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UNIRIO

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro


Centro de Ciências Humanas
Escola de História

OS HERDEIROS DA DECLARAÇÃO DE MARÇO DE 1958:


A CORRENTE RENOVADORA E A HISTÓRIA DA DEMOCRACIA
POLÍTICA NO PCB

Vivian Graça Barcellos Barreira

Rio de Janeiro
2006
Vivian Graça Barcellos Barreira
3

OS HERDEIROS DA DECLARAÇÃO DE MARÇO DE 1958:


A CORRENTE RENOVADORA E A HISTÓRIA DA DEMOCRACIA
POLÍTICA NO PCB

Monografia de final de curso


apresentada como requisito
obrigatório para obtenção do
título de bacharel/ licenciado em
História pela Universidade
Federal do Estado do Rio de
Janeiro – UNIRIO.

Orientador: Prof. Dr. Ricardo Henrique Salles

Rio de Janeiro
2006
Vivian Graça Barcellos Barreira
4

OS HERDEIROS DA DECLARAÇÃO DE MARÇO DE 1958:


A CORRENTE RENOVADORA E A HISTÓRIA DA DEMOCRACIA
POLÍTICA NO PCB

Monografia de final de curso


apresentada como requisito
obrigatório para obtenção do
título de bacharel/ licenciado em
Aprovada em _________/__________/__________
História pela Universidade
Federal do Estado do Rio de
Janeiro – UNIRIO.

Avaliada por:

Prof. Dr. Francisco Carlos Palomanes Martinho

Prof. Dr. Hiran Roedel

Prof. Dr. Ricardo Henrique Salles (Orientador)


5

Agradecimentos

Agradeço muitíssimo a orientação, compreensão e paciência do meu Professor Ricardo


Salles.
Agradeço a ajuda de todos que colaboraram de alguma forma para a confecção dessa
monografia. Na família, especialmente, à minha mãe, ao meu pai, à minha tia Miriam, ao meu
primo Teli e ao meu tio Sinval. Não é exagero dizer que sem eles na minha vida, não estaria
concluindo o curso. Preciso, de verdade, expressar o quanto serei eternamente grata a essas
pessoas incríveis.
Agradeço aos amigos que fiz, especialmente, Maria Fernanda, que, além de amiga
fraterna, apresentou-me pessoas, emprestou-me livros, ouviu minhas idéias e opinou.
Como na maioria dos agradecimentos, o que vêm por último não é o menos
importante, eu gostaria de dizer que dou Graças a Deus.
6

Dedicatória

À memória do meu avô Sinval Barreira.


7

Epígrafe

“Que fazer nestas circunstâncias? Favorecer as revoluções, lançar tudo


abaixo, recorrer à força contra a força?... Não, estamos muito longe disso.
Toda a reforma imposta pela violência é merecedora de censura, pois nunca
reparará o mal enquanto os homens continuarem a ser o que são, e porque a
sensatez nada tem que ver com a violência”. (Tolstoi - Guerra e Paz)
8

Sumário

1. Introdução..............................................................................................................................9

2. Procedimento teórico-metodológico...................................................................................14

3. Breve histórico do PCB.......................................................................................................18

4. O Grupo................................................................................................................................24
4.1 - A influência de Lukács e Gramsci.....................................................................................26
4.2 - A formação econômico-social brasileira...........................................................................34
4.3 - Democracia como estratégia..............................................................................................42
4.4 - Herdeiros de 1958..............................................................................................................48

5. A Democracia e os comunistas............................................................................................55
5.1 - Os “renovadores” e o “socialismo realmente existente”...................................................60
5.2 - Modernidade, Capitalismo e Democracia.........................................................................65
5.3 - Que democracia é essa?.....................................................................................................69

6. O Desfecho............................................................................................................................74

7. Considerações finais.............................................................................................................77

8. Bibliografia...........................................................................................................................80

9. Anexo I..................................................................................................................................84
9

1. Introdução

O Golpe Civil - Militar1, proferido em 1º de abril de 1964, tirou do país a democracia


obtida, em 1945, com o fim da ditadura Vargas. Antes de 1964, porém, alguns acontecimentos
no cenário político pareciam preludiar a queda do Estado democrático de direito. Depois da
renúncia de Jânio Quadros, em 1961, o vice-presidente João Goulart que estava em viagem à
China regressou para assumir o cargo de presidente do país. Mas então, os ministros militares
recusaram-se a empossar João Goulart. Quando, enfim, consentiram que João Goulart tornasse
o chefe do Executivo, adotaram o parlamentarismo para dar menores poderes ao presidente.
Logo a seguir, mas após o retorno do presidencialismo, veio a tentativa de o presidente já
empossado governar sob estado de sítio. As articulações pré-golpistas pró-golpe, entre
militares e civis, só mesmo se interromperiam no 1º de abril. A partir de então, os
articuladores da “revolução” de 1964 trabalhariam em cima de sua manutenção e sustentação
na sociedade brasileira. Naquele momento, segundo os setores da sociedade civil e os militares
envolvidos na deposição de Goulart, a “revolução” teria ocorrido para salvar a nação do
“perigo comunista”.
O “perigo comunista” queria dizer a “revolução” da esquerda comunista, ou seja, a
Revolução Socialista, a implementação do socialismo no Brasil. Às vésperas de 1964, a
esquerda brasileira de tradição marxista resumia-se ao Partido Comunista Brasileiro e a outros
grupos formados de seu interior. Para nenhum deles, o socialismo foi desconsiderado, pelo
menos em abstração, como um melhor momento no porvir da história da humanidade. Se o
que deu a todos esses grupos o nome de esquerda comunista era o objetivo em comum do
socialismo como fim, o que gerou tantas dissidências era a disputa em torno do que se fazer
até e para chegar lá. No pós-64, esses grupos passaram a se diferenciar também na sua tática
para derrubar a ditadura militar. Alguns grupos cogitaram a possibilidade da “luta armada” no
pré-68 (e mesmo no pré-64) para fazer a “revolução socialista”. Esse, entretanto, não foi o

1
“Durante muito tempo falou-se em golpe militar para se referir à deposição do governo institucional
de João Goulart. Desde a publicação da tese de René Dreifuss, no início da década de 1980, os
historiadores e cientistas políticos têm-se referido ao golpe como civil-militar, destacando a
participação decisiva de setores civis na queda de Goulart e na violação da Constituição democrática de
1946”. Cf. Rollemberg, “A ditadura civil-militar em tempo de radicalização e barbárie” in Francisco
Palomanes Martinho, Democracia e Ditadura, EdUERJ, Rio de Janeiro, 2006.
10

caso do PCB. Não documentalmente, desde março de 1958. Já a partir desse momento, o
Partido passou a defender a “via pacífica” da revolução brasileira e depois do Golpe, a união
das “forças democráticas” para pôr fim à Ditadura Militar.
Se a implementação do Golpe-Civil Militar interrompeu a democracia no país na
metade dos anos 60 já bem antes disso que o PCB não participava legalmente do jogo
democrático. O Partido Comunista Brasileiro teve seu registro eleitoral cassado pela última
vez em 1947, permanecendo clandestino até 1985. Desde a sua fundação, em 1922, o Partido
permaneceu durante muito tempo na ilegalidade. No pré-64, o PCB utilizou-se de outras
legendas, como a do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), para inserir-se no cenário de
atuação política e conseguiu bastante êxito para cargos no Legislativo. Com essa aliança, os
comunistas detinham o controle de grande número de sindicatos, federações e confederações
de trabalhadores urbanos e rurais. PTB e PCB detinham o controle da Confederação Nacional
2
dos Trabalhadores da Indústria (CNTI). Nesse momento que antecedeu ao golpe, o Partido
tentava recuperar as suas forças nos meios sindicais e de uma maneira mais geral, esforçava-se
por abandonar a linha “sectarista” traçada desde o Manifesto de Agosto de 1950.3
A Declaração de Março de 1958 foi o primeiro documento que o Comitê Central do
Partido Comunista Brasileiro, claramente, colocou-se contrário ao enfrentamento armado para
transitar ao socialismo. O pioneirismo “democrático” da Declaração advém do IV Congresso
(1954) ter deixado duvidosa parte da historiografia. Além disso, dentro do Partido, o apelo, a
posteriori, de uma identidade democrática do PCB tornou símbolo o documento. Isso se deu
ao fato de que, em 1958, já haviam ocorrido dois acontecimentos que dariam à Declaração de
Março o status que tem hoje – o de berço da renovação democrática pecebista. Foram esses os
acontecimentos: a especulação golpista antecedente e subsequente ao suicídio de Vargas –
agosto de 1954 – e a denúncia dos crimes de Stálin no relatório de Kruschev no XX Congresso

2
Marco Aurélio Santana, Homens Partidos, São Paulo: Boitempo, 2001.
3
À época, o Partido identificou sua perda de influência na sociedade brasileira em função do
“sectarismo” iniciado com a publicação do Manifesto de Agosto em 1950. O “sectarismo” resultou no
afastamento dos sindicatos e de outros movimentos de massa, nos quais o Partido engajara-se,
sobretudo, a partir de 1945. Também para a historiografia recente, é aceita a idéia de que o Manifesto
de Agosto é o documento expoente de um momento de fraca inserção na sociedade favorecido pelo
viés pouco conciliador no período.
11

do PCUS (1956). Logo a seguir, viriam o V (1960) e o VI (1967) Congresso, onde seriam
reiteradas as resoluções desta Declaração. Vale ressaltar que não houve completa adesão a
essas novas disposições de tática democrática para a implantação do socialismo.
Prova disso é que, em 1962, membros que vinham acusando o Comitê Central de se
posicionar extremamente à direita deixaram o Partido e fundaram o Partido Comunista do
4
Brasil (PC do B). A partir do golpe de 1964, a situação piorou porque o Comitê Central
passou a ser acusado por militantes que se posicionavam à “esquerda” das propostas da
direção, de ter favorecido ao êxito do golpe civil-militar, na medida em que preferiu não optar
ao enfrentamento armado como forma de derrotar a ditadura. Então, mais dissidentes
migraram para alguma organização que defendia a luta armada e o Partido perde importantes
quadros. 5
Com um posicionamento que pretendia a formação de alianças, o PCB não apostava
no enfrentamento armado para derrotar a Ditadura Militar. O Partido defendia que a derrubada
do regime deveria se dar através de soluções politicamente negociadas. Enquanto as demais
organizações comunistas surgidas do seu interior pregavam o voto nulo, os pecebistas
participavam das eleições de 1966 e ingressavam no Movimento Democrático Brasileiro
(MDB).
Com o início do governo Geisel, a promessa da distensão “lenta, segura e gradual” do
regime e o fracasso das guerrilhas rural e urbana, o PCB passava a acreditar no êxito de sua
política de alianças adotada como forma de abater a ditadura militar. Embora, entre o final de
1974 e o decorrer de 1975, nove membros do Comitê Central tenham sido assassinados pelos
órgãos de repressão, a direção do Partido insistia na manutenção da Frente Democrática para
derrotar o regime e, através do caminho institucional legal, restabelecer a ordem democrática
no país.
A extinção do Ato Institucional n. º 5 e a decretação da Anistia, em setembro de
1979, favoreceram o retorno dos dirigentes e militantes que estavam no exterior e o fim da
clandestinidade para aqueles que continuaram no Brasil. A partir daí, no encaminhamento do

4
À época de sua fundação, o PC do B seguia a linha maoísta.
5
Apolônio de Carvalho rompeu com PCB, em 1967, e fundou o Partido Comunista Brasileiro
Revolucionário (PCBR); Carlos Marighella, depois de expulso, fundou a Aliança Libertadora Nacional
(ALN); Jover Telles, expulso, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PC do B).
12

VII Congresso, torna-se evidente que o Partido estava em meio a uma crise, e dividido por
lutas internas de graves conseqüências. A crise no interior do PCB agravou-se ainda mais
pelas divergências estratégicas sobre as formas de dar fim ao governo dos militares.
Uma tendência, liderada por Luís Carlos Prestes, então secretário geral do PCB,
supunha que a orientação estratégica que se desenvolvera a partir da Declaração de Março de
1958 estava marcada por uma ilusória esperança no papel histórico da burguesia.
Simultaneamente, outra tendência, autodenominada Corrente Renovadora, crescia no interior
do Partido. Inspirada nas experiências recentes do comunismo euro-ocidental, os
“renovadores” propunham que as liberdades democráticas estivessem no programa estratégico
dos comunistas. Com uma leitura que enfatizava a modernidade capitalista que emergira no
país no período ditatorial, o grupo entendia que a sociedade brasileira não abraçaria modelos
ditatoriais – nem o grupo desejava isso – nem do lado socialista. Além disso, passaram
também a contestar a política de alinhamento com a União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS).
Num primeiro momento, a Corrente Renovadora uniu-se à direção do Partido para
derrotar o grupo prestista. Grande parte do grupo liderado por Prestes acabou ingressando no
Partido dos Trabalhadores (PT) e no Partido Comunista do Brasil (PC do B), embora, alguns
ainda tenham permanecido no PCB. A Corrente Renovadora, com forte expressão intelectual,
também, acabou derrotada numa luta interna que se estendeu de 1978 a 1983 e diluiu-se entre
o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e o PT. 6
Os pecebistas “renovadores”, pejorativamente chamados de eurocomunistas por seus
partidários opositores, são o tema dessa monografia. Há a hipótese de que a Corrente
Renovadora acredita que a sua própria luta a favor do “aprofundamento da democracia” – só é
possível graças ao nível anterior de valorização da democracia no interior do PCB, com
origem na renovação democrática pecebista dos anos 50 – exposta primeiro, na Declaração de
Março de 1958. Isso porque pretendeu fazer do início do movimento de valorização da
democracia política no comunismo brasileiro responsabilidade do PCB e, além isso, provar a

6
Cf. Marcos Del Roio. “De um século a outro: Trajetória e atualidades da questão comunista no
Brasil” IN: MAZZEO, Antônio Carlos, LAGOA Maria Izabel. Corações vermelhos: os comunistas
brasileiros no século XX. São Paulo: Cortez, 2003.
13

existência histórica do vínculo entre socialismo e democracia política enquanto constroem a


sua estratégia socialista do Brasil contemporâneo.
Dentre os objetivos desse trabalho, está caracterizar a Corrente Renovadora do
Partido Comunista Brasileiro, analisando seus discursos nos vários tipos de publicações até o
início dos anos 80, quando esses intelectuais começaram a deixar o Partido. A monografia
contará com uma explicitação das propostas mais substanciais do grupo aliado a uma
interpretação crítica que se constrói buscando identificar a semelhança dos discursos do grupo
e a discordância e os conflitos com o restante do Partido; esboçar as razões para o surgimento
da questão central que finda a Corrente Renovadora – o “aprofundamento da democracia”;
sem, no entanto, deixar de atentar para as peculiaridades da realidade brasileira.
Coloquei na Introdução um resumo que dava conta da necessidade de situar o meu
objeto na conjuntura da realidade nacional. A seguir, procurei delimitar o tema, esclarecer o
objetivo central e os demais objetivos acompanhados de suas justificativas. Ressalvei, em
poucas palavras, a importância do meu tema para a pesquisa histórica. E, por último, disse o
que fiz em cada capítulo e porque eu escolhi essa estrutura.
Em Procedimentos Teórico-metodológicos, procurei indicar a metodologia da história
que utilizei na confecção da monografia, além de esboçar as vantagens da recente abordagem
na micro-história.
O Breve Histórico do PCB é um resumo da história do Partido que busca salientar os
aspectos mais importantes desde a sua fundação até a conclusão do VII Congresso, em 1984.
Nesse capítulo, narrei a história do PCB de acordo com a historiografia especializada mais
recente. Essa breve exposição serviu para contextualizar mais o meu objeto – a Corrente
Renovadora.
No capítulo quatro, intitulado O Grupo, identifiquei e analisei a Corrente Renovadora
do Partido Comunista Brasileiro. Estruturei o capítulo, dispondo-o numa ordem de sub-
capítulos que, para o discurso renovador, obedece ao seguimento dos fatos e a própria
explicação desses acontecimentos. Assim, no início dos anos 60, está à origem do pensamento
“renovador”: A influência de Lukács e Gramsci (grifado em itálico o nome dos sub-capítulos).
No início dos anos 70, o grupo elabora uma nova interpretação da formação histórica e da
atualidade brasileira de origem no viés político lukacsiano-gramsci - A formação econômico-
social brasileira. Em conseqüência disso, no final dos anos 70, de uma nova interpretação da
14

realidade do país, é elaborada, uma nova proposta estratégica para os comunistas brasileiros -
Democracia como estratégia. E, no início dos anos 80, mostro que esse grupo pretende-se
herdeiro, por seu prosseguimento na valorização da democracia, do grupo renovador dos anos
50, responsável pela elaboração da Declaração de Março de 1958 - Herdeiros de 1958.
No capítulo cinco, intitulado A Democracia e os comunistas, analiso a relação entre o
grupo e o motivo da acirrada luta interna, a “radicalização democrática”, de três diferentes
maneiras. A primeira delas analisa o “socialismo realmente existente” para a noção de
contexto dos “renovadores”. A segunda trata de como a modernidade gerada pelo capitalismo
favorece a implantação da democracia. E no terceiro momento, procuro analisar os resultados
da democracia objetivada pelo grupo “renovador” em face à realidade nacional e à tradição
comunista.
No capítulo seis, intitulado O Desfecho, discorro sobre o final da luta interna do PCB
que se estendeu até a conclusão do VII Congresso, em 1984. Dedico, nesse momento, algum
espaço aos opositores partidários da Corrente Renovadora. Mas, a centralidade ainda é a busca
da Corrente Renovadora em se diferenciar dos outros pecebistas. Assim, procurei chamar de
desfecho a própria visão que a Corrente Renovadora encarou seu movimento no interior do
Partido. A saber, a derrota de seu projeto: a derrota da democratização política no programa
estratégico dos pecebistas.
Nas Considerações finais, faço um balanço dos resultados achados sobre o tema. A
influência do viés político de Lukács-Gramsci no discurso “renovador”, uma nova
interpretação da história brasileira, a estratégia socialista democrática, a unidade/conflito na
invocação da memória pecebista, a importância do contexto: Leste Europeu e
redemocratização do Brasil, a ruptura/continuidade na tradição marxista brasileira.

2. Procedimentos Teórico-metodológicos

A ação dos comunistas do PCB, ao longo da história, se traduziu numa cultura


política com maior ou menor inserção na realidade brasileira. Por, pelo menos, até o início da
década de 1960, a cultura política comunista resumia-se ao Partido Comunista Brasileiro (o
que não quer dizer que ela tivesse sido homogênea ou sem disputas e subdivisões). Esse
15

trabalho admite que a Corrente Renovadora diferiu da cultura política comunista adotada pelo
PCB no pós-64. Mas está longe de se aprofundar nos méritos ou desacertos dessa inovação no
Partido, estamos antes preocupados em colocar a cultura política como começo de tudo - das
mudanças, das possibilidades mais concretas que se abriram após a distensão do regime
militar.
Para tratar do tema dessa monografia – a Corrente Renovadora – vamos trabalhar,
enormemente, com as idéias do grupo prontas a influenciar o cenário político brasileiro.. Por
essa vontade e a atitude de se inserir no processo de redemocratização da sociedade brasileira,
no retorno ao Estado democrático de direito, é que identificamos os comunistas do PCB como
dotados de uma cultura política. Consideramos o grupo de intelectuais como dotados de uma
sub-cultura política comunista porque enxergamos rivalidades com o restante do PCB, acenos
da saída (para a maioria) do Partido no início dos anos 80. Lembrando que:

“a expressão cultura política passou a designar um conjunto de atitudes, normas, crenças,


mais ou menos partilhadas pelos membros de uma determinada unidade social, tendo como
objeto os fenômenos políticos. De um modo geral, diz-se que em determinados momentos
podem ser identificadas em um país várias subculturas, tais como as subculturas laica-liberal,
a católica, a socialista, a conservadora, a de direita, etc., referindo-se a expressão a universos
de significação vividos por grupos mais específicos, que exercem influência e disputam o
controle da vida política nacional.” 7

Esses intelectuais estavam se expressando no interior do partido e fora dele, com


idéias semelhantes à respeito da realidade brasileira e dos rumos do socialismo no país. No
entanto, esse posicionamento face à atualidade nacional era contrário às últimas resoluções do
Partido e à sua atuação no cenário político brasileiro. Os integrantes da autodenominada
Corrente Renovadora do Partido Comunista Brasileiro constituíram, a meu ver, uma sub-
cultura política comunista. Não é pela exclusiva semelhança dos discursos, é principalmente
no objetivo político comum em torno da derrubada da ditadura militar e na fixação das
liberdades democráticas. Por isso,

7
Almond, G. e S. Verba. The civic culture. Political attitudes and democracy in five nations. Boston,
Litle/Brown, 1965 citado por Raimundo Santos, Modernização e política. Rio de Janeiro: Forense
Universitária/Edur, 1996, p. 47. 7 Pécaut, Daniel. Os intelectuais e a política no Brasil. São Paulo,
16

“Pécaut (1990) chama a atenção para o fato de que o conceito de cultura política não deve
encerrar exclusivamente a idéia da semelhança de atitudes individuais, consideradas fora de
qualquer contexto institucional, como nos autores clássicos. Mas do que isso, ele refere tanto
um fenômeno de sociabilidade política quanto uma adesão a uma mesma leitura do real”. 8

Nesta monografia, é descabida uma análise mais completa do que vem a ser a
ideologia marxista ou os aspectos do plano-político ideológico do Partido Comunista
Brasileiro. Coube sim, a definição de cultura política para atender os objetivos aqui expostos,
que estão ligados exclusivamente, a especificidade do grupo de pecebistas bastante atuantes na
política brasileira.
A cultura política é o que se passa de fato, é aquilo que os comunistas fazem quando
acreditam que o socialismo pode e/ou deve vir. Está mais próxima do dia-a-dia, da apreensão
do real em pequenos espaços-temporais. Deixemos as palavras de Lincoln de Abreu Penna,
que melhor traduziu a diferença entre a cultura política e a ideologia:

“Acrescentamos que ela [cultura política] difere das ideologias em razão da cultura política
ser construída por uma vivência, isto é, uma experiência que se traduz em uma identidade
muito própria de ação. Ao contrário da ideologia, enquanto utopia que é essencialmente um
vir-a-ser, quando a consideramos enquanto representações e não como um exercício do
poder, uma vez que neste caso toda ideologia é uma ideologia dominante, porque revela os
valores das classes que detém o poder”. 9

Resumindo, a cultura política é o que pôde explicar o movimento. A disputa em torno


dessas questões (já o dissemos, da visão interpretativa da realidade nacional e o programa
estratégico dos comunistas) com o restante do Partido acontece, em definitivo e em
profundidade, após a abertura do regime militar. Das necessidades de levar em conta as
situações mais frescas e mais próximas é que o grupo constituiu uma subcultura política

Ática, 1990. citado por Raimundo Santos, Modernização e política. Rio de Janeiro: Forense
Universitária/Edur, 1996, p. 50.
8
Pécaut, Daniel. Os intelectuais e a política no Brasil. São Paulo, Ática, 1990 citado por Raimundo
Santos, Modernização e política. Rio de Janeiro: Forense Universitária/Edur, 1996, p. 50.
9
Lincoln de Abreu Penna, “A Cultura Política Comunista no Brasil: 1950-1964” in Cadernos do
NPEH-IFCS, ano I, número 3, 1996, p. 16 citado por ROSSA, André Luiz. O Jornal Voz Operária e as
mudanças político-deológicas do PCB sobre a realidade e a revolução brasileira, do Manifesto de
Agosto de 1950 à Declaração de Março de 1958. Monografia. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais,
UFRJ, Rio de Janeiro, 1999.
17

comunista porque, ao contrário, se a sua raiz de disputa fosse num futuro mais longínquo a
própria ideologia estaria em jogo.
Nesse trabalho, o que se busca não é a mera exposição das idéias da Corrente
Renovadora aos receptores da mensagem. É antes, uma análise crítica do que disse o grupo e
de que maneira preparou sua mensagem para os comunistas, mas também para o mundo fora
dele. Assim, a fala do grupo vai ser observada rigorosamente e mesmo o que deixou de ser
dito pelos “renovadores” será questionado. Portanto, para uma abordagem investigativa da
micro-história social, pretendo usar da:

“hermenêutica ou crítica de interpretação - também chamada de crítica positiva: a análise do


conteúdo de textos em pesquisa histórica é o de que um documento é sempre portador de um
discurso que, assim considerado, não pode ser visto como algo transparente. Ao debruçar-se
sobre um documento, o historiador deve sempre atentar, portanto, para o modo através do
qual se apresenta o conteúdo histórico que pretende examinar (...) o conteúdo histórico que se
pretende resgatar depende muito da forma do texto: o vocabulário, os enunciados, os tempos
verbais etc.” 10

A micro-história, que nasceu de uma crítica à História Econômica-Social nas décadas


de 1970 e 1980, permitiu a possibilidade de se atentar para o que antes passava despercebido
na escala macro. Por exemplo, os espaços onde se desenrolam as ações dos atores sociais. Não
se trata só de reduzir a escala da mesma história, mas sim, como apontou Jacques Revel, de
fazer novas descobertas com novas categorias de análise. Assim,

“(...) as estratégias pessoais ou familiares não são puramente instrumentais: são socializadas,
na medida em que são inseparáveis de representações do espaço relacional urbano, dos
recursos que ele oferece e das limitações que impõe, a partir das quais os atores sociais se
orientam e fazem suas escolhas. Trata-se portanto de desnaturalizar – ou ao menos de
desbanalizar – os mecanismos de agregação e de associação, insistindo nas modalidades
relacionais que os tornam possíveis, recuperando as mediações existentes entre ‘a
racionalidade individual e a identidade coletiva’”. 11

Os critérios de classificação da Corrente Renovadora residem nos objetivos que


propus e não a uma pura imitação dos critérios do grupo, utilizados à época, para se distinguir

10
Ciro Flamarion Cardoso, Ronaldo Vainfas, “História e Análise de Textos” in CARDOSO, Ciro
Flamarion, VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p. 375.
11
Jacques Revel, “Microanálise e construção do social”. In Jacques Revel (org.). Jogos de escalas: a
experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1998, p. 25.
18

do restante do Partido. Se houve uma obediência às orientações do “grupo renovador”, foi só


num primeiro momento, superficial, para indicar a construção de uma coletividade/identidade.
E já que o meu objetivo central também não está em buscar os indicativos de luta a favor do
processo de redemocratização da sociedade brasileira, a maneira como eu vou tratar e
classificar as minhas fontes não está explícito na luta contra o regime militar. O meu desejo é
antes perceber como se dá a construção da idéia de uma estratégia socialista no Brasil
contemporâneo. Então, no meu olhar para o objeto está o que conduziu à elaboração dos
objetivos e dos procedimentos metodológicos. Em resumo,

“O recurso a sistemas classificatórios baseados em critérios explícitos (gerais ou locais) é


substituído na micro-análise pela decisão de levar em consideração os comportamentos por
meio dos quais as identidades coletivas se constituem e se deformam. Isso não implica que se
ignore nem que se despreze as propriedades 'objetivas' da população estudada, e sim que as
trate como recursos diferenciais cuja importância e cuja significação devem ser avaliadas nos
usos sociais de que são objeto - ou seja, em sua atualização.” 12

O meu olhar para o objeto não irá agir sem levar em conta a consciência histórica. O
rumo que as coisas tomariam é alvo de especulação, sobretudo, de intelectuais comunistas que
desejavam se inserir no cenário político, então: “é excepcional que as fontes apresentem por si
mesma as alternativas, e mais ainda as incertezas com que se defrontam os atores sociais do
passado (...) noções como as de fracasso, de incerteza e de racionalidade limitada”.13
Percebemos que a Corrente Renovadora (em seu extrato intelectual) no que se refere
às suas visões interpretativas do Brasil é, ao mesmo tempo, historiografia marxista e
historiografia brasileira.

3. Breve histórico do PCB

O Partido Comunista Brasileiro foi fundado, em março de 1922, por homens oriundos,
em sua maioria, do movimento anarquista. Alguns meses depois, o Partido tem o seu registro
eleitoral cassado, pela primeira vez, em julho. Depois disso, o Partido entra de novo para o

12
Idem, p. 26.
13
Idem, p. 30.
19

processo eleitoral só, em 1945, com o fim da Ditadura Vargas. Dois anos mais tarde, o partido
volta a ilegalidade permanecendo nessa situação até 1985. A historiografia especializada não
deixa de considerar esse largo tempo na ilegalidade para justificar a atuação do PCB junto à
sociedade em diferentes momentos.
Durante os primeiros anos de vida do Partido, a luta político-ideológica será contra os
mesmos anarquistas, que tinham forte influência no movimento operário, principalmente em
São Paulo. Na história do Partido Comunista Brasileiro, sempre houve a disputa com outros
movimentos para exercer influência sobre o proletariado. O embate acabava saindo do
sindicato e chegando até as publicações internas do Partido. Então, num primeiro momento,
precisou-se dizer porque o comunismo – e não o anarquismo – era a única forma de luta que
daria a vitória ao proletariado.
A fundação do PCB coincidiu com a chegada do marxismo no Brasil. Ou melhor, o
pensamento marxista chega ao Brasil junto com o Partido Comunista e com a Internacional
Comunista. Isso explica porque o marxismo brasileiro esteve, por tanto tempo, obediente aos
ditames da União Soviética e do marxismo-leninismo. Além disso, explica porque não houve
concorrentes “marxistas” ao PCB por bastante tempo na história brasileira. No entanto,
explicaria algo mais importante sobre esse trabalho: a tradição marxista no Brasil não se achou
“democrática”.14 O marxismo no Brasil não teria sofrido influência direta da Segunda
Internacional, que pregava o caminho institucional para chegar ao socialismo, e dessa maneira,
só penetrou aqui as idéias de “revolução” do marxismo-leninismo através da IC.
A chegada da influência da IC propriamente ocorreu a partir de seu VI Congresso
(1928-1929) quando passaram a preocupar-se, mais fortemente, sobre o movimento
revolucionário nas colônias e ex-colônias do mundo moderno. Por acreditarem que nenhuma
delas estava livre, de fato, dos laços de dependência com o capitalismo, a IC chamava esses
países de semi-colônias e colônias. Eram países da América Latina, Ásia e África. Assim, as
teses da IC acabaram influindo no III Congresso do PCB (1929). Michel Zaidán aponta que:

“Para os comunistas brasileiros, essas inovações teórico-políticas terão uma tradução muito
específica: obreirismo e revolução democrático-burguesa antiimperialista, cujos efeitos na

14
Carlos Nelson Coutinho apud Marco Aurélio Garcia, As esquerdas e a democracia, Rio de Janeiro:
Paz e Terra: CEDEC, 1986.
20

prática seriam a depuração dos intelectuais “pequeno-burgueses” da direção do partido e a


sectarização de sua linha política.” 15

O IV Congresso do PCB (1954) reafirmou esta tese da IC sobre os países coloniais e


semi-coloniais. Tratava-se de garantir a primeira etapa da revolução brasileira, condição
fundamental para garantir a independência do país frente ao imperialismo, realizar o
desenvolvimento industrial e superar o latifúndio e os restos feudais, realizando a reforma
agrária. Isto abriria o caminho para a Segunda etapa, a etapa socialista. A “revolução”
brasileira, portanto, estava divida, em uma primeira etapa, de desenvolvimento do capitalismo
e uma outra, propriamente socialista, em que o poder seria tomado pelo proletariado.
Em 1935, o PCB tem uma participação importante no movimento Aliança Nacional
Libertadora (ANL). Os comunistas resistiram inicialmente a participar e só aderiram a ANL
com o firme propósito de transformá-la em instrumento para realizar “a primeira etapa da
revolução socialista”. A ANL teria sido um expoente do movimento tenentista da década de
1920. A influência do PCB junto aos quartéis começa a diminuir com o fracasso do
movimento. A perseguição aos comunistas no Brasil começa a se acelerar e dar maiores
resultados com a penetração do capital internacional e o aperfeiçoamento do serviço de
informação no governo de Vargas.
Com o fim da ditadura do Estado Novo, em 1945, o Partido Comunista Brasileiro
transforma-se num partido de massas. O PCB obtém a legalidade e define um novo programa
político para guiá-lo em sua ação e intervenção nas novas condições históricas que se
apresentavam. No segundo semestre de 1945, o PCB irá se preparar para as eleições de 2 de
dezembro. São lançados candidatos em quase todo o país: 14 deputados federais, Prestes é
eleito senador pelo Distrito Federal, e seu candidato à presidente da República Yeddo Fiuza
obtém 600 mil votos (10% do total).
No entanto, a vida do PCB como “partido de massas” não se estendeu por muito
tempo e o Partido dá outra virada à esquerda. Isso quer dizer que o Partido teria se afastado da
“sociedade”. Os opositores à uma posição mais reclusa do Partido chamaram isso de

15
Michel Zaidán, “O Grande Tournant: o VI Congresso da Internacional Comunista (1928-1929)” in
REIS FILHO, Daniel Aarão (org.). História do Marxismo no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991,
v.1, p. 103.
21

“sectarismo”. Durante toda sua história, o PCB está em voltas com suas auto-críticas. Desde o
final da década de 1950 que a direção partidária considerou um “erro” a política iniciada, em
16
1947, de “esquerdismo”. A diminuição da influência do PCB junto à sociedade teria
prejudicado o Partido. Para Mazzeo:

“Três foram os elementos determinantes para a diminuição da presença do PCB na


sociedade, notadamente no movimento sindical: o primeiro a ser ressaltado deve ser creditado
à própria política de conciliação que o partido vinha desenvolvendo anteriormente, incluindo
o incentivo à não-realização de greves, o que afastava os trabalhadores do partido. Também a
existência do sindicalismo oficial contribuíra para a redução da implantação do PCB nos
sindicatos. O segundo aspecto é, sem dúvida, o sectarismo e a política ‘principista’,
implementada sem ajustes e elasticidade, principalmente, no movimento sindical. E, por
último - considerado o aspecto mais relevante -, o maior responsável pela queda da influência
do PCB na sociedade, particularmente no movimento sindical urbano, foi a decretação da sua
ilegalidade, pela autocracia burguesa, e a própria ação repressiva desencadeada pelo
governo”.17

A política iniciada em fins da década de 1940 seria oficializada num documento de


1950, o Manifesto de Agosto. Passou-se a combater os sindicatos existentes, subordinados ao
Estado e, ao mesmo tempo, a lutar pela criação de sindicatos paralelos e independentes na
forma de associações. Os pecebistas desenvolveram algumas atividades de massa como as
campanhas pelo monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros para a
Guerra da Coréia.
O PCB dá outra virada e abandona o “sectarismo” ao adentrar a década de 1950. De
acordo com Antônio Carlos Mazzeo:

“A retomada da linha política do terceiro período inicia-se no IV Congresso do PCB,


realizado em novembro de 1954. Ainda ambíguo, em relação ao Manifesto de Agosto, o PCB
começa a se distanciar de sua linha esquerdizante. Ressaltemos que no âmbito internacional,
apesar da vigência de intensa disputa entre os EUA e a URSS, o MCI estava implementando
uma política de colaboração com os governos burgueses, principalmente na Europa ocidental,
após o término da guerra. No plano interno, o Brasil vivia a crise desencadeada pelo suicídio
de Vargas, o que obriga o PCB a rever sua linha de confronto com os trabalhistas, ampliando

16
Sobre “desvios de esquerda” e de “direita” confira Pandolfi (1992). Os “desvios de direita” teriam
colocado o Partido numa posição de alinhamento com a burguesia em detrimento do triunfo
revolucionário. Os “desvios de direita” são mais freqüentes entre os dissidentes que dariam origem ao
PC do B e, no pós-64, aos militantes que migraram para as organizações de luta armada.
17
Antônio Carlos Mazzeo. Sinfonia inacabada. Marília: Unesp; São Paulo: Boitempo, 1999, p. 78.
22

o espectro das alianças políticas, e já alterando os fundamentos do programa estabelecido


pelo Manifesto de Agosto”. 18

Mais visivelmente, a virada à “direita” do Partido só se deu após a repercussão do


relatório Kruschev no XX Congresso do PCUS, em 1956. 19Os documentos oficiais do Partido
ainda retratavam a linha “sectária” do Partido. Surgia a necessidade de criar-se um documento
que afirmasse a nova linha política – a aliança com a burguesia nacional. Com a Declaração
de Março começou a circular o termo burguesia nacional. Segundo o PCB, a burguesia, assim
como o governo JK, teria uma parte servil ao imperialismo e outra que queria o
desenvolvimento e a independência do país. O PCB vinha abandonando a sua linha
insurrecionista em direção a um projeto “aliancista” desde o suicídio de Vargas e a
conspiração golpista ao seu entorno. Essa política acabou por culminar no apoio a Juscelino
Kubitschek para presidente, em 1955, e a elaboração da Declaração de Março, em 1958.
Portanto, a Declaração de Março de 1958 rompia com a estratégia insurrecionalista
fomentada pela IC. Mas, desde o VII Congresso da IC (1935), diante da expansão do
fascismo, que a orientação para os PCs era a estratégia de Frente Popular. Ou seja, tanto a
linha “insurrecionalista” quanto a “aliancista” do PCB foram resultados das orientações da IC.
Como iremos observar mais adiante, para a Corrente Renovadora, a Declaração foi o primeiro
documento do partido a acenar para a centralidade da questão democrática na construção do
socialismo. Por ter sido confeccionada após o relatório Kruschev – quer dizer, após os
primeiros abalos no “socialismo real” – e ter adotado uma política de “aliança” e não de
imediata insurreição, a Declaração de Março de 1958, como descobriremos mais tarde,
tornar-se ia, ao nível do discurso, o documento que instituiu a democracia política no PCB.
Na Declaração, a “revolução brasileira” deveria ocorrer em duas etapas. Na primeira,
o partido comunista deveria se aliar à burguesia nacional para desenvolver o capitalismo – a
Revolução democrático-burguesa. Com o desenvolvimento do capitalismo o operariado
fortalecer-se-ia, preparando as condições para se operar a segunda etapa. Na segunda etapa da
“revolução” – a Revolução Socialista – o proletariado tomaria o poder das mãos da burguesia.

18
Idem, p. 82.
19
Os dois plenos do CC realizados em abril e agosto de 1957 são muito interessantes a respeito dessa
característica de renovação e da marcha forçada que a nova cúpula partidária encaminharia depois dos
fortes abalos do relatório Kruschev. Cf. Santos, 1996.
23

Os entraves do Brasil estavam no latifúndio e na burguesia entreguista. Sobre isso,


consideremos que:

“Parte da intelectualidade brasileira inclusive mantinha estreitos vínculos com o Partidão. Rui
Facó, Nelson Werneck Sodré e Alberto Passos Guimarães, constituíram uma corrente que
explicava a causa do atraso e subdesenvolvimento do Brasil como decorrentes da ação
predatória do imperialismo e parasitismo dos latifundiários”.20

O V Congresso do PCB (1960) reiterou as resoluções da Declaração de Março de


1958. Embora, não houvesse unanimidade em aceitar o abandono da luta insurrecional. Nem
todos, dentro do Partido, aceitavam a aliança com a burguesia nacional e, em 1962, uma
dissidência dará origem ao PC do B. No pós-64, a luta interna foi se tornando cada vez mais
acirrada e as divergências deram origem a separações.21 Parte do setor universitário da
Guanabara é expulsa e organiza um grupo denominado “Dissidência”. A “Dissidência da
Guanabara” dará origem ao Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), que terá
como proposta a constituição de “focos” guerrilheiros como forma de desencadear a
revolução. Um outro grupo, denominado “corrente”, acabou dando origem ao Partido
Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), que propunha a “guerra popular” como a única
saída para a implantação do socialismo no país. Marighela, Câmara Ferreira e outros
dissidentes formam a Ação Libertadora Nacional (ALN), que adota também o “foco”
guerrilheiro como forma de implantar um governo nacional-popular.22
O VI Congresso do PCB (1967) resultou na reafirmação e no desenvolvimento da
linha política do V Congresso. Estabelece, ainda, a democracia como tática para derrubar a
Ditadura Militar. Quanto ao objetivo estratégico, a Resolução política procura caracterizar o
desenvolvimento do capitalismo no Brasil, suas contradições, a etapa atual da Revolução
Brasileira e a participação nela da classe operária e de outras forças sociais.

20
Hiran Roedel et al, PCB: oitenta anos de luta, Rio de Janeiro, Fundação Dinarco Reis, 2002, p. 102.
21
Um dos principais textos lidos no pós-64, pelas organizações de luta armada, foi o de Régis Debray,
Revolução na revolução.
22
Cf. Denise Rollemberg, “Esquerdas revolucionárias”, in FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de
Almeida Neves (orgs.) O Brasil republicano. O tempo da ditadura. Regime militar e movimentos
sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v.4.
24

Em 1974, o PCB engajado na campanha eleitoral ao lado do MDB, tendo papel


destacado, assiste a primeira vitória do MDB sobre o ARENA (Aliança Renovadora
Nacional). Porém, no mesmo ano, nove membros do Comitê Central são assassinados. A
direção é obrigada a se deslocar para o exílio, onde também seria editada a Voz Operária.
Entre os anos de 1976 e 1979,

“(...) diante de um contexto crescente de abertura política, com suas idas e vindas, a tarefa de
reorganização do partido e a participação dos comunistas na Frente Democrática,
representada no MDB, são os fatos que proporcionaram o estabelecimento de uma “nova
política” no interior do PCB, como na própria esquerda brasileira”.23

Com a decretação da Anistia, o Comitê Central retorna ao Brasil e encontra o PCB


mergulhado em uma profunda crise, agravada por uma luta interna em torno da “questão
democrática”.

4. O Grupo

A Corrente Renovadora se autodenominava assim em referência aos também


chamados de “renovadores” dos anos 50, responsáveis pela elaboração da Declaração de
Março de 1958. Embora, para o restante do Partido, os membros dessa “corrente” passaram a
ser chamados, pejorativamente, de “eurocomunistas”. O restante do Partido encontrava-se, à
época, dividido entre pragmáticos, maioria de posição conciliadora e mais ao “centro”, e à
esquerda os prestistas, contrários à política frentista iniciada na Declaração.24

23
Clayton Cardoso Romano. Da abertura à transição: o PCB e a cultura política democrática da
esquerda brasileira. 2001. 175 p. Dissertação (Mestrado em História e Cultura Política) - Faculdade de
História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista, Franca, p. 80.
24
“De acordo com o Prof. Segatto em entrevista ao autor (14/07/2000), o PCB dos anos 70 e 80 se
dividia, esquematicamente, assim: Renovadores: Armênio Guedes, David Capistrano, Luiz Werneck
Vianna, Marco Aurélio Nogueira, Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho, Elói, Luiz Antônio
Medeiros, Nilton Cândido; Centro Pragmático: José Paulo Netto, José Segatto, Celso Frederico,
Bertelli, Alberto Passos, Ênio Silveira, Ferreira Gullar, Paulo Teixeira, João Saldanha; Esquerda
Conservadora: representada essencialmente por Luis Carlos Prestes” in Clayton Cardoso Romano, Da
abertura à transição: o PCB e a cultura política democrática da esquerda brasileira. 2001. 175 p.
Dissertação (Mestrado em História e Cultura Política) - Faculdade de História, Direito e Serviço
Social, Universidade Estadual Paulista, Franca, p.92n.
25

Entre os que formavam a Corrente Renovadora estavam Carlos Nelson Coutinho,


Leandro Konder, Luiz Werneck Vianna, Ivan Ribeiro, Marco Aurélio Nogueira, Gildo Marçal
Brandão, Armênio Guedes, José Paulo Netto, Luiz Sérgio Henriques, Milton Temer, David
Capistrano Filho, Mauro Malin, Nemésio Sales, Milton Freitas e outros. Alguns desses
membros tinham forte expressão intelectual e é sobretudo aí, no movimento dos intelectuais,
que reside a investigação.
A Corrente Renovadora, após se unir ao “centro pragmático” para derrotar o grupo
prestista, também acabou marginalizado no interior do Partido. Essa luta interna, que refletia
sobre o tema democrático no programa estratégico dos comunistas, pode ser acompanhada nos
últimos números da Voz Operária e na primeira fase da Voz da Unidade, além de outras
publicações de autoria dos integrantes da Corrente. Sobre dois eixos vão se orientar a temática
dos ensaios destes personagens: 1º) uma nova interpretação da formação econômico-social
brasileira25 e 2º) o aprofundamento da “questão democrática” na estratégia dos comunistas no
Brasil. Na verdade, só mais tarde, os dois eixos irão se encontrar. Uma maneira nova de
interpretar a realidade nacional, diferente da então visão difundida pelo Comitê Central do
PCB – no início dos anos 70 –, teria sido responsável pelo incremento da “democracia” ao
programa estratégico dos comunistas entre o final da década de 1970 e o início da década de
1980.
A Corrente Renovadora, após se unir ao “centro pragmático” para derrotar o grupo
prestista, também acabou marginalizada no interior do Partido. O ponto de dissídio com o

25
A formação econômico-social é um conceito marxista já utilizado largamente PCB assim como pelos
demais partidos comunistas no mundo para tratar de sua realidade nacional. O que entra em discussão
no PCB com a Corrente Renovadora não é a validade do conceito marxista para explicar sociedades
concretas, pelo contrário, a presteza e justeza do conceito são reforçadas quando o que se coloca em
xeque é a visão atrasada e letárgica da direção do PCB sobre a sociedade brasileira. O conceito de
formação econômico-social é bom, na verdade, é sob ele que reside toda a investigação e disseminação
da história do país. “O conceito de formação econômico-social está ainda mal elaborado; no marxismo
contemporâneo coexistem pelo menos três formas principais de considerá-lo: como noção empírica
equivalente à idéia corrente de ‘sociedade’; como conceito referido a uma sociedade concreta, porém a
articulação de diversos modos de produção no seio da base econômica, da aludida; como o modo de
produção junto com a superestrutura correspondente” in Ciro Flamarion S. Cardoso, Héctor Perez
Brignoli. Os métodos de história. Rio de Janeiro, Graal, 1979, p. 378. Resumindo, os intelectuais da
Corrente Renovadora trabalharam com o conceito de formação econômico-social brasileira para falar
do passado e presente brasileiros e acabaram por constituírem-se num momento novo e importante na
historiografia brasileira contemporânea.
26

“centro pragmático” e ao “grupo prestista” diz respeito ao fator democrático, reduzido, na


versão “eurocomunista” – para os não “renovadores”, é claro – ao fator político. No entanto,
não havia uma homogeneidade em todos os pecebistas, à época, sobre os motivos da disputa,
nem do posicionamento de cada um de um lado ou de outro. De qualquer maneira, é claro que
as fronteiras entre um campo e outro estiveram bem marcadas, ou do contrário, o movimento
da Corrente Renovadora não teria levado à marginalização no partido, ou mesmo, o
rompimento e a expulsão.

4.1 - A influência de Lukács e Gramsci

O primeiro ponto de interseção entre os futuros membros da Corrente Renovadora –


exceto é claro, a filiação ao PCB – é a divulgação da obra de Lukács no Brasil. Possivelmente,
eles tomaramcontato com as idéias de Lukács, pela primeira vez, na revista Problemas da paz
e do socialismo (número 4, 1959), através do ensaio de Bela Fogarasi, “As concepções
filosóficas de Georg Lukács”, que refletia sobre o debate que se acendeu devido a participação
de Lukács nas ações “contra-revolucionárias” em 1956. Ainda em 1959, a revista Estudos
sociais (número 5), dirigida pelo fundador do PCB, Astrojildo Pereira, publica o primeiro
texto de Lukács em língua portuguesa: o prefácio de A destruição da razão, que apareceu com
26
o título “O irracionalismo - fenômeno internacional do período imperialista”. Elio Gaspari,
em 1963, traduziu um artigo de Lukács sobre Dostoiévski, publicado pela revista Estudos
Sociais.
Pouco tempo depois, os nossos personagens participaram da divulgação do filósofo
húngaro no Brasil, ainda nos anos 60. Celso Frederico, em seu artigo, “A recepção de Lukács
no Brasil”, apontou que:

“A divulgação da obra de Lukács, assim, esteve inicialmente nas mãos de jovens intelectuais,
quase todos gravitando ao redor do PCB, que atuavam no Rio de Janeiro (Leandro Konder,

26
Cf. Celso Frederico. A recepção de Lukács no Brasil. Disponível em:
<http://www.herramienta.com.ar> Acesso em: 19 mai 2006.
27

Carlos Nelson Coutinho), em São Paulo (José Chasin, José Carlos Bruni) e, posteriormente,
em Juiz de Fora (José Paulo Netto, Gilvan Procópio Ribeiro e Luiz Sérgio Henriques).” 27

As editoras próximas ao PCB, responsáveis pela publicação de obras de inspiração


lukacsiana constituem, privilegiadamente, nesse primeiro momento, o espaço relacional dos
intelectuais que darão origem a Corrente Renovadora. É nesses lugares animados pelas ações
que se criam as raízes da identidade com conteúdo do tipo “marxismo renovador”:

“A divulgação das idéias do filósofo húngaro foi feita através da tradução de suas obras, da
publicação de livros de inspiração lukacsiana, quase sempre por editoras próximas ao PCB e,
também, através da participação de seus discípulos nas diversas revistas que surgiram nos
anos 60 e 70”. 28

Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder iniciaram correspondência com Lukács


em 1961 e, apesar de algumas interrupções (devido ao regime militar), só deixaram de
escrever em 1970. Em 1963, Carlos Nelson Coutinho, então estudante de filosofia e estética,
dirigindo-se a Lukács, afirma compartilhar das idéias dos escritores que propunham uma via
diferenciada da stalinização do mundo socialista. Assim, parecia a ele que tudo indicava “que
os caminhos do marxismo contemporâneo são de modo algum os do stalinismo: é no sentido
do seu pensamento [Lukács] e daquele de Gramsci que a investigação se orienta hoje”. 29
Em Estruturalismo e a miséria da razão (1972), Carlos Nelson combate Althusser e
o irracionalismo, assim como Lukács já fazia há algum tempo. Na correspondência entre o
filósofo húngaro e o estudante baiano, Lukács já advertia Coutinho para o “perigo” do
irracionalismo. Althusser foi bastante lido no Brasil na segunda metade dos anos 60 pelos
movimentos de luta armada. Sobretudo, para combater os althusserianos no Brasil é que
Coutinho escreveu o seu livro, porque:

“Para Althusser, o marxismo tende a converter-se numa técnica de dominação (econômica,


política, etc), com inteiro abandono dos seus aspectos humanistas (democratização,
construção do homem novo, etc). Com isso, converte-se numa tendência restauradora, que

27
Idem.
28
Idem.
29
Carta de Coutinho a Lukács, Salvador, 23/10/1963, in: Carlos Nelson Coutinho, Lukács, Rio de
Janeiro, Boitempo, 2002.
28

pretende – sob o véu de um ‘modernismo científico’ – recolocar em circulação determinados


conteúdos próprios do stalinismo”. 30

Não só no combate aos althusserianos, Coutinho aproximou-se de Lukács. Nesse


outro trecho de Estruturalismo e a miséria da razão, para se referir ao método da dialética
marxista, o autor fala da “ontologia do ser social” – tese e livro de Lukács:

“(...) redescobrir no marxismo, particularmente através do estudo das relações entre economia
e dialética, as categorias constitutivas de uma ontologia do ser social (...), o estudo genético-
ontológico das categorias determinantes do social, particularmente as de trabalho, praxis,
ideologia, reprodução social, casualidade e teleologia etc”. 31

Mas devemos ampliar a porta de entrada do pensamento lukacsiano para além das
correspondências. Carlos Nelson e Leandro Konder falavam bem o alemão (escreviam a
Lukács em alemão) e na verdade, leram as suas obras nesse idioma. Assim,

“Leandro Konder escreveu um interessante livro, modesto nas pretensões, mas muito útil
para os estudiosos, chamado Os marxistas e a arte (Civilização Brasileira, 1967), em que
resenha as diferentes interpretações marxistas sobre o fenômeno artístico a partir do prisma
lukacsiano. Em 1978, escreveu o ensaio “Lukács e a arquitetura” reproduzido na antologia O
Marxismo na batalha das idéias (Nova Fronteira, 1984). A reflexão global de Leandro
Konder sobre o pensador húngaro está na cuidadosa biografia intelectual acompanhada por
uma seleção de textos: Lukács (L&PM, 1980)”. 32

Do PCB de Juiz de Fora, José Paulo Netto expõem as teorias de Lukács:

“José Paulo Netto expôs temas estéticos em dois ensaios publicados na Revista de Cultura
Vozes: “Lukács e a teoria do romance” (número 6, ano 68, 1974) e “A teoria do romance do
jovem Lukács” (número 10, ano 70, 1976). Quando de seu exílio em Portugal, escreveu
“Lukács e a crítica da filosofia burguesa” (Seara Nova, 1978), e um longo prefácio à “Carta
sobre o “stalinismo” (Argumentos/Seara Nova, 1978). (...) deve-se a José Paulo Netto uma
equilibrada biografia, na qual nos apresenta um juízo sereno sobre a produção intelectual de
nosso autor: Lukács – o guerreiro sem repouso (Brasiliense, 1983)”. 33

30
Carlos Nelson Coutinho. Estruturalismo e a miséria da razão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972, p.
72.
31
Ibidem, pp 180-181.
32
Cf. Celso Frederico. A recepção de Lukács no Brasil. Disponível em:
<http://www.herramienta.com.ar> Acesso em: 19 mai 2006.
33
Idem.
29

Na influência do pensamento de Lukács, o que mais vai sobressair nesse grupo de


intelectuais já no início dos anos 70 é o conceito de via prussiana. O conceito, elaborado por
Lênin caracteriza o desenvolvimento do capitalismo, como no caso da Prússia, como um
reordenamento de forças sob o comando da elite que impede a democratização da sociedade.

“Luiz Werneck Vianna, Liberalismo e sindicato no Brasil (Paz e Terra, 1976); Leandro
Konder, A democracia e os comunistas no Brasil (Graal, 1980); Ivan de Otero Ribeiro, "A
importância da exploração familiar camponesa na América Latina", em Temas de Ciências
Humanas, número 4, 1978; Marco Aurélio Nogueira, As desventuras do liberalismo: Joaquim
Nabuco, a monarquia e a república (Paz e Terra, 1984)”. 34

Para João Quartim de Moraes,

“Constata-se em ambos [Carlos Nelson Coutinho em Realismo e anti-realismo na literatura


brasileira e José Chasin em O integralismo de Plínio Salgado] uma “conciliação entre o
historicamente velho e o historicamente novo”, na qual este paga àquele “pesado tributo”. Em
ambos, com efeito, essa conciliação preservou a predominância da grande propriedade rural e
permitiu, por meio da composição de interesses entre a velha e a nova classe dominante, em
detrimento das subalternas, que se adotassem “pelo alto” reformas limitadas que abriram no
campo caminho para o capitalismo, mas com muito maiores privações para os camponeses e
desenvolvimento mais lento das forças produtivas.”35

As primeiras referências a Gramsci ainda nos anos 60 deu-se através desses jovens
36
intelectuais que giravam em torno do PCB. Nesse momento, o Gramsci que é lido (e não é
por muitas pessoas) não é o propositor de uma nova ação rumo ao socialismo. As influências
gramscianas reduzem-se aí no terreno da filosofia, estética e sociologia da cultura. Assim,
naquele momento, Gramsci aparecia sempre ao lado de Lukács e do Sartre da Crítica da
Razão Dialética. 37

34
Idem.
35
João Quartim de Moraes, “O Programa Nacional-Democrático: fundamentos e permanências"
36
Há referências a Gramsci em C. N. Coutinho, “Problemática Atual da Dialética”, in Ângulos,
Salvador, nº 17, dezembro de 1961, p. 39 et seqs. “Do Existencialismo à Dialética: a Trajetória de
Sartre”, in Estudos Sociais, Rio de Janeiro, nº 18, dezembro de 1963; Leandro Konder, “Problemas do
Realismo Socialismo”, in Estudos Sociais, Rio de Janeiro, nº 17, junho de 1963. Konder voltou a falar
de Gramsci em seus livros Marxismo é Alienação (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965,
passim) e Os Marxistas e a Arte (Rio de Janeiro, 1967, p. 109-20).
37
Sobre dois momentos na chegada de Gramsci ao Brasil, o primeiro cultural e outro mais político Ver
Carlos Nelson Coutinho, “A receptividade de Gramsci no Brasil” in Democracia como valor universal
e outros ensaios. Rio de Janeiro, Salamandra, 1984.
30

Assim, esses primeiros ensaios conservam uma preocupação metodológica comum


inspirada nos marxistas Antonio Gramsci e Georg Lukács, ou seja, a de vincular os problemas
da cultura à totalidade social da qual são ao mesmo tempo expressão e momentos
constitutivos. Para os intelectuais “renovadores”, no caso do Brasil, a cultura foi sempre o
produto da importação de componentes estrangeiros, adaptados aos interesses da classe social
que os adota, o que acabou por gerar uma cultura “ornamental”, elitista, escassamente
nacional-popular.
O Brasil foi um dos primeiros países a traduzir Gramsci, antes mesmo da França, da
38
Alemanha e dos Estados Unidos. A primeira tradução da obra gramsciana por aqui ocorreu
na década de 1960, por iniciativa de Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e Luiz Mário
Gazzaneo. A iniciativa é da Editora Civilização Brasileira que publica parte dos títulos da
edição elaborada por Togliatti. Em 1966, foram publicados Concepção dialética da história e
um volume das Cartas do cárcere. Dois anos mais tarde, decidem por publicar Os intelectuais
e a organização da cultura, Literatura e vida nacional e Maquiavel, a política e o Estado
moderno. A reedição de todas essas obras só irá ocorrer na segunda metade da década de
1970.
O segundo momento de Gramsci no Brasil, a chegada de sua contribuição
essencialmente política (como propositor de uma teoria da “revolução”), tem início em
39
meados dos anos 70. A singularidade de Gramsci está em ter se preocupado em construir o
socialismo em regimes de democracia liberal. É sobre esse ponto que vai se orientar o
programa estratégico dos “renovadores”. A estratégia socialista adequada ao mundo
contemporâneo.

38
Durante os anos em que esteve preso durante o regime de Mussolini, Gramsci preencheu 33 cadernos
escolares, dos quais 29 compõem a primeira edição de sua obra publicada na Itália, entre 1948 e 1951.
O responsável pela organização do material desta edição inaugural foi Palmiro Togliatti, fundador do
Partido Comunista Italiano. Togliatti agrupou os escritos carcerários por temas, a partir dos seguintes
títulos: Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce; Gli intellettuali e l'organizzazione
della cultura; Il Risorgimento; Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno; Letteratura e
vita nazionale e Passato e presente.
39
O segundo ciclo da recepção de Gramsci no Brasil tem início em meados dos anos 70: a bibliografia
registra, entre 1975 e 1980, 24 títulos sobre o autor (contra apenas três no período anterior), além da
reedição de todos os livros gramscianos publicados nos anos 60. Cf. Carlos Nelson Coutinho, “A
receptividade de Gramsci no Brasil” in Democracia como valor universal e outros ensaios. Rio de
Janeiro, Salamandra, 1984.
31

Assim, os conceitos gramscianos que identificam que “ocidente” e “oriente” são


realidades bem diversas (a Europa e a URSS até, mais ou menos grosseiramente, o rio Elba,
respectivamente) ficam no uso corrente da Corrente Renovadora. Por exemplo, a mudança
introduzida por Gramsci no termo “sociedade civil” elaborado por Marx é mais que aceito
entre os “renovadores” assim como a hegemonia do Estado. E, para a ação rumo ao
socialismo, tendo como base o “ocidente” só o que poderiam fazer era investir na “guerra de
posição”.
Há uma outra contribuição de Gramsci que converge com a de Lukács para a
formação econômico-social brasileira é transformação “pelo alto”. O passado histórico
brasileiro passou a ser reinterpretado obedecendo à idéia de que o “elitismo” triunfara em
detrimento do lado mais “revolucionário” dos movimentos sociais. Para Gramsci, a “revolução
passiva” teria vencido no Risorgimento italiano:

“O Risorgimento é um desenvolvimento histórico complexo e contraditório, que se torna um


todo a partir de todos os seus elementos antitéticos, de seus protagonistas e de seus
antagonistas, de suas lutas, das modificações recíprocas que as próprias lutas determinam e
até mesmo da função das forças passivas e latentes, como as grandes massas agrícolas, além,
naturalmente, da função eminente das relações internacionais. (...) se realizou sem ‘Terror’,
como ‘revolução sem revolução’, ou seja, como ‘revolução passiva’, gerando um ‘Estado
40
moderno (...) algo bastardo’ e um ‘transformismo molecular’”.

Gramsci escreveu seus cadernos para serem usados na construção do socialismo na


Europa Ocidental dos anos 20. Mas, a estratégia socialista a ser usada na Europa foi
transplantada para o Brasil por esses intelectuais sem maiores problemas. No que a Europa dos
anos 20 parecia-se com o Brasil em fins de ditadura militar? A resposta não deve estar tanto na
objetividade como na própria noção de contexto do grupo “renovador”. Isso será observado
mais tarde (em Modernidade, capitalismo e democracia), mas, por hora, ressaltemos que
Gramsci teria sido um intérprete de um mundo que continua sendo o mundo de hoje.
Entre os conceitos gramscianos que foram largamente utilizados pelos intelectuais
chamados de “eurocomunistas” – exatamente por ter marcado esse vínculo com o Partido
Comunista Italiano (PCI) que também se orientava à época pelas proposições de Gramsci,

40
Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, V. 5: O 'Risorgimiento', Notas sobre a história da Itália,
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002.
32

Togliatti – está a noção gramsciana de hegemonia ligada à cultura. Uma classe obtém
hegemonia na medida em que sua cultura e seus valores tornam-se de um conjunto de pessoas.
Mas, o conceito de hegemonia é resultado também da percepção de Gramsci que o Estado se
ampliou, ou seja, adquiriu novas determinações que ainda não existiam que acabaram por
resultar na socialização da política: nascimento de sindicatos, formação de partidos de massa,
conquista do sufrágio universal, etc.
A teoria ampliada do Estado, rompendo com o terceiro-internacionalismo da tradição
comunista, apoiou sobremaneira a caracterização do Brasil moderno, cuja ocidentalidade, pela
via da revolução passiva reformulou a estratégia socialista. A tese gramsciana da “guerra de
posições” definiu um caminho democrático para o socialismo na sociedade brasileira.
Para a Corrente Renovadora, Gramsci criou uma nova teoria marxista do Estado. O
Estado se tornou um Estado ampliado: passou a levar em conta, enquanto momento da
constituição das relações de poder na sociedade, os organismos da sociedade civil. A forma
pela qual o Estado opera hoje não é mais só por meio da violência, mas também da persuasão
e do consenso. É na obtenção do consenso pelos organismos da sociedade civil que se dará a
superação do capitalismo e a supressão das formas de exploração do homem pelo homem.

“A esfera política ‘restrita’ que era própria dos Estados elitistas – tanto autoritários como
liberais – cede progressivamente lugar a uma nova esfera pública ‘ampliada’, caracterizada
pelo protagonismo político de amplas e crescentes organizações de massa. É a percepção
dessa socialização da política que permite a Gramsci elaborar uma teoria marxista ampliada
do Estado”. 41

Desse período é também o texto “Cultura e democracia no Brasil”, datado


originalmente de 1977-1979 e colocado em obra de 1980, A Democracia como Valor
Universal e Outros Ensaios.
Nos trechos a seguir, podemos observar como se dá essa influência do
pensamento de Gramsci entre os renovadores, primeiro para a apreensão do real:

“Mas, se a revolução ‘pelo alto’ consiste numa forma de induzir a modernização econômica
através da intervenção política, implica, de outro lado, numa ‘conservação’ do sistema
político, embora promova rearranjos nos lugares ocupados pelos seus diferentes
41
Carlos Nelson Coutinho. A dualidade de poderes: introdução a teoria marxista de estado e
revolução. São Paulo: Brasiliense, 1985.
33

protagonistas. Num certo sentido, toda revolução ‘pelo alto’ assume a configuração particular
de uma revolução ‘passiva’, como Gramsci a descreveu no Risorgimento, isto é, de uma
revolução sem revolução, se bem que a recíproca não seja verdadeira, como ilustra o caso
inglês”. 42

Depois, para o próprio caminho do socialismo, onde “essa concepção da ‘democracia


progressiva’ é o uso do caminho italiano para o socialismo, cuja formulação vai se tornando
cada vez mais concreta à medida que avançamos no tempo”. 43
Lukács foi abandonado no momento em que a jovem intelectualidade pecebista
passou da militância cultural para a militância propriamente política. Gramsci suplantou seu
espaço. Segundo Celso Frederico, isso teria acontecido porque ainda que esparsa, a teoria
política do pensamento lukacsiano tem sua matriz no leninismo. O filósofo italiano,

“ao contrário, é um autor que desenvolveu uma teoria política original. Os seus textos – sem a
densidade filosófica e o rigor metodológico de Lukács – voltam-se diretamente para a esfera
do político e abrem pistas novas para a teoria marxista. Por outro lado, o caráter fragmentário
de sua obra (diferentemente do texto sintetizador e totalizante de Lukács) permite uma
interpretação mais aberta e maleável. É por isso, aliás, que o pensamento de Gramsci serviu,
entre outras coisas, à instrumentalização política feita por militantes eurocomunistas italianos,
como Berlinguer, Ingrao, Napolitanao etc. (políticos brilhantes e teóricos inexpressivos)”.44

Barrington Moore Jr. identificou as vias socialista revolucionária, democrática e


autoritária como três possíveis caminhos de chegada à modernidade. Cabe mencionar aqui, o
exemplo do que chamou de “modernização conservadora” era dado pelos Junkers alemães,
que durante bastante tempo conseguiram controlar a transição para o mundo moderno sem
deixar de contemplá-la e inclusive estimulá-la, sobretudo no que tange à industrialização, mas
sem perder tampouco o controle do campo e mantendo suas propriedades oriundas do período
feudal. Os grandes proprietários manteriam, destarte, controle também sobre a força de
trabalho rural, que não seria capaz, portanto, de se libertar de relações de subordinação pessoal
e de extração do “excedente” econômico por meios mais diretos.

42
Luiz Werneck Vianna, Liberalismo e sindicato no Brasil, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 141.
43
Prefácio de Carlos Nelson Coutinho in TOGLIATTI, Palmiro. Socialismo e Democracia: escritos
escolhidos do período 1944-1964; seleção, tradução e apresentação de Carlos Nelson Coutinho - Rio
de Janeiro, Ilha, 1980, p.15.
44
Celso Frederico, “A recepção de Lukács no Brasil”.
34

A percepção da “socialização da política” no Brasil, pelo grupo “renovador”, é a


responsável pela nova estratégia socialista. A constatação da “socialização da política” já
identifica a presença do capitalismo no país. Ou seja, tanto para a elaboração da formação
econômico-social brasileira quanto nos novos planos rumo ao socialismo a influência
gramsciana se faz incrivelmente presente. De fato, a influência de Lukács acaba por resumir-
se à qualidade dessa “socialização da política”, que diferentemente da Europa, no Brasil,
mostrou-se mais tardia graças ao modelo de desenvolvimento do capitalismo. Ora, só muito
recentemente, é que o país dava sinais de estar livrando-se da Ditadura Militar e ao mesmo
tempo, saía dela como um país capitalista. Se o Brasil era capitalista, onde estavam as
condições de democracia que o capitalismo inaugurou na Europa e nos Estados Unidos? Elas
apareceram aqui tardiamente por conta de nosso capitalismo tardio, marcado pela “via
prussiana”, pelas transformações “pelo alto”. Sob o comando da elite política, o capitalismo
não pôde inaugurar a democracia (lembremos que o país está imerso numa ditadura já há
quinze anos, não há como ilustrar o inverso), mas pôde inaugurar a “socialização da política”
porque ela é fruto mesmo do desenvolvimento da divisão do trabalho.

4.2 - A formação econômico-social brasileira

Nas publicações dos intelectuais da Corrente Renovadora, temos uma elaboração, que
é comum aos membros, de uma nova interpretação da formação econômico-social brasileira.45
Em contraposição ao que vinha sendo dito pelo Partido Comunista Brasileiro e pela Terceira
Internacional – que o Brasil era um país agrário, semifeudal, colonial – esses intelectuais
afirmaram que o capitalismo já se desenvolvera no país, quando estava sob o domínio do
conservadorismo autoritário do regime militar e estava marcado pelos laços de dependência.
A formação econômico-social brasileira esteve, desde o início, marcada pela “via
prussiana”, pela “revolução pelo alto”, pela “modernização conservadora excludente”. As

45
A preocupação com o tipo de sociedade e com o modo-de-produção acompanha as ordens do dia da
pesquisa marxista no mundo inteiro. Acontece que “um dos pontos nevrálgicos dos avanços posteriores
a 1960 é o aprofundamento, ao mesmo tempo em teoria e em aplicação, dos conceitos-chave de modo
de produção e formação econômico-social”. Ciro Flamarion S. Cardoso, Héctor Pérez Brignoli, Os
métodos da História, Rio de Janerio, Edições Graal, 1979, p. 400.
35

influências de Gramsci, Lukács e Moore traduziram-se, primeiro, na leitura da realidade


brasileira. Na história do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, teria havido sempre um
reordenamento das forças para que o lado mais “revolucionário” não triunfasse. Assim, o
processo de desenvolvimento do capitalismo inicia-se desde o século XIX, como podemos
perceber no livro As desventuras do liberalismo: Joaquim Nabuco, a monarquia e a república
de Marco Aurélio Nogueira – a primeira edição é de 1984:

“(...) as seis décadas do reinado da casa de Bragança em terras brasileiras representaram a


reiteração de um esforço: o de frustrar, conter e enquadrar o radicalismo que simbolizara as
melhores esperanças dos que haviam feito a Independência e desejado a organização de um
Estado Nacional em bases liberais e modernas”. 46

No país, para o discurso renovador, os movimentos sociais que poderiam ter levado a
uma maior ruptura com o elitismo e com a ordem não o fizeram. Acabaram por caminhar em
direção à modernização excluindo o povo da arena da participação. É interessante ressaltar que
essa utilização do conceito de “via prussiana” toma uma posição frente ao passado e aos
rumos da história. É uma leitura esquerdizante das coisas que se passaram, ou seja, tudo o que
aconteceu não foi “revolucionário” o suficiente, não agiu de verdade em favor das massas, da
maioria excluída. E é ao mesmo tempo, um chamamento, para que agora se faça diferente. Por
exemplo, após o processo de Emancipação Política do Brasil,

“(...) A modernização conservadora, no entanto, aconteceria na república meios de continuar


a se reproduzir. Não se alteraria o caráter de nossa evolução social – permaneceu ela elitista
e marginalizadora da participação popular, conciliadora e autoritária – mas o capitalismo em
gestação ganharia uma forma mais adequada ao seu prosseguimento. A república foi o
caminho através do qual o Estado realizou sua auto-reforma”. 47

Luiz Werneck Vianna publica, em 1976, Liberalismo e sindicato no Brasil, onde


aborda os direitos trabalhistas na Era Vargas. Mais uma vez, o Estado teria conseguido frustrar
as tentativas de maior participação política ou mesmo uma maior democratização dos espaços
sem deixar de prosseguir no desenvolvimento do capitalismo. Atente, nessa passagem, para
duas informações que serão retomadas mais tarde: primeiro, a de que o capitalismo começa a

46
Marco Aurélio Nogueira, As desventuras do liberalismo: Joaquim Nabuco, a monarquia e a
república, São Paulo, Paz e Terra, 1984, p. 19.
36

se desenvolver sem que o latifúndio tivesse sido eliminado (ao contrário do que supunha a
maioria do PCB) e outra, que a participação política da sociedade civil foi frustrada pelo
governo autoritário através da modernização conduzida “pelo alto”:

“A evolução capitalista do latifúndio, vedando uma transformação democrática do campo,


aliado ao fato crucial do processo de modernização da sociedade ter sido conduzido por
lideranças agrárias tradicionais, acabaram por inibir as tendências pluralistas existentes na
sociedade civil da Primeira República. Ao liberalismo sucederá o unitarismo orgânico,
desconforme com a noção de conflito e de qualquer forma de agregação de interesse sediados
por fora do aparato estatal”. 48

O Brasil era um país que conjugava o atraso (o latifúndio) com o moderno (o


capitalismo dependente). Isso porque, as classes dominantes – os latifundiários e a burguesia
em ascensão – conciliaram-se para evitar que as “transformações políticas e a modernização
econômico-social” conduzissem ao poder as massas populares.
Dessa maneira, é que se interpretou a concessão dos direitos trabalhistas na Era
Vargas. Atendeu-se a uma pequena parcela do povo – o proletariado urbano, o funcionalismo
público (aqueles que tinham mais condição de se organizar em movimentos sociais) – para
atenuar as pressões e continuar a garantir a dominação política e econômica.
Percebemos ainda que a eliminação da efetiva “participação política” é responsável
pelas mazelas do quadro econômico e aí, podemos inferir, que no futuro, para o discurso
“renovador”, quando a “participação política” finalmente for alcançada o quadro econômico
necessariamente também muda. Repare bem que, é justamente o contrário que se observava
nas fileiras do Partido ou nos movimentos de luta armada, depois da mudança no quadro
econômico (a superação do capitalismo pelo socialismo com o fim das grandes propriedades
privadas e tudo o mais afim através da insurreição ou não) é que se efetiva a “participação
política” dos populares. É aí que se explica, no nível do discurso, a hierarquia da democracia
política sob as demais ou vice-versa. Confira no trecho a seguir de “Democracia como valor
universal” 49 de Carlos Nelson Coutinho:

47
Idem, p. 23.
48
Luiz Werneck Vianna, Liberalismo e sindicato no Brasil, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 135.
49
Democracia como valor universal foi publicado, pela primeira vez, em 1979, na revista Encontros
com a civilização brasileira n. 19.
37

“(...) as transformações políticas e a modernização econômica-social no Brasil foram sempre


efetuadas no quadro de uma “via prussiana”, ou seja, através da conciliação entre facções das
classes dominantes, de medidas aplicadas de cima para baixo, com a conservação de traços
essenciais das relações de produção atrasadas (o latifúndio) e com a reprodução (ampliada)
da dependência do capitalismo internacional. Essas transformações “pelo alto” tiveram como
causa e efeito principais a permanente tentativa de marginalizar as massas populares não só
de uma participação ativa na vida social em geral, mas sobretudo do processo de formação
das grandes decisões políticas nacionais”. 50

Exemplo da congruência entre Lukács e Gramsci na elaboração da formação


econômico-social brasileira, a “via prussiana” ou a “revolução-restauração”, modelos
explicativos para o autoritarismo no Brasil, acabaram por explicar também o capitalismo
brasileiro marcado pelos laços de dependência em relação aos países centrais, embora isso não
tenha sido previsto pelos filósofos europeus:

“Mas essa modalidade de “via prussiana” (Lênin, Lukács) ou de “revolução-restauração”


(Gramsci) encontrou seu ponto mais alto no atual regime militar, que criou as condições
políticas para a implantação em nosso País de uma modalidade dependente (e conciliada com
o latifúndio)”. 51

A explicação do subdesenvolvimento nos países que alcançam a modernidade


tardiamente não foi prevista por Lukács ou Gramsci. No entanto, os intelectuais “renovadores”
inscrevem o subdesenvolvimento brasileiro num caso da “via prussiana” ou “revolução
passiva”, mas sem considerar “as específicas condições latino-americanas, vale dizer, o
estatuto de ex-colônias, que lhe dá especificidade política, e o estatuto rebaixado da questão da
força de trabalho, escravismo e ‘encomiendas’, que lhe confere especificidade social”. 52
O desenvolvimento tardio do capitalismo no Brasil (a Europa e os Estados Unidos já
são capitalistas no século XIX) levou a uma também tardia socialização da política, sempre
interrompida e recuada, quando parecia que se andava depressa demais. E a fraca e impotente
socialização da política acabou, por sua vez, dificultando o surgimento de uma “autêntica
consciência democrático-popular”, na medida em que a cultura, como modalidade constitutiva
da hegemonia, foi sempre elitista e excludente. Em Realismo e anti-realismo na Literatura

50
C. N. Coutinho, “A democracia como valor universal” in A democracia como valor universal e
outros ensaios, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984, p. 36.
51
Idem, p. 37.
52
Francisco de Oliveira, “O Ornitonirrinco”, Crítica a razão dualista - O Ornitorrinco, Rio de Janeiro,
Boitempo, 2003.
38

Brasileira, livro de artigos escrito pelos autores que darão origem à Corrente Renovadora no
PCB, temos no artigo “O significado de Lima Barreto na Literatura Brasileira” de Carlos
Nelson Coutinho que:

“O caminho do povo brasileiro para o progresso social – um caminho lento e irregular –


ocorreu sempre no quadro de uma conciliação com o atraso seguindo aquilo que Lênin
chamou de ‘via prussiana’ para o capitalismo (...) torna-se particularmente difícil o
surgimento de uma autêntica consciência democrático-popular”. 53

José Antônio Segatto, em sua análise sobre a idéia que os intelectuais eurocomunistas
tinham da formação econômico-social brasileira, observou que,

“Luiz Werneck Vianna (1976) recorre às categorias de via prussiana e via americana de
Lenin para explicar o processo de modernização conservadora da revolução burguesa no
Brasil. O processo em curso desde o século XIX generaliza-se pela ‘via prussiana’ com a
crise da ordem oligárquica e na passagem para o capital industrial - o Estado, autonomizado
das classes e dirigido pelas ‘elites prussianizadas’, faz avançar um projeto modernizador e de
industrialização, com fortes traços corporativos; preserva-se, porém, a estrutura agrária
atrasada e elementos do antigo sistema político”. 54

Na Revolução de 1930, a elite cafeicultora foi desalojada do poder pelos setores


econômicos menos desenvolvidos pela impossibilidade do primeiro em dirigir o processo de
modernização e a partir daí, também, controlar a pressão dos movimentos sociais nos centros
urbanos do Rio de Janeiro e São Paulo. O isolamento da sociedade civil e, portanto, das
questões imanentes que precisavam de soluções rapidamente desalojou o setor capitalista mais
desenvolvido, os cafeicultores paulistas. Werneck Vianna assim colocou que:

“Entre nós, a singularidade da estruturação que denominamos de ‘prussiana’ estaria no fato


do setor agrário mais desenvolvido em termos capitalistas – o agro-exportador – ter sido
desalojado do poder pelo menos desenvolvido. Isso se explica, como vimos, pela
impossibilidade daquele em dirigir o processo de modernização dado a seu isolamento real e
incontornável das demais classes, camadas e estratos sociais em emergência na sociedade
civil. Mas o domínio do aparelho de Estado por parte dessa elite 'atrasada' no econômico lhe

53
Carlos Nelson Coutinho, “O significado de Lima Barreto na Literatura Brasileira”, in Realismo e
anti-realismo na Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972, p. 3.
54
José Antônio Segatto, Revolução e história. Disponível em: <http://www.acessa.com/gramsci>
Acesso em: 04 dez 2005.
39

vai facultar um percurso extremamente rápido no sentido da adoção de novos papéis


econômicos, como o do empresário agrícola, do industrial ou do financista”. 55

Durante os anos da Ditadura Militar, o Brasil conheceu a consolidação do


capitalismo. Ivan Ribeiro juntou-se ao grupo que defendia que o capitalismo desenvolvera-se
sem que o latifúndio tivesse sido eliminado, operando-se sob o autoritarismo:

“A análise das posições de seus principais líderes permite prever que a Frente Liberal vai
incorporar os setores mais lúcidos da burguesia brasileira, que chega agora à sua maioridade
política, após vinte anos de aprofundamento e consolidação do capitalismo em nosso País,
através da modernização conservadora e autoritária no pós-1964”. 56

A consolidação do capitalismo radicalizou a “ocidentalização” da sociedade


brasileira. Ou seja, ao se desenvolver, o capitalismo tornou complexo a divisão social do
trabalho e ainda alargou o número do operariado no país. O fenômeno do crescimento
industrial induzido pelos governos militares tem suas repercussões nas classes trabalhadoras.
O crescimento do operariado industrial ao longo da década de 1970 teve como expoente
principal a indústria automobilística concentrada no ABC paulista. O milagre econômico
brasileiro, que teria garantido as bases de sustentação do regime militar junto às camadas
médias, acabou entrando em declínio a partir de 1973 e constituindo-se num dos elementos
fundamentais para a desagregação da Ditadura. Para Luiz Werneck Vianna,

“O movimento político-militar de 1964 radicalizou a ocidentalização, completando, inclusive


com o recurso à violência política, o processo de imposição capitalista. Esse o traço de
continuidade entre o novo regime e a política tradicional das elites, exercitada ao longo de
sucessivas gerações e em diferentes formas de regime. A radicalização da ocidentalização
realizou-se, pois, à base do reforço dos elementos autoritários presentes na tradição
republicana, intensificando-se a via prussiana de desenvolvimento capitalista”. 57

A Ditadura Militar foi responsável pela consolidação do capitalismo. Ela atuou só na


consolidação. O processo já em curso, desde o século XIX, esteve todo ele marcado pela “via
prussiana”. Já falamos que esse conceito (que não é só esse na verdade, tem a “revolução

55
Luiz Werneck Vianna, Liberalismo e sindicato no Brasil, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 46.
56
Ivan Ribeiro, Agricultura, socialismo e democracia, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, p. 14. *
Publicado em Presença, São Paulo, nº4, agosto/outubro de 1984.
40

passiva” (Gramsci) e modernização conservadora (Moore), indica que por um acordo entre as
facções dominantes, evita-se a “verdadeira revolução”. A elite se organiza, fez isso durante
toda a história e continuará a menos que é claro, se dê a revolução. A “revolução” se dá, se
chega ao socialismo pela ampliação das conquistas democráticas nas instituições burguesas.
Os donos do poder querem continuar sob o autoritarismo, seja no Estado de exceção, seja na
exclusão da participação política:

“A fim de servir ao objetivo estratégico dos dirigentes do regime de progressivamente


realizarem o trânsito de um Estado de exceção para a institucionalização de uma ordem
burguesa autoritária, no quadro de um liberalismo político excludente, concebeu-se um
planejamento com requintes de Estado-Maior, visando ao alargamento de suas bases de apoio
e a fragmentação da oposição. Na verdade, o que se pretende preservar é o formato
autoritário, decorrente da via prussiana de sua imposição do capitalismo brasileiro”. 58

Na análise de Giorgio Baratta, Carlos Nelson Coutinho têm em comum com Sérgio
Buarque de Hollanda a crítica a certa “tradição” nacional. Podemos ter a certeza de que a
crítica é um apelo à mudança. E essa mudança para melhor, essa eliminação desse
traço/tradição que persegue a história brasileira, sem dúvida, daria ao país um futuro próximo
melhor. Baratta afirma que:

“Tanto Buarque como Coutinho posicionam-se duramente contra a ‘tradição’ nacional


hegemônica. Esta tradição, no caso de Buarque, pode ser resumida, para simplificar, nas
qualidades antropológicas, sociais e culturais do 'homem cordial' brasileiro (que entram em
contraste com o desenvolvimento da ‘coisa pública’), enquanto para Coutinho remete ao
leitmotiv econômico-social da história do Brasil (com seus tardios estorvos pré-capitalistas),
que só teria alcançado a modernidade através do que Gramsci chamava de ‘revolução
passiva’ e Lenin e Lukács, de ‘via prussiana’”. 59

Giorgio Baratta estabelece três pontos de influência de Gramsci sobre a análise de


Coutinho para o caso do Brasil:

57
Luiz Werneck Vianna. Questão nacional e democracia: o ocidente incompleto do PCB, Rio de
Janeiro, IUPERJ, 1988, p. 45.
58
Marco Aurélio Nogueira, "Notas sobre a realidade brasileira" in Temas de Ciências Humanas, São
Paulo, Editora Ciências Humanas, 1980, p. 163.
41

“Ele [Coutinho] estabelece precisas afinidades entre os ‘casos’ da Itália e do Brasil. Sublinho
aqui três pontos: 1) ‘revolução passiva’, ‘transformação pelo alto’, ‘restauração-revolução’ e
‘via prussiana’ no Risorgimento italiano e na Independência-consolidação do Estado-nação
no Brasil; 2) peculiaridades do horizonte cosmopolita (para a Itália) e europeu-ocidental
(para o Brasil) tanto na gênese quanto nas perspectivas da unidade nacional e, por
conseguinte, conexão entre desenvolvimento da consciência nacional-popular e dimensão
internacional dessa mesma consciência; 3) centralidade da questão cultural para a ampliação
da democracia, vinculações territoriais dessa questão e, sobretudo, relação orgânica entre
tarefas dos intelectuais ou dos artistas e retomada-valorização do que Gramsci chamava de
‘espírito popular criador’, que é o equivalente ao que Buarque chama de ‘ritmo espontâneo’
do povo”. 60

Os intelectuais “renovadores” não são os primeiros dentro do Partido Comunista


Brasileiro a afirmar que o Brasil tornara-se capitalista. Para Florestan Fernandes, não só o
Brasil já havia iniciado uma revolução burguesa (de evidente tipo não-clássico), tal como sua
formação econômico-social já era bastante complexa e distinta para que fossem aceitas as
generalizações que a IC proclamava. Sem negar que a conservação do “atraso”, da
dependência externa, da “selvagem” exploração do trabalho, do autoritarismo, etc., gera
importantes determinações específicas desse capitalismo tardio, Florestan ressalta também os
traços novos que o capitalismo introduz na vida social brasileira, destacando entre eles a
industrialização e a urbanização, o revolucionamento do universo de valores, a nova
estratificação social, etc.
Caio Prado Jr. foi o primeiro a negar o caráter estrutural dos “restos feudais”, cuja
superação os pecebistas viam como uma revolução agrária e antifeudal. O historiador paulista
denunciou o “apriorismo conceitual” (que levara o PCB a importar os modelos da IC e a
construir com eles a sua imagem de Brasil), mobilizando a conceituação leninista de
antifeudalismo, cujos pressupostos – economia camponesa, extração não-econômica do
excedente, ocupação efetiva da terra, empresariamento da produção etc. – não encontrava
correspondência no país. Caio Prado Jr., por outro lado, esteve preso a concepções
“circulacionistas” de capitalismo. Na verdade, a solução da questão nacional não era a

59
Giorgio Baratta, “Antônio Gramsci entre a Itália e o Brasil”, in COUTINHO, Carlos Nelson,
TEIXEIRA, Andréa de Paula (orgs.). Ler Gramsci, entender a realidade. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2003, p. 17.
60
Idem, p. 20.
42

revolução democrático-burguesa, mas, no abandono do sentido externo que possuía a


economia nacional.
Já observamos, como a influência de Lukács e Gramsci se traduziu numa nova
interpretação da formação econômico-social brasileira. Agora, vamos ver como a partir daí,
essa influência também se traduz numa sub-cultura política comunista, sugerindo novas
diretrizes para um novo planejamento programático no Partido Comunista Brasileiro.

4.3 - Democracia como estratégia

Desde a Declaração de Março de 1958 que o Partido Comunista Brasileiro vinha


assumindo em suas propostas táticas a democracia, porque essa era condição básica para se
operar a primeira etapa da “revolução” – a Revolução Burguesa.61 No pós-64, a democracia é
a tática para ser usada na derrubada da ditadura. Se a democracia é a tática, ficou subtendido
para os “renovadores” de que a democracia não era a estratégia. Ou seja, no programa do
Partido, a democracia serve para que se alcance o socialismo e não há referência de que a
democracia, como foi alcançada nas instituições burguesas, devesse ser mantida no regime
socialista. Esse é o ponto do conflito: no entendimento do que é a democracia ou qual fator da
democracia deve ser privilegiado. Simplificando, podemos resumir que o conflito gerava em
torno de se colocar a democracia política como possibilidade de fundar a democracia social e
econômica.
A Declaração não rompeu com a forma para se operar a transição ao socialismo em
duas etapas, herdadas da Terceira Internacional desde a década de 1920. Os “renovadores”
defendiam a idéia de que a “revolução” brasileira não ocorreria em etapas, como já
observamos, embora a manutenção da democracia como tática continuasse a ser vital para a
derrubada do regime militar. O que aparece de novo é a democracia como estratégia, não mais

61
Baseando-se na Revolução Francesa, Marx e Engels nos anos 1848/50 formularam análises e
proposições teórico-políticas acerca da revolução democrático-burguesa como pressuposto para a
revolução socialista. Estas teses e concepções foram retomadas e reelaboradas pelos marxistas russos
no início do século XX e tiveram grande incidência no debate e na prática política, tanto na Rússia,
como em muitos outros países posteriormente através da Internacional Comunista.
43

a democracia só como tática. Ou seja, um dos objetivos finais dos comunistas a ser alcançado
deveria ser a democracia (é claro, ao lado do socialismo afinal são comunistas). Ainda que o
termo aparecesse, não raras as vezes, sem adjetivações nos textos, é evidente que se tratava de
uma democracia política. A preocupação em salientar a democracia como estratégia quer dizer
transitar ao socialismo no espaço das instituições burguesas. Destarte, ficava fora de
cogitação, a insurreição em qualquer momento, já que a luta pela “renovação democrática no
Brasil – precisamente por recorrer à ‘guerra de posição’ como método e por afastar
resolutamente qualquer tentação ‘golpista’ ou ‘militarista’ – implica ainda conceber a unidade
como valor estratégico”. 62
Para o discurso renovador, a redemocratização da sociedade brasileira não tem que
ser apenas para derrotar o regime de exceção, ela está no conteúdo estratégico da “revolução
brasileira”. Ou seja, nossa sociedade socialista será fundada e mantida pela democracia:

“(...) a renovação democrática do conjunto da vida nacional – enquanto elemento


indispensável para a criação dos pressupostos do socialismo – não pode ser encarada como
um objetivo tático imediato, mas aparece como o conteúdo estratégico da etapa atual da
revolução brasileira”. 63

Se a democracia como conteúdo estratégico, No prefácio que escreveu na edição


brasileira dos escritos escolhidos de Palmiro Togliatti, fundador do Partido Comunista Italiano
(PCI), Carlos Nelson Coutinho afirma que:

“(...) a democracia política não é uma etapa transitória na luta pelo socialismo, mas sim um
valor permanente, um conjunto de relações sociais a serem conservadas e elevadas a nível
superior também durante a construção do socialismo. E essa concepção democrática da
transição – concebida como um avanço progressivo através de realização de profundas
reformas de estrutura, do encaminhamento de soluções positivas e construtivas para todas as
grandes questões nacionais – implica o abandono da idéia de uma transição em ‘dois tempos’,
ou seja, da rígida divisão entre um tempo de reformas democráticas e um outro ‘tempo’ no
qual se daria a revolução socialista, entendida como a eclosão súbita de uma insurreição,
como uma Hora-H, algo similar à tomada do Palácio de Inverno”. 64

62
Carlos Nelson Coutinho, “A democracia como valor universal” in A democracia como valor
universal e outros ensaios, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984, p. 46-7.
63
Ibidem, p. 20.
64
Prefácio de Carlos Nelson Coutinho in TOGLIATTI, Palmiro. Socialismo e Democracia: escritos
escolhidos do período 1944-1964; seleção, tradução e apresentação de Carlos Nelson Coutinho - Rio
de Janeiro, Ilha, 1980, p. 15.
44

Tendo em vista o teor das discussões acerca do papel estratégico da democracia na


transição para o socialismo, o periódico oficial do PCB, Voz Operária, acabou abrindo espaço
para os debates na tiragem de dezembro de 1978, o que pode ser notado no artigo escrito por
Josimar Teixeira:

“Não temos uma concepção instrumental de democracia. A democracia não é, para nós, um
estágio transitório do qual nos valeríamos para preparar a instalação de um tipo de dominação
de classe formalmente anti-democrático. A democracia, ao contrário, é um princípio
permanente de nossa atividade é o eixo que articula nossas propostas táticas imediatas com
nossa estratégia de mais longo alcance”. 65

O mesmo ocorreu no jornal Voz da Unidade de maio de 1980, no artigo de Armênio


Guedes, onde explicita: “Pensamos que o socialismo no Brasil vai ser uma conquista das
massas [...] E, para isso, o terreno mais favorável é o da luta democrática, o da comparação
entre as posições das várias forças que vão apresentar alternativas para a vida do país”. 66
Para a Corrente Renovadora, passou a ser importante repensar a experiência dos
países do chamado “socialismo realmente existente” porque esses não tinham solucionado a
questão democrática. Se o capitalismo chegou a essas liberdades democráticas antes e melhor
que qualquer país socialista, na transição para o socialismo era fundamental que tais liberdades
fossem mantidas. Podemos observar que o autor procura assegurar a importância das
conquistas democráticas nos regimes capitalistas para o conjunto da humanidade:

“(...) é verdade que muitas das liberdades democráticas em sua forma moderna (o princípio
da soberania popular, o reconhecimento legal do pluralismo etc) têm nas revoluções
burguesas (...) as condições históricas da sua gênese; mas é igualmente verdade que, para o
materialismo histórico, não existe identidade mecânica entre gênese e validade. (...) nem
objetivamente, com o desaparecimento da sociedade burguesa que lhes serviu de gênese, nem
subjetivamente, para as forças empenhadas nesse desaparecimento, perdem seu valor
universal muitas das objetivações ou formas de relacionamento social que compõem o
arcabouço institucional da democracia política”. 67

65
Josimar Teixeira no Voz Operária dez/1978 in Raimundo Santos, O Pecebismo inconcluso,
Sociedade do Livro/ Ed. Universidade Rural, 1994, p. 39-40.
66
Armênio Guedes, Voz da Unidade, maio de 1980.
67
Carlos Nelson Coutinho, “A democracia como valor universal” in A democracia como valor
universal e outros ensaios, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984, p. 22.
45

No Brasil, o desenvolvimento do capitalismo através da “via prussiana” gerou uma


tardia “socialização da política” só completada sob o regime militar. Os setores da sociedade
civil viram se fragilizados com o autoritarismo do Estado. Isso se deu ao longo do curso
histórico no país. Assim,

“Uma direta conseqüência da ‘via prussiana’ foi gerar uma grande debilidade histórica da
democracia no Brasil. Essa debilidade não se expressa apenas no plano do pensamento social;
(...); tem conseqüências também na própria estrutura do relacionamento entre o Estado e a
sociedade civil; já que ao caráter extremamente forte e autoritário do primeiro corresponde a
natureza amorfa e atomizada da segunda. (...) Essa debilidade histórica-estrutural da
democracia aliada à presença de um regime abertamente autoritário, fez com que o processo
de renovação democrática assuma como tarefa prioritária de hoje a construção e/ou
consolidação de determinadas formas de relacionamento social que, num primeiro momento,
ao nível da organização estatal, não deverão provavelmente ultrapassar os limites da
democracia liberal. Uma análise objetiva da atual correlação de forças faz prever que os
setores dominantes do novo regime liberal continuarão a ser, durante um certo tempo, os
monopólios nacionais e internacionais, ainda que essa dominação seja exercida de modo
menos absoluto e despótico do que sob o atual regime autoritário”. 68

Leandro Konder, em seu livro intitulado A democracia e os comunistas no Brasil – a


1ª edição é de 1980 –, evidencia que dentro do Partido “(...) ainda não se reconhecia aquilo que,
nas conquistas democráticas foram realizadas sob o capitalismo e dentro de limites liberais, precisa ser
preservado e elevado a nível superior”. 69
A “democracia como estratégia” é o postulado principal do grupo “renovador”
enquanto grupo envolvido nessa disputa interna ao PCB. Esse termo foi usado para marcar a
oposição em relação à “democracia como tática” do PCB. Para os “renovadores”, o Partido
acertou no taticismo democrático, porque, assim, conseguiu manter-se longe dos movimentos
de luta armada. Entretanto, esqueceu-se de valorizar a “socialização da política” que acontece
sob o capitalismo. Tardia, mas existente, a “socialização da política” no Brasil, deveria ser
preservada e ampliada. Afinal, é através dela que se pretendia chegar a sociedade socialista. É
a valorização da participação política do povo que deu origem ao movimento. A “democracia
como estratégia” é, na verdade, a “democracia política” no objetivo final, maior e
preponderante.

68
Ibidem, p. 38.
69
Leandro Konder. A democracia e os comunistas no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1980, p. 109.
46

Caso não se tratasse da “democracia política” no que a Corrente Renovadora chamou


de “democracia como estratégia”, então, não teria havido nenhuma disputa no interior do
Partido. Afinal, a “democracia social ou econômica” é o pressuposto de qualquer sociedade
socialista, pelo menos, no nível programático. Era assim no programa estratégico dos
pecebistas. Na verdade, o programa estratégico dos pecebistas não era contra a participação
política do povo, mas, eles acreditavam que ela só é capaz de acontecer quando se chega
primeiro a democracia “social”. Fora daí, da sociedade socialista, não pode haver democracia,
porque o político vai ser sempre dirigido pela classe burguesa.
A entrada de novas questões no cenário das discussões (a ecologia, a questão de
gênero, racial, etc.) mudou a perspectiva de grande parte da esquerda brasileira. Era preciso
pensar, agora, com essas novas categorias de subjetividade. Os movimentos organizados da
sociedade, principalmente no Sudeste, reivindicavam direitos e garantias que não tinham mais
ligação só com o econômico. Suas necessidades não decorriam somente das desigualdades
sociais. Esse foi um fenômeno que toda a esquerda teve que lidar, sobretudo, ao entrar a
década de 1970:

“Multiplicaram-se, sobretudo nos últimos tempos, organismos de democracia direta, sujeitos


políticos coletivos de novo tipo (comissões de empresa, associações de moradores,
comunidades religiosas de base etc); ganharam também autonomia e representatividade, na
medida em que se desligaram praticamente da tutela do Estado, antigos organismos de
massas, como alguns dos principais sindicatos do País, ou poderosos aparelhos privados de
hegemonia, como a OAB, a CNBB, a ABI (...) O fortalecimento da sociedade civil abre
assim a possibilidade concreta de intensificar a luta pelo aprofundamento da democracia
política no sentido de uma democracia organizada de massas, que desloque cada vez mais
'para baixo' o eixo das grandes decisões hoje tomadas exclusivamente 'pelo alto'”.70

A “democracia como estratégia” da Corrente Renovadora excluiu a “democracia como


tática” do PCB. Absorve a contribuição do Partido – a da “via pacífica” –, mas acreditou dar
um passo à frente. Mais do que a fundação da “revolução” através da ampliação liberdades
democráticas, a “democracia como estratégia” significa não abandonar a democracia (tal como
se conquistou até agora) na hipótese de um futuro socialista. Quanto dessa estratégia tem que
ver com a crença no socialismo próximo e quanto tem que ver com a redenção do socialismo?

70
Carlos Nelson Coutinho, “A democracia como valor universal” in A democracia como valor
universal e outros ensaios, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984, p. 23.
47

Expressar que o socialismo deve vir acompanhado da "democracia política" é uma


necessidade para um futuro tranqüilo ou, na verdade, é uma tentativa de se redimir pelo
passado? Para responder a isso, seria necessário alargar a investigação para além dos
objetivos. Entretanto, podemos enumerar algumas evidências de que, pelo menos, o discurso
“renovador” é, também, para livrar-se do passado anti-democrático do socialismo.
A primeira, conforme iremos observar mais adiante, é que o discurso "renovador"
transforma o caráter da “via pacífica” da revolução brasileira contida na Declaração de Março
de 1958 em inovação democrática pecebista, originada por conta dos desdobramentos do
relatório Kruschev. Contudo, a “via pacífica” da revolução brasileira é uma orientação da IC
para os países coloniais e semi-coloniais. Quase todos os partidos comunistas da América
Latina acabaram adotando a “via pacífica” da “revolução” em seus países. A exceção ficou
por conta dos rachas nesses partidos que deram origem aos movimentos de luta armada.
A segunda evidência é a ânsia por mostrar o vínculo histórico entre socialismo e
democracia política. Um vínculo que começa mais cedo, bem antes da publicação da
Declaração de Março de 1958. Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho, principais
expoentes da Corrente Renovadora, mostraram, respectivamente, como o PCB achara-se
democrático entre os anos de 1945-47 e alguns autores marxistas foram verdadeiros
defensores da democracia política. 71
A luta pela democracia política como oportunidade para a chegada ao poder foi
descartada pelo grupo “renovador”:

“A luta pela democracia não é, portanto, um expediente tático ao qual os comunistas


recorrem como a um escudo contra a repressão e o arbítrio, mas uma necessidade histórica,
concreta, o socialismo a ser construído pelo povo brasileiro, como em toda parte, exige a
conquista e a ampliação das liberdades democráticas e será a expressão da mais ampla
liberdade e democracia”.72

Observamos nesse sub-capítulo, a veemência desses pecebistas em se diferenciarem do


restante do partido que, na opinião dos “renovadores”, viam na democracia um mero

71
Cf. Leandro Konder, A democracia e os comunistas no Brasil, Rio de Janeiro, Graal, 1980 e Carlos
Nelson Coutinho, "A democracia como valor universal" in A democracia como valor universal e outros
ensaios, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984.
48

“instrumento” para a derrota do regime militar e para o triunfo socialista. Vejamos, agora, de
que maneira foi traçada uma identidade com o grupo renovador da década de 1950 e o que têm
dito a historiografia sobre a Corrente Renovadora do Partido Comunista Brasileiro.

4.4 - Herdeiros de 1958

Como já foi mostrado, os intelectuais “renovadores” achavam-se herdeiros da


renovação pecebista dos anos 50/60, ao mesmo tempo em que combatiam a concepção
“instrumental” da democracia. Ou seja, a “tática democrática”, iniciada nos anos 50, cujo
primeiro documento a falar dela é a Declaração de Março de 1958 foi um “acerto” da política
do Partido contra o seu passado “golpista” e, além disso, tornou possível a “estratégia
democrática”, conduzida por eles, “renovadores”. Embora, justamente por resumir-se à
“tática” (um meio), a democracia não teria sido valorizada como um fim em si (a estratégia).
Assim, a Corrente Renovadora julgava que a orientação dominante do PCB era de perceber a
Frente Democrática adotada no pós-64 apenas como uma forma tática na luta contra a ditadura
quando deveria estar para além dos objetivos mais imediatos. Para os “renovadores”, o Partido
não se aproveitou da “herança de 1958” como eles o fizeram: aprofundando a democracia, que
de “tática” passou a “estratégia”.
Percebemos que eles criaram uma identidade com o grupo renovador da década de
1950 de duas maneiras aparentemente paradoxais: na crença de que na renovação pecebista
dos anos 50, cuja expressão máxima é a Declaração de Março de 1958, estão os gérmens do
aprofundamento da questão democrática nas fileiras do Partido nos anos 70, e na negação do
que afirmava a Declaração acerca da formação econômico-social brasileira e, por
conseguinte, da democracia como meio de se desenvolver o capitalismo no Brasil.
A Corrente Renovadora afirmava que a democracia como estratégia – democracia
73
como valor universal (1979) – era uma continuação da democracia como tática –
Declaração de Março (1958). Isso porque, em 1979, a questão democrática teria sido
preservada e elevada a um nível superior, obedecendo ao método da dialética marxista

72
Idem.
49

(alfehbung). Podemos inferir que, com isso, há certa reserva por parte desses intelectuais para
não serem descaracterizados como marxistas, porque, afinal, formam o primeiro grupo na
esquerda brasileira a rejeitar a transferência de poder que não se dê pelo voto.
74
Essa inovação é evidente para o restante do Partido e, também, para o próprio
grupo. Portanto, é indispensável que se observe, dentro do discurso, a afirmação de tudo
aquilo que pode ser identificável como vindo de um marxista, o que garantiria a eles um traço
de continuação e identidade:

“O conjunto dos documentos aqui publicados, como poderá ser facilmente observado, revela
a existência de uma marcante continuidade dialética na política do PCB: os novos rumos
traçados em 1958 permanecem, sendo sistematicamente atualizados – conservados e elevados
a um nível superior – nos anos subseqüentes”. 75

O método da dialética lembra uma espiral com vários níveis e pode dar conta de
explicar incontáveis fenômenos, como o do curso histórico, por exemplo. O “nível superior”
da democracia é o binômio democracia social-democracia política em contraposição ao “nível
inferior” que é a exclusiva preocupação dos comunistas com a democracia social em
detrimento da democracia política. Além disso, essa democratização política da Corrente
Renovadora, acreditam eles, está num nível superior que a democracia dos “renovadores” da
década de 1950 porque leva em conta a socialização da política, a efetiva participação política
das massas nos rumos da nação. Assim, “a ‘elevação a nível superior’ pressupõe igualmente
um aprofundamento político da democracia: a ampla incorporação organizada das grandes
massas à vida nacional”. 76
Os “renovadores” apostam na Declaração de Março de 1958 como marco inicial de
um processo de valorização democrática nas fileiras do Partido. O processo não pára nesse
ponto, vai se reafirmando, se aprofundando até culminar em seu ponto mais alto – que é a
própria Corrente Renovadora, que é a “radicalização democrática” que eles defendem.
Lembremos, entretanto, que o PCB oscilou entre uma posição mais à esquerda no pré-64 e que

73
Numa alusão ao texto homônimo de Carlos Nelson Coutinho.
74
A oposição aos “renovadores” acusava o grupo de defender a “democracia burguesa”.
75
O PCB em São Paulo: documentos (1974-81), São Paulo, Livraria editora ciências humanas ltda,
1981, p. XII.
50

uma dissidência, em 1962, vai formar o Partido Comunista do Brasil com tendência maoísta.
Além disso, depois do Golpe Militar, importantes quadros deixam o Partido, indo para a luta
77
armada. Com tantas idas e vindas, incertezas sobre os caminhos da ditadura e futuro da
“revolução” não é de se estranhar que foi só no início dos anos 80 que essa identidade com os
renovadores de 1958 começou a ser criada, quando os pecebistas viram na Declaração
Política de Março de 1958, a primeira manifestação que os ajudaram “a compreender a
absoluta necessidade de uma aliança de forças políticas e sociais, ampla e heterogênea, para
78
derrotar a ditadura resultante do golpe militar de 1964”.
79
Depois do fracasso da luta armada , ficou claro para a maioria esmagadora dos
pecebistas que o Partido havia “acertado” em sua política frentista no pós-64. Logo a seguir,
com a promessa da abertura “lenta, segura e gradual” do regime militar anunciada por Geisel,
em 1974, a noção de “sucesso” é ainda maior, porque entendem que a política frentista é
responsável pela esperada derrota da ditadura.
Essa política teria sido iniciada com a Declaração de Março de 1958 e reiterada no V
(1960) e no VI (1967) Congresso do PCB. Quase todos de dentro do Partido sentem-se bem
com a política frentista, embora, um só grupo vá reivindicar o nome de “renovador”, tal como
foi chamado na década de 1950 o grupo responsável pela Declaração de Março de 1958. A
razão disso está no movimento que levou à publicação do célebre documento.
A Declaração de Março de 1958 é fruto direto do XX Congresso do Partido
Comunista da União Soviética (PCUS), ocorrido em 1956, quando Kruschev denuncia os
crimes de Stalin, mesmo que sejam observadas uma forte tendência ao fim do sectarismo no
Partido desde o suicídio de Vargas, em 1954. E, é também, somente após o XX Congresso do
PCUS que se inicia, ainda que parcialmente, o rompimento com a ortodoxia stalinista. A partir

76
Carlos Nelson Coutinho, “Democracia como valor universal”, in Democracia como valor universal e
outros ensaios, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984, p.41.
77
Na Declaração do Comitê Central de dezembro de 1962 fica claro a dúvida então introduzida no
gradualismo da política das “soluções positivas” e de reformas parciais e abre a porta para o chamado
combate à “conciliação de direita” de Jango, acenando com a idéia da formação de um outro governo
mais disposto a acelerar o tempo das reformas de base. Cf. Marçal Brandão, 1995.
78
David Capistrano Filho, Voz da Unidade, 30/1 a 5/2/81 citado por Dulce Pandolfi. Camaradas e
Companheiros: História e Memória do PCB. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Fundação Roberto
Marinho, 1995, p. 200.
79
A guerrilha urbana pode ser considerada desmantelada já em 1969 e o último foco de guerrilha rural
a ser derrubado – a Guerrilha do Araguaia – foi em 1973.
51

daí, como o movimento comunista, o marxismo brasileiro começou então a se abrir, ainda que
timidamente, para a recepção de autores até este momento tidos como “heterodoxos”, ou
mesmo como “renegados” e “revisionistas”. Lukács e Gramsci, como já foi observado,
estavam nessa lista e influenciaram fortemente os “renovadores”.
A herança de 1958 significou para os “renovadores” e para a historiografia atual, o
início da “evolução do pensamento democrático” no interior do Partido. Porque, nas palavras
de Vianna – membro da “Corrente” – num livro escrito quase vinte anos após ter-se iniciado a
luta interna no PCB:

“A Declaração de Março, do PCB, em 1958, pela primeira vez na história da esquerda no


país, se identifica com uma proposta de ruptura que não inclui como necessário um
‘momento explosivo do tipo francês’. Com essa Declaração, a revolução passiva deixa de ser
o cenário exclusivo das elites, passando a incorporar o projeto de ação do ator da antítese,
cujo objetivo é o de introduzir o elemento ativo no processo de transformismo que estava em
aviso: ‘O caminho pacífico da revolução brasileira é possível em virtude de fatores como a
democratização crescente da vida política, o ascenso do movimento operário e o
desenvolvimento da frente única nacionalista e democrática em nosso país.’(PCB, 1980,
p.22)”. 80

Vianna atribui, ainda, certa responsabilidade aos “renovadores” da década de 1970 e


da década de 1950 pelo processo de abertura democrático brasileiro:

“Contudo, a forma de resistência à ditadura que abriu caminho para a transição à democracia
foi a das rupturas moleculares, tendo como inspiração principal os temas da democracia
política, os quais, sobretudo a partir de meados dos anos 70 foram crescentemente vinculados
aos da agenda da democratização social. Foi deste binômio democracia política -
democratização social, já identificado, quase duas décadas atrás, como estratégico pela
esquerda na Declaração de Março, que se extraiu uma política de erosão – e não de
enfrentamento direto – das bases de legitimação do poder autoritário, combinando-se a
eficácia nas disputas eleitorais – então heterodoxamente convertidas em ‘formas superiores
de luta’ – com a defesa dos interesses do sindicalismo e a explicitação de uma nova pauta de
direitos a serem conquistados pelos setores subalternos”. 81

No entender do discurso renovador, a democracia política no seio dos comunistas tem


uma origem e ela é no PCB: “O retorno ao tema da democracia progressiva, precocemente

80
Luiz Werneck Vianna, A revolução passiva: Iberismo e Americanismo no Brasil, Rio de Janeiro,
Editora Revan, 1997, p. 19
81
Idem, p. 22-3.
52

descoberto pela Declaração de 1958, embora tributário de um viés terceiro-mundista,


82
consubstanciava uma proposta acabada de ação”. O tema da democracia e da criação da
Declaração aparecia ligada, nos discursos, as inconveniências do autoritarismo, mesmo que do
lado socialista:

“Tendo sua elaboração iniciada nos desdobramentos do XX Congressso do PCUS (1956), a


nova política representará também os primeiros ajustes de conta do PCB com o stalinismo,
com seus dogmas, seu taticismo, suas concepções instrumentalistas, seu sistema mandonista,
seu mecânico centralismo, seus dirigentes arrogantes e auto-suficientes. A Declaração de
Março de 1958, neste sentido representa o início de uma nova fase na vida do Partido,
redefinindo a compreensão que os comunistas tinham do movimento democrático e
nacionalista, da política de frente única e do papel da democracia na luta pelo socialismo. E é
inegável que, a partir dela, o PCB passou a se inserir de forma mais ativa na sociedade
brasileira”. 83

A Declaração é o marco inicial de um processo visto com bons olhos. O processo


anterior esteve marcado fortemente pelo sectarismo, pela fraca penetração nos sindicatos e
escassa inserção na sociedade. Esse período começa mais ou menos em 1947, quando o
Partido tem seu registro eleitoral caçado, e vai até ao Programa de 1954. A expressão máxima
desse período é o Manifesto de Agosto de 1950, cujos “erros” também irão ser lembrados
pelos “renovadores”. 84 No entanto, o Partido Comunista Brasileiro já havia sido um partido de
massas em 1945. Os “renovadores” poderiam ter tornado célebre algum documento de 1945 e
85
não o fizeram, apesar de enaltecer bastante a postura do Partido em 1945. O Programa de
1954 também já está próximo programaticamente da Declaração, nas suas considerações
sobre o fim do sectarismo no Partido e o abandono da insurreição como meio para chegar ao
socialismo. 86
Se voltarmos às origens da Declaração, verificamos que a crise que se abate no
movimento comunista em virtude do relatório Kruschev tem muito a ver com a preocupação
da Corrente Renovadora – os perigos do anti-democratismo do socialismo real. Embora, só

82
Luiz Werneck Vianna, “Nova esquerda e cultura política” in Raimundo Santos (org.), A esquerda e
uma nova formação política, Instituto Astrojildo Pereira, Brasília, Estação gráfica, 1998, p. 41.
83
Marco Aurélio Nogueira, PCB: vinte anos de política, 1958-1979. São Paulo, LCH, 1980, IX.
84
Ver Leandro Konder. A democracia e os comunistas no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1980.
85
Idem.
86
Ver Raimundo Santos, “Crise e pensamento modernos no PCB dos anos 50”, in REIS FILHO,
Daniel Aarão (org.). História do Marxismo no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. v. 1.
53

isso não explique o movimento dos “renovadores” da década de 1980. No próximo sub-
capítulo, iremos observar, com mais atenção, a experiência concreta do socialismo no
pensamento “renovador”.
Depois de uma pausa para assegurar porque a Declaração e não outro documento
tornou-se “símbolo”, “marco inicial” da “questão democrática” pela Corrente Renovadora na
história do Partido, quiçá da esquerda brasileira, voltemos ao corolário direto dessa identidade
criada com o grupo renovador dos anos 50 – a “evolução do pensamento democrático no
PCB”. 87
Clayton Cardoso Romano afirma que a cultura política democrática no PCB tem
origem na política frentista da IC:

“A cultura política democrática estabelecida pelos comunistas, portanto, teve no extrato


comunista ‘renovador’ sua expressão mais avançada, concentrada na conversão da questão
democrática em princípio da política do PCB e desenvolvida a partir de uma política (e
cultura) frentista, cuja concretização pôde ser verificada na participação dos comunistas no
interior da Frente Democrática”. 88

Mas, para Romano, a cultura política democrática pecebista só é iniciada com a


publicação da Declaração de Março de 1958 e termina com os “renovadores”:

“De fato, pode-se afirmar que a partir da Declaração de Março, com a presença da tese
democrática na linha política do PCB, a cultura política da esquerda no Brasil assumiu um
novo caráter, uma nova postura. E a novidade vai além do viés essencialmente político com
que, a partir da Declaração, o PCB procurava captar a realidade brasileira, desviando-se da
leitura ‘economicista’ efetuada até então pelo marxismo-leninismo pecebista. Mais que isso,
com a inclusão da questão democrática na esfera discursiva dos comunistas, foi a partir da
Declaração de Março de 1958 que se inaugurou a possibilidade dos comunistas
concentrarem suas ações pautadas numa estratégia ‘ocidentalista’, ao menos no ‘plano das
idéias’”. 89

É certo que o PCB não pegou em armas para implantar o socialismo ou sequer para
derrotar a ditadura quando as outras esquerdas nascidas de seu interior o fizeram. Mas não é

87
Raimundo Santos utiliza essa expressão em, pelo menos, dois de seus livros: O Pecebismo
inconcluso (1994) e Modernização e política (1996).
88
Clayton Cardoso Romano, Da abertura à transição: o PCB e a cultura política democrática da
esquerda brasileira. 2001. 175 p. Dissertação (Mestrado em História e Cultura Política) - Faculdade de
História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista, Franca, p. 152.
54

igualmente certo que o frentismo de 1958 tem que ver com a “radicalização democrática” de
1979. Na verdade, a Declaração de Março de 1958 estava de acordo com a proposta definida
pelo VII Congresso da Internacional Comunista, que orientava o abandono da luta direta pelo
poder para privilegiar a perspectiva defensiva e etapista de aliança subordinada com as forças
anti-fascistas e antioligárquicas, o que deixava a América Latina fora da “atualidade da
revolução”. Contudo, numa etapa posterior, a contradição entre burguesia e proletariado
passaria a estar no centro da luta social.
Romano assim com Werneck Vianna, admite certa responsabilidade aos
“renovadores” pelo processo de redemocratização da sociedade brasileira. Não me estenderei
sobre esse ponto por não caber dentro dos objetivos dessa monografia. Mas, esse engajamento
dos comunistas no Movimento Democrático Brasileiro (MDB) é o que lhes confere a
responsabilidade na transição democrática:

“Após o exílio do Comitê Central, os comunistas ‘renovadores’ encontraram condições que,


de alguma forma, possibilitava o desenvolvimento de uma ‘nova política’ no interior do PCB.
Uma política que procurava desenvolver ‘historicamente’ a questão democrática exposta na
Declaração de 1958 e, ao mesmo tempo, conferir um corte, uma ruptura capaz de romper
com os laços dogmáticos que ligavam o partido com a tradição e a herança terceiro-
internacionalista, apostando no desenvolvimento e aprofundamento da questão democrática
(democracia política e democracia social), na aliança frentista representada pelo MDB e na
tese de transição pactuada, convergindo a esquerda democrática a setor liberal-democrático
brasileiro. De certo modo, tais comunistas enxergavam na confirmação da perspectiva da
derrota do regime, justamente o desenvolvimento de uma política voltada, essencialmente, à
questão democrática; estabelecendo, de fato, uma cultura política democrática ligada ao
frentismo pluriclassista e reformador.” 90

Raimundo Santos também acredita numa “evolução do pensamento democrático”


pecebista, que não se resolverá com os “renovadores”, que permanecerá inconclusa ao não sair
a discussão dos marcos da tradição intelectual marxista. Essa evolução vai dar-se através da:

“bibliografia sobre a modernização das sociedades agrárias, especialmente Lênin, Lukács,


Gramsci e Moore, [porque] constitui uma constante em vários autores “eurocomunistas”, com
fortes indícios de que tal presença lhes induziu a converter a questão do prussianismo – vale
dizer, o reconhecimento de uma via não-clássica de desenvolvimento capitalista –, de um
pano de fundo recortado inicialmente para uma nova compreensão da literatura, em chave

89
Idem, p. 45.
90
Idem, p. 93.
55

explicativa da formação social brasileira, até tornar-se uma referência que revalorizará a
mobilização pela redemocratização política do pós-64 numa ótica mais abrangente”. 91

A adoção da “via pacífica para o poder” não era exclusiva do Partido Comunista
Brasileira, os demais partidos comunistas ocidentais também adotariam essa postura. A “via
pacífica” estava de acordo com as resoluções da IC e da União Soviética para os países latino-
americanos. Lembremos que, “os partidos políticos da velha estirpe nasceram, em geral, nos
anos 20. Contavam com uma base urbana, logo se transformaram em adeptos da chamada 'via
pacífica para o poder', e mantiveram vínculos estreitos e muitas vezes servis com a União
Soviética”. 92
A Declaração de Março de 1958 é, sem dúvida, um documento que se coloca contra
os crimes stalinistas, denunciados pela primeira vez em 1956. É a primeira vez que,
seriamente, os desmandos da União Soviética sob o resto do mundo são criticados por outros
comunistas. Mas, à respeito da “tática democrática” para chegar ao socialismo contida na tal
Declaração não tem que ver, exclusivamente, com o relatório Kruschev. A “via pacífica para
o poder” estava de acordo às resoluções da União Soviética para os comunistas da América
Latina. A crítica, iniciada em 1956 no interior do PCB nos anos 50, reduziu-se à quase uma
crítica ao “culto à personalidade”. A Corrente Renovadora sabia disso, por isso, no discurso
encontramos “ampliação”, “aprofundamento”, “elevação” da democracia iniciada em março
de 1958. É na “tática democrática” e na crítica ao mandonismo de tipo soviético da
Declaração que a Corrente Renovadora fundamenta identidade criada com o grupo renovador
dos anos 50, embora o sentido de valorização da democracia seja outro e a crítica ao
“socialismo real” de outro tipo nos anos 80.

5 - A Democracia e os comunistas

91
Raimundo Santos, Modernização e política. Rio de Janeiro: Forense Universitária/Edur, 1996, p. 53.
92
Jorge Castañeda, A Utopia Desarmada: intrigas, dilemas e promessas da esquerda latino-americana,
São Paulo, Companhia das Letras, 1994, p. 33.
56

Caracterizar e privilegiar a democracia são práticas de quase todos já há algum


93
tempo. No discurso comunista, de uma maneira geral, eles esclarecem que a preocupação
das pessoas com a democracia é modelada pela sua importância/necessidade de acordo com as
classes. Na verdade, os comunistas e os não-comunistas tenderiam a valorizar os aspectos
democráticos que mais lhe parecessem ausentes para igualar os indivíduos abrindo, assim, a
possibilidade de trilhar o caminho da justiça. Vejamos como os comunistas têm qualificado a
democracia na análise de Quartim de Moraes:

“Quando qualificado, seu significado [o da democracia] pode ser: a) pejorativo, como na


expressão “democracia formal”; b) descritivo e politicamente ambivalente, como nas
expressões “democracia burguesa”, “democracia social” ou “social-democracia”; c)
normativo e politicamente positivo, como em democracia “proletária”, “operária” etc. As
expressões “democracia formal” e “democracia burguesa” recobrem, com a diferença de
conotação indicada, o campo semântico da noção de liberalismo, isto é, da ideologia e das
instituições que os ideólogos de capital costumam erigir, salvo em situações de crise maior,
em expressão paradigmática da legitimidade política”. 94

Um dos pontos principais desse trabalho reside em responder o porquê de um grupo


de intelectuais oriundos do Partido Comunista Brasileiro têm a vontade e mesmo a consegue,
95
de imprimir um novo significado à democracia dos comunistas no Brasil. Esse capítulo
propõe-se, exatamente, a esboçar as razões da “virada democrática” na esquerda brasileira de

93
“Com efeito, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, na esteira da derrocada do
nazifascismo, as ditaduras tenderam a ser demonizadas, consideradas nocivas à convivência política
nas sociedades. De outro, as democracias, por todos disputadas, cada partido, cada sociedade, cada
pensador tratando de demonstrar a superioridade das respectivas propostas, comprometidas com o
aperfeiçoamento das instituições democráticas” Daniel Aarão Reis Filho, “Ditadura e democracia:
questões controvérsias” in MARTINHO, Francisco Carlos P. (org.). Democracia e ditadura no Brasil.
Rio de Janeiro: EdUERJ, 2006, p. 13.
94
João Quartim de Moraes, “O Programa Nacional-Democrático: fundamentos e permanência”, in
MORAES, João Quartim de; ROIO, Marco Del. História do Marxismo no Brasil. Campinas: Editora
da Unicamp, 2000. v. 4, p. 153.
95
Chamei a Corrente Renovadora de comunistas porque, primeiro, esse é o seu desejo, segundo,
porque não houve abertamente esse tipo de contestação – o de abandono do socialismo como fim.
Ainda que a maioria tenha deixado o PCB, não quer dizer que tenham suprimido sua identidade como
comunistas. Já observamos que a “democracia como estratégia” esteve alicerçada na retórica comunista
– onde pudemos senti-la mais foi exatamente no aprofundamento da “questão democrática”, que teria
sido herança deixada pela Declaração de Março de 1958. Já seus opositores no Partido, acreditavam
que a esse “aprofundamento da questão democrática” corresponderia, de fato, no abandono do
socialismo como fim e que ao invés, de comunistas, a Corrente Renovadora seria social-democrata.
57

tradição marxista e no que consistia essa mudança no pensamento comunista que se julgava
mais apta para atender às necessidades da realidade nacional.
Antes disso, porém, precisamos indicar algumas informações vitais para
entendimento do contexto dos renovadores. A primeira delas é que a maioria dos governos
latino-americanos que se acharam no poder graças à implantação de ditaduras eram de direita.
Acontece também que “como houve muito mais regimes de direita e de centro-esquerda na
história recente da América Latina, seu balanço contém um número muito maior de violações
96
à democracia e aos direitos humanos que o da esquerda”. Na verdade, quando a esquerda
latino-americana foi para a luta armada, procurava legitimar-se na defesa da democracia,
interrompida com a ascensão dos regimes militares. A valorização da democracia das
esquerdas revolucionárias, no entanto, ainda não era aquele de respeitabilidade ao jogo
democrático eleitoral, como apontou Rollemberg:

“A luta das esquerdas revolucionárias nos anos 1960 e 1970 pelo fim da ditadura não visava
restaurar a realidade do período anterior a 1964. Embora buscasse se legitimar na defesa da
democracia, estava comprometida, sim, com a construção de um futuro radicalmente novo,
no qual o sentido da democracia era outro”. 97

Por outro lado, no Brasil, o desrespeito ao jogo democrático não era privilégio da
esquerda. Nos momentos anteriores ao Golpe de 1964, era assim para quase todos os grupos
políticos que disputavam o poder:

“Na verdade, porém, os valores democráticos não estruturavam a sociedade brasileira. As


tradições e cultura política não haviam sido gestadas segundo referências democráticas. Às
vésperas de 1964, o golpe estava no ar e podia vir – e vinha – de diferentes partes: a renúncia
dos ministros militares à posse de João Goulart, a solução parlamentarista, a tentativa de o
presidente já empossado governar sob estado de sítio, as articulações entre militares e civis,
as tentativas de organização da luta armada, a formação de organizações que a defendiam”. 98

Na história recente do Brasil e da América Latina, os governos autoritários de direita


violaram a democracia e os direitos humanos. O processo de redemocratização da sociedade

96
Jorge Castañeda, Op. Cit, p. 52.
97
Denise Rollemberg, “Esquerdas revolucionárias”, in FERREIRA, Jorge, DELGADO, Lucilia de
Almeida Neves (orgs.) O Brasil republicano. O tempo da ditadura. Regime militar e movimentos
sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v.4.
98
Idem, p.
58

brasileira – que podemos situá-lo a partir de 1974 – era um resultado da vontade de


99
interrupção do governo militar e seu exercício de poder arbitrário e violento. A direção do
PCB já havia estabelecido a “democracia como tática” para derrota do regime militar. Tanto
para a direção partidária quanto para a Corrente Renovadora, qualquer movimento mais
brusco ou insurreto poderia comprometer o processo, em andamento, de redemocratização e
recolocar no poder o militarismo de direita.
Não houve divisões entre o que os intelectuais “renovadores” e o restante do PCB
pensavam sobre a necessidade da pacífica derrubada da ditadura militar. A “democracia como
estratégia” – esse é o ponto do dissídio – tem sua origem justificada no “socialismo realmente
existente”. Não é que a “democracia como estratégia” não tenha a ver com as condições
internas do país. Mas, sobretudo, essa ofensiva nominal “socialismo com democracia” (que
salva e redime os comunistas da experiência concreta – não a nossa, a deles, sobremaneira, a
da URSS) advém do que sucedeu no resto do mundo. Concluímos que a experiência “anti-
democrática” que se opera nos países socialistas que serviu de espaço de observação para a
Corrente Renovadora vêm de fora do Continente. Mas, que da América Latina e do Brasil,
vem outra experiência, também negativa – o momento de implantar o socialismo, o momento
de fazer a “revolução” – a experiência dos grupamentos armados que fracassaram. Desvendar
o imaginário da Corrente Renovadora sobre a experiência concreta do socialismo é o objetivo
no sub-capítulo intitulado Os “renovadores” e o “socialismo realmente existente”.
Os intelectuais da Corrente Renovadora fugiram das adjetivações em torno da
democracia até então traçadas pela maioria dos comunistas brasileiros. Evitou-se, no discurso
“renovador”, o uso do termo “democracia proletária” ou o seu oposto a “democracia
burguesa” para referirem-se ao projeto de democracia que desejavam ou à democracia que, de
fato, vivia-se no país. Não obstante, inevitavelmente, caracterizaram e adjetivaram a

99
Construir a democracia para derrotar a ditadura é um fenômeno que não terminou com as promessas
do governo Geisel, em 1974. É necessário desacreditar que “assegurada a democracia (...) a ditadura
estava destinada a finar-se. Nada mais falso. Para os que estavam então no campo de luta, de modo
algum os resultados que depois apareceriam como “inevitáveis” eram considerados como tal; ao
contrário, foi preciso muita decisão, perseverança e coragem para enfrentar as angústias e as incertezas
daqueles ásperos tempos”. Daniel Aarão Reis Filho, “Ditadura e democracia: questões controvérsias”
in MARTINHO, Francisco Carlos P. (org.). Democracia e ditadura no Brasil. Rio de Janeiro:
EdUERJ, 2006, p. 21.
59

democracia. Esclarecer as prioridades, inovações e permanências da democracia objetivada


pelos “renovadores”, além de expor sua relação conflitante com relação ao Partido Comunista
Brasileiro e a tradição marxista é o objetivo do sub-capítulo intitulado Que democracia é
essa? Um dos pontos principais dessa monografia reside em responder o porquê de um grupo
de intelectuais oriundos do Partido Comunista Brasileiro têm a vontade e, mesmo, consegue,
de imprimir um novo significado à democracia dos comunistas no Brasil. Esse capítulo
propõe-se, exatamente, a esboçar as razões da “virada democrática” na esquerda brasileira de
tradição marxista e no que consistia essa mudança no pensamento comunista, que se julgava,
mais apta para atender às necessidades da realidade nacional.
Os países centrais passaram para a modernidade antes dos países periféricos. Na
Europa, o desenvolvimento do capitalismo substituiu a sociedade estamental pela sociedade de
classes. Além disso, alterou também a ordem política. Os burgueses, donos do poder
econômico, ascenderam ao poder político acabando com os privilégios da nobreza. A riqueza,
nunca antes nessa extensão, adquiriu mobilidade e deixou de estar vinculada à terra. Segundo
Marx, a colonização do mundo moderno permitiu o acúmulo de capital necessário ao
desenvolvimento do capitalismo. O capitalismo desenvolvera-se tardiamente nas ex-colônias.
Evidentemente, as conseqüências do desenvolvimento do capitalismo não foram as mesmas ao
redor do globo.
Já vimos que, à época do movimento da Corrente Renovadora, o PCB seguindo a
tradição terceiro-internacionalista não considerava o Brasil um país já capitalista. Ao
contrário, a Corrente afirma que o capitalismo já se desenvolvera no país. Não foi como no
Estados Unidos ou na Europa. No caso brasileiro, verificou-se a "via prussiana", uma de
desenvolvimento capitalista de tipo não-clássico que traz embutido o mal do autoritarismo.
Por conta disso, no nosso caso, ao contrário do caso europeu (exceto, é claro, a Prússia) e dos
Estados Unidos, o desenvolvimento do capitalismo não veio acompanhado de processos
democratizantes da sociedade e da política.
Os intelectuais da Corrente Renovadora acreditavam que poderiam inverter essa via
de desenvolvimento capitalista que legava ao Brasil a falta de democracia. Mostrar como isso
aconteceu no discurso "renovador" é o objetivo do sub-capítulo intitulado Modernidade,
Capitalismo e Democracia. Além disso, para além do discurso "renovador", pretendemos
indicar as novas questões iniciadas na realidade do Brasil moderno.
60

5.1 - Os “renovadores” e o “socialismo realmente existente”

Se, de um lado, o marxismo havia se transformado numa ortodoxia justificadora do


“socialismo realmente existente” para muitos grupos comunistas dentro e fora dos países onde
a “revolução” triunfara, de outro, o marxismo proposto por Gramsci passou a ser defendido
por outros setores da esquerda para combater justamente o socialismo real. Como já
observarmos, o filósofo italiano passa a ser valorizado no movimento comunista a partir do
XX Congresso do PCUS, em 1956. A Corrente Renovadora se utiliza do marxismo proposto
por Gramsci para afirmar que esse é o socialismo que devemos ter no Brasil, em contraposição
ao socialismo tipo “oriental” típico dos países do Leste Europeu. 100
Além da leitura gramsciana dos “renovadores” ser utilizada para a nova interpretação
da formação econômico-social brasileira, ela é usada também para propor um novo programa
estratégico dos comunistas: o socialismo com democracia. Na verdade, esses dois resultados
estão interligados e encerram uma relação de conseqüência, porém não exclusiva. Na medida
em que o Brasil tornara-se capitalista pela via não clássica (“via prussiana”, “revolução
passiva”), era preciso também “atualizar” a “revolução”: um caminho sem irrupções bruscas
(o da “democracia progressiva”, da “guerra de posições”, da organização da sociedade civil
em movimentos de massa). A atualização da “revolução” é uma necessidade porque a
sociedade brasileira, ocidentalizada (graças ao desenvolvimento capitalista durante o regime
militar), não suportaria regimes golpistas e autoritários. Mas essa relação de conseqüência

100
Do início dos anos 70 até meados dos 80, a esquerda brasileira ainda não questiona o caráter
democrático da revolução e da sociedade cubanas. Em contraposição a grande imprensa que acusava o
regime cubano de ditadura política acompanhada de miséria social, a esquerda brasileira procurava
ressaltar as conquistas sociais de Cuba. “Apesar da centralidade da questão democrática, a polêmica a
respeito da natureza do regime político cubano - partido único, imprensa estatizada, etc. - não viria à
tona com a força que adquirirá no período seguinte. (...) fosse o Partido dos Trabalhadores, o Partido
Comunista Brasileiro ou setores da esquerda dentro do Partido do Movimento Democrático Brasileiro
(...) não estava em jogo o modelo de sociedade proposto por Cuba, nem suas posições internacionais ou
a estratégia de poder que definiu a vitória em 1959” Emir Sader, “Cuba no Brasil: influências da
revolução cubana na esquerda brasileira” in REIS FILHO, Daniel Aarão (org.). História do Marxismo
no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. v.1, p. 178. Para a Corrente Renovadora, assim como para
o restante da esquerda brasileira, a trajetória “anti-democrática” da Revolução Cubana ainda não é
abordada à época da movimentação interna ao PCB. Portanto, nesse capítulo, não consideramos Cuba
61

entre a leitura do real (formação econômico-social brasileira) e o projeto de ação (democracia


como estratégia) não explica por si só o fenômeno.
A “atualização da revolução” – do caminho e do fim (a “democracia como
estratégia”) – acontece não só – pela necessidade imposta do novo momento do cenário
brasileiro “ocidentalizado”, mas também, pelo que se passou nos países que se acharam
socialistas. Só quase vinte anos depois, depois da chegada culturalista de Lukács e Gramsci é
que teve início a “questão democrática” no interior do PCB. A chave para entendermos isso
está na própria noção de contexto da Corrente Renovadora – a saber – a percepção de que a
falta de democracia política no “socialismo realmente existente” não se resumiu aos crimes
stalinistas e a chegada da modernidade na sociedade brasileira, a sua “ocidentalização”
propiciada pelo desenvolvimento do capitalismo sob a direção do regime militar (a ser
estudado no próximo sub-capítulo).
No Brasil, o relatório de Kruschev teve repercussões, inclusive, com a publicação da
Declaração de Março de 1958 no PCB. No entanto, como já vimos detalhadamente, nem na
Declaração nem fora dela, o Partido Comunista Brasileiro rompeu com as orientações da
Internacional Comunista; pelo contrário, mesmo nas resoluções do V (1960) e do VI (1967)
Congressos do PCB foram reiteradas as propostas de março de 1958. Até esse período, para a
maioria dos pecebistas, tudo o que havia sido dito sobre os crimes “stalinistas” havia se
restringido ao problema do culto à personalidade. A Corrente Renovadora rompe com a
URSS, e invoca a Declaração de Março de 1958, como o primeiro documento do Partido a
queixar-se da falta de democracia nos países do Leste e a propor um caminho democrático
para a “revolução brasileira”. 101
Contudo, evidências dentro discurso “renovador” esclarecem que a “democracia
como estratégia” não decorre exclusivamente da nova interpretação da formação econômico-

– não da mesma maneira obviamente que a URSS – para entendermos a presença do “socialismo real”
no movimento da Corrente Renovadora.
101
Em 1962, uma dissidência já havia rompido com a URSS. Embora, diferentemente da Corrente
Renovadora, os dissidentes que deram origem ao PC do B não abandonaram o marxismo-leninismo em
nome da falta de democracia no modelo bolchevista. À época da sua fundação, o PC do B seguia a
linha maoísta. Eles acreditavam que a vitória da “revolução brasileira” aconteceria nas lutas travadas
no campo. No pós-64, outros grupos saídos do interior do PCB, inspirados na Revolução Cubana
adotaram o “foquismo”. Nenhum outro grupo anterior a Corrente Renovadora rompeu com o Partido
ou com o modelo bolchevista por considerarem estes “anti-democráticos”.
62

social brasileira. A estratégia democrática para os comunistas do Brasil tem que ver com a
própria noção de contexto dos renovadores para o mundo socialista – a ausência da
democracia nos países do Leste Europeu.
A formação econômico-social brasileira, pensada como “ocidente” em oposição ao
“oriente” – grosso modo a URSS – não comporta a “revolução” de tipo bolchevique nem,
tampouco, o partido de tipo leninista. Mas, só quando a democracia é pensada como estratégia,
ou seja, quando passa a condição de futuro (após a superação do capitalismo), e não mais de
condição do presente (ou do estabelecimento do capitalismo), é que a Corrente Renovadora
mostra suas intenções com a democracia. Suas intenções – acreditam eles – estão em
desacordo com o restante do PCB, com os pecebistas dissidentes do pós-64 e com a URSS.
Quando a Revolução Socialista triunfou em 1917, na Rússia, abriu-se uma
possibilidade real para pôr fim às mazelas do proletariado em todo o mundo. Na verdade, mais
à frente – à época da IC –, o socialismo esteve ainda mais próximo dos sonhos do proletariado
mundial.
Da mesma maneira que a Revolução Russa se projetou no imaginário dos comunistas
por todo o globo a repercussão do relatório Kruschev acabou se instalando também como um
marco inicial, como a primeira demonstração da falta de democracia no socialismo.
Não é que a URSS tivesse acabado com a democracia que a Rússia e os outros países
do Leste haviam experimentado antes de 1917. À época da Revolução Bolchevique, a
democracia liberal era um privilégio da Europa Ocidental. Foi, mais ou menos por isso, que
Gramsci afirmou que o modelo insurrecional que tomou de assalto o Palácio de Inverno não
daria certo não daria certo na Europa dos anos 20. A sociedade européia não comportaria nem
tampouco nem precisaria da importação desse modelo. A Corrente Renovadora disse o mesmo
para o caso do Brasil nos anos 70. A sociedade brasileira ocidentalizara-se e dispensava os
“golpismos”.
A experiência do “socialismo real”, sem dúvida, contou para relacionar, de uma
maneira nova, socialismo e democracia, não só para os “renovadores”, mas também para todos
os pensadores do movimento comunista internacional e fora dele. A área do globo que foi
chamada “socialismo realmente existente” à contemporaneidade dos “renovadores” era:
63

“(...) toda a área a leste de uma linha que ia, grosso modo, do rio Elba na Alemanha até o mar
Adriático e toda a península Balcânica, com exceção da Grécia e da pequena parte da Turquia
que restava no continente. Polônia, Thecoslováquia, Hungria, Iugoslávia, Romênia, Bulgária
e Albânia passavam agora para a zona socialista, assim como a parte da Alemanha ocupada
pelo Exército Vermelho após a guerra e transformada em uma "República Democrática
Alemã" em 1954. A maior parte da área perdida pela Rússia depois da guerra e da revolução
pós-1917 e um ou dois territórios antes pertencentes ao império habsburgo também foram
recuperados ou adquiridos pela União Soviética entre 1939 e 1945 (...) com a transferência do
poder para regimes comunistas na China (1949) e, em parte, na Coréia (1945) e no que fora a
Indochina francesa (Vietnã, Laos, Camboja), no curso da guerra de trinta anos (1945-1975).
Houve mais algumas extensões da região comunista um pouco mais tarde, no hemisfério
ocidental - Cuba (1959) e África (na década de 1970)”. 102

Nem em todos esses lugares, a União Soviética foi responsável pela chegada da
“revolução”, ou sequer, influiu, de maneira significativa, no modo como esses países
passariam a viver. Contudo, a queixa maior dos “renovadores” é contra a URSS, contra a
Internacional Comunista (IC) e sobremaneira, a influência no Partido Comunista Brasileiro.
A crítica era especialmente destinada a mal elaborada análise da atualidade da
revolução na América Latina e da ignorância das peculiaridades do Brasil, inserindo-o no
mesmo modelo a ser adotado pelos outros países latino-americanos, pela África e pela Ásia.
Através do discurso desses intelectuais, identificamos a recusa à “importação de modelos”.
Essa recusa é uma crítica ao PCB por sua subordinação aos ditames soviéticos. Assim,

“(...) A questão da democracia como centro estratégico e tático não se fundamentaria em


opções doutrinárias ou pela importação de modelos, provindo da articulação entre os níveis
supra e infra-estruturais, que se realizariam na conjuntura de maneira ainda favorável à
reprodução econômica, social e política do capitalismo”. 103

Verificamos também a crítica quanto à pretensão da URSS em colocar-se como


“modelo universal” de socialismo a ser seguido. Fora daí, do marxismo-leninismo, não há
socialismo. Lembremos que Lukács e Gramsci, as maiores influências desses intelectuais, são
autores renegados do marxismo. Os outros países que queiram ser socialistas podem passar
para o próximo modo-de-produção sem (na verdade, não devem) precisar passar pela
insurreição como na Revolução Bolchevique:

102
Eric J. Hobsbawm. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 364.
64

“E também esse tópico se liga estreitamente ao conceito de ‘democracia progressiva’, à


questão do caminho italiano (nacional) para o socialismo. A necessidade de elaborar projetos
de transição para o socialismo que se baseiem organicamente na compreensão das condições
concretas de cada país implica o abandono de qualquer pretensão de ‘aplicar’ normas gerais,
de assumir uma experiência histórica concreta como ‘modelo universal’ de socialismo”. 104

A experiência concreta do socialismo é criticada, entretanto, o socialismo possui


outras maneiras de se desenvolver que redimiria a experiência anti-democrática. Para Ivan
Ribeiro:

“(...) Não se trata de negar o que foi feito de bom e de ruim, mas de ter a coragem de procurar
entender as causas do que aconteceu e, a partir daí, afirmar com coerência e firmeza que o
socialismo que queremos construir não quer ser à imagem e semelhança do até agora
realizado”. 105

A Corrente Renovadora acha-se herdeira da Declaração porque enxerga que ela, a


Corrente, é a continuação da democratização política iniciada em 1958. Para eles, a
democracia política contida na Declaração é a “via pacífica” da revolução democrática-
burguesa. Entretanto, a “via pacífica” não teve origem somente nas repulsas aos crimes
stalinistas. Na verdade, o documento seguia a orientação da IC. Mas, de qualquer maneira, o
PCB mostrou-se indignado com as atrocidades em nome da “revolução”. O relatório Kruschev
foi a primeira evidência do problema da falta de democracia nos países socialistas. A
Declaração de Março foi o primeiro documento oficial do Partido a falar disso.
A “socialização da política” não aconteceu nos países do Leste. Foi o que permitiu as
arbitrariedades no mundo socialista sob o comando de Stalin. Foi também o que permitiu que
a situação não se alterasse depois sob o comando dos outros líderes da URSS. Resumindo, o
“socialismo realmente existente” levou a publicação da Declaração, levou ao rompimento da

103
Marco Aurélio Nogueira, “Notas sobre a realidade brasileira” in Temas de Ciências Humanas, São
Paulo, Editora Ciências Humanas, 1980, p. 161.
104
Prefácio de Carlos Nelson Coutinho in TOGLIATTI, Palmiro. Socialismo e Democracia: escritos
escolhidos do período 1944-1964; seleção, tradução e apresentação de Carlos Nelson Coutinho - Rio
de Janeiro, Ilha, 1980, p. 17.
105
Ivan Ribeiro, Agricultura, socialismo e democracia, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, p. 14. *
Publicado em Presença, São Paulo, nº4, agosto/outubro de 1984, p. 13.
65

Corrente Renovadora com a URSS. A importância do “socialismo realmente existente” está no


movimento que deu origem ao grupo e nos mecanismos de construção da identidade do grupo.
A Corrente Renovadora coloca a Declaração como marco inicial de seu próprio
movimento porque vêem na repulsa as arbitrariedades de Stálin o começo de sua
“radicalização democrática”. A Declaração de Março de 1958 é o primeiro choque com o
mundo socialista que eles não desejam. Para a Corrente Renovadora, se as arbitrariedades de
um líder, de só uma pessoa, foram possíveis é porque a “socialização da política” não se
verificou ao lado da democratização social. Entedemos o chamamento da Corrente ao
“socialismo com democracia” da seguinte maneira: somos socialistas e lutamos pela
democracia – e se já nos dissemos “comunistas”, a democracia de que estamos falando é a
democracia política.
No próximo sub-capítulo intitulado Modernidade, Capitalismo e Democracia,
pretendo indicar como no discurso “renovador” a “questão democrática” acha-se intimamente
ligada a transformação social no capitalismo. E ainda, como isso se refletiu na elaboração de
um programa estratégico dos comunistas no Brasil.

5.2 - Modernidade, Capitalismo e Democracia

Até agora, já mostramos como a Corrente Renovadora elaborou sua interpretação


para a formação econômico-social brasileira. A consolidação do capitalismo no país introduzia
uma mudança no programa estratégico dos comunistas: a democracia. O aumento da produção
e da produtividade, o crescimento populacional, a alteração do espaço físico – tudo isso, ou
melhor, as relações sociais que se modificaram por causa disso – é o pano de fundo dessa
valorização da democracia. São as mudanças verificadas na sociedade brasileira em
decorrência do estabelecimento do capitalismo responsáveis pela defesa da “democracia como
estratégia” no programa para os comunistas elaborado pelos intelectuais “renovadores”.
Para a Corrente Renovadora, a modernização do Brasil “ocidentalizou” a sociedade,
impedindo que a “revolução” se instaurasse nos moldes “orientais”. Gramsci afirmou que no
Ocidente a “socialização da política” em curso desde mais ou menos 1870 (como
conseqüência do desenvolvimento do capitalismo) impossibilitou o êxito da Revolução
66

Socialista de tipo bolchevique na Europa dos anos 20. De acordo com a sua interpretação de
Gramsci, o grupo de intelectuais “renovadores” partem do pressuposto de que as “liberdades
democráticas” (que correspondem mesmo à “socialização da política” decorrente da “via
prussiana” no caso brasileiro) são (e mesmo devem ser) irreversíveis e, portanto, nenhuma
estratégia socialista que se pretenda atual deve ignorar isso – o Brasil é moderno, capitalista e
tem tudo para ser mais “democrático”.
Para a Corrente Renovadora, a sociedade brasileira “ocidentalizara-se” nos últimos
anos. Estava pronta para o merecido e desejado aprofundamento da democracia. À sua
“ocidentalização” correspondia o abandono do modelo soviético – tipo oriental – do
marxismo. No discurso renovador, o tornar-se “ocidente”, em oposição ao seu passado
“oriente”, significava que, a modernidade obtida através do desenvolvimento capitalista não
iria retroceder em suas conquistas democráticas.
Como já vimos, os “renovadores” não são os primeiros a afirmar, dentro do PCB, que
o Brasil já se tornara capitalista. Todavia, esses intelectuais são os primeiros a colocar no
desenvolvimento capitalista o surgimento de novas questões que se identificariam com as
“liberdades democráticas”. A "virada democrática" na tradição marxista não é exclusiva da
Corrente Renovadora no interior do PCB. Para fora do Partido e mesmo longe da influência
de Gramsci, as mudanças de paradigma na esquerda brasileira (inclusive naquela oriunda da
luta armada) começou a se mostrar em meados dos anos 70 em virtude, principalmente, do
objetivo em derrotar a ditadura. 106
No final dos anos 70, para a Corrente Renovadora, mas também para o resto da
esquerda, as questões estavam estruturadas sob outros pontos, como apontou Maria Paula
Nascimento de Araújo:

“Na década de 1970, principalmente a partir de 1974, os pontos que determinavam os


diferentes alinhamentos entre partidos e organizações de esquerda eram outros – embora
alguns persistissem com novas roupagens. Na verdade, podemos classificar de três formas os
pontos em torno dos quais a esquerda se dividia e se agrupava: a) uma questão estratégica:
"reforma e revolução" (que era uma derivação da crítica à concepção de etapas); b) uma
questão tática: a luta pelas liberdades democráticas; c) uma questão filosófica política: como

106
É o caso, por exemplo, do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
67

encarar e se relacionar com os movimentos específicos, a fragmentação e a valorização da


subjetividade”. 107

Como demonstrou Virgínia Fontes, depois do fracasso da luta armada, para a


esquerda, a democracia decorria do estabelecimento do capitalismo:

“Ora, após o golpe de Estado no Brasil, mas, sobretudo, após o fracasso dos movimentos
armados de oposição aos militares, a idéia de democracia é retomada com uma nova
significação, mas sempre sobre o mesmo terreno. A constatação da existência do capitalismo
no Brasil justificava as reivindicações democráticas. A partir de então, a democracia, mais do
que o resultado dos conflitos sociais – ou até de uma revolução – decorria das condições
gerais do estabelecimento do capitalismo”. 108

As conquistas democráticas já alcançadas deveriam se constituir em base para a


derrota do regime militar. Nos últimos tempos, multiplicou-se alguns “sujeitos políticos
coletivos” de novo tipo (comissões de empresa, associações de moradores, comunidades
religiosas de base etc.); antigos organismos de massas, como alguns dos principais sindicatos
do país ou poderosos aparelhos privados, como a OAB, a CNBB e a ABI, ganharam
autonomia e representatividade, na medida em que se desligaram praticamente da tutela do
Estado. O surgimento de novos atores sociais e a organização da “sociedade civil” daria fim ao
regime ditatorial e não abria espaço a formação de outros (nem sequer do lado socialista).
Daniel Aarão Reis Filho colocou que na modernidade dos dias de hoje, não há mais espaço
para ditaduras:

“Esses processos, que se tornam mais visíveis como resultados das pesquisas ‘revisionistas’,
suscitam um questionamento maior até que ponto as estruturas cada vez mais complexas do
mundo moderno urbanizado não seriam incompatíveis com os propósitos unificadores e
uniformizadores das ditaduras que, imersas em suas utopias autoritárias, tudo querem
regulamentar e controlar? Em outras palavras, brechas democratizantes impossíveis seriam
um produto necessário das complexas estruturas de sociabilidade geradas pela modernidade
desenvolvida.”109

107
Maria Paula de Araújo. Utopia Fragmentada: as novas esquerdas no Brasil e mundo na década de
1970. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000, p. 116.
108
Virgínia Maria Fontes. Démocratie et révolution: sciences sociales et pensée politique au brésil
contemporain. ( 1973-1991). Tese de Doutorado. Université X, Nouterre. 1994, 143. Tradução de Sofia
salvatori.
109
Daniel Aarão Reis Filho, “Ditadura e democracia: questões e controvérsias”, in MARTINHO,
Francisco Carlos P. (org.). Democracia e ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2006.
68

A partir do final da década de 1970 e do início da de 1980, os pecebistas, mesmo os


não-“renovadores”, passaram a acreditar que o retorno ao jogo democrático, traria de volta a
legalidade do Partido, clandestino desde 1947. Assim, no semanário Voz da Unidade, achamos
as manchetes: “NÃO HÁ DEMOCRACIA SEM LEGALIDADE DO PCB”, “LEGALIDADE
DO PCB É PRESSUPOSTO DA DEMOCRACIA”, “A LUTA PELA LEGALIDADE DO
110
PCB É A LUTA PELA DEMOCRACIA”. Sobre a valorização da democracia, Francisco
Weffort apontou que:

“A luta política no Brasil, hoje, é tanto uma luta pelo poder em torno do significado da
democracia. Em outras palavras: a democracia é o terreno onde grupos e partidos que
representam interesses e ideologias diversas lutam pelo poder. É o por isso que todos (ou
quase todos) têm de incluir entre seus objetivos a conquista da democracia ou, para os setores
mais ligados ao regime, o aprimoramento da democracia”. 111

Virgínia Fontes também identifica dentro da nova esquerda a identificação entre


capitalismo e democracia. Além disso, ela observa que passou-se a enxergar a história
brasileira como dirigida pela elite, com permanente exclusão do povo ou, por assim dizer, dos
setores mais revolucionários. A “via prussiana” é a teoria de subdesenvolvimento do Brasil
que enfraquece o povo e sua chance de estar no poder, através da crescente “socialização da
política”. Dessa forma, a autora esclarece que:

“A idéia de continuidade fundamental na história brasileira desejava-se inscrita em uma


perspectiva de denúncia da dominação elitista. No entanto, ela reforça, paradoxalmente, o
enraizamento desta dominação. De uma parte, ela retira os elementos conflituosos que
fizeram parte do conflito histórico, mesmo quando uma dominação era substituída por outra.
Deste modo, ela torna ‘útil’ todo o esforço e toda a luta social por um raciocínio segundo o
qual ‘mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas. De outra parte, e aqui
tocamos o ponto mais delicado, ela se une, sem dificuldades, à concepção precedente – a
identificação entre capitalismo e democracia – instaurando uma concepção de futuro como
uma continuidade”. 112

110
Manchetes coletadas no Voz da Unidade (nº 145. São Paulo, 26 a 30 mar de 1982; nº 151. São
Paulo, 05 a 11 mar de 1982; nº 229. São Paulo, 30 nov a 06 dez de 1984; nº 230. São Paulo, 08 dez de
1984).
111
Francisco Weffort, Por que democracia?. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 80.
112
Virgínia Maria Fontes, Op. cit., p. 190.
69

Como já observamos, no discurso renovador, a gênese da democracia está nas


instituições burguesas e, portanto, se há capitalismo tem que haver democracia. No entanto, a
formação econômico-social brasileira esteve, ao longo de sua história, marcada pela “via
prussiana” e o capitalismo havia se desenvolvido enquanto o país encontrava-se sob a
Ditadura Militar.
O Brasil não se achara democrático, embora já capitalista. E é a partir daí, dessa
necessidade, de “democratizar” o país, que o conceito de democracia sofre uma virada dentro
da tradição pecebista. Vamos observar, agora, como deu-se esse processo de “valorização
democrática” na Corrente Renovadora inserindo-a num quadro mais amplo – que é o das
transformações nas esquerdas marxistas depois do fins dos regimes ditatoriais militares que se
instalaram na América Latina. Além disso, vamos analisar o que significava essa
“radicalização democrática” para o movimento comunista no Brasil.

5.3 - Que democracia é essa?

É preciso se debruçar sobre o significado de democracia que desejava a Corrente


Renovadora. Da mesma maneira que, é preciso considerar que no movimento comunista
internacional, de uma maneira geral, mesmo não agindo a favor de uma democracia
representativa, o fundamental, para os comunistas, é que estivessem agindo no interesse do
povo, da classe operária, da maioria. Esse é o significado que a maioria dos comunistas dá a
democracia em suas propostas: a de ser benéfica para a maioria de toda a gente. Ainda assim,

“os movimentos trabalhistas e socialistas de massa que surgiram em toda parte na Europa no
fim do século XIX, como partidos, sindicatos trabalhistas, cooperativas ou uma combinação
disso tudo, eram fortemente democráticos tanto na estrutura interna quanto nas aspirações
políticas. Na verdade, onde não existia ainda constituições baseadas em amplo direito de
voto, eram as principais forças a pressionar por elas e, ao contrário dos anarquistas, os
marxistas estavam fundamentalmente empenhados na ação política. [Foi, contudo,] o sistema
político da URSS, depois também transferido para o mundo socialista, que rompeu
decisivamente com o lado democrático dos movimentos socialistas”. 113

113
Eric J. Hobsbawm. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 376.
70

Daniel Aarão Reis Filho utilizou-se de um método para caracterizar o conceito de


democracia entre os comunistas brasileiros. Dividiu o conceito em três modalidades:
democracia social, democracia nacional e democracia política. A partir daí, observou que no
Partido Comunista Brasileiro: em 1950, a ênfase era na democracia social e nacional e o
Manifesto de Agosto de 1950 era a expressão por excelência desse momento; a partir de
1952/54, aumentou pouco a dimensão da democracia política com a defesa da Constituição e
do caminho eleitoral e o documento por excelência é a Declaração de Março de 1958.
Destarte, o autor concluiu que:

“em resumo, se tomarmos os anos 50 e 60 como referência, podemos concluir que as


organizações comunistas refletiam e formularam sobre as dimensões nacional e social da
democracia. Mas avançaram muito pouco (e quando o fizeram, de forma ambígua) no
tratamento da dimensão política da democracia”. 114

Maria Victória Benevides discorda de Daniel Aarão em dois pontos principais: 1º) o
que autor afirma do PCB e de seu comportamento anti-democrático serve para quase todos os
partidos da época, inclusive a UDN. 2º) não dá para destacar à época o que era político. “O
político, como nós entendemos hoje, da participação política ampliada, da cidadania, e até
dessa questão maior da liberdade política, não existia com clareza para as organizações
comunistas e para nenhum outro partido, talvez com exceção dos poucos socialistas”. 115
Os intelectuais “eurocomunistas” são mais “democráticos” que quaisquer grupo “à
direita” já havia sido anteriormente na história do Partido Comunista Brasileiro, assim como
dentro da cultura comunista brasileira, e só conseguimos enxergar assim porque a idéia de
democracia aceita nos dias de hoje é semelhante aquela que eles desejavam – na verdade, o
sentido que nós damos a democracia começou a se estruturar naquele momento. Contribuiu
para isso, a onda de golpismos militares na América Latina. A democracia desejada num
período de ilegitimidade política não passa pela transformação do econômico; ao contrário,
passa:

114
Daniel Aarão Reis Filho in Marco Aurélio Garcia. As esquerdas e a democracia. Rio de Janeiro:
Paz e Terra: CEDEC, 1986.
115
Maria Victória Benevides in Marco Aurélio Garcia. As esquerdas e a democracia. Rio de Janeiro:
Paz e Terra: CEDEC, 1986.
71

“[pela] disputa eleitoral pelo poder, caracterizada por opções livres, uma certa
imparcialidade, e um terreno de jogo pelo menos moderadamente equilibrado. Além disso, a
democracia representativa implica o predomínio de estado de direito e a relativa
independência dos poderes Judiciário e Legislativo; o respeito aos direitos humanos, pelo
menos de acordo com critérios latino-americanos (ou seja, que os governos não torturem
impunemente nem permitam que outros a façam); e a defesa das liberdades básicas de
imprensa, associação, manifestação e organização, inclusive a livre sindicalização, a
contratação coletiva e o direito de greve”. 116

A valorização da “democracia política” pela Corrente Renovadora tem que ser


entendida como um processo mais ou menos longo, que obedece a conjuntura, digo, a própria
noção de contexto do grupo. Isso é importante para que o “avanço” ou a “evolução do
pensamento democrático” pecebista não se desdobre em uma crítica anacrônica aos partidos
comunistas. Então, concluí que esse trabalho não deveria falar, afinal, para referir-se a
Corrente Renovadora em ponto máximo da “evolução do pensamento democrático” no
interior do PCB. Essa evolução é anacrônica, além de cair, a meu ver, num juízo de valor.
Disse, entretanto, que a Corrente Renovadora pretendeu-se ponto máximo da “evolução do
pensamento democrático pecebista”. 117
Feito as considerações sobre a democracia entre os comunistas à realidade nacional.
Para grande parte dos no país no pós-64, a ação da guerrilha era para derrubar a ditadura, mas
também para implantar o socialismo – ainda que não se soubesse exatamente o que estaria por
vir, o regime capitalista também estaria com os dias contados. A “democracia” que estaria por
vir não se daria através das instituições burguesas.
Há ainda outro ponto que merece nossa atenção. Os marxistas, de uma maneira geral
– excetuando-se o marxismo ocidental – valorizam, sobremaneira, o econômico como
determinante. Assim, uma democracia sob o regime capitalista seria a “democracia burguesa”
porque o Estado é o espaço, por excelência, de onde a classe privilegiada, no caso, a

116
Jorge G. Castañeda, Op. cit., p. 23.
117
A “evolução” começa na década de 1950. A Declaração de Março de 1958 (pós-relatório Kruschev,
em 1956) é o documento-símbolo, ainda que em 1954 o Partido desse sinais de mudança de sua postura
em relação à sua atuação na sociedade no Programa de 1954. A “evolução” começa nos anos 50,
embora outra fase do Partido de abandono do “sectarismo” (1945-1947 - PCB: Partido de massas)
também fosse altamente valorizada entre os membros da Corrente Renovadora. Cf. konder, Op.Cit.
72

burguesia, emana o poder. Há uma frase de Lênin, usada para responder aos “renovadores”,
que elucida: “Se houvesse de fato democracia, o capitalismo não teria como se manter”. 118
Além disso, a democracia como estratégia leva a uma verdadeira revolução política,
porque, para os “renovadores”, o Brasil não tem burguesia consolidada. A democracia como
estratégia leva a uma desvalorização do socialismo como estratégia? Bem, a Corrente
Renovadora não se preocupou muito em responder a essa pergunta. Embora, não quiseram se
descaracterizar como marxista. Mas, é evidente que o restante do PCB – opositores da
Corrente – acreditavam que sim. Para eles, o grupo teria se constituído numa social-
democracia.
Naquele momento, o grupo “renovador” acreditou que era prioridade retornar ao
Estado democrático de direito. A construção do socialismo pertenceria a uma etapa posterior:

“Em primeiro lugar, trata-se de conquistar e depois consolidar um regime de liberdades


fundamentais, para o que se torna necessária uma unidade com todas as forças interessadas
nessa conquista e na permanência das ‘regras do jogo’, a serem implantadas por uma
Assembléia Constituinte dotada de legitimidade. E, em seguida, trata-se de construir as
alianças necessárias para aprofundar a democracia no sentido de uma democracia organizada
de massas, com crescente participação popular; e, nesse nível, a busca da unidade terá como
meta a conquista do consenso necessário para empreender medidas de caráter anti-
latifundiário e antimonopolista e, numa etapa posterior, para a construção em nosso País de
uma sociedade socialista fundada na democracia política”. 119

Podemos concluir, a respeito da democracia desejada pelos “renovadores”, que, em


primeiro lugar, a democracia aparece ligada à “conquista e permanência das ‘regras do jogo’”
e a uma “Assembléia Constituinte dotada de legitimidade” que pode ser traduzido por
democracia representativa eleitoral; em segundo, na verdade, em conseqüência do respeito ao
jogo eleitoral, a construção da “sociedade socialista fundada na democracia política” não pode
nunca abrir espaços para insurreições, ou seja, a tomada do poder só far-se-à mediante o voto.
Dessa maneira, retornamos aquilo ao que os próprios renovadores diziam de suas idéias sobre

118
Salomão Malina apud Debate nº 88. Suplemento Especial da Voz da Unidade. São Paulo, 08 a 15 de
jan de 1982.
119
Carlos Nelson Coutinho, “Democracia como valor universal”, in Democracia como valor universal
e outros ensaios, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984, p. 48.
73

a democracia – a de que ela deve aparecer como conteúdo tático e estratégico no programa dos
comunistas.
A decorrência da fundação sociedade socialista através da ampliação das liberdades
democráticas elimina a própria idéia de “revolução”. Para Raimundo Santos:

“O privilegiamento que adquiriam no discurso ‘eurocomunista’ brasileiro noções como


Estado de Direito, garantias constitucionais, constituinte, transição, necessidade de sistema
partidário, etc., minava profundamente tanto a teoria da revolução como ato fundacional de
uma nova ordem social quanto a concepção do partido como o partido-Estado da experiência
do socialismo real – pressupostos esses retirados da doutrina e da história, e cristalizados na
cultura política comunista”. 120

No caso brasileiro, a “verdadeira revolução” é a conquista da democracia política.


Isso porque, ela abriria caminho para a fundação de uma sociedade mais justa e igualitária.
Com a eliminação da tradição da “via prussiana”, a “socialização da política” passa a gerir os
acontecimentos políticos no país e, inclusive, a repercutir no fator econômico:

“Por outro lado, a construção de uma ordem democrática aberta a participação de todas as
classes sociais e correntes de pensamento, num país de instituições e tradições autoritárias,
elitistas e excludentes como o nosso, corresponderia a uma verdadeira revolução. Revolução
essa que obrigaria a que o capitalismo recorresse a formas especificamente suas, como
transformar a composição orgânica do capital, aumentar a produtividade, etc, privando-o da
muleta política e policial que desde suas origens lhe tem sido fornecida pelo Estado”. 121

A partir de uma leitura de um Brasil já modernizado, já capitalista, encontra-se as


bases para o desenvolvimento da democracia que asseguraria, dessa maneira, os pressupostos
de uma sociedade mais justa e igualitária. O País livre da Ditadura Militar (abrindo cada vez
mais espaço para a “socialização da política”) estaria também livre da “via prussiana”, da
“modernização conservadora excludente” que lhe serviu de meio para o desenvolvimento do
capitalismo.
A Corrente Renovadora empenhou-se em construir uma estratégia socialista no
Brasil contemporâneo. À época da acirrada luta interna, 1981-83, o socialismo no Leste

120
Raimundo Santos, Modernização e política. Rio de Janeiro: Forense Universitária/Edur, 1996, p.
52.
121
Marco Aurélio Nogueira, “Notas sobre a realidade brasileira” in Temas de Ciências Humanas, São
Paulo, Editora Ciências Humanas, 1980, p. 161.
74

Europeu estava em crise, mas a URSS ainda não havia desmoronado. Cuba também estava lá.
O surgimento de um operariado combativo acabava de contribuir para o esfacelamento do
regime militar. Acrescente a tudo isso, o aumento da “participação política”, a pressão dos
movimentos sociais por mais participação e a crença de quase todos que, realmente, isso
estava em vias de acontecer.
O pensamento democrático “renovador” estava alicerçado na idéia de que com a
crescente participação política o capitalismo iria mesmo perder suas forças. Qualquer tentativa
de movimento brusco de interromper o capitalismo poderia comprometer as forças
democráticas. Dessa forma, acreditando na ampliação das liberdades democráticas do
capitalismo, abandonaram a idéia da “revolução”, como uma etapa distinta na história da
humanidade. Até porque, lembremos que o onde o socialismo triunfara, não houve liberdades
democráticas, não como passaram a ser valorizadas no Ocidente.

6. O Desfecho

O resultado da luta interna no PCB em torno da questão “democrática” foi a derrota


do grupo “renovador”, mas não antes da derrota do grupo “prestista”. A minoria, liderada por
Prestes, não estava de acordo com a linha política que o Partido vinha assumindo desde a
Declaração de Março de 1958.
Por algum tempo, a crítica dos “renovadores” quanto à postura do Partido resumiu-se
à figura de Prestes e a seus poucos seguidores. Nesse momento, a Corrente Renovadora e o
“centro pragmático” estiveram unidos para combater o “sectarismo” e valorizar a política de
união das forças democráticas que contribuiu para a derrota da ditadura. Identificado como o
mais importante membro a desqualificar o “sucesso” do PCB junto ao processo de
redemocratização, “o companheiro Prestes não valoriza o acerto da linha política do PCB,
nega o espírito de luta dos militantes e toda a orientação política elaborada após o VI
Congresso, que vai dando seus frutos”. 122

122
José Antônio Segatto, Breve História do PCB, Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1989, p. 125.
75

A luta interna começa a ser identificada, após o retorno dos membros do Comitê
Central, especialmente, com o retorno de Luiz Carlos Prestes e depois de Armênio Guedes.
Àquela altura, todos no Partido acreditavam no êxito da política de alianças. Prestes, ao
contrário, considerava que só a democracia não bastaria para o bem do proletariado, devia-se
lutar pelo socialismo. Os pecebistas acreditavam que a política do Partido havia oscilado entre
o “esquerdismo” e o seu contrário (mas que eles não chamavam de “direitismo”, por trazer um
tom pejorativo). O “esquerdismo” compreendia a fraca influência na sociedade, a tentação
golpista e a ausência da política de alianças. Sobretudo, porque Prestes insistia na “luta pelo
socialismo” e condenava o “aliancismo” do Partido acusando-o de afastar a sociedade
socialista é que a crítica ao velho líder comunista fazia-se presente:

“(...) o PCB teve ainda que enfrentar, com maior força nos anos de 1979 e 1980, os
desdobramentos de uma degenerada luta interna, cujo epicentro localizou-se na figura de seu
ex-secretário geral, Luiz Carlos Prestes. O velho ‘esquerdismo’ do tipo mandonista,
responsável maior por tantos e tantos erros e retrocessos na vida do partido, manifestava-se
novamente, agora com um novo figurino e coroado com os símbolos do carisma do
conhecido líder comunista”. 123

O retorno do Comitê Central só tornou mais ávido um debate que já havia sido
iniciado no interior no Partido em torno do “acerto” da linha política traçada desde a
Declaração de Março de 1958. Foi a política, primeiramente exposta na Declaração, que
afastou o Partido da luta armada no pós-64. A minoria partidária, mais tarde reunida em torno
de Luiz Carlos Prestes, não via como a redemocratização da sociedade brasileira poderia
colocar o país mais próximo do triunfo da “revolução”. Assim, a política de “alianças” traçada
desde a Declaração teria sido um “erro” na história do Partido, porque a burguesia nacional
não uniu-se ao proletariado conforme o taticismo da Declaração previa:

“Relembrando isso, dissipam-se as dúvidas: textos como o de Otávio Rodrigues pertecem já


ao museu do movimento comunista brasileiro. Sua única função é a de demonstrar que o
combate ao sectarismo, ao dogmatismo e ao doutrinarismo deve prosseguir através de um
debate interno firme, sem conciliação e com base na unidade de ação política, no aceitamento

123
NOGUEIRA, Marco Aurélio, CAPISTRANO FILHO, David, GUEDES, Cláudio. O PCB em São
Paulo: documentos (1974-81). São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas ltda, 1981, p. X.
76

dos Estatutos, no respeito às decisões da maioria e na aplicação da linha política definida nos
Congressos do PCB e atualizada pelo seu Comitê Central”.124

Depois da derrota do grupo “prestista”, o grupo “renovador” sofre com as críticas do


“centro pragmático”. O jornal Voz da Unidade, espaço privilegiado onde a Corrente
Renovadora articulava suas idéias, sofreu intervenção e seus integrantes renovadores foram
afastados entre 1980/1981. A partir daí, os “renovadores” dirigiram-se suas forças para a
direção pecebista:

“Mas desgraçado será quem pensar que se opera uma volta aos idos dos primeiros números
da Voz da Unidade. O texto também nos diz que os liberais se constituem nos bêtes noires da
transição, assemelhando-os lisamente aos conservadores. E, na passagem, sempre crucial, da
conceituação do sistema de poder, formula enigmaticamente: ‘Na atualidade, como no
passado recente, o obstáculo principal à democratização da sociedade brasileira é o sistema
de poder que oprime o povo e que tem como baluartes o imperialismo e o latifúndio e os
grandes grupos econômicos e financeiros, monopolistas e oligárquicos’. A primeira parte da
proposição nos remete ao Oriente do V Congresso, a segunda, ao Ocidente das lutas
democráticas de massa contra o capitalismo dos monopólios. Com o empastelamento da
geografia, convém obedecer à orientação do próprio texto: ‘Na atualidade, como no passado
recente (...)'. Os próprios feitores da restauração, porém, são os primeiros a desconfiar dela,
corrigindo a remissão ao passado com a referência moderna ao caráter autoritário do
capitalismo brasileiro. Assustados com sua nova sombra, furtiva e incompletamente o PCB
atinge uma nesga de terra no Ocidente político’”. 125

A oposição partidária ao grupo “renovador”, tanto do lado prestista ou do


“pragmático”, encontra seus pontos de ataque, razões do dissídio, nas publicações dos
intelectuais e no Voz da Unidade. Também, nesse jornal, é desenrolado o conflito. Os
opositores pecebistas explicitam seus argumentos contra a Corrente.
Vejamos, através de Sérgio Cordeiro de Andrade, no que se embasava a crítica.
Segundo ele, o primeiro erro de Carlos Nelson Coutinho foi afirmar que Engels era contra a
violência, e que também o caminho para o socialismo se far-se-à através do voto. O segundo
erro foi o de considerar o marxismo ocidental como o único marxismo com plena democracia,
mas Lenin já dizia que quando o Estado for abolido, então aí tem democracia. O terceiro erro

124
Nemésio Salles, mar/1977 in Marco Aurélio Nogueira, David Capistrano Filho, Claudio Guedes, O
PCB em São Paulo: documentos (1974-81), São Paulo, Livraria Editora Ciências Humanas ltda, 1981,
p. 164.
125
Idem, p. 45.
77

de Carlos Nelson segundo Andrade foi dizer que a democracia não precisa ser adjetivada de
proletária ou burguesa. “Seria interessante sabermos como Berlinguer – Carlos Nelson
Coutinho – coloca hoje esta “democracia política” dentro de uma sociedade capitalista, sem
que ela representa o poder da burguesia, ou em uma sociedade socialista sem que a mesma
represente o poder proletário”. 126
Luiz Carlos Prestes perde o cargo de secretário-geral do PCB em maio de 1980,
Giocondo Dias foi eleito o novo Secretário Geral. Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder
saíram do PCB em 1982. Armênio Guedes sai em 1983. Luiz Werneck Vianna saiu do PCB
em 1984. O partido havia perdido progressivamente sua hegemonia no campo das esquerdas e
seu espaço no movimento sindical para os grupos identificados com o “novo sindicalismo”, os
setores progressistas da Igreja Católica e os oriundos da “esquerda armada” – que iriam se
reunir no Partido dos Trabalhadores (PT) e numa nova central sindical (Central Única dos
Trabalhadores - CUT). A linha política sobrevivente, antes mesmo da conclusão do VII
Congresso (1984) foi a do “centro pragmático”.

7. Considerações finais

O PCB não foi à luta armada no pós-64. Ao contrário, as dissidências nascidas de seu
interior tornaram-se adeptas do “foquismo” ou do “maoísmo”. A escolha pecebista pela
trajetória pacífica foi, primeiramente, oficializada com a publicação da Declaração de Março
de 1958. Nesse documento, é inaugurada a idéia da “aliança” do proletariado com a
“burguesia nacional” para assegurar o desenvolvimento do capitalismo. A Corrente
Renovadora acena para essa primazia da Declaração e do Partido Comunista Brasileiro junto
à esquerda de tradição marxista no Brasil. O privilegiamento da “via pacífica” da Declaração
transformar-se ia, no discurso “renovador”, no marco inicial da valorização da democracia
política no PCB.
Para a Corrente Renovadora, a Declaração marcou o início de um processo que ela
própria acredita ter concluído – o processo de valorização da “democracia política” no PCB.

126
Idem.
78

Com isso, a Corrente Renovadora diferiu do PCB à época e dos dissidentes do pós-64. Ainda
que a maioria dos pecebistas acreditassem no sucesso da política empreendida pelo partido
desde a Declaração (à exceção dos “prestistas” e dos dissidentes que preferiram o
enfrentamento armado no pós-64), só o grupo “renovador” afirmou tê-la “aprofundado”, na
medida em que clamou aos comunistas do Brasil o incremento da democracia política no seu
programa estratégico.
Os “renovadores” passaram a valorizar a “democracia política”, tal como a
concebemos hoje sem, contudo, desejar romper com o futuro socialista. Os intelectuais
“renovadores” formularam uma nova maneira (mas, que para eles, deveria ser a única capaz)
de construir o socialismo no Brasil capitalista e moderno. A inversão da “via prussiana”
abriria caminho a uma, cada vez maior, “socialização da política” no país. A esse apelo à
crescente “socialização da política” correspondeu o próprio abandono da idéia de “revolução”,
de um momento distinto em que se conjugam as forças para a implantação do socialismo. No
Brasil, a conquista e perpetuação da democracia sozinha representaria uma verdadeira
“revolução”.
A Corrente Renovadora afirmava diferir dos “renovadores” da década de 1950 por
duas razões: no nível de aprofundamento da democracia e na relação entre estabelecimento da
democracia e do capitalismo. Com efeito, a Corrente Renovadora não aceita que, nem no
porvir, ocorra a insurreição do proletariado sob a liderança do Partido na construção do
socialismo. A Declaração de Março de 1958 prescreve a aliança do proletariado com a
burguesia nacional para desenvolver o capitalismo. Ao contrário, para a Corrente Renovadora,
a constatação do capitalismo no País assegurava a existência da democracia. Seguiam uma
lógica de que se há capitalismo, tem que haver democracia. A “socialização da política” é um
fenômeno decorrente do estabelecimento do capitalismo. No Brasil, o desenvolvimento do
capitalismo no modelo da “via prussiana” tornou fraca a “socialização da política”. No
entanto, a eliminação da “via prussiana” iria ampliar as liberdades democráticas conquistadas
constituindo uma alternativa ao capitalismo excludente.
As interpretações do passado e do presente nacional passaram por uma interferência
do pensamento “renovador” de profundas conseqüências. À luz dos modelos explicativos de
desenvolvimento do capitalismo e do tipo de sociedade gerada, o subdesenvolvimento
brasileiro inscrevia-se num caso da “via prussiana”. A exclusão do povo da efetiva
79

participação política resultava do desenvolvimento do capitalismo no Brasil. O ordenamento


das forças sob o comando das elites legou ao país a modernidade, conservando, entretanto, o
autoritarismo e o latifúndio. A “via prussiana” (Lukács), “revolução passiva” (Gramsci),
“modernização conservadora” (Moore), no discurso “renovador”, revela um posicionamento
descontente sobre o passado e presente brasileiro, visto que, procurou-se interpretar os
acontecimentos como ordenados “de cima” ou “pelo alto” evitando, assim, que o lado mais
“revolucionário” ou “popular” triunfasse. Ao mesmo tempo em que criticam o estado de
coisas, apelam para a mudança: é só o rompimento com a “via prussiana” que tornará possível
o caminho ao socialismo, através das constantes ampliações das liberdades democráticas.
A historiografia especializada e a Corrente Renovadora colocaram a Declaração de
Março de 1958 como o documento que marcou o início da valorização da democracia política
no PCB. Isso, porque, na Declaração, os pecebistas mostravam sua aversão aos crimes
stalinistas e, além disso, rompiam com o modelo insurrecionalista da IC. Por outro lado, o
documento adotou o modelo “aliancista” também preconizado pela IC e, ainda, o repúdio aos
crimes stalinistas não se transformou numa crítica ao marxismo-leninismo, nem a URSS. A
herança que a Corrente acreditou receber da Declaração estava na crítica ao “socialismo real”
e na postura “democrática” para implantar o socialismo no Brasil. Na verdade, foi só o olhar
da Corrente para a Declaração que a colocou nesse patamar de renovação democrática
pecebista. Foi a busca pelo começo da linha “pacífica” do Partido que poderia inaugurar a
valorização da “democracia política”. Um momento na história do Partido que, como eles,
dissesse que o fator político não deveria ser efêmero ou subjugado a qualquer outro fator,
fosse o de democracia “social" ou “econômica”.
Os autores marxistas valorizados pelo movimento comunista internacional após o XX
Congresso do PCUS, principalmente Lukács e Gramsci, são utilizados pelos intelectuais
“renovadores” para elaborarem sua interpretação da história brasileira e sua estratégia
socialista. Nos dois casos, a democracia aparece como a base legitimadora do novo. O Brasil,
já capitalista, apresenta a “socialização da política”, portanto, conquistou algumas “liberdades
democráticas” que não poderiam ser descartadas com o socialismo. Na verdade, é através da
ampliação das “liberdades democráticas” que se pretendia chegar ao socialismo. A nova
interpretação da formação econômico-social brasileira antecede, em alguns poucos anos, o
80

conflito no PCB em torno da estratégica democrática. A razão disso esteve na própria noção
de contexto da Corrente Renovadora.
De fato, o que explica a “virada democrática” manifestada pela Corrente Renovadora
na tradição comunista é a realidade que eles se depararam e interpretaram, acharam por bem
intervir, como intelectuais e militantes atuantes no cenário político: o “socialismo realmente
existente” e a ditadura brasileira que dava sinais de esgotamento embora, não totalmente
terminada. A vontade de se redimir pelas atuações em nome do “socialismo” tinha suas causas
no “socialismo realmente existente” (principalmente localizado no Leste Europeu), na política
pecebista “anti-democrática” (a anterior à Declaração de Março de 1958 e a posterior que
recusava-se a “ampliar” o nível da democracia no programa estratégico do Partido) e nas
organizações que pregavam a luta armada (na América Latina, mas, sobretudo no Brasil, o
insucesso sangrento marcou a história desses movimentos). De outro lado, o processo de
redemocratização da sociedade brasileira era lento e a sua viabilidade não prescindia do
acúmulo de forças dos vários setores, inclusive dos comunistas. A tentação golpista do lado
socialista poderia afastar, por mais tempo, o retorno ao Estado democrático de direito.
O movimento da Corrente Renovadora achou-se fracassado no interior do PCB.
Contudo, a influência desses intelectuais junto à sociedade e o posterior incremento desses
homens, sobretudo, no PT alargou e continuou a “redenção” do socialismo pela estratégia
socialista democrática para o Brasil moderno e capitalista.

8. Bibliografia:

Periódicos:

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Debate nº 89. Suplemento Especial da Voz da Unidade. São Paulo, 15 a 21 jan de 1982.
Debate nº 90. Suplemento Especial da Voz da Unidade. São Paulo, 22 a 28 jan de 1982.
Debate nº 91. Suplemento Especial da Voz da Unidade. São Paulo, 29 jan a 04 fev de 1982.
Debate nº 92. Suplemento Especial da Voz da Unidade. São Paulo, 05 a 11 fev de 1982.
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Debate nº 93. Suplemento Especial da Voz da Unidade. São Paulo, 12 a 18 fev de 1982.
Voz da Unidade nº 145. São Paulo, 26 a 30 mar de 1982.
Voz da Unidade nº 151. São Paulo, 05 a 11 mar de 1982.
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__________. Qual democracia?

Anexo I

Declaração sobre a Política do Partido Comunista Brasileiro


Março de 1958

Os documentos do XX Congresso do PCUS motivaram nas fileiras do nosso Partido


intensa discussão, no curso da qual foram submetidos à crítica os graves erros de caráter
dogmático e sectário da orientação política do Partido.
O exame destes erros e a necessidade de superá-los levaram o Comitê Central do PCB
a traçar uma nova orientação política, que é exposta na presente declaração. Ao fazê-lo, o
85

Comitê Central considerou a experiência passada do Partido e as modificações essenciais


ocorridas na situação do Brasil e do mundo.
O Comitê Central espera que, no processo de sua aplicação prática, a política aqui
traçada seja submetida à comprovação e enriquecida pela experiência do Partido e do povo
brasileiro.

O processo de desenvolvimento econômico do Brasil

Modificações importantes têm ocorrido, durante as últimas décadas, na estrutura


econômica que o Brasil herdou do passado, definido pelas seguintes características: agricultura
baseada no latifúndio e nas relações précapitalistas de trabalho, predomínio maciço da
produção agropecuária no conjunto da produção, exportação de produtos agrícolas como eixo
de toda a vida econômica, dependência da economia nacional em relação ao estrangeiro,
através do comércio exterior e da penetração do capital monopolista nos postos-chave da
produção e da circulação.
Nos quadros dessa estrutura atrasada, foi-se processando um desenvolvimento
capitalista nacional, que constitui o elemento progressista por excelência da economia
brasileira. Esse desenvolvimento inelutável do capitalismo consiste no incremento das forças
produtivas e na expansão, na base material da sociedade, de novas relações de produção, mais
avançadas.
Por sua própria natureza e ainda por se chocar com a resistência de elementos
econômicos atrasados e sofrer a pressão do imperialismo, o desenvolvimento capitalista
nacional vem-se realizando num ritmo bastante desigual, se bem que tenha se acelerado nos
últimos vinte anos.
O desenvolvimento capitalista nacional já trouxe resultados que modificaram
sensivelmente a vida econômica e social do país. Assim é que foi construído no Brasil um
parque industrial, que abastece o mercado interno da quase totalidade de artigos de consumo
comum. A indústria de meios de produção elevou a sua participação de 20 a 33% no conjunto
86

da produção industrial, entre os anos de 1939 a 1956. Num prazo relativamente breve, de 1944
a 1956, o volume físico da produção industrial total foi duplicado. Surgiu e se fortaleceu no
setor da indústria pesada um capitalismo de Estado de caráter nacional e progressista, que
abrange empresas poderosas como a Petrobrás e a Companhia Siderúrgica Nacional. Embora
mais lentamente, também na agricultura vem-se desenvolvendo o capitalismo, que se traduz
no crescimento do número de assalariados e semi-assalariados, bem como na multiplicação da
quantidade de máquinas e instrumentos agrários. Ampliou-se de modo acentuado o mercado
interno, sendo que o volume do comércio de cabotagem entre 1921 e 1955 aumentou de cinco
vezes.
Em conseqüência do desenvolvimento capitalista, cresceram os efetivos do
proletariado industrial e aumentou o seu peso específico no conjunto da população. Enquanto
esta duplicou de 1920 até hoje, o número de operários industriais aumentou de sete vezes no
mesmo período, passando de 275.000 a cerca de 2 milhões. Simultaneamente, surgiu e se
fortaleceu cada vez mais uma burguesia interessada no desenvolvimento independente e
progressista da economia do país.
O desenvolvimento capitalista, entretanto, não conseguiu eliminar os fatores negativos,
que determinam as características do Brasil como país subdesenvolvido. Ao tempo em que se
incrementam as forças produtivas e progridem as novas relações atrasadas e permanece a
dependência diante do imperialismo, particularmente o norte-americano.
Com a penetração do capitalismo na agricultura, combinam-se, em proporção variável,
os métodos capitalistas à conservação do monopólio da terra e das velhas relações
semifeudais, o que permite um grau mais elevado de exploração dos trabalhadores do campo.
O Brasil continua a ser um país de grande concentração latifundiária: em 1950, os
estabelecimentos agrícolas com 500 hectares e mais constituíam 3,4% do número total de
estabelecimento e abrangiam 62,3% de toda a área ocupada. As sobrevivências feudais
obstaculizam o progresso da agricultura, que se realiza, em geral, lentamente, mantém o
baixíssimo nível de vida das massas camponesas e restringem de modo considerável as
possibilidades de expansão do mercado interno. As sobrevivências feudais são um dos fatores
que acentuam a extrema desigualdade de desenvolvimento das diferentes regiões do país,
especialmente entre o sul e parte do leste, que se industrializaram, e o resto do país, quase
inteiramente agrário.
87

Apesar de detida sua penetração em algumas importantes esferas da economia


brasileira, o imperialismo continua a dominar posições-chave em ramos fundamentais. Esta
penetração é realizada em elevado grau sobretudo pelos monopólios norte-americanos que, a
partir da segunda guerra mundial, alcançaram o predomínio absoluto sobre os seus
competidores. Os investimentos diretos norte-americanos aumentaram de 193,6 milhões de
dólares em 1929, para 1.107 milhões de dólares em 1955. Cerca de 60% dos financiamentos
estrangeiros procedem dos Estados Unidos, que, além disso, dominam o mercado
internacional de nossos principais produtos de exportação e podem, assim, fazer do comércio
exterior um instrumento de controle da vida econômica e política do país.
Mantendo embora o seu predomínio, o imperialismo norte-americano enfrenta no
Brasil a crescente concorrência de outras potências imperialistas, principalmente da Alemanha
Ocidental e da Inglaterra.
A exploração imperialista impõe pesado tributo à nação, transferindo para o exterior
considerável parte do valor criado pelos trabalhadores brasileiros, o que reduz, em
conseqüência, a taxa de acumulação capitalista no país, diminui o ritmo do seu progresso e
influi no baixo nível de vida da sua população.
A independência política do Brasil sofre sérias restrições em virtude da situação de
dependência econômica. À medida que a nação se desenvolve, aguça-se o seu antagonismo
com o imperialismo norte-americano. O desenvolvimento capitalista nacional exige cada vez
mais, como seu instrumento, uma independência política completa, que se traduza numa
política exterior independente e na proteção conseqüente do capital nacional contra o capital
monopolista estrangeiro.
O processo de democratização se reflete no parlamento. É verdade que os setores
reacionários e entreguistas ainda possuem poderosas posições naquela instituição e conseguem
impor decisões opostas aos interesses nacionais, a exemplo da aprovação do Acordo Militar
Brasil-Estados Unidos, da rejeição de uma legislação social para os trabalhadores do campo e
da cassação do direito de representação parlamentar para o Partido Comunista. É igualmente
inegável, porém, que vem aumentando nas sucessivas legislaturas o número de parlamentares
nacionalistas e democráticos, integrantes dos mais variados partidos. Isto indica o aumento da
influência da burguesia nesses partidos e a utilização do voto por grandes setores das massas,
particularmente do proletariado, para apoiar uma política nacionalista e democrática. Se bem
88

que o processo eleitoral ainda esteja submetido a restrições antidemocráticas, as massas têm
conseguido influir na composição do parlamento e pressionando sobre ele com a ação extra-
parlamentar, já o levaram a adotar decisões positivas para a emancipação nacional, a exemplo
do monopólio estatal do petróleo e da política nacionalista dos minerais atômicos.
O processo de desenvolvimento capitalista e a participação da burguesia no poder do
Estado se refletem também na composição do atual governo. Em decorrência da coligação de
que surgiu, o governo do sr. Juscelino Kubitschek tomou um caráter heterogêneo, com um
setor entreguista ao lado de um setor nacionalista burguês.
A composição do governo do sr. Juscelino Kubitschek é, sem virtude disso, o resultado
de um compromisso entre as duas alas que o integram. Este compromisso é frágil, não anula as
contradições internas do governo e não impede a luta que lavra no seu seio. Apoiado nas
massas, na Frente Parlamentar Nacionalista e no setor nacionalista das Forças Armadas, o
setor nacionalista do governo tem influído para importantes decisões positivas. Disto são
exemplos expressivos a defesa do monopólio estatal do petróleo e a manutenção de um clima
de legalidade constitucional na vida política. Por outro lado, sob a pressão do setor entreguista
e do imperialismo norte-americano, os elementos nacionalistas do governo têm sido levados a
vacilações, derrotas e mesmo a graves capitulações, como foi o caso da cessão do arquipélago
de Fernando de Noronha aos Estados Unidos.
As contradições existentes no seio do governo se manifestam em todas as esferas de
sua atividade.
A política exterior permanece em geral caudatária do Departamento de Estado norte-
americano, mas se fortalece a pressão do setor nacionalista por importantes modificações,
como a exigência do estabelecimento de relações com a União Soviética e demais países
socialistas.
O governo tem desenvolvido, apoiado no povo, formas nacionais e progressistas de
capitalismo de Estado, a exemplo da Petrobrás e de Volta Redonda. O capitalismo de Estado
vem sendo um elemento progressista e antiimperialista da política econômica do governo
kubitschek mas este ainda permite que empresas de capitalismo de Estado realizem um
política favorável ao imperialismo, como no caso dos financiamentos do BNDE ou da
distribuição, pelos trustes, da energia produzida nas centrais elétricas estatais.
89

Enquanto toma medidas de interesse nacional, ao defender o café contra a especulação


das firmas norte-americanas no mercado interno e mundial, o governo continua a propiciar
inversões imperialistas à base de excepcionais privilégios, que suscitam protestos dos círculos
mais representativos da burguesia. As medidas de reforma agrária não figuram sequer nos
planos governamentais. A inflação e a carestia de vida continuam sendo fatores de
instabilidade da economia nacional e de crescentes dificuldades para as massas.
Enquanto altera a velha estrutura econômica e cria uma nova e mais avançada, o
desenvolvimento capitalista nacional entra em conflito com a exploração imperialista e a
estrutura tradicional arcaica e em decomposição. Este desenvolvimento se processa através de
contradições, de avanços e recuos, mas é a tendência que abre caminho e se fortalece.

II

A democratização da vida política nacional

O desenvolvimento capitalista do país não podia deixar de refletir-se no caráter do


Estado brasileiro, em seu regime político e na composição do governo.
O Estado brasileiro atualmente representa os interesses dos latifundiários, dos setores
de capitalistas ligados ao imperialismo, interessada no desenvolvimento independente da
economia nacional. Daí surgem contradições e tipos diversos de compromisso de classe no
seio do próprio Estado. Os diferentes interesses de classe representados nos órgãos do Estado
encontram pontos de contato e de acordo, mas, ao mesmo tempo, lutam entre si para impor
determinados rumos à política estatal, chegando por vezes a conflitos aberto, como em agosto
de 1954 e em novembro de 1955.
As forças novas que crescem no seio da sociedade brasileira, principalmente o
proletariado e a burguesia, vêm impondo um novo curso ao desenvolvimento político do país,
com o declínio da tradicional influência conservadora dos latifundiários. Este novo curso se
realiza no sentido de democratização, da extensão dos direitos políticos a camadas cada vez
mais amplas.
90

A democratização do regime político do país, que tomou impulso com os


acontecimentos de 1930, não segue o seu curso em linha reta, mas, enfrentando a oposição das
forças reacionárias e pró-imperialistas, sofre, em certos momentos, retrocessos ou brutais
interrupções, como sucedeu com o Estado Novo, com a ofensiva reacionária de 1947 ou por
ocasião do golpe de 1954. Mas o processo de democratização é uma tendência permanente.
Por isto, pode superar quaisquer retrocessos e seguir incoercivelmente para diante. Vem-se
firmando, assim, em nosso país, a legalidade democrática, que é defendida por amplas e
poderosas forças sociais.
A Constituição promulgada em 1946 encerra traços reacionários que resultaram da
correlação de forças existente na época de sua elaboração e expressam aspectos retrógrados da
estrutura econômica-social brasileira. Ao mesmo tempo, a Constituição consagra as liberdades
democráticas e os direitos sociais das massas alcançados após a derrota mundial no nazi-
fascismo e do Estado Novo em nosso país: as liberdades de expressão, inclusive de imprensa,
de reunião e de organização, o direito de greve, etc. As massas trabalhadoras das cidades têm
obtido vitórias na justa luta pela concretização de seus direitos já consolidados em lei, como a
liberdade sindical, a previdência social e outros. A democratização do país também influi,
menos acentuadamente, nas zonas rurais, onde o tradicional despotismo dos grandes senhores
de terra é obrigado a ceder terreno, conquanto ainda perdure. Os atentados cometidos pelos
elementos reacionários do aparelho do Estado encontram a resistência cada vez mais eficiente
das massas na defesa das liberdades e dos direitos constitucionais. Tudo isso explica por que,
no curso da vida política recente do país, as forças nacionalistas e democráticas se colocaram
ao lado da Constituição, como sucedeu a 24 de agosto de 1954 e a 11 de novembro de 1955,
ao passo que as forças golpistas pró-imperialistas atentaram contra ela.
A política do governo Juscelino Kubitschek não atende, assim, aos interesses nacionais
e às aspirações das massas populares em questões essenciais, contendo, entretanto, aspectos
positivos de caráter nacionalista e democrático. À medida que os aspectos negativos da
atuação do governo se tornam mais evidentes, acentua-se a luta por modificações na sua
composição e na sua política num sentido favorável aos interesses nacionais e populares. Esta
luta é apoiada pelo setor nacionalista do próprio governo e aprofunda as suas contradições
com o setor entreguista.
91

É na luta contra o imperialismo norte-americano e os seus agentes internos que as


forças progressistas da sociedade brasileira podem acelerar o desenvolvimento econômico
independente e o processo de democratização da vida política do país. Para atingir este
objetivo, as forças progressistas têm interesse em defender, estender e consolidar o regime de
legalidade constitucional e democrático.

III

Crescem no mundo inteiro as forças da paz, da democracia e do socialismo

Na situação do Brasil, no desenvolvimento de suas forças antiimperialistas e


democráticas, influem poderosamente as modificações essenciais verificadas na situação
internacional, sobretudo após a segunda guerra mundial.
A característica nova e principal de nossa época, o seu conteúdo fundamental, é a
transição do capitalismo ao socialismo, iniciada pela Grande Revolução Socialista de Outubro
na Rússia. O socialismo ultrapassou os marcos de um só país e se transformou num sistema
mundial vigoroso e florescente, que exerce influência positiva na evolução política e social de
todos os povos. São enormes os êxitos econômicos e culturais dos países socialistas, e em
primeiro lugar da União Soviética, que já assumiu a vanguarda em importantes ramos da
ciência e da tecnologia, marchando para superar, em breve prazo histórico, o país capitalista
mais adiantado, os Estados Unidos, quanto aos índices fundamentais da produção por
habitante. Estes êxitos crescentes atraem para a idéia de socialismo a consciência das grandes
massas de todos os continentes. Aplicando com justeza os princípios do marxismo-leninismo
às condições nacionais específicas, fortalecem-se os partidos comunistas e operários do mundo
capitalista. O movimento comunista mundial elevou a novo nível a sua unidade. A luta de
classe operária obtém grandiosas vitórias e constitui uma força decisiva na situação
internacional.
Fato novo de imensa significação é o adiantado processo de desagregação do sistema
colonial do imperialismo. Populações de mais de um bilhão de pessoas se libertaram do jugo
colonial e alcançaram a independência política, enquanto os povos ainda submetidos àquele
92

jugo intensificam a sua luta de libertação, colocando em situação cada vez mais difícil as
potências imperialistas. Surgiu no mundo uma vasta zona de paz, que abrange os países
socialistas e os países da Ásia e da África amantes da paz e promotores de uma política de
defesa da sua soberania e de emancipação econômica.
A luta contra o imperialismo norte-americano, pela democracia e pela paz eleva o seu
nível na América Latina. As ditaduras terroristas a serviço dos monopólios dos Estados
Unidos estão sendo derrubadas, o que abre caminho para o avanço do processo democrático e
emancipador. A política de chantagem guerreira praticada pelos círculos de Washington vem
fracassando na América Latina, à medida que se acentua o alívio da tensão internacional.
Em conseqüência do impetuoso ascenso do socialismo e das vitórias do movimento de
libertação nacional, acelerou-se o processo de debilitamento e decomposição do imperialismo.
Não só se reduziu drasticamente a área do seu domínio, como se agravaram as contradições
entre os países imperialistas e dentro de cada um deles. Aumentam as dificuldades econômicas
nos Estados Unidos, onde a produção vem caindo, enquanto cresce o número de
desempregados, o que delineia uma perspectiva de crise econômica.
O imperialismo norte-americano é o centro da reação mundial. Segue uma política de
atentados contra a soberania nacional de todos os povos, de corrida armamentista e
preparativos de uma terceira guerra mundial, que seria a mais terrível catástrofe para a
humanidade.
As guerras de agressão continuam a encontrar terreno na existência do imperialismo e
este tem desencadeado bárbaros atentados contra numerosos povos. Em virtude, porém, da
correlação de forças favorável ao socialismo às forças amantes da paz, surgiu em nossa época
a possibilidade real de impedir as guerras. A luta pela paz – tarefa primordial de todos os
povos - tem condições para ser plenamente vitoriosa. A política conseqüente de coexistência
pacífica praticada pela União Soviética e pelos demais países socialistas ganha a simpatia dos
povos, desfaz as manobras da “guerra fria” e consegue resultados concretos no sentido do
alívio da tensão internacional. A rápida cessação da agressão imperialista ao Egito mostrou
mais uma vez que a causa da paz e da libertação nacional tem a seu favor forças mais
poderosas do que os agentes da guerra.
As modificações na arena internacional criam condições mais favoráveis para a luta
pelo socialismo, tornam mais variados os caminhos da conquista do poder pela classe operária
93

e as formas de construção da nova sociedade. A possibilidade de uma transição pacífica ao


socialismo se tornou real numa série de países.
O ascenso do socialismo, da causa da paz e do movimento de libertação nacional no
mundo inteiro influi de modo positivo no crescimento das forças políticas antiimperialistas e
democráticas no Brasil. A nova situação internacional cria condições favoráveis ao
desenvolvimento econômico de nosso país, à libertação da dependência em relação ao
imperialismo, à democratização da vida política nacional. Estas condições são especialmente
favoráveis à aplicação de uma política externa independente e de paz, em benefício da
emancipação econômica da nação. Uma política desta ordem, que muitos países do mundo
capitalista já praticam, encontra o apoio de poderosas forças que atuam no cenário mundial.
Conquanto se beneficie da influência dos fatores positivos da situação internacional, o
povo brasileiro é obrigado a enfrentar a pressão e os atentados do imperialismo norte-
americano, que ocupa posições-chave na economia de nosso país e interfere nas questões de
sua política interna e externa. Não obstante as derrotas que tem sofrido, não cessa a penetração
econômica dos monopólios norte-americanos. Os círculos dirigentes dos Estados Unidos, com
o apoio dos setores entreguistas, tomam medidas para vincular o Brasil aos preparativos
bélicos e aos planos de uma terceira guerra mundial. Esta é a mais grave ameaça que pesa
sobre a nossa Pátria e contra esta ameaça tendem a unir-se todos os brasileiros favoráveis à
manutenção da paz.
A luta contra o imperialismo norte-americano, pela independência nacional do Brasil, é
parte integrante da luta pela paz no mundo inteiro contribuem para os êxitos da luta
emancipadora de nosso povo. Existem condições para derrotar a política de dependência ao
imperialismo norte-americano e anular suas ameaças. A situação internacional é favorável às
forças que lutam pela paz, pela emancipação nacional e pela democracia no Brasil.

IV

Aprofunda-se a contradição entre a nação brasileira e o imperialismo norte-americano


94

As modificações na situação econômica e política do país, bem como na situação


internacional, determinam importantes alterações na disposição das forças sociais e definem o
caminho para a solução dos problemas da revolução brasileira.
Como decorrência da exploração imperialista norte-americana e da permanência do
monopólio da terra, a sociedade brasileira está submetida, na etapa atual de sua história, a duas
contradições fundamentais. A primeira é a contradição entre a nação e o imperialismo norte-
americano e seus agentes internos. A segunda é a contradiçaõ entre as forças produtivas em
desenvolvimento e as relações de produção semifeudais na agricultura. O desenvolvimento
econômico e social do Brasil torna necessária a solução dessas duas contradições
fundamentais.
A sociedade brasileira encerra também a contradição entre o proletariado e a burguesia,
que se expressa nas várias formas da luta de classes entre operários e capitalistas. Mas esta
contradição não exige uma solução radical na etapa atual. Nas condições presentes de nosso
país, o desenvolvimento capitalista corresponde aos interesses do proletariado e de todo o
povo.
A revolução no Brasil, por conseguinte, não é ainda socialista, mas antiimperialista e
antifeudal, nacional e democrática. A solução completa dos problemas que ela apresenta deve
levar à inteira libertação econômica e política da dependência para com o imperialismo norte-
americano; à transformação radical da estrutura agrária, com a liquidação do monopólio da
terra e das relações précapitalistas de trabalho; ao desenvolvimento independente e
progressista da economia nacional e à democratização radical da vida política. Estas
transformações removerão as causas profundas do atraso de nosso povo e criarão, com um
poder das forças antiimperialistas e antifeudais sob a direção do proletariado, as condições
para a transição ao socialismo, objetivo não imediato, mas final, da classe operária brasileira.
Na situação atual do Brasil, o desenvolvimento econômico capitalista entra em choque
com a exploração imperialista norte-americana, aprofundando-se a contradição entre as forças
nacionais e progressistas em crescimento e o imperialismo norte-americano e os seus agentes
internos tornou-se a contradição principal na sociedade brasileira.
O golpe principal das forças nacionais, progressistas e democráticas se dirige, por isto,
atualmente, contra o imperialismo norte-americano e os entreguistas que o apóiam. A derrota
95

da política do imperialismo norte-americano e de seus agentes internos abrirá caminho para a


solução de todos os demais problemas da revolução nacional e democrática no Brasil.
Para realizar a sua política de exploração e de vinculação de nosso país aos seus planos
guerreiros, o imperialismo norte-americano conta com o apoio de setores de latifundiários e de
setores da burguesia. Servem ao imperialismo norte-americano os latifundiários que estão
ligados, por seus interesses, à exploração imperialista, numerosos intermediários do comércio
exterior, os sócios de empresas controladas pelo capital monopolista norte-americano e
determinados agentes de negócios bancários e comerciais.
Estes setores – minoria verdadeiramente ínfima – constituem as forças entreguistas
que, dentro e fora dos órgãos de Estado, sustentam a política de dependência ao imperialismo
norte-americano.
Ao inimigo principal da nação brasileira se opõem, porém, forças muito amplas. Estas
forças incluem o proletariado, lutador mais conseqüente pelos interesses gerais da nação; os
camponeses, interessados em liquidar uma estrutura retrógrada que se apóia na exploração
imperialista; a pequena burguesia urbana, que não pode expandir as suas atividades em virtude
dos fatores de atraso do país; a burguesia, interessada no desenvolvimento independente e
progressista da economia nacional; os setores de latifundiários que possuem contradições com
o imperialismo norte-americano, derivadas da disputa em torno dos preços dos produtos de
exportação, da concorrência no mercado internacional ou da ação extorsiva de firmas norte-
americanas e de seus agentes no mercado interno; os grupos da burguesia ligados a
monopólios imperialistas rivais dos monopólios dos Estados Unidos e que são prejudicados
por estes.
São forças, portanto, extremamente heterogêneas pelo seu caráter de classe. Incluem
desde o proletariado, que tem interesse nas mais profundas transformações revolucionárias, até
parcelas das forças mais conservadoras da sociedade brasileira. A sua conseqüência na luta
contra o imperialismo norte-americano não pode ser evidentemente a mesma, porém todas
essas forças possuem motivos para se unirem contra a política de submissão ao imperialismo
norte-americano. Quanto mais ampla for esta unidade, maiores serão as possibilidades de
infligir uma derrota completa àquela política e garantir um curso independente, progressista e
democrático ao desenvolvimento da nação brasileira.
96

A frente única e a luta por um governo nacionalista e democrático

As tarefas impostas pela necessidade do desenvolvimento independente e progressista


do país não podem ser resolvidas por nenhuma força social isoladamente. Disto decorre a
exigência objetiva da aliança de submissão ao imperialismo norte-americano. A experiência da
vida política brasileira tem demonstrado que as vitórias antiimperialistas e democráticas só
puderam ser obtidas pela atuação em frente única daquelas forças.
A frente única se manifesta nas múltiplas formas concretas de atuação ou de
organização em comum, que surgem no país, por iniciativas de diferentes origens e de acordo
com as exigências da situação. Entre estas formas, a mais importante atualmente é o
movimento nacionalista. O seu desenvolvimento expressa um grau mais elevado de unidade e
concentração das forças antiimperialistas. Constituiu um fato novo, resultante não só de
fatores objetivos, entre os quais o desenvolvimento do capitalismo, que fortaleceu as posições
da burguesia, como também das lutas patrióticas de massas, que se travaram durante muitos
anos com a participação combativa do proletariado e de sua vanguarda comunista. Tendem a
unir-se e podem efetivamente unir-se no movimento nacionalista a classe operária, os
camponeses, a pequena burguesia urbana, a burguesia e os setores de latifundiários que
possuem contradições com o imperialismo norte-americano.
O movimento nacionalista vem exercendo influência para elevar a consciência
antiimperialista das massas e para agrupar os setores nacionalistas dos partidos políticos, do
parlamento, das Forças Armadas e do próprio governo. Superando as divergências que existem
entre os seus participantes, o movimento nacionalista atrai para a sua frente de luta entidades,
partidos, correntes e personalidades do mais variado caráter social e orientação política. Assim
é que a Frente Parlamentar Nacionalista, cujo aparecimento tem notável significação em nossa
vida política, unificou a ação de grande número de parlamentares pertencentes aos mais
diversos partidos com representação no Congresso, quer sejam governistas ou oposicionistas.
O movimento nacionalista vem surgindo nas diferentes regiões com plataformas que,
ao lado de pontos comuns, apresentam questões variadas, de acordo com a influência de
97

determinadas forças políticas e da maior sensibilidade, por motivos locais, a esta ou aquela
reivindicação antiimperialista. Os comunistas consideram que é necessário tudo fazer, dentro
do mais alto espírito de unidade, para impulsionar o movimento nacionalista, ampliar seu
caráter de massas e ajudar sua coordenação em escala nacional. Isto contribuirá para acelerar a
polarização em processo entre as forças antiimperialistas e democráticas de um lado, e as
forças entreguistas de outro lado.
Os comunistas devem ser um fator por excelência unitário dentro da frente única
nacionalista e democrática. Por isto, não condicionam a sua permanência na frente única à
total aceitação de suas opiniões. Os participantes da frente única poderão aceitar essas
opiniões somente como resultado de sua justeza, de sua força persuasiva e, acima de tudo, da
sua comprovação pela experiência política concreta. Defendendo firmemente suas opiniões, os
comunistas consideram que, se forem justas, tais opiniões acabarão sendo aceitas pelas massas
e pelos aliados, vindo a prevalecer através de processos democráticos, dentro da frente única.
Os comunistas não são exclusivistas e, ao mesmo tempo que encaram com espírito autocrítico
a sua própria atividade, aceitam a valorizam as opiniões corretas procedentes das outras forças
da frente única.
Sendo inevitavelmente heterogênea, a frente única nacionalista e democrática encerra
contradições. Por um lado, há interesses comuns e, portanto, há unidade. Este é um aspecto
fundamental e explica a necessidade da existência da frente única, a sua capacidade de superar
as contradições internas entre os seus componentes. Por outro lado, há interesses
contraditórios e, portanto, as forças sociais integrantes da frente única se opõem no terreno de
certas questões, esforçando-se para fazer prevalecer seus interesses e pontos-de-vista.
O proletariado e a burguesia se aliam em torno do objetivo comum de lutar por um
desenvolvimento independente e progressista contra o imperialismo norte-americano. Embora
explorando pela burguesia, é do interesse do proletariado aliar-se a ela, uma vez que sofre
mais do atraso do país e da exploração imperialista do que do desenvolvimento capitalista.
Entretanto, marchando unidos para atingir um objetivo comum, a burguesia e o proletariado
possuem também interesses contraditórios.
A burguesia se empenha em recolher para si todos os frutos do desenvolvimento
econômico do país, intensificando a exploração das massas trabalhadoras e lançando sobre
elas o peso das dificuldades. Por isto, a burguesia é uma força revolucionária inconseqüente,
98

que vacila em certos momentos, tende aos compromissos com os setores entreguistas e teme a
ação independente das massas.
O proletariado tem interesse no desenvolvimento antiimperialista e democrático
conseqüente. A fim de assegurá-lo, ao mesmo tempo que luta pela causa comum de todas as
classes e camadas que se opõem à exploração imperialista norte-americana, o proletariado
defende os seus interesses específicos e os das vastas massas trabalhadoras e bate-se por
amplas liberdades democráticas, que facilitem a ação independente das massas. O proletariado
deve salvaguardar, por isto, a sua independência ideológica, política e organizativa dentro da
frente única.
É indispensável, entretanto, jamais perder de vista que a luta dentro da frente única é
diferente, em princípio, da luta que a frente única trava contra o imperialismo norte-americano
e as forças entreguistas. Neste último caso, o objetivo consiste em isolar o inimigo principal da
nação brasileira e derrotar a sua política. Já a luta do proletariado dentro da frente única não
tem por fim isolar a burguesia nem romper a aliança com ela, mas visa a defender os interesses
específicos do proletariado e das vastas massas, simultaneamente ganhando a própria
burguesia e as demais forças para aumentar a coesão da frente única. Por se travar dentro da
frente única, esta luta deve ser conduzida de modo adequado, através da crítica ou de outras
formas, evitando elevar as contradições internas da frente única aso mesmo nível da
contradição principal, que opõe a nação ao imperialismo norte-americano e seus agentes.
Assim, é preciso ter sempre em vista que as contradições de interesses e divergências de
opinião dentro da frente única, embora não devam ser ocultadas e venham a causar
dificuldades, podem ser abordadas e superadas sem romper a unidade.
Os comunistas de modo algum condicionam a sua participação na frente única a uma
prévia direção do movimento. Tendo por objetivo a ampliação e a coesão da frente única, os
comunistas trabalham para que as forças antiimperialistas e democráticas, principalmente as
grandes massas da cidade e do campo, aceitem a direção do proletariado, uma vez que esta é,
do ponto de vista histórico, a única capaz de dar à frente única firmeza e conseqüência
política. A conquista da hegemonia do proletariado é, porém, um processo de luta árduo e
paulatino, que avançará à medida em que a classe operária forjar a sua unidade, estabelecer
laços de aliança com os camponeses e defender de modo acertado os interesses comuns de
todas as forças que participaram da frente única.
99

Para a unidade da classe operária, tem grande importância o fortalecimento do


movimento sindical. Este alcançou numerosas vitórias nos últimos tempos, possibilitando aos
trabalhadores defender o seu nível de vida, restabelecer a liberdade sindical e elevar o seu grau
de organização. As organizações intersindicais têm contribuído para a unidade da classe
operária, mas experiência vem demonstrando que o movimento sindical tem avançado
igualmente à medida que se fortalece a unidade de ação dos trabalhadores nos sindicatos,
federações e confederações, isto é, nos quadros da organização sindical existente no país. O
movimento sindical tem avançado igualmente à medida em que os trabalhadores aprendem a
utilizar as conquistas da legislação social vigente e procuram concretizá-la e aperfeiçoá-la,
influindo no parlamento, com a pressão de massas, para a aprovação de novas leis. Os
sindicatos e as demais organizações profissionais não devem servir a objetivos partidários,
mas precisam ser instrumentos da unidade dos trabalhadores de todas as tendências
ideológicas e políticas, na luta por suas reivindicações imediatas, pelo direito de greve, pelo
melhoramento da previdência social, etc. Simultaneamente, cabe aos sindicatos um grande
papel no amplo movimento nacionalista e democrático.
Os camponeses constituem a massa mais numerosa da nação e representam uma força
cuja mobilização é indispensável ao desenvolvimento conseqüente das lutas do povo
brasileiro. O movimento camponês se encontra, entretanto, bastante atrasado, sendo
baixíssimo o seu nível de organização. Para impulsionar o movimento camponês, é preciso
partir do seu nível atual, tomando por base as reivindicações mais imediatas e viáveis, como o
salário mínimo, a baixa do arrendamento, a garantia contra os despejos e evitando, no trabalho
prático, as palavras de ordem radicais que ainda não encontram condições maduras para a sua
realização. Também no campo, a experiência demonstra que a atuação através de formas
legais de luta e de organização é aquela que permite alcançar êxitos pras as massas. Assim é
que progredido, além das associações rurais e cooperativas, a organização dos assalariados e
semi-assalariados em sindicatos, que já obtiveram vitórias em contendas com fazendeiros.
Tem grande importância a defesa jurídica dos direitos já assegurados aos camponeses. A ação
de massas se mostra indispensável para vencer a resistência dos latifundiários no Parlamento e
conquistar a aprovação de leis que correspondem aos interesses dos trabalhadores agrícolas,
inclusive a elaboração de uma legislação trabalhistas adequada ao campo.
100

As camadas médias urbanas são extremamente sensíveis às reivindicações de caráter


nacionalista e democrático. Aos pequenos negociantes, ao funcionamento civil e militar e a
outros setores da pequena burguesia cabe um posto destacado nas lutas do povo brasileiro.
Importante papel desempenha a intelectualidade, que em sua esmagadora maioria está
interessada no progresso e na emancipação nacional. Como setor mais combativo da
intelectualidade, o movimento estudantil tem dado importante contribuição às lutas do povo
brasileiro. A unidade dos estudantes das mais diversas tendências doutrinárias e políticas é um
fator essencial para o fortalecimento das organizações estudantis, universitárias e secundárias,
que têm sido baluartes da frente única nacionalista e democrática. Seguindo o exemplo dos
estudantes, a juventude dos sindicatos, dos clubes esportivos e recreativos pode unir-se e obter
vitórias nas luta por suas reivindicações.
A formulação dos objetivos comuns, num processo de discussão democrática, vai-se
tornando necessária para a frente única à medida que aumenta a envergadura de suas tarefas.
Os comunistas são de opinião que uma plataforma de frente única deve incluir os seguintes
pontos fundamentais:
1º) Política exterior independente e de paz. Estabelecimento de relações amistosas com todos
os países, acima de diferenças de regime social, na base de respeito mútuo da integridade
territorial e da soberania, da não agressão, da não intervenção nos assuntos internos e da
igualdade de direitos e vantagens recíprocas. Desvinculação de compromissos com quaisquer
blocos militares, denúncia de tratados belicistas e de ajustes antinacionais como o da cessão de
Fernando de Noronha. Apoio às propostas que visem ao alívio da tensão internacional e ao
término da “guerra fria”. Apoio às lutas de libertação nacional de todos os povos.
2º) Desenvolvimento independente e progressista da economia nacional. Intercâmbio
comercial com todos os países, inclusive os países socialistas. Desenvolvimento da iniciativa
estatal nacionalista nos setores do petróleo, energia elétrica, siderurgia, minerais estratégicos e
outros setores básicos. Proteção e estímulo da iniciativa privada nacional. Execução de um
programa federal para o desenvolvimento das regiões mais atrasadas do país e, em particular,
incentivo à industrialização do nordeste. Revogação dos privilégios cambiais ou de qualquer
outra ordem concedidos ao capital estrangeiro, selecionando suas inversões de acordo com os
interesses do desenvolvimento do país e sem prejuízo dos empreendimentos nacionais. Dar
preferência aos financiamentos em geral, governamentais ou não, sempre que não
101

condicionados a exigências políticas e escolhendo livremente aqueles que, seja qual for sua
procedência, ofereçam melhores condições no que se refere a juros, prazos de amortização e
assistência técnica.
3º) Medidas de reforma agrária em favor das massas camponesas. Redução das taxas de
arrendamento e prolongamento dos seus prazos contratuais. Defesa dos camponeses contra a
grilagem e os despejos. Facilitar aos camponeses o acesso à terra, particularmente junto aos
centros urbanos e vias de comunicação. Garantia da posse de terra e entrega de títulos de
propriedade aos atuais posseiros. Aplicação dos direitos dos trabalhadores do campo já
consolidados em lei. Legislação trabalhista adequada ao campo. Facilitar aos camponeses o
crédito bancário, particularmente do Banco do Brasil, os transportes, a armazenagem e a
assistência técnica.
4º) Elevação do nível de vida do povo. Combate enérgico à inflação e à carestia. Equilíbrio
orçamentário e política tributária que não sacrifique as massas nem prejudique as atividades
produtivas. Salários e vencimentos que assegurem melhores condições de vida aos
trabalhadores e ao funcionalismo. Democratização dos órgãos governamentais de controle do
abastecimento e dos preços, de tal maneira que possam servir efetivamente aos interesses das
massas populares. Aumento das verbas destinadas à educação e saúde do povo. Estímulo ao
desenvolvimento da cultura nacional. Aplicação efetiva e melhoria da legislação trabalhista.
5º) Consolidação e ampliação da legalidade democrática. Garantia dos direitos democráticos
contidos na Constituição. Abolição completa das discriminações políticas e ideológicas.
Garantia do direito de greve e dos direitos sindicais dos trabalhadores. Direito de voto aos
analfabetos, bem como aos soldados e marinheiros.
Os comunistas apresentam esta plataforma para um amplo debate do qual possa
resultar a formulação unitária dos objetivos comuns das forças nacionalistas e democráticas.
A frente única nacionalista e democrática acumula forças à medida que luta por
soluções positivas para os problemas brasileiros conduz, inevitavelmente, à necessidade de um
governo que possa aplicar com firmeza em todas as esferas da política interna e exterior a
política de desenvolvimento e de emancipação reclamada pelo povo brasileiro. A luta das
correntes nacionalistas e democráticas para alcançar modificações na composição e na política
do governo atual assume, e tende a assumir cada vez mais, o caráter de luta por um governo de
coligação nacionalista e democrática.
102

Um governo nacionalista e democrático pode ser conquistado pela frente única nos
quadros do regime vigente e aplicar um política externa de independência e de paz, assegurar
o desenvolvimento independente e progressista da economia nacional, tomar medidas em
favor do bem-estar das massas, garantir as liberdades democráticas.
O desenvolvimento da situação no país indica que esta orientação política pode vir a
ser gradualmente realizada por um ou por sucessivos governos que se apóiem na frente única
nacionalista e democrática.
Um governo nacionalista e democrático dependerá fundamentalmente do apoio das
massas e, por isto, o ascenso do movimento de massas não poderá deixar de influir no sentido
de radicalização de sua composição e de sua política. Esta radicalização será também resultado
da necessidade inevitável de medidas mais enérgicas e profundas diante dos atentados do
imperialismo norte-americano e das forças entreguistas e reacionárias no país.
O curso dos acontecimentos no Brasil indica, por conseguinte, a possibilidade real de
um processo em que, sob a pressão das ações independentes das massas e diante da
necessidade de medidas mais conseqüentes contra inimigo, principal da nação, um governo de
coligação nacionalista e democrática abrirá caminho para uma nova correlação de forças, que
possibilite completar as transformações revolucionárias exigidas pelo desenvolvimento
econômico e social de nossa Pátria.
Ainda que dispostos a participar dos governos de caráter nacionalista e democrático, os
comunistas os apoiarão de modo resoluto, mesmo que não venham a fazer parte de sua
composição.

VI

O caminho pacífico da revolução brasileira

Os comunistas consideram que existe hoje em nosso país a possibilidade real de


conduzir, por formas e meios pacíficos, a revolução antiimperialista e antifeudal. Nestas
condições, este caminho é o que convém à classe operária e a toda nação. Como
103

representantes da classe operária e patriotas, os comunistas, tanto quanto deles dependa, tudo
farão para transformar aquela possibilidade em realidade.
O caminho pacífico da revolução brasileira é possível em virtude de fatores como a
democratização crescente da vida política, o ascenso do movimento operário e o
desenvolvimento da frente única nacionalista e democrática em nosso país. Sua possibilidade
se tornou real em virtude das mudanças qualitativas da situação internacional, que resultaram
numa correlação de forças decididamente favorável à classe operária e ao movimento de
libertação dos povos.
O caminho pacífico significa a atuação de todas as correntes antiimperialista dentro da
legalidade democrática e constitucional, com a utilização de formas legais de luta e de
organização de massas. É necessário, pois, defender esta legalidade e estendê-la, em benefício
das massas. O aperfeiçoamento da legalidade, através de reformas democráticas da
Constituição, deve e pode ser alcançado pacificamente, combinando a ação parlamentar e a
extraparlamentar.
O povo brasileiro pode resolver pacificamente os seus problemas básicos com a
acumulação, gradual mas incessante, de reformas profundas e conseqüentes na estrutura
econômica e nas instituições políticas, chegando-se até à realização completa das
transformações radicais colocadas na ordem-do-dia pelo próprio desenvolvimento econômico
e social da nação.
A fim de encaminhar a solução de seus problemas vitais, o povo brasileiro necessita
conquistar um governo nacionalista e democrático. Esta conquista poderá ser efetuada através
dos seguintes meios mais prováveis:
1. Pela pressão pacífica das massas populares e de todas as correntes nacionalistas, dentro e
fora do Parlamento, no sentido de fortalecer e ampliar o setor nacionalista do atual governo,
com o afastamento do poder de todos os entreguistas e sua substituição por elementos
nacionalistas.
2. Através da vitória da frente única nacionalista e democrática nos pleitos eleitorais.
3. Pela resistência das massas populares, unidas aos setores nacionalistas do Parlamento, das
forças armadas e do governo, para impor ou restabelecer a legalidade democrática, no caso de
tentativas de golpe por parte dos entreguistas e reacionários, que se proponham implantar no
país uma ditadura a serviço dos monopólios norte-americanos.
104

O complexo desenvolvimento da vida política nacional é que determinará como será


realizada a conquista de um governo nacionalista e democrático.
Sejam quais forem as vicissitudes que o povo brasileiro tiver de enfrentar para resolver
pacificamente os seus problemas, será sempre necessário o amplo desenvolvimento da luta de
classes do proletariado, dos camponeses e das camadas médias urbanas em defesa dos seus
interesses específicos e dos interesses gerais da nação.
A escolha das formas e meios para transformar a sociedade brasileira não depende
somente do proletariado e das demais forças patrióticas. No caso em que os inimigos do povo
brasileiro venham a empregar a violência contra as forças progressistas da nação, é
indispensável ter em vista outra possibilidade - a de uma solução não pacífica. Os sofrimentos
que recaírem sobre as massas, em tal caso, serão da inteira responsabilidade dos inimigos do
povo brasileiro.
Quanto aos comunistas, tudo farão para alcançar os objetivos vitais do proletariado e
do povo por um caminho que, sendo de luta árdua, de contradições e de choques, pode evitar o
derramamento de sangue na insurreição armada ou na guerra civil. Os comunistas confiam em
que, nas circunstâncias favoráveis da situação internacional, as forças antiimperialistas e
democráticas terão condições para garantir o curso pacífico da revolução brasileira.

VII

Pela vitória da frente única nacionalista e democrática nas eleições

A experiência política de país vem demonstrando que o povo já alcançou importantes


vitórias dentro do Parlamento e dos órgãos legislativos nos Estados e municípios. Esta
experiência também já demonstrou que é possível eleger nacionalistas e democratas para os
postos executivos. As eleições constituem, portanto, um acontecimento de excepcional
importância em nossa vida política.
As eleições, no Brasil, ainda estão submetidas a sérias restrições antidemocráticas.
Certas destas restrições derivam do poder econômico e político concentrado em mãos das
classes exploradoras e são inevitáveis mesmo nas melhores condições da democracia
105

burguesa. Outras, porém, são restrições possíveis de eliminar ainda no regime atual, à medida
que avança o processo de democratização. Os comunistas lutam, por isto, pela extensão do
direito de voto aos analfabetos, bem como aos soldados e marinheiros. Lutam, igualmente,
pela restituição da legalidade ao Partido Comunista, fazendo cessar uma discriminação
anticonstitucional, consumada numa conjuntura reacionária e mantida até hoje em flagrante
desrespeito aos postulados da Carta Magna.
As restrições antidemocráticas que ainda pesam sobre o processo eleitoral não
impedem, porém, a afirmação da sua crescente importância para determinar os rumos da vida
política do país. Combinada a outras formas pacíficas e legais de lutas de massas, as eleições
podem dar vitórias decisivas ao povo. Massas de milhões vêm utilizando o voto para expressar
a sua vontade e influir nos destinos da nação. A participação mais entusiástica nas eleições é,
assim, um dever para os comunistas.
Esta participação não visa exclusivamente a obter pequenos proveitos imediatos e a
utilizar uma oportunidade para fazer agitação de palavras-de-ordem. O objetivo fundamental
da participação dos comunistas nas eleições consiste em eleger para os postos executivos e
legislativos os candidatos da frente única, que possam fortalecer os setores nacionalistas do
Parlamento e do governo. Todo o trabalho eleitoral dos comunistas, seja em âmbito nacional
como em estadual e municipal, deve ser considerado uma parte do trabalho geral de formação
e desenvolvimento da frente única, visando sempre à mudança da correlação de forças
políticas e à conquista de um governo nacionalista e democrático.
Os comunistas se empenham, por este motivo, em contribuir para a constituição de
amplas coligações eleitorais, que tenham força para levar à vitória os candidatos da frente
única. A ação independente dos comunistas se realizará, não fora, mas dentro da frente única.
Lutando, na medida de suas possibilidades, para eleger seus próprios candidatos, os
comunistas não adotam, porém, uma posição exclusivista, colocam acima de tudo a
necessidade de desenvolver e fortalecer a frente única e consideram que a vitória de
candidatos não comunistas da frente única é também sua vitória. Esta orientação contribuirá
para aprofundar nacionalmente e em cada local a polarização em processo entre nacionalistas
e entreguistas, a fim de isolar e derrotar os candidatos comprometidos com o imperialismo
norte-americano.
106

Buscando formar amplas coligações eleitorais, que levem à vitória os nacionalistas e os


democratas, é necessário ter em vista a composição de classe mais ou menos heterogêneas dos
partidos políticos brasileiros, sem, entretanto, estabelecer identidade entre eles. Os comunistas
apoiam os elementos nacionalistas e democratas que existem em todos os Partidos. Tais
elementos constituem uma ala considerável do PSD, a qual tem lutado com relativo êxito
contra a ala reacionária do mesmo partido, ligada aos latifundiários mais retrógrados e a
interesses imperialistas. Em proporção menor, existem elementos nacionalistas na UDN que se
chocam com a alta direção nacional do seu partido, ainda dominada por conhecidos golpistas e
porta-vozes do imperialismo norte-americano. Partidos como o PTB, o PSP e o PSB, que
possuem maior base popular nos centros urbanos, apresentam uma tendência nacionalista e
democrática mais acentuada. O PTB, cujo maior contingente eleitoral provém das massas
trabalhadoras, de modo geral orienta-se por uma política nacionalista e popular. O mesmo
ocorre com o PSB, cuja base social repousa em setores da pequena burguesia urbana e, em
particular, da intelectualidade. Tanto o PTB como o PSB já defendem plataformas
nacionalistas e democráticas.
À medida que se desenvolve o capitalismo no país, os partidos políticos brasileiros
adquirem um caráter cada vez mais estável e nacional. Em virtude, porém, da extrema
desigualdade de desenvolvimento que se verifica entre as diferentes regiões, os Partidos
políticos não puderam ainda superar as divergências, por vezes agudas, que lavram entre as
suas seções estaduais e até mesmo municipais. Esta circunstância não pode deixar de ser
levada em conta, a fim de distinguir, com justeza, as variações de orientação entre os
diretórios nacionais, estaduais e municipais.
Os comunistas apóiam nas eleições os partidos, alas e seções de partidos e
personalidades de atuação nacionalista reconhecida, não confundindo-os, porém, com os
falsos nacionalistas, que procuram enganar o povo com a sua demagogia eleitoreira.
É com esta visão das eleições e de suas perspectivas essenciais que os comunistas se
mobilizam para tomar parte nos pleitos de 1958 e 1960.

VIII
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Fortalecer o Partido para a aplicação de uma nova política

O proletariado brasileiro necessita de uma vanguarda marxista-leninista organizada e


combativa a fim de realizar sua política de classe. O Partido Comunista Brasileiro, que é esta
vanguarda, deve ser capaz de cumprir o seu papel na ação política concreta.
Isto exige que o nosso Partido se depure de persistentes defeitos e adquira qualidades
novas. O subjetivismo, que exerceu longo domínio em nossas fileiras, deve ser combativo em
profundidade, através da reeducação dos dirigentes e militantes no espírito de um nova
política, que emane diretamente das condições objetivas de nosso país e seja a correta
aplicação dos princípios universais do marxismo-leninismo às originais particularidades
concretas do desenvolvimento histórico nacional. O abandono dos princípios universais do
marxismo-leninismo, como síntese científica da experiência do movimento operário mundial,
conduz inevitavelmente à desfiguração do caráter de classe do Partido, e à degenerescência
revisionista. Mas o desconhecimento das particularidades concretas do próprio país condena o
Partido, irremediavelmente, à impotência sectária e dogmática.
As concepções dogmáticas e sectárias, que nas condições atuais de nosso Partido
constituem o perigo fundamental a combater, se opõem de modo radical ao próprio caráter da
missão que os comunistas têm a cumprir. À frente da classe operária deve estar um Partido
que saiba dirigir a luta pelos objetivos revolucionários na ação política corrente, diária,
determinada pelas próprias exigências do movimento real das massas, das classes e das forças
políticas. A esta característica essencial se subordinam as atividades de agitação e propaganda,
do trabalho de massas e de organização do Partido.
Para que os comunistas possam cumprir sua importante tarefa, devem estar a serviço
das massas e lançar-se decididamente à atividade junto às massas. Ao invés de se voltarem
apenas para o trabalho interno do Partido, precisam dedicar o fundamental de suas energias à
atuação legal nas organizações de massas e aí exercer uma função eminentemente construtiva.
É indispensável, por conseguinte, tomar as medidas adequadas para que o maior número
possível de quadros, militantes e dirigentes, realizem atividades legais entre as massas.
Participando das lutas de massas nos movimentos reivindicativos, nas campanhas políticas,
nas eleições, os comunistas não têm outro fim senão o de tornar vitoriosas as aspirações das
massas, aprender com elas e educá-las a partir do nível de consciência que já atingiram. Os
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comunistas devem ser em toda parte batalhadores isentos de exclusivismo, abnegados e


conseqüentes, pela construção da frente única nacionalista e democrática.
O Comitê Central concita a todos os militantes a empenharem-se no fortalecimento do
Partido para torná-lo o instrumento adequado à execução vitoriosa da nova política traçada
nesta Declaração, que deve guiar, de agora em diante, toda a atividade do Partido.

O Comitê Central do PCB


Março de 1958