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1DIAGNÓSTICO PSICOPEDAGÓGICO NA ESCOLA

Marinês Teresinha Zamboni1

Erroneamente se pensa que a aprendizagem de uma criança se dá de


maneira uniforme e contínua, mas, na realidade, em cada uma das diversas fases
percorridas em busca do conhecimento podem ocorrer períodos de dificuldades que
devem ser acompanhados com bastante atenção por parte de pais e professores. E,
neste ponto, a psicopedagogia salienta-se como um rico diferencial capaz de
favorecer em muito o processo de construção do saber.
De acordo com Weiss (2002), freqüentemente considera-se que alunos de
classes baixas possuem menores condições de aprender devido a aspectos
orgânicos, porém, os aspectos sociais que envolvem as questões de aproximação
mais imediata com o campo da cognição e influências familiares e sócio-culturais
são os que na maioria das vezes colocam estes alunos em situação inferior, mas,
no entanto, não de impotência.
Esse sujeito não-aprendente, se oportunizado dentro de práticas
pedagógicas adequadas, poderá desenvolver-se plenamente e, para que isto seja
possível, deve-se investigar as causas de seu não-aprender e organizar as
aprendizagens dentro de uma perspectiva que se aproxime do modo de pensar do
aluno, provocando neste o desejo de saber.
Segundo Neves (2009), o problema de aprendizagem é um sintoma no
sentido de que o não-aprender não configura um quadro permanente, mas ingressa
numa constelação peculiar de comportamentos, nos quais se destaca como sinal de
descompensação. Assim, a dificuldade de aprendizagem no aluno deve ser
analisada com o propósito de entender o significado que esta não-aprendizagem
representa.
Weiss (2002) afirma que, para que o fracasso escolar seja vencido, é preciso
considerar que todos têm capacidade de aprender e de que igualmente todos

Acadêmica do Curso de Pós-Graduação Lato-Sensu Habilitação em Educação Pedagogia Gestora:


1

Orientação Educacional, pela FETREMIS. Porto Xavier (RS).


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devem ter acesso à escolarização, principalmente a uma escola de qualidade e de


condições iguais de ensino em todas as classes sociais. Neste ponto a
psicopedagogia desempenha um papel fundamental. Esta ciência desmembra-se
em dois grandes ramos: a psicopedagogia clínica (realizada por profissionais
especializados no ambiente médico-clínico), e a psicopedagogia institucional
(exercida por profissionais capacitados em ambientes tais como escolas e
empresas).
De acordo com Lopes (2008, p. 16): "O psicopedagogo é, portanto, um
profissional que atua, no campo clínico e institucional, no sentido de investigar as
causas relativas ao fato de não aprender, tanto em seu caráter diagnóstico quanto
preventivo". E Bossa (1995, p. 31) acrescenta que: "A Psicopedagogia é uma área
de atuação profissional que tem, ou melhor, busca uma identidade e que requer
uma formação de nível interdisciplinar, o que já é sugerido no próprio termo
Psicopedagogia".
Segundo Weiss (2002), todo diagnóstico psicopedagógico é, em si, uma
investigação do que não vai bem com o aluno em relação a uma conduta esperada.
A ação diagnóstica deve considerar o aluno de forma ampla, como sujeito de
relações sociais dentro e fora do espaço escolar, um indivíduo provido de
historicidade. Esta ação investigativa deve ser cautelosa e buscar elencar fatos ou
fatores importantes que possam estar causando no aluno a incapacidade de
aprender. Assim, deve considerar vários aspectos, principalmente cognição,
afetividade e questões pedagógicas. Rodrigues (2009, p. 1) lembra que:

Quando falamos em diagnóstico, pensamos logo em análise, porém só


podemos analisar algo se pudermos encontrar o que estamos analisando.
Por esta razão quando dizemos que estamos fazendo um diagnóstico
temos que saber o que estamos diagnosticando, para que estamos
diagnosticando e por que diagnosticar.

Para Weiss (2002), o sucesso de um diagnóstico não reside no grande


número de instrumentos utilizados, mas na competência e sensibilidade do
terapeuta em explorar a multiplicidade de aspectos revelados em cada situação.
Faz-se necessário interpretar, estar atento aos movimentos e depoimentos que
envolvem o sujeito em questão, de modo que se possa identificar o foco
responsável pelos aparentes problemas surgidos. Essas informações serão
responsáveis pelo bom andamento do trabalho investigativo e de possível solução
desses empecilhos, indiferente de sua origem.
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De acordo com o supramencionado autor, a queixa (entende-se por queixa


uma reclamação, um sintoma de que algo não vai bem com o processo de
aprendizagem de determinado educando) está expressa na fala da escola que
conduziu o sujeito à avaliação psicopedagógica e também nas falas e depoimentos
da família e do próprio sujeito. Faz-se necessário interpretar cautelosamente o que
as partes estão exigindo do aluno e, conseqüentemente, o que ele pode estar
oferecendo, dentro de suas limitações. Assim, pode-se avaliar a pressão do meio
sobre este sujeito e como isso está ou não interferindo no seu campo emocional e
de valoração de si próprio.
Neste sentido, Rodrigues (2009) assevera que olhar a queixa trazida pelos
responsáveis (professores, pais e pelo próprio aluno) para o atendimento
psicopedagógico requer um olhar transdisciplinar, construído. Desta forma, esta
construção precisa partir do que já se sabe, isto é, do conhecimento anterior que já
se tem para então construir o presente visualizando o passado com os olhos no
futuro.
Weiss (2002) afirma que no primeiro encontro o principal elemento de
conduta entre terapeuta, paciente e família é o de confiança. Por isso, deve-se
traçar uma situação de conforto, onde o psicopedagogo necessita se valer de
estratégias de ação que propiciem o paciente a se sentir à vontade para interagir
com a nova situação à qual está sendo submetido. Quanto a este ponto Rodrigues
(2009, p. 3) expõe que:

Sempre que pensamos em diagnóstico psicopedagógico temos que saber


ouvir o que o outro tem a dizer, não podemos ter respostas prontas, não
existe um caso igual ao outro, existem situações, que com a experiência
conseguimos fazer a pergunta mais apropriada para aquele momento.

Especificamente quanto à psicopedagogia institucional Neves (2009, p. 1),


afirma que:

É auxiliando na identificação dos problemas no processo de aprender, é


lidando com as dificuldades de aprendizagem através de instrumentos e
técnicas específicas através da articulação de várias áreas, que o
psicopedagogo interfere na aprendizagem. Apoiando-se em pressupostos
científicos da Psicanálise, Epistemologia, Genética, Psicologia Social, da
Lingüística... que a Psicopedagogia Institucional busca suporte para
responder aos sintomas da problemática de ensino-aprendizagem.
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Segundo Carlberg (1998), o psicopedagogo institucional faz seu diagnóstico


de forma semelhante ao proposto pela psicopedagogia clínica, envolvendo os
seguintes fatores: queixa, contrato, enquadramento; Entrevista Operativa Centrada
na Aprendizagem (E.O.C.A.); primeiro sistema de hipóteses; seleção dos
instrumentos de pesquisa; segundo sistema de hipóteses; seleção de instrumentos
de pesquisa complementares (quando necessário); linha de pesquisa para
anamnese; informações complementares; terceiro sistema de hipóteses ou hipótese
diagnóstica com indicações e prognóstico; devolutiva e informe psicopedagógico.
Apesar de valerem-se de práticas semelhantes, a psicopedagogia clínica e a
psicopedagogia institucional diferem em determinados aspectos. Carlberg (1998),
destaca que a principal destas diferenças é a primeira entrevista (E.O.C.A.), onde a
psicopedagogia institucional prevê uma aproximação ao objeto de estudo de
maneira a perceber o que o indivíduo sabe e, não simplesmente, o que o sujeito
não sabe, como ocorre na psicopedagogia clínica. Este saber é relativo à
operatividade do educando, objetivando pesquisar a dinâmica, a temática e o
produto em si. A intenção não é a pesquisa isolada desses aspectos, mas sim sua
articulação e seu significado.
Em conclusão, pode-se afirmar que as dificuldades de aprendizagem
revelam-se um problema marcante da Educação no Brasil. Desta forma, torna-se de
todo necessário que os profissionais da educação busquem soluções capazes de
reverter este quadro. Neste sentido, a psicopedagogia mostra-se de extremo valor,
uma vez que investiga, analisa e estuda os problemas de aprendizagem de
determinado aluno na sua origem, isto é, no diagnóstico do aluno em questão e nas
suas relações com a escola e a família.

REFERÊNCIAS

BOSSA, Nádia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática.


Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

CARLBERG, Simone. Psicopedagogia Institucional: uma práxis em construção.


Disponível em: www.abpp.com.br/abppprsul/artigos/>. Acesso em: 23 set. 2009.
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LOPES, Shiderlene Vieira de Almeida. O processo da avaliação e intervenção em


Psicopedagogia. Curitiba: Ibpex, 2008.

NEVES, Marinalva dos Santos. Quem é o psicopedagogo institucional numa


instituição de nível superior? Disponível em:
<http://www.Psicopedagogia.com/articulos/?articulo=405>. Acesso em: 23 set. 2009.

RODRIGUES, Judite Filgueiras. Diagnóstico pedagógico na escola. Ago. 2009.


Disponível em:
<http://www.pedagobrasil.com.br/pedagogia/diagnosticopsicopedagogico.htm>.
Acesso em: 23 set. 2009.

WEISS, Maria Lúcia Lemme. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos
problemas de aprendizagem escolar. 9. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.