para discussões e debates. A Gentílica, mais polida, vangloria-se das ciên- cias, dos belos discursos e dos regulamentos morais e políti-

cos, pelos quais, e com um estilo gracioso, é representada

a imagem da virtude: toda a

república está bem constituída

e dirigida, A Judaica, e de-

pois a Maometana, alegam a seu favor, a simplicidade de um Deus, tanto na crença

quanto na representação ex- terna, contra a Trindade cristã

e a Pluralidade gentílica. Mas

a Judaica ainda se vangloria

da antiguidade e da nobreza das suas gentes e da raça, dos

milagres e favores celestes, tanto na sua instituição e fun- damento quanto no seu pro- gresso, e da grande sequência de Profetas. A Maometana, a mais recente, sente-se inchada com a sua prosperidade e as grandes vitórias, tendo arrui- nado, em pouco tempo, a grandeza das outras, mesmo da Cristã, que prevalecia iso- lada no momento do seu sur- gimento; a tal ponto que toda

a gente a teme.

III. Por outro lado, cada uma

é vítima das críticas das ou-

tras: a Natural, que não se

trata propriamente de uma religião, sendo vaga, incerta,

e nada tendo a prescrever ou a

ordenar; a Gentílica, por cau-

sa dos sacrifícios com corpos humanos, da adoração de coi-

sas mudas, da infame multi- dão, genealogia e relações dos

seus Deuses, e do vil e ingrato esquecimento do verdadeiro Deus soberano; a Judaica, que é cruel com os Profetas, e que se trata de uma religião su- persticiosa, odiosa e desagra-

dável a todas as nações; a

Cristã, que atribuiu um filho e um companheiro a Deus, ado- ra imagens, e que a vida dos Cristãos está toda infectada pelo jogo, a sorte, os adultéri- os e as blasfémias; a Mao- metana, por causa da grossei- ra e carnal vaidade que trans- porta, o Corão estando cheio de tolices insuportáveis, e por causa do seu progresso e do seu procedimento, todo mar- cado pela espada, pelas guer- ras, pelos homicídios e pelos saques.

Entretanto, os professores

odeiam-se mutuamente, des- prezam-se e desdenham, con-

siderando os outros cegos, malditos, condenados e per- didos; isto é, perseguem-se como cães furiosos e enraive-

cidos.

CAPÍTULO XIII

SOBRE A DIVERSIDADE DAS RELIGIÕES

I. Ainda assusta mais a gran- de diversidade de religiões, que existiu e existe, do que a estranheza de algumas, tão fantasiosa e exorbitante. É maravilha o entendimento humano ter podido ser tão fortemente embrutecido e embriagado com imposturas. Pois parece nada haver no mundo, em cima ou em baixo, que não tenha sido deificado, num sítio qualquer, e que não tenha encontrado um lugar de adoração.

II. Todas concordam com certas coisas, têm quase os mesmos princípios e funda- mentos, acordam-se quanto à tese, têm progresso idêntico e andam em compasso. Tam- bém tiveram origem quase nos mesmos climas e ares. Todas encontram e oferecem milagres, prodígios, oráculos, mistérios, sagrações, profetas, festas, certos artigos de fé e crença necessários para a sal- vação. Todas começam pe- quenas, fracas, humildes,

mas, pouco a pouco, por um séquito e uma aclamação contagiosa dos povos, com as ficções a animar, firmaram-se e legitimaram-se, de tal modo que todas são consideradas com veemência e devoção, mesmo as mais absurdas. To- das defendem e ensinam que Deus se apazigua, se verga e se conquista com orações, presentes, votos, promessas,

festas, incenso. Todas acredi- tam que o principal e mais agradável serviço aos olhos de Deus, o poderoso meio de

o apaziguar e de suscitar as

suas boas graças, seja penar,

inventar, impor e assumir uma tarefa difícil e dolorosa.

Como testemunho, em todo o lado, em todas as religiões, tantas ordens, companhias e

confrarias destinadas a certos

e diversos exercícios, assaz

penosos e de profissão exclu- siva, rasgam e esquartejam o

seu corpo, e pensam que as- sim merecem muito mais do que o comum dos outros, que

não se metem nessas aflições

e tormentos como eles. Todos

os dias surgem novas, e nunca

a natureza humana deixará, e

acabará, de inventar meios para se castigar e atormentar.

O que decorre da opinião de

que Deus tem prazer e satis- fação com o tormento e a desgraça das suas criaturas, o que justifica os sacrifícios, que foram universais antes do nascimento da cristandade, exercidos não só sobre ani-

mais inocentes, que eram massacrados com efusão do seu sangue, como um pre- sente precioso para a divinda- de, mas (coisa estranha da embriaguez humana) sobre as crianças, pequeninas, inocen- tes, e os homens feitos, tanto

criminosos quanto homens de bem, costume praticado com grande religiosidade por todas as nações; gestos que, entre outras cerimónias e sacrifí- cios, despacham para o seu deus Zalmonix, de cinco em cinco anos, um homem de entre os seus, para lhe pedir

as coisas de que precisam.

E, para que morra imediata- mente, expõem-no a uma morte reprovável, lançando-o

sobre as pontas de três dardos

verticais. Atiram vários em

fila, até que um deles se es-

pete mortalmente e expire su- bitamente, sendo esse consi- derado eleito e sem mácula e

os outros não. Persas, como prova Amestris, mãe de Xer- xes, que de uma só vez enter- rou vivos catorze jovens das melhores casas, segundo a religião do país. Antigos Gauleses, Cartagineses, que imolavam a Saturno as suas crianças, na frente dos pais e das mães; Lacedemónios, que mimavam a sua Diana, chi- coteando rapazes, muitas ve- zes até à morte. Gregos, como testemunha o Sacrifício de Ifigénia, Romanos, como testemunham os dois Décios. Quae fuit tanta iniquitas Deo- run, ut placari à Pop. Rom. non possent, nisi tales viri occidissent. Maometanos, que cortam o rosto, o estômago, os membros, para gratificar o Profeta. As Novas índias, Orientais e Ocidentais, e a Temistitano, alimentam os seus ídolos com o sangue de crianças.

Que alienação do senso, jul- gar que se lisonjeia a divinda-

de com a desumanidade, que se paga a bondade divina com a nossa aflição e se satisfaz a sua justiça com a crueldade. Justiça, portanto, esfomeada de sangue humano, sangue inocente, vertido e espalhado com tanta dor e tanto tor- mento, ut sic Dii placentur, quemadmodum ne homines quidem saeviunt 43

De onde poderá vir tal opini- ão e crença de que Deus tem prazer com o tormento e a desfeita das suas obras e da natureza humana? De acordo com essa opinião, de que na- tureza terá Deus de ser?

III. As religiões também têm

as suas diferenças, os seus artigos próprios, e à parte, pelos quais se distinguem umas das outras, e cada uma é escolhida, e se rotula como a melhor e a mais verdadeira, e se reprovam umas às outras, e, assim, se condenam e re- jeitam.

IV. Mas, como nascem uma

após a outra, a mais recente, sempre construída sobre a sua antecessora, não a melhora,

43 Séneca

nem a condena, de uma ponta a outra, senão não lhe dariam ouvidos e não teria crédito, mas limita-se a acusá-la, ou de imperfeição, ou de ter che- gado ao seu termo, e que, as- sim sendo, vem sucedê-la e aperfeiçoá-la, e, desse modo, vai minando-a, pouco a pou- co, enriquecendo-se com os despojos, como a Judaica fez, com a Gentílica e a Egípcia, a Cristã, com a Judaica, a Ma- ometana, com a Judaica e a Cristã ao mesmo tempo.

Em contrapartida, as antigas condenam completamente as mais jovens, e tomam-nas por

inimigas capitais.

V. Todas as religiões são es-

tranhas e horríveis para o sen- so comum, pois propõem e estão construídas com peças que, umas afiguram-se ao juí- zo humano baixas e indignas,

que

mais forte ridicularizaria; ou- tras, excessivas, estrondosas, milagrosas e misteriosas, so- bre as quais o homem nada pode saber.

Ora, o espírito humano só é capaz de coisas medíocres, despreza e desdenha as pe-

um

espírito

um

pouco

92

quenas, espanta-se e estreme-

ce com as grandes; o que tor-

na improvável que não se afaste, desgoste e despeite de

qualquer religião na qual nada haja de medíocre e vulgar.

Pois, se for forte, desdenhá- la-á e tomá-la-á como tema de risota; se for fraco e supersti- cioso, espantar-se-á e escan- dalizar-se-á. Praedicamus Je- sum Crucifixum, Judaeis scandalum, gentibus stultiti- am.

O que explica a existência de

tantos descrentes e irreligio- sos, os quais consultam e es- cutam excessivamente o seu próprio juízo, querendo exa- minar e julgar os assuntos da religião, segundo o seu alcan- ce e capacidade, e tratá-la

com os seus utensílios própri-

os e naturais.

É preciso ser-se simples, obe-

diente e complacente para se estar apto a aceitar a religião,

a acreditar e submeter-se às

suas leis, por reverência e obediência, sujeitar o seu en- tendimento e deixar-se levar e guiar pela autoridade pública, captivantes intellectum in ob- sequiam fidei.

VI. Mas, fora necessário pro- ceder assim, de outro modo a religião não teria o respeito, nem sequer a admiração, que lhe é devida. Ora, é preciso que ela seja dificilmente, au- tenticamente e reverente- mente, aceite e jurada. Se fos- se conforme ao gosto huma- no, e natural, sem estranheza, seria mais facilmente, mas com menos reverência, aceite.

VII. Ora, sendo as religiões e as crenças estranhas ao senso

comum, ultrapassando, em muito, o alcance e a inteligên- cia humanos, não devem, nem podem, ser aceites, nem per- manecer em nós por meios naturais e humanos (senão tantas almas grandes, de hoje e de outrora, teriam lá chega- do), mas é preciso que sejam trazidas e instaladas por re- velação extraordinária e ce- leste, tomadas e recebidas por inspiração divina, e como vindas do céu. Assim proce-

dem todos aqueles que as se- guem e nelas acreditam e usam deste jargão que não provém dos homens, nem de nenhuma criatura, mas de Deus.

VIII. Para falar verdade, sem nada dourar ou mascarar, não

é nada disso; elas são, diga-se

o que se disser, dirigidas por

mãos e meios humanos. Tes- temunha-o a maneira como as religiões foram recebidas no mundo, e ainda são recebidas, todos os dias, pelos particula- res. A nação, o país, o lugar decidem a religião; segue-se aquela do lugar onde se nas- ceu e cresceu; somos circun- cidados, baptizados. Somos judeus, Muçulmanos, Cris- tãos, antes de sabermos que somos homens. A religião não é da nossa escolha ou eleição. Provam-no a vida e os costumes tão mal acorda- dos com a religião, as oportu- nidades tão humanas e tão ligeiras que vão contra o teor da religião de cada um. Se estivesse sustida e plantada com uma estaca divina, nada de mundano nos faria oscilar; essa estaca não se partiria com tanta facilidade; se hou- vesse toque e raio da divinda- de, apareceria por todo o lado

e teria efeitos palpáveis e mi- lagrosos.

Se tivésseis uma só gota de fé, removeríeis montanhas.

Mas que proporção e conve- niência há entre a convicção

da imortalidade da alma e de

uma recompensa futura tão

gloriosa e feliz, ou tão infeliz

e angustiante, e a vida que

levamos? A simples apreen- são das coisas de que se diz acreditar tão firmemente faria perder o tino.

a ideia e o temor de morrer

às

mãos da justiça, em públi-

co, ou por via de outro aci- dente vergonhoso e deplorá- vel, fez perder o tino a mui-

tos, e levou-os a posições as- saz estranhas. É este o preço

da religião que ensina o futu-

ro? Será possível acreditar na

verdade, esperar essa imorta- lidade bem-aventurada, e te- mer a morte, passagem neces- sária para aquela? Temer e

antecipar esse castigo infernal

e viver

fazemos?

como

o

Trata-se de historietas, coisas mais incompatíveis do que o fogo e a água. Eles afirmam que nelas crêem; fazem crer que crêem, e querem conven- cer os outros, mas é tudo fal-

so, e eles não sabem o que é acreditar. São trocistas e pro- vocadores, dizia um antigo.

CAPÍTULO XIV

DAS DIVISÕES ENTRE CRISTÃOS

I. O que sempre achámos es- tranho e pestilento na religião cristã, que mais nos surpreen- deu e ofendeu, foram as gran- des divisões que sempre hou- ve, e há, no seu seio. Pois, não só os estrangeiros e os descrentes, seus inimigos, fi- zeram questão de não a segui- rem e de por ela não alinha- rem, mas os seus serviçais escandalizaram-se, e alguns aproveitaram-se para os seus maus desígnios.

Ficamos a saber, pelo Livro dos Actos dos Apóstolos, e por várias passagens de São Paulo que, desde o começo da cristandade e já no tempo dos Apóstolos, que foram a Igreja primitiva, havia uma forte diferença, cismas e divisões, não só de organização mas também de doutrina. Pouco depois São Clemente de Ale- xandria, mestre de Orígenes, escrevia que os Judeus e os Gentios criticavam aos Cris- tãos que estes se atribuíssem a verdade e o conhecimento da

salvação. Todos se entreacu- savam e se condenavam por erros e heresias. Pelo que só

deveriam acreditar e procurar

a verdade neles próprios, sen-

do tão discordantes.

Depois, o imperador Juliano,

o Apóstata, verificando as

dissensões entre Cristãos (afirma o seu historiador Marcelino), procurava fo-

mentá-las para os enfraque- cer, de modo a que não pu- dessem revoltar-se contra ele

e vencê-lo.

A seguir, o imperador Valen-

te, cristão, mais tarde conver-

tido ao arianismo, alegava (diz a História Eclesiástica), como desculpa da sua aposta-

sia, as grandes diferenças, cismas e debates existentes entre os Cristãos. Depois

destes, St. Agostinho afirma-

va

que, na sua época, a Igreja

de

Jesus Cristo tinha chegado

a uma tal altura, em matéria

de autoridade, que todos os seus inimigos e maledicentes tinham sido confundidos e

calados, e que nada mais lhes restava dizer contra os Cris- tãos senão que estes não esta- vam de acordo e que os Gen- tios que ainda existiam nada tinham a objectar senão as suas dissensões.

Não deixa de ser estranho que

a religião cristã, única verda- deira no mundo, a verdade revelada por Deus, não esteja unida na fé, só existindo um Deus e uma verdade, mas es- teja, ao invés, dilacerada em tantas partes e dividida em tantas opiniões e seitas con- trárias, de tal modo que não houve artigo de fé, ou ponto doutrinal, que não tenha sido debatido e usado em vários sentidos, tendo havido tanta

heresia e tanta seita contrária.

E o que aumenta a estranheza

é que, nas outras religiões fal-

sas e bastardas, Gentílica, Pagã, Judaica, Maometana, tais divisões e parcialidade não se dão. E, caso haja divi- sões, são em pequeno núme-

ro, ligeiras e de pouca impor- tância, como na Judaica e na Maometana, ou, tendo sido numerosas como na Gentílica, entre os filósofos, pelo menos não provocaram efeitos e

abalos tão fortes e estrondo- sos no mundo. Tudo isso nada é, ao pé das grandes divisões perniciosas que, no início e sempre, marcaram a cristan- dade.

II. Pois, se atentarmos nos efeitos produzidos pelas divi-

sões da cristandade, é coisa assustadora. Primeiro, relati- vamente à administração e ao Estado, deram-se frequente- mente alterações e subversões das repúblicas, dos reinos e das raças, divisões de impéri- os, até uma mudança univer- sal do mundo, com investidas cruéis, furiosas e mais do que sangrentas, para escândalo, vergonha e reprovação da cristandade. Sob a capa do zelo e da dedicação à religião,

cada parte odeia mortalmente

as outras, e parece-lhe possí- vel praticar todos os actos de hostilidade, coisa que não se vê nas outras religiões.

Só aos Cristãos é permitido serem homicidas, pérfidos, traidores e atacarem-se entre si por todas as formas de de- sumanidade, contra os vivos, os mortos, a honra, a vida, a memória, os espíritos, as se-

pulturas e as cinzas, pelo fogo, ferro, libelos assaz pi- cantes, maldições, banimen- tos do céu e da terra, dester- ros, espoliação de ossos e de monumentos, desde que seja para a segurança ou o incre- mento do seu partido e o re- trocesso do outro; e tudo isto sem compostura, com uma tal

atropeladas

quaisquer

parentesco, aliança, amizade, mérito, obrigação.

Aquele, que ontem houvera sido elevado aos píncaros com louvores, descrito como grande, sábio, virtuoso, sen- sato, passando, hoje, para ou- tro partido, é desacreditado, proclamado ignorante, mal- vado, infeliz.

Aqui se vê onde está o zelo e o ardor da religião, fora disto, e mesmo que se observem todos os preceitos, só há frie- za. Os que se dedicam com moderação e contenção são suspeitos de tibieza e falta de zelo. É uma falta abominável mostrar uma cara simpática e tratar amavelmente os do par- tido contrário.

De tudo isto, uns ficam es-

de

raiva

que

são

considerações

candalizados, como se a reli- gião cristã ensinasse a odiar e

a perseguir, e nos servisse de

intermediário para negociar e fazer valer as nossas paixões de ambição, avareza, vingan- ça, ódio, despeito, crueldade, rebeldia, sedição. As quais, aliás, não são facilmente con- troláveis, tendo sido desper- tadas pela religião.

Muitos consideram que não se deve atribuir esta situação

à

religião, mas aos religiosos;

e

estes dizem que, de acordo

com a regra da caridade, e o discurso da razão às faltas do entendimento e do juízo, que se chamam erros, e opiniões falsas, que não se deve ser dominado pelo ódio e o rigor, mas pela piedade e compai- xão; e tratar essas pessoas er- róneas e descrentes como se trata os coxos, os surdos, os cegos, os frenéticos, que não se odeia, mas se lastima; tem- se piedade e presta-se-lhes socorro. Basta comportar-se assim com eles, tanto mais que não se aprovam as suas opiniões. Não se deve nem evitá-los, nem cumprimentá- los, o que seria uma expres- são de ódio, de incivilidade e

de inimizade, e ainda menos manifestar qualquer forma de hostilidade contra a pessoa, mas expressar uma desapro- vação, um desacordo aberto

de opiniões e de crenças.

A outros parece-lhes que há

boas razões para se proceder assim, a saber, que os cristãos aderem e abraçam a sua reli- gião como uma verdade dada pela mão de Deus, da qual são ciosos e extremamente cuida- dosos; assim, quem quer que seja que faça alguma coisa contra ela para a perturbar, ofender, injuriar, detestam-no

e lançam-se a ele como a um

inimigo, confesso e capital,

de Deus, da sua salvação, e de

tudo o mais. A seu ver, neste

aspecto, não podem, nem de- vem, comportar-se com frieza

e moderação, sem trair a cau-

sa de Deus e a sua própria.

E, se o mesmo não se passa nas outras religiões, é porque os outros não dão a mesma importância às suas religiões, nem fazem delas um tal caso,

por saberem que a religião é coisa humana, recebida da mão de homens.

Não dizendo respeito à admi- nistração e ao Estado, mas à alma e à consciência, resul- tam outros efeitos ainda pio- res, que são problemas de consciência, interesse cego pela religião, desordens dos costumes e da disciplina, a tal ponto que, por fim, vários, fartos e maçados de tantas divisões e contrastes, não sa- bendo o que escolher e defen- der, abandonam tudo, man- têm-se neutros e acabam por

desprezar e abandonar a reli- gião.

Pois, estamos fartos de saber que a apostasia, o ateísmo, a irreligião são os produtos e os pequenos bastardos das here-

sias. Aliás, sabemos que as divisões, que se deram na cristandade de Oriente, servi- ram de pretexto e, muitas ve- zes, abriram as portas a Maomé e ao seu Corão.

CAPÍTULO XV

SOBRE OS SUPERSTICIOSOS, SOBRE A SUPERSTIÇÃO E A CREDULIDADE DO POVO

I. O supersticioso não deixa em paz, nem Deus, nem os homens; concebe Deus, lúgu- bre, despeitado, difícil de contentar, enfadonho, a irri- tar-se, demorado a apaziguar- se, examinando as nossas ac- ções, à maneira humana de um juiz assaz severo, espian- do e apanhando-nos em falso; o que comprova pelas formas como o serve.

Treme de medo, não se pode fiar ou assegurar, temendo nada ter feito de bem e ter omitido alguma coisa, por cuja omissão tudo o mais de nada valerá; duvida de que

Deus esteja satisfeito, procu- ra, por todos os meios, bajulá- lo para o apaziguar, tê-lo do

seu

com

lado,

importuna-o

orações, votos, oferendas, in- venta milagres, com facilida- de acredita e aceita os supos- tos milagres de outros, enten- de e interpreta todas as coisas naturais como feitas de pro- pósito e enviadas por Deus,

cai em tudo o que se diz, como um homem assaz solí- cito, duo Superstitiosis pro- pria, nimius timor, nimius cultus 44 .

Mas o que é isto, senão, com afinco, vileza e sordidez, jo- gar com Deus, de modo mais mecânico do que se faria com um homem honrado? Geral- mente, toda a superstição e a falta em matéria de religião resulta de não se ter suficiente estima a Deus: puxamo-lo e rebaixamo-lo a nós, julgamo- lo segundo nós próprios, car- regamo-lo com os nossos humores. Que blasfémia!

II. Ora, este vício, e doença, é quase natural e temos uma forte inclinação para ele. Plutarco deplora a enfermida- de humana que nunca sabe manter-se meã e firmar-se em bases próprias.

44 Duas coisas são inerentes ao su- persticioso: demasiado temor e ex- cessiva adoração.

99

III. Ela também é popular, vem da fraqueza da alma, da ignorância ou do desconhe- cimento, assaz grosseiro, de Deus; por isso se encontra mais frequentemente nas cri- anças, nas mulheres (pro de- voto foemineo sexu), idosos, doentes, vítimas de qualquer acidente violento. Em suma, nos bárbaros. Inclinant natura ad superstitionem Barbari. 45

IV. Para além destas semen-

tes e inclinações naturais para

a superstição, vários esten-

dem-lhe a mão e incremen- tam-na, pelo ganho e proveito que daí retiram.

Os grandes e os poderosos, apesar de saberem o que se

passa, também não a querem perturbar, nem impedir, cons- cientes de que é um instru- mento muito adequado para conduzir o povo; de onde ad- vém que, não só fomentam e acalentam aquela que já está

na natureza, mas, quando pre-

cisam, forjam e inventam no- vas, como Cipião, Sertório e outros qui faciunt animos humiles formidine Divum, de- pressosque primunt ad ter-

45 Plutarco em Sertório.

ram. Nulla res multitudinem efficacius regit, quam Su- perstitio 46 .

V. O povo (entendo por este termo o vulgo reunido, a tur- ba e a escória populares, gente, seja sob que capa for, de baixa, servil e mecânica condição) é um animal com várias cabeças, vagabundo, errante, leviano, sem com- portamento, sem espírito nem juízo.

Se Postel o persuadir de que

Jesus Cristo só salvou ho- mens e a madre Joana deve salvar as mulheres, crê-lo-á, sem pestanejar. Se David Jor- ge se afirmar filho de Deus, adorá-lo-á. Se um alfaiate entusiasmado e fanático se disfarçar de rei, em Munster, e afirmar que Deus o destinou para castigar todas as potên- cias da terra, obedecer-lhe-á e respeitá-lo-á como o maior monarca do mundo. Se o Pa- dre Domptius lhe anunciar o advento do Anti-Cristo, que terá a idade de dez anos, e cornos, testemunhá-lo-á sem receio. Se impostores e char- latães se intitularem Irmãos

46 Curtio

100

da Rosa-Cruz, segui-los-á a correr. Se lhe contarem que Paris deverá em breve ruir, fugirá. Que toda a gente deve- rá ser submergida, construirá arcas e barcos o mais depres- sa possível, para não ser apa- nhado desprevenido. Que o mar deverá secar e que carro- ças poderão ir de Génova a Jerusalém, preparar-se-á para a viagem.

Se lhe contarem as fábulas de Melusina, do Sabat dos Bru- xos, dos Lobisomens, dos Duendes, das Fadas, dos Pa- redros, admirar-se-á. Se a matriz atormentar uma jovem, dirá que está possuída, ou dará crédito a um padre igno- rante, ou mau, que o afirme. Se um qualquer alquimista, mágico, astrólogo, lullista 47 , cabalista, começar, pouco a pouco, a lisonjeá-lo, tomá-lo- á pela pessoa mais sábia e honesta do mundo. Se um Pe- dro Eremita vier pregar a cru- zada, fará relíquias com os pêlos da sua mula.

Se, por brincadeira, lhe disse-

47 Jean-Baptiste Lulli. O termo aqui está empregado com a acepção de “sodomita”.

rem que uma pata ou um pás- saro estão inspirados pelo Es- pírito Santo levá-lo-á a sério. Se a peste ou a tempestade devastarem uma província, de imediato acusará os batoteiros ou os mágicos. Em suma, mesmo que o enganem hoje, continuará a deixar-se apa- nhar amanhã, nunca tirando proveito das experiências pas- sadas para se orientar nas pre- sentes ou futuras; e nestas coisas consistem os principais signos da sua grande fraqueza e imbecilidade.

VI. Quanto à sua inconstân- cia, temos um belo exemplo nos Actos dos Apóstolos, onde se relata que os habi- tantes de Listria e de Derben mal tinham avistado São Paulo e São Barnabé, que le- vaverunt vocem suam Lycao- nicè dicentes: Dii símiles facti hominibus descenderunt ad nos; et vocabant Barnabam Jovem, Paulum quoque Mer- curium; 48 e contudo, sem transição, depois eis que lapi-

48 Elevaram as vozes e disseram em língua licoaniana; os Deuses desceram até nós sob a forma de homens; e cha- mavam a Barnabé, Júpiter, e a Paulo, Mercúrio.

101

dant Paulum, traxerunt eum extra Civitatem, existimantes mortuum esse. 49

Os Romanos adoram Sejano de manhã, e, à tarde

Ducitur unco Spectandus (Juvenal, Sátiras, 10) 50 .

Os Parisienses fizeram o mesmo com o Marquês de Ancre; depois de terem rasga- do a veste do padre em Jesus Maria, para conservarem os bocados como relíquias, ri- ram-se delas dois dias passa- dos. Se o povo entra em cóle- ra será como o jovem de Ho- rácio,

Iram colligit et ponit temere, et mutatur in horas, (ad Pison) 51 .

Se se lhe depara alguma auto- ridade, quando está na sua mais efervescente rebelião e sedição, fugirá, deixando tudo para trás; se encontrar um in- digente temerário, que lhe reacenda a confiança e deite

49 Tendo lapidado Paulo arrastaram-no para fora da cidade julgando que estava morto.

50 Foi arrastado com um gancho para gáudio do povo.

51 Enfurece-se e acalma-se facilmente e está sempre a mudar.

lenha para a fogueira, como se diz vulgarmente, voltará mais furioso do que antes; em suma, podemos atribuir-lhe o que Séneca (de Vita Beata. Cap. 28.) dizia de todos os homens, fluctuat, aliud ex alio comprehendit, petita re- linquit, relicta repetit, alter- nae inter cupiditatem suam, et paenitentiam vices sunt 52 .

52 Está sempre com dúvidas, inventa novas intenções, abandona o que pedira

e volta a pedir o que acabara de aban- donar: o desejo e o arrependimento

dominam-no à vez e possuem o con- trolo da sua alma.

102

CAPÍTULO XVI

SOBRE A ORIGEM DAS MONARQUIAS

I. Se considerarmos os pri- meiros passos de todas as monarquias, veremos que to- das começaram com umas

tantas invenções e embustes, pondo a religião e os milagres à cabeça de uma longa série

de barbaridades e crueldades.

Tito Lívio foi o primeiro a notá-lo: Datur haec venia an- tiquitati, ut miscendo humana divinis, primordia Urbium augustiora faciat 53 .

O que demonstraremos, na

sequência, como verdadeiro, mas que, para já, tem de se manter genérico; começare- mos a nossa prova pela defi- nição das quatro primeiras e maiores monarquias.

A

fama da rainha Semirami-

de,

que fundou o império dos

Assírios, foi bem montada, para persuadir o povo de que, tendo sido exposta na infân- cia, os pássaros tiveram o

53 Aceita-se que a Antiguidade, mistu- rando coisas humanas e divinas, torne mais augustas as fundações das cidades.

cuidado de a alimentar, le- vando-lhe uma bicada como fazem com os seus filhotes, e querendo ainda confirmar essa fábula com as últimas acções da sua vida, ordenou que se espalhasse que, depois de morta, fora transformada em pomba e voara, com um grande bando de aves que a tinha vindo buscar ao quarto.

Ainda tomou a decisão de fingir e de mudar de sexo, e,

de mulher que era, tornar-se homem, assumindo o papel do filho Nino e imitando-o em todas as acções. E, para obter maior sucesso nesse empreendimento, teve a ideia de introduzir um novo tipo de roupa no seu povo, que era mais adequado para cobrir e esconder o que mais facil- mente podia fazer reconhecer uma mulher. Brachiaenim ac crura velamentis, caput tiara tegit, et ne novo habitu ali- quid occultare videretur, eo- dem ornatu populum vestiri jubet, quem morem vestis

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exinde gens universa tenet 54 , e por este meio primis initiis Sexum mentita, puer credita est. (Justiniano. Initio.) 55 .

Ciro, que instituiu a monar- quia dos Persas, quis também tirar partido da vinha que o seu avô Astíages tinha visto nascer ex naturalibus filiae, cujus palmite omnis Ásia obumbrabatur 56 , e do sonho que ele próprio teve quando tomou as armas e escolheu um escravo como companhei- ro das suas investidas; mas, ainda fazia melhor uso da história de que uma cadela o tinha alimentado e aleitado na floresta, onde fora abandona- do por Harpagão, até que um pastor, tendo-o encontrado por acaso, o levou à mulher e o tratou carinhosamente em casa.

Para Alexandre e Rómulo,

54 Pois cobriu os braços e as pernas com um vestido e a cabeça com um turbante; A fim de não dar a entender que escon- dia qualquer coisa por baixo destas novas vestes, ordenou que o seu povo usasse vestes idênticas, moda que per- manece até hoje. 55 No início, tendo-se travestido, foi confundida com um rapaz.

56 Da sua filha, cuja sombra dos ser- mões cobria toda a Ásia.

como os seus objectivos eram mais elevados, foi necessário ensaiar mais e pôr em prática estratagemas muito mais po- derosos. Eis a razão pela qual começaram como os outros pela fábula sobre a origem; levaram-na, todavia, ao ex- tremo, o que deu a Sidónio a oportunidade de dizer:

Magnus Alexander, nec non Romanas habentur Concepti serpente Deo 57 .

Pois Alexandre fizera crer que Júpiter tinha o costume de visitar e satisfazer-se com a sua mãe Olímpia, na forma de uma serpente. E, quando veio ao mundo, a deusa Diana acompanhou com tal afinco o parto que se esqueceu de so- correr o templo que tinha em Éfeso, o qual, nesse intervalo, foi completamente consumido por um incêndio acidental.

Que mais? A fim de melhor

firmar a opinião sobre a sua divindade na crença dos seus súbditos, dispôs os sacerdotes de Júpiter Amon no Egipto, ut ingredientem Teinplum statim

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