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Capitulo Sexto

Contos e mitos

Estava escuro como breu quando entrei em casa. Até


ali tudo parecia perfeito, ou talvez não, pois não havia
dúvidas de que tinha abusado da sorte, e agora a fantasia
terminara.
Mal entrei, vi surpreendido que as luzes, com um tom
amarelado muito ofuscante, estavam acesas. Andando sob
a ponta dos pés, comecei a subir as escadas que iriam dar
aceso ao meu quarto. Os olhos da minha madrinha
permaneciam impacientes e rígidos como se eu tivesse
cometido um crime ou algo do género.
Baixou o olhar e ficou quieta. A maneira como ali
permanecia estava a incomodar-me e deveria expressar o
querer de uma explicação. - Porque não avisas-te Daniel?
- Está muito zangada? Eu não fiz de propósito – Baixei
o olhar e o tom de voz. Ela apenas acenou com a cabeça,
olhando fixamente para mim, tendo um sorriso tímido no
rosto, onde uns graciosos olhos verdes brilhavam e
percorriam o corredor para além de mim, até à porta.
Aquilo sugeria-me desconfiança, e a minha madrinha
virou costas, quase parecendo que não me estaria a ver ali.
- Não voltará a acontecer – Prometi-lhe.
Então ela virou-se, olhou-me ternamente, com um
olhar meigo a desaparecer juntamente com ela, como se
fosse uma miragem.
Era um sonho.
Acordara quase sobressaltado e a suar, olhando em
redor, o quarto escuro e silencioso. A causa de tal sonho,
não parecia ser importante, ou melhor, o aspecto que ali
coincidia seria, que eu estava de consciência pesada por
algo que não deveria ter feito, numa casa estranha e numa
família que não era minha. Sabia que no dia seguinte tudo
mudaria, para melhor.

Decididamente a noite não fora boa, não pregara olho


após o pesadelo. A falta de barulho ou tipo de som deixava-
me confuso em relação à situação do dia, ou falta dele,
porque o meu quarto permanecia fechado e escuro.
Escondi-me nos lençóis machos e convidativos a uma boa
hora de sono repousante, mas no momento seguinte o
despertador tocou, marcando as oito horas a que teria de
responder para não chegar atrasado.
Eu não o desejava. Não me apetecia chegar antes de
Sally, mas a ansiedade era tão grande que me limitei a ir
para lá a pé, para ter tempo suficiente de chegar bem perto
do toque de entrada.
Havia sol por toda a parte, o que tornava aquela
manhã absolutamente encantadora, com os ramos das
árvores a dançarem com o vento ligeiro.
O caminhar dos meus ténis fazia um barulho
estridente, parecendo demasiado alto para quem passava e
olhava de má cara para mim. Seria bastante melhor trazer
a bicicleta que era silenciosa e bem mais rápida; estava
com tanta vontade de estar com Sally, que até o próprio
vento parecia querer que eu andasse devagar, vindo de vez
em quando uma rajada forte que fazia com que parasse.
Não foi propriamente rápido chegar à escola, e com
toda a pressa que tinha, até pareceu bastante rápido para
alguém que nunca tinha ido a pé para tal lugar.
À medida que me aproximava do portão, cheio de
gente, a minha respiração parecia aumentar a cada passo
que dava, dando-me tonturas e dores de peito. Tinha as
mãos a tremer e decidi mete-las nos bolsos para que não se
notasse tanto o meu grau de nervosismo.
O corredor principal mostrava-se para já vazio e
bastante quente, o que ajudou a que eu relaxasse um
pouco. Depois avancei e passei pelos cacifos nojentos e
com desenhos de grafitis a inundarem todos os bocados de
chapa que parecia envelhecida.
Senti-me melhor à medida que me aproximava da sala
da próxima cuja, informática e computorização. Entrei
calmamente e deparei-me com uma sala bastante maior
que as do dia anterior. No entanto, completamente cheia de
armários a abarrotar de esculturas no seu interior.
A campainha pareceu demasiado aguda quando soou,
provocando arrepios nos braços e fazendo-me cerrar o
maxilar para me concentrar no quanto queria que aquilo
passasse.
- Daniel, Daniel! - Ouvi uma voz aflita chamar por mim
e virei o olhar para o lado, observando que Anna se dirigia
para mim quase de modo acidental. Por pouco não caiu ao
chegar perto de mim.
- Olá Anna – Suspirei e mantive uma posição de quem
está muito atento – O que se passa?
O aparelho metálico apareceu, resplandecente como
me lembrava dele. Não aquilo não era um sonho...
- Viste a Sally? - Questionei olhando para a porta da
sala preocupadamente.
- Sempre a amiguinha loirinha – Sussurrou, tentando
fazê-lo sem que eu desse por isso. No mesmo instante fingi
não ter ouvido, ao que me tornei sério.
- Não sei – Disse com amargura – Queres ir dar uma
volta por aí? Reparei nos olhos dela e fiz-lhe um olhar de
pura insatisfação.
- Não posso. Ainda tenho que ver aqui o material para
esta aula. É um pouco complicado.
Ela virou a cabeça para mim sem no entanto nos
olharmos, e assim acenou afirmativamente para no
momento seguinte se dirigir ao seu lugar e não mais me
olhar. Decerto este seria o último encontro verbal que teria
com ela, embora soubesse que ela estaria a sofrer em
silêncio, tão perto, e iria ser assim daqui em diante. Depois
ainda a olhei, não conseguindo saber se estava bem e o
que estava a sentir – Tão perto que estava depois, por ali,
nos corredores do liceu.
O seu cabelo negro estava delicadamente penteado
para trás e parecia mais longo do que quando a conhecera.
Todavia, eu não me esforçava para dar mais ênfase àquela
situação, senão à presença próxima de Sally, logo após a
aula que parecia nunca mais começar.
Estava em pulgas para o toque de saída, e eu parecia
estar num reino de felicidade eterna. Além da mentira que
contara a Anna, o essencial de todo o "teatro" que fizera,
tinha uma única explicação - Sally.

Tentei convencer-me que com o tempo todo aquele


amuar dela passaria, não esperando que ela me odiasse
para toda a vida, de modo a voltar a ver o seu sorriso. Os
meus colegas foram entrando e, o rapaz a quem eu
ajudara, parecia satisfeito nessa manhã, sem a companhia
desagradável da sua "carraça mor" por ali perto. Eu via nele
uma preocupação, mas não seria com certeza por causa
deste último, mas por outra coisa.
Reparei no seu semblante alguma fúria, mas fiquei
aliviado por momentos depois, a sua expressão voltar ao
normal.
A situação de espera tornou-se menos desagradável
quando um homem bastante novo, com uma camisola azul
e umas calças de ganha, na moda, irrompeu pela sala para
se chegar ao lado da secretaria, onde pousou a pasta que
trazia, aparentemente parecida com uma mala de PC.
O sol escondeu-se um pouco atrás de duas nuvens
teimosas que a meu ver, pareciam querer tirar toda a
alegria que aquele dia trazia. Os arbustos em redor da rede
metálica que separava os limites da escola, da estrada,
estavam sempre a mover-se violentamente, e pouco
depois, umas gotas minúsculas começaram a fazer com
que o chão de cimento parecesse um dálmata às pintas.
A chuva, no entanto, não parecia tão eminente como
fora nos dias que se antecederam.
Detive-me por momentos, adiando o desgosto por
aquela água toda me vir a molhar os livros e a roupa que
decididamente estava destinada a virar um monte de
humidade abundante. Um sentimento de tristeza pareceu
invadir a minha ansiedade.
Os meus receios agravaram-se quando a aula tomava
o rumo de trabalhos de computador, quando o professor
Dinonn, um nome um tanto ou nada estranho, nos começou
a explicar as funcionalidades de um programa novo de
edição de imagens. No entanto, apenas abordou o assunto
inicial, em que, eu já me tinha habituado por causa de uma
experiência feita em casa.
Quando a campainha deu sinal para a saída eu
permanecia envolto nos meus pensamentos acerca de
Anna. Quanto possível, tentaria manter a minha dignidade,
para depois me dirigir a ela e tentar pedir-lhe desculpas,
porque a final de contas, a culpa era inteiramente da minha
responsabilidade, bastante vulnerável quando queria fazer
as coisas bem feitas.
- Não precisamos de estar assim – Disse-lhe tentando
manter-me dócil mas palavras e na expressão da minha
cara demasiado carrancuda para o momento.
Não me olhou. Virava as páginas do caderno,
acelerando cada vez mais à medida que o tempo passava.
Daí a pouco apenas parecia ver uma página e não várias,
tal era a velocidade. Quando se levantou, eu mantinha-me
um pouco distante, não fosse o diabo tece-las e eu levar um
estalo ou algo do género. Mas, subitamente, ela pareceu
reconhecer o meu pedido, sincero, de desculpas, ao ponto
de olhar fixamente para mim, com o mesmo olhar,
compenetrado e entusiasmado com sua a tinha conhecido.
Toda a raiva, ou fosse qualquer outra coisa, tinha
passado.
- Que idade tens Daniel Foller? - Fiquei admirado com a
formalidade da pergunta, e fiquei engasgado nas palavras a
responder.
- Ah... Dezoito, porquê?
Não consegui perceber bem tal questão. Ela arrumava
tudo e ficou de pé, mesmo após todos terem saído,
incluindo o professor.
Era permitido ficar na sala durante os intervalos, e a
razão para tal... Muito simples: trabalhos em computador, e
estava na altura de os começar a fazer, o que ainda não era
acontecia na minha turma.
- Conheces Capara?
Apercebi-me de que provavelmente estava a falar de
algo sobre cidades, o que não era o meu forte. A minha
biblioteca cultural cingia-se apenas a música e pouco mais.
- Não penso que conheça essa cidade – Respondi, um
pouco envergonhado. Anna lançou-me um olhar de
surpresa, que iria para além dos meus olhos. Bem lá no
fundo, ela estava a relembrar-se de algo, e, eu parecia o
espelho das memórias, ou melhor, os meus olhos.
- Então... Mas vais à visita de estudo na próxima
semana? O sítio que vamos visitar é bastante emocionante
e assustador.
- Não me parece que ir a uma catedral, velha e a
cheirar a mofo dos zombies que por lá enterraram, seja
propriamente "apelativo". - Fiz sinal com os dedos em sinal
de aspas e a minha cara fez uma careta para mostrar o
desagrado
- Não vejo que seja proveitoso a qualquer sentido de
conhecimento.
Ela sentou-se com rapidez e vi que estava
completamente entusiasmada com algo que talvez dissera.
- Boa, finalmente alguém me compreende! Uma
oportunidade...
A sua face ganhou vincos leves nas bordas dos lábios,
sabendo eu que se preparava para um sorriso aberto.
Depois ela abriu o livro antigo, com letras douradas e a
capa, velha e gasta a desfazer-se, num tom azul-escuro
muito carregado.

Abriu-o mesmo no meio onde tinha uma marca com


tinta uma marca com tinta de caneta preta, e mostrou-me a
imagem de um edifício com duas torres, vários vidros e um
grande portal. Certamente que era uma igreja.
- Uma... Igreja? Porque queres que veja isto?
- Primeiro, isto não é uma igreja - Parou para percorrer
com os dedos a imagem, algo envelhecida num monte de
letras em redor - É uma catedral.
Ri-me baixinho com certeza de que aquela imagem
era tolerante irrealista. Afinal onde é que uma catedral
podia estar em plena cidade como aquela? Tudo à volta era
tão...desenvolvido.
- Percebo... - Disse com um tom de sarcasmo.
- Não gozes, isto não tem piada. Bem...voltando ao
assunto, existem guardas, como hei-de explicar... "mitos",
pode ser a expressão adequada à situação acerca desta
catedral.
- Oh, a sério? E agora vais contar que esta espelunca
agrega histórias de mortos-vivos e guardiães furiosos que
matavam quem se atrevesse a assaltar a catedral! Por
favor Anna, já não crédito em histórias de terror desde os
seis anos.
Após tal visão do assunto, ouvi um pequeno murmurar
zangado e um ar rouco a sair da garganta daquela minha
amiga.
- Vais à visita? - Questionou de uma maneira rude com
os maxilares a contraírem-se.
- Depende... Afinal o que é que esta catedral tem de
tão manipulador e terrorífico? Não vejo aí nada de especial.
Peguei no livro e virei a página à procura de algo
sinceramente mais importante.
- Ouvi dizer e li aí a confirmação – Esperou para se
acalmar um pouco – Parece que existem criaturas da noite,
nestas colunas de pedra que vês aqui.
Notei imediatamente numa coisa que saltou à vista.
Era uma estátua, de um morcego ou algo parecido,
agachado e ao corpo metade humano, metade besta, em
que os seus longos e musculados braços seguravam a
cabeça de...Um homem. Estava em agonia e a figura ria-se
com os olhos arregalados e sobressaídos.
- Genial – Confessei com o meu sangue a correr-me
nas veias a alta velocidade. Aquilo dava-me alguma
adrenalina de ir ver a tal catedral.
- O que podes dizer mais sobre estas estátuas?
Estranhamente aquela figura quase humana, que,
quase reconheci alguém nela. Porém não sabia quem seria,
até porque a pedra estava gasta e com buracos ao longo da
mesma.
- Hum - Consentiu ela, ficando a olhar para a imagem -
Interessante.
Olhara-a detalhadamente. Permaneceu imóvel a quase
tentar entrar dentro da imagem, como se aquele corpo
permanecesse ali, à espera de retirar a alma daquele
morto-vivo.
- É só isso? Apenas um "Hum"? Boa, grande ajuda!
- Espera – Pediu agarrando-me com simplicidade -
ainda não acabei.
- E então? - A minha voz parecia demasiado
impaciente. Estaria a mostrar uma pessoa extremamente
ridícula? Ou era apenas o estado de nervosismo para ver
Sally que me fazia permanecer em figura de estúpido? A
opção que pensara em último lugar parecia mais razoável,
pelo que tentei acalmar-me.
- Gárgulas... As estátuas são magníficas e devem ter já
perto de cem anos ou mais.
- Explica-me tudo – Implorei ao chegar-me para perto
dela, que pareceu não dar conta da minha proximidade.
Mas tal não viria a acontecer, pelo menos agora.
Estremeci quando ela pegou na mochila e sem eu
contar se dirigiu depressa demais à porta. Depois saiu.
- Espera, eu...
Deixei a frase a meio, arrumei tudo e corri para ver
onde é que ela iria. Mas ela desapareceu, tal como
sucedera com Sally. Estaria eu a ficar maluco?
A chuva aumentou de intensidade e ouvi os vidros
abanarem com estrondo. As luzes falharam e percebi que
se avizinhava uma grande tempestade, ou algo pior. Após
tal momento, no exterior da sala, um numeroso grupo de
alunos permanecia assustado e colocado junto a uma das
salas que davam acesso a um estúdio que poderia albergar
cerca de mil alunos. Lá dentro, lembrava-me de como era
escuro e assustados, vazio e gelado, mas parecia que eles
estariam dispostos a passar por tal provação, a favor de...
Claro, só podia ser...
- Rápido, rápido, venham para aqui e não entrem em
pânico - Gritava o director da escola com mais dois
ajudantes, que desconhecia, a tentarem todos evacuar o
recinto. - Vai passar por aqui um pequeno tornado e eu não
quero perder tempo com pessoal perdido. Venham,
venham.
No mesmo instante, a imagem de Sally surgiu na
minha cabeça e receei o pior. O meu coração batia mais
depressa do que eu conseguia controlar, e a minha
respiração ficou demasiado ofegante.
Comecei a suar e via tudo à roda. Não podia ser. Sally
estava em perigo, lá fora ou em algum lugar que não sabia.
Limitei-me a não pensar e pressionei as têmporas para
poder surgir algo com clareza, o que parecia ser uma
missão impossível. Estava assustado, em estado de choque
com a ideia de ela poder estar mal, ferida ou desaparecida.
Então desatei a correr e passei pelos três responsáveis
quando um grupo passava, e assim ninguém me viu quando
me baixei no momento em que todos gritavam
histericamente por causa de um trovão.
Sabia que o tempo estava a passar e a cada momento
podia ser a minha responsabilidade de não ter ido ter com
Sally, a pô-la numa situação perigosa.
- Sally! Sally, onde estás?
Reparei que seria escusado chamar por mais alto que
fosse, com toda a chuva e o vento a fazerem barulho. O
meu chamamento seria apenas um murmúrio no meio
daquilo.
Nunca a iria encontrar e os meus pensamentos
lembraram a primeira vez em que a vira, sublime e bela.
- Sou fraco – Pensei para mim. - Mas eu não posso
desistir. Ela precisa de mim...
A chuva era tão forte que me deixei derrotar pelo
cansaço e pela falta de ar.
Deitei-me junto ao portão da entrada, fechado e
comecei a perder a respiração, com o vento a fustigar-me a
garganta e as narinas. Onde poderia ela estar? Seria eu tão
fraco para não conseguir salvar nenhum de nós?
Então, lá ao longe, uma sombra aproximou-se...