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TCC 1º Pesquisa Victor Vinícius 3º Sargento A

Os crimes de porte ilegal de arma de fogo. Breve estudo dos tipos penais dos artigos 14 e
16 do Estatuto do Desarmamento

Elucidam-se alguns pontos, tais como o que configura e o que não configura crime, má Fe um
estudo conjunto da atual legislação brasileira de armas de fogo.

No Brasil, desde Dezembro de 2003, está em vigência a Lei 10.826/03, apelidada de “Estatuto
do Desarmamento”. Este “nome” se devia principalmente ao texto do art. 35, que foi invalidado
pelo Referendo Popular de 2005, mas que, se estivesse vigente, marcaria a nação pelo fim da
produção e comercialização de armas no Brasil – situação que atingiria toda a população civil,
exceto os CACs (Colecionadores, atiradores e caçadores registrados perante o Exército
Brasileiro).

Ao contrário do que foi plantado no imaginário popular, esta lei não surtiu nenhum ou quase
nenhum efeito desarmamentista – as melhores estatísticas falam a respeito da entrega de
aproximadamente 600 mil armas nas seguidas campanhas do Governo Federal1, de um universo
de mais de 15,2 milhões de armas em mãos de civis (considerando apenas o que foi levantado
pelo poder público, a partir de estimativas de antigas bases de dados anteriores à criação do
SINARM, e registros do próprio SINARM). O Governo estima que deste total, 8,5 milhões
encontravam-se ilegais em Dezembro de 2015, contra 6,8 de armas “legais” (que foram levadas
para registro no SINARM). Ocorre que contra estas pouco mais de 600 mil armas entregues,
mais de 250 mil armas foram registradas no SINARM desde a entrada em vigor da Lei
10.826/2003, com o número de registros concedidos acelerando a cada ano. Nossa experiência
mostra que grande parte, senão a maioria das armas entregues mediante indenização eram armas
imprestáveis ou feitas em “fundo de quintal” exclusivamente para “entrega” mediante
indenização, sendo pequeno o número de armas realmente entregues por cidadãos, em sua
maioria idosos que temiam represálias do governo. A não entrega e não recadastramento das
armas de fogo na vigência da Lei 10.826/2003 deve ficar registrada como o maior ato de
desobediência civil jamais ocorrido em toda a nossa história.

Assim como o desarmamento nunca ocorreu de fato, ao estudarmos os tipos penais da Lei
10.826/2003, veremos que as condenações que ocorreram até o presente o forma por motivos
puramente ideológicos, sem suporte legal. Tentaram fazer a mais dura lei desarmamentista que
chega ao nosso conhecimento, mas hoje a lei não tem poder de punir um traficante com um
poderoso fuzil, como se verá adiante. Só quem foi desarmado foi o cidadão comum, que teve a
aquisição indeferida por um delegado federal, sob a falsa alegação de ele não logrou
COMPROVAR efetiva necessidade (a lei, o regulamento, e até as instruções normativas da
Polícia Federal falam em DECLARAR, não COMPROVAR).

O que se pretende estudar neste momento, é especificamente os crimes de porte ilegal de armas
de fogo, consubstanciados nos artigos 14 e 16 da referida lei.
Primeiramente, é importante anotar que existe no caput do art. 6o uma proibição genérica ao
porte de armas, ou seja, desde dezembro de 2003 o porte de armas é proibido em todo o Brasil,
EXCETO para os casos previstos em lei federal, e para as pessoas listadas nos diversos incisos
do artigo sexto.

Isto é relevante, porque temos, então, pessoas a quem o porte de armas é proibido (todos), e
pessoas a quem o porte de armas NÃO É PROIBIDO (aqueles com porte de armas previsto em
lei federal, e os listados nos incisos do art. 6o ). Isto irá se refletir diretamente na análise dos
crimes aqui estudados. Pode parecer insignificante, mas a maioria dos operadores de Direito
desconhecem a segunda e terceira parte do caput do art. 6o da Lei 10.826/2003.

O texto do art. 6o é o seguinte:

É proibido o porte de arma de fogo em todo o território nacional, salvo para


os casos previstos em legislação própria e para:

Lê-se da seguinte maneira: O porte de armas no Brasil é proibido para todos, EXCETO os casos
previstos em lei, e para as pessoas listadas nos incisos a seguir. E segue a lista de incisos, com
todas as pessoas NÃO PROIBIDAS de portar armas de fogo.
Os casos previstos em lei são os magistrados (LOMAN), o Ministério Público (Leis orgânicas
do MP), e os oficiais das três armas (Estatuto do Militar).

Os dois artigos que tratam os crimes de Porte Ilegal de Arma de Fogo se distinguem
fundamentalmente pelo art. 14 tratar de armas de calibre PERMITIDO, e o art. 16 tratar de
armas de calibre RESTRITO. Esta definição não consta da lei, mas sim do R-1052, que é o
decreto 3.665/2000. Ocorre que as partes do R-105 que fazem estas definições não foram
recepcionadas pelo art. 23 da Lei 10.826/2003, que determinou que se faça nova reclassificação
e definição, o que nunca aconteceu até o presente momento. Desta forma, não temos sequer
definição do que é arma de fogo, para fins penais.

O QUE É PERMITIDO OU RESTRITO?


O art. 23 da Lei 10.826/2003 tem o seguinte teor, conforme disposto na Lei 11.706/2008:

A classificação legal, técnica e geral bem como a definição das armas de


fogo e demais produtos controlados, de usos proibidos, restritos, permitidos
ou obsoletos e de valor histórico serão disciplinadas em ato do chefe do
Poder Executivo Federal, mediante proposta do Comando do Exército

O primeiro ponto a se observar: a ordem está para o tempo futuro, o que implica que a Lei
10.826/2003 não recepcionou a classificação existente, ou seja, o R-105 de 2000.

O que não está definido ou classificado atualmente?


 Armas de fogo, em geral;
 PCE3s de uso proibido;
 PCEs de uso permitido;
 PCEs de uso restrito;
 PCEs obsoletos;
 PCEs de valor histórico.

DA NORMA PENAL EM BRANCO HETEROGÊNEA

Os tipos penais da Lei 10.826/2003 são normas penais em branco, ou seja, dependentes de tal
classificação. Então, a primeira questão necessária para se compreender se o fato material se
amolda a um dos dois tipos, é observar o OBJETO, e obter a partir da leitura do Dec.
3.665/2000 se se trata ou não de PCE, e sendo, se é qualificado como restrito ou permitido.
Enquanto não existir esta classificação, não se pode falar em crime, porque não é possível
observar-se o OBJETO, e, com fulcro no art. 23, determinar se se trata ou não de arma de fogo.

É a mesma coisa que acontece com a Lei de Drogas, Lei 11.343/2006, artigo 1o, parágrafo
único:
Para fins desta Lei, consideram-se como drogas as substâncias ou os
produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou
relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da
União.

E todos sabemos que o que não está classificado nas “listas atualizadas”, não é considerado
como drogas, para fins penais. Alguém pode hoje a tarde inventar uma substância que tenha
mais poder alucinógeno do que as atualmente listadas, mas se a produzir e comercializar sem
que o seu princípio ativo esteja listado, não estará cometendo crime. Via reversa, o que a
ANVISA retirar da lista, não será considerado como substância proibida, e não haverá crime da
Lei de Drogas em relação a isto.

Atentem ao fato de poderem existir portarias, instruções normativas, etc., qualificando este ou
aquele objeto como permitido ou restrito, mas a lei é imperativa, onde no art. 23 se restringe a
classificação a DECRETO LEGISLATIVO (ato do Poder Legislativo realizado por provocação
do Exército Brasileiro). Nada fora de decreto presidencial POSTERIOR à entrada em vigor da
Lei 10.826/2003 pode classificar PCEs, muito menos para fins penais. Como o art. 23 determina
que se faça nova classificação e definição, então não há definição, e como resultado, no presente
momento NÃO HÁ CRIMES DE ARMAS DE FOGO EM NOSSO PAÍS.

Exatamente isso. Discute-se revogar a Lei 10.826/2003, quando na verdade ela não teve
nenhuma efetividade legal em seus 13 anos de vigência. Reitero, as muitas condenações
existentes em nosso país ocorreram por motivos ideológicos, onde a IDEIA de desarmamento se
sobrepôs ao estudo mais singelo da lei e dos tipos penais.
De qualquer forma, continuaremos o estudo, sob a hipótese da existência de tal classificação,
ainda que em tempo futuro.
PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO DE USO PERMITIDO

Como já vimos, está ausente a necessária definição de ARMAS DE FOGO, e especialmente de


ARMAS DE FOGO DE USO PERMITIDO. Prossigamos. O primeiro objeto de nosso estudo, é
o art. 14:

Portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que
gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda ou ocultar arma de fogo,
acessório ou munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo com determinação
legal ou regulamentar:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.
Parágrafo único. (julgado inconstitucional pelo STF)

Os verbos nos remetem a condutas, e por serem bastante simples, não vou me alongar, bastando
a comentar alguns deles. Para não me repetir, já adianto que as definições se amoldam tanto no
art. 14 quanto no 16, onde no art. 14 os crimes dependem de os itens serem classificados como
PERMITIDOS, e no art. 16 os itens devem ser classificados como proibidos ou restritos.
Portar – é trazer consigo a arma, fora de seu domicílio, conforme disposto no art.
5o e 12o. Não existe o tipo penal “portar municiado”, ou “portar desmuniciado”,
trata-se de conduta de perigo abstrato, inclusive porque uma arma de fogo, mesmo
descarregada, pode se prestar a render uma vítima ou um criminoso4 ou seja, existe
sim potencial ofensivo em uma arma desmuniciada. Também não existe nenhuma
diferença, em nosso ordenamento jurídico, se a arma se encontra no coldre do autor
dos fatos, em mãos, ou desmontada no porta malas do seu veículo – o fato material
é a arma estar FORA DO DOMICÍLIO. Lembrando que o porte apenas de munição
incide no tipo, ou seja: Configura-se o crime com a arma desmuniciada, municiada,
ou apenas com a munição. Da mesma forma, não existe autorização para portar
arma desmuniciada – ou a pessoa está autorizada para estar com a arma, ou não
está5.

Deter, manter sob sua guarda, ter em depósito – novamente, o verbo nos remete
ao conceito de “conservar em seu poder6”, e aplica-se integralmente o que se diz a
respeito de Portar. Se a arma estiver no domicílio do autor dos fatos, o crime não é
o do art. 14, mas sim o do art. 12, mesmo que a arma seja ilegal, mas desde que não
se amolde ao tipo do art. 16. Se a arma estiver sob sua guarda com fins comerciais
ou profissionais e sem o cumprimento das formalidades legais, o crime será o do
art. 17.

Adquirir, receber, fornecer – estes são verbos que, na maioria das vezes, são de
difícil aplicação. Se o policial presenciar a aquisição de uma arma ilícita, é muito
provável de que se tratará de hipótese de flagrante preparado, caso contrário já teria
sido dada ordem de prisão a quem vendeu a arma – que era ilegal. Se, no entanto, o
flagrante configurar o crime de aquisição, haverá o crime de fornecer arma de fogo
(ou munição) para quem forneceu o produto, cada um com um agente distinto.
Estes crimes só se configuram caso se demonstre que não se trata de atividade
comercial, mesmo que irregular, pois o comercial ilegal é tratado no art. 17o. Um
exemplo da aplicação deste crime, seria a venda de munição recarregada.

Ceder ou emprestar – comete este crime quem, apesar de ter a posse e ou o porte
legais, permite que terceiro não autorizado entre na posse, ainda que precária, da
arma ou munição. Difere-se da situação de quem fornece, pois aqui não existe a
onerosidade nem permanência. Importante salientar que ceder ou emprestar arma a
criança ou adolescente é crime mais grave, previsto no art. 16o Inc. V. O ato de
ceder a arma durante instrução por instrutor devidamente credenciado na Polícia
Federal ou com a atividade de instrução devidamente apostilada em seu CR é
atípico, pois a utilização da arma pelo alunos nestas condições é da essência da
atividade exercida. O mesmo acontece com pessoas dentro de estandes vistoriados
pela Polícia Civil, ou CACs dentro de estandes com CR do Exército Brasileiro –
para o primeiro, é necessário que a arma tenha chegado ao estande acompanhada
de porte de armas ou guia de trânsito, no segundo, é necessário que a arma tenha
chegado ao local acompanhada de Guia de Trânsito ou GTE. Armas das
instituições de instrução e entidades desportivas só existem com a finalidade de
serem utilizadas pelos alunos ou associados.
Este crime é muito mais comum e corriqueiro do que se imagina, e é
frequentemente cometido em conjunção com os verbos “ter em depósito” e ou
“manter sob sua guarda”. Quando alguém que tem o porte de armas do art. 10, por
ser proibido de entrar em um restaurante com sua arma, a deixa em seu carro, e
entrega o veículo para um valete, o autorizado a portar a arma está cometendo o
crime de ceder a arma, e o valete está cometendo o crime de porte ilegal de arma de
fogo, por estar mantendo a arma sob sua guarda. O mesmo acontece quando se
deposita a arma em um armário na entrada de um banco – neste caso, o agente que
recebe a arma sob sua guarda ilegalmente é o gerente do banco, a menos que a
arma esteja sendo depositada em cofre devidamente vistoriado pelo Exército
Brasileiro.

Remeter – este é o crime mais comum, e comete-se este crime principalmente


violando-se o disposto no art. 165 do Decreto 3.665/2000. Vou dar um exemplo:
Qualquer cidadão maior de 18 anos de idade pode adquirir uma luneta com
aumento até 6X e objetiva até 36mm. Ótimo. As pessoas acham que por este item
não ter o mesmo controle de uma arma de fogo, que não há controle algum. Errado.
Trata-se de uma PCE categoria de controle I, não há isenção de GT para este item
(art. 174 do R-105), e como tal, seu transporte depende da competente autorização.
Assim, o simples fato de se enviar uma luneta das mais comuns desacompanhada
da autorização de transporte, configura o crime do art. 14, porque o tipo
compreende ACESSÓRIOS, não apenas arma de fogo e munição. Se o item
enviado fosse uma carabina a arma comprimido, por não se tratar de arma de fogo
nem de acessório, o crime não estaria caracterizado. No entanto, se a carabina
estiver apostilada no CR, a questão pode gerar punição administrativa.

Transportar – o verbo transportar, no âmbito da legislação brasileira de armas de


fogo, e analisando-se historicamente o R-105, diz respeito à condução de material
de terceiros. O cidadão vai até o aeroporto com sua arma, ele está portando a arma.
Ele entrega sua arma na companhia aérea, que irá conduzi-la até o destino – a
empresa está transportando a arma. Quando o cidadão recebe novamente sua arma
no destino, está novamente portando-a. Não importa que em todos os momentos a
arma estivesse desmontada e dentro de uma embalagem, é esta a diferença entre
porte e transporte. Então só comete o crime de transportar aquele que conduz,
profissionalmente, arma de fogo, acessório ou munição de terceiro, desde que este
transporte se faça ilegalmente – a ilegalidade será analisada mais a frente, neste
artigo, e necessita que se somem a ausência de autorização mais a violação da lei
ou regulamento.

Porte e transporte são atividades distintas, tratadas de forma diferenciada no


Dec.3.665/2000, e seria um erro crasso se confundir as duas atividades. Infelizmente
existem pessoas que, sem se dar ao trabalho de estudar suficientemente o assunto,
confundem os dois institutos, com graves consequências jurídicas.

Empregar – dia 02 de outubro de 2015, ladrões atiraram contra dois policiais, um


cidadão comum se aproximou para ajudar um dos policiais caídos, tomou a arma
do policial e continuou o fogo contra os bandidos7. Pela leitura fria do tipo penal, o
cidadão responderia pelo fato de empregar arma de fogo (no caso, a arma do
policial provavelmente era de calibre restrito, e isto nos remeteria ao art. 16). Não
vou mencionar o crime de disparo em área urbana, porque não é o objetivo deste
trabalho. Pela atual mecânica de nosso direito penal, as excludentes de ilicitude
salvariam POSTERIORMENTE o cidadão, inclusive porque qualquer pessoa sob
situação de risco própria ou de terceiro, tem o direito de se utilizar dos meios ao
seu alcance para sua defesa – o que, obviamente, inclui uma arma de fogo. Mas o
termo empregar diz respeito justamente a esta situação – a pessoa não possuía uma
arma de fogo e sua munição, nem muito menos a portava. Teve acesso ao objeto
exclusivamente no momento dos fatos, e a utilizou. Se a tivesse utilizado para a
prática de outro crime, muito provavelmente o fato de empregar a arma de fogo
seria o crime meio, onde em não se tratando de agravante, provavelmente ocorreria
uma hipótese de consunção. Este é o tipo penal pensado exclusivamente sob a ótica
do desarmamento da população, e nenhum meliante jamais perderia um segundo
sequer para pensar nas consequências do crime aqui referido, pois, reitero, este
crime seria absorvido pelo crime-fim. Este é um tipo penal que visa
exclusivamente criminalizar o acesso ao meio de defesa.
Ocultar – ocultar uma arma de fogo é um crime que geralmente é acessório de
outro. Assim, por exemplo, um bandido em fuga atira sua arma em um matagal, ou
a esconde em um buraco. Para se caracterizar este crime, é necessário que a
ocultação seja ilícita. O cidadão que tem uma arma registrada (SINARM) ou
apostilada (no SIGMA se registram armas uma única vez, depois apenas se
apostilam em mapas nas aquisições ou transferências) e decide ocultá-la para fins
de segurança do próprio objeto, prevenindo-se de eventual furto ou roubo, não
comete tal crime, aliás, tratar-se-ia de crime impossível, de vez que existe
averbação pública do endereço da guarda da arma, acessório ou munição. Se o
mesmo ato for praticado com um objeto ilícito, por exemplo, uma arma não
apostilada, ou uma munição que não se adéque a nenhuma arma do agente, ao ser
localizado o objeto, estará configurado o crime. Deixar de entregar arma para
perícia após seu uso pode, hipoteticamente, caracterizar este crime, mas já existe
Projeto de Lei8 em andamento para corrigir este absurdo, pois é justamente após
necessitar utilizar sua arma que a pessoa fica mais vulnerável – comparsas do
criminoso abatido, ou parentes vão estar no calor das emoções, e irão tentar
vingança, mesmo que a primeira ação tenha sido justa. Se a pessoa se negar a
entregar a arma para perícia, estará cometendo o crime de ocultação de arma de
fogo, crime este que, neste caso, será absorvido pelo princípio da consunção pelo
crime principal, mesmo em caso de absolvição do agente por alguma excludente de
ilicitude.

POSSE OU PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO DE USO RESTRITO

O caput do artigo 16 se assemelha muito ao do artigo 14, mas compreende também o verbo
POSSUIR. Isto significa que, ao contrário do que acontece com as armas de calibre permitido,
neste caso o simples fato de se ter dentro de seu domicílio uma arma de fogo, acessório ou
munição de calibre proibido ou restrito não aponta para o crime do artigo 12, mas sim para este
do artigo 16, cuja pena é mais grave. Os verbos restantes do caput foram analisados no art. 14.

Além dos crimes do caput, existem também os verbos dos incisos I a VI, conforme segue:

I - suprimir ou alterar marca, numeração ou qualquer sinal de identificação de arma de fogo ou


artefato;
Aqui não se trata apenas de arma de calibre restrito ou proibido, mas de qualquer ARMA DE
FOGO OU ARTEFATO, não ficando claro do que se trataria a palavra “artefato”. Imagina-se se
tratar de objeto equivalente a arma de fogo, mas este é, sem dúvidas, um texto de péssima
qualidade.

II - modificar as características de arma de fogo, de forma a torná-la equivalente a arma de fogo


de uso proibido ou restrito ou para fins de dificultar ou de qualquer modo induzir a erro
autoridade policial, perito ou juiz

Aqui se trata de modificações específicas, de forma a que uma arma de calibre permitido
adquira características de outra semelhante, mas de calibre restrito ou proibido. Um exemplo
bastante comum, é uma pequena usinagem realizada em armas no calibre .38 SPL, de forma a
receberem cartuchos de munição .357 Magnum. Em algumas armas isto é até possível do ponto
de vista técnico, ou seja, a arma consegue suportar as pressões da carga maior, mas na quase
totalidade das vezes tais modificações colocam até o operador da arma em risco. É necessário
que tal modificação seja de calibre permitido para restrito ou proibido, ou que a modificação
seja totalmente oculta, de forma a tentar dificultar ou induzir as autoridades relacionadas a erro.
Se a modificação for para outro calibre permitido, ou se for visível, ou seja, se não houver a
tentativa de induzimento a erro, o crime não se configura. Um caso de modificação oculta, é
seletor de rajadas para armas semiautomáticas – mas isso seria facilmente perceptível para o
perito.

III - possuir, detiver, fabricar ou empregar artefato explosivo ou incendiário, sem autorização ou
em desacordo com determinação legal ou regulamentar

Qualquer um dos verbos deste inciso, que são claros e não dão margem a interpretação, incidem
na mesma pena do caput. Perceba-se novamente a referência a determinação legal ou
regulamentar.

IV – portar, possuir, adquirir, transportar ou fornecer arma de fogo com numeração, marca ou
qualquer outro sinal de identificação raspado, suprimido ou adulterado;

Este inciso se refere às armas com numeração ou sinais de identificação raspados. Se o agente
praticar algum dos verbos deste inciso, mesmo com uma arma de calibre permitido, novamente,
incidirá nas penas do caput.
V – vender, entregar ou fornecer, ainda que gratuitamente, arma de fogo, acessório, munição ou
explosivo a criança ou adolescente

Neste inciso incide qualquer um que permitir que criança ou adolescente tenha acesso ou utilize
armas de fogo, acessório, munição ou explosivo. Como o tipo é por demais aberto, estaria
incidindo neste crime quem praticasse um dos verbos mesmo com uma simples luneta de uso
permitido que estivesse em uma arma de pressão, ou com uma bombinha de festas juninas?
Qual a extensão deste tipo penal? De qualquer forma, hoje já está suficientemente claro que
adolescentes podem praticar o Tiro Desportivo, mediante CR do Exército Brasileiro, com alvará
judicial. Curiosamente isto vem no Decreto 5.123/04, art. 30, § 2o, contrariando o disposto no
tipo penal aqui em análise, bem como o contido no Estatuto da Criança e do Adolescente, Art.
242 da Lei 8.069/1990.

VI - produzir, recarregar ou reciclar, sem autorização legal, ou adulterar, de qualquer forma,


munição ou explosivo

No Brasil munições, pólvoras e espoletas só podem ser produzidas por empresas devidamente
autorizadas pelo Exército Brasileiro, que recebem um documento denominado Título de
Registro – TR. Fora isso, é necessário apostilar-se a atividade de recarga de munições, tanto
para CACs como para entidades autorizadas para recarregar munições, sendo que, em qualquer
caso, às pessoas autorizadas é terminantemente VEDADO o comércio de munição recarregada.
Em algumas modalidades desportivas de tiro é necessário se fazer modificações específicas,
com alteração do estojo da munição, carga, projétil, etc. Se esta modificação não estiver
devidamente apostilada no registro da arma, o proprietário, o possuidor ou o utilizador da arma
estará cometendo o crime aqui analisado.

ELEMENTARES CONDICIONANTES DO TIPO PENAL

Tanto o art. 14 quanto o art. 16 tem condicionantes que precisam ser cumpridas, antes que se
configure o Tipo Penal. Na ausência de uma ou mais condicionantes, não existe o crime.
Em um primeiro momento temos os doze verbos, que são as condutas. E no final temos duas as
condicionantes que devem estar presentes simultaneamente, a fim de que a conduta seja ilícita:
I – o agente deve estar SEM AUTORIZAÇÃO e;
II – O agente de estar violando a lei (Lei federal, exclusivamente, por se tratar de
matéria penal) ou o seu regulamento (a Lei 10.826/2003 é regulamentada pelo
Decreto 5.123/049, mas, por extensão, considera-se o disposto no Decreto
3.665/2000, exceto as definições e classificações, revogadas pelo art. 23 da Lei
10.826/2003).
A violação destas duas condicionantes deve ocorrer simultaneamente, ou seja, a pessoa deve
estar sem autorização MAIS estar descumprindo a lei ou o regulamento.

Sim, percebam que existe uma conjunção aditiva “e” entre a primeira e a segunda
condicionante. Deste modo a pessoa que estiver com autorização mas descumprindo a lei ou o
regulamento não comete o crime, da mesma forma que aquele que estiver sem autorização mas
cumprindo a lei e o regulamento. Isto é importante, e tem uma aplicação prática no cotidiano,
como veremos a seguir.

Vamos ver um exemplo de quem pratica o ato (verbo) mas não comete crime? Os membros das
Forças Armadas, ao conduzirem armas por todo o país. Um soldado do Tiro de Guerra empunha
um fuzil e marcha pelas ruas da cidade. Eles não tem autorização, não tem documento de porte
de arma, e se alguém for procurar, não existe nenhuma folha de papel de registro daquela arma.
No entanto, não há crime, pelo simples fato de que aquele soldado NÃO É PROIBIDO de portar
arma de fogo – art. 6o, Inc. I da Lei 10.826/2003. O policial porta sua arma em condições
próximas disso, com limitações do Dec. 5.123/03, mas sem cometer crime, por conta do
disposto no Inc. II.

AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO

A primeira elementar do tipo, é que tais crimes só se configuram na ausência de


AUTORIZAÇÃO.
Em Direito Administrativo, autorização “é um ato administrativo discricionário, unilateral e
precário, pelo qual o Poder Público torna possível ao pretendente a realização de certa atividade,
serviço ou utilização de determinados bens particulares ou públicos, de seu exclusivo ou
predominante interesse, que a lei condiciona à aquiescência prévia da Administração”10.
Genericamente, a lei se refere à autorização tanto para a AUTORIZAÇÃO lato sendo, como no
sentido genérico da palavra, e isto se denota no art. 8o, onde os CACs são chamados de
“autorizados a portar arma de fogo”, quando na verdade os mesmos tem LICENÇA, que, nos
termos do Art. 30 do Dec. 5.123/04, se materializa no documento denominado Porte de Trânsito
(Guia de Tráfego, ou Guia de Trânsito).

A autorização é concedida em razão de um ato ou fato que se considere a princípio como


proibido, enquanto a licença, por exemplo, é concedida em razão de um ato ou fato que se
considere permitido, mas o poder público exerça controle.
Vimos que, de acordo com a primeira parte do caput do art. 6o, genericamente TODOS são
proibidos de portar arma no Brasil. Mas sabemos que pessoas portam arma no Brasil, sem para
tanto depender de autorização. Isto se deve à segunda parte do caput, onde se excepcionam
aqueles já autorizados em lei especial, e aqueles descritos nos diversos incisos do art. 6o.

Então, aqui no Brasil só quem precisa de AUTORIZAÇÃO de porte de armas, é o cidadão


comum, e isto é suprido exclusivamente mediante o Porte de Armas do art. 10o, ou seja,
mediante o Documento de Porte de Armas expedido exclusivamente pela Polícia Federal. Não
há outro caso de autorização de Porte de Armas em nosso ordenamento jurídico.

Um Juiz de Direito tem o seu porte garantido pela LOMAN, então não depende de autorização
de porte, ou seja, não irá na Polícia Federal requerer um Documento de Porte de Armas,
inclusive porque pode portar armas de calibre restrito, e não há previsão na Lei 10.826/03 para
autorização de porte de armas de calibre restrito. Então o magistrado porta sua arma tendo em
mãos seu documento funcional, e o documento de sua arma. Apenas isso, mais nada. Um Juiz
de Direito, para cometer os crimes dos arts. 14o ou 16o da Lei 10.826/03, deverá estar
descumprindo a lei ou o seu regulamento – fora dessa hipótese, não há crime possível.

Coloquei este exemplo apenas para demonstrar, de forma prática, que AUTORIZAÇÃO, ou
seja, a primeira condicionante, se aplica exclusivamente ao cidadão comum, aquele que depende
de ter Porte de Armas emitido pela Polícia Federal – porque ele é o único proibido pelo caput do
art. 6o. Todos os listados nos diversos incisos do art. 6o não tem autorização, justamente porque
não são proibidos de portar armas11. De qualquer forma, quem está com “Porte de Arma” do
art. 10 da Lei 10.826/2003, ou com Porte de Trânsito (ou Guia de Tráfego ou trânsito, o nome
pode variar), cumpre o primeiro requisito para afastar o cometimento do crime de porte ilegal de
arma de fogo. Qualquer irregularidade que tal pessoa cometer, poderá ter consequência
administrativas, mas não penais.

VIOLAÇÃO DA LEI OU DO REGULAMENTO

A segunda elementar do tipo é estar violando Lei ou Regulamento. Mesmo aqueles, ou


principalmente estes dispensados de autorização, devem cumprir a lei ou o regulamento a fim de
não estar cometendo os crimes dos artigos 14 e 16.

Novamente temos uma conjunção, mas desta vez, é uma conjunção alternativa.
Vejam que tanto faz se o agente está descumprindo a lei ou o regulamento, mas importa sim
que esteja descumprindo um dos dois E esteja sem autorização. Só assim se configura o crime.

Quando o tipo pena se refere a “Lei”, estamos nos referindo especificamente às Leis Federais
que regulam a propriedade, a posse e o porte de armas. São a Lei 10.826/03, a LOMAN12, e a
LOMP13, e o Estatuto do Militar14. Não existe incidência de nenhuma outra lei no que diz
respeito ao crime ilegal de armas de fogo.

Quando o tipo penal se refere a “Regulamento”, isto diz respeito exclusivamente ao Decreto
5.123/04, com a ressalva de que se no regulamento houver o estabelecimento de obrigação de
fazer ou não fazer, tal como ocorre nos artigos 31 e 32, que obrigam o trânsito de armas
desmuniciadas e separadas da munição, ocorre ILEGALIDADE, por violação ao dispostos nos
artigos 8o, 9o e 24o da Lei 10.826/2003, e inconstitucionalidade, por conta do disposto no art.
5o, Inc. II e artigos 84, Inc. IV de nossa Constituição Federal. A criação de normas gerando
obrigações de fazer ou de não fazer não especificadas em lei, mas constantes de portarias e
instruções normativas viola o disposto no art. 87, Inc II da CF/88.

Caso o agente esteja com a autorização ou esteja cumprindo a lei e o regulamento, ele pode sem
problema algum estar violando portaria, instrução normativa, instrução técnico administrativa,
ou o que mais a administração direta vier a redigir e publicar, INCLUSIVE porque é
inconstitucional se criar deveres e obrigações, senão em virtude de LEI FEDERAL. O máximo
que pode ocorrer é alguma sanção administrativa, que, neste caso, será facilmente revertida pela
inconstitucionalidade da norma.

Este é um ponto central: Existem interpretações jurisprudenciais afirmando que alguém pode responder
por porte ilegal de arma de fogo, caso esteja violando portaria ou norma, mesmo que inferior a portaria.
Isto contraria o Tipo Penal que não tem esta previsão, e viola inclusive o Princípio da Anterioridade da
Lei Penal: Não existe crime nem pena sem LEI FEDERAL anterior que a culmine.

Aqui no Brasil, no entanto, os tipos penais dos dois crimes de porte ilegal de arma de fogo só
descem na análise até o regulamento da lei, sendo irrelevante penalmente as regras infra-
ministeriais e outras, e com isto alcançamos segurança jurídica.

Então, a extensão da aplicação da norma para fins penais, se limita ao disposto na lei, no Dec.
5.123/04, e no Dec. 3.665/2000 – portarias, INs, ITAs, etc., não são hábeis para configurar os
crimes descritos nos artigos 14 e 16 da Lei 10.826/2003.
Em fim, temos que no Brasil a definição de armas de fogo, a definição de calibres restritos,
proibidos ou permitidos, a definição do que é arma obsoleta... Esta definição não existe
atualmente em nosso ordenamento jurídico, sendo que o mandamento do art. 23o da Lei
10.826/2003 ainda está em aberto, ainda não se fez tal definição. Levado isso com a devida
seriedade, não há crime possível atualmente dentro do que apelidaram como “Estatuto do
Desarmamento”.

QUANDO e se vier a existir tal definição, os crimes de Porte Ilegal de arma de Fogo só se
configuram quando o agente praticar o verbo (núcleo do tipo), estando simultaneamente sem
autorização MAIS violando lei federal ou um dos dois decretos regulamentares, Dec. 5.123/04 e
Dec. 3.665/2000, com a observação que deste último todas as definições foram expressamente
revogadas pelo Art. 23 da Lei 10.826/2003.
NOTAS
1http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-12/depois-de-12-anos-em-vigor-estatuto-do-
desarmamento-pode-ser-revogado
2 Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados
3PCE = Produto Controlado pelo Exército, assim definido no R-105
4 HC 85465/2015, 1a Câmara Criminal do TJ-MS, Rel. Des. Orlando de Almeida Perri, J.
21/07/2015
5 Os arts. 31 e 32 do Dec. 5.123/04, contrariando o disposto na lei, legisla criando a
obrigatoriedade de atiradores EM ATIVIDADE INTERNACIONAL, caçadores e
colecionadores transportarem suas armas desmuniciadas e separadas da munição. Atualmente a
ITA 03/2015 do DFPC também legisla criando obrigações, mas isto é vedado pelo art. 5o, Inc. II
da Constituição Federal, e não é relevante do ponto de vista penal, porque o tipo penal não
abrange portarias, instruções, regras de condomínio, estatuto de clubes, etc.
6 http://www.dicio.com.br/deter/
7 http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/10/video-mostra-acao-de-motorista-que-
salvou-pm-em-tiroteio-com-2-mortos.html
8 PL 3260/2015, de autoria do Dep. Eduardo Bolsonaro -
http://www.camara.gov.br/internet/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=2017116
9 “Regulamenta a Lei no 10.826, de 22 de dezembro de 2003, que dispõe sobre registro, posse e
comercialização de armas de fogo e munição, sobre o Sistema Nacional de Armas - SINARM e
define crimes”
10MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 35 ed. São Paulo: Malheiros,
2009, pág 190
11 A nossa Constituição Federal incorpora a teoria denominada “Pirâmide de Kelsen”, onde
existe uma hierarquia normativa, sendo que normas inferiores servem apenas para dar efetivo
cumprimento às normas superiores. Qualquer ato legislativo ou normativo contrário a esta regra,
é inconstitucional e não pode ser acatado.
12Lei Complementar 35, de 14 de Março de 1979, art. 33 Inc. V
13Lei 8.625, de 12 de Fevereiro de 1993, art. 42 e ou LC 75/1992, art. 17, Inciso ‘e’, mais a Lei
6.880/80, art. 50, Incisos ‘q’ e ‘r’.
14Lei 6.880, de 9 de Dezembro de 1980.
Fontes: https://jus.com.br/artigos/43816/os-crimes-de-porte-ilegal-de-arma-de-fogo

TCC 2º Pesquisa Victor Vinícius 3º Sargento A

Num momento em que o Brasil vive forte crise de segurança pública, com um policial
morto a cada dois dias no Rio de Janeiro (RJ), mais da metade dos brasileiros se diz
favorável ao acesso facilitado a armas de fogo. Enquanto 13,9% dos cidadãos acredita
que as restrições ao acesso de armas no Brasil deveriam ser menores, 52,7% afirma que
tais limitações nem deveriam existir. É isso o que aponta pesquisa realizada pelo
instituto Paraná Pesquisas entre os dias 21 e 24 de agosto.
O instituto ouviu 2.640 pessoas, de todas as regiões do Brasil - com amostra que atinge
grau de confiança de 95%. Dentre as pessoas ouvidas, 22,4% acreditam que as
limitações às armas deveriam ser ainda maiores, enquanto 8,6% pensam que as
proibições deveriam continuar como estão.
Sobre o fim das limitações, há mais homens do que mulheres favoráveis: 62,1% dos
entrevistados do sexo masculino concordam com a afirmação de que “as
restrições/limitações não deveriam existir, a população deveria ter acesso às armas para
se defender”, enquanto entre a parcela feminina consultada a taxa fica em 44%.
A taxa mais velha da população também é mais reticente sobre o fim das restrições.
44,3% dos entrevistados com 60 anos ou mais concordam com a afirmação. Quanto aos
entrevistados que têm de 25 a 34 anos, 56% pensam que a população deveria ter acesso
às armas sem vetos.
Descrença dos brasileiros em relação à legislação vigente

Presidente do Movimento Viva Brasil (MVB), que defende as armas de fogo como
elemento necessário ao exercício eficaz do direito à legítima defesa, Bene Barbosa
aponta que tudo indica que o número de brasileiros favoráveis a restrições menores na
aquisição de armamento cresce desde 2005, quando foi realizado no país o referendo
sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições.
Na ocasião, os brasileiros foram consultados a respeito da inclusão no Estatuto do
Desarmamento do seguinte artigo: “é proibida a comercialização de arma de fogo e
munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6° desta
Lei [que fala de sujeito como os integrantes das Forças Armadas e dos órgãos
policiais]”. 63,94% dos eleitores foram contrários ao texto.
No entendimento de Barbosa, os números refletem a descrença dos brasileiros em
relação à legislação vigente, de que as restrições trazidas pelo Estatuto do
Desarmamento não refletiram mais segurança. O presidente do MVB também diz
acreditar que as limitações não dão conta de retirar dos criminosos o acesso às armas de
fogo. “Se o bandido não tem qualquer restrição para comprar qualquer tipo de arma, por
que o cidadão tem?”, indaga Barbosa.
O porta-voz do Instituto Sou da Paz, ONG que atua com foco na redução a violência no
Brasil, Felippe Angeli, em contrapartida, afirma que esse tipo de argumento não é
válido. Segundo Angeli, o bandido, por natureza, não segue a lei. “É a mesma lógica de
dizer que não se deve proibir o homicídio porque os assassinos vão matar de qualquer
forma”, afirma. Sobre a parcela da população que gostaria de uma menor restrição na
legislação ligada a armas, o porta-voz da ONG diz ser fruto do recrudescimento de um
discurso mais intolerante em relação à criminalidade, da ideia de que “bandido bom é
bandido morto”.
“Alguns campos políticos propõem que a segurança pública seja mais autoritária, mais
violenta, e isso encontra eco em alguns setores da sociedade”, aponta Angeli, lembrando
que se propõe a revogação do Estatuto do Desarmamento. Na visão dele, porém, a
solução é falaciosa. “As pessoas imaginam que vão viver em um filme, que vão trocar
tiros com bandidos nas ruas e vão ter sucesso. Não é assim”, afirma.
Fim do Estatuto?
Tramita no Congresso o Projeto de Lei (PL) 3.722/2012, de autoria do deputado federal
Rogério Peninha Mendonça (PMDB/SC). O texto revoga o Estatuto do Desarmamento e
introduz novos critérios para a compra, a posse e porte de armas e munição no país.
Atualmente, apenas pessoas acima de 25 anos podem comprar uma arma, desde que
não tenham antecedentes criminais e não estejam sendo investigadas por crimes.
A decisão sobre conceder o direito à posse ou não fica a critério do delegado da Polícia
Federal (PF) que avaliar o pedido. O porte é concedido apenas em casos excepcionais.
A proposta pretende acabar com a discricionariedade da PF, tornando obrigatória a
concessão do porte a quem se enquadrar nos requisitos exigidos, que também podem
mudar. A idade mínima para comprar armas passa a ser 21 anos, e pessoas com
antecedentes por crimes culposos ou investigadas por crimes que não sejam dolosos
contra a vida também poderão comprar armas. O porte deve passar a ser concedido mais
amplamente.

http://www.gazetadopovo.com.br/justica/65-dos-brasileiros-sao-favoraveis-ao-acesso-
facilitado-a-armas-de-fogo-bfi3gr0k7epff4dq671525zis

TCC 3º Pesquisa Victor Vinícius 3º Sargento A

As empresas fabricantes de armas e munições, assim como ocorre nos Estados Unidos,
financiavam campanhas de políticos com doações milionárias. A prática não se perdeu,
entretanto. Até as eleições de 2014 ainda era possível encontrar no site do Tribunal
Superior Eleitoral registros destes aportes feitos por indústrias bélicas, que ajudaram a
fortalecer a bancada da bala do Congresso. O porte de armas era tão comum que em
alguns Estados os locais públicos eram obrigados a oferecer uma chapelaria exclusiva
para guardar os revólveres ou pistolas dos clientes. Uma lei de 2001, aprovada no Rio
de Janeiro, por exemplo, estipulava que “casas noturnas, boates, cinemas, teatros,
estádios escola de samba e outros estabelecimentos do tipo possuam, em suas
instalações, guarda-volumes apropriados para o depósito de armas”. Nestes lugares era
proibido o acesso portando armamentos.
Mas, de acordo com os indicadores da época, os anos em que a população podia se
armar para teoricamente “fazer frente à bandidagem” não foram de paz absoluta, mas de
crescente violência, segundo dados do Ministério da Saúde e do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada. De 1980 até 2003, as taxas de homicídios subiram em ritmo
alarmante, com alta de aproximadamente 8% ao ano. A situação era tão crítica que, em
1996, o bairro Jardim Ângela, em São Paulo, foi considerado pela ONU como o mais
violento do mundo, superando em violência até mesmo a guerra civil da antiga
Iugoslávia, que à época estava a todo o vapor. Em 1983 o Brasil tinha 14 homicídios por
100.000 habitantes. Vinte anos depois este número mais do que dobrou: alcançando
36,1 assassinatos para cada 100.000. Para conter o avanço das mortes foi sancionado,
em 2003, o Estatuto do Desarmamento, que restringiu drasticamente a posse e o acesso
a armas no país e salvou mais de 160.000 vidas, segundo estudos. Atualmente a taxa
está em 29,9 o que pressupõe que o desarmamento não reduziu drasticamente os
homicídios mas estancou seu crescimento.
Anúncio loja de departamentos em revista nos anos de 1980.
O tema é sensível, uma vez que um grupo de deputados e
senadores quer voltar para os velhos tempos, quando era possível
comprar armas com facilidade. O tema ganha eco também em
alguns setores da sociedade que enxergam no direito de se armar
– e a reagir à violência — uma possibilidade de “salvar vidas”.
Daniel Cerqueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada, explica que uma grave crise econômica
ocorrida durante a década de 1980 ampliou a desigualdade social
e foi um dos fatores responsáveis pelo aumentos das taxas de
homicídio. “O que observamos é que a partir dessa que ficou conhecida como a década
perdida, há uma falência do sistema de Justiça e Segurança Pública, e as pessoas, no
meio desse processo, começaram a comprar mais armas”, explica. Isso fez, segundo
Cerqueira, com que o ciclo de violência se autoalimentasse. “Quanto mais medo as
pessoas sentem e mais homicídios ocorrem, mais elas se armam. Quanto mais se
armam, mais mortes teremos”, afirma. Ele destaca que ao contrário do que
frequentemente se diz, a maior parte dos crimes com morte não são praticados pelo
"criminoso contumaz", e sim "pelo cidadão de bem, que em um momento de ira perde a
cabeça".
Nem todos concordam com Cerqueira. “As pessoas se sentiam mais seguras naquela
época”, afirma Benê Barbosa, um dos mais antigos militantes pró-armas do Brasil.
Fundador do Movimento Viva Brasil e pioneiro em fazer frente ao Estatuto do
Desarmamento e à “restrição do direito” de porte, ele afirma que o crime que mais
preocupava era "o furto". "Na década de 1970 eu morava no litoral de São Paulo, na
Praia Grande, em um bairro de ruas de terra. No verão todo mundo colocava as cadeiras
na calçada e ficava conversando, ninguém tinha medo de fazer isso” relembra. De
acordo com Barbosa, nos anos de 1990 deveria haver “aproximadamente meio milhão
de pessoas armadas em São Paulo, e você não tinha bangue-bangue nas ruas”. Para ele,
o Estatuto do Desarmamento “elitizou” a posse de armas, ao instituir a cobrança de
taxas proibitivas. “Antigamente era comum pessoas de baixa renda comprarem armas.
Hoje só em exames e papelada você gasta mais de 2.000 reais, dependendo do Estado”,
diz.
Barbosa relembra ainda que em alguns Estados, como Minas Gerais, era possível
comprar munições de baixo calibre e pólvora em lojas de ferragens e elétrica. Até 1997,
o porte ilegal de arma de fogo era enquadrado apenas como uma contravenção penal,
uma ofensa menor (assim como o jogo do bicho), com pena de 15 dias a seis meses de
prisão ou multa – prevalecendo na maioria dos casos a segunda opção. Naquele ano foi
aprovada uma lei que criminalizou o porte sem autorização devida – mas mesmo assim
ainda era relativamente fácil comprar um revólver.
Acessório fashion também tinha um tratamento especial para receber as armas. Era
comum que as bolsas (principalmente masculinas), valises e maletas executivas viessem
com um coldre em seu interior, um local específico para guardar a arma. E alguns
fabricantes de veículos tinham modelos que já saiam de fábrica com um compartimento
no forro da porta ou no porta-luvas para acomodar a pistola do motorista.
Uma das categorias profissionais que mais investia em armas como forma de proteção
eram os taxistas. À época não era aceito pagamento com cartões, e os aplicativos de
celular ainda eram um sonho distante. Assim, o dinheiro vivo corria solto. Natalício
Bezerra Silva, 81 anos, na profissão desde os 22, lembra com pesar os muitos amigos
“de praça” [ponto de táxi] que perdeu em tentativas de reação a assaltos. “Um deles foi
morto com a própria arma. O ladrão estava no banco de trás, anunciou o assalto, e ele
tentou pegar o revólver. O assaltante tomou dele e o matou”, recorda. Além disso, o
taxista também lembra o fascínio que as armas exerciam sobre os colegas: “O sujeito
ficava mostrando o revólver pra todo mundo na praça”. Atualmente Natalício é
presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo. “Às vezes o cara matava
alguém por uma besteira. Se estiver sem arma e com paciência, esfria a cabeça e já era”.
A falta de controle e de cultura de autodefesa, porém, é algo que também jogaria contra
a tese do rearmamento da população. O caso do adolescente de Goiás que matou dois
colegas de classe há dez dias, após carregar a arma dos pais policiais para a escola sem
o conhecimento deles, mostra que a facilidade do acesso abre outros perigos. Neste final
de semana, na cidade de Niterói, na Grande Rio de Janeiro, o assunto também ganhou
força. O prefeito Rodrigo Neves (PV) decidiu perguntar à população, por meio de um
plebiscito, se a guarda municipal deveria andar armada para ampliar a segurança nas
ruas. A ideia do prefeito era encontrar apoio para a medida, num momento de forte
violência na capital do Estado. Mas o resultado da votação frustrou Neves. Dos quase
19.000 eleitores que compareceram às urnas, 70% foi contra o armamento da guarda
municipal, contra 28,9% que votaram a favor da proposta. A eleição era facultativa, e
contou com 5,1% das pessoas que poderiam votar no pleito.

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/25/politica/1508939191_181548.html