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INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO – KING JAMES

A Bíblia é o livro do Caminho

No livro The Uncommon Reader (O Leitor Incomum), uma obra de


ficção de Alan Bennet, o autor imagina a rainha da Inglaterra
tornando-se repentinamente, no fim da vida, uma leitora assídua. Em
uma época como a nossa, em que os livros impressos parecem perder
certo terreno e interesse diante das forças de entretenimento dos
MySpace, You Tube e American Idol da vida, a idéia de uma pessoa - de
uma hora para outra - começar a se interessar por leitura e tornar-se
um leitor, parece mesmo um romance.

Em todo caso, ler é um toque divino na alma humana. De repente, você


está lendo algo que lhe chamou a atenção e quando percebe não pode
parar, não quer parar e não pára mais. Um livro puxa outro, um autor
sugere outro, e o mundo se abre: e eu que pensava que o sol fosse
uma estrela muito especial e a Via Láctea imensurável, descubro que o
Universo possui mais de 350 milhões de galáxias com bilhões de
sistemas solares semelhantes ao nosso.

E aí vem a pergunta: Qual o maior livro de todos? Qual obra de


literatura não pode faltar em minha biblioteca, ao meu lado, no meu
laptop ou celular? A number one é a Bíblia. Desde Gutenberg o
best-seller mundial. Mais de 50 milhões de exemplares da Bíblia são
vendidos todos os anos. Mas se você é daqueles, como eu, que não
gosta muito de ler o que todo mundo está lendo, que não repara nas
listas de best-sellers (a maior parte delas tendenciosa e forjada de
alguma maneira e por algum interesse menor que a pura estatística),
pode ler a Bíblia por sua qualidade e fidedignidade. Por sua qualidade
profética e poética e por sua infalibilidade enquanto Palavra de Deus,
pra hoje e eternamente. Nenhuma obra do gênio humano se compara
à Bíblia. Ela é simplesmente indispensável. Só não sabe disso quem não
a leu, e é uma pena constatar que muita gente ainda não a leu.
Curiosamente, tem mais gente que possui a Bíblia – às vezes, mais de
um exemplar em casa – do que pessoas que já a leram de capa a capa.
E nessa triste estatística nem pastores ou padres escapam: cerca de
52% dos líderes cristãos ainda não leram a Bíblia completa, ao menos
uma vez, de Gênesis a Apocalipse. Como eles pregam o Evangelho?

Sto. Agostinho e o grande precursor da computação, Blaise Pascal, se


converteram ao cristianismo lendo apenas alguns trechos das cartas do
apóstolo Paulo. A Bíblia é mesmo extraordinária.

Bem, na verdade fui convidado para escrever algumas linhas


introdutórias sobre a bela tradução da Bíblia que levou o nome de seu
principal patrocinador: o rei James I, ou King James, como passou para
a história.

No entanto, não poderia falar algo sobre a King James sem antes ser
categórico quanto a prevalência e importância fundamental da leitura
da Bíblia na vida de todos nós. Por isso, aqui fica meu apelo mais
eloqüente e sincero: comece hoje mesmo a ler sua Bíblia com devoção!
Comece pelos Evangelhos, depois leia o Novo Testamento todo e antes
de iniciar o livro do Apocalipse leia o Antigo Testamento, depois
encerre sua primeira leitura total da Bíblia com o livro da Revelação (o
Apocalipse). Não se preocupe, não há nada de cabalístico nisto, é só
uma sugestão de ordem prática e que vai lhe ajudar a compreender
melhor ainda todo o texto bíblico.

Foi o Rev. Caio Fábio quem definiu a Bíblia King James como "a mais
shakespeariana" das traduções modernas das Escrituras. E, de fato, o
rei James I foi contemporâneo de William Shakespeare quando, em
1607, aceitando a sugestão de vários líderes eclesiásticos liderados por
John Reynolds, teólogo puritano e reitor da Universidade de Corpus
Christi em Oxford, deu início aos trabalhos de revisão e tradução da
conhecida Bíblia de João Calvino, para a língua inglesa.

James I, escocês, cristão e biblísta, havia assumido o trono da


Inglaterra logo após a morte da rainha Mary Católica, que dizimou
centenas de cristãos em seu reinado simplesmente por defenderem a
fé protestante e o livre exame das Sagradas Escrituras.
Muitos dizem que a sucessão do trono ter recaído sobre James I foi o
cumprimento de uma profecia que William Tyndale (o primeiro
tradutor das Escrituras, das línguas originais para o inglês), fez
momentos antes de sua execução por estrangulamento e queima em
fogueira no centro de Londres pelo carrasco do império: "Meu Deus!
Abra os olhos do rei da Inglaterra!"

King James, ouvindo a opinião da maioria dos líderes eclesiásticos do


reino inglês, teólogos que criticavam a tradução da Bíblia de Genebra,
por seus excessos calvinistas, formou e coordenou pessoalmente um
comitê com cerca de 50 eruditos de Oxford, a fim de realizar uma
revisão minuciosa nesta tradução do notável teólogo francês, com
base nos melhores manuscritos dos textos Receptus e Massorético
disponíveis na época.

Em 1611, sob a expressa "autorização do rei" (Authorized Version) era


publicada a Bíblia King James, que se tornaria a mais lida e apreciada
tradução das Escrituras em toda a Europa e nos Estados Unidos até
nossos dias.

Desde o ano 2000, a Sociedade Bíblica Ibero-Americana e a Abba Press


do Brasil assumiram a responsabilidade pela tradução da Bíblia King
James para a língua portuguesa. Um comitê formado por cristãos de
diversas denominações, especialistas em várias áreas do conhecimento
teológico, lingüístico e literário, e residentes em vários países do
mundo, teve acesso às mais recentes descobertas arqueológicas, como
os chamados Rolos do Mar Morto (a maior descoberta arqueológica do
séc. XX), os melhores e mais antigos manuscritos que formam a Bíblia
Hebraica Stuttgartensia, e estudos crítico-textuais, como os valorosos
trabalhos de Nestle-Aland, autores das muitas edições do conhecido
Novum Testamentum Graece além dos manuscritos do respeitável
Textus Receptus e demais obras textuais relevantes nas línguas
originais (hebraico, aramaico e grego).

Da King James em inglês de 1611, o comitê de tradução para a língua


portuguesa procurou apropriar-se do estilo: majestoso, clássico e
reverente; sem contudo, prejudicar a comunicação clara e
compreensível ao leitor lusófono que vive hoje em todos os países
deste nosso mundo globalizado.
Jesus Cristo é o Caminho (Evangelho Segundo João, capítulo 14,
versículo 6), e a Bíblia o seu Livro. A obra que trata sobre sua história e
missão na terra e no porvir; a história do amor de Deus por sua Criação
e por seu filho: o homem, a humanidade. Desconhecer a Bíblia é viver
um eterno e absoluto non sense.

Acabo de reler "O Anticristo" de Friedrich Nietzsche, nascido em uma


família luterana muito religiosa e conservadora, com uma vasta
linhagem de pastores protestantes; o próprio pai, Karl Ludwig,
responsável pela paróquia de Röcken.

Seu maior sonho era o de ser um pastor como seu pai, por isso
dedicou-se intensamente ao estudo da teologia, mas deixou de abrir
seu coração para a ministração sobrenatural que a Palavra de Deus
exerce em nossa alma mediante o Espírito Santo, preferindo
aprofundar-se na filologia a crer na simplicidade do amor, justiça e
soberania de Deus.

Portanto, agora que você encontrou a Água da Vida (Jo 4.10-14),


permita que sua alma beba a vontade e seja saciada pelo Espírito de
Deus. Há muitas coisas que eu e você vamos nos arrepender ao longo
da vida; mas jamais nos arrependeremos de todas as vezes que lemos e
nos alimentamos da Palavra de Deus. Experimente e comprove!

Boa leitura!

Oswaldo Paião
Diretor editorial
SBIA e Abba Press
INTRODUÇÃO
O EVANGELHO SEGUNDO

MATEUS
Autoria
Desde o segundo século da era cristã, a tradição da Igreja atribui ao apóstolo Mateus a autoria do
Evangelho que aparece em primeiro lugar nas várias edições da Bíblia (Mt 9.9 e 10.3).
Eusébio, em sua obra História Eclesiástica, no início do século IV, já trazia citações de Papias, bispo
do século II, de Irineu, bispo de Leão e de Orígenes, grande pensador cristão do século III. Todos os
“pais da Igreja” (como ficaram conhecidos os notáveis discípulos de Cristo e teólogos dos primeiros
séculos), concordam em afirmar que este Evangelho foi escrito (ou narrado a um amanuense, pes-
soa habilidosa com a escrita), primeiramente em aramaico (hebraico falado por Cristo e pelos jovens
judeus palestinos de sua época) e depois, traduzido para o grego. Apesar das muitas evidências
sobre a existência do original em aramaico, todas as buscas e pesquisas arqueológicas somente en-
contraram fragmentos e cópias em grego. Entretanto, os principais estudiosos e teólogos do mundo
não duvidam que o texto grego que dispomos hoje em dia é o mesmo que circulou entre as igrejas
a partir da segunda metade do século I d.C.
Ainda que não apresentando explicitamente o nome do autor, o Evangelho Segundo Mateus,
fornece pelo menos uma grande evidência interna que confirma sua autoria defendida pelos pais da
Igreja. A história da narrativa de um banquete ao qual Jesus compareceu em companhia de grande
número de publicanos e pecadores (pagãos e judeus que não guardavam a Lei e as determinações
dos líderes religiosos da época) é descrita na passagem que começa com as seguintes palavras em
grego original transliterado: kai egeneto autou anakeimeou em te(i) oikia(i). Ou seja: “E aconteceu
que, estando Jesus em casa,...” (Mt 9.10). Considerando que os últimos três vocábulos significam
“em casa”, o trecho sugere que o banquete fosse oferecido “na casa” de Jesus. Contudo, a
passagem paralela em Mc 2.15 revela que essa festa aconteceu “na casa” de Levi, isto é, Mateus
Levi. O texto em Marcos aparece assim transliterado: en te(i) oikia(i) autou, “na casa dele”. O sentido
alternativo de Mt 9.10 esclarece que “em casa” quer dizer “na minha casa”, ou seja, “na casa” do
autor, e isto concorda perfeitamente com Marcos e com os fatos apresentados em todos os Quatro
Evangelhos.
Mateus, que tinha por sobrenome Levi (Mc 2.14), e cujo nome significa “dádiva do Senhor”, era um
cobrador de impostos a serviço de Roma, mas que abandonou uma vida de avareza e desonestidade
para seguir Jesus, o Messias (Mt 9.9-13). Em Marcos e Lucas é chamado por seu outro nome, Levi.

Propósitos
O principal objetivo do Evangelho Segundo Mateus é relatar seu testemunho pessoal sobre o fato de
Jesus Cristo ser o Messias prometido no Antigo Testamento, cuja missão messiânica era trazer o Reino
de Deus até a humanidade. Esses dois grandes temas: o caráter messiânico de Jesus e a presença
do Reino de Deus são indissociáveis e devem ser analisados sempre como um todo harmônico. Cada
qual representa um “mistério” – uma nova revelação do plano remidor de Deus (Rm 16.25-26).
Antes do grande evento da vinda do Messias, como o Filho de Deus (também chamado no AT e
pelo próprio Jesus de “o Filho do homem”), em triunfo e grande glória entre as nuvens do céu, a fim
de estabelecer Seu Reino sobre o planeta todo, terá em primeiro lugar, de vir sob a mais absoluta
humildade entre os homens na qualidade de Servo Sofredor, cônscio de que sua missão será dedi-
car a própria vida em sacrifício voluntário a favor da humanidade, especialmente dos que, crendo em
Seu Nome, se arrependerem dos seus pecados, nascendo para uma nova vida (Jo 1.12; 3.16). Esse
é o mistério da missão messiânica. Era um ensino completamente desconhecido para os judeus
do primeiro século da nossa era. Hoje, a maior parte dos cristãos que lêem o capítulo 53 de Isaías
não sentem qualquer dificuldade em identificar a pessoa de Jesus Cristo com o Messias prometido.
Entretanto, os judeus não observaram com cuidado a descrição do Servo Sofredor e deram mais
atenção às promessas de um Messias que viria com grande poder e glória, o que realmente está
registrado no contexto dessa passagem (Is 48.20; 49.3).
Por esse motivo, os judeus do primeiro século esperavam ansiosamente pelo Filho de Davi, um Rei
divino (uma vez que os reis humanos já haviam provado sua incompetência e limitação). O Filho de

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Deus e Rei governará o Reino messiânico (Is 9 e 11 com Jr 33). Nesse Dia, todo pecado e mal serão
extirpados da terra; e a paz e a justiça prevalecerão. O Filho do homem é um ser celestial a Quem
está entregue o governo de todas as nações e reinos da terra.
O mistério do Reino é semelhante e está intimamente ligado ao mistério messiânico. No segundo
capítulo do livro do profeta Daniel temos a descrição da vinda do Reino de Deus em pinceladas
vigorosas e impressionantes. Todo poder que fizer resistência à vontade do Senhor será aniquilado.
O Reino virá todo, completo, de uma só vez, varrendo da sua frente todas as hostes do mal e todo
império contrário a Jesus Cristo. A terra será toda transformada e uma nova ordem, universal e
perfeita será instaurada.
Portanto, tanto a mensagem de Cristo como a Sua pessoa foram totalmente incompreendidas
pelos Seus compatriotas e contemporâneos em geral, incluindo os próprios discípulos. Todavia, a
nova revelação sobre o propósito de Deus é que o Reino deveria vir em humildade e doação: poder
espiritual, antes de vir em plena glória triunfante.
Mateus deixa claro que deseja apresentar, em ordem histórica, o nascimento, ministério, paixão e
ressurreição de Jesus Cristo. Para tanto, ele reúne os fatos em cinco grandes discursos proferidos
pelo Senhor: o chamado, Sermão da Montanha (Mt 5.1 a 7.27); a comissão aos apóstolos (Mt 10.5-
42); as parábolas (Mt 13.1-53); o ensino sobre humildade e perdão (Mt 18.1-35), e a palavra profética
(Mt 24.1 a 25.46). Mateus cita várias passagens e profecias extraídas do Antigo Testamento e, de
fato, interpreta essas profecias como tendo absoluto e certeiro cumprimento em Jesus Cristo; tudo
é escrito e ensinado de um modo que seria para o judeu do século I prova irrefutável, a qual a Igreja
cristã adota até nossos dias.

Data da primeira publicação


Embora alguns estudiosos considerem a forte possibilidade de o Evangelho Segundo Mateus ter
sido escrito na Antioquia da Síria, as evidentes características judaicas do texto original apontam sua
geração para alguma parte da antiga Palestina.
Considerando o fato de a terrível destruição de Jerusalém, ocorrida por volta do ano 70 d.C., ser
ainda considerada um acontecimento futuro (Mt 24.2), e que Mateus, assim como Lucas, terem sido
beneficiados pela leitura dos escritos de Marcos, podemos entender que as primeiras cópias do livro
de Mateus circularam entre os irmãos da recém igreja cristã (chamada de igreja primitiva), quando a
Igreja era em grande parte judaica e o Evangelho pregado quase que exclusivamente aos judeus (At
11.19), por volta dos anos 50 e 60 da nossa era.

Esboço Geral de Mateus


1. Nascimento e infância do Cristo, o Messias (caps. 1,2)
A. A genealogia de Jesus (1.1-17).
B. O anúncio do seu nascimento (1.18 – 25)
C. A adoração ao bebê, filho do Homem, o Salvador (2.1-12)
D. A permanência de Jesus no Egito (2.13-23)
2. Prelúdio do ministério de Jesus Cristo (caps. 3.1 – 4.25)
A. João Batista e seu ministério preparatório para Jesus (3.1-12)
B. O batismo de Jesus Cristo (3.13-17)
C. A grande tentação de Jesus (4.1-11)
D. A investidura do Senhor (4.12-25)
3. O ensino do Rei Jesus Cristo (caps. 5.1 – 7.29)
A. A proposta da Vida no Reino (5.1-16)
B. Os princípios espirituais para se viver no Reino (5.17-48)
C. A Torá e a Lei de Moisés (5.17-20)
D. A lei sobre o assassinato (5.21, 22)
E. A lei sobre o adultério (5.27-30)
F. A lei sobre o divórcio (5.31, 32)
G. A lei sobre os votos (5.33-37)
H. A lei da não resistência (5.38-42)
I. A lei do amor (5.43-48)
4. Aspectos práticos da vida no Reino (caps. 6.1 – 7.12)
A. Sobre as esmolas e ajudas (6.1-4)
B. Sobre a oração (6.5-15)

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C. Sobre a disciplina espiritual do jejum (6.16-18)
D. Sobre o dinheiro (6.19-24)
E. Sobre a ansiedade e preocupações (6.25-34)
F. Sobre o Juízo (7.1-5)
G. Sobre a prudência (7.6)
H. Sobre a oração (7.7-11)
I. Sobre o trato com outras pessoas (7.12)
J. Sobre o caminho estreito do Reino (7.13-29)
5. Demonstrações da soberania de Jesus (caps. 8.1 – 9.38)
A. Poder sobre a impureza (8.1-4)
B. Poder sobre a distância (8.5-13)
C. Poder sobre as enfermidades (8.14-17)
D. Poder sobre os discípulos (8.18-22)
E. Poder sobre a natureza (8.23-27)
F. Poder para perdoar pecados (9.1-13)
G. Poder sobre a lei e as doutrinas (9.14-17)
H. Poder sobre a morte (9.18-26)
I. Poder sobre as trevas (9.27-31)
J. Poder sobre os demônios (9.32-34)
K. Poder sobre doenças da alma e do corpo (9.35-38)
6. A grande missão do Rei Jesus (10.1 – 16.12)
A. A missão é anunciada (10.1 – 11.1)
B. A missão é comprovada (11.2 – 12.50)
C. O consolo aos discípulos de João (11.2-19)
D. A condenação das cidades infiéis (11.20-24)
E. A convocação dos discípulos para Si (11.25-30)
F. As controvérsias sobre o uso do sábado (12.1-13)
G. O pecado imperdoável da incredulidade (12.14-37)
H. Alguns sinais extraordinários (12.38-45)
I. Relacionamentos transformados (12.46-50)
7. A missão tem seu objetivo ampliado (13.1-52)
A. A parábola do semeador (13.1-23)
B. A parábola do trigo e o joio (13.24-30)
C. A parábola do grão de mostarda (13.31, 32)
D. A parábola do fermento (13.33)
E. A parábola do trigo e do joio é explicada (13.34-43)
F. A parábola do tesouro escondido (13.44)
G. A parábola da pérola de grande valor (13.45, 46)
H. A parábola da rede (13.47-50)
I. A parábola do pai de família (13.51, 52)
8. A missão sofre fortes ataques (caps. 13.53 – 16.12)
A. Pelos conterrâneos do Rei (13.53-58)
B. Por Herodes – seguido de milagres (14.1-36)
C. Pelos escribas e fariseus – seguido de milagres (15.1-39)
D. Pelos fariseus e saduceus (16.1-12)
9. A teologia prática de Jesus, o Messias (caps.16.13 – 20.28)
A. Quanto à Sua Igreja (16.13-20)
B. Quanto à Sua morte (16.21-28)
C. Quanto à Sua glória (17.1-21)
D. Quanto à Sua traição (17.22, 23)
E. Quanto a impostos (17.24-27)
F. Quanto à humildade (18.1-35)
G. Alimentar uma fé pura e simples (18.1-6)
H. Sincera preocupação com os perdidos (18.7-14)
I. Disciplina e restauração entre os crentes (18.15-20)
J. Disposição para perdoar tudo e sempre (18.21-35)
K. Quanto aos dramas humanos (19.1-26)

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L. Problemas físicos (19.1, 2)
M. Divórcio e novo casamento (19.3-12)
N. Quanto às crianças e os pequenos na fé (19.13-15)
O. Quanto ao acúmulo de riquezas (19.16-26)
P. Quanto ao Reino (caps.19.27 – 20.28)
Q. Recompensas no Reino (19.27-30)
R. Reconhecimento no Reino (20.1-16)
S. Graduação e promoções no Reino (20.17-28)
10. A proclamação do Rei Jesus (caps. 20.29 – 23.39)
A. O poder do Rei Jesus (20.29-34)
B. A aclamação do Rei Jesus (21.1-11)
C. A purificação realizada pelo Rei Jesus (21.12-17)
D. A maldição da figueira (21.18-22)
E. O desafio ao Rei Jesus (21.23-27)
F. As parábolas do Rei Jesus (21.28 – 22.14)
G. Quanto à rebeldia de Israel (21.28-32)
H. A retribuição a Israel (21.33-46)
I. A rejeição de Israel (22.1-14)
J. Os pronunciamentos do Rei Jesus (caps. 22.15 – 23.39)
K. Em resposta aos herodianos (22.15-22)
L. Em resposta aos saduceus (22.23-33)
M. Em resposta aos fariseus (22.34-40)
N. Questionando os fariseus (22.41-46)
O. Contra os doutores da lei e fariseus (23.1-36)
P. Contra a cidade santa: Jerusalém (23.37-39)
11. As terríveis profecias do Rei Jesus (caps. 24.1 – 25.46)
A. A destruição do Templo (24.1, 2)
B. As indagações dos discípulos (24.3)
C. Os grandes sinais sobre o final dos tempos (24.4-28)
D. O sinal do glorioso retorno de Jesus (24.29-31)
E. Parábolas ilustrando as profecias (24.32 – 25.46)
F. A figueira (24.32-35)
G. Os dias de Noé (24.36-39)
H. Os companheiros (24.40, 41)
I. O pai de família atento (24.42-44)
J. O servo leal (24.45-51)
K. As dez virgens (25.1-13)
L. Os talentos (25.14-30)
M. O grande julgamento dos gentios (25.31-46)
12. O sacrifício do Rei Jesus por nossa Salvação (caps. 26.1 – 27.66)
A. A preparação da Paixão (26.1-16)
B. A Páscoa da Paixão (26.17-30)
C. A traição predita (26.31-56)
D. Os interrogatórios e julgamentos (26.57 – 27.26)
E. Diante do sumo sacerdote (26.57-75)
F. Perante o Sinédrio (27.1-10)
G. Respondendo a Pilatos (27.11-26)
H. A crucificação (27.27-66)
I. Martírio e humilhação (27.27-44)
J. Jesus entrega sua vida (27.45-56)
K. O sepultamento (27.57-66)
13. A ressurreição e a comissão do Rei Jesus (28.1-20)
A. O triunfo de Jesus sobre a morte (28.1-10)
B. A conspiração alegada (28.11-15)
C. A grande comissão dos discípulos (28.16-20)

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O EVANGELHO SEGUNDO

MATEUS
A linhagem real de Cristo 15 Eliúde gerou Eleazar; Eleazar gerou
(Lc 3.23-28) Matã, Matã gerou Jacó;
1 Livro da genealogia de Jesus Cristo,
Filho de Davi, Filho de Abraão:
2 Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó,
16 Jacó gerou José, marido de Maria, da qual
nasceu JESUS, denominado o Cristo.2
17 Portanto, o total das gerações é: de
Jacó gerou Judá e seus irmãos, Abraão até Davi, quatorze gerações; de
3 Judá gerou Perez e Zera, de Tamar; Pe- Davi até o exílio na Babilônia, quatorze
rez gerou Esrom; Esrom gerou Arão. gerações; e do exílio na Babilônia até
4 Arão gerou Aminadabe; Aminadabe ge- Cristo, quatorze gerações.
rou Naassom; Naassom gerou Salmom,
5 Salmom gerou Boaz, de Raabe, e Boaz ge- A linhagem divina de Cristo
rou Obede, de Rute; Obede gerou a Jessé. (Lc 2.1-7)
6 Jessé gerou o rei Davi, e o rei Davi ge- 18 O nascimento de Jesus Cristo ocorreu
rou a Salomão, daquela que foi mulher da seguinte maneira: Estando Maria, sua
de Urias1; mãe, prometida em casamento a José,
7 Salomão gerou Roboão; Roboão gerou antes que coabitassem, achou-se grávida
Abias; Abias gerou Asa, pelo Espírito Santo.
8 Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão; 19 Então, José, seu esposo3, sendo um
Jorão gerou Uzias; homem justo e não querendo expô-la à
9 Uzias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz; desonra pública, planejou deixá-la sem
Acaz gerou Ezequias; que ninguém soubesse a razão.
10 Ezequias gerou Manassés; Manassés 20 Mas, enquanto meditava sobre isso,
gerou Amom; Amom gerou Josias; eis que, em sonho, lhe apareceu um anjo
11 Josias gerou Jeconias e a seus irmãos do SENHOR, dizendo: “José, filho de Davi,
no tempo em que foram levados cativos não temas receber a Maria como sua
para a Babilônia. mulher, pois o que nela está gerado é do
12 Depois do exílio na Babilônia, Je- Espírito Santo.
conias gerou Salatiel; Salatiel gerou 21 Ela dará à luz um filho, e lhe porás o
Zorobabel; nome de Jesus, porque Ele salvará o seu
13 Zorobabel gerou Abiúde; Abiúde ge- povo dos seus pecados”.4
rou Eliaquim, e Eliaquim gerou Azor; 22 Tudo isso aconteceu para que se cum-
14 Azor gerou Sadoque; Sadoque gerou prisse o que o SENHOR havia dito através
Aquim; Aquim gerou Eliúde, do profeta:

1 A expressão “daquela que foi mulher” não se encontra nos originais em grego; entretanto, desde 1611, a Bíblia King James
traz, junto ao texto bíblico, essa explicação rabínica, cujo emprego passou a se observar na maioria das traduções e versões
posteriores, em diversas línguas.
2 A expressão grega christos é o adjetivo verbal semita, equivalente a Messias, que, em hebraico, significa “o Ungido”. No AT,
essa forma designava o rei de Israel (o ungido do Senhor, como em 1 Sm 16.6), o sumo sacerdote (o sacerdote ungido – Lv 4.3).
No plural, essa expressão se refere aos patriarcas em seu ministério de profetas (“meus ungidos” – Sl 105.15). Jesus cumpriu a
profecia messiânica, desempenhando essas três funções.
3 O noivado judaico da época era um compromisso tão solene, que os noivos passavam a se tratar como marido e mulher. A
Lei, contudo, proibia qualquer relação sexual antes do casamento formal. O noivado só poderia ser desfeito por infidelidade, que
era punida com repúdio público e apedrejamento (Gn 29.21; Dt 22.13-30; Os 2.2).
4 Jesus (em hebraico Yehoshú’a) significa Yahweh Salva ou “O SENHOR é a Salvação”. Yahweh é o nome judaico impronunciável,
sagrado e sublime de Deus, na maioria das vezes traduzido por: SENHOR. Em hebraico: (Êx 6.3; Is 41.4). Em grego Egô Eimi.

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MATEUS 1, 2 6

23 “Eis que a virgem conceberá e dará à perguntou-lhes onde havia de nascer


luz um filho, e Ele será chamado de Ema- o Cristo.3
nuel”, que significa “Deus conosco”.5 5 E eles lhe responderam: “Em Belém da
24 José, ao despertar do sonho, fez o que Judéia, pois assim escreveu o profeta:4
o Anjo do SENHOR lhe tinha ordenado e 6 ‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de
recebeu Maria como sua mulher. modo algum és a menor entre as prin-
25 Contudo, não coabitou com ela en- cipais cidades de Judá; pois de ti sairá o
quanto ela não deu à luz o filho primogê- Guia, que como pastor, conduzirá Israel,
nito. E José lhe colocou o nome de Jesus. o meu povo’”.5
7 Então Herodes, chamando secretamen-
A visita dos sábios do Oriente te os sábios, interrogou-os exatamente

2 Após o nascimento de Jesus em Belém


da Judéia, nos dias do rei Herodes, eis
que alguns sábios vindos do Oriente che-
acerca do tempo em que a estrela lhes
aparecera.
8 Mandou-os a Belém e disse: “Ide, e
garam a Jerusalém.1 perguntai diligentemente pelo menino, e
2 E, indagavam: “Onde está aquele que é quando o achardes, comunicai-me, para
nascido rei dos judeus? Pois do Oriente que também eu vá e o adore”.
vimos a sua estrela e viemos adorá-lo”.2 9 Após terem ouvido o rei, seguiram
3 Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou o seu caminho, e a estrela que tinham
perturbado e toda a Jerusalém com ele. visto no Oriente foi adiante deles, até
4 Tendo reunido todos os príncipes que finalmente parou sobre o lugar onde
dos sacerdotes e os escribas do povo, estava o menino.

5 Mateus demonstra de forma clara e inquestionável que Jesus Cristo é o Messias prometido nas diversas profecias do AT,
como nesse texto de Is 7.14. (Mt 2.15-23; 8.17; 12.17; 13.25; 21.4; 26.54-56; 27.9; cf. 3.3; 11.10; 13.14, etc.) O próprio Jesus usa
as Escrituras para comprovar sua identidade e ministério (Mt 11.4-6; Lc 4.21; 18.31; 24.44; Jo 5.39; 8.56; 17.12, etc.)
Capítulo 2
1 O primeiro calendário foi elaborado por Dionísio Exíguo, de Roma (no século VI) e adotado em todo o mundo predominan-
temente cristão. Com o surgimento de novas e mais precisas tecnologias para a medição do tempo, constatou-se que Dionísio
errou em pelo menos 4 anos em relação ao mais antigo calendário romano.
Herodes, chamado “O Grande”, recebeu, do Senado romano, o título de “rei da Judéia” e, por isso, ficou conhecido como “rei
dos judeus”. Durante seu reinado (de 39 a.C. a 4 a.C.) mandou matar todas as crianças de Belém, de até 2 anos de idade. Nessa
época Jesus estaria em seu segundo ano de vida. E os cálculos demonstram que teria nascido quase 5 anos antes do “Anno
Domini” (ano oficial do nascimento do Senhor).
Quanto à expressão “sábios”, como traduzida pela Bíblia King James, refere-se a um grupo de sacerdotes babilônios, gentios,
reconhecidos entre os povos medo-persas como mestres, cientistas, astrônomos, e que se dedicavam ao estudo da medicina e
da astrologia. Algumas versões trazem a expressão “magos”, mas em nossos dias essa palavra tem uma conotação estritamente
mística e ocultista. A tradição das igrejas cristãs acrescenta que eles eram três reis, devido aos três presentes de alto valor mone-
tário oferecidos a Jesus, mas isso não tem comprovação bíblica.
2 Séculos mais tarde, o astrônomo Kepler calculou que essa imagem de estrela reluzente se tratava da conjunção de Júpiter e
Saturno na constelação de Peixes, em 7 a.C. Na China, o mesmo fenômeno foi observado no ano 4 a.C. e interpretado como o
aparecimento de uma estrela variável, com surgimento e desaparecimento periódicos.
3 Herodes convoca os responsáveis pela vida religiosa e moral da nação judaica. Os sumos sacerdotes eram os membros das
grandes famílias sacerdotais de Jerusalém. Os escribas geralmente pertenciam ao partido político dos fariseus; eram também
doutores da Lei e estudantes profissionais, pagos para estudar e ensinar, ao povo, a Lei e as tradições rabínicas. Também fun-
cionavam como advogados públicos, sendo-lhes confiada à administração da lei e da ordem, como juízes no Sinédrio (22.35).
Esses dois grupos se unem contra Jesus, em 21.15. Mateus associa com mais freqüência os sumos sacerdotes aos anciãos do
povo (26.3,47; 27.1). O sentido em ambos os casos é o mesmo: os principais responsáveis pelo drama de um povo são seus
líderes e chefes.
4 A palavra “profeta” deriva do grego “pro” que significa “para adiante” ou “à frente” e “phemi” que quer dizer “o que fala”.
O profeta é aquele que traz a mensagem de Deus, o servo que anuncia prioritariamente, antes de tudo, a Palavra do Senhor.
Esse ministério pode incluir a previsão de futuros eventos. Deus continua a falar através de seus profetas nas igrejas de hoje.
Os arautos de Deus nos orientam e ensinam a ouvir o Espírito Santo e a obedecer à Palavra. Entretanto, a Bíblia também nos
adverte quanto aos “falsos profetas”, pessoas que são lideradas por um espírito diferente do Espírito Santo e causam confusão à
comunidade e grande dano a si próprios (Jr 7.4, Jr 14.14, Lm 2.4, Ez 13.6, Mt 7.15, Mt 24.11-24, 2Pe 2.1, Ap 19.20).
5 Mq 5.2; Jo 7.42; Ap 2.27

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7 MATEUS 2, 3

10 E vendo eles a estrela, alegraram-se O retorno para Israel


com grande e intenso júbilo. 19 Após a morte de Herodes, eis que um
11 Ao entrarem na casa, encontraram o anjo do SENHOR apareceu em sonho a
menino com Maria, sua mãe, e prostran- José, no Egito, e disse-lhe:
do-se o adoraram. Então abriram seus 20 “Dispõe-te, toma o menino e sua mãe,
tesouros e lhe ofertaram presentes: ouro, e vai para a terra de Israel; porque já
incenso e mirra.6 estão mortos os que procuravam tirar a
12 E, sendo por divina revelação avisados vida do menino”.
em sonhos para que não voltassem para 21 Então, José se levantou, tomou o meni-
junto de Herodes, retornaram para a sua no e sua mãe, e foi para a terra de Israel.
terra, por outro caminho. 22 Mas, ao ouvir que Arquelau estava
reinando na Judéia, em lugar de seu pai
A fuga para o Egito Herodes, teve medo de ir para lá. Con-
13 Depois que partiram, eis que um anjo tudo, tendo sido avisado em sonho por
do SENHOR apareceu a José em sonho e divina revelação, seguiu para as regiões
lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e da Galiléia.
sua mãe, e foge para o Egito. Permanece 23 Ao chegar, foi viver numa cidade
lá até que eu te diga, pois Herodes há de chamada Nazaré. Cumpriu-se assim o
procurar o menino para o matar”. que fora dito pelos profetas: “Ele será
14 José se levantou, tomou o menino e sua chamado Nazareno”.9
mãe, durante a noite, e partiu para o Egito.
15 E esteve lá até a morte de Herodes. E João Batista prepara o caminho
assim se cumpriu o que o SENHOR tinha (Mc 1.2-8; Lc 3.1-18; Jo 1.6-8,19-36)
dito através do profeta: “Do Egito cha-
mei o meu filho”.7
16 Quando Herodes percebeu que havia
3 Naqueles dias surgiu João Batista pre-
gando no deserto da Judéia; e dizia:
2 “Arrependei-vos, porque o Reino dos
sido iludido pelos sábios, irou-se ter- céus está próximo”.1
rivelmente e mandou matar todos os 3 Este é aquele que foi anunciado pelo
meninos de dois anos para baixo, em profeta Isaías: “Voz do que clama no
Belém e em todas as circunvizinhanças, deserto: Preparai o caminho do SENHOR,
de acordo com as informações que havia endireitai as suas veredas”.
obtido dos sábios. 4 João tinha suas roupas feitas de pêlos
17 Então se cumpriu o que fora dito pelo de camelo e usava um cinto de couro na
profeta Jeremias: cintura. Alimentava-se com gafanhotos e
18 “Ouviu-se uma voz em Ramá, pranto mel silvestre.
e grande lamentação; é Raquel que chora 5 A ele vinha gente de Jerusalém, de toda
por seus filhos e recusa ser consolada, a Judéia e de toda a província adjacente
pois já não existem”.8 ao Jordão.

6 Sl 72.10-11; Is 60.6
7 Os 11.1
8 Jr 31.15
9 A expressão hebraica traduzida por “nazareno” significa: desprezível ou desprezado. Nazaré era o lugar mais improvável para
o surgimento ou a residência do Messias, o Ungido de Deus e libertador do povo de Israel (Sl 22.6; Is 11.1; Is 53.3; Mc 1.24).
Capítulo 3
1 João começa seu ministério no deserto da Judéia, uma região árida e estéril, ao longo da margem ocidental do mar Morto.
O Reino dos céus sinaliza o domínio do céu e dos seus valores sobre a terra e o sistema econômico, político, social e religioso
mundial. O povo judeu da época de Cristo esperava esse Reino messiânico (ou davídico) e seu estabelecimento. Foi exatamente
esse o Reino que João anunciou como “próximo”. A rejeição de Cristo pelo povo adiou sua plena concretização até a segunda e
iminente vinda de Cristo (Mt 25.31). O caráter atual do Reino está descrito na série de parábolas (histórias com objetivo didático)
contadas por Jesus em Mt 13.

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MATEUS 3, 4 8

6 Confessando os seus pecados, eram 15 Jesus, entretanto, declarou: “Deixe


batizados por João no rio Jordão. assim, por enquanto; pois assim convém
7 E, vendo ele muitos dos fariseus e dos que façamos, para cumprir toda a justiça”.
saduceus que vinham ao seu batismo, E João concordou.
dizia-lhes: “Raça de víboras, quem vos 16 E, sendo Jesus batizado, saiu logo da
ensinou a fugir da ira futura?2 água, e eis que se abriram os céus, e viu o
8 Produzi, sim, frutos que mostrem vosso Espírito de Deus descendo como pomba
arrependimento! e vindo sobre Ele.
9 Não presumais de vós mesmos, dizen- 17 Em seguida, uma voz dos céus disse:
do: ‘Temos por pai a Abraão’; porque eu “Este é meu Filho amado, em quem mui-
vos digo que mesmo destas pedras Deus to me agrado”.
pode gerar filhos a Abraão.
10 O machado já está posto à raiz das Jesus é tentado pelo Diabo
árvores, e toda árvore, pois, que não (Mc 1.12,13; Lc 4.1-13)
produz bom fruto é cortada e lançada
no fogo.
11 Eu, em verdade, vos batizo com água,
4 Jesus foi então conduzido pelo Espí-
rito, ao deserto, para ser tentado pelo
Diabo.
para arrependimento; mas depois de 2 Depois de jejuar quarenta dias e qua-
mim vem alguém mais poderoso do que renta noites, teve fome.
eu, tanto que não sou digno nem de levar 3 O tentador aproximou-se então dele e
as suas sandálias. Ele vos batizará com o disse: “Se tu és o Filho de Deus, manda
Espírito Santo e com fogo. que estas pedras se tornem em pães”.
12 Ele traz a pá em sua mão e separará 4 Jesus, porém, afirmou-lhe: “Está es-
o trigo da palha.3 Recolherá no celeiro o crito: ‘Nem só de pão viverá o homem,
seu trigo e queimará a palha no fogo que mas de toda a palavra que sai da boca de
jamais se apaga”. Deus’”.1
5 Então o Diabo o conduziu à Cidade
O batismo de Jesus Santa, e colocou-o sobre a parte mais
(Mc 1.9-11; Lc 3.21,22; Jo 1.32-34) alta do templo e desafiou-lhe:
13 Então Jesus veio da Galiléia ao Jordão 6 “Se tu és o Filho de Deus, joga-te daqui
para ser batizado por João. para baixo. Pois está escrito: ‘Aos seus
14 Mas João se recusava, justificando: anjos dará ordens a teu respeito, e com
“Sou eu quem precisa ser batizado por ti, as mãos eles te susterão, para que jamais
e vens tu a mim?” tropeces em alguma pedra’”.2

2 Os fariseus eram a mais influente das seitas do judaísmo no tempo de Cristo. Embora apegados às doutrinas e à ortodoxia,
seu zelo, sem o entendimento espiritual da Lei de Moisés levara-os, ao longo dos séculos, a uma observância estrita das normas e
regras da Lei e das tradições rabínicas. Eram justos aos próprios olhos e inimigos implacáveis de Jesus Cristo (Mt 9.14; 23.2; 23.15;
Mc 12.40; Lc 18.9). Os saduceus, que pertenciam à elite econômica e às famílias sacerdotais, eram anti-sobrenaturalistas (não criam
em milagres e no poder sobrenatural de Deus). Opunham-se às tradições dos ensinos e interpretações dos fariseus e colaboravam
abertamente com os governantes romanos. Uniram-se aos fariseus apenas em suas perseguições a Cristo (Mt 16.1-4,6).
3 Algumas versões trazem a expressão: “...e limpará a sua eira”. A Bíblia King James optou por uma tradução mais clara dessa
frase, a partir do original grego; pois a “pá”, que Jesus traz em sua mão, tem a ver com uma pá de madeira usada para lançar
o cereal triturado ao ar, de modo que a palha, mais leve, fosse carregada pelo vento, e os grãos se amontoassem no solo. Isso
significa “limpar a eira” e reforça o cumprimento da profecia de Malaquias (Ml 3.1-6 e 4.1).
Capítulo 4
1 O objetivo do Diabo era levar Cristo, o Ungido, Filho de Deus, a pecar. Apenas um pecado seria o suficiente, desqualificando o
Salvador, frustrando assim, o plano de Deus para a redenção humana. O objetivo de Deus foi provar que seu Filho – perfeitamente
divino e perfeitamente humano – viveu, contudo, isento de qualquer pecado; sendo, portanto, um Salvador perfeitamente digno
e suficiente (2Co 5.21; Hb 4.15, Rm 8.3; 1Jo 2.16; Tg 1.13). Jesus escolhe uma passagem das Sagradas Escrituras (Dt 8.3) para
responder ao tentador e a todos quantos têm seus valores invertidos por ganância, egoísmo e inveja.
2 O orgulho, arrogância e empáfia do Diabo não lhe permitiram compreender, muito menos aceitar, a resposta que Cristo lhe
dera. O Diabo tenta, então, replicar, usando também uma passagem bíblica (Sl 91.11-12), mas omitindo parte do texto sagrado

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9 MATEUS 4, 5

7 Contestou-lhe Jesus: “Também está Galiléia, viu Jesus dois irmãos: Simão,
escrito: ‘Não tentarás o SENHOR teu chamado Pedro e André que lançavam a
Deus’”.3 rede ao mar, pois eram pescadores.
8 Tornou o Diabo a levá-lo, agora para 19 Então, disse-lhes Jesus: “Vinde após mim,
um monte muito alto. E mostrou-lhe e Eu vos farei pescadores de homens”.
todos os reinos do mundo em todo o seu 20 Eles, imediatamente deixaram suas
esplendor. redes e seguiram Jesus.
9 E propôs a Jesus: “Tudo isso te darei se, 21 Seguindo adiante, viu Jesus outros
prostrado, me adorares. dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu e
10 Ordenou-lhe então Jesus: “Vai-te, Sata- João, seu irmão, que estavam no barco
nás, porque está escrito: ‘Ao SENHOR, teu com Zebedeu, seu pai, consertando as
Deus, adorarás e só a Ele servirás’”.4 redes; e chamou-os.
11 Assim, o Diabo o deixou; e eis que 22 Eles imediatamente deixaram o barco
vieram anjos, e o serviram. e seu pai para seguirem a Jesus.
23 E percorria Jesus toda a Galiléia,
Jesus inicia seu ministério ensinando nas sinagogas, pregando o
(Mc 1.14-20; Lc 4.14-32; 5.1-11) evangelho do Reino e curando todas as
12 Jesus, entretanto, ouvindo que João enfermidades e males entre o povo.
estava preso, voltou para a Galiléia. 24 E sua fama correu por toda a Síria; e
13 E, deixando Nazaré,5 foi habitar em trouxeram-lhe, então, todos aqueles que
Cafarnaum, situada à beira-mar, nos sofriam, acometidos de várias enfermi-
confins de Zebulom e Naftali. dades e tormentos, os endemoninhados,
14 Assim cumprindo-se o que fora dito os lunáticos e os paralíticos. E Jesus os
pelo profeta Isaías: curava.
15 “Terra de Zebulom e terra de Naftali, 25 E uma grande multidão da Galiléia,
caminho do mar, além do Jordão, Gali- Decápolis, Jerusalém, Judéia e de além
léia dos gentios!6 do Jordão seguia a Jesus.
16 O povo que jazia nas trevas viu uma
grande luz; e aos que estavam detidos O sermão do monte
na região e sombra da morte, a luz (Lc 6.20-29)
raiou”.
17 Daquele momento em diante Jesus
passou a pregar e dizer: “Arrependei-vos,
5 Jesus, vendo as multidões, subiu a
um monte e, assentando-se, os seus
discípulos aproximaram-se dele.
porque é chegado o Reino dos céus!”. 2 E Jesus, abrindo a boca, os ensinava,
18 E, caminhando junto ao mar da dizendo:

que não se ajustava a seus intentos. Esse mesmo método de interpretação inescrupulosa da Bíblia tem-se repetido ao longo dos
séculos, na criação e desenvolvimento de diversas seitas heréticas em todo o mundo.
3 Veja Dt 6.16
4 Somente uma análise profunda e detalhada dos diálogos aqui travados entre Satanás e Jesus pode revelar a magnitude dessa
batalha espiritual vencida por Cristo por meio da Palavra de Deus (Dt 6.13; 10.20), bem como a astúcia e o poder do Diabo para
iludir seus oponentes. Satanás, como príncipe do sistema econômico, político e social do nosso planeta (em grego, Kosmos,
que significa: mundo), estava em seu direito ao ofertar a Jesus as glórias de todos os reinos da terra, pois de fato estes lhe foram
entregues por algum tempo (Jo 12.31; 1 Jo 2.15; 5.19; Jo 3.19; Tg 1.27; 4.4). Jesus manteve-se, porém, íntegro e fiel, resistindo
e vencendo a tentação e o tentador.
5 Conforme Lc 4.16-30, Jesus foi expulso de Nazaré, terra onde fora criado, por ter se apresentado ao povo (em um sábado,
na sinagoga) como sendo o Filho de Deus e aquele que veio cumprir as profecias sobre a vinda do Messias, registradas no AT
(Is 61.1-2 a. Veja também Is 9.1-2 e 42.6-7).
6 Os melhores originais em grego trazem a palavra “gentios” (todos aqueles que não são judeus) em vez de “nações” como
consta em várias versões em português.

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MATEUS 5 10

3 “Bem-aventurados1 os pobres2 em espí- 12 Exultai e alegrai-vos sobremaneira,


rito, pois deles é o Reino dos Céus. pois é esplêndida a vossa recompensa
4 Bem-aventurados os que choram, por- nos céus; porque assim perseguiram os
que serão consolados. profetas que viveram antes de vós.
5 Bem-aventurados os humildes, porque
herdarão a terra.3 O cristão deve ser sal e luz
6 Bem-aventurados os que têm fome e 13 Vós sois o sal da terra. Mas se o sal per-
sede de justiça, porque serão fartos. der o seu sabor, com o que se há de tem-
7 Bem-aventurados os misericordiosos, perar? Para nada mais presta, senão para
porque alcançarão misericórdia. se lançar fora e ser pisado pelos homens.
8 Bem-aventurados os limpos de cora- 14 Vós sois a luz do mundo. Uma cidade
ção, porque verão a Deus. edificada sobre um monte não pode ser
9 Bem-aventurados os pacificadores, escondida.
porque serão chamados filhos de Deus. 15 Igualmente não se acende uma candeia
10 Bem-aventurados os que sofrem per- para colocá-la debaixo de um cesto. Ao
seguição por causa da justiça, porque contrário, coloca-se no velador e, assim,
deles é o Reino dos Céus. ilumina a todos os que estão na casa.
11 Bem-aventurados sois vós quando vos 16 Assim deixai a vossa luz resplandecer
insultarem, e perseguirem e, mentindo, diante dos homens, para que vejam as
disserem todo o mal contra vós, por vossas boas obras e glorifiquem o vosso
minha causa. Pai que está nos céus.

1 A KJ de 1611 traz a expressão inglesa blessed (abençoado, bendito, muito feliz) que foi adotada pela maioria das traduções
em todo o mundo, inclusive pelas mais modernas. “Bem-aventurados” transmite melhor a idéia do original grego makarios refe-
rindo-se a uma felicidade que excede às circunstâncias, que tem a ver com o profundo sentimento de paz e alegria que todos os
que foram “abençoados” com a Salvação em Cristo e Seu Reino devem sentir e desfrutar, mesmo em meio às aflições cotidianas.
Esse discurso, conhecido como Sermão do Monte, é o primeiro dos cinco grandes temas tratados por Jesus (Mt 5 a 7; Mt 10;
13; 18 e em Mt 24 e 25). São ensinos primeiramente dirigidos aos discípulos (convertidos, que desejam proclamar ao mundo
sua fé em Jesus Cristo).
A expressão original: “abre a boca”, significa que Jesus passou a falar mais alto para que pudesse ser ouvido pelas demais
pessoas ao redor. A proclamação do “Reino dos Céus” é o ponto central da pregação de Jesus. Essa expressão vem do hebraico
malekhüth shãmayim. A KJ traduz como “Reino do Céu” mas tanto a palavra grega ouranos como a hebraica shãmayim estão no
plural (céus) e têm o mesmo sentido de “Reino de Deus”. Os judeus, por respeito, não mencionavam o nome de Deus e por isso,
Mateus, sensível a esse dado cultural, chamou o Reino de Deus de Reino dos Céus. O ser humano não tem em si mesmo força
moral e ética para viver como Deus ordena. Por isso Jesus Cristo, que viveu essa plenitude de vida espiritual na terra e venceu o
mundo, vem na forma do Espírito Santo habitar na alma humana para ajudar-nos a viver uma nova vida, com uma nova mentalida-
de, como cidadãos do Seu Reino, dirigidos por Deus.A plenitude dessa vida espiritual se dará no futuro (Ap 21.1-4).
2 A primeira estocada de Jesus atinge diretamente o coração arrogante e presunçoso. Jesus conhecia bem os ensinos dos
escribas e fariseus: “Quem cumpre toda a Lei com exatidão é rico no Altíssimo. Quem, além disso, observa literalmente a Halachá
(série de tradições judaicas transmitidas pelos pais de geração a geração) será ainda mais rico”. Jesus não estava dizendo que
não há bênção em obedecer a Lei, mas sim que um coração soberbo e orgulhoso por cumprir ordenanças e preceitos, não pode-
rá “entrar” (viver com amor, paz, alegria e liberdade) no Reino de Deus. Assim, “pobres em espírito” não é uma contradição nem
se refere a pessoas tímidas ou sem poder econômico. Significa sim, que o discípulo (seguidor) de Jesus, aquele que ama a Deus
sobre todas as coisas, conhece suas limitações e fraquezas e reconhece que sem a graça do Senhor é impossível viver a vida
cristã e que por isso não tem qualquer motivo para se orgulhar, pois o Reino dos Céus é também uma dádiva aos quebrantados,
humildes e arrependidos (Jo 3), e não pode ser alcançado através de qualquer esforço, barganha ou talento humano. Reino dos
Céus é o domínio de Deus sobre toda a criação, as pessoas e o mundo; tanto no presente como no futuro (Mt 5.3; 12.28 e Rm
14.17). Às vezes refere-se também a um lugar e uma vida futura com Deus (2 Tm 4.18).
3 A KJ traz aqui a palavra inglesa meek que pode ser traduzida como: pacífico, gentil, brando, suave, amável, manso, dócil,
submisso, resignado. Entretanto, a palavra: “humilde” é mais fiel ao sentido original do termo em grego e comunica melhor, em
português, a idéia dessa qualidade cristã: defender a justiça com paciência e sem amargura, entregando lutas e desafios ao
Senhor que tudo julga retamente. Esse caráter cristão, moldado pelo Espírito Santo, nos capacita a perseverar na fé em Cristo
ainda que em meio às injustiças, ofensas e falta de reconhecimento neste mundo. A promessa é nada menos do que a terra por
herança. Aqueles que aceitam perder algumas coisas nesta terra e neste tempo, mantendo uma fé serena no Senhor, serão os
reis de toda a terra no futuro (Ap 5.9-14), pois já vivem no presente como cidadãos do Reino. Seres humanos esses cujas vidas
estão sendo transformadas pelo Espírito Santo e cujos frutos de caráter lhes conferem a bênção de serem conhecidos como
“bem-aventurados” (muito felizes).

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11 MATEUS 5

A Lei se cumpre em Cristo 22 Eu, porém, vos digo que qualquer que
17 Não penseis que vim destruir a Lei ou se irar contra seu irmão estará sujeito a
os Profetas. Eu não vim para anular, mas juízo. Também qualquer que disser a seu
para cumprir. irmão: Racá, será levado ao tribunal. E
18 Com toda a certeza vos afirmo que, até qualquer que o chamar de idiota estará
4
que os céus e a terra passem, nem um i sujeito ao fogo do inferno.6
ou o mínimo traço se omitirá da Lei até 23 Assim sendo, se trouxeres a tua oferta
que tudo se cumpra. ao altar e te lembrares de que teu irmão
19 Qualquer, pois, que violar um destes tem alguma coisa contra ti,
menores mandamentos e assim ensinar 24 deixa ali mesmo diante do altar a tua
aos homens será chamado o menor no oferta, e primeiro vai reconciliar-te com
Reino dos Céus; aquele, porém, que os teu irmão, e depois volta e apresenta a
cumprir e ensinar será chamado grande tua oferta.
no Reino dos Céus. 25 Entra em acordo depressa com teu ad-
20 Porque vos digo que, se a vossa justiça versário, enquanto estás com ele a caminho
não exceder a dos escribas e fariseus, de do tribunal, para que não aconteça que o
modo nenhum entrareis no Reino dos adversário te entregue ao juiz, o juiz te en-
Céus. tregue ao carcereiro, e te joguem na cadeia.
21 Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não 26 Com toda a certeza afirmo que de ma-
matarás; mas quem assassinar estará su- neira alguma sairás dali, enquanto não
jeito a juízo”.5 pagares o último centavo.7

4 A Lei e os Profetas representavam a totalidade do AT, que incluía os Escritos (Sl 78.12-16 é um exemplo desses Escritos e se
refere a Êx 7-12 e Nm 13.22, que fazem parte da terceira seção da Bíblia Hebraica). Jesus é o cumprimento das profecias sobre
a vinda do Messias e Seu Reino. Ao mesmo tempo, Ele foi o único ser humano a cumprir de maneira plena e fiel a essência da
vontade de Deus, não se limitando a uma obediência apenas religiosa, formal e exterior. Jesus levou seu amor pelo Pai e pela
humanidade às últimas conseqüências e enfatizou que toda a Palavra de Deus se cumprirá. Nem a menor letra do alfabeto
hebraico: (yod); em grego: i(iôta) que corresponde à letra “i” em português; nem mesmo o menor sinal gráfico (pequeno traço)
que serve para distinguir certas letras hebraicas, e que pode alterar o sentido de uma expressão, serão suprimidos das Sagradas
Escrituras. Jesus usa essa bem elaborada hipérbole para evidenciar a veracidade e autoridade da Palavra de Deus até o final
dos tempos. As próprias Escrituras testemunham acerca de Jesus de Nazaré como Filho de Deus, Messias (Cristo), Rei dos Reis,
Senhor do Universo, nosso Salvador para toda a eternidade (Mc 14.49; Lc 24.27; Jo 10.35; At 18.24; 2Tm 3.16, 2Pe 1.20-21). Jesus
desejava que os doutores da Lei observassem essa verdade nas Escrituras, uma vez que o povo já estava aceitando que Jesus
Cristo era o Messias, pelas obras que realizava e o poder de suas palavras.
5 Jesus toma como exemplo a situação mais drástica da Lei: a morte (Êx 20.13; Dt 5.17) para demonstrar o que significa
compreender e obedecer ao espírito da Lei e não apenas à letra. Ou seja, uma vida no sentido mais amplo e saudável dos man-
damentos de Deus, em vez da interpretação meramente externa e restrita feita pela tradição rabínica. A KJ traz a palavra murder
(assassinar), pois os verbos em hebraico e grego usados nesse texto e em Êx 20.13 têm especificamente esse sentido claro.
6 Jesus demonstra como entender o sentido mais abrangente da Lei, ao relacionar o pecado de tirar a vida de alguém
(assassinato) com erros, aparentemente menos graves, como irar-se contra um irmão ou insultar alguém. A KJ e as versões de
Almeida acrescentam “sem motivo se irar”. Entretanto, os mais antigos e melhores originais gregos não trazem essa expressão.
Jesus revela que a ofensa verbal está no mesmo nível de um assassinato. Racá era uma antiga expressão aramaica rêqâ’ que
originou a palavra hebraica rêquïm usada no tempo dos juízes (Jz 11.3) para indicar pessoas de mau caráter, levianas e traidoras.
De maneira curiosa, essa era uma expressão freqüentemente usada na tradição rabínica, associada ao vocábulo nãbhãl (néscio),
para se referir aos insensatos e sem sabedoria. Já a palavra grega more, traduzida, em algumas versões, como “louco”, tem sua
origem na expressão hebraica moreh (desgraçado), alguém que por não crer em Deus merecia o inferno. O cerne do ensino de
Jesus está em que o pecado que leva alguém a ofender outra pessoa é o mesmo que motiva o assassinato. O vocábulo grego
synedrio cujo correspondente hebraico é sanhedrïn refere-se ao mais alto tribunal dos judeus, que se reunia em Jerusalém. A KJ
traduziu o termo para o inglês council (conselho), por se tratar da reunião dos sábios que julgavam as causas do povo. Synedrion
deu origem à expressão grega presbyterion que significa “corpo de anciãos” (Lc 22.66; At 22.5) e gerousia “senado” (At 5.21).
A expressão “fogo do inferno” tem a ver com o vale de Hinom em hebraico ge’hinnom que deu origem ao nome grego do lugar:
geena. Durante o reinado dos perversos Acaz e Manassés, sacrifícios humanos ao deus amonita Moloque foram realizados em
geena. Josias profanou o vale por causa das oferendas pagãs que realizou naquele lugar (2Rs 23.10; Jr 7.31,32; 19.6). Com o
passar do tempo, esse vale se transformou num grande depósito de lixo, constantemente em chamas, o que fez a palavra geena
significar o lugar dos perdidos, imprestáveis e destinados ao fogo que nunca se apaga.
7 Graças a Jesus temos a bênção do perdão à nossa disposição. Não fosse essa graça seríamos todos consumidos pela Lei.
Os cristãos devem, então, perdoar tudo e a todos, pedir perdão e procurar a paz com todos aqueles que se sentirem ofendidos

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MATEUS 5 12

Adultério no coração 34 Entretanto, Eu vos afirmo: Não jureis


27 Ouvistes o que foi dito: ‘Não comete- de forma alguma; nem pelos céus, que
rás adultério’. são o trono de Deus;
28 Eu, porém, vos digo, que qualquer que 35 nem pela terra, por ser o estrado onde
olhar para uma mulher com intenção repousam seus pés; nem por Jerusalém,
impura, em seu coração, já cometeu porque é a cidade do grande Rei.
adultério com ela. 36 E não jures por tua cabeça, pois não
29 Se o teu olho direito te leva a pecar, tens o poder de tornar um fio de cabelo
arranca-o e lança-o fora de ti; pois te branco ou preto.
é mais proveitoso perder um dos teus 37 Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu
membros do que todo o teu corpo ser não, não! O que passar disso vem do
lançado no inferno. Maligno.8
30 E, se tua mão direita te fizer pecar,
corta-a e atira-a para longe de ti; pois te Jamais use a vingança
é melhor que um dos teus membros se 38 Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho
perca do que todo o teu corpo seja lança- e dente por dente”.
do no inferno. 39 Eu, porém, vos digo: Não resistais ao
perverso; mas se alguém te ofender com
O casamento é sagrado um tapa na face direita, volta-lhe tam-
31 Foi dito também: ‘Aquele que se divor- bém a outra.
ciar de sua esposa deverá dar a ela uma 40 E se alguém quiser processar-te e ti-
certidão de divórcio’. rar-te a túnica, deixa que leve também
32 Eu, porém, vos digo: Qualquer que se a capa.
divorciar da sua esposa, exceto por imo- 41 Assim, se alguém te forçar a andar uma
ralidade sexual, faz com que ela se torne milha, vai com ele duas.
adúltera, e quem se casar com a mulher 42 Dá a quem te pedir e não te desvies de
divorciada estará cometendo adultério. quem deseja que lhe emprestes algo.9

Votos e juramentos Ame os que o odeiam


33 Também ouvistes o que foi dito aos an- 43 Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu
tigos: ‘Não jurarás falso, mas cumprirás ri- próximo e odiarás o teu inimigo’.
gorosamente teus juramentos ao Senhor’. 44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos

com alguma de suas atitudes. Jesus não entra no mérito se o cristão está certo ou não, apenas ordena que a reconciliação seja
promovida o mais rápido possível e que a iniciativa seja sempre da parte daquele que crê em Deus. Jesus usa o exemplo do judeu
religioso e temente ao Senhor em um de seus atos mais sublimes — o sacrifício oferecido a Deus de acordo com a lei mosaica,
para ensinar que não pode haver culto, oração ou oferta maior do que um coração limpo, sincero, humilde, perdoador e em paz
com Deus e com os semelhantes. Em seguida, por meio de uma parábola, Jesus exorta os cristãos que estão em demanda com
alguém a que se apressem a negociar um acordo e estabeleçam a paz, antes que a questão se prolongue demais e acabe na
justiça onde não há misericórdia, apenas a lei.
8 No AT juramentos em nome do Senhor eram obrigatórios em determinadas ocasiões: quando a palavra necessitava de um
fiador idôneo ou mesmo diante de um voto. A quebra da palavra empenhada era um ato sujeito às penas da Lei (Êx 20.7; Lv 19.12;
Dt 19.10-19). Deus era (e é) o juiz onisciente de toda a falsidade. “...tão certo como o Senhor vive” (1Sm 14.39). Essa ênfase na
santidade dos votos ocorria devido à falsidade costumeira entre as pessoas em seus acordos cotidianos. Jesus ensina que o
verdadeiro cristão deve ser autêntico e sincero em suas afirmações; afastando-se de toda a ambigüidade e falsidade comuns
neste mundo controlado pelas forças do Diabo.
9 Jesus trabalha as questões universais do direito. De fato toda a humanidade participa de um grande julgamento, envolvendo
todos os povos de todos os tempos, no qual Cristo é nosso Advogado e garantia absoluta. Jesus começa citando a antiga Lei da
Retaliação (Lv 24.20). Entre os judeus, na época de Jesus, o ato de bater na face direita de alguém, com as costas da mão, era
um insulto e uma provocação; não exatamente uma agressão. O insultado poderia revidar ou ir ao tribunal pleitear uma punição,
em dinheiro, pela ofensa. Jesus exorta seus discípulos a oferecer a outra face, em sinal de paz e disposição para um acordo. A
próxima ilustração tem a ver com as leis dos fariseus: um credor tinha o direito de exigir a túnica do devedor por uma dívida não
paga. Quando não a recebia por bem, tinha o direito de exigi-la por meio de um processo jurídico. Mas, de acordo com Dt 24.10-
13, deveria ceder a roupa ao dono, conforme suas necessidades diárias de uso. Diante dessas questões jurídicas mesquinhas,

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13 MATEUS 5, 6

inimigos e orai pelos que vos perse- 4 Para que a tua obra de caridade fique
guem; em secreto: e teu Pai, que vê em secreto,
45 para que vos torneis filhos do vosso Pai te recompensará.
que está nos céus, pois que Ele faz raiar
o seu sol sobre maus e bons e derrama A oração modelo
chuva sobre justos e injustos. 5 E, quando orardes, não sejais como
46 Porque se amardes os que vos amam, os hipócritas, pois que apreciam orar
que recompensa tendes? Não fazem os em pé nas sinagogas e nas esquinas das
publicanos igualmente assim?10 ruas, para serem admirados pelos outros.
47 E, se saudardes somente os vossos ir- Com toda a certeza vos afirmo que eles já
mãos, que fazeis de notável? Não agem os receberam o seu galardão.
gentios também dessa maneira? 6 Tu, porém, quando orares, vai para teu
48 Assim sendo, sede vós perfeitos como quarto e, após ter fechado a porta, orarás
perfeito é o vosso Pai que está nos céus. a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai,
que vê em secreto, te recompensará ple-
Como viver no Reino namente.

6 Guardai-vos de fazer a vossa caridade


e obras de justiça diante dos homens,
com o fim de serem vistos por eles; caso
7 E, quando orardes, não useis de vãs
repetições, como fazem os pagãos; pois
imaginam que devido ao seu muito falar
contrário, não tereis qualquer recom- serão ouvidos.
pensa do vosso Pai que está nos céus. 8 Portanto, não vos assemelheis a eles;
2 Por essa razão, quando deres um do- porque Deus, o vosso Pai, sabe tudo de
nativo, não toques trombeta diante de ti, que tendes necessidade, antes mesmo
como fazem os hipócritas, nas sinagogas que lho peçais.
e nas ruas, para serem glorificados pelos 9 Por essa razão, vós orareis:
homens. Com toda a certeza vos afirmo Pai nosso, que estás nos céus!
que eles já receberam o seu galardão. Santificado seja o teu Nome.
3 Tu, porém, quando deres uma esmola 10 Venha o teu Reino.
ou ajuda, não deixes tua mão esquerda Seja feita a tua vontade,
saber o que faz a direita. assim na terra como no céu.

Jesus exorta os discípulos a serem altruístas. Se credores, a desistir do penhor; se devedores, a dar além do devido, entregando
também a capa que era vestida sobre a túnica. Para o discípulo de Jesus, o direito jurídico já foi abolido na Cruz, a nova ordem é
a Lei do Amor em Cristo. Outra metáfora de Jesus reforça essa idéia. Tem a ver com o costume judaico de se pedir a companhia
de alguém numa viagem pelas perigosas estradas da época. Quando alguém se negava, e acontecia um crime, essa pessoa
era responsabilizada pela sua comunidade local, por não ter atendido ao pedido do viajante. O verbo grego traduzido aqui por
“forçar” advém de uma antiga palavra persa que significa “recrutar à força”. Curiosamente, é a mesma palavra que aparece no
final deste livro, em Mt 27.32, quando os soldados romanos “recrutam à força” Simão, para ajudar Jesus a carregar sua cruz. Os
fariseus haviam imposto uma lei: “devemos acompanhar somente a outro fariseu, não devemos caminhar com os incrédulos”.
Jesus, entretanto, vai além, e ensina que seus discípulos, ao serem solicitados por qualquer viajante a andar 1.609 metros (uma
milha), devem graciosamente estar prontos para caminhar em sua companhia por mais de três quilômetros (duas milhas). Ou
seja, exceder em amor, graça e misericórdia ao que pede a Lei.
10 O termo publicano (palavra latina com origem no grego telõnês) denominava um coletor de impostos a serviço do império
romano. Esses homens eram odiados por causa da impiedade com que exploravam o povo. Para os judeus, o publicano era
imundo, pois estava sempre em contato com os gentios. A palavra “publicano” tornou-se sinônimo de egoísmo, desonestidade,
falsidade, impiedade e incredulidade. Gentios (em hebraico gôyïm e do grego ethnikoi ou Hellênes traduzido pela Vulgata, em
latim, como gentiles) era um termo geral para significar “nações”. Entretanto, na época de Jesus, esse termo era usado pelos
judeus para se referir, em tom discriminatório e preconceituoso, a todas as pessoas que não fossem israelenses. Para os mestres
e doutores da Lei, os “gentios” eram idólatras, imorais e pecadores. Um judeu chamado de gentio significava um publicano; ou
seja, uma pessoa impura, incrédula, mau-caráter, inescrupulosa, impiedosa e digna de todo o desprezo. Jesus resgata o valor
real dos “gentios” (das nações) e convida a todos para Seu Reino (Rm 1.16; Cl 3.11; Gl 2.14; Ap 21.24; 22.2). Jesus conclui essa
parte do seu ensino revelando o segredo da ética cristã: o amor deve fazer muito mais do que a obrigação. Este foi o testemunho
de Cristo e este deve ser o objetivo maior dos cristãos: buscar o amor perfeito do Pai e agir assim, como filhos amados de Deus,
para que outros vejam a luz de Cristo e sejam libertos das trevas deste mundo.

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MATEUS 6 14

11 Dá-nos hoje o nosso pão diário. Investir os recursos no céu


12 Perdoa-nos as nossas dívidas, 19 Não acumuleis para vós outros tesouros
assim como perdoamos aos na terra, onde a traça e a ferrugem destro-
nossos devedores. em, e onde ladrões arrombam para roubar.
13 E não nos conduzas à tentação, 20 Mas ajuntai para vós outros tesouros
mas livra-nos do Maligno.1 no céu, onde a traça nem a ferrugem
Porque teu é o Reino, o poder podem destruir, e onde os ladrões não
e a glória para sempre. Amém. arrombam e roubam.
14 Pois, se perdoardes aos homens as suas 21 Porque, onde estiver o teu tesouro, aí
ofensas, assim também vosso Pai celeste também estará o teu coração.
vos perdoará.
15 Entretanto, se não perdoardes aos ho- Um corpo iluminado
mens, tampouco vosso Pai vos perdoará 22 Os olhos são a lâmpada do corpo.
as vossas ofensas. Portanto, se teus olhos forem bons, teu
corpo será pleno de luz.
Jejuar é adorar a Deus 23 Porém, se teus olhos forem maus, todo
16 Quando jejuardes, não vos mostreis o teu corpo estará em absoluta escuridão.
com aspecto sombrio como os hipócritas; Por isso, se a luz que está em ti são trevas,
pois desfiguram o rosto com a intenção de quão tremendas são essas trevas!SSE
mostrar às pessoas que estão jejuando.
17 Tu, porém, quando jejuares, unge tua Servir somente a Deus
cabeça e lava o rosto. 24 Ninguém pode servir a dois senhores;
18 Pois, assim, não parecerá aos outros que pois odiará um e amará o outro, ou será
jejuas; e, sim, ao teu Pai em secreto; e teu leal a um e desprezará o outro. Não po-
Pai, que vê em secreto, te recompensará. deis servir a Deus e a Mâmon.2

1 Jesus ensina a seus seguidores o caminho da verdadeira adoração e comunicação com Deus. O primeiro passo é a
humildade, em contraste com o estilo dos fariseus, escribas, publicanos e gentios, que viviam uma religiosidade apenas de
aparência, formal e estéril. Os discípulos deveriam também evitar as “vãs repetições”, pois essa era a maneira como os pagãos
(aqueles que não passaram pelo batismo, também chamados de “gentios”) tentavam sensibilizar seus deuses para obter favores.
Nessa época, os adoradores de Baal (1Rs 18.26-28) estavam cativando até judeus fiéis com suas hipocrisias (encenações
teatrais, do grego hupokrites, ator). Por isso Jesus oferece um modelo de oração: O nascimento espiritual dá ao cristão o direito
de ser filho de Deus (Jo 3) e, portanto, pode orar a Deus como quem conversa com seu pai amado (em aramaico: Abba, Mc
14.36; Rm 8.15, Gl 4.6). Devemos desejar e trabalhar pelo estabelecimento do Reino de Deus, em nossas vidas e comunidades,
ao receber pessoalmente o Espírito Santo, que traz salvação, paz, alegria, e a justiça de Cristo. Reino esse que será estabelecido
de forma plena no futuro iminente, quando Jesus voltar, e o último Inimigo for vencido definitivamente (2Ts 2.8; 1Co 15.23-28).
Assim a terra usufruirá a mesma glória de Deus que há nos céus (2Pe 3.13). O cristão reconhece que é o Senhor quem supre
diariamente todas as nossas necessidades, e é grato por isso. A fome, as guerras e outros sofrimentos sociais não ocorrem por
indiferença da parte de Deus, mas pelos pecados dos indivíduos (malignidade) e das nações. Devemos nos lembrar de perdoar
as pessoas que nos devem (bens materiais ou justiça) com a mesma misericórdia e generosidade com que Deus nos perdoa
sempre (1Jo 1.5-9). Observemos como Jesus ressalta a importância do perdão no Reino de Deus (6.14,15). O servo do Senhor é o
alvo favorito dos ataques e artimanhas do Diabo. Mas Deus tem o poder de nos livrar de todo o mal e levar-nos, para lugar seguro,
longe do alcance dos demônios. Não há amargura, decepção, fraqueza, vício, perda ou dor maiores do que o amor e o poder
de Deus (Tg 1.13; 1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22). A maioria das versões da Bíblia em português inclui a frase: “...e não
nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal...”. A KJ apresenta a expressão inglesa: “...and do not lead us into temptation...”
(...e não nos induzas à tentação...). Os melhores originais gregos nos permitem traduzir: “...e não nos conduzas à tentação...”. A
palavra grega peirasmos aqui significa “tentação”, podendo significar também: “teste ou provação” em outros trechos. Assim, a
tentação, que do ponto de vista do Diabo é sempre uma cilada para nos destruir, do ponto de vista de Deus é uma oportunidade
para fortalecimento da fé e crescimento espiritual (Lc 22.32). Deus controla o universo visível e invisível, incluindo o Maligno e seu
reino; por isso, é ao Senhor que devemos pedir livramento das tentações e forças para vencer as provações (1Co 10.13). Jesus
deixa bem claro em sua oração-modelo, que o cristão somente consegue a vitória, vigiando e orando. O próprio Jesus venceu
sua grande batalha contra Satanás, com jejum (4.2), e recomendou que seus discípulos também usassem essa arma ao lado das
orações, e do contínuo louvor a Deus, contra os desígnios do Inimigo (9.15; 17.21).
2 Jesus escolhe uma palavra aramaica Mâmon para personificar um dos mais poderosos deuses pagãos de todos os tempos:
o Dinheiro. O adjetivo Mâmon, deriva do verbo aramaico amân (sustentar) e significa amor às riquezas e dedicação avarenta aos

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15 MATEUS 6, 7

Descanso na providência divina 32 Pois são os pagãos que tratam de obter


25 Portanto, vos afirmo: não andeis preo- tudo isso; mas vosso Pai celestial sabe
cupados com a vossa própria vida, quanto que necessitais de todas essas coisas.
ao que haveis de comer ou beber; nem 33 Buscai, assim, em primeiro lugar, o
pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de Reino de Deus e a sua justiça, e todas
vestir. Não é a vida mais do que o alimen- essas coisas vos serão acrescentadas.
to, e o corpo mais do que as roupas? 34 Portanto, não vos preocupeis com o
26 Contemplai as aves do céu: não se- dia de amanhã, pois o amanhã trará suas
meiam, não colhem, nem armazenam próprias preocupações. É suficiente o
em celeiros; contudo, vosso Pai celestial mal que cada dia traz em si mesmo.
as sustenta. Não tendes vós muito mais
valor do que as aves? Amar mais e julgar menos
27 Qual de vós, por mais que se preocupe,
pode acrescentar algum tempo à jornada
da sua vida?3
7 Não julgueis, para que não sejais
julgados.1
2 Pois com o critério com que julgardes,
28 E por que andais preocupados quanto ao sereis julgados; e com a medida que
que vestir? Observai como crescem os lírios usardes para medir a outros, igualmente
do campo. Eles não trabalham nem tecem. medirão a vós.
29 Eu, contudo, vos asseguro que nem 3 Por que reparas tu o cisco no olho de
Salomão, em todo o esplendor de sua teu irmão, mas não percebes a viga que
glória, vestiu-se como um deles. está no teu próprio olho?
30 Então, se Deus veste assim a erva do 4 E como podes dizer a teu irmão: Per-
campo, que hoje existe e amanhã é lan- mite-me remover o cisco do teu olho,
çada ao fogo, quanto mais a vós outros, quando há uma viga no teu?
homens de pequena fé? 5 Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu
31 Portanto, não vos preocupeis, dizendo: olho, e então poderás ver com clareza
Que iremos comer? Que iremos beber? para tirar o cisco do olho de teu irmão.2
Ou ainda: Com que nos vestiremos? 6 Não deis o que é sagrado aos cães, nem

interesses mundanos. Jesus orienta seus seguidores a investir suas vidas na conquista de bens espirituais agradáveis ao Senhor
e adverte para a impossibilidade de se servir com lealdade a Deus e ao mesmo tempo amar o deus Dinheiro. Isso não quer dizer
que Jesus seja contra os ricos e prósperos, mas, sim, que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (Gn 13.2; Ec 3.13; 5.10-
19; 10.19; 1Tm 6.10). O dinheiro é para ser usado e as pessoas, amadas. A inversão desses valores tem sido a razão de muitas
desgraças (Is 52.3; 55.1; Rm 4.4; 1Tm 5.18).
3 A palavra grega psyche (alma) significa: “vida”, pois nas Escrituras, “alma” tem um sentido de algo diferente do atual, derivado
da filosofia grega, especialmente a partir de Platão. Na Bíblia, a palavra “alma” vem da expressão hebraica nephesh que significa
“personalidade” e indica o centro das emoções e apetites. Por isso, em toda a Bíblia, o comer e o beber são considerados como
funções da alma. Algumas vezes pode também se referir à vida natural em contraste com a vida espiritual (Hb 4.12). Jesus usa uma
figura de linguagem para ensinar duas verdades: “Deus existe, e você não é Ele”. As preocupações tentam minimizar o poder de
Deus e colocar um peso insuportável sobre nossas costas. A versão de Almeida traduz a expressão grega helikia por “estatura”; po-
rém, melhores originais e estudos mais acurados, mostram que o termo se refere a tempo e idade. Em certo sentido, essa expressão
de Jesus poderia ser traduzida assim: “Ninguém ultrapassa, nem por meio metro, o ponto final da sua existência na terra”. Por isso,
Jesus recomenda um estudo (análise, consideração filosófica) sobre a maneira cuidadosa, generosa e particular com que Deus trata
cada um dos seres mais simples da terra, e os reveste de grande glória (1Rs 1-11; 1Cr 28; 2Cr 9; 1Rs 10.4-7). Concluindo: temos uma
visão distorcida da vida e de nossas prioridades. Somente a busca do Reino de Deus vai nos colocar em harmonia com o Criador, e,
assim, descobriremos a tão almejada paz, justiça e real felicidade (Jo 6.52-59; Jo 10.10, Rm 3.21-31 e 14.17-18).
Capítulo 7
1 Jesus mostra que é possível ajudar nosso semelhante com conselhos e críticas (v. 5 e 23.13-39), bem como devemos estar
sempre dispostos a aprender, avaliar e ensinar (Rm 2.1; 1Co 5.9; 2Co 11.14; Fp 3.2; 1Jo 4.1; 1Ts 5.21).Entretanto, como cristãos,
nosso dever é amar antes de julgar. Um coração repleto do amor de Deus não será acusador, mesquinho, invejoso, crítico con-
tumaz ou difamador. A marca do cristão deveria ser seu amor irrestrito e altruísta pelo próximo, em especial por seus irmãos em
Cristo (Jo 13.5; Jo 14.15; Rm 12.10; 1Pe 1.22).
2 Jesus usou muitas histórias (parábolas) e figuras de linguagem para ensinar. Em 19.24, por exemplo, Ele fala de um camelo
passando pelo fundo de uma agulha. Nesta outra hipérbole, Ele compara uma partícula de serragem ou pedaço de qualquer

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MATEUS 7 16

jogueis aos porcos as vossas pérolas, para Pelo fruto se conhece a árvore
que não as pisoteiem e, voltando-se, vos 15 Acautelai-vos quanto aos falsos profe-
façam em pedaços. tas. Eles se aproximam de vós disfarçados
de ovelhas, mas no seu íntimo são como
Perseverança na oração lobos devoradores.
7 Pedi, e vos será concedido; buscai, e 16 Pelos seus frutos os conhecereis. É
encontrareis; batei, e a porta será aberta possível alguém colher uvas de um espi-
para vós. nheiro ou figos das ervas daninhas?
8 Pois todo o que pede recebe; o que bus- 17 Assim sendo, toda árvore boa produz
ca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá. bons frutos, mas a árvore ruim dá frutos
9 Ou qual dentre vós é o homem que, ruins.
se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma 18 A árvore boa não pode dar frutos ruins,
pedra? nem a árvore ruim produzir bons frutos.
10 Ou se lhe pedir peixe, lhe entregará 19 Toda árvore que não produz bons fru-
uma cobra? tos é cortada e atirada ao fogo.
11 Assim, se vós, sendo maus, sabeis dar 20 Portanto, pelos seus frutos os conhe-
bons presentes aos vossos filhos, quanto cereis.
mais vosso Pai que está nos céus dará o 21 Nem todo aquele que diz a mim: ‘Se-
que é bom aos que lhe pedirem!3 nhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus,
12 Portanto, tudo quanto quereis que mas somente o que faz a vontade de meu
as pessoas vos façam, assim fazei-o Pai, que está nos céus.
vós também a elas, pois esta é a Lei e os 22 Muitos dirão a mim naquele dia:
Profetas.4 ‘Senhor, Senhor! Não temos nós profe-
tizado em teu nome? Em teu nome não
Os dois únicos caminhos expulsamos demônios? E, em teu nome,
13 Entrai pela porta estreita, pois larga é não realizamos muitos milagres?’
a porta e amplo o caminho que levam à 23 Então lhes declararei: Nunca os co-
perdição, e muitos são os que entram por nheci. Afastai-vos da minha presença,
esse caminho. vós que praticais o mal.
14 Porque estreita é a porta e difícil o ca-
minho que conduzem à vida, apenas uns O sábio e o insensato
poucos encontram esse caminho!5 24 Assim, todo aquele que ouve estas

material com uma grande trave (viga) de madeira usada na estrutura de construções, para destacar a humildade, carinho e sen-
sibilidade que devemos ter para com nosso semelhante, quando tivermos de emitir um juízo, criticar ou aconselhar. Pois somos
sujeitos a erros, fraquezas e dificuldades iguais ou maiores que os de qualquer pessoa.
3 Jesus explica que o bem e o mal têm, às vezes, certa semelhança inicial, podendo enganar alguém ingênuo ou desinformado.
A pedra a que Jesus se refere era parecida com os pães orientais da época: redondos, achatados e endurecidos (por isso o pão
suportava longas viagens e era quebrado para ser servido). A cobra peçonhenta é semelhante às enguias comestíveis, apreciadas
pela culinária da época. O Senhor é Pai bondoso e fica feliz em dar os presentes (dádivas) que seus filhos lhe pedem, mas só Ele
sabe o que é realmente bom para cada um de nós.
4 Este versículo é conhecido em todos os continentes como “A Regra de Ouro”, a manifestação prática do amor cristão.
Orienta-nos Jesus aqui quanto ao procedimento diário: o amor, sem egoísmos, deve ser a força motriz das nossas ações (1Co
13.4-8), concedendo ao próximo o que buscamos para nosso próprio bem. Devemos chegar ao ponto máximo do amor e da fé
em Deus, que é retribuir com o bem a qualquer pessoa que, por algum motivo, nos ferir ou fizer qualquer mal. Foi assim que Deus
respondeu à rebelião e indiferença da humanidade, oferecendo-se em sacrifício, para nos salvar pela Graça (Ef 2.8-9). A “Lei e os
Profetas” é uma referência a toda a Escritura Sagrada, tanto em sua letra como em seu pleno conteúdo (Rm 13.8-10; Mt 5.17).
5 Jesus denomina o caminho para o céu de “porta estreita” ou “caminho difícil”, em algumas versões “caminho apertado”.
Não porque Deus tenha diminuído sua generosidade, graça e desejo de salvar a todos (2Pe 3.9), ao contrário, estamos vivendo
a “Época da Graça” onde todos – mais do que nunca – são bem-vindos ao Reino de Deus. Entretanto, poucos permanecerão
no Caminho, porque jamais foram dele realmente, e não suportam o negar-se a si mesmo, as renúncias do “Eu” nem os apelos
de uma sociedade cada vez mais hedonista e materialista. A idéia e a figura dos dois caminhos é muito anterior a Cristo, data de
400 a.C e foi difundida através do trabalho filosófico de Sócrates. O mesmo pensamento reaparece em duas grandes obras do
primeiro século depois de Cristo: Didaquê e Epístola de Barnabé.

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17 MATEUS 7, 8

minhas palavras e as pratica será compa- 4 Em seguida, disse-lhe Jesus: “Veja que
rado a um homem sábio, que construiu a não digas isto a ninguém, mas segue,
sua casa sobre a rocha. mostra teu corpo ao sacerdote, e faze a
25 E caiu a chuva, vieram as enchentes, oferta que Moisés ordenou, para que sirva
sopraram os ventos e bateram com vio- de testemunho.”1
lência contra aquela casa, mas ela não
caiu, pois tinha seus alicerces na rocha. Um comandante romano crente
26 Pois, todo aquele que ouve estas mi- 5 Entrando Jesus em Cafarnaum, dirigiu-
nhas palavras e não as pratica é como se a ele um centurião, suplicando:2
um insensato que construiu a sua casa 6 “Senhor, meu servo está em casa, para-
sobre a areia. lítico e sofrendo horrível tormento”.
27 E caiu a chuva, vieram as enchentes, 7 Então, Jesus lhe disse: “Eu irei curá-lo”.
sopraram os ventos e bateram com vio- 8 Ao que respondeu o centurião: “Se-
lência contra aquela casa, e ela desabou. nhor, não sou digno de receber-te sob o
E grande foi a sua ruína”. meu teto. Mas dize apenas uma palavra,
28 Quando Jesus acabou de pronunciar e o meu servo será curado.
estas palavras, estavam as multidões atô- 9 Porque eu também sou homem de-
nitas com o seu ensino. baixo de autoridade e tenho soldados às
29 Porque Ele as ensinava como quem minhas ordens. Digo a um: Vai, e ele vai;
tem autoridade, e não como os mestres e a outro: Vem, e ele vem. Ordeno a meu
da lei.6 servo: Faze isto, e ele o faz”.
10 Ao ouvir isto, Jesus maravilhou-se, e
Jesus purifica o imundo disse aos que o seguiam: “Com toda a cer-

8 Quando Ele desceu do monte, gran-


des multidões o seguiram.
2 E eis que um leproso, tendo-se apro-
teza vos afirmo que nem mesmo em Israel
encontrei alguém com tão grande fé.
11 Digo-vos que muitos virão do Oriente e
ximado, adorou-o de joelhos e clamou: do Ocidente e tomarão lugares à mesa com
“Senhor, se é da tua vontade podes pu- Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus.
rificar-me!” 12 Entretanto, os herdeiros do Reino se-
3 Então, Jesus, estendendo a mão, to- rão lançados para fora, nas trevas, onde
cou-lhe, dizendo: “Eu quero. Sê limpo!” haverá choro e ranger de dentes”.3
E no mesmo instante ele ficou purifica- 13 Então disse Jesus ao centurião: “Vai-te,
do da lepra. e da maneira como creste, assim te su-

6 Os doutores da lei (em grego grammateis, nomikoi) e os mestres da lei (em grego nomodidaskaloi) eram técnicos no estudo
da lei de Moisés (Torah). Em princípio era uma função reservada aos sacerdotes. Esdras, um homem de Deus, acumulou as fun-
ções de sacerdote e escriba (em hebraico sôpherïm). Veja Ne 8.9. Com o passar do tempo, os escribas se tornaram extremamente
formais e espiritualmente estéreis. Além disso, muitos se envolveram com o partido político dos fariseus e deixaram de ser impar-
ciais em relação ao ensino da lei. Jesus, entretanto, ensinava com “exousia”, em grego, “poder sobrenatural” que a todos deixava
maravilhados, pasmos, atônitos (1Co 2.4-5). Isso despertou a inveja e o ódio de muitos “líderes religiosos” contra Jesus Cristo.
Capítulo 8
1 A lei de Moisés (Lv 13,14) ordenava que em casos de doenças de pele, especialmente a lepra, somente um sacerdote ou seu
filho poderia realizar a cerimônia de purificação. O conceito de quarentena (para isolamento e tratamento de doenças infecciosas)
teve início naquela época. Para os judeus, a çãra’ath, palavra hebraica para um dos tipos de hanseníase, simbolizava o pecado,
por ser nojento, contagioso e incurável. Além disso, o sacerdote que tocava no leproso tornava-se cerimonialmente imundo. Je-
sus ao curar um homem da mais terrível doença de sua época, revela ao mundo parte de sua natureza e ministério. As instruções
mosaicas para o cerimonial de purificação dos imundos tipificam a nossa redenção em Cristo (Lv 14.2-32).
2 A centúria era uma divisão do exército romano, formada por cem homens e comandada por um centurião. Cornélio, um outro
centurião gentio, convertido, foi notável exemplo de cristão (At 10).
3 A tradição rabínica considerava o judaísmo como uma garantia herdada e absoluta de entrada no Reino de Deus, e por isso
também se dizia: “filhos do reino” (Is 41.8). Embora, os judeus sejam de fato o povo escolhido, Jesus está comemorando a entrada
dos gentios (todos os que não são judeus) no Reino do Pai, como verdadeiros filhos (Sl 107.3; Is 49.12; 59.19; Ml 1.11). Jesus
demonstra seu lado humano ao ficar admirado (surpreso) com a fé e a compreensão que aquele homem, não-judeu, demonstrou

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MATEUS 8 18

cederá!” E naquela mesma hora o servo suas tocas e as aves do céu têm seus ni-
foi curado. nhos, mas o Filho do homem não tem
onde repousar a cabeça”.
Jesus salva, cura e liberta 21 Outro de seus discípulos lhe disse: “Se-
14 Tendo Jesus chegado à casa de Pedro, nhor, permite-me ir primeiro sepultar
viu a sogra deste acamada, enferma e meu pai”.
com febre. 22 Ao que Jesus lhe respondeu: “Segue-
15 Então, Jesus tocou a mão dela e a febre me e deixa que os mortos sepultem os
a deixou. Em seguida, levantou-se ela e seus próprios mortos”.
passou a servi-lo.
16 No início da noite, trouxeram-lhe mui- Jesus domina as circunstâncias
tos endemoninhados; e Ele, com apenas 23 Entrando Jesus no barco, seus discípu-
uma palavra, expulsou os espíritos e los o seguiram.
curou todos os que estavam doentes. 24 De repente, sobreveio no mar uma
17 Assim se cumpriu o que fora dito por violenta tempestade, de tal maneira que
intermédio do profeta Isaías: “Ele tomou as ondas encobriam o barco. Ele, contu-
sobre si as nossas enfermidades e pesso- do, dormia.
almente levou as nossas doenças”.4 25 Então, seus discípulos vieram des-
pertá-lo, clamando: “Senhor, salva-nos!
A prioridade do discipulado Vamos todos perecer!”
18 Quando Jesus viu que uma multidão o 26 Mas Jesus disse a eles: “Por que estais
rodeava, ordenou que atravessassem para com tanto medo, homens de pequena fé?
o outro lado do mar. E, levantando-se, repreendeu os ventos e
19 Então, aproximando-se dele um escri- o mar, e houve plena calmaria.
ba, disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para 27 Então, os homens maravilhados, excla-
onde quer que fores”. maram: “Quem é este que até os ventos e
20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm o mar lhe obedecem?”.

ter acerca do seu poder e autoridade divina. Aproveita o evento para proclamar a salvação para todos os povos e raças (22.1-14;
Lc 14.15-24), ao mesmo tempo em que adverte duramente aos judeus quanto ao fato de que a herança da vida eterna e do Reino
está em crer em Deus e na aceitação de Seu Filho que veio ao mundo para salvar todos os seus. De agora em diante a humanidade
não seria mais dividida entre judeus e gentios (os próximos e os distantes de Deus); mas, sim, entre crentes e descrentes. O padrão
de reconhecimento da herança não repousa mais sobre a nacionalidade ou linhagem judaica, mas numa fé sincera e absoluta no
Senhor (Sl 147.13,20; Mt 4.17; 9.28; Mc 4.40; 11.22; Lc 5.20; Jo 5.37-47; 8.45; At 14.16). Por isso acontecerá que do oriente e do
ocidente (de todo o mundo) virão gentios para o Reino (Is 49.12) e terão o direito de se assentar ao lado dos grandes pais da fé, pois
aceitaram a Graça da Salvação (Ef 2.8). Jesus conclui duramente, que muitos judeus, “herdeiros do Reino” (sacerdotes ou filhos do
reino) tornaram-se “filhos da desobediência” (piores dos que os pagãos e gentios), razão pela qual serão expulsos para o “reino dos
mortos” (sheol, em hebraico e hades, em grego), onde haverá tanto remorso e tristeza que se ouvirá o som do bater dos queixos
das pessoas aterrorizadas. Nesse estado intermediário entre a morte e a ressurreição (sheol ou hades), os salvos gozarão de paz e
descanso, enquanto os incrédulos estarão na escuridão (um lugar chamado: inferno) e sob tormentos. Na ressurreição, os salvos
habitarão plenamente o Reino, e os incrédulos (judeus ou não) sofrerão a segunda morte e serão banidos para o lugar de punição e
fogo eterno ou lago de fogo (em grego ten geennan tou pyros). Onde até mesmo o inferno será lançado (Ap 20).
4 Ao contrário do que alguns céticos e críticos afirmam, Jesus não andava com o AT nas mãos procurando cumprir profecias.
Mas, a cada instante, um evento admirável ocorria e seus discípulos, e todos os que conheciam a Lei e os Profetas testemunhavam,
na pessoa de Jesus o cumprimento de várias profecias messiânicas do AT. Tudo isso diante dos olhos atônitos de todos. Algumas
dessas profecias haviam sido escritas há mais de 1.000 anos antes que Jesus começasse a andar pelas terras da Palestina pregando
a Nova Aliança, como é o caso do Salmo 22 e outros (Sl 2,8,16,40,41,45,68,69,89,102,109,110 e 118). A profecia de Isaías 53.4 (cerca
de 750 a.C segundo os melhores estudos sobre os Papiros do Mar Morto) nos revela que Jesus, o Messias (Palavra hebraica que sig-
nifica: Rei Ungido, e que foi traduzida para o grego como: Cristo), refere-se ao ministério de cura e libertação de Jesus, cuja obra lhe
custou caro fisicamente (Mc 5.30, Lc 8.46). Os cristãos, hoje em dia, podem ter uma idéia desse desgaste físico e emocional quando
participam ativamente de qualquer dos ministérios da Igreja: exposição da Palavra, evangelização, louvor, adoração, missões, cura,
libertação, aconselhamento, administração, contribuição, ação social e outros, pois a verdadeira obra cristã requer do Espírito Santo
(que é o próprio Jesus habitando na vida de cada indivíduo que crê) o mesmo poder demandado da pessoa de Jesus Cristo.

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19 MATEUS 8, 9

Jesus domina as forças do mal deitado em sua maca. Observando-lhes


28 Quando Ele chegou ao outro lado, à a fé, disse Jesus ao paralítico: “Tem bom
província dos gadarenos, foram ao seu ânimo, filho; os teus pecados estão per-
encontro dois endemoninhados, saindo doados”.
dentre os sepulcros. Eram tão agressivos 3 Diante disso, alguns escribas diziam
que ninguém podia passar por aquele consigo mesmos: “Este homem blasfe-
caminho. ma!”
29 E, de repente gritaram: “Que temos 4 Mas Jesus, conhecendo-lhes os pensa-
nós contigo, ó Filho de Deus? Vieste aqui mentos, questiona: “Por que cogitai o
para nos atormentar antes do devido mal em vossos corações?”
tempo?” 5 Pois o que é mais fácil dizer: ‘Os teus
30 Não muito longe deles estava pastando pecados estão perdoados1’, ou: ‘Levanta-
uma grande manada de porcos. te e anda?’
31 Então, os demônios imploravam a Ele: 6 Entretanto, para que saibais que o Filho
“Se nos expulsas, permite-nos entrar do homem1 tem na terra autoridade para
naquela manada de porcos!” perdoar pecados – disse então ao paralí-
32 E Jesus lhes disse: “Ide!” Assim que tico: “Levanta-te, toma a tua maca, e vai
saíram entraram nos porcos. De repen- para tua casa”.
te, toda a manada correu em disparada 7 Levantando-se, o homem partiu para
e atirou-se violentamente precipício sua casa.
abaixo, em direção ao mar, e nas águas 8 Ao ver isso, a multidão se encheu de
pereceram. temor e glorificava a Deus, pois dera aos
33 Aqueles que cuidavam dos porcos fu- homens tamanha autoridade.
giram, foram para a cidade e contaram
tudo, inclusive o que ocorrera com os Jesus veio para os necessitados
endemoninhados. 9 Saindo, viu Jesus um homem chamado
34 Então toda a cidade saiu ao encontro Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe:
de Jesus; e assim que o viram, suplica- “Segue-me!” Ele se levantou e o seguiu.
ram-lhe que se retirasse da sua região. 10 E aconteceu que, estando Jesus em
casa, à mesa, muitos publicanos e peca-
Jesus perdoa e cura dores vieram para cear com Ele e seus

9 E, entrando Jesus num barco, atraves-


sou o mar e foi para a sua cidade.
2 E eis que lhe trouxeram um paralítico
discípulos.2
11 Quando os fariseus viram isso, per-
guntaram aos discípulos dele: “Por que

1 Freqüentemente Jesus refere-se a si mesmo como Filho do Homem (Mc 8.38; 13.26, 14.62; Lc 17.24; 21.27). Ele usou essa
expressão do AT para descrever seu caráter e missão em termos da visão de Daniel (Dn 7.13). O Filho do Homem se humilhou
como verdadeiro ser humano, sendo ao mesmo tempo, o Eterno Vitorioso (Mt 24.30). Além disso, Jesus revestiu essa expressão
com a necessidade e o profundo significado dos seus sofrimentos, morte e ressurreição expiatória (Mc 8.31; 9.31; 10.33; 14.21-
41; Lc 18.31-33; 19.10; Mt 20.18-28; 26.45; Lc 21.25-28; 22.29-30; Mc 13.26-27; 14.24-25,62; Jo 13.31-32).
2 Cafarnaum foi a cidade onde Jesus permaneceu mais vezes e por mais tempo, por isso era chamada de a “cidade de Jesus”
(Mt 4.12,13; 9.9; Mc 2.1; Lc 4.13, 23, 31, 38). Mas, apesar de Cafarnaum ter sido um grande centro comercial, presenciado mais
sinais e recebido mais da presença e da Palavra de Cristo do que qualquer outra localidade, Jesus encontrou ali apenas uns
poucos seguidores. Por isso o Senhor exclama seu “ai” sobre a cidade (Mt 11.23). Hoje Cafarnaum é um campo de entulhos,
chamado Tel Hum. Mateus era um cobrador de impostos a serviço de Roma. Os judeus se referiam a eles como “publicanos
e pecadores”, pois os consideravam “amaldiçoados” como os gentios (Jo 7.49). Jesus viu, porém, em Mateus, um discípulo e
o autor deste Evangelho o chamou, em aramaico akolutheo (Segue-me!), que é uma expressão que significa: “ir atrás de”. Na
época, essa expressão era um convite de honra. O aluno do profeta, em sinal de respeito, passaria a caminhar atrás do seu mestre
(rabino) e, por dois anos, aprenderia as leis do judaísmo. Mateus (Matias, em hebraico), deixa tudo e começa uma nova vida com
Cristo (Lc 5.28). Oferece uma ceia, em sua casa (Lc 5.27), para Jesus, os discípulos e seus muitos amigos pecadores. No Oriente
e naquela época, convidar alguém para cear em casa era uma grande demonstração de amizade e intimidade e por isso recebia
o nome de: “comunhão de mesa”. Isso foi o suficiente para provocar a ira de um grupo de fariseus (hassïdïns – leais a Deus - em
hebraico; eram os sacerdotes e doutores da Lei, temidos por seu rigor e poder político).

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MATEUS 9 20

ceia o vosso mestre com publicanos e Jesus tem poder sobre a morte
pecadores?” 18 Enquanto, Ele estava falando, um dos
12 Mas Jesus, ouvindo, responde: “Os dirigentes da sinagoga aproximou-se e,
sãos não necessitam de médico, mas sim, ajoelhando-se diante dele, rogou: “Mi-
os doentes. nha filha acaba de morrer; mas vem,
13 Portanto, ide aprender o que significa impõe a tua mão sobre ela, e viverá”.
isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifí- 19 Jesus então levantou-se e seguiu com
cios’. Pois não vim resgatar justos e sim ele, e seus discípulos os acompanharam.
pecadores’”.3 20 De repente, uma mulher que há doze
anos vinha sofrendo de hemorragia, al-
O novo e definitivo vinho cançou-o por trás e tocou na borda do
14 Então, chegaram os discípulos de João seu manto.
e lhe perguntaram: “Por que jejuamos 21 Pois dizia essa mulher consigo mesma:
nós, e os fariseus, muitas vezes, e os teus “Se eu conseguir apenas lhe tocar as ves-
discípulos não jejuam?” tes, serei curada”.
15 Respondeu-lhes Jesus: “É possível que 22 Então Jesus voltou-se e assim que viu
os amigos do noivo fiquem de luto en- a mulher lhe disse: “Anime-se grande-
quanto o noivo ainda está com eles? Dias mente, filha, a tua fé te salvou!” E, desde
virão, quando o noivo lhes será tirado; aquele momento, a mulher ficou sã.5
então jejuarão. 23 Quando Jesus chegou à casa do diri-
16 Ninguém coloca remendo novo em gente da sinagoga e viu os flautistas fúne-
roupa velha; porque o remendo força o bres e a multidão em alvoroço, ordenou:
tecido da roupa e o rasgo aumenta. 24 “Retirai-vos daqui! Esta menina não
17 Nem se põe vinho novo em odres está morta, mas adormecida”. E todos
velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o zombavam dele.
vinho derramará e os odres se estragarão. 25 Assim que a multidão foi retirada,
Mas, põe-se vinho novo em odres novos, Jesus entrou, tomou a menina pela mão
e assim ambos ficam conservados”.4 e ela se levantou.

3 O maior e mais agradável sacrifício (holocausto) para Deus é o nosso amor sincero, sem restrições e em plena fé. A
enfermidade da qual todos padecemos, inclusive muitos religiosos e líderes cristãos, é a distância do mais verdadeiro e puro
amor (em grego: agape) ao Senhor (1Jo 4.16) e aos nossos semelhantes. Jesus pede que os doutores em teologia, filosofia,
direito e ética da época, voltem às Escrituras, leiam atentamente Oséias 6.6, especialmente na edição grega do AT, a Septuaginta
(cerca de 260 a.C.), e entendam que Ele não estava pactuando com o pecado, mas salvando todos aqueles que reconhecerem
nele o Messias, o Filho de Deus.
4 Segundo a lei mosaica, apenas o jejum do Dia da Expiação era obrigatório (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7). Após o exílio na
Babilônia, outros quatro jejuns deveriam ser feitos durante o ano (Zc 7.5; 8.19). Na época de Jesus, os fariseus jejuavam duas
vezes por semana (Lc 18.12). Os casamentos judaicos eram grandes celebrações familiares, cujas festas chegavam a durar
uma semana e, nessas ocasiões, os convidados eram dispensados da obrigação do jejum, uma vez que esse ato era sempre
associado à tristeza. Jesus então faz uma analogia entre as festividades das bodas e seu relacionamento com seus discípulos (os
amigos do noivo), dispensando-os do jejum enquanto o noivo (Ele) estiver presente. Jesus jejuava em particular, mas rejeitava a
observação da Lei de forma legalista e para autoglorificação (Is 58.3-11). O jejum seria praticado por seus discípulos, após sua
ascensão, voluntariamente e para edificação pessoal (Mt 4.2; 6.16-18). Jesus veio estabelecer uma nova ordem para o relaciona-
mento das pessoas com Deus. A lei deve ceder lugar à graça (o novo vinho, a nova aliança). Os odres eram bolsas feitas de pele
de cabra, onde se conservava o vinho (Gn 27.28; Êx 29.40; Lv 10.9; Sl 104.15; Ec 10.19; 1Tm 5.23; 1Tm 3.8; Tt 2.3; Rm 13.13;
Rm 14.21). À medida que o suco de uvas frescas fermentava, o vinho se expandia. Os odres novos tinham maior resistência e
flexibilidade, e se esticavam. Mas os odres usados e envelhecidos não suportavam a pressão e estouravam, colocando o vinho a
perder. Jesus usa essa metáfora para revelar que seu novo, puro e poderoso ensino não pode ser recebido pelas antigas formas
do judaísmo, nem pelo legalismo religioso.
5 Jesus se agrada da nossa fé e está sempre pronto para nos socorrer em qualquer necessidade. Basta que o procuremos
com sinceridade. O verbo grego sõzein significa “salvar e curar”. A mulher pensou em salvar-se, livrar-se de uma doença horrível
e antiga. Mas Jesus deu-lhe a cura integral, da alma e do corpo, quando a abençoou com a tradicional bênção dos rabinos da
época: “a tua fé te salvou”. Jesus demonstrou que essa não era apenas uma frase religiosa, mas a indicação de que o Reino de
Deus havia chegado para todos aqueles que nele cressem, pois que as palavras de Jesus são acompanhadas de poder.

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21 MATEUS 9, 10

26 Então a notícia desse acontecimento expulsar espíritos imundos e curar todas


espalhou-se por toda aquela região. as doenças e males.
2 E são estes os nomes dos doze apósto-
Os cegos passam a ver los: primeiro, Simão, chamado Pedro, e
27 Partindo Jesus dali, dois homens André, seu irmão; Tiago, filho de Zebe-
cegos o seguiram, clamando: “Filho de deu, e João, seu irmão;
Davi, tem misericórdia de nós!” 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus,
28 Entrando Ele em casa, aproximaram- o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e
se os cegos, e Jesus lhes perguntou: “Cre- Tadeu;
des que Eu seja capaz de fazer isto?” E, 4 Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, o
responderam-lhe: “Sim, Senhor!” mesmo que traiu a Jesus.
29 Então, lhes tocou os olhos, dizendo: 5 Assim, a esses doze homens, enviou Jesus
“Seja-vos feito conforme a vossa fé”. com as seguintes recomendações: “Não
30 E os olhos deles foram abertos. Jesus vos encaminheis aos gentios, nem entreis
os advertiu, então, severamente: “Cuidai em cidade alguma dos samaritanos.
para que ninguém saiba disto”. 6 Antes, porém, buscai as ovelhas perdi-
31 Contudo, ao partirem, propagaram os das da casa de Israel.
feitos de Jesus por toda aquela região. 7 E, à medida que seguirdes, pregai esta
mensagem: O Reino dos Céus está a
Os endemoninhados são libertos vosso alcance!
32 Após terem se retirado, algumas pes- 8 Curai enfermos, purificai leprosos, res-
soas trouxeram a Jesus um homem, mu- suscitai mortos, expulsai demônios. Gra-
do e possuído por um demônio. ciosamente recebestes, graciosamente dai.
33 Assim que o demônio foi expulso, 9 Não vos provereis de ouro, nem prata
o mudo passou a falar; e as multidões ou cobre em vossos cinturões.
admiradas exclamavam: “Jamais se 10 Não leveis sacolas de viagem, nem
viu algo assim em Israel!”. uma túnica a mais, segundo par de
34 Por outro lado, os fariseus maldiziam: sandálias ou um cajado; pois digno é o
“Ele expulsa os demônios pelo príncipe trabalhador do seu sustento.
dos demônios”. 11 Em qualquer cidade ou povoado em
que entrardes, procurai alguém digno
Todos os enfermos são curados de vos receber; ficai nesta casa até vos
35 E Jesus ia passando por todas as cidades retirardes.
e povoados, ensinando nas sinagogas, pre- 12 E, quando entrardes na casa, saudai-a.
gando as boas novas do Reino e curando 13 Se a casa for digna, que a vossa paz
todas as enfermidades e doenças. repouse sobre ela; se, todavia, não for
digna, que a paz retorne para vós.
Jesus pede mais discípulos 14 Porém, se alguém não vos receber, nem
36 Ao ver as multidões, Jesus sentiu gran- der ouvidos às vossas palavras, assim que
de compaixão pelas pessoas, pois que sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a
estavam aflitas e desamparadas como poeira dos vossos pés.
ovelhas que não têm pastor. 15 Com toda a certeza vos afirmo que
37 Então, falou aos seus discípulos: “De haverá mais tolerância para Sodoma e
fato a colheita é abundante, mas os tra- Gomorra, no dia do juízo, do que para
balhadores são poucos. aquelas pessoas.
38 Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi 16 Observai! Eu vos envio como ovelhas
que Ele mande mais trabalhadores para a entre os lobos. Sede, portanto, astutos
sua colheita”. como as serpentes e inofensivos como
as pombas.
Jesus envia seus apóstolos 17 E, acautelai-vos dos homens; pois que

10 Jesus, tendo chamado seus doze


discípulos, deu-lhes poder para
vos entregarão aos tribunais e vos açoita-
rão nas suas sinagogas.

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MATEUS 10 22

18 Sereis levados à presença de governa- luz do dia; e o que se vos diz ao ouvido,
dores e reis por minha causa, para teste- proclamai-o do alto dos telhados.
munhardes a eles e aos gentios. 28 E, não temais os que matam o corpo,
19 Todavia, quando vos prenderem, não mas não têm poder para matar a alma.
vos preocupeis em como, ou o que deveis Temei antes, aquele que pode destruir no
falar, pois que, naquela hora, vos será mi- inferno tanto a alma como o corpo.
nistrado o que haveis de dizer. 29 Não se vendem dois pardais por uma
20 Isso porque, não sois vós que estareis moedinha de cobre? Mesmo assim,
falando, mas o Espírito de vosso Pai é nenhum deles cairá sobre a terra sem a
quem se expressará através de vós. permissão de vosso Pai.
21 Um irmão entregará à morte seu irmão, 30 E quanto aos muitos cabelos da vossa
e o pai ao filho, e os filhos se rebelarão cabeça? Estão todos contados.
contra seus pais e lhes causarão a morte. 31 Por isso, não temais! Bem mais valeis
22 E, por causa do meu Nome, sereis vós do que muitos passarinhos.
odiados de todos. Contudo, aquele que 32 Assim sendo, todo aquele que me decla-
permanecer firme até o fim será salvo. rar diante das pessoas, também eu o decla-
23 Quando, porém, vos perseguirem num rarei diante de meu Pai que está nos céus.
lugar, fugi para outro; pois com toda a 33 Entretanto, qualquer que me negar
certeza vos asseguro que não tereis pas- diante das pessoas, também Eu o negarei
sado por todas as cidades de Israel antes diante de meu Pai que está nos céus.
que venha o Filho do homem. 34 Não penseis que vim trazer paz à terra;
24 O pupilo não está acima do seu men- não vim trazer paz, mas espada.
tor, nem o escravo acima do seu amo. 35 Pois Eu vim para ser motivo de discór-
25 Basta ao discípulo ser como seu mestre, dia entre o homem e seu pai; entre a fi-
e ao servo ser como seu senhor. Se chama- lha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.
ram de Belzebu ao cabeça da Casa, quanto 36 Assim os inimigos do homem serão os
mais aos membros da sua família! da sua própria família.1
26 Entretanto, não os temais! Nada há 37 Quem ama seu pai ou sua mãe mais do
escondido que não venha a ser revelado, que a mim não é digno de mim; e quem
nem oculto que não venha a se tornar ama o filho ou a filha mais do que a mim
conhecido. não é digno de mim.
38 E aquele que não toma a sua cruz e não
A entrega do temor a Deus me segue, também não é digno de mim.
27O que vos digo na escuridão, dizei-o à 39 Quem encontra a sua vida a perderá.

1 Jesus não veio trazer a paz no sentido de uma religiosidade cômoda e inconseqüente. O verdadeiro cristianismo é uma mudança
radical de vida com implicações conflituosas, inadequações e até perseguições cruéis. Algumas vezes na própria família (Mq 7.6)
e, com certeza, neste mundo secularizado, materialista e agnóstico. A paz do cristão está em sua plena comunhão com Deus (Jo
14.27) e a terra só verá paz completa na volta do Rei Jesus (Is 2.4). Uma das ofensas que mais feriram o coração de Cristo foi ouvir
dos teólogos da época (seu povo e família) que realizava milagres e sinais no poder de Belzebu (9.34; 12.24-29; Mc 3.22; Lc 11.15-
19; Jo 8.52). Chamar o Filho de Deus – o cabeça da raça humana – de Diabo, foi uma das maiores blasfêmias já ditas na história do
mundo. Belzebu é a forma grega da expressão hebraica Baal-Zebub que se refere a Satanás, o “príncipe dos demônios” e significa:
“senhor das moscas” (2Rs 1.2). Por isso, é preciso muito cuidado ao julgar e expressar publicamente opiniões dessa natureza con-
tra qualquer pessoa ou movimento cristão. Em 10.38, pela primeira vez em Mateus, aparece a palavra “cruz”. Os cristãos não devem
buscar o sofrimento, nem se desesperar diante dele, mas ter a atitude de Jesus: enfrentar as circunstâncias com fé, humildade e
coragem. O império romano obrigava seus condenados à morte a caminhar com a trave de suas cruzes nas costas até o local da
execução. Os discípulos já haviam visto milhares de judeus serem crucificados, por isso essa ilustração (metáfora) de Jesus foi tão
significativa. O crente, salvo por Cristo, deve carregar consigo a mesma cruz: renunciar a si mesmo, para servir com total dedicação
ao Senhor Jesus, como mortos para as demandas do sistema mundial e do nosso “eu” (Gl 2.20). Por isso, quem busca frenetica-
mente se dar bem nesta vida, acabará perdendo as bênçãos inerentes à condição dos salvos, agora e eternamente (2Co 5.17). Em
10.42, Jesus conclui esse trecho bíblico fazendo menção notável de recompensa a todos aqueles que ajudam e cooperam com os
servos do Senhor no estabelecimento da nova ordem: o Reino de Deus (1Co 15.58; Gl 6.9; Mt 25.35-36).

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23 MATEUS 10, 11

Mas quem perde a vida por minha causa começou Jesus a falar às multidões a res-
a achará. peito de João: O que fostes ver no deser-
40 Quem vos recebe, a mim mesmo rece- to? Um caniço agitado pelo vento?
be; e quem recebe a minha pessoa, recebe 8 E então? O que fostes ver no deserto?
aquele que me enviou. Um homem vestido com roupas finas?
41 Quem recebe um profeta por reconhe- De fato, os que usam roupas finas estão
cê-lo como profeta, receberá a recom- nos palácios reais.
pensa de profeta; e quem recebe um justo 9 Mas, afinal, o que fostes ver? Um pro-
por suas qualidades de justiça, receberá a feta? Sim, Eu vos afirmo. E mais do que
recompensa de justo. um profeta!
42 E quem der, mesmo que seja apenas 10 Este é aquele a respeito de quem está
um copo de água fria a um destes peque- escrito: “Eis que Eu enviarei o meu men-
ninos, por ser este meu discípulo, com sageiro à frente da tua face, o qual prepa-
toda a certeza vos afirmo que de modo rará o teu caminho diante de Ti”.1
algum perderá a sua recompensa”. 11 Com toda a certeza vos afirmo: Entre
os nascidos de mulher não se levantou
João. O arauto de Jesus ninguém maior do que João, o Batista;

11 Havendo, pois, terminado de ins-


truir seus doze discípulos, partiu
Jesus dali para ensinar e pregar nas cida-
entretanto, o menor no Reino dos céus é
maior do que ele.
12 Desde os dias de João Batista até agora,
des da Galiléia. o Reino dos céus é tomado à força, e os
2 Assim que, no cárcere, João ouviu falar que usam de violência se apoderam dele.
sobre o que Cristo estava realizando, 13 Porque todos os Profetas e a Lei profe-
enviou dois dos seus discípulos para lhe tizaram até João.
perguntarem: 14 E, se desejarem aceitar, este é o Elias
3 “És tu Aquele que haveria de vir ou que havia de vir.
devemos aguardar outro?” 15 Aquele que tem ouvidos para ouvir, que
4 Jesus, respondendo, disse-lhes: “Ide e con- ouça!
tai a João o que estais ouvindo e vendo: 16 Mas, a quem hei de comparar esta ge-
5 Os cegos enxergam, os mancos cami- ração? São como crianças que, sentadas
nham, os leprosos são purificados, os nas praças do mercado, ficam gritando
surdos ouvem, os mortos são ressuscita- uma às outras:
dos, e as Boas Novas estão sendo prega- 17 ‘Nós vos tocamos músicas de casa-
das aos pobres. mento, mas vós não dançastes; entoamos
6 E, abençoado é aquele que não se es- lamentos fúnebres e não pranteastes!’
candaliza por minha causa”. 18 Assim, veio João, que jejua e não bebe
7 Enquanto saíam os discípulos de João, vinho, e dizem: ‘Este tem demônio’.

1 João Batista foi o último dos profetas do AT e o precursor de Cristo. O mensageiro do Rei (arauto) que veio anunciar a che-
gada do Filho de Deus à terra (Ml 3.1; 4.5-6). João estava preso em Maqueros, uma fortaleza inóspita, nas proximidades do mar
Morto (14.3-12; Lc 7.18-35) e desejava confirmar se Jesus era mesmo o Messias profetizado no AT. Jesus manda sua resposta
de maneira inequívoca, assim João poderia descansar e se alegrar no Senhor, pois sua missão estava cumprida: “os cegos
enxergam” e os demais milagres profetizados por Isaías (730 a.C.) sobre as obras que o Messias realizaria quando chegasse (Is
35.5; 61.1). Quem saiu para ver algo tão comum e simples como um pé de cana balançando ao vento, viu e ouviu o maior dos
profetas do AT, parente e amigo amado do Senhor (Lc 1.36; Jo 3.29). Entretanto, aqueles que têm o privilégio de ouvir o Filho de
Deus foram contemplados com bênção ainda maior que João (Ef 5.25-32). Jesus ainda registra o comportamento infantil dos
seres humanos em relação à vinda dos profetas de Deus - são como crianças: se ouvem uma música alegre, tocada com flautas,
nos casamentos (da época), não ficam contentes. Se ouvem uma melodia mais triste, como as executadas nos enterros, não se
emocionam. Ou seja, para muitos, infelizmente, não há como comunicar o Evangelho de modo a que este seja bem compreendi-
do. Por isso, muito felizes (bem-aventurados) são os que ouvem e aceitam a Palavra de Deus. A KJ de 1611 traz a expressão: “a
sabedoria é justificada por seus filhos” e significa que os frutos (obras) do ensino de João e Jesus são visíveis, palpáveis, práticos
e têm a ver com uma nova e abençoada maneira de viver.

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MATEUS 11, 12 24

19 Então chega o Filho do homem, comen- dos céus e da terra, pois escondeste estas
do e bebendo, e dizem: ‘Eis aí um glutão e coisas dos sábios e cultos, e as revelaste
bebedor de vinho, amigo de publicanos e aos pequeninos.
pecadores!’ Todavia, a sabedoria é compro- 26 Amém, ó Pai, pois assim foi do teu
vada pelas obras que são seus frutos”. agrado!
27 Todas as coisas me foram entregues
Ai dos povos incrédulos por meu Pai. Ninguém conhece o Filho
20 Então, começou Jesus a admoestar se- senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a
veramente as cidades nas quais realizara não ser o Filho, e aquele a quem o Filho
numerosos feitos prodigiosos, porque o desejar revelar.
não se arrependeram: 28 Vinde a mim todos os que estais cansa-
21 “Ai de ti Corazim! Ai de ti Betsaida! dos de carregar suas pesadas cargas, e Eu
Porque se os milagres que entre vós vos darei descanso.
foram realizados tivessem sido feitos em 29 Tomai vosso lugar em minha canga
Tiro e Sidom, há muito que elas se teriam e aprendei de mim, porque sou amável
arrependido, vestindo roupas de saco e e humilde de coração, e assim achareis
cobrindo-se de cinzas. descanso para as vossas almas.
22 Entretanto, Eu vos afirmo que no dia 30 Pois meu jugo é bom e minha carga
do juízo haverá menos rigor para Tiro e é leve”.2
Sidom, do que para vós outros.
23 E tu, Cafarnaum, te arrogas subir até os O Senhor do sábado
céus? Pois serás lançada no inferno. Por-
que se as maravilhas que foram realizadas
em ti houvessem sido feitas em Sodoma,
12 Naquela época, Jesus passou pe-
las lavouras de cereal, em dia de
sábado. Seus discípulos estavam com
teria ela permanecido até o dia de hoje. fome e começaram a colher espigas e
24 Eu, contudo, vos afirmo que haverá comê-las.
mais tolerância para com o povo de So- 2 Assim que os fariseus viram aquilo,
doma no dia do julgamento, do que para disseram-lhe: “Vê! Teus discípulos estão
contigo”. fazendo o que não é lícito em dia de
sábado!”
Vinde a Cristo, os cansados 3 Mas Jesus lhes respondeu: “Não lestes
25 Naquela ocasião, em resposta, Jesus o que fez Davi quando ele e seus compa-
proclamou: “Graças te dou, ó Pai, Senhor nheiros estavam com fome?

2 Corazim, mencionada apenas duas vezes nas Escrituras (aqui e em Lc 10.13) distava cerca de quatro quilômetros ao norte de
Cafarnaum. Betsaida ficava na extremidade ao norte do mar da Galiléia. Tiro e Sidom eram cidades pagãs da Fenícia. Jesus con-
clui esse trecho bíblico com uma “resposta” emocionada às graves circunstâncias descritas anteriormente. A expressão: “Graças
te dou” (em grego exomologoumai), significa: “reconheço”. A expressão: “Amém” (em hebraico transliterado amen) vem de uma
raiz que significa “digno de fé” ou “verdade” (Is 65.16), por isso a palavra grega é mera transliteração do hebraico, usada por
algumas versões na forma poética: “em verdade, em verdade”. No AT era, também, uma expressão de concordância (assim seja)
com uma doxologia ou bênção (1Cr 16.36; Sl 41.13). Jesus fez uso dessa expressão com autoridade messiânica, algo incomum
aos rabinos e mestres de sua época (2Co 1.20). Em certo sentido, Jesus pode ser chamado de “o Amém de Deus” (Is 65.16; Ap
3.14). Muitas sinagogas usaram essa expressão, que passou para as primeiras igrejas cristãs (1Co 14.16).
Nos versos 28 a 30 Jesus faz menção às Escrituras (Jr 6.16) e usa mais uma notável ilustração para mostrar como o cristão
pode encontrar descanso para as suas aflições: Jesus aponta para a canga dos bois. Uma trave de madeira robusta, quase
sempre ocupada por dois animais, colocados lado a lado, presos pelo pescoço e ligados ao arado ou carro que deveriam puxar.
Jesus considerou sua cruz (canga), útil e boa (no original grego chrestos). Algumas versões usam a palavra: “suave”. Jesus
considerou seu “fardo” leve, não pesado ou difícil de transportar até seu destino. Para alcançar o pleno descanso devemos
ocupar nosso lugar ao lado de Jesus e partilhar da sua canga; que não era um instrumento de tormento para os animais, mas
um meio útil e cômodo de levar mais carga com menos esforço, evitando os sofrimentos das antigas cordas amarradas pelo
corpo. Jesus quer partilhar sua força conosco. Além disso, bondade, paciência, mansidão, humildade são qualidades que nos
possibilitam trabalhar e descansar com fé no amor e na soberania do Senhor. Uma pessoa assim será querida e amável, e isso a
ajudará a vencer muitos problemas e descansar diariamente em paz.

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25 MATEUS 12

4 Como entrou na casa de Deus, e come- “Estende a tua mão”. Ele a estendeu e ela
ram os pães da Presença, os quais a lei foi restaurada, ficando sã como a outra.
não lhes permitia comer, nem a ele nem 14 Diante disso, saíram os fariseus e co-
aos que com ele estavam, mas exclusiva- meçaram a conspirar sobre como pode-
mente aos sacerdotes?1 riam matar Jesus.
5 Ou não lestes na Lei que, aos sábados,
os sacerdotes no templo violam o sábado Eis meu Servo amado!
e, contudo, são desculpados? 15 Mas, Jesus, sabendo disto, afastou-se
6 Pois Eu vos afirmo que aqui está quem daquele lugar. Uma multidão o seguiu e
é maior do que o templo. a todos Ele curou.
7 Entretanto, se vós soubésseis o que 16 Contudo, os advertiu para que não
significam estas palavras: ‘Misericórdia divulgassem suas obras.
quero, e não holocaustos’, não teríeis 17 Ao acontecer isso, cumpriu-se o que
condenado os que não têm culpa. fora dito pelo profeta Isaías:
8 Pois o Filho do homem é o Senhor do 18 “Eis o meu Servo, que escolhi, o meu
sábado!”. amado, em quem tenho alegria. Farei
repousar sobre Ele o meu Espírito, e Ele
Jesus cura no sábado anunciará justiça às nações.
9 Tendo Jesus saído daquele lugar, foi 19 Não contenderá nem gritará; nem se
para a sinagoga deles. ouvirá nas ruas a sua voz.
10 Encontrava-se ali um homem que 20 Não esmagará a cana rachada, nem
tinha uma das mãos atrofiada. Mas, pro- apagará o pavio que fumega, até que faça
curando um motivo para acusar Jesus, vencer a justiça.
eles o questionaram: “É lícito curar no 21 E em seu Nome os gentios colocarão
sábado?” sua esperança”.
11 Ao que Jesus lhes propôs: “Qual de vós
será o homem que, tendo uma ovelha, e, O pecado imperdoável
num sábado, esta cair em um buraco, não 22 Depois disso, aconteceu que lhe trouxe-
fará todo o esforço para retirá-la de lá? ram um endemoninhado, cego e mudo; Ele
12 Assim sendo, quanto mais vale uma o curou, de modo que pôde falar e ver.
pessoa do que uma ovelha! Por isso, é 23 Então, toda a multidão ficou atônita
lícito fazer o bem no sábado”. e exclamava: “É este, porventura, o Filho
13 Então, dirigiu-se ao homem e disse: de Davi?”

1 O sábado (em hebraico shabbãth) é estabelecido nas Escrituras como princípio: um em cada sete dias deveria ser separado
(santificado) para o descanso. A raiz hebraica da palavra “sábado” é shãbhath, que significa “cessar”. Na Criação, o próprio
Deus legou à humanidade o exemplo da santificação do sábado (Gn 2.2; Êx 20.8-11). Em Êx 16.21-30 há uma menção explícita
sobre o sábado em relação à provisão do maná. O sábado (dia do descanso em homenagem ao Criador) nesse contexto, é
representado como um dom de Deus, visando o repouso e o benefício do povo. Não era necessário trabalhar no sábado (juntar
o maná), pois dupla porção era provida no sexto dia da semana. Os fariseus, no entanto, haviam acrescentado à Lei e ao sábado
uma série imensa de minuciosas regras e observâncias não prescritas por Moisés. Ao entrar pelos campos de trigo, Jesus e seus
discípulos estavam usufruindo um direito concedido pela Lei a todo viajante: comer para satisfazer a fome, sem levar nada (Dt
23.25), mas os fariseus implicaram com o ato de debulhar no sábado (Lc 6.1). Jesus então faz referência a 1Sm 21.1-6, lembrando
que em caso de necessidade, alguns detalhes da lei cerimonial podiam ser suprimidos. Os pães da Presença ou Proposição,
como em algumas versões, referem-se à presença do próprio Deus (Êx 33.14,15; Is 63.9). Os doze pães (cada um simbolizando
uma tribo) representavam uma oferta perpétua, de pão, ao Senhor, mediante a qual Israel declarava consagrar a Deus os frutos
do seu trabalho que, por sua vez, era uma bênção do Senhor (Lv 24.5,9). Esses pães eram colocados na mesa do lugar santo
do tabernáculo, todos os sábados, e depois da cerimônia podiam ser comidos pelo sacerdote e sua família. Ocorre que os
sacerdotes preparavam os pães e os sacrifícios no sábado, mesmo sob a proibição geral do trabalho nesse dia. Jesus então
argumenta que se as necessidades do culto no templo permitiam que o sacerdote profanasse o sábado, com muito mais razão a
missão de Cristo (o Messias) merece a mesma liberdade. Jesus ensina que a ética é mais importante que o ritual, e o espírito da
Lei maior que as letras e os mandamentos. Jesus declara que Ele é Deus, ao afirmar que é Senhor do sábado (Jo 5.17) e enfatiza
que o sábado foi dado à humanidade para o seu bem e não como uma obrigação prejudicial.

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MATEUS 12 26

24 Mas os fariseus, ao ouvirem isso, mur- 32 Qualquer pessoa que disser uma pa-
muraram: “Este homem não expulsa lavra contra o Filho do homem, isso lhe
demônios senão pelo poder de Belzebu, o será perdoado; porém, se alguém falar
príncipe dos demônios”. contra o Espírito Santo, não lhe será
25 Entretanto, Jesus compreendia os pen- isso perdoado, nem nesta época, nem no
samentos deles, e lhes afirmou: “Todo tempo futuro.
reino dividido contra si mesmo será 33 Ou fazei a árvore boa e o seu fruto
arruinado, e toda cidade ou casa dividida bom, ou a árvore má e o seu fruto mau;
contra si mesma não resistirá. pois uma árvore é conhecida pelo seu
26 Se Satanás expulsa Satanás, está divi- fruto.
dido contra ele próprio. Como poderá 34 Raça de víboras! Como podeis falar
então subsistir o seu reino? coisas boas, sendo maus? Pois a boca
27 E se Eu expulso demônios por Belze- fala do que está cheio o coração.
bu, por quem os expulsam vossos filhos? 35 Uma boa pessoa tira do seu bom te-
E, por isso, eles mesmos serão os vossos souro coisas boas; mas a pessoa má, tira
juízes. do seu tesouro mau, coisas más.
28 Mas, se é pelo Espírito de Deus que 36 Por isso, vos afirmo que de toda a pa-
Eu expulso demônios, então, verdadei- lavra fútil que as pessoas disserem, dela
ramente, é chegado o Reino de Deus deverão prestar conta no Dia do Juízo.
sobre vós! 37 Porque pelas tuas palavras serás ab-
29 Ou ainda, como pode alguém entrar solvido e pelas tuas palavras serás con-
na casa do homem forte e roubar-lhe denado”.2
todos os bens sem primeiro amarrá-lo?
Só depois disso será possível saquear a O sinal da ressurreição
sua casa. 38 Então alguns dos mestres da lei e fari-
30 Quem não está comigo, está contra seus lhe pediram: “Mestre, queremos ver
mim; e aquele que comigo não colhe, de tua parte algum milagre”.
espalha. 39 Ao que Jesus respondeu: “Uma gera-
31 Portanto, Eu vos assevero: Todos os ção perversa e adúltera pede um sinal
pecados e blasfêmias serão perdoados miraculoso! Todavia, nenhum sinal lhe
às pessoas; a blasfêmia contra o Espírito será dado, exceto o sinal miraculoso do
Santo não será, porém, perdoada! profeta Jonas.3

2 Filho de Davi era um título exclusivo do Messias (Mc 3.22-30; Lc 11.14-22). A vinda e a vida de Jesus eram o evidente cumpri-
mento das profecias, especialmente de Isaías 42.1-4. Deus, assumindo a forma humana em Jesus, tratou os seres humanos com
misericórdia e delicadeza: como caniços (varas de pesca) que podem ser quebrados ou esmagados com facilidade; ou ainda
como pequenas chamas que podem ser apagadas com um simples movimento. Jesus percebeu, compreendeu (no original gre-
go eidôs) o que de fato os fariseus estavam tramando. Os judeus já praticavam o exorcismo (At 19.13-16) e Jesus os questionou
sob qual autoridade exerciam essa prática. Jesus já havia vencido Satanás em seus quarenta dias no deserto (4.1-11) e agora
estava invadindo o reino do Maligno (1Jo 3.8), para tirar das trevas as almas de todos aqueles que nele cressem, e para destruir a
“casa do homem forte” (Is 49.24-26; Lc 11.21). Por isso não pode haver neutralidade no Reino de Deus: quem não serve a Cristo
está servindo ao Diabo que é o diretor-geral do sistema (econômico, político, social e religioso) deste mundo. O único pecado
sem perdão é a rejeição consciente e sistemática da salvação graciosa em Cristo e a alegação de que Jesus e o Diabo são a
mesma pessoa ou as duas faces da verdade (o bem e o mal), como pensam algumas correntes filosóficas (Hb 6.4-6; 10.26-31).
Jesus acrescenta que o caráter de uma pessoa será sempre revelado por meio de suas palavras (Tg 3.2) e que essas palavras
pesam na balança da terra e do céu (Pv 18.21). Há três palavras gregas para designar milagres: 1) teras – algo portentoso; 2) du-
namis – poder maravilhoso; 3) semeion – uma prova ou sinal sobrenatural. No passado, muitos líderes de Israel haviam concedido
ao povo provas de sua missão por parte de Deus. Assim, para autenticar a obra de Moisés, o Senhor enviou o maná; para Josué,
o Senhor fez parar o Sol e a Lua; para Samuel, enviou o Senhor, trovões, de um céu claro e limpo, sem tempestades; para Elias,
mandou Deus, fogo do céu; para Isaías, fez recuar a sombra do relógio (da época) do Sol. Mas, para confirmar a obra de Jesus
Cristo, o Messias, seria realizado o maior milagre de todos: Deus ressuscitaria a Seu Filho Jesus da sepultura e esse seria um sinal
ainda maior do que aquele realizado para a conversão de toda a antiga cidade de Nínive (39-41).
3 O AT usa freqüentemente a metáfora: “adúltera” para significar “infiel a Deus”. Os três dias e três noites de Jonas e de Jesus

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27 MATEUS 12, 13

40 Portanto, assim como esteve Jonas A mãe e os irmãos de Jesus


três dias e três noites no ventre de um 46 Enquanto, Jesus estava pregando à
grande peixe, assim o Filho do homem grande multidão, do lado de fora, sua
estará três dias e três noites no coração mãe e seus irmãos procuravam falar
da terra. com Ele.
41 O povo de Nínive se levantará no Dia 47 Então alguém o avisou: “Tua mãe e
do Juízo com esta geração, e a condenará; teus irmãos estão lá fora e desejam fa-
pois eles se arrependeram com a prega- lar-te”.
ção de Jonas. E eis que aqui está quem é 48 Jesus, entretanto, respondeu ao que lhe
maior do que Jonas. trouxera a informação: “Quem é minha
42 A rainha do Sul se levantará no Juízo mãe e quem são os meus irmãos?”4
com esta geração e a condenará, pois ela 49 E, estendendo a mão na direção dos
veio dos confins da terra para conhecer discípulos, afirmou: “Eis minha mãe e
os sábios ensinamentos de Salomão. E meus irmãos.
eis que aqui está quem é maior do que 50 Pois todo aquele que faz a vontade de
Salomão. meu Pai que está nos céus, este é meu
43 Quando um espírito imundo sai de irmão, minha irmã e minha mãe”.
uma pessoa, passa por lugares áridos
procurando descanso, mas não encontra A parábola do semeador
onde repousar. (Mc 4.1-20; Lc 8.1-15)
44 Então diz: ‘Voltarei para a minha casa
de onde saí’. E, retornando, encontra a
casa desocupada, varrida e arrumada.
13 Naquele mesmo dia Jesus saiu de
casa e foi assentar-se à beira-mar.
2 Uma grande multidão reuniu-se ao seu
45 Diante disso, vai e leva consigo outros redor e, por esse motivo, entrou num
sete espíritos, piores do que ele, e, en- barco e assentou-se. E todo o povo esta-
trando, passam a morar ali. E o estado va em pé na praia.
final daquela pessoa torna-se pior que o 3 Jesus ensinou-lhes então muitas coisas
primeiro. Assim também ocorrerá com por meio de parábolas, como esta: “Eis
esta geração má!”. que um semeador saiu a semear.1

(Jn 1.17) referem-se ao período que vai da sexta-feira à tarde até o domingo de manhã. A expressão hebraica traduzida por
algumas versões como “baleia”, significa no original: “grande monstro marinho”. A rainha do Sul (também chamada de rainha do
meio-dia) é a mesma rainha de Sabá (1Rs 10) cujo reino ficava a sudoeste da Arábia, onde é hoje o Iêmen. Jesus recorre à história
de Israel para fazer referência ao processo de purificação da idolatria, entre os judeus, durante o cativeiro babilônico, mas cujo
estado atual – de incredulidade e dureza de coração – era muito pior que antes do exílio (Lc 11.24-26).
4 Jesus tinha quatro irmãos (mencionados os seus nomes em Mc 6.3) e mais um número de irmãs não especificado nas
Escrituras. Alguns teólogos defendem a idéia de que esses seriam primos de Jesus, filhos de Alfeu com a irmã da mãe de Jesus
que também se chamava Maria. Mas, Jo 7.5 e At 1.14 os distinguem claramente dos filhos de Alfeu. Jesus aproveita o que seria
uma interrupção do seu discurso para ilustrar a verdadeira fraternidade: uma nova família espiritual à qual todos os cristãos
pertencem e a quem devem amar como à própria mãe e aos irmãos. Em nenhum momento Jesus tem a intenção de divinizar sua
mãe, muito menos de tratá-la sem o devido carinho e respeito.
Capítulo 13
1 Jesus saiu da casa de Simão e André, em Cafarnaum (8.14), e dirigiu-se às margens do “mar da Galiléia”, chamado também de
“o grande lago”. Os hebreus não tinham apreço pelo mar, pois as antigas crenças semíticas diziam que a profundidade (abismo)
personificava o poder do mal que combatia contra Deus. Para Israel, entretanto, Deus era o criador do mar e seu controlador,
fazendo que o mar coopere para o bem da humanidade (Gn 1.9; Gn 49.25; Êx 14,15; Dt 33.13; Sl 104.7-9; Sl 148.7; Mt 14.25-33;
At 4.24). O triunfo final de Deus será acompanhado pelo desaparecimento total do mar (Ap 21.1). A expressão “parábola” vem
do original grego paraboles, que significa, colocar coisas semelhantes, lado a lado, para estabelecer comparação, estudo e tirar
um ensinamento. Em nossa língua, a parábola é uma figura de linguagem em que uma verdade moral ou espiritual é ilustrada
por uma analogia derivada da experiência cotidiana. Com essa parábola, conhecida como “do semeador” Jesus inicia o primeiro
grupo de histórias didáticas sobre o Reino de Deus, registradas em Mateus. Os evangelhos sinóticos contêm cerca de trinta
parábolas. O evangelho segundo João não apresenta parábolas, mas emprega outras figuras de linguagem.

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MATEUS 13 28

4 Enquanto realizava a semeadura, parte olhos; para evitar que enxerguem com os
dela caiu à beira do caminho e, vindo as olhos, ouçam com os ouvidos, compre-
aves, a devoraram. endam com o coração, convertam-se, e
5 Outra parte caiu em terreno rochoso, sejam por mim curados’.
onde havia uma fina camada de terra, 16 Mas abençoados são os vossos olhos,
e logo brotou, pois o solo não era pro- porque enxergam; e os vossos ouvidos,
fundo. porque ouvem.
6 Porém, quando veio o sol, as plantas 17 Pois com certeza vos afirmo que mui-
se queimaram; e por não terem raiz, tos profetas e justos desejaram ver o que
secaram. vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e
7 Outra parte caiu entre os espinhos. Es- não ouviram.
tes, ao crescer, sufocaram as plantas.
8 Contudo, uma parte caiu em boa terra, Jesus explica essa parábola
produzindo generosa colheita, a cem, 18 Portanto, atentaipara o que significa a
sessenta e trinta por um. parábola do semeador:
9 Aquele que tem ouvidos para ouvir, 19 Quando uma pessoa escuta a mensa-
que ouça!”. gem do Reino, mas não a compreende,
vem o Maligno e arranca o que foi
O propósito das parábolas semeado em seu coração. Estas são as
10 Então, os discípulos se aproximaram sementes que foram semeadas à beira
dele e perguntaram: “Por que lhes falas do caminho.
por meio de parábolas?” 20 O que foi semeado em terreno rocho-
11 Ao que Ele respondeu: “Porque a vós so, esse é o que ouve a Palavra e logo a
outros foi dado o conhecimento dos aceita com alegria.
mistérios do Reino dos céus, mas a eles 21 Contudo, visto que não tem raiz em
isso não lhes foi concedido.2 si mesmo, resiste por pouco tempo. E,
12 Pois a quem tem, mais se lhe dará, e quando por causa da Palavra chegam os
terá em abundância; mas, ao que quase problemas e as perseguições, logo perde
não tem, até o que tem lhe será tirado. o ânimo.
13 Por isso lhes falo por meio de pará- 22 Quanto ao que foi semeado entre os
bolas; porque, vendo, não enxergam; e espinhos, este é aquele que ouve a Pala-
escutando, não ouvem, muito menos vra, mas as preocupações desta vida e a
compreendem. sedução das riquezas sufocam a mensa-
14 Neles se cumpre a profecia de Isaías: gem, tornando-a infrutífera.
‘Ainda que continuamente estejais ouvin- 23 Mas, enfim, o que foi semeado em
do, jamais entendereis; mesmo que sem- boa terra é aquele que ouve a Palavra e
pre estejais vendo, nunca percebereis. a entende; este frutifica e produz grande
15 Posto que o coração deste povo está colheita: alguns, cem; outros, sessenta; e
petrificado; de má vontade escutaram ainda outros trinta vezes mais do que foi
com seus ouvidos, e fecharam os seus semeado”.

2 A expressão original grega, aqui traduzida por “mistérios”, refere-se a revelações especiais a que somente os devotos (cren-
tes, consagrados) a Jesus Cristo têm acesso. O v.12 anuncia um princípio básico do mundo espiritual: quem aceita a Palavra de
Deus, com humildade e reverência, receberá muitas outras bênçãos do Senhor, mas aos arrogantes e incrédulos, até a parcela
de fé e bênçãos que lhes foi concedida será retirada. Veja os exemplos do “filho pródigo” (Lc 15.17-24) e o que aconteceu com
o Faraó do Egito depois de ter feito pouco caso do aviso de Moisés (Êx 8.1-32; 9.1-12). As coisas de Deus não fazem sentido
para aqueles dotados apenas de crítica racional. Precisam ser iluminados em sua compreensão espiritual e isso é dom de Deus
(Rm 5.15,16; 1Co 2.14-16; Ef 2.8). Os versos 14 e 15 são copiados, palavra por palavra, da Septuaginta (Is 6.9,10), que descreve
o chamado do profeta Isaías, a mensagem que deveria pregar e o estado de calamidade espiritual do povo. Como no tempo de
Isaías, assim também na época de Cristo, os judeus fecharam os olhos à verdade (Mc 4.12). Jesus e Sua Igreja são as últimas
grandes luzes a brilhar neste mundo para todo aquele que quiser abrir os olhos (Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12).

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29 MATEUS 13

O trigo e o joio safra, e, no tempo da colheita, direi aos


24 Jesus lhes contou outra parábola: “O ceifeiros: ‘Primeiro ajuntai o joio e amar-
Reino dos céus é semelhante a um ho- rai-o em feixes para ser queimado; mas o
mem que semeou boa semente em seu trigo, recolhei-o no meu celeiro’”.
campo.
25 Entretanto, quando todos dormiam, O grão de mostarda
chegou o inimigo dele, lançou o joio 31 Outra parábola ainda lhes propôs Je-
no meio do trigo, e seguiu o seu ca- sus, dizendo: “O Reino dos céus é como
minho.3 um grão de mostarda, que um homem
26 Assim, quando o trigo brotou e for- tomou e plantou em seu campo.
mou espigas, o joio também apareceu. 32 Embora seja a menor dentre todas as
27 Os servos do dono da plantação fo- sementes, quando cresce chega a ser a
ram até ele e perguntaram: ‘Senhor, não maior das plantas, e se torna uma árvore,
semeaste boa semente no teu campo? de maneira que as aves do céu vêm ani-
Então, de onde vem o joio?’. nhar-se em seus ramos”.
28 Ele, porém, lhes respondeu: ‘Um
inimigo fez isso’. Então os servos lhe O fermento
propuseram:‘Senhor, queres que vamos 33 E contou-lhes mais outra parábola: “O
e arranquemos o joio?’ Reino dos céus é semelhante ao fermento
29 Ao que o senhor respondeu: ‘Não, pois que uma mulher pegou e misturou em
ao tirar o joio, podereis arrancar junta- três medidas de farinha, até que toda a
mente com ele o trigo. massa ficou levedada”.
30 Deixai-os, pois, crescer juntos até à 34 Todas essas coisas falou Jesus à mul-

3 O propósito desta parábola é revelar o método por meio do qual Deus está agindo no mundo durante a era (tempo) do
Evangelho (das Boas Novas de Cristo). Jesus raramente interpretava suas histórias enigmáticas (parábolas). Isso porque sabia
que todas as pessoas que verdadeiramente amavam a Deus entenderiam sua mensagem. Mas, para que nada faltasse aos
discípulos, ele explica algumas delas (18-23; 36-43). O joio é uma erva daninha, também chamada de cizânia ou centeio falso,
que enquanto está crescendo é muito semelhante ao trigo. Apenas quando as espigas se formam é que é possível fazer uma
distinção correta. A farinha de trigo feita com a mistura desse centeio falso é venenosa. A semente de mostarda era a menor
semente que os agricultores da Palestina, na época de Cristo, costumavam semear. Em condições favoráveis, essas “plantas” (no
original grego lachanôn) podiam alcançar cerca de três metros de altura. Jesus aproveita essa ilustração da árvore para lembrar
as Escrituras (Ez 17.23, 31.5; Sl 104.12; Dn 4.12,21). Em Ez 17, por exemplo, a “árvore” é o “Novo Israel”, mas em Ez 41 e Dn 4,
a árvore representa os impérios dos gentios: Assíria e Babilônia (região onde hoje se situa o Iraque). Dessa maneira, a parábola
antecipa o desenvolvimento da Igreja de Cristo. Entretanto, as aves (v.19), como figura do Maligno, completam o quadro da Igreja
visível (na terra) em sua apostasia (tempo de frieza espiritual da Igreja) e revelam aos discípulos que o Reino de Deus, tendo um
início tão humilde quanto a menor das sementes, se expandiria até atingir domínio mundial, envolvendo pessoas de todas as
nações (Dn 2.35-45; 7.27; Ap 11.15). Nas Escrituras, o fermento quase sempre é um símbolo de algo perverso ou impuro. Nesta
parábola, entretanto, significa: crescimento, progresso. A expressão “uma medida” vem do hebraico seah (no original grego: sata)
e corresponde a cerca de seis litros. Ou seja, assim como o bom fermento se alastra pela massa, dessa mesma maneira, o Reino
de Deus envolve a alma da pessoa que recebe o Espírito Santo, e vai moldando seu caráter à imagem de Cristo (2Co 4.1-15). No
v.35, a citação bíblica vem do Sl 78.2-3, sendo que a primeira parte é tirada da Septuaginta (tradução grega do AT) e a segunda
parte, do hebraico. Mateus interpreta esse texto como mais uma profecia sobre Jesus Cristo. A palavra “filhos” neste contexto
e no original significa: “aqueles que pertencem”. No v.41 há uma alusão ao texto hebraico de Sf 1.3, sendo que a palavra grega
anomian, traduzida algumas vezes por “iniqüidade”, e aqui por “mal”, também significa: “ilegalidade”. A expressão “consumação
do século” como aparece em algumas versões, aqui traduzida por “final desta era”, como base a tradução dos melhores origi-
nais; nos quais, a palavra grega, éon, significa mais propriamente: um período de tempo marcante na história da humanidade,
ou seja, uma era. Literalmente: “finalização do éon” ou do período que vai do nascimento de Cristo à sua volta triunfante (Mt
24; 25; Mc 13). A expressão: “fornalha ardente”, mencionada muitas vezes nos textos apocalípticos (Ap 19.20; 20.14), ocorre
mais cinco vezes em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e em nenhuma outra parte do NT. Não compete à Igreja de Jesus
Cristo arrogar-se o direito de julgar e condenar pessoas antes do Dia do Juízo (a grande colheita). Essa parábola não se aplica
às questões da disciplina comunitária que é tratada em Mt 18; mas, sim, da necessária e inevitável convivência que deve haver
entre cristãos e descrentes enquanto estivermos neste mundo, até a segunda vinda do Senhor (1Co 4.5; 2Co 10.4). Não devemos
nos preocupar em destruir o joio, mas em levar a todos a Palavra da graça salvadora de Jesus Cristo e assim brilharemos por
toda a eternidade (Dn 12.3).

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MATEUS 13 30

tidão por meio de parábolas e nada lhes A pérola de grande valor


dizia sem usar palavras enigmáticas. 45 Da mesma forma, o Reino dos céus é
35 E assim cumpriu-se o que fora dito por como um negociante que procura péro-
meio do profeta: “Abrirei em parábolas a las preciosas.
minha boca; proclamarei coisas ocultas 46 E, assim que encontrou uma pérola va-
desde a fundação do mundo”. liosíssima, foi, vendeu tudo o que tinha e
a comprou.
Jesus explica a parábola do joio
36 Então, Jesus se despediu da multidão e Os bons e os maus peixes
foi para casa. Seus discípulos aproxima- 47 O Reino dos céus é ainda semelhante
ram-se dele e pediram: “Explica-nos a a uma rede que, lançada ao mar, recolhe
parábola do joio na plantação”. peixes de toda espécie.
37 E Jesus explicou: “Aquele que semeou a 48 E, quando está repleta, os pescadores
boa semente é o Filho do homem. a puxam para a praia. Então se assentam
38 O campo é o mundo, e a boa semente e juntam os bons em cestos, mas jogam
são os filhos do Reino. O joio representa fora os ruins.
os que pertencem ao Maligno. 49 Assim também ocorrerá no final desta
39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. era. Chegarão os anjos e irão separar os
A colheita é o final desta era, e os ceifeiros maus dentre os justos.
são os anjos. 50 E lançarão os maus na fornalha arden-
40 Da mesma maneira que o joio é colhi- te; e ali haverá grande lamento e ranger
do e jogado ao fogo, assim será no fim de dentes”.
desta era.
41 O Filho do homem mandará os seus O mestre é um pai de família
anjos, e eles ceifarão do seu Reino tudo 51 Então lhes perguntou Jesus: “Enten-
o que causa tropeço e todos os que pra- destes todas estas parábolas?” Ao que eles
ticam o mal. responderam: “Sim, Senhor”.
42 Eles os lançarão na fornalha ardente e 52 E Jesus lhes disse: “Portanto, todo
ali haverá pranto e ranger de dentes. mestre da lei, bem esclarecido quanto ao
43 Então os justos reluzirão como o sol Reino dos céus, é semelhante a um pai
no Reino de seu Pai. Aquele que tem ou- de família que sabe tirar do seu tesouro
vidos para ouvir, que ouça! coisas novas e coisas velhas”.4

O tesouro escondido O profeta não é honrado pelos seus


44 O Reino dos céus assemelha-se a um 53 Havendo terminado de contar essas
tesouro escondido no campo. Certo ho- parábolas, retirou-se Jesus dali.
mem, tendo-o encontrado, escondeu-o 54 Chegando à sua cidade, começou
novamente. Então, transbordando de ale- a ensinar o povo na sinagoga, de tal
gria, vai, vende tudo o que tem, e compra maneira que as pessoas se admiravam,
aquele terreno. e exclamavam: “De onde lhe vem tanta

4 Depois que os judeus blasfemaram contra o Espírito Santo (12.24-30) e começaram a tramar seu assassinato (12.14), Jesus
passa a revelar aspectos mais profundos sobre o Reino de Deus, apenas aos seus discípulos, preparando-os para continuar
sua obra. O termo grego grammateus (escriba), significa “escrivão” ou “letrado”. Poucos sabiam ler e escrever naquela época e
lugar. Os escribas eram responsáveis por copiar e arquivar as leis e tradições judaicas, e assim se tornaram mestres, doutores e
advogados (Lc 5.21), pois não havia distinção entre a lei de Deus e a dos homens. A sinagoga era a principal instituição religiosa
judaica daqueles dias e podia ser estabelecida em qualquer cidade com mais de dez judeus casados. Teve origem no exílio e
servia de local onde os judeus podiam estudar as Escrituras e adorar a Deus. Jesus, como também Paulo (At 13.15; 14.1; 17.2;
18.4), aproveitou o costume judaico de convidar mestres visitantes para pregar nas sinagogas locais e lhes anunciou a chegada
do Reino de Deus: O Evangelho de Cristo. No original grego, a palavra aqui traduzida por “carpinteiro” é a mesma usada para
identificar o trabalho do “pedreiro”. Jesus, como filho mais velho da família, era o principal ajudante do pai nos trabalhos com
madeira e alvenaria, ofício que desempenhou para cooperar com o sustento da família, após a morte de José (Mc 6.3; Lc 8.19).

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31 MATEUS 13, 14

sabedoria e estes poderes para realizar do aniversário de Herodes, a filha de He-


milagres? rodias dançou diante de todos, e muito
55 Ora, não é este o filho do carpinteiro? agradou a Herodes.
O nome de sua mãe não é Maria, e o de 7 Por conta disso, ele lhe prometeu, sob
seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas? juramento, conceder qualquer pedido
56 Não vivem entre nós todas as suas que ela desejasse fazer.
irmãs? Portanto, de onde obteve todos 8 Foi então que ela, influenciada por sua
esses poderes?”. mãe, pediu: “Dá-me aqui, num prato, a
57 E ficavam escandalizados por causa cabeça de João Batista”.1
dele. Entretanto, Jesus lhes afirmou: 9 O rei ficou angustiado; contudo, por
“Não há profeta sem honra, a não ser em causa do juramento e da presença dos
sua própria terra, e em sua própria casa”. convidados, ordenou que lhe fosse dado
58 E Jesus não realizou ali muitos mila- o que ela pedira.
gres, por causa da falta de fé daquelas 10 Então mandou decapitar João na prisão.
pessoas.5 11 Sua cabeça foi levada num prato e en-
tregue à jovem, que a entregou à mãe.
João Batista é decapitado 12 Os discípulos de João vieram, levaram

14 Por aquele tempo Herodes, o


tetrarca, ouviu os relatos sobre os
feitos de Jesus.
seu corpo e o sepultaram. E foram contar
a Jesus o que havia acontecido.
2 E disse aos seus servos: “Este é João A multiplicação dos pães
Batista; ele ressuscitou dos mortos e, 13 Assim que Jesus ouviu essas coisas, re-
por isso, nele operam poderes para fazer tirou-se de barco, em particular, para um
milagres. lugar deserto. As multidões, entretanto,
3 Porque Herodes tinha mandado pren- ao saberem disso, saíram das cidades e o
der João, amarrar suas mãos e jogá-lo seguiram a pé.
na prisão. Isso por causa de Herodias, 14 Quando Jesus deixou o barco, viu
mulher de Filipe, seu irmão. numerosa multidão; sentiu-se movido
4 Pois João o havia advertido, dizendo: de grande compaixão pelo povo, e curou
“Não te é lícito esposá-la”. os seus doentes.
5 Herodes, portanto, queria matá-lo, mas 15 Ao final do dia, os discípulos se apro-
temia o povo, pois este o considerava ximaram de Jesus e disseram: “Este é um
profeta. lugar deserto, e já está entardecendo.
6 Mas, tendo chegado o dia da celebração Manda embora, pois, as multidões, para

5 Existe uma clara correlação entre a fé e a realização dos milagres de Jesus em Mateus (8.10,13; 9.2,22,28,29). A arrogância dos
teólogos e líderes religiosos e a presunção dos que pensavam conhecer a Jesus desde criança, fizeram com que eles perdessem a
maravilhosa oportunidade de receber as preciosas revelações e bênçãos do Messias, o Filho de Deus em pessoa: Jesus Cristo.
Capítulo 14
1 Herodes Antipas, que reinou de 4 a.C. a 39 a.D., era o tetrarca (em grego tetrarches), ou seja, “aquele que rege uma quarta
parte do império”, no caso, a quarta parte da Palestina, mais a Galiléia e a Peréia, que foi herança de seu pai Herodes, o
Grande (Mt 2.1,22), quando dividiu seu reino entre quatro de seus muitos filhos. Depois das maravilhosas viagens de Jesus pela
Galiléia, muito cresceu sua fama em todas as regiões vizinhas, originando muitas idéias sobre sua pessoa e missão (16.13-14).
A consciência pagã, supersticiosa, culpada e amedrontada de Herodes, o fez criar a teoria de que Jesus seria a encarnação do
espírito de João Batista que ele mandara decapitar (Mc 6.16). Herodias era ex-esposa do meio irmão de Herodes, Filipe, tio de
Herodias. Ela fora persuadida a abandonar o marido para casar-se com Herodes Antipas, cometendo assim, incesto (Lv 18.16;
20.21). João Batista falou francamente com o tetrarca e o chamou ao arrependimento; e Herodes sabia que João era homem de
Deus e estava certo em sua denúncia (Mc 6.20). Salomé, filha de Herodias, tinha cerca de 20 anos e dançou de forma lasciva
diante de muitas autoridades, agradando a todos, em especial a Herodes. O grande historiador judeu Flávio Josefo, que viveu
entre os séculos I e II, conta que Salomé veio a se casar com um tio-avô, também chamado Filipe (filho de Herodes, o Grande),
que reinou sobre as terras do norte (Lc 3.1). O prato (v.11), no qual a cabeça de João é apresentada, era uma peça de madeira
onde serviam as carnes nas festas. João permanecera por mais de um ano no cativeiro, devido à indecisão de Herodes, que além
de permitir a visita dos discípulos de João, também gostava de ouvir o profeta (11.2).

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MATEUS 14 32

que possam ir aos povoados comprar Jesus anda sobre o mar


comida”. 22 Imediatamente após, Jesus insistiu com
16 Jesus, porém, lhes respondeu: “O povo os discípulos para que entrassem no bar-
não precisa ir embora; dai-lhes vós mes- co e fossem adiante dele para o outro lado,
mos algo para comer”. enquanto Ele despedia as multidões.
17 Ao que eles replicaram: “Tudo o que 23 Assim que mandou o povo embora,
temos aqui são cinco pequenos pães e subiu sozinho a um monte para orar. Ao
dois peixes!” chegar da noite, lá estava Ele, só.
18 Mas Jesus lhes disse: “Tragam-nos aqui 24 Todavia, o barco já estava longe, no
para mim”. meio do mar, sendo fustigado pelas on-
19 E mandou que as multidões se assen- das; pois o vento era contrário.
tassem sobre o gramado. Tomou, então, 25 Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter
os cinco pães e os dois peixes e, olhando com eles, andando por sobre o mar.3
para o céu, os abençoou. Em seguida, 26 Quando os discípulos o viram andan-
tendo partido os pães, deu-os aos discí- do sobre as águas, ficaram aterrorizados
pulos, e estes serviram às multidões.2 e exclamaram: “É um fantasma!” E gri-
20 Todos comeram até ficar satisfeitos, tavam de medo.
e os discípulos recolheram doze cestas 27 Mas, imediatamente, Jesus lhes disse:
cheias de pedaços que sobraram. “Tende bom ânimo! Sou Eu. Não temais!”.
21 Os que se alimentaram foram cerca de 28 Ao que Pedro exclamou: “Senhor! Se
cinco mil homens, sem contar as mulhe- és tu, manda-me ir ao teu encontro por
res e as crianças. sobre as águas”.

2 Jesus, triste pela morte do grande amigo João, e não querendo ser confundido com o líder militar que muitos esperavam que
fosse, busca a solitude, um tempo a sós para orar e refletir. Atravessa o mar da Galiléia, deixando Cafarnaum e os territórios de
Herodes Antipas, e segue em direção a Betsaida Júlia. A multidão, entretanto, o vê partir só e caminha cerca de 8 km por uma
região deserta até se encontrar com Cristo nos planaltos do território de Felipe. Era alta primavera na Palestina (que começa no
meio de fevereiro), os campos estavam cobertos de relva e a Páscoa dos judeus estava próxima (Jo 6.4). Jesus se coloca entre a
multidão como o pai no meio de sua família. Esse é o único milagre de Jesus, registrado por todos os evangelistas (Mc 6.30-46; Lc
9.10-17; Jo 6.1-15). Mateus, entretanto, não tem uma preocupação cronológica em relação aos fatos, narra a história no passado
(vv. 1,2,13), pois deseja apresentá-la de modo que as pessoas a gravem na memória. De acordo com a tradição judaica, o chefe
da família proferia, no início de cada refeição, sobre o pão que ele partia, uma “oração de agradecimento” que era chamada de
“bênção” e, por isso, na KJ de 1611, esse termo aparece como blessed (abençoou). Jesus estava revelando ao povo que, assim
como o Pai libertou seu povo do Egito e os alimentou no deserto, Ele estava novamente no meio do seu povo para os salvar,
curar e alimentar. A palavra grega original kophinous, traduzida no vv.20 como “cestas” refere-se a uma pequena cesta de vime ou
folhas de palma, usada para compras domésticas. A “bênção” não acontece por ser costume, mas porque por meio de Jesus, a
fórmula é preenchida com um novo conteúdo: a presença do Cristo, que abre o acesso ao Pai (Jo 1.51). O povo e especialmente
os discípulos viram que a ação de graças de Jesus produziu milagres, e aprenderam que um método milagroso que traz bênçãos
é agradecer pelo pouco que temos, e dividi-lo com o próximo.
3 Jesus “insistiu” para que os discípulos saíssem depressa. A palavra grega usada aqui é enfática e significa “compeliu”,
sugerindo uma forte transição. João registra que depois do milagre dos pães e peixes, as multidões pretendiam proclamar Jesus
rei dos judeus, à força (Jo 6.15), o que indicava uma compreensão totalmente errada da missão de Cristo; nesse momento os
discípulos também haviam sido influenciados por essas idéias e Jesus precisou ser enérgico com eles e enviá-los para o outro
lado do mar. O dia judaico, isto é, o intervalo entre a aurora e o crepúsculo, era dividido em três partes: manhã, meio-dia e tarde
(Sl 55.17). Os judeus distinguiam duas tardes no dia: a primeira começava por volta das três horas, e a segunda ao pôr-do-sol (Êx
12.6, literalmente: entre as tardes). Portanto, os judeus contavam apenas três vigílias. No v. 13, trata-se da primeira tarde; no v. 23
refere-se à segunda. Mateus faz registro de Jesus orando apenas aqui e no Getsêmani (26.36-46). Para os romanos, entretanto, a
noite era dividida em quatro vigílias: 1) das 18 às 21h. 2) das 21h à meia noite. 3) da meia noite às 3h e 4) das 3h às 6h. O estádio
(em grego stadion), termo que aparece em algumas versões, equivalia a 1/8 de milha romana, ou cerca de 185 metros.
Durante a madrugada, Jesus se aproxima do barco sobre o mar revolto e lhes pede para ter bom ânimo (na KJ de 1611 Be of
good cheer!). Literalmente: “tenham coragem”. E, em seguida, revela a razão de se ter ânimo (coragem) e esperança no meio
das aflições: Sou Eu, mas que no original vem grafado: Eu Sou (em grego egô eimi), o nome e o caráter de Deus (Êx 3.14). A
proximidade do Senhor lança fora todo temor, destrói o mal e enche a alma de paz, alegria e vontade renovada de viver. Por isso,
no Reino de Deus, ser é mais importante que ter.

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33 MATEUS 14, 15

29 Então Jesus lhe responde: “Vem!” E Pe- Jesus, as tradições e a Lei


dro, deixando o barco, andou por sobre (Mc 7.1-23)
as águas e foi na direção de Jesus.
30 Todavia, reparando na força do vento,
teve medo, e começando a afundar, gri-
15 Então alguns fariseus e escribas,
vindos de Jerusalém, foram até
Jesus e questionaram:
tou: “Senhor! Salva-me!” 2 “Por que os seus discípulos transgridem
31 Jesus estendeu imediatamente a mão, a tradição dos anciãos? Visto que eles
segurou-o e lhe disse: “Homem de pe- não lavam as mãos antes de comer!”.
quena fé, por que duvidaste?”. 3 Ponderou-lhes Jesus: “E porque trans-
32 Assim que ambos entraram no barco, gredis vós também o mandamento de
cessou o vento. Deus, por causa da vossa tradição?
33 Então os que estavam no barco adora- 4 Pois Deus ordenou: ‘Honra a teu pai e a
ram-no, exclamando: “Verdadeiramente tua mãe’, e ainda, ‘Quem amaldiçoar seu
Tu és o Filho de Deus”.4 pai ou sua mãe seja punido com a morte’.
34 Depois de atravessarem o mar, chega- 5 Contudo, vós dizeis que se alguém disser
ram a Genesaré. a seu pai ou a sua mãe: ‘Oferta é ao Senhor
a ajuda que de mim devias receber’;
Jesus curou a todos que o tocaram 6 esse jamais estará obrigado a honrar
35 Quando os homens daquele lugar re- seu pai ou sua mãe com seus bens. E
conheceram Jesus, divulgaram a notícia assim invalidastes a Palavra de Deus, por
em toda aquela região e lhe trouxeram causa da vossa tradição.1
todos os enfermos. 7 Hipócritas! Bem profetizou Isaías sobre
36 Suplicavam então a Ele que ao menos vós, denunciando:
pudessem tocar na borda do seu manto. 8 ‘Este povo me honra com os lábios, mas
E todos os que nele tocaram ficaram seu coração está longe de mim.
plenamente sãos. 9 Em vão me adoram; pois ensinam dou-

4 Apenas Mateus registra esse episódio na vida de Pedro. A expressão em aramaico, usada pelos discípulos para concluir
tudo o que se passou naquela madrugada no meio do mar da Galiléia, aqui traduzida como Verdadeiramente Tu és o Filho de
Deus, significa que aqueles homens haviam reconhecido, sem sombra de dúvida, que Jesus de Nazaré e Deus (Yahweh) são a
mesma pessoa. Genesaré, também conhecida como Planície Estreita, ficava do lado ocidental do mar da Galiléia, ao norte de
Magdala. Essa planície era um grande jardim na Palestina, fértil e todo irrigado, com cerca 6,5 km de extensão e 3 km de largura.
As pessoas receberam a Jesus com grande fé, e muitas maravilhas Ele realizou ali (Mc 5.28; At 19.12).
Capítulo 15
1 Os escribas e fariseus chegaram de Jerusalém para reforçar o grupo dos inimigos de Jesus, que já estava se estruturando, como
no caso dos fariseus com os herodianos (Mc 3.6). Mais tarde, até os saduceus, tradicionalmente rivais dos fariseus, se juntariam aos
perseguidores do Senhor (Mt 16.6). A “tradição dos anciãos” era a interpretação oral e escrita da Lei de Moisés, mas com muitas
outras doutrinas e preceitos que foram sendo adicionados com o tempo; e que tinha autoridade quase igual a da própria Lei, entre
os fariseus (5.43). Todas essas orientações deram origem, mais tarde (200 a.D.) à Mishná, a parte mais importante do Talmude,
que é a fonte da lei judaica. O legalismo e o volume de pequenos preceitos haviam crescido tanto que a simples tradição, por
motivos higiênicos, de se lavar as mãos antes das refeições, tornou-se um ritual de purificação para afastar a mínima possibilidade
de um judeu ter sido contaminado pela poeira vinda de algum pagão (10.14). A ocupação romana intensificou esse estado de
“guerra contra a impureza” mediante o cumprimento de inúmeras doutrinas e obrigações religiosas. A intenção por traz dessas
práticas, entretanto, era conseguir o favor de Deus para a expulsão dos pagãos (romanos). Jesus passa a citar os mandamentos
(Êx 20.12; Dt 5.16; Êx 21.17; Lv 20.9), mostrando como a tradição dos judeus e muitas interpretações e práticas religiosas estavam
em desacordo com a própria Lei e, portanto, se constituíam em maior pecado contra Deus. Por exemplo, se alguém desejava
livrar-se da responsabilidade judaica de cuidar dos pais idosos, era só fazer uma declaração falsa de que havia doado seus bens ao
templo (em hebraico korban, quer dizer, oferta). Assim, os bens dessa pessoa seriam registrados em nome do templo como uma
oferta ao Senhor, até a morte dos pais, quando então se “negociaria” com os escribas, um valor a ser pago para reavê-los. Jesus
censura esse tipo de amor às regras, maior do que o amor devido a Deus e às pessoas (Is 29.13). Adverte que a comida que não foi
preparada segundo as tradições dos antigos mestres não prejudica o corpo ou traz pecado sobre a alma (At 10.10-15). Jesus usa
um vocábulo raro (em grego aphedrôna), que significa: esgoto, privada, latrina. O que profana (em grego koinein), ou seja, torna
uma pessoa comum, impura e, portanto, sem direito a participar do culto público ou, sequer, aproximar-se de Deus em oração, é o
mal concentrado no íntimo do ser humano e que é expresso por meio das palavras da boca (Tg 3.6-12).

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MATEUS 15 34

trinas que não passam de regras criadas 22 E eis que uma mulher cananéia, natural
por homens’”. daquelas regiões, veio a Ele, clamando:
10 Então, Jesus conclamou a multidão a “Senhor! Filho de Davi, tem compaixão
aproximar-se e pregou: “Ouvi e entendei! de mim! Minha filha está horrivelmente
11 Não é o que entra pela boca o que tor- tomada pelo demônio”.
na uma pessoa impura, mas o que sai da 23 Ele, porém, não lhe respondeu qual-
boca, isto sim, corrompe a pessoa”. quer palavra. Então, os seus discípulos,
12 Então, aproximando-se dele os discí- aproximando-se, pediram-lhe: “Manda
pulos, avisaram: “Sabes que os fariseus essa mulher embora, pois vem gritando
se ofenderam quando ouviram essas tuas atrás de nós”.
palavras?”. 24 Ao que Jesus replicou: “Eu não fui en-
13 Mas Ele respondeu: “Toda planta que viado, senão às ovelhas perdidas da casa
meu Pai celestial não plantou será arran- de Israel”.2
cada. 25 Chegou então a mulher e o adorou de
14 Deixai-os! Eles são guias cegos guian- joelhos, suplicando: “Senhor, ajuda-me!”
do cegos. Se um cego conduzir outro 26 Ao que Jesus lhe respondeu: “Não é
cego, ambos cairão no buraco”. justo tirar o pão dos próprios filhos para
15 Então, pediu-lhe Pedro: “Explica-nos a alimentar os cães de estimação”.
outra parábola?”. 27 Ela, porém, replicou: “Sim, Senhor, mas
16 Ao que Jesus replicou: “Também vós até os cães de estimação, comem das miga-
não compreendeis até agora? lhas que caem das mesas de seus donos”.
17 Não entendeis ainda que tudo o que 28 Então Jesus exclamou: “Ó mulher,
entra pela boca desce para o estômago, e grande é a tua fé! Seja feito a ti conforme
mais tarde é lançado no esgoto? queres”. E naquele exato momento sua
18 Entretanto, as coisas que saem da boca filha ficou sã.
vêm do coração e são essas que tornam
uma pessoa impura. Outra multiplicação de pães
19 Porque do coração é que procedem os (Mc 8.1-10)
maus intentos, homicídios, adultérios, 29 Partiu Jesus dali e foi para a orla do
imoralidades, roubos, falsos testemu- mar da Galiléia; e, subindo a um monte,
nhos, calúnias, blasfêmias. assentou-se ali.3
20 Essas coisas corrompem o indivíduo, 30 Então, multidões dirigiram-se a Ele,
mas o comer sem lavar as mãos não o levando consigo mancos, aleijados, cegos,
torna impuro”. mudos e muitos outros doentes, e os colo-
caram aos pés de Jesus; e Ele os curou.
Jesus atende ao clamor dos gentios 31 O povo ficou atônito quando viu os
(Mc 7.24-30) mudos falando, os aleijados curados, os
21 Deixando aquele lugar, Jesus retirou- mancos andando e os cegos enxergando.
se para a região de Tiro e de Sidom. E louvaram o Deus de Israel.

2 A expressão “cananéia” ocorre muitas vezes no AT, mas no NT, apenas aqui. Tem a ver com os descendentes dos cananeus
que Josué expulsou de Canaã, a Terra Prometida, cuja civilização ficou estabelecida na cidade de Tiro. Marcos chamava essa
senhora de “grega” (gentia), quer dizer, helênica, por causa de sua origem sírio-fenícia (Mc 7.26). A palavra “cães de estimação”
ou “cachorrinhos”, como em algumas versões, vem do grego original kunarion, que significa: pequenos cães de colo. Jesus
precisava deixar claro que a prioridade máxima de sua missão era salvar os judeus. Por algum motivo, aquela senhora grega e
gentia compreendeu perfeitamente a mensagem de Jesus, e reverentemente, usou a própria metáfora do Senhor para reivindicar
seu espaço no coração compassivo de Cristo. A fé daquela mulher humilde mostrou-se maior, mais verdadeira e pura que a fé de-
monstrada pelos mestres e líderes religiosos que haviam contestado a santidade (pureza religiosa) de Jesus e seus discípulos.
3 O monte era uma subida para a planície atrás de Cafarnaum, no sentido de quem sobe do mar da Galiléia. Nesse lugar Jesus
costumava pregar, ensinar e curar as muitas pessoas que sempre o procuravam; o mesmo local onde pregou o Sermão do Monte
(5.1). Ao contrário do que pensam alguns teólogos, esse milagre não é apenas outra versão do mesmo fato ocorrido em 14.15-21.
O próprio Jesus destaca claramente os dois acontecimentos (16.9 e10), além do que, essa segunda multiplicação ocorreu em

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35 MATEUS 15, 16

32 Chamou Jesus os seus discípulos para não podeis interpretar os sinais dos
dizer-lhes: “Tenho compaixão destas mui- tempos?
tas pessoas, pois há três dias permanecem 4 Esta geração perversa e infiel pede um
comigo e não têm o que comer. Não que- sinal; mas nenhum sinal lhe será conce-
ro mandá-las embora em jejum, porque dido, a não ser o sinal de Jonas”. Jesus se
podem desfalecer no caminho”. afastou, então, deles e partiu dali.
33 Mas os discípulos lhe disseram: “Onde
poderíamos, encontrar, neste lugar deser- O fermento dos religiosos
to, pães suficientes para alimentar tantas (Mc 8.14-21)
pessoas?” 5 Indo os discípulos para o outro lado do
34 Perguntou-lhes Jesus: “Quantos pães mar, esqueceram-se de levar pães.
tendes?” Ao que eles responderam: “Sete, 6 E Jesus lhes falou: “Estejais alerta, e
e mais uns pequenos peixes”. acautelai-vos do fermento dos fariseus
35 Ele mandou, então, que o povo se as- e saduceus”.
sentasse no chão. 7 Entretanto, eles discutiam entre si, di-
36 Tomou os sete pães e os pequenos pei- zendo: “É porque não trouxemos pães”.
xes e deu graças. Em seguida os partiu e 8 Percebendo a desavença, Jesus indagou:
os entregou aos discípulos, e estes distri- “Por que discordais entre vós, homens de
buíram à multidão. pequena fé, sobre o não terdes pães?
37 Todas as pessoas comeram até se far- 9 Não compreendeis até agora? Nem
tarem. E foram recolhidos sete grandes sequer lembrais dos cinco pães para
cestos, cheios de pedaços que haviam cinco mil homens e de quantas cestas
sobrado. recolhestes?
38 E assim, os que comeram eram quatro 10 Nem dos sete pães para aqueles outros
mil homens, sem contar as mulheres e as quatro mil e de quantos cestos recolhestes?
crianças. 11 Como não entendeis que não vos fala-
39 A seguir, Jesus se despediu da multi- va a respeito de pães? E, sim: tende, pois,
dão, entrou no barco e foi para a região cuidado com o fermento dos fariseus e
de Magadã. saduceus”.
12 Compreenderam, então, que não lhes
Religiosos pedem um sinal dissera que se guardassem do fermento
(Mc 8.11-13) dos pães, mas que se acautelassem da

16 Os fariseus e os saduceus apro-


ximaram-se de Jesus e, para o
provar, pediram que lhes mostrasse um
doutrina dos fariseus e saduceus.

Deus revela Jesus Cristo a Pedro


sinal vindo do céu. (Mc 8.27-30; Lc 9.18-21)
2 Então Ele lhes ponderou: “Quando 13 Quando Jesus chegou à região de Ce-
começa a entardecer, dizeis: ‘Haverá bom saréia de Filipe, consultou seus discípu-
tempo, pois o céu está avermelhado’. los: “Quem as pessoas dizem que o Filho
3 Ou, pela manhã, dizeis: ‘Hoje haverá do homem é?”1
tempestade, porque o céu está de um 14 E eles responderam: “Alguns dizem que
vermelho nublado’. Sabeis, com certe- é João Batista; outros Elias; e ainda há
za, discernir os aspectos do céu, mas quem diga, Jeremias ou um dos profetas”.

outro lugar (Decápolis, Mc 7.31), com um número diferente de pães e peixes, uma multidão menor, menos sobras recolhidas,
os “cestos” (no original grego spyridas), mencionados aqui eram usados nos mercados da época e maiores do que as alcofas,
pequenas “cestas” de vime ou folhas de palma, usadas na primeira multiplicação (14.20). Jesus toma um rumo diferente, após a
segunda multiplicação, desta vez segue com seus discípulos para Magadã, também conhecida como Magdala e Dalmanuta (Mc
8.10), a cidade de Maria Madalena, que ficava entre Tiberíades e Cafarnaum.
Capítulo 16
1 A cidade de Cesaréia de Filipe ficava ao norte do mar da Galiléia, perto das encostas do monte Hermom. Seu nome antigo era

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MATEUS 16 36

15 Então Jesus interpelou: “Mas vós, 19 Eu darei a ti as chaves do Reino dos


quem dizeis que Eu sou?”. céus; o que ligares na terra haverá sido li-
16 E, Simão Pedro respondeu: “Tu és o gado nos céus, e o que desligares na terra,
Cristo, o Filho do Deus vivo”.2 haverá sido desligado nos céus”.4
17 Ao que Jesus lhe afirmou: “Abençoado 20 E, então, ordenou aos discípulos que a
és tu, Simão, filho de Jonas! Pois isso não ninguém dissessem ser Ele o Cristo.
foi revelado a ti por carne ou sangue, mas
pelo meu Pai que está nos céus. Jesus prediz seu sacrifício
18 Da mesma maneira Eu te digo que tu (Mc 8.31-9.1; Lc 9.22-27)
és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a 21 A partir daquele momento Jesus co-
minha igreja, e as portas do Hades não meçou a explicar aos seus discípulos que
prevalecerão contra ela.3 era necessário que Ele fosse para Jerusa-

Panéias (em homenagem ao deus grego Pan). O filho de Herodes, Filipe, reconstruiu essa cidade, como parte de sua tetrarquia, e
lhe deu um novo nome, em homenagem a Tibério César e a si mesmo. Essa era, portanto, uma região extremamente pagã. Jesus
costumava se intitular de “o Filho do homem”, expressão que aparece mais de 80 vezes no NT, jamais se referindo a qualquer
outra pessoa. No AT, em Dn 7.13,14, esse título é usado para retratar a personalidade celestial a quem, no final dos tempos, Deus
confiou toda a sua glória, honra e poder (soberania divina).
2 Havia muitas lendas e superstições nessa época e lugar. O próprio Herodes cria na reencarnação de João Batista, que foi
um profeta muito estimado pelo povo e até pelo rei. A volta de Elias foi profetizada em Ml 4.5 e muitos judeus ligavam o nome
de Jeremias ao profeta prometido em Dt 18.15. Contudo, em meio a tantas idéias e correntes religiosas, Pedro (Bar-Jonas ou,
melhor traduzido, filho de Jonas), que falou em nome dos discípulos (v. 20), é agraciado com a maior das revelações que uma
pessoa pode receber de Deus: a compreensão de que Jesus de Nazaré (o Jesus histórico) é o Filho Unigênito de Deus, o Cristo
prometido (Messias, em hebraico), que significa,Ungido. Palavra que, no original hebraico, transmite a idéia de uma pessoa
escolhida por Deus, separada (consagrada, santificada), e revestida de poder para a realização de uma missão divina e específica
na terra (Êx 29.7,21; 1Sm 10.1,6; 16.13; 2Sm 1.14,16). No final do AT, essa palavra passou a ter uma conotação particular: referia-
se a um rei ideal, ungido e capacitado por Deus para libertar os judeus dos inimigos pagãos e estabelecer um reino de justiça e
paz (Dn 9.25,26). Por isso, na época de Cristo, o título Messias tendia a uma compreensão política, nacionalista, revolucionária e
militar e isso fez que Jesus evitasse usar o termo em relação à sua pessoa e missão (Mc 8.27-30; 14.61-63). Pedro obteve de Deus
a revelação de que Jesus é o Messias prometido desde a antiguidade, o Cristo. Essa é a pedra (o alicerce) sobre a qual a Igreja
seria construída e nada poderia deter o seu avanço e o cumprimento da sua missão até o Dia do Senhor.
3 Jesus comemora a bênção da revelação de Deus a Simão (nome comum em Israel, com origem no AT) conferindo-lhe um sobre-
nome marcante. Jesus conviveu com várias pessoas com o nome de Simão: um dos filhos de José e Maria, seu irmão (Mt 13.55; Mc
6.3), um amigo leproso, na casa do qual foi ungido (Mt 26.6; Mc 14.3), um homem de Cirene, compelido a ajudá-lo a levar sua cruz
e que, mais tarde, tornou-se cristão (Mc 15.21; At 13.1), um fariseu em cuja casa os pés de Jesus foram ungidos (Lc 7.40), Simão
Iscariotes, pai de Judas (Jo 6.71; 12.4; 13.2). Na época dos apóstolos, houve um outro Simão, samaritano, ilusionista, feiticeiro e
enganador, que misturava elementos de magia com ensinos helenísticos e judaicos. Foi o criador da doutrina gnóstica e alegava
ser o principal representante de Deus na terra. Dizia-se convertido ao cristianismo, mas desejou comprar o poder dos apóstolos e
recebeu enérgica repreensão de Simão Pedro (At 8.9-24). Em Pedro, temos o exemplo de que Jesus nos concede um novo nome, a
marca espiritual da salvação e da bravura cristã. O nome Pedro (em grego Petros) significa “pedra separada” ou “homem-pedra”. Na
frase seguinte, Cristo usou a palavra grega petra (“sobre esta rocha”), que significa “leito de rocha resistente” e que não era um nome
próprio. Jesus utilizou a arte dos significados das palavras para ampliar o poder do que desejava comunicar aos seus discípulos,
e não apenas para aqueles dias. Ele não disse “sobre ti, Pedro” ou “sobre teus sucessores”, mas sim “sobre esta rocha” – sobre
esta revelação de Deus e sobre este seu testemunho de fé em Jesus. O uso do tempo futuro do verbo demonstra que a formação
da Igreja ainda estava por acontecer. E, de fato, a Igreja – como a conhecemos hoje – teve início no dia de Pentecostes (At 2). Nos
Evangelhos a palavra Igreja (em grego ekkesia ou ekklesia; e em latim ecclesia) é usada somente por Mateus, aqui e duas vezes em
18.17. Na Septuaginta (o AT em grego), é usada para identificar a congregação (sinagoga) de Israel. Entre os gregos, nos tempos
de Jesus, significava a assembléia dos cidadãos livres e votantes da cidade (At 19.32,39,41). Hades (em grego haidês, e no hebraico
Sheol) é a palavra grega que consta nos originais das Escrituras neste texto e significa o lugar onde estão os espíritos dos que
morreram. Onde, também, os salvos desfrutam de paz e os descrentes de aflições. Todos, no entanto, aguardam a volta de Jesus,
quando os cristãos desfrutarão plenamente das bênçãos da vida eterna e os incrédulos (os que, na terra, rejeitaram a salvação) o
Juízo e a pena da segunda morte: o afastamento eterno de Deus (Gn 37.35; Jó 17.16). Assim sendo, “as portas do Hades” significam
“os poderes da morte” e todas as forças opostas a Cristo. Algumas versões usam a palavra “inferno” (em grego geena que deriva
do hebraico gê’ hinnõm, e significa: lugar de punição para pecadores), como sinônimo de Hades.
4 A partir daquele momento, Jesus estava concedendo a Pedro e aos demais discípulos, poder e autoridade para abrir as portas
da cristandade aos judeus, prosélitos e mais tarde a todos os gentios e pagãos em todo o mundo. Pedro usou essas chaves com
os judeus no dia de Pentecostes (At 2) e para os gentios na casa de Cornélio (At 10). Deus, e não os apóstolos ou discípulos, é
quem inicia o “ligar” e o “desligar” nos céus. Os apóstolos devem proclamar tais fatos (At 5.3,9). Em Jo 20.22-23 Jesus fala de

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37 MATEUS 16, 17

lém e sofresse muitas injustiças nas mãos 27 Mas o Filho do homem virá na glória
dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e de seu Pai, com os seus anjos, e então
dos escribas, para então ser morto e res- recompensará a cada um de acordo com
suscitar ao terceiro dia. suas obras.
22 Pedro, porém, chamando-o à parte, 28 Com toda a certeza vos afirmo que
começou a admoestá-lo, dizendo: “Deus alguns dos que aqui se encontram não
seja gracioso contigo, Senhor! De modo experimentarão a morte até que vejam o
algum isso jamais te acontecerá”. Filho do homem vindo em seu Reino”.6
23 E virando-se Jesus repreendeu a Pedro:
“Para trás de mim, Satanás! Tu és uma A transfiguração de Jesus
pedra de tropeço, uma cilada para mim,
pois tua atitude não reflete a Deus, mas,
sim, os homens”.5
17 Passados seis dias, Jesus tomou
consigo Pedro, Tiago e João, ir-
mão de Tiago, e os levou, em particular, a
24 Então Jesus declarou aos seus dis- um alto monte.1
cípulos: “Se alguém deseja seguir-me, 2 Ali Ele foi transfigurado na presença deles.
negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e Sua face resplandeceu como o sol, e suas
me acompanhe. vestes tornaram-se brancas como a luz.
25 Porquanto quem quiser salvar a sua 3 De repente, surgiram à sua frente Moi-
vida, a perderá, mas quem perder a sua sés e Elias, conversando com Jesus.
vida por minha causa, encontrará a 4 Expressando-se Pedro, disse a Jesus:
verdadeira vida. “Senhor, é bom estarmos aqui. Se dese-
26 Pois que lucro terá uma pessoa se jares, farei aqui três tendas: uma para ti,
ganhar o mundo inteiro, mas perder a uma para Moisés e outra para Elias”.
sua alma? Ou, o que poderá dar o ser 5 Enquanto ele ainda estava falando, uma
humano em troca da sua alma? nuvem resplandecente os envolveu, e

pecados; aqui ele está falando de práticas. Veja um exemplo dessas práticas determinativas em At 15.20. Jesus pede aos discí-
pulos sigilo quanto à confissão pública de Pedro. Isso porque uma multidão dos seus seguidores queria proclamá-lo libertador
nacional e iniciar logo uma revolução contra Roma. Crescia a inveja dos doutores da lei e líderes religiosos, contra Jesus, e já
planejavam sua morte. O Senhor queria completar sua missão, mas o entusiasmo de Pedro e dos apóstolos poderia precipitar os
acontecimentos (9.30; 12.16; Mc 1.44; 5.43; 7.36; 8.4; Lc 8.56).
5 O Senhor reconheceu nas palavras de Pedro a influência de Satanás; a mesma artimanha que o Inimigo usou no deserto para
tentar persuadi-lo a ter compaixão de si mesmo e trocar o alto custo da sua missão pela glória e os prazeres deste mundo. Jesus
usa a palavra aramaica Enganador, não para dizer que Pedro estava endemoninhado, mas para alertar a todos que é muito fácil
cairmos na ilusão do Diabo e começarmos a pensar com os valores, conceitos e argumentos do pai da mentira. Jesus recorre
à força da linguagem (palavra) e usa a metáfora: “pedra de tropeço”, que no original significa: “rocha de ofensa” ou “motivo de
escândalo” (Rm 9.33), para admoestar Pedro quanto à sua recente revelação, nova posição no Reino de Deus e missão. Assim
como a palavra hebraica traduzida por “Satanás”, a palavra grega “Diabo” significa “Acusador” ou “Caluniador”. Em Jó, essa
expressão (Jo 1.6), no original hebraico, vem sempre acompanhada do artigo definido (o Acusador, o Caluniador, ou ainda, o
Enganador), mas com o passar do tempo essa palavra virou o nome próprio do Inimigo (1Cr 21.1 com 2Sm 24.1; 1Sm 16.14 com
2Sm 24.16; 1Co 5.5; 2Co 12.7; Hb 2.14; Ap 2.9).
6 Uma semana depois desses acontecimentos, Pedro, Tiago e João presenciam o cumprimento dessa profecia na experiência
da transfiguração de Cristo (17.1-8), que foi também uma antevisão da plenitude do Reino, com o Senhor aparecendo em glória
(Dn 7.9-14). A passagem bíblica de 16.13 a 17.8 trata do ministério do discipulado cristão. Os versículos de 13-20 falam da obra
do Messias; de 21-23 tratam da expiação; 24-26 advertem para o custo da missão; 27-17.8 dizem respeito à escatologia com suas
recompensas. Juntos, esses textos, tratam das verdades fundamentais da teologia bíblica do NT.
Capítulo 17
1 Lucas fala em “cerca de oito dias” em seu texto paralelo (Lc 9.28), pois indica os seis dias de intervalo mais o dia em que Jesus
falou e o dia em que a transfiguração aconteceu em algum ponto do monte Hermom (com cerca de 3000 metros de altura), a 20
km de Cesaréia de Filipe. Como prometera, Jesus oferece a alguns discípulos (mais íntimos), uma antevisão da exaltação futura
do Senhor e do pleno estabelecimento do seu Reino. Jesus foi visto em sua forma glorificada. Moisés comparece representando a
antiga aliança e a promessa da salvação (que dentro em breve seria cumprida no sacrifício de Jesus). Elias representa os profetas
e o cumprimento da Palavra de Deus. Lucas acrescenta que conversavam a respeito da iminente morte de Cristo (Lc 9.31). Jesus
é revelado como a realidade gloriosa à qual a totalidade do AT apresenta como o cumprimento de toda a história da redenção

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MATEUS 17 38

dela emanou uma voz dizendo: “Este é o 17 Então Jesus exclamou: “Ó geração sem
meu Filho amado em quem me regozijo: fé e perversa! Até quando estarei convos-
a Ele atendei!”. co? Até quando vos terei de suportar?
6 Ao ouvirem isso, os discípulos prostra- Trazei-me aqui o menino”.
ram-se com o rosto em terra e ficaram 18 E Jesus repreendeu o demônio; este
atemorizados. saiu do menino, que daquele momento
7 Então Jesus, aproximando-se deles, em diante ficou são.
tocou-osedisse:“Levantai-vos,enãotemais!”. 19 Então os discípulos chegaram-se a
8 Ao erguer os olhos, a ninguém mais Jesus e, em particular, lhe perguntaram:
viram, senão somente a Jesus. “Por qual motivo não nos foi possível
9 Enquanto desciam do monte, Jesus lhes expulsá-lo?”.
ordenou: “A ninguém conteis a visão que 20 E Ele respondeu: “Por causa da peque-
tivestes, até que o Filho do homem res- nez da vossa fé. Pois com toda a certeza
suscite dentre os mortos”. vos afirmo que, se tiverdes fé do tama-
10 E os discípulos lhe perguntaram: “En- nho de um grão de mostarda, direis a
tão, por que os escribas ensinam que é este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele
preciso que Elias venha primeiro?”. passará. E nada vos será impossível!
11 Ao que Jesus lhes respondeu: “Elias, com 21 Contudo, essa espécie só se expele por
certeza, vem e restaurará todas as coisas.2 meio de oração e jejum”.
12 Eu, todavia, vos afirmo: Elias já veio,
mas eles não o reconheceram e fizeram Jesus prediz novamente seu martírio
com ele tudo quanto desejaram. Da mes- 22 Ao se reunirem na Galiléia, compar-
ma forma, o Filho do homem irá sofrer tilhou com eles, dizendo: “O Filho do
nas mãos deles”. homem está prestes a ser entregue nas
13 Os discípulos entenderam, então, que mãos dos homens.
era a respeito de João Batista que Ele 23 Eles o matarão, mas no terceiro dia
havia falado. Ele será ressuscitado”. Então, profunda
tristeza abalou os discípulos.
A cura do menino possesso
14 Ao chegarem onde se reunia a multi- Jesus paga o imposto secular
dão, um homem aproximou-se de Jesus, 24 Quando Jesus e seus discípulos che-
ajoelhou-se diante dele e clamou: garam a Cafarnaum, os cobradores do
15 “Senhor, compadece-te do meu filho, imposto de duas dracmas abordaram a
pois tem sofrido horrivelmente com ata- Pedro e questionaram: “O vosso mestre
ques epiléticos. Muitas vezes cai no fogo, não paga o imposto das duas dracmas,
e outras tantas, na água.3 ao templo?”.
16 Apresentei-o aos teus discípulos, mas 25 “Sim, paga”, respondeu Pedro. Mas
eles não conseguiram curá-lo”. quando ele entrou em casa, Jesus se

humana, desde o dia em que Abraão foi chamado para obedecer a Deus e abandonou tudo o que tinha, para receber a herança
prometida (Gn 12.2,3; 15.4,5).
Na experiência da transformação de Jesus, Deus Pai intervém na história para consolar o Filho, que já estava a caminho da
crucificação (22-23 com 16-21), e também aos discípulos, a fim de darem toda a atenção às palavras de Jesus e continuarem
firmes na fé após sua morte e ascensão. Bem mais tarde, Pedro vai citar esse evento em suas pregações, como uma das provas
irrefutáveis da divindade de Jesus, o Messias (2Pe 1.16-18).
2 Os mestres da lei (escribas) defendiam, com base em Ml 4.5-6, que Elias deveria reaparecer em Israel para anunciar a vinda
do Messias. Contudo, Jesus demonstrou que foi João, o Batista, a pessoa que cumpriu essa missão profética, pois até suas
vestes, maneira de viver e personalidade revelavam o caráter de um Elias, e esse era o sentido da profecia.
3 A expressão grega original, em algumas versões traduzida por “lunático”, significa: “epilético”. Evidentemente nem todo
ataque epilético tem a ver com possessão demoníaca; mas, neste caso, o menino estava mesmo possuído por um demônio
muito poderoso. Todavia, qualquer discípulo que tivesse fé e comunhão com Deus (jejum e oração) poderia expulsá-lo e curar
o menino.

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39 MATEUS 17, 18

antecipou e perguntou-lhe primeiro: melhor lhe seria amarrar uma pedra


“Simão, qual a tua opinião? De quem de moinho no pescoço e se afogar nas
cobram os reis da terra impostos e profundezas do mar.
tributos? Dos seus filhos ou dos estranhos?”. 7 Ai do mundo, por causa das suas cila-
26 “Dos estranhos”, respondeu Pedro. das! É inevitável que tais ofensas ocor-
Ao que Jesus concluiu: “Logo, estão, os ram, mas infeliz da pessoa por meio da
filhos, livres dessa obrigação”.4 qual elas acontecem!
27 Entretanto, para que não os escan- 8 Sendo assim, se a tua mão ou o teu pé te
dalizemos, vai ao mar, lança o anzol, fizerem cair em pecado, corta-os e lança-
e o primeiro peixe que fisgar, tira-o, os fora de ti; pois melhor é entrares na
e, abrindo-lhe a boca, acharás um es- vida, mutilado ou aleijado, do que, tendo
táter. Retira aquela moeda e entregue a as duas mãos ou os dois pés, seres atirado
eles para pagar o meu imposto e o teu no fogo eterno.
também. 9 Se um dos teus olhos te faz pecar, ar-
ranca-o, e lança-o fora de ti, pois melhor
Quem é o maior no Reino? é entrares na vida com um olho só, do
(Mc 9.33-37,42-26; Lc 9.46-48) que, tendo os dois, seres lançado no fogo

18 Naquele momento os discípulos


aproximaram-se de Jesus e per-
guntaram: “Quem é o maior no Reino
do inferno.

A parábola da ovelha perdida


dos céus?”.1 (Lc 15.3-7)
2 E Jesus, chamando uma criança, colo- 10 Tende todo cuidado para que não des-
cou-a no meio deles. prezeis a qualquer destes pequeninos;
3 E disse: “Com toda a certeza vos afirmo pois Eu vos asseguro que seus anjos nos
que, se não vos converterdes e não vos céus vêem continuamente a face de meu
tornardes como crianças, de modo al- Pai celestial.3
gum entrareis no Reino dos céus.2 11 Porque o Filho do homem veio para
4 Portanto, todo aquele que se tornar hu- salvar o que se havia perdido.
milde, como esta criança, esse é o maior 12 Que opinião tendes? Se um homem
no Reino dos céus. tiver cem ovelhas, e uma delas se desgar-
5 E quem recebe uma destas crianças, em rar, não deixará ele as noventa e nove nos
meu nome, a mim me recebe. montes, indo procurar a que se perdeu?
13 E se conseguir encontrá-la, com toda a
Jesus adverte sobre as ciladas certeza vos afirmo que maior contenta-
6 Entretanto, se alguém fizer tropeçar um mento sentirá por causa desta do que pelas
destes pequeninos que crêem em mim, noventa e nove que não se extraviaram.

4 O imposto das duas dracmas era cobrado anualmente de todos os homens de 20 anos para cima, sendo destinado à manuten-
ção do templo. Havia cobradores para outros valores e tipos de impostos (Êx 30.13; 2Cr 24.9; Ne 10.32). Valia meio estáter ou siclo,
por pessoa (valor que correspondia a dois dracmas ou dois dias de trabalho braçal). Jesus se antecipa à confusão mental de Pedro,
ao demonstrar que os membros da família real ficam isentos de pagar os impostos do Reino. Assim, Jesus, o Filho de Deus (dono
do templo) não estaria pessoalmente obrigado a arcar com parte do sustento da casa do seu Pai (Lc 2.49). Como Pedro ainda não
tinha entendido a amplitude desse conceito e, além disso, já havia se comprometido com o pagamento, Jesus ilustra para ele, e para
nós, mais esse ensino sobre a Sua pessoa, Reino e Missão, além dos nossos deveres civis e religiosos (Rm 13.7).
Capítulo 18
1 Este é o último grande discurso de Jesus antes de ir para Jerusalém (Mc 9.33 com 17.25). Estavam todos reunidos na casa de
Pedro e Jesus notou que havia se manifestado entre seus discípulos o mal do ciúme, da inveja e da competição por proeminência
no ministério.
2 A expressão grega straphete significa “virar”, “mudar completamente” e está relacionada a uma nova vida voltada
(consagrada) para Deus e não apenas a adoção de certa religiosidade formal. Ser como as crianças, é admitir um novo começo
e dispor-se humildemente a aprender a viver como cidadão do Reino.
3 A referência aos pequeninos pode ser tanto às crianças quanto ao novos (neófitos) na fé cristã. O escândalo e o desprezo

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MATEUS 18 40

14 Da mesma maneira, vosso Pai, que está dois dentre vós concordarem na terra em
nos céus, não deseja que qualquer desses qualquer assunto sobre o qual pedirem,
pequeninos se perca.4 isso lhes será feito por meu Pai que está
nos céus.
Como tratar o pecado de um irmão 20 Porquanto, onde se reunirem dois ou
15 Se teu irmão pecar contra ti, vai e, em três em meu Nome, ali Eu estarei no meio
particular com ele, conversem sobre a deles”.6
falta que cometeu. Se ele te der ouvidos,
ganhaste a teu irmão. Quantas vezes se deve perdoar
16 Porém, se ele não te der atenção, leva (Lc 17.3-4)
contigo mais uma ou duas pessoas, para 21 Então, Pedro chegou perto de Jesus e
que pelo depoimento de duas ou três lhe perguntou: “Senhor, até quantas ve-
testemunhas, qualquer acusação seja zes meu irmão pecará contra mim, que
confirmada.5 eu tenha de perdoá-lo? Até sete vezes?”.
17 Contudo, se ele se recusar a considerá- 22 E Jesus lhe respondeu: “Não te direi
los, dizei-o à igreja; então, se ele se negar até sete vezes; mas, sim, até setenta vezes
também a ouvir a igreja, trata-o como sete”.7
pagão ou publicano.
18 Com toda a certeza vos asseguro que A parábola do servo que não perdoou
tudo o que ligardes na terra terá sido li- 23 “Portanto, o Reino dos céus pode ser
gado no céu, e tudo o que desligardes na comparado a certo rei, que decidiu acer-
terra terá sido desligado no céu. tar contas com seus servos.
19 Uma vez mais vos asseguro que, se 24 Quando teve início o acerto, foi trazi-

por essas pessoas teriam o efeito de uma cilada (uma armadilha provocada pelo Diabo), afastando-as da verdadeira vida em
Cristo. O provocador de escândalos receberá o mais severo julgamento de Deus. Quanto aos anjos, são seres criados por Deus
para Sua adoração e serviço. Há várias classes de anjos com diversas especialidades. Aqui, Jesus se refere aos anjos guardiões,
destacados pelo Senhor para cuidar das crianças e do povo de Deus em geral (Sl 34.7; 91.11; At 12.15; Hb 1.14).
4 A história da ovelha perdida também se acha em Lc 15.3-7. Ali é aplicada aos incrédulos, mas aqui aos cristãos. O v.14 não
exclui a possibilidade da perdição, mas ressalta que a vontade de Deus é que todos sejam salvos. A pessoa que vai para o inferno,
desde já recusa a salvação e aceita – direta ou indiretamente – a condição de perdido, não porque Deus queira (25.41;1Tm 2.4).
Jesus usou a mesma parábola para ensinar verdades diferentes em situações específicas.
5 Jesus orienta seus discípulos quanto aos passos que devem ser observados para resolver os problemas de relacionamento
interpessoal, pecados evidentes, e casos de excomunhão da igreja (congregação local): 1) Como primeiro passo (muitas vezes
ignorado), o crente que se sente vítima de alguma ofensa ou que descobre um pecado em seu irmão de fé, deve convidá-lo para
uma conversa a sós (ninguém mais deve saber desse assunto) e tentar estabelecer um diálogo honesto, sincero e cordial com
o ofensor, a fim de “ganhar o seu irmão”; ou seja, que haja acertos e reparações (se necessário) para que os dois obtenham
paz e alegria, e sigam servindo ao Senhor, dando bom exemplo ao mundo. 2) No caso da recusa ou indiferença do ofensor, a
pessoa ofendida deve convidar um ou mais irmãos maduros na fé, que chamarão o ofensor para uma conversa em grupo, onde
se buscará o Conselho de Deus, as reparações necessárias e a celebração da paz em Cristo (Gl 6.1-5). Jesus cita o texto de Dt
19.15, da Septuaginta (o AT em grego), incorporando esse justo e sábio princípio da lei mosaica para benefício da Igreja Cristã. 3)
No caso de total indiferença ou falta de arrependimento por parte do ofensor, os líderes espirituais da igreja devem ser informados
pelo grupo que tentou trazer o irmão faltoso ao bom senso e à perfeita comunhão em Cristo. Os líderes devem fazer o possível
para “não perder” o irmão faltoso. No caso de claro desrespeito à Palavra de Deus e à liderança da igreja, então esse pecador
obstinado deve ser afastado da comunhão cristã, ao menos até que recobre a sensatez, reconheça suas faltas e se disponha
sinceramente a viver de acordo com os princípios da Palavra de Deus (1Co 5.4-5; 1Tm 1.20).
6 Essas são promessas dirigidas a todos os discípulos de Cristo (cristãos totalmente consagrados ao Senhor), pois saberão
agir com sabedoria celestial. O v.19 é uma das grandes promessas do Evangelho, em relação à oração. Entretanto, é preciso
observar a conexão desse versículo com o seu contexto imediato e o conteúdo do capítulo. Ou seja, a promessa é dada aos
discípulos reunidos, tendo Jesus Cristo em seu meio (v. 20), com o objetivo de restaurar um irmão que esteja vivendo no erro (pe-
cado – v. 17). Jesus confirma a autoridade dos discípulos para o exercício dessa função (v. 18 e 16.19), e a promessa é cumprida
porque agem da parte do Pai, em nome do Filho (v. 20). O verdadeiro entendimento e unidade entre os seres humanos é algo
raro, mesmo entre os cristãos. Deus só exige um acordo entre as pessoas: que Jesus Cristo, seu Filho, seja a grande paixão da
humanidade e o ponto comum e central da fé. Jesus é o fator básico da unidade (Jo 17.19-21). É possível discordar e viver em
comunhão, respeito e cooperação no Reino.
7 Os rabis e mestres judaicos ordenavam perdoar até três vezes. Pedro sugeriu um salto espiritual: sete vezes! O número

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41 MATEUS 18, 19

do à sua presença um que lhe devia dez padecer-te do teu conservo, assim como
mil talentos.8 eu me compadeci de ti?’
25 Porém, não tendo o devedor como 34 E, sentindo-se insultado, o rei entre-
saldar tal importância, ordenou o seu se- gou aquele servo impiedoso aos carras-
nhor que fosse vendido ele, sua mulher, cos, até que lhe pagasse toda a dívida.
seus filhos e tudo quanto possuía, para 35 Assim também o meu Pai celestial vos
que a dívida fosse paga. fará, a cada um, se de todo o coração não
26 O servo, então, com toda a reverência, perdoardes cada um a seu irmão”.
prostrou-se diante do rei e lhe implorou:
‘Sê paciente comigo e tudo te pagarei!’ Casamento e Divórcio
27 E o senhor daquele servo, teve compai- (Mc 10.1-12)
xão dele, perdoou-lhe a dívida e o deixou
ir embora livre.
28 Entretanto, saindo aquele servo, en-
19 E aconteceu que, concluindo Jesus
essas palavras, partiu da Galiléia e
dirigiu-se para a região da Judéia, no ou-
controu um dos seus conservos, que lhe tro lado do Jordão.
estava devendo cem denários. Agarrou-o 2 Grandes multidões o seguiam e a todos
e começou a sufocá-lo, esbravejando: curava ali.1
‘Paga-me o que me deves!’ 3 Alguns fariseus também chegaram até
29 Então, o seu conservo, caindo-lhe aos Ele e, para prová-lo, questionaram-lhe:
pés, lhe suplicava: ‘Sê paciente comigo e “É lícito o marido se divorciar da sua
tudo te pagarei’. esposa por qualquer motivo?”.2
30 Mas, ele não queria acordo. Ao con- 4 E Jesus lhes explicou: “Não tendes lido
trário, foi e mandou lançar seu conservo que, no princípio, o Criador ‘os fez ho-
devedor na prisão, até que toda a dívida mem e mulher’,
fosse saldada. 5 e os instruiu: ‘Por este motivo, o homem
31 Quando os demais conservos, compa- deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher,
nheiros dele, viram o que havia ocorrido, e os dois se tornarão uma só carne’?
ficaram indignados, e foram contar ao 6 Sendo assim, eles já não são dois, mas
rei tudo o que acontecera. sim uma só carne. E, portanto, o que Deus
32 Então o rei, chamando aquele servo lhe uniu, não o separe o ser humano”.3
disse: ‘Servo perverso, perdoei-te de toda 7 Replicaram-lhe: “Então por qual razão
aquela dívida atendendo às tuas súplicas. mandou Moisés dar uma certidão de
33 Não devias tu, da mesma maneira, com- divórcio à mulher e abandoná-la?”.

perfeito, completo. Mas, Jesus lhe respondeu com uma expressão matemática e filosófica que tende ao infinito. Ou seja: sempre!
O cristão, por sua fé no Senhor, deve perdoar todas as vezes que o ofensor arrependido lhe pedir perdão. Só assim será possível
ao crente compartilhar do amor, misericórdia e generosidade de Deus.
8 Jesus ilustra por que devemos perdoar sem limites. O perdão que Deus nos concedeu, ao nos abençoar com o dom da salva-
ção, é tão grandioso, que qualquer ofensa que outro ser humano venha a praticar contra nós torna-se irrisória, embora possa nos
fazer sofrer por algum tempo. Perdoar sempre dará mais espaço à plenitude divina em nossa alma. O “talento” era uma medida de
peso, usada para pesar ouro e prata, equivalente, a cerca de 35 quilos. Cada talento valia cerca de 6.000 denários. O “denário” era
uma moeda de prata que equivalia a um dia de trabalho braçal. Deus, finalmente, julgará a todos conforme seu amor longânimo
e justiça severa; e espera de nós o mesmo senso de misericórdia (Tg 2.13).
Capítulo 19
1 Jesus entrou na região da Peréia, em direção a Jerusalém, onde hoje se situa a Jordânia. Na época fazia parte das terras (tetrar-
quia) de Herodes Antipas, ficava a leste do rio Jordão, estendendo-se do mar da Galiléia até próximo ao mar Morto (Lc 13.22).
2 Mateus escreveu com o propósito de evangelizar os judeus, por isso, usa a expressão “Reino dos céus” significando “Reino de
Deus”, respeitando o cuidado extremo que os judeus tinham ao pronunciar o nome de Deus. Assim também, Mateus adiciona a frase
“por qualquer motivo” a esse versículo, que não consta do texto paralelo escrito por Marcos (Mc 10.2). Isso, para esclarecer ao leitor
quanto ao ensino de duas escolas rabínicas: Hillel, que permitia ao marido repudiar (rejeitar, mandar embora, abandonar, divorciar),
sua esposa por qualquer motivo que o desgostasse, até mesmo pelo sabor ou preparo de uma refeição. E a escola Shammai, a qual
pregava que o único motivo suficiente para um homem divorciar-se de sua esposa era a infidelidade conjugal comprovada.
3 Mais uma vez os doutores da Lei procuram desmoralizar Jesus, pois o assunto estava dividido, há muitos anos, entre duas

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MATEUS 19 42

8 Ao que Jesus declarou: “Moisés, por cau- capaz de aceitar esse conceito, que o
sa da dureza dos vossos corações, vos con- receba”.5
cedeu separar-se de vossas mulheres. Mas
não tem sido assim desde o princípio”. Jesus abençoa as crianças
9 Eu, porém, vos afirmo: “Todo aquele (Mc 10.13-16; Lc 18.15-17)
que se divorciar da sua esposa, a não 13 Então, trouxeram-lhe algumas crian-
ser por imoralidade sexual, e se casar ças, para que lhes impusesse as mãos e
com outra mulher, estará cometendo orasse por elas. Os discípulos, contudo,
adultério”.4 os repreendiam.
10 Então os discípulos consideraram: “Se 14 Mas Jesus lhes ordenou: “Deixai vir a
estes são os termos para o marido e sua mim as crianças, não as impeçais, pois o
esposa, não é vantagem casar!”. Reino dos céus pertence aos que se tor-
11 Mas Jesus ponderou-lhes: “Nem todos nam semelhantes a elas”.
conseguem aceitar essa palavra; somente 15 E, depois de ter-lhes imposto as mãos,
aqueles a quem tal capacidade é dada. partiu dali.6
12 Pois há alguns eunucos que nasceram
assim do ventre de suas mães; outros Dificilmente os ricos serão salvos
foram privados de seus órgãos reprodu- (Mc 10.17-31; Lc 18.18-30)
tores pelos homens; e há outros ainda 16 Eis que alguém chegou perto de Jesus
que a si mesmos se fizeram celibatários, e consultou-o: “Mestre, que poderei fazer
por causa do Reino dos céus. Quem for de bom para ganhar a vida eterna?”.7

grandes e respeitadas correntes de pensamento. Mas Jesus apela, novamente, para o espírito da Lei e não apenas para a letra.
Jesus leva sua audiência para o princípio da criação e para o pensamento originário de Deus – O Criador – e cita a Septuaginta
(AT em grego), defendendo assim a doutrina da inspiração das Escrituras (Gn 1.27; 2.23-24). Portanto, o propósito divino na
criação é de que marido e esposa se unam de forma a se tornarem a mesma carne, sendo os corpos (o sangue) o meio para
a unidade indissolúvel do parentesco e comunhão, fazendo, assim, do casamento, a mais profunda forma de unidade física e
espiritual. Esse conceito vital deve ser ensinado às pessoas na época do namoro. Elas precisam aprender a namorar (se conhecer
bem) segundo a vontade de Deus. Isso evitaria muitos problemas no casamento.
4 A intenção dos fariseus não era compreender a verdade, mas achar um pretexto para destruir Jesus. Eles recorrem, assim,
à lei de Moisés (Dt 24.1). Mas Jesus demonstra que certas concessões, na história, não foram feitas por serem o plano original
de Deus para a humanidade, mas em atenção aos pedidos insistentes da sociedade; da alma dos homens, dos seus corações
arrogantes, vaidosos e egoístas. Características que acompanharam o ser humano após a sua Queda e que se relacionam com
a influência do Diabo na terra (Gn 3.8-13; 22-24).
5 A palavra “eunuco” (em hebraico sãrïs) é derivada de um termo assírio que significa “aquele que é cabeça” ou “o braço direito”.
No NT, o vocábulo grego eunouchos, é uma derivação de eunen echõ, que pode significar “conservar o leito” ou “manter a padrão”.
Nos escritos de Heródoto aprendemos que nos países orientais os eunucos eram contratados especialmente para tomar conta dos
haréns dos monarcas, sendo, entretanto, reputados como dignos de confiança em todos os sentidos. Em todos os casos, a palavra
refere-se a pessoas da mais alta confiança do rei e pode ser usada no sentido de: “oficial da corte” ou “castrado”. Em At 8.27 ambos
os sentidos estão em foco. Aqui, porém, a expressão original é clara e refere-se ao homem castrado. O judaísmo conhecia apenas
duas categorias de eunucos: Os “feitos pelo homem” (em hebraico sãrïs ’ãdhãm), e aqueles que nasceram congenitamente incapazes
ou sem libido (instinto e desejos sexuais) chamados de “natural” ou “eunuco do sol” (em hebraico sãrïs hammâ). Jesus usou uma
metáfora para mostrar o radicalismo do amor: na união com Deus e com o próximo, na aliança do matrimônio e no ministério cristão.
Jesus surpreende seus inquiridores com uma terceira classe de eunucos: os celibatários, aqueles que, de forma livre e espontânea,
sacrificaram seus desejos naturais e legítimos por amor ao Senhor e para melhor e maior dedicação ao Reino de Deus. Em nenhum
momento Jesus defendeu o asceticismo (doutrina dos primeiros séculos que exigia dos líderes cristãos a total abstinência sexual e
punia severamente os pensamentos impuros). Jesus e Paulo (dois celibatários) deixam claro que não é necessário que um homem
ou uma mulher se privem do casamento para serem bons obreiros ou líderes espirituais da Igreja de Cristo, isso é dom de Deus; e,
portanto, é graça e não maldição. Pessoas com esse dom devem ser orientadas a dedicar-se exclusivamente ao Senhor e à Igreja;
caso contrário, Satanás poderá se aproveitar disso e tentar recrutá-las para servir ao reino do mal (1Co 7.7,8,26,32-35). Orígenes, um
dos pais da Igreja do século II, interpretando erradamente essa palavra de Jesus, entendendo-a de forma literal, mutilou a si mesmo.
6 Era costume dos judeus levar as crianças para serem abençoadas por um rabino que fosse mestre comprovado da Lei. Ao
ouvirem o ensino de Jesus, as pessoas não tiveram dúvidas em enviar seus filhos para receberem a dádiva real (Gn 27). Entretan-
to, Jesus aproveitou o evento para pregar sobre a chegada e a disponibilidade do Reino de Deus para todos que o recebessem
com a humildade, sinceridade, fé e alegria das crianças (Mt 6.9; Rm 8.14).
7 Os judeus, no tempo de Cristo, criam que a realização de um grande e único ato digno podia garantir-lhes um lugar

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43 MATEUS 19

17 Questionou-o Jesus: “Por que me per- que um rico entrar no Reino dos céus”.9
guntas a respeito do que é bom? Há so- 25 Ouvindo isso, os discípulos ficaram
mente um que é bom. Se queres entrar na atônitos e exclamaram: “Sendo assim,
vida eterna, obedeça aos mandamentos”. quem pode ser salvo?”.
18 Ao que ele perguntou: “Quais?”. E 26 Mas Jesus, fixando o olhar neles, re-
Jesus lhe respondeu: “Não matarás, não velou-lhes: “Isso é impossível aos seres
adulterarás, não furtarás, não darás falso humanos, mas para Deus todas as coisas
testemunho, são possíveis”.
19 honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o
teu próximo como a ti mesmo”. As recompensas no Reino
20 Replicou-lhe o jovem: “A tudo isso 27 Então Pedro manifestou-se dizendo:
tenho obedecido. O que ainda me falta?”. “Veja! Nós deixamos tudo e te seguimos;
21 Jesus disse a ele: “Se queres ser perfeito, o que será, pois, de nós?”.
vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos 28 Jesus lhes respondeu: “Com toda a
pobres, e terás um tesouro no céu. De- certeza vos afirmo que vós, os que me
pois, vem e segue-me”. seguistes, quando ocorrer a regeneração
22 Ao ouvir essa palavra, o jovem afas- de todas as coisas, e o Filho do homem se
tou-se pesaroso, pois era dono de muitas assentar no trono da sua glória, também
riquezas.8 vos assentareis em doze tronos, para jul-
23 Então disse Jesus aos seus discípulos: gar as doze tribos de Israel.10
“Com toda a certeza vos afirmo que 29 Também todos aqueles que tiverem
dificilmente um rico entrará no Reino deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe,
dos céus. filhos ou terras, por causa do meu Nome,
24 E lhes digo mais: É mais fácil passar receberão cem vezes mais e herdarão a
um camelo pelo fundo de uma agulha do vida eterna.

privilegiado no céu. Outros acreditavam que a completa e restrita observância da Lei os levaria ao Reino de Deus. Lucas revela
que esse jovem ocupava posição de grande prestígio (Lc 18.18). Marcos salienta que, ao aproximar-se de Jesus, correu e
ajoelhou-se (Mc 10.17). O jovem possuía tudo o que alguém pode desejar, mas lhe faltava a certeza da vida eterna. Entretanto, ele
não pensou na incompatibilidade que existe entre o mundanismo e o Reino de Deus (6.33). A riqueza gera soberba e arrogância,
provocando rejeição à simplicidade e humildade que existe na fé em Cristo. Após a Queda, o ser humano perdeu a capacidade
de ser bom e fazer o bem (continuamente). Por isso, Deus fez da Salvação um presente (dádiva), não podemos adquiri-lo, só
nos é possível aceitá-lo (Ef 2.8).
8 Jesus mostra que o jovem em questão (assim como algumas pessoas) imaginava obedecer a todos os mandamentos da Lei:
ele não matava, não roubava e não era um mau filho. Acontece que a própria Escritura garante que ninguém é capaz de cumprir
a Lei e, por isso, precisamos desesperadamente da Graça do Senhor. O rapaz tinha tudo, e queria também ser perfeito (em
grego teleios, aperfeiçoado, tendo alcançado a meta). Jesus, contudo, ao relacionar os mandamentos (Êx 20.12-16; Dt 5.16-20;
Lv 19.18) omitiu “não cobiçarás”. Esse era, pois, justamente, o grande obstáculo para que o rapaz recebesse, de graça, a tão
almejada vida eterna. Jesus não está ensinando que todo cristão deva ser pobre, muito menos que todo pobre vai para o céu.
Ele estava provando o coração daquele homem para revelar a ele (e a nós) a necessidade de arrependimento e conversão dos
pecados que, muitas vezes, pensamos que não temos.
9 Jesus recorre a outra metáfora: o maior animal na Palestina em contraste com a menor passagem conhecida pelo povo na
época: o buraco de uma agulha. A expressão também se refere, curiosamente, a uma pequena entrada, situada ao lado da porta
principal da cidade de Jerusalém, por onde (por motivos de segurança) um camelo não podia passar carregado e, mesmo assim,
somente conseguia atravessá-la de joelhos (Mc 10.25). A salvação não é possível pelo esforço humano. É um ato sobrenatural
de Deus, que busca corações humanos onde receba amor incondicional e tenha prioridade absoluta. Ele acrescentará todas as
demais coisas necessárias (6.33-34). O amor ao dinheiro e às riquezas pode escravizar uma pessoa, exacerbando seu egoísmo
e desviando-a do Reino (1Tm 6.9-10). Jesus faz ainda uma alusão ao AT e reafirma que para Deus nada é impossível (Gn 18.14;
Jó 42.2; Zc 8.6-7).
10 A expressão grega palingenesia, aqui traduzida por “regeneração” refere-se ao mundo renovado do futuro (o novo céu e a
nova terra de Ap 21.1). As doze tribos, com as dez tribos do norte (Israel), perdidas séculos antes de Cristo (pela mistura com po-
vos gentios), serão restauradas para o julgamento (25.31; At 3.20-21; Ap 7.4-8). O outro único uso da palavra “regeneração” tem
a ver com a renovação espiritual das pessoas (Tt 3.5). Jesus ensina que o Reino de Deus não é uma competição, como em quase
tudo nas sociedades humanas. Jesus tranqüiliza Pedro e promete que todos os que tomarem parte em sua batalha, comparti-

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MATEUS 19, 20 44

30 Entretanto, muitos primeiros serão os trabalhadores e paga-lhes o salário,


últimos, e muitos últimos serão primei- começando pelos últimos contratados e
ros”. terminando nos primeiros’.4
9 Chegaram os que haviam sido contra-
A parábola dos pagamentos tados em torno das cinco horas da tarde,

20 “Portanto, o Reino dos céus é se-


melhante a um proprietário que
saiu ao raiar do dia para contratar traba-
e cada um deles recebeu um denário.
10 Quando vieram os que haviam sido
contratados primeiro, deduziram que
lhadores para a sua vinha.1 receberiam mais; contudo, também estes
2 Depois de combinar com cada traba- receberam um denário cada um.
lhador o pagamento de um denário pelo 11 No entanto, assim que o receberam,
dia, os enviou ao campo das videiras.2 começaram a se queixar do proprietário
3 Por volta das nove horas da manhã, ao da vinha,
sair, viu na praça do mercado, outros que 12 dizendo-lhe: ‘Estes últimos homens
estavam parados, sem ocupação.3 trabalharam apenas uma hora; apesar
4 Então lhes disse: ‘Ide vós também tra- disso o senhor os igualou a nós que su-
balhar na vinha, e Eu vos pagarei o que portamos o peso do trabalho e o calor
for justo’. E eles foram. do dia’.
5 Tendo saído outras vezes, próximo do 13 Mas o dono da vinha, explicando,
meio dia e das três horas da tarde, agiu falou a um deles: ‘Amigo, não estou
da mesma maneira. sendo injusto contigo. Não combina-
6 Ao sair novamente, agora em torno das mos que te pagaria um denário pelo dia
cinco horas da tarde, encontrou outros trabalhado?
que estavam sem trabalho, e indagou 14 Sendo assim, toma o que é teu, e vai-te;
deles: ‘Por qual motivo estivestes aqui pois é meu desejo dar a este último tanto
desocupados o dia todo?’ quanto dei a ti.
7 E lhe informaram: ‘Porque não houve 15 Porventura não me é permitido fazer o
alguém que nos contratasse’. Então lhes que quero do que é meu? Ou manifestas
falou: ‘Ide igualmente vós para o campo tua inveja porque eu sou generoso?’5
das videiras’. 16 Portanto, os últimos serão primeiros, e
8 Ao pôr-do-sol, o senhor da vinha or- os primeiros serão últimos. Pois muitos
denou ao seu administrador: ‘Chama serão chamados, mas poucos escolhidos”.6

lharão igualmente das bênçãos de sua vitória completa e eterna. Entretanto, em 20.1-16, Ele adverte os seus seguidores sobre o
perigo de julgar o assunto das recompensas divinas por um padrão meramente político, econômico e financeiro (terreno).
Capítulo 20
1 A declaração de Jesus feita em 10.30, é explicada por meio desta história e repetida em 20.16, enfatizando a soberana gene-
rosidade de Deus Pai. Essa parábola foi registrada apenas em Mateus.
2 O denário ou dinheiro (em latim denarius) era uma moeda romana, de prata. Tinha o mesmo valor de um dracma (em grego
drachma), ou meio shekel judaico. Correspondia a um dia de trabalho de um soldado romano na época de Jesus. Um escrivão
de documentos altamente qualificado, na Palestina daquele tempo, ganhava dois denários por dia.
3 A contagem das horas começava às 6h da manhã. Portanto, a terceira hora correspondia às 9h da manhã e assim por
diante. Nos originais gregos, assim como na tradução KJ de 1611 constam as expressões: “da hora terceira; sexta; nona e da
décima primeira hora”. Entretanto, o Comitê Internacional de Tradução da Bíblia King James decidiu, para melhor compreensão
dessa parábola, pelo uso do atual sistema de divisão do dia natural em 24 horas. Tempo que a Terra leva para fazer uma rotação
completa sobre si mesma.
4 A Lei de Moisés garantia aos trabalhadores pobres (que ganhavam salário mínimo, ou um denário por dia) que fossem
pagos por seus contratadores até o fim do dia ou até que o brilho das primeiras estrelas pudesse ser observado no céu (Lv
19.13; Dt 24.14,15).
5 A parte final deste versículo no original grego é: “...ou o olho teu mau é porque eu bom sou?” Essa expressão está relacionada
ao suposto poder de amaldiçoar que existe nos olhos de uma pessoa que inveja (não apenas do invejoso compulsivo). Desde o
AT (1Sm 18.6-16), havia uma associação entre o olhar perverso e a inveja (daí a expressão popular: mau-olhado).
6 Esta parábola está repleta de ensino e sabedoria. Não é possível um comentário extenso aqui, mas é importante dizer que
Jesus usou uma história bem conhecida dos judeus para esclarecer um pouco mais sobre como é a vida no Reino de Deus.

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45 MATEUS 20

Outra vez Jesus prediz seu sacrifício 21 “O que desejas?” - perguntou Jesus. Ela
(Mc 10.32-34; Lc 18.31-34) respondeu: “Ordena que no teu Reino
17 Jesus estava, então, pronto para subir a estes meus dois filhos se assentem um à
Jerusalém, quando chamou à parte seus tua direita, e o outro à tua esquerda”.
doze discípulos e lhes falou: 22 “Não sabeis o que pedis!”, contestou-
18 “Agora estamos subindo para Jerusa- lhes Jesus. “Podeis vós beber o cálice que
lém, e o Filho do homem será entregue Eu estou prestes a beber e ser batizados
aos chefes dos sacerdotes e aos escribas. com o batismo com o qual estou sendo
Eles o condenarão à morte. batizado?”. E eles afirmaram: “Podemos!”.
19 E o entregarão aos gentios para ser 23 Então Jesus lhes declarou: “Certamen-
zombado, torturado e crucificado; mas te bebereis do meu cálice; mas quanto ao
ao terceiro dia Ele será ressuscitado!”.7 assentar-se à minha direita ou à minha
esquerda, não cabe a mim outorgá-lo.
É preciso sabedoria para pedir Esses lugares pertencem àqueles a quem
(Mc 10.35-45) foram reservados por meu Pai”.9
20 Naquele momento, aproximou-se de 24 Ao ouvirem isso, os outros dez ficaram
Jesus a esposa de Zebedeu, com seus filhos injuriados contra os dois irmãos.
e, prostrando-se, fez um pedido a Ele.8 25 Então Jesus os chamou e explicou:

Desde o AT, muitos mestres e rabinos usavam parábolas para comunicar seus ensinos. Acontece que essa história, em várias
versões, era contada para realçar a doutrina das recompensas divinas, e seguia a mesma linha moral da conhecida fábula de La
Fontaine: “A Cigarra e a Formiga”. A história rabínica, em síntese, era assim: “Um rei recrutou muitos trabalhadores, mas um deles
trabalhou muitos dias para o reino. No dia do pagamento, o rei pagou pouco aos que tinham trabalhado pouco e recompensou
regiamente ao que fora fiel o tempo todo”. Ou seja: muito trabalho, muita recompensa; nenhum trabalho, punição ou nenhuma
recompensa. Jesus, porém, dá um desfecho novo, inusitado e ameaçador ao recontar essa parábola tradicional. Jesus declarou
que Deus dá recompensas aos seus filhos (Mt 5.12,46; 6.1; 5.16; 10.41). Mas, da mesma maneira inequívoca, ensinou que todos
os que servem a Deus com a principal intenção de com isso “merecer” bênçãos e favores, perderão a verdadeira felicidade, aqui
e na eternidade. Quem realiza boas obras contando com as recompensas, vai se aborrecer com a misericórdia e a bondade de
Deus. É por isso que os judeus, especialmente os que mais se esforçavam (escribas e fariseus), começaram a odiar a Jesus. Eles
tinham um lema na época: “A Torá (a Lei) foi dada a Israel para mostrar como adquirir méritos”. É até compreensível que eles se
irritassem com o novo ensino e com a generosidade de Deus; e que muitos deles, como na parábola, de “primeiros” se tornaram
“últimos”, ou como o irmão mais velho, que na história do “filho pródigo” irou-se e excluiu-se da alegria de reaver o irmão perdido
(Lc 15.11-32). Jesus ensina também, através dessa parábola, que os judeus, os primeiros a receber a gloriosa chamada divina,
não serão os primeiros a receber o galardão final (recompensa, prêmio), pois a Salvação não vem da herança racial, nem do
legalismo religioso, mas da generosidade e graça divinas. Assim também, a Salvação é a maior gratificação que um ser humano
pode receber em toda a sua vida e vale por toda a eternidade. Portanto, não existem “salvos de segunda classe”. Uma vez salvo;
salvo de primeira classe e para sempre. Deus é soberano e, absolutamente tudo depende dele. O ser humano não pode fazer
nada para salvar-se, a não ser aceitar humildemente a vontade do Senhor e andar segundo a Palavra. Entretanto, a graça de Deus
pode transformar qualquer fariseu em um dos “primeiros” (novamente), como aconteceu com Saulo de Tarso, nosso irmão Paulo
(At 9.1-31). A frase: “Pois, muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”, não consta de alguns manuscritos gregos, embora
faça referência às palavras de Jesus em 19.23-26 e refíra-se a parte de todas as revisões da KJ desde 1611 até hoje.
7 Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Teve início na cidade de Efraim (Jo 11.54), passando pela Galiléia (Lc 17.11),
seguindo mais para o sul, chegando a Jericó, passando pela Peréia (Lc 18.35), por Betânia (Lc 19.29), até chegar a Jerusalém (Lc
19.41). Jesus desejou muito celebrar sua última Páscoa com seus discípulos; uma multidão de peregrinos os acompanhava. Jesus
seria o Cordeiro Pascal da humanidade; mas nem seus discípulos mais chegados conseguiam entender por que o Messias haveria
de ser humilhado e morto se as profecias apontavam para um grande libertador, maior que Moisés. Nesta terceira predição sobre o
seu sacrifício, Jesus acrescenta que Ele não seria executado pelos judeus, que o apedrejariam, mas pelos gentios (romanos). Todos
esses detalhes proféticos só fariam sentido na mente dos discípulos após a morte e ressurreição de Jesus (28.6).
8 Marcos nos revela que esses filhos de Zebedeu e Salomé (irmã de Maria, mãe de Jesus) eram os primos do Senhor: Tiago e
João. O pedido foi feito numa reunião com Jesus, solicitada pela mãe dos dois apóstolos (27.56; Mc 10.35; 15.40; Jo 19.25). Tanto
o pedido como a indignação dos outros discípulos revela que todas aquelas pessoas aguardavam para breve o estabelecimento
do poderoso reino do Messias na terra, apesar da clara profecia sobre a Paixão do Senhor.
9 Jesus usa uma metáfora bastante conhecida dos judeus, especialmente no AT (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7),
quase sempre associada ao juízo e à ira de Deus contra o pecado. A expressão hebraica: beber o cálice significava compartilhar do
destino de alguém. Assim, o cálice refere-se ao castigo divino que Jesus teria de receber em lugar de cada ser humano. O batismo é
outra figura de linguagem que, assim como o cálice, explica o sentido do sofrimento e morte do Senhor (Lc 12.50; Rm 6.3,4). Jesus
demonstra mais uma vez sua absoluta divindade ao revelar que conhecia o destino dos discípulos, mas que não podia usurpar a

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MATEUS 20, 21 46

“Sabeis que os governadores dos po- perguntou: “O que quereis que Eu vos
vos os dominam e que são as pessoas faça?”.11
importantes que exercem poder sobre 33 “Senhor! Que se abram os nossos
as nações. olhos”, responderam eles.
26 Não será assim entre vós. Ao contrário, 34 Jesus sentiu compaixão e tocou nos
quem desejar ser importante entre vós olhos deles. No mesmo instante os cegos
será esse o que deva servir aos demais. recuperaram a visão e o seguiram.
27 E quem quiser ser o primeiro entre vós
que se torne vosso escravo. Jesus é aclamado pelas multidões
28 Assim como o Filho do homem, que (Mc 11.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19)
não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida como único resgate por
muitos”.10
21 Ao se aproximarem de Jerusalém,
chegaram a Betfagé, no monte
das Oliveiras. Então, Jesus enviou dois
discípulos,1
Os cegos recuperam a visão 2 e recomendou-lhes: “Ide ao povoado
(Mc 10.46-52; Lc 18.35-43) que está adiante de vós e logo encon-
29 Ao saírem de Jericó, uma grande mul- trareis uma jumenta amarrada, com seu
tidão acompanhava Jesus. burrico ao lado. Desamarrai-os e trazei-
30 De repente, dois cegos, que estavam os para mim.2
assentados à beira do caminho, tendo 3 Se alguém vos questionar algo, deveis
ouvido que Jesus passava, puseram-se a dizer que o Senhor necessita deles e
gritar: “Senhor! Filho de Davi, tem mise- sem demora os devolverá”.
ricórdia de nós”. 4 No entanto, isso ocorreu para que se
31 Entretanto, a multidão os repreendeu cumprisse o que fora dito por meio do
para que se calassem, mas eles clamavam profeta:
ainda mais: “Senhor! Filho de Davi! Tem 5 “Dizei à filha de Sião: ‘Eis que o teu rei
misericórdia de nós!”. chega a ti, humilde e montado num bur-
32 Jesus, parando, chamou-os e lhes rico, um potro, cria de jumenta’”.

autoridade do Pai. Assim, Tiago foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado (At 12.2). A última parte da pergunta de Jesus não
consta de alguns originais gregos, mas é clara em Mc 10.38 e consta de todas as revisões textuais da KJ desde 1611.
10 Não é aconselhável rejeitar a ajuda e o serviço dos nossos companheiros, mas “ser servidos” não deve ser a nossa ambição.
Devemos seguir o exemplo de Jesus que, sendo Deus, entregou “a sua vida” ou “a sua alma” (em grego ten psychen autou) para
pagar toda a punição imposta à humanidade pela quebra da ordem (Lei) de Deus no Éden: a morte eterna. Todo pecado demanda
indenização, expiação e pagamento. A Lei de Deus jamais ordenou sacrifícios humanos; mas, em relação ao pecado original, era
necessário que um ser humano sem pecado fosse imolado. Jesus se ofereceu para pagar nosso “resgate” (em grego lytron), palavra
derivada do verbo grego luo que significa “libertar” e usada na época ao se tratar da alforria de escravos. Jesus usou outra forte me-
táfora para comparar seu sacrifício ao ato de pagar o preço pedido pela venda de um escravo muito caro, comprado, todavia, para
ganhar a liberdade. Por isso, os cristãos estão livres, de uma vez por todas, do poder e da escravidão do pecado (do erro) e da pena
da morte eterna. Essa frase de Cristo é uma das poucas ocasiões em que a doutrina da redenção vicária é citada nos Evangelhos
sinóticos (1Tm 2.6). A salvação é oferecida de graça a todos, mas apenas os “muitos” a recebem em seus corações (1Jo 1.12-14).
11 Mateus cita dois cegos, enquanto os demais sinóticos destacam apenas um (Mc 10.46-52; Lc 18.35-43). Realmente eram
dois cegos, ocorre que Bartimeu, devido à sua personalidade, ganhou proeminência. A cura ocorreu durante a saída da Velha
Jericó para a Nova Jericó.
Capítulo 21
1 Betfagé, em hebraico significa “Casa dos Figos” (Lc 19.29). Segundo o Talmude, era uma pequena vila situada a cerca de
um quilômetro a leste de Jerusalém, na encosta sul do monte das Oliveiras. Aqui tem início a última semana da vida humana
de Jesus Cristo.
2 Jesus decide entrar em Jerusalém, desta vez, montado em um jumentinho (Jo 12.15). E isso, sob as homenagens das multi-
dões, para demonstrar claramente que Ele era o Messias prometido há séculos (Zc 9.9). O Filho de Davi, escolhido para ocupar
seu trono (1Rs 1.33,44). Os potros ou burricos (crias de jumenta), antes de serem submetidos a qualquer trabalho secular, eram
especialmente considerados para trabalhos religiosos (Nm 19.2; Dt 21.3; Sm 6.7), e simbolizavam humildade, paz, e a majestade
de Davi. Mateus revela o cuidado de Jesus em não apartar o jumentinho de sua mãe e levar ambos consigo para sua procissão
triunfal como Rei de Israel.

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47 MATEUS 21

6 Então os discípulos foram e fizeram o 13 E repreendeu-os: “Está escrito: ‘A mi-


que Jesus lhes havia mandado.3 nha casa será chamada casa de oração’;
7 Trouxeram-lhe a jumenta com o vós, ao contrário, estais fazendo dela um
jumentinho, os selaram com mantas ‘covil de salteadores’”.5
para cavalgar, e sobre as mantas Jesus 14 Então levaram a Jesus, no templo, ce-
montou. gos e aleijados, e Ele os curou.
8 Então, uma grande multidão estendia 15 Entretanto, quando os chefes dos
suas capas pelo caminho, muitos outros sacerdotes e os escribas viram as mara-
cortavam ramos de árvores e os espalha- vilhas realizadas por Jesus, e as crianças
vam pela estrada. exclamando no templo: “Hosana ao Fi-
9 E as multidões, tanto as que iam adi- lho de Davi!”, revoltaram-se e indagaram
ante dele, quanto as que o seguiam, pro- dele:
clamavam: “Hosana ao Filho de Davi! 16 “Não ouves o que estas crianças estão
‘Bendito seja Ele que vem em o Nome do proclamando?”. Ao que Jesus lhes res-
Senhor!’ Hosana nas alturas!”4 pondeu: “Sim. E vós, nunca lestes: ‘Dos
10 Assim que Jesus entrou em Jerusalém, lábios das crianças e dos recém-nascidos
toda a cidade ficou alvoroçada, e comen- suscitaste louvor’”.
tavam: “Quem é este?” 17 E, deixando-os, saiu da cidade em di-
11 Então as multidões exclamavam: “Este reção a Betânia, onde passou a noite.6
éoprofetaJesus,vindodeNazarédaGaliléia!”.
A figueira que não deu fruto
O templo é casa de oração! (Mc 11.12-14; 20-25)
(Mc 11.15-19; Lc 19.45-48) 18 Ao amanhecer, quando retornava para
12Tendo Jesus entrado no pátio do tem- a cidade, Jesus teve fome.
plo, expulsou todos os que ali estavam 19 Avistando uma figueira à beira da
comprando e vendendo; também tom- estrada, aproximou-se dela, porém nada
bou as mesas dos cambistas e as cadeiras encontrou, a não ser folhas. Então decre-
dos comerciantes de pombas. tou-lhe: “Nunca mais se produza fruto

3 O próprio Jesus usa a expressão: “Senhor” (Senhor de Israel) como seu título divino (16.18). Mateus usou as profecias regis-
tradas na Septuaginta (AT em grego), em Is 62.11 e Zc 9.9 para mostrar que a maioria do povo havia compreendido que Jesus
era mesmo o Rei-Messias prometido.
4 Hosana é uma expressão grega (hõsanna), que significa “Salva-nos!” e vem do hebraico transliterado (hôshi´â nã´), que quer
dizer: “Salva, Senhor, por misericórdia!” Mateus revela que expressões de júbilo emanavam da multidão, e não que fosse uma
frase só a ser repetida indefinidamente. Essa aclamação do povo é baseada em 2Sm 14.4, Sl 118.25-27 e Sl 148.1-2, cantada
na Festa dos Tabernáculos e, em Mateus, aplicada a Jesus. Como um ato de homenagem régia, o povo pavimentou, com seus
próprios mantos (capas), o caminho por onde passou o Senhor. Com o passar do tempo, a palavra “hosana” tornou-se uma
exclamação de louvor e alegria espiritual.
5 O termo grego original (to hieron), que significa “o templo”, indica toda a área sobre o monte Moriá, ocupada pelos diversos re-
cintos e a corte do templo. No domingo, após a entrada triunfal, Jesus continua sua obra de purificação da Casa do Senhor, iniciada
três anos antes (Jo 2.14). Uma atitude para demonstrar o quanto os judeus haviam ofendido ao Senhor, permitindo que seus cora-
ções fossem corrompidos pela ganância, dominados pelo pecado, e faltos de amor sincero para com Deus e com seu próximo. Isso
ocorre infelizmente ainda hoje em alguns templos cristãos, e entre seus membros. Jesus citou as Sagradas Escrituras, usando, da
versão Septuaginta (AT em grego), os textos de Is 56.7 com Jr 7.11. As ofertas, taxas e compras de animais para sacrifícios no templo
só podiam ser pagas com moeda hebraica (siclo hebreu), pois as demais moedas eram cunhadas com a imagem de divindades
pagãs ou do imperador, considerado pelos romanos e outros gentios como um deus. Entretanto, esse serviço de troca de moedas
(câmbio), compra e venda de animais, e produtos para os sacrifícios, deveria ser realizado com dignidade, no “grande átrio exterior
dos gentios”, um espaço reservado para essas atividades com mais de 50.000 m2. Todavia, os cambistas estavam explorando os
romeiros que vinham de muito longe e com dinheiro gentio para ofertar e sacrificar no templo. Além disso, a venda dos animais cul-
tualmente aceitáveis transformara-se apenas em lucrativo comércio, tanto que a área antes reservada já não comportava os estandes
de vendas e haviam invadido até o recinto sagrado. Vários sacerdotes lideravam a corrupção institucionalizada no templo, posto que
ao receberem os animais para holocausto, em vez de efetuarem o ritual do sacrifício, matavam apenas alguns deles, e repassavam
todos os demais para comerciantes fraudulentos, que os revendiam sucessivas vezes.
6 Os líderes dos sacerdotes e os doutores da lei viram os milagres de Cristo e temeram por suas vidas e negócios. Tentaram
enredar o Senhor num sofisma, ao alegar que um mestre tão zeloso como Jesus, não deveria deixar que crianças o adorassem

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MATEUS 21 48

em ti!”. E, no mesmo instante, a figueira nos indagará: ‘Sendo assim, por que não
ficou completamente seca. acreditastes nele?’
20 E quando viram o que ocorrera, muito 26 Porém, se alegarmos: humano, teme-
se admiraram os discípulos e exclamaram: mos o povo, pois todos consideram João
“Como foi possível esta figueira secar tão como profeta”.
depressa?”. 27 Por isso disseram a Jesus: “Não sa-
21 Então Jesus explicou-lhes: “Com bemos!”. Ao que Jesus afirmou-lhes:
certeza vos asseguro que, se tiverdes fé “Nem Eu vos direi com que autoridade
e não duvidardes, podereis fazer não procedo.9
apenas o que foi feito à figueira, mas da
mesma forma ordenardes a este monte: A parábola do pai e dois filhos
‘Ergue-te daqui e lança-te no mar’, e 28 Agora, qual a vossa opinião? Um ho-
assim acontecerá. mem tinha dois filhos. Aproximando-se
22 E tudo o que pedirdes em oração, se do primeiro, pediu: ‘Filho, vai trabalhar
crerdes, recebereis”.7 hoje na vinha’.
29 Mas este filho lhe disse: ‘Não quero ir’.
Líderes religiosos duvidam de Jesus Todavia, mais tarde, arrependido, foi.
(Mc 11.27-33; Lc 20.1-8) 30 Então chegou o pai até o segundo filho
23 Tendo Jesus chegado ao templo, en- e fez o mesmo pedido. Então este lhe res-
quanto ensinava, acercaram-se dele os pondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi.
chefes dos sacerdotes e os anciãos do 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?”.
povo e o questionaram: “Com que auto- Ao que eles responderam: “O primeiro”.
ridade fazes estas coisas aqui? E quem te Então Jesus lhes revelou: “Com toda a
deu essa autorização?”.8 certeza vos afirmo que os publicanos e
24 Jesus, porém, replicou-lhes: “Eu igual- as prostitutas estão ingressando antes de
mente vos lançarei uma questão. Se me vós no Reino de Deus.
responderdes, também Eu vos direi com 32 Porquanto João veio para vos mos-
que autoridade faço o que faço. trar o caminho da justiça, mas vós não
25 De onde era o batismo de João? Divino acreditastes nele; em compensação, os
ou humano?”. E eles discutiam entre si, cobradores de impostos e as meretrizes
avaliando: “Se respondermos: divino, Ele creram.Vós, entretanto, mesmo depois

como se fosse Deus. Entretanto, Jesus citou novamente as Escrituras e revelou que mais uma profecia acerca dele se cumpria
naquele momento (Sl 8.2). Jesus foi, então, para a casa dos seus queridos amigos Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria, que ficava
em Betânia, uma aldeia no declive oriental do monte das Oliveiras, uns dois quilômetros a leste de Jerusalém.
7 Mateus condensava suas narrativas, em contraste com o texto dos demais autores sinóticos (Marcos e Lucas). Marcos situa a
maldição da figueira na manhã de segunda-feira, mas na terça-feira pela manhã foi que os discípulos, passando por ela outra vez,
a observam completamente aniquilada (Mc 11.12-14, 20-25). Mateus, mais tarde, ao escrever seu Evangelho (testemunho ocular
da vida, mensagem e sinais de Jesus), segundo a inspiração do Espírito Santo, enfatiza o caráter imediato do Juízo de Deus.
Diversas podem ser as inferências teológicas acerca dessa passagem, especialmente em relação a Israel (Os 9.10; Na 3.12). Con-
tudo, a única aplicação que o próprio Senhor Jesus faz, tem a ver com a eficácia da oração que não duvida do poder de Deus.
8 Aqui começa a terça-feira da chamada “Semana Santa”. O Sinédrio (supremo juiz da corte de Israel) decide apelar para
o legalismo e pede credenciais autorizadas a Jesus por estar realizando um ato oficial no templo. Eles já haviam usado essa
estratégia com João Batista (Jo 1.19-25) e, em outra ocasião, com o próprio Jesus (Jo 2.18-22). Os líderes religiosos sentiam
em Jesus uma forte ameaça à sua posição, privilégios e lucros financeiros ilícitos. Por isso, procuravam apresentá-lo como um
revolucionário, fora da lei, e inimigo de Roma.
9 Grandes oradores e conhecedores do poder da palavra, os líderes religiosos procuram comprometer a Jesus por meio de um
questionamento ardiloso. Jesus é levado a declarar publicamente que era o Messias (como o povo aclamava). Assim poderiam
prendê-lo e entregá-lo aos romanos. A outra opção seria negar sua autoridade divina, passando então a ser totalmente desacre-
ditado pela multidão que o acompanhava. Jesus apelou para o testemunho de João Batista acerca dele e lhes propôs também
uma questão (Jo 1.32-34).

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49 MATEUS 21

de presenciardes a tudo isso, não vos arre- para fora da plantação de videiras e o
pendestes para acreditardes nele.10 assassinaram.12
40 Sendo assim, quando vier o dono da
A parábola dos vinicultores maus vinha, o que fará com aqueles lavradores?”.
(Mc 12.1-12; Lc 20.9-19) 41 Diante disso, responderam-lhe: “Ele
33 E mais, atentai a esta parábola: Havia destruirá esses perversos de forma ter-
um certo proprietário de terras, que rível e arrendará seu campo de videiras
plantou um campo de videiras. Ergueu para outros cultivadores que lhe enviem
uma cerca ao redor delas, construiu um a sua parte no devido tempo das colhei-
tanque para prensar as uvas e edificou tas”.13
uma torre. Finalmente, arrendou essa 42 Então Jesus lhes inquiriu: “Nunca
vinha para alguns vinicultores e foi lestes isto nas Escrituras? ‘A pedra que
viajar.11 os construtores rejeitaram, tornou-se
34 Chegando a época da safra, enviou a pedra angular; e isso procede do
seus servos até aqueles lavradores, para Senhor, sendo portanto, maravilhoso
receber os seus dividendos. para nós’.
35 Porém os lavradores atacaram seus 43 Por isso, Eu vos declaro que o Reino
servos; a um espancaram, a outro mata- de Deus será retirado de vós para ser
ram, e apedrejaram o terceiro. entregue a um povo que produza frutos
36 Então lhes mandou outros servos, em dignos do Reino.
maior número do que da primeira vez, 44 Todo aquele que cair sobre esta pedra
mas os lavradores os trataram da mesma se arrebentará em pedaços; e aquele sobre
maneira. quem ela cair ficará reduzido a pó!”.14
37 Por fim, decidiu enviar-lhes seu pró- 45 Depois que os chefes dos sacerdotes e
prio filho, considerando: ‘Eles respeita- os fariseus ouviram as parábolas que Je-
rão o meu filho’. sus lhes havia contado, compreenderam
38 Contudo, assim que os lavradores que era sobre eles próprios que Jesus
viram o filho, tramaram entre si: ‘Este estava falando.
é o herdeiro! Então vamos, nos unamos 46 E por causa disso procuravam um
para matá-lo e apoderemo-nos da sua motivo para prendê-lo; mas tinham
herança’. receio das multidões, porquanto elas o
39 E assim, eles o agarraram, jogaram-no consideravam profeta.

10 As versões de Almeida invertem a posição dos versículos 29 e 30. Entretanto, a Bíblia King James e a NVI seguem a mesma
ordem original. Jesus resolve o debate com os sacerdotes, propondo duas histórias (as respostas parabólicas de Jesus). A
autoridade maior vem da obediência amorosa e sincera a Deus; não de uma liderança autoritária, maquiavélica e despótica, que
depende apenas de títulos e diplomas e, ainda mais, corrompida pela falta de dignidade. Como podem os eleitos para cuidar da
Casa do Senhor (autoridades eclesiásticas), rejeitar o dono da Casa e o Evangelho do Reino?
11 Segundo a tradição rabínica, uma “torre” deveria ser construída na vinha, para abrigar o responsável pelo campo, que vigiava
a plantação, especialmente quando chegava o tempo da colheita e as uvas ficavam maduras. Era, normalmente, uma plataforma
elevada feita de madeira, com cerca de 5m de altura por 2m de lado.
12 Assim como seria um absurdo que os agricultores de um campo arrendado pudessem herdar essa terra ao assassinar seu
dono, maior loucura foi os líderes espirituais e teólogos da época imaginarem que a incriminação e a crucificação de Jesus Cristo,
o Filho de Deus, lhes garantiria a herança e o domínio de Israel.
13 Ao se escandalizarem com o erro dos outros, sem atentarem para seus pecados, e julgarem severamente os lavradores da
parábola de Jesus, os sacerdotes estavam decretando sua própria punição: os judeus que não aceitassem a verdadeira men-
sagem de Deus em Cristo ficariam sem a herança espiritual. No ano 70 d.C. o Templo e toda a cidade de Jerusalém sofreram a
mais arrasadora destruição até hoje registrada em sua história. Uma vez que o Evangelho foi rejeitado pelos judeus, Deus dirige
sua graça salvadora aos gentios, salva e convoca Paulo para ser seu apóstolo (em grego apostellõ, enviado por Deus com uma
missão específica). Já no segundo século da era cristã, a Igreja era composta, quase que totalmente, por não judeus (gentios).
14 Jesus é o alicerce seguro, a pedra fundamental, para todos aqueles que confessam o seu nome e edificam suas vidas nele,
passando assim a fazer parte do grande edifício de Cristo, como pedras vivas (16.18; 1Pe 2.4-5). Entretanto, para os que rejeitam
o Senhor, recusando-se a crer em Jesus, o Cristo (o Messias prometido), Ele se torna em pedra de tropeço e de condenação

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MATEUS 21, 22 50

A parábola do banquete nupcial encontrar, gente boa e pessoas más, e a


(Lc 14.15-24) sala do banquete das bodas ficou repleta
22 Jesus continuou a pregar-lhes por
meio de parábolas, dizendo:
2 “O Reino dos céus é semelhante a um
de convidados.
11 Entretanto, quando o rei entrou para
saudar os convidados que estavam à
rei que mandou realizar um banquete mesa, percebeu que um homem não
nupcial para seu filho.1 trajava as vestes nupciais.
3 E, por isso, enviou seus servos a concla- 12 E indagou-lhe: ‘Amigo, como aden-
mar os convidados para as bodas do fi- traste este recinto sem as suas vestes
lho; mas estes rejeitaram o chamamento. próprias para as bodas?’ Mas o homem
4 Uma vez mais, mandou outros servos, não teve resposta.
com esta ordem: ‘Dizei aos que foram 13 Então, ordenou o rei aos seus servos:
convidados que lhes preparei meu ban- ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-
quete; os meus bois e meus novilhos o para fora, às trevas; ali haverá grande
gordos foram abatidos, e tudo está pre- lamento e ranger de dentes’.4
parado. Vinde todos os convidados para 14 Portanto, muitos são chamados, mas
as bodas do meu filho!’2 poucos, escolhidos!”.
5 Mas os convidados nem deram atenção
ao chamado dos servos e se afastaram: Dai a César o que é de César
um para o seu campo, outro para os seus (Mc 12.13-17; Lc 20.20-26)
negócios. 15 E, assim, se afastaram os fariseus, tra-
6 E outros ainda, atacando os servos, mando entre si como fariam para enre-
maltrataram-nos e os assassinaram. dar a Jesus em suas próprias afirmações.
7 O rei indignou-se sobremaneira e, en- 16 Então, mandaram-lhe seus seguidores
viando seu exército, aniquilou aqueles juntamente com alguns herodianos, que
criminosos e incendiou-lhes a cidade.3 lhe questionaram: “Mestre, sabemos que
8 Então, disse o rei a seus servos: ‘O ban- és íntegro e que ensinas o caminho de
quete de casamento está posto, contudo Deus, de acordo com a verdade, sem te
os meus convidados não eram dignos. deixares induzir por quem quer que seja,
9 Ide, pois, às esquinas das ruas e convi- pois não te seduzes pela aparência das
dai para as bodas todas as pessoas que pessoas.
encontrardes. 17 Sendo assim, dize-nos: que te pareces?
10 E, assim, os servos saíram pelas estra- É correto pagar impostos a César ou não?”.5
das e reuniram todos quantos puderam 18 Contudo, Jesus percebeu a má inten-

eterna (Is 8.14-15; Lc 20.17; Rm 9.32; 1Pe 2.6-8). Assim como um vaso de barro se despedaça ao ser arremessado contra uma
rocha, ou é esmagado ao ser atingido por uma enorme pedra, da mesma forma virá a destruição sobre todos aqueles que rejei-
tarem o senhorio de Cristo (Is 8.14; Dn 2.34,35,44; Lc 2.34). É importante notar que, mais tarde, o apóstolo Pedro fez questão de
salientar que Jesus era a sua Pedra, Rocha Principal, seu Sustentador, e que cada indivíduo deve aceitar a Pedra (Jesus), para
ser salvo e ganhar a vida eterna (At 4.8-12).
Capítulo 22
1 Jesus apresenta o Reino dos céus em outras parábolas, veja no capítulo 13.
2 A proclamação do Evangelho é o doce e insistente convite do Rei do Universo a todo ser humano, para tomar parte em seu
maravilhoso banquete de núpcias. Ainda assim, muitas pessoas estão de tal forma iludidas com suas exigências presentes e
materiais que se recusam a dar atenção à generosidade divina.
3 Todos aqueles que se apresentam como inimigos declarados do Evangelho, assim como os falsos cristãos, serão destruídos.
Da mesma forma como a cidade de Jerusalém foi completamente arrasada e queimada pelos romanos, no ano 70 d.C.
4 Era costume, naquela época e região, o anfitrião fornecer roupas adequadas ao casamento, para os convidados que não
pudessem comprá-las. Como esse grupo de pessoas veio diretamente das ruas, todos ganharam suas roupas cerimoniais.
Entretanto, um daqueles novos convidados, rejeitou também a hospitalidade e a generosidade do rei. A veste nupcial simboliza a
justificação com a qual Cristo veste todas as pessoas que aceitam o dom gratuito da Salvação (Rm 13.14; Ap 19.8).
5 Os fariseus, como nacionalistas radicais, eram contra o domínio romano. Os herodianos, entretanto, como a própria denomi-
nação revela, apoiavam o império romano de Herodes. Mas, diante de uma ameaça maior, fariseus e herodianos se unem numa
cilada dialética contra Jesus. Os maus se juntam no ataque ao Sumo Bem. Se a resposta de Jesus fosse “Não”, os herodianos

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51 MATEUS 22

ção deles e replicou-lhes: “Por que me 27 Finalmente, após a morte de todos, a


tentais, hipócritas? mulher também faleceu.
19 Deixai-me ver a moeda com a qual se 28 Sendo assim, na ressurreição, de qual
pagais os tributos”. E eles lhe mostraram dos sete ela será esposa, considerando
um denário. que todos foram casados com ela?”
20 Então lhes indagou: “De quem é esta 29 Então Jesus lhes esclareceu: “Vós estais
figura e esta inscrição?”. equivocados por não conhecerdes as Es-
21 Responderam-lhe: “De César!”. Então, crituras nem o poder de Deus!
lhes afirmou: “Portanto, dai a César o que 30 Na ressurreição, as pessoas não se ca-
é de César, e a Deus o que é de Deus!”. sam nem são dadas em matrimônio; são,
22 Ao ouvirem tal resposta, ficaram per- todavia, como os anjos do céu.
plexos e, afastando-se dele, se retiraram.6 31 E, com relação à ressurreição dos mortos,
não tendes lido o que Deus vos declarou:
Os saduceus e a ressurreição 32 ‘Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de
(Mc 12.18-27; Lc 20.27-40) Isaque e o Deus de Jacó’? Por isso, Ele
23 Naquele mesmo dia, os saduceus, que não é Deus de mortos, mas sim, dos que
pregam a inexistência da ressurreição, vivem!”.8
aproximaram-se de Jesus com uma 33 Ao ouvir tudo isso, as multidões fica-
questão:7 ram estupefatas com o ensino de Jesus.
24 “Mestre, Moisés ensinou que se um
homem morrer sem deixar filhos, seu O maior dos mandamentos
irmão deverá casar-se com a viúva e dar- (Mc 12.28-34)
lhe descendência. 34 Assim que os fariseus ouviram que
25 Entre nós havia sete irmãos. O primei- Jesus havia deixado os saduceus sem pa-
ro casou-se e morreu. Como não teve lavras, reuniram-se em conselho.
filhos, deixou a mulher para seu irmão. 35 E um deles, juiz perito na Lei, formulou
26 Da mesma maneira ocorreu com o uma questão para submeter Jesus à prova:
segundo, com o terceiro, até chegar ao 36 “Mestre, qual é o maior mandamento
sétimo. da Lei?”9

o delatariam ao governador romano, que teria o direito de executá-lo por traição. Se respondesse “Sim”, então os fariseus o
denunciariam diante do povo judeu, por deslealdade a Israel e ao judaísmo.
6 O dinheiro usado no império romano para pagar os impostos chamava-se “denário”. Uma moeda romana, cujo valor corres-
pondia a um dia de trabalho braçal, criada no governo de Tibério, e que trazia, em um dos lados, o retrato do imperador, e do
outro, a inscrição em latim: “Tibério César Augusto, filho do divino Augusto”. Jesus explana sua tese de forma magistral e deixa
todos atônitos diante de sua devoção ao Pai, sabedoria, simplicidade e coerência. Foi Deus quem deu a César poder e autoridade
(Rm 13.1-7). Todos os governos deste mundo, em todas as épocas, vivem de tributos recolhidos do povo. Entretanto, o governo
espiritual tem sua moeda própria e eterna: fé, amor, bondade, compaixão, misericórdia (Lc 20.20-25; Gl 5.22-26). O Reino de Deus
não é deste mundo. Seu modus vivendi (estilo de vida) é espiritual e visa o benefício de todos os seres e não a exploração do ho-
mem pelo homem. Jesus reconheceu a distinção entre responsabilidades políticas e espirituais. Ao governo devemos impostos e
obediência, política justa. No tributo às autoridades cívicas, apenas retribuímos parte daquilo que oferecem. Para Deus, devemos
nossa adoração, louvor, gratidão, obediência, serviço e a dedicação de todo o nosso ser.
7 Os “saduceus” formavam um partido aristocrático que dominava a vida política dos judeus, inclusive a posição do sumo sa-
cerdote. Não acreditavam na ressurreição, nem na existência dos anjos e, muito menos, na imortalidade da alma. Para eles, a vida
era apenas um “aqui e agora” e nada mais. Esse era um dos aspectos que mais lhes causava divergências com os fariseus.
8 Os saduceus apresentaram uma questão fechada para Jesus. Eles aceitavam apenas os primeiros cinco livros da Bíblia como
autoridade divina, e há séculos estudavam o assunto sobre o qual interrogaram Jesus. Reivindicaram a lei do levirato (do latim levir,
cunhado), promulgada a fim de proteger as viúvas, garantir as propriedades e a continuidade da linhagem familiar (Dt 25.5,6; Gn 38.8),
para zombar da doutrina da ressurreição defendida por Cristo e com isso desmoralizá-lo. Entretanto, Jesus usou o próprio Pentateuco
para mostrar que eles não estudavam as Escrituras com o devido amor a Deus e por isso erravam. Nos céus não há casamentos e re-
ceberemos novos corpos, como os de anjos, entre os quais não há macho ou fêmea. Portanto, debater esse assunto não faz sentido.
Além disso, os crentes ressuscitados viverão eternamente, uma verdade firmada no caráter de Deus (Êx 3.6; Lc 20.28).
9 Os fariseus eram muito legalistas, tanto que se emaranhavam em suas próprias leis e decretos. Discutiam sempre sobre
quais, dentre suas muitas ordenanças, eram prioritárias para que um judeu alcançasse o Reino dos céus e o Shabbãth (o grande

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MATEUS 22, 23 52

37 Asseverou-lhe Jesus: 46 E ninguém foi capaz de oferecer-lhe


“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o uma só palavra em resposta à questão;
teu coração, de toda a tua alma e com tampouco ousou alguém mais, a partir
toda a tua inteligência.10 daquele dia, dirigir-lhe qualquer outra
38 Este é o primeiro e maior dos manda- pergunta.
mentos.
39 O segundo, semelhante a este, é: Os doutores da Lei falam, mas não agem
‘Amarás o teu próximo como a ti (Mc 12.38-40; Lc 11.37-52; 20.45-47)
mesmo’.
40 A estes dois mandamentos estão sujei-
tos toda a Lei e os Profetas”.
23 Então, Jesus pregou às multidões
e aos seus discípulos:
2 “Os escribas e os fariseus se assentam
na cadeira de Moisés.1
Jesus é o Senhor de Davi 3 Fazei e obedecei, portanto, a tudo
(Mc 12.35-37; Lc 20.41-44) quanto eles vos disserem. Contudo, não
41 Estando reunidos os fariseus, Jesus façais o que eles fazem, porquanto não
lhes indagou: praticam o que ensinam.
42 “Qual a vossa opinião acerca do Mes- 4 Eles atam fardos pesados e os colocam
sias? De quem Ele é filho?”. Ao que eles sobre os ombros dos homens. No entan-
lhe afirmaram: “É filho de Davi”. to, eles próprios não se dispõem a levan-
43 Contestou-lhes Jesus: “Então, como se tar um só dedo para movê-los.
explica que Davi, falando pelo Espírito, o 5 Tudo o que realizam tem como alvo
trata de ‘Senhor’? Pois ele afirma: serem observados pelas pessoas. Por isso,
44 ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Assen- fazem seus filactérios bem largos e as
ta-te à minha direita, até que Eu ponha franjas de suas vestes mais longas.2
os teus inimigos debaixo dos teus pés’. 6 Amam o lugar de honra nos banquetes
45 Considerando que Davi o chama e os primeiros assentos nas sinagogas.
‘Senhor’, como pode ser Ele seu filho?”.11 7 Gostam de ser cumprimentados nas

Sábado, ou o descanso eterno). Eles haviam interpretado e abstraído do AT um total de 248 preceitos afirmativos. E mais 365
negativos, que acreditavam ser da vontade de Deus, pois o número coincidia com o número de dias do ano. Além disso, o total
desses mandamentos: 613, era o mesmo que o número de letras contidas no Decálogo.
10 Jesus mais uma vez aproveita a oportunidade para mostrar àqueles líderes religiosos e a seus muitos discípulos ao redor, res-
ponsáveis pela continuação do ensino das Escrituras ao povo, que a mentalidade divina e o modo espiritual de raciocinar dife-riam em
muito da limitada e egoísta dialética humana. Jesus então cita Dt 6.5, uma parte do Shema, orações e reflexões diárias dos judeus. Na
Septuaginta (o AT em grego) a palavra aqui traduzida por “inteligência” é, literalmente, “mente” (Mc 12.30). O verbo grego traduzido
aqui por “amarás” não é phileõ, como em algumas versões, que significa uma afeição entre amigos; mas, sim, o verbo agapaõ: uma
obrigação de dedicação absoluta a alguém, determinada pela vontade (Mq 6.8; Am 5.4; Is 33.15; Hc 2.4). Jesus foi o primeiro líder
espiritual judeu a combinar os dois mandamentos de amor, para formar o mais sintético resumo da Lei (Lv 19.18), revelando aos
fariseus, e a todos nós, que não são os muitos regulamentos e leis que tornam uma pessoa santa; mas, sim, seu genuíno e sincero
amor a Deus e a seu próximo mais achegado (familiares), e a seus próximos e vizinhos (comunidade, sociedade).
11 Finalmente, é Jesus quem questiona. Os fariseus eram profundos estudiosos sobre o Messias e sua vinda, como Libertador
de Israel. Entretanto, há séculos interpretavam erroneamente a pessoa e a obra do Messias. Imaginavam um rei, pleno de poderes
divinos, que viria como guerreiro invencível, para libertar Israel do império gentio e conceder saúde, paz e riqueza ao povo judeu.
Conheciam o Messias como Filho de Davi, mas não como o Senhor de Davi (Sl 110.1), tampouco seu domínio espiritual em
amor e humildade (Lc 20.42-44). Jesus desejava que os seus compreendessem que ele era o Messias prometido: o descendente
humano de Davi e o seu divino Senhor.
Capítulo 23
1 Os escribas, doutores e mestres da Lei, bem como os fariseus, partido político religioso que defendia a observância literal
da Torah (Lei) e mais uma série de ordenanças e preceitos por eles criados para situações não diretamente cobertas pela Torah.
Convencidos de que possuíam a correta interpretação da vontade de Deus, afirmavam que a tradição dos anciãos, a lei oral (tôrâ
shebe‘al peh) vinha de Moisés e desde o monte Sinai. Fariseus e escribas eram, portanto, os sucessores autorizados da tradição
de Moisés como mestres da Lei.
2 Os filactérios ou tefilins eram pequenos rolos ou caixinhas de couro que os judeus religiosos usavam presos à testa, perto
do coração, e no braço esquerdo. Essas pequenas cápsulas continham quatro passagens da Torah: Êx 13.1-10 e 11-16; Dt
6.4-9 e 11.13-21. Com o passar do tempo, os judeus começaram a respeitar e honrar esses pequenos recipientes, tanto quanto

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53 MATEUS 23

praças e de serem, pelas pessoas, chama- terras para fazer de alguém um prosé-
dos: ‘Rabi, Rabi!’.3 lito. No entanto, uma vez convertido, o
8 Vós, todavia, não sereis tratados de tornais duas vezes mais filho do inferno
‘Rabis’; pois um só é vosso Mestre, e vós do que vós!
todos sois irmãos. 16 Ai de vós, guias cegos! Porque ensinais:
9 E a ninguém sobre a terra tratai de vos- ‘Se uma pessoa jurar pelo santuário, isso
so Pai; porquanto só um é o vosso Pai, não tem significado; porém, se alguém
aquele que está nos céus. jurar pelo ouro do santuário, fica obriga-
10 Também não sereis chamados de líde- do a cumprir o que prometeu’.
res, pois um só é o vosso Líder, o Cristo.4 17 Tolos e cegos! Pois o que é mais impor-
11 Porém o maior dentre vós seja vosso tante: o ouro ou o santuário que santifica
servo. o ouro?
12 Portanto, todo aquele que a si mesmo se 18 E mais, dizeis: ‘Se uma pessoa jurar pelo
exaltar será humilhado, e todo aquele que altar, isso nada significa; mas, se alguém
a si mesmo se humilhar será exaltado. jurar pela oferta que está sobre ele, fica,
13 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, assim, comprometido ao seu juramento’.
hipócritas! Porque fechais o reino dos 19 Embotados! O que é mais importante:
céus diante dos homens. Porquanto vós a oferta, ou o altar que santifica a oferta?
mesmos não entrais, nem tampouco dei- 20 Portanto, a pessoa que jurar em nome
xais entrar os que estão a caminho!5 do altar, jura pelo altar e por tudo o que
14 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, está sobre ele.
hipócritas! Porque devorais as casas das 21 E quem jurar pelo santuário, jura pelo
viúvas e, para disfarçar, encenais longas santuário e em nome daquele que nele
orações. E, por isso, recebereis castigo habita.
ainda mais severo! 22 E aquele que jurar pelos céus, jura pelo
15 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, trono de Deus e em nome daquele que
hipócritas! Porque viajais por mares e nele está assentado.6

as Escrituras, e seu tamanho era considerado um sinal de zelo espiritual de quem os ostentava. Os fariseus acreditavam que o
próprio Deus usava filactérios. Por isso, eram considerados como amuletos de boa sorte e proteção contra o mal. As “franjas”
eram as borlas descritas em Nm 15.37-41 que todo judeu deveria usar. Jesus também as usava nas quatro pontas de seu manto
(em Mt 9.20 são chamadas de “orla”), essas borlas eram um tipo de madeixas de lã, branca e azul, e tinham a singela função
de declarar o amor de quem as usava a Yahweh (o Senhor) e a vontade do seu coração de cumprir a Torah (ou Torá, a Lei) da
maneira mais fiel possível. As borlas tinham o tamanho médio de até 10 cm; entretanto, os fariseus as alongavam muito mais em
sinal de maior espiritualidade. O que Deus criou para ser apenas um lembrete de fé e marca de devoção, tornou-se objeto de
adoração e ostentação (fetiche).
3 Os mestres da Lei e os fariseus gostavam de ocupar os melhores e mais importantes assentos na sinagoga, aqueles que ficam
defronte à representação da arca e que continha os rolos das Escrituras Sagradas. Além disso, os que se assentavam ali podiam
ser facilmente vistos por toda a congregação. Eles também apreciavam muito ouvir as pessoas os chamarem, insistentemente,
aos gritos e em público (nas praças do mercado) de Rabbei (em grego), que significa literalmente em hebraico: “meu professor,
meu mestre!”
4 A expressão “pai” ou “padre” (em hebraico ’abh) não deve ser usada como título de qualquer autoridade religiosa. Jesus faz uma
séria advertência quanto à busca desenfreada por reconhecimento e prestígio, coisas que alimentam a soberba humana. Entretanto,
devemos ter cautela com possíveis aplicações de literalismo insensato dessas passagens. Jesus está ensinando princípios de vida
espiritual a quem só conseguia enxergar regras exatas de comportamento religioso. Os cristãos, líderes (em grego kathegetai, guias
ou dirigentes) ou não, devem ser conhecidos por um espírito e atitudes diaconais (em grego diakonos, servo).
5 “Ai” é uma expressão de profunda tristeza e indignação da parte de Deus, expressa através dos lábios do seu Filho contra
a falsidade (hipocrisia) dos maiores conhecedores das Sagradas Escrituras da época e líderes religiosos dos judeus, o povo do
Cristo (Messias). Essa atitude apenas legalista, arrogante, soberba e desprovida de sincero amor a Deus e às pessoas, fazia que os
“prosélitos” (pagãos e gentios que se convertiam ao judaísmo) se tornassem ainda piores que seus mestres e não tivessem verda-
deira comunhão com Deus, o Pai (em aramaico: abba). Esses líderes religiosos e juízes de direito, eram tão dissimulados que chega-
vam a usar suas posições como juristas para processar viúvas ricas ou para fazer que elas lhes legassem suas propriedades.
6 Com relação aos juramentos, Jesus argumenta com os mestres fariseus, com seus próprios pressupostos em relação à Lei,
para lhes revelar o verdadeiro espírito da Lei e a vontade de Deus (5.33-37).

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MATEUS 23 54

23 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 30 E declarais: ‘Se tivéssemos vivido na


hipócritas! Porque dais o dízimo da hor- época dos nossos antepassados, não tería-
telã, do endro e do cominho, mas tendes mos tomado parte com eles no assassina-
descuidado dos preceitos mais impor- to dos profetas!’
tantes da Lei: a justiça, a misericórdia e 31 Dessa forma, porém, testemunhais
a fé. Deveis, sim, praticar estes preceitos, contra vós mesmos que sois filhos dos
sem omitir aqueles!7 que mataram os profetas.
24 Líderes insensíveis! Pois coais o peque- 32 Acabai, pois, de encher a medida do
no mosquito, mas engolis um camelo!8 pecado de vossos pais!
25 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 33 Cobras venenosas, ninho de víboras!
hipócritas! Porque limpais o exterior do Como escapareis da condenação do
copo e do prato, mas por dentro, estes inferno?
estão repletos de avareza e cobiça. 34 Por isso, eis que Eu vos envio profe-
26 Fariseu que não enxerga! Limpa, an- tas, sábios e mestres. A uns assassinareis
tes de tudo, o interior do copo e do pra- e crucificareis; a outros açoitareis nas
to, para que da mesma forma, o exterior vossas sinagogas e perseguireis de cida-
fique limpo! de em cidade.
27 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 35 E, dessa maneira, sobre vós recairá todo
hipócritas! Porque sois parecidos aos o sangue justo derramado na terra, desde
túmulos caiados: com bela aparência o sangue do justo Abel, até o sangue de
por fora, mas por dentro estão cheios Zacarias, filho de Baraquias, a quem ma-
de ossos de mortos e toda espécie de tastes entre o santuário e o altar.10
imundície!9 36 Com toda a certeza vos asseguro, que
28 Assim também sois vós: exterior- tudo isso ocorrerá a esta geração”.
mente pareceis justos ao povo, mas
vosso interior está repleto de falsidade O lamento sobre Jerusalém
e perversidade. (Lc 13.34-35)
29 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 37“Ó Jerusalém, Jerusalém, que assassi-
hipócritas! Porque construís os sepul- nas os profetas e apedrejas os que te são
cros dos profetas, adornais os túmulos enviados! Quantas vezes Eu quis reunir
dos justos. os teus filhos, como a galinha acolhe os

7 Oferecer ao Senhor a décima parte (o dízimo) de diversas ervas era uma prática religiosa baseada em Lv 27.30. Embora
o dízimo dos grãos, frutos, vinho e azeite fosse o exigido, dos judeus, pela Lei (Nm 18.12; Dt 14.22-23), os escribas e fariseus
haviam ampliado a lista dos itens especificados na Lei, para incluir o dízimo das menores e mais simples hortaliças. A hortelã
era usada como tempero e para adornar o chão das casas e sinagogas. O endro era usado como medicamento e para perfumar
ambientes. O cominho, que são as sementes de erva-doce, tinha vários usos culinários. Entretanto, o valor comercial dessas
ervas era mínimo; mas os fariseus desejavam mostrar ao povo um zelo religioso que, na verdade, não fazia parte de suas vidas
com Deus e com seus próximos.
8 Os escribas e fariseus coavam com muito cuidado toda água que bebiam através de um pano branco, bem tecido, para ter
certeza de não engolir nenhum pequeno mosquito; considerado pelos religiosos como o menor ser vivo impuro. Entretanto,
figuradamente, engoliam um camelo inteiro, um dos maiores animais impuros para os judeus, ao praticarem uma série de fraudes,
atrocidades e pecados.
9 Por ocasião da celebração da Páscoa, época em que os peregrinos de várias partes da Palestina iam a Jerusalém, e momento
no qual Jesus está falando, era costume pintar, várias vezes, toda a parte exterior dos sepulcros (túmulos) com cal. Isso para que
os túmulos pudessem ser vistos inclusive à noite, uma vez que, pela Lei, se alguém pisasse sobre um túmulo ou área de sepultura
tornava-se instantaneamente impuro (Nm 19.16). Por isso, todos pareciam iguais, limpos, belos e puros; mas em seu interior jazia
a morte, o mau cheiro e a podridão.
10 Os líderes religiosos judaicos no tempo de Jesus estavam acrescentando pecados sobre pecados à longa lista de seus pais
(antepassados) históricos. Jesus também seria um dos profetas martirizados. Seus apóstolos não seriam igualmente aceitos
(10.17,23). E Jesus resume a história dos martírios no AT citando o assassinato de Abel (Gn 4.8; Hb 11.4) e o martírio do profeta
Zacarias registrado no livro de Crônicas. Na Bíblia Hebraica, o último livro do AT (2Cr 24.20-22).

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seus pintinhos debaixo das suas asas, mas ram mais perto dele para lhe apontar as
vós não o aceitastes!11 construções do templo.
38 Eis que a vossa casa ficará abandona- 2 Ele, entretanto, lhes observou: “Estais
da!12 vendo todas estas coisas? Com toda a
39 Pois eu vos declaro que, a partir de certeza Eu vos afirmo que não ficará aqui
agora, de modo algum me vereis, pedra sobre pedra, pois que serão todas
até que venhais a dizer: ‘Bendito é o que derrubadas”.1
vem em o Nome do Senhor!’”13
O princípio das dores
Jesus prediz o final dos tempos (Mc 13.3-13; Lc 21.7-19)
(Mc 13.1-2; Lc 21.5-6) 3Tendo Jesus se assentado no monte das

24 Então, Jesus saiu do templo e, ao


caminhar, seus discípulos chega-
Oliveiras, os discípulos chegaram até Ele
em particular e lhe pediram: “Dize-nos

11 O próprio Jesus reconhece que os seus próprios irmãos não o receberam. Deus tem feito tudo para seu povo, mas a rejeição
de Israel ilustra o coração empedernido da raça humana, em relação ao seu Criador (Jo 1.11).
12 Jesus faz referência a 1Rs 9.7-8; Jr 12.7, 22.5 e adverte seu povo. No ano 70 d.C. toda a nação de Israel e, em especial, a
cidade de Jerusalém, foram assoladas e profanadas pelos exércitos pagãos de Roma.
13 Jesus se despede de Jerusalém e do seu povo, declarando que não os ensinaria mais em público até sua volta em glória
no final dos tempos, quando Israel o receberá como o Messias que fora rejeitado (Zc 12.10). De agora em diante a salvação dos
judeus, como de qualquer outra pessoa sobre a face da terra, do mais alto líder religioso ou político ao mais simples ser humano,
só tem uma única possibilidade: a confissão do Senhor Jesus Cristo, como Salvador, Senhor e Filho de Deus (21.9, Sl 118.26).
Capítulo 24
1 O primeiro Templo foi idealizado por Davi (2Sm 7.2; 1Cr 22.8,3; 2Sm 24.18-25). Entretanto, coube a Salomão (em hebraico
transliterado shelômõh, homem de paz), seu filho com Bate-Seba (2Sm 12.24), a honra da sua construção, que teve início no
quarto ano do seu reinado e foi concluída sete anos mais tarde. Mas o filho de Salomão, Reoboão, não deu a mesma atenção ao
Templo e sucessivas pilhagens ocorreram desde Sisaque, do Egito (1Rs 14.26), até a invasão de Nabucodonosor em 587 a.C.
(2Rs 25.9,13-17). Mesmo depois de sua destruição, alguns fiéis ainda iam oferecer sacrifícios entre suas ruínas (Jr 41.5). Hoje
em dia não há qualquer estrutura do antigo Templo de Salomão acima do nível do chão. Porém, curiosamente, sobre os seus
escombros foi construída a mesquita mulçumana, conhecida como “Cúpula da Rocha”, destaque na maioria dos cartões postais
de Israel (2Cr 3.1; 2Sm 24.24). O segundo Templo foi erguido por ocasião do retorno dos exilados da Babilônia, cerca de 537 a.C,
conforme autorização e ajuda de Ciro, rei da Pérsia, e do ministério de Neemias e Esdras (Nm 2.11-20). Toda a área teve de ser
limpa do entulho do primeiro Templo destruído (Ed 1; 3.2-10). A arca havia desaparecido no tempo do exílio e jamais foi encontra-
da. No lugar do candelabro de Salomão, com dez lâmpadas, foi colocado um novo, com sete hastes, juntamente com uma mesa
de ouro para os pães da proposição e o altar do incenso. Esses e outros objetos sagrados foram tomados como despojos pelo
rei da Síria, Antíoco IV Epifânio (entre 175 e 163 a.C.), o qual colocou um altar e uma estátua pagã no lugar santo, no dia 15 de
dezembro de 167 a.C. Os macabeus venceram os sírios e purificaram o Templo (1Macabeus 1.54; 4.35-59), substituindo todos os
seus móveis e transformando o Templo numa fortaleza que lhes permitiu resistir durante três meses ao cerco de Pompeu (63 a.C.)
quando foi, então, destruído (os livros dos Macabeus, com alguns outros, não são considerados canônicos, por isso não fazem
parte da maioria das Bíblias evangélicas em língua portuguesa, entretanto, muitos de seus relatos históricos são dignos de crédi-
to). A terceira construção, chamada de Templo de Herodes, começou no ano 19 a.C., mas seu motivo principal não foi glorificar
a Deus, e, sim, reconciliar os judeus com o seu rei gentio (idumeu). Mesmo assim, o rei teve grande cuidado com a reverência
ao Templo, convocou mil sacerdotes que foram treinados como pedreiros para conduzir a edificação do santuário, e procuraram
construir uma cópia do Templo de Salomão. Em uma área com mais de 144.000 m2, ergueu-se uma magnífica estrutura de
pedras creme, adornadas de ouro. Um muro feito com blocos de pedras com 60 cm de largura por até 5 metros de comprimento
circundava o Templo. Contudo, alguns anos após o término da construção, exatamente 40 anos depois da profecia de Jesus,
durante as celebrações da Páscoa judaica, as tropas do comandante romano Tito tomaram posição de combate, às portas de
Jerusalém. A cidade estava em festa e repleta de judeus de todas as partes. Os dois mais poderosos partidos judaicos, que deve-
riam estar atentos à defesa da cidade contra Roma, achavam-se em violenta guerra interna, a ponto de incendiarem os estoques
de alimentos um do outro. Somente quando os enormes aríetes dos romanos arrebentaram o primeiro portão de Jerusalém foi
que os políticos decidiram se unir contra o invasor. Tarde demais. Tito incendiou tudo, e até as pedras foram separadas para
colher o ouro derretido que se infiltrara nas junções. O comandante romano deixou apenas um resto da muralha, como símbolo
do aniquilamento de Israel, conhecido em nossos dias como ‘Muro das Lamentações’. Mais de um milhão de judeus morreram
naquela época. Todas as estradas que passavam por Jerusalém estavam tomadas por judeus crucificados. Os sobreviventes fo-
ram vendidos ou negociados como escravos. Israel desapareceu como nação e os judeus foram espalhados pelo mundo inteiro,
sob a maior humilhação já sofrida por um povo até nossos dias. Em homenagem à marcha triunfal de Tito, foi construído o arco
do triunfo, o “Arco de Tito”. Esse monumento persiste em Roma até hoje e mostra, em seus trabalhos de escultura, cenas das

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MATEUS 24 56

quando ocorrerão estas coisas?2 E qual mutuamente.


será o sinal da tua vinda e do final dos 11 Então, numerosos falsos profetas sur-
tempos?”. girão e enganarão a muitos.
4 Então Jesus lhes revelou: “Cuidado, que 12 E, por causa da multiplicação da mal-
ninguém vos seduza. dade, o amor da maioria das pessoas se
5 Pois muitos são os que virão em meu esfriará.
nome, proclamando: ‘Eu sou o Cristo!’, e 13 Aquele, porém, que continuar firme
desencaminharão muitas pessoas. até o final será salvo.
6 E vós ouvireis falar de guerras e rumo- 14 E este evangelho do Reino será pre-
res de guerras, todavia não vos deses- gado em todo o mundo habitado, como
pereis, porque é preciso que tais coisas testemunho a todas as nações, e então
ocorram, mas ainda não será o fim. chegará o fim.
7 Porquanto, nação se levantará contra
nação, e reino contra reino. Haverá fo- A grande tribulação
mes e terremotos em vários lugares. (Mc 13.14-23; Lc 21.7-19)
8 Contudo, esses acontecimentos serão ape- 15 E, assim, quando virdes a profanação
nas como as primeiras dores de um parto. horrível da qual falou o profeta Daniel, no
9 Então eles vos entregarão para serem Lugar Santo (ao ler o profeta entendereis
afligidos e condenados à morte. E sereis isso),3
odiados por todas as nações por serem 16 então, os que estiverem na Judéia fu-
meus seguidores. jam para os montes.4
10 Nessa época, muitos ficarão escandali- 17 Quem estiver sobre o telhado de sua casa,
zados, trairão uns aos outros e se odiarão não desça para retirar dela coisa alguma.

legiões romanas carregando os objetos sagrados e valiosos do Templo, e os mais valorosos guerreiros judeus algemados. Tito
profanou o Templo, entrando no santo lugar, despojando todo o tesouro e utensílios preciosos, tais como o grande candelabro
de ouro maciço, uma réplica dourada da arca com os preciosos rolos sagrados da Lei, a mesa de ouro e muitos outros objetos
preciosos. Finalmente, o imperador Vespasiano, pai de Tito, declarou toda a nação de Israel como sua propriedade particular e
doou grandes propriedades a seus amigos e colaboradores, entre eles o conhecido historiador judeu e fariseu, Flávio Josefo, cujo
carisma e poder intelectual haviam conquistado a amizade do rei e a cidadania romana.
2 Jesus se retira do Templo e sobe com os discípulos em direção ao monte das Oliveiras - uma cordilheira, a leste de Jerusalém,
do outro lado do vale Cedrom, com quase dois quilômetros de extensão e cerca de 70 metros acima do nível da cidade (Mc
11.1). De agora em diante, nunca mais entrará no Templo. Tudo é parte da grande visão profética de Ezequiel, que viu a glória do
Senhor abandonar a cidade de Jerusalém e o Templo, mais precisamente em direção ao monte das Oliveiras (Ez 8.4-6). Naquele
momento estava se cumprindo a Palavra do Senhor que veio a Ezequiel em 592 a.C. Ao chegar ao alto do monte, Jesus lança
um último olhar sobre a cidade amada que o rejeitou. Ao pôr-do-sol, senta-se com seus discípulos e ficam observando a noite
chegar sobre o Templo e o povo de Jerusalém. Jesus não revela quando sucederão essas coisas, mas responde, em forma de
profecia, às demais questões: O fim dos tempos entre os versículos 4-14; a destruição de Jerusalém entre 15-22 (Lc 21.20), e o
glorioso retorno de Jesus Cristo entre 23-31.
3 A expressão grega, aqui transliterada por bdelugma tes eremoses vem do hebraico shiqquçe shõmem e significa: “a
profanação horrível”, “o sacrilégio terrível”, ou ainda, como em versões antigas: “o abominável da desolação”. Essas são formas
de traduzir o significado literal da frase original: “a coisa abominável que causa horror e repulsa” (Dn 9.27; 11.31; 12.11). Jesus
ressalta que os leitores do livro escrito pelo profeta Daniel poderão compreender melhor o que ele está dizendo. Jesus faz
referência a um tipo de idolatria tão perversa e antagônica a todos quantos crêem no Pai de Cristo, como ocorreu no ano 168 a.C.,
quando o rei Antíoco Epifânio erigiu um altar a Zeus no lugar do altar de Jeová (em hebraico  transliterado por Yahweh –
1Macabeus 1.54-59; 6.7; 2Macabeus 6.1-5). Assim também aconteceu no ano 70 d.C., quando os romanos ofereceram sacrifícios
pagãos em Jerusalém, no lugar sagrado, ao proclamar Tito imperador supremo (2Ts 2.4; Ap 13.14-15). A história registra que
muitos cristãos e judeus, pouco antes do ano 70 d.C., lembraram-se das palavras de Jesus, cumpriram à risca as orientações
proféticas e tiveram suas vidas salvas daquelas catástrofes e perseguições. O Grande Retorno de Jesus, em glória, marca o final
da ordem mundana, na qual vivemos. Porém, antes disso, surgirão muitos enganadores, falsos messias (cristos), o tema guerra
e terrorismo dominará a mídia mundial, tribulações, terremotos, vulcões, tempestades, alterações na atmosfera, no clima, falsos
profetas por toda parte, multiplicação da iniqüidade (maldade) e da arrogância cientifica, lascívia, bestialidades, esfriamento do
amor e das virtudes morais e éticas. Todos esses são apenas sinais que criam o ambiente para a manifestação do maior dos
sinais: a pregação do Evangelho até os confins da terra (28.18-20). Então virá o fim.
4 A história registra que muitos cristãos, pouco antes do ano 70 d.C., fugiram de Jerusalém e se refugiaram nas montanhas

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57 MATEUS 24

18 E aquele que estiver no campo, não 28Onde houver um cadáver, aí se reuni-


volte para pegar sua túnica. rão os abutres.
19 Serão dias terríveis para as mulheres
grávidas e para as que estiverem ama- O retorno de Cristo em glória
mentando. (Mc 13.24-27; Lc 21.25-28)
20 E orai para que a vossa fuga não ocorra 29 Imediatamente após o tormento da-
durante o inverno nem no sábado.5 queles dias, o sol escurecerá e a lua não
21 Porquanto haverá nessa época grande dará a sua luz; e as estrelas cairão do céu,
tribulação, como jamais aconteceu desde e os poderes celestes serão estremecidos.
o início do mundo até agora, nem nunca 30 Então surgirá no céu o sinal do Filho
mais haverá.6 do homem, e todos os povos da terra
22 E, se aqueles dias não tivessem sido prantearão e verão o Filho do homem
abreviados, nenhuma carne seria salva. chegando nas nuvens do céu com poder
Mas, por causa dos eleitos, aquele tempo e majestosa glória.10
será encurtado.7 31 Ele enviará os seus anjos, com podero-
23 Então, se alguém vos anunciar: ‘Vede, so som de trombeta, e estes reunirão os
aqui está o Cristo!’ ou ‘Ei-lo ali!’ Não seus eleitos dos quatro ventos, de uma a
acrediteis. outra extremidade dos céus.
24 Pois se levantarão falsos cristos e falsos
profetas e apresentarão grandes milagres A lição da figueira: o Dia do Senhor
e prodígios para, se possível, iludir até (Mc 13.28-37; Lc 21.29-36)
mesmo os eleitos.8 32 Portanto, aprendei com a parábola da
25 Vede que Eu o preanunciei a vós! figueira: quando, pois, os seus ramos se
26 Portanto, se vos disserem: ‘Eis que Ele renovam e suas folhas começam a brotar,
está no deserto!’- não saiais. Ou ainda: sabeis que está próximo o verão.
‘Ele está ali mesmo, nos cômodos de 33 Da mesma forma vós: quando virdes
uma casa!’- não acrediteis. todos esses acontecimentos, sabei que
27 Pois, da mesma maneira como o re- Ele está muito próximo, às portas.11
lâmpago parte do oriente e brilha até no 34 Com toda a certeza Eu vos afirmo, que
ocidente, assim também se dará a vinda não passará esta geração até que todos
do Filho do homem.9 esses eventos se realizem.

da Transjordânia, onde se localizavam as terras de Pella. Fuga semelhante haverá num período futuro de tribulação conhecido
como a 70a Semana de Daniel (Dn 9.27). Entretanto, aquelas pessoas que verdadeiramente crêem no Senhor (os salvos, a Igreja),
serão arrebatadas da terra no exato momento em que Cristo cruzar a atmosfera da terra. Os cristãos não precisarão fugir, apenas
devem perseverar até o Dia do Senhor.
5 Gestantes, idosos e pessoas com deficiência física terão maior dificuldade naqueles dias de tribulação e perseguição. Mateus,
como escreve principalmente aos judeus, observa os detalhes do inverno e do sábado, dia em que os judeus somente podiam
caminhar 800 metros.
6 O historiador judeu-romano Flávio Josefo foi testemunha ocular desta terrível tribulação e narra o episódio com palavras pareci-
das às de Jesus. Entretanto, aquela grande tribulação foi apenas mais um sinal da maior das tribulações ainda por vir (Dn 12.1).
7 Este último e terrível tempo de aflição será abreviado em relação ao que já havia sido pré-determinado nas profecias (como
a 70a Semana de Daniel – Dn 9.27, ou os 42 meses mencionados em Ap 11.2; 13.5). Os eleitos são o povo de Deus em todo o
mundo, a Igreja de Jesus Cristo.
8 Compare esta descrição com a pessoa do anticristo revelada em 2Ts 2.9-10.
9 Que ninguém se iluda. A segunda e definitiva volta de Jesus Cristo será um evento portentoso. Em segundos, a glória e o
brilho da sua presença varrerão o planeta, e os salvos (sua Igreja) serão arrebatados, sumindo instantaneamente de toda a terra.
(27, 31, 1Co 15.12; 1Ts 4.16,17). Jesus cita um antigo provérbio para explicar que seu glorioso retorno será tão certo quanto o es-
voaçar dos urubus (abutres: aves falconiformes e vulturídeas comuns no Oriente e Europa) sobre um cadáver. Ou seja, o mundo
está moribundo e os urubus já sobrevoam aqueles que morrerão e lhes servirão de banquete (Lc 17.37).
10 Fenômenos cósmicos acompanharão a volta triunfal do Filho do homem (Mc 8.31, Ap 1.7). O brilho, como um relâmpago,
que o mundo inteiro verá, é a Shekinah: a glória do Senhor (Is 13.10; 24.21-23; 34.4; Ez 32.7-8; Jl 2.10,31; 3.15; Am 8.9, 2Ts
1.6-10; Ap 19.11-16).
11 No Oriente as figueiras anunciam o início do verão, quando renovam seus ramos e novas folhas brotam. Esse evento é tão
certo e esperado quanto o será a volta de Cristo, e por isso todos os cristãos devem estar preparados para não serem apanhados

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MATEUS 24 58

35 O céu e a terra passarão, mas as minhas 44 Portanto, ficai igualmente vós alertas;
palavras jamais passarão. pois o Filho do homem virá no momento
em que menos esperais.14
Só Deus sabe o dia e a hora exatos
(Mc 13.32-37) O destino do bom e do mau servo
36 Entretanto, a respeito daquele dia e (Lc 12.42-46)
hora ninguém sabe, nem os anjos dos 45 Sendo assim, quem é o servo fiel e
céus, nem o Filho, senão exclusivamente sábio, a quem o senhor confiou os de
o Pai.12 sua casa para dar-lhes alimento no seu
37 Como aconteceu nos dias de Noé, devido tempo?
assim também se dará por ocasião da 46 Feliz aquele servo a quem o seu senhor,
chegada do Filho do homem. quando voltar, o encontrar agindo dessa
38 Porque nos dias que antecederam ao maneira.
Dilúvio, o povo levava a vida comendo 47 Com certeza vos afirmo que o senhor
e bebendo, casando-se e oferecendo-se confiará a seu servo todos os seus bens.
em matrimônio, até o dia em que Noé 48 Entretanto, supondo que esse servo,
entrou na arca, sendo mau, diga a si mesmo: ‘Meu se-
39 e as pessoas nem notaram, até que nhor está demorando muito’,
chegou o Dilúvio e levou a todos. Assim 49 e, por isso, passe a agredir os seus
ocorrerá na vinda do Filho do homem. conservos e a comer e beber com be-
40 Dois homens estarão na lavoura: um berrões.
será arrebatado, mas o outro deixado. 50 O senhor daquele servo virá num dia
41 Duas mulheres estarão trabalhando inesperado e numa hora que o servo
num moinho: uma será arrebatada, a desconhece.
outra ficará pra trás. 51 E o senhor o punirá com toda a seve-
42 Por isso, vigiai, porquanto não sabeis ridade e lhe dará um lugar ao lado dos
em que dia virá o vosso Senhor.13 hipócritas, onde haverá grande lamento
43 Contudo, entendei isto: se o proprie- e ranger de dentes.15
tário de uma casa soubesse a que hora
viria o ladrão, se colocaria em sentinela As virgens sábias e as tolas
e não permitiria que a sua residência
fosse violada. 25 Portanto, o Reino dos céus será
semelhante a dez virgens que pe-

de surpresa, como acontecerá com o mundo descrente. Jesus ainda afirma que a geração que presenciar o início dos sinais
também verá sua volta triunfal. A expressão “geração” (em grego antigo genea), também podia significar “raça” ou “família” e, por
certo, Jesus fez referência à profecia de que o povo judeu não seria exterminado da terra por mais que seus muitos inimigos, em
todas as épocas, tenham se empenhado nesse objetivo (Mc 13.30; Lc 21.32). As palavras de Jesus são todas mais verdadeiras
e duradouras que o Universo.
12 O Dia do Senhor é uma expressão que se refere ao AT como o dia em que Jesus voltará em glória para levar seu povo (a
Igreja) para a Nova Jerusalém (Am 8.3,9,13; 9.11; Mq 4.6; 5.10; 7.11). Mas o dia exato desse evento a ninguém foi revelado, e
Jesus, enquanto esteve na terra, também não pretendeu saber, pois decidiu em tudo obedecer ao Pai e viver pela fé como todo
ser humano deveria.
13 Jesus dedica seis parábolas para enfatizar a extrema necessidade da vigilância, enquanto estamos vivos na terra e ele não
retorna: O porteiro (Mc 13.35-37). O pai de família (Mt 24.43-44). O servo fiel (24.45-51). As dez virgens (25.1-13). Os talentos
(25.14-30). As ovelhas e os bodes (25.31-46). A vida passa, e passa muito rápido. É preciso estar com a consciência tranqüila de
que amamos ao Senhor e buscamos praticar sua vontade em todas as áreas de nossa vida íntima e relacional.
14 Jesus nos adverte de que perto da sua volta, o mundo estará descrente, religioso talvez, mas sem a convicção da salvação
nem da militância evangélica. O poder do sistema mundial forçará muitos religiosos a se afastarem de Deus e de sua Palavra.
Intérpretes de um “evangelho” que não é o de Cristo conduzirão milhões de pessoas à perdição. Até os cristãos fiéis correrão o
risco de ser enganados por um estilo de vida massificado pelo sistema (globalização do pensamento humanista, cético e hedonis-
ta) e serão apanhados de surpresa pela iminente volta do Senhor. Não é sábio tentar calcular a data do retorno de Jesus. É mais
errôneo, porém, negligenciar esse evento fatal. A expectativa da volta de Cristo confere senso de urgência e dinâmica à missão
evangélica em toda a terra. A parábola do “bom e mau servos” ensina como o filho de Deus deve viver sua vida cristã (45-51).
15 O contexto revela que “hipócrita” é aquele cuja vida prática não corresponde à sua alegada fidelidade a Cristo. A expressão

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59 MATEUS 24, 25

garam suas candeias e saíram para encon- 12 Contudo ele lhes respondeu: ‘Com
trar-se com o noivo.1 certeza vos afirmo que não vos conheço’.
2 Cinco delas eram sábias, mas outras 13 Portanto, vigiai, pois não sabeis o dia,
cinco eram inconseqüentes. tampouco a hora em que o Filho do
3 As que eram inconseqüentes, ao pega- homem chegará.4
rem suas candeias, não levaram óleo de
reserva consigo. O investimento dos talentos
4 Entretanto, as prudentes, levaram óleo 14 Digo também que o Reino será como
em vasilhas, junto com suas candeias.2 um senhor que, ao sair de viagem, con-
5 O noivo demorou a chegar, e todas fica- vocou seus servos e confiou-lhes os seus
ram com sono e adormeceram. bens.
6 À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘Eis 15 A um deu cinco talentos, a outro, dois
que vem o noivo! Saí ao seu encontro!’ e a outro, um talento; a cada um con-
7 Então, todas as virgens acordaram e forme a sua capacidade pessoal. E, em
foram preparar suas candeias.3 seguida, partiu de viagem.5
8 As insensatas recorreram às sábias: ‘Dai- 16 O que havia recebido cinco talentos
nos um pouco do vosso azeite, porque as saiu imediatamente, investiu-os, e ga-
nossas candeias estão se apagando’. nhou mais cinco.
9 Porém as sábias responderam: ‘Não po- 17 Da mesma forma, o que recebera dois
demos, pois assim faltará tanto para nós talentos ganhou outros dois.
quanto para vós outras! Ide, portanto, 18 Entretanto, o que tinha recebido um
aos que o vendem e comprai-o’. talento afastou-se, cavou um buraco na
10 Mas, saindo elas para comprar, chegou terra e escondeu o dinheiro que o seu se-
o noivo. As virgens que estavam prepara- nhor havia confiado aos seus cuidados.
das entraram com ele para o banquete de 19 Após um longo tempo, retornou o se-
núpcias. E a porta foi fechada. nhor daqueles servos e foi acertar contas
11 Mais tarde, todavia, chegaram as vir- com eles.
gens imprudentes e clamaram: ‘Senhor! 20 Então, o servo que recebera cinco ta-
Senhor! Abre a porta para nós!’ lentos se aproximou do seu senhor e lhe

“ranger de dentes” só é usada em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e tem a ver com o profundo, doloroso e eterno arre-
pendimento que os incrédulos e os falsos cristãos (hipócritas) sentirão a partir do Dia do Senhor.
Capítulo 25
1 Havia duas fases nos casamentos judaicos típicos da época de Cristo. Na primeira, o noivo ia à casa da noiva e participava da
cerimônia de entrega da noiva. Na outra fase, o noivo voltava e a levava para um grande banquete em sua casa. As virgens eram
damas-de-honra e tinham o dever cerimonial de preparar a noiva para o encontro com o noivo.
2 Essas candeias eram grandes tochas, capazes de permanecer acesas ao ar livre, feitas com longas varas, com trapos
enrolados numa das pontas, embebidos em azeite de oliva. Pequenas candeias de barro eram comumente usadas no interior
das residências.
3 Quando o azeite era consumido pelo fogo cortavam-se as pontas chamuscadas dos trapos e adicionava-se mais óleo para
um novo período médio de iluminação de 15 minutos.
4 Essa parábola é continuação da mensagem de Jesus sobre a necessidade do cristão estar sempre preparado e vigilante, pois
a volta do Senhor é certa, repentina e iminente. Essa expectativa quanto ao glorioso retorno de Jesus confere ética, dinamismo e
senso de urgência à evangelização e ao estilo de vida cristão. A mensagem de Cristo é também um forte apelo aos israelitas em
todo o mundo, para que coloquem sua esperança no Noivo Eterno: O Senhor Jesus. Ele é o Messias prometido. A parábola das
dez virgens, como é conhecido este trecho das Escrituras, não está ensinando que Cristo arrebatará os atentos e preparados es-
piritualmente e deixará para trás “crentes” distraídos ou negligentes. Se cinco virgens ficaram sem óleo (o Espírito) é porque nun-
ca creram verdadeiramente no Senhor, pois todo o que crê – recebe o Espírito Santo – e será salvo (24.13; Jo 1.12; Hb 3.13-14).
5 Um talento correspondia à cerca de 35 quilos de prata pura, o equivalente a 6.000 denários (o denário, como já vimos, era uma
moeda de prata e valia um dia de trabalho de um soldado romano). Deus concede, aos cristãos, fé e capacidades espirituais para,
em primeiro lugar, compreenderem a pessoa e a obra do Seu Filho Jesus, e, em seguida, para servirem no Reino: testemunhando,
anunciando a Salvação e cooperando com o Corpo de Cristo, a Igreja. Curiosamente, o uso atual da expressão portuguesa
“talento”, significando o conjunto de dons, capacidades e habilidades de uma pessoa, originou-se com base nessa parábola
(Lc 19.13). Jesus não está ensinando que o julgamento das pessoas em geral e dos cristãos em particular tem algo a ver com
o esforço pessoal e o pleno uso dos dons e capacidades, pois o caminho da Salvação é bem diferente. O uso dos talentos é

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MATEUS 25 60

entregou mais cinco talentos, informan- quem não tem, até o que tem lhe será
do: ‘O senhor me confiou cinco talentos; tirado.
eis aqui mais cinco talentos que ganhei’. 30 Quanto ao servo inútil, lançai-o para
21 Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, fora, às trevas. Ali haverá muito pranto e
servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, ranger de dentes’.7
muito confiarei em tuas mãos para ad-
ministrar. Entra e participa da alegria do O juízo final
teu senhor!’. 31 Quando o Filho do homem vier em
22 Assim também, aproximou-se o que sua glória, com todos os anjos, então,
recebera dois talentos e relatou: ‘Senhor, se assentará em seu trono na glória nos
dois talentos me confiaste; trago-lhe céus.
mais dois talentos que ganhei’. 32 Todas as nações serão reunidas diante
23 O senhor lhe disse: ‘Muito bem, servo dele, e Ele irá separar umas das outras,
bom e fiel! Foste fiel no pouco, muito con- como o pastor separa os bodes das ove-
fiarei em tuas mãos para administrar. En- lhas.
tra e participa da alegria do teu senhor!’. 33 E posicionará as ovelhas à sua direita e
24 Chegando, finalmente, o que tinha os bodes à sua esquerda.
recebido apenas um talento, explicou: 34 Então, dirá o Rei a todos que estiverem
‘Senhor, eu te conheço, sei que és um ho- à sua direita:‘Vinde, abençoados de meu
mem severo, que colhe onde não plantou Pai! Recebei como herança o Reino, o
e ajunta onde não semeou. qual vos foi preparado desde a fundação
25 Por isso, tive receio e escondi no chão do mundo.
o teu talento. Aqui está, toma de volta o 35 Pois tive fome, e me destes de comer,
que te pertence’. tive sede, e me destes de beber; fui es-
26 Sentenciou-lhe, porém, o senhor: trangeiro, e vós me acolhestes.
‘Servo mau e negligente! Sabias que co- 36 Quando necessitei de roupas, vós me
lho onde não plantei e ajunto onde não vestistes; estive enfermo, e vós me cui-
semeei? dastes; estive preso, e fostes visitar-me’.
27 Então, por isso, ao menos devíeis ter 37 Então, os justos desejarão saber: ‘Mas,
investido meu talento com os banquei- Senhor! Quando foi que te encontramos
ros, para que quando eu retornasse, o com fome e te demos de comer? Ou com
recebesse de volta, mais os juros.6 sede e te saciamos?
28 Sendo assim, tirai dele o talento que 38 E quando te recebemos como estran-
lhe confiei e dai-o ao servo que agora está geiro e te hospedamos? Ou necessitado
com dez talentos. de roupas e te vestimos?
29 Pois a quem tem, mais lhe será con- 39 Ou ainda, quando estiveste doente ou
fiado, e possuirá em abundância. Mas a encarcerado e fomos ver-te?’.

apenas uma conseqüência natural na vida diária de quem já foi contemplado, abraçou a fé em Jesus e agora vive a alegria da
Salvação, mesmo em meio aos sofrimentos deste mundo. É um julgamento semelhante àquele pronunciado contra o convidado
que comparece à festa eterna sem vestir-se da justificação (salvação) em Cristo (22.12-14).
6 A palavra “banqueiro” vem do grego trapeza (mesa), e ainda hoje é comum ver essa palavra nas fachadas das instituições
financeiras na Grécia. Na época de Jesus, os “banqueiros” eram pessoas que ficavam sentadas atrás de pequenas mesas e
trocavam dinheiro (21.12). Outra palavra interessante é “juro”, que tinha o sentido de “prole”, ou seja, os juros eram considerados
“filhotes” do principal emprestado ou investido.
7 Os escravos foram libertos e elevados à posição de servos (mordomos), aos quais aquele senhor confiou todos os seus bens.
O servo que não fez uso do talento concedido, agiu assim porque não gostava do seu senhor e desconfiava dele. Não queria
trabalhar e se arriscar apenas para tornar o senhor mais rico. Preferiu a conveniência e a tranqüilidade de uma aparente isenção
de responsabilidade. Os dons e talentos de Deus multiplicam-se quando os utilizamos, pois transformam nossas vidas e ficamos
preparados para receber ainda mais da plenitude do Espírito Santo. O amor de Cristo em nós gera mais amor, a fé mais fé, o
caráter mais caráter de Deus nos crentes, e a obediência à Palavra do Senhor produz uma fonte de virtudes que influencia todo
o ambiente (2Pe 1.3-7).

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61 MATEUS 25, 26

40 Então o Rei, esclarecendo-lhes respon- A trama para matar Jesus


derá: ‘Com toda a certeza vos asseguro (Mc 14.3-9; Lc 22.1-2; Jo 11.45-53)
que, sempre que o fizestes para algum
destes meus irmãos, mesmo que ao me-
nor deles, a mim o fizestes’.8
26 Tendo Jesus concluído esses en-
sinamentos, declarou aos seus
discípulos:
41 Mas o Rei ordenará aos que estiverem 2 “Como sabeis, daqui a dois dias, a Pás-
à sua esquerda: ‘Malditos! Apartai-vos de coa será celebrada; e o Filho do homem
mim. Ide para o fogo eterno, preparado será entregue para ser crucificado”.1
para o Diabo e os seus anjos. 3 Enquanto isso, os chefes dos sacerdo-
42 Porquanto tive fome, e não me destes tes e os anciãos do povo se reuniram no
de comer; tive sede, e nada me destes de palácio do sumo sacerdote, cujo nome
beber. era Caifás.2
43 Sendo estrangeiro, não me hospedas- 4 E fizeram um acordo para prender Je-
tes; estando necessitado de roupas, não sus por meio de traição e matá-lo.
me vestistes; encontrando-me enfermo e 5 Porém recomendaram: “Que isso não
aprisionado, não fostes visitar-me’. seja feito durante a festa, para que não
44 E eles também perguntarão: ‘Mas Se- ocorra grande alvoroço entre o povo”.
nhor! Quando foi que te vimos com fome,
sedento, estrangeiro, necessitado de rou- Jesus é ungido para o sacrifício
pas, doente ou preso e não te auxiliamos?’ (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8)
45 Então o Rei lhes sentenciará: ‘Com 6 E aconteceu que, estando Jesus em Be-
toda a certeza vos asseguro que, sempre tânia, na casa de Simão, o leproso,
que o deixastes de fazer para algum des- 7 chegou próximo dele uma mulher
tes meus irmãos, mesmo que ao menor portando um frasco de alabastro, repleto
deles, a mim o deixastes de fazer’. de perfume caríssimo, e lhe derramou
46 Sendo assim, estes irão para o sofri- sobre a cabeça, enquanto ele estava
mento eterno, porém os justos, para a reclinado à mesa.
vida eterna”. 8 Diante daquela cena, os discípulos se

8 Jesus ensina que o grande pecado do ser humano é a falta do exercício do amor verdadeiro: primeiro em relação ao seu
Criador e depois para com seu semelhante e próximo (Tg 4.1-17). Há duas interpretações escatológicas mais aceitas, sobre
esse aspecto do Julgamento: 1) Vai acontecer no início de um reino milenar na terra e definirá quem terá o direito de fazer parte
do Reino (vv.31,34), com base no tratamento dispensado ao povo israelense (“meus irmãos, mesmo que ao menor deles”
– vv.40-46) no período anterior à Grande Tribulação (vv.35-40, 42-45). 2) Para muitos estudiosos, o Julgamento ocorrerá diante
do Trono Branco no final dos tempos (Ap 20.11-15). Seu objetivo será identificar as pessoas de todas as épocas, culturas,
povos e nações que poderão ingressar no reino eterno dos salvos e aqueles que serão condenados a viver em punição eterna
no inferno (vv.34,36). A base desse julgamento definitivo será a atitude de amor com a qual, aqueles que afirmam crer em Deus,
trataram seus irmãos e semelhantes (1Jo 3.11-24).
Capítulo 26
1 Jesus deixou o templo para nunca mais voltar a ele (24.1). Com a saída de Jesus o templo perdeu sua característica de
habitação de Deus. Em frente ao templo, contemplando Jerusalém, Jesus prediz o futuro e seu glorioso retorno. Depois de um
período de grande atividade, chega o momento do silêncio e do sacrifício maior. Os Evangelhos não relatam quase nada sobre
a juventude de Jesus. Entretanto, narram a história do martírio e do holocausto do Salvador, praticamente, hora a hora. A Paixão
(o sacrifício) e a ressurreição, que inicialmente eram fatos enigmáticos e incompreensíveis para os apóstolos, tornam-se agora
o significado absoluto de suas vidas e obras. A Paixão de Cristo corresponde à Páscoa dos judeus (em hebraico Pêssach que
significa “passar por cima” ou “passar ao lado”): celebração do livramento do povo hebreu do jugo egípcio ocorrido há mais de
35 séculos (Êx 12.13,23,27). Os cordeiros (simbolização de Jesus Cristo) e os cabritos eram sacrificados, em penitência (arrepen-
dimento) pelos pecados cometidos, no dia 14 de Nisã (mês judaico por volta de março e abril). A refeição da Páscoa era comida
no fim dessa mesma tarde. Como o dia judaico começava após o pôr-do-sol do dia anterior, a Festa da Páscoa foi celebrada no
dia 15 de Nisã, uma quarta-feira. Em seguida ocorria a Festa dos Pães sem Fermento (ou Pães Asmos), durava mais sete dias, e
fazia parte das comemorações da Páscoa (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8).
2 Os chefes dos sacerdotes, chamados de “principais” e os anciãos (sábios e líderes religiosos do povo), reuniram-se como
Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) no palácio de Caifás, saduceu, eleito sumo sacerdote (de 18 a 36 d.C), genro e sucessor
de Anás (Jo 18.13), que ocupou o cargo entre os anos de 6 a 15 d.C.

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MATEUS 26 62

indignaram e comentaram: “Por que este gue?”. E lhe pagaram o preço: trinta moe-
desperdício? das de prata.
9 Porquanto esse perfume poderia ser 16 E, desse momento em diante, procu-
vendido por alto preço e o dinheiro dado rava Judas uma ocasião apropriada para
aos pobres!”. entregar Jesus.
10 Percebendo isso, Jesus repreendeu-os:
“Por que molestais esta mulher? Ela pra- A Ceia do Senhor
ticou uma boa ação para comigo. (Mc 14.12-26; Lc 22.7-23; Jo 13.18-30)
11 Pois, quanto aos pobres, sempre os 17 No primeiro dia da festa dos Pães
tendes convosco, mas a mim nem sem- Asmos, os discípulos aproximaram-se de
pre me tereis. Jesus e o consultaram: “Onde desejas que
12 Ao derramar sobre o meu corpo esse preparemos a refeição da Páscoa?”.
bálsamo, ela o fez como que preparando- 18 Ao que Jesus os orientou: “Ide à
me para o sepultamento.3 cidade, procurai um certo homem e
13 Com toda a certeza vos afirmo: Em falai a ele: ‘O Mestre manda dizer-te: É
todos os lugares do mundo, onde este chegada a minha hora. Desejo celebrar
evangelho for pregado, igualmente será a Páscoa em tua casa, juntamente com
contado o que essa mulher realizou, meus discípulos.’”
como um memorial a ela”. 19 Os discípulos fizeram como Jesus
lhes havia instruído e prepararam a
O pacto da traição Páscoa.4
(Mc 14.10-11; Lc 22.3-6)
14 E aconteceu que um dos Doze, chama- Jesus revela o traidor
do Judas Iscariotes, foi ao encontro dos (Mc 14.17-21; Lc 22.21-23; Jo 13.21-30)
chefes dos sacerdotes e lhes propôs: 20 Ao pôr-do-sol, estava Jesus reclinado,
15 “O que me dareis caso eu vo-lo entre- próximo à mesa, com os Doze.5

3 Era costume, no antigo Oriente, ungir a cabeça dos convidados em dias festivos, que praticamente deitavam-se sobre um tipo
de almofada ou divã, ao redor de uma mesa bem mais baixa do que as nossas. Com o braço esquerdo se apoiavam sobre as al-
mofadas e com o direito se serviam dos alimentos. Davi escreve um poema em louvor a Yahweh (O nome impronunciável de Deus,
em hebraico: ), no qual descreve a felicidade que há na comunhão com Deus usando a metáfora de uma ceia preparada
pelo Senhor (Sl 23.5). Jesus foi visitar alguns amigos em Betânia, uma aldeia que distava cerca de 3 km de Jerusalém. O anfitrião,
Simão, fora curado de lepra por Jesus (Mc 14.3). Lázaro estava presente, Marta servia e Maria, irmã de Lázaro e Marta, assume a
responsabilidade da hospitalidade amorosa e reverente (Lc 7.46), mas realiza o ato tradicional à sua maneira. Um escravo ungiria
a cabeça do hóspede do seu senhor com óleo e lavaria seus pés com água. Maria ofereceu a mais preciosa e cara essência de
plantas (nardo, palavra persa nard que em sânscrito nalàdá significa “óleo perfumado”) importada da Índia (em grego Myrón).
Marcos (Mc 14.5) informa que o valor daquele alabastro (frasco de mármore lacrado e com gargalo longo, o qual era quebrado no
instante do uso, e cujo conteúdo devia ser todo consumido em uma só aplicação para não perder suas propriedades químicas e
aromáticas) era de 300 denários, o que correspondia ao salário anual de um trabalhador ou soldado romano (20.2; Jo 6.7). Maria
ungiu a cabeça e os pés de Jesus (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8) realizando a cerimônia completa de honra e hospitalidade com a qual os
judeus deveriam acolher seus irmãos e amigos, numa demonstração de temor a Deus, humildade e amor ao próximo, princípios
básicos da Torá (os primeiros cinco livros da Bíblia, a Lei de Deus) e dos ensinos de Jesus (Lc 7.44; Jo 13.1-17). Considerando
que Judas traiu Jesus por cerca de 120 denários, é fácil imaginar sua irritação ao ver a atitude de Maria em relação unicamente à
pessoa de Cristo (Jo 12.4-5). Na época da Páscoa era um costume judaico presentear os pobres. Jesus aproveita para esclarecer
os discípulos e amigos quanto à proximidade do seu martírio, salientando que Maria havia compreendido verdadeiramente quem
é Deus, qual o sentido da adoração (que é consagrar a Deus os nossos mais caros afetos), e que estava cuidando da preparação
(somente os nobres tinham seu corpo embalsamado ou mumificado) do seu corpo para o sepultamento. Jesus ainda faz uma
alusão à Lei e afirma que a ajuda e o acolhimento aos mais necessitados é tarefa contínua do povo de Deus todos os dias do ano
(Dt 15.11). Jesus ergue um memorial a Maria, uma pessoa desconhecida na história, mas cujo ato inspira gerações e gerações
em todo o mundo, a ter uma visão correta e prática do que significa amar a Deus.
4 Os discípulos prepararam a Ceia conforme a orientação de Jesus e as prescrições da Lei (Êx 12.1-11) e tiveram de imolar o
cordeiro pascal. Jesus celebrou sua última Páscoa judaica com seus discípulos na véspera da data oficial, pois no dia do feriado
religioso e nacional que marca a Páscoa, Ele mesmo estaria sendo retirado, morto, da Cruz. O Cordeiro Pascal Imolado para a
Salvação de todo aquele que nele crer (Jo 1.12).
5 É interessante notar a ordem dos acontecimentos daquela noite: a refeição pascal; o ato de lavar os pés dos discípulos (Jo

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63 MATEUS 26

21 E, durante a refeição, Jesus revelou: 29 E vos afirmo que, de agora em diante,


“Com toda a certeza vos afirmo que um não mais tomarei deste fruto da videira
dentre vós me trairá”. até aquele dia em que beberei o novo
22 Essa declaração consternou a todos e vinho, convosco, no Reino de meu Pai”.
começaram a indagar, um após outro: 30 E assim, após terem cantado um hino
“Senhor! Porventura, serei eu?”. de louvor, saíram para o monte das Oli-
23 Indicou-lhes Jesus: “Aquele que comeu veiras.7
juntamente comigo, do mesmo prato,
este é o que vai me trair. Jesus prediz a traição de Pedro
24 O Filho do homem vai, como de fato (Mc 14.27-31; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38)
está escrito a respeito dele. Mas ai daque- 31 Então Jesus lhes revelou: “Ainda esta
le que trai o Filho do homem! Melhor noite, todos vós me abandonareis. Pois
lhe seria jamais haver nascido”. assim está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as
25 Então Judas, que haveria de consumar ovelhas do rebanho serão afugentadas’.8
a traição, disse: “Acaso, seria eu, meu 32 Todavia, depois de ressuscitar, seguirei
Mestre?”. E Jesus afirmou-lhe: “Sim, tu o adiante de vós rumo à Galiléia”.
declaraste!”.6 33 Respondeu-lhe Pedro: “Ainda que
venhas a ser motivo de escândalo para
A Ceia do Senhor todos, eu jamais te abandonarei!”.
(Mc 14.22-26; Lc 22.14-20; 1Co 11.23-25) 34 Replicou-lhe Jesus: “Com certeza te asse-
26 Enquanto comiam, Jesus pegou um guro que, ainda nesta noite, antes mesmo
pão, deu graças, quebrou-o, e o deu aos que o galo cante, três vezes tu me negarás”.
seus discípulos, recomendando: “Tomai, 35 Então Pedro lhe declarou: “Mesmo que
comei; isto é o meu corpo”. seja necessário que eu morra junto a ti, de
27 Em seguida tomou um cálice, deu graças modo algum te negarei!”. E todos os discí-
e o entregou aos seus discípulos, procla- pulos fizeram a mesma afirmação.
mando: “Bebei dele todos vós.
28 Pois isto é o meu sangue da aliança, Jesus ora no Getsêmani
derramado em benefício de muitos, para (Mc 14.32-42; Lc 22.39-46)
remissão de pecados. 36 Seguiu Jesus com seus discípulos e

13.1-20); a revelação de Judas como o traidor (Mt 26.21-25); a deserção de Judas (Jo 13.30); a instituição da Ceia do Senhor (Mt
26.26-29); os discursos no Cenáculo e a caminho do Getsêmani (Jo 14, 15 e 16); a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17); a angústia
de Cristo no Getsêmani (Mt 26.36-46); o desfecho da traição e a prisão de Jesus (Mt 26.47-56).
6 Jesus não foi vítima involuntária das artimanhas do Diabo nem da inveja ou da avareza dos homens. Jesus não foi surpre-
endido pelos ardis do inferno nem pelas fraquezas da humanidade. Ele, por sua livre e espontânea vontade, se ofereceu em
obediência ao Pai e em sacrifício (holocausto) para resgate de todo o mundo. Jesus respondeu, decerto, a Judas em voz baixa,
para que os demais discípulos não ouvissem e viessem a impedir o intento do traidor.
7 O NT apresenta quatro relatos sobre a Ceia do Senhor (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19,20 e em 1 Co 11.23-25). Lucas
e Paulo registraram a ordem de Jesus para que a Igreja continuasse a celebrar a Ceia, como um memorial, até a Sua volta
iminente. Jesus escolheu o pão sem fermento e o vinho comum para serem apenas símbolos (metáforas físicas) do que Ele é
para os crentes (todos os que crêem em Cristo) e do seu ato de sacrifício, para pagar o preço do pecado de todo ser humano.
Por isso, todos os seguidores de Jesus (discípulos) são convidados e devem participar da Ceia do Senhor todas as vezes em
que for celebrada, comendo do pão e tomando do vinho; com consciência pura diante de Deus (1 Co 11.28), louvor e esperança
no coração. A palavra “eucaristia” vem de um termo grego que significa “dar graças”. A primeira “Aliança” foi estabelecida pela
aspersão do sangue de animais sacrificados (Êx 24.8; Jr 31.31; Zc 9.11; Hb 9.19-28). A nova e derradeira “Aliança” foi instaurada
pelo próprio sangue do Filho de Deus, vertido sobre a verga e umbral da Cruz (Hb 8.7-13). Depois de cearem, Jesus e seus
discípulos cantaram um hino tradicional de louvor a Deus, baseado nos salmos 115 a 118, chamado em hebraico Hallel (Louvor)
da Páscoa. Em seguida partiram para o Getsêmani (nome que significa em hebraico “prensa de azeite”), espécie de grande pomar
localizado na encosta inferior do monte das Oliveiras, também chamado de “Jardim das Oliveiras”, um dos locais preferidos de
Jesus para oração e meditação (Lc 22.39; Jo 18.2) e onde se esmagava o fruto das oliveiras para a produção de azeite.
8 Todos os seguidores de Jesus, inclusive os discípulos mais chegados, abandonariam o Senhor antes do final daquela noite
(verso 56) conforme já havia sido profetizado (Zc 13.7).

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MATEUS 26 64

chegando a um lugar chamado Getsê- 44 Então, retirou-se novamente, e foi orar


mani disse-lhes: “Assentai-vos por aqui, pela terceira vez, proferindo as mesmas
enquanto vou ali para orar”. palavras.
37 Levou consigo a Pedro e aos dois filhos 45 Passado algum tempo, voltou aos
de Zebedeu, e começando a entristecer- discípulos e indagou: “Ainda dormis e
se ficou profundamente angustiado. descansais? Eis que a hora é chegada!
38 Então compartilhou com eles dizendo: Agora o Filho do homem está sendo
“A minha alma está sofrendo dor extre- entregue nas mãos de pecadores.
ma, uma tristeza mortal. Permanecei 46 Levantai-vos e sigamos! Eis que meu
aqui e vigiai junto a mim”. traidor está se aproximando”.10
39 Seguindo um pouco mais adiante,
prostrou-se com o rosto em terra e orou: Jesus é traído e preso
“Ó meu Pai, se possível for, passa de mim (Mc 14.43-50; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)
este cálice! Contudo, não seja como Eu 47 E, estando Ele ainda a falar, eis que
desejo, mas sim como Tu queres”. chegou Judas, um dos Doze, e trazia
40 Mas, ao retornar à presença dos seus consigo uma grande multidão armada
discípulos os encontrou dormindo e de espadas e porretes, vinda da parte
questionou a Pedro: “E então? Não pudes- dos chefes dos sacerdotes e dos líderes
tes vigiar comigo durante uma só hora? religiosos do povo.11
41 Vigiai e orai, para não cairdes em tenta- 48 Mas o traidor havia combinado um
ção. O espírito, com certeza, está prepara- sinal com eles, informando-lhes: “Aquele
do, mas a carne é fraca”.9 a quem eu saudar com um beijo, esse é
42 E afastando-se uma vez mais, orou quem procurais, prendei-o!”.
dizendo: “Ó meu Pai, se este cálice não 49 Então, aproximando-se rapidamente
puder passar de mim sem que eu o beba, de Jesus, disse-lhe Judas: “Eu te saúdo, ó
seja feita a tua vontade”. Mestre!”. E lhe deu um beijo.
43 Quando voltou, entretanto, surpre- 50 Jesus, contudo, lhe perguntou: “Amigo,
endeu novamente seus discípulos dor- para que vieste?”. os homens avaçaram
mindo, pois não suportaram os olhos sobre Jesust?”. No mesmo instante sobre
pesados de sono. Jesus e o prenderam.12

9 Este é um dos trechos bíblicos onde a completa humanidade de Jesus é retratada com mais evidência (Hb 5.7). Jesus demons-
tra que o verdadeiro caráter de uma pessoa se revela nos momentos mais difíceis e dramáticos. Aprendemos também a aceitar
que haverá ocasiões em nossa vida em que teremos de enfrentar o sofrimento sem o apoio, conforto ou companhia dos amigos. O
Senhor, porém, estará sempre presente. Por isso Jesus pede que os discípulos vigiem com Ele. Não apenas para seu consolo, posto
que se afasta dos discípulos à distância de um arremesso de pedra (como se relata nos originais), mas para que eles pudessem se
preparar espiritualmente para a grande batalha. Jesus clama por seu Abba (em aramaico “pai querido”). Experimenta a fraqueza
humana ao extremo, mas sem pecar. Cita Sl 43.5. Busca a orientação e o consolo do Pai. Sente quão terrível é ficar sem o amparo
de Deus, ainda que por instantes, e assume sobre si todo o pecado que a raça humana deveria pagar por sua infidelidade para com
Deus, desde os primórdios (Gn 2.15-17; 3.22-24; 4.1-8). O ato de obediência amorosa e aceitação espontânea de Jesus no Getsê-
mani corresponde à tentação no deserto, quando Jesus rejeitou governar o mundo sem Deus. Agora Ele concorda em morrer por
nós com Deus. Por isso, sua morte e ressurreição foram ainda mais relevantes que sua vida de testemunho e milagres, ao contrário
de todos os líderes que a terra já conheceu (1Co 2.2). Contudo, o Pai não responde. O Filho, em agonia, insiste por três vezes (Lc
22.44). Deus fica em silêncio na imensidão da noite; os amigos dormem. Jesus compreende que a resposta às suas aflições já havia
sido dada (Hb 5.8; 12.2). O Pai tinha de permitir o cumprimento da história. Jesus se levanta da batalha, liberto dos seus temores e
aflições; consciente do alto preço a pagar, mas resoluto quanto à sua missão (Lc 22.22; Hb 9.14).
10 A frase de Jesus, nos melhores originais, indica não que ele tenha procurado fugir, mas, sim, que partiu e convocou seus
discípulos para se encontrarem com os oficiais que o procuravam.
11 Judas organiza sua emboscada contra Jesus acompanhado dos mais importantes sacerdotes, mestres da Lei e líderes religio-
sos do povo. E cerca de 500 policiais armados e serventes do Sinédrio (Tribunal), destinados a manter a ordem pública; soldados
especiais da corte romana (Jo 18.3), vindos da fortaleza de Antônia, equipados com armas e lanternas (apesar da forte lua cheia da
época), pois conheciam e temiam os poderes sobrenaturais de Jesus, embora Ele nunca os tenha usado em benefício próprio.
12 A palavra grega usada para descrever o beijo de Judas é kataphilein, o mesmo tipo de saudação calorosa com que o pai

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65 MATEUS 26

51 Eis que um dos que estavam com Je- 58 Contudo Pedro seguiu a Jesus de longe
sus, estendendo a mão, puxou a espada até o pátio do sumo sacerdote, entrou e
e ferindo o servo do sumo sacerdote, sentou-se junto aos guardas, para sondar
decepou-lhe uma das orelhas. qual seria o fim daquela ocorrência.
52 Mas Jesus lhe ordenou: “Embainha 59 Mas os líderes dos sacerdotes e todo
a tua espada; pois todos os que lançam o Sinédrio estavam tentando suscitar
mão da espada pela espada morrerão! um falso testemunho contra Jesus, para
53 Ou imaginas tu que Eu, neste momen- que tivessem o direito de condená-lo à
to, não poderia orar ao meu Pai e Ele co- morte.14
locaria à minha disposição mais de doze 60 Todavia, nada encontraram, apesar
legiões de anjos? de se terem apresentado vários depoi-
54 Entretanto, como então se cumpririam mentos inverídicos. Ao final, entretanto,
as Escrituras, que afirmam que tudo deve compareceram duas testemunhas que
acontecer desta maneira?”. alegaram:
55 E naquele mesmo instante Jesus se dirige 61 “Este homem afirmou: ‘Tenho poder
às multidões indagando-lhes: “Lidero Eu para destruir o santuário de Deus e re-
algum tipo de rebelião, para que venham construí-lo em três dias’”.15
contra mim com espadas e porretes e me 62 Então o sumo sacerdote levantou-se e
prendam? Pois todos os dias estive ensinan- interrogou a Jesus: “Não tens o que res-
do no templo e vós não me prendestes! ponder a estes que depõem contra ti?”.
56 Todavia, esses fatos todos ocorreram 63 Mas Jesus manteve-se em silêncio.
em cumprimento às Escrituras dos Diante do que o sumo sacerdote lhe inti-
profetas”. E assim, todos os discípulos mou: “Eu te coloco sob juramento diante
abandonaram a Jesus e fugiram.13 do Deus vivo e exijo que nos digas se tu
és o Cristo, o Filho de Deus!”.16
Jesus diante do tribunal 64 “Tu mesmo o declaraste”, afirmou-
(Mc 14.53-65; Lc 22.63-71; Jo 18.12-14, 19-24) lhe Jesus. “Contudo, Eu revelo a todos
57Então, os que prenderam Jesus o con- vós: Chegará o dia em que vereis o
duziram à presença de Caifás, o sumo Filho do homem assentado à direita do
sacerdote, em cuja residência estavam Todo-Poderoso, vindo sobre as nuvens
reunidos os mestres da lei e os anciãos. do céu!”.

recebeu o filho pródigo (Lc 15.20). Apesar de Judas estar cometendo uma ofensa terrível, Jesus consegue ver na pessoa de
Judas a figura do ser humano distante de Deus: avarento, invejoso, arrogante, iludido, tresloucado e perdido; mas, ainda assim,
alguém a quem Jesus amava e considerava como membro da sua família de discípulos. Da mesma maneira o Senhor amou os
seus próprios algozes (Lc 23.34) e pela salvação de todos nós se entregou (Lc 15.1-2; Jo 3.16).
13 O discípulo amado, João, escrevendo seu Evangelho, após a morte dos protagonistas, esclarece que foi Pedro quem, num
golpe de espada, cortou fora a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote (Jo 18.10). Jesus declara que poderia receber
de Deus uma ajuda imediata, com mais de 72.000 anjos (considerando que, naquela época, uma legião era formada por até 6.000
soldados). Lembremos que apenas um anjo foi suficiente para ferir todo o Egito (Êx 12.23-27) e libertar o povo de Israel do cativei-
ro. Jesus estava consciente de que a vontade do Pai deveria ser cumprida em todos os detalhes (Zc 13.7). Aceitou tomar o cálice
do sacrifício histórico e servir de holocausto para a libertação do crente (toda pessoa que crê em Sua obra vicária e Palavra).
14 O julgamento de Jesus foi injusto e ilícito por vários motivos, especialmente por ter ocorrido durante a noite e com
testemunhas e acusações forjadas, contrariando as leis judaicas (Dt 19.15) e romanas da época. Jesus foi levado primeiro para
uma audiência perante Anás, ex-sumo sacerdote (Jo 18.12-14, 19.23); depois para julgamento diante de Caifás, sumo sacerdote
em exercício e genro de Anás, e do Supremo Concílio Judaico, chamado de Sinédrio (26.57-68; 27.1). Em seguida, levado ao
julgamento romano, diante de Pilatos (Mc 15.2-5), depois levado à presença de Herodes Antipas (Lc 23.6-12), retornando à
presença de Pilatos (Mc 15.6-15) para conclusão e condenação final.
15 Obrigar um réu a declarar algo sob juramento diante de Deus era uma atitude ilícita, claramente expressa na jurisprudência
israelita, que não tolerava qualquer tipo de tortura ou coação moral e religiosa.
16 Jesus jamais fez tal afirmação. As falsas testemunhas distorceram as palavras de Jesus (Jo 2.19), para forjar uma acusação
de blasfêmia, cuja pena era a morte.

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MATEUS 26, 27 66

65 Diante disso, o sumo sacerdote rasgou 74 Então, ele começou a jurar e a pedir
as suas vestes denunciando: “Ele blasfe- a Deus que o amaldiçoasse caso não es-
mou! Por que necessitamos de outras tivesse dizendo a verdade, e exclamou:
testemunhas? Eis que acabais de ouvir tal “Não conheço esse homem!”. No mes-
blasfêmia!”.17 mo instante um galo cantou.
66 “Que vos parece?”. Responderam eles: 75 E naquele momento, Pedro se lembrou
“Culpado e merecedor de morte é!”. da palavra de Jesus que lhe advertira:
67 Neste momento, alguns cuspiram em “Antes que o galo cante, tu me negarás
seu rosto e o esmurravam, enquanto ou- três vezes.” E, deixando aquele lugar,
tros lhe desferiam tapas, vociferando: chorou amargamente.20
68 “Profetiza-nos, pois, ó Cristo, quem é
que te bateu?”.18 Jesus é levado a Pilatos
(Mc 15.1; Lc 23.1-2; Jo 18.28-32)
Quando Pedro negou a Jesus
(Mc 14.66-72; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27)
69 Pedro encontrava-se assentado do lado
27 Assim que o dia amanheceu, to-
dos os chefes dos sacerdotes, e os
líderes religiosos, anciãos do povo, cons-
de fora da casa, no pátio, quando uma piraram para condenar Jesus à morte.1
criada, aproximando-se dele, afirmou: 2 Então, amarrando-o, levaram-no e o
“Tu também estavas com Jesus, o galileu!”. entregaram a Pilatos, o governador.2
70 Ele, entretanto, negou a Jesus perante
todos os presentes, declarando: “Não sei Judas com remorso suicida-se!
do que falas.”. 3 E sucedeu que Judas, seu traidor, ao ver
71 E, saindo em direção à entrada do que Jesus havia sido condenado, sentiu
pátio, foi ele reconhecido por outra terrível remorso e procurou devolver
criada, a qual o denunciou a todos que ali aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos as
se achavam, exclamando: “Este homem trinta moedas de prata.
estava com Jesus, o Nazareno!”. 4 E declarou: “Pequei, pois traí sangue
72 Mas Pedro, sob juramento, o negou inocente”. Mas eles alegaram: “O que
uma vez mais, afirmando: “Não conheço temos a ver com isso? Esta é tua ques-
tal indivíduo”.. tão!”.
73 Algum tempo mais tarde, os que esta- 5 Judas atirou então as moedas de prata
vam ao redor aproximaram-se de Pedro dentro do templo e, abandonando aque-
e o acusaram: “Com toda a certeza és le lugar, foi e enforcou-se.
igualmente um deles, porquanto o teu 6 Entretanto, os chefes dos sacerdotes
modo de falar o denuncia”.19 ajuntaram as moedas e comentaram: “É

17 O sumo sacerdote era proibido pela lei de agir dessa maneira e com tamanha força emocional (Lv 10.6); mas, para caracterizar
seu horror diante do suposto pecado de infâmia e jogar o público presente contra Jesus, ele se permitiu o chamado “ato extremo”.
18 Marcos informa que vendaram os olhos de Jesus (Mc 14.65), o que explica a provocação em tom de zombaria.
19 Pedro, como Jesus, tinha um sotaque indiscutivelmente galileu, facilmente identificado pelos naturais de Jerusalém.
20 A seqüência de erros cometidos por Pedro tem muito a nos ensinar: 1) Demasiada autoconfiança e falta de humildade (v.33).
2) Desobediência ao pedido de Jesus para dedicar-se à vigilância e oração (vv.40-44). Esquecimento quanto às advertências e
conselhos de Jesus (v.75; conforme v.34). Conclusão: grandes quedas na vida cristã são conseqüência da prática de pequenos
erros despercebidos ou tratados com displicência.
Capítulo 27
1 Como a Lei não permitia que o Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) tivesse reuniões juridicamente válidas, durante a noite, for-
mou-se um outro conselho logo ao nascer do dia com o propósito de oficializar a acusação de “traição” perante a autoridade civil (Lc
23.1-14), mais incriminadora para os romanos do que “blasfêmia” para os juízes judeus; e assim, levar Jesus à sentença de morte.
2 O Sinédrio tinha sido destituído pelo governo romano do seu poder de condenar qualquer cidadão à pena de morte. Por
esse motivo, Jesus só poderia ser executado por ordem expressa de Pilatos, o governador romano da Judéia (26 a 36 d.C.). Sua
residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Quando visitava Jerusalém, especialmente nas festas nacionais,
para garantir a ordem e ostentar o domínio de Roma, hospedava-se no deslumbrante palácio erguido por Herodes, o Grande,
localizado a oeste do Templo, onde presidiu o julgamento romano de Jesus.

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67 MATEUS 27

contra a lei depositarmos este dinheiro tume do governador dar liberdade a um


no cofre das ofertas, pois foi obtido a prisioneiro escolhido pelo povo.
preço de sangue”. 16 Detinham eles, naqueles dias, um
7 Mas concordaram em usar aquelas criminoso muito conhecido de todos,
moedas de prata para comprar o Campo chamado Barrabás.
do Oleiro, e formar um cemitério para 17 Então, Pilatos dirigiu-se à multidão
estrangeiros. que ali se havia reunido e lhes propôs:
8 Por esse motivo ele se chama Campo de “A quem desejais que eu vos solte, a Bar-
Sangue até estes dias. rabás ou a este Jesus, que é chamado de
9 E assim se cumpriu o que fora anuncia- Messias?”.
do pelo profeta Jeremias: “Então eles to- 18 Isso porque tinha conhecimento de
maram as trinta moedas de prata, o valor que o haviam entregado por inveja.
que lhe atribuíram os filhos de Israel.3 19 E aconteceu que estando Pilatos senta-
10 E as usaram para comprar o Campo do no trono do tribunal, sua esposa lhe
do Oleiro, assim como o Senhor me ha- enviou a seguinte mensagem: “Não faças
via indicado”. nada contra este homem inocente; pois
hoje, em sonho, muitas coisas sofri por
Pilatos lava as mãos causa dele”.5
(Mc 15.1-15; Lc 23.1-5, 13-25; Jo 18.33-19.16) 20 Todavia, os chefes dos sacerdotes e os
11 Jesus foi conduzido à presença do go- anciãos influenciaram a multidão para
vernador; e este o interrogou: “És tu o exigir o livramento de Barrabás e a exe-
rei dos judeus?”. Afirmou-lhe Jesus: “Tu cução de Jesus.
o dizes”.4 21 Então, o governador entregou à mul-
12 Então, passou a ser acusado pelos che- tidão o dilema: “Qual dos dois homens
fes dos sacerdotes e pelos anciãos, mas quereis que eu vos deixe livre?” Exclama-
Ele nada respondeu. ram eles: “Barrabás!”.
13 Foi quando lhe questionou Pilatos: 22 Pilatos ainda questionou-lhes: “Se assim
“Não ouves a acusação que todos levan- é, que farei de Jesus, que é chamado de
tam contra Ti?” Messias?” Bradaram todos: “Crucifica-o!”.
14 Jesus, entretanto, mantinha-se em ab- 23 Outra vez insta Pilatos: “Por quê? Que
soluto silêncio; e, por isso, ficou o gover- crime cometeu este homem?”. Apesar de
nador fortemente impressionado. tudo, a multidão esbravejava ainda mais
15 Contudo, por ocasião da festa, era cos- furiosa: “Crucifica-o!”.

3 Lucas (At 1.18) informa que Judas comprou um terreno argiloso (Campo de Sangue ou Vale da Matança de Jr 19.1-13 com
Zc 11.12,13 e Jr 18.2-12 com Jr 32.6-9), pois pela lei judaica considerava-se a aquisição em nome da pessoa da qual provinha
o dinheiro, mesmo no caso de falecimento. Enforcou-se e foi empalado (suplício persa usado algumas vezes pelos exércitos
israelenses, Gn 40.19; Et 2.23, e que consistia em espetar o condenado em uma estaca, pelo ânus, deixando-o assim até morrer).
Quando seu corpo caiu apodrecido sobre a terra, partiu-se ao meio. Mateus faz alusão a dois textos do AT para revelar o cumpri-
mento desta terrível profecia (Jr 32.6-9 e Zc 11.12-13). Era comum citar-se o profeta maior quando se combinavam seus escritos
com profetas menores (assim como Marcos 1,2,3 cita Ml 3.1 e Is 40.3, mas atribui todo o texto a Isaías). Judas sempre teve olhos
somente para si mesmo e seus interesses. Por isso, em vez de chorar e se arrepender como Pedro, não consegue tirar os olhos
de si mesmo e do seu pecado e só viu a morte como solução. Exatamente o que o Diabo espera que todo ser humano faça.
4 Flávio Josefo, historiador judeu que viveu em Roma entre os séculos I e II d.C.; narra vários atos de impiedade e falta de
sabedoria de Pilatos, cujo principal registro na história está ligado exclusivamente à sua atuação na condenação de Jesus. Pilatos
desviava fundos do templo, massacrou alguns samaritanos sem um julgamento justo, foi deposto pelos romanos e suicidou-se
entre os anos 31 e 41d.C.
5 Pilatos era muito supersticioso e pesou-lhe o sonho de sua esposa pagã. Além disso, o nome “Barrabás” em aramaico
significa “filho do pai” e Jesus era conhecido como “Filho do Pai” em relação a Deus. Pilatos percebeu a divindade de Jesus
(Jo 19.11-12). Tentou aproveitar a tradição do indulto de Páscoa para influenciar a multidão a pedir a libertação de Jesus. Mas
o povo, atiçado pelos sacerdotes e anciãos, sedento pela volta do bandido zelote (Mc 15.7,27; Jo 18.40) às suas atividades

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MATEUS 27 68

24 Percebendo Pilatos que não conseguia 28 Despojaram-no de suas vestes e o co-


demover o povo, mas, ao contrário, um briram com um manto vermelho vivo.
princípio de tumulto já era visível, or- 29 Trançaram uma coroa de espinhos e a
denou que lhe trouxessem água, lavou forçaram sobre sua cabeça. Puseram em
as mãos diante da multidão e exclamou: sua mão direita um caniço e, ajoelhando-
“Estou inocente do sangue deste homem se diante dele, escarneciam exclamando:
justo. Esta é uma questão vossa!”. “Salve! Salve! Ó Rei dos Judeus!”.
25 E todo o povo respondeu: “Caia sobre 30 Cuspiram nele e, tirando o caniço de sua
nossas cabeças o seu sangue, e sobre nos- mão, espancavam-lhe com ele a cabeça.
sos filhos!”.”6 31 Depois de haverem zombado dele,
26 Diante disso, Pilatos soltou-lhes Bar- despiram-lhe o manto e o vestiram com
rabás, mandou que Jesus fosse flagelado suas próprias roupas. Em seguida, o leva-
e o entregou para ser crucificado.7 ram para ser crucificado.

Jesus é humilhado e agredido A crucificação do Rei


(Mc 15.16-20) (Mc 15.22-32; Lc 23.32; Jo 19.17-24)
27E sucedeu que os soldados do gover- 32 Assim que saíram, encontraram um
nador conduziram Jesus ao Pretório e homem da cidade de Cirene, chamado
agruparam toda a tropa ao redor dele.8 Simão, e o obrigaram a carregar a cruz.9

subversivas contra Roma, rejeita o “Filho de Deus” e aclama o “filho do homem pecador”. A humanidade, narcisista e hedonista,
tende a ignorar o verdadeiro Deus e seus profetas e se entrega nas mãos de sua própria imagem e caráter, de um seu semelhante
induzido pelo Diabo.
6 Pilatos, de sua cátedra (trono, cadeira, estrado) de juiz, evoca uma tradição judaica de obediência à Lei de Moisés (Dt 21.1-9),
numa tentativa de esquivar-se da responsabilidade de condenar um justo à pena de morte, ainda mais sendo o “Filho de Deus”.
Entretanto, uma pequena multidão ensandecida tomou para si e para seus descendentes todo o ônus daquele julgamento injusto.
Alguns líderes justos se manifestaram contra, mas não foram ouvidos (Lc 23.51). Cerca de 40 anos mais tarde, mesmo antes do
cerco a Jerusalém, o sangue dos judeus jorrava por todo país. Ao final do ano 66 foram trucidados mais de 20.000 judeus em
Cesaréia, por seus próprios concidadãos gentios. Em Citópolis os sírios massacraram 13.000 judeus. Em Alexandria, mais de
50.000 judeus foram chacinados por cidadãos gregos e soldados romanos, e suas casas, reduzidas a cinzas. O massacre em Je-
rusalém não poupou nem os bebês. O próprio pátio do templo virou um lago de sangue. Durante o sítio, os poucos sobreviventes
esfomeados eram forçados a roer as próprias sandálias e cintos de couro. Diariamente mais de 500 judeus morriam crucificados,
até que não houvesse mais madeira para confeccionar cruzes. Segundo o historiador Flávio Josefo, mais de um milhão de judeus
foram mortos durante todo o período do sítio romano. Cerca de 97.000 homens jovens que sobreviveram foram vendidos como
escravos, transformados em gladiadores ou morreram na arena do anfiteatro, lutando contra animais ferozes.
7 Pilatos tenta evitar a morte “do divino”, como teria se referido ao Senhor mais tarde, e saciar a sede sanguinária da multidão,
submetendo Jesus a uma terrível sessão de açoites. Esse tipo de castigo era tão cruel que fora proibido aos cidadãos romanos, sob
qualquer motivo. Apenas escravos e provincianos eram chicoteados como preparação para a crucificação. Os chicotes eram feitos
de finas tiras de couro duro, trançadas com pedaços de osso, chumbo e espinhos agudos e venenosos. O martírio de Policarpo, por
exemplo, é descrito nos documentos da comunidade de Esmirna como: “dilacerado pelos açoites, a ponto de ser possível ver os
vasos sanguíneos interiores e a estrutura do seu corpo”. Eusébio relata sobre o flagelo do cristão Doroteu, sob Diocleciano: “até seus
ossos ficaram expostos”. Por isso, eram comuns os flagelados morrerem antes da crucificação. Mas Jesus suportou tudo em silêncio
(Is 53). Muito sacrifício foi oferecido para que os discípulos de hoje possam servir a Cristo com liberdade e alegria.
8 O Pretório era a fortaleza de Antônia, residência de Pilatos quando estava em Jerusalém. Dizia-se que uma “tropa” ou “coorte”
era composta de um décimo dos soldados que formavam uma “legião”, algo entre 360 e 600 homens.
9 Tem início a via crucis ou via-sacra, o caminho da cruz. O Talmude relata que era costume oferecer ao condenado, antes
da crucificação, uma bebida anestesiante, que algumas mulheres piedosas de Jerusalém mandavam preparar às suas custas.
Entretanto (v.34), Jesus nega-se a aceitar esse tipo de alívio (Sl 69.19-21; Pv 31.6; Mc 15.23). A cruz era composta de duas peças
de madeira, uma viga vertical staticulum e outra horizontal antenna. Na primeira, mais ou menos no centro, era fixado um pino de
madeira, chamado de cornu chifre, sobre o qual o crucificado ficava montado. Os crucificados viviam em média cerca de doze
horas. A febre que logo se manifestava causava um tipo de sede ardente. A crescente inflamação das feridas nas costas, mãos
e pés, o ataque dos insetos e aves carniceiras que se aproximavam devido ao odor de sangue e dos excrementos, assim como
a pressão do fluxo sanguíneo contra a cabeça, o pulmão e o coração, e o inchaço de todas as veias provocavam a mais horrível
agonia e dor. Cícero dizia: “A crucificação é o mais cruel e terrível dos castigos”. A execução tinha de ocorrer fora da cidade (Lv

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69 MATEUS 27

33 Chegaram a um lugar conhecido como dadeiramente por ele tem piedade, pois
Gólgota, que significa Lugar da Caveira.10 afirmou: ‘Sou Filho de Deus!’”.
34 Deram-lhe para beber uma mistura 44 Igualmente o ultrajavam os ladrões
de vinho com absinto; mas ele, depois de que ao seu lado haviam sido também
prová-la, negou-se a beber. crucificados.11
35 E aconteceu que após sua crucificação,
dividiram entre si as roupas que lhe per- A morte de Jesus na cruz
tenciam, jogando sortes. (Mc 15.33-41; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30)
36 E se acomodaram ali, para o vigiar. 45 Então, profundas trevas caíram por
37 Acima de sua cabeça fixaram por es- sobre toda a terra, do meio-dia às três
crito a acusação forjada contra ele: “ESTE horas da tarde daquele dia.12
É JESUS, O REI DOS JUDEUS”. 46 E, por volta das três horas da tarde, Jesus
38 Dois ladrões foram crucificados com ele, clamou com voz forte: “Eloí, Eloí, lamá
um à sua direita e outro à sua esquerda. sabactâni?”, que significa “Meu Deus, Meu
39 As pessoas que passavam lançavam- Deus! Por que me abandonaste?”.
lhe impropérios, balançando a cabeça. 47 Mas alguns dos que ali estavam, ao
40 E exclamavam: “Ó tu que destróis o ouvirem isso, comentaram: “Ele chama
templo e em três dias o reconstróis! Ago- por Elias”.13
ra salva-te a ti mesmo. Desce desta cruz, 48 Sem demora, um deles correu em
se és o Filho de Deus!”. busca de uma esponja, embebeu-a em
41 Do mesmo modo, os chefes dos sa- vinagre, colocou-a na ponta de um
cerdotes, os mestres da lei e os anciãos caniço, ergueu-a até Jesus e deu-lhe a
zombavam dele, vociferando: beber.
42 “Salvou a muitos, mas a si mesmo não 49 Entretanto, os outros o censuraram:
pode salvar-se. É o Rei de Israel! Desça “Deixa! Vejamos se Elias vem livrá-lo”.
agora da cruz, e passaremos a crer nele. 50 Então Jesus exclamou, uma vez mais,
43 Pregou sua confiança em Deus. Então em alta voz e entregou o espírito.14
que Deus o salve neste instante, se ver- 51 No mesmo instante, o véu do santu-

24.14), como um sinal da exclusão da sociedade humana (Hb 13.12). João relata que Jesus saiu da cidade (Jo 19.17) e, segundo
o costume (Mt 10.38), carregou pessoalmente sua cruz. Um seu discípulo africano, chamado Simão, de Cirene (região localizada
na Líbia, onde viviam muitos judeus), foi constrangido (em grego, engareusan – palavra que tem a ver com o costume militar
romano de obrigar os civis a entregar cartas) a seguir o caminho do Calvário, carregando a cruz de Jesus. Mais tarde, Simão e
sua família serviram à comunidade cristã que se formava (Mc 15.21; At 6.9; Rm 16.13).
10 A palavra Gólgota é a tradução latina do nome em aramaico da nossa palavra Calvário. Um monte fora dos muros de Jeru-
salém, que, visto de longe, se assemelha a uma caveira humana.
11 Jesus, Deus encarnado, foi cravado e erguido numa cruz entre o céu e a terra, fora da sua cidade amada, como sinal de
vergonha e horror, com uma acusação escrita nas três principais línguas da sua época. Posto entre dois criminosos, foi escar-
necido principalmente pelos mais religiosos e conhecedores das Escrituras. Cumpriram-se todas as profecias sobre o Messias,
notadamente as descritas por Davi no Salmo 22 (mil anos antes do nascimento de Jesus). Cristo morreu pelos nossos pecados
(1Co 15.3-4). Felizes são os que, humildemente, reconhecem esse fato.
12 Jesus foi crucificado às 9 horas da manhã (a terceira hora dos judeus da época, contada desde o raiar do sol). Ao meio dia (12
horas), densas trevas cobriram a terra. Às três da tarde Jesus expirou. As sete frases que Jesus pronunciou durante essas seis horas
de martírio, estão registradas na seguinte ordem: Lc 23.34; Jo 19.26-27; Lc 23.43; Mt 27.46; Jo 19.28; Jo 19.30 e em Lc 23.46.
13 Jesus, num último fôlego, brada em seu dialeto de família, aramaico nazareno, o início do Salmo 22. Chegamos ao mais
profundo do mistério da redenção. O Filho de Deus e Filho do homem experimenta a terrível e momentânea separação do Pai,
para que seu sacrifício pudesse ser aceito e consumado em resgate de todos os que nele cressem em todas as eras (2Co 5.21).
Os circunstantes não compreenderam bem essas palavras e deduziram que Jesus chamava por Elias.
14 Cristo não foi morto diretamente por alguém ou vencido por qualquer infecção (comum aos crucificados na época). Ele, vo-
luntariamente, e no auge do seu poder espiritual entregou a sua vida humana (Jo 19.31-37). Depois do seu brado de vitória, Jesus
explode seu próprio coração. Especialistas afirmam que foi por isso que, ao perfurarem seu lado com uma lança, imediatamente
verteu uma mistura de sangue coagulado e soro (este tem aparência de água). Esse quadro clínico ocorre nos casos de ruptura

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MATEUS 27 70

ário rasgou-se em duas partes, de alto a qual ele próprio havia mandado cavar na
baixo. A terra estremeceu, e fenderam-se rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra
as rochas.15 sobre a entrada do sepulcro, retirou-se.
52 Os sepulcros se abriram, e os corpos 61 Estavam ali, assentadas em frente ao se-
de muitos santos que haviam morrido pulcro, Maria Madalena e a outra Maria.
foram ressuscitados.
53 E, deixando as sepulturas, logo após a Pilatos manda vigiar o sepulcro
ressurreição de Jesus, entraram na cidade 62 No dia seguinte, isto é, no sábado,
santa e apareceram para muitas pessoas. reuniram-se os principais sacerdotes e
54 E aconteceu que o centurião e os que os fariseus e foram até Pilatos e argu-
com ele vigiavam a Jesus, vendo o terremo- mentaram:
to e tudo o que se passava, foram tomados 63 “Senhor, recordamo-nos de que aque-
de grande pavor e gritaram: “É verdade! É le enganador, enquanto vivia, prometeu:
verdade! Este era o Filho de Deus!”. ‘Passados três dias ressuscitarei’.
55 Estavam presentes várias mulheres, 64 Manda, portanto, que o sepulcro dele
observando de longe; eram discípulas, seja guardado até o terceiro dia, para que
que vinham seguindo Jesus desde a Ga- não venham seus discípulos e, raptando
liléia, para o servirem.16 o corpo, proclamem ao povo que ele
56 Entre as quais estavam Maria Mada- ressuscitou dentre os mortos. E esta der-
lena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a radeira fraude cause mais dano do que a
mãe dos filhos de Zebedeu. primeira”.
65 Ao que ordenou Pilatos: “Levai con-
O sepultamento do corpo de Jesus vosco um destacamento! Ide e guardai o
(Mc 15.42-47; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42) sepulcro como melhor vos parecer”.
57 Ao pôr-do-sol chegou um homem rico, 66 Seguindo eles, organizaram um siste-
de Arimatéia, por nome José, o qual havia ma de segurança ao redor do sepulcro. E
se tornado discípulo de Jesus. além de manterem um destacamento em
58 Teve ele uma audiência com Pilatos plena vigilância, lacraram a pedra.17
para pedir-lhe o corpo de Jesus, e Pilatos
ordenou que lhe fosse entregue. Jesus foi ressuscitado!
59 Então, José tomou o corpo e o envol- (Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9)
veu com um lençol limpo de linho.
60 E o colocou em um sepulcro novo, o 28 Tendo passado o sábado, ao raiar
do primeiro dia da semana, Maria

do pericárdio (o tecido celular que reveste o exterior do coração). Esse episódio anula uma teoria surgida no século XIX, a qual
tentando explicar a ressurreição, alegava que Jesus desmaiou nesse momento, para então despertar no túmulo.
15 Desde Moisés sempre houve, no santuário, uma cortina (véu) de tecido que separava o ambiente do Santo dos Santos (Êx
26.37; 38.18; Hb 9.3). Lugar sagrado onde ninguém podia entrar a não ser o sumo sacerdote, e este apenas no Dia da Expiação.
Este acontecimento foi trágico para os judeus, mas um grande sinal para os cristãos de todos os povos, culturas e épocas: Em
Cristo ficou abolida toda e qualquer separação entre o pecador arrependido (adorador) e Deus, nosso Pai (Jo 14.6). O fato de o
véu ter-se partido de alto a baixo, sem contato humano, demonstra que o próprio Senhor abriu um novo e vivo caminho para Sua
Santa presença (Hb 10.20; Ef 2.11-22). E muitos vieram a ser reconciliados para sempre com Deus (At 6.7).
16 Jesus sempre tratou as mulheres com o respeito e a dignidade que Deus requer, diferentemente da forma como os homens
as tratavam em sua época. Era proibido às mulheres aproximarem-se do crucificado. Aquela cena foi um escândalo. Várias dis-
cípulas seguiram o Senhor desde o início do seu ministério, na Galiléia, e permaneceram servindo até sua morte e novo começo
(28.1; Jo 20.11-18). O perfeito amor lança fora o medo (1Jo 4.18).
17 Dois juízes e membros do Sinédrio, que não compactuaram com a condenação de Jesus, José, da cidade de Arimatéia
(uma próspera aldeia montanhosa a cerca de 32 km ao noroeste de Jerusalém) e Nicodemos (Jo 19.38-39), cuidaram do sepul-
tamento de Cristo. Trataram das formalidades civis, das despesas, e proveram um túmulo novo (Is 53.9), nunca antes usado, que
pertencia a José de Arimatéia e localizava-se no monte do Calvário (Jo 19.41). Os líderes civis e religiosos, para evitar qualquer
tentativa de remoção do corpo e possível versão sobre a ressurreição do Mestre, violaram o sábado de Páscoa para tomar todas
as providências necessárias e vigiar a área do túmulo.

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71 MATEUS 27, 28

Madalena e a outra Maria foram visitar Os sacerdotes subornam os guardas


o túmulo.1 11 E sucedeu que enquanto as mulheres
2 E eis que aconteceu um forte terremoto, estavam a caminho, alguns dos guar-
pois um anjo do Senhor desceu dos céus das foram à cidade e contaram aos
e, chegando ao túmulo, rolou a pedra da chefes dos sacerdotes tudo o que havia
entrada e assentou-se sobre ela. ocorrido.
3 O anjo tinha o aspecto de um relâm- 12 Então, os chefes dos sacerdotes reu-
pago, e suas vestes eram alvas como a niram-se em conselho com os anciãos
neve.2 e tramaram outro plano. Deram aos sol-
4 Os guardas foram tomados de grande dados vultosa quantia em dinheiro.
pavor e ficaram paralisados de medo, 13 E lhes recomendaram que declaras-
como mortos. sem a todos: “Os discípulos dele vieram
5 Contudo, o anjo dirigiu-se às mulheres durante a noite e raptaram o corpo, en-
e lhes anunciou: “Não temais vós! Sei que quanto cochilávamos.
viestes ver a Jesus, que foi crucificado. 14 Se isso chegar ao conhecimento do
6 Mas aqui Ele não está. Foi ressuscitado, governador, nós o persuadiremos a vosso
como havia dito. Vinde e vede vós onde favor e vos livraremos de qualquer repri-
Ele jazia. menda”.3
7 Ide caminhando depressa e anunciai 15 Os soldados receberam o dinheiro e
aos seus discípulos: Ele ressuscitou den- fizeram como haviam sido orientados.
tre os mortos e está seguindo adiante de E, por isso, essa versão dos aconteci-
vós rumo à Galiléia. Lá o vereis. Atentai mentos se conta entre os judeus até o
para o que vos disse!”. dia de hoje.
8 As mulheres abandonaram o túmu-
lo correndo, amedrontadas, mas com A Grande Comissão
grande júbilo, e foram imediatamente 16 Os onze discípulos rumaram para a
anunciá-lo aos seus discípulos. Galiléia, em direção ao monte que Jesus
9 De repente, Jesus veio ao encontro delas lhes determinara.
e as saudou: “Alegrai-vos!” Elas se apro- 17 Assim que o viram, prostraram-se
ximaram dele, jogaram-se aos seus pés e o adoraram, mas alguns ficaram em
abraçando-os, e o adoraram. dúvida.
10 Então Jesus lhes declarou: “Não te- 18 Então, Jesus aproximando-se deles
mais! Ide e dizei aos meus irmãos que lhes assegurou: “Toda a autoridade me
sigam para a Galiléia, lá eles me verão”. foi dada no céu e na terra.

1 Conforme o horário judaico, o domingo começava logo após o pôr-do-sol do sábado. Lucas nos informa que Maria Madalena
e Maria, mulher de Clopas (Lc 24.1; Jo 19.25) saíram de madrugada, ainda escuro (Jo 20.12), para visitar o corpo de Jesus,
lamentar e ungi-lo com mais especiarias. Chegaram ao túmulo com os primeiros raios da aurora na esperança de que lhes fosse
autorizada a entrada para a continuação do ritual fúnebre (período de luto) judaico da época (Mt 28.1; Mc 16.2-3).
2 Deus manda seus anjos anunciarem o nascimento e a ressurreição de Jesus. Ele é concebido e ressuscitado pelo poder do
Altíssimo (Lc 1.35; Rm 6.4; Ef 1.20). Essas mensagens são comunicadas em primeiro lugar a mulheres devotas e humildes e que
receberam um nome simples, mas conhecido em todo o mundo: Maria (forma helenizada do nome hebraico Miriã, que foi derivado
de um antigo vocábulo egípcio Marye, e que significa: princesa, amada, mulher de esperança). O anjo não rolou a pedra para que
Jesus saísse do sepulcro, a pedra foi rolada para que as mulheres e, mais tarde, outras pessoas, entrassem e verificassem o túmulo
vazio, o selo (lacre estatal feito com cordas que envolviam a pedra e eram atadas ao sepulcro com as marcas de Roma e do Sinédrio)
rompido e nenhum outro sinal ou dano. Séculos mais tarde, expedições arqueológicas, como as organizadas pelo General Christian
Gordon, localizaram esse túmulo e confirmaram algumas alterações para acomodar um corpo maior do que o de José de Arimatéia
(segundo a tradição de baixa estatura). Contudo, análises físicas e químicas jamais atestaram qualquer vestígio de restos mortais na
sepultura. O túmulo era novo quando foi oferecido para sepultar o corpo do Senhor e continuou novo após sua ressurreição.
3 Agostinho (354-430 d.C.) observou: “Se acordados, por que permitiram a alguém raptar o corpo de Jesus? E, se dormindo,
como podiam declarar que foram os discípulos?” De qualquer modo seriam todos condenados à morte, não fosse o interesse dos

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MATEUS 28 72

19 Portanto, ide e fazei com que todos os 20 ensinando-os a obedecer a tudo quanto
povos da terra se tornem discípulos, ba- vos tenho ordenado. E assim, Eu estarei
tizando-os em nome do Pai, e do Filho, e permanentemente convosco, até o fim
do Espírito Santo; dos tempos”.4

líderes religiosos judaicos em divulgar uma falsa versão sobre o desaparecimento do corpo de Cristo e levar a população a não
crer na intervenção divina, presenciada por soldados e discípulos, nas primeiras horas daquele domingo no monte Calvário.
4 Jesus recebeu todo o poder de Deus (em grego ) e do Senhor Ressuscitado parte a ordem plenipotenciária: Ide! (lite-
ralmente “indo”, em grego ~). Agora esse “envio” não é provisório, limitado e transitório como em Mt 10, mas definitivo,
ilimitado e permanente. Rompeu-se o estreitamento étnico das sinagogas e abriu-se a Salvação (comunhão com Deus) para
todos os povos, raças e culturas. A comunidade de Jesus que abrange o mundo inteiro substituiu a “velha aliança” pela “nova
aliança”, que congrega toda e qualquer pessoa cujo coração creia no Senhor para ser convertido em discípulo. Jesus ensinou e
demonstrou com a sua própria vida o que significa ser um discípulo do Senhor (obediência a Deus). A tríplice ordem missionária
(discipular, batizar e ensinar a discipular) é emoldurada pela garantia da onipresença de Jesus na alma daquele que crê (o crente).
A essência da Igreja de Jesus é que o Ressuscitado continua vivo e atuante no indivíduo e na comunidade. Ao orarmos, não é
mais necessário buscarmos a Deus nos céus, mas, sim, em nossos corações. A promessa da presença contínua de Deus é a
chave de ouro com a qual vários livros da Bíblia são concluídos (Êx 40.38; Ez 48.35; Ap 22.20).
Jesus, após ressuscitar, apareceu a várias pessoas em diversas ocasiões: a Madalena (Jo 20.11-18), a algumas discípulas
(28.9-10), aos discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.13-33), a Pedro (Jo 21.15-19; Lc 24.34-35), a dez discípulos no Cenáculo (Jo
20.19), aos onze discípulos (Jo 20.24-29), a sete discípulos na Galiléia (Jo 21.24-29), aos onze no monte, na Galiléia (Mt 28.16-17),
a Tiago e a todos os apóstolos (1Co 15.7), a uma multidão no monte das Oliveiras (Lc 24.44-49), ao apóstolo Paulo (At 9.3-8).

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INTRODUÇÃO A
O EVANGELHO SEGUNDO

MARCOS
Autoria
Desde os primeiros séculos a Igreja Cristã atribui a autoria do segundo evangelho do Novo Tes-
tamento a João Marcos, filho de Maria, uma mulher de posses e muito prestígio em Jerusalém (At
12.12). Marcos era primo de Barnabé, amigo e companheiro de ministério dos apóstolos Paulo e Pe-
dro. A igreja primitiva também nos informa que Pedro teve participação decisiva na evangelização e
no discipulado de João Marcos, e que ambos desen-volveram laços de profunda amizade e respeito
mútuo. Pedro se referia a Marcos como “meu filho Marcos” ((1Pe 5.13).)
É de aceitação geral que Marcos recebeu de Pedro grande parte das informações contidas no
Evangelho que leva seu nome. Com a autoridade apostólica de Pedro subjazendo este livro sagrado,
ele jamais sofreu qualquer contestação à sua inclusão no cânon das Escrituras. Isso em muito coo-
perou para o rápido reconhecimento deste livro sagrado, bem como sua extraordinária disseminação
por toda a Itália e regiões do império romano. Segundo Papias (por volta do ano 140 d.C.), citando
uma fonte ainda mais antiga, Marcos foi grande cooperador de Pedro e seu amigo íntimo, de quem
ouviu sobre os ensinos e realizações de Jesus Cristo. O comitê de tradução da Bíblia King James
acredita que o Evangelho Segundo Marcos consiste, basicamente, na pregação e no ensino do
apóstolo Pedro, ordenada e interpretada por João Marcos (At 10.37).
Ainda muito jovem João Marcos teve o privilégio de acompanhar Paulo e Barnabé em sua primeira
viagem missionária. Depois viajou com Barnabé para Chipre, pregando a Palavra do Senhor (At
15.38-40). Cerca de doze anos mais tarde, é convidado por Paulo para acompanhá-lo (Cl 4.10; Fm
24). Pouco antes de ser executado pelo império romano, Paulo manda chamar João Marcos (2Tm
4.11) para seguir anunciando o Evangelho a todos os povos.

Propósitos
Enquanto Mateus teve como principal propósito levar o Evangelho aos judeus, Marcos escreveu
objetivando evangelizar e discipular os gentios, particularmente, ensinar os cristãos da Igreja de
Roma. Por isso Marcos se preocupa em explicar alguns dos costumes judaicos (Mc 7.2-4; 15.42),
traduz palavras aramaicas, idioma falado na Palestina na época de Jesus e muito diferente do he-
braico antigo (Mc 3.17; 5.41; 7.11-34; 15.22) e dá ênfase à perseguição e ao martírio dos crentes
ocorrida por volta dos anos 64 e 67 d.C. O grande incêndio de Roma, um plano diabólico do próprio
imperador romano Nero, para acentuar a adoração do seu povo à sua pessoa, lançando a culpa
sobre os cristãos e justificar uma perseguição que condenou sumariamente milhares de pessoas ao
martírio e à morte.
Marcos, antevendo essa chacina, procurou preparar os cristãos – de forma explícita e velada – du-
rante todo o seu texto do Evangelho (Mc 1.12,13; 3.22,30; 8.34-38; 10.30,33-45; 13.8-13).

Data da primeira publicação


Os primeiros estudiosos das Sagradas Escrituras acreditavam que o Evangelho Segundo Mateus
tinha sido escrito e publicado antes da obra de Marcos. Entretanto, atualmente, muitos teólogos e
biblistas são unânimes em afirmar que o Evangelho Segundo Marcos foi o primeiro dos Evangelhos
a chegar ao grande público leitor. Isso por volta do final da década de 50 d.C.
Devido ao fato de Marcos ter sido o intérprete do apóstolo Pedro, havendo preparado sua obra
sobre o Evangelho em estreita sintonia com os ensinos e orientações do seu querido mestre, tanto
Mateus quanto Lucas utilizaram os textos de Marcos como principal fonte documentária na produção
dos seus relatos sobre a vida e a obra de Jesus Cristo em seus Evangelhos.
De acordo com alguns pais da Igreja, como Irineu e Clemente de Alexandria, o Evangelho Segundo
Marcos foi escrito nas regiões da Itália, mais precisamente, em Roma. Pesquisas históricas indicam
que Pedro e Marcos estavam em Roma, pouco antes do martírio de Pedro que se deu na mesma
cidade e no qual o apóstolo teria solicitado que sua crucificação se desse de cabeça para baixo, pois
acreditava não ser digno do mesmo tipo de martírio e morte que foram impostos ao Senhor Jesus.

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No final de sua primeira carta, Pedro indica claramente que está com Marcos, em Roma, criptogra-
fando (codificando) a palavra “Roma” por “Babilônia” (1Pe 5.13) a fim de proteger a Igreja que se
reunia naquela cidade das perseguições do império.

Esboço Geral de Marcos


1. O ministério do Servo (1.1 –10.52)
A. A preparação para o ministério de Jesus (1.1-13)
B. Por meio da vida e obra de João Batista (1.1-8)
C. Por meio do seu próprio batismo (1.9-11)
D. Por meio da vitória sobre a tentação (1.12, 13)
2. Seu ensino e poder (1.14 – 3.12)
A. Sobre uma espécie de demônio (1.21-28)
B. Sobre a doença (1.29-39)
C. Sobre a impureza e a lepra (1.40-45)
D. Sobre toda a paralisia (2.1-12)
E. Sobre a corrupção (2.13-20)
F. Sobre doutrinas equivocadas (2.21, 22)
G. Sobre o uso do sábado (2.23-28)
H. Sobre as deformidades (3.1-6)
I. Sobre os demônios (3.7-12)
3. Ministério posterior na Galiléia (3.13-6.29)
A. Escolha e convocação dos Doze (3.13-21)
B. Condenação dos rejeitadores (3.22-30)
C. A família espiritual de Jesus (3.31-35)
4. As parábolas de Jesus (4.1-34)
A. O semeador (4.1-34)
B. A candeia (4.21-25)
C. O desenvolvimento do grão (4.26-29)
D. A semente de mostarda (4.30-34)
5. As virtudes do Senhor Jesus (4.35 – 9.1)
A. Sobre as tempestades (4.35-41)
B. Sobre os demônios (5.1-20)
C. Sobre a doença e a morte (5.21-43)
D. Ao comissionar os apóstolos (6.7-13)
E. Afetando o assassino Herodes (6.14-29)
F. Ao alimentar 5.000 homens (6.30-44)
G. Ao caminhar sobre as águas (6.45-52)
H. Sobre as enfermidades (6.53-56)
I. Sobre as tradições religiosas (7.1-23)
J. Para com uma mulher gentia (7.24-30)
K. Para com um homem surdo (7.31-37)
L. Ao alimentar mais 4.000 homens (8.1-9)
M. Ao condenar os fariseus (8.10-13)
N. Em seu ensino sobre o fermento (8.14-21)
O. Sobre a falta de visão (8.22-26)
P. Sobre a vida do apóstolo Pedro (8.27-33)
Q. Sobre todos os discípulos (8.34 – 9.1)
6. Suas profecias (9.2-50)
A. Quanto a Sua glória (9.2-29)
B. Quanto a Sua morte (9.30-32)
C. Quanto às recompensas (9.33-41)
D. Quanto ao inferno (9.42-50)
7. Seus ensinos na região da Peréia (10.1-52)
A. Sobre o divórcio (10.1-12)
B. Sobre os pequeninos (10.13-16)
C. Sobre a vida eterna (10.17-31)
D. Sobre Sua morte e ressurreição (10.32-34)

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E. Sobre a ambição humana (10.35-45)
F. Quando da cura do cego Bartimeu (10.46-52)
8. A Paixão de Cristo (11.1 – 15.47)
A. Domingo: A entrada triunfal (11.1-11)
B. Segunda-feira: Purificação (11.12-19)
C. Terça-feira: Ensinos (11.20 – 13.37)
D. Sobre a fé (11.20-26)
E. Sobre Israel (12.1-12)
F. Sobre os deveres cívicos (12.13-17)
G. Sobre a ressurreição (12.18-27)
H. Sobre o maior dos mandamentos (12.28-34)
I. Sobre a divindade de Jesus (12.35-37)
J. Sobre a questão da arrogância (12.38-40)
K. Sobre as ofertas e ajudas (12.41-44)
L. Sobre o futuro (13.1-37)
M. Quarta-feira: A unção e a traição (14.1-11)
N. Quinta-feira: A ceia e a traição (14.12-52)
O. Preparativos para a ceia (14.12-16)
P. A última Páscoa com Jesus (14.17-21)
Q. Rumo ao Getsêmani (14.26-31)
R. Oração e pranto no Getsêmani (14.32-42)
S. Traição e prisão no Getsêmani (14.43-52)
T. Sexta-feira: Juízo e execução (14.53 – 15.47)
U. Cristo julgado por Caifás (14.53-65)
V. Pedro nega a Jesus (14.66-72)
W. Cristo julgado por Pilatos (15.1-15)
X. O martírio de Cristo (15.16-20)
9. Crucificação, morte e ressurreição (15.21 – 16.20)
A. A crucificação do Senhor Jesus (15.21-32)
B. A morte de Jesus Cristo (15.33-41)
C. O sepultamento e o Sábado (15.42-47)
D. Domingo: A ressurreição de Jesus! (16.1-8)
E. Jesus prova que está vivo (16.9-18)
F. Jesus ascende ao Céu de onde voltará (16.19, 20)

Observaçãoç
O Evangelho Segundo Marcos também pode ser sumarizado a partir dos deslocamentos geográfi-
cos feitos por Jesus Cristo durante sua peregrinação na terra:
1. Os preparativos para a vinda de Deus encarnado (1.1-13)
2. A pregação do Filho de Deus na Galiléia (1.14 – 9.50)
3. A pregação de Jesus, o Cristo na Peréia (10.1-52)
4. A Paixão do Filho do homem em Jerusalém (11.1 – 16.20).

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O EVANGELHO SEGUNDO

MARCOS
João Batista revela o caminho de camelo, usava ao redor da cintura um
(Mt 3.1-12; Lc 3.1-18, Jo 1.19-28) cinto de couro e se alimentava de gafa-

1 Princípio do Evangelho de Jesus Cris-


to, o Filho de Deus.1
2 Conforme está escrito no livro do
nhotos e mel silvestre.4

A mensagem de João
profeta Isaías: “Eis que Eu envio o meu (Mt 3.11-12; Lc 3.15-17; Jo 1.19-28)
mensageiro diante de ti, a fim de prepa- 7 E esta era a pregação de João: “Depois
rar o teu caminho; voz do que clama no de mim vem aquele que é mais poderoso
deserto: do que eu, do qual não sou digno sequer
3 ‘Preparai o caminho do Senhor, tornai de curvar-me para desamarrar as cor-
retas as suas veredas’”.2 reias das suas sandálias.
4 E foi assim que chegou João, batizando 8 Eu vos batizei com água; Ele, entretan-
no deserto e pregando um batismo de ar- to, vos batizará com o Espírito Santo”.5
rependimento para perdão dos pecados.3
5 Vinham encontrar-se com ele pessoas Jesus é batizado
de toda a região da Judéia e todo o povo (Mt 3.13-17; Lc 3.21-22; Jo 1.32-34)
de Jerusalém, e eram batizados por ele no 9 Aconteceu, naqueles dias, que chegou
rio Jordão, confessando seus pecados. Jesus, vindo de Nazaré da Galiléia, e foi
6 João vestia roupas tecidas com pêlos batizado por João no rio Jordão.

1 A expressão “Evangelho” no grego mais antigo significa “um prêmio conferido a quem levava boas notícias”. Com o tempo,
essa palavra passou a significar “boas novas”. Cristo é em si a “boa notícia” para a humanidade e, ao mesmo tempo, é portador
das “boas novas” de Salvação (cada indivíduo precisa ser salvo, liberto, do poder do pecado original, do sistema mundial dirigido
por Satanás e do inferno eterno). A palavra “princípio” indica a introdução do Evangelho. O livro de Marcos teria sido o primeiro
a ser escrito, servindo como base para Mateus e Lucas, sendo os três, conhecidos como os “Sinóticos” (termo de origem grega
que significa: “análise dos fatos a partir de um determinado ponto de vista” ou “estudo comparativo”). A palavra “Cristo” é um
adjetivo de origem grega que significa “Ungido” (em hebraico, Messias). No AT, reis, sacerdotes e profetas foram “ungidos”, o que
confirmava sua escolha divina. “Filho de Deus” tem um sentido amplo no NT, mas quando aplicado a Jesus salienta sua Deidade
(Sl 2.7; Jo 10.38; 14.10; Hb 1.2) e sua Missão (10.45).
2 “Está escrito”, frase muito usada para lembrar ou citar passagens do AT. Marcos faz alusão às profecias de Is 40.3; Ml 3.1.
Conforme a tradição entre os mestres judaicos, citava-se apenas o nome do “profeta maior” ou mais antigo. Fica claro, no contex-
to, que o Senhor (Jeová ou Javé) do AT é plenamente identificado com Jesus Cristo no NT (Rm 10.9-13).
3 João é a forma simplificada do nome hebraico Johanen, que significa “dom de Jeová”. Era parente de Jesus, porquanto suas
mães eram primas (Lc 1.36). Seu ministério público teve início por volta do ano 27 a.C., proclamando a vinda iminente do Messias
e Seu Reino. João insistia na urgência do “arrependimento” (em grego, metanoia, quer dizer: “mudança radical de pensamento e
volta ao juízo”) devido à aproximação da vinda do Senhor. A mesma necessidade impreterível dos nossos dias. O ato simbólico
de João “mergulhar” (palavra derivada da expressão grega baptizô) as pessoas nas águas, após confissão pública e oral dos
pecados, entrou para a história da Igreja.
4 As roupas e o tipo de alimentação de João revelam sua austeridade e desprendimento dos interesses materiais deste mundo.
Seu jeito de vestir-se era típico dos profetas e lembrava Elias (2 Rs 1.8; Zc 13.4), a quem João muito se assemelha (9.13). Alimen-
tar-se de gafanhotos era uma prática comum entre as comunidades pobres (Lv 11.22), especialmente as que viviam a oeste do
mar Morto, entre cujos habitantes (a seita dos essênios) estão os que escreveram e preservaram os Rolos do mar Morto (a mais
importante descoberta arqueológica do século XX e que muito ajudou nesta tradução da Bíblia King James). Alguns grupos de
beduínos ainda hoje comem gafanhotos tostados ou salgados.
5 João batiza apenas com água, simbolizando a purificação dos pecados reconhecidos e renunciados. Entretanto, Jesus Cristo
oferecerá o dom do Espírito e com Ele a filiação adotiva e perene de Deus (em hebraico Yahweh), nosso Pai (em aramaico, Abba,
que significa: pai querido), conforme Jo 3.3-6. O batismo cristão é muito mais importante que o batismo judaico de prosélitos, dos
essênios (que batizavam os judeus que entravam para sua seita) e o praticado por João. Isso porque somente no batismo cristão
está implícito o ato simbólico de identificação do pecador restaurado com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

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5 MARCOS 1

10 E, imediatamente após deixar a água, 16 Caminhando pela praia do mar da


viu os céus rasgando-se e o Espírito des- Galiléia, viu Jesus a Simão e seu irmão
cendo até Ele na forma de uma pomba. André lançando suas redes ao mar, pois
11 Então houve uma voz vinda dos céus: eram pescadores.
“Tu és o meu Filho amado; em ti muito 17 Então, dirigiu-se a eles Jesus dizendo:
me agrado”.6 “Vinde em minha companhia, e Eu vos
tornarei pescadores de pessoas”.
Jesus é tentado 18 Naquele mesmo momento, eles aban-
(Mt 4.1-11; Lc 4.1-13) donaram as suas redes e seguiram Jesus.
12 Logo em seguida, o Espírito o dirigiu 19 Andando um pouco mais adiante,
para o deserto. Jesus avistou Tiago, filho de Zebedeu, e
13 Ali esteve Ele por quarenta dias sendo seu irmão João. Eles estavam num barco
tentado por Satanás; viveu entre as feras consertando as redes.
selvagens, e os anjos o serviram.7 20 Sem demora os chamou. E eles,
deixando o pai, Zebedeu, com os em-
Jesus convoca seus discípulos pregados no barco, partiram seguindo
(Mt 4.12-22; Lc 4.14,15; 5.1-11; Jo 1.35-42) a Jesus.10
14 E depois que João foi levado à prisão,
Jesus partiu para a Galiléia, pregando a Jesus ensina na sinagoga
todos as boas novas de Deus:8 (Lc 4.31-37)
15 “Cumpriu-se o tempo e está chegando 21 Dirigiram-se para Carfanaum e, assim
o Reino de Deus; arrependei-vos e crede que chegou o sábado, tendo entrado na
no Evangelho”.9 sinagoga, Jesus passou a ensinar.11

6 Jesus insistiu em ser batizado para endossar a autoridade de João; identificar-se com os pecadores que sinceramente busca-
vam o perdão de Deus (2 Co 5.21); anunciar e confirmar publicamente seu ministério; permitir que João o apresentasse ao mundo
como o Messias prometido (Jo 1.53) e que ele (Jesus) recebesse a plena unção do Espírito de Deus (Lc 3.22). A forma de pomba
era real e visível e não apenas uma analogia espiritualizada para descrever romanticamente o fenômeno, pois Lucas ainda é mais
preciso, usando a expressão “em forma corpórea” (Lc 3.22). Esse mesmo fenômeno ocorreu também por ocasião da Criação (Gn
1.2). O próprio Deus fala sobre o amor e a alegria que sente por Jesus, Seu Filho (Jo 12.28), e Suas palavras relembram Gn 22.2;
Sl 2.7 e Is 42.1. Temos aqui uma visão clara da Trindade, doutrina cristã que só pode ser bem aceita após o verdadeiro encontro
com a pessoa de Cristo, o Filho de Deus.
7 Sem dúvida foi o próprio Jesus quem relatou aos seus discípulos os detalhes desta batalha histórica (Mt 4.1-11; Lc 4.1-14).
Todos os sinóticos dão ênfase à relação existente entre o “batismo” e a “tentação” de Cristo. Jesus, dirigido (ou impelido) pelo
Espírito, foi ativo no Seu batismo e passivo na tentação. Por meio do batismo Ele cumpriu toda a justiça, e pela tentação Sua
justiça foi provada. Antes de iniciar seu ministério de destruir o poder de Satanás nas vidas dos seres humanos, foi necessário
que Ele vencesse o Inimigo no campo de batalha da sua própria vida na terra (Hb 2.18; 4.15). A magnitude de toda essa batalha
se observa no fato de que anjos vieram servi-lo (Mt 4.11, Lc 22.43). Em menor grau, cada discípulo que é chamado a uma missão
desafiadora no Reino e impactante no mundo deve estar preparado para semelhante conflito e vitória.
8 Entre a tentação de Jesus e a execução de João Batista ocorreram os eventos registrados em Jo 1.19 – 4.54. Os fatos que
levaram à prisão estão narrados em Mc 6.17-20.
9 A palavra grega metanoia (que significa mudar de mentalidade e voltar ao juízo correto) reflete a expressão hebraica shub
que freqüentemente (cerca de 120 vezes) ocorre no AT com a conotação espiritual de “retornar” a Deus. No contexto da
conversão cristã, aponta para uma mudança radical de vida, em conseqüência da fé depositada na pessoa e obra de Jesus
Cristo (At 3.19; 26.20; 1Ts 1.9).
10 Marcos emprega (cerca de 50 vezes) em seus escritos, como parte do seu estilo, uma palavra grega traduzida de várias
maneiras: “sem demora, logo, então, assim, em seguida, rapidamente” e outras semelhantes, que revelam seu senso de urgência
em comunicar o Evangelho ao mundo (especialmente aos gentios). Jesus ensina que a vocação do discípulo missionário implica:
no discipulado (“vinde em minha companhia” ou “após mim”); em ser capacitado por Cristo (“Eu vos tornarei”); num esforço
pessoal para explicar as boas novas às pessoas (“pescadores”) e na disposição de colocar as ambições e os interesses seculares
em segundo plano (“abandonaram as suas redes”).
11 A sinagoga sempre teve uma importância vital para as comunidades judaicas em todo o mundo desde sua fundação, na
época do exílio, até nossos dias. Uma sinagoga podia ser estabelecida em qualquer cidade ou povoado onde houvesse ao menos
dez homens judeus casados, e seu propósito maior era ensinar as Escrituras e adorar a Deus. Era costume entre os líderes das
sinagogas, convidar os mestres visitantes a participarem da adoração e ministrarem a Palavra na reunião do sábado (em hebraico

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MARCOS 1 6

22 E todos ficavam maravilhados com o muita febre, e logo falaram com Jesus a
seu ensino, pois lhes ministrava como al- respeito dela.
guém que possui autoridade e não como 31 Então, aproximando-se, Ele a tomou
os mestres da lei.12 pela mão e a levantou. A febre imediata-
23 Mas, naquele exato momento, levan- mente a deixou e ela se pôs a serví-los.
tou-se na sinagoga um homem possuído 32 Ao final da tarde, logo após o pôr-do-
de um espírito imundo, que vociferava: sol, o povo levou até Jesus todos os que
24 “O que queres de nós, Jesus Nazareno? estavam passando mal e os dominados
Vieste para nossa destruição? Conheço a por demônios.
ti, sei quem tu és: o Santo de Deus!” 33 E, assim, a cidade inteira se aglomerou
25 Mas Jesus o repreendeu severamente: à porta da casa.
“Fica quieto e sai dele!”13 34 Jesus curou a muitos de várias enfer-
26 Então, o espírito imundo, sacudindo midades, bem como expulsou diversos
aquele homem violentamente e gritando demônios. Entretanto, não permitia que
com poderosa voz, saiu dele. os demônios falassem, pois eles sabiam
27 Todos ficaram atônitos e assustados per- quem era Ele.15
guntavam uns aos outros: “O que é isto?
Novo ensinamento, e vejam quanta autori- Jesus retira-se para orar
dade! Aos espíritos imundos Ele dá ordens, (Lc 4.42-44)
e eles prontamente lhe obedecem!” 35 De madrugada, em meio a escuridão,
28 Assim, rapidamente as notícias sobre a Jesus levantou-se, saiu da casa e retirou-
sua pessoa se espalharam em várias dire- se para um lugar deserto, onde ficou
ções e por toda a região da Galiléia. orando.16
36 Simão e seus amigos saíram para pro-
O poder de Jesus sobre doenças curá-lo.
e demônios 37 Então, quando o acharam, informa-
(Mt 8.14-15; Lc 4.38-39) ram: “Todos estão te procurando!”
29 E assim que saíram da sinagoga, diri- 38 E Jesus os instruiu: “Vamos seguir para
giram-se para a casa de Simão e André, outros lugares, às aldeias vizinhas, a fim
juntamente com Tiago e João.14 de que Eu pregue ali também. Pois foi
30 A sogra de Simão estava deitada, com para isso que vim”.

shabbãth que significa: o dia do descanso). Jesus, assim como Paulo mais tarde (At 13.15; 14.1; 17.2; 18.4), aproveitou essa opor-
tunidade cultural para anunciar as novas e boas notícias do Reino de Deus (o Evangelho). Jesus escolheu Carfanaum, importante
centro de comércio e distribuição de peixes, como sede do seu ministério após a rejeição que sofreu em sua terra natal, Nazaré
(Lc 4.16-31). Os romanos mantinham um centurião na cidade (8.5) e uma coletoria de impostos (Mt 9.9).
12 Marcos dedica boa parte dos seus escritos a salientar o quanto os ensinos e as atitudes de Jesus tocavam os corações das
pessoas e as deixavam impressionadas (2.12; 5.20,42; 6.2,51; 7.37; 10.26; 11.26; 11.18; 15.5). Sua autoridade provinha direta e
absolutamente de Deus e por isso não citava os grandes mestres da Lei como era costume dos rabinos.
13 Com exceção do texto correspondente de Lc 4.34, o título “O Santo de Deus” foi usado apenas em Jo 6.69 e se refere à
origem divina de Jesus, mais do que ao seu messianato (Lc 1.35). Esse título foi usado pelos demônios com base na crença do
ocultismo de que o uso exato do nome de uma pessoa permitia certo controle sobre ela. O homem estava possesso de mais
de um demônio, mas apenas o líder deles gritou e falou. Entretanto, Jesus, em plena autoridade divina, ordena que o demônio
“fique impedido de expressar-se”, literalmente em grego que significa “seja amordaçado!” ou “fique imobilizado e
com a boca amarrada”.
14 Jesus e seus discípulos certamente foram almoçar com a família de Pedro (1Co 9.5), pois a refeição principal do sábado era
tradicionalmente servida logo após o encerramento do culto matinal das sinagogas.
15 O povo aguarda o final do pôr-do-sol e, conseqüentemente, o encerramento do sábado, para carregar seus enfermos e
possessos (Jr 17.21,22) e os levar à presença de Cristo a fim de serem curados e libertos. Marcos retrata com clareza a perfeita
humanidade e divindade de Jesus. Ele sentiu compaixão pelo povo (6.34) e os curou, mas sabia da Sua prioridade: anunciar
o Reino e a Salvação (1.15). Soube evitar a publicidade e não permitiu que pessoas nem o Inimigo o enganassem com falsa
adoração ou lisonja (1.24,34; 3.11; 5.7).
16 A expressão grega transliterada proii indica a última vigília da noite, das três às seis horas da manhã. Jesus reage ao crescen-
te aumento de sua popularidade e se retira para um lugar tranqüilo e isolado onde possa conversar a sós com o Pai.

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7 MARCOS 1, 2

39 E aconteceu que Ele percorreu toda a Jesus perdoa e cura


Galiléia, pregando nas sinagogas e expe- (Mt 9.1-8; Lc 5.17-26)
lindo os demônios.

A cura do leproso que creu


2 Chegando de novo em Cafarnaum,
depois de alguns dias, o povo ficou
sabendo que ele estava em casa.1
(Mt 8.1-4; Lc 5.12-16) 2 E foram tantos os que se aglomeraram
40 Certo leproso aproxima-se de Jesus ali, que já não havia lugar nem à porta; e
e suplica-lhe de joelhos: “Se for da tua Ele lhes pregava a Palavra.2
vontade, tens o poder de purificar-me!” 3 Vieram trazer-lhe um paralítico, carre-
41 Movido de grande compaixão, Jesus gado por quatro homens.
estendeu a mão e, tocando nele, excla- 4 Não conseguindo levá-lo até Jesus, por
mou: “Eu quero. Sê purificado!” causa da multidão, removeram parte
42 No mesmo instante toda a doença de- da cobertura sobre o lugar onde estava
sapareceu da pele daquele homem, e ele Jesus e, por essa abertura no teto, baixa-
foi purificado.17 ram a maca na qual se achava deitado o
43 Em seguida Jesus se despede dele com paralítico.3
forte recomendação: 5 Observando a fé que eles demonstra-
44 “Atenta, não digas nada a ninguém; vam, declarou Jesus ao paralítico: “Filho!
contudo vai, mostra-te ao sacerdote e Estão perdoados de ti os pecados”.
oferece pela tua purificação os sacrifícios 6 Entretanto, alguns dos mestres da lei
que Moisés prescreveu, para que sirvam que por ali estavam sentados, julgaram
de testemunho”.18 em seu íntimo:
45 Contudo, assim que o homem saiu, 7 “Como pode esse homem falar desse
começou a proclamar o que acontecera modo? Está blasfemando! Quem afinal
e a divulgar ainda muitas outras coisas, pode perdoar pecados, a não ser exclusi-
de modo que Jesus não mais conseguia vamente Deus?”4
entrar publicamente numa cidade, mas 8 Jesus imediatamente percebeu em seu
via-se obrigado a ficar fora, em lugares espírito que era isso o que eles estavam
desabitados. Mesmo assim, pessoas de urdindo e lhes questionou: “Por que co-
todas as partes iam ter com Ele.19 gitais desta maneira em vossos corações?

17 O termo grego usado no original não se refere apenas e especificamente à lepra ou hanseníase (como se conhece hoje), mas
a vários tipos de doenças e cânceres de pele. Todavia, como implicou em imundícia, segundo o AT (Lv 13 e 14), era natural que
se tornasse um símbolo do pecado: ambos são repugnantes; espalham-se pelo corpo e são contagiosos; são incuráveis, a não
ser pela misericórdia de Deus; só Cristo pode oferecer plena solução, e isso por causa do seu compadecimento, do seu poder
que vem de Deus (Jo 3.2) e porque foi para cumprir essa missão que Ele veio ao mundo (10.45).
18 Os sacrifícios serviam de comprovação diante dos sacerdotes e para o povo de que a cura era genuína (e que Jesus respei-
tava a Lei). A cura era um testemunho concreto e visível do poder divino de Jesus, pois os judeus acreditavam que somente Deus
podia curar uma doença de pele como a lepra (2Rs 5.1-4).
19 A inevitável popularidade de Jesus Cristo (1.28; 3.7,8; Lc 7.17) e a inveja e oposição cada vez mais intensa dos líderes
religiosos (2.6,7,16,23,24; 3.2,6,22) forçaram Jesus a se retirar da sua amada Galiléia e peregrinar pelos territórios circunvizinhos.
No entanto, o povo, sedento, viajava de todas as partes para receber a bênção da Sua Palavra e Poder.
Capítulo 2
1 Pedro e sua família (1Co 9.5) faziam questão de hospedar Jesus sempre que ele estava em Cafarnaum, e Jesus se sentia
em casa (1.21,29).
2 A Palavra é o Evangelho: Cristo e as boas novas da Salvação eterna (1.15). As multidões estavam à espera do Senhor e o
receberam com o mesmo entusiasmo de antes (1.32,33,37).
3 Uma casa típica da Palestina daqueles tempos tinha o telhado plano, onde se podia chegar por uma escada externa. O
telhado era geralmente coberto com uma camada de barro apoiada por esteiras feitas de ramos de palmeiras e sustentadas por
vigas de madeira.
4 Na teologia judaica, nem mesmo o Messias teria poder para perdoar pecados, somente e exclusivamente o Altíssimo (Deus,
em hebraico Yahweh). Jesus, de forma simples e natural, age como perfeito ser humano (compassivo e solidário em relação ao
próximo), e perfeitamente como Deus (oferecendo solução à mais profunda e dramática necessidade humana: o perdão). Essa
demonstração prática, pública e visual da deidade de Jesus foi considerada pelos teólogos locais (escribas ou mestres da lei)
como uma grave e escandalosa blasfêmia.

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MARCOS 2 8

9 O que é mais fácil dizer ao paralítico: Jesus à mesa com pecadores


‘Estão perdoados de ti os pecados’, ou (Mt 9.10-13; Lc 5.29-32)
falar: ‘Levanta-te, toma a tua maca e sai 15 Aconteceu que, em casa de Levi, pu-
andando’?5 blicanos e pessoas de má fama, que eram
10 Todavia, para que saibais que o Filho numerosas e seguiam Jesus, estavam à
do homem tem na terra autoridade mesa com Ele e seus discípulos.8
para perdoar pecados...” – dirigiu-se ao 16 Quando os mestres da lei que eram
paralítico – fariseus o viram comendo com os pu-
11 “Eu te ordeno: Levanta-te, toma tua blicanos e outras pessoas mal afamadas,
maca e vai para tua casa”. perguntaram aos discípulos de Jesus:
12 Então, ele se levantou e, no mesmo “Por que Ele se ali-menta na companhia
instante, tomando sua maca saiu andan- de publicanos e pecadores?”
do à frente de todos, que, estupefatos, 17 Ao ouvir tal juízo, Jesus lhes ponderou:
glorificaram a Deus, exclamando: “Nun- “Não são os que têm saúde que necessi-
ca vimos nada semelhante a isto!”6 tam de médico, mas, sim, os enfermos.
Eu não vim para convocar justos, mas
Jesus convoca Mateus sim pecadores”.9
(Mt 9.9-13; Lc 5.27-32)
13 Uma vez mais, saiu Jesus e foi cami- Jesus explica o jejum
nhar na praia, e toda a multidão vinha ao (Mt 9.14-17; Lc 5.33-39)
seu encontro, e Ele os ensinava. 18 Os discípulos de João e os fariseus estavam
14 Enquanto andava, viu a Levi, filho jejuando. Algumas pessoas vieram ter com
de Alfeu, sentado à mesa da coletoria, Jesus e inquiriram: “Por que os discípulos de
e o chamou: “Segue-me!” Ao que ele se João e os discípulos dos fariseus jejuam, mas
levantou e o seguiu.7 os teus discípulos não jejuam?”10

5 Para Jesus seria mais fácil apenas curar o paralítico e chamar a atenção do público para sua pessoa. Mas perdoar tinha a ver
com a glória de Deus e lhe custaria uma vida de sacrifício e seu próprio holocausto na cruz (10.45). E para os mestres? O que
seria mais fácil? Curar ou perdoar? A expressão de Jesus: “Estão perdoados de ti os pecados”, é a tradução literal dos melhores
originais, em grego .
6 Jesus intitulou a si mesmo de “Filho do homem” por cerca de 80 vezes nos evangelhos. Segundo o profeta Daniel (Dn
7.13,14), o filho de um ser humano é retratado como personagem celestial a quem, no final dos tempos, Deus confiou plena
autoridade, glória máxima e poder soberano. Fica claro que um dos propósitos dos muitos milagres, sinais e prodígios realizados
por Jesus era apresentar provas indiscutíveis da sua divindade (Jo 2.11; 20.30,31). Com certeza o paralítico e a multidão presente
compreenderam claramente quem era Jesus e sua atitude, pois glorificaram a Deus.
7 Levi era o nome de infância de Mateus e nome apostólico que significa “dádiva do Senhor” (Mt 9.9; 10.3). Levi era publicano e
cobrador de impostos (Lc 5.27), sujeito às ordens de Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia. A coletoria era quase sempre uma es-
pécie de bilheteria onde eram cobrados pedágios para aqueles que transitassem pela estrada internacional que ligava Damasco
ao litoral do Mediterrâneo e ao Egito, passando por Cafarnaum. A maioria dos publicanos cobrava impostos além da lei e prestava
falsos relatórios ao governo de Roma. Eram odiados pelo povo; para os fariseus eram iguais aos pecadores (literalmente: gente
de má fama) que desprezavam a Lei. Em vista de viverem na companhia dos gentios eram excluídos da sinagoga.
8 Na cultura oriental e especialmente na judaica, fazer uma refeição na casa de alguém era um grande sinal de amizade entre os
participantes. O termo “pecadores” era em geral uma maneira de se referir aos cobradores de impostos, mentirosos, enganado-
res, adúlteros, assaltantes, criminosos, e pessoas de má reputação. Jesus e seus discípulos eram os convidados de honra de um
grupo com essas qualificações gerais. Jesus compartilha as bênçãos de sua mesa com os pecadores remidos (Ap 3.20).
9 Os fariseus eram um grupo de religiosos e sucessores dos hassidins, judeus piedosos que juntaram suas forças às dos
macabeus durante a guerra pela liberdade da Síria (166 a 142 a.C). Os fariseus surgiram no reinado de João Hircano, entre 135 e
105 a.C. Embora alguns realmente fossem homens de Deus, a maioria dos que conflitaram com Jesus eram hipócritas, invejosos,
formalistas e envenenados por sórdidos interesses políticos. Segundo o farisaísmo, a graça de Deus era oferecida somente para
aqueles que cumprissem a Lei.
10 Os discípulos de João jejuaram porque seu mestre estava preso, por estarem em oração pela redenção proclamada por
João e por causa da doutrina (ascetismo) de purificação e arrependimento pregada por João como preparação para a vinda de
Cristo. Entretanto, a Lei de Moisés prescrevia apenas um jejum obrigatório: no Dia da Expiação (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7).
Após o Exílio na Babilônia, quatro outros jejuns anuais eram observados (Zc 7.5; 8.9). Na época de Jesus os fariseus tinham o
costume de jejuar duas vezes por semana (Lc 18.12).

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9 MARCOS 2, 3

19 Explicou-lhes Jesus: “Como podem os 25 Mas Ele esclareceu: “Nunca lestes como
convidados do noivo jejuar enquanto o agiu Davi e seus companheiros, quando
têm consigo?11 sofreram necessidade e tiveram fome?
20 Contudo, virão dias quando o noivo 26 Na época do sumo sacerdote Abiatar,
lhes será arrancado; e então, nessa oca- Davi entrou na casa de Deus e se ali-
sião, jejuarão. mentou dos pães dedicados à oferta da
21 Ninguém costura remendo de pano Presença, que somente aos sacerdotes era
novo em roupa velha, porquanto o permitido comer, e os ofereceu também
remendo novo forçará o tecido velho aos seus companheiros”.14
e o rasgará ainda mais, aumentando a 27 E então concluiu: “O sábado foi criado
ruptura. por causa do ser humano, e não o ser
22 Assim como não há pessoa que depo- humano por causa do sábado.
site vinho novo em recipiente de couro 28 Assim sendo, o Filho do homem é Se-
velho; caso o faça, o vinho arrebentará o nhor inclusive do sábado”.15
recipiente, e dessa forma, tanto o vinho
novo quanto o recipiente se estragarão. Jesus cura as deformidades
Ao contrário, põe-se o vinho novo em (Mt 12.9-14; Lc 6.6-11)
um recipiente de couro novo”.12

Jesus é Senhor do Sábado


3 Em outra ocasião, Jesus entrou na
sinagoga e encontrou ali um homem
que tinha atrofiada uma das mãos.
(Mt 12.1-14; Lc 6.1-11) 2 Alguns dos fariseus estavam procuran-
23 E aconteceu que, passava Jesus num dia do uma razão para acusar Jesus; por isso
de sábado pelas plantações de cereal. Os o observavam com toda a atenção, a fim
seus discípulos, enquanto caminhavam, de constatar se Ele iria curá-lo em pleno
começaram a colher algumas espigas. sábado.
24 Então os fariseus advertiram-no: “Vê! 3 Então convidou Jesus ao homem da
Por que teus discípulos fazem o que não mão atrofiada: “Levanta-te e vem aqui
é permitido aos sábados?”13 para o meio”.

11 A expressão “noivo” refere-se a Cristo (Ef 5.23-32). No AT, o “noivo” é Deus (Os 1.1-11; Is 54.5; 62.45; Jr 2.2). Os casamentos
judaicos eram uma ocasião para alegria geral e a sua celebração chegava a durar uma semana. Não fazia o menor sentido pensar
em jejum durante essas festividades. O jejum sempre esteve relacionado a momentos de dificuldade, grandes desafios e tristeza.
Enquanto o “noivo” estava na festa era tempo de regozijo, o tempo triste e amargo chegaria, quando Jesus seria “tirado com
violência” (literalmente em grego aparthç)ç , e naqueles dias, sim, os discípulos jejuariam. Certamente que a analogia de Jesus foi
bem compreendida pelos inquiridores.
12 Estas duas parábolas (Mt 9.16,17; Lc 5.36) ensinam claramente sobre a impossibilidade de se misturar o velho ritualismo da Lei (o
Judaísmo em todas as suas formas e ramificações) com a Nova Aliança da graça e da liberdade em Cristo: o Evangelho (Gl 5.1,13).
13 A lei mosaica permitia a todo viajante colher espigas de trigo ao longo das estradas com o objetivo específico de comê-
las, na hora, para matar a fome (Dt 23.25). Os fariseus não estão criticando essa prática, mas, sim, o fazer isso no sábado. É
impressionante a calma e a segurança de Jesus diante das sucessivas investidas dos seus inquiridores, pois segundo o Talmude
judaico, a ofensa de trabalhar (colher) no sábado incorria em pena de morte por apedrejamento, desde que o acusado fosse
advertido e sua falta ficasse comprovada pelo testemunho de duas ou três autoridades religiosas, por isso o “Vê!” dos fariseus,
tem o sentido de: “Atenção! Foste pego em flagrante delito”.
14 Jesus busca em sua defesa um episódio ocorrido com o venerado (pelos judeus fariseus especialmente) rei Davi (1Sm 21.1-
6). A relação entre os acontecimentos está no fato de homens de Deus terem feito algo proibido pela Lei. Como no direito judaico
é sempre permitido praticar o bem e salvar vidas (ainda que seja no sábado), tanto Davi quanto os discípulos estavam dentro
do chamado “espírito da lei” (Is 58.6,7; Lc 6.6-11; 13.10-17; 17.1-6). Havia, portanto, uma jurisprudência formada e os fariseus
tiveram de aceitar a argumentação pública de Jesus. De acordo com 1 Sm 21.1-9, Aimeleque, pai de Abiatar, era sumo sacerdote
na ocasião (2Sm 8.17; Mt 12.4).
15 A tradição judaica havia criado tantas restrições e normas sobre a guarda do dia do sábado, que a maioria das pessoas
sentia-se culpada por não conseguir cumprir rigorosamente todas as ordenanças estabelecidas. Jesus enfatiza o propósito que
Deus tem para o sábado: um dia para descanso; restauração espiritual, mental e física. Jesus conclui sua alusão à história judaica,
mostrando que se a lei do sábado não tinha aplicação no caso do servo do templo, muito menos teria qualquer restrição sobre
Cristo, o Senhor do Templo. Somente no evangelho de Marcos encontramos a importante definição “O Filho do homem é Senhor
inclusive do sábado”, um dia especial consagrado a Deus.

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MARCOS 3 10

4 Em seguida Jesus indaga deles: “O que evitar que a massa de pessoas o apertasse,
nos é permitido fazer no sábado: o bem tirando-lhe os movimentos.
ou o mal? Salvar vidas ou matar as pesso- 10 Pois Ele havia curado grande multi-
as?” No entanto, eles ficaram calados.1 dão, de modo que todos os que padeciam
5 Indignado, olhou para os que estavam de alguma enfermidade se acotovelavam
ao seu redor e, profundamente entriste- na tentativa de vê-lo e tocá-lo.
cido com a dureza do coração deles, or- 11 E acontecia que todas as vezes que as
denou ao homem: “Estende a tua mão”. pessoas com espíritos imundos o viam,
Ele a estendeu, e eis que sua mão fora atiravam-se aos seus pés e berravam: “Tu
restaurada. és o Filho de Deus!”
6 Diante disso, retiraram-se os fariseus 12 Todavia, Jesus repreendia tais espíritos
e iniciaram, em acordo com os hero- severamente, ordenando que não reve-
dianos, uma conspiração contra Jesus, lassem quem era Ele.
e tramavam um meio de condená-lo à
morte.2 Jesus convoca os Doze
(Mt 10.1-4; Lc 6.12-16)
Jesus cura multidões na praia 13 Jesus subiu a um monte e convocou
7 Jesus retirou-se com seus discípulos e para si aqueles a quem ele queria. E eles
foi na direção do mar, e uma numerosa foram para junto dele.
multidão vinda da Galiléia o seguia. 14 E escolheu doze, qualificando-os como
8 E assim que ouviram a respeito de apóstolos, para que convivessem com ele
tudo o que Ele estava realizando, grande e os pudesse enviar a proclamar.
quantidade de pessoas provenientes da 15 E tivessem autoridade para expulsar
Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, das demônios.4
regiões do outro lado do Jordão e das 16 Ele constituiu, pois, os Doze: Simão, a
cercanias das cidades de Tiro e Sidom, quem atribuiu o nome de Pedro.
veio ter com Jesus.3 17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu
9 Então, por causa das multidões, Ele irmão, aos quais deu o nome de Boaner-
pede aos discípulos que passem a manter ges, que quer dizer, “filhos do trovão”.
um pequeno barco à sua disposição, para 18 E depois, André; Filipe; Bartolomeu;

1 O argumento de Jesus é claro: ser capaz de fazer o bem e preferir fazer o mal é pecado (em aramaico o sentido geral da
palavra “pecar” é “errar”), pois há pouca diferença entre fazer o mal e deixar de fazer o bem (Tg 4.17). Os mestres judaicos
pregavam que o sábado era um dia dedicado ao descanso, amor e misericórdia, por isso, o socorro a quem estivesse em perigo
era permitido. Entretanto, Jesus os confronta com suas próprias e cruéis intenções, uma vez que estavam usando o sábado para
tramar o seu assassinato.
2 A partir desta controvérsia, os mestres e as autoridades eclesiásticas judaicas foram tomados por terrível ódio contra Jesus,
a ponto de se juntarem com os herodianos, um partido político nacionalista muito influente que apoiava Herodes e sua dinastia
contra Roma (Mt 22.16). Os fariseus (que significa “os separados”) formavam um partido do povo, com pessoas de classe baixa,
e se opunham aos herodianos e aos saduceus, ricos e aristocratas (12.18-23). Entretanto, para matar Jesus todo conchavo foi
aceito entre eles.
3 A popularidade de Jesus crescia assustadoramente. Essa rápida lista de Marcos mostra que as multidões vinham não apenas
das áreas adjacentes a Cafarnaum, mas também de longas distâncias. As regiões mencionadas incluem praticamente a totalida-
de das principais regiões de Israel e países vizinhos. Iduméia (forma grega da palavra hebraica Edom) aqui se refere a uma grande
área da Palestina ocidental ao sul da Judéia, e não ao antigo território edomita de Edom.
4 O próprio Jesus discipulou os Doze por meio do ensino constante e de estreita convivência, por isso foram designados
apóstolos (em grego appostellç forma verbal de “apóstolo”, ou seja “comissionado”, “designado para uma missão”). Além dos
discípulos esse termo se aplica à pessoa de Jesus (Hb 3.1), a Barnabé (At 14.14), a Paulo e a Matias (At 1.16-26), a Tiago, irmão
do Senhor (Gl 1.19), e a alguns outros discípulos (Rm 16.7). No NT essa palavra é usada muitas vezes com um sentido mais
genérico (Jo 13.16), sendo traduzida por “mensageiro”. O apostolado foi o dom principal concedido pelo Espírito Santo para
estabelecer a Igreja de Cristo. Era necessário que o apóstolo fosse testemunha ocular da ressurreição ou comissionado por Jesus
(1Co 1.1). Nem as Escrituras (AT e NT), nem a tradição da Igreja, desde os primórdios, apóiam a hierarquia eclesiástica com a
instituição de um papa soberano e infalível no comando de apóstolos, bispos e ministros paroquianos.

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11 MARCOS 3, 4

Mateus; Tomé; Tiago, filho de Alfeu; 28 Com toda a certeza Eu vos asseguro
Tadeu; Simão, o zelote; que todos os pecados e blasfêmias dos
19 e Judas Iscariotes, que o traiu. homens lhes serão perdoados.
29 Todavia, quem blasfemar contra o Es-
O pecado sem perdão pírito Santo jamais receberá perdão. Pelo
(Mt 12.22-32; Lc 11.14-23) contrário, é culpado de pecado eterno”.
20 Foi então Jesus para casa. E uma vez 30 Jesus explicou isso porque eles esta-
mais grande multidão se apinhou, de tal vam exclamando: “Ele está possesso de
maneira que Ele e os seus discípulos não um espírito imundo”.6
conseguiam nem ao menos comer pão.
21 Quando os familiares de Jesus to- Jesus, sua mãe e seus irmãos
maram conhecimento do que estava (Mt 12.46-50; Lc 8.19-21)
acontecendo, partiram para forçá-lo a 31 Foi quando chegaram a mãe e os ir-
voltar, pois comentavam: “Ele perdeu mãos de Jesus. E ficando do lado de fora,
o juízo!”5 mandaram alguém chamá-lo.
22 Mas os mestres da lei, que haviam des- 32 E havia grande número de pessoas
cido de Jerusalém exclamavam: “Ele está sentadas em torno dele; e lhe avisaram:
possuído por Belzebu!”, e mais: “É pelo “Olha! Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs
príncipe dos demônios que ele expulsa estão lá fora e buscam por ti”.
os demônios”. 33 Então, Ele lhes respondeu com uma
23 Foi então que Jesus os chamou mais questão: “Quem é minha mãe, ou meus
para perto e lhes admoestou por pará- irmãos?”
bolas: “Como é possível Satanás expulsar 34 E, repassando com o olhar a todos
Satanás? que estavam sentados ao seu redor de-
24 Se um reino estiver dividido contra si clarou: “Aqui estão minha mãe e meus
mesmo, não poderá subsistir. irmãos!
25 Se uma casa se dividir contra si mes- 35 Pois qualquer pessoa que fizer a von-
ma, igualmente não conseguirá manter- tade de Deus, esse é meu irmão, irmã e
se firme. mãe”.7
26 Portanto, se Satanás se atira contra si
próprio e se divide, não poderá subsistir, A parábola do semeador
mas se destruirá. (Mt 13.1-9; Lc 8.4-8)
27 De fato, ninguém pode entrar na casa
do homem forte e furtar dali os seus
bens, sem que primeiro o amarre. Só
4 Retornou Jesus à beira-mar para en-
sinar. E a multidão que se juntou ao
seu redor era tão numerosa que o forçou
depois conseguirá saquear a casa dele. a entrar num barco, onde assentou-se. O

5 Um grupo de parentes e amigos de Jesus parte de Nazaré (terra natal de Jesus e sua parentela) e viaja cerca de 48 km para
tentar levá-lo à força de volta para a casa de seus pais e irmãos (José já havia morrido nessa época), pois se preocupavam muito
com a maneira como ele se entregava ao ministério de servir às multidões (Mt 1.25; Mt 12.46-50; Lc 2.7; Lc 8.19). Em hebraico,
a maneira como Jesus responde não é agressiva, mas enaltece os laços espirituais que devem unir a família de Deus para que
sejam ainda mais seguros, leais e duradouros, pois devem ter como princípio a obediência à Palavra. Esse foi o conceito-base
que originou a Igreja.
6 Belzebu é uma antiga expressão hebraica (Baal-zebude significa “senhor das moscas”, 2Rs 1.2,16) ligada ao líder máximo
dos demônios. A declaração de Jesus sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo é das mais solenes. Entretanto, o pecado
imperdoável não é um pensamento, ato ou palavra isolada, mas sim a persistente atitude de arrogância, oposição intencional e
rejeição explícita a Jesus Cristo e Sua Palavra. Essa é a maneira de ser de todos aqueles que amam mais as trevas do que a Luz
(Jo 3.19). Jesus não declarou que os mestres e líderes religiosos haviam efetivamente cometido esse pecado, mas que estavam
em iminente perigo.
7 Os parentes de Jesus ainda não acreditavam na Sua pessoa como Filho de Deus e Senhor dos Senhores (Jo 7.5). Não há
razão para concluir que os irmãos e irmãs de Jesus pudessem ser primos, filhos de José antes de seu casamento com Maria.
Assim como não há base bíblica e histórica para se aceitar a doutrina da virgindade perpétua de Maria, mãe de Jesus, dogma
católico instituído pelo Papa Pio IX em 1854.

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MARCOS 4 12

barco estava no mar e todo o povo agru- Jesus explica a parábola


pava-se na praia.1 (Mt 13.10-23; Lc 8.9-15)
2 E, assim, Ele lhes transmitia muitos en- 10 Quando se afastaram das multidões,
sinamentos por parábolas, e enfatizava os Doze e alguns outros que o seguiam
ao ministrar:2 lhe pediram para elucidar as parábolas.
3 “Escutai! Eis que o semeador saiu a 11 Então, lhes revelou: “A vós foi conce-
semear. dido o mistério do Reino de Deus; aos
4 Enquanto lançava a semente, parte dela de fora, entretanto, tudo é pregado por
caiu à beira do caminho, e chegaram as parábolas,4
aves e a devoraram. 12 com o propósito de que: ‘mesmo que
5 Outra parte caiu em solo pedregoso vejam, não percebam; ainda que ouçam,
e, não havendo terra suficiente, nasceu não compreendam, e isso para que não
rapidamente, pois a terra não era pro- se convertam e sejam perdoados’”.5
funda. 13 Então Jesus os questionou: “Se não
6 Contudo, ao raiar do sol, as plantas se compreendeis essa parábola, como po-
queimaram; e porque não tinham raiz, dereis entender todas as outras?
secaram. 14 O semeador semeia a Palavra.
7 Outra parte ainda caiu entre os espi- 15 Algumas pessoas são como a semente à
nhos; estes espinhos cresceram e sufo- beira do caminho, onde a Palavra foi se-
caram as plantas, e por isso não pôde meada. Mas assim que a ouvem, Satanás
dar frutos. vem e toma a Palavra nelas semeada.
8 Finalmente, outras partes caíram em 16 Assim também ocorre com a que foi
terra boa, germinaram, cresceram e semeada em solo pedregoso: são as pes-
ofereceram grande colheita, a trinta, soas que, ao ouvirem a Palavra, logo a
sessenta e até cem por um”.3 recebem com alegria.
9 E alertou: “Aquele que tem ouvidos 17 Entretanto, visto que não têm raízes
para ouvir, ouça!” em si mesmas, são de pouca perseve-

1 Jesus posicionou-se de forma a facilitar a transmissão do ensino para um grande número de pessoas de uma só vez. Preci-
sava evitar também o assédio das massas que literalmente o sufocavam na busca exclusiva da cura física. Jesus deseja ensinar
seu povo a viver em plena comunhão com Deus, e esse era um desafio maior do que curar as enfermidades do corpo. Sentar-se
era a postura tradicional dos mestres judeus da época (Mt 5.1; Lc 5.3; Jo 8.2).
2 As parábolas eram histórias tiradas da vida diária e usadas para ilustrar verdades espirituais e morais (Mt 13.3). Muitas vezes
na forma de comparações, analogias ou ditos proverbiais. Essas histórias eram um valioso recurso didático usado pelos grandes
mestres (2Sm 12.1-7 e Talmude). Conquistavam a atenção, prendiam o interesse, tornavam concretas idéias abstratas, levavam
o ouvinte a uma decisão correta, e, no caso de Jesus, guardavam em sigilo o mistério do Reino para os desprovidos de interesse
em adorar sinceramente a Deus e desenvolver uma sociedade justa (Mt 4.11-12; Lc 4.23, 15.3).
3 As sementes eram lançadas com o auxílio das mãos naquela época, e isso para que caíssem exatamente nas covas prepa-
radas para o plantio. Entretanto, algumas caíam em terreno improdutivo. Todavia, Jesus anuncia uma colheita excepcional (Gn
26.12), chegando a render 100 plantas produtivas por semente plantada. A colheita sempre foi uma figura (símbolo) da consuma-
ção dos tempos e do Reino de Deus (Jl 3.13; Ap 14.14-20).
4 Em grego, a expressão “mistério” tem o sentido de “oculto”, “insondável”, “secreto”. No NT refere-se ao conhecimento do
verdadeiro Deus. Verdade essa, outrora oculta, mas agora revelada na pessoa e obra de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Porém,
esse mistério não é acessível exclusivamente à razão humana; mas, sim, ao mais profundo dos sentimentos humanos (simboliza-
do no ocidente pelo coração, por ser um órgão vital, além do cérebro). A vontade de buscar a Deus e submeter-se à Sua Palavra,
ilumina o coração do crente. O principal mistério é a revelação de Deus e Seus propósitos na pessoa de Cristo (Mt 16.17). Por
isso, todos nós que fomos contemplados com essa revelação, devemos sentir grande júbilo e comemorar a Salvação todos os
dias, agindo para com Deus e na sociedade como cidadãos do Reino: com amor e reverência, graça e justiça. Compreende-
se o “Reino” em dois momentos: o presente reino reconhecido pelos cristãos sinceros e que reside nos mesmos, os quais se
submetem à vontade de seu Rei, Jesus Cristo, e o chamado “Reino Milenar”, que será inaugurado por ocasião da segunda (e
iminente) volta de Cristo (Ap 20.2).
5 O estilo de pregação e ensino de Jesus se assemelha ao ministério de Isaías, o qual conquistou muitos discípulos (Is 8.16),
mas igualmente desmascarou a falsidade e a dureza de muitos corações incrédulos face aos inúmeros apelos de Deus.

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13 MARCOS 4

rança. Ao surgir alguma tribulação ou A parábola do Reino


perseguição por causa da Palavra, rapi- (Mt 13.31-35; Lc 13.18-21)
damente sucumbem. 26 Então contou-lhes que: “O Reino de
18 Outras ainda, como a semente lançada Deus é semelhante a um homem que
entre os espinhos, escutam a Palavra, lançou a semente sobre a terra.
19 porém, quando chegam as preocupa- 27 Enquanto ele dorme e acorda, durante
ções da vida diária, a sedução da riqueza noites e dias, a semente germina e cres-
e todas as demais ambições, agridem e ce, embora ele desconheça como isso
sufocam a Palavra, tornando-a infrutí- acontece.
fera.6 28 A terra por si mesma produz o fruto:
20 Todavia, outras pessoas são como as primeiro surge a planta, depois a espiga,
que foram semeadas em terra boa: estas e, mais tarde, os grãos que enchem a
ouvem a Palavra, acolhem-na e oferecem espiga.
farta colheita: a trinta, sessenta e até cem 29 Assim que as espigas amadurecem, o
por um”. homem imediatamente lhes passa a foi-
ce, pois é chegado o tempo da colheita”.8
A parábola da luz encoberta
(Lc 8.16-18) A parábola do grão de mostarda
21 E lhes propôs: “Quem, porventura, (Mt 13.31-35; Lc 13.18-21)
traz uma candeia para colocá-la sob uma 30 E contou-lhes mais: “Com o que com-
vasilha ou debaixo de uma cama? Ao pararemos o Reino de Deus? Que pará-
invés, não a traz para ser depositada no bola buscaremos para
p representá-lo?
p
candelabro? 31 É como um grão de mostarda, que é
22 Pois nada há de oculto que não venha a menor das sementes que se planta na
a ser revelado, e nada em segredo que terra.
não seja trazido à luz do dia. 32 Porém, uma vez semeada, cresce e se
23 Se alguém tem ouvidos para ouvir, transforma na maior das hortaliças, com
ouça!” ramos tão grandes, a ponto de as aves
24 E seguiu ensinando: “Ponderai aten- do céu poderem abrigar-se sob a sua
tamente o que tendes ouvido! Pois com sombra”.9
a medida com que tiverdes medido vos
medirão igualmente a vós; e ainda mais O ensino parabólico de Jesus
vos será acrescentado! (Mt 13.34-35)
25 Porquanto, ao que tem mais se lhe 33 Assim, por meio de muitas parábolas
dará; de quem não tem, até o que tem lhe semelhantes Jesus lhes comunicava a Pa-
será retirado”.7 lavra, conforme a medida das possibili-

6 A prosperidade, a cultura e a boa formação acadêmica podem oferecer uma falsa e temporária sensação de auto-suficiência
e segurança (10.17-25; Dt 8.17,18; 32.15; Ec 2.4-11; Tg 5.1-6). Por outro lado, a pobreza, as perdas e os sofrimentos, podem
produzir rancor e mágoas injustas contra Deus (Ec 7.29; Rm 8.28).
7 Aqui temos uma exortação para não ficarmos reclamando do que nos falta, mas juntarmos tudo o que temos – no sentido
de condições humanas e recursos vários – e investirmos em nosso crescimento espiritual e humano no Reino de Deus. Deus co-
nhece bem todas as nossas limitações e não espera que venhamos a ser perfeitos, ou consigamos isso ou aquilo, para vivermos
plenamente (Jo 10.10). Quanto mais nos apropriamos da Verdade (a Palavra) agora, tanto mais recebe-remos no futuro. Se não
valorizarmos e correspondermos ao pouco de revelação que temos recebido, aqui e agora, nem isso nos adiantará no futuro.
8 Esta parábola foi registrada apenas no livro de Marcos. Enquanto a história do semeador revela a importância de um solo
fértil para receber a boa semente (a Palavra); aqui se evidencia o poder misterioso da própria semente: com o passar do tempo,
vai realizando seu trabalho de fazer germinar, crescer e dar frutos (1Pe 1.23-25). Devemos, portanto, semear sempre e em todos
os corações humanos sobre a face da terra.
9 Embora possua uma das menores sementes dentre as hortaliças, a mostarda palestina pode crescer até uma altura de 4 me-
tros. A parábola ilustra a expansão poderosa e impressionante do Cristianismo em todo o mundo, apesar do seu humilde início:
um pobre mestre vindo de uma inexpressiva família e cidade da Galiléia que, seguido por um pequeno grupo de homens – quase
todos incultos – pregou durante alguns anos sobre a chegada do Reino, afirmando ser Deus encarnado.

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MARCOS 4, 5 14

dades de compreensão de seus ouvintes. Silencia-te!” E logo o vento serenou, e


34 E nada lhes transmitia sem usar algu- houve completa bonança.
ma parábola. Entretanto, quando estava 40 E indagou aos seus discípulos: “Por
em particular com os seus discípulos, que sois covardes? Ainda não tendes fé?”
explicava-lhes tudo clara-mente. 41 Os discípulos, contudo, estavam toma-
dos de terrível pavor e comentavam uns
A tempestade se submete a Jesus com os outros: “Quem é este que até o
(Mt 8.23-27; Lc 8.22-25) vento e o mar lhe obedecem?”13
35 Naquele mesmo dia, ao cair da tarde,
pediu aos seus discípulos: “Passemos A libertação de um possesso
para a outra margem”.10 (Mt 8.28-34; Lc 8.26-39)
36 Eles, então, despedindo-se da mul-
tidão, o levaram no barco, assim como
estava. E outros barcos o seguiam.
5 E assim, atravessaram o mar e foram
para a região dos gerasenos.1
2 Logo que Jesus desceu do barco, veio
37 Aconteceu que levantou-se um tre- dos sepulcros, caminhando ao seu en-
mendo vendaval, e as grandes ondas contro, um homem possuído por um
se jogavam para dentro do barco, de espírito imundo.
maneira que este foi se enchendo de 3 Esse homem vivia em meio aos sepul-
água.11 cros e não havia quem conseguisse do-
38 Jesus estava na popa, dormindo com a miná-lo, nem mesmo com correntes.
cabeça sobre um travesseiro. Os discípu- 4 Muitas vezes já haviam acorrentado
los o despertaram e suplicaram: “Mestre! seus pés e mãos, mas ele arrebentava os
Não te importas que pereçamos?”12 grilhões e estraçalhava algemas e corren-
39 Então, Ele se levantou, repreendeu o tes. Ninguém tinha força para detê-lo.
vento e ordenou ao mar: “Aquieta-te! 5 E, noite e dia, sem repouso, perambula-

10 Jesus partiu do território da Galiléia com o objetivo de ir até a margem leste do mar da Galiléia; a região dos gerasenos (5.1).
11 O mar (ou grande lago) da Galiléia, localizado numa bacia cercada por montanhas, onde se destaca o monte Hermon, ainda
hoje é sujeito a grandes tempestades, que descem às vezes dos altos montes e atingem com violência o lago de Quinerete (ou
Tiberíades), que fica 200 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo.
12 A impetuosidade e o temor dos discípulos ilustram claramente o comportamento humano diante das várias situações ad-
versas da vida. Temos a tendência de perguntar: Por quê? Ou de instigar a Deus como se Ele fosse nosso segurança pessoal:
O Senhor não está vendo? Em contraste, temos a segurança tranqüila de Jesus ao nosso lado (Lc 8.23). Mais tarde, a Igreja
Primitiva veria nesta experiência um grande consolo, diante das terríveis perseguições que sofreria por amor a Cristo e à evange-
lização dos povos. Por isso, desde os primórdios, a figura do barco passou a ser identificada como um dos símbolos da Igreja,
na arte cristã. É compreensível que sintamos medo e insegurança. Todavia, Jesus não admite que seus filhos sejam covardes
(literalmente em grego , pessoas que perdem o ânimo, a vontade de lutar, e se desesperam; tímidos - no sentido de
medrosos – pois não confiam em um amigo que os possa ajudar). Nossa fé deve ir além da certeza de que Jesus está conosco e
pode sanar qualquer dificuldade; devemos crer que – haja o que houver – Ele nos ajudará a atravessar os problemas e a chegar
em terra firme (Sl 23).
13 Esta é a grande e angustiante pergunta da humanidade. Todas as pessoas, um dia, terão de dar uma resposta objetiva a
essa questão. Se respondermos a ela como fez Marcos (1.1), devemos seguir a Jesus como Nosso Rei e Filho de Deus. Se nossa
resposta for qualquer coisa diferente disso, devemos assumir as conseqüências da incredulidade (3.28-29). Deus demonstrou Sua
presença em Cristo, e não apenas o Seu poder (Sl 65.7; 107.25-30; Pv 30.4). Jesus ainda investiria muito tempo e energia em ensino
e discipulado; realizaria também muitos outros milagres e sinais até que seus seguidores se dessem conta da Sua plena divindade;
de que eram pessoas salvas e cidadãos do Reino, e da missão para a qual foram escolhidos e chamados como discípulos.
Capítulo 5
1 Gerasa ficava cerca de 60 km a sudeste do mar da Galiléia e chegou a possuir terras no litoral leste do mar, dando seu nome
à pequena aldeia onde Jesus e seus discípulos aportaram. Hoje é conhecida como Khersa. Próximo dali, menos de 2 km ao sul,
há um precipício íngreme, e não distante encontram-se ruínas de cavernas que abrigaram antigos túmulos. Algumas pessoas,
especialmente gentios (não judeus), doentes e sem família costumavam viver nessas cavernas em meio aos sepulcros. Alguns
manuscritos gregos de Mateus (Mt 8.28-34), denominam os habitantes desse território de “gadarenos”, outros originais dizem
“gergesenos”. A maioria da população dessa região era formada por gentios, como revela a grande criação de porcos. Animais
considerados impuros pelos judeus e, portanto, proibidos de servirem como alimento ou sequer serem tocados.

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15 MARCOS 5

va por entre os sepulcros e pelas colinas, cipício abaixo, em direção ao mar, e nele
gritando e cortando-se com lascas de se afogaram.
rocha.2 14 As pessoas que apascentavam os por-
6 Ao avistar Jesus, ainda de longe, correu cos fugiram e relataram esses fatos na ci-
e atirou-se aos seus pés. dade e nos campos, e todo o povo correu
7 E clamou aos berros: “Que queres de para ver o que se havia passado.
mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? 15 Quando chegaram próximo de Jesus,
Suplico-te por Deus que não me ator- observaram ali o homem que fora toma-
mentes!”3 do por uma legião de demônios, assenta-
8 Pois Jesus já lhe havia ordenado: “Sai do, vestido e em perfeito juízo. E ficaram
deste homem, espírito imundo!” assustados.
9 Todavia, Jesus o interrogou: “Qual é o 16 Os que presenciaram os fatos narra-
teu nome?” Respondeu ele: “Meu nome é ram ao povo o que havia ocorrido com
Legião, porque somos muitos”.4 o endemoninhado, e contaram também
10 E implorava insistentemente para que sobre os porcos.
Jesus não os mandasse para fora daquela 17 Então o povo começou a implorar a
região.5 Jesus que se afastasse daquela região que
11 Enquanto isso, perto dali, numa colina lhes pertencia.
vizinha, uma grande manada de porcos 18 E, quando Jesus estava entrando no
estava pastando. barco, o homem que fora possuído pelos
12 Foi então que os demônios rogaram a espíritos imundos, rogava-lhe que o dei-
Jesus: “Manda-nos para os porcos, para xasse seguir com Ele.
que entremos neles”. 19 Jesus não consentiu; entretanto, orien-
13 E Jesus lhes deu permissão, e os es- tou-o: “Vai para tua casa, para a tua fa-
píritos imundos deixaram o homem e mília e anuncia a eles tudo quanto Deus
entraram nos porcos. E a manada com tem realizado a teu favor, e como teve
cerca de dois mil porcos atirou-se pre- misericórdia de ti”.6

2 A descrição do estado deste homem, invadido e dominado por um exército de demônios, representa em detalhes a situação
da humanidade em todas as partes do mundo. O propósito e a força de Satanás e seus espíritos fica igualmente bem evidente
(Jo 10.10). O ser humano é a mais preciosa obra de Deus; no qual projetou Sua própria imagem (em grego eikõn cujo significado
é “semelhança derivada, que implica num arquétipo” – Gn 1.27; 9.6). Os demônios têm a missão de atormentar e destruir a
semelhança divina (em latim imago Dei) nos seres humanos.
3 O sentido original da frase em hebraico traz a idéia de “O que temos a ver um com o outro?” Expressões semelhantes são
encontradas no AT (2Sm 16.10; 19.22), e que podem significar: “Cuide dos seus assuntos!” Ao perceber que seria castigado
severamente, o líder dos demônios ironizou um apelo, reconhecendo com precisão a majestade da pessoa de Cristo. A expressão
“Altíssimo” era um vocábulo muito especial, usado principalmente por gentios, para se referir à soberania de Deus. Em grego
transliterado Hupistos e, em hebraico Elyon (Gn 14.18-22; Nm 24.16; Is 14.14; Dn 3.26; 4.2).
4 A expressão latina “legião” era muito conhecida na época, pois representava uma força militar romana composta de até 6.000
soldados. O termo indica que o homem estava possuído por grande quantidade de demônios. Era comum entre os mestres em
exorcismo, procurar conhecer o nome individual dos espíritos que haviam tomado o corpo de determinada pessoa. Eles acredi-
tavam que só assim podiam dominar totalmente cada um desses demônios e expulsá-los. Jesus demonstrou que incorporava
em si o poder de Deus, expulsando milhares de espíritos sem lhes pedir qualquer identificação. Apenas mencionando o nome do
líder, que estava absolutamente fragilizado e apavorado com a simples presença de Jesus.
5 Satanás e seus demônios são estrategistas sagazes, podem se organizar em exércitos para tentar o domínio de territórios e
regiões (o termo grego chõran, foi traduzido em algumas versões da Bíblia como “país”, entretanto, sua tradução mais apropriada
é “região”). Porém, o grande temor desses espíritos é serem mandados para o castigo eterno. Ou seja, “para o abismo”, lugar de
confinamento destinado aos espíritos malignos e ao próprio Satanás (Ap 9.1-11).
6 Jesus envia o homem gentio, agora salvo, como missionário (Mt 28.19), para pregar aos seus. Entre os gentios pagãos não
havia necessidade de guardar temporariamente o segredo messiânico que tantas vezes Jesus pediu aos seus irmãos judeus (Mt
8.4; Mc 1.34,44; 3.12). A palavra “Senhor” (Lc 8.39), em hebraico e no dialeto aramaico, refere-se a “Deus” (nome que os judeus
não pronunciam em sinal de respeito, e quando o escrevem em português o fazem com um hífen no lugar da letra “e”, ou seja:
“D-us”, tendo em mente o tetragrama hebraico impronunciável do AT ).

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MARCOS 5 16

20 Então, partiu aquele homem, e come- 29 E, naquele instante, se lhe estancou a


çou a pregar por toda a Decápolis as coi- hemorragia, e a mulher sentiu em seu
sas que Jesus havia feito por ele. E todos corpo que estava liberta do seu sofri-
ficavam maravilhados.7 mento.
30 No mesmo momento, ao sentir que do
Jesus vence a doença e a morte seu interior fora liberado poder, Jesus vi-
(Mt 9.18-26; Lc 8.40-56) rando-se em meio à multidão, inquiriu:
21 E retornando Jesus de barco para a “Quem tocou em meu manto?”11
outra margem, numerosa multidão, 31 Ao que os discípulos alegaram-lhe:
uma vez mais, se formou ao seu redor, “Vês a multidão que te comprime de
enquanto estava na praia. todos os lados e perguntas: ‘Quem me
22 Foi quando chegou ali um dos dirigen- tocou?’”
tes da sinagoga local, chamado Jairo. Ao 32 No entanto, Jesus continuou olhando
ver Jesus, prostrou-se aos seus pés.8 ao seu redor, esperando ver quem havia
23 E lhe pediu aos prantos e com insis- feito aquilo.
tência: “Minha filha pequena está à beira 33 Então, a mulher, assustada e trêmula,
da morte! Vem, impõe tuas mãos sobre sabendo o que lhe tinha sucedido, apro-
ela, para que seja curada e viva”. ximou-se e prostrando-se aos seus pés
24 Então Jesus foi com ele. E uma enorme declarou-lhe toda a verdade.
multidão o acompanhava, apertando-o 34 E Jesus afirmou-lhe: “Minha filha, a
de todos os lados. tua fé te salvou! Vai-te em paz e estejas
25 E estava por ali certa mulher que, liberta do teu sofrimento”.
havia doze anos, vinha padecendo de 35 Enquanto Jesus ainda estava falando,
hemorragia. chegaram algumas pessoas vindas da casa
26 Ela já tinha sofrido demasiado sob os de Jairo, o dirigente da sinagoga, a quem
cuidados de vários médicos e gastara informaram: “Tua filha já está morta! Não
tudo o que possuía; porém, em vez de adianta mais incomodar o Mestre”.
melhorar, ia de mal a pior.9 36 Mas Jesus não deu atenção àquelas
27 Tendo ouvido falar a respeito de Jesus, notícias, e voltando-se para o dirigente
passou pelo aglomerado de pessoas e da sinagoga o encorajou: “Não temas,
conseguiu tocar em seu manto. tão somente continue crendo!”12
28 Pois dizia consigo mesma: “Se eu pu- 37 E ordenou que ninguém o acompa-
der ao menos tocar as suas vestes, ficarei nhasse a não ser Pedro, Tiago e João,
curada”.10 irmão de Tiago.13

7 Decápolis era uma confederação formada por dez cidades gregas, localizadas ao nordeste da Palestina, e incluía a famosa
cidade de Damasco.
8 O dirigente de uma sinagoga, ou numa forma arcaica: “o principal”, era comumente um leigo com habilidades e responsabi-
lidades administrativas, entre elas: zelar pelo patrimônio, atender às necessidades legais e sociais exigidas e cooperar para que
os rabinos pudessem dedicar-se completamente ao ministério pastoral e do ensino. Em grandes sinagogas podia haver até uma
equipe de “administradores” (At 13.15).
9 Além do sofrimento físico crônico, a mulher ainda sofria o desprezo da sociedade da época por ser considerada impura. Pela lei
qualquer pessoa que se aproximasse dela ficaria igualmente impura (Lv 15.25-33). O Talmude (interpretação e aplicação da Lei de Moi-
sés ao contexto da vida diária dos judeus) registrava uma série de remédios e tratamentos receitados para doenças de vários tipos.
10 Mateus especifica que o toque ocorreu “na orla” do manto (Mt 23.5).
11 A palavra grega aqui traduzida como “poder” é dunamis, o termo mais usado para designar “milagre” e significa o poder
sobrenatural e pessoal de Deus. Curiosamente, o termo grego, usado por Jesus, está no feminino, indicando assim que o Senhor
tinha conhecimento de “quem” o tocara, porém, desejava que a mulher testemunhasse e solidificasse sua fé em Deus. Embora a
cura tivesse sido importante (como sempre é), Jesus fez uso de um jogo de palavras para revelar claramente ao coração daquela
mulher que ainda mais importante do que a saúde física é a salvação eterna da alma, e por isso escolheu a palavra “salvou”
(vs.34), no original em grego .
12 Os tempos verbais no original grego formam a seguinte frase literal: “Pára de temer; continua crendo”.
13 Pedro, Tiago e João tinham um relacionamento especial, mais chegado com Jesus (At 3.1). Jesus permitiu a presença de

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17 MARCOS 5, 6

38 Assim que chegaram à casa do di- 2 Com a chegada do sábado, começou a


rigente da sinagoga, Jesus observou ensinar na sinagoga local, e muitos dos
grande agitação, com muitas pessoas que o escutavam ficavam admirados e
consternadas, chorando e se lamentando exclamavam: “De onde lhe vem tudo
em alta voz. isto? E que sabedoria é esta que lhe foi
39 Ao entrar na casa lhes questionou: “Por outorgada?
que estais em alvoroço e pranteais? A 3 Não é este o carpinteiro, filho de Maria
criança não morreu, mas está dormindo!” e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E
40 E todos ali menosprezaram o juízo fei- não convivem conosco suas irmãs?” E fi-
to por Jesus. Ele, contudo, mandou que caram escandalizados por causa dele.1
saíssem, chamou para perto de si o pai 4 Contudo Jesus lhes afirmou: “Somente
e a mãe da criança, bem como os discí- em sua própria terra, junto aos seus pa-
pulos que estavam em sua companhia, e rentes e em sua própria casa, é que um
adentrou o recinto onde jazia a criança. profeta não é devidamente honrado”.2
41 Então, pegando na mão da menina, 5 E, por isso, não podia realizar ali ne-
ordenou em aramaico: “Talitha koum!”, nhum milagre, com exceção feita a alguns
que significa “Filhinha! Eu te ordeno, doentes, que ao impor de suas mãos fo-
levanta-te!”14 ram curados.
42 E no mesmo instante, a menina que 6 E perplexo com a falta de fé por parte
tinha doze anos de idade, ergueu-se do dos seus, passou a percorrer os povoados
leito e começou a andar. Diante disso, vizinhos e os ensinava.
todos ficaram assombrados.
43 Então Jesus lhes recomendou expres- Jesus envia os Doze em Missão
samente para que nenhuma outra pessoa (Mt 10.5-15; Lc 9.1-6)
viesse a saber do que haviam presencia- 7 Convocou então os Doze para junto
do. E mandou que dessem algo de comer de si e os enviou de dois em dois, conce-
à menina. dendo-lhes autoridade sobre os espíritos
imundos.3
Jesus é rejeitado pelos seus 8 E determinou que nada levassem pelo
(Mt 13.53-58; Lc 4.16-30) caminho, a não ser um cajado somente;

6 Então, partiu Jesus dali e foi para sua


terra natal, na companhia dos seus
discípulos.
nem pão, nem mochila de viagem, nem
dinheiro em seus cintos.
9 Que andassem calçados com sandálias,

apenas cinco testemunhas, na ocasião deste milagre. Isso para evitar uma divulgação imediata e incontrolável da notícia. Era de vital
importância, para sua Missão, que Jesus não fosse alvo da atenção das autoridades religiosas judaicas, especialmente na Judéia.
14 Marcos é o único dos Evangelhos que, nesse caso, conserva a expressão original em aramaico, dialeto hebraico falado mais
precisamente na cidade de Nazaré, por Jesus, seus familiares e discípulos. A expressão transliterada Talitha koum! (pronuncia-se
“Talita cumi!”), e significa literalmente “Cordeirinha, levante-se!”
Capítulo 6
1 Mateus apresenta Jesus como “o filho do carpinteiro” (Mt 13.55), Marcos informa que ele também foi carpinteiro. A palavra
grega usada por Marcos descreve o trabalho de um artesão, análise que leva à conclusão de que Jesus poderia igualmente ter
trabalhado como escultor, ferreiro ou marceneiro, juntamente com seus familiares. O termo “escândalo” foi literalmente usado
nos originais em grego para descrever a reação de alguns parentes e conhecidos de Jesus, que sabendo
que ele era um trabalhador braçal (como a maioria deles), nascido em uma família humilde, não conseguiam compreender, nem
aceitar, como Jesus podia pregar com tanta unção e sabedoria. Justino Mártir (por volta de 160 d.C.) relata em seus escritos que
em sua época era comum às pessoas procurarem artigos de madeira feitos por Jesus.
2 Jesus revelou várias profecias antigas que anteviam sua chegada e ministério messiânico, uma delas é sobre o Profeta de
Dt 18.15,18. O primeiro dos grandes sermões de Pedro, em Atos, mostra claramente que Jesus é o sucessor maior de Moisés
e Davi (At 3.22).
3 Os discípulos saíram para ministrar em duplas, isso reforçaria a credibilidade dos testemunhos, conforme a lei (Dt 17.6), além
de oferecer encorajamento mútuo durante o tempo de ministério no campo missionário. Eles receberam autoridade da mesma
fonte que abastecia Jesus (Jo 17.2), a qual Ele concede aos seus discípulos ainda hoje (Lc 9.1; Jo 20.21-23).

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MARCOS 6 18

mas não carregassem duas túnicas.4 mento do que se comentava, exclamou:


10 E recomendou-lhes: “Sempre que en- “João, a quem mandei decapitar, ressus-
trardes em uma casa, nela permanecei citou dos mortos!”.
até vos retirardes de lá. 17 Porque o próprio Herodes havia ex-
11 Contudo, se alguma aldeia não vos re- pedido as ordens para que prendessem
ceber nem vos quiser ouvir, ao partirdes João e o acorrentassem no cárcere por
desse lugar, sacudi a poeira de debaixo influência de Herodias, esposa de Filipe,
de vossos pés como testemunho contra seu irmão, com a qual viera a se casar.
eles”.5 18 Pois, na ocasião, João havia admoesta-
12 Eles partiram e pregavam que todos se do a Herodes: “Não te é lícito viver com a
arrependessem. mulher do teu irmão!”.8
13 E expulsavam muitos demônios; un- 19 E por esse motivo Herodias o odiava e
giam com óleo a inúmeros doentes e os tencionava matá-lo. Contudo não conse-
curavam.6 guia realizar seu intento.
20 Porquanto Herodes temia a João, e
João Batista é executado sabedor de que era um homem justo e
(Mt 14.1-12; Lc 9.7-9) santo, o protegia. E quando o ouvia fi-
14 E essas notícias chegaram aos ouvidos cava admirado, e o escutava com prazer.9
do rei Herodes, porquanto o nome de 21 Finalmente Herodias teve a ocasião
Jesus já havia se tornado célebre. Algu- oportuna que ansiava. No dia do aniver-
mas pessoas estavam comentando: “João sário dela, Herodes ofereceu um banque-
Batista ressuscitou dos mortos! Essa deve te aos seus líderes mais destacados, aos
ser a razão pela qual através dele se ope- comandantes militares e às principais
ram poderes milagrosos”. personalidades da Galiléia.
15 Entretanto, outros alegavam: “Ele é 22 E aconteceu que a filha de Herodias se
Elias!”. E ainda outros declaravam: “Ele apresentou dançando e muito agradou a
é profeta, como um daqueles profetas Herodes e aos convidados. Então, o rei
do passado”.7 brindou a jovem: “Pede-me o que dese-
16 Mas quando Herodes tomou conheci- jares, e eu te darei!”.

4 Ganhar a vida comunicando mensagens de otimismo e legalismo, sem uma sólida base bíblico-teológica não é uma invenção
do capitalismo, nem apenas prática comum nos dias de hoje. Na época de Cristo já havia muitos mestres que cobravam altos
cachês para pregar mensagens meramente humanas, mas apresentadas como divinas (2Co 2.17). Uma característica desses fal-
sos mestres era a preocupação exagerada com o próprio suprimento financeiro. Por isso, Jesus mandou que seus discípulos se
preocupassem exclusivamente em servir a Deus proclamando o Evangelho, e descansassem absolutamente na provisão divina
quanto à totalidade das suas demais necessidades (Mt 10.10; 1Co 9.7-11; Gl 6.6). Dependeriam da sua fé no Senhor, que tocaria
o coração dos seus ouvintes para suprí-los do pão, das vestes e do alojamento de cada dia. Uma túnica, extra, poderia servir de
cobertor durante as frias noites no deserto, mas Jesus prometeu-lhes uma família para compartilhar as Boas Novas, e uma casa
onde se alimentar e repousar. Não ficariam ao relento e sem amparo, como muitos falsos mestres.
5 Os pagãos eram tão repugnantes para os judeus, que até o pó de suas sandálias era motivo de rejeição. Jesus usa essa
metáfora para ilustrar o mal que a rejeição ao Evangelho e aos verdadeiros ministros do Evangelho pode causar. Recusar as Boas
Novas reduz qualquer pessoa, inclusive um judeu, ao nível do mais asqueroso dos pagãos. E essa é uma advertência igualmente
válida para os nossos dias. Isso aumenta a responsabilidade do povo de Deus de não dar motivos para que os que ainda não
crêem rejeitem a mensagem das Boas Novas.
6 Jesus curou inúmeras pessoas e multidões sem jamais ter usado óleo, mas recomendou aos discípulos que assim o fizessem,
pois era uma prática antiga dos judeus, e esse deveria ser mais um sinal de dependência do Senhor (Is 1.6; Lc 10.34; Tg 5.14).
7 João passou a vida pregando e preparando o coração das pessoas para a vinda de Jesus (Ml 4.5-6), sem nunca ter realizado
um milagre (Jo 10.41), mas havia o temor de que, se ele viesse a ressuscitar, todos os milagres lhe seriam possíveis (Mt 12.39-40).
Marcos usou o título popular de Herodes, uma vez que ele não era rei de fato, mas o tetrarca da região.
8 Flávio Josefo relata em seus escritos que João ficou encarcerado em Maquero, uma fortaleza localizada na Peréia, a leste
do mar Morto. Herodias era neta de Herodes, o grande, e Marianne; sobrinha de Herodes. Enquanto o irmão de Herodes vivia,
este último não podia se casar com sua cunhada ainda que divorciada do marido; visto que, pela lei, isso é considerado adultério
(Lv 18.16; 20.21).

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19 MARCOS 6

23 E sob juramento lhe assegurou: “Se era tão grande que eles sequer tinham
pedires, ainda que seja a metade do meu tempo para comer.
reino, eu te darei!”.10 32 E saindo de barco foram para um local
24 Diante disso, saiu a moça e consultou despovoado.
sua mãe: “O que devo pedir?”. Ao que ela 33 Entretanto, muitos dos que os viram
recomendou: “A cabeça de João Batista!”. retirar-se, tendo-os reconhecido, saíram
25 Sem demora, retornando imediata- correndo a pé de todas as cidades e che-
mente à presença do rei, formalizou seu garam lá antes deles.
pedido: “Quero que me dês agora mesmo 34 Quando Jesus desceu do barco e ob-
a cabeça de João Batista sobre um prato!” servou aquele enorme ajuntamento de
26 Então, grande angústia sobreveio ao pessoas, sentiu compaixão por elas, por-
rei, mas devido ao juramento que fize- quanto eram como ovelhas sem pastor.
ra e aos convivas que se reclinavam ao E, sem demora, passou a ministrar-lhes
redor da sua mesa, não quis deixar de muitas orientações.11
atendê-la. 35 Com o passar das horas, o final da
27 Mandou, portanto, imediatamente um tarde estava chegando, e por isso, os
carrasco com ordens para trazer a cabeça discípulos se aproximaram de Jesus e
de João. O executor foi e decapitou João avisaram: “Este lugar é deserto e a hora
na prisão. já muito avançada!12
28 E, trazendo a cabeça de João sobre um 36 Despede, pois, a multidão para que
prato, a entregou à jovem, e esta, em se- possam ir aos campos e povoados vizi-
guida, a ofereceu à sua mãe. nhos comprar para si o que comer”.
29 Assim que souberam do fato, os discí- 37 Jesus porém os instruiu: “Provede-lhes
pulos de João foram até lá, resgataram o vós mesmos de comer”. Ao que lhe repli-
corpo e o depositaram em um sepulcro. caram: “Devemos ir e comprar cerca de
duzentos denários de pão para dar-lhes
Jesus multiplica o pão de comer?”13
(Mt 14.13-21; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15) 38 Mas Jesus lhes indaga: “Quantos pães
30 Retornaram os apóstolos e reuniram- tendes? Ide verificar!”. E tendo-se infor-
se com Jesus para lhe relatar tudo quanto mado, comunicaram: “Cinco pães e dois
haviam realizado e ensinado. peixes”.
31 Então convidou-lhes Jesus: “Vinde 39 Então Jesus determinou-lhes que
somente vós comigo, para um lugar fizessem com que todo o povo se acomo-
deserto, e descansai um pouco”. Pois, a dasse em grupos, reclinados sobre a relva
multidão dos que chegavam e partiam verde do campo.14

9 Herodes gostava de ouvir a mensagem de João e chegava a ficar confuso em relação à sua vida e à proposta do Reino. Entretan-
to, como infelizmente ocorre com muitas pessoas, seu coração não se arrependia e, portanto, não podia haver conversão (At 26.28).
Gostar dos princípios bíblicos ou acreditar que a vida cristã é um bom caminho não é o suficiente para salvar qualquer pessoa.
10 Oferecer metade do reino era uma força de expressão antiga e típica dos monarcas que durante celebrações especiais
gostavam de demonstrar sua generosidade com a finalidade de bem impressionar seus convidados (Et 5.3,6). Herodes não era
rei, embora apreciasse ser considerado assim, segundo os escritos de Josefo. Meio embriagado, prometeu a Salomé, filha de
Herodias, o que não podia dar, pois era vassalo de Roma.
11 Jesus viu as pessoas como ovelhas sem pastor (Sl 23.1,2), pois: 1) Carecem de alimento espiritual e da água da vida (Jo 6.35).
2) Necessitam de direção para encontrar o aprisco eterno (Jo 10.16) e 3) Precisam de proteção contra o Inimigo (Jo 10.28).
12 O vocábulo “deserto”, embora signifique apenas um lugar não habitado, e que se situava a nordeste do grande lago (chamado
de mar) da Galiléia, liga o milagre de Jesus à provisão de Deus para seu povo no deserto, quando lhes enviou o maná (Êx 16).
13 Um dia de trabalho braçal correspondia, em geral, a um denário (Mt 20.2). Os discípulos estavam calculando um valor
equivalente a cerca de oito meses de trabalho de uma pessoa.
14 Ao redor da Galiléia é comum a grama ficar bem verde nos finais de inverno. Jesus usou a expressão “reclinar”, que era a
maneira típica como os povos orientais da época se postavam às refeições. Era como se os discípulos estivessem avisando que
o almoço seria servido em breve.

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MARCOS 6 20

40 E assim o fizeram, assentando-se em 47 Chegando a noite, o barco estava no


grupos de cem em cem e de cinqüenta meio do mar, e Jesus encontrava-se sozi-
em cinqüenta.15 nho em terra.
41 E, tomando Ele os cinco pães e os dois 48 Ele notou que os discípulos remavam
peixes, elevou os olhos ao céu, rendeu com dificuldade, pois o vento soprava
graças e partiu os pães. A seguir, os en- contra eles. Em plena madrugada, Jesus
tregou aos seus discípulos para que os vinha na direção deles, andando sobre o
servissem ao povo. Da mesma maneira mar; e já estava prestes a passar por eles.18
repartiu os dois peixes entre toda a mul- 49 Assim que o viram caminhando sobre
tidão ali reunida. as águas, logo pensaram se tratar de um
42 Todas as pessoas comeram à vontade e fantasma. E por isso gritaram.19
ficaram satisfeitas.16 50 Pois todos o tinham visto e ficaram
43 Os discípulos ainda recolheram doze apavorados. Contudo, Jesus lhes anun-
cestos repletos de pedaços de pão e de ciou: “Tende coragem! Sou Eu! Não
peixe. tenhais medo!”.
44 E foram alimentados cinco mil ho- 51 Então logo subiu no barco para junto
mens naquele dia. deles, e o vento se acalmou; e eles ficaram
pasmos.
Jesus caminha sobre as águas 52 Afinal, eles nem tinham entendido o
(Mt 14.22-36; Jo 6.16-24) milagre dos pães, porquanto seus cora-
45 Logo em seguida, insistiu com os ções se mantinham endurecidos.20
discípulos para que entrassem no barco
e seguissem adiante dele para Betsaida, Muitos creram e foram curados
enquanto Ele se despedia do povo.17 (Mc 14.34-36)
46 Tendo-o despedido, subiu a um monte 53Depois de atravessarem o mar, chega-
para orar. ram a Genesaré e ali aportaram.21

15 Essa formação relembra a ordem do acampamento mosaico no deserto (Êx 18.21). A palavra “grupos” (em grego,
) significa: “canteiros de jardim”.
16 O antigo ato de graças judaico pelo pão era baseado na Torá: “Louvado sejas Tu, ó Senhor, nosso Deus, Rei do mundo, que
tiras pão da terra” (Lv 19.24). Os pães e os peixes passaram a representar a ceia do Senhor nas obras de arte da igreja primitiva,
e muitas delas foram encontradas nas catacumbas de Roma. Alguns historiadores e teólogos tentam diminuir o impacto deste
milagre de Jesus alegando que ele teria repartido seu almoço com os discípulos, e esses orientado os grupos para, da mesma
forma, dividir entre si o alimento que cada pessoa teria trazido. Entretanto é sugestivo que o próprio Jesus tenha pedido aos discí-
pulos para verificarem quantos pães e peixes havia entre eles (v.38); e foi a partir da multiplicação dessas poucas unidades que se
produziu o suficiente para fartar 5.000 homens (na época não se contavam as mulheres e crianças) a ponto de sobrar doze cestos
cheios de pedaços que, conforme a tradição judaica, deveriam ser recolhidos do chão (Mt 15.37). Além disso, havia profecias por
meio das quais Deus prometera que com a chegada do verdadeiro Pastor, o deserto se tornaria em pastagens verdejantes onde
as ovelhas seriam acolhidas e alimentadas (Ez 34.23-31), e aqui o Messias celebra um banquete com seus seguidores no deserto
(Is 25.6-9). Considerando que as cidades vizinhas, Cafarnaum e Betsaida, tinham uma população de cerca de 2500 pessoas cada,
a multidão que se reuniu com Jesus veio de vários lugares e representou um ajuntamento significativo para os padrões da época.
E essas notícias abalaram os líderes judaicos e romanos.
17 João informa que o povo estava disposto a levar Jesus à força, e coroá-lo rei dos judeus (Jo 6.14,15), por isso, ele mandou
seus discípulos para o outro lado do lago enquanto, sem ser notado, subia o monte para orar só.
18 A expressão “por volta da quarta vigília da noite”, como consta dos originais, significa um período de tempo que vai
das três às seis horas da manhã (Mt 14.25). Ao andar sobre as águas, Jesus demonstra uma vez mais o poder majestoso e
transcendente do Senhor, que reina sobre o mar (grande motivo de temor dos judeus) e todas as demais forças da natureza
(Sl 89.9; Is 51.10,15; Jr 31.35).
19 As lendas e superstições alimentadas entre a população judaica afirmavam que a visão de um fantasma perambulando durante
a noite, era sinal de grande desgraça iminente. Somado ao medo natural que os judeus tinham do mar, é certo que os discípulos
ficaram aterrorizados com a impressão de que estavam sendo atacados por um terrível espírito das profundezas das águas.
20 Para Deus é mais fácil dominar as forças da natureza e do cosmo, do que fazer o coração humano acreditar em Jesus com fé
e obediência amáveis. Como os israelitas no deserto, os discípulos presenciaram muitos milagres portentosos; mesmo assim, em
seu íntimo, eram incrédulos; seus corações estavam empedernidos, à semelhança dos opositores de Jesus (8.17-21; Êx 4.21).
21 Genesaré era uma planície muito fértil, localizada a sudoeste de Cafarnaum. Uma analogia à fertilidade da fé que as

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21 MARCOS 6, 7

54 Logo que desembarcaram o povo re- 5 Então os fariseus e os mestres da lei


conheceu Jesus. questionaram a Jesus: “Por qual razão os
55 Multidões viajavam por toda aquela seus discípulos não andam em confor-
região, levando seus enfermos em macas, midade com a tradição dos anciãos, mas
para onde ouviam que Ele estava. tomam o pão com mãos impuras?”
56 E onde quer que Ele fosse ministrar, 6 Ele, entretanto, lhes afirmou: “Bem
povoados, cidades ou campos, a popu- profetizou Isaías a respeito de vós, hipó-
lação trazia os doentes para as praças. E critas; pois assim está escrito: ‘Este povo
imploravam-lhe que pudessem ao menos me honra com os lábios, mas seu coração
tocar na borda do seu manto; e todos os está longe de mim.
que nele tocavam eram curados. 7 Em vão me adoram; as doutrinas que
ensinam não passam de ordenanças
humanas’.4
Jesus e os mestres da lei 8 E assim abandonais o mandamento
(Mt 15.1-20) de Deus, apegando-vos às tradições dos

7 E ocorreu que alguns mestres da lei e


fariseus, vindos de Jerusalém, reuni-
ram-se em volta de Jesus.1
homens”.5
9 E acrescentou-lhes: “Sabeis sempre
encontrar um meio de negligenciar os
2 Observaram que alguns dos seus dis- mandamentos de Deus, com o propó-
cípulos comiam os pães com as mãos sito de estabelecerdes a vossa própria
impuras, isto é, sem lavá-las.2 tradição!
3 Pois os fariseus e todos os judeus não se 10 Porquanto Moisés afirmou: ‘Honra
alimentam sem lavar as mãos de forma a teu pai e a tua mãe’. E mais: ‘Quem
cerimonial, preservando a tradição dos amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe será
antigos. condenado à pena de morte’.
4 Quando chegam da rua, não tocam 11 Contudo, vós afirmais: ‘Se uma pessoa
nos alimentos sem antes se banharem. disser a seu pai ou a sua mãe: ‘Os bens
Além disso há muitos outros costumes com os quais eu vos poderia ajudar são
que guardam, tais como o lavar de copos, Corbã’, isto é, uma oferta dedicada ao
jarros e vasilhas de metal.3 Senhor,

pessoas daquela região demonstraram em Jesus. Tanto que, ao tocar na borda do manto do Senhor, eram imediatamente
salvas de suas enfermidades.
Capítulo 7
1 Os líderes religiosos dos judeus na época, movidos principalmente por inveja e motivos políticos escusos, mandaram uma de-
legação de mestres da lei (fariseus) para fazer uma espécie de auditoria teológica e devassa no comportamento social e privado de
Jesus, com o objetivo de encontrar ou forjar um motivo pelo qual Jesus pudesse ser condenado à pena de morte (Mt 2.4; 15.1-11).
2 A visão dos judeus, notadamente os líderes religiosos, sobre a pureza espiritual era extremamente cerimonial. Portanto,
facilmente perdiam de vista o espírito da lei (o principal propósito) e restringiam-se ao cumprimento de ritos e procedimentos.
Assim, para eles, todo contato com pagãos (inclusive respirar muito próximo o mesmo ar), ou mesmo com outros judeus que não
guardavam as leis cerimoniais, se constituía numa imundícia (ou contaminação) espiritual; e, por isso, se fazia necessário passar
pelos ritos cerimoniais de lavar as mãos e os braços até os cotovelos, derramando sobre eles água pura e fresca (v.4). Portanto,
era comum nas festas prolongadas e com muitos hóspedes, reservarem-se grandes recipientes com água.
3 O cerimonial de purificação, realizado todas as vezes que um judeu retornava para casa, era repleto de detalhes ritualísticos.
Algumas versões da Bíblia trazem a expressão “se aspergirem” em vez de “se banharem”, cujo significado literal é “se batizarem”,
ou seja, observar um ritual de imersão.
4 A hipocrisia, ao lado da arrogância, é um dos mais perversos e sutis dos pecados; e ataca especialmente aos líderes reli-
giosos. Quanto maior expressão um líder granjeia, mais vulnerável se torna. Hipócrita é toda pessoa falsa e dissimulada, cujas
palavras de apologia à moral e ao cumprimento rígido das leis, normas, convenções e rituais (especialmente religiosos) não têm
qualquer respaldo ou correspondência direta com suas atitudes públicas e vida íntima. Isaías denunciou severamente os líderes
religiosos de sua época (Is 29.13). Malaquias, embora muitos pensem que seu principal tema fosse o dízimo, na verdade, era a
corrupção e a hipocrisia generalizada do povo de Israel, a começar por seus líderes e mestres (sacerdotes) religiosos.
5 Os mandamentos de Deus estão todos registrados na Bíblia e são obrigatórios. As tradições, normas de conduta e estatutos
dos antigos mestres, não são bíblicos e, portanto, não são autorizados, muito menos, obrigatórios. Os anciãos (líderes da religião

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MARCOS 7 22

12 vós o desobrigais do dever de prestar entre no homem tem o poder de torná-


qualquer ajuda de que seu pai ou sua lo impuro?
mãe necessite.6 19 Porque efetivamente não entra em seu
13 Assim, conseguis anular a eficácia da coração, mas sim em seu estômago, sen-
Palavra de Deus, por intermédio da tra- do digerido e depois expelido”. Ao fazer
dição que vós próprios tendes transmi- essa afirmação, Jesus proclamava puros
tido. E, dessa mesma maneira, procedeis todos os alimentos.9
em relação a vários outros assuntos”.7 20 E disse mais: “O que sai do ser humano
14 Jesus conclamou novamente a mul- é o que o torna impuro”.
tidão para junto de si e lhes anunciou: 21 Pois é de dentro do coração dos
“Ouvi-me, todos, e entendei! homens que procedem aos maus pen-
15 Nada existe fora da pessoa humana samentos, as imoralidades sexuais, os
que, entrando nela, a possa tornar impu- furtos, os homicídios, os adultérios,
ra. Ao contrário, o que sai do ser humano 22 as ambições desmedidas, as maldades,
é que o faz impuro. o engano, a devassidão, a inveja, a difa-
16 Se alguém tem ouvidos para ouvir, mação, a arrogância e a insensatez.
ouça!”. 23 Ora, todos esses males procedem do
17 Então, após haver deixado a multidão interior, contaminam a pessoa humana
e entrado em casa, os discípulos lhe e a tornam impura.10
pediram uma explanação sobre aquela
parábola.8 Uma gentia manisfesta sua fé
18 Ao que Ele lhes declarou: “Ora, pois (Mt 15.21-28)
nem vós tendes tal entendimento? Não 24Então, partiu Jesus daquele lugar e foi
conseguis compreender que nada que para os arredores de Tiro e de Sidom.

judaica) se ocupavam da interpretação e exposição da Lei de Moisés, mais tarde codificada num manual chamado de Mishná,
que por sua vez, deu origem ao Talmude, que é um comentário extenso e detalhado da Mishná.
6 “Corbã” é a transliteração de uma palavra hebraica que significa “oferta”. Muitos judeus religiosos estavam afirmando que
haviam feito “Corbã” com seus bens, ou seja, doado o dinheiro da aposentadoria dos pais para Deus (mais propriamente para
os sacerdotes do Templo) e, por isso, não tinham como ajudá-los. Ocorre que a Lei não prescrevia que todo o dinheiro devia ser
doado. Além disso, muitos jovens judeus estabeleciam um acordo com os sacerdotes e recebiam parte da “oferta” de volta.
7 A mente humana é facilmente enredada por falsos juízos em função de suas muitas ambições. Por isso devemos agir sempre
como os cristãos bereanos (At 17.11). Os fariseus estavam recorrendo a um texto isolado da Lei (Nm 30.1,2) para defender o voto
do “Corbã”. Jesus aproveita para ensinar uma regra básica de interpretação bíblica: a obediência a um mandamento específico
das Escrituras jamais pode anular os outros mandamentos gerais de Deus. A conclusão tirada pelos anciãos sobre Nm 30.1,2
satisfazia a letra do texto bíblico, mas era contrário ao sentido (espírito) global da Lei.
8 Em hebraico, mashal, o termo traduzido aqui por “parábola”, significa “ilustração, figura, imagem” e tem o sentido de uma
expressão proverbial ou história de moral, que acompanha a vida de uma pessoa como um sinal luminoso. Este acende sempre
que necessário, para avisar de algum perigo iminente ou trazer à memória uma maneira sábia de agir.
9 Marcos, primo de Barnabé e grande amigo dos apóstolos Pedro e Paulo, preocupa-se em fazer comentários sobre a Lei, usos
e costumes dos judeus. Seu objetivo era esclarecer sua principal audiência: os gentios, mais precisamente, o número elevado
de romanos que estavam sendo convertidos pelo Espírito Santo (entre 50 e 70 d.C.). Os discípulos tiveram de aprender com
Jesus sobre a desobrigação de os cristãos guardarem as leis e cerimônias do AT referentes às comidas puras e impuras (Lv 11;
Dt 14; At 10.15).
10 Jesus ensina e adverte que a fonte do pecado humano é o coração (centro das emoções e da razão), e não o estômago. O
coração tem para o mundo ocidental o mesmo significado que “as entranhas” ou “os intestinos” têm no mundo oriental. Ou seja, re-
presentam o centro da personalidade, incluindo o intelecto, a volição, e todas as emoções e desejos humanos. Por isso, a comunhão
(amizade reverente) com Deus não pode ser interrompida por causa de mãos ou alimentos com impurezas, mas, sim, pelo pecado
consciente, intencional e renitente. Mais do que lavar as mãos, é necessário limpar (lavar, purificar) a mente, pois Deus não faz distin-
ção entre pecados elaborados e alimentados nos pensamentos, e os consumados por ação. Segue-se uma lista, como exemplo, de
alguns pecados comuns, mas que não deveriam fazer parte da vida diária de um cristão pleno do Espírito Santo. A palavra “inveja”
no original grego é: “olho mau”, cujo sentido não é apenas o desejo ardente pelas posses de outrem, mas igualmente a falta de
generosidade, literalmente, o ser “pão duro”. A palavra “insensatez”, traduzida em algumas versões por “loucura”, não tem o sentido
de uma enfermidade mental, mas sim, de total negligência do pecador (aquele que aprecia seu estilo de vida mundano) em relação
às suas responsabilidades para com Deus, com seu próximo e com a sociedade (religião e ética).

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23 MARCOS 7, 8

Entrou em uma casa e desejava que nin- 32 Então, algumas pessoas lhe apresenta-
guém o soubesse; porém, não foi possível ram um homem que era surdo e mal po-
manter sua presença em segredo.11 dia falar, e lhe suplicaram que impusesse
25 De fato, assim que ouviu falar sobre sua mão sobre ele.
Ele, certa mulher, cuja filha pequena 33 Jesus conduziu o homem, a sós, para
estava com um espírito imundo, chegou longe da multidão, e colocou os dedos
e atirou-se aos seus pés. nas orelhas dele. Em seguida, cuspiu e
26 A mulher era grega, de origem siro-fe- tocou na língua daquele homem.
nícia, e implorava a Jesus que expulsasse 34 Depois, levantando os olhos para o
o demônio de sua filha.12 céu e, com um profundo suspiro, orde-
27 Mas Jesus lhe explicou: “Deixa primei- nou: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!”15
ro que os filhos se alimentem até ficarem 35 Imediatamente, os ouvidos do homem
satisfeitos; pois não é justo tirar o pão se abriram, sua língua desprendeu-se e
dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.13 ele começou a falar fluentemente.16
28 Ao que replicou-lhe a mulher: “Sim, 36 Entretanto, Jesus ordenou-lhes que
Senhor, mas até os filhotes dos cães, de- não dissessem a ninguém o que ali se
baixo da mesa, comem das migalhas das passara. Contudo, quanto mais Ele reco-
crianças!”14 mendava, tanto mais eles o divulgavam.
29 Então Ele lhe declarou: “Por causa 37 As multidões ficavam sobremodo ma-
dessa tua resposta, podes ir em paz; o ravilhadas e proclamavam: “Ele faz tudo
demônio já saiu de tua filhinha”. de forma esplêndida! Faz tanto os surdos
30 Ao retornar ela para sua casa encon- ouvirem como os mudos falarem”.17
trou a criança jogada sobre a cama, pois
o demônio a havia abandonado. Nova multiplicação dos pães
(Mt 15.32-39)
A cura de um surdo-gago
31 Outra vez, saindo Jesus das terras de
Tiro, seguiu em direção ao mar da Gali-
8 Naqueles dias, uma grande multidão
novamente se ajuntou, e não tendo as
pessoas com o que se alimentar, chamou
léia, passando por Sidom e atravessando Jesus os discípulos e lhes compartilhou:1
a região de Decápolis. 2 “Tenho compaixão desta multidão; já

11 Tiro era uma cidade povoada por gentios. Localizada na Fenícia, onde hoje é o Líbano, fazia fronteira com a Galiléia, a no-
roeste. Jesus viajou cerca de 50 km de Cafarnaum até os arredores de Tiro. Desde o milagre da multiplicação dos pães e peixes
(6.30-44), Jesus e seus discípulos passaram a evitar os grandes centros e a ministrar nas periferias da Galiléia. Jesus procurava
evitar os confrontos infrutíferos com os fariseus e escribas, e dedicar-se cada vez mais ao discipulado dos Doze (9.30,31). A
palavra grega koinos, aqui traduzida por “contaminam”, significa “comum”, e seu sentido tem a ver com o fato de os pecados
poderem assumir a condição de parte integrante do ser humano, caso não haja arrependimento, confissão e perdão. O Espírito
Santo é o grande aliado dos cristãos na tarefa de manter suas mentes sensíveis e purificadas (Jo 14.16-27).
12 A mulher apresentada por Marcos falava grego e vivia numa cultura grega, mas era de nacionalidade siro-fenícia, uma vez
que naquele
q tempop a Fenícia pertencia
p administrativamente à Síria.
13 Jesus se refere aos israelitas que, pela primeira aliança eram os filhos prediletos de Deus (Êx 4.22; Dt 14.1). Jesus segue a
missão designada ao Servo (Is 49.6), trazendo, em primeiro lugar, Salvação aos judeus (Rm 15.8).
14 Essa é a única ocasião, no evangelho segundo Marcos, em que Jesus é chamado “Senhor”.
15 Jesus usa uma palavra do seu dialeto hebraico, o aramaico Efatá, que o próprio Marcos logo traduz em benefício da com-
preensão dos seus leitores gentios.
16 Jesus estava realizando, na prática, o que Deus prometera há muitos séculos por meio das profecias (Is 35.5,6). Ele procura-
va, porém, manter seu ministério, especialmente o de curas e sinais, longe da propaganda de massa, a fim de não atrair tão cedo
a perseguição dos líderes religiosos e políticos da época (Mt 8.4; 16,20; Mc 1.44; 5.19,43).
177 Tanto o Pai, quanto
q o Filho, fazem tudo muito bem (maravilhosamente
( perfeito
p – Gn 1.31; Jo 5.17).) Um dia toda a terra reco-
nhecerá esse fato. É importante lembrar que Deus criou a terra e o ser humano, mas o Diabo criou este mundo caótico no qual
vivemos. Hoje, pela fé, os cristãos devem assumir sua condição de embaixadores do Rei, cuja missão é proclamar a Salvação e
os valores do Reino de Deus por toda a terra.
Capítulo 8
1 O próprio Senhor nos afirma (vv.18-20) que este relato (8.1-10) é distinto do ocorrido anteriormente (6.34-44), muito embora
sejam notáveis as semelhanças dos fatos.

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MARCOS 8 24

se passaram três dias que estão comigo e e, para prová-lo, pediram que lhes apre-
não têm o que comer.2 sentasse um sinal miraculoso do céu.4
3 Se Eu os enviar de volta às suas casas, 12 No entanto, Jesus suspirou profunda-
em jejum, vão desfalecer pelo caminho, mente e lhes afirmou: “Por que pede esta
pois alguns deles vieram de longe”. geração um sinal dos céus? Com certeza
4 Entretanto, os discípulos alegaram: vos asseguro que para esta geração não
“Onde, neste lugar desabitado, seria haverá sinal algum”.
possível alguém conseguir pão suficiente 13 E, deixando-os, voltou a embarcar e
para alimentar a todos?” rumou para o outro lado.
5 Indagou-lhes Jesus: “Quantos pães ten-
des?” Ao que afirmaram eles: “Sete”. O perigo das más influências
6 Então Ele orientou o povo a reclinar-se (Mt 16.5-12)
sobre o chão. E, após tomar os sete pães 14 Aconteceu que os discípulos se esque-
e dar graças, partiu-os e os entregou aos ceram de levar pães e, no barco, tinham
seus discípulos, para que estes servissem consigo apenas um único pão.
à multidão; e assim foi repartido entre 15 E Jesus passou a recomendar a eles:
todas as pessoas. “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos
7 Havia também alguns peixes pequenos; fariseus e do fermento de Herodes”.5
da mesma forma Ele deu graças e orde- 16 Eles, p
porém, especulavam
p entre si, ar-
nou aos discípulos que os distribuíssem. gumentando: “É por que não trouxemos
8 Todas as pessoas ali reunidas comeram pão!”
até se saciar; e ainda recolheram sete cestos 17 Ao notar a discussão, Jesus questio-
grandes, cheios de pedaços que sobraram. nou: “Por que discorreis sobre o não
9 Na multidão havia cerca de quatro mil terdes pão? Até agora não considerastes,
homens. Então, Jesus despediu-se do povo. nem ainda compreendestes? Permane-
10 Logo depois, entrou no barco com ceis com o coração petrificado?
seus discípulos e dirigiu-se para a região 18 Tendo olhos, não vedes? E, possuindo
de Dalmanuta.3 ouvidos, não escutais? Não vos recor-
dais?
Os fariseus querem um sinal 19 Quando dividi os cinco pães para os
(Mt 16.1-4) cinco mil homens, de quantos cestos
11Os fariseus se aproximaram e começa- cheios de pedaços que sobraram reco-
ram a questionar Jesus. Então o tentaram lhestes? E, afirmaram-lhe: ‘Doze!’

2 Como este episódio aconteceu na Decápolis (7.31), certamente havia um grande número de gentios na multidão. Jesus se
compadece (em grego: agapç) do povo que demonstrava grande fome da Palavra, pois há três dias o seguia e ouvia seus ensinos
sem se alimentar. Um grande exemplo para os cristãos atuais.
3 Dalmanuta ficava ao sul da Planície de Genesaré, local em que Jesus desembarcou. Mateus chama a região de Magadã ou
Magdala (Mt 15.39). Da mesma maneira como agiu na primeira multiplicação dos pães (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Lc 9.10-17; Jo
6.1-15), Jesus usa uma expressão original (vs.6 – em grego: , “a reclinar-se”), que tem a ver com a atitude cultural
dos judeus daquela época de quase deitarem sobre almofadas diante de mesas baixas, um ao lado do outro, em círculos, para
fazerem suas refeições cotidianas. Ao solicitar que as pessoas “reclinassem sobre o chão” (se assentassem), Jesus estava
comunicando a todos que o desjejum seria servido em seguida.
4 O pedido dos fariseus brotava da incredulidade. Tentaram fazer com que Jesus provasse ser um profeta maior do que Elias
(1Rs 18.20-40). Queriam apenas ver um show cosmológico, mas Jesus apontou para o povo e sua longa história de fome espiritu-
al e de justiça; assim como ocorreu no deserto com Moisés. O pão partido e multiplicado era o maior sinal para aquela “geração”
(maneira de se referir a um tipo de gente mesquinha e hipócrita).
5 Os judeus, por causa dos mandamentos de Deus (Êx 13.7) evitam o uso de qualquer tipo de levedo (agentes de fermentação
empregados na preparação de algumas bebidas alcoólicas não destiladas, tipo cervejas, e na panificação) na semana imedia-
tamente após a Páscoa. Na época de Cristo a levedura era um símbolo comumente usado pelos mestres para se referir à má
inclinação humana. Jesus faz uso desta metáfora para mostrar a procedência maligna dos pedidos dos fariseus e de Herodes
Antipas (Lc 23.8) por um sinal espetacular nos céus para comprovação da sua divindade. Jesus enfatiza que o grande sinal estava
na terra, junto à vida das pessoas a quem Deus amava.

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25 MARCOS 8

20 E quando Eu parti sete pães para aque- de Filipe. No caminho, Ele lhes inquiriu:
les quatro mil, quantos cestos grandes, “Quem dizem as pessoas que Eu Sou?”8
repletos de sobras recolhestes do chão?” 28 Ao que eles informaram: “Alguns
Responderam eles: ‘Sete!’6 comentam que és João Batista, outros,
21 Ao que lhes concluiu Jesus: “E então, Elias; e ainda há quem afirme que és um
ainda não compreendeis?” dos profetas”.
29 Então lhes questionou: “Mas vós,
Um cego em Betsaida é curado quem dizeis que Eu Sou?” E, asseverando
22 E, chegando a Betsaida, algumas pes- Pedro, declarou: “Tu és o Cristo!”
soas trouxeram um cego à presença de 30 Jesus, por sua vez, lhes recomendou
Jesus e rogavam-lhe que o tocasse.7 que nada divulgassem a seu respeito.
23 Então, Ele tomou o cego pela mão e
o conduziu para fora da aldeia. Em se- Jesus anuncia sua Paixão
guida, cuspiu nos olhos daquele homem (Mt 16.21-23; Lc 9.22)
e lhe impôs as mãos. E indagou: “Vês 31 Então, passou Jesus a ensinar-lhes que
alguma coisa?” era imperioso que o Filho do homem
24 O homem levanta os olhos e afirma: fosse vítima de muitos sofrimentos, vies-
“Vejo pessoas; mas elas se parecem com se a ser rejeitado pelos líderes religiosos,
árvores caminhando”. pelos chefes dos sacerdotes e pelos mes-
25 Mais uma vez, Jesus colocou suas mãos tres da lei; então fosse assassinado, para
sobre os olhos do homem. E, no mesmo depois de três dias ressuscitar.9
instante, tendo sido completamente res- 32 E Jesus falou sobre esse assunto de
taurado, via com clareza, e podia discer- maneira clara. Mas Pedro, chamando-
nir todas as coisas. o em particular, começou a censurá-lo
26 Então Jesus enviou aquele homem energicamente.
para casa, recomendando-lhe: “Nem 33 Entretanto, Jesus voltou-se, olhou para
sequer no povoado entres!” seus discípulos e repreendeu severamen-
te a Pedro, exclamando: “Para trás de
Pedro confessa Jesus como Messias mim, Satanás! Pois não estais pensando
(Mt 16.13-20; Lc 9.18-21) na obra de Deus, mas sim nas ambições
27Jesus e seus discípulos partiram para humanas”.10
os povoados nas cercanias de Cesaréia 34 Em seguida, convocou Jesus a mul-

6 Mais uma prova de que Jesus fala de dois eventos parecidos, mas distintos é que no primeiro a palavra grega usada para
“cestos” indica um pequeno cesto da época, feito de junco; e no segundo, a palavra grega usada para “cestos”
refere-se a um tipo de cesto grande, feito de tecido e capaz de suportar o peso de uma pessoa, como foi o caso
ocorrido com o apóstolo Paulo (At 9.25).
7 Betsaida significa “casa de pesca” e se localizava numa planície ao norte do mar da Galiléia. Era a cidade natal de Pedro,
André e Filipe (Jo 1.44).
8 Com a confissão de Pedro tem início a segunda metade de Marcos. A partir de agora Jesus muda a direção principal dos
seus ensinos, deixa as grandes multidões e concentra-se no discipulado dos Doze. Ao grupo dos discípulos passa a revelar mais
e mais sobre sua missão, morte e ressurreição.
9 A necessidade do sofrimento expiatório de Jesus é claramente apresentada no AT (Sl 22, 69, 118; Is 50.4, 52.13-53.12;
Zc 13.7). Jesus costumava se referir a si mesmo como “Filho do homem” (81 vezes nos evangelhos). Título jamais usado por
qualquer outra pessoa. Em Daniel (Dn 7.13,14), o filho de um homem é retratado profeticamente como personagem celestial a
quem, no final dos tempos, Deus confiou autoridade, glória e poder soberano. O próprio Jesus passa a reforçar esse título junto
aos seus discípulos. Pedro compreendeu que Jesus era o Messias prometido pelo uso que faz do termo grego “Cristo” (Messias,
em hebraico). Os líderes religiosos eram os membros leigos (anciãos) do Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus), os chefes
dos sacerdotes (Mt 2.4), entre eles o sumo sacerdote em exercício, Caifás; o sumo sacerdote anterior, Anás, e as respectivas
famílias sacerdotais.
10 O sofrimento e a humilhação não correspondiam ao “Messias” que estava na mente de Pedro: o Libertador de Israel. Ao
tentar persuadir Jesus a ter compaixão de si mesmo para não se entregar ao martírio e à morte, Pedro incorreu no mesmo dis-
curso usado por Satanás no início do ministério do Senhor (Mt 4.8-10), e por isso Jesus precisou mostrar a todos os discípulos

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MARCOS 8, 9 26

tidão e os discípulos, e os desafiou: “Se que aqui estão de modo algum passarão
alguém deseja seguir-me, negue-se a si pela morte, até que vejam o Reino de
mesmo, tome a sua cruz e venha após Deus chegando com poder”.
mim.11 2 Passados seis dias, tomou Jesus consigo
35 Quem quiser, pois, salvar a sua vida a Pedro, Tiago e João e os conduziu a
perdê-la-á; mas quem perder a sua vida um lugar retirado, no alto de um monte,
por minha causa e pelo Evangelho salva- onde puderam ficar a sós. E ali Ele foi
la-á! transfigurado diante deles.1
36 Portanto, de que adianta uma pessoa 3 Suas vestes tornaram-se alvas, de um
ganhar o mundo inteiro e perder a sua branco reluzente, como nenhum la-
alma? vandeiro em toda a terra seria capaz de
37 Ou ainda, o que uma pessoa pode-ria alvejá-las.
dar em troca de sua alma? 4 Então, apareceu à sua frente Elias com
38 Assim sendo, numa época como esta, Moisés, e estavam conversando com
de incredulidade e perversidade, se al- Jesus.
guém tiver vergonha de mim e dos meus 5 E Pedro, tomando a palavra, sugeriu:
ensinamentos, então o Filho do homem, “Rabi, é muito bom estarmos aqui! Va-
quando voltar na glória do seu Pai, jun- mos erguer três tabernáculos: um será
tamente com os santos anjos, também a teu, um para Moisés e um para Elias”.2
essa pessoa não oferecerá honra”.12 6 Pedro não sabia o que falar, pois eles
haviam ficado aterrorizados.
A transfiguração de Jesus 7 Em seguida, surgiu uma nuvem que
(Mt 17.1-8; Lc 9.28-36) os envolveu, e dela soou uma voz, que

9 Então lhes falou Jesus: “Com toda a


certeza vos asseguro que alguns dos
declarou: “Este é o Meu Filho amado, a
Ele dai ouvidos!”3

que tentar se desviar da vontade de Deus – não importa a razão – é cair nas artimanhas de Satanás e “errar o alvo” (expressão
que em hebraico significa: pecado).
11 Jesus faz um convite não apenas aos Doze, mas a todas as pessoas. Devemos permitir que o Espírito Santo assuma o
controle total das nossas vidas, antes dirigida pelo “eu” ou “ego” (fonte das nossas vontades, quase sempre contrárias à vontade
de Deus). Tomar a cruz é a disposição de começar a seguir ao Senhor do jeito que somos e com aquilo que temos; e depois,
aceitarmos a glória de vivermos e morrermos por Ele. Ao concluir, conclamando todos a segui-lo, Jesus estava dizendo que
mostraria pessoalmente o caminho da verdadeira entrega a Deus, do sofrimento, do martírio, da morte e da ressurreição para
uma vida eterna de comunhão com o Pai (Sl 49.8, Hb 9.27, Ap 21.8).
12 O mundo é um sistema globalizado de valores e princípios (filosóficos, políticos, econômicos e sociais) que, a cada geração,
se afasta mais e mais da Palavra de Deus. Por isso, desde a Queda (Gn 3), Deus tem procurado corrigir a rota dessa humanidade
perdida (Hb 1.1-2). Quem preferir se ajustar à sua geração (aos ditames do mundo de sua época) mais do que seguir a Cristo e
aos princípios da Sua Palavra não poderá fazer parte do Reino de Deus, tanto aqui e agora, como na Nova Jerusalém, na eternida-
de futura e iminente (Ap 21.1-4). Ter “vergonha” de Jesus é muito mais que um simples ato externo de usos e costumes, timidez ou
inabilidade de expressão. Esta palavra, em seu sentido original, tem a ver com a “honra de cultivar um caráter idôneo e amoroso
em relação a Deus e ao próximo em todas as atitudes pessoais”. Ou seja, envergonhar-se do Evangelho é não aceitar o compro-
misso com o discipulado de Cristo e preferir levar a vida conforme a ordem mundial impõe às pessoas de todas as culturas (Rm
1.16, 12.1). Entretanto, na volta triunfal de Cristo, todos aqueles que creram no Senhor o suficiente para enfrentar o mundo com
um estilo de vida verdadeiramente cristão, serão honrados por Jesus e participarão da Sua glória eterna (1Ts 1.6-10).
Capítulo 9
1 No NT, a palavra grega metamorphothe foi usada apenas em Mt 17.2, Rm 12.2 e 2Co 3.18, sempre com o sentido de transfor-
mação radical de um ser em outro ser. Em relação à vida diária dos cristãos, significa uma mudança total de caráter, abandonando
os costumes mundanos e adotando um estilo de vida próprio dos cidadãos do céu. O objetivo da transfiguração foi manifestar,
ainda que brevemente, aos discípulos mais chegados, a glória de Jesus encoberta por causa de sua encarnação. Jesus anteci-
pou a visão da sua ressurreição e do seu glorioso retorno.
2 Rabii ou Rabbii é a p
palavra hebraica comumente traduzida por
p “Mestre”. Pedro se prontificou,
p ainda que
q estarrecido, a recriar o
antigo ponto de encontro de Deus com seu povo (conhecido como tenda, cabana ou tabernáculo – Êx 29.42; Lv 23.42).
3 O sentido mais amplo da expressão: “a Ele dai ouvidos”, ou simplesmente, “a ele ouvi”, como aparece em algumas versões,
está relacionado à profecia de Dt 18.15, onde o termo “ouvir”, nos originais hebraicos significa “ouvir e obedecer”. Quando se
trata da voz de Deus a única maneira correta de ouvir é obedecendo (Tg 1.22-25).

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27 MARCOS 9

8 E, de repente, quando olharam ao redor, bas e os inquiriu: “O que discutíeis com


a ninguém mais viram, a não ser Jesus. eles?”
9 Durante a caminhada, descendo o 17 Contudo, um homem, no meio da
monte, Jesus lhes ordenou que a nin- multidão, replicou: “Mestre! Trouxe-te
guém revelassem o que haviam presen- o meu filho, que está tomado por um
ciado, até que o Filho do homem tivesse demônio que o impede de falar.5
ressuscitado dos mortos. 18 Onde quer que este o toma, joga-o no
10 Eles mantiveram esse assunto exclusi- chão. Então ele espuma pela boca, range
vamente entre si, mas comentavam sobre os dentes e fica todo enrijecido. Roguei
qual o significado da expressão “ressusci- aos teus discípulos que expulsassem o tal
tado dos mortos”. espírito,
p mas eles não conseguiram”.
g
11 Então questionaram-lhe: “Por que os 19 Admoestou-lhes Jesus: “Ó geração
mestres da lei afirmam que é preciso que sem fé, até quando estarei Eu junto a
Elias venha primeiro?” vós? Até quando vos supor-tarei? Trazei-
12 E Jesus lhes esclareceu: “Realmente, o a mim!”
Elias vindo primeiro, restaura todas as 20 E logo o trouxeram. Assim que o espí-
coisas. Agora, por que está escrito tam- rito viu Jesus, no mesmo instante provo-
bém que é necessário que o Filho do ho- cou uma convulsão no menino. Este caiu
mem sofra penosamente e seja rejeitado no chão e começou a rolar, espumando
com desprezo? pela boca.
13 Pois Eu lhes digo: Elias também já veio, 21 Então Jesus indagou ao pai do me-
e fizeram contra ele tudo o que deseja- nino: “Há quanto tempo isto lhe está
ram, como está escrito a respeito dele”.4 acontecendo?” E o pai declarou: “Desde
a infância.
Jesus cura um menino possesso 22 Muitas vezes esse demônio o tem
(Mt 17.14-23; Lc 9.37-45) jogado no fogo e na água, para matá-
14 Assim que chegaram onde estavam os lo. Todavia, se Tu podes fazer algo, tem
demais discípulos, observaram um gran- compaixão de nós e, de alguma maneira,
de aglomerado de pessoas ao redor deles ajuda-nos!”
e os mestres da lei discutindo com eles. 23 “Se podes?”, contestou-lhe Jesus: “Tudo
15 Logo que a multidão percebeu Jesus, é possível para aquele que crê!”6
tomada de surpresa correu para Ele e o 24 Imediatamente o pai do menino as-
saudava. severou: “Creio! Ajuda-me a vencer a
16 Então, Jesus dirigiu a palavra aos escri- minha falta de fé”.

4 Jesus faz referência à vinda de João Batista (Mt 17.10-13). João, assim como Elias, sofreu a oposição de um rei inseguro,
influenciado por uma rainha pagã e perversa. Elias realizou a obra de restauração do culto a Deus, especialmente no monte
Carmelo, e foi uma prefiguração de João, que veio iniciar (preparar o caminho) a restauração total do ser humano. Obra essa
concluída por Jesus (Ef 1.7-10). As ameaças de Jezabel em relação a Elias concretizaram-se na vida e no ministério de João e
preanunciaram a chegada do Messias (1Rs 19.1-10).
5 Possessão demoníaca é a ação de demônios (seres espirituais, anjos caídos, comandados por Satanás, e absolutamente
malévolos), que invadem e dominam o sistema nervoso, a consciência sensorial, a sede da vontade humana; e que, enfim,
tomam posse do corpo físico de uma pessoa, na qual ainda não habita o Espírito Santo, controlando suas ações e, por vezes,
submetendo esse corpo humano a todo tipo de humilhações e sofrimentos.
6 Os discípulos, que já haviam expelido vários espíritos malignos, não puderam expulsar aquele demônio por absoluta incre-
dulidade (Mt 17.14-21). Jesus adverte para o fato de que há graduação de poderes nas trevas, e que certa espécie de inimigos
espirituais só podem ser expulsos por meio de profunda comunhão com Deus em oração e persistente devoção, que inclui o
jejum. Apesar de a palavra “jejum” não aparecer em muitos originais gregos, é certo que Jesus e a Igreja primitiva praticavam o
jejum como disciplina espiritual. Jesus aproveita aquele momento tenso e constrangedor para evidenciar que todas as coisas são
realizáveis mediante a fé, e que a grande questão do ser humano é exatamente esta: a falta de fé. Deus pode tudo e a qualquer
momento, mas as pessoas costumam “crer duvidando” e, por isso, o Senhor não pode honrar uma “fé falsa” ou “incompleta”. A
verdadeira fé elimina todas as barreiras espirituais na vida (Tg 1.5-8).

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MARCOS 9 28

25 Percebendo que o povo estava se ajun- que no caminho haviam discutido sobre
tando, repreendeu o espírito imundo, quem era o maior.
determinando: “Espírito mudo e surdo, 35 Assentando-se, Jesus reuniu os Doze
Eu te ordeno: Deixa este jovem e jamais e lhes orientou: “Se alguém deseja ser
o tomes novamente!” o primeiro, será o último, e servo de
26 Então o demônio berrou, agitou o todos”.
jovem violentamente e o abandonou. 36 E, conduzindo uma criança, colocou-
O menino ficou desfalecido, a ponto de a no meio deles e, tomando-a nos braços,
todos afirmarem: “Ele morreu!” revelou-lhes:
27 Entretanto Jesus, pegando a mão do 37 “Quem recebe uma destas crianças,
menino, o levantou, e ele ficou em pé. por ser meu seguidor, do mesmo modo
28 Mais tarde, quando Jesus estava em estará a mim recebendo; e qualquer que
casa, seus discípulos o consultaram em me recebe, não está apenas me rece-
particular: “Por que razão não fomos bendo, mas igual-mente àquele que me
capazes de expulsá-lo?” enviou”.8
29 E Jesus lhes advertiu: “Essa espécie
de demônios só é expelida com oração Quem não é contra, está a favor
e jejum”. (Lc 9.49,50)
38 Contou-lhe João: “Mestre, vimos
O segundo anúncio da Paixão um homem que, em teu nome, estava
(Mt 17.22-23; Lc 9.43-45) expulsando demônios e procuramos
30 Eles partiram daquele lugar e atraves- impedi-lo; pois, afinal, ele não era um
saram a Galiléia. E Jesus evitava que qual- dos nossos”.
quer pessoa soubesse onde se achavam.7 39 “Não o impeçais!”- ponderou Jesus.
31 Pois estava dedicado ao ensino dos “Ninguém que realize um milagre em
seus discípulos e lhes revelava: “O Filho meu nome, é capaz de falar mal de mim
do homem está prestes a ser entregue nas logo em seguida.
mãos dos homens. Eles o matarão, mas 40 Portanto, quem não é contra nós, está
três dias depois ressuscitará”. a nosso favor.9
32 Todavia, eles não conseguiam entender 41 Com toda a certeza vos asseguro, qual-
o que Ele desejava comunicar, mas tinham quer pessoa que vos der de beber um
receio de inquiri-lo a este respeito. copo de água, pelo fato de pertencerdes a
Cristo, de maneira alguma perderá a sua
Quem é o maior no Reino? recompensa”.
(Mt 18.1-5; Lc 9.46-48)
33 Então chegaram a Cafarnaum. Quan- Evitar o pecado a todo custo
do já estavam em casa, indagou-lhes: (Mt 18.6-9)
“Sobre o que discorríeis pelo caminho?” 42 “Se alguém fizer tropeçar um destes pe-
34 Eles, porém, ficaram em silêncio; por- queninos que crêem em mim, seria me-

7 Jesus havia completado seu período de ministério às grandes massas na Galiléia e regiões vizinhas. Agora estava a caminho
do seu próprio holocausto em Jerusalém (10.32-34). Jesus passou então a concentrar, ainda mais, seus ensinos e discipulado na
vida dos seus Doze seguidores mais próximos.
8 Dúvidas sobre a posição hierárquica no Reino ocupavam a mente dos discípulos. A posição social sempre foi uma grande
ambição humana, especialmente na cultura judaica daquela época e em função da possibilidade da instauração de um novo “rei-
no” (sistema político-religioso). Entretanto, Jesus esclarece que a honra e o poder no Reino de Deus são conquistados por amor,
humildade, generosidade e serviço ao próximo. Como os bons pais cuidam de seus filhos pequenos (Lc 9.47). Por “pequeninos”
pode-se entender: as crianças, os novos convertidos e os cristãos em fase de amadurecimento espiritual (Rm 14; 1Co 8 e 9).
9 Jesus desaprova o sectarismo (partidarismo ferrenho das doutrinas e preceitos de uma seita) e o proselitismo (ação ostensiva
visando mover pessoas de uma seita para outra). Devemos manter comunhão com todos os cristãos que foram regenerados
pelo Espírito de Deus, isto é, com todos os Salvos, independentemente do seu grupo doutrinário. Por outro lado, é inadmissível

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29 MARCOS 9, 10

lhor que fosse lançado no mar com uma 50O sal é bom; mas se o sal perder o seu
pedra de asno amarrada ao pescoço.10 sabor, como restaurar as suas proprieda-
43 E, se a tua mão te fizer tropeçar, corta- des? Tende o bom sal em vós mesmos e
a, pois é melhor entrares para a Vida mu- vivei em paz uns com os outros”.13
tilado do que, possuindo as duas mãos,
ires para o inferno, onde o fogo que arde Casamento e Separação
jamais arrefece.11 (Mt 19.1-12)
44 Naquele lugar, os teus vermes devora-
dores não morrem, e as chamas nunca se
apagam.
10 Partindo dali, foi Jesus para a re-
gião da Judéia e para o outro lado
do Jordão. E, outra vez, grande multidão
45 E, se o teu pé te fizer tropeçar, corta- chegou-se a Ele e, como era seu costume,
o, pois é melhor entrares para a Vida passou a ensinar as pessoas ali reunidas.1
aleijado do que, tendo os dois pés, seres 2 Alguns fariseus se aproximaram de Je-
lançado no inferno. sus e, p
para colocá-lo à prova
p qquestiona-
46 Onde o teu verme não morre, e o fogo ram: “É permitido ao homem separar-se
é inextinguível. de sua esposa?”
47 E ainda, se um dos teus olhos te levar 3 Inquiriu-lhes Jesus: “O que lhes orde-
a pecar, arranca-o. É melhor entrares no nou Moisés?”
Reino de Deus com um dos teus olhos 4 E eles replicaram: “Moisés permitiu que
do que, possuindo os dois olhos, seres o homem desse à sua mulher uma certi-
atirado no inferno. dão de divórcio e a mandasse embora”.
48 Naquele lugar, os teus vermes devora- 5 Esclareceu-lhes Jesus: “Moisés vos dei-
dores não morrem, e as chamas nunca se xou escrita essa lei por causa da dureza
apagam. dos vossos corações!”2
6 Entretanto, no princípio da criação
Os cristãos são o sal da terra Deus ‘os fez homem e mulher’.
(Mt 5.13; Lc 14.34-35) 7 ‘Por esta razão, o homem deixará pai e
49 Pois todos serão salgados com fogo.12 mãe e se unirá à sua esposa,

que um cristão verdadeiro seja neutro em relação ao senhorio de Cristo. Ou se é, ou não se é cristão. Para Jesus não existe o
“cristão nominal”, ou seja, aquela pessoa que crê em Deus, mas não procura viver uma vida em comunhão com o Espírito Santo.
A unidade da Igreja nem sempre será obtida por meio de uma unanimidade teológica; porém, muitas vezes, no serviço humilde,
generoso e compreensível do amor fraternal em Cristo (Mt 25.34-46 conforme Mt 18.1-10 e Lc 17.1).
10 O amor de Deus por seus filhos é tão grande que o suicídio seria a melhor solução para alguém que deliberadamente
tentasse desviá-los do verdadeiro Caminho. Jesus usa literalmente o termo “pedra de asno”, para referir-se a uma grande placa
de pedra, comumente girada por jumentos, para moer grãos e cereais.
11 Jesus usa uma hipérbole (figura de linguagem que transmite um ensino por meio do exagero das afirmações ou compara-
ções) para ressaltar a necessidade de uma ação drástica. Muitas vezes o pecado ou um mau hábito só poderá ser vencido por
uma “cirurgia espiritual radical”. A palavra grega geenna é traduzida por “inferno” e aparece apenas nos Evangelhos e em Tg 3.6.
Seu sentido original corresponde a um “grande depósito de lixo”. Jesus cita a última palavra de advertência proferida por Isaías
em relação ao perigo da condenação eterna daqueles que teimam em viver rebeldes ao Espírito de Deus (Is 66.24). Num “grande
depósito de lixo” há sempre vermes se revolvendo (Mt 5.22).
12 No AT era exigido que se colocasse sal sobre o sacrifício (Lv 2.13 com Ez 43.24). Todo cristão deve ser um sacrifício para
Deus (Rm 12.1). Na vida cristã, o sal é representado, por provas, purificação pelo fogo da justiça divina, perseguições do Inimigo
e deste mundo (1Co 3.13; 1Pe 1.7; 4.12).
13 Na época de Jesus o sal era vital para temperar, dar sabor e conservar os alimentos, especialmente as carnes vermelhas e os
peixes. Ele se compara, portanto, à firme convicção do cristão que vive corajosa e intensamente o Evangelho (8.35-38).
Capítulo 10
1 Os capítulos de 1 a 9 relatam o ministério de Jesus na Galiléia. De 10 a 15 focalizam a outra parte da missão do Senhor, já
na Judéia.
2 O ser humano, por causa de sua pecaminosidade inata, tem a forte tendência de se ater mais ao teor da Lei do que ao seu
espírito. Tanto Jesus como todo judeu convicto reconhecem a plena autoridade da Bíblia. Cristo não nega o ensino registrado em
Dt 24.1, mas revela que a separação ou divórcio, jamais foi plano de Deus para os matrimônios. Os fariseus não estavam conse-
guindo discernir entre a vontade absoluta de Deus e Sua permissão, levando em conta a fraqueza humana diante do pecado. A

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MARCOS 10 30

8 e os dois se tornarão uma só carne’. Deus como uma criança, jamais terá
Dessa forma, eles já não são dois, mas acesso a ele”.
sim uma só carne.3 16 Em seguida, abraçou as crianças, im-
9 Portanto, o que Deus uniu, não o sepa- pôs-lhes as mãos e as abençoou.5
re o ser humano!”
10 Mais tarde, quando estavam em casa, O homem que deseja possuir tudo
uma vez mais os discípulos indagaram (Mt 19.16-30; Lc 18.18-30)
Jesus sobre o mesmo assunto. 17 E, colocando-se Jesus a caminho,
11 Então Ele lhes explicou: “Todo homem correu um homem ao seu encontro e,
que se separar de sua esposa e se unir a ajoelhando-se, indagou-lhe: “Bom Mes-
outra mulher, estará cometendo adulté- tre! O que devo fazer para herdar a vida
rio contra a sua esposa. eterna?”
12 Da mesma maneira, se uma mulher se 18 Replicou-lhe Jesus: “Por que me cha-
divorciar de seu marido e se casar com mas bom? Ninguém é bom, a não ser
outro homem, estará igual-mente caindo um, que é Deus!6
em adultério”.4 19 Tu conheces os mandamentos: ‘Não
matarás, não adulterarás, não furtarás,
Jesus abençoa as crianças não dirás falso testemunho, não engana-
(Mt 19.13-15; Lc 18.15-17) rás ninguém, honra a teu pai e tua mãe’”.7
13 E aconteceu que as pessoas traziam 20 Ao que o homem declarou: “Mestre,
crianças para que Jesus lhes impusesse tudo isso tenho obedecido desde minha
a mão, mas os discípulos repreendiam adolescência”.
o povo. 21 Então Jesus o olhou com compaixão e
14 Todavia, quando Jesus notou o que se lhe revelou: “Contudo, te falta algo mais
passava, ficou indignado e lhes adver- importante. Vai, vende tudo o que tens,
tiu: “Deixai vir a mim os pequeninos. entrega-o e receberás um tesouro no céu;
Não os impeçais, pois deles é o Reino então, vem e segue-me!”8
de Deus. 22 Diante disso, o homem abateu-se
15 Com toda a certeza vos asseguro: profundamente e retirou-se entristecido,
aquele que não receber o Reino de pois possuía muitos bens.

separação entre marido e mulher nunca contou com a aprovação de Deus, a não ser como o menor entre dois males. O termo
grego “sklerokardia”, sempre usado no sentido espiritual para denotar um tipo de “coração inflexível e arrogante”, traduz um estilo
de vida permanentemente em rebelião contra Deus e Sua Palavra.
3 O casamento cria um novo tipo de relação familiar (Gn 29.14), onde o amor e a vida conjugal são exclusivos (Ef 5.30). A
santidade no casamento faz parte do plano original de Deus para o homem e a mulher.
4 Jesus usa sua autoridade para invalidar a doutrina rabínica da época que não considerava o adultério do homem contra sua
esposa. Na prática judaica, o marido podia mandar sua mulher embora de casa, por qualquer motivo e sem qualquer direito ou
mediação jurídica. Por isso, Jesus salienta que Deus, nosso Juiz, é quem promove a união das pessoas. O homem, ao separar-se
de sua esposa, coloca-se igualmente sob condenação divina.
5 Só aquele que aceitar o Reino de Deus com o coração receptivo e puro de uma criança, como um dom gracioso do Senhor,
poderá desfrutar plenamente de todos os seus privilégios (Ef 2.8,9).
6 Jesus procura ajudar o homem a refletir sobre a soberania de Deus. Só Ele é bom no sentido absoluto. Assim, referir-se a Je-
sus como “bom” seria o mesmo que chamá-lo de Deus. Ele é o único caminho para todo ser humano, independentemente do seu
grau de instrução, nacionalidade, cultura ou poder econômico, político e financeiro. Lucas (18.18,19) informa que este homem era
“importante”, e a expressão no original nos leva a pensar em um membro do concílio ou do tribunal oficial dos judeus. Mateus diz
que era um “jovem rico” (Mt 19.20). Religioso, cheio de planos e vontade de acertar, pronto a pagar pelo que desejava adquirir.
7 Os judeus e cristãos são proibidos de cometer fraudes. Este mandamento tem a ver com a cobiça. Nesse trecho Jesus decidiu
mencionar seis ordenanças contra atitudes erradas em relação ao próximo (Êx 20.12-16; Dt 5.16-21).
8 Jesus não está interessado em que o homem se torne pobre, mas, sim, que humildemente se lembre de que a ordenança
mais importante é amar a Deus sobre todas as coisas. Exatamente o primeiro mandamento da Lei (Dt 6.4,5). O jovem tinha a idéia
de um tipo de obediência exterior (Fp 3.6), normalmente ensinada nas sinagogas aos meninos, a partir dos 13 anos, idade em
que passavam a assumir a responsabilidade de cumprir os mandamentos da Lei.

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31 MARCOS 10

Com Deus tudo é possível timos; e muitos últimos serão primei-


(Mt 19.23-30; Lc 18.24-30) ros”.10
23 Então, Jesus, observando ao redor, de-
clarou aos seus discípulos: “Quão difícil Jesus outra vez prediz sua Paixão
é para aqueles que possuem muitos bens (Mt 20.17-19; Lc 18.31-34)
ingressar no Reino de Deus!” 32 E sucedeu que estavam no caminho,
24 Os discípulos ficaram perplexos diante subindo para Jerusalém. Jesus à frente
de tais palavras; no entanto, Jesus insistiu os conduzia. Os discípulos estavam ad-
em lhes afirmar: “Filhos, entrar no Reino mirados, enquanto os demais seguidores
de Deus é, de fato, muito difícil! sentiam medo. Uma vez mais Ele reuniu
25 É mais fácil passar um camelo pelo à parte os Doze e compartilhou o que lhe
fundo de uma agulha do que um rico aconteceria:11
entrar no Reino de Deus”. 33 “Eis que subimos para Jerusalém, e o
26 Os discípulos ficaram muito assusta- filho do Homem será entregue nas mãos
dos e comentavam uns com os outros: dos chefes dos sacerdotes e dos mestres
“Sendo assim, quem conseguirá se sal- da lei. Eles o condenarão à morte e o
var?”9 entregarão aos gentios,
27 E Jesus, fixando neles o olhar lhes re- 34 que zombarão dele, lhe cuspirão, tor-
velou: “Para o homem isso é impossível; turarão e finalmente o matarão. Contu-
todavia, não para o Senhor. Pois para do, após três dias Ele ressucitará”.
Deus tudo é possível!”
28 Então Pedro começou a declarar para No Reino o servo é o mais poderoso
Jesus: “Eis que nós tudo abandonamos (Mt 20.20-28)
para te seguir”. 35 Foi então que Tiago e João, filhos de
29 Garantiu-lhes Jesus: “Com toda a cer- Zebedeu, chegaram mais perto dele e lhe
teza vos asseguro que ninguém há que solicitaram: “Mestre, desejamos que nos
tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, concedas o que vamos te pedir”.
pai, filhos ou bens, por causa de mim e 36 E lhes indagou Jesus: “Que quereis que
do Evangelho, Eu vos faça?”
30 que não receba, já no presente, cem 37 Ao que rogaram: “Permite-nos que,
vezes mais, em casas, irmãos, irmãs, na tua glória, nos assentemos um à tua
mães, filhos e propriedades, e com eles direita e o outro à tua esquerda”.
perseguições; mas no mundo futuro, a 38 Ponderou-lhes Jesus: “Não sabeis o
vida eterna. que estais pedindo. Podeis vós beber do
31 Todavia, muitos primeiros serão úl- cálice que Eu vou beber e ser batizados

9 Para alguns arqueólogos havia nos muros de Jerusalém uma porta muito pequena, chamada de “agulha”, através da qual um
camelo só conseguia passar de joelhos. Por outro lado, é evidente que Jesus procura mostrar o contraste que havia entre o maior
animal da Palestina, na época, e a abertura diminuta de uma agulha comum, usada na confecção das redes e roupas. Isso para
mostrar que não há obra ou habilidade humana que possa granjear mérito suficiente para que alguém tenha acesso ao Reino.
Isso só é possível a Deus, que, por sua vez, oferece esse dom graciosamente aos Seus (Jó 42.2; Zc 8.6; Jo 3.3-6).
10 Nenhuma obra ou ministério tem valor a menos que esse trabalho seja movido pelo amor a Deus e ao próximo (1Co 13.1-3).
A fraternidade produzida pelo Evangelho faz dos cristãos uma grande família (At 2.44-47; 4.32-35; Rm 16.13). Juntamente com as
imensas e deliciosas bênçãos, virão as provas, perseguições e o sofrimento, a fim de moldar o caráter do discípulo à imagem de
Cristo. O julgamento final trará muitas surpresas. É preciso ficarmos alertas em relação ao pecado da arrogância e do orgulho.
Lembremo-nos dos destinos finais de Judas Iscariotes, (que fora escolhido por Jesus como um dos seus Doze apóstolos), e
Paulo, anteriormente um perseguidor de cristãos, e que trocaram de posição no Reino, mesmo nesta vida. O importante não é
começar bem, mas terminar bem.
11 Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Iniciada na cidade de Efraim (Jo 11.54), indo para a Galiléia (Lc 17.11), mais
ao sul a Jericó, passando pela região da Peréia (Lc 18.35), depois até Betânia (Lc 19.29), chegando a Jerusalém (Lc 19.41). Jesus
estava sendo seguido por uma multidão de romeiros a caminho das celebrações da Páscoa em Jerusalém.
Comparando-se mais essa predição da Paixão de Cristo com as demais, encontramos vários detalhes proféticos, todos cum-
pridos nos últimos dias e horas do ministério de Jesus na terra.

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com o batismo com que estou sendo multidão, estavam deixando a cidade,
batizado?”12 o filho de Timeu, chamado Bartimeu,
39 “Podemos!” Replicaram eles. Então que era cego, estava assentado à beira do
Jesus lhes revelou: “Sim, bebereis o cálice caminho, pedindo esmolas.
que Eu bebo e, de fato, recebereis o batis- 47 Assim que ouviu que era Jesus de Na-
mo com que Eu sou batizado; zaré, começou a gritar: “Jesus! Filho de
40 todavia, o assentar-se à minha direita Davi, tem misericórdia de mim!”
ou à minha esquerda não cabe a mim 48 Muitos o advertiam severamente para
conceder. Esses lugares pertencem àque- que se calasse, contudo ele gritava ainda
les para quem foram preparados”. mais: “Filho de Davi! Tem compaixão de
41 Assim que os outros dez ouviram esse mim!”14
assunto, ficaram indignados contra Tia- 49 Foi então que Jesus parou e pediu:
go e João. “Chamai-o!” E assim foram chamar o
42 Jesus, por sua vez, os convocou e cego: “Ânimo, homem! Levanta-te, Ele
orientou: “Sabeis que aqueles que são te chama”.
considerados governantes das nações as 50 Jogando sua capa para o lado, de um
dominam e as pessoas importantes exer- só salto colocou-se em pé e foi ao encon-
cem poder sobre elas. tro de Jesus.
43 Contudo, não é assim que ocorre entre 51 Indagou-lhe Jesus: “Que queres que Eu
vós. Ao contrário, quem desejar tornar- te faça?” Rogou-lhe o cego: “Raboni, que
se importante entre vós deverá ser servo; eu volte a enxergar!”15
44 e quem ambicionar ser o primeiro 52 E Jesus lhe ordenou: “Vai em frente,
entre vós que se disponha a ser o escravo a tua fé te salvou!” No mesmo instante
de todos. o homem recuperou a visão e passou a
45 Porquanto, nem mesmo o Filho do seguir a Jesus pelo caminho.
homem veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por A entrada triunfal de Jesus
muitos”.13 (Mt 21.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19)

A cura do cego Bartimeu


(Mt 20.29-34; Lc 18.35-43)
11 Quando estavam se aproximando
de Jerusalém, chegando a Betfagé
e Betânia, perto do monte das Oliveiras,
46 Chegaram pois a Jericó. Quando Jesus enviou então Jesus dois dos seus discí-
e seus discípulos, e mais uma grande pulos,1

12 A expressão usada originalmente por Jesus, aqui traduzida por “beber do cálice”, significa em hebraico “compartilhar o mes-
mo destino de alguém”. No AT o cálice de vinho era sempre usado como uma metáfora em relação à ira de Deus contra o pecado
e, especialmente, contra a rebelião deliberada do ser humano (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7). Portanto, o cálice
que Jesus tinha de beber diz respeito ao castigo divino dos pecados que Ele mesmo suportou no lugar de toda a humanidade
condenada. Jesus usa a palavra “batismo”, cujo significado tem a ver com “mergulho na água”, para enfatizar seu “mergulho” no
mais profundo dos sofrimentos para nos salvar da pena do afastamento eterno do Pai (Lc 12.50; Rm 6.3,4).
13 Esse é considerado por muitos teólogos e exegetas como o versículo-chave de Marcos: Jesus veio ao mundo como o Único
Servo (só Ele é bom, Ele é a síntese do bem), que viveria e entregaria sua vida à morte para a redenção de todo ser humano
que nele crer; como profetizou claramente Isaías (Is 52.13 – 53.12). A palavra “resgate” em seu sentido original traz o significado
do preço total pago pela libertação de um escravo. No original grego, a palavra diakonos é usada para demonstrar essa atitude
de Jesus, bem como o serviço voluntário, movido por amor, de um cristão em ajuda ao seu próximo. A expressão grega doulos
significa o serviço obrigatório do “escravo” e tem a ver com nosso procedimento dentro da comunidade cristã.
14 Essa é a única passagem em Marcos em que o título messiânico é dirigido a Jesus de Nazaré como forma de tratamento (Is
11.1-3; Jr 23.5,6; Ez 34.23,24; Mt 1.1; 9.27).
15 Bartimeu, falando em aramaico, a língua familiar de Jesus, o chama de rabonii ou rabbúni, que significa: meu mestre.
Capítulo 11
1 Aqui tem início a etapa derradeira do ministério de Jesus, que acontecerá dentro dos limites de Jerusalém, chamada de
Cidade Sagrada. O monte das Oliveiras fica a leste de Jerusalém, chega a uma altura de 823 metros, um pouco mais alto do que
o monte Sião. Do seu cume é possível ter uma linda visão panorâmica da cidade, especialmente do templo.

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33 MARCOS 11

2 e lhes recomendou: “Ide ao povoado 10 Bendito seja o Reino vindouro de nos-


que está logo adiante de vós e, assim so pai Davi! Hosana nos mais elevados
que entrardes, achareis um jumentinho céus!”4
amarrado, sobre o qual ninguém ainda 11 Então, Jesus entrou em Jerusalém e
montou. Soltai-o e trazei-o aqui.2 dirigiu-se ao templo. Observou tudo à
3 Se alguém vos inquirir: ‘Por que fazeis sua volta e, como já era tarde, partiu para
isso?’ Replicai: ‘O Senhor precisa dele e Betânia com os Doze.
sem demora o enviará de volta para aqui’.
4 Eles partiram e logo encontraram um Jesus purifica o templo
jumentinho na rua, amarrado a um por- (Mt 21.12-17; Lc 19.45-48)
tão, e o desprenderam. 12 No dia seguinte, enquanto estavam
5 E alguns dos que ali estavam censu- saindo de Betânia, Jesus teve fome.
raram-lhes: “Que fazeis, soltando o 13 E, avistando ao longe uma figueira
jumentinho?” com folhas, foi verificar se encontraria
6 Eles, todavia, justificaram-se conforme nela algum fruto. Chegando perto dela,
Jesus os orientara; diante do que lhes nada encontrou, a não ser folhas, porque
permitiram seguir. não era a época de figos.
7 E, assim, trouxeram o jumentinho até 14 Então a repreendeu: “Nunca mais, em
onde estava Jesus, selaram-no com seus tempo algum, coma alguém fruto de ti!”
mantos, e Jesus o montou. E os discípulos escutaram quando pro-
8 Então, muitas pessoas estendiam seus feriu isso.5
mantos pelo caminho, outras espalhavam 15 Assim que chegou a Jerusalém, Jesus
ramos que tinham cortado nos campos.3 entrou no templo e começou a expulsar
9 Tanto os que caminhavam adiante dele, os que ali estavam apenas comprando e
como os que seguiam após, proclama- vendendo. Derrubou as mesas dos cam-
vam: “Hosana! Bendito é o que vem em bistas e as cadeiras dos que comercializa-
nome do Senhor! vam pombas.6

2 A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, evento assim conhecido pela maneira efusiva com que as multidões aclamaram
essa chegada de Jesus Cristo à Cidade Santa, abre a Semana da Paixão, lembrada dessa forma para marcar os dias em que
Jesus entregou sua própria vida em holocausto, por causa da sua paixão pela humanidade, e para resgatar todo aquele que nele
crer da sentença perpétua do abandono de Deus. Mais uma vez as profecias se cumprem até nos detalhes (Zc 9.9; Mt 21.5; Jo
12.15), como foi o caso de Jesus solicitar um jumentinho sobre o qual ninguém ainda houvesse montado, numa demonstração
do uso santificado dos elementos para o ritual do sacrifício (Nm 19.2; Dt 21.3). Esse foi um ato messiânico deliberado, de Jesus,
revelando-se claramente ao povo como o Messias prometido, e permitindo que os líderes religiosos e políticos que viviam tentan-
do surpreendê-lo em alguma falta, agora passassem a ter um pretexto.
3 Parte das vestes de Jesus foi colocada sobre o lombo do jumentinho. Os profetas do AT foram dirigidos por Deus para minis-
trarem ao povo por meio de atitudes de grande efeito visual e dramático (Jr 19; Ez 4.1-3). A entrada triunfal, como a purificação do
templo, a maldição da figueira, e a ceia do Senhor foram ações dessa natureza. Jesus se apresenta como o Messias. Entretanto,
diferentemente de como imaginavam muitos judeus, sem armas ou exércitos, nem mesmo a natural arrogância dos monarcas e
grandes líderes. Jesus foi o Messias da Paz (Lc 19.38-40).
4 A expressão hebraica hosana já era de uso comum (e por isso Marcos não a traduz para o grego) e proferida na aclamação
de reis e governadores. O verso 10 indica que o povo reconheceu plenamente em Jesus a pessoa do Messias. O vocábulo tem
origem na antigüidade judaica e foi usado por Davi em seus salmos de Hallell (Louvor). A passagem do Sl 118.25,26 era cantada
na ocasião da celebração da Páscoa e como expressão de boas-vindas proferida pelos sacerdotes aos peregrinos de todas as
partes que chegavam a Jerusalém. Portanto, muito adequada para aquele momento. Hosana tornou-se um grito de júbilo e louvor
a Deus por seus feitos maravilhosos.
5 As figueiras da região de Jerusalém costumam brotar folhas novas no final de março, mas só produzem frutos quando toda
folhagem está completa, por volta de junho. Essa figueira – como Israel – era uma exceção, já estava coberta de folhas muito an-
tes do tempo, na Páscoa, mas sem oferecer nenhum fruto. O episódio serviu de grande recurso didático para que Jesus revelasse
especialmente aos discípulos mais uma parábola sobre o Juízo, com a figueira servindo de perfeita ilustração (Os 9.10; Na 3.12).
O acontecimento no templo e o evento com a figueira explicam-se mutuamente.
6 Jesus dirigiu-se ao “átrio dos gentios”, a única parte do templo em que os gentios tinham acesso permitido para adorar a Deus
e reunir-se para as orações. Os romeiros que vinham de todas as partes da Palestina, para as celebrações da Páscoa, tinham de

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MARCOS 11 34

16 Também não permitia que ninguém oração pedirdes, tenhais fé que já o rece-
transportasse mercadorias pelo templo. bestes, e assim vos sucederá.
17 E os admoestava exclamando: “Não 25 Mas, quando estiverdes orando, se
está escrito: ‘A minha casa será chamada tiverdes algum ressentimento contra al-
casa de oração para todos os povos’? Vós, guma pessoa, perdoai-a, para que, igual-
contudo, a tendes transformado em ‘co- mente, vosso Pai celestial vos perdoe as
vil de ladrões’”. vossas ofensas.
18 Os chefes dos sacerdotes e os mestres 26 Entretanto, se não perdoardes, vosso
da lei escutaram essas críticas e começa- Pai que está nos céus também não vos
ram a tramar um meio para assassiná-lo, perdoará os vossos pecados”.
pois o temiam, haja vista que todo o
povo estava maravilhado com o seu sa- A autoridade de Jesus é divina
ber e ministração.7 (Mt 21.23-27; Lc 20.1-8)
19 E, ao pôr-do-sol, eles saíram da cidade. 27 Mais tarde, chegaram outra vez a Jeru-
salém. E Jesus, ao caminhar pelo templo,
O poder da oração de fé foi abordado pelos chefes dos sacerdotes,
(Mt 21.18-22) os mestres da lei e os líderes religiosos,
20 E, caminhando eles pela manhã, viram que lhe questionaram:
que a figueira secara desde as raízes.8 28 “Com que autoridade ages como vens
21 Pedro, recordando-se do ocorrido, in- agindo? Ou quem te outorgou tal autori-
formou a Jesus: “Rabbi! Eis que a figueira dade para fazeres o que fazes?10
que amaldiçoaste secou!” 29 Jesus lhes replicou: “Eu também vos
22 Observou-lhes Jesus: “Tende fé em proporei uma questão; respondei-me,
Deus!9 e Eu vos revelarei com que autoridade
23 E, com toda a certeza eu vos asseguro, tenho ministrado.
que se qualquer pessoa ordenar a este 30 O batismo de João provinha do céu ou
monte: ‘Levanta-te e lança-te no mar, e dos seres humanos? Replicai-me pois!”
não houver dúvida em seu coração, mas 31 E aconteceu que eles passaram a discu-
crer que se realizará o que pede, assim tir entre si: “Se afirmarmos: Do céu, ele
lhe será feito’. nos indagará: ‘Então, por qual razão não
24 Portanto, vos afirmo: Tudo quanto em acreditastes nele?’

comprar animais que satisfizessem as exigências rituais. Os sacerdotes mantinham um acordo com os vendedores e somente os
animais comprados (a preços exorbitantes) dentro dessa área do templo recebiam uma espécie de visto de aprovação sacerdotal:
“sem defeito” e, portanto eram aceitos na hora do sacrifício. Ao lado dos abrigos dos animais, os vendedores montavam mesas
para troca (câmbio) do dinheiro estrangeiro pela moeda local. As pombas eram oferecidas para a purificação das mulheres (Lv
12.6; Lc 2.22-24) e para determinadas doenças de pele (Lv 14.22), além de outros fins específicos (Lv 15.14,29). Havia também as
ofertas que deviam ser entregues pelos pobres (Lv 5.7), e vários outros tipos de sacrifícios. Jesus entrou no templo naquele dia
como o verdadeiro Sumo Sacerdote (Ml 3.1) e agiu como responsável que é sobre o Templo do Espírito de Deus.
7 A indignação dos líderes religiosos é compreensível. Afinal eram os sacerdotes e seus chefes, Anás e Caifás, que embolsavam
o lucro ilícito do comércio geral no templo.
8 Esta era a manhã de terça-feira da Paixão. O detalhe salientado por Marcos, informando que a figueira estava seca desde as
raízes, foi uma admoestação ao grave estado de corrupção do povo de Israel a partir dos seus líderes religiosos máximos, e o
aviso de que a destruição seria absoluta (Jo 18.16). Além disso, ninguém mais, em futuro algum, seria beneficiado pelos frutos
espirituais de Israel. Uma vívida ilustração do terrível juízo que ocorreria no ano 70 d.C. (Mt 24.2).
9 Pedro observa que a figueira secou completamente, de um dia para o outro, e se dirige a Jesus em hebraico usando a
expressão: Rabbi, que significa: “meu mestre”. Jesus ensina que a nossa fé (que em hebraico tem o sentido de depositar toda
a confiança), deve ser dedicada de forma pura e absoluta a Deus, o Pai. Mesmo a fé em Jesus é fé em Deus, que o enviou e o
declarou Seu Filho pleno em poder (Jo 5.24; Rm 1.4; Fl 2.9). Era comum entre os mestres judaicos da época o uso da expressão
“remover montes” em relação à solução de problemas muito complicados de interpretação e aplicação prática da Lei. Do alto do
monte das Oliveiras era possível avistar o mar Morto. Quem ora com verdadeira fé em Deus não enfrenta dificuldades insolúveis
nem insuportáveis; é vital não duvidar e não guardar rancor (Tg 1.6; 2.4).
10 O Sinédrio perguntava ao Senhor por que ele estava realizando um ato oficial sem reter cargo formal (Lc 20.2).

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32 Se, por outro lado, declararmos: Dos 6 Finalmente, restava-lhe enviar seu
seres humanos...” Neste caso, temiam as próprio e amado filho; a este lhes enviou
multidões, pois todos realmente consi- com a seguinte intenção: ‘A meu filho
deravam João um profeta. respeitarão’.3
33 Finalmente responderam a Jesus: “Não 7 Todavia, aqueles lavradores combina-
sabemos!” E, Jesus, por sua vez, concluiu- ram entre si: ‘Este é o herdeiro! Ora, ve-
lhes: “Ora, nem Eu tampouco vos revela- nham, vamos matá-lo, e assim a herança
rei com que autoridade estou realizando será toda nossa’.4
estas obras!”11 8 Então o agarraram, assassinaram e o
jogaram para fora da vinha.
Parábola dos vinicultores maus 9 Diante disso o que fará o proprietá-
(Mt 21.33-46; Lc 20.9-19) rio da vinha? Virá, destruirá aqueles

12 Jesus então passou a ministrar-


lhes por meio de parábolas: “Cer-
to homem plantou uma vinha, ergueu
lavradores e outorgará a vinha a outros
vinicultores.
10 Ainda não lestes esta passagem nas
uma cerca ao redor dela, cavou um tanque Escrituras? ‘A pedra que os construtores
para esmagar as uvas e construiu uma tor- rejeitaram, essa veio a ser a pedra princi-
re de vigia. Depois arrendou a vinha para pal, angular;
alguns lavradores e partiu de viagem.1 11 isto procede do Senhor, e é obra de
2 Chegando a época da colheita, enviou um grande maravilha para todos nós’”.5
servo aos lavradores, com o objetivo de re- 12 Por isso começaram a tramar um jeito de
ceber deles sua parte do fruto da vinha.2 prendê-lo, pois perceberam que Ele havia
3 No entanto, eles o agarraram, o espan- narrado aquela história com o propósito
caram e o mandaram embora de mãos de acusá-los. Contudo, tinham receio da
vazias. multidão; e acharam melhor se afastarem.
4 Então lhes enviou um outro servo; e
também lhe bateram na cabeça e o hu- Adorar a Deus e honrar o Estado
milharam. (Mt 22.15-22; Lc 20.19-26)
5 E enviou outro ainda, o qual assassina- 13 Mais tarde enviaram a Jesus alguns dos
ram. Então enviou muitos outros; mas a fariseus e herodianos para tentar conde-
alguns agrediram e a outros mataram. ná-lo em alguma palavra que proferisse.6

11 Os jjudeus usavam a expressão


p “céu” ou “céus”, muitas vezes em substituição
ç ao vocábulo divino “Deus” ((ou como muitos
judeus grafam ainda hoje: “D-us”), procurando evitar, assim, um possível mau uso do nome de Deus (Êx 20.7). Com sua pergunta
Jesus deu a entender que sua autoridade provinha de Deus, da mesma maneira que o batismo de João.
Capítulo 12
1 Jesus continua a falar com os mesmos líderes religiosos de 11.27. Esta história ilustrativa e repleta de ensinamentos (pará-
bola) fala dos homens que desconfiam da autoridade divina de Jesus. As expressões hebraicas: “plantou uma vinha”, “cerca ao
redor”, “cavou um tanque”, “torre de vigia” vêm citadas na versão grega de Isaías 5.1,2, na tradução das Escrituras chamada
Septuaginta ou, simplesmente “LXX”.
2 A palavra “servo” aqui usada é doulos (em grego: escravo). Neste caso indica uma das grandes características do Profeta de
Jeová, do AT: “obediente e submisso a Deus” (Jr 7.25; Am 3.7; Zc 1.4).
3 A derradeira possibilidade de reconciliação dos seres humanos com o Criador está na intermediação de Cristo, o Filho
amado. A ênfase de todo o NT está na incomparabilidade de Jesus Cristo (Hb 1.1,2). Quem rejeitar o Filho fica sem qualquer
esperança de aceitação da parte de Deus, o Pai.
4 Pela lei judaica, em vigor na época, qualquer propriedade não reclamada por seu herdeiro legal passava a ser declarada
“terra sem dono”, e poderia ser outorgada propriedade da primeira pessoa que se identificasse como dono dessas terras. Os
vinicultores, embriagados pela avareza e cobiça, logo perceberam que assassinando o filho do dono poderiam tornar-se os novos
e ricos proprietários das terras.
5 Esta passagem é composta integralmente com expressões extraídas da tradução grega Septuaginta (LXX) do Salmo
118.22,23. A pedra principal ou angular era a pedra que unia e completava as grandes construções da época (At 4.11; 1Pe 2.7,8).
Deus permitiu o assassinato de seu Filho único, apenas para, em seguida, exaltá-lo como Senhor supremo e Juiz dos pecadores
inveterados (Fp 2.6-11).
6 Este episódio ocorreu na terça-feira da Paixão, em um dos átrios do templo. Os herodianos eram partidários de Herodes

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MARCOS 12 36

14 E, ao se aproximarem, lhe questiona- casou-se e faleceu sem deixar filhos.


ram: “Mestre, sabemos que és verdadei- 21 Então o segundo desposou a viúva,
ro e que não te deixas influenciar por mas também morreu sem deixar des-
ninguém, pois não te impressionas com cendentes. O mesmo ocorreu com o
a aparência exterior das pessoas, mas terceiro.
ensinas o caminho de Deus em confor- 22 E, dessa forma, nenhum dos sete ir-
midade com a mais pura verdade. Assim mãos deixou filhos. Finalmente, faleceu
sendo, diga-nos, é lícito pagar imposto a também a mulher.
César ou não? 23 Na ressurreição, de quem essa mulher
15 Devemos pagar ou podemos nos recu- será esposa, haja vista que os sete irmãos
sar?”. Jesus, porém, conhecendo o quão foram casados com ela?”.
hipócritas estavam sendo, lhes inquiriu: 24 Então Jesus os admoestou: “Não é
“Por que me tentais? Trazei-me um de- sem motivo que errais tanto, pois não
nário para que Eu o veja!” compreendeis as Escrituras nem o poder
16 E eles lhe trouxeram a moeda, ao que de Deus!9
Ele lhes indagou: “De quem é esta ima- 25 Quando os mortos ressuscitam não
gem e esta inscrição?” se casam mais, nem são dados em ca-
17 “Ora, de César”, replicaram eles. samento. Pois se tornam como os anjos
18 Então Jesus lhes asseverou: “Dai a Cé- nos céus.
sar o que é de César e a Deus o que é de 26 A respeito da ressurreição dos mortos,
Deus!” E todos ficaram pasmos com Ele.7 ainda não tendes lido no livro de Moisés,
no texto referente à sarça, como Deus lhe
A ressurreição de todos os mortos declarou: ‘Eu Sou o Deus de Abraão, o
(Mt 22.23-33; Lc 20.27-40) Deus de Isaque e o Deus de Jacó?’
18 Depois chegaram os saduceus, que 27 Ora, Ele não é Deus de mortos, e sim
pregam não haver qualquer ressurreição, o Deus dos vivos!’. Estais absolutamente
com a seguinte questão:8 enganados!”10
19 “Mestre, Moisés nos deixou escrito que,
se um homem morrer e deixar sua esposa O principal dos mandamentos
sem filhos, seu irmão deverá se casar com (Mt 22.34-40; Lc 10.25-28)
a viúva e gerar filhos para seu irmão. 28Um dos mestres da lei achegou-se e os
20 Ora, havia sete irmãos. O primeiro ouviu argumentando. Observando como

Antipas, rei da Galiléia. O plano para matar Jesus, tramado logo depois do início do seu ministério na Galiléia, estava agora
amadurecendo rapidamente e ganhava força nos meios religiosos e políticos de Jerusalém.
7 O NT apresenta alguns princípios básicos referentes à nossa obediência ao Estado: 1) O Estado não é maior nem mais
poderoso que o Senhor. Deve, portanto, ser submisso à vontade expressa de Deus (Rm 13.1). 2) O Estado tem deveres e direitos
para com seu povo que, por sua vez, também deve cumprir com suas responsabilidades cívicas. Existem obrigações para com
o Estado que não entram em choque com nossas obrigações prioritárias para com Deus (Rm 13.1-7; 1Tm 2.1-6; Tt 3.1,2; 1Pe
2.13-17). 3) O limite dessas responsabilidades para com o Estado não deve ultrapassar a vontade de Deus, claramente expressa
pelo Espírito Santo aos cristãos e escrita em Sua Palavra (At 4.19).
8 Os saduceus representavam o partido judaico aristocrata dos sacerdotes e das classes ricas, na época subordinado aos
romanos. Estabelecidos principalmente em Jerusalém, fizeram do templo e de sua administração seu interesse principal. Embora
pequeno em número, na época de Jesus, esse grupo exerceu poderosa e decisiva influência política e religiosa em Israel, e até
em Roma. Negavam a ressurreição dos mortos, aceitavam somente a autoridade divina dos primeiros cinco livros de Moisés
(o Pentateuco ou a Torá), e rejeitavam totalmente a tradição oral dos judeus. Essas doutrinas geravam grande conflito entre os
saduceus, os fariseus e a fé comum judaica.
9 As doutrinas e pressuposições teológicas dos saduceus os incapacitavam de entender coerentemente (conhecer) o AT como
um todo e não apenas o Pentateuco.
10 Era comum os mestres judeus referirem-se ao evento da “sarça” ao falar do maravilhoso encontro de Deus com Moisés
no deserto ou para lembrar o texto bíblico de Êx 3.1-6 (ver Rm 11.2, em que “Elias” se refere a 1Rs 19.1-10). Nesta passagem,
Jesus confirma a inspiração e a historicidade do texto de Êx 3. Os planos do Criador e Fonte da vida não serão vencidos pela

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37 MARCOS 12

Jesus lhes houvera respondido esplendida- Cristo é o Senhor de Davi


mente, perguntou-lhe: “De todos os man- (Mt 22.41-46; Lc 20.41-44)
damentos, qual é o mais importante?”11 35 Mais tarde, Jesus estava ensinando no
29 Esclareceu-lhe Jesus: “O mais impor- templo, quando levantou uma questão:
tante de todos os mandamentos é este: “Como podem os mestres da lei pregar
‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus é que o Cristo é filho de Davi?
o único Senhor. 36 Sendo que o próprio Davi, expressan-
30 Amarás, portanto, o Senhor, teu Deus, do-se pelo Espírito, afirmou: ‘O Senhor
de todo o teu coração, de toda a tua alma, disse ao meu Senhor: Senta-te à minha
de todo o teu entendimento e de toda a direita, até que Eu ponha os teus inimi-
tua força’.12 gos debaixo de teus pés’.13
31 E o segundo é: ‘Amarás o teu próximo 37 Se o próprio Davi o chama de ‘Se-
como a ti mesmo’. Não existe qualquer nhor’. Como é possível, então, ser Ele
outro mandamento maior do que estes”. seu filho?” E numeroso ajuntamento de
32 Então o escriba exaltou Jesus: “Muito pessoas o ouvia com grande deleite!
bem, Mestre! Estás absolutamente certo
ao afirmares que Deus é único e que não Jesus condena os escribas
existe outro que se compare a Ele. (Mt 23.1-7,14; Lc 20.45-47)
33 E que amar a Deus de todo o coração e 38 E, continuando seu ensino, advertia
de todo o entendimento, e com todas as Jesus: “Acautelai-vos dos escribas. Pois
forças, bem como amar ao próximo como eles fazem questão de andar com roupas
a si mesmo é muito mais importante do especiais e de receber saudações em pra-
que todos os sacrifícios e ofertas juntos”. ças públicas,14
34 Jesus, por sua vez, vendo que o ho- 39 de sentar nos lugares de maior des-
mem havia respondido com sabedoria, taque nas sinagogas, e ainda de ocupar
revelou-lhe: “Não estás distante do Rei- as posições mais honrosas à mesa dos
no de Deus!” E, a partir disto, não havia grandes banquetes.15
mais alguém que ousasse lhe questionar 40 Eles devoram as casas das viúvas e,
coisa alguma. para dissimular, fazem longas orações.

morte, nem pelo pecado (Sl 73.23). Deus é Senhor dos vivos, pois ainda que morramos, seremos ressuscitados e estaremos
vivos para sempre.
11 Os antigos rabinos judeus contavam 613 ordenanças da Lei e procuravam diferenciar entre mandamentos “pesados” ou
“mais importantes” (graves), e aqueles considerados “leves” ou “menos importantes”. Os escribas eram fariseus, teólogos e
eruditos da lei, criadores e transmissores da interpretação tradicional dos mandamentos de Deus.
12 Jesus recita o Shema, em razão de ser a primeira palavra hebraica de Dt 6.4, que significa “Ouve” (preste atenção para
praticar). Citar este trecho das Escrituras tornou-se uma espécie de confissão de fé judaica, recitada por judeus piedosos e con-
sagrados, todas as manhãs e ao pôr-do-sol. Até hoje é usada para iniciar os cultos nas sinagogas em todo o mundo. No entanto,
especialmente na vida dos líderes religiosos que combatiam Jesus, o Shema havia se tornado apenas uma “reza” ou “oráculo”,
repetição meramente ritualística de palavras, as quais se imagina que possam tocar a divindade. Jesus resgatou o verdadeiro
sentido do Shema e acrescentou-lhe o mandamento de Lv 19.18, para demonstrar que é impossível amar a Deus sem honrar ao
próximo com o mesmo sentimento de cuidado que devotamos a nós mesmos. O amor a Deus tem como expressão natural o
amor aos irmãos de raça e à terra em geral. O primeiro e o segundo mandamentos são inseparáveis (1Jo 4.20). Agostinho pro-
clamou: “Ama a Deus e faze o que queres”, pois o amor sincero a Deus purifica todas as nossas intenções. A ênfase na unidade
absoluta do Deus único é usada para negar qualquer idéia de politeísmo, comum a todos os povos não judeus da antigüidade.
13 Jesus usa habilmente as Sagradas Escrituras para mostrar que o Cristo (o Messias) era mais que descendente de Davi. Era
o Senhor de Davi (Sl 110.1).
14 Os escribas (mestres da lei) gostavam de usar túnicas compridas de linho branco com franjas que quase tocavam o chão.
Colocavam boa parte de sua respeitabilidade na aparência exterior.
15 Os lugares mais destacados e importantes nas sinagogas ficavam em frente a uma réplica da “Arca” que era usada para
guardar os rolos sagrados (cópias manuscritas dos originais). Aqueles que tinham o privilégio de sentar-se ali podiam ser vistos
na sinagoga por toda a congregação.

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MARCOS 12, 13 38

Estes, certamente, receberão condenação Os sinais do final dos tempos


ainda mais severa!”16 (Mt 24.1-35; Lc 21.5-37)

A valiosa oferta da viúva pobre


(Lc 21.1-4)
13 E ocorreu que ao sair Jesus do
templo, observou-lhe um de seus
discípulos: “Olhai Mestre! Que pedras
41 E Jesus foi sentar-se em frente ao local enormes. Que construções magníficas!”1
onde eram depositadas as contribuições 2 Entretanto Jesus lhe revelou: “Vês estas
financeiras e observava a multidão colo- suntuosas construções? Pois aqui não
cando o dinheiro nas caixas de coleta de restará pedra sobre pedra; serão todas
ofertas. Muitos ricos lançavam ali gran- derrubadas!”
des quantias.17 3 Então, havendo Jesus se assentado no
42 Foi então que uma viúva pobre se monte das Oliveiras, de frente para o
aproximou e depositou duas moedas templo, Pedro, Tiago, João e André o
bem pequenas, de cobre e, portanto, de consultaram em particular:
bem pouco valor.18 4 “Dize-nos quando acontecerão estes
43 E chamando para perto de si os seus eventos, e que sinal haverá quando todos
discípulos, Jesus lhes declarou: “Com toda eles estiverem prestes a cumprir-se?”
a certeza vos afirmo que esta viúva pobre 5 E Jesus passou a preveni-los: “Vede que
depositou no gazofilácio mais do que o pessoa alguma vos induza ao erro.2
fizeram todos os demais ofertantes. 6 Pois serão muitos os que virão em meu
44 Porquanto, todos eles ofertaram do nome, afirmando: ‘Sou eu’; e iludirão
que lhes sobrava; aquela senhora, entre- multidões.
tanto, da sua penúria deu tudo quanto 7 No entanto, assim que ouvirem notí-
possuía, todo o seu sustento”. cias sobre guerras e rumores de guerras,

16 Os mestres da lei não recebiam um salário fixo e regular. Dependiam de ofertas voluntárias dos irmãos judeus. As senhoras
viúvas eram, em geral, as mais generosas e muitas vezes vítimas de exploração.
177 Os gazofilácios ou caixas de ofertas ficavam no átrio das mulheres. Nele se achavam treze receptáculos em forma de trombe-
ta para receber as contribuições trazidas pelos adoradores. De maneira curiosa, os homens tinham permissão para entrar nesse
recinto, mas as mulheres não podiam ir a qualquer outra parte do templo.
18 As moedas de cobre (em grego, lepta, “finas”) eram as menores em circulação em toda a Palestina e correspondiam ao
mínimo valor monetário, valiam apenas 1/6 de um denário. Todavia Jesus observou o desprendimento da pobre senhora que
ofereceu ao Senhor tudo o que tinha (2Co 8.12).
Capítulo 13
1 Este capítulo é conhecido por muitos teólogos como “O Sermão Profético”, é também chamado de “Pequeno Apocalipse”.
Marcos consegue sintetizar as grandes e dramáticas verdades em relação aos sinais que surgirão na terra prenunciando o
iminente e glorioso retorno de Cristo, o final dos tempos e o início de uma nova era (Mt 24; Lc 21 e todo o Apocalipse). O
propósito de Marcos não é esclarecer os seus leitores sobre os eventos futuros, mas sim encorajar os cristãos a resistir ao mal;
permanecer firmes na fé em Jesus, não importa o quanto às circunstâncias possam ser adversas; manter sempre a Esperança
e estar pronto, a todo o momento, para o magnífico encontro com Cristo em glória. O Templo era uma construção suntuosa e
exemplar. Refletia o poder e a capacidade do gênio humano. Herodes, o Grande, começou sua reconstrução no século 19 a.C.,
tornando-a uma das maravilhas do mundo antigo. O historiador judeu Flavio Josefo dizia que as pedras talhadas e usadas na
construção eram brancas e muitas mediam até 11,5m de comprimento, 3,7m de altura e 5,5m de largura. Contudo, no ano 70
d.C., antes mesmo da sua conclusão (14.58; 15.29; Jo 2.19, Mt 23.38), o Templo foi completamente destruído, a ponto de não
ficar uma só pedra sobre outra. Jerusalém foi toda queimada, as praças públicas tornaram-se lagos de sangue e os soldados
romanos cobriram, com sal, os cadáveres e todo o chão da cidade. Esse foi o grande sinal do início dos eventos que marcarão
o final dos tempos e da humanidade como a conhecemos hoje. Portanto, a volta triunfal de Cristo pode ocorrer a qualquer
momento em nossos dias.
2 Um dos principais propósitos deste sermão é alertar os discípulos quanto ao perigo dos ataques místicos de enganadores
e falsos profetas. Durante séculos essas pessoas têm surgido em toda a terra, iludindo e destruindo inúmeras vidas humanas. À
medida que o final dos tempos se aproxima, mais defraudadores da verdade arrebanharão multidões de incautos. Por isso Jesus
enfatiza o cuidado e o zelo, usando expressões como “ficai vós alertas”, “estai vigilantes” e “vigiai” (9, 23, 33, 35, 37).

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39 MARCOS 13

não vos assusteis; é necessário que assim A grande tribulação


ocorra, contudo, ainda não é o fim.3 (Mt 24.15-28; Lc 21-24)
8 Porquanto nação se levantará contra 14 Então, quando virdes o sacrilégio
nação, e reino contra reino. Sucederão horrível posicionado no lugar onde não
terremotos em vários lugares e muita deve estar (aquele que lê as Escrituras
fome por toda parte. Esses acontecimen- entenderá), os que estiverem na Judéia
tos são o início das dores! fujam para os montes.
9 Ficai vós alertas, pois vos denuncia- 15 Quem estiver sobre a laje que cobre as
rão aos tribunais e sereis açoitados nas vossas casas, não desça nem entre para
sinagogas. Por minha causa vos farão retirar dela qualquer de vossos perten-
comparecer à presença de governadores ces.6
e reis, e isso se constituirá em testemu- 16 Quem estiver no campo não retorne
nho para eles.4 para apanhar seu manto.
10 Contudo, é indispensável que pri- 17 Como serão terríveis aqueles dias,
meiro o Evangelho seja anunciado para principalmente para as grávidas e para as
todas as nações.5 mães que estiverem amamentando!
11 Todas as vezes que fordes presos e le- 18 Orem para que estes eventos não ve-
vados a julgamento, não vos preocupeis nham a ocorrer no inverno.
com o que haveis de declarar, porém, o 19 Pois aqueles serão dias de tamanho
que vos for concedido naquele momen- sofrimento, como jamais houve desde
to, isso proclamai; porque não sois vós os que Deus criou o mundo até agora, nem
que falais, mas, sim, o Espírito Santo! nunca mais haverá.
12 E sucederá que um irmão trairá seu 20 Portanto, se o Senhor não tivesse re-
próprio irmão, entregando-o à morte, e duzido aquele período, nenhum ser de
dessa mesma maneira agirá o pai para carne e osso sobreviveria. Contudo, por
com seu filho. Filhos haverá que se re- causa dos eleitos por Ele escolhidos, tais
voltarão contra seus próprios pais e os dias foram abreviados pelo Senhor.7
assassinarão. 21 Se, todavia, alguém lhes anunciar: ‘Eis
13 Sereis odiados de todos por minha aqui o Cristo!’ Ou ainda: ‘Ei-lo logo ali!’
causa, todavia, aquele que permanecer Não deis qualquer crédito a isso!
firme até o seu fim receberá a glória da 22 Pois surgirão falsos cristos e falsos
salvação. profetas, realizando sinais e maravilhas,

3 Jesus se refere ao final da História da Criação e encoraja os cristãos a não se desesperarem, pois assim deve prosseguir a
História (Rm 8.22; Hb 12.26). Os falsos mestres e a própria perversão do sistema político, religioso, econômico e social mundial
apressarão a volta do Senhor. Entretanto, o cristão, por estar salvo, não deve pensar de forma egoísta: “quanto pior, melhor”. Mas,
sim, em tornar-se um canal de bênçãos para a salvação do maior número de pessoas possível.
4 Perseguições e incompreensões aguardam todos aqueles que se lançam ao desafio da proclamação do Evangelho em todo
o mundo. Os tribunais religiosos eram dirigidos pelos anciãos (administradores) das sinagogas. As infrações dos regulamentos e
estatutos judaicos eram sujeitos a uma punição de até 39 açoites (At 8.1; 9.1; 2Co 11.23,24). Contudo, governadores, reis e grandes
autoridades (judeus e gentios) terão a oportunidade de receber o Evangelho do Senhor por meio do testemunho dos cristãos.
5 Jesus prediz que o Evangelho será pregado em todas as nações (em grego: ethnç, a mesma palavra para “gentios”). Todos
os gentios sobre a face da terra terão ao menos uma oportunidade de ouvir e receber o Evangelho, e não apenas os judeus (Ap
7). Infelizmente, isso não quer dizer que o mundo se tornará melhor e mais cristão com o passar do tempo, mas que é missão
da Igreja ir e proclamar.
6 Aquele que perseverar será salvo do Juízo final, não das perseguições temporais em virtude da sua fé em Jesus Cristo. A
expressão aqui traduzida por “laje” tem a ver com um tipo especial de cobertura plana das casas judaicas na época de Cristo,
muito diferente dos tradicionais telhados brasileiros e europeus (Mt 24.17; Mc 2.4; Lc 17.31).
7 O Senhor toma o cuidado de não ser muito claro em suas profecias para que apenas aqueles fiéis, que se dedicam à oração
e ao estudo da Palavra, possam compreender o verdadeiro sentido das predições. Especialmente as dos versos 14 a 20, para as
quais, muitos anos mais tarde, Lucas nos legaria sua interpretação (Lc 21), tendo em vista os acontecimentos que culminaram
com a destruição de Jerusalém, entre os anos 66 e 70 d.C., de cujos fatos ele foi testemunha ocular. Os ídolos do imperador e as
atitudes bárbaras dos soldados romanos, absolutamente tomados pelo ódio, profanaram o Templo em 70 d.C. (Dn 9.27; 11.31;

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MARCOS 13, 14 40

com o objetivo de enganar, se possível, os passará esta geração até que todos esses
próprios eleitos.8 eventos ocorram.10
23 Desse modo estai vigilantes, pois sobre 31 Os céus e a terra passarão, contudo as
tudo isso vos avisei com antecedência! minhas palavras nunca passarão.

O glorioso retorno de Jesus Só Deus sabe o dia e a hora. Vigiai!


(Mt 24.29-31; Lc 21.25-28) (Mt 24.36-51)
24 Porém, naqueles dias, depois do referi- 32 Todavia, a respeito daquele dia ou hora
do período de tribulação, ‘o sol escurece- ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem
rá e a lua não dará a sua luz;9 o Filho do homem, senão apenas o Pai.
25 as estrelas cairão do céu e os poderes 33 Estai, pois, atentos e vigiai! Porquanto
celestes serão abalados’. não cabe a vós saber quando será este
26 Então o Filho do homem será visto tempo.
p
chegando nas nuvens, com grande poder 34 É como um homem que viaja para ou-
e glória. tro país e, deixando a sua casa, encarrega
27 Ele enviará os seus anjos e reunirá cada um de seus servos das suas tarefas e
os seus eleitos dos quatro ventos, das ordena ao porteiro que vigie.11
extremidades da terra até os confins 35 Vigiai, pois, uma vez que não sabeis
do céu. quando regressará o dono da casa: se à
tarde, à meia-noite, ao cantar do galo ou
A parábola da boa figueira mesmo ao raiar do dia.
(Mt 24.32-44; Lc 21.29-36) 36 E, em vindo repentinamente, que não
28 Portanto, aprendei com o ensino da fi- vos surpreenda dormindo.
gueira: Quando seus ramos se renovam e 37 O que vos tenho dito, proclamo a to-
suas folhas começam a brotar, sabeis que dos: Vigiai!”12
o verão vem chegando.
29 Dessa mesma maneira, assim que ob- Trama para matar Jesus
servardes esses eventos ocorrendo, sabei (Mt 26.1-5; Lc 22.1-2)
que o tempo está próximo, já às portas.
30 Com toda a certeza vos afirmo que não 14 Restavam somente dois dias para
a Páscoa e para a festa dos pães

12.11) e tornaram-se uma advertência explícita, quanto ao que, no futuro, o anticristo poderá fazer contra os cristãos e a Igreja, o
Templo de Deus na atualidade (2Ts 2.4; 1Pe 2.5).
8 Satanás é o pai da mentira, do engano e do ódio. Seu plano é, antes do final do seu domínio sobre o mundo, enganar e iludir
o maior número de seres humanos que puder. Com especial empenho em relação àqueles que foram chamados pelo Senhor
para a Salvação e uma nova vida em Cristo (Jo 8.44; 1Jo 2.26,27).
9 O foco dessa passagem está sobre o glorioso retorno de Jesus Cristo (Dn 7.13). As profecias anteriores são indicativos do
grande evento do fim. Os fenômenos astronômicos e climáticos são registrados sempre do ponto de vista do observador leigo
e sem preocupação científica. Pois era vital apresentar aos povos de todas as épocas, culturas e línguas as grandes pistas da
volta triunfal de Cristo, o final das eras, o Juízo e o estabelecimento de uma nova ordem na terra sob o governo de Jesus, o Rei
do Universo (Is 13.10; 24.4; Am 8.9; Dn 7.13; Ap 1.7; 21.1-4). Deus realizará seu sonho de reunir todo o seu povo disperso (seus
eleitos e amados), de todas as partes e épocas, em torno de si, em espírito de adoração e fraternidade absoluta (Gn 16.7; Ap
14.14-16 com Dt 30.3,4; Is 43.6; Jr 32.37; Ez 34.13; 36.24).
10 O cumprimento das profecias referentes à destruição total de Jerusalém foi visto pela geração contemporânea de Jesus
Cristo, inclusive por alguns dos seus discípulos. Além disso, o Senhor é o Deus dos vivos; e, portanto, aqueles que nele crêem
não morrem (no sentido de serem destruídos ou deixarem de existir), mas – como adormecidos – aguardam seguros o grande dia
da volta de Cristo e a ressurreição dos justos para a glória eterna (os ímpios, para o Juízo e a condenação sem fim).
11 Os verdadeiros cristãos recebem os dons do Espírito para capacitá-los a servir ao Senhor, aos irmãos e ao mundo perdido
(1Co 12; Rm 12; 1Pe 4.10). O termo “porteiro” tem o mesmo sentido do “mordomo” de Lc 12.42, e refere-se principal-mente aos
líderes espirituais da Igreja.
12 Jesus consegue resumir numa única e simples expressão: Vigiai, todas as principais obrigações que qualquer pessoa – que
o siga como discípulo (com fé e devoção) – deva cumprir até o seu glorioso retorno.

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41 MARCOS 14

sem fermento. Os chefes dos sacerdotes as vezes que o desejardes, todavia a mim
e os mestres da lei buscavam um meio nem sempre me tereis.
de surpreender Jesus em qualquer erro e 8 A mulher fez tudo que estava ao seu al-
assim poder condená-lo à morte.1 cance. Derramou o bálsamo sobre mim,
2 Entretanto, comentavam: “Que não antecipando a preparação do meu corpo
seja durante as festividades, para que o para o sepultamento.4
povo não se tumultue”. 9 Com toda a certeza Eu vos asseguro:
onde quer que o Evangelho for pregado,
Jesus é ungido em Betânia por todo o mundo, será também procla-
(Mt 26.6-13; Jo 12.1-8) mada a obra que esta mulher realizou, e
3E estando Jesus em Betânia, reclinado à isso para que ela seja sempre lembrada”.
mesa na casa de certo homem conhecido 10 E, depois disso, Judas Iscariotes, um
como Pedro, o leproso, achegou-se dele dos Doze, foi encontrar-se com os chefes
uma mulher portando um frasco de ala- dos sacerdotes com o propósito de lhes
bastro contendo valioso perfume, feito entregar Jesus.
de nardo puro; e, quebrando o alabastro, 11 Ao ouvirem a proposta, eles ficaram
derramou todo o bálsamo sobre a cabeça muito satisfeitos e se comprometeram
de Jesus.2 a lhe pagar algum dinheiro. E, por isso,
4 Diante disso, indignaram-se alguns dos ele procurava uma oportunidade para
presentes, e a criticavam entre si: “Para que entregá-lo.
este desperdício de tão valioso perfume?
5 Um bálsamo como este poderia ser A Ceia do Senhor
vendido por trezentos denários, e o di- (Mt 26.17-30: Lc 22.7-23; Jo 13.18-30)
nheiro ser doado aos pobres”. E a censu- 12 E, no primeiro dia da festa dos pães
ravam severamente.3 sem fermento, quando tradicionalmente
6 “Deixai-a em paz!”- ordenou-lhes Je- se sacrificava o cordeiro pascal, os dis-
sus. “Por que causais problemas a esta cípulos de Jesus o consultaram: “Onde
mulher? Ela realizou uma boa ministra- desejas que vamos e façamos os prepara-
ção para comigo”. tivos para ceares a Páscoa?”5
7 Quanto aos pobres, sempre os tendes 13 Então Ele enviou dois de seus discípu-
ao vosso lado, e os podeis ajudar todas los instruindo-lhes: “Ide à cidade, e certo

1 As celebrações da Páscoa (Êx 12.13,23,27) em Jerusalém reuniam até três milhões de pessoas. Considerando que a popu-
lação média da cidade era de apenas 50 mil habitantes, é compreensível a grande preocupação das autoridades israelenses e
romanas com possíveis tumultos e revoluções. A conhecida Festa dos Pães Asmos ou Festa dos Pães sem Fermento ocorria logo
após a Páscoa e durava sete dias (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8).
2 A mulher era Maria, irmã de Marta e Lázaro. No evangelho de João, este evento ocorreu antes de começar a Semana
da Paixão (Jo 12.1-3). Mateus e Marcos enfatizam o contraste entre o ódio dos líderes religiosos, a covardia dos discípulos e
a traição de Judas Iscariotes, e o amor, coragem de se expor e desprendimento material de Maria. O alabastro era um frasco
lacrado, de gargalo longo, que continha valioso perfume, normalmente usado na unção de personalidades notáveis da época
ou no preparo mortuário de monarcas e pessoas ricas (Sl 23.5; Lc 7.46). Ao narrar este episódio, Marcos se refere a “alguns
dos presentes”, Mateus concentra-se nos “discípulos” (Mt 26.8) e João destaca a participação objetiva e comprometedora de
“Judas Iscariotes” (Jo 12.4,5).
3 Trezentos denários correspondiam a quase um ano de trabalho de um soldado romano. Jesus prevê que, até o seu retorno,
haverá muitas pessoas que dependerão da ajuda de seus semelhantes. Jesus sempre teve um coração compassivo em relação
aos pobres (Mt 6.2-4; Lc 4.18; 6.20; 14.13.21; 18.22; Jo 13.29).
4 Era costume judaico ungir um corpo com óleos aromáticos para o sepultamento (16.1). Entretanto, os corpos de pessoas
condenadas por crimes não mereciam tal atenção, cuidado e honra. A “antecipação” de Maria revela que Jesus percebeu que ela
tinha compreendido o propósito da vinda do Cristo (o Messias) ao mundo como Servo sofredor (Is 53).
5 Os cordeiros eram tradicionalmente sacrificados no dia anterior ao primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento (Êx 12.6),
ou seja, no dia 14 de Nisã (mês que corresponde a abril, quando celebramos nossa Páscoa). O cordeiro tinha de ser sacrificado
à tarde (por volta das 15h) e comido em grupos de pelo menos dez pessoas, entre o pôr-do-sol e a meia-noite.

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MARCOS 14 42

homem carregando um cântaro de água daquele que trai o Filho do homem! Me-
virá ao vosso encontro.6 lhor lhe fora jamais haver nascido!”
14 Segui-o e dizei ao proprietário da casa
onde ele entrar que o Mestre deseja saber: O ato de partilhar o pão e o cálice
‘Onde está a minha sala de jantar onde ce- (Mt 26.26-30; Lc 22.19-23; 1Co 11.23-25)
arei a Páscoa com os meus discípulos?’7 22 E, enquanto ceavam, tomou Jesus um
15 E aquele homem vos mostrará um pão e, tendo dado graças, o partiu, e o
amplo cenáculo todo mobiliado e pron- serviu aos seus discípulos, declarando:
to; ali fazei os preparativos”. “Tomai, isto é o meu corpo”.11
16 Partiram, pois, os discípulos e che- 23 Em seguida, tomou Jesus um cálice,
garam na entrada da cidade onde en- deu graças e o entregou aos discípulos, e
contraram tudo como Jesus lhes havia todos beberam dele.
predito. E ali prepararam a Páscoa.8 24 Então lhes revelou: “Isto é o meu san-
17 Ao pôr-do-sol chegou Jesus com seus gue da Aliança, o qual é derramado para
Doze. o bem de muitos.12
18 E quando estavam ceando, reclinados 25 Com toda a certeza vos afirmo que não
à mesa, Jesus lhes revelou: “Com toda a voltarei a beber do fruto da videira, até
certeza vos afirmo que um dentre vós, aquele dia em que beberei o vinho novo
este que come comigo, me trairá”.9 no Reino de Deus”.13
19 Eles ficaram consternados e lhe afir- 26 E, depois de haverem cantado um
mavam: “É certo que q não serei eu!” salmo, partiram para o monte das Oli-
20 Mas, asseverou-lhes Jesus: “É um dos veiras.
Doze, aquele que come comigo do mes-
mo prato.10 Jesus prediz a traição de Pedro
21 O Filho do homem vai, conforme está (Mt 26.31-35; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38)
escrito a respeito dele. No entanto, infeliz 27 Então, Jesus lhes advertiu: “Todos vós

6 Um homem carregando um pote de água poderia ser facilmente reconhecido na cidade; pois, naquela época e região, apenas as
mulheres transportavam água dessa maneira. Pedro e João foram encarregados por Jesus para ir ao encontro previsto (Lc 22.8).
7 Outro costume judaico na época da Páscoa em Jerusalém era o de ceder uma grande sala (salão de hóspedes ou cenáculo),
disponível, mediante solicitação prévia, aos peregrinos, para que pudessem cear a Páscoa com seu grupo.
8 Uma grande casa judaica sempre tinha seus cenáculos, amplas e bem ventiladas salas no primeiro andar, cujo acesso se
dava por meio de uma escada externa. Em geral os preparativos para a ceia de Páscoa incluíam: O cordeiro pascal, lembrando
o sangue que protegeu os filhos de Israel do anjo da morte no Egito (Êx 12.2); os pães asmos, isto é, sem levedura (fermento),
como sinal de urgência e rapidez na saída do Egito; água salgada, uma recordação do pranto derramado no Egito e das águas
do mar Vermelho; ervas amargas, em memória das amarguras passadas na escravidão; uma sopa de frutas, como lembrança da
obrigação de produzir tijolos; quatro copos de vinho, recordando as quatro promessas de Êx 6.6,7.
9 No AT, a Páscoa era comida em pé (Êx 12.11), mas nos tempos de Jesus o costume havia mudado e os judeus, mesmo os
mais pobres, faziam suas refeições reclinados sobre almofadas, ao redor de uma mesa baixa, em sinal do direito à liberdade do
povo judeu.
10 Jesus se refere à sopa de frutas (em hebraico, charosheth) que ambos estavam degustando do mesmo prato, conforme o
costume judaico. Judas foi advertido por Jesus sem que os demais discípulos notassem.
11 A Ceia do Senhor é uma celebração dramática do evento do sacrifício do Senhor para nossa total e completa redenção (Jr
27.28; 10,11; Ez 4.1-8), da mesma maneira que a Páscoa judaica. São quatro os relatos da Ceia no NT (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24;
Lc 22.19,20 e 1Co 11.23-25). A expressão “dado graças”, deriva da palavra eucaristia em grego.
12 A velha Aliança dependia dos israelitas (e dos gentios) guardarem a Lei (Êx 24.3-8). A nova Aliança, em Cristo, não está alicer-
çada na dependência das obras da lei, mas no sacrifício vicário de Jesus Cristo (Rm 4.23-31). Assim, todos aqueles que aceitam
e recebem pela fé, e para si, esse sacrifício expiatório do Filho de Deus, herdam o Reino e deveriam viver como cidadãos da Nova
Jerusalém. O cálice com o sumo do fruto da videira (as uvas são ricas em açúcares e por isso fermentam com rapidez, gerando o vi-
nho), representa o sangue de Jesus que significa sua vida derramada pela nossa salvação. As promessas de Deus ao povo da Nova
Aliança só podem ser válidas mediante a morte expiatória de Cristo (Jr 31.31-34; Hb 8.8-12; Lc 22.20 com Êx 24.6,8 e Rm 5.15).
13 Jesus entrega-se à morte por seu voto de nazireu (Nm 6.1-21), enquanto antevê sua ressurreição, após o que se reunirá com
seus discípulos em outras épocas festivas e ceará com eles (At 1.4; 10.41). A partir desses eventos, teve início a Ceia do Senhor.
Na igreja primitiva era costume a realização de uma grande ceia com muita comida para todos. Com o passar do tempo essa

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43 MARCOS 14

me abandonareis. Pois está escrito: ‘Feri- vel, àquela hora fosse afastada dele.
rei o pastor, e as ovelhas serão dispersas’. 36 E rogava: “Abba, Pai, todas as coisas
28 Contudo, depois da minha ressur- são possíveis para ti, afasta de mim este
reição, partirei adiante de vós rumo à cálice; todavia, não seja o que Eu desejo,
Galiléia”. mas sim o que Tu queres”.15
29 Pedro exclamou: “Mesmo que todos te 37 Ao voltar para seus discípulos, os sur-
abandonem, eu nunca te deixarei!” preendeu dormindo: “Simão!”- chamou
30 Replicou-lhe Jesus: “Com toda a cer- Ele a Pedro. “Estais dormindo? Não con-
teza te asseguro que ainda hoje, nesta seguistes vigiar nem por uma hora?
noite, antes que por duas vezes cante o 38 Vigiai e orai, para não cairdes em ten-
galo, tu me negarás três vezes”. tação, pois, de um lado, o espírito está
31 Entretanto, Pedro insistia com elo- pronto, mas, por outro lado, a carne é
qüência: “Ainda que seja preciso que eu fraca”.
morra ao teu lado, jamais te negarei!” E 39 E, uma vez mais, Ele se afastou e orou,
da mesma maneira responderam todos repetindo as mesmas expressões.16
os demais. 40 Ao regressar, novamente os encontrou
dormindo, porque seus olhos estavam
Jesus Cristo no Getsêmani pesados, mas não sabiam como justifi-
(Mt 26.36-46; Lc 22.39-46) car-se.
32 Então caminharam para um lugar 41 Voltando ainda uma terceira vez, Ele
chamado Getsêmani e, tendo chegado, lhes admoestou: “Ainda dormis e des-
solicitou Jesus aos seus discípulos: “As- cansais? Basta! Eis que a hora é chegada!
sentai-vos aqui, enquanto Eu vou orar”.14 O filho do Homem está sendo entregue
33 E levou consigo a Pedro, Tiago e João, nas mãos dos pecadores.
e começou a sentir grande temor e pro- 42 Levantai-vos, pois, e vamos! Eis que
funda angústia. chegou aquele que me está traindo!”
34 E compartilhou com eles: “Minha
alma está extremamente triste até à mor- Jesus é traído e preso
te; ficai pois aqui e vigiai”. (Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)
35 Caminhou um pouco mais adiante e, 43 Jesus ainda não havia terminado de
prostrando-se, orava para que, se possí- falar, quando surgiu Judas, um dos Doze.

celebração restringiu-se mais ao seu simbolismo principal, o qual devemos preservar até a volta de Cristo. Antes das orações
finais da Páscoa, Jesus e seus discípulos cantaram trechos dos salmos 114, 118 e 136.
14 Um dos significados da expressão hebraica getsêmanii é “prensa de azeite”, e refere-se a um belo jardim, com pomar, situado
na encosta inferior do monte das Oliveiras. Um dos locais preferidos por Jesus para oração e meditação. Jesus sabia que Judas
iria para lá e foi ao encontro do seu destino. Jesus levou alguns dos seus discípulos mais chegados para que compartilhassem
de sua luta espiritual. Anos mais tarde esses discípulos testemunhariam ao mundo sobre esses fatos. Jesus previu claramente a
agonia espiritual e física que teria de suportar. Uma nova e decisiva batalha contra o príncipe deste mundo (Jo 12.31; 14.30), no
fim da qual, ainda teria de suportar, (sustentar sobre as costas), o castigo pelos pecados de toda a humanidade (Is 53.10).
15 A oração alerta, persistente e relevante é o único caminho para vencer as tentações (1Pe 5.8). Abba, que significa, “papai”
ou “meu pai querido”, é uma expressão aramaica, a língua natural de Jesus, e que denota um relacionamento fraterno, íntimo
e especialmente amigo, de pai para filho e vice-versa. A morte não horrorizava tanto Jesus quanto o motivo e o modo de sua
morte: como um criminoso, peçonhento e rejeitado por todos (Rm 8.15; Gl 4.6). Jesus jamais duvidou do amor de Seu Pai, nem
mesmo no Getsêmani.
16 Jesus previne os discípulos sobre o perigo de serem desleais, refere-se especialmente a Pedro que havia demonstrado certa
arrogância inconseqüente (vv. 29-31). Quando a parte espiritual do ser humano está em perfeita sintonia com o Espírito de Deus,
luta contra a carne, ou seja, contra as tendências egocêntricas e pervertidas das fomes (vontades) humanas. Essa expressão é
tirada do Sl 51.12. A solução é “vigiar” e para isso é necessário: que se conheça o inimigo e suas artimanhas (2Co 2.11); que nos
revistamos de toda a armadura de Deus (Ef 6.11-18); que permaneçamos acordados espiritualmente (Ef 5.14-16; 1Ts 5.6-10). Da
mesma forma, é vital “orar”, e isso requer: uma fé inabalável, com toda a confiança depositada em Deus (1Jo 5.14-15); certeza
dos propósitos de Deus comunicados a nós pelo Seu Espírito e Palavra (Rm 8.16; Ef 6.18; Jd 20).

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MARCOS 14 44

E com ele chegou uma multidão armada Jesus perante o Sinédrio


de espadas e cassetetes, vinda da parte (Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)
dos chefes dos sacerdotes, mestres da lei 53 Levaram Jesus ao sumo sacerdote; e
e líderes religiosos.17 então se reuniram todos os chefes dos
44 Ora, o traidor tinha combinado um sacerdotes, os líderes religiosos e os mes-
sinal com eles: “Aquele a quem eu saudar tres da lei.22
com um beijo, é Ele: prendei-o e levai-o 54 Pedro o seguiu de longe até o pátio do
sob forte segurança”. sumo sacerdote. E permaneceu assenta-
45 Então, assim que chegou, dirigiu-se do entre os criados, aquecendo-se junto
imediatamente para Jesus e o saudou: ao fogo.
“Rabbi!” E o beijou.18 55 Os chefes dos sacerdotes e todo o Siné-
46 Em seguida, os homens agarraram drio estavam buscando denúncias contra
Jesus e o prenderam. Jesus, todavia não conseguiam encontrar
47 Nesse momento, um dos que estavam nenhuma.
bem próximos puxou da espada e feriu o 56 Várias pessoas também testemunha-
servo do sumo sacerdote, decepando-lhe ram falsamente contra Ele, contudo,
a orelha.19 suas declarações não se mostraram co-
48 Exclamou-lhes Jesus: “Acaso estou Eu erentes.23
liderando alguma rebelião, para virdes 57 Então, outros se levantaram para teste-
me prender com espadas e cassetetes? munhar inverdades contra Ele:
49 Pois diariamente tenho estado con- 58 Nós o ouvimos exclamar: “Eu des-
vosco no templo, vos ensinando, e não truirei este templo construído por mãos
me prendestes. Contudo, é para que se humanas e em três dias edificarei outro,
cumpram as Escrituras”. não erguido por mãos de homens”.
50 Logo em seguida, todos fugiram e o 59 Entretanto, nem mesmo quanto a
abandonaram.20 essa acusação o testemunho deles era
51 Certo jovem, vestindo apenas um congruente.
lençol de linho, estava seguindo Jesus, 60 Então o sumo sacerdote levantou-se
quando também tentaram prendê-lo. diante de todos e interrogou a Jesus:
52 Mas ele, largando o lençol, fugiu des- “Nada contestas à denúncia que estes
nudo.21 levantam contra ti?”

177 Um bando (ou turba) formado de guardas do templo, com ordens expressas do Tribunal Supremo dos Judeus (Sinédrio),
para prender a Jesus e manter a ordem pública; os escravos a serviço do sumo sacerdote, e mais alguns soldados romanos,
como nos informa João (18.3).
18 A expressão hebraica Rabbi, que significa “Meu Mestre”, juntamente com um ou mais beijos em cada lado do rosto era um
sinal de respeito e gratidão manifestados pelos discípulos judaicos em relação aos seus mestres (Lc 22.47).
19 João nos revela que era Pedro quem estava junto a Jesus e que ele decepou a orelha do servo, que se chamava Malco (Jo
18.10; Lc 22.51). Jesus protesta pela maneira como vieram prendê-lo, uma vez que apenas os revolucionários e criminosos eram
agredidos e presos com aquela brutalidade. Aos mestres era destinado um tratamento menos violento e mais respeitoso.
20 O ministério de Jesus em Jerusalém foi bem mais amplo do que Marcos apresenta. Entretanto, João nos oferece uma visão
mais completa e detalhada sobre a atividade ministerial do Senhor, na Judéia. Jesus faz uma referência a partes das Escrituras
que revelam os acontecimentos da sua missão e sacrifício (Is 53 com Zc 13.7).
21 Historiadores e outros estudiosos bíblicos crêem que este jovem de família rica seja o próprio autor deste evangelho, por-
tanto, João Marcos (At 12.12,25; 13.13; 15.37-39; Cl 4.10; 2Tm 4.11).Em geral, a roupa exterior era de lã, porém, Marcos não teve
tempo para vestir-se completamente.
22 O sumo sacerdote chamava-se Caifás e permaneceu nesse ofício desde o ano 18 até 36 d.C. O Supremo Tribunal Judaico
(Sinédrio), na época do NT, era composto por 71 membros, divididos em três categorias: os chefes (principais) dos sacerdotes,
líderes religiosos (anciãos) e os mestres da lei (escribas). Sob jurisdição do império romano, o Sinédrio tinha grande poder.
Entretanto, lhes era vedado o direito de decretar a pena de morte (Jo 18.31 com Mt 27.2).
23 No processo jurídico dos judeus da época, as testemunhas agiam como promotores de acusação. De acordo com a lei (Nm
25.30; Dt 17.6; 19.15), uma pessoa não podia ser jamais condenada à pena de morte a não ser mediante dois ou mais testemu-
nhos. Contudo, esses depoimentos precisavam ter total coerência entre si, sem contradições. O testemunho contra Jesus tinha
base falsa, apoiado em uma compreensão distorcida da profecia de Jesus em 15.29 e Jo 2.19.

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45 MARCOS 14, 15

61 Ele, contudo, permaneceu em silêncio 68 Todavia, ele o negou, assegurando:


e nada replicou.
p Mas o sumo sacerdote “Não o conheço, nem ao menos sei do
voltou a indagá-lo: “És tu o Messias, o que estás falando”. Então foi para fora,
Filho do Deus Bendito?”24 em direção ao pórtico. E um galo can-
62 Jesus asseverou: “Eu Sou! E vereis o tou.
Filho do homem assentado à direita do 69 Quando a criada o viu lá, começou no-
Poderoso e chegando com as nuvens do vamente a falar às pessoas que estavam
céu”.25 em derredor: “Este é um deles!”
63 Diante disto, o sumo sacerdote rasgou 70 Porém, uma vez mais, ele o negou. E,
suas vestes e esbravejou: “Por que ainda pouco tempo mais tarde, os que estavam
necessitamos de outras testemunhas?” sentados ali perto identificaram Pedro:
64 “Ouvistes a blasfêmia! Que vos pare- “Com toda a certeza, tu és um deles, pois
ce?” E todos o julgaram merecedor da és galileu também!”
pena de morte.26 71 Pedro começou a amaldiçoar-se e a
65 E assim alguns começaram a cuspir jurar: “Não conheço esse homem de
nele; encapuzaram-no, vendando seus quem falais!”29
olhos e, esmurrando-o, exclamavam: 72 E, em seguida, o galo cantou pela se-
“Profetiza!” E os guardas o levaram de- gunda vez. Então Pedro se lembrou da
baixo de bofetadas.27 palavra que Jesus lhe dissera: “Antes que
duas vezes cante o galo, tu me negarás
Pedro nega a Jesus três vezes”. E, percebendo o que fizera,
(Mt 26.69-75; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27) caiu em profundo pranto.
66 Continuando Pedro na parte de baixo,
no pátio, uma das criadas do sumo sacer- Jesus impressiona Pilatos
dote passou por ali.28 (Mt 27.1-2.11-26; Lc 23.1-7.13-25; Jo 18.28-19.16)
67 E, vendo a Pedro se aquecendo, fixou
bem seus olhos nele e afirmou: “Tu tam-
bém estavas com Jesus, o Nazareno!”
15 Ao raiar do dia, entraram em as-
sembléia os chefes dos sacerdotes
com os líderes religiosos, os mestres da lei

24 O sumo sacerdote usa a palavra “Messias” (Cristo, em grego) para fazer com que Jesus se autocondenasse, uma vez que a
maioria dos judeus não acreditava que o Messias seria divino e Jesus reivindicava sua plena divindade (v.62). “Bendito”, era uma
das maneiras de os judeus se referirem à excelsa pessoa de Deus, sem precisar mencionar o seu nome.
25 O Filho do homem, que estava sendo julgado e condenado por homens ímpios e pecadores, voltará um dia, após Seu
reinado à destra de Deus, para julgar definitivamente todos os incrédulos (Dn 7.13 com Sl 110.1 e At 2.34-36).
26 Um antigo costume dos reis e profetas judeus era rasgar as vestes, numa demonstração dramática de horror, escândalo ou
ultraje (Gn 37.29; 2Rs 18.37; 19.1). O Sinédrio tinha poder para condenar alguém à pena de morte por apedrejamento(At 7.59),
em especial nos casos de cunho religioso. Todavia, ainda assim, precisava de um “referendo” (palavra latina para “autorização”)
das autoridades romanas. O crime de blasfêmia incluía não somente a difamação do nome precioso de Deus (Lv 24.10-16), mas
também qualquer ofensa à sua majestade ou poder (Mc 2.7; 3.28,29; Jo 5.18; 10.33). Ao ouvir a declaração de Jesus, a multidão
presente foi incitada por Caifás para condená-lo à morte. Para Caifás, o fato de Jesus afirmar que era o Messias prometido e que
possuía os mesmos atributos de Deus eram razões mais que suficientes para sujeitar Jesus à penalidade estipulada na lei de
Moisés: a morte por apedrejamento (Lv 24.16).
27 Uma antiga interpretação judaica dos textos de Isaías (11.2-4) dizia que o Messias seria capaz de conhecer as pessoas e
julgá-las ainda que de olhos vendados, apenas pelo olfato. Por isso a zombaria de alguns mais exacerbados (Nm 12.14; Dt 25.9;
Jó 30.10; Is 50.6).
28 Enquanto Jesus estava sendo torturado num dos cômodos superiores da casa de Caifás, no pátio, na parte baixa da casa,
Pedro procurava não se afastar demais do seu amigo e Messias. A história da negação de Pedro é contada em todos os evange-
lhos para evidenciar a graça perdoadora e restauradora do Senhor desprezado.
29 Os galileus, como Jesus, eram facilmente identificáveis pelo dialeto marcante que falavam (aramaico). Sua presença no átrio
(alpendre) entre os cidadãos de Judá era mais uma evidência de que era um seguidor de Jesus de Nazaré. Essa parte do texto de
Marcos foi fornecida diretamente pelo próprio Pedro. As expressões gregas: anathematizein kai amnynai, não sugerem palavras
profanas, mas sim que ele teria invocado uma maldição ç divina sobre si mesmo, caso estivesse mentindo, e retirando-se chorou
amargamente (em grego: kai epibalon eklaien. É importante lembrar que essa maldição foi quebrada pelo próprio Jesus em um
dos seus aparecimentos após a ressurreição (Jo 21.15-19).

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MARCOS 15 46

e todo o Supremo Tribunal dos Judeus e chamais o rei dos judeus?”


tomaram uma decisão: amarraram Jesus, 13 Mas eles gritavam: “Crucifica-o!”
levaram-no e o entregaram
g a Pilatos.1 14 “Por quê? Que mal fez este homem?”
2 Então Pilatos o interrogou: “És tu o rei Inquiriu Pilatos. Todavia, eles clamavam
dos judeus?” Ao que Jesus lhe replicou: ainda mais decididos: “Crucifica-o!”
“Tu o dizes”. 15 Então, Pilatos, para satisfazer a todo
3 E os chefes dos sacerdotes passaram a aquele povo reunido, soltou-lhes Barra-
levantar várias outras acusações contra bás; ordenou que Jesus fosse açoitado e
Ele. depois o sentenciou à crucificação.
4 Por isso Pilatos indagou uma vez mais:
“Nada respondes? Vê quantas acusações Jesus é humilhado pelos soldados
te fazem!” (Mt 27.27-31)
5 Mas Jesus não respondeu uma só 16 Em seguida, os soldados agarraram
palavra, a ponto de Pilatos ficar muito Jesus e o conduziram para dentro do
impressionado.2 palácio, isto é, ao Pretório, e agruparam
6 Ora, por ocasião da festa, fazia parte toda a tropa.
da tradição libertar um prisioneiro por 17 Vestiram-no com um manto de cor
aclamação popular. púrpura real, depois teceram uma co-
7 Um homem conhecido por Barrabás roa de espinhos e a cravaram sobre sua
estava na prisão junto a rebeldes que cabeça.
ç
haviam cometido assassinato durante 18 E começaram a saudá-lo: “Salve! Ó rei
uma rebelião.3 dos judeus!”4
8 Concentrando-se a multidão, clama- 19 Espancavam-lhe a cabeça com uma
ram a Pilatos que lhes outorgasse o direi- vara e cuspiam sobre ele. Ajoelhavam-se
to de costume nessas ocasiões. e lhe rendiam adoração.
9 E Pilatos lhes ofereceu: “Quereis que eu 20 Depois de haverem zombado dele,
vos liberte o rei dos judeus?” despiram-lhe o manto de cor púrpura
10 Porquanto ele bem sabia que fora por e o vestiram com suas próprias roupas.
inveja que os chefes dos sacerdotes lhe Então o levaram para fora, a fim de cru-
haviam entregado Jesus. cificá-lo.
11 Então os chefes dos sacerdotes instiga-
ram a multidão a rogar a Pilatos que, ao O ato da crucificação
contrário, soltasse Barrabás. (Mt 27.32-44; Lc 23.26-43; Jo 19.16-27)
12 Contudo Pilatos lhes questionou: 21 E ocorreu que certo homem de Cirene,
“Assim sendo, que farei com este a quem chamado Simão, pai de Alexandre e de

1 A primeira reunião do Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) ocorreu informalmente durante a noite, envolvendo apenas
alguns integrantes pactuados com a idéia de eliminar Jesus. Logo ao amanhecer, quando começava o dia de trabalho de um
oficial romano, foi necessário formalizar, por escrito, a decisão de entregá-lo a Pilatos perante a maioria do Sinédrio reunido. Era
sexta-feira (da Paixão, como viria a ser conhecida até hoje) e o sumo sacerdote e alguns outros membros do Sinédrio resolveram
denunciar Jesus, a Pilatos, por traição e blasfêmia (Lc 23.1-14). Pilatos era o governador romano da Judéia (de 26 a.C. a 36 d.C.).
Sua residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Todos os anos, quando visitava Jerusalém, costumava hos-
pedar-se no suntuoso palácio construído por Herodes, o Grande, localizado próximo do Templo. Em uma das salas do palácio,
chamada Pretório, ocorreu o julgamento romano de Jesus sob a autoridade civil de Pilatos.
2 Conforme profetizado em Is 52.15 e Is 53.7.
3 Barrabás era membro dos zelotes, um grupo judaico revolucionário. Sob o governo dos prefeitos romanos, ações de insur-
gência e tumulto eram freqüentes, especialmente nos grandes ajuntamentos e festas nacionais como a Páscoa (Lc 13.1). Curio-
samente, alguns manuscritos de Mt 27.16 revelam que o outro nome de Barrabás era Jesus, o mesmo nome humano do Senhor.
Marcos fala sobre a insurreição liderada por Barrabás como sendo um fato histórico, bem conhecido dos judeus da época.
4 Os oficiais romanos vestiam uma capa, cuja cor, vermelho vivo, representava a realeza e o poder do império romano sobre
o mundo. Para zombar da majestade de Jesus, o vestiram com uma velha capa e sobre sua cabeça forçaram uma coroa feita
de uma planta (em grego significa “abrolhos”) venenosa e espinhosa comum na Palestina. E para completar a humilhação lhe
dirigiam uma paródia da tradicional saudação de reverência a César: “Salve, César!”

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47 MARCOS 15

Rufo, passava por ali, vindo do campo. 31 Da mesma maneira os chefes dos sa-
Eles o forçaram a carregar a cruz.5 cerdotes e os mestres da lei zombavam
22 Levaram Jesus para um lugar deno- dele entre si, exclamando: “Salvou a tan-
minado Gólgota, que significa local da tos, mas a si mesmo não pode salvar-se!
Caveira. 32 Que o Cristo, o Rei de Israel, desça
23 E lhe deram vinho misturado com agora da cruz, para que o vejamos e
mirra, mas Ele não o bebeu.6 creiamos!” E, de igual modo, os que com
24 Então o crucificaram. Dividindo suas Ele foram crucificados o insultavam.9
vestes, jogaram sortes para saber com
que parte cada um iria ficar. Jesus brada em sua morte
25 Eram nove horas da manhã quando o (Mt 27.45-56; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30)
crucificaram.7 33 E aconteceu que toda a terra foi cober-
26 E assim ficou escrito na acusação con- ta pelas trevas, desde o meio-dia até às
tra Ele: O REI DOS JUDEUS. três horas da tarde.10
27 Junto a Jesus crucificaram dois cri- 34 Então, por volta das três horas da tar-
minosos, um à sua direita e outro à sua de, Jesus bradou em alta voz: “Elohi, Elo-
esquerda.8 hi! Lemá sabachtháni?”- que traduzido,
28 Cumpriu-se assim a Escritura que diz: quer dizer: “Meu Deus, meu Deus! Por
“Ele foi contado entre os malfeitores”. que me abandonaste?”11
29 Os transeuntes lançavam-lhe impro- 35 Alguns dos que presenciavam o que
périos, gesticulando a cabeça e excla- estava ocorrendo, ouvindo isso, comen-
mando: “Ah! Tu que destróis o templo e, tavam: “Vede, Ele clama por Elias!”12
em três dias, o reconstróis! 36 Então, um deles correu e ensopou uma
30 Agora desce da cruz e salva-te a ti mes- esponja em vinagre, colocou-a na ponta
mo!” de uma vara e a estendeu até Jesus para

5 Este Simão foi o pai do mesmo Rufo de Rm 16.13. Era natural de Cirene, importante cidade da Líbia, na África do norte (At
13.1), onde vivia uma grande população judaica. Era conhecido como “Níger” (negro).
6 Era um costume jjudaico amenizar a dor do martírio, oferecendo ao crucificado uma mistura de entorpecentes
p com vinho
(Pv 31.6). A mirra é uma especiaria extraída de plantas nativas dos desertos da Arábia e de partes da África (Gn 37.25). Jesus,
entretanto, preferiu suportar todo o sofrimento completamente lúcido, pois ninguém estava lhe tirando a vida. Em submissão
voluntária ao Pai, Ele a estava ofertando como holocausto pela remissão do pecado de todos aqueles que crêem no seu sacrifício
vicário (Zc 13.1; Mc 10.45; Rm 5.8).
7 Em algumas versões da Bíblia aparece a forma judaica usada na época para marcar as horas (traduzido do grego como:
“a hora terceira”), e que corresponde às nove horas da manhã (Lc 23.44; Jo 19.14). João, por sua vez, usa a maneira romana
(“a hora sexta” ou próximo ao “meio-dia”). Conforme o costume, escrevia-se a acusação numa tábua de madeira, que seguia à
frente do sentenciado até o local da execução, quando era então pregada na cruz logo acima da sua cabeça. Marcos sumariza a
inscrição, mas João percebe na frase acusatória um relevante dado teológico e profético (Jo 19.19-22).
8 Algumas versões trazem a expressão “ladrões”, todavia o termo grego: evoca o sentido de que aqueles homens
eram culpados por crimes de alta traição (insurgência), contra o império romano e por banditismo. O crime de latrocínio não era
considerado um delito capital, a não ser quando seguido de morte.
9 Sem perceber, o próprio sumo sacerdote e os principais teólogos da época, estavam afirmando com clareza o poder e a
missão do Cristo (o Messias) sobre todo o Israel, ou seja, todo o povo de Deus (Gl 6.16). A verdadeira fé salvadora não se apóia
em sinais e maravilhas visíveis, mas na firme convicção criada no coração de cada pessoa pelo próprio Espírito Santo (Jo 20.29).
E este é um milagre envolto em grande mistério, graça e maravilha.
10 Algumas versões preservam a maneira grego-judaica de contar as horas: “da hora sexta até a hora nona”.
11 Jesus falou no seu dialeto de família, uma mistura de aramaico com hebraico. Suas palavras, traduzidas aqui por Marcos,
continham as expressões proféticas do Salmo 22.1. Ao se identificar com nossos pecados e assumir os erros de cada ser humano
(2Co 5.21; Gl 3.13), Jesus, por um momento, teve de sentir a dor da separação do Pai. Enquanto o sacrifício vicário ia sendo
aceito por Deus, a humanidade era salva e restaurada. A separação do Pai é o maior sofrimento destinado àqueles que preferem
viver em pecado. Deus não pode ter qualquer comunhão com o pecado (o mal), embora ame o pecador e lhe ofereça a salvação
pela graça da fé em Cristo, Seu Filho.
12 Algumas pessoas compreenderam mal as palavras de Jesus e pensaram tê-lo ouvido dizer: “Eli, Eli!”, ou seja, “Elias, Elias”.
Os judeus, em momentos de grande necessidade, costumavam clamar por “Elias”, pois se cria que Elias, por haver sido arrebata-
do à presença de Deus, viria em socorro dos justos e inocentes, sempre que estes passassem por grandes aflições.

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MARCOS 15, 16 48

que sorvesse. E explicou: “Deixai! Veja- 43 E José de Arimatéia, membro honrado


mos se Elias vem para tirá-lo daí”. do Supremo Tribunal dos Judeus, que
37 Todavia, Jesus, com um forte brado, também aguardava o Reino de Deus,
expirou.13 dirigiu-se corajosamente a Pilatos e so-
38 Então, o véu do Lugar Santíssimo ras- licitou o corpo de Jesus.18
gou-se em duas partes, de alto a baixo.14 44 Pilatos recebeu com espanto a notícia
39 E, quando o centurião, que estava bem de que Jesus já havia falecido. E, chaman-
em frente de Jesus, ouviu o seu brado e do o centurião, perguntou-lhe se fazia
viu a maneira como expirou, exclamou: muito tempo que morrera.
“Verdadeiramente, este homem era o 45 Sendo informado pelo centurião, con-
Filho de Deus!”15 sentiu em ceder o corpo a José.
40 Algumas mulheres acompanhavam 46 Então José comprou um lençol de
tudo de longe. Entre elas estavam Maria linho, desceu o corpo da cruz, en-
Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tia- volveu-o no lençol e o colocou num
go, o mais jovem, e de José. sepulcro cavado na rocha. Depois, fez
41 Na Galiléia elas tinham seguido e ser- rolar uma pedra sobre a entrada do
vido a Jesus. Muitas outras mulheres ha- sepulcro.19
viam subido com Ele para Jerusalém e, 47 Ora, Maria Madalena e Maria, mãe de
de igual modo, estavam ali presentes.16 José, viram onde Ele fora depositado.

O sepultamento de Jesus Jesus é ressuscitado


(Mt 27.57-61; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42) (Mt 28.1-10; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9)
42Este era o Dia da Preparação, isto é, a
véspera do sábado.17 16 Ao encerrar-se o sábado, Maria
Madalena, Salomé e Maria, mãe

13 João nos revela que o grito de triunfo de Jesus foi: “assim está”, que em grego significa: “consumado” (Jo 19.30). O brado
de Jesus é mais uma demonstração de que Ele entregou sua vida e não foi consumido pela morte. Os crucificados passavam, em
geral, por longos períodos de intensa agonia, exaustão e perda dos sentidos até que a morte os vencesse.
14 O véu do santuário ou do Lugar Santíssimo (Hb 6.19; 9.3; 10.20) era a cortina que separava o Lugar Santo do Santo dos
Santos (Êx 26.31-33). O partir desse véu tem profundo significado para toda a humanidade. Cristo entra e abre as portas do céu,
a fim de que todo cristão sincero tenha acesso à presença de Deus Pai (Hb 9.8-10,12; 10.19,20). Os sacerdotes estavam no
templo para a liturgia das tardes.
15 Um centurião era um militar romano que respondia pelo comando de pelo menos cem soldados. O original grego indica que
este homem reconheceu Jesus como “O” Filho de Deus, e não apenas “um” filho de Deus (Mt 27.54; Lc 23.47). Seu testemunho
de espanto diante do poder de Jesus passou para a história da Igreja de muitas maneiras.
16 Por causa da compaixão e da dignidade com que Jesus tratava as mulheres (marginalizadas pela cultura do seu povo e
época), muitas foram salvas, tornaram-se discípulas e seguiram o Senhor. Em 16.9 e Lc 8.2, somos informados de que Jesus
expulsou sete demônios de Maria Madalena. Havia também Maria, mãe de Tiago, o mais jovem, e de José (de quem não se sabe
mais nada). Salomé era mãe de João e Tiago, mulher de Zebedeu (Mt 27.56).
177 Jesus morreu na sexta-feira (dia em que os judeus se preparam para o sábado), às três horas da tarde (v.34). Restavam
apenas três horas para o início do Shabbãth, sábado judaico, no qual todo trabalho era proibido. Por isso a urgência em retirar o
corpo da cruz e prepará-lo para o sepultamento. Mais uma forte alusão à urgência com que os judeus tiveram de comer a Páscoa
antes de saírem para a terra prometida, e a urgência que temos de nos prepararmos para a segunda vinda do Senhor e do Grande
Dia (Mt 22.1-14; 24.32-44; 25.1-13).
18 Muitos historiadores e teólogos afirmam que as informações sobre o julgamento forjado pelo Sinédrio contra Jesus chega-
ram a Marcos por intermédio de José. Um justo e eminente juiz, da cidade de Arimatéia (Ramataim, Sm 1.1), que ficava cerca de
30 km a noroeste de Jerusalém. José era também um discípulo de Jesus, que manteve sua fé em sigilo até este ato de grande
coragem (Mt 27.57; Lc 23.52). Os corpos dos crucificados por crimes de traição não eram liberados para os ritos judaicos de
sepultamento nem mesmo aos familiares mais próximos.
19 José ofereceu o próprio túmulo da família, nunca antes usado, cravado na rocha (Mt 27.60). Esse túmulo ficava num jardim,
próximo ao local da crucificação (Jo 19.41). No primeiro século esse lugar se transformou-se num cemitério, onde hoje está
situada a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. O sepulcro era fechado por uma grande pedra em forma de disco que girava
sobre um sulco e, no caso de Jesus, lacrada com o selo imperial romano.

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49 MARCOS 16

de Tiago, compraram especiarias aromá- do primeiro dia da semana, apareceu


ticas para ungir o corpo de Jesus.1 primeiramente a Maria Madalena, de
2 Ao raiar do primeiro dia da semana, quem havia expulsado sete demônios.6
elas caminharam até o sepulcro. 10 Então, ela foi e comunicou aos que
3 E questionavam umas às outras: “Quem com Ele tinham estado. Eles, porém,
poderá remover para nós a grande pedra estavam desolados e em prantos.
que fecha a entrada do sepulcro?”2 11 Quando receberam a notícia de que
4 Contudo, ao se aproximarem do local, Jesus estava vivo e fora visto por ela, não
viram que aquela enorme pedra, havia conseguiram acreditar.
sido removida da entrada.
5 E, entrando no sepulcro, viram um jo- Jesus aparece a outros dois discípulos
vem vestido de túnica branca, assentado (Lc 24.13-35)
à direita, e ficaram muito assustadas.3 12 Depois Jesus apareceu, em uma outra
6 “Não vos amedronteis”, disse ele. “Vós forma, a outros dois seguidores que esta-
buscais a Jesus, o Nazareno, que morreu vam a caminho do interior.7
na cruz. Pois Ele foi ressuscitado! Não 13 Então, eles retornaram e informaram
está mais aqui. Vede o lugar onde o ha- tudo isso aos demais. Contudo, também
viam depositado.4 no depoimento deles não creram.
7 Agora ide, dizei aos discípulos dele e a
Pedro que Ele está seguindo adiante de Jesus aparece e ordena aos discípulos
vós para a Galiléia. Lá vós o vereis, assim 14 Mais tarde Jesus apareceu aos Onze,
como Ele vos predisse”.5 enquanto estavam reclinados, ceando.
8 Apavoradas e trêmulas, as mulheres Repreendeu-lhes a falta de fé e a dureza
saíram e fugiram do sepulcro. E não in- dos corações, porque não acreditaram
formaram nada a ninguém, pois estavam no testemunho daqueles que o tinham
assombradas e com medo. visto depois de ressurreto.
15 E lhes ordenou: “Enquanto estiverdes
Jesus aparece primeiro a Madalena indo pelo mundo inteiro proclamai o
(Jo 20.11-18) Evangelho a toda criatura.
9 Quando Jesus ressuscitou, ao alvorecer 16 Aquele que crer e for batizado será

1 Os judeus não tinham o costume de embalsamar (como aparece em algumas versões) os corpos de seus mortos. Logo após as
18 horas, ao encerrar o Shabbãth (período do sábado judaico), as mulheres foram comprar especiarias para ungir o corpo de Jesus
como mais um ato de devoção, amor e luto. Entretanto, não havia entre elas qualquer expectativa da ressurreição de Jesus.
2 Rolar aquele tipo de pedra em forma de disco para fechar a entrada do sepulcro era uma ação relativamente fácil. Todavia,
depois que a grande pedra era encaixada no sulco cortado na rocha maciça, em frente da entrada, ficava muito difícil e pesado
qualquer deslocamento, ainda que mínimo.
3 Os sepulcros dos nobres da época eram espaçosos. Dentro da grande entrada, na frente do sepulcro, havia uma antecâmara
e, no fundo desta, uma abertura baixa e retangular que conduzia à câmara da sepultura. Mateus nos informa que um anjo, com a
aparência de um jovem humano, estava postado junto ao túmulo vazio do Senhor (Mt 28.2-5).
4 Nos originais gregos o verbo está na voz passiva “foi ressuscitado”, uma ênfase ao poder soberano de Deus Pai (At 3.15; Rm
4.24). O ponto alto da teologia de Marcos é a ressurreição de Jesus, sem a qual todo o trabalho e morte de Jesus teriam sido
inúteis à salvação de todos que nele crêem. Por causa da ressurreição, Jesus é declarado Filho de Deus (Rm 1.4).
5 Como já havia revelado, Jesus rumou para a Galiléia, com o propósito de manifestar-se o mais breve possível a muitos dos Seus
discípulos (14.28; Mt 28.9,16; 1Co 15.6). Jesus sabia que, apesar dos erros, Pedro o amava com sinceridade. E, por isso, estava
desanimado e necessitado de uma cura interior que somente o Senhor, com seu amor e perdão, poderia realizar (Jo 21.15-19).
6 Jesus apareceu em primeiro lugar a Maria Madalena que, juntamente com outras discípulas, foi demonstrar sua devoção e
consagrá-lo a Deus, conforme os rituais fúnebres judaicos, logo ao romper da manhã do domingo (Jo 20.11-18). Depois Jesus apa-
receu às demais mulheres que o seguiam (Mt 28.8-10); em seguida a Pedro (Lc 24.34; 1Co 15.5); aos dois discípulos no caminho de
Emaús (Lc 24.13-32); aos discípulos reunidos, mas sem Tomé (Lc 24.36-43; Jo 20.19-25); no domingo seguinte, com a presença de
Tomé (Jo 20.26-31); a sete discípulos, no mar da Galiléia (Jo 21); aos apóstolos e a mais de 500 seguidores (Mt 28.16-20; 1Co 15.6);
a Tiago, irmão de Jesus (1Co 15.7); e antes da ascensão aos céus, a um grupo de seguidores e discípulos (Lc 24.44-53; At 1.3-12).
7 Jesus assumiu a forma humana de um simples peregrino da época, mas o conteúdo de suas palavras foi revelando Sua pes-
soa e reanimando Seus desconsolados discípulos, no caminho de Emaús (Lc 24.16). Também a Maria Madalena, sua discípula,
surgiu como um humilde jardineiro, mas, ao falar, revelou-se o Cristo amado e poderoso (Jo 20.11-18).

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MARCOS 16 50

salvo. Todavia, quem não crer será con- Jesus sobe à direita do Pai
denado! (Lc 24.50-53; At 1.6-11)
17 E estes sinais acompanharão aos que 19 Concluindo, depois de lhes ter orien-
crerem: em meu nome expulsarão de- tado, o Senhor Jesus foi elevado aos céus
mônios; em línguas novas falarão.8 e assentou-se à direita de Deus.10
18 Pegarão serpentes com as mãos; e, se 20 Então, os discípulos saíram e prega-
algo mortífero beberem, de modo ne- ram por toda parte; e o Senhor coopera-
nhum a eles fará mal, sobre os enfermos va com eles, confirmando-lhes a Palavra
imporão as mãos e eles serão curados!”9 com os sinais que a acompanhavam.

8 Novas línguas e outros sinais chegaram para marcar uma nova época histórica. O tempo da Igreja de Cristo e a nova vida
dos salvos (2Co 5.17).
9 Jesus volta, na forma do Espírito Santo, para habitar com poder no corpo dos seus discípulos e apóstolos. E realiza muitas
maravilhas por meio deles ao estabelecer Sua Igreja em muitas partes do mundo, até os confins da terra (At 1.8; At 2.42-43;
At 28.3-6).
10 Como afirmou Calvino: “Assentar-se à direita do Pai, não se refere à posição do corpo físico de Jesus em algum lugar
específico do céu, mas sim à sua posição de majestade e poder como imperador do Universo ao lado de Deus, Seu Pai”, em
conformidade com o Sl 110.1 e a palavra profética de Jesus Cristo em Mc 14.62.

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INTRODUÇÃO
O EVANGELHO SEGUNDO

LUCAS
Autoria
Desde os primeiros cânones das Sagradas Escrituras, como o Cânon muratório, o terceiro
evangelho do Novo Testamento é reconhecido como de autoria de Lucas, o médico de homens e de
almas; o médico amado, como ficou conhecido (Cl 4.14). Irineu, um dos pais da Igreja, já citava o
Evangelho Segundo Lucas em suas obras, por volta do ano 180 d.C.
Lucas, grande amigo e companheiro de ministério do apóstolo Paulo (2Tm 4.11; Fm 24), é o único
autor gentio do Novo Testamento. Embora não tenha sido testemunha ocular da vida de Jesus Cristo,
andou com Deus, cheio do Espírito Santo, o qual o inspirou a escrever este Evangelho e o livro de
Atos e a servir como missionário até sua morte.
Lucas nos informa que seu trabalho foi beneficiado pela obra de outros (Lc 1.1), que ele consultou
várias testemunhas oculares (Lc 1.2), e que selecionou e dispôs as informações com extremo cui-
dado, sob a direção do Espírito Santo (Lc 1.3), a fim de instruir Teófilo quanto à fidedignidade da fé
em Jesus Cristo (Lc 1.4).

Propósitos
O Evangelho Segundo Lucas é especificamente endereçado a Teófilo, cujo nome significa “aquele
que ama a Deus”. Entretanto, o Espírito Santo ampliou em muito o alcance dessa obra, destinando-a
a todos aqueles que amam a Deus e desejam saber a verdade sobre Jesus Cristo, Seu Filho, nosso
Salvador. Lucas trata Teófilo por “excelentíssimo” o que reforça a idéia de que esse livro tinha como
principal objetivo um leitor em especial: Teófilo, um alto oficial do império romano que, segundo
historiadores renomados, desejoso de conhecer a verdade, patrocinou Lucas nesse projeto e inves-
tigação acurada de todos os fatos concernentes à vida e obra de Jesus Cristo; cujo ensino já invadia
Roma, convertendo multidões. Na mesma época surgiam vários relatórios falsos sobre Jesus e,
tanto Teófilo, quanto o próprio discípulo Lucas, tinham grande interesse em produzir um documento
histórico claro e verdadeiro sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré, o Cristo.
Embora particularmente destinado a Teófilo, o Evangelho Segundo Lucas se inclina para todos
os gentios. O autor revela interesse especial por detalhes médicos (Lc 4.38; 7.15; 8.55; 14.2; 18.35;
22.50). Há grande ênfase nos acontecimentos relacionados ao nascimento de Cristo. Curiosamente,
somente Lucas registra a anunciação a Zacarias e Maria, os cânticos de Isabel e Maria, o nascimento
e a infância de João Batista, o nascimento de Jesus, a visita dos pastores, a circuncisão de Jesus e
Sua apresentação no Templo, detalhes da infância de Jesus e até alguns dos pensamentos íntimos
de Maria, mãe de Jesus. Lucas demonstra grande interesse por fatos que se deram com indivíduos:
os relatos de Zaqueu
q ((Lc 19.1-10);
); do ladrão qque se arrepende
p ((23.39-43),), e nas pparábolas do filho
perdulário (15.11-32) e do publicano arrependido (18.9-14). É Lucas quem nos relata a história
sobre o bom samaritano (10.29-37) e do ex-leproso agradecido (17.11-19). Lucas ainda dá especial
atenção à disciplina espiritual da oração: falar com Deus (Lc 3.21; 5.16; 6.12; 9.18, 28-29; 10.21; 11.1;
22.39-46; 23.34, 46). O Evangelho Segundo Lucas dá grande destaque às mulheres, algo incomum
na época (Veja os capítulos: 1, 2, 7.11-17, 36-50; 8.1-3; 10.38-42, 21.1-4; 23.27-31, 49). O livro
apresenta quatro belos cânticos, conhecidos como: o Magnificatt de Maria (Lc1.46-55), o Benedictus
de Zacarias (Lc1.67-79), o Gloria in Excelsis Deo dos anjos (Lc 2.14) e o Nunc Dimitris de Simeão
(2.29-32). Lucas ainda reflete sobre o contraste da pobreza em relação à riqueza (1.52-53; 4.16-22;
6.20, 24-25; 12.13-21; 14.12-13; 16.19-31).
Este é o Evangelho do misericordioso Filho de Deus que oferece Salvação a toda humanidade
(19.10).

Data da primeira publicaçãoç


Considerando que os últimos capítulos do livro de Atos mostram Paulo em Roma, e que o Evan-
gelho Segundo Lucas foi publicado antes de Atos (At 1.1), podemos concluir que este Evangelho foi
escrito entre os anos 59 e 64 d.C., em Cesaréia, durante os dois anos em que Paulo esteve preso ali
por pregar a Palavra de Deus (At 24.27).

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Lucas tinha completo domínio da língua grega da época. Seu vocabulário é amplo e rico, e seu
estilo, algumas vezes se aproxima do grego clássico, como ocorre logo no prefácio (Lc 1.1-40),
ao passo que em outras ocasiões assume um tom bem semítico (1.5 – 2.52), assemelhando-se
à Septuaginta (tradução do Antigo Testamento para a língua grega). Seu vocabulário é sensível à
cultura e geografia de cada lugar sobre o qual narra fatos passados. Por exemplo, quando Lucas se
refere a Pedro num contexto judaico, emprega uma linguagem mais semítica que nos momentos em
que descreve Paulo, num contexto helenístico (grego).

Esboço geral de Lucas


1. Prefácio e objetivos da obra (1.1-4)
2. O Filho de Deus e a humanidade (1.5 – 4.13)
A. O nascimento de João Batista (1.5-25)
B. O nascimento do Filho do homem (1.26-56)
C. O advento de João Batista (1.57-80)
D. O advento do Filho de Deus (2.1-20)
E. Adoração ao bebê Jesus (2.21-38)
F. A infância de Jesus (2.39-52)
G. O batismo de Jesus (3.1-22)
H. A genealogia de Jesus (3.23-38)
I. A tentação do Filho de Deus (4.1-13)
3. O ministério do Filho de Deus (4.14 – 9.50)
A. O anúncio do Seu ministério (4.14-30)
B. A autoridade da Sua obra (4.31 – 6.11)
C. Sobre todos os demônios (4.31-37)
D. Sobre todas as doenças (4.38-44)
E. Sobre todos os discípulos (5.1-11)
F. Sobre toda a impureza (5.12-16)
G. Sobre todas as limitações (5.17-26)
H. Sobre todos os desprezados (5.27-39)
I. Sobre todas as deformidades (6.6-11)
4. Os colaboradores de Seu ministério (6.12-49)
A. A convocação dos discípulos (6.12-16)
B. O perfil dos discípulos (6.17-49)
5. As realizações do Seu ministério (7.1 – 9.50)
A. Ministração na doença (7.1-10)
B. Ministração na morte (7.11-17)
C. Ministração aos pecadores (7.36-50)
D. Ministração sustentada (8.1-3)
E. Ministração por parábolas (8.4-21)
F. Ministração nas tempestades (8.22-25)
G. Ministração sobre demônios (8.26-39)
H. Ministração no desespero (8.40-56)
I. Ministração pelos discípulos (9.1-9)
J. Ministração às necessidades (9.10-17)
K. Ministração de predições (9.18-50)
6. O Filho de Deus é rejeitado pelos homens (9.51 – 19.27)
A. Rejeição pelos samaritanos (9.51-56)
B. Rejeição das pessoas mundanas (9.57-62)
C. A comissão dos setenta e dois (10.1-24)
D. Rejeição de um teólogo (10.25-37)
E. Recepção em Betânia (10.38-42)
F. Ensino sobre a oração (11.1-13)
G. Rejeição por Israel (11.14-36)
H. Rejeição pelos fariseus e doutores (11.37-54)
I. Ensinos diante da rejeição (12.1 – 19.27)
J. Sobre a hipocrisia (12.1-12)
K. Sobre a avareza e cobiça (12.13-34)

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L. Sobre a fidelidade (12.35-48)
M. Sobre discórdias e sinais (12.49-59)
N. Sobre o arrependimento (13.1-9)
O. Sobre a falsidade (13.10-17)
P. Sobre o Reino de Deus (13.18-35)
7. Pregações para os corações endurecidos (14.1-6)
A. Sobre os que são convidados (14.12-14)
B. Sobre os que são indiferentes (14.15-24)
C. Sobre os que são indulgentes (14.25-35)
D. Sobre o amor de Deus (15.1-32)
E. Sobre a riqueza (16.1-31)
F. Sobre a necessidade do perdão (17.1-6)
G. Sobre a importância do serviço (17.7-10)
H. Sobre a gratidão (17.11-19)
I. Sobre o estabelecimento do Reino (17.20-37)
J. Sobre a oração (18.1-14)
K. Sobre o ingresso no Reino (18.15-30)
L. Sobre a Sua morte (18.31-34)
M. Sobre a Salvação (18.35 – 19.10)
N. Sobre fidelidade (19.11-27)
8. A Paixão do Filho de Deus (19.28 – 23.56)
A. Domingo (19.28-44)
B. Segunda-feira (19.45-48)
C. Terça-feira (20.1 – 21.38)
D. Autoridade contestada (20.1-8)
E. Autoridade revelada (20.9-18)
F. Autoridade resistida (20.19-40)
G. Autoridade demonstrada (20.41 – 21.4)
H. Discurso apocalíptico (21.5-38)
I. Quarta-feira (22.1-6)
J. Quinta-feira (22.7-53)
K. A Ceia do Senhor (22.7-38)
L. O jardim do Getsêmani (22.39-46)
M. Jesus é traído e preso (22.47-53)
N. Sexta-feira (22.54 – 23.55)
O. Jesus é negado por Pedro (22.54-62)
P. Jesus é ridicularizado (22.63-65)
Q. Jesus é levado ao Sinédrio (22.66-71)
R. Jesus é levado a Pilatos (23.1-5)
S. Jesus é levado a Herodes (23.6-12)
T. Jesus novamente diante de Pilatos (23.13-25)
U. A condenação e crucificação (23.26-49)
V. O sepultamento (23.50-55)
W. Sábado (23.56)
9. A vindicação do Filho de Deus diante dos homens (24.1-53)
A. Domingo: a vitória sobre a morte (24.1-12)
B. Jesus cumpre suas profecias (24.13-35)
C. O padrão da vida ressurreta (24.36-43)
D. O Senhor da Igreja (24.44-48)
E. O doador do Espírito Santo (24.49)
F. O Senhor exaltado eternamente (24.50-53).

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O EVANGELHO SEGUNDO

LUCAS
Prefácio e dedicatória a Teófilo Isabel era estéril, e ambos eram avançados

1 Tendo em vista que muitos já se


empenharam em elaborar uma nar-
rativa histórica sobre os eventos que se
em idade.
8 Em certa ocasião, quando seu grupo
estava de serviço, Zacarias ministrava
cumpriram entre nós, como sacerdote diante de Deus.
2 conforme nos transmitiram os que des- 9 Ele foi escolhido por sorteio, de acordo
de o princípio foram testemunhas ocula- com a tradição do sacerdócio, para ter
res dos fatos e servos dedicados à Palavra, acesso ao altar do Santo dos Santos e ali
3 eu, pessoalmente, investiguei tudo em oferecer a queima do incenso.4
minúcias, a partir da origem e decidi 10 E, chegando o momento da oferta do
escrever-te um relato ordenado, ó exce- incenso, uma multidão de pessoas estava
lentíssimo Teófilo.1 orando do lado de fora.
4 E isso, para que tenhas plena certeza das 11 Foi então que um anjo do Senhor
verdades que a ti foram ministradas. apareceu a Zacarias, à direita do altar do
incenso.
Gabriel anuncia o nascimento de João 12 Assim que Zacarias o viu, ficou per-
5 Na época de Herodes, rei da Judéia, plexo e um grande temor o dominou
havia um certo sacerdote chamado Zaca- completamente.
rias, que fazia parte do grupo sacerdotal 13 Entretanto, o anjo lhe assegurou: “Não
de Abias. E Isabel, sua esposa, também tenhas medo, Zacarias; eis que a tua
era uma das descendentes de Arão.2 súplica foi ouvida. Isabel, tua esposa, te
6 Os dois andavam em justiça aos olhos dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome
de Deus e obedeciam de forma irrepre- de João.5
ensível a todos os mandamentos e dou- 14 Ele te será motivo de grande felicidade
trinas do Senhor.3 e regozijo. E muitos se alegrarão com o
7 Contudo, eles não tinham filhos, porque seu nascimento.

1 A palavra grega anothen, traduzida por “origem”, quer dizer: “de cima”, “dos altos céus” (Jo 3.31; Tg 1.17), e se refere também
a uma análise criteriosa de “alto a baixo”, “do começo ao fim”. Teófilo, que em latim e grego significa “querido por Deus” ou
“aquele que ama a Deus”, foi um militar de alta patente do exército romano que, convertido ao Senhor, patrocinou a pesquisa e a
publicação deste relatório fiel sobre a vida e a obra de Jesus, livro que veio a tornar-se parte do cânon bíblico (livros inspirados por
Deus) do NT e cujo propósito, assim como João (Jo 20.31), é proporcionar a seus leitores plena certeza quanto aos tremendos
fatos relacionados à história de Cristo e à nossa salvação eterna.
2 Herodes, o Grande, reinou de 37 a 4 a.C. por toda a Samaria, Galiléia e grande parte da Peréia e da Celo-Síria (Mt 2.1). O tem-
po referido pelo texto situa-se entre os anos 7 e 6 a.C. Zacarias e Isabel eram ambos de ascendência sacerdotal, da linhagem de
Arão, grupo sacerdotal de Abias. Tradicionalmente, desde os tempos de Davi, os sacerdotes foram organizados em 24 grandes
divisões, sendo Abias um dos líderes das famílias dos sacerdotes (Ne 12.12; 1Cr 24.10).
3 Zacarias e Isabel não eram impecáveis, mas amavam ao Senhor de coração, e Deus observava essa “adoração interior” em
seus servos, a qual se refletia “exteriormente” no cumprimento irrepreensível dos preceitos religiosos (Fp 3.6) e, especialmente, no
relacionamento com as pessoas. Um grande contraste em relação às atitudes apenas “cosméticas” dos fariseus (Mt 5.20; 23.2-5).
4 Uma das grandes responsabilidades do sacerdote era manter o incenso queimando em louvor a Deus, no altar diante do
Santo dos Santos. Ele colocava ali incenso novo todas as manhãs, antes do sacrifício matinal, e, outra vez, logo após o sacrifício
vespertino (Êx 30.6-8). Era raro que um sacerdote tivesse o privilégio de ministrar ao Senhor no Santo dos Santos, pois eles eram
muitos e a determinação dessa tarefa se fazia por lançamento de sortes. Além disso, essa era uma experiência única na vida
de muitos sacerdotes (2Sm 6.7) que, por não estarem vivendo de acordo com a vontade de Deus, eram fulminados pela ira do
Senhor em pleno ato de ministração (Ne 11.1; Pv 16.33; Jo 1.7; At 1.26).
5 A expressão usada pelo anjo, traduzida por “não tenhas medo”, no hebraico tem o sentido de “não perder a confiança em

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5 LUCAS 1

15 Pois ele será grande aos olhos do Se- minhas palavras, as quais, no seu devido
nhor, jamais beberá vinho nem qualquer tempo, se cumprirão”.
outra bebida fermentada, e será pleno 21 Enquanto isso, o povo estava aguar-
do Espírito Santo desde antes do seu dando Zacarias e preocupava-se com o
nascimento. fato de que demorasse tanto no santuá-
16 E conduzirá muitos dos filhos de Israel rio do Senhor.10
à conversão ao Senhor, seu Deus.6 22 Mas, ao sair, nenhuma palavra conse-
17 Ele avançará na presença do Senhor, guia pronunciar; as pessoas perceberam
no mesmo espírito e poder de Elias, com que ele tivera uma visão no santuário.
o propósito de fazer voltar o coração dos Zacarias tentava comunicar-se através de
pais a seus filhos e os desobedientes à sinais, permanecendo todavia mudo.
sabedoria dos justos, deixando um povo 23 Ao completar seus dias dedicados ao
preparado para o Senhor”.7 serviço, ele regressou para casa.
18 Então, Zacarias indagou do anjo: 24 E, passado esse tempo, Isabel, sua espo-
“Como poderei certificar-me disso? Pois sa, engravidou, mas durante cinco meses
já sou idoso, e minha esposa igualmente ocultou-se das pessoas não saindo de casa.
de idade avançada”.8 25 E ela dizia a si mesma: “Isto é dádiva
19 Ao que o anjo lhe replicou: “Sou Ga- do Senhor para mim! Eis que seus olhos
briel, aquele que está permanentemente me contemplaram, para retirar de sobre
na presença de Deus e fui encarregado mim a grande humilhação que sentia
de vir para falar e transmitir-te estas diante de todos”.11
boas notícias.9
20 Porém, eis que permanecerás em si- Gabriel anuncia o nascimento de Jesus
lêncio, pois não conseguirás falar até o 26 Então, no sexto mês, Deus enviou o
dia em que venha a ocorrer tudo quanto anjo Gabriel para Nazaré, uma cidade
te revelei, porquanto não acreditaste nas da Galiléia,

Deus”, sendo uma palavra de encorajamento muito usada em toda a Bíblia (no verso 30 e em 2.10; 5.10; 8.50; 12.7,32; Gn 15.1;
21.17; 26.24; Dt 1.21; Js 8.1). O nome João deriva do hebraico antigo e significa: “O Senhor é bom e misericordioso”.
6 A grandeza de João seria reconhecida pelas qualidades de profeta precursor do Senhor, nazireu (Nm 6.3) e sacerdote. O per-
manente estado de plenitude e dependência do Espírito Santo capacitaria João a proclamar a Palavra de tal maneira que muitos
seriam convertidos de seus caminhos mundanos e formariam um povo de coração preparado para a vinda de Jesus Cristo e do
Reino de Deus (At 19.4). João cumpriu as profecias de Ml 3.1; 4.5,6 e as registradas em Is 40.3,4 (veja Lc 7.24-35). João também
se submeteu ao voto nazireu de abstinência de bebidas alcoólicas (Nm 6.1-4). Em seu caso, desde o ventre de sua mãe, como
Sansão (Jz 13.4-7) e Samuel (1Sm 1.11).
7 Não há qualquer possibilidade de Elias ter voltado na pessoa de João (Jo 1.21). A Bíblia não oferece nenhuma base textual
para as teorias da reencarnação ou mediunidade. Entretanto, João foi Elias na semelhança do seu amor e fidelidade ao Senhor
(Mt 11.14). Na sua mensagem poderosa e destemida, convocando os seres humanos ao mais sincero e absoluto arrependimento
de seu deliberado e contínuo afastamento de Deus.
8 À semelhança de Abraão (Gn 15.8), de Gideão (Jz 6.17) e de Ezequias (2Rs 20.8), Zacarias pediu um sinal (1Co 1.22), talvez
não da melhor maneira, mas o anjo o atendeu e nos deixou uma lição sobre jamais duvidar da Palavra do Senhor. Um estudo
comparativo de Abraão e Sara em relação a Zacarias e Isabel, focalizando especialmente Isaque e João, será de grande valor
(Gn 15 a 18).
9 O nome Gabriel em hebraico antigo significa: “o poderoso homem de Deus”. Apenas dois anjos têm seus nomes identificados
nas Sagradas Escrituras: Gabriel (Dn 8.16; 9.21) e Miguel (Dn 10.13,21; Jd 9; Ap 12.7).
10 A multidão estava aguardando com apreensão e ansiedade que o sacerdote (Zacarias) saísse do Santo dos Santos para
proferir a tradicional bênção arônica (Nm 6.24-26). Entretanto, ele saiu mudo. Todo sacerdote tinha a obrigação de trabalhar
durante uma semana nas dependências do templo, uma vez a cada seis meses (vs. 23, 39).
11 Especialmente no AT, a ausência de filhos ou o empobrecimento eram considerados sinais do desfavor divino, ou de sérios
pecados ocultos, o que sujeitaria as pessoas ao castigo de Deus. No caso da infertilidade, toda a responsabilidade pela falta de
filhos e, portanto, pelo descontentamento divino, recaía sobre a mulher, a qual era vítima das mais variadas e deprimentes formas
de julgamento e rejeição por parte da comunidade e, muitas vezes, do próprio marido. Jesus e seus discípulos jamais aprovaram
esse tipo de teologia simplista e distante dos propósitos gerais de Deus para a humanidade (Gn 16.2; 25.21; 30.23; 1Sm 1.1-18;
Lv 20.20,21; Sl 128.3; Jr 22.30).

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LUCAS 1 6

27 a uma virgem prometida em casamen- 35 Então o anjo lhe esclareceu: “O Espíri-


to a certo homem chamado José, descen- to Santo virá sobre ti, e o poder do Altís-
dente de Davi. E o nome da virgem era simo te cobrirá com a sua sombra. E por
Maria.12 esse motivo, o ser que nascerá de ti será
28 O anjo chegou ao lugar onde ela chamado Santo, Filho de Deus.18
estava e ao se aproximar lhe declarou: 36 Saiba também que Isabel, tua parenta,
“Alegra-te, mui agraciada! O Senhor está dará à luz a um filho mesmo em idade
contigo!”.13 avançada, sendo que este já é o sexto mês
29 Diante de tais palavras, Maria ficou de gestação para aquela a quem julgavam
intrigada, imaginando qual poderia ser o estéril.
motivo daquele tipo de saudação. 37 Porquanto para Deus não existe nada
30 Mas o anjo lhe revelou: “Maria, não que lhe seja impossível!”.
temas; pois recebeste grande graça da 38 Diante disso, declarou Maria: “Eis aqui
parte de Deus. a serva do Senhor; que se realize em mim
31 Eis que engravidarás e darás à luz um tudo conforme a tua palavra!”. Em segui-
filho, a quem chamarás pelo nome de da o anjo partiu.
Jesus.14
32 Ele será Grande, e será chamado Filho O encontro de Maria com Isabel
do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o 39 Durante aqueles dias, Maria prepa-
trono de seu pai Davi,15 rou-se e saiu rapidamente em viagem
33 e Ele reinará para sempre sobre o povo para uma cidade da região montanhosa
de Jacó, e seu Reino nunca terá fim”.16 da Judéia.
34 Então, perguntou Maria ao anjo: 40 Chegou à casa de Zacarias e foi saudar
“Como acontecerá isso, pois jamais tive Isabel.
relação sexual com homem algum?”.17 41 Assim que Isabel ouviu a saudação de

12 Lucas trata o assunto da concepção virginal de Jesus de forma clara e objetiva (observe os versos 27, 34 e 35 e Mt 1.18-25).
A fecundação foi obra do Espírito Santo que, ao cobrir Maria, na forma de uma sombra, gerou em seu ventre o embrião que
seria Jesus, a eterna segunda pessoa da Trindade. Jesus jamais deixou de ser Deus, mas Deus assumiu completamente corpo
e alma humanas, possibilitando que Jesus fosse plenamente homem e plenamente Deus a um só tempo (Jo 1.14). Maria havia
sido desposada, o que significa no judaísmo da época, uma espécie de noivado definitivo. Um compromisso de casamento sem
possibilidade de arrependimento. Qualquer infidelidade por parte da mulher a partir desse pacto matrimonial, era punida com a
pena de morte por apedrejamento para a virgem que cometera adultério e para o homem que a tivesse seduzido (Dt 22.23,24).
Maria e José eram descendentes diretos de Davi (vs.32,69 e 2.4).
13 Em algumas versões traduzidas a partir da Vulgata latina, conservou-se a palavra “Ave” (de onde teve origem a frase: “Ave
Maria”) uma expressão comum de saudação em latim, e que significa: “Salve!” ou “Seja Feliz!”, mais propriamente traduzida aqui
por “Alegra-te!”. Outra expressão que aparece em algumas versões da Bíblia é: “cheia de graça”, numa referência ao favor de
Deus para com sua serva. A tradução e o sentido mais literal dessa frase nos originais gregos são: “tu que foste e permaneces
repleta do favor divino”.
14 O nome próprio “Jesus” deriva do hebraico antigo (cwSy - Yeshua) e significa: “Josué”, que quer dizer: “Yahweh Salva” ou
“Jeová é o Salvador” (Mt 1.21).
15 “Grande” era um título de destaque dado a personalidades notáveis, especialmente aos imperadores da época. O anjo
comunica que o Reino de Cristo é imenso e jamais terá fim. A expressão hebraica traduzida por “Altíssimo” é igualmente um
título honroso, muitas vezes usado no AT e no NT em referência à pessoa de Deus (nos versos 35,76; 6.35; 8.28; Gn 14.19; 2Sm
22.14; Sl 7.10), e tem dois sentidos. Refere-se ao divino Filho de Deus e ao Messias (o Cristo, em grego). O messianato de Jesus
é claramente abordado nos versos 32b e 33. Quanto ao trono de Davi, que significa o comando do mundo, foi profetizado no AT
que seria entregue por Deus ao Messias, da descendência de Davi (2Sm 7.13,16; Sl 2.6,7; 89.26,27; Is 9.6,7).
16 A missão de Cristo como mediador um dia se encerrará (1Co 14.24-28) e dará lugar ao Reino unificado do Pai e do Filho que
durará eternamente (Sl 45.6; Rm 1.3,4; Fp 2.9-11; Hb 1.8; Ap 11.15).
177 Maria não se assusta tanto com o anjo quanto com as palavras dele. Entretanto, mesmo sendo uma jovem simples de
pequena aldeia do interior da Galiléia, não duvida da revelação divina que recebe, como ocorreu com o experiente teólogo e
dedicado sacerdote Zacarias. Maria apenas – compreensivelmente – desejava saber “como” tal evento se daria. Muito embora as
revelações comunicadas a Maria tenham sido ainda mais extraordinárias do que as anunciadas a Zacarias, a serva do Senhor não
precisou de provas ou sinais para aceitar, com alegria submissa, a missão que o Senhor lhe confiara.
18 Alguns séculos depois da ressurreição do Senhor, surgiram certos escritos seculares questionando o período da primeira

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7 LUCAS 1

Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e braço; dispersou aqueles cujos sentimen-
Isabel ficou plena do Espírito Santo.19 tos mais íntimos são soberbos.
42 E, com um forte grito, exclamou: 52 Derrubou governantes dos seus tro-
“Bendita és tu entre todas as mulheres, e nos, mas exaltou os humildes.
bendito é o fruto de teu ventre! 53 Supriu abundantemente os famintos,
43 Mas, qual o motivo desta graça mara- mas expulsou de mãos vazias os que se
vilhosa, que me venha visitar a mãe do achavam ricos.21
meu Senhor? 54 Ajudou a seu servo Israel, recordando-
44 Pois, no mesmo instante em que a se da sua misericórdia infinda
tua voz de saudação chegou aos meus 55 a favor de Abraão e sua descendência,
ouvidos, o bebê que está em meu ventre para sempre, assim como prometera aos
agitou-se de alegria. nossos antepassados”.22
45 Bem-aventurada é aquela que acredi- 56 E Maria permaneceu com Isabel por
tou que o Senhor cumprirá tudo quanto cerca de três meses, quando então retor-
lhe foi revelado!”. nou à sua casa.23

Magnificat, o cântico de Maria Nasce João Batista


46 Então declarou Maria:20 “Engrandece 57 Ao se completar o tempo de Isabel dar
minha alma ao Senhor, à luz, nasceu-lhe um filho.
47 e o meu espírito se regozija em Deus, 58 Todos os seus vizinhos e parentes ou-
meu Salvador, viram falar da grande misericórdia com
48 pois contemplou a insignificância da a qual o Senhor a havia contemplado e
sua serva. Mas, de hoje em diante, todas muito se alegraram com ela.
as gerações me chamarão bem-aventu- 59 No oitavo dia levaram o menino para
rada, ser circuncidado, e desejavam dar-lhe o
49 porque o Poderoso realizou maravilhas nome do pai, Zacarias.
a meu favor; Santo é o seu Nome! 60 No entanto sua mãe tomou a palavra
50 A sua misericórdia estende-se aos que e afirmou: “Não! O nome dele deverá ser
o temem, de geração em geração. João”.
51 Ele operou poderosos feitos com seu 61 Ponderaram-lhe: “Mas ninguém há en-

juventude de Jesus, sobre o qual a Bíblia nada fala. Foram sugeridas várias hipóteses e uma delas levanta a possibilidade de
Jesus ter passado por uma fase em que teria cometido alguns pecados para se assemelhar ainda mais aos seres humanos. As
Sagradas Escrituras, entretanto, são claras em afirmar que Jesus nasceu Santo (a expressão hebraica original significa: separado
para habitação de Deus) e jamais cometeu um só pecado (2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1Pe 2.22; 1Jo 3.5). Não foi o nascimento
virginal de Jesus que o fez “Santo”, e muito menos, “Filho de Deus”. Esse foi o meio pelo qual o Filho, preexistente (que sempre
existiu), revelou Sua Deidade (Jo 1.1,14; Fp 2.6).
19 Lucas dá grande ênfase à ação do Espírito Santo, não apenas no evangelho, mas, especialmente no livro de Atos. Algumas
versões trazem a expressão “possuída” para descrever o quanto Isabel ficou cheia (em plenitude) do Espírito. Foi pelo Espírito
que Isabel reconheceu Maria como mãe do Redentor (v.43) e é só pelo Espírito Santo que o pecador pode conhecer a Cristo
como seu único, suficiente e eterno Salvador e Senhor (Jo 16.8,9).
20 Maria (e não Isabel como sugerem algumas versões), na plenitude do Espírito Santo, a exemplo de Ana (1Sm 2.1-10), louva
ao Senhor por sua graça e misericórdia para com todos, especialmente para com os humildes e desprotegidos. A tradição da
Igreja transformou esse cântico (salmo) num hino conhecido como Magnificat, pois na tradução desse texto em latim, na Vulgata,
a primeira palavra é “Magnificat”, que significa: “Engrandece”.
21 Maria, usando uma forma de expressão profética, refere-se às maravilhas que a vinda do Cristo (o Messias) produziria (Tg
5.1-6). Deus supre os “famintos” de bênçãos espirituais e bens materiais (de pão e justiça – Ef 1.3 com 1Sm 2.5), especialmente
quando eles aprendem o que é “temer ao Senhor” (viver em harmonia e respeito à vontade revelada de Deus na sua Palavra).
22 A expressão “seu servo”, em grego transliterado é paidos, e significa: “servo filho”. “Filhos de Deus” é uma expressão que,
em grego, se refere a outras duas palavras: tekna ou huioi. Além do servo Israel, também Davi e Cristo são como “servos” de Deus
(v.69; conforme At 3.13,26; 4.25,27,30). Israel, como o Servo de Yahweh (Jeová), tendo cumprido sua missão, cede seu lugar
ao Messias (Jesus Cristo) nas maravilhosas profecias sobre o “Meu Servo” (Is 41.8,9; 42.1; 44.1,2,21; 45.4). O cântico termina
garantindo que Deus será fiel às promessas que fez a Seu povo (Gn 22.16-18).
23 Maria ficou com Isabel, sua parenta e amiga querida, até o nascimento de João Batista, quando retornou para casa, em Nazaré.

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LUCAS 1 8

tre teus parentes que se chame assim”. 71 Salvando-nos dos nossos inimigos e
62 Então, através de sinais, consultaram das mãos de todos os que nos odeiam,
o pai do menino que nome queria que 72 para demonstrar sua misericórdia aos
lhe dessem. nossos antepassados e recordar sua santa
63 Ele pediu uma tabuinha e, para surpresa aliança,
de todos, escreveu: “O nome dele é João”.24 73 o juramento que prestou ao nosso pai
64 No mesmo instante sua boca se abriu, Abraão.
sua língua se soltou e ele começou a falar, 74 Que nos resgataria da mão de todos
louvando a Deus. os nossos inimigos, a fim de o servirmos
65 Toda a vizinhança foi tomada de gran- livres do medo,
de temor e por toda a região montanhosa 75 em santidade e justiça na sua presença,
da Judéia se comentavam esses fatos. durante todos os dias de nossas vidas.
66 E aconteceu que todos quantos ouviam 76 Tu, menino, serás chamado profeta do
falar dessas ocorrências ficavam imagi- Altíssimo, pois marcharás à frente do Se-
nando: “O que virá a ser este menino?”. nhor, para lhe preparar o caminho.27
Pois a boa mão do Senhor estava com ele. 77 Para proclamar ao seu povo o conhe-
cimento da salvação, mediante o perdão
Benedictus, o cântico de Zacarias dos seus pecados.
67 Então, seu pai Zacarias foi cheio do 78 E isso, por causa das profundas miseri-
Espírito Santo e profetizou:25 córdias de nosso Deus, através das quais
68 “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, dos céus nos visitará o sol nascente,28
pois que visitou e redimiu o seu povo. 79 para iluminar aqueles que estão viven-
69 Ele concedeu poderosa salvação na do em meio às trevas, e guiar nossos pés
casa de Davi, seu servo.26 no caminho da paz”.29
70 Assim como prometera por meio dos 80 E o menino crescia e se robustecia em
seus santos profetas desde a antigüidade. espírito; e viveu no deserto até o dia em

24 Na antigüidade judaica era usado um pedacinho de madeira coberto com cera e um buril (um pequeno instrumento de metal
usado para gravar textos e imagens em madeira), como uma espécie de livro de anotações. A importância dos nomes atribuídos
às pessoas é algo notável em toda a Bíblia. No início da Nova Dispensação, temos Zacarias – “Deus se recorda de Sua aliança”
(v.54); Isabel – “Deus é fiel”; João – “Deus é bom e misericordioso” (Mt 3.1); Maria – “aquela que guarda em seu coração”, e o
próprio Jesus – “Deus é o Salvador” (v.31; Mt 1.21).
25 A exemplo de Maria, com seu salmo, Zacarias também expressa sua alegria espiritual e louvor (agora com a voz livre do
sinal punitivo do anjo, devido ao cumprimento da promessa), por meio de um hino profético. Esse cântico ficou conhecido pela
Igreja como Benedictus, que em latim significa “Bendito” ou “Louvado seja”, pois se trata da palavra que inicia este hino na
Vulgata latina.
26 A salvação de Deus para Israel não se limitará à redenção nacional (v.71), mas, principalmente, à salvação espiritual
(vs.75,77). A expressão hebraica, aqui interpretada por “poderosa” se traduz literalmente por “chifre de boi”, numa alusão à força
e ao poder (conforme Dt 33.17; Sl 18.1-3; 22.21; 92.10,11; 132.17,18; Mq 4.13). Jesus – o Messias da Casa de Davi – tem poder
para salvar e libertar seu povo de todo tipo de opressão e escravidão.
277 João foi chamado profeta do Altíssimo, enquanto Jesus foi reconhecido como Filho do Altíssimo (v.32). O principal ministério
de João foi testificar de Cristo (Jo 1.7,29,32-36). O maior ministério do cristão é também ser testemunha de Jesus Cristo (At 1.8).
João recebeu a missão de preparar os caminhos do Senhor para sua primeira vinda, enquanto nós devemos apressar o glorioso
retorno de Cristo por meio do nosso testemunho e da evangelização de todos os povos (2Pe 3.11,12).
28 Assim como o sol nascente desvanece as trevas, Cristo aniquilou o poder e a culpa do pecado. Veja figuras de linguagem
semelhantes em: Nm 24.17; Is 9.2; 60.1. Ele conquistou o império que estava nas mãos de Satanás e destruiu o poder da morte
(Rm 5.12-21). O sacerdote Zacarias, não apenas exaltou seu filho, o profeta João, mas louvou o Messias Jesus que chegaria em
breve (vs.78,79).
29 Os que vivem nas trevas são os que estão perdidos, a caminho da morte (separação de Deus) eterna (Is 9.1,2; Mt 4.16).
A humanidade busca desesperadamente por paz, entretanto o que se vê é o aumento constante da violência e da brutalidade
entre pessoas e nações. O vocábulo “paz” no original grego (transliterado: irene), significa: “estado de descanso, tranqüilidade
e segurança, devido a um harmonioso relacionamento entre Deus e a pessoa humana”. Jesus Cristo é o Príncipe da Paz e todos
os seus discípulos já podem desfrutar dessa Paz que será completa e mundial, quando o Senhor estabelecer seu Reino de forma
plena e definitiva na terra renovada (Ap 21.1).

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9 LUCAS 1, 2

que havia de revelar-se publicamente a 7 e ela deu à luz o seu primogênito. En-
Israel.30 volveu-o com tiras de pano e o colocou
sobre uma manjedoura, pois não havia
Nasce Jesus de Nazaré, o Cristo lugar para eles na hospedaria.5
(Mt 1.18-25)

2 Naquela época, César Augusto pu-


blicou um decreto, convocando para
um recenseamento, todos os moradores
“Gloria in Exelsis Deo!”
8 Nas proximidades havia pastores que
estavam nos campos e que durante a
das terras dominadas por seu império.1 noite cuidavam dos seus rebanhos.
2 Este foi o primeiro cadastramento da 9 E aconteceu que um anjo do Senhor
população de todo o império romano, apareceu a eles e a glória do Senhor
quando Quirino era governador da Síria.2 reluzindo os envolveu; e todos ficaram
3 E todos seguiam para as cidades onde ha- apavorados.
viam nascido, a fim de serem arrolados. 10 Todavia o anjo lhes revelou: “Não
4 Por isso, José também viajou da cidade temais; eis que vos trago boas notícias
de Nazaré da Galiléia para a Judéia, até de grande alegria, e que são para todas
Belém, cidade de Davi, porque pertencia as pessoas:
à casa e à descendência de Davi.3 11 Hoje, na cidade de Davi, vos nasceu o
5 E partiu com o propósito de alistar-se, Salvador, que é o Messias, o Senhor!6
juntamente com Maria, sua esposa pro- 12 Isto vos servirá de sinal: encontrareis
metida, que estava grávida.4 um recém-nascido envolto em panos e
6 Enquanto estavam em Belém, chegou o deitado sobre uma manjedoura”.
momento de nascer o bebê, 13 E no mesmo instante, surgiu uma

30 Zacarias e Isabel, já idosos quando João nasceu; morreram quando ele era ainda muito jovem. Segundo historiadores e
arqueólogos, João teria sido levado para o deserto da Judéia, onde viveu cerca de trinta anos e muito aprendeu com os essênios
da região de Qunram. A semelhança de terminologia da sua pregação com os chamados Rolos do Mar Morto é notável. João
Batista começou seu ministério público com cerca de trinta anos, idade em que os profetas tinham, em geral, sua maioridade e
maturidade espiritual reconhecidas pelos conselhos de rabinos.
Capítulo 2
1 Lucas procura sempre relacionar sua narrativa aos grandes fatos históricos de seu tempo. César Augusto (30 a.C. a 14 d.C)
foi o primeiro e o maior dos imperadores romanos. Estabeleceu a chamada “Pax Romana”, trocou o sistema republicano por uma
forma imperial de governo, conquistou todo o mundo civilizado do Mediterrâneo e estabeleceu a idade áurea das artes, arquite-
tura e literatura romanas. No ano 27 a.C. o senado romano lhe concedeu o título de “augusto”, que em latim significa: “exaltado”
ou “digno de toda a reverência”. Embora os judeus estivessem isentos do serviço militar romano, e por isso não eram obrigados
a atender às convocações militares, não estavam livres de pagar os impostos, e esse recenseamento ou cadastramento visava
exatamente alistar todos os cidadãos e moradores sob o domínio romano, especialmente para recolhimento de impostos. Deus
usou o decreto de um imperador pagão para cumprir a profecia de Mq 5.2.
2 Quirino foi um oficial romano que coincidentemente trabalhou neste censo e em um segundo alistamento geral que ocorreu
de 6 a 9 d.C., registrado por Lucas em At 5.37, no qual Judas se levantou contra o governo romano da época, alegando que Deus
era o único e legítimo Rei de Israel, sendo, portanto, ilícito (um pecado) pagar impostos a qualquer outra autoridade.
3 Belém é a mesma cidade onde nasceu o rei Davi cerca de 1000 anos antes destes eventos (1Sm 17.12; 20.6) e se localizava
a uma distância aproximada de 10 km ao sul de Jerusalém. Naquela época, uma viagem de pelo menos três dias até Nazaré.
“Judéia”, era a maneira greco-romana de chamar a parte sul da Palestina, no passado abrangida pelo reino de Judá.
4 Na Síria, província romana na qual se localizava a Palestina, as mulheres acima de 12 anos deviam pagar um imposto indivi-
dual ao governo, e para isso tinham de ser cadastradas (recenseadas). Maria também pertencia à casa de Davi.
5 No ocidente e por motivos não históricos nos acostumamos a celebrar o natal (nascimento de Jesus Cristo) em dezembro.
Entretanto, segundo muitos historiadores e arqueólogos de prestígio, a data mais provável deve ter sido na primavera palestina
(entre maio e junho). Era costume entre as mães judias envolver os filhos recém-nascidos com tiras de tecido para que ficassem
bem agasalhados e protegidos. A cidade estava lotada com pessoas de todas as partes vindas para ser arroladas no censo. Maria
sentia as dores de parto e a única solução foi se acomodarem em um estábulo. Ao nascer, Jesus foi posto em uma manjedoura,
uma espécie de cocho onde se colocava o alimento dos animais.
6 Os líderes religiosos e o povo judeu estavam divididos em suas expectativas quanto à obra do Messias prometido. Uns
esperavam que ele fosse um grande líder militar e os livrasse do domínio romano. Outros desejavam cura para as enfermidades
e os muitos sofrimentos físicos. E, outros ainda, ambicionavam um Messias que os livrasse da fome e da pobreza. Contudo, a

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LUCAS 2 10

grande multidão do exército celestial Jesus é apresentado no templo


que se juntou ao anjo e louvavam a Deus 21 Completando-se os oito dias para o
entoando: ritual de circuncisão do menino, foi-lhe
14 “Glória a Deus nos mais altos céus, e dado o nome de Jesus, o qual já havia
paz na terra às pessoas que recebem a sido outorgado pelo anjo antes de Ele
sua graça!”.7 nascer.8
15 Quando os anjos partiram e foram 22 De igual modo, ao completar-se o
para os céus, os pastores combinaram tempo da purificação deles, de acordo
entre si: “Vamos até Belém, e vejamos com a Lei de Moisés, José e Maria le-
este acontecimento que o Senhor nos varam o bebê Jesus até Jerusalém para
deu a saber”. apresentá-lo a Deus no templo.9
16 Então correram até o local e chegando, 23 Assim como está escrito na Lei do
encontraram Maria e José, e o recém- Senhor: “Todo primogênito nascido do
nascido deitado numa manjedoura. sexo masculino deverá ser dedicado ao
17 E depois de o contemplarem, comuni- Senhor”.
caram a todos o que lhes fora revelado a 24 Também um sacrifício deveria ser ofe-
respeito daquele menino, recido, como proclama a Lei do Senhor:
18 Ao ouvirem o que os pastores relata- “duas rolinhas ou dois pombinhos”.10
vam ficaram sobremodo assustados.
19 Maria, contudo, observava silenciosa “Nunc Dimittis”
todos os acontecimentos, e refletia sobre 25 Entrementes, havia um homem em
eles em seu coração. Jerusalém chamado Simeão, homem
20 Os pastores retornaram glorificando justo e piedoso e que almejava a conso-
e louvando a Deus por tudo quanto lação de Israel; e o Espírito Santo estava
tinham visto e ouvido, assim como lhes sobre Ele.11
fora predito. 26 O Espírito Santo lhe havia revelado

missão prioritária do Cristo, anunciada pelos anjos, é que Ele viria resgatar a humanidade, pagando o preço pelo pecado: a morte
(Mt 1.21; Jo 4.42). A pessoa e a obra de Cristo neste mundo significam: maior glorificação de Deus Pai nos céus (17.4,5) e paz
divina eterna para todos os habitantes da terra que receberem seu Espírito com amor e sinceridade (v.14; Rm 5.1,2). A expressão
hebraica: “Senhor”, até a vinda de Cristo, era usada exclusivamente para se referir a Deus (At 2.36; Fp 2.11).
7 Um grande coral de anjos entoou um cântico de louvor a Deus. As primeiras palavras deste pequeno hino, registrado em
latim na Vulgata, são: Gloria in exelsis Deo! Os anjos exaltam a majestade de Deus em todo o universo, nos céus, onde Deus
habita (Mt 6.9). O mundo da época vivia sob a Pax romana, uma paz exterior e temporária, imposta por um imperador humano. Os
anjos anunciam a “Paz de Deus”, eterna e absoluta, garantida a todos quantos se agradam (recebem com gratidão, sinceridade
e lealdade)) a graça
g ç de Deus ((Lucas usa a ppalavra “agrado”
g em vários momentos 3.22; 10.21; 12.32).) A “Paz de Deus” só pode
p
ser recebida por quem crer que Ele é o Único doador e Salvador. Em resumo: é um ato de fé (Rm 5.1). O Messias davídico era
chamado de “Príncipe da Paz” (Is 9.6). De outro lado, embora Cristo tenha prometido essa Paz aos seus discípulos (Jo 14.27),
Ele deixou bem claro que haveria lutas, aflições e tensões (Mt 10.34-36; Lc 12.49; Jo 16.33), pois manter a paz com Deus significa
viver em oposição diária a Satanás e seus ardis (Tg 4.4).
8 Jesus, o Filho de Deus, relacionou-se de perto com a Lei e a Velha Aliança. Nasceu, cresceu e foi educado sob a Lei para
resgatar todos os que estavam sob a Lei e suas conseqüências. Obedeceu a Lei e foi além, para nos ensinar a viver sob o espírito
da lei; ou seja, livres da formalidade da letra, mas conduzidos pelo Espírito de Deus, nosso Advogado e Orientador quanto ao que
devemos fazer para agradar ao Pai Celestial (Jo 14.25-27; Gl 4.4-5). Lucas usa muitas vezes a expressão “louvando ao Senhor”
(1.64; 2.13,28; 5.25,26; 7.16; 13.13; 17.15,18; 18.43; 19.37; 23.47; 24.53).
9 Depois de dar à luz a um filho, a mãe judia, precisava aguardar 40 dias (resguardo), para dirigir-se ao templo e oferecer os
sacrifícios chamados de “purificação”. Se fosse pobre e não pudesse comprar um cordeiro e uma rolinha (espécie de pombo
pequeno), como ocorreu com José e Maria, eram aceitáveis dois pombinhos (Lv 12.2-8; 5.11).
10 Belém distava de Jerusalém cerca de 10 km. Todos os p primogênitos
g dos seres humanos e dos animais deviam, pela
p Lei,
serem consagrados (dedicados) ao Senhor (Êx 13.12-13). Os animais eram sacrificados, pois somente o sangue e a morte dos
inocentes podia pagar o preço dos pecados humanos. Cristo tomou sobre si esta penalidade (Is 53.6; 2Co 5.21) e se deu em
sacrifício único, suficiente e perpétuo. Os primogênitos humanos eram simbolicamente oferecidos aos cuidados do Senhor (Rm
8.29), e seus pais se obrigavam a educá-los para adorar e servir a Deus. Os filhos deviam seguir a fé dos pais durante toda a vida,
mas eram os levitas quem, de fato, dedicavam suas vidas inteiras ao serviço religioso diário, como ministros, representando a
adoração de todos os primogênitos masculinos de Israel (Nm 3.11-13; 8.17,18).
11 A consolação que os judeus piedosos (fiéis e adoradores sinceros de Deus) aguardavam era a vinda do Messias (Cristo,

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11 LUCAS 2

que não morreria sem ter a oportunida- velada. Quanto a ti, todavia, uma espada
de de ver o Cristo de Deus. traspassará a tua alma”.13
27 Movido pelo Espírito Santo, ele di-
rigiu-se ao templo. Assim que os pais As profecias de Ana
trouxeram o menino Jesus para reali- 36 Estava também presente a profetiza
zarem com Ele o ritual de consagração Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
exigido pela tradição da Lei, Era uma senhora de idade avançada; ti-
28 Simeão o tomou em seus braços e lou- nha vivido com seu marido durante sete
vou a Deus, exclamando: anos depois de se casar,14
29 “Ó Soberano! Como prometeste, po- 37 e desde então permanecera viúva até
des agora despedir em paz o teu servo. a idade de oitenta e quatro anos. Jamais
30 Porquanto os meus olhos já contem- deixava o templo: adorava a Deus, jeju-
plaram a tua Salvação,12 ando e orando dia e noite.
31 a qual preparaste à vista de todos os 38 Havendo chegado ali, naquele exato
povos: momento, deu graças a Deus e proclama-
32 luz para revelação aos gentios, e para va acerca do bebê Jesus para todos os que
glória do teu povo de Israel”. anelavam pela redenção de Jerusalém”.15
33 O pai e a mãe do menino ficaram 39 Depois de terem cumprido tudo
admirados com a proclamação feita a quanto era requerido pela Lei do Senhor,
respeito dele. retornaram para a sua própria cidade,
34 Então Simeão os abençoou e revelou Nazaré, na Galiléia.
a Maria, mãe de Jesus: “Eis que este 40 E o menino crescia e se fortalecia, tor-
menino está destinado a ser o respon- nando-se pleno em sabedoria; e a graça
sável pela queda e pelo soerguimento de de Deus permanecia sobre Ele.16
multidões em Israel, e a ser um sinal de
contradição, O menino Jesus no templo
35 de maneira que a intimidade dos 41 Todos os anos seus pais viajavam até
pensamentos de muitos corações será re- Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa.

em grego) e a implantação de um Reino de justiça, paz e felicidade (vs. 26,38; 23.51; 24.21; Is 40.1,2; Mt 5.4). O Espírito Santo,
antes do evento de Pentecostes, vinha “sobre” as pessoas e as agraciava com sua presença por algum tempo. Após a ascensão
de Cristo, o Espírito vem “habitar”, ou, como no sentido original do AT, “tabernacular” permanentemente na vida do crente (Jo
14.16-18). Lucas dá grande atenção em seus textos à pessoa e ao tríplice ministério do Espírito Santo: Primeiro como condutor
da graça preveniente e sensibilizadora que leva o ser humano a buscar a Deus (Jo 16.8), em seguida, revelando a Cristo e
iniciando a obra salvadora do Senhor (Jo 3.5; Rm 8.9), e santificando a vida do crente e o preparando para herdar a vida eterna
com Cristo (Rm 8.14).
12 Todo aquele que tem uma fé viva e verdadeira na pessoa e na obra de Cristo pode, com toda a certeza e tranqüilidade, morrer
em plena paz (1Jo 1.1 em relação a Gn 15.15). Simeão declama um salmo que se tornaria um hino da Igreja conhecido como:
Nunc dimittis, que são as primeiras palavras deste cântico em latim, como aparece na Vulgata, e significam: “Agora despede”.
Lucas, não sendo judeu, teve o cuidado de ressaltar a verdade de que a Salvação é uma graça disponível também aos gentios e
não apenas aos judeus (v.32; Mt 24.14; Mc 13.10; Ap 7.9).
13 Cristo veio para reabilitar o caído, consolar os que sofrem e restaurar os que se consideram perdidos. Aos que não se
acham necessitados, Cristo veio para, literalmente, “derrubar a casa” (em grego, ptõsis), pois Jesus é pedra de tropeço para os
incrédulos (20.17-18; 1Co 1.23; 1Pe 2.6-8). Jesus causa divisão entre o que prefere viver nas trevas e aqueles que atendem ao
apelo do seu amor (Jo 3.19), e entre o criminoso arrependido e o blasfemo (Lc 23.39-43). Lucas, pela primeira vez, fala sobre os
sofrimentos e o martírio de Cristo, salientando que sua mãe sofreria tanto quanto Ele, como se uma espada varasse seu coração.
No entanto não se tem notícia de que Maria tivesse ficado amargurada, ressentida com Deus ou amaldiçoasse seu destino.
14 A Bíblia apresenta outras profetizas: Miriã (Êx 15.20), Débora (Jz 4.4), Hulda (2 Rs 22.14) e as filhas de Filipe (At 21.9). Curio-
samente, essa Ana do NT louvou a Deus pelo menino Jesus, assim como, a Ana do AT exaltou ao Senhor pelo menino Samuel.
Ambas foram divinamente inspiradas para revelar a Palavra de Deus. O nome “Ana” significa em hebraico antigo: “misericordiosa”
(1Sm 2.1-10).
15 Jerusalém é a cidade santa do povo escolhido de Deus (Is 40.2; 52.9). Neste texto representa a nação de Israel como um todo.
16 Lucas não menciona a vinda dos magos (astrônomos), o perigo da parte de Herodes, nem ainda a fuga para o Egito e a
viagem de retorno de lá (Mt 2.1-23).

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LUCAS 2, 3 12

42 Assim sendo, no ano em que Ele com- 49 Então Ele lhes perguntou: “Por que
pletou doze anos de idade, eles subiram à me procuráveis? Como não sabíeis
festa, de acordo com a tradição.17 que era meu dever tratar de assuntos
43 Encerradas as comemorações, vol- concernentes ao meu Pai?”.
tando seus pais para casa, o menino 50 Mas eles não compreenderam bem o
Jesus ficou em Jerusalém, sem que eles que lhes explicara.19
notassem. 51 Contudo, Ele seguiu com eles para
44 Imaginando que Ele estivesse entre os Nazaré, pois lhes era obediente. Sua mãe,
muitos companheiros de viagem, cami- entretanto, meditava silenciosamente em
nharam por um dia inteiro. Então come- seu coração sobre todos estes aconteci-
çaram a buscá-lo entre os seus parentes e mentos.
conhecidos. 52 E Jesus se desenvolvia em sabedoria,
45 Como não conseguiam encontrá-lo, estatura e graça na presença de Deus e de
retornaram a Jerusalém para procurá-lo. todas as pessoas.20
46 Após três dias o acharam no templo,
sentado na companhia dos mestres, ou- João Batista proclama a Palavra
vindo-os e propondo-lhes questões. (Mt 3.1-12; Mc 1.2-8)
47 Todos os que o ouviam ficavam mara-
vilhados com a sua capacidade intelectual
e com a maneira como comunicava suas
3 No décimo quinto ano do reinado de
Tibério César, época em que Pôncio
Pilatos foi governador da Judéia; Hero-
conclusões.18 des, tetrarca da Galiléia; seu irmão Filipe,
48 Assim que seus pais o avistaram, tetrarca da Ituréia e Traconites; e Lisânias,
ficaram perplexos. Então sua mãe o tetrarca de Abilene, e1
inquiriu: “Filho, por que agiste assim 2 Anás e Caifás exerciam o ofício de
conosco? Teu pai e eu nos angustiamos sumo sacerdotes. Foi nesse mesmo ano
muito à tua procura!”. que João, filho de Zacarias, recebeu

177 José e Maria tinham o zelo de cumprir tudo quanto a Lei requeria, e assim educavam o menino Jesus. Aos doze anos, a
tradição judaica considerava o jovem menino como “filho da lei”, e seu dever era aprender os preceitos mais amplos da Lei, para
no ano seguinte começar a cumprir as exigências cerimoniais relacionadas às festas, jejuns, orações e estudos teológicos. Jesus
estava certo de que seus pais sabiam da necessidade que ele tinha – no ano em que completava doze anos – de dedicar-se a
esse aprendizado e aprofundamento na cultura judaica junto aos rabinos e mestres da Lei do seu tempo.
18 Na época de Jesus as aulas eram gravadas na memória e no coração dos alunos, não havia as facilidades modernas dos
muitos livros, cadernos e computadores. As respostas orais dos alunos às seguidas perguntas dos mestres demonstravam
o quanto do ensino havia sido retido e compreendido. Jesus assombrou até os doutores de seu tempo com seu saber e
carisma pessoal.
19 Jesus tentou gentilmente lembrar seus pais terrenos sobre seu compromisso de obediência ainda maior a Seu Pai celeste,
e por isso contrapôs a expressão: “teu pai”, usada por Maria, com a frase: “meu Pai”. Ao doze anos Jesus já tinha grande com-
preensão sobre quem Ele era e qual sua missão na terra. Sua mãe, entretanto, procurou compreender o que havia se passado
ponderando tudo silenciosamente em seu coração, e assim agiria durante toda a vida de seu filho na terra. Lucas faz questão de
frisar que Jesus foi obediente aos seus pais e os seguiu para casa. Na época em que Lucas estava escrevendo seu Evangelho
(entre 60 e 70 d.C.), muitas lendas sobre a adolescência e a primeira juventude de Jesus circulavam por todo o império romano.
Uma delas dizia que Jesus passou por uma fase de rebeldia contra seus pais, bem como transformava pequenas peças de barro
em pássaros apenas para demonstrar seu poder. O problema, como sempre, é que muitos acreditaram mais na ficção do que
na realidade.
20 Lucas afirma a perfeita e completa humanidade pela qual Deus passou ao encarnar-se em Jesus de Nazaré, seu Filho. Como
qualquer pessoa, Cristo passou pelas diversas fases do desenvolvimento humano, porém sempre de forma brilhante, perfeito e
sem pecado. José, o pai terreno de Jesus, morreu quando Ele era ainda muito jovem, deixando para Ele toda a responsabilidade
de cuidar de Maria, sua mãe, e dos demais irmãos. E Jesus ajudou a sustentar sua família por muito tempo, trabalhando como
carpinteiro e pedreiro (Mc 6.3).
Capítulo 3
1 Tibério passou a ter autoridade sobre as províncias romanas por volta de 11 d.C, e Pilatos exerceu a suprema autoridade de
Roma na Judéia, entre os anos de 26 e 36 d.C, enquanto Herodes Antipas (filho de Herodes, o Grande) a exerceu na Galiléia e
Peréia, de 4 a.C. até 39 d.C. O “décimo quinto ano”, citado por Lucas, refere-se ao ano 25 ou 26 d.C.

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13 LUCAS 3

uma palavra convocatória do Senhor, tar em vossos corações: ‘Abraão é nosso


no deserto.2 pai!’. Pois eu vos asseguro que destas
3 Então ele percorreu toda a região pedras Deus pode fazer surgir filhos a
próxima ao Jordão, proclamando um Abraão.5
batismo de arrependimento para perdão 9 O machado já está posto à raiz das árvo-
dos pecados.3 res, e toda árvore que não der bom fruto
4 Assim como está escrito no livro das será cortada e jogada ao fogo”.
palavras do profeta Isaías: “Voz do que 10 E as multidões lhe rogavam: “O que
clama no deserto: ‘Preparai o caminho devemos fazer então?”.
do Senhor, tornai retas as suas veredas. 11 Diante do que João as exortava: “Quem
5 Pois que todo o vale será aterrado e todas tiver duas túnicas dê uma a quem não
as montanhas e colinas, niveladas. As estra- tem nenhuma; e quem possui o que co-
das tortuosas se transformarão em retas e mer, da mesma maneira reparta”.
os caminhos acidentados serão aplanados. 12 Chegaram inclusive alguns publicanos
6 E todos os seres viventes contemplarão para ser batizados. E indagavam: “Mes-
a salvação que Deus oferece’”. tre, como devemos proceder?”.
7 João repreendia as multidões que vi- 13 E João lhes respondeu: “Não deveis exi-
nham para ser batizadas por ele: “Raça gir nada além do que vos foi prescrito”.6
de víboras! Quem lhes persuadiu a fugir 14 Então um grupo de soldados lhe in-
da ira vindoura?4 quiriu: “E quanto a nós, o que devemos
8 Produzi, então, frutos que demonstrem fazer?”. E ele os orientou: “A ninguém
arrependimento. E não comeceis a cogi- molesteis com extorsões, nem denun-

2 Embora Roma tivesse substituído o sumo sacerdote Anás, sucedido por seu filho Eleazar no ano 15 d.C., os judeus continuavam
a reconhecer sua autoridade (Jo 18.13; At 4.6), e por isso Lucas incluiu o nome dele junto com Caifás, a quem os romanos tinham
nomeado. Depois de 400 anos sem um profeta oficial, o Senhor convoca (chama) João para ser Sua voz e a