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WALTZ, Kenneth. O homem, o estado e a guerra: uma análise teórica.

São Paulo:
Martins Fontes, 2004.
* Por Vivian Graça Barcellos Barreira

Kenneth Waltz nasceu no estado de Michigan, Estados Unidos, em 1924. Tinha


então 35 anos quando seu primeiro livro O homen, o estado e a guerra foi publicado, em
1959. Os estudos que levaram a confecção desse livro vieram em função do seu
doutoramento na Universidade de Columbia, onde atualmente é professor de Relações
Internacionais. Ainda no contexto político internacional da Guerra Fria, Waltz publica
mais um livro, Theory of International Politics. Esses dois livros tiveram enorme
repercussão no momento de sua produção, o que se mantém até aos dias de hoje, tendo
sido eleitos pelos especialistas aos postos de clássicos da teoria das relações internacionais.
A principal contribuição do autor norte-americano é a criação do neorealismo ou realismo
estrutural.
Em O homem, o estado e a guerra, Waltz analisa como foram elaborados,
principalmente pela filosofia, mas também, mais tarde pela ciência moderna, os diversos
conjuntos de assertivas que explicam as causas da guerra. Mas, seu principal objetivo – ele
adverte desde o início – não é identificar as causas da guerra e sim, o que pode diminuir as
chances de guerra e aumentar o período de paz entre as nações. Nisso, reside a validade e o
limite de cada uma das explicações que têm sido dadas pelos homens ao longo do tempo.
As explicações para a guerra, ele afirma, podem ser dividas em três: na primeira, culpa-se
o homem e sua natureza má; na segunda, culpa-se a índole do Estado; e na terceira, o
sistema internacional de Estados. O livro está estruturado em oito capítulos. O primeiro é
uma introdução a problemática do autor. A partir do segundo, ele trata a cada dois
capítulos de uma mesma imagem. Assim, no segundo, ele aborda o desenvolvimento da
teoria da primeira imagem e no terceiro, ele dá exemplos de como isso foi levado para o
campo da prescrição, ou seja, como pretenderam tratar das causas da guerra admitindo-se
que a natureza do homem era a responsável pela guerra. O autor faz o mesmo com a
segunda imagem no quarto e quinto capítulos, e também com a terceira imagem no sexto e
sétimo. O oitavo é reservado para a conclusão de Waltz.
Se para os que crêem que a natureza má do homem é responsável pela guerra – e
Waltz coloca nessa lista Santo Agostinho, Espinosa, Niebhur e Morgenthau – a única
saída, se é que há para alguns, é o esclarecimento dos homens a fim de se comportarem
melhor no futuro. Nessa primeira imagem, Waltz concorda que quem faz a guerra são os
homens, mas logo se pergunta se são maus porque a fazem, o que são quando vivem em
paz? Aí, o autor coloca a validade e o limite da primeira imagem, as vontades dos homens
individualmente não explicam as condições da guerra.
Ainda entre os teóricos da primeira imagem, o autor, entretanto, identifica
descobertas positivas para a prolongação da paz. Espinosa e Santo Agostinho afirmam que
sob um governo organizado, vive-se com mais segurança e paz. Acordando com Niebhur,
Waltz entende que algumas imperfeições são melhores que outras, por exemplo, a
democracia em relação ao totalitarismo. A aplicação da teoria da primeira imagem no uso
de cientistas modernos traduz-se pela crença de que a ciência aplicada ao homem em
sociedade pode resolver problemas sociais, entre eles, a guerra.
Logo, o autor trata de desmistificar o poder da ciência ao afirmar que conhecer
necessariamente não leva a paz nem que estar com outras culturas não faz despertar o
sentimento de tolerância. Mas, ele admite que dá para se utilizar da sabedoria de cada povo
para diminuir os conflitos ou torná-los menos violentos. Isso é feito quando se tenta chegar
a um padrão. Ele lembra que a Antropologia comparada provou que a guerra não é inerente
a natureza humana. Um ponto importante da descoberta dos cientistas do comportamento
são três problemas que se vêem constantemente ligados: em que velocidade se consegue a
paz? Como se muda uma sociedade e ainda, como levar a mudança para as outras? O
principal erro dos antropólogos, na visão de Waltz, foi a identificação entre conhecimento
e controle. O autor crê que além do conhecimento para o controle, é necessário a força, ele
usa Marx para referendar isso. A importância do elemento da força não está no indivíduo
sozinho, mas sim na relação com os outros homens, e para conhecer essa é fundamental o
estudo da política. Ele lembra que “a pertinência da estrutura política é avaliada por
aqueles que, como May e Durbin, acrescentam às suas propostas sociopsicológicas para a
paz a estipulação de que antes se estabeleça um governo mundial. O que não é percebido
por alguns deles é que suas soluções se tornam então mais políticas do que
sociopsicológicas”. (p. 97). O limite dos cientistas do comportamento, para Waltz, é o
esquecimento da política.
Na segunda imagem, a organização interna dos Estados é a chave para a
compreensão da guerra e da paz. Waltz dá como exemplo de teóricos Bodin, Marx, Kant e
Wilson. Os defeitos nos Estados provocam guerras entre eles é o resumo da segunda
imagem. Wilson, por exemplo, acreditava que estados democráticos seriam pacíficos,
enquanto que os totalitários, agressivos. “Para cada um desses homens, a reforma dos
Estados das maneiras prescritas é considerada a condição sine qua non da paz mundial” (p.
106). Enquanto que na primeira imagem, os filósofos acreditavam que o homem precisava
do Estado, na segunda, o problema é o Estado. A idéia de que o problema é o Estado,
afirma Waltz, vem desde os economistas clássicos do XVIII até aos dias de hoje, passando
pelos liberais do século XIX.
A validade da segunda imagem está em reconhecer que são, em última análise, os
Estados que deflagram as guerras. O limite está em considerá-los como dotados de uma
natureza quase humana. O limite das duas primeiras imagens é o estudo da natureza em
detrimento do estudo da política. Esse para o autor “se distingue de outros estudos sociais
devido à sua concentração nas instituições e nos processos de governo” (p.16). Isso
explicaria por exemplo, porque Tito, ex-presidente da Iugoslávia socialista rompeu com a
União Soviética. Porque, para Waltz, não é nem a natureza do homem, nem a natureza do
Estado, que tem motivado a guerra nos últimos tempos. Embora, nesse livro, ele acredite
que a primeira e a segunda imagens são causas imediatas da guerra, a conjuntura deflagra o
conflito: “And then there's the third way of looking at it, that it's at the international,
political level that the causes are found, and although the causes do operate at those two
other levels, they operate in this context, and the context is extremely important”1 (E então,
há o terceiro modo de olhar isso, que é o internacional, o nível político que as causas são
encontradas, e embora as causa de fato operem nesses dois níveis, elas operam num
contexto, e o contexto é extremamente importante). Há uma vitória de peso, mas não
unânime, da terceira imagem sobre as outras duas.
A teoria de relações internacionais criada por Waltz, uma das faces do
neorealismo, é explicada por ele: “the structure of the international political system is
defined first by its organizing principle, which is anarchy. Some people would think of that
as a disorganizing principle, but it's a principle that tells one how the major units of the
realm relate to one another. The relation is one of anarchy, as opposed to hierarchy”2 (a
estrutura do sistema político internacional é primeiro definido pelo seu princípio
organizador, que é anárquico. Algumas pessoas poderiam achar que é um princípio
1
Em entrevista cedida ao Conversations with History; Institute of International Studies, UC Berkeley em 10
de fevereiro de 2003. Disponível em http://globetrotter.berkeley.edu/people3/Waltz/waltz-con0.html
Acessado em 15/04/2009.
2
Idem.
desorganizador, mas é um princípio que diz como as unidades maiores do sistema se
relacionam com as outras. A relação é de anarquia, como oposição a hierarquia). O autor
continua: “the second defining principle is by the distribution of capability among those
units, with the more capable ones, of course, shaping the realm, posing the problems that
the others have to deal with”3 (o segundo princípio que define é a distribuição de
capacidade entre essas unidades, com os mais capazes, é claro, moldando o sistema,
colocando os problemas que os outros terão de tratar).
Concluindo, em O homem, o estado e a guerra, Waltz faz um apanhado das
principais idéias levantadas por filósofos e cientistas que expõem as causas da guerra. Ele
também explica porque o tema da paz valia mais do que outros para alguns filósofos: a
importância da vida. Liberdade e bem-estar, no limite, podem esperar. O autor deixa de
considerar por exemplo, a paz como manutenção do status quo e instrumento do discurso
ideológico entre as nações. Nesse livro, foi lançada a lista das coisas críveis e não críveis
do autor, que podem ser resumidas por: não há mal ou bem na natureza do homem ou do
Estado que não seja dado pelo ambiente de competição internacional.

Bibliografia:

Entrevista com Kenneth Waltz ao Conversations with History; Institute of International


Studies, UC Berkeley em 10 de fevereiro de 2003. Disponível em
http://globetrotter.berkeley.edu/people3/Waltz/waltz-con0.html Acessado em 15/04/2009.

3
Ibidem.