O Comportamento Perigoso

da Vítima e a Decisão Racional
do Agressor como Influência
nos Crimes Letais Violentos
Intencionais1

César de Sousa Almeida
Glauciney Faleiro da Silva
Raimundo Rocha Medrado Júnior

Resumo: Este estudo analisa dois fatores na ocorrência de um crime letal
violento contra a vida de uma pessoa envolvida com o narcotráfico, a saber:
O comportamento perigoso da vítima, à luz da Vitimologia e a motivação do
potencial agressor, de acordo com a Teoria da Escolha Racional. Examina ainda, a
influência destas variáveis no índice de homicídios computados na Terceira Área
Integrada de Segurança Pública de Goiânia (AISP3), nos três primeiros trimestres
de 2013.
Palavras-chave: Homicídio; tráfico de drogas; vítima e agressor.

Introdução
Dentre os crimes que causam maior repercussão social e
contribuem para a disseminação da sensação de insegurança da
população, destacam-se aqueles classificados como letais violentos
intencionais ou, de maneira bem reduzida, homicídios.
As informações sobre a violência, divulgadas pelos meios de
comunicação, evidenciam o significativo aumento do número dos
homicídios nas regiões metropolitanas de várias unidades federativas,
incluindo o Estado de Goiás.
Por muitas vezes, os agentes formadores de opinião,
especialmente a imprensa, atribuem a responsabilidade pelo aumento
deste índice, unicamente aos órgãos de segurança pública. Entretanto,
não há preocupação por parte destes agentes de aprofundar na análise
dos dados estatísticos, tampouco de se buscar as reais circunstâncias em
que tais crimes aconteceram.

1- Artigo apresentado como um dos pré-requisitos para conclusão do Curso de Análise
Criminal da Secretaria de Segurança Pública de Goiás.

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a fim de se esperar deles um diagnóstico real e a indicação dos verdadeiros responsáveis pelo crescimento desta indesejável cifra. na circunscrição da AISP3 da 1ª RISP (região norte de Goiânia). Esta teoria leva em consideração que. cometidos na Terceira Área Integrada de Segurança Pública (AISP3 . 1 – Metodologia O perfil da vítima pode ser analisado a partir dos conceitos da Vitimologia Criminal. utilizando-se como suporte os conceitos da Vitimologia Criminal. à luz das citadas teorias criminológicas. abordam os aspectos psíquicos e sociais da pessoa. a fim de evidenciar quantos dos homicídios ocorridos na AISP3 tiveram relação com problemas decorrentes do tráfico e uso de entorpecentes. . de forma sistematizada ou não. O objeto da análise foi escolhido em função de sua disponibilidade e facilidade de acesso. foi verificada a influência destas variáveis no aumento do número de crimes letais violentos intencionais. Este trabalho se propõe a analisar a influência destas variáveis (perfil da vítima e motivação do 88 agressor nos crimes com as citadas características. a análise mais aprofundada deve considerar algumas variáveis específicas. não há como se tratar os números como uma massa homogênea. que entre outras questões. Há que se destacar ainda. Já para se estudar a motivação do potencial Tendo necessidade de agir ou mediante uma oportunidade que lhe apareça. bem como pela consulta a fontes abertas. terminando preso por isso.Norte) da 1ª Região Integrada de Segurança Pública (1ª RISP . São dados estatísticos referentes aos homicídios ocorridos na circunscrição da AISP3 da 1ª RISP (região norte de Goiânia). a estreita relação observada entre os atentados contra a vida e os problemas decorrentes do uso e tráfico de entorpecentes. agressor) nos crimes letais intencionais. Por fim. as tentativas realizadas pelo potencial criminoso são calculadas com a finalidade de alcançar seus interesses. Em seguida fez-se a análise do perfil da vítima de homicídio. entre elas.Vários fatores podem desencadear a ocorrência de um crime letal violento intencional. Foi realizada a análise dos dados. Os motivos que levam o agressor a consumar o homicídio podem ser compreendidos por uma análise baseada na Teoria da Escolha Racional. Dessa forma. bem como avaliando os riscos de não ser bem sucedido no seu intento delituoso. Neste tipo de delito.Goiânia). o criminoso. bem como o comportamento perigoso que pode acarretar na sua morte. avalia e julga uma série de variáveis e toma decisões racionais que podem resultar na ação criminosa ou na desistência de cometê-la. nos três primeiros trimestres de 2013. a vertente científica de suporte foi a Teoria da Escolha Racional. Os dados estatísticos utilizados neste estudo foram coletados por meio do acesso à base do Sistema Integrado de Atendimento a Emergências (SIAE) da Polícia Militar do Estado de Goiás. o perfil da vítima e a motivação do agressor que levaram à ocorrência do crime. envolvida com o narcotráfico. julgando o custo x benefício de sua ação.

Para Osmir (2010). Caracterizamse por se expor inconscientemente no papel de vítima. 4. Ex. Vítima mais culpada que o delinquente: diz-se do indivíduo tenta cometer um ato criminoso e acaba sendo morto pela pessoa atacada. as motivações que levam a pessoa à prática do delito agregará elementos para melhor apresentar a maneira de como essa vontade se expressa. inconscientemente se envolve em situações criminógenas. Ex. Nesse aspecto. teria como se furtar. Vítima menos culpada que o culpada quanto o delinquente. por meio de identificação de medidas como o policiamento. a acentuar essa relação de desequilíbrio. Quando se analisa o homicídio relacionado De acordo com Oliveira (2001). Benjamin Mendelsohn realiza a classificação das vítimas. Assim. Contudo.: uma pessoa dominada pelo vício e 1.: vítimas de bala perdida. como do comportamento da vítima. o que determinou a aproximação entre ambos e a permanência e evolução desse estado. isto é. chamando a atenção para si. Ex. Segundo Molina (1997). ao narcotráfico. Vítima unicamente culpada: trata-se das falsas vítimas. Ex. como os impulsos provocados tanto da situação.: Legítima defesa. 2. a vítima se enquadra no perfil em que é menos culpada que o delinquente. em: seja. conhece os riscos delinquente: atrai o ato criminoso ao envolvidos em sua conduta e mesmo assim. Seu objetivo é estabelecer o nexo causal existente na dupla penal (vítima – agressor). em profundidade. 3.1 – Perfil da Vítima à luz da Vitimologia A vitimologia é a ciência que estuda a vítima sob os pontos de vista psicológico e social. construindo assim a parelha penal. onde a vítima não ajuda externa. Ex. ou quanto ao perfil e ao comportamento. Vítima tão culpada quanto o delinquente: se submetem às ações do delinquente por interesse em obter vantagens. precauções de segurança. Comportamento da vítima em relação ao delinquente. Os fatores que levam a vítima a reagir ou não.: indivíduos que frequentam ambientes criminógenos.2 – Desenvolvimento 2. para adquirir objetos contrabandeados ou roubados ou para comprar/consumir drogas. contra aquele que a vitimizou e até mesmo. 4. a iluminação e a neutralização de pontos de vulnerabilidade.: a pessoa que frequenta 89 . a vítima contribuiu para sua concretização. Em outro cenário possível.: pessoa que esconde o carro para receber dinheiro do seguro ou que simula ter sido agredida pelo cônjuge. no delito doloso há evidências da vontade consciente. não toma se comportar de maneira diferenciada. 5. Comportamento do delinquente em relação à vítima. Influência do comportamento da vítima para a ocorrência do evento criminoso. Vítima completamente inocente: que não consegue se desvencilhar do problema sem refere-se à fatalidade. 3. a vítima é tão 2. Ex. destaca-se o estudo dos seguintes pontos: 1. caso haja o evento criminoso neste local. o principal interesse da vitimologia é a prevenção do delito.

até o momento. é possível que seu desequilíbrio financeiro se agrave ainda mais. a escolha de matar parte da necessidade que tem o traficante de garantir a subsistência de seu negócio. a vítima do crime com estas características contribui. determinada a autoria do crime. Porém. Quando um usuário não conseguia quitar as dívidas do tráfico.2 – A Motivação do Agressor à luz da Teoria da Escolha Racional Grande parte dos homicídios ocorridos na circunscrição da AISP3. de origem lícita ou não. abordada por Almeida (2013). na aquisição de entorpecentes para ser revendidos a usuários de drogas do local (território) em que possui influência. onde a consumação do crime se dá por um impulso ou reação instintiva.34). O traficante se mostra como uma pessoa que investe determinado capital. nas suas próprias tragédias. Dentro do enfoque econômico. espera obter o maior retorno possível do seu investimento. financeiras. Portanto. Desta forma. o traficante de drogas tem como seu último recurso. Porém. a fim adquirir ou consumir entorpecente. revendendo drogas a outros viciados. não possuem.locais sabidamente criminógenos. o tráfico de drogas pode ser comparado com a atividade comercial formal. apesar do ato ilegal que pratica. como relata Almeida: 2. em entrevista concedida ao Jornal De Fato . sistematizada ou não. 2013. Neste contexto é comum que os usuários contraiam dívidas. Se ainda assim. que considera aspectos como o benefício econômico. O comportamento perigoso da pessoa envolvida com o tráfico de drogas induz a ação criminosa de seu algoz. p. Diferentemente do que ocorre em outras modalidades de homicídios. em que figura como vítima a pessoa envolvida com o narcotráfico. é comum o inadimplente começar a atuar como preposto de seu credor. De acordo com a Teoria da Escolha Racional. O principal fator de motivação. de forma consciente ou inconsciente. para que ele venha a cometer o homicídio é o efeito pedagógico que este delito causa. a decisão de cometer um crime perpassa por uma análise. além de suas capacidades 90 Outra prática era ligada aos acertos de conta. Segundo Lima (2009). Conforme relata Armando Lúcio Ribeiro. recebia como punição a tortura e um prazo para efetuar o pagamento. Promotor de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte. levantamento preliminar das investigações indicam traficantes de drogas como potenciais autores destes crimes. o assassinato cometido pelo traficante de drogas decorre de uma escolha racional. o risco de ser preso e as oportunidades fornecidas pelo ambiente. a punição era a morte (Almeida. assassinar o usuário devedor. Como um investidor. nos três primeiros trimestres do ano de 2013. perfil deste tipo de delinquente será adotado para análise dos fatores racionais que podem motivar a consumação do crime contra a vida. Na tentativa de quitar o débito. não conseguisse sanar seus dividendos com o tráfico. Caso a dívida se torne impagável.

Nesta mesma linha. demonstra aos seus concorrentes. não foi possível determinar seu o perfil. Comprovou-se que 48% dessas vítimas possuía envolvimento com o mundo das drogas. necessárias para desvendar a autoria. mal iluminadas. Em relação ao risco envolvido na sua ação. Diante deste cenário.(2013). o traficante utiliza o fato para reforçar sua ascendência sobre os demais usuários e minimizar prejuízos futuros. o ambiente fornece ao potencial homicida a oportunidade de agir com reduzido risco de insucesso. principalmente pela falta da prova testemunhal. Neste ambiente a presença de força polical é facilmente percebida e desta forma. o potencial assassino do mundo das drogas avalia como é a presença e influência das forças de segurança no seu território. o criminoso consegue notar e evitar a presença de força policial que transite pelo local. Outros 9% estavam envolvidas em rixa e 5% foram vítimas de crime passional. Já o trabalho dos órgãos investigativos é bastante prejudicado no homicídio com este contexto. um fator de fácil administração pelo delinquente. de fácil acesso e com boas rotas de fuga. Os detalhes da ocorrência e o perfil da vítima do homicídio foram descobertos pela leitura do histórico de cada ocorrência.3 – O crime letal violento intencional na AISP3 Pela coleta de dados realizada no Sistema Integrado de Atendimento de Emergência (SIAE) pôde se constatar que ocorreram 42 (quarenta e dois) crimes letais violentos contra a vida na circunscrição da AISP3. Dessa forma. bem como para indiciar. pode se dizer que é bastante reduzido o risco envolvido no assassinato de uma pessoa pelo narcotráfico. As vítimas geralmente pernoitam desabrigadas em praças e vias públicas. No local com estas características. nos três primeiros trimestres de 2013. Sabe-se que o arcabouço do Estado é insuficiente para atender às demandas de segurança da população de áreas dominadas pelo tráfico. 25% delas possuíam antecedente criminal. o poder intimidatório exercido pelo traficante inibe a apresentação de testemunhas. bem como pela consulta a outros bancos de dados disponíveis e a fontes abertas. somado ao senso comum de impunidade. Se o traficante executa seu devedor. eliminar o inadimplente demonstra não ser vantajoso ficar em débito com o fornecedor de drogas. 2. julgar e a decisão de agir por parte do “traficante-homicida”. Dessa forma. A tabela abaixo evidencia os números apurados: A análise geográfica do ambiente onde ocorre o tráfico e consumo de drogas. a estrutura dos órgãos responsáveis por investigar os crimes e a existência de testemunhas que podem incriminá-lo. Sabe-se apenas que condenar o homicida. normalmente favorece 91 . que será igualmente intolerante a quem se opuser aos seus interesses. o uso da violência favorece o domínio e defesa de seu território. Segundo Rodrigues (2005). Quanto às demais.

no período de janeiro a setembro de 2013. contribuindo na sua própria tragédia. de alguma maneira. Em quase metade dos assassinatos cometidos na AISP3. especialmente os ocorridos na circunscrição da AISP3. a saber: o comportamento da vítima e a decisão racional do agressor. especialmente os órgãos de imprensa. a responsabilidade pelo aumento dos índices de criminalidade. o crime letal violento contra a vida gera grande repercussão social e contribui para criar na população em geral uma sensação de insegurança. não se pode desconsiderar o efeito que causa o problema das drogas no crescimento do índice de homicídios. Para que se consume o crime com estas características. dois fatores são preponderantes. a ação criminosa de seu algoz. costumam atribuir às forças de segurança. Entretanto. comprovou-se que a vítima estava envolvida. perpassa por uma análise racional. Apurou-se que o comportamento da pessoa vinculada ao narcotráfico pode ser tão culpável quanto ao do agressor. verificou-se que a decisão do traficante de cometer o homicídio.Tabela 1 – Homicídios na AISP3 – 1º ao 3º trimestres de 2013 PERFIL DA VÍTIMA QTD % Envolvida com Entorpecentes 20 48% Envolvida em Rixa 4 9% Envolvida em Crime Passional 2 5% Envolvimento não Determinado 16 38% Total de ocorrências no Período: 42 100% Fonte: Integrado de Atendimento de Emergência. Considerações Finais Diversos setores da sociedade. envolvendo aspectos 92 . consciente ou inconsciente. A vítima nesta situação induz. com o tráfico de drogas. Também. Dentre a variedade de crimes cometidos.

maio 2005. UFMG. risco de ser preso e oportunidades ocasionadas pelo ambiente. Italo Bernardes. Edmundo. Pablos de. Antônio G. Sérgio Luiz Bezerra de. por considerar positiva a relação “custobenefício” de sua ação. FIORELLI. Acesso em 20 de novembro de 2013. n. 1997. Análise da relação entre tráfico de drogas e crimes violentos na cidade de Teófilo Otoni – MG. Referências Bibliográficas ALMEIDA. JORNAL DE FATO. Dessa forma.econômicos. Rio Grande. Vitimologia e Direito Penal: O crime precipado pela vítima. normalmente o traficante-homicida opta por agir. Acesso em 20 de novembro de 2013.Ed. Acesso em: 20 de novembro de 2013.ambitojuridico. Disponível em http://biblioteca. Disponível em: http://www.br/site/index. São Paulo: Revista dos Tribunais. Autor e Vítima de Homicídio em Pé: Uma Comparação.ufmg. LIMA. 2001. Disponível em: http://www2. 13/09/2013. 93 . OLIVEIRA. 21. 2.youtube. 2ª ed. 2. Paulista(PE).igc.com/watch?v=uaSCwG_wA68. In: Âmbito Jurídico. José Osmir.pdf. 2013. forumseguranca. org. Francisco César Pinheiro.. MOLINA. Criminologia. Traficante Usa Homicídio como Meio Pedagógico. VIII. 2010 GOMES. Psicologia Jurídica. São Paulo: Atlas.ed. Disponível em: http:// www. Criminalidade e Proteção às Testemunhas: Breves Considerações Sobre a Pena de Morte. Luis Flávio.br /monografias/ Geografia/2013/italo/geo27. Acesso em: 17 de novembro de 2013. RODRIGUES. php? n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=561. desencadeadas pelas forças de segurança e pelos responsáveis por políticas públicas. 17/05/2009.com. Rio de Janeiro: Forense.br/node/22614. Quando considera estas variáveis. o comportamento perigoso da vítima e a decisão racional do agressor adquirem grande relevância na análise criminal e não podem ser ignorados nas ações para prevenção e repressão aos crimes letais violentos contra a vida.

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